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Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-3554-0 9 7 8 8 5 3 8 7 3 5 5 4 0 Lu d ic id a d e e P s ic o m o tr ic id a d e Ludicidade e Psicomotricidade Ludicidade e Psicomotricidade Daniel Veira Da SilVa Max GÜnther haetinGer Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Daniel Vieira da Silva Max Günther Haetinger Ludicidade e Psicomotricidade IESDE Brasil S.A. Curitiba 2013 Edição revisada Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br © 2003-2007 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ __________________________________________________________________________________ S579L Silva, Daniel Vieira da, 1956- Ludicidade e psicomotricidade / Daniel Vieira da Silva, Max Günther Haetinger. - 1.ed., rev. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2013. 130 p. : 28 cm Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-3554-0 1. Educação de crianças 2. Psicomotricidade 3. Capacidade motora. I. Haetinger, Max Gunther, 1964-. II. Título. 12-8821. CDD: 372.21 CDU: 372.21 30.11.12 06.12.12 041203 __________________________________________________________________________________ Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Shutterstock IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Todos os direitos reservados. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Sumário Psicomotricidade: considerações preliminares ...................................................................7 Psicomotricidade: uma categoria em discussão ...................................................................9 Estimulação, educação, reeducação e terapia psicomotora .....................................................................10 O corpo hábil ........................................................................................................................13 Corpo hábil – síntese esquemática ...........................................................................................................17 O corpo hábil I .....................................................................................................................21 Corpo consciente – síntese esquemática ..................................................................................................25 O corpo consciente ...............................................................................................................31 Corpo significante – síntese esquemática 1 .............................................................................................34 Corpo significante – síntese esquemática 2 .............................................................................................37 Corpo significante – síntese esquemática 3 .............................................................................................41 Corpo significante ................................................................................................................45 Psicomotricidade relacional .....................................................................................................................45 Contribuições da Psicomotricidade relacional para o ambiente educacional ..........................................46 Considerações finais ................................................................................................................................47 Psicomotricidade .................................................................................................................49 Psicomotricidade e Educação Inclusiva ...................................................................................................49 O jogo livre – uma ferramenta para o educador inclusivo .......................................................................52 A atividade lúdica espontânea .................................................................................................................53 O educador joga e deixa jogar .................................................................................................................54 O conteúdo do jogo invade a sala de aula ................................................................................................55 Considerações finais ................................................................................................................................56 Categorias de análise ............................................................................................................57 Do corpo total ao corpo parcial: a disciplina é a norma ..........................................................................59 O corpo consciente I ............................................................................................................61 Espaço vital e espaço relacional ..............................................................................................................62 Formação e intervenção ...........................................................................................................................63 Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias ................................................65 Dados sobre a organização psicomotora: abordagem da regulação sensório-motora e dos fatores psicotrônicos ....................................................67 O corpo e o movimento na Educação Infantil .....................................................................73 As dimensões da aprendizagem ...............................................................................................................79 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor ...............................................83 As múltiplas inteligências e o movimento ..............................................................................................83 Visão construtivista do desenvolvimento motor .....................................................................................89 A dança e a música na Educação Infantil .............................................................................93 A dança na escola ...................................................................................................................................93 A música no universo infantil .................................................................................................................96 Retomando a dança na escola ..................................................................................................................99 A expressão dramática na Educação Infantil .......................................................................103 A imaginação e a expressão dramática infantil .......................................................................................103 O que é a expressão dramática escolar? ..................................................................................................104 Técnicas de expressão dramática .............................................................................................................110Criatividade e sua importância para a Educação .................................................................115 A criatividade e o brincar .........................................................................................................................115 Criatividade: a revolução na sala de aula ................................................................................................119 Referências ...........................................................................................................................127 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Apresentação O trabalho que ora apresentamos foi elaborado com o intuito de servir como apoio didático para as videoaulas. Cientes de que tal disciplina não tem o caráter de formar psicomotricistas, mas de subsidiar os estudos e a prática da Pedagogia, a partir dos conhecimentos produzidos no campo da Psicomotricidade, colocamos como meta para este estudo os seguintes objetivos: conhecer os princípios teóricos e práticos que orientam as várias linhas de abordagem psico- motora; apreender os processos históricos que fundamentam os marcos teóricos dessas diversas linhas; analisar a inserção da Psicomotricidade e suas diferentes perspectivas no campo educacional e psicopedagógico; conhecer a relação entre: o movimento e a criança; o desenvolvimento motor e as múltiplas inteligências; reconhecer a dança, a expressão dramática e a criatividade como possibilidades a serem desen- volvidas no sujeito psicomotor. Para efetivarmos essas tarefas, dividimos o material em unidades temáticas, a partir das quais orientamos a análise sobre os fundamentos da Psicomotricidade e suas implicações nos processos formativos. Iniciamos o estudo deixando explícito o referencial teórico pelo qual abordaremos nosso objeto, bem como aprofundamos a discussão sobre a centralidade do trabalho no processo de desenvolvimento da motricidade humana. Discutimos o conceito de Psicomotricidade, bem como introduzimos os diversos campos de atuação psicomotora, os quais serão aprofundados nos capítulos subsequentes – Corpo hábil, Corpo consciente propostos por Jean Le Camus, em sua obra O Corpo em Discussão. Em algumas aulas é apresentado um texto-base, que se segue imediatamente à abertura da aula – no qual o aluno encontrará um panorama geral do período em questão. Além dos conteúdos teóricos, elaboramos um resumo esquemático para complementar as informações relativas a cada um dos conteúdos propostos, tarefa esta que sugerimos ser efetivada em duas etapas: 1) individualmente, durante a aula; 2) em grupo de discussão, posteriormente à explanação do professor. Na sequência, apresentamos: o movimento e a criança; um estudo sobre a relação entre desenvol- vimento motor e as múltiplas inteligências; a dança na Educação Infantil e Educação e criatividade. Esperamos que este material, considerando as limitações inerentes a qualquer produção aca- dêmica, uma vez partindo de uma perspectiva histórica e crítica do corpo, das técnicas e métodos que dele vêm se ocupando ao longo dos tempos, possa ampliar o entendimento da Psicomotricidade como prática educativa e, portanto, como prática social, bem como, adicionar reflexões aos estudos e à futura prática no campo da Psicopedagogia. Bom trabalho! Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 7 Psicomotricidade: considerações preliminares Daniel Vieira da Silva* Max Günther Haetinger** A passagem do modo de produção feudal para o capitalista implicou profun-das modificações, acompanhadas de transformações nas formas de orga-nização social, que envolveram diferentes dimensões – cultural, política, educacional e econômica. A prática do artesão, trabalhador do período feudal, era caracterizada como própria de um trabalhador total, o qual: [...] dispunha do domínio teórico-prático do processo de trabalho como um todo. Isto é, do- minava um projeto teórico, intencional, necessário à realização de um certo produto, e, para produzi-lo, contava com formação anterior que lhe assegurava destreza especial, a força necessária e habilidades específicas para operar certos instrumentos sobre a matéria-prima adequada, ao longo de todas as etapas do processo de trabalho. (ALVES, 1998, p. 37) A transformação da produção artesanal em manufatureira e, posteriormen- te, em industrial, com vistas à obtenção de maior produtividade e lucratividade, só foi possível com a divisão do trabalho e a transformação do trabalhador total em trabalhador parcial (ALVES, 1998). Nesse percurso, o trabalhador foi sendo alienado do processo de produção como um todo e, com os avanços da mecanização industrial, também ficou alheio ao produto em si, transformando-se num acessório vivo de um organismo morto – a máquina. Expropriado, inclusive, do conhecimento produzido pelo seu próprio ofício, “o operário fabril passou a realizar operações rotineiras que não exigiam qualquer destreza especial. Com isso, a produção capitalista, enquanto domínio do trabalho simples, se realizou em sua plenitude” (ALVES, 1998, p. 39). * Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Es- pecialista em Psicomotrici- dade Relacional pela Escola Internacional de Psicomotri- cidade Relacional. Graduado em Pedagogia pela UTP e em Comunicação Social pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero. ** Doutor em Informática na Educação pela Universi- dade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Educação pela American World University – EUA. Especialista em Psicopedago- gia pela Universidade Cândi- do Mendes (Ucam) e também em Informática na Educação pela UFRGS. Graduado em Educação Física pela UFRGS. Diretor e Coordenador pe- dagógico do Instituto Criar desde 2003. Consultor peda- gógico em projetos de ino- vação, educação e formação de redes colaborativas, da Universidade Sebrae de Ne- gócios (Usen). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: considerações preliminares 8 As ideias de Alves encontram apoio na análise realizada por Marx e Engels (1987, p. 68), na qual “[a] indústria e o comércio, a produção das necessidades de vida, condicionam, por seu lado, a distribuição, a estrutura das diferentes classes sociais, para serem, por sua vez, condicionadas por estas em seu modo de funcionamento”. Nesta conjuntura, a educação, embora se proponha a ser igualitária e para todos, tem-se revelado um processo organizado a partir de modos diferenciados de formação, no qual a classe trabalhadora é submetida a uma educação reducio- nista e simplificada, entendida como su- ficiente à sua adequação às necessidades do sistema de produção capitalista. Dessa maneira, não somente o co- nhecimento fica restrito às necessidades técnicas das linhas de produção, como também a complexidade do corpo do trabalhador foi adequada/reduzida às funções mecânicas e à rotina do tem- po fabril (FOUCAULT, 1988; MARx, 2001). Nesse contexto, as práticas cor- porais foram e são de inestimável valor para que a normatização da vida priva- da e institucional se concretize. Sobre esse fato, esclarece Foucault (1988, p. 126) que “[esses] métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que se denominou por “disciplinas”. Frente a essa perspectiva de intervenção direta sobre o corpo, com o ob- jetivo de normatizá-lo e classificá-lo deacordo com as necessidades dos modos de produção de determinada sociedade, que a Psicomotricidade, no contexto capitalista, é uma das áreas que muito tem colaborado para a sistematização de saberes e técnicas corporais, amplamente utilizados e expandidos pelas institui- ções educacionais, fato que explicita sua organicidade com o modo de produção de nossa sociedade. Ao buscarmos, portanto, conceituar essa área do conhecimento e apreen- der os benefícios que ela pode oferecer para o encaminhamento das necessida- des relativas ao processo psicopedagógico, coloca-se a necessidade de superar a visão tendencialmente positivista e biologicista pela qual ela vem sendo, his- toricamente, concebida. Nesse sentido, o simples conhecimento a respeito das diversas linhas e práticas direcionadas à educação, reeducação e terapia psico- motoras parece ser insuficiente para tal superação, bem como para revolucionar o entendimento a respeito da significativa banalização e reducionismo a que está sujeita a dimensão corporal, no ambiente escolar e clínico. É preciso buscar apreender a Psicomotricidade enquanto prática social, em seu movimento na história, ou seja, concebê-la numa perspectiva de totalidade1. Cena do filme Tempos Modernos, extraída da capa do livro Loucura do Trabalho, de Christophe Dejours. 1“Totalidade, no trabalho em referência, nada tem a ver com as imprecisas noções de ‘todo’, de ‘contexto social’, sistematicamente presentes nas falas dos educadores. Totali- dade, no caso, corresponde à forma de sociedade dominante em nosso tempo: a sociedade capitalista. Apreender a totali- dade implica, necessariamente, captar as leis que a regem e o movimento que lhe é imanente” (ALVES, 1996, p. 10). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 9 Psicomotricidade: uma categoria em discussão Q uando perguntamos aos nossos alunos o que entendem por Psicomotricidade, aparecem respostas como: movimento, cérebro; técnicas para desenvolver o conhecimento das partes do corpo; ligação corpo-mente; equilíbrio; técnicas voltadas ao desenvolvimento de pré-requisito para leitura e escrita; corpo e emoção; exercícios de coordenação motora; corpo e cognição; desenvolvimento infantil; esquema corporal; lateralidade etc. Como se pode observar, uma gama bastante vasta, que vai desde concepções mais funcionais (maturação do sistema nervoso, processos neuromotores, pré-requisitos, coordenação etc.), até pers- pectivas mais ligadas aos aspectos relacionais da motricidade humana (corpo e emoção). Essa variedade de noções que surgem, no senso comum, em conexão ao termo Psicomotricidade, reflete o próprio processo histórico pelo qual essa área do conhecimento vem se constituindo. Preliminarmente, segundo alguns estudos mais difundidos, que procuram explicitar a especi- ficidade desse campo, podemos visualizar a abrangência da Psicomotricidade por meio do seguinte esquema: Psico Motricidade Aspectos biomaturacionais Movimento Aspectos cognitivos Ação corporal Aspectos afetivos Partindo dessa multiplicidade de aspectos que estabelecem uma inter-relação com a motricidade, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (SBP), fundada em 1980, procurando especificar a abran- gência da Psicomotricidade no país, elaborou um primeiro conceito geral dessa área do conhecimento: Psicomotricidade é “uma ciência que tem por objeto o estudo do Homem, por meio de seu corpo em movimento, nas relações com seu mundo interno e externo” (SBP, 1995). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: uma categoria em discussão 10 Sentimos a necessidade de especificar um pouco mais o conceito de Psico- motricidade elaborado pela SBP. Nesse sentido, superando a visão idealista vigente, concordamos com Silva (2002) quando afirma que Psicomotricidade, numa pers- pectiva de totalidade, define-se como, “uma área do conhecimento que tem por objeto o corpo e o movimento humano em suas relações sociais e de produção”. Uma vez explicitadas as concepções de Psicomotricidade que nortearão nossos estudos, podemos passar para as sistematizações explicativas das prin- cipais categorias com as quais trabalha essa área do conhecimento e, posterior- mente, para uma abordagem crítica de sua historiografia. Estimulação, educação, reeducação e terapia psicomotora Uma vez discutida a categoria Psicomotricidade, vamos fazer uma intro- dução relativa às suas áreas de atuação. De modo geral, a intervenção no campo psicomotor vem sendo concebida a partir de quatro grandes áreas, a saber: estimu- lação, educação, reeducação e terapia psicomotora. Para a definição dos campos de intervenção psicomotora, faremos, a seguir, uma transcrição de alguns trechos da obra de Bueno (1998), Psicomotricidade: te- oria e prática, por sua fidelidade ao modo vigente de conceber as especificidades dessa área do conhecimento. Segundo esta autora (BUENO, 1998, p. 83): Entende-se por estimulação psicomotora o [processo] que envolve contribuições para o de- senvolvimento harmonioso da criança no começo de sua vida. Caracteriza-se por atividades que se preocupam e vão ao encontro das condições que o indivíduo apresenta, acima de tudo, na sua capacidade maturacional, procurando despertar o corpo e a atividade por meio de movimentos e jogos e buscando a harmonia constante. Estimulação quer dizer despertar, desabrochar o movimento. Dirige-se prioritariamente a recém-natos e pré-escolares. Alguns autores referem-se à estimulação psicomotora como estimulação precoce, mas considera- mos o termo errôneo, sendo mais sensato utilizarmos estimulação essencial. Educação psicomotora Abrange todas as aprendizagens da criança, processando-se por etapas progressivas e específicas conforme o desenvolvimento geral de cada indivíduo. Realiza-se em todos os momentos da vida por meio de percepções vivenciadas, como uma intervenção direta nos aspectos cognitivo, motor e emocional, estrutu- rando o indivíduo como um todo. A educação passa pela facilitação das condições naturais e prevenção de distúrbios corporais1. Ela se realiza na escola, na família e no meio social, com a participação dos educadores, dos pais e dos professores em geral (professores de natação, de atividades aquáticas, judô, balé, ginástica, dança, arte-educadores, magistério etc.). Dirige-se prioritariamente às crianças em condições de frequentar a escola e sem comprometimentos maiores. Muitos autores enfatizam essa área de atuação e acreditamos que a base educativa acaba permeando as outras (reeducação, estimulação e terapia). 1Referimo-nos aos distúr-bios corporais orgânicos, psicomotores funcionais, de comportamentos ou sociais, em que a educação psico- motora pode e deve intervir, prevenindo-os. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: uma categoria em discussão 11 Le Boulch (1981) comenta que “a educação psicomotora deve ser consi- derada como uma educação de base na escola elementar, ponto de partida de todas as aprendizagens pré-escolares e escolares”. Ele lutou e conquistou, na década de 1960, a inclusão da educação psicomotora nos cursos primários da França. Picq; Vayer (1969) coloca que: [...] do ponto de vista educativo, o papel e lugar da educação psicomotora na educação geral corresponderá, naturalmente, às diferentes etapas do desenvolvimento da criança, e assim entendemos que: no curso da primeira infância, toda educação é educação psicomotora; no curso da segunda infância, a educação psicomotora permanece sendo o núcleo fundamental de uma ação educativa que começa a diferenciar-se em atividades de expressão, organiza- ção das relações lógicas e as necessáriasaprendizagens de leitura-escrita-ditado; no curso da ‘grande infância’, a diferenciação entre as atividades educativas se faz mais acentuada- mente, e a educação psicomotora mantém então a relação entre as diversas atividades que concorrem simultaneamente ao desenvolvimento de todos os aspectos da personalidade. Lapierre (1989) coloca que a educação psicomotora “é uma ação psicopeda- gógica que utiliza os meios de educação física, com a finalidade de normalizar ou melhorar o comportamento do indivíduo”. Picq; Vayer (1969) sugerem que se investiguem as técnicas mais eficazes para obter uma melhora progressiva no comportamento geral da criança. E Bueno (1998, p. 84) completa dizendo que: A consciência do corpo, o domínio do equilíbrio, o controle e mais tarde a eficácia das diversas coordenações gerais e segmentares, a organização do esquema corporal, a orien- tação no espaço e, finalmente, melhores possibilidades de adaptação ao mundo exterior são os principais motivos da educação psicomotriz. Reeducação psicomotora É a ação desenvolvida em indivíduos que sofrem com perturbações ou dis- túrbios psicomotores. A reeducação psicomotora tem como objetivo retomar as vivências anteriores com falhas ou as fases de educação ultrapassadas inadequa- damente. Em termos gerais, reeducar significa educar o que o indivíduo não as- similou adequadamente em etapas anteriores. Deve começar em tempo hábil em razão da instalação das condutas psicomotoras, diagnosticando as dificuldades a fim de traçar o programa de reeducação. A atribuição da reeducação está contida em várias áreas profissionais: Pe- dagogia, Educação Física, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Terapia Educacional, Psicologia, Arte-educadores, Educadores, Médicos da especialidade motora ou psíquica, entre outros. Mas, o mais importante para uma boa reeducação é a tran- quilidade e o intercâmbio afetivo entre o presente do reeducador com o reeducan- do, condição básica para uma boa reeducação. O artigo 7.º da proposição da lei francesa de 15 de fevereiro de 1974 cita que a reeducação deve ser “neurológica em sua técnica, psicológica e psíquica em sua meta, destinada pela intermediação do corpo a atuar sobre as funções mentais e psicológicas perturbadas tanto na criança como no adolescente ou no adulto”. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: uma categoria em discussão 12 De Fontaine (1980) diz: A reeducação embasa sua eficácia no fato de que se remonta às origens, aos mecanismos de base que estão na origem da vida mental, controle gestual e do pensamento, controle das reações tônico-emocionais, equilíbrio, fixação na atenção, justa preensão do tempo e do espaço. (apud BUENO, 1998, p. 85) Terapia psicomotora Dirigida a indivíduos com conflitos mais profundos na sua estruturação, associados aos [aspectos] funcionais ou com desorganização total de sua harmonia corporal e pessoal. Envolve [por exemplo] crianças com agressividade acentuada, pulsões motoras incon- troladas, casos de excepcionalidade e dificuldades de relacionamento corporal e também destinada a indivíduos que possuem associação de transtornos da personalidade. Está ba- seada nas relações e na análise dessas relações por meio do jogo de movimentos corporais. (BUENO, 1998, p. 85) Como pode-se notar pelas contribuições de Bueno e dos autores a quem ela recorre, as especificidades de atuação no campo psicomotor mais amplamente adotadas priorizam as questões biológicas, cognitivas e de comportamento, em- bora, por vezes, com um acento mais humanista, porém, não deixando claro o papel da Psicomotricidade enquanto sistematização de uma sociedade que tem ne- cessidades específicas – a de organizar e gerir os modos de produção capitalista. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 13 O corpo hábil Embora estudos sobre as práticas corporais considerem os primórdios da Psicomotricidade data-dos dos séculos xVII e xVIII, momento em que as técnicas corporais passam a ser utilizadas, deliberadamente, para um investimento político e econômico do corpo, Le Camus (1986) situa o “nascimento” da Psicomotricidade no final do século XIX. Este marco deve-se ao fato de o autor con- siderar a Psicomotricidade como saber derivado das ciências médicas e não das ciências humanas. Sendo assim, em vez de concebida enquanto produto e produtora das necessidades materiais e de organização social do capitalismo moderno, segundo aquele autor, são as descobertas na área da neurologia as principais responsáveis pelo batismo dessa nova área do conhecimento. Segundo Vi- garello (1986, p. 16), “[o] adjetivo psicomotor teria nascido pouco após 1870, quando foi preciso dar um nome às regiões do córtex cerebral situadas além das áreas propriamente motoras [...] onde podia operar-se a junção ainda bem misteriosa, entre imagem mental e movimento.” Segundo estudos sistematizados por Le Camus, o marco inaugural da Psicomotricidade deve-se às experiências de Broca (1861), que descobre a ligação entre uma lesão cerebral localizada e os sinto- mas da afasia. Isso outorga ao conhecimento médico da época a ideia de que havia uma estreita relação entre movimento e processos cerebrais, estabelecendo-se o que se denominou paralelismo psicomotor. (F O N SE CA , 1 98 2)Área motora Área de Broca ( )output D Área auditiva ( )input Área de córtex envolvidas na fala: Área auditiva ( )input Área de Wernicke (compreensão) Área de Broca ( )output Área de Wernicke Gírus angular Área visual Área somatossensorial Numa época de grandes transformações no modo de produção industrial, os estudos de Broca e de tantos outros cientistas que buscaram entender os processos pelos quais se estabeleciam as relações entre mente e movimento, receberam grandes investimentos. Isso se deu pelo fato de que tais estu- dos respondiam, diretamente, às necessidades da modernidade capitalista resolver a difícil tarefa de Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 14 adequar os movimentos, hábitos e costumes dos trabalhadores aos imperativos do crescente processo de industrialização1. Antiga hipótese de Gall sobre a localização das facilidades mentais (WELLS; HUxLEY, 1955, p. 42). Centros do: (1) sentido das dimensões; (2) sentido da causalidade; (3) disposição para imitar; (4) sentido das cores; (5) sentido do tempo; (6) talento; (7) sentido da admiração; (8) otimismo;(9) firmeza de caráter; (10) vaidade; (11) constância na amizade; (12) cuidados com a prole; (13) capacidade de amar; (14) agressividade; (15) prudência; (16) poesia; (17) sentido da melodia; (18) sentido da ordem; (19) aptidão matemática; (20) sentido mecânico; (21) cupidez; (22) astúcia; (23) gula; (24) crueldade. Nesse sentido, o treinamento da classe trabalhadora deveria se dar de modo a abarcar um número cada vez maior de pessoas e em idades cada vez mais pre- coces. A educação escolar, nesse contexto, ocupou lugar importantíssimo, entre outros, como modo de controle e adequação do corpo e do espírito aos novos ditames do trabalho. Sobre o papel de tal modalidade educacional, no processo de organização produtiva, Rago (1987, p. 122) explicita que: [...] na representação imaginária que os dominantes se fazem da infância, esta é percebida como superfície chata e plana, facilmente moldável, mas ao mesmo tempo como ser dotado de características e vícios latentes, que deveriam ser corrigidos por técnicas pedagógicas para constituir-se em sujeito produtivo da nação. e Rago (1987, p. 118) acrescenta ainda que, nesse processo, [...] o poder médico defendeu a higienização da cultura popular, isto é, a transformação dos hábitos cotidianos do trabalhadore de sua família e a supressão de crenças e práticas qualificadas como primitivas, irracionais e nocivas. [...] Assim, a criança foi percebida pelo olhar disciplinar, atento e intransigente, como elemento de integração, de sociali- zação e de fixação indireta das famílias pobres, e isso antes mesmo de afirmar-se como necessidade econômica e produtiva da nação. Constituindo a infância em objeto privi- legiado da convergência de suas práticas, o poder médico procurou legitimar-se como tal, demonstrando para toda a sociedade a necessidade insubstituível de sua intervenção 1A respeito das transfor-mações nos modos de produção daquela época, ver: GOUNET, 1999. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 15 como orientadores das famílias e como conselheiros da ação governamental. O recorte e a circunscrição daquilo que se configurou como o tempo da infância e sua objetivação pela medicina atenderam, então, ao objetivo maior de legitimação das práticas de regulamen- tação e controle da vida cotidiana. Os médicos procuraram apresentar-se como autoridade mais competente para prescrever normas racionais de conduta e medidas preventivas, pessoais e coletivas, visando produzir a nova família e o futuro cidadão. É nessa perspectiva que as práticas corporais do primeiro período, legitima- das pela tese da privação cultural, no Brasil, travestem-se de um cunho cientificista, higienista e salvacionista dos processos de desenvolvimento infantil, organizadas, entre outras formas, sob a égide da disciplina de Educação Física. Em 1901 (França), o Doutor Philipe Tissié (p. 9), que se opunha ao militaris- mo imperante na área da educação do corpo, defendendo as bases científicas desta disciplina, declara que: [...] por Educação Física não se deve entender apenas o exercício muscular do corpo, mas também, principalmente, o treinamento dos centros psicomotores pelas associações múl- tiplas e repetidas entre movimento e pensamento e entre pensamento e movimento. (apud LE CAMUS, 1986, p. 16) Sob essas bases surge uma técnica de abordagem corporal que, auxiliada pelos conhecimentos das áreas médicas, paramédicas e das ciências humanas, foi denominada ginástica educativa, posteriormente, dividindo-se em dois grandes ramos: ginástica pedagógica, destinada a todas as crianças, e ginástica médica, reservada à reabilitação das crianças com necessidades especiais (LE CAMUS, 1986, p. 24). Estava, em embrião, lançada a ideia daquilo que posteriormente denomi- nou-se Educação Psicomotora e Reeducação Psicomotora. No contexto nacional, esse processo de cientificização do corpo encontrará sua aplicabilidade em escalas maiores a partir dos anos 30, do século passado. Nesse período, enquanto para a primeira infância as intervenções aproximavam-se daque- las tidas como cuidados ideais que a maternidade deveria suprir (noções alimenta- res, de higiene, de saúde etc.), a segunda infância e a adolescência eram submetidas a processos de exercícios físicos que garantiam a afirmação do ideário liberal – ordem e progresso, por meio da máxima grega – mente sã em corpo são. Acompanhando o processo de verticalização dos saberes-poderes sobre o corpo, Foucault (1988, p. 126) explicita que: [...] muitas coisas são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle: não se trata de cuidar do corpo, em massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalhá-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica – movimentos, gestos, atitude, ra- pidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou não mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que realmente importa é a do exercício. A modalidade enfim: implica em coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos de atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 16 Ao mesmo tempo que essas formulações científicas possibilitavam uma maior propriedade sobre o detalhamento do corpo e das práticas que dele se ocupam, também apresentavam suas limitações. Conforme Marx (2001, p. 44) relatou, [...] a principal dificuldade na fábrica automática consistia em sua disciplina necessária, em fazer seres humanos renunciarem a seus hábitos irregulares no trabalho e se identificar com a invariável regularidade do grande autômato. Divisar um código de disciplina fabril adequado às necessidades e à velocidade do sistema automático e realizá-lo com êxito foi um empreendimento digno de Hércules. A verdade é que esse êxito não foi total, o capital jamais conseguiu controlar totalmente a força de trabalho humano. Se por um lado isto constituiu um problema para o capital, também implementou uma busca incessante nesse sentido, fato que resultou em processos cada vez mais requintados de diagnóstico e encaminhamento das questões semelhantes à relação corpo-mente. Um exemplo disso são os estudos de Edouard Guilmain, o qual empenhou-se em “[encontrar] um método de exame direto que [descobrisse] o próprio fundo do qual os atos são a consequência.” Sua ambição era conseguir identificar quais estruturas psicomotoras, solidariedades interfuncionais, concomitâncias de sin- tomas (síndromes) ou de disposições (tipo) que incidiam sobre as esferas motora e afetiva da criança. Desse modo, ao estabelecer um protótipo do Exame Psico- motor (1935), Guilmain procurou desenvolver um instrumento de medida, meio diagnóstico, indicador terapêutico e de prognóstico das disfunções psicomotoras. Além da identificação e classificação dos “desviantes” de modo precoce e a siste- matização de um modo de tratá-los, ou melhor, adaptá-los aos imperativos sociais ainda quando crianças, esse tipo de instrumento permitia averiguar as causas de sintomas das desordens psicomotoras que acometiam a população trabalhadora ativa, e organizar medidas para saná-las (reeducação psicomotora). Com o avanço dos processos de produção, o aumento da população, os pro- blemas da automação, as necessidades da sociedade burguesa tornam-se mais complexas. O conhecimento de que psiquismo e dinamismo constituem-se numa díade inseparável já não era mais suficiente para garantir a disciplinarização do corpo e da mente frente às novas necessidades sociais e de produção que se apre- sentam. O tratamento mecanizado, autômato, infringido ao corpo, suficiente para o encaminhamento das necessidades em tempos anteriores, começava a apresen- tar sinais de falência. Desse modo, tornou-se premente uma superação dos modos vigentes de forjar, utilizar e controlar a classe trabalhadora, bem como o seu potencial pro- dutivo. Mais uma vez, ao corpo e às ciências que dele se ocupam, caberia um lugar central nesse processo. Além de recuperar os “anormais” (termo utilizado na época, quando se referiam a pessoas deficientes) que, pelo seu volume de incidência, já se tornavam um problema socioeconômico, era preciso também criar artifícios compensatórios que pudessem suprir a precariedade das condi- ções necessárias para um satisfatório desenvolvimento a que estavam sujeitas as crianças, garantindo, assim, a continuidade do sistema produtivo e a sobrevi- vência das classes dominadas. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 17 Corpo hábil – síntese esquemática Período: Final do século XIX até 1940Organizador: Paralelismo Modelo: Mecanicista Dualismo cartesiano (corpo-mente) Concepção de corpo: Receptáculo da tradição Bases teóricas: Neurologia Neuropsiquiatria infantil Principais concepções – neurologia Anatomofisiológica estática “Existem íntimas ligações entre pensamento e movimento [...] laços íntimos e recíprocos unem a ce- rebração e a musculação, isto é, psiquismo e o dinamismo” (TISSIÉ, apud LE CAMUS, 1986, p. 24). Autores: Per Henrik Ling (1778-1839) Philippe Tissié (1852-1935) Corticopatológica "Insistindo na variabilidade dos fo- cos de lesão que permitiram superar o esquema estático da anatomopato- logia [...] Não é, portanto, a própria função que se perdeu mas certo uso dessa função” (LE CAMUS). Autor: Hugo Liepmann Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 18 Neurofisiológica “[...] todo o movimento, mesmo o mais simples, tem um significado biológico: o reflexo nociceptivo de flexão é um ato de defesa, o reflexo miotático de extensão permite garan- tir a postura. A medula espinal é re- conhecida como capaz de “integrar” a informação, isto é, de analisar os estímulos e responder a eles de modo adaptado” (LE CAMUS). Autores: John Hughlings Jackson (1834-1911) Charles Sherrington (1852-1952) Ernest Dupré (1862-1921) 1901 – Síndrome da debilidade motora A debilidade motora é considerada então como um “estado patológico congênito da motilidade, muitas vezes hereditário e familiar [...] o recém-nascido e o débil motor pa- tológico não dispõem de um feixe piramidal inteiramente amadureci- do e funcional” (LE CAMUS). Henri Wallon 1925 – Independência entre a debi- lidade motora e mental, podendo ou não apresentarem-se associadas e/ou mesmo, serem originados por fatores hereditários (LE CAMUS). “[...] o movimento é, antes de tudo, a única expressão e o primeiro instru- mento do psiquismo” (WALLON, 1925). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 19 Edouard Guilmain (1901-1983) 1935 – Protótipo do exame psicomotor “Encontrar um método de exame di- reto que descubra o próprio fundo do qual os atos são a consequência [...] instrumento de medida, meio diag- nóstico, indicador terapêutico e de prognóstico” (LE CAMUS). Edouard Guilmain Reeducação psicomotora Técnicas utilizadas na neuropsiquia- tria: exercícios de educação senso- rial; de desenvolvimento de atenção e trabalhos manuais. Corrente médico-pedagógica. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil 20 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 21 O corpo hábil I O corpo sutil é agora o corpo capaz de acolher, pôr em ordem e conservar a informação emanada do seu próprio funcionamento e do meio (físico e humano) no qual se insere [...] Se o corpo sutil do primeiro período [O corpo hábil] tinha por matriz uma psicologia ainda muito enfeudada à neurologia, agora uma psicologia mais autônoma irá constituir a principal referência teórica dos investigadores e técnicos da Psicomotricidade Le Camus C onforme a citação acima, a qual sintetiza o pensamento de Le Camus em relação aos referenciais teóricos que nortearam a Psicomotricidade do corpo consciente, acompanharemos que os processos colocados em marcha, a partir dos estudos da psicologia do desenvolvimento, causaram uma verdadeira re- visão nos modos de conceber os processos de aprendizagem e intervir neles. Organizando saberes cada vez mais elaborados, que justificaram, no país, inúmeros programas compensatórios direcionados à infância, utilizados como barganha pelo governo com a classe trabalhadora, foi adotado pelos profissionais brasileiros, a partir de meados dos anos 50, século xx, um conhecimento alusivo à existência de uma íntima relação entre inteligência, motricidade e psiquismo, o qual influenciou, diretamente, as técnicas de abordagem corporal nas creches, nas escolas e nos consultórios. Paulatinamente, passou-se da era do corpo neurológico, isolado e do mo- vimento condicionado para a era do movimento consciente, no qual o próprio indivíduo, pelo ato voluntário, é levado a colaborar para a sujeição de seu cor- po. Nessa perspectiva, a Psicomotricidade do segundo período1, descrita por Le Camus, constituiu-se como a ciência do esquema corporal ou, como prefere este autor, do corpo consciente. Segundo nossos estudos, o esquema corporal foi concebido enquanto di- mensão do corpo, organizadora das experiências dos seres humanos no tempo e no espaço presentes. As técnicas, que dele se ocupam, procuraram priorizar o desenvolvimento da percepção e do controle do próprio corpo, ou seja, a interio- rização das sensações relativas a uma ou outra parte do corpo e da globalidade de si mesmo; a apropriação de um equilíbrio postural econômico; de uma latera- lidade bem definida e afirmada; de uma independência dos diferentes segmen- tos do corpo em relação ao tronco e entre eles; um domínio das pulsões e inibi- ções estreitamente ligadas aos elementos precedentes e ao domínio da respiração (PICQ;VAYER, 1969, p. 13). Entre os autores que influenciaram os profissionais e estudiosos do segundo período da história da Psicomotricidade, enfatizamos Wallon (1879-1962) e Piaget (1896-1980). 1Segundo Le Camus, este período, na França, está compreendido entre os anos de 1945 e 1973 (LE CAMUS, 1988, p. 48). No Brasil, pode- mos concebê-lo a partir dos anos 50, século xx até, apro- ximadamente, 1980. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 22 Não pretendemos fazer um estudo aprofundado da obra desses autores, po- rém reconhecemos ser indispensável para nossas análises apontar os conceitos básicos que nortearam os seus estudos, no sentido de situar a contribuição de cada um deles para a sistematização da Psicomotricidade, enquanto ciência do esque- ma corporal. O pressuposto comum levado a cabo por esses autores refere-se à impor- tância fundamental das experiências vividas na primeira infância como base no desenvolvimento social, emocional, intelectual e físico das crianças. Dessas expe- riências, ambos ressaltam a importância das percepções táteis, visuais e motoras, embora apresentem particularidades em suas formulações. Wallon (1951), por exemplo, coloca o diálogo tônico, ou seja, a relação corporal afetiva no centro do processo de desenvolvimento do caráter e da in- teligência da criança. Propondo uma estreita relação entre tono postural e tono emocional, e considerando a emoção elemento de ligação entre o orgânico e o social, elabora uma teoria do desenvolvimento que concebe a criança, desde o seu nascimento, como um ser em sociedade. Sendo assim, para este autor, a estruturação do caráter e da inteligência depende, fundamentalmente, das rela- ções estabelecidas entre a criança e seus pares. Ajuriaguerra (1962), neurologis- ta francês, citado por Le Camus (1986, p. 39), ao comentar as ideias de Wallon a respeito da importância das relações corporais afetivas para o desenvolvimento infantil diz que: [...] a constante preocupação de Wallon foi a de destacar a importância da função afetiva primitiva em todos os desenvolvimentos ulteriores do sujeito, fusão expressa através dos fenômenos motores num diálogo que é o prelúdio ao diálogo verbal ulterior e a que chama- mos de diálogo tônico. [...] todos sabem da importância que Wallon concedeu ao fenômeno tônico por excelência que é a função postural de comunicação, essencial para a criança pequena, função de troca por meio da quala criança dá e recebe. É principalmente aí, em nossa opinião, que a obra de Wallon abre uma perspectiva original e fecunda na psicologia e na psicopatologia. A função postural está essencialmente vinculada à emoção, isto é, à exteriorização da afetividade. Concebendo o processo de desenvolvimento como descontínuo, Wallon se contrapõe às teorias elaboradas segundo regras de maturação unívoca e de encade- amento de operações sucessivas do pensamento. Em suas formulações, o desenvol- vimento advém de um processo de superação, por incorporação, de antigas atitudes e formas de pensamento, motivadas pelas contradições presentes nas novas relações que se estabelecem entre a criança e o meio humano. Nesse sentido, podemos dizer que para Wallon o homem é um processo histórico, precisamente o processo de seus atos, de suas relações. Conforme podemos acompanhar, Wallon (1951, apud CABRAL, 2000, p. 271) pressupõe a articulação entre o orgânico e o ser psíquico, afirmando não serem essas dimensões isoladas: Não são duas entidades que se devam estudar separadamente e, depois, colocar em con- cordância. [...] Um e outro se exprimem simultaneamente em todos os níveis da evolução, pelas ações e reações do sujeito sobre o meio, diante do outro. O meio mais importante para a formação da personalidade não é o meio físico, é o meio social. Pouco a pouco, ela que se confundia com o meio vai se dissociar dele. Sua evolução não é uniforme, mas feita de oposições e identificações. É dialética. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 23 Portanto, para Wallon (1951, apud LE CAMUS, 1986, p. 37), [...] o esquema corporal não é “um dado inicial, nem uma entidade biológica ou psíquica”, mas uma construção.[...] Estudar a gênese do esquema corporal na criança é indagar-se como a criança chega “a representação mais ou menos global, específica e diferenciada de seu corpo próprio”. [...] Essa aquisição é importante. É um elemento básico indispensável à construção da personalidade da criança [...] É o resultado e a condição de legítimas rela- ções entre o indivíduo e seu meio. Piaget, por sua vez, fundamentou sua teoria numa visão evolutiva. Diferen- temente de Wallon, para o qual o sujeito é antes de tudo um ser social, Piaget parte de um sujeito biológico, uma espécie de organismo rudimentar que, por meio da experiência, desenvolve-se rumo à socialização. Pulaski (1983, p. 32), com base nos estudos de Piaget, afirma que o bebê [...] vem ao mundo equipado com uns poucos reflexos neonatais, como sugar e agarrar, que fazem parte de sua herança biológica. Além desses, seu comportamento consiste em movimentos motores grosseiros, a princípio sem coordenação e sem objetivo2. Desse modo, concebe o desenvolvimento como um processo de equili- bração progressiva, que parte de um estado inferior até atingir um estado mais elevado. Processo autorregulador, dinâmico e contínuo, a equilibração tem o papel de promover um balanço entre as funções de assimilação e acomodação que, funcionando simultaneamente em todos os níveis biológicos e intelectuais, possibilitam o desenvolvimento tanto físico quanto cognitivo da criança. Essa conceituação baseia-se nos processos adaptativos referidos pela biologia que, segundo Piaget, constituem o elo comum entre todos os seres vivos (PULASKI, 1983, p. 23-25). Quatro fatores são apresentados por Pulaski (1983, p. 24-27) como funda- mentais para o processo de desenvolvimento biopsicossocial da criança. São eles: maturação ou crescimento fisiológico das estruturas orgânicas hereditárias; expe- riências física e empírica, pelas quais a criança vai fazer suas próprias aprendiza- gens; transmissão social referente às informações aprendidas com seus pares, por via direta ou indireta; equilibração que coordena e regula os outros três fatores, fazendo surgir estados progressivos de equilíbrio. Embora Piaget não tenha definido um conceito de esquema corporal, visto que seus estudos não se propunham a tal tarefa, suas formulações levam-nos a considerar tal esquema como o conhecimento progressivo das partes e funções do corpo, constituído a partir de etapas sucessivas, semelhantes em crianças da mesma idade, determinado pelos processos de autorregulação e adaptação ao meio exterior. A partir dessa breve contextualização, podemos considerar que enquanto Wallon concebe o esquema corporal como resultante das múltiplas relações que o indivíduo estabelece com seus pares, Piaget define essa categoria a partir de uma visão cognitivista, na qual a consciência do corpo resulta do amadurecimento das interações entre as estruturas cerebrais, como processo natural de adaptação ao meio ambiente. Segundo a primeira concepção, o indivíduo toma consciência de si a partir de sua inserção no meio social, já, na segunda, essa consciência é deter- minada por uma autoequilibração comum a todos os seres vivos. 2Optamos por utilizar Pu-laski em vez de Piaget, no original, pelo fato de encon- trarmos naquele autor uma abordagem mais didática e di- reta do conceitos piagetianos, o que entendemos suficiente para o estudo proposto. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 24 Ao analisarmos a tendência das produções teórico-práticas da Psicomotrici- dade, no período considerado por Le Camus do corpo consciente, evidenciamos que, de Wallon, foram incorporados os fundamentos elaborados na segunda dé- cada do século XX, que tratam da influência direta do tono postural sobre o tono emocional e vice-versa, relegando a segundo plano a importância das relações sociais e afetivas; de Piaget, foram incorporados, pela Psicomotricidade, os pro- cessos advindos da tendência natural à autorregulação e adaptação. Como resultante dessas influências, encontramos, nesse período da Psico- motricidade, a formulação de um grande número de manuais e práticas psicomo- toras, elaborados de acordo com normas de desenvolvimento predeterminadas, que visam ao desenvolvimento do esquema corporal e proporcionar, sobretudo, às crianças pequenas, condições “favoráveis” de adaptação e autoequilibração voluntárias. Se os fundamentos piagetianos foram adotados para educar os mo- vimentos e legitimar a capacidade universal de adaptação dos seres humanos, da mesma forma, foram os fundamentos de Wallon, relativos à mútua influência en- tre tono postural e tono emocional, que atribuíram um caráter científico à maneira pela qual o poder passou a ser incorporado aos comportamentos. Desse modo, podemos dizer que os saberes-poderes sobre o corpo, formula- dos no segundo período da Psicomotricidade, restituem ao ser humano a proprie- dade, a consciência de seu corpo, ao mesmo tempo que consideram voluntária a sua participação no encaminhamento das necessidades da sociedade capitalista, de produção e de controle social. Automatismo e consciência do movimento tornaram-se o mote da busca de superação das dificuldades explicitadas pelos modelos disciplinares autômatos dos séculos xVIII, xIx e início do século xx: [...] para crear los automatismos indispensables la consciencia debe pasar a un segundo término, habitualmente la participación voluntaria del sujeto es la condición de la educa- ción o reeducación psicomotriz, estando presente en todos los instantes y dándole caráter. El movimiento “en si” no es educativo. Para que el ejercicio pueda intervenir en la vida psíquica y contribuir a su desarrollo, es necesario que sea voluntario, pensado, preciso y controlado. (PICQ; VAYER, 1969, p. 25)3 Desse modo, o conhecimento da área psicomotora, nesse período, oportu- nizou uma adequação voluntária dos movimentos humanos ao tempo e espaço de produção, a partir do desenvolvimento de programas de educação e reeducaçãopsicomotoras, incorporados ao cotidiano das creches e pré-escolas. É desse modo que, de maneira precoce, [...] disciplinando las contracciones musculares, aumentando en cuanto sea posible la acción de los centros superiores sobre los inferiores, se mejorará, disciplinará y educará la voluntad y la atención. En fin, nada se opone, ya que se trata siempre de la misma función, a que se pueda pasar progresivamente de la inhibición muscular impuesta al dominio de la totalidad del cuerpo e incluso al refrenamiento de los deseos y a la obediencia de los imperativos sociales. (PICQ; VAYER, 1969, p. 23)4 Sendo assim, podemos apreender que as técnicas especializadas no desen- volvimento do esquema corporal destinavam-se, de fato, a dar suporte para um processo de apropriação do corpo, com vistas à exploração da força de trabalho das classes menos favorecidas. 3[...] para criar os automa-tismos indispensáveis, a consciência deve passar a um segundo termo; habitualmen- te, a participação voluntária do sujeito é condição para a Educação ou Reeducação Psicomotora, estando pre- sente em todos os instantes, outorgando-lhe caráter. O movimento em si não é edu- cativo. Para que o exercício possa intervir na vida psíqui- ca e contribuir para seu de- senvolvimento, é necessário que seja voluntário, pensado, preciso e controlado (tradu- ção do autor). 4[...] disciplinando as con-trações musculares, au- mentando ao máximo a ação dos centros superiores sobre os inferiores, se melhorará, disci- plinará e educará a vontade e a atenção. Ao final, nada se opo- rá, na medida em que se trata sempre do mesmo objetivo, da mesma função, a de passar progressivamente da inibição muscular imposta ao domínio da totalidade do corpo, inclusi- ve, ao recalcamento dos desejos e à obediência aos imperativos sociais (tradução do autor). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 25 Outro aspecto a ser analisado refere-se ao caráter universal atribuído às for- mulações do segundo período da Psicomotricidade (Le Camus, 1986), no tocante à legitimação da ideologia liberal e dos princípios do Estado burguês. Sabemos, com base nos estudos de Marx, que uma das necessidades da classe dominante, para sustentar-se no poder, é tornar universal suas ideias e necessidades. Assim sendo, cabe recuperar que uma das estratégias principais do sistema liberal para a legitimação e manutenção de seu poder é a meritocracia. Uma vez que a base ideológica desse sistema funda-se na ideia de igualdade de condições para todos, fica subentendido, a partir dessa concepção, que o que falta aos indivíduos não é fruto de desigualdades sociais, mas sim, resultante de uma incompetência pessoal pelo não aproveitamento das oportunidades ofere- cidas a todos. O Estado, então, coloca-se na condição de redentor dessas faltas, operando por meio de programas compensatórios formulados nas áreas educacio- nais, médicas e paramédicas, como dispositivos remediadores das desigualdades sociais. Deslocando-se, dessa maneira, o ponto fulcral da problemática social para o sujeito, para a família e para os profissionais ligados ao fazer educativo, os pro- gramas compensatórios, por um lado, tendem a culpar e desqualificar o potencial profissional e as condições de vida das pessoas e instituições, por outro, enaltecem as ações paliativas do sistema. Desse modo, tais programas configuram-se como instrumentos de controle das pressões sociais. Nesse contexto, a Psicomotricidade apresenta-se como um saber-poder que respalda e viabiliza a ideia de devolver no indivíduo um EU, no caso, corporal, reparador do vazio provocado pela expropriação do capital, acenando com a pos- sibilidade de um lugar de cidadania às gerações futuras. Com isso, produz um duplo controle social: exacerba a apropriação da força de trabalho que, pela via da consciência do movimento, torna-se ainda mais efetiva e, ao mesmo tempo, promove o reconhecimento e engajamento voluntários das famílias e profissionais em programas sociais compensatórios, como solução para suas necessidades de manutenção da vida. Se por um lado, as práticas psicomotoras, pautadas em medidas que buscam normatizar o corpo, adequando-o aos imperativos sociais, às custas de um processo segregacionista, trouxeram benefícios para o Estado burguês, por outro, oportuni- zaram à classe trabalhadora a possibilidade de colocar em marcha novas contradi- ções sociais e políticas, a partir das quais foram formulados saberes-poderes que constituíram o terceiro período da Psicomotricidade, denominado por Le Camus, de Corpo significante5. Corpo consciente – síntese esquemática Período: 1945-1973 Organizador: Impressionismo 5Le Camus, ao considerar sobre este período, pro- põe-se a analisar as produções da área da Psicomotricidade entre os anos de 1974 e 1980. Sabemos que esta periodiza- ção é um recurso didático, que intenciona circunscrever as propostas de estudo daquele autor. Sendo assim, vamos considerar o período, denomi- nado pelo autor como Corpo significante, extensivo aos dias de hoje, visto que os pa- radigmas que o fundamentam ainda se encontram presentes na Psicomotricidade atual. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 26 Modelo: Cognitivista comportamentalista Concepção de corpo: Receptor Bases Teóricas: Fenomenologia Psicologia Infantil ou do Desenvolvimento Psicanálise Principais concepções – Gestalt/Fenomenologia Esquema corporal (conceito) “[...] síntese entre o modelo neurológi- co do corpo, herdado de Head, e o mo- delo psicanalítico do corpo libidinal e fantasmático, herdado de Freud” (LE CAMUS, 1986, p. 32). “[...] esta imagem tridimensional que cada qual tem de si próprio, imagem essen- cialmente dinâmica que integra todas as nossas experiências perceptivas, motoras, afetivas e sexuais foi chamada por Schilder de imagem do corpo ou esquema corporal” (LE CAMUS, 1986, p. 32). Autor: Paul Schilder (1886-1940) Obra: A Imagem do Corpo (1950) Período: 1945-1973 Organizador: Impressionismo Modelo: Cognitivista comportamentalista Concepção de corpo: Receptor Bases teóricas: Fenomenologia Psicologia infantil ou do Desenvolvimento Psicanálise Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 27 Fenomenológica da conduta [...] nossos atos – principalmente o ato de perceber – devem ser tomados como modalidades do ser no mundo [...] (LE CAMUS, 1986, p. 33). “o corpo é o veículo do ser no mundo[...]”, “meu corpo é o eixo do mundo[...]”, “Não é preciso di- zer que nosso corpo está no espaço, nem que está no tempo. Ele habita o espaço e o tempo. Eu não estou diante de meu corpo, estou em meu corpo, ou melhor, eu sou meu cor- po” (MERLEAU-PONTY apud LE CAMUS, 1986, p. 33). Autor: Merleau-Ponty Obras: Estrutura do Comportamento (1942); Fenomenologia da Percepção (1945). Funcional do movimento “[...] a maneira pela qual mantemos o equilíbrio, agarramos, nos defen- demos, implica muito mais do que uma sucessão de eventos [...], ela é definida pelo objetivo, pelo grau de resultado e, portanto, pelo futuro” (BUYTENDJIK apud LE CAMUS, 1986, p.34). Autor: F. J. J. Buytendjik (nascido em 1887) Obras: Tratado de Psicologia Animal (1952); Atitudes e Movimentos (1957). Principais concepções – Psicologia do desenvolvimento Biomaturacional Corrente: comportamentalista Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 28 Autor: Arnold Gesell (1880-1961) “[...] descrição das etapas matura- tivasda ontogênese [...] descrição do comportamento segundo as qua- tro principais esferas de atividade” (LE CAMUS, 1986, p. 36). (A R N O LD G ES EL L ap ud B U EN O , 1 99 8) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 29 Inteligência das situações Corrente: cognitivista Autor: Jean Piaget (1896-1980) “Foi na coordenação dos esquemas sensório-motores, isto é, dos siste- mas de sensações e movimentos que possam proporcionar assimilação [incorporação] e acomodação [ajusta- mento ao mundo exterior], que [Pia- get] situou as origens da inteligência” (LE CAMUS, 1986, p. 40-41). Biomaturacional Corrente: comportamentalista Autor: Arnold Gesell (1880-1961) “[...] descrição das etapas maturati- vas da ontogênese[...] descrição do comportamento segundo as quatro principais esferas de atividade” (LE CAMUS, 1986, p. 36). Relação tônico-emocional Corrente: sociointeracionista Autor: Henri Wallon (1879-1962) “[...] a constante preocupação de Wallon foi a de destacar a importân- cia da função afetiva primitiva em todos os desevolvimentos ulteriores do sujeito, fusão expressa por meio dos fenômenos motores num diálo- go que é o prelúdio ao diálogo verbal ulterioro e ao que chamamos de diálo- go tônico” (AJURIAGUERRA, apud LE CAMUS, 1986, p. 38). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo hábil I 30 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 31 O corpo consciente Com os processos de abertura política, primeiro na Europa e, posteriormente, na América Latina, fruto das pressões sociais e dos movimentos que defendiam os direitos humanos, as técnicas de abordagem corporal que propunham a inibição muscular (corpo hábil) ou o domínio da totalidade do corpo, incluindo o refreamento do desejo e a obediência aos imperativos sociais (corpo consciente), perderam sua força. Tornou-se urgente a produção de um outro conhecimento, que se apresentasse em sintonia com as novas tendências e movimentos que emergiam depois de tantos anos de subjugação em todos os setores da sociedade. Sob o clima de anistia política, liberdade de expressão e enaltecimento dos direitos humanos, os psicomotricistas passam a ser motivados pela ideia de emancipação do sujeito, inaugurando o terceiro período da Psicomotricidade, denominado por Le Camus de corpo significante. Além de um corpo que ouve e aprende, o foco passou a ser o corpo que “fala”, que se expressa. “Anistia do sujeito pela anistia do corpo”, as formulações levadas a cabo nesse período encontraram um campo fértil de proliferação na América Latina, sobretudo, no Brasil e na Argentina, a partir de meados do ano de 1980. A terceira fase da evolução nos parece marcada pela dispersão e também pelo questionamento das referências teóricas, pela ampliação da metodologia para as técnicas semimotoras; pela intensificação e descentralização do recrutamento dos terapeutas da Psicomotricidade, oficialmente chamados doravante “psicorreeducadores”; enfim, pelo declínio ou, pelo menos, a marginalização daquilo que denominamos de práticas psicomotoras com objetivo educativo. [...] Teoria e prática parecem ordenar-se em torno de um novo organizador que chamaremos de expressionismo. O “corpo sutil” é agora o corpo capaz de emitir informação [...] um corpo portador de signi- ficações [...] A função informacional está, mais do que nunca, à frente da cena, mas o interesse deslocou-se da vertente centrípeta à vertente centrífuga, do input ao output. (LE CAMUS, 1986, p. 49) Com base em princípios advindos da psicanálise, da psicologia e das comunicações não verbais, para qual a expressão corporal se apresenta como um veículo de libertação, e da etologia infantil, área do conhecimento que concebe que parte importante das mensagens humanas se dá pelas mímicas, pelas posturas, pelos gestos, encontramos nesse período um movimento de psicotropismo das técni- cas do corpo – pautado na relação entre sujeitos –, e um somatotropismo das técnicas verbais que se utilizam da experiência sensorial e motora do corpo como trampolim da verbalização (LE CAMUS, 1986, p. 53-59). Frente ao dualismo platônico, augustiniano e cartesiano, eles [os psicomotricistas] replicaram com o paralelismo científico de T. Ribot, de P. Janet e P. Tissié, de H. Wallon e de E. Guilmain: é o corpo hábil (“adroit”; o corpo tem direito: “a droit”); frente ao intelectualismo dos racionalistas dos séculos xVIII e xIx, replicaram com o impressionismo de M. Merleau-Ponty, de J. Piaget, de S. Freud, de J. de Ajuriaguerra: é o corpo consciente, o pensamento feito corpo; frente ao verbalismo dos lacanianos, replicaram com o expressionismo dos cientistas da comunicação e dos etologistas: é o corpo significante, o corpo que fala. (LE CAMUS, 1986, p. 67) Na área da Psicomotricidade, segundo o mesmo autor (1986, p. 61), “[evidentemente], foi como meio de linguagem que o corpo interessou aos psicomotricistas: um corpo que sabe falar utilizando a linguagem anterior à linguagem, uma linguagem constituída de significantes mudos”. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 32 Para esse autor, o terceiro período da Psicomotricidade foi marcado por uma tendência dos profissionais da área em adotar uma atitude de aceitação e reconhe- cimento do sujeito, bem como, da importância da dinâmica de seus desejos em seu processo de formação. Nesse sentido, comenta: [a] ruptura parece-nos operar-se em três eixos: o eixo que opõe o cibernético ao termodi- nâmico; o eixo que opõe o pulsional ao funcional; o eixo que opõe o materno ao paterno. Os psicomotricistas da terceira geração acabam de afirmar sua originalidade acentuando o primeiro polo desses pares. Ser psicomotricista em 1980 significava, em termos bioló- gicos, dar primazia à máquina informacional; em termos psicanalíticos, dar primazia ao papel materno. Os psicomotricistas da terceira geração acreditaram que, minimizando ou, até mesmo, abolindo do processo formativo das crianças, o formalismo e o autoritarismo, até então presentes nas técnicas de educação e reeducação psicomotora – aspectos ligados à função paterna (lei e ordem) –, seria possível a superação das dificuldades encontradas por esta área no equacionamento dos desvios escolares e, sobretudo, guardando ainda uma perspectiva higienista e normativa, dos desvios sociais. Impulsionados por tal tarefa, psicomotricistas, atuantes nas sistematizações do segundo período da Psicomotricidade, paulatinamente, foram reformulando seus pressupostos e práticas. Entre eles, ressaltamos André Lapierre e seus cola- boradores, os quais nos legaram a sistematização de um método de abordagem corporal (França, final dos anos 70, do século XX), denominado Psicomotricidade Relacional. Para esse autor: [...] toda reeducação normativa é evidenciada como uma agressão geradora de inse- gurança, culpa e ansiedade. Consegue-se assim um reforço das resistências. Todavia, chega-se algumas vezes a mostrar mecanismos de adaptação às situações psicomoto- ras, mas esses mecanismos permanecem específicos e, se permitem bons resultados nos “teste de controle”, esses resultados não se transferem ao nível das atividades escolares. [...] Existem, entretanto, reeducações bem-sucedidas, sem contrapartida danosa. Percebe-se ao analisá-las, que o determinante foi a qualidade da relação e da comunicação afetiva que pôde se desenvolver entre o reeducador e a criança [...] e que as técnicas empregadas tiveram, nesse caso, pouco espaço. É de alguma maneira o efeito placebo [...] (LAPIERRE, 1988, p. 13) Podemos analisar a mudança deeixo proposta por Lapierre que, seguindo as inclinações da época, coloca a qualidade da relação educador-educando como elemento relevante no processo formativo das crianças. Ao contrário das tendên- cias que priorizavam o aparato técnico nos processos educativos e reeducativos, Lapierre procurou trazer para o centro do fazer educativo a valorização da rela- ção sujeito, educador-sujeito e educando. Nessa linha, propôs um trabalho que prioriza as relações humanas e as potencialidades do indivíduo. A esse respeito, Lapierre (1988, p. 13-14) declara que: [...] queremos trabalhar com o que há de positivo na criança; interessarmos pelo que ela sabe fazer e não pelo que não sabe fazer. É a partir daí que a relação pedagógica pode descontrair-se, a situação deixar de ser dramatizada e a criança reencontrar a confiança e a segurança.[...] Nesse ponto abandonamos o modelo médico: diagnóstico, prescrição, tratamento, modelo sobre o qual funcionam os estabelecimentos de reeducação.[...] Isso marcou uma etapa decisiva na nossa evolução. A partir daí, com efeito, não existe mais “reeducação”. Tudo se torna educação, tal como nós a concebemos, ou seja, desenvolvi- mento das potencialidades próprias de cada criança. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 33 Apesar de influenciado pelo modelo científico da ciência positiva, paradigma que justifica o ideal capitalista liberal, Lapierre representa, para a Psicomotricidade, a possibilidade de quebra com o modelo científico médico higienista, vigente na Europa e na América Latina, principalmente, no Brasil e na Argentina. À semelhan- ça da posição inaugurada pela Escola Nova, Lapierre, na Psicomotricidade, recupe- ra para a criança um lugar de reconhecimento e poder e enfatiza a importância da formação profissional e pessoal do psicomotricista que pretende trabalhar no campo relacional, ressaltando seu papel estruturante nas vivências grupais e individuais. Colocando em discussão as relações de poder presentes no fazer educativo, organizou um método de educação psicomotora para a idade pré-escolar, procu- rando integrar as relações afetivas, a estruturação da personalidade e a sistema- tização do conhecimento, numa proposta lúdica, emancipatória e democrática. Nessa direção, Lapierre (1988, p. 20) ressalta que: [...] podemos então retornar ao grupo, cada vez mais numeroso: não se trata mais do mesmo grupo-refúgio, mas de um grupo composto de indivíduos autônomos, capazes de cooperar, de levar coisas aos outros e de receber, mas sem se diluir na massa. A experiência nos prova que em tal grupo o líder, questionado, se dilui e mesmo desa- parece em proveito de uma organização democrática, o que nem sempre ocorre sem choques nem conflitos. [...] Nessa óptica, o trabalho individual aparece como um fechar- se em si mesmo, não num espírito narcisista, mas como uma regeneração da pessoa de modo a permitir sua reinserção no grupo, que ela beneficiará com sua busca pessoal. [...] É uma sequência de rupturas (ruptura consigo mesmo, ruptura com os outros), um ba- lanço dialético do qual renasce, cada vez, o desejo inverso com a segurança constante de reencontrar o outro ou a si mesmo. Como Lapierre, os psicomotricistas da terceira geração organizaram-se em torno da necessidade de construção de uma imagem corporal positiva, como forma de emancipação afetiva e intelectual do sujeito. Embora esses profissionais tivessem na base de suas formulações o mesmo referencial teórico, a Psicanálise, na prática, constituíram métodos e técnicas diversas. A concepção de imagem corporal como uma organização psíquica inconsciente, fruto das relações de prazer e desprazer que o sujeito estabelece com seus pares cuidantes, nem sempre resultou em práticas de abordagem psicomotora que privilegiassem o corpo, o processo grupal, o lúdico, as relações afetivas diretas, como meio facilitador de suas práticas. Mesmo alguns que pretenderam, como Lapierre, propor uma educação de base psicomotora, integradora, inclusiva, pautada nas relações afetivas, ao aliena- rem-se de uma atitude crítica e histórica de suas práticas, continuaram adotando uma perspectiva positivista de ciência, não levando às últimas consequências o potencial revolucionário de suas propostas. Ao longo deste texto, refletimos sobre como as técnicas corporais foram sis- tematizadas a partir das necessidades e contradições determinadas pelo modo de produção da sociedade capitalista, resultando na elaboração de saberes-poderes sobre o corpo, cada vez mais sutis e especializados. Da disciplina do corpo pas- samos à automação do movimento e, posteriormente, à economia consciente do movimento. Com a política dos direitos humanos e de valorização da expressão, entramos na era do corpo anistiado, culminando, com o último movimento da história da Psicomotricidade, na era da economia do desejo. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 34 Corpo significante – síntese esquemática 1 Período: 1974 Organizador: Expressionismo “O ‘corpo sutil’ é agora o corpo ca- paz de emitir informação [...] um corpo portador de significações [...] A função informacional está, mais do que nunca, à frente da cena, mas o interesse deslocou-se da verten- te centrípeta à vertente centrífuga, o input ao output” (LE CAMUS, 1986, p. 49). Modelo: Semiomotor Psicoafetivo Psicotropismo das técnicas do corpo Somatotropismo das técnicas verbais Concepção de corpo: Emissor de informações “Foi como meio de linguagem que o corpo interessou aos psicomotricistas: um corpo que sabe falar utilizando a linguagem anterior à linguagem, uma linguagem constituída de significantes mudos” (LE CAMUS, 1986, p. 61). Bases teóricas: Psicanálise Psicologia das comunicações não verbais Etologia infantil Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 35 Contribuições da Psicanálise Freudiana “Como definir o corpo em sua per- tença ambígua ao real e ao imagi- nário? [...] No limite do dentro e do fora, da percepção e do fantasma, o corpo é um esquema de repre- sentação incumbido de estruturar a experiência do mundo nos níveis consciente, pré-consciente e in- consciente” (SAMI-ALI apud LE CAMUS, 1986, p. 52). Reichiana “[...] teoria segundo a qual a repres- são sexual exercida pela família e, mais frequentemente, pela socieda- de (W. REICH, 1952 e 1974) gera distúrbios neuróticos que se enrai- zam simultanemante no caráter e no revestimento muscular (W. REICH, 1971) [...] sustentava que a história socioafetiva incrusta-se no estado tônico do sujeito e que os defeitos da ‘couraça’ traduzem os avatares da pulsão” (LE CAMUS, 1986, p. 53). Contribuições da Psicologia das comunicações não verbais P. Parlebas 1967 – Sociomotricidade (estatu- tos e papéis sociomotores, redes de comunicação e contracomunicação motora, espaço sociomotor) Influências: Psicologia Social; linguística Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 36 Claude Pujade-Renaud 1968 – Expressão corporal “[...] a expressão corporal era apre- sentada como o lugar da libertação. [...] onde se raciocinava em termos de superação e de enfrentamento, os expressionistas introduziam a lin- guagem da autenticidade e da parti- lha” (LE CAMUS, 1986, p. 54). Obra: Expressão Corporal, Linguagem do Silêncio (1974). Michel Bernard “[...] contribuiu amplamente desde 1970 para a consolidação e difusão do que se poderia chamar a teoria francesa da Psicomotricidade [...] Sua tese de doutorado (M. BER- NARD, 1976) constitui uma obra monumentalque articula as abor- dagens filogenética, ontogenética, fenomanológica e semiológica da expressividade do corpo [...]” (LE CAMUS, 1986, p. 55). Obras: O Corpo (1976); A Expressividade do Corpo (1976). Jacques Corraze Obras: Esquema Corporal e Imagem do Corpo (1973); As Comunicações Não Verbais (1980); Imagem Especular do Corpo (1980); Os Problemas Psicomotores da Criança (1981). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 37 Corpo significante – síntese esquemática 2 Fundamentos I – categorias de estudo Interacionismo e inter-relacionismo Interacionismo “Entendemos como interacionismo a possibilidade de transformar um objeto e transformar-se atuando sobre ele” (FRANCH, 1990, p. 5). sujeito epistêmico Inter-relacionismo “O inter-relacionismo contempla sempre um processo de adapta- ção entre sujeitos desde uma dupla perspectiva: são sempre dois indiví- duos que estão em mútua relação” (FRANCH, 1990, p. 5). sujeito afetivo-relacional Objeto; relação objetal; objeto externo e objeto interno Objeto Toda pessoa, coisa, ente animado, inanimado abstrato ou toda parte dos mesmos para os quais dirigimos nossas pulsões ou motivações fun- damentais e que convertem-se, por esse motivo, em objeto de nossas pulsões (GARCIA, 1988). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 38 Relação objetal Relação mantida com objetos exter- nos a nós mesmos e também com nossas representações mentais dos mesmos (GARCIA, 1988). Objeto externo Pessoas, coisas, seres animados ou inanimados ou entes abstratos; que geram nossa conduta e nossas re- presentações mentais. Sua ação está sempre mediatizada pelo proces- samento interno de cada indivíduo (GARCIA, 1988). Objeto interno Representação do objeto externo. Sedimento experencial que produz em nós o conjunto de nossas rela- ções com um objeto externo ou classe deles – conjunto de ansieda- des, sentimentos, ideias, recorda- ções etc., com que o representamos (GARCIA, 1988). Instinto, pulsão e fantasia inconsciente (GARCIA, 1988, p. 39-49) Instinto Pautas inatas de comportamento, complexas e específicas, baseadas em mecanismos neurais pré-organi- zados no sistema nervoso do indiví- duo, pelas quais estímulos internos ou externos preparam condutas es- tereotipadas que levam ao ato con- sumatório que satisfazem o instinto (GARCIA, 1988). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 39 Pulsão Podemos entender o termo pulsão como referente à uma motivação inata ao ser humano, ancorada no limite somato-psíquico que pode ser vivenciada por nós em forma de um impulso, uma tensão, claramen- te perceptível, proveniente e atuante no somático por meio de órgãos de “ação” e órgãos “efetores” tais como os que formam o substrato biológico da pulsão de amor ou psicossexual e da pulsão agressiva (GARCIA, 1988). Fantasia inconsciente “[...] inscrição no conjunto ou estru- tura de nossas representações, da significação individual, profunda- mente ligada ao corporal e às vivên- cias e emoções muito corporaliza- das inicialmente, de determinadas experiências conflitivas primárias e reiteradas sobre as quais se estrutu- ram, no futuro, a realidade interna do indivíduo, existindo sempre uma ampla autonomia com respeito à concordância ou não entre a reali- dade externa e tais representações mentais básicas” (GARCIA, 1988, p. 43). Fantasias inconscientes Correspondem ao conteúdo primário dos processos mentais inconscientes. Referem-se à corporalidade e representam tendências pulsionais em di- reção aos objetos. São representantes mentais das pulsões de apego e agressividade, de amor e de ódio. Elaboram-se mediante a experiência com a realidade externa, mas não dependem dela ou a refletem diretamente. Não têm forçosamente uma expressão em palavras ou icônica, ainda que, em certas condições, possa expressar-se em palavras ou imagens e, as- sim, são designadas com fins didáticos de comunicação verbal. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 40 Seus elementos mais primitivos são meras percepções e sensações. Mais tarde são acrescentadas outras representações mentais mais ela- boradas, por exemplo, sentimentos, representações plásticas, dramá- ticas etc. Têm efeitos tanto mentais como corporais e de conduta: sintomas de conversões e somatizações, personalidade e caráter, inibições etc. Exercem uma influência contínua durante toda a vida, em todos nós, como substratos últimos de nossas condutas e representações men- tais, em especial, das mais conflitivas e/ou ansiógenas, assim como das imbuídas de maior importância pessoal ou vital. Poderíamos dizer, tomando cuidado para não cairmos num mecanicismo exa- gerado, que são nossas “programações” fundamentais (GARCIA, 1988, p. 47). Fantasia básica de confiança e de desconfiança (GARCIA, 1988, p. 44) Fantasia básica de confiança Resultante das relações primárias estabelecidas pelo sujeito com seus pares cuidantes, as quais se lhe apre- sentaram como estruturantes, aco- lhedores e, por consequência, asse- guradores. Fantasia básica de desconfiança Resultante de reiteradas relações de qualidade afetiva negativa, estabe- lecidas pelo sujeito com seus pares cuidantes, ao longo de sua primeira infância. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 41 Corpo significante – síntese esquemática 3 Fundamentos II – A ontogenia da relação com o outro Todos os intercâmbios entre sujeito e meio se realizam, em um primeiro momento, através do corpo dos participantes deste primeiro ato do vir a ser humano, que é a criação da “trama afetiva”. Nesse estreito “corpo a corpo” é que se cria a estrutura básica da personalidade, os objetos internos e fantasias inconscientes básicas da futura realidade mental J. T. Garcia Funções parentais, vínculo afetivo e unidade originária Fantasia básica de desconfiança Funções parentais; Funções de peito; Funções de toilette; Função de consonância emocional; Capacidade de contenção (GAR- CIA, 1988, p. 51-52). Vínculo afetivo O vínculo é, assim, o significado de um conjunto de significantes, forma- dos de objetos e atos de conduta que a mãe põe em contato físico-mental com o ser humano em formação (GARCIA, 1988, p. 52). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 42 Unidade originária “Estado relacional primitivo de uni- dade entre as figuras do pai, da mãe e da criança. Em tal estado, no qual o bebê teria uma certa capacidade para a percepção e as relações de objeto, tanto quanto os pais, se acham esti- mulados pela capacidade de réverie, se promovem as bases sobre as quais se assentam as fantasias de uma boa relação paternal” (PÉREZ-SAN- CHES apud GARCIA, 1988, p. 59). Ansiedade, ansiedade confusional, ansiedade persecutória e ansidedade depressiva Ansiedade Perspectiva freudiana: A ansiedade é atribuída à libido insa- tisfeita, que não pode descarregar-se adequadamente e se transforma em uma emoção desagradável e penosa (GARCIA, 1988, p. 92). A ansiedade ou angústia é um “sinal intencional criado pelo ego” e permeia um processo defensivo, tal como por exemplo a repressão, processo que se põe em marcha diante de um perigo interno ou externo, imaginário ou real (GARCIA, 1988, p. 92).Abordagem relacional: A ansiedade é concebida como um sinal psicofísico que nos avisa e avi- sa ao objeto de apego sobre a possi- bilidade do rompimento do vínculo, sempre que esta situação se dá ou pode chegar a dar-se (GARCIA, 1988, p. 93). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 43 Ansiedade confusional A ansiedade é vivida como uma ameaça de desintegração, de de- sestruturação interna por confu- são. Quando dominados por ela não entendemos o mundo interno e/ou externo. Em geral, as ansiedades confusionais primitivas predomi- nam em situações de simbiose e ambiguidade (BLEGER). Também pode ser usado o termo “ansiedades de diferenciação-indiferenciação” (GARCIA, 1988, p. 98). Ansiedade persecutória “A ansiedade persecutória ou para- noide é experimentada como uma ameaça de desintegração ou deses- truturação por ataque ou agressão. Sua origem estaria tanto em ataques externos, reais, como na fantasia de ser atacado por causa da projeção da própria agressividade. A consequên- cia dessa projeção é a proliferação de fantasias mais ou menos primitivas de haver danificado o objeto e, junto com elas, temores de retaliação, de vingança consecutiva” (GARCIA, 1988, p. 100). Ansiedade depressiva “O temor pela desintegração psico- física, causada pela perda do obje- to, será vivida como consequência da percepção da totalidade e auto- nomia do mesmo e, portanto, por nossa ambivalência amor/ódio. [...] As ansiedades depressivas estão sempre ligadas à preocupação com o objeto, por isso são chamadas, em algumas ocasiões de reparatórias (GARCIA, 1988, p. 101). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente 44 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 45 Corpo significante1 E ste relato tem como base experiências de campo desenvolvidas ao longo de cinco anos, nas creches municipais da cidade de Curitiba (PR), como parte de um projeto de capacitação de pessoal, fundamentado na Psicomotricidade Relacional. Tomando como referência a teoria e o método sistematizados por André Lapierre, o projeto e as reflexões elaborados nesse período são fruto dos resulta- dos obtidos com as crianças e das vivências compartilhadas entre os profissionais, durante as sessões de Psicomotricidade Relacional (PR). Considerou-se importante apontar, mesmo que brevemente, as mudanças de papel assumidas pelas creches, desde o seu surgimento em Curitiba, em meados da década de 1970, até o momento desta pesquisa, com o intuito de evidenciar como a PR participou desse processo. No Brasil, como em outros países, a instituição creche tem sua origem na necessidade das famílias em terem um local de guarda para seus filhos, mediante o ingresso da mulher ao mercado de trabalho. Em Curitiba, as creches municipais foram implantadas em 1975, por ocasião do plano de desfavelamento que consistia na relocação das famílias para conjuntos habitacionais na periferia da cidade. Inicialmente, esses equipamentos tinham um caráter assistencialista, uma vez que, ao priorizar os cuidados com a alimentação e higiene das crianças, res- tringiam sua ação aos aspectos orgânicos. Paulatinamente, as creches passaram a valorizar o aspecto cognitivo das crianças e, consequentemente, a incluir propos- tas pedagógicas em sua rotina. Em meados de 1980, as creches tornam-se, de fato, um espaço de educação, aqui entendida como processo de desenvolvimento global do indivíduo, que in- clui, além dos aspectos orgânicos e cognitivos, questões relacionais e afetivas. Nessa mudança de paradigma, a PR deu sua contribuição, uma vez que concretizava, no espaço pedagógico, a importância das relações interpessoais no desenvolvimento infantil. Psicomotricidade relacional Sistematizada por André Lapierre e seus colaboradores, no final dos anos 1970, a PR, método de abordagem corporal, tem por objetivo recuperar a história corporal-afetiva do indivíduo. Em seus estudos, Lapierre perseguiu a origem da formação dos sintomas, ditos psicomotores, concluindo que estes são influenciados pelas relações tônico-afetivas, estabelecidas pelo indivíduo em suas experiências primárias. 1Texto apresentado no VII Congresso Brasileiro de Psicomotricidade 1998, Fortaleza, Ceará, Brasil. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Corpo significante 46 Como relações tônico-afetivas, compreende-se os encontros corporais vividos originalmente entre as figuras parentais e/ou substitutos e seus filhos. Carre- gados de uma carga emocional, esses encontros marcam a totalidade psicossomática do indivíduo, formando a âncora emocional fundamental que influenciará suas pos- sibilidades de afirmar-se diante dos processos de individuação e socialização. Assim, a Psicomotricidade Relacional está vinculada às abordagens de Wallon e Ajuriaguerra em que estes conceituam a organização tônica do sujeito como resultante de sua história relacional, atribuindo a ela um conteúdo sim- bólico. A essa ideia, Lapierre acrescenta a noção de que tal organização tônica também é condicionada, em parte, pela vivência imaginária do indivíduo em suas relações corporais com o outro (FRANCH, 1990). Segundo o esquema a seguir representado, pode-se acompanhar o fluxo do processo evolutivo das sessões de PR. Todos temos uma história pessoal determinada pelo inter-relacionamen- to com o meio, e que fica perpetuada em nossa unidade psicossomática por meio de contrações tônicas, que com o passar do tempo tornam-se crônicas e involuntárias. Por meio do jogo espontâneo, o psicomotricista relacional faz uma deco- dificação simbólica dos conteúdos jogados pelo sujeito e traça suas intervenções no sentido de auxiliá-lo a evoluir em suas questões relacionais, a flexibilizar seu padrão tônico-relacional, possibilitando ao indivíduo expressar seus desejos e necessidades e, portanto, reencontrar e refazer a relação com seus pares e o meio circundante, fato que vai repercutir diretamente na sua história pessoal. Contribuições da Psicomotricidade relacional para o ambiente educacional Por meio da atividade lúdica espontânea, como já dito, a PR oferece ao indivíduo espaço e tempo adequados, nos quais este pode expressar suas dificul- dades relacionais, com o objetivo de oferecer-lhe a possibilidade de reencontrar e reconstruir a relação com o “outro”. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Corpo significante 47 Quando nos referimos aos encontros corporais afetivos e citamos pais e/ou substitutos como parte essencial dessas vivências, inclui-se aí, a figura do educador como substitutivo dos vínculos afetivos familiares e coparticipante na estruturação da unidade psicossomática infantil. Como exemplo, pode-se citar o caso de uma menina que trazia em sua histó- ria pessoal a marca de maus tratos, o que lhe criou bastante dificuldade em confiar nos educadores da creche. Sua maneira de expressar essa desconfiança era não se comunicando, mantendo-se sempre isolada e calada, olhos baixos e, ao menor sinal de aproximação dos adultos, ficava paralisada, tono corporal enrijecido, olhos arre- galados e expressava um sorriso cristalizado na face, ou seja, ficava em pânico. Dentro do trabalho regular de sala não era possível trabalhar a questão de sua desconfiança, pois o processo parte, na maioria das vezes, do adulto para a crian- ça, e ela apresentava-se com bastante dificuldade em aceitar o educador e o que quer que viesse dele, provocando um movimento contratransferencial por parte dele, traduzido em irritabilidadee pouca disponibilidade, fato que acentuava ain- da mais os padrões relacionais da educanda. Nesse caso, a PR auxiliou, pois sua abordagem não diretiva, o psicomotri- cista, reconhecendo a desconfiança e o medo dessa criança em relação ao meio, generalizadamente hostil, traçou suas intervenções utilizando-se de todos os me- diadores de relação (gestos, sons, objetos etc.) no sentido de, paulatinamente, à medida que a criança abria uma chance de proximidade, ele respondia a essa abertura com uma atitude de escuta, de respeito e de afetividade. Essa atitude pouco a pouco foi ressignificando a presença desse adulto, não somente como pos- sibilidade de agressão, mas também de troca e reconhecimento, proporcionando para a educanda uma nova maneira de ver essa figura de poder, e estar dentro do ambiente institucional. Com esta sucinta apresentação, procuramos lançar luz sobre a maneira como a PR pode auxiliar na compreensão dos processos comunicacionais infraverbais e enfatizar a necessidade de se resgatar para o ambiente educacional a linguagem tônico-afetiva. Sua ação não se restringe aos casos de introversão, pois, dada a sua con- cepção unificadora do indivíduo e por apoiar-se no discurso corporal, infraverbal, incidindo diretamente na história tônico-afetiva das pessoas, abre uma gama de possibilidades de manutenção da saúde psicoafetiva dos implicados. Considerações finais Em nossa trajetória com a PR nos ambientes educacionais, anteriormente ci- tados, notamos que a maioria dos educadores, em sua prática cotidiana, e mesmo durante a participação nas sessões de Psicomotricidade Relacional, guarda em sua natureza uma disponibilidade inerente para estabelecer vínculos afetivos e opera esse fato de uma maneira empírica com bastante eficiência. Infelizmente, grande parte desse potencial vincular transforma-se numa es- pécie de “lixo relacional”, dada a impossibilidade de os educadores, por motivos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Corpo significante 48 diversos, agirem conscientemente sobre os conteúdos comunicacionais não verbais. Essa situação ocorre por causa da dinâmica acelerada da rotina da insti- tuição, pela supervalorização do cumprimento dos conteúdos programáticos, pela falta de reconhecimento da importância das comunicações tônico-afetivas, pela impossibilidade de entender o sintoma como manifestação de uma necessidade e, por último, pelo desconhecimento do papel fundamental que os educadores operam na estabilidade emocional e cognitiva das crianças. Trabalhar a partir de um ponto de vista relacional implicou uma revisão, não somente da proposta pedagógica das creches, mas também das atitudes das atendentes e de toda a equipe de funcionários implicados no processo de desen- volvimento infantil, sobre a atitude adotada diante das crianças. Os resultados, embora com todas as dificuldades inerentes a um processo como esse, numa instituição de porte, foram bastante animadores. A partir desse projeto, ainda que não contemos com dados estatísticos, constatamos, por meio do acompanhamento linear comparativo, os seguintes benefícios atribuídos à in- tervenção pela Psicomotricidade Relacional: Além de colaborar diretamente na adaptação e socialização das crianças, na estruturação de sua dimensão agressiva, na possibilidade de expressão de suas ideias, necessidades e desejos, apresentou-se uma maior partici- pação no desenvolvimento das propostas pedagógicas. Baixa de ansiedade e acréscimo da espontaneidade das educadoras, a partir de uma melhor compreensão dos aspectos comunicados pelas crianças por meio de suas múltiplas manifestações. Essa atitude foi incorporada aos procedimentos cotidianos das educadoras, extrapolando o contexto das sessões de PR. Pela linguagem comum criada pela convivência, supervisores, atenden- tes e diretoras adquirem ação mais integrada no trato com as crianças, tornando as supervisões mais proveitosas, visto que partiam de uma ex- periência compartilhada por todos. Os encontros de reflexão e os seminários de desenvolvimento infantil ad- quirem uma possibilidade concreta de aplicação, redirecionando a óptica sobre os processos de desenvolvimento infantil. Concluindo, podemos apontar a Psicomotricidade Relacional como um pro- cesso de humanização com repercussões bastante profundas, não somente no que tange ao crescimento das crianças, mas também como alavanca explicitadora dos processos relacionais/comunicacionais de toda a instituição. Sabendo que o ser humano é um ser eminentemente relacional e que todas as construções advindas das inter-relações do sujeito com o meio passam neces- sariamente pelo corpo, intencionamos, com essa explanação, explicitar, a partir de nossa experiência, as contribuições que a Psicomotricidade Relacional pode oferecer à formação de um processo educacional que leve em conta não somente os aspectos cognitivos, mas também a diversidade de componentes que integra o sujeito e lhe possibilita uma utilização criativa desse conhecimento para seu desenvolvimento e de sua sociedade. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 49 Psicomotricidade Ao prepararmos a estrutura deste trabalho, preliminarmente pensávamos em fazer um deta-lhamento das contribuições que a Psicomotricidade poderia oferecer à instituição escolar, no processo de inclusão de crianças com necessidades educativas especiais em salas regulares de ensino. Dadas as nossas limitações e a variedade infinita de possibilidades que tal empreitada nos colocaria, logo se apresentou como impossível nosso ideal. Frente a esses fatos, optamos por proceder um recorte, tanto técnico, quanto epistemológico, que pudesse promover uma reflexão sobre alguns elementos da Educação Psicomotora que considera- mos fundamentais para subsidiar o encaminhamento das questões relativas ao corpo e à inclusão no ambiente educacional. Nesse sentido, recorremos às contribuições de nosso principal referencial teórico, a Psicomo- tricidade Relacional, e deste, elegemos a atividade lúdica espontânea e a atitude do educador frente à mesma, para traçarmos algumas reflexões. Essa opção se justifica pelo fato de acreditarmos no jogo, sobretudo no jogo livre e grupal, como um dos principais meios pelo qual o ser humano experimenta, lúdica e descontraidamente, a diversi- dade das relações inerentes à nossa espécie. Além disso, sabemos que não é simples levar a cabo tal tarefa, na medida em que o que vamos propor não é, simplesmente, um espaço para “deixar fazer” (laissez-faire), mas a utilização consciente do jogo livre como instrumento de aprendizagem social e cognitiva. Assim, é necessário explicitar e estimular reflexões a respeito daquilo que consideramos seus marcos primordiais. Para tal, inicialmente, retomaremos alguns conceitos da Psicomotricidade, situando a Educação e a Psicomotricidade numa perspectiva de inclusão. Num segundo e terceiro momentos, vamos expli- citar os principais elementos que oferecem sustentação ao jogo livre, no âmbito da Psicomotricidade Relacional, bem como traçaremos algumas considerações sobre a atitude do educador frente à pro- dução lúdica das crianças. Por último, faremos algumas considerações a respeito do modo pelo qual a atividade lúdica espontânea e compartilhada pode servir como base para aprendizagens escolares, inserindo-a, concretamente, como produção coletiva. Psicomotricidade e Educação Inclusiva Segundo análises anteriores, podemos sintetizar os principais elementos constitutivos da Psicomotricidade da seguinte maneira: o psiquismo tem dois níveis – consciente e inconsciente; o corpo tem dois níveis – estruturado e fantasmático; a atividade motora tem dois níveis – racional e projetivo. A própria Psicomotricidade,portanto, tem dois níveis – racional e relacional. Buscando uma delimitação didática para as dimensões que compõem os dois polos da Psico- motricidade e de seus elementos, encontramos, em Cabral (2000, p. 17) que, para os primeiros níveis (consciente, estruturado, racional), esta área do conhecimento vai priorizar o corpo da maneira apre- sentada a seguir: Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 50 Corpo como instrumento funcional Corpo do tônus Corpo das atitudes e posturas Corpo da motricidade Corpo das sensações Corpo das percepções Corpo da lateralidade Corpo das emoções primárias (a nível icônico) Corpo como instrumento de conhecimento Corpo do conhecimento sobre si mesmo, corpo do esquema corporal Corpo que conhece o objeto e o outro Corpo que conhece o mundo: o espaço, o tempo e a causalidade Corpo que vai permitir o percurso da ação ao pensamento Corpo como base primária da possibilidade de abstração, da operativida- de no sentido piagetiano e do raciocínio lógico Fazendo uma analogia com nossos estudos anteriores, os elementos presen- tes nessa primeira esquematização de Cabral recuperam as considerações feitas a respeito das técnicas do primeiro e segundo períodos da Psicomotricidade, descri- tos por Le Camus: Corpo Hábil e Corpo Consciente. Com relação ao segundo nível dos elementos constitutivos da Psicomotrici- dade (inconsciente, fantasmático, projetivo e relacional) Cabral (2000, p. 17) nos possibilita o entendimento do corpo nas seguintes dimensões: Corpo fantasmático e relacional Corpo da imagem corporal e dos fantasmas primitivos Corpo do contato afetivo nas relações objetais Corpo da comunicação com o outro Corpo social Corpo marcado pela lei na situação edipiana Corpo diferenciado sexualmente de acordo com papéis sociais Corpo influenciado por papéis culturalmente definidos Corpo manipulado, reprimido, ou valorizado, de acordo com a ideologia da sociedade Essas duas últimas dimensões do corpo, apontadas pela autora, estão diretamen- te ligadas aos estudos do período Corpo Significante, descrito por Le Camus (1986), dos quais fazem parte temas como: a comunicação e a relação corporal, a imagem corporal, a afetividade, a sexualidade, a agressividade, os limites, entre outros. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 51 A educação, de modo geral, tende a conceber o corpo e a intervir sobre ele, considerando somente ao que denominamos acima de corpo funcional e corpo ins- trumento de conhecimento. Dentro dessa perspectiva, observamos uma abordagem diretamente ligada à pedagogia de base taylorista-fordista, na qual consideram-se as habilidades psicomotoras como parte dos pré-requisitos mínimos para a execução do trabalho material capitalista. Para esse tipo de trabalho, frente à sua extrema simplificação, prioriza-se um treinamento que não transcenda os modos de fazer, específicos do posto a ser ocupado pelo trabalhador, além do disciplinamento do corpo e da mente. Repetições e memorizações de sequências de movimentos, rigi- damente encadeados, procuram estabelecer uma uniformidade de respostas e con- trole do corpo e da tarefa, ponto central do modo pelo qual o conhecimento gerado na área da Psicomotricidade contribui para viabilizar uma verdadeira economia do movimento. Vale ressaltar que esse tipo de utilização das técnicas de abordagem psicomotoras, além de restringir o alcance de seu potencial formador, tem servido para sustentar uma ideologia classificatória, excludente e compensatória, na qual só aqueles que se encontram dentro da norma é que serão incluídos. A biologização, racionalização e a tentativa de homogeneização do corpo e do movimento humano a que se dedicou a Psicomotricidade dos primeiro e segundo períodos, descritos pelo citado autor francês, acabaram por colaborar para a expansão de uma lógica formal, linear e excludente, não permitindo que a dialeticidade inerente à realidade das relações humanas pudesse cumprir o seu papel inclusivo. No sentido de encontrar o lugar da Psicomotricidade enquanto instrumento de uma educação inclusiva, voltada para as diferenças, necessitamos compreender o corpo em sua dimensão relacional, na qual os múltiplos níveis de abordagem daquela área do conhecimento possam ser analisados de modo a explicitar suas inter-relações. Nesse sentido, optamos por refletir sobre um espaço escolar que permita a manifestação do objetivo e do subjetivo, do consciente e do inconsciente, da falta e da potência, que auxilie os educandos na difícil tarefa de apreender as mediações que cada uma dessas dimensões da existência e das relações humanas estabelece umas com as outras. Para tal, entendemos como um caminho profícuo ampliar as reflexões nas quais o corpo, a experiência lúdica compartilhada e a emoção cum- prem papel central nesse processo. No campo psicomotor, uma das propostas mais significativas nessa direção foi sistematizada por André Lapierre e seus colaboradores, ao longo dos anos 1970 e 19801. Nela, Lapierre (2002, p. 34) propôs o abandono das práticas estri- tamente técnico-normativas, “colocando a ênfase (da prática psicomotora) sobre a primazia da relação com o outro, com seus conteúdos projetivos, simbólicos e fantasmáticos”. Optando por uma abordagem pautada na atividade lúdica espontânea e compartilhada, Lapierre defende a ideia de que: [...] é preciso oferecer à criança um meio pedagógico coerente, sem o que arriscamos acen- tuar sua inadaptação a uma escola que é, ela mesma, inadaptada. [...] Apareceu-nos, então, uma dimensão essencial que é a vida em grupo. A criança não vive sozinha suas dificul- 1O método de trabalho psicomotor denomina-se Psicomotricidade Relacional. Para uma aproximação infor- mativa a respeito desse método, ver o texto “Psicomotricidade Relacional”. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 52 dades; ela as vive no “grupo classe”, e é não somente do professor, mas também de seus colegas que ela recebe a sua imagem. (LAPIERRE, 1988, p. 14-15) Além disso, o autor, aprofundando as reflexões sobre sua prática no âmbito da reeducação psicomotora, enfatiza a necessidade de rever as técnicas e posicio- namentos da área, explicitando o seguinte ponto de vista: [...] optamos trabalhar com o que há de positivo na criança; interessa-nos pelo que ela sabe fazer e não pelo que não sabe fazer. É a partir daí que a relação pedagógica pode descontrair-se, a situação deixar de ser dramatizada e a criança reencontrar a confiança e a segurança.[...] Nesse ponto abandonamos o modelo médico [higienista]: diagnóstico, prescrição, tratamento, modelo sobre o qual funcionam os estabelecimentos de reeduca- ção. [...] A partir daí, com efeito, não existe mais “reeducação”. Tudo se torna educação, tal como nós a concebemos, ou seja, desenvolvimento das potencialidades próprias de cada criança. (LAPIERRE, 1988, p. 13-14) Partindo das citações anteriores, fica implícito que a escola, e não só a esco- la brasileira, vem, historicamente, cumprindo um papel pasteurizador e formali- zado, que precisa ser rompido para que uma ação educativa inclusiva se faça. Ao pretender simplificar e homogeneizar os processos de aprendizagem, as políticas públicas de educação, por meio da instituição escolar, reforçam situações de ex- clusão. Pela óptica da falta, aqueles que apresentam necessidades educativas espe- ciais (e quem não o é?) estão automaticamente marginalizados. A linearidade do processo educacional, respaldado por práticas psicomoto- ras normativas e higienistas, ao romper com a dialeticidade das relações, da ação do sujeito com seus conteúdosemocionais, desses conteúdos com os conteúdos das disciplinas escolares, separa o sujeito de si, de seus pares humanos e, também, da consciência de que aquilo que se aprende na escola é produção humana, na qual ele está incluído. Ao oportunizarmos que a dialética se estabeleça no meio escolar, por exem- plo, por meio de práticas psicomotoras que priorizem a relação corporal afetiva, a livre expressão, o reconhecimento das produções das crianças, a potência de cada sujeito encontra maiores possibilidades de se manifestar, de ser acolhida e incluída. Além disso, ao enfatizar, posteriormente, o produto da atividade lúdica espontânea do grupo como base geradora dos demais conhecimentos escolares, não só se inclui o sujeito no grupo, mas sua história como parte do conhecimento produzido pela humanidade. O jogo livre – uma ferramenta para o educador inclusivo Seguindo a perspectiva enunciada na parte introdutória deste trabalho, te- mos que os pontos fundamentais de uma prática psicomotora voltada para a inter- -relação se pautam nas seguintes premissas: atividade lúdica espontânea grupal; foco nas potencialidades de cada participante; Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 53 corpo como meio de relação e de expressão das possibilidades, necessi- dades e desejos do sujeito; integração entre os níveis consciente e inconsciente; entre o lógico e o analógico; posterior utilização dos conteúdos do trabalho psicomotor com os conhe- cimentos científicos a serem desenvolvidos em sala. Winnicott (apud CABRAL, 2000, p. 40), referindo-se ao processo analítico com crianças, diz o seguinte: A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do te- rapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em consequência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é. [...] Em outros termos, é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunica- ção consigo mesmo e com os outros. Sabemos que o processo terapêutico refere-se a um refinado processo de aprendizagem, no qual o paciente pode confrontar-se com as sistematizações rela- cionais que organizou intrapsiquicamente e ter a oportunidade de apreender suas mediações. Nesse sentido, aquilo que Winnicott afirma anteriormente, referente à psicoterapia, serve como uma luva para as reflexões que procuramos explicitar com este trabalho. Nesse sentido, nós nos ocuparemos, a partir daqui, a explicitar os pressu- postos básicos daquilo que é uma das contribuições fundamentais da Psicomotri- cidade para a Educação – a atividade lúdica espontânea. A atividade lúdica espontânea O jogo, como facilitador do processo educacional, tanto para a estruturação da personalidade como para os processos cognitivos, vem sendo largamente es- tudado por profissionais das áreas ligadas à saúde e educação, portanto: como já vimos, não é um atributo só dos autores da Psicomotricidade. Em que pesem as várias classificações de jogo que podemos encontrar na literatura, particularmente neste trabalho, abordaremos alguns aspectos do que cha- mou-se atividade lúdica espontânea ou jogo livre, meio utilizado, sobretudo, para facilitar a dinâmica relacional e comunicacional no método de André Lapierre. A ideia de trabalhar, em Psicomotricidade Relacional, com a atividade lú- dica espontânea se deu pela influência do papel que cumpre o livre discurso na Psicanálise. Com a possibilidade do corpo brincar livremente, a partir de um mí- nimo de regras (sem machucar-se, sem machucar os colegas e preservando o que dever ser preservado no ambiente) e utilizando-se materiais com qualidades po- tencializadoras da criatividade2, oportuniza-se que cada membro do grupo possa se colocar em relação a seus pares com o que sabe fazer – brincar, divertir-se, compartilhar emoções, criar etc. 2Sobre os materiais utili-zados na atividade lúdica espontânea em Psicomotrici- dade Relacional, sugerimos a leitura do livro: LAPIERRE, A. e LAPIERRE A. O Adul- to diante da Criança de 0 a 3 Anos. Curitiba: Editora UFPR, 2002. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 54 Desse modo, a possibilidade de compartilhar com o outro experiências lú- dicas significantes outorga à pessoa um senso de pertencimento, de acolhimento e aceitação. Estas marca, pouco a pouco, produz no sujeito a tendência de ele próprio acolher e aceitar os outros. Tal condição inicial de contar com e dispor-se ao outro constitui elemento fundamental para que o indivíduo estruture suas fantasias de confiança. Do pequeno grupo, uma vez confiante, ele se abre à possibilidade de lançar-se em novas situações lúdicas, ampliando quantitativa e qualitativamente seus modos de relação e de comunicação. Para que haja um referencial de segurança no qual o jogo, a relação e a expres- são corporal sejam de fato construtivas, a atividade lúdica espontânea deve guardar as seguintes características: ser permissiva, desculpabilizante e estruturante. Ao falarmos de jogo livre, pressupomos a possibilidade da criança para fa- zer, jogar, sem que seja julgada positiva ou negativamente. Se estamos nos pro- pondo a abrir um espaço para o compartilhar das emoções e dos sentimentos, é necessário que o educador adote uma atitude que considere esses aspectos da existência humana como não passíveis de julgamento. Desde que guardados os limites mínimos (já citados anteriormente) de segurança física e psíquica, deve-se preservar a possibilidade de expressão de tais aspectos, fundantes das relações humanas, como se preserva a possibilidade de expressão a qualquer produção mais intelectualizada do sujeito. Uma atitude desculpabilizante frente às produções das crianças é comple- mento essencial para a dimensão permissiva do jogo livre. De que vale deixar expressar se vamos, posteriormente, colocar uma carga de culpa e julgamento sobre o sujeito? O trabalho do educador, nesse sentido, consiste em distinguir quais as ex- pressões que são ou não possíveis para o contexto, permitir ou restringi-las, sem, no entanto, colocar um juízo de valor sobre tais expressões. No caso da neces- sidade de restrições à emancipação de determinado conteúdo, o educador tem o compromisso de ajudar o indivíduo a elaborar a frustração; além disso, deve auxiliá-lo a encontrar novas formas, cada vez mais simbólicas, de manifestar seu desejo ou necessidade. Neste ponto, introduz-se o último dos atributos fundamentais do jogo livre: o seu caráter estruturante. Refere-se à possibilidade do adulto, enquanto principal referencial de segurança, recolher as produções das crianças e auxiliar na sua ressignificação. O educador joga e deixa jogar Uma vez que o papel do educador é o de participar dinamicamente de modo corporal, utilizar a verbalização nos momentos oportunos e estar de cor- po e alma animando a atividade lúdica espontânea, duas posturas básicas são importantes para que ele possa compreender melhor a atitude e situar-se como companheiro de jogo das crianças: a observação e a espera. Em primeiro lugar, a atitude do educador deve ser de espera. Uma espera atenta e ativa, pautada na observação das condutas e manifestações, no respeito e Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade55 na aceitação da forma de ser do sujeito. Qualquer projeto de trabalho, para além do conhecimento teórico das diferentes etapas de desenvolvimento que o sujeito deverá superar e dos recursos que se dispõe para colocar em marcha uma ação facilitadora desse desenvolvimento, há que se partir sempre dessa atitude de res- peito e aceitação do outro, de sua forma de ser e estar, de seus modos de explicitar seus desejos e necessidades. A espera é a primeira ferramenta da qual dispomos para que possamos ob- servar e compreender as condutas do sujeito, as relações que ele estabelece com os demais, com os objetos e com o espaço. Não se deve intervir precipitadamente. É necessário observar, “escutar”, esperar que ele se manifeste para que se possa entrar em seu jogo, estimulando, assim, um ambiente seguro no qual o sujeito seja encorajado a colocar-se mais. Ser parceiro de jogo das crianças supõe, portanto, uma mudança radical na atitude condutivista, donatária do supremo saber sobre o outro, muito presente no âmbito da educação, recolocando o educador no lugar daquele que sabe muito pouco sobre o outro que está diante de si e que, portanto, necessita escutá-lo antes de agir. Nessa perspectiva nos deparamos com um dos planos mais difíceis, impostos por um trabalho que considere a diferença, a criatividade, a relação, os afetos, a ética e a emancipação do sujeito como eixo: assumir a insegurança do não saber3. O conteúdo do jogo invade a sala de aula Finalizando nossas reflexões, temos que considerar o fato de que, para que a produção lúdica e afetiva do sujeito possa encontrar um lugar junto ao conheci- mento científico produzido pela humanidade, é necessário explicitar as mediações existentes entre essas duas produções. Seguindo esse propósito, sugerimos que a atividade lúdica compartilhada possa, posteriormente, tornar-se um desenho, no qual a criança vai expressar o que viveu. Esse procedimento auxilia uma primeira “visualização” e expressão pelo educando daquilo que viveu e compartilhou no jogo. Desse desenho, pode-se propor, por exemplo, uma atividade de expressão oral na qual o sujeito conta sua vivência e, ao mesmo tempo, pode trabalhar os diversos elementos constitutivos do processo de comunicação verbal. Na sequência, essa atividade preliminar pode transformar-se num texto escrito, a partir do qual pode-se trabalhar inúmeras questões relativas ao ato da escrita e, também, impulsionar elaborações relativas a outras áreas do conhecimento. Enfim, propomos aqui que, a partir da produção compartilhada pelo grupo-classe, o educador possa dinamizar um processo de mediação entre as produções do sujeito no grupo-classe, com o que é conheci- mento científico, socialmente produzido. Desse modo, não somente incluímos a subjetividade no coletivo, mas, tam- bém, impulsionamos um processo de mediação entre o particular e o social, sem o que toda a preparação do sujeito não encontrará possibilidades de tornar-se, verdadeiramente, revolucionária, transformadora. 3Para aplacar as ansiedades e colocar os educadores mais confortáveis na tarefa, enfatizamos a importância de oportunizar, também ao edu- cador, um espaço no qual ele possa colocar suas dúvidas, dificuldades e suas conquis- tas, que possa oportunizar-lhe, juntamente com seus pares, um debate franco e aberto relativo às situações enfrentadas no processo de compartilhar dos jogos com as crianças. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade 56 Considerações finais Sabemos que este texto não tem alcance para suprir as lacunas de formação relativas à Psicomotricidade. Coube-nos aqui, tão somente, encaminhar algumas reflexões e sugestões para que aquilo que é conhecimento gerado no seio dos es- tudos dessa área do conhecimento possa ser aproveitado pelos educadores como portal para a pluralidade das relações. Facilitar um espaço de desafios, que ofereça às crianças a oportunidade para desenvolver suas capacidades e conquistar autonomia social e intelectual, tendo como eixo fundamental a ética, a justiça e os direitos humanos, não é tarefa fácil, sobretudo frente aos percalços que as políticas educacionais e a organização pro- dutiva nos impõem. Esperamos, com este breve trabalho, ter oferecido alguns instrumentos, práticos e reflexivos, para dar suporte ou, fazendo um jogo de palavras, ajudar a suportar a tarefa de promover um processo educacional verdadeiramente socioa- fetivo, solidário, participativo, colaborativo e emancipatório. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 57 Categorias de análise C omo pedagogo e psicomotricista, pude entender que para compreendermos a inserção das práticas psicomotoras no setor da Educação é necessário analisarmos como estas estão arti-culadas aos valores, hábitos e comportamentos que permeiam a nossa sociedade, ou seja, aos princípios que regem a organização capitalista de produção. Sabemos que tal organização está respaldada em práticas e valores normativos e mecanicistas que concebem o homem e o seu corpo de forma funcional e, portanto, alienados da realidade e de seu potencial criativo e revolucionário. Com base numa análise histórica e crítica dos processos de produção, acompanhamos como o homem, na organização capitalista, passa a ser concebido como homem-máquina e seu corpo, reduzi- do a um corpo funcional. Desse modo, o corpo torna-se corpo produtivo e, nessa dimensão, deve ser concebido e abordado. As cisões estabelecidas entre corpo-mente, corpo-emoção, corpo-cognição, constituem-se como princípios fundadores do processo de produção capitalista, no qual a mecanização das for- mas de produção, condição para o desenvolvimento e modernização, incluiu não só os meios mate- riais de produção, como a mecanização do próprio trabalhador e, consequentemente, de seu corpo. Assim, o corpo, sobretudo daqueles destinados ao trabalho material, passa a ser abordado como corpo-objeto, como um sistema constituído de partes, distanciado de suas singularidades, signifi- cações e complexidades. Essa forma mecanicista de conceber o corpo encontra-se presente em nossa sociedade, influen- ciando a maneira compartimentalizada pela qual o mesmo é, em geral, tratado no campo educacional. Cabe ressaltar que, tradicionalmente, a Educação prioriza os conhecimentos formais secundarizan- do ou, até mesmo, desconsiderando as experiências corporais como elemento de formação. Quando consideradas, as práticas corporais tendem a ser tratadas como experiências motoras, visando o de- senvolvimento de habilidades perceptuais e noções básicas tais como: coordenação motora, noção de espaço e tempo, e coordenação óculo-manual. Enfim, nesse contexto, as práticas corporais tendem a ser consideradas como instrumentos de desenvolvimento de pré-requisitos para o aprendizado da leitura/escrita e dos conteúdos escolares básicos. Mediante tal constatação, consideramos importantes estudos que analisam historicamente como a Educação psicomotora vem sendo abordada nas redes públicas e privada de ensino, enten- dendo que as mesmas têm representado, sobretudo na educação da primeira e segunda infâncias, a área de conhecimento que tem se ocupado das questões e propostas educacionais voltadas ao trabalho corporal. Segundo autores da Educação, da Psicomotricidade, da Psicologia do Desenvolvimento e da Psicanálise, tais como: Wallon, Kramer, Lapierre, Fonseca, Ajuriaguerra, Freud, Klein e Spitz, a pri- meira e segunda infâncias representam períodos determinantes para o processo formativo da criança, no qual organiza estruturas emocionais, cognitivas e motoras (psicomotoras), determinantes dos mo- dos de relação que estabelecerá com sua realidade externa e interna. Este material é parte integrantedo acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Categorias de análise 58 Tal visão, defendida pelos autores anteriormente citados, passou a ter influê- ncia mais decisiva na educação brasileira a partir dos anos 1950. No Paraná, essa tendência encontra maior repercussão por volta dos anos 1980. A ideia de que a criança, além de cognitivo, também é um sujeito afetivo, influenciou a elaboração de projetos pedagógicos que acolheram a importância das relações primárias es- tabelecidas pela criança para a formação de sua personalidade e do seu desenvol- vimento cognitivo. Em 1986, por exemplo, a então Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social elabora um documento para sistematização do funcionamento das creches – Manual de Orientação Técnico Administrativa do Programa Creche – no qual afirma que “[é] nos primeiros anos de vida que o indivíduo forma, na sua rela- ção com os adultos, os sentimentos básicos que vão caracterizar sua personali- dade futura” (Prefeitura Municipal de Curitiba, 1986, p. 1). Influenciados pelas novas tendências da Psicomotricidade, sobretudo pela obra de André Lapierre1, que prioriza os aspectos da relação corporal afetiva, em detrimento de uma ação condutiva e racional sobre o corpo, a Secretaria Municipal da Criança de Curitiba, paulatinamente, absorveu essa concepção de trabalho, culminando, na primeira metade dos anos 1990, entre outras ações, num projeto denominado “Projeto de capacitação de recursos humanos com bases na Psicomotricidade Relacional”2. Tal projeto, além de oportunizar um espaço diferenciado de expressão e relação para as crianças, por meio das sessões de Psicomotricidade Relacional, também proporcionava aos educadores3 uma leitura sobre o processo de desenvol- vimento das crianças, a partir da óptica das relações. Isso foi possível pelo fato de que tais educadores participavam, ativamente ou como observadores, das sessões implementadas pelo psicomotricista com as crianças e, posteriormente, discu- tiam sobre bases materiais, concretas, as questões envolvidas nas sessões e no seu cotidiano de trabalho. Se, por um lado, essa experiência evidenciou a possibilidade de utilização da Psicomotri- cidade como elemento constitutivo de uma educação emancipatória do sujeito, por outro, também acompanhamos o modo como as práticas corporais normatizadoras, higienistas e moralizadoras continuam exercendo, tanto no contexto da Educação Infantil e, sobretudo, das Séries Iniciais, um papel disciplinarizador e normatizador dos indivíduos a um modo reducionista e alienante de vida. (BERNARD, 1985; FOUCAULT, 1988; KRAMER, 1993) Nesse sentido, o conhecimento de diversas linhas e práticas psicomotoras voltadas à Educação, principalmente da primeira e segunda infâncias, parece ser insuficiente para a superação da precariedade das propostas de formação e in- tervenção relativas à área da Educação Psicomotora, bem como, da significativa banalização do corpo, que encontramos nas redes públicas e privada de ensino. Conscientes dessa realidade, para tratarmos a Psicomotricidade de forma madura e crítica, sentimos a necessidade da proliferação de estudos que permitam não só compreender, mas apreender o papel da Educação Psicomotora em suas múltiplas relações. É isso o que pretendemos com esta comunicação preliminar, mas, sobretudo, com esta disciplina. Para aprofundarmos o entendimento a respeito da Educação e da Psicomo- tricidade enquanto práticas sociais, vamos nos apoiar nos estudos de Karl Marx, Gilberto Luiz Alves, Dermeval Saviani, Michel Foucault, entre outros. Já para 1A principal influência des-te autor sobre os modos de pensar e agir na Educação Infan- til em Curitiba deu-se por meio de seu livro O Adulto Frente à Criança, escrito em parceria com sua filha Anne Lapierre, editado pela Editora Manole, em 1987. 2O referido projeto está publicado na forma do artigo, de minha autoria, inti- tulado Contribuições da Psi- comotricidade Relacional na Educação Infantil: um relato de experiência, publicado na Revista Mosaico – v. 2, pela Sociedade Brasileira de Psico- motricidade, no ano de 2000. 3Utilizamos a expressão genérica educadores, para nos referirmos aos adultos diretamente implicados no fazer educativo da creche, tais como: pedagogos, psicó- logos, assistentes sociais, di- retores e atendentes. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Categorias de análise 59 o entendimento da Psicomotricidade e da sua historicidade na Educação, vamos recorrer às obras de André Lapierre, Jean Le Camus, Suzana Veloso Cabral. Do corpo total ao corpo parcial: a disciplina é a norma Da sociedade feudal para o capitalismo industrial, os modos de produção sofreram profundas modificações, acompanhadas de transformações nas formas de organização social, envolvendo as suas diferentes dimensões, ou seja, cultural, política, educacional e econômica. Sabemos que a prática do artesão, trabalhador do período feudal, era caracterizada como própria de um trabalhador total, que: [...] dispunha do domínio teórico-prático do processo de trabalho como um todo. Isto é, dominava um projeto teórico, intencional, necessário à realização de um certo produto, e, para produzi-lo, contava com formação anterior que lhe assegurava destreza especial, a força necessária e habilidades específicas para operar certos instrumentos sobre a matéria-prima adequada, ao longo de todas as etapas do processo de trabalho. (ALVES, 1998, p. 37) A transformação da produção artesanal para a manufatureira e, posterior- mente, para a industrial, com vistas à obtenção de maior produtividade e maior lucro, só foi possível com a divisão do trabalho e a transformação do trabalhador total em trabalhador parcial (ALVES, 1998, p. 38). Neste percurso, o trabalhador foi sendo alienado do processo de produção como um todo e, com os avanços da mecanização industrial, também ficou alheio ao produto em si, transformando-se num “acessório consciente de uma máquina parcial”. Expropriado, inclusive, do conhecimento produzido pelo seu próprio ofício, “o operário fabril passou a realizar operações rotineiras que não exigiam qualquer destreza especial. Com isso, a produção capitalista, enquanto domínio do trabalho simples, se realizou em sua plenitude” (ALVES, 1998, p. 39). As ideias de Alves encontram apoio na análise realizada por Marx e Engels (1987, p. 68), na qual “[a] indústria e o comércio, a produção das necessidades de vida, condicionam, por seu lado, a distribuição, a estrutura das diferentes classes sociais, para serem, por sua vez, condicionadas por estas em seu modo de funcionamento”. Nessa conjuntura, a Educação, embora se proponha a ser igualitária, na realidade, tem se revelado um processo organizado a partir de modos diferen- ciados de formação, no qual a classe trabalhadora é submetida a uma educação reducio-nista e simplificada, entendida como suficiente à adequação das necessi- dades do sistema de produção capitalista. “Dessa maneira, não somente o conhecimento fica restrito às necessidades técnicas das linhas de produção como, também, a complexidade do corpo do tra- balhador que foi adequada/reduzida às funções mecânicas e à rotina do tempo fabril” (FOUCAULT, 1988; MARx, 1984). Nesse contexto, as práticas corporais foram e são de inestimável valor para que a normatização da vida privada e institucional se concretize. Sobre esse fato, esclarece Foucault (1988, p. 126) que “[esses] métodos que permitem o controle Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Categorias de análise 60 minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemoscha- mar as ‘disciplinas’”. Dessa conceituação, tira-se que a Psicomotricidade é uma das áreas que mais tem produzido em termos de conhecimento disciplinar e que suas técnicas têm sido amplamente utilizadas pelas instituições educacionais, para sustentar sua organicidade com o modo de produção de nossa sociedade. Esperamos que, com essas breves considerações, possamos provocar o de- sejo de buscar/evidenciar o modo pelo qual a Educação, a Psicomotricidade e os processos produtivos formam uma malha indissociável. Esse será o rumo de nossos estudos. Como se pode antever, apreender o papel das práticas psicomotoras e sua inserção na Educação Infantil e Anos Iniciais implicará uma revisão de conceitos messiânicos, higienistas e cognitivistas, há muito arraigados em nossa educação e que impregnam boa parte, pelo menos as mais divulgadas, das publicações sobre ambas as áreas. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 61 O corpo consciente I1 O s conceitos de Espaço Vital e Espaço Relacional foram desenvolvidos a partir da necessidade de fundamentar a importância da percepção do próprio corpo e do corpo do outro no âmbito das relações humanas. Por meio desses conceitos, pretendemos analisar que, tanto numa comu- nicação direta, corpo a corpo, quanto indireta, através de mediadores como a voz, objetos etc., as variáveis tônicas dos envolvidos, analógicas e subjacentes a qualquer ato consciente são determinantes na codificação e na construção de uma atitude de receptividade ou de repulsa do que está sendo comunicado ou proposto. Para esclarecer essa temática, utilizaremos uma situação bastante corriquei- ra, ou seja, uma pessoa se aproximando de um animal doméstico. Não pretende- mos com isso, equiparar o comportamento humano ao do animal, apenas ampli- ficar, por meio desse exemplo, as condutas pulsionais de preservação da vida que, nos animais, aparecem de maneira instintiva, isenta das variáveis psicossociais a que estamos sujeitos. Refirimo-nos, especificamente, a uma experiência compartilhada com um grupo de atendentes de creche, durante um curso realizado em minha clínica. Nesse local, havia uma cadela da raça fox, animal com um senso de territoriedade dos mais apurados para a espécie e de respostas muito claras diante da ameaça de seu território. Nossa história começa quando uma das alunas fez a tentativa de estabele- cer uma relação com a referida cachorra. A situação desenrolou-se da seguinte maneira: a cachorra, presa em seu reservado, de longe percebe a aproximação da atendente, respondendo com um leve direcionamento do olhar. A atendente, não demonstrando nenhuma modificação em sua atitude de acercamento, foi pronta- mente “contestada” pelo animal, dessa vez com um movimento brusco de levan- tamento da cabeça e das orelhas, um retesamento da musculatura corporal e um rosnar baixo, preparando-se para o ataque. Mesmo diante de todos esses sinais, a pessoa não modulou sua aproximação, sendo surpreendida por um “súbito” avanço da cachorra em sua direção. Digo “súbito”, pois esta foi a vivência da pessoa que se aproximava. No exemplo descrito, interessa-nos observar como a atendente, embevecida com suas intenções carinhosas frente ao animal, desconsiderou todos os sinais de incômodo e ansiedade expressos por meio da atitude tônica e corporal, tanto de sua parte como da parte do animal, perdendo o sentido do que estava sendo co- municado, corporalmente, pela cadela e pelo seu próprio corpo, onde certamente esses sinais repercutiram. Essa situação nos servirá de apoio para conceituar Espa- ço Vital e Espaço Relacional. 1Trabalho apresentado como tema livre e publi- cado em anais no VII Con- gresso Brasileiro de Psico- motricidade, 1998, Fortaleza, Ceará, Brasil. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente I 62 Espaço vital e espaço relacional No texto anterior, podemos dizer que a área compreendida entre o ponto em que o animal passou a notar a presença da atendente, até o momento em que demonstrou sinais de apreensão (orelhas em riste, corpo tensionado, rosnar etc.), denomina-se espaço relacional. Até uma determinada distância, o bicho não se sente ameaçado e, depen- dendo de como se desenrola a aproximação, há chances de se estabelecer uma confiança por parte do animal, ponto de partida para a criação de um vínculo. A partir do perímetro explicitado pelas marcantes modificações tônicas do bicho, entramos no seu espaço vital, área de sobrevivência, onde o primordial é a autopreservação. Ao avançar naquele espaço, sem a prévia construção de uma confiança básica, não há como deter o animal em sua intenção de ataque ou fuga, visto que tal situação o remete a um contexto de vida ou morte. A demarcação desses perímetros são variáveis, dependendo da natureza e grau de sua relação com quem se aproxima. Diante de seu dono, por exemplo, a área de espaço relacional chega ao contato físico entre ambos. Pelo contrário, frente a uma pessoa desconhecida, como no caso de nossa história, a fronteira vital estendeu-se por vários metros do corpo do animal, restringindo o espaço relacional, tendo em vista que a forma pela qual o estranho se colocou foi viven- ciada como uma ameaça. Os conceitos, bem como a história acima colocada, podem ser transpostos para as relações humanas e articulados às questões de afetividade, percepção mútua, autopercepção, limite, ansiedade e preservação da continuidade psicossomática. No quadro a seguir, pode-se acompanhar as manifestações corporais e psíquicas diante de cada situação, bem como, atitudes niveladoras que tendem a es- tar presentes nas relações humanas. Adicionamos a este quadro algumas possibili- dades de intervenção do psicomotricista relacional diante do contexto apresentado. Tipo Manifestações corporais Manifestações psíquicas Condutas niveladoras Postura do psicomotricista relacional como facilitador ESPAÇO VITAL Ansiedades persecutórias Zona de contrastes Extremos tônicos. Tensão muscular generalizada. Movimentos diretos e bruscos. Paralisia por excesso. Olhar tenso. Sorriso nervoso. Choro. Prefere estar em pé. Manipulação circular de objetos. Tiques. Medo, temor. Desconfiança. Pânico, terror. Impossibilidade de planejar a ação. Tendência ao isolamento ou às relações duais. Incapacidade para simbolizar. Precaução. Cautela. Indagações. Fuga. Contra-ataque. Autoafirmação agressiva. Clareza de comunicação. dos enquadres do jogo, das responsabilidades pessoais e grupais. Facilitar a expressão espontânea e autônoma. Ajudar na desidealização e elaboração das negações. Personalizar as relações. Respeitar a distância inicial imposta pela criança. Auxiliar na diminuição dessa distância por meio dos mediadores de comunicação e modulação tônica adequada. (G A RC IA , 1 98 8. A da pt ad o. ) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente I 63 Tipo Manifestações corporais Manifestações psíquicas Condutas niveladoras Postura do psicomotricista relacional como facilitador ESPAÇO RELACIONAL Ansiedades depressivas ou reparatórias Zona de nuances Tono equilibrado, com modulação adequada a cada situação. Misto de movimentos diretos e flexíveis. Atitude na ação. Proximidade física. Circulação nos diversos planos do espaço pessoal e geral. Ambivalência. Amor/ódio. Tristeza/alegria Recolhimento/ mania. Possibilidade para as relações triangulares e grupais. Acesso ao simbólico. Confiança. Preencher-se.Criar. Elaborar o luto. Construir. Compartilhar. Divertir-se. Enfatizar as potencialidades da criança. Auxiliar na elaboração do luto, da perda e da culpa. Ajudar na percepção de si do meio, oferecendo possibilidades de inter- -relação. Ajudar a criança a responsabili zar- -se pelos próprios atos, a colaborar e a encontrar meios de reparação. Evitar sentimentos extremos. Manter clareza na comunicação. Formação e intervenção A intenção fundamental do Psicomotricista Relacional é auxiliar o sujeito na detecção de suas dificuldades psicoafetivas e no seu processo de conquista da identidade e autonomia, com vistas à socialização. Para cumprir esse papel, aqui entendido como estruturante, o psicomotricis- ta necessita apresentar-se receptivo às questões colocadas em jogo, tanto por ele quanto pelas crianças. Reconhecer sua história pessoal, suas emoções e sentimen- tos, determina a maneira como o psicomotricista contribui para o desenvolvimen- to harmônico da personalidade daqueles a quem dirige o seu trabalho. É, portanto, fundamental que a formação desse profissional considere não só dados teóricos mas, sobretudo, a possibilidade de identificar suas potencialidades e dificuldades, seus limites de espaços vital e relacional. Dessa maneira, para que o psicomotricista possa evitar ou minimizar atuações desnecessárias e inadequadas, comprometendo o seu trabalho de ajuda, torna-se imprescindível uma abordagem que articule o conhecimento teórico ao pessoal. Entre outras razões, consideramos importante uma formação nessa direção, tendo em vista ser a Psicomotricidade Relacional um processo de humanização, em que tanto o profissional quanto o cliente estão imersos num diálogo, ditado pelos componentes da história pessoal de ambos e por suas constantes transformações. Ao adquirir a possibilidade de reconhecer-se na relação, o psicomotricista é remetido concomitantemente ao reconhecimento e identificação do outro, con- dição para adotar uma atitude de escuta, modular suas intervenções de forma singular e acolher as produções das crianças. Entendemos que, por meio dessas condutas, o psicomotricista estabelece uma consonância emocional necessária para a elaboração e evolução dos conflitos psicoafetivos colocados em jogo, nas sessões de Psicomotricidade Relacional. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo consciente I 64 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 65 Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias P ara iniciar nossos estudos, temos que abordar algumas categorias fundamentais para a refle-xão sobre as produções teóricas e técnicas no campo da Psicomotricidade. São elas: esquema corporal, imagem corporal e tono. Para as duas primeiras categorias, esquema corporal e ima- gem corporal, utilizaremos, fundamentalmente, a obra de Michel H. Ledoux, Introdução à Obra da Françoise Dolto. Já o assunto tono será abordado a partir de um artigo de Vitor da Fonseca, em sua obra Psicomotricidade. Referente ao esquema corporal, Ledoux (1991, p. 85), psicanalista francês, colaborador de Françoise Dolto, oferece a seguinte formulação: O esquema corporal especifica o indivíduo como representante da espécie. Mais ou menos idêntico em todas as crianças da mesma idade, ele é uma realidade de fato, esteio e intérprete da imagem do corpo. Graças a ele, o corpo atual fica referido no espaço à experiência imediata. Ele é inconsciente, pré-consciente e consciente. Seguindo essa posição, podemos considerar que o esquema corporal é definido pela área da Psicomotricidade como a organização de estruturas cerebrais que outorga ao indivíduo a capacida- de funcional, ou seja, o conhecimento progressivo das partes e funções do corpo, a partir de etapas sucessivas, determinadas pela maturação neurocortical e pela relação da pessoa com o meio físico e humano. Essa organização, segundo a Psicomotricidade, tem como função propiciar ao indivíduo noções de globalidade de si, equilíbrio postural, afirmação da lateralidade, entre outras habilidades. (F R EI R E, 1 98 9, p . 1 94 ) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 66 Se visto sob uma perspectiva de totalidade, podemos dizer que os saberes técnicos produzidos por esta área do conhecimento, relativos ao esquema cor- poral, justificaram o surgimento de uma verdadeira economia do movimento. Determinados pela necessidade imposta pelo capital, de extração de lucro por meio do aumento da produção, sem o respectivo aumento de investimento em mão de obra, tais saberes influenciaram vários setores da sociedade, incluindo a Educação. Nesse setor, tal visão colocou em marcha, entre outros, um processo de intervenção psicomotora, que justificou a formação da classe trabalhadora, pela necessidade de um programa compensatório direcionado para o desenvolvimento de pré-requisitos que garantissem um bom desempenho nas etapas posteriores de escolarização, frente à precariedade cultural e social da população pobre. (F R EI R E, 1 98 9, p . 6 5) A imagem corporal, por sua vez, radica nas impressões resultantes das rela- ções de prazer e desprazer estabelecidas entre a pessoa e seus pares, sobretudo na infância, que lhe dispensam cuidados básicos cotidianamente. Segundo Ledoux (1991, p. 84-85), [...] a imagem inconsciente do corpo não é o corpo fantasiado, mas um lugar inconsciente de emissão e recepção das emoções, inicialmente focalizado nas zonas erógenas de pra- zer. Ela se tece em torno do prazer e do desprazer de algumas zonas erógenas. [...] trata-se de uma memória inconsciente da vivência relacional, de uma encarnação do Eu em cres- cimento.[...] a imagem do corpo, individual, está ligada à história pessoal, a uma relação libidinal marcada por sensações erógenas eletivas. Como vestígio estrutural da história emocional, e não como prolongamento psíquico do esquema corporal, ela se molda como elaboração das emoções precoces com os pais tutelares. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 67 Essencialmente relacional e inconsciente, a estruturação da imagem do cor- po apoia-se na dialética entre o próprio desejo do sujeito e o desejo do outro, influenciando, diretamente, os modos de relação que o indivíduo vai empreender com os outros, consigo mesmo1 e com as coisas. (L A PI ER R E, 2 00 2, p . 7 1) Neste sentido, Ledoux (1991, p. 89) explicita que: [...] a comunicação sensorial (emocional) e a fala do outro aparecem como dois substratos dessa imagem do corpo. A simples experiência sensorial (corpo a corpo), sem um media- dor humano, só instrui o esquema corporal e não estrutura a imagem do corpo. [...] viver num esquema corporal, sem imagem do corpo, equivale ao “viver mudo”, solitário. Essa citação evidencia a estreita relação entre esquema e imagem corporal, bem como, concebe essas categorias determinadas pelas relações humanas, nas quais o corpo e a linguagem constituem-se como elementos fundantes das rela- ções e da estruturação do sujeito. Segundo estudos recentes, essas formulações no campo da Psicomotricidade vêm justificando uma diferenciação no modo de apropriação da força produtiva do trabalhador, visto que, à economia do movi- mento, relativa ao esquema corporal, adiciona-se, pelas sistematizações a respeito da imagem corporal, um novo elemento – a economia do desejo. Dados sobre a organização psicomotora: abordagem da regulação sensório-motora e dos fatores psicotrônicos2Inúmeros autores estão de acordo ao aceitarem que o estado tônico é uma forma de relação com o meio, que depende de cada situação e de cada indivíduo. 1Por exemplo: uma criança de três ou quatro anos, de modo geral, tem um aparato motor e neurológico suficien- temente desenvolvido para subir alguns degraus de uma escada e saltar. Em relação à organização do esquema corporal, ela está apta para empreender a tarefa. Porém, nossa prática clínica e institu- cional evidencia que algumas crianças o farão com certa tranquilidade, enquanto outras hesitarão e, até por medo, não o farão. Entre as crianças que não o fazem e/ou hesitam, po- demos encontrar uma parcela que é sobreprotegida pelas figuras parentais. Nesses ca- sos, a dificuldade da criança em pular não é uma questão de maturação ou falta de conhecimento do próprio cor- po, mas sim, pode estar refe- rida à ausência de imagem corporal positiva. Uma vez que a criança é tratada pelos seus pais e/ou tutelares como frágil, necessitando ser sobre- protegida, ela tem dificuldade em reconhecer-se potente o suficiente para utilizar suas competências e arriscar, como em nosso exemplo, um salto. 2Texto complementar: FONSECA. Dados sobre a organização psicomotora: abordagem da regulação sensório-motora e dos fatores psicotrônicos. 1993, p. 49-56. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 68 O estado tônico, ligado aos fatores relativos à história biológica do indi- víduo, traduz a multiplicidade de fenômenos neurofisiológicos que permitem ao movimento emergir do fundo que o suporta, o que o torna implicado, portanto, com os outros aspectos da iniciativa motora. Encontra-se, também, ligado aos fatores hereditários e aos da maturação, a partir dos quais se desenvolvem dife- rentes estados tônicos relacionados com a vigilância e com os diferentes episó- dios da vida emocional. A hipotonia aparece, assim, como um fator relacionado com a satisfação das necessidades, no período de imaturidade corporal; a hipertonia, pelo contrário, revela-se como o meio de defesa mais eficaz e mais frequente, fator de luta contra os conflitos e contra as ansiedades criadas por estes. Foi sob a designação de “armadura caracterial” que W. Reich descreveu as formas ativas de resistência. Os aspectos tônicos encontram-se ligados a toda uma cronologia de atitudes, tomada pelo sujeito no decurso da sua evolução temporal. A função tônica está ligada à totalidade da personalidade do indivíduo, como provam vários aspectos do domínio psicopatológico, que nos permitem perceber melhor as implicações da tonicidade. Segundo Wintrebert, os conflitos psíquicos inconscientes podem-se trans- plantar para a periferia do corpo sob a forma aparente de uma doença orgânica. A esfera psíquica, quando não tolera os conflitos, projeta-os na esfera motora sob a forma de uma perturbação orgânica (psicossomática). O estado tônico traduz um equilíbrio entre a periferia e os centros nervosos que tocam níveis da personalidade profunda. As experiências de Baruk mostraram que a alteração do estado tônico não afeta a perda de execução, mas a iniciativa e o plano do movimento. Por causa dessa alteração, os terrenos cerebrais encarregados das funções psicomotoras en- contram-se perturbados, o que resulta na perda de contato com o mundo exterior, no isolamento, na indiferença emocional, nas alucinações etc. A catatonia, por exemplo, é um problema tônico que se encontra nos es- quizofrênicos: nesses indivíduos, verifica-se a persistência de atitudes durante bastante tempo, sem fadiga aparente. Nesses casos, tudo indica que o indivíduo reduz as suas possibilidades de relação com o mundo exterior e que, ao mesmo tempo, perde os meios de reconhecimento da imagem do seu corpo. Dão-se uma patologia relacional e uma perda de adaptabilidade com as correspon- dentes dissociações do “eu psíquico” do “eu corporal”, que se desintegram progressivamente. A evolução tônica está ligada à historicidade das relações do indivíduo com o seu meio ambiente, segundo um equilíbrio que, progressivamente, vai-se esta- belecendo. Pela vivência de crises e conflitos emocionais, o tônus vai-se consti- tuindo e moldando-se às diferentes situações, adquirindo, assim, reações mais ajustadas às situações do meio. A vivência corporal não é senão o fator produtor das respostas adequadas, em que se inscrevem todas as tensões e as emoções que caracterizam a evolução Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 69 psicoafetiva da criança. Segundo as vivências motoras, o tônus adquire uma expressão representativa, demonstrada ao longo da evolução da tonicidade e na dialética dos seus estados hipotônicos e hipertônicos. O estudo do tônus põe em prática a relação entre a extensibilidade e a passividade e os estudos da evolução das sincinesias3. No primeiro aspecto, considera-se o grau de estiramento dos pontos de inserção muscular; no segundo aspecto, o movimento produzido à volta de uma articulação, ou seja, a sua resistência passiva; e no último, os movimentos associados e indiferenciados. Essas propriedades funcionais, ao distribuírem-se quantitativa e qualitativa- mente, originam os diferentes tipos tônicos. Os hipertônicos (hipoextensos) mais precoces na aquisição da marcha e mais ativos; os hipotônicos (hiperextensos) mais avançados na preensão e na exploração do próprio corpo. A criança hipotônica tem movimentos mais soltos, mais leves e mais co- ordenados, e acusa um menor desgaste muscular. No aspecto social, uma crian- ça com essas características revela um comportamento estável, que lhe garante uma maior receptividade. As pessoas que a cercam lhe dedicam um “amor sem censura” e são normalmente “calmas” e “sossegadas”. Esse clima afetivo, como é evidente, intervém na formação do caráter da criança, como expressou Wallon. A criança hipertônica apresenta uma multiplicidade de reações que tradu- zem uma certa carência afetiva, visto que, pela sua exagerada produção motora (“os capetas”), provocam, por parte das pessoas, reações de ansiedade e atitudes de rejeição. Graças à sua excessiva motricidade, a criança acusa maior poder de tentativa, adquirindo, por esse fato e pelos seus próprios meios, as habilidades motoras fundamentais ao seu desenvolvimento. A precocidade da aquisição motora da marcha, por exemplo, pode originar obliterações4 afetivas, e como decorrência, os primeiros desgastes materiais. A partir daqui, determinados espaços estão interditados e instala-se a privação de movimento. Essa simples situação é suficiente para alterar as relações afetivas mãe-filho, que irão repercutir no desenvolvimento posterior da criança. Já a criança hipotônica não só encontra envolvimento afetivo conveniente e permissivo, como também inicia mais rapidamente as relações cérebro-mão, provocadas pela preensão. A preensão, como estrutura de realização, depende da corticalização e favorece a coordenação óculo-manual, elemento essencial de maturação mental. Stambak e Lezine realizaram um estudo experimental entre os tipos mo- tores e a correspondente adaptação caracterial, chegando à conclusão de que as crianças hipotônicas são mais tímidas, mais afetivas e mais dependentes que as crianças hipertônicas, que já são mais raivosas e menos fixadas nos pais. Consta- taram, ainda, que os comportamentos das crianças do mesmo tipo motor variam em razão do regime socioeducativo a que estão sujeitas. Apresentando manifesta- ções motoras e caracteriais semelhantes, as crianças podem ser fáceis ou difíceis, segundo o ambiente cultural e o nível de tolerância queas cercam. Nessa simples amostragem, somos levados a compreender que a função tônica está ligada a todas as manifestações de ordem afetiva, emotiva, cognitiva e motora. 3 Tendência patológica para a execução simétrica de qualquer movimento, de qual- quer contração muscular que executa um membro sem que a associação possua um signi- ficado funcional. Disponível em: <www.ecoabreu.psc.br/ vocabulário.htm>. 41. ato ou efeito de obli-terar-se; 2. destruição, eliminação; 3. esquecimento, olvido; 4. apagamento, extin- ção (HOUAISS). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 70 Para muitos autores, como André-Thomas, Ajuriaguerra, Chailley-Bert, Mamo, Laget e Paillard, a função tônica é a mais complexa e aperfeiçoada do ser humano; encontra-se organizada hierarquicamente no sistema integrativo e toma parte em todos os seus comportamentos. É à função tônica que se deve a inter-relação recíproca entre motricidade e psiquismo. A descoberta da sua função pelo aparecimento do fuso pelo e do sistema gama constitui uma vira- da científica no estudo do homem, bastante significativa. Em todas as formas de conduta do ser humano há uma interconexão entre a musculatura estriada, a musculatura lisa e o sistema hormonal, interconexão esta estabelecida pela função tônica que intervém na regulação do sistema muscular voluntário (de relação), do sistema neurovegetativo e do sistema hormonal, como argumenta Paillard. Wallon sublinhou que a função tônica intervém na dialética da atividade de relação e no campo da psicogênese. Entre o indivíduo e o seu meio, esta- belece-se um diálogo corporal, em que a função tônica integra a história das informações exteriores e inter-relacionais, para dar origem à fenomenologia do comportamento humano. O estudo da função tônica, iniciado no princípio do século xx por Sherrington põe em destaque a necessidade de integrar o estudo do tônus na ativi- dade organizada pelo sistema nervoso. Desde os estudos da atitude, deste mesmo autor, e também de Rademaker, Liddel, Granit, Eccles, Kaada e tantos outros, a função tônica situa-se no campo da atividade cinética e também, como defendem Mamo e Laget, na vastidão e complexidade da neurofisiologia. Vasto, porque não é de formação nervosa exclusiva; complexo, porque forma o fundo das atividades motoras e posturais, preparadoras do movimento, fixadoras da atitude, projetando o gesto e mantendo a estática e a equilibração. A função tônica constitui uma função específica e organizada, que prepara a musculatura para as diferentes formas de atividade motora. A posição antigraví- tica dos segmentos do corpo é uma ilustração elementar de sua função motora. A aquisição da atitude bípede, grande responsável pela hominização, con- feriu ao ser humano uma aptidão para qualquer forma de ação motora suscetível de satisfazer a sua natureza investigadora e as suas necessidades de ajustamento ao meio ambiente. Essa função tônica é a vigilância do ser humano, elemento essencial da vida orgânica emancipada, provocando a estreita relação do somático aos contornos do psiquismo. A vigilância, suportada pela função tônica, é o alicerce dos múltiplos as- pectos da função motora. São inúmeras as variedades de tônus que lhe conferem o grau de função mais plástica de todas as que constituem a formação e a orga- nização motora. Desse modo, temos: tônus de repouso, tônus de postura, tônus de suporte, tônus motor etc. Paillard defende que o tônus se encontra na base das manifestações organizadas, harmoniosamente repartidas na musculatura, a serviço de uma função específica – equilibração ou movimento bem-definido – e de expressões mais difusas, específicas e de caráter geral. Como resposta a um Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 71 estímulo que se exerce permanentemente (a gravidade), o organismo reage por meio de uma atividade nervosa constante autorregulada e, portanto, inconsciente. O que é importante assinalar é a dupla atividade do músculo, que é suscetí- vel de atividade clônica (fásica, de movimento) rápida e altamente energética, e de atividade tônica, lenta, pouco energética, de suporte, responsável pela postura. Cabe dizer que a análise cuidadosa do tônus requer métodos de estudo, como a eletrofisiologia, a eletromiografia, a eletrofonia, a cinematografia etc., que testemunham com precisão a atividade elétrica desenvolvida pelas miofibrilas e pelos motoneurônios. Não vamos entrar num estudo detalhado do fuso neuromuscular, nem nas implicações do sistema gama na organização motora do ser humano; apenas apon- tamos novos campos experimentais que possam auxiliar na observação e na com- preensão dos fenômenos da motricidade humana. O tônus, por se encontrar ligado com as funções da equilibração e com as regulações mais complexas do ato motor, assegura a repartição harmoniosa das influências facilitadoras ou inibidoras do movimento. A neurofisiologia e a neuropatologia fornecem grande quantidade de ele- mentos de estudo sobre as regulações inter e suprassegmentar da motricidade, auxiliando-nos na compreensão dos centros e das vias que ela põe em jogo. Resumindo, o tônus tem uma função informática fundamental porque, ao unificar as estimulações, integra-as nos centros responsáveis pela elaboração, con- trole e execução do movimento. O tônus não é mais do que a expressão de uma di- namogenia que, inicialmente imatura e difusa, vai se organizando em formações mais adaptáveis e plásticas. Por meio de centros bulbomesencefálicos e sistemas graviceptivos (a receptividade de gravidade), o tônus integra o bombardeamento incessante dos estímulos exteriores que estão na base da aquisição da postura e da consequente disponibilidade práxico-construtiva. Toda a evolução humana se desenrola numa aparente oposição tônica, veri- ficada pela progressiva hipertonicidade do eixo corporal e pela progressiva hipo- tonia das extremidades. Todos os movimentos, como argumenta Bergès, partem do tronco e terminam nele. O movimento da cabeça e ombros é função do tônus da coluna vertebral. As atividades de exploração e de orientação desenvolvem-se com o suporte do tônus axial. É por meio da manutenção da cabeça que se desen- cadeiam as estruturas visuais, auditivas e labirínticas, que vão permitir o acesso à exploração do espaço bucal e do espaço contíguo, de que fala W. Stern. Toda essa sucessiva maturação, tendo em vista uma autonomia, não é mais do que uma progressiva organização tônica das vértebras. Há como que uma dialética de desenvolvimento entre o tônus axial e o tônus periférico, que encontra relação nos inúmeros casos patológicos. A exploração do mundo e a descoberta do corpo realizam-se pelas ativi- dades de orientação e preparação e, posteriormente, pela direção e experiência corporal. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Psicomotricidade: um estudo preliminar de suas categorias 72 O tônus axial constitui, portanto, o ponto de partida do movimento no tem- po e no espaço, interdependentemente da lateralidade, ou seja, da motricidade não diferenciada. Não vamos ampliar o conceito de lateralidade, por constituir matéria suficiente para novo trabalho; apenas desejamos esclarecer que toda a organização motora se encontra relacionada com o problema da dominância he- misférico-cerebral. É, portanto, a motricidade espontânea que se encontra na base dos fatores da decisão e iniciativa motoras. O tônus, em razão da utilização do corpo, adquire uma especialização unilateral em conexão com a estruturação pro- gressiva do cérebro. Alémdessas relações, devemos equacionar o movimento como estrutura que supõe uma integração de mecanismos neurofisiológicos, dependentes da evo- lução dos sistemas piramidal e extrapiramidal. O primeiro é responsável pela mo- tricidade fina, voluntária e ideomotora; o segundo constitui o fundo tônico-motor automático, que se opõe ao primeiro, servindo de guia às impulsões piramidais. Devemos igualmente mencionar o sistema cerebelos, responsável pela harmonia espacial do movimento. Se, em qualquer desses sistemas, não existir um equilíbrio de funcionamento e um potencial relacional com os outros, observam-se algumas síndromes de debilidade motora, de desordem psicomotora, da patogenia dos hábitos motores, de instabilidade psicomotora e de desorganização práxica, das quais se desta- cam as sincinesias e as paratonias. Nas sincinesias, verifica-se uma incapacidade de individualização motora, observada quando pedimos à criança para fazer um movimento com uma mão e ela tem tendência a fazê-lo com a outra (movimento de imitação contralateral). Nas paratonias, verifica-se uma incapacidade de des- contração voluntária, não se observando o jogo de oposição básica da organiza- ção motora: músculos agonistas com os antagonistas, músculos flexores com os extensores e os efeitos dialético-motores da contração e da descontração. Tanto as paratonias de fundo como as paratonias de ação encontram-se em relação com a função tônica e representam a expressão de seu funcionamento. Tudo isso quer dizer que o regulamento e a modulação do tônus fazem do músculo uma unidade disponível, de alerta, em permanente tensão de fundo, de onde emerge o movimento. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 73 O corpo e o movimento na Educação Infantil Max Günther Haetinger Daniela Haetinger Luis Lucini Os desenvolvimentos físico e perceptivo têm uma grande importância para a criança, já que o corpo constitui a base orgânica na qual se assentará a personalidade infantil. O corpo é um instrumento que permite realizar os processos básicos de adaptação ao meio exterior e é o canal de comunicação com os demais seres humanos Teresa Arribas et al. S em dúvida alguma, o ser humano é o cerne do ato educativo. Afinal, não desenvolvemos metodolo-gias, nem tampouco escolas e estruturas de ensino, para educar os peixes. Uma visão educacional humanista e voltada à construção do conhecimento deve considerar o homem integralmente, prio- rizando não somente a cognição mas também a afetividade, o corpo e o movimento. Homem, corpo e movimento. Essas três palavras conduzirão nossa reflexão ao longo desta dis- ciplina justamente porque os aspectos físicos e motores, fundamentais para o desenvolvimento huma- no, nem sempre são devidamente valorizados no cotidiano escolar. Sendo assim, enfatizaremos uma visão global e integrada da Educação Infantil, considerando o corpo e o movimento como essenciais para a aprendizagem da criança. Como o corpo e o movimento têm sido tratados na escola? Que importância é dada a estes aspectos humanos no processo ensino-aprendizagem? Tratamos a pré-escola, berçário, creche, maternal ou qualquer espaço destinado à Educação Infantil pelo nome de escola. Isso porque encaramos a escola como um ambiente voltado à inte- ração, à troca de experiências e ao convívio, sendo estes mediados por metodologias e práticas pedagógicas. Portanto, a vida escolar não começa na primeira série do Ensino Fundamental, mas sim quando os pais conduzem seus filhos às instituições de Educação Infantil em que trabalhamos. Elas também são escolas, pois colaboram na formação e na aprendi zagem das crianças, preparando-as para a vida em sociedade. Sobre isso, muitos educadores ainda pensam assim: “Não acredito que o movimento seja tão importante na formação do homem.” Já outros podem afirmar que “claro que o movimento é funda- mental ao desenvolvimento humano.” Mesmo encontrando opiniões contraditórias, observamos que a prática escolar prioriza as pos- turas estáticas. Isso pode ser ilustrado por meio da ênfase dada ao ato de escrever e escutar durante as aulas, e pela disposição dos alunos em cadeiras e mesas enfileiradas que não dão espaço para eles se mexerem, servindo para disciplinar os educandos. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 74 Sabemos que o desenvolvimento corporal e motor é muito importante para a aprendizagem. No entanto, as ações educativas geralmente apontam em outra direção. A escola tem tratado o corpo como uma mala que carrega o cérebro (algo fundamental à educação racional), e o movimento como um simples acessório. Na primeira fase escolar, também chamada de creche, maternal, berçário ou pré-escola, o movimento está 100% presente na relação da criança com outros sujeitos e com sua própria aprendizagem. Nessa etapa, as ações educativas são necessariamente corporais, lúdicas e motoras, pois as crianças dessa faixa etária não leem, não escrevem, não refletem sobre textos e gráficos, e tampouco reali- zam outros tipos de abstração. Elas ainda estão descobrindo os limites do querer e do ter. O corpo e o movimento estão diretamente ligados ao cotidiano do educa- dor infantil e são o fundamento e o reflexo das práticas pedagógicas na infância. A partir do Ensino Fundamental, as atividades corporais e motoras vão per- dendo espaço a cada ano que passa. Ao chegarem no Ensino Médio, os alunos acabam tendo somente um ou dois períodos semanais de atividades físicas, por exemplo. O ambiente de aprendizagem torna-se progressivamente estático e os educandos restringem-se a movimentar as mãos e os olhos – isso se eles não es- tiverem dormindo. Ainda que a escola deixe de dar a devida importância à relação entre corpo, movimento e aprendizagem, não podemos deixar de reconhecer que o homem é um ser em movimento a cada instante de sua vida. Movemo-nos constantemen- te e, mesmo quando estamos parados, o planeta e a galáxia em que vivemos se movem, o sangue circula pelo nosso corpo, o coração bate, as veias e artérias se dilatam e se contraem, o pensamento não para. Enfim, nossa existência física e mental é puro movimento. Mas como ressaltar a essência dinâmica do homem no contexto educacional? O biólogo Humberto Maturana (2001) ajuda-nos a compreender as questões sobre o corpo e o movimento por meio de uma metáfora que nos faz pensar sobre a relação do movimento com as ações pedagógicas e a aprendizagem. Observe a seguir a síntese desse pensamento de Maturana. Ao vermos uma pessoa caminhando, podemos pensar que ela se desloca pela estrada porque seus pés e pernas se movimentam. Correto? Não necessariamente. Isso porque, se suspendermos essa pessoa pelos braços e pedirmos para ela continuar caminhando, ela não conseguirá sair do lugar. Portanto, não é apenas o movimento que a faz se deslocar pelo caminho, mas sim a relação entre o movimento realizado e o caminho a ser percorrido. Na Educação, o movimento funciona de modo semelhante. Não adianta apenas solicitar que as crianças se desloquem, pulem ou joguem alegremente. É preciso associar seus movimentos aos objetivos educacionais, criando rela- ções e situações apropriadas ao favorecimento da aprendizagem. Dessa forma, estabelecemos uma sintonia entre as potencialidades integrais do sujeito e a cons- trução de seus conhecimentos. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 75 Tratando-se da Educação Infantil, esses aspectos tornam-se ainda mais rele vantes, pois o desenvolvimento cognitivo e integral da criança está associa- do ao seu corpo e seus movimentos.Como comentamos anteriormente, o professor e a escola precisam estar cons- cientes dessa interdependência se real- mente desejam ampliar sua colaboração e seu compromisso com a aprendizagem de seus alunos. A Educação Infantil deve sempre valorizar o corpo e o movimento, relacio- nando-os aos objetivos e ações pedagó- gicas e promovendo o desenvolvimento das habilidades a seguir: Habilidades motoras – força, equilíbrio, flexibilidade, coordenação fina e ampla, latera lidade, entre outras. Habilidades comporta men tais – desinibição, socia li zação, conceito de saúde (qualidade de vida, tempo livre, lazer), vi vências emocio nais etc. Habilidades expressivas – fluência verbal, ritmo, expressão dramática, dicção e destreza manual. (F O N SE CA , 2 00 4, p . 2 0) A mente não seria o que é se não existisse uma in- teração entre o corpo e o cérebro durante o proces- so evolutivo, o desenvol- vimento individual e a in- teração com o ambiente. (DAMÁSIO apud FON- SECA, 2004, p. 20) Nesse espaço, vamos propor um texto relacionado ao nosso tema de estudo, para valorizarmos a diversidade de ideias e os conceitos elaborados por outros autores. Destacamos alguns trechos de um material produzido pelos professores Berry Brazelton e Joshua D. Sparrow. Este escrito é muito interessante para refletirmos sobre as ações cotidianas e as relações sociais das crianças. O cenário da narrativa é uma pracinha – um lugar que nem sempre é observado com atenção pelos educadores. A história ilustra detalhadamente experiências cotidianas na infância. “Na pracinha” foi extraído do livro 3 a 6 anos: Momentos Decisivos do Desenvolvimento Infantil, de Brazelton e Sparrow (2003, p. 21-26). Na pracinha A pracinha estava cheia. Crianças correndo com seus cuidadores ou suas babás, e as mães agrupadas nos bancos. Vários cães correndo em grupo voltavam ocasionalmente para cheirar os pés de “suas” crianças antes de retornar para o grupo. As crianças tinham, na sua maioria, menos de quatro anos. Seus irmãos estavam na escola – pré-escola e escola “de verdade”. Livres da pres- são da dominação de seus irmãos, as crianças de dois e três anos corriam de uma atividade para outra. Pais ou cuidadores atentos precisavam correr para cima e para baixo com elas para manter as conversas. As crianças eram estimuladas a acompanhar as atividades umas das outras. As caixas Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 76 de areia eram as áreas silenciosas. Os escorregadores e o carrossel eram locais ativos. Quatro crianças, dois meninos e duas meninas – nossos quatro atores principais neste livro – faziam parte dessa confusão. Um menino ativo e um menino tranquilo, Billy e Tim; uma menina persuasiva, Minnie; e uma menina alegre e extrovertida, Marcy, brincavam com as outras crianças. Billy, um menininho alegre, ativo, chegou neste cenário com sua mãe. Seu rosto redondo tinha uma aparência de querubim. Suas bochechas macias e cheias, seus olhos grandes, seu cabelo revolto, sua tagarelice e dedo na boca – tudo parecia planejado para torná-lo cativante. Era difícil não querer abraçar Billy. Quando ele estava disposto, tudo bem. Mas quando não estava, ele se esquivava. Ele queria ficar livre para perambular, indagar, descobrir seu mundo. Ele ainda parava com os pés separados, embora mais firmemente agora. Ocasionalmente, tropeçava. Ele estava afobado. Ainda não tinha dominado o planejamento motor, antecipando como seu corpo teria que se mover a compasso para chegar aonde queria. Aos três anos, chegar lá é mais importante do que imaginar como. Na maioria das vezes, contudo, seu desenvolvimento motor lhe permitia movimentar-se com maior segurança e domínio. Como resultado, ele queria estar com todos, mas nem sempre com pessoas que representassem abraços. Ele precisava explorar o mundo, e, para ele, a parte mais importante do mundo eram as pessoas. Billy era sempre sorridente e sociável. Ele se aproximou de um grupo de crianças de três anos na caixa de areia. “Oi. Eu sou Billy.” Ninguém levantou a cabeça. Impávido, ele se sentou ao lado de um menino que estava fazendo um castelo de areia. Imitando-o, começou a fazer um castelo exatamente como o da outra criança. Sem se olharem, os meninos tornavam-se cada vez mais conscientes dos movimentos um do outro. Billy pegou uma tigela, encheu-a com areia, e virou-a no chão; quando ele a desvirou, a areia tomou a forma da tigela. A outra criança ficou claramente impressionada. Os dois chegaram mais perto um do outro e começaram a construir juntos. A mãe de Billy estava impressionada com a capacidade de Billy de se “entrosar”. Assim que Billy fez uma amizade, as outras crianças pareceram reconhecer a força deles como um par. “Billy, olhe aqui.” “Tommy, você me ajuda a construir?” Eles chegaram mais per- to uns dos outros. Uma outra criança, uma menina, reconheceu uma afinidade com Billy: “Você tem cabelo encaracolado. A sua mãe faz isso?” “Faz o quê?” “Encrespa ele. Meu cabelo é enca- racolado, também, mas as crianças caçoam de mim.” Billy retornou a sua construção de areia como se isso tivesse que ser ignorado. A menina chegou mais perto dele. “Quer andar na minha bicicleta?” Billy olhou para ela, animado. “Claro.” Ela correu até seu triciclo. Billy seguiu-a o mais rápido que podia. Ela segurou no guidão enquanto ele subia. Assim que se acomodou, ele tentou pedalar. A princípio, seu pé escorregou. A menina riu. Billy olhou em volta, embaraçado. Colocando seu pé mais reto sobre os pedais, ele começou a mover-se, mas para trás. Ela riu. “Assim não”, disse. Billy percebeu seu erro e começou a pedalar para a frente. Orgulhoso de sua realização, ele começou a gritar: “Olhem!” As outras crianças de três anos pararam para olhar com admiração. Aprender a pedalar um triciclo é uma grande façanha. De caminhar a correr e a empurrar um carrinho são marcos na vida de uma criança de dois anos. Então, um ano mais tarde, ser capaz de dar impulso, de alternar os pés, de pedalar com suas próprias pernas e ser capaz de inverter o movimento é uma vitória importante para uma criança de três anos. Não é de admirar que Billy estivesse orgulhoso. Sua capacidade de controlar seu próprio comportamento para adaptar-se ao de outras crianças, e ingressar em suas brincadeiras, é uma medida de sua capacidade de adap- tação. Ele está ansioso para conquistar essas crianças para brincar com elas. Sua persistência e determinação em ter sucesso na interação social é uma amostra de seu temperamento. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 77 A mãe de Billy sentou-se no banco com as outras mães. Ela estava confiante de que Billy po- deria tomar conta de si mesmo. Ele já sabia como tranquilizá-la com sua habilidade? Enquanto ela observava Billy com as outras crianças de sua idade, ela percebeu o quanto ele era carinhoso. Um certo momento, uma criança atirou um punhado de terra nele. Billy olhou firme para o culpado. “Não! Não atira.” A senhora Stone ficou fascinada com o fato de que ele tivesse assimilado sua repreensão e estivesse agora pronto para usá-la para proteger-se. Em vez de atirar terra de volta, ele tinha usado palavras que ouvira antes. As outras crianças olharam com surpresa, escutaram e pararam. Marcy já estava na área dos brinquedos. Embora ela ainda caminhasse, às vezes, com passo incerto – movendo-se com seu andar de base larga, com passos bastante desajeitados, era bonito observá-la. Se ela tropeçava, caía e levantava em um único movimento sem parar. Seus olhos faiscavam. Seu sorriso era contagiante. Ela subia a escada com deliberada con- centração, mas escorregava quandodistraída. Subia e descia do escorregador. Andava em seu triciclo com destreza. Em casa, conseguia colocar a chave na porta da frente, embora tateasse desajeitadamente, e podia desamarrar seus próprios sapatos. Ela podia empilhar dez blocos um em cima do outro formando uma torre, colocando cada canto precisamente em cima do topo do bloco de baixo. [...] Cada novo objeto precisa ser examinado, ser experimentado. Uma grande folha deve ser desenterrada e virada para um exame minucioso. Uma pedra torna-se um objeto de curio- sidade – “Ela é pesada? É áspera? Está suja? O que há debaixo dela?” Aquela minhoca se contorcendo deve ser pega e examinada. Uma admiração ativa marca cada experiência. Cada folha é a primeira. Marcy corria para cada criança. “Estou aqui!” Ela esperava uma resposta antes de passar para a próxima criança. Ao se aproximar de um menininho que estava sentado no colo de sua mãe, ela o cumprimentou. Quando ele se retraiu e se virou para sua mãe, ela repetiu seu cumprimento apelando para a mãe dele. Com sensibilidade, ela baixou sua voz para dizer: “Eu sou Marcy. Eu também sou tímida.” Ela obviamente não era. Naturalmente, as outras crianças começaram a dar-se conta de sua presença. Várias delas começaram a segui-la. Ela rapidamente tornou-se a líder das crianças de sua idade. Ela levava seu papel a sério. “Vamos para os brinquedos.” Os outros a seguiam. “Vamos atravessar o túnel.” Eles a seguiam. “Vamos andar na minha bicicleta.” Eles a seguiam. Todos eles tentaram subir no triciclo ao mesmo tempo. Ele virou. Ninguém conseguiu andar. [...] Quando a senhora McCormick segurava Tim em seu colo na pracinha, ela se sentava sozinha em um banco do lado oposto das outras mães como se tivesse vergonha do apego de Tim. Ela sabia que se ela se sentasse com as outras mães, todas elas lhe dariam conselhos. “Simplesmente coloque-o no chão e deixe-o chorar, ele vai superar isso.” “Minha filhinha era exatamente assim, mas ela finalmente se acostumou com as outras crianças.” “Convide uma criança para brincar com ele. Assim ele pode aprender sobre outras crianças.” Eles observaram as outras crianças brincando, e, à medida que a senhora McCormick foi relaxando, a vigilância de Tim começou a diminuir. Ele procurou seu cobertor. Ele ficara em casa, então ele agarrou-se ao vestido da mãe, apertou-o em uma mão, e chupou seu polegar com a outra. Enquanto fazia isso, ele começou a relaxar. Ele observava e observava. Ele até começou a falar sobre as crianças que estava observando. “Ele não gosta daquele escorregador. Ele não quer subir nele.” Ele não estava falando para ela, mas ela podia dizer que essa era uma tentativa de Tim participar com as outras crianças. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 78 Algumas das outras crianças de três anos eram curiosas em relação a Tim e sua mãe. Elas os observavam pelos cantos dos olhos. Após uma menininha ter se machucado em um brinque- do, ela aninhou-se no colo da mãe; ela chupava seu polegar e manuseava o vestido de sua mãe como se estivesse imitando Tim. Quando as outras crianças viram, elas olharam para Tim e para a menininha. Elas tinham feito a associação. A completa dependência de Tim era uma ameaça a todas elas, porque elas apenas recentemente haviam começado a viver por conta própria. Um me- nininho correu até a senhora McCormick: “Põe ele no chão! Faz ele brincar!” Nessa idade, todas as crianças ainda estão elaborando sua independência. É assusta dor ver alguém representando sua própria luta. Minnie entrou correndo na pracinha. Suas pernas e seus braços pareciam asas, seu rosto, ansioso. Enquanto corria, ela se inclinava para a frente, como se suas pernas não fossem conseguir levá-la até aonde ela queria ir. “Ei, estou aqui!”, gritou ela para ninguém em particular. Sua mãe caminhava silenciosa mente atrás dela. Ela não esperava acompanhá-la. Durante esses três anos, a mãe de Minnie tinha se perguntado de onde Minnie tinha vindo. A doce, paciente e cativante irmã mais velha de Minnie, May, não tinha preparado seus pais para Minnie. Ela era diferente de tudo o quanto a senhora Lee jamais havia vivenciado. Um rolo compressor, ela nunca parava de se movimentar. Ela escalava, ela saltava, ela testava cada peça da mobília, cada pedra da calçada, cada brinquedo da pracinha. Enquanto sua mãe a observava, seu coração palpitava a cada nova audácia da filha. A advertência “Minnie, não suba até em cima até eu chegar aí!” foi ignorada. Minnie parecia ter sido engolida pela excitação física do movimento. Ela tinha um tipo de impru- dência que fazia sua mãe exasperar-se ao observá-la. Quando a senhora Lee chegou ao “grande” escorregador, Minnie já havia subido e descido do outro lado. Quanto mais a senhora Lee ten- tava acompanhá-la, mais Minnie parecia acelerar-se. Quando Minnie voltou para subir, sua mãe segurou seu braço em uma tentativa de fazê-la desacelerar; Minnie desvencilhou-se e continuou subindo. Sua imprudência, misturada com sua capacidade de realizar essas proezas físicas, faziam sua mãe sentir-se desconectada e um pouco inútil. [...] A pracinha é frequentemente a primeira aventura de uma criança no mundo mais amplo. Aqui, as crian ças aprendem com e sobre outras crianças, sobre a individualidade de cada uma. Os seres humanos são animais sociais desde o início. No começo, os bebês são “ligados” para procu- rar e envolver-se em relaciona mentos. Por volta dos três anos, eles não apenas aprenderam, mas podem pensar sobre a importância da comunicação e das relações com os semelhantes. “Você é meu melhor amigo.” Relacionamentos sustentadores com os pais estabelecem o tom. Uma criança sabe o quanto pode ser recompensador olhar, falar, escutar, tocar e exigir atenção de um adulto importante. Os irmãos foram modelos para o aprendizado sobre relacionamentos ambivalentes – às vezes rivais, às vezes carinhosos, mas sempre excitantes. Um irmão fornece os lados positivo e negativo de um relacionamento apaixonado, bem como a oportunidade sedutora de envolver um pai, que tentará acabar com a rivalidade! O grupo de iguais oferece às crianças uma janela para dentro da qual elas podem olhar e ver a si mesmas. Frequentemente elas estão no mesmo estágio de desenvolvimento, lutando com os mesmos problemas, encarando as demandas dos próximos passos do desenvolvimento. Contudo, elas também são diferentes. As diferenças oferecem um caleidoscópio de experiências, uma forma de testar quais poderiam ser nossos próprios sentimentos. Uma criança pode ver-se em um espe- lho, à medida que experimenta as reações de outra criança. A chance de brincar com seus iguais e modelar-se a partir de suas reações e seus estilos de aprendizado oferece a oportunidade para aprender sobre si mesma. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 79 As dimensões da aprendizagem Há muitas escolas que não passam de jacarés. Devoram as crianças em nome do rigor, do ensino apertado, da boa base, do preparo para o vestibular. É com essa propaganda que elas convencem os pais e cobram mais caro... Mas, e a infância? E o dia que não se repetirá nunca mais? Rubem Alves Durante muitos anos, os educadores estavam interessados em discutir a capacidade de aprendizagem do ser humano. Nesse sentido, ainda escutamos alguns professores imprudentes dizerem: “Este aluno não aprende nada. Por mais que eu fale, ele não aprende.” Hoje, as afirmações desse tipo estão ultrapassadas, pois não restam dúvidas sobre o potencial da aprendizagem. Todos são capazes de aprender. Atualmente, uma discussão pertinente entre os educadores não questiona se “o aluno aprende ou não aprende” ou “o quanto eleaprende”, mas está vol- tada a questões mais amplas como: “de que modo podemos favorecer a apren- dizagem?”, “que ações pedagógicas adotaremos para facilitar a construção de conhecimentos?” Essa perspectiva qualitativa (e não quantitativa) do ato de aprender é de extrema relevância para o educador infantil porque ele tem um papel de destaque nas descobertas e na aprendizagem de seus educandos. O caráter “quantitativo” da aprendizagem, amplamente difundido na escola convencional, é um equívoco na condução do processo educacional, como nos ilustra a afirmação de Albert Einstein (1994, p. 36): Por vezes, vemos na escola simplesmente o instrumento para a transmissão de certa quan- tidade máxima de conhecimento para a geração em crescimento. Mas isso não é correto. O conhecimento é morto; a escola, no entanto, serve aos vivos. Ao analisar essas considerações, concluímos que o foco da educação atual deve ser cada vez mais o processo e não o produto, porque o produ- to valoriza a quantidade e não considera a qualidade da aprendizagem. Para efetivamente colaborarmos com a construção de saberes por parte de nossos alunos, é preciso conhecer as dimensões humanas envolvidas no processo de aprendizagem. Os estudos na área da Psicologia e da Psicopedagogia geraram novos concei- tos sobre as dimensões da aprendizagem humana e fornecem dados importantes para qualificarmos as interações nos ambientes educacionais. Lembramos, então, as quatro dimensões envolvidas na aprendizagem: cognitiva; afetiva; psicomotora; de fé e crenças. A dimensão cognitiva é sem dúvida a mais cultuada na educação. Ela está relacionada com a forma racional e estruturada do conhecimento. Por décadas, Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 80 os educadores só olharam para essa dimensão da aprendizagem e, muitas vezes, confundiram-na com o próprio conteúdo das ações pedagógicas. Sabemos que a cognição é fundamental para a aprendizagem humana. No entanto, ela vai além do conteúdo frio, racional e estanque proposto em diversas salas de aula de nosso país. Uma visão mais atual e completa da dimensão cognitiva abarca as relações, as coordenações e as ações que o ser humano realiza em sua vida. Os domínios cognitivos englobam as distinções, as operações, os comportamentos, os pensamentos e as reflexões. Por isso, a observação da cognição na prática educativa deve incluir o domínio das ações (o saber fazer). A dimensão afetiva da aprendizagem é a mais importante para a Educação Infantil. Ela é fundamental porque as emoções perpassam todo tipo de interação humana. Não possuímos um botão para ligar ou desligar nossas emoções – elas estão sempre presentes em nossas vidas. Sendo uma emoção intrínseca a qualquer ação humana, seja de forma direta ou indireta, a dimensão afetiva permeia e estrutura as outras dimensões do nosso ser. Até mesmo a dimensão cognitiva é permeada pela afetividade. Por causa desses fatores, precisamos valorizar a dimensão afetiva em todas as nossas ações pedagógicas, a fim de favorecer as relações interpessoais e intra- pessoais dos alunos, enriquecer suas interações e, consequentemente, facilitar seus aprendizados. A dimensão psicomotora abrange as relações corporais e motoras que o homem estabelece com o ambiente e com outros seres. É um aspecto fundamen- tal durante a infância porque, até os seis ou sete anos de idade, ela representa a principal via de expres são da criança. Se não valorizamos a Psicomotricidade, in- terferimos negativamente no desenvolvimento das outras dimensões humanas.A valorização da dimensão psicomotora, principalmente na infância, potencializa a aprendizagem, o comportamento, a cognição e a afetividade. Sendo assim, a Educação Infantil fundamenta-se em atividades psicomotoras e oferece as condi- ções necessárias para que as outras dimensões possam progredir. Nossa prática escolar diária reflete esse conceito. Quase todas as ações que propomos às crian- ças envolvem o corpo, o movimento e a motricidade. A dimensão de fé e crenças não é menos importante para a aprendizagem. No entanto, ela foi negada pela ci- ência clássica e pelos teóricos da Educação durante muito tempo. Esses estudiosos pareciam desconsiderar que todo ser humano vive em uma cultura com crenças e valores morais e éticos. Somos seres da mesma espécie, mas demonstramos grandes diferenças cul- turais. Os valores culturais são transmitidos e transformados ao longo das gerações e constituem a nossa história. Sabemos que a cultura engloba crenças, religiões, Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 81 ideologias, valores, visões de mundo e do próprio ser, influenciando nosso pensa- mento e nossa aprendizagem. Devemos observar e respeitar a dimensão de fé e crenças sempre presente nas relações do indivíduo com sua aprendizagem. Valorizar e aceitar as diferen- ças culturais de cada educando significa colaborar para sua aceitação social, suas interações e o seu aprender. Apresentamos cada uma das dimensões da aprendizagem em separado para você visualizá-las e compreendê-las mais facilmente. Porém, não fique com a falsa impressão de que elas são estanques. Não é possível desenvolver a cognição sem trabalhar a afetividade, ou a Psicomotricidade sem respeitar a cultura de cada comunidade. Uma Educação Infantil de qualidade valoriza todas as dimensões humanas em sala de aula. Neste espaço, destacamos uma mensagem escrita por Leonardo Boff, que nos propõe uma reflexão sobre a importância do ponto de vista das experiências individuais. A partir deste texto, queremos também ressaltar o quanto o seu olhar e as suas vivências são fundamentais para o trabalho do educador infantil. Por exemplo, sem a sua participação ativa nesta disciplina, ou sem a adequação dos conteúdos aqui apresentados à realidade de seus alunos e de sua escola, sua atuação pedagógica perderá o sentido. O trecho a seguir pertence ao texto “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”, extraído do livro A Águia e a Galinha: uma metáfora da condição humana (Vozes, 1997, p. 9-10), de Leonardo Boff. Todo ponto de vista é a vista de um ponto Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. [...] Sendo assim, fica evidente que cada leitor é um coautor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O corpo e o movimento na Educação Infantil 82 Agora, vamos propor um desafio importante para aprofundarmos nossos estudos. Gostaríamos que vocês respondessem às questões a seguir. Qual a relação entre a criança e o movimento? Qual a influência do corpo e do movimento na aprendizagem? Suas ações pedagógicas cotidianas costumam enfatizar qual das dimensões da aprendizagem humana? Formem pequenos grupos para discutir essas questões e formular respostas coletivas. Não es- queçam de escutar seus colegas, respeitando suas opiniões e sabendo aceitar a diversidade. Nãobus- quem respostas fáceis – no cotidiano escolar, não há respostas nem tarefas fáceis. Ao terminar de responder às questões, cada grupo deve elaborar um cartaz bem criativo para representar sua visão sobre o tema “a criança e o movimento”. Para isso, usem recortes, tintas, giz de cera, lápis de cor, giz colorido ou outros materiais disponíveis. Quando todos concluírem, cada grupo mostrará o seu cartaz aos demais colegas e comentará suas respostas. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 83 As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor As múltiplas inteligências e o movimento F oi na Grécia Antiga que o homem começou a cultuar o corpo e a mente. A civilização grega preocu pava-se em ocupar o tempo e o espaço de forma graciosa e inteligente. Por isso, buscou desenvolver a forma física, o equilíbrio, a simetria e os diferentes aspectos da inteligência. As artes, as ciências e os esportes foram manifestações que confirmaram esse desejo de harmonia entre o corpo e a mente. Alguns séculos mais tarde, os romanos retomaram essas preocupações e manifestaram a cultura da “mente sadia em um corpo sadio”: não basta sermos apenas inteligentes ou dotados de boa forma e coordenação física – é preciso conjugar as habilidades do corpo e da mente. Isso nos faz pensar sobre as relações existentes entre as inteligências humanas e o desen- volvimento motor. Sabemos que o ser humano possui qualidades muito específicas, chamadas de habilidades, competências ou inteligências. Cada indivíduo desenvolve essas habilidades de maneira diferente, aprimorando mais umas que outras ao longo de sua vida. No universo escolar, também percebemos que cada aluno tem certas habilidades mais desenvol- vidas do que outras. Veja os exemplos a seguir. Viu como o Roberto tem facilidade para manipular objetos? O filho do Carlos tem um ouvido! Já sabe até tocar violão sem nunca ter estudado música. A Cláudia tem grande desenvoltura com as palavras. O João parece uma calculadora: faz todas as contas de cabeça. Quando observamos essas considerações, percebemos a manifestação de diferentes tipos de inteligência. Essas distintas capacidades de aprendizagem são caracterizadas por Howard Gardner (2002) como inteligências múltiplas. Esse autor define sete tipos de inteligência que são usados para a realização de ações específicas. Vejamos quais são elas no diagrama apresentado a seguir. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 84 As sete inteligências Quinestésico-corporal Intrapessoal Interpessoal Música Visual e espacial Lógico- -matemática Linguística Esportes Dança Mecânica Trabalhos manuais Passatempos Imaginação Independência Privacidade Autoconhecimento Literatura Poesia Comunicação Rádio Teatro Escrita Cálculo Ciência Quantificação Artes visuais Escultura Decoração Filmes Diagramas Música Ritmo Composição Cooperação Liderança Trabalho em grupo Interação Apesar de ter caracterizado essas sete inteligências, Gardner destaca que podem existir muitos outros tipos ainda não estudados. O autor também reitera que não podemos encará-las como entidades isoladas: é preciso considerar o con- junto das inteligências de um indivíduo e observar como umas se sobrepõem às outras em função das vivências experimentadas. A inteligência quinestésico-corporal (cinestésico-corporal ou simplesmente corporal), identificada no diagrama de Gardner, fundamenta-se nas relações entre o corpo e o movimento. Ela é requerida para a realização de tarefas que conjugam habili dades motoras e corporais. Um bailarino ou um atleta, por exemplo, são indivíduos com a inteligência cinestésico-corporal altamente desenvolvida. Tam- bém um cirurgião e um piloto de automóveis precisam da inteligência corporal para, respectivamente, manusear com habilidade os instrumentos cirúrgicos e di- rigir um veículo. Para ampliar essa perspectiva de Gardner, apresentamos um importante con ceito do cientista e educador Sternberg (apud FONSECA, 2004), relacionado à Psicomotricidade. Sternberg destaca a motricidade humana como a base das relações psico mo to ras e do indivíduo com o seu contexto. Também define um intenso intercâmbio entre a subteoria multicomponencial (que corresponde ao mundo interior do homem), a subteoria multiexperiencial (socialização e vivên- cias) e a subteoria multi contextual (o contexto em que o homem está inserido), conforme o quadro a seguir. (G A R D N ER a pu d FO N SE CA , 2 00 4, p . 2 7) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 85 (F O N SE CA , 2 00 4, p . 2 9) Frente a esses argumentos, entendemos que a escola deve enfatizar o de- senvolvimento psicomotor de seus alunos. A fala, a escrita, as relações sociais e o deslocamento do corpo e de objetos no espaço são fatores que dependem de uma educação motora continuada. Nesse sentido, o educador infantil precisa qualificar-se para lidar com o desenvolvimento psicomotor e propor aos alunos um trabalho corporal e motor de forma consciente e fundamentada em parâmetros científicos. Isso porque: A Psicomotricidade na sua essência não é só a chave da sobrevivência, como se observa no animal e na espécie humana, mas é, igualmente, a chave da criação cultural. Em síntese, é a primeira e a última manifestação da inteligência. (FONSECA, 2004, p. 25) Destacamos um artigo da professora Tânia Ramos Fortuna. O seu texto ressalta o jogo e o brincar como atividades que contribuem para o desenvolvimento motor e, consequentemente, para as inteligências humanas. Selecionamos a seguir alguns trechos do artigo “O jogo”, publicado por Tânia Fortuna em Te- mas da Educação II: livro das jornadas 2003 (Futuro Congressos e Eventos, 2003, p. 397-406). O jogo Diz Kishimoto que brincadeira é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lúdica, é o lúdico em ação. Já o brinquedo supõe uma relação íntima com a criança e uma indeterminação quanto ao uso, portanto sem regras fixas; sendo suporte da brincadeira, pode ser entendida segundo a dimensão material, cultural ou técnica. O jogo, por sua vez, inclui uma intenção lúdica do jogador e caracteriza-se pela não literalidade (por Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 86 exemplo, urso não é, literalmente, o filho, mas é “como se” fosse), efeito positivo (alegria, prazer), flexibilidade (ensaio de novas ideias e combinações mais do que em atividades, não recreativas), prioridade do processo (mais importante do que os efeitos dos resultados do jogo é o fato de estar jogando), livre escolha (adesão livre espontaneamente à proposta) e controle interno (são os pró- prios jogadores que determinam o desenvolvimento dos acontecimentos). Apesar de não dizermos “brincar de cartas” ou xadrez e sim jogar cartas ou xadrez, tampouco falarmos “jogar de pegar” ou boneca, e sim brincar de pegar ou boneca, essa caracterização do jogo bem pode ser atribuída à brincadeira, pois em ambas situações percebemos uma ação livre, improdutiva, imprevisível, simbólica, regulamentada e bem-defi nida em termos de espaço e tempo de realização, como iden- tificou Caillois a atividade lúdica. [...] Como se joga? Vários autores tentaram estabelecer uma “tipologia do jogo”, da qual ex- traímos aqui algumas categorias, considerando os diferentes aspectos poreles salientados. Para Piaget, os jogos dividem-se em jogos de exercício, simbólicos e de regras, além dos jogos de construção, presentes ao longo do desenvolvimento. A finalidade dos jogos de exercício é o próprio prazer do funcionamento. Dividem-se em sensório-motores e de exercício do pensamento. Embora típicos dos primeiros 18 meses, reaparecem durante toda a infância e acham-se presentes em muitas atividades lúdicas praticadas por adultos. Os jogos simbólicos têm como função a com- pensação, realização de desejos e liquidação de conflitos, e expressam-se no “faz de conta” e na ficção. São característicos da fase que vai do aparecimento da linguagem até aproximadamente os seis, sete anos. Os jogos de regras são aqueles cuja regularidade é imposta pelo grupo, resultado da organização coletiva das atividades lúdicas. As regras podem ser transmitidas ou espontâneas e passam de uma condição inicial motora e individual, depois egocêntrica, de cooperação até a codificação. Caillois, por sua vez, classifica os jogos em jogos de azar (envolvem a ideia de acaso), com- petição (fazem intervir uma situação de competição ou de desafio contra o adversário ou para si mesmo, em uma situação que supõe igualdade de oportunidades no começo), vertigem (preten- dem destruir, ainda que por um instante, a estabilidade da percepção e impor à consciência uma espécie de pânico voluptuoso) e simulacro (ou jogos dramáticos ou de ficção, em que o jogador, os objetos ou a situação de jogo aparenta ser outra coisa do que é na realidade). Maudry e Nekula estipulam os jogos segundo o tipo de interação que oportunizam, identificando jogos solitários, paralelos, de cooperação e de grupo. Nos jogos solitários a crian- ça brinca sozinha, sendo típicos do primeiro ano. Os contatos entre as crianças dessa idade são permeados por curiosidade e explosões agressivas. Os jogos paralelos surgem em geral entre o segundo e terceiro ano, caracterizando-se pelo fato de as crianças brincarem “lado a lado”. Os jogos de cooperação manifestam-se nas atividades lúdicas envolvendo outras crianças de forma organizada, com definição de papéis e, por isso, com reconhecimento e disputa da liderança. São cooperativos porque esses papéis, muitas vezes, significam uma “participação especial” no brinquedo paralelo, sem que haja estabilidade nessa participação. Os jogos de grupo, onde quatro ou cinco crianças já conseguem brincar juntas, supõe objetivos comuns, são mais duradouros – podem se estender por vários dias, repetirem-se em varias ocasiões – e não implicam somente empréstimo de brinquedos, mas também troca de fantasias, isto é, identificação dos elementos do grupo entre si. Já Margoulis salienta o aspecto material do brinquedo, dividindo-o em brinquedo comple- tamente pronto, simples ou mecânico (p. ex., carrinho, boneca), feito aos poucos (p. ex., loteria, quebra-cabeça) e material de jogo (p. ex., argila, ligue-ligue). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 87 Erikson vislumbra o espaço e a interação por meio do jogo, por meio de conceitos como autosfera (jogo consigo mesmo, no domínio do próprio corpo), microsfera (jogos solitários envol- vendo objetos) e macrosfera (jogos que implicam relações interpessoais). Contudo, para quem brinca/joga, brinca-se por brincar, brinca-se por prazer, brinca-se por- que de que outro modo far-se-ia amigos (e inimigos)? E para o educador, quais os efeitos desta tomada de consciência sobre o brincar em seu trabalho? Em princípio todos os adultos, de algum modo e em algum momento de suas vidas, brincaram. Porém muitos parecem “esquecidos” disso, mantendo divorciadas suas lembranças de brincadei- ras infantis da realidade escolar que protagonizam diariamente. Muito poderia ser dito sobre esta “amnésia” e o destino do brincar infantil quando nos tornamos “gente grande”, mas aqui basta que saibamos que para ser educador a reconciliação com essas e outras lembranças relativas à infância é necessária, como condição e expressão de nossa capacidade de compreender os alunos e assim intervir pedagogicamente [...] O problema é que mesmo nas classes de educação infantil o brincar costuma estar ausente, ainda que quanto maiores as crianças, menos brinquedos, espaço e horário para brincar exista nas escolas. Quando aparece, é no pátio ou em sítios bem definidos da sala de aula, não “se misturan- do” com as atividades denominadas escolares. Na verdade, os adultos parecem sentir-se ameaçados pelo jogo devido à sua aleatoriedade e aos novos possíveis que constantemente se abrem. Seu papel no brincar foge à habitual centrali- zação onipotente e o professor não sabe o que fazer enquanto seus alunos brincam. Alguns, bem intencionados, entendem o brincar como atividade espontânea que cumpre seus fins por si mesma. Isso, mais a tensão decorrente da atividade lúdica, com toda a pujança de significados que vimos anteriormente, talvez explique porque não se envolvem com o brincar, deixando as crianças sozi- nhas enquanto brincam. Por outro lado, os brinquedos e jogos podem experimentar uma existência perversa na sala de aula, isto é, ao mesmo tempo muito perto e muito longe. É o que se vê em salas de aula cuja visualidade lúdica é excessiva, chegando ao ponto de ser invasiva, distanciando as crianças do brincar. Com tantas ofertas de brinquedos e situações lúdicas as crianças não conseguem assi- milar as propostas aí contidas, e acabam não interagindo com esse material. Quem não recorda a caixa de papelão ou a embalagem do brinquedo que fez mais sucesso que o próprio objeto que continha? [...] Em linhas gerais, é necessário que o educador insira o brincar em um projeto educativo, o que supõe intencionalidade, ou seja, ter objetivos e consciência da importância de sua ação em relação ao desenvolvimento e à aprendizagem infantil. Contudo, é preciso renunciar ao controle e à cen- tralização e onisciência do que ocorre com as crianças em sala de aula. De um lado, o professor deve desejar – a dimensão mais subjetiva de “ter objetivos” – e, ao mesmo tempo, deve abdicar de seus desejos – no sentido de permitir que as crianças, tais como são na realidade, advenham, reco- nhecendo que elas são elas mesmas, e não aquilo que ele, educador, deseja que elas sejam. Será a ação educativa sobre o brincar infantil contradi tória, paradoxal? Sim, tal como o brincar! Na escolha e proposição de jogos, brinquedos e brincadeiras o educador coloca o seu desejo, suas convicções e suas hipóteses acerca da infância e do brincar. A simples oferta de certos brinquedos já é o começo do projeto educativo. O Guia dos Brin- quedos e do Brincar sugere brinquedos em função dos aspectos do desenvolvimento e da apren- dizagem estimulados. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 88 Faixa etária Atividade principal Brinquedos sugeridos 0 a 18 meses Manipular objetos (atividade oral ou manual) Chocalhos, brinquedos para martelar e empilhar, brinquedos flutuantes, blocos com ilustrações, brinquedos com guizo interno. Explorar (apertar botões e mover alavancas) Móbiles, brinquedos de puxar e empurrar, quadro colorido e sonoro de engrenagens com botões e manivelas. Encaixar objetos Copos e caixas que se encaixam umas nas outras, blocos e argolas para empilhar. Compreender situações Livros de rima, ilustrações e estribilhos, brinquedos musicais e com guizo. Telefone de brinquedo. 18 a 36 meses Dirigir veículos Cavalinho de pau, triciclos, carrinho de mão, carrinho de boneca. Manipular objetos Objetos para caixa de areia (baldes, pás, formas etc.), blocos de formas e tamanhos diferentes, bolas.Organizar cenários para as brincadeiras Caixa de areia, água, mobiliário e utensílios domésticos proporcionais ao tamanho da criança. Imitar outros seres ou pessoas Fantasias, animais de pelúcia, fantoches. Solucionar problemas Quebra-cabeças simples, jogos de construção com peças grandes. Representar Argila e massa de modelar, giz de cera grande, quadro-negro e giz, tinta para pintar com os dedos, instrumentos musicais. Construir objetos/relacionar objetos semelhantes Trens, carrinhos, serviços de chá, blocos. 3 a 6 anos Cenários para brincar e ambientes Fantasias, fantoches e teatrinhos. Telefone e relógio de brinquedo. Casinha de brinquedo e brinquedos para brincar de casinha. “Homenzinhos” (soldados, heróis etc.). Garagem, autorama e ferrorama simples. Lego. Movimentar-se no espaço Triciclos maiores, equipamentos de ginástica para playground. Compreender os meio de comunicação Discos e toca-discos, livros para cobrir, cadernos de desenho, livros de história. Visão construtivista do desenvolvimento motor Após destacarmos os conceitos apresentados por Gardner, Sternberg e Tânia R. Fortuna, abordaremos a contribuição da escola construtivista para o desenvol- vimento motor e da inteligência. Jean Piaget (1971) dedicou a maior parte de sua obra à pesquisa do desen volvimento da inteligência na criança. A partir de suas experiências, clas- sificou este desenvolvimento em quatro estágios: sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório formal. Mesmo que o autor tenha enfatizado os aspectos cognitivos da inteligência, ele também considerou os fatores ambientais, sociais e afetivos que envolvem a aprendizagem. Nesse sentido, observamos a importância das ações educacionais voltadas para jogos e brincadeiras, pois elas funcionam como elementos facilitadores do de- senvolvimento da inteligência. A partir da perspectiva de Piaget, Seber (2002) des- taca os tipos de atividades a serem usadas pelos educadores infantis para facilitar a aprendizagem de seus educandos. Considerando as contribuições dessa autora, apresentamos algumas práticas que promovem as vivências corporais e motoras. Brincadeira simbólica: são atividades que usam os objetos como suporte para o diálogo da criança. Acontecem quando a criança brinca livremen- te, dramatiza histórias, constrói narrativas para depois expressá-las, con- versa com seus colegas. Imitação de sons e gestos: imitar significa expressar um modelo vi- sualizado ou interiorizado. As atividades de imitação expressam-se em brincadeiras como estátua, caminhadas imitando os animais e seus sons, mímica, coreografias, rodas cantadas, entre outras. Imitação de arranjos feitos com objetos: é a imitação de composições de ob- jetos. Essas imitações incluem atividades como reproduzir composições de ob- jetos com o corpo, ou criar e representar movimentos para objetos estáticos. Brincadeira sensório-motora: esse tipo de brincadeira ajuda na forma- ção dos modelos necessários à fase sensório-motora do desenvolvimento da inteligência. São atividades como bater, pular, acertar em alvos, asso- prar, pegar e soltar objetos, fazer recortes, pinturas, desenhos, e trabalhos com sucatas, massa de modelar e colagem, brincar com cordas e bolas, amassar papéis, entre outras. Classificação e seriação: é a capacidade de classificar, ordenar e seriar diferentes objetos e ações em função de suas características comuns. As atividades motoras que colaboram com esse aspecto da inteligência são o desporto, os jogos que trabalham movimentos em grupos distintos, e todo tipo de atividade que requer a inter-relação de gestos, falas, grupos ou objetos em função de suas diferenças ou semelhanças. (G ui a do s B ri nq ue do s e d o B ri nc ar , F un da çã o A br in q. A da pt ad o. ) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 89 Visão construtivista do desenvolvimento motor Após destacarmos os conceitos apresentados por Gardner, Sternberg e Tânia R. Fortuna, abordaremos a contribuição da escola construtivista para o desenvol- vimento motor e da inteligência. Jean Piaget (1971) dedicou a maior parte de sua obra à pesquisa do desen volvimento da inteligência na criança. A partir de suas experiências, clas- sificou este desenvolvimento em quatro estágios: sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório formal. Mesmo que o autor tenha enfatizado os aspectos cognitivos da inteligência, ele também considerou os fatores ambientais, sociais e afetivos que envolvem a aprendizagem. Nesse sentido, observamos a importância das ações educacionais voltadas para jogos e brincadeiras, pois elas funcionam como elementos facilitadores do de- senvolvimento da inteligência. A partir da perspectiva de Piaget, Seber (2002) des- taca os tipos de atividades a serem usadas pelos educadores infantis para facilitar a aprendizagem de seus educandos. Considerando as contribuições dessa autora, apresentamos algumas práticas que promovem as vivências corporais e motoras. Brincadeira simbólica: são atividades que usam os objetos como suporte para o diálogo da criança. Acontecem quando a criança brinca livremen- te, dramatiza histórias, constrói narrativas para depois expressá-las, con- versa com seus colegas. Imitação de sons e gestos: imitar significa expressar um modelo vi- sualizado ou interiorizado. As atividades de imitação expressam-se em brincadeiras como estátua, caminhadas imitando os animais e seus sons, mímica, coreografias, rodas cantadas, entre outras. Imitação de arranjos feitos com objetos: é a imitação de composições de ob- jetos. Essas imitações incluem atividades como reproduzir composições de ob- jetos com o corpo, ou criar e representar movimentos para objetos estáticos. Brincadeira sensório-motora: esse tipo de brincadeira ajuda na forma- ção dos modelos necessários à fase sensório-motora do desenvolvimento da inteligência. São atividades como bater, pular, acertar em alvos, asso- prar, pegar e soltar objetos, fazer recortes, pinturas, desenhos, e trabalhos com sucatas, massa de modelar e colagem, brincar com cordas e bolas, amassar papéis, entre outras. Classificação e seriação: é a capacidade de classificar, ordenar e seriar diferentes objetos e ações em função de suas características comuns. As atividades motoras que colaboram com esse aspecto da inteligência são o desporto, os jogos que trabalham movimentos em grupos distintos, e todo tipo de atividade que requer a inter-relação de gestos, falas, grupos ou objetos em função de suas diferenças ou semelhanças. (G ui a do s B ri nq ue do s e d o B ri nc ar , F un da çã o A br in q. A da pt ad o. ) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 90 Quantificação: expressa a relação entre elementos, quantidades e/ou proporções. Entre as atividades psicomotoras que destacam essa capa- cidade, indicamos os jogos e brincadeiras com contagem, atividades em circuitos (pois prevêem fases inter-relacionadas), dança, ritmo e coreografias. Apresentamos hoje neste espaço uma homenagem que o escritor, médico e professor gaúcho Moacyr Scliar fez a todos os mestres e educadores. Em seu texto, o autor fala-nos sobre a sabedoria e a importância dos mestres na vida de seus alunos e discípulos. O texto “Aos mestres, com carinho” foi extraído do jornal Zero Hora, edição de 13 de outubro de 2004. Aos mestres, com carinho Queridos alunos, leiam com atenção o texto que segue. “Ah,o nosso Mestre. É impossível esquecer o nosso Mestre. Nós, os seus discípulos, o adorávamos. O nosso Mestre era sábio, mas não usava a sabedoria como sinal de superioridade. O nosso Mestre tinha autoridade, mas não era autoritário. O nosso Mestre era enérgico, mas era generoso também. Sobretudo, o nosso Mestre sabia como nos ensinar. Nós bebíamos suas pala- vras, porque sentíamos que nasciam da experiência – da experiência dele próprio e da experiência dos Mestres que o haviam precedido. O nosso Mestre podia ser retórico, mas também podia nos ensinar contando uma boa história, uma simples e curta narrativa que, no entanto, fazia com que pensássemos. O nosso Mestre às vezes era categórico; mas muitas vezes substituía as afirmações por interrogações: perguntas cujas respostas deveríamos encontrar em nós mesmos. Um grande mestre, o nosso Mestre.” Leram? Então respondam: de quem fala esse emocionado discípulo? a) De Sócrates, que fazia do diálogo um método de ensino? b) De Jesus, que com suas parábolas expressava verdades fundamentais sob a forma de historietas? c) De Confúcio, o expoente da sabedoria oriental? Qualquer uma das respostas acima serviria: estamos falando de mestres que marcaram nosso mundo. Mas eu aconselharia vocês, caros alunos, a lembrar outros mestres, mestres que estão mais próximos de vocês no espaço e no tempo: os anônimos professores e professoras, que, em condições muitas vezes precárias e com baixos salários, dão o melhor de si por seus alunos. Mes- tres que são sábios, mas que não usam a sabedoria como sinal de superioridade; mestres que têm autoridade mas não são autoritários. Mestres que sabem ensinar seja explicando, seja contando histórias, seja desafiando os alunos com perguntas adequadas. Mestres cuja importância às vezes não é reconhecida, mas que nem por isso fica menor: graças a eles, aquilo que a humanidade aprendeu por meio dos tempos, as lições dos grandes mestres – e dos grandes artistas, e grandes cientistas – chega a vocês. Pensem nisso, queridos alunos... Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 91 A tarefa em grupo de hoje vai ser um pouco diferente, pois vamos trabalhar com a mímica, uma atividade que representa o uso simultâneo de diversas inteligências. Para realizá-la, reúnam-se em grupos de cinco ou seis integrantes. Procurem trabalhar em novos grupos, evitando a formação de “panelinhas”. Cada grupo terá de escolher três títulos de filmes famosos. Depois, os integrantes criarão uma mímica para representar cada um dos títulos escolhidos. Quando todos estiverem prontos, cada grupo apresentará suas mímicas aos demais colegas, contando com 30 segundos por título. A turma deverá adivinhar o título do filme em questão. Com o auxílio de um relógio, o professor vai coordenar esta atividade. Ao final das apresentações, levantem as dificuldades de comunicação que acontecem quando usamos somente nosso corpo para expressar ideias e conceitos. Para orientar o debate, indicamos algumas questões como quais as ideias que conseguimos efetivamente expressar por meio de nossos corpos? Como cada um se sentiu ao usar somente o corpo para se comunicar? Como o grupo recebeu as apresentações? Todos conseguiram decifrar os títulos dos filmes? As relações existentes entre os integrantes da turma colaboraram na expressão pela mímica? Quais os aspectos que facilitaram o entendimento dos títulos? Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br As relações entre a inteligência e o desenvolvimento motor 92 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 93 A dança e a música na Educação Infantil A dança na escola Eu só acredito num Deus que dança. Nietzsche D urante muito tempo, a dança escolar esteve relacionada a dois estereótipos: a apresentação de coreografias (executadas principalmente por meninas) e a dança folclórica. No entanto, fora do ambiente escolar, poucos estilos de dança valorizam mais as mulheres em detrimento dos homens – veja-se o exemplo de famosos bailarinos conhecidos mundialmente. Diversos tipos de dança estão presentes no cotidiano de diferentes sociedades. A dança é uma manifes tação cultural e social. Especialmente entre nós, brasileiros, com a marcante característica do “saber gingar”, ela representa um importante modo de expressão. A dança na escola e na vida deve ser uma atividade para ambos os sexos, pois visa à promoção de vivências corporais e experimentações com o ritmo. O ato de dançar também é muito positivo no ambiente escolar, porque requer o uso de diferentes habilidades motoras, contribuindo para o desenvolvimento integral das crianças. A música, naturalmente associada à dança, é um elemento constantemente inserido no contexto da escola infantil. Vocês devem conhecer algumas canções como “Bom-dia” e tantas outras com as quais trabalhamos diariamente em sala de aula. É por meio desse tipo de prática que inserimos a dança no universo infantil. Então, parece-nos evidente a exploração desse estímulo quando buscamos facilitar o desenvolvimento das capacidades motoras e da criatividade de nossas crianças. A dança é uma das formas de expressão fundamentais para o desenvolvimento psicomotor. Isso porque, quando alguém dança, está necessariamente controlando e coordenando seus movimentos corporais associados ao pensamento. O resultado dessa atividade é o exercício físico e mental relacio- nado ao prazer e à alegria. Na escola infantil, podemos trabalhar com quatro tipos de dança: dança criativa; dança figurativa; iniciação na dança folclórica; rodas cantadas. Dança criativa A dança criativa está presente em muitas circunstâncias da realidade escolar. As próprias crianças, em suas brincadeiras no pátio da escola, inventam “coreo grafias” e dançam as músicas Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 94 da moda ao seu jeito. Naquele momento, elas estão dançando livremente e ex- plorando sua criatividade. A observação do universo infantil é sempre a maior fonte de dados para um educador consciente de sua função. No mundo ocidental, a “dança criativa” ao lado da “dança educativa” ou da “dança- - educação” são quase que consensualmente aceitas como modalidades similares de edu- cação para crianças na área de dança no contexto escolar. (MARQUES, 2003, p. 130) A dança criativa é uma dança não coreográfica, realizada a partir de estímulos sonoros (músicas e/ou ruídos). Ao praticá-la, a criança cria movimentos livremente ou a partir da provocação de um mediador. Desse modo, a dança cria- tiva parte de uma brincadeira infantil e se manifesta quando a criança usa seu próprio corpo para brincar e se movimentar ao ritmo de uma música ou som. Nos ambientes de Educação Infantil, o educador pode trabalhar a dança criativa provocando reações e interpretações por parte das crianças. Por meio de brincadeiras que envolvem situações e sons específicos, o professor estimula a criança a dançar e usar sua imaginação. Por exemplo: “Estamos agora no circo e cada um vai dançar como um personagem desse circo”, ou “Agora somos uma tribo de índios e cada um se movimenta como um índio.” Segundo Marques, a dança criativa “sugere que as aulas de dança devem permitir e incentivar os alunos a experimentar, explorar, expandir, colocar seu eu no processo de configurações de gestos e movimentos” (MARQUES, 2003, p. 140). Assim, essa prática representa um meio para a criança manifestar e explo- rar suas habilidades motoras, sua afetividade e sua cognição. Entretanto, para propora dança na escola infantil, o educador precisa sempre considerar as fases do desenvolvimento motor relacionadas a esse tipo de atividade. Primeira fase (dos primeiros passos até os dois anos): o corpo se movi- menta no ritmo que a música sugere, de modo mais agitado ou mais lento. Segunda fase (dos dois aos três anos): o corpo imitativo começa a fazer movimentos a partir de referências visuais. Terceira fase (após os três anos): a criança já domina algumas habilidades motoras básicas e pode trabalhar a dança criativa. Dança figurativa As danças figurativas ou com imagens estão presentes no universo infantil a partir dos dois anos de idade. São aquelas que integram ritmos e imagens às habilidades motoras. A criança pratica esse tipo de dança ao usar seu corpo para expressar imagens e ações indicadas na letra de uma música. Um exemplo de dança figurativa é quando a criança escova seus dentes com o seguinte estímulo musical: “O ursinho pequenino pega a escova e escova assim, assim, assim...” Ou quando o dia começa na escola e os pequenos alunos movimentam-se ao som de “Bom-dia, bom-dia, espreguiça o corpo todo, gira e diz bom-dia... Agora mexe a perna, mexe o braço e diz bom-dia...” Esse tipo de música que orienta a dança figurativa é também bastante usado nas apresentações Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 95 infantis em datas comemorativas do calendário escolar (Dia das Mães, Dia dos Pais, Páscoa, Natal etc.). Na Educação Infantil, a dança figurativa é muito importante não somente para promover a relação do corpo com o ritmo mas também para trabalhar a imagi- nação, as associações mentais, a coordenação, o controle corporal, a lateralidade, a dicção e a vocalização. Sendo assim, essa atividade abrange as quatro dimensões da aprendizagem (lembram quais são elas?) e deve ser valorizada sempre. Porém, cabe aos educadores ter o devido cuidado para não transformar a dança figurativa em uma prática regrada e com movimentos predefinidos. É pre- ciso deixar a criança criar seus próprios movimentos e expressar livremente as associações feitas a partir das imagens sugeridas pela música. No universo infan- til, toda dança deve desconsiderar os estereótipos e ser tratada com alegria, des- contração e sem a rigidez que inibe, exclui, desestimula e desagrega as crianças. Iniciação na dança folclórica A diversidade cultural presente em nosso país oferece a todos os educadores grandes possibilidades de trabalhar os aspectos culturais e regionais na escola. Nos ambientes educacionais, as atividades de dança folclórica geralmente estão ligadas a datas comemorativas do calendário escolar e variam conforme a região do país. São as danças típicas das festas de São João, da Semana Farroupilha, da Folia de Reis, entre outras comemorações. Na Educação Infantil, sugerimos a iniciação na dança folclórica. Dizemos iniciação porque as crianças pequenas ainda não conseguem assimilar coreografias complexas e regradas. Por isso, na infância as danças folclóricas sempre devem ter um caráter lúdico e motivador, assim como devem ser coreografias bem simples, que permitam uma expres são mais autêntica da criança e o entendimento dos aspectos culturais envolvidos em sua dança. Nesse sentido, o educador não deve transformar a dança folclórica escolar em uma apresentação formal, em que os alunos não podem cometer erros nem fugir de uma coreografia imposta. Lembrem que só a alegria, a descontração e a espontaneidade fazem a criança ter prazer em dançar. Rodas cantadas As rodas cantadas são uma variação da dança figurativa. Caracterizam-se pela expressão de movimentos coletivos associados às imagens musicais, sen- do o grande grupo mais importante que a manifestação individual. Além de promoverem as relações entre movimento, ritmo e imagens, as rodas cantadas favorecem a coordenação, a observação, a lateralidade, o equilíbrio, a dicção, a fluência verbal e a vocalização. A professora Lu Chamusca (2004), uma grande amiga e defensora das ro- das cantadas, afirma que o brinquedo cantado na infância é como o leite materno para o recém-nascido: é algo fundamental para o desenvolvimento das relações interpes soais das crianças, valorizando a descoberta individual e a descoberta coletiva, a imaginação, a fantasia e o potencial criativo. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 96 Indicamos alguns passos a serem seguidos pelos educadores que pretendem usar as rodas cantadas na sala de aula infantil: 1.o – selecione músicas conhecidas pelos alunos, ou, caso eles desconheçam, trabalhe a música com as crianças antes de propor a dança; 2.o – para brincar de roda cantada, proponha que as crianças posicionem-se em um grande círculo. Assim, umas poderão ver as ações das outras; 3.o – explique lentamente cada movimento ou gesto a ser realizado em função da música, combinando a coreografia, mas não exija demais – as crianças pequenas têm condições de fazer poucos movimentos diferenciados; 4.o – repasse a coreografia com a música, bem devagar, promovendo uma brincadeira alegre; 5.o – inicie a roda cantada pra valer e agora é só brincar, cantar, dançar e se divertir. Finalmente, lembramos que a dança faz parte das nossas vidas, o ritmo está sempre presente em nosso cotidiano. Na escola, isso não é diferente, principalmente na Educação Infantil, durante a qual as crianças estão fazendo suas primeiras desco- bertas e desenvolvendo suas habilidades motoras e, felizmente, ainda não possuem certos condicionamentos que as impeçam de participar dessas atividades. A música no universo infantil Ao falar sobre a dança, não podemos deixar de considerar a música, pois as atividades de dança partem de estímulos sonoros. Na Educação Infantil, a dança conjugada à música colabora para um desenvolvimento integrado da mente e do corpo, facilitando a aprendizagem e o desenvolvimento motor. E quem não se emociona ao ver uma criança, que acabou de aprender a caminhar, embalando-se ao ritmo de uma música? Gardner (2002) define que a primeira inteligência humana demonstrada na vida social é a inteligência musical, pois, ao sairmos do útero materno, descobrimos o mundo pelos sons do ambiente em que vivemos, pela voz da mãe e demais familiares. Em função disso, a educação usa a música como estímulo ao desenvolvimento de várias habilidades e competências humanas. O educador infantil não deve abrir mão dos jogos musicais, das rodas cantadas, da exploração e produção de ritmos – enfim, da presença da música nas ações pedagógicas diárias. A música tem sido amplamente utilizada na escola como um objeto lúdico e expressivo e também por representar um meio de esta- belecermos vínculos interpessoais e fomentar a socialização. Ao cantar em grupo, por exemplo, as crianças compartilham sua energia, sua expressão, sua espontaneidade e sua alegria. O ato de cantar ou produzir sons com instrumentos, coletivamente, potencializa a integração do ritmo às habilida- des psicomotoras individuais, assim como promove a sociabilidade. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 97 Toda ação musical (seja cantar, bater palmas com ritmo ou produzir sons por meio de instrumentos improvisados e sucatas) colabora para o desenvolvimento infantil. São práticas muito simples, porém de grande valor, pois possibilitam a descoberta do ritmo e o exercício da coordenação motora. As atividades musicais são sempre bem-vindas em sala de aula. Mas às ve- zes ficamos em dúvida sobre o tipo de música aser utilizada nas brincadeiras in- fantis. Se usarmos somente as músicas de roda, podemos nos afastar da realidade das crianças porque hoje elas escutam os mais variados gêneros musicais. E se adotamos apenas as músicas veiculadas na mídia, corremos o risco de introduzir temas inadequados para as crianças (em função do conteúdo das letras). Esse dilema só pode ser administrado por meio do bom senso. Para tomar uma decisão em relação às músicas destinadas a práticas pedagógicas, o educador deve considerar o gosto das crianças, os hábitos e valores vigentes em sua forma- ção e os propósitos e objetivos da ação escolar. Nesta unidade, destacamos as palavras da professora Dionísia Nanni, que aborda as relações existentes entre movimento, dança, história da humanidade e ritos. O texto “O movimento na dança” foi extraído de Dança Educação: princípios, métodos e técnicas (SPRINT, 1998, p. 14-17). O movimento na dança A evolução dos comportamentos motores, desde os primórdios da existência do homem, teve seu aporte a partir dos movimentos naturais, hoje padrões básicos essenciais à existência do ho- mem. Hoje eles são determinados por vários motivos, desde o mais simples impulso orgânico aos estados frenéticos e emocionais com níveis que variam em estágios do mais simples ato de andar, correr, saltar, trepar, levantar, transportar, arremessar, agarrar, aos gestos e movimentos mais eficientes ou perfeitos a nível de habilidade e destreza ou chegam ao máximo de desempenho com as performances; no caso da dança, a perfeição na execução de uma técnica. Desenhos, gravuras, esculturas, pinturas em diferentes épocas materializaram e delinearam a intencionalidade de práticas corporais (gestos e movimentos) nos diferentes ciclos da existência do homem com gestos e ideias específicas de cada cultura. Sachs afirma que: [...] muitos dos desportos atuais tiveram, em tempos remotos, significado “religioso ou animista”, e que estavam relacionados à adivinhação ou à propiciação do mundo espiritual. Assim, muitas das atividades recreativas contem porâneas seriam vestígios remanescentes de atividades que se perpetuaram e que foram outrora de utilidade. O movimento, em sua gênese, se caracterizou em caráter puramente emocional – permitir ao homem ter experiências de êxtase e comunhão com os deuses em suas danças onde a essência das mesmas possibi litou a comunicação do homem consigo ou com entidades superiores. A partir de dado momento, o movimento evolui de descarga emocional involuntária para os esta- dos frenéticos e codificados durante os ritos cerimoniais; passa a dança para o domínio ritualístico. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 98 Portanto, o homem primitivo na luta pela sobrevivência dançou para aplacar a fúria dos deu- ses ou para homenageá-los; expressava e se comunicava por gestos e movimentos estruturados em sua experiência consciente e utilitária – nasce a dança ritual. Nas danças rituais, afirma Ramos: [...] as sociedades primitivas viviam aterrorizadas por tudo que as cercava, considerando a sua sobrevi- vência como favor dos deuses, dando à sua vida por conseguinte um sentido ritual de várias formas que empregando a dança manifestava o seu misticismo. Desde os tempos mais remotos, os exercícios corporais rudimentarmente sistematizados constituíam atos respeitosos nas grandes festividades, inclusive no culto dos mortos. Harrow analisa a importância do movimento ao reconhecer que a utilização eficaz e eficiente da motricidade humana depende de tomada de consciência do corpo instrumental, de compreen- são do valor significado e do efeito de uma diferenciação gestual por meio do jogo dinâmico do movimento, do equilíbrio estabelecido entre o corpo e as relações espaciais. Esses parâmetros estabelecem para o homem a apreen são e utilização de suas necessidades básicas necessárias ao ser “aqui e agora”. Isso porque o homem no desempenho de seus movimentos intencionais coordena durante o desempenho de uma habilidade motora a inter-relação de movimentos dos domínios psicomoto- res, cognitivos e socioafetivos. Esse consenso é explicado pela autora devido a fatores internos e externos do movimento. A explicação dada pela mesma é a seguinte: internamente o movimento é contínuo, e externamente sofre uma constante modificação provocada pela aprendizagem anterior, pelo meio ambiente, e pela situação imediata em que o indivíduo se encontra. Essa perspectiva ressalta a importância da dança/educação nas escolas de Ensino Fundamen- tal e Médio (principalmente) como responsável pelo desenvolvimento desses domínios no proces- so ensino-aprendizagem e confirma a importância de uma efetiva e eficaz estratégia metodológica para a ação inter e multidisciplinar. Dois fatores exerceram e exercem total e efetiva importância à dimensão histórica do homem em seu processo de desenvolvimento: o tempo e o espaço. Tempo e espaço Desde os primórdios da existência do homem que os fatores “tempo e espaço” expressavam as diferentes dimensões socioculturais e os diferentes aspectos políticos da evolução dos estágios de civili zação em que o mesmo se encontrava. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 99 [...] O domínio do movimento pesquisado por Laban e auxiliares, a princípio, se voltou para as manifestações simples dos esforços em animais selecionados e escolhidos entre os milhões de combinações de esforço ao longo de muitas gerações. Laban selecionou uma série restrita de com- binações de esforço cujos componentes constituintes [sic] das qualidades e diferenças de esforço resultam de uma atitude interior (consciente ou inconsciente) em relação aos seguintes fatores do movimento: peso, espaço, tempo e fluência. Esses fatores básicos do movimento, entretanto, no homem primitivo ou civilizado, têm a capacidade de compreender a natureza das qualidades e de reconhecer nos ritmos e nas estruturas de suas sequências a possibilidade e vantagem de treinamento consciente. Isso permite ao homem alterar e enriquecer condições positivas ou desfavoráveis. Só ao homem é dado o poder de acrescentar quantitativa e qualitativamente características intrínsecas do esforço aos seus gestos e movimentos pela energia nervosa liberada pelas diferentes qualidades do esforço. Segundo Laban, as qualidades dos movimentos introduzem a ideia de pensar por movimentos. Isso faculta ao homem modificar sua conduta de esforço tornando-os mais humanos e refinar seus hábitos de movimentos ao desenvolvimento de modalidades diferentes de configurações de esfor- ço selecionadas e aprimoradas durante os períodos da história até finalmente se tornarem expres- sivas; a partir daí se transfomam em atividades rítmicas orientadas pelos impulsos interiores se constituindo em dança. Retomando a dança na escola Durante muito tempo, as instituições de ensino desconsideraram a dança, mantendo-a reservada às apresentações em datas comemorativas e às atividades lúdicas dos anos iniciais. Por preconceito ou ignorância, a dança foi distanciada das práticas pedagógicas ao longo da vida escolar. Como educadores, precisamos considerar a dança em todos os seus aspec- tos. O ato de dançar abarca a relação do homem com seu corpo; a coordenação de habilidades motoras; a expressão de sentimentos, sensações, códigos e conheci- mentos interna lizados; a ativação da memória. A dança também promove a autoestima e a criatividade ao proporcionar um trabalho de consciência corporal. A qualidade dinâmica da dança beneficia o corpo do indivíduo na medida em que requer movimentos e esforços múltiplos, os quais variam conforme o uso da flexibilidade, da coordenação, daforça e da amplitude físicas. A consciência corporal engloba a respiração consciente, a percepção dos gestos, o equilíbrio, a coordenação dos membros e a noção espacial. Dançar é fa- zer o corpo e a mente explorarem o ritmo, as habilidades motoras e as associações mentais, é transformar emoções e pensamentos em formas. Extrapolando o âmbito individual, a dança também é capaz de reunir as pessoas, fazendo com que elas se sintam mais integradas e aceitas socialmente. Em todas as sociedades, as danças expressam a cultura vigente e as inter-relações dos indivíduos, representando uma forma de comunhão. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 100 Em função dos fatores citados, a dança pode ser usada na Educação Infantil para colaborar no desenvolvimento psicomotor, pois engloba as expressões físicas, motoras, afetivas e cognitivas das crianças. Dançando, os pequenos experimentam novas descobertas, ações e gestos, combinando-os, revendo-os, aprimorando-os, sem medo de errar. Por outro lado, juntos eles vivenciam as primeiras experiên- cias socializadoras. A dança ainda pode ser vista pela escola como um jogo que mobiliza as crianças e suas diferentes inteligências. Dançar diverte, relaxa e alegra, assim como estimula a cognição, a operação mental com símbolos e figuras e o exercício da imaginação. Retomar a dança na escola e contemplar todas suas nuances e implicações no processo de ensino-aprendizagem são atitudes fundamentais para os educadores da atualidade. A dança é um antigo meio de expressão humana que só tende a enriquecer as práticas pedagógicas contemporâneas. Destacamos um texto em que o professor Rubem Alves aborda uma nova concepção de escola em função de uma visita feita à Escola da Ponte (inovadora e renomada instituição de ensino portuguesa). Mesmo não tratando especificamente da dança, as brilhantes ideias desse educador proporcio- nam uma importante reflexão sobre as práticas diariamente difundidas nos ambientes educacionais. Muitas vezes, acreditamos que nossa escola não é capaz de mudar para melhor. E, em função desse pensamento, acomodamos-nos e não buscamos saídas mais eficientes para resolver os proble- mas enfren tados no cotidiano escolar, inclusive os que dizem respeito às ações pedagógicas. “A Escola da Ponte (3)” vem justamente ilustrar como é possível adotarmos novas posturas e métodos para qualificar o processo de ensino-aprendizagem. Este texto foi extraído do livro A Escola que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir (2003, p. 51-55), de Rubem Alves. A Escola da Ponte (3) Contei sobre a escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Mas existia, em Portugal... Quando a vi, fiquei alegre e repeti, para ela, o que Fernando Pessoa havia dito para uma mulher amada: “Quando te vi, amei-te já muito antes...” Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer qua- se tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser do jeito como são. Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito como sempre foram. Como são e têm sido as escolas? Que nos diz a memória? A imagem: uma casa, várias salas, crianças separadas em grupos chamados turmas. Nas salas, os professores ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo da aula. Os professores saem. Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que os professores es- tão fazendo? Estão cumprindo um programa. Programa é um cardápio de saberes organizados em Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 101 sequência lógica, estabelecido por uma autoridade superior invisível, que nunca está com as crian- ças. Os saberes do cardápio “programas” não são “respostas” às perguntas que as crianças fazem. Por isso as crianças não entendem por que têm de aprender o que lhes está sendo ensinado. Nunca vi uma criança questionar a aprendizagem do falar. Uma criancinha de oito meses já está doidinha para aprender a falar. Ela vê os grandes falando entre si, falando com ela, sente que falar é uma coisa divertida e útil, e logo começa a ensaiar a fala, por conta própria. Faz de conta que está falando. Balbucia. Brinca com os sons. E quando consegue falar a primeira palavra, sente a alegria dos que a cercam. E vai aprendendo, sem que ninguém lhe diga que ela tem de aprender a falar e sem que o misterioso processo de ensino e aprendizagem da fala esteja submetido a um pro- grama estabelecido por autoridades invisíveis. Ela aprende a falar porque o falar é parte da vida. Nunca ninguém me disse que eu deveria aprender a descascar laranjas. Aprendi porque via meu pai descascando laranjas com uma mestria ímpar, sem arrebentar a casca e sem ferir a laranja, e eu queria fazer aquilo que ele fazia. Aprendi sem que me fosse ensinado. A arte de descascar laranjas não se encontra em programas de escola. O corpo tem uma precisa filosofia de aprendizagem: ele aprende os saberes que o ajudam a resolver os problemas com que está se defrontando. Os programas são uma violência que se faz com o jeito que o corpo tem de aprender. Não admira que as crianças e os adolescentes se revoltem contra aquilo que os programas os obrigam a aprender. Ainda ontem uma amiga me contava que sua filha, de dez anos, dizia-lhe: “Mãe, por que tenho de ir à escola? As coisas que tenho de aprender não servem para nada. Que me adianta saber o que significa oxítona? Pra que serve essa palavra?” A menina sabia mais que aqueles que fizeram os programas. Vamos começar do começo. Imagine o homem primitivo, exposto à chuva, ao frio, ao vento, ao sol. O corpo sofre. O sofrimento faz pensar: “Preciso de abrigo”, ele diz... Aí, forçada pelo sofrimen to, a inteligência entra em ação. Pensa para deixar de sofrer. Pensando, conclui: “Uma caverna seria um bom abrigo contra a chuva, o frio, o vento, o sol...” Instruídos pela inteligência, os homens procuram uma caverna e passam a morar nela. Resolvido o sofrimento, a inteligência volta a dormir. Mas aí, forçados ou pela fome ou por um grupo armado que lhes toma a caverna, eles são obrigados a se mudar para uma planície onde não há cavernas. O corpo volta a sofrer. O sofrimento acorda a inte li gência e faz com que ela trabalhe de novo. A solução original não serve mais: não há cavernas. A inteligência pensa e conclui: “É preciso construir uma coisa que faça as vezes de caverna. Essa coisa tem de ter um teto, para proteger do sol e da chuva. Tem de ter paredes, para proteger do vento e do frio. Com que se pode fazer um teto?” A inteligência se põe então a procurar um material que sirva para fazer o teto. Folhas de palmeira? Capim? Pedaços de pau? Mas o teto não flutua no ar. Tem de haver algo que o sustente. Paus fincados? Sim. Mas para fincar um pau é preciso descobrir uma ferramenta para cortar o pau. Depois, uma ferramenta para fazer o buraco na terra. E assim vai a inteligência, inventando ferramentas e técnicas, à medida que o corpo se defronta com necessidades práticas. A inteligência, entre os esquimós, jamais pensaria uma casa de pau a pique. Entre eles não há nem madeira nem barro. Produziu o iglu. E a inteligência do homem que vive na floresta jamais pensaria um iglu – porque nas florestas não há gelo. Produziu a casa de pau a pique. A inteligência é essencialmente prática. Está a serviço da vida. Um exercício fascinante a se fazer com as crianças seria provocá-las para que elas imaginassem o nascimento dos vários objetos que existem numa casa. Todos os objetos, os mais humildes, têm uma históriapara contar. Que necessidade fez com que se inventassem panelas, facas, vassouras, o Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A dança e a música na Educação Infantil 102 fósforo, a lâmpada, as garrafas, o fio dental? Quais poderiam ter sido os passos da inteligência, no processo de inventá-los? Quem é capaz de, na fantasia, reconstruir a história da invenção desses objetos fica mais inteligente. Depois de inventados, eles não precisam ser inventados de novo. Quem inventou passa a pos- suir a receita para sua fabricação. E é assim que as gerações mais velhas passam para seus filhos as receitas de técnicas que tornam possível a sobrevivência. Esse é o seu mais valioso testamento: um saber que torna possível viver. As gerações mais novas, assim, são poupadas do trabalho de inventar tudo de novo. E os jovens aprendem com alegria as lições dos mais velhos: porque suas lições os fazem participantes do processo de vida que une a todos. A aprendizagem da linguagem se dá de forma tão eficaz porque a linguagem torna a criança um membro do grupo: ela participa da conversa, fala e os outros ouvem, ri das coisas engraçadas que se dizem. O mesmo pode ser dito da aprendizagem de técnicas: o indiozinho que aprende a fabricar e a usar o arco e a flecha, a construir canoas e a pescar, a andar sem se perder na floresta, a construir ocas está se tornando um membro do seu grupo, reconhecido por suas habilidades e por sua contribuição à sobrevivência da tribo. O que ele aprende e sabe faz sentido. Ele sabe o uso dos seus saberes. (A menininha não sabia o uso da palavra oxítona. Nem eu. Sei o que ela quer dizer. Não sei para que serve. Quando eu escrevo nunca penso em oxítona. Ninguém que fale a língua, por ignorar o sentido de oxítona, vai falar cáfe, em vez de café, ou chúle, em vez de chulé... A palavra oxítona não me ensina a falar melhor. É, portanto, inútil...) Disse, numa outra crônica, que quero escola retrógrada. Retrógrado quer dizer “que vai para trás”. Quero uma escola que vá mais para trás dos “programas” científicos e abstratamente elaborados e impostos. Uma escola que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas o corpo da criança que vive, admira, encanta-se, espanta-se, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, machuca-se, brinca. Uma escola que seja iluminada pelo brilho dos inícios. Mas, repentinamente, desfaz-se o encanto da perda da memória e nos lembramos da pergunta: “Mas, e o programa? Ele é cumprido?” Depois eu respondo. Esperamos que os trabalhos em grupo, propostos nesta disciplina, representem uma oportu- nidade para todos realmente compartilharem seus saberes e experiências. Às vezes, o trabalho cola- borativo pode parecer chato ou mesmo difícil de ser equacionado em certos grupos. Mas isso é um bom pretexto para desconsi derarmos o grande valor desse tipo de atividade. Lembrem que é preciso vivenciar os conteúdos para um aprendizado significativo e duradouro. Portanto, reúnam-se em grupos de cinco ou seis integrantes e mãos à obra! Nossa tarefa de hoje é sobre a dança na escola. Cada grupo deverá produzir uma coreografia figurativa a partir de uma música infantil. Vocês escreverão a letra da música em um cartaz (para que todos os colegas possam ver) e ensaiarão os movimentos de suas coreografias. Quando todos estiverem prontos, cada grupo vai mostrar o seu cartaz aos colegas, descrever os passos da coreografia criada e colocar toda a turma para dançá-la. Assim, todos conhecerão diferen- tes opções de coreografia e música para trabalharem com seus alunos. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 103 A expressão dramática na Educação Infantil A imaginação e a expressão dramática infantil A ntes de falarmos sobre a expressão dramática, propomos uma reflexão a partir da seguinte pergunta: “O que tem a ver o teatro ou a expressão dramática com o estudo do movimento?” Durante muito tempo, a educação motora tratou o movimento de modo descontextualizado. Da mesma forma, o teatro ressaltou a importância do texto e minimizou a relevância do movimento corporal na expressão dramática. Mas hoje sabemos que o desenvolvimento motor é essencial tanto para o teatro quanto para a Educação. Na Educação Infantil, a motricidade relaciona-se intensamente com a expressão dramática, pois, quando está desenvolvendo suas habilidades, a criança conjuga ações com seu corpo, sua ima- ginação, seu poder de imitação e de representação. Essas práticas consistem em formas de expressão fundamentais para seu desenvolvimento. Considerando esses aspectos, vamos agora falar sobre os jogos. Talvez você se pergunte: “Mas por que jogos?” Porque o jogo é um tipo de atividade capaz de facilitar tanto o desenvolvimento das habilidades psicomotoras como a expressão dramática. E se queremos proporcionar as condições necessárias ao desenvolvimento integral de nossos alunos (englobando cognição, afetividade, motri- cidade e expressão), devemos sempre adotar os jogos no cotidiano escolar. Os jogos fundamentam o trabalho de expressão dramática na escola infantil. É brincando de faz de conta, imitando gestos e expressões faciais e representando situações que a criança explora sua imaginação e sua expressão corporal. O poder imaginativo da criança faz com que ela crie e recrie constantemente o seu universo, traçando relações entre a realidade e a fantasia. Esse elo entre o real e o imaginário é muito importante para as vivências infantis. Peter Slade (1978, p. 17), renomado pesquisador da expressão dramática na infância e no universo escolar, afirma: “o jogo dramático infantil é uma forma de arte por direito próprio; não é uma atividade inventada por alguém, mas sim o comportamento real dos seres humanos”. É nesse tipo de atividade que a criança se expressa espontaneamente. Por meio do jogo dramáti- co, ela inventa, pensa, lembra, ousa, experimenta, comprova, relaxa e faz relações com o mundo que a cerca. Em função de suas potencialidades, os jogos dramáticos são recomendados como práticas pedagógicas infantis. A expressão dramática deve ser valorizada e correlacionada com as ati vida des de desenvolvi- mento motor. Isso pode ser feito, por exemplo, quando propomos cami nhadas imaginativas ou brinca- deiras com fantoches e máscaras. Todos os jogos que trabalham com a fantasia são importantíssimos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 104 para as descobertas infantis. E para aplicá-los basta providenciarmos alguns ma- teriais que estimulam a imaginação, como fantasias improvisadas, feitas de pa- pel ou qualquer outro material disponível. Até mesmo o simples ato de vestir roupas velhas e coloridas em frente a um espelho e improvisar livremente um personagem é algo capaz de mobilizar o poder imaginativo da criança e, simulta- neamente, fazê-la conhecer o seu corpo e os seus movimentos. Viola Spolin é outra autora que contribuiu para o entendimento da expres- são dramática e da improvisação teatral na educação escolar como procedimen- tos que estimulam a aprendizagem. Segundo a autora, “aprendemos por meio de experiência, e ninguém ensina nada a ninguém. Isso é válido tanto para a criança que se movimenta inicialmente chutando o ar, engatinhando e depois andando, como para o cientista com as equações” (SPOLIN, 1982, p. 5). Ao destacarmos a expressão dramática na Educação Infantil, proporciona- mos meios para a criança vivenciar diferentes papéis e ampliar sua imaginação e sua criatividadede modo prazeroso e alegre. E, indo além do momento presente, a ela damos oportunidade de se tornar, futuramente, um adulto com iniciativa e autonomia. O que é a expressão dramática escolar? Teatro, arte cênica, improvisação teatral ou expressão dramática são denominações muitas vezes mal entendidas no ambiente escolar. Vamos então esclarecer esses conceitos. Diversos autores expõem uma ampla literatura sobre o assunto. Entre eles, destacamos Fanny Abramovich, que tratou muito bem do tema em seu artigo “Teatro na Educação: o que é afinal?” (disponível em: <www. wooz.org.br/teatroeducacao.htm>). A autora levanta algumas hipóteses para esclarecer o que são as atividades dramáticas na escola (também chamadas de teatro na educação, improvisação teatral ou expressão dramática). Será que elas são as atividades realizadas nas festinhas escolares? Normalmente, as apresentações comemorativas nada têm a ver com a ex- pressão livre e espontânea da criança ou do adolescente, pois, além de girarem em torno de uma data específica, elas impõem uma temática para os alunos se expres- sarem. Portanto, não restrinja o trabalho da expressão dramática às apresentações solenes, porque esse tipo de situação tende a reproduzir padrões estereotipados. Então, seria melhor formarmos um grupo dramático na escola? O cami- nho também não é por aí, pois a seleção de integrantes determinada pelo critério “ele(a) tem jeito para” não é pertinente ao processo de ensino-aprendizagem. A expressão é uma forma de contato humano e não um dom. Talvez a formação de grupos de “atividade teatral” seja uma saída reco- mendável depois da introdução das práticas dramáticas na escola. Mas ainda Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 105 assim é fundamental cuidar do tipo de critério utilizado para a participação nesses grupos. E quanto ao tratamento de temas e conceitos específicos por meio dos jogos dramá ticos? Essa é uma possibilidade. No entanto, os educadores devem estar atentos para não menosprezarem a expressão dramática nem torná-la um mero recurso audiovisual. Seria possível utilizar essas atividades para trabalharmos as dificuldades, os problemas e as inquietações de nossos alunos? Não, porque geralmente não possuímos formação profissional (a menos que fôssemos psicólogos) para provocar emoções com as quais não sabemos lidar. Para sabermos como propor atividades dramáticas escolares, é preciso en- cará-las não como um espetáculo formal a ser apresentado, mas como um meio de expressão livre. Na verdade, quando trabalhamos a expressão dramática na esco- la, devemos proporcionar ao aluno a oportunidade de se expressar livremente, de contar suas próprias histórias e de decidir sobre o modo como ele vai compartilhá- -las com seus colegas. A função do educador infantil no jogo dramático é observar as situações criadas pelos alunos e enriquecer a prática, sem podar ou restringir a capacidade de imaginação dos participantes. O professor deve apenas fomentar os estímulos para que o jogo não cesse. A expressão dramática infantil não precisa ser conduzi- da: ela acontece naturalmente. Basta observarmos as brincadeiras no playground: as crianças estão constantemente imaginando, invertendo seus papéis, criando e recriando situações. O teatro na educação abrange a utilização de determinadas técnicas de exer- cício dramático para que crianças e jovens possam ter um conhecimento mais amplo de si mesmos e do mundo que os cerca. Ele é um veículo de autoexpressão espontânea que desenvolve a acuidade espaço-sensorial e o trabalho motor, esti- mula a curiosidade, forta lece o espírito de equipe e, consequentemente, a identi- dade do aluno como ser social. Teatro na educação é educar divertindo. Teatro infantil é divertir educando. Destacamos um texto de Peter Slade, um dos principais teóricos da expressão dramática infantil. O professor Slade sempre considera a importância do jogo dramático na relação da criança com sua aprendizagem. No texto que segue, o autor oferece dicas aos pais e professores sobre como colaborar para a expressão dramática infantil. Os trechos do texto “O que os pais podem fazer para ajudar” foram extraídos do livro O Jogo Dramático Infantil (SUMMUS, 1978, p. 25-31). Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 106 O que os pais podem fazer para ajudar Drama infantil (jogo dramático – child drama) é uma forma de expressão que diz respeito à natureza humana inteira. As crianças tornam-se confiantes e obedientes usando o drama e os adultos, sábios, observando-os, podem ver até onde uma criança chegou na vida. Pois é com a própria vida – com todo o crescimento mental e físico dos seres jovens – que essa forma de arte se preocupa na realidade. Conhecendo o drama infantil, nossa atitude para com as pessoas pode mudar e nossa compreensão pode se aprofundar. Ele é, portanto, de grande importância para todos os pais, bem como para os professores, de modo que começamos com algumas observações sobre a atitude dos pais e as necessidades da criança pequenina. Atitude geral dos pais A coisa mais importante na vida de um bebê é o amor. Isso pode soar óbvio demais. Mas o amor pode ser enganoso ou de espécie errada. Um bebê tem que ser querido antes e depois de nascer. As coisas feitas em favor da criança devem ser feitas para as suas necessidades reais e não por algum capricho senti mental dos pais. É preciso encontrar um equilíbrio de afeição, para que a criança não seja avassalada pela emoção em dado momento e militantemente repelida no momento seguinte. Exatamente como o professor na vida subsequente da criança, o pai ou a mãe não devem tentar ser santos, mas precisam descobrir cedo como estabelecer um padrão constante e equilibrado de personalidade-comportamento para com as crianças, uma mistura de paciência e afeição. Não tenham receio da psicologia. Só porque os aconselham a dar afeição e vocês podem ter receio de causar bloqueios, isso não significa que não é preciso conseguir obediência. Permitir mal-entendidos quanto à obediência na idade mais tenra é falta de bondade. Não ajuda a criança. Estabeleça poucas regras, mas assegure-se de que elas sejam obedecidas, bondosa mas firmemen- te. Deixe que elas se transformem em hábitos. [...] Lembre-se de que a linguagem falada é uma coisa emocional para a criança. “Sim” e “Não” são aprendi dos não só pelo seu sentido, mas como música emocional. Há algo profundamente gerador de incerteza quando essas palavras significam uma coisa num dado momento, e outra no momento seguinte. Essa é a simples insegurança que está na raiz de algumas dificuldades na vida posterior. Não tenha medo. Sim quer dizer sim e não quer dizer não. Faça com que suas crianças entendam isso. Corrige-se melhor pelo tom de voz do que por palmadas. Mas não berre o tempo todo. Guarde os seus trunfos para o momento necessário. Não espere que as crianças estejam limpas o tempo todo. Elas precisam se sujar em algumas formas de jogo, como irão se sujar em certos tipos de trabalho quando adultas. O lavar-se vem depois. Tudo e todos estarem tinindo de limpeza o tempo todo pode ser uma autossatisfação para a dona de casa zelosa, mas pode ser uma tirania malsã para as crianças. Aprenda a decidir sobre as horas apropriadas para a limpeza. Não exerça superproteção sobre as crianças, ficando nervosa demais para deixá-las sair da sua vista. Repare que elas estão crescendo. Não faça as coisas por elas continuamente. Diga muitas vezes: “Experimente fazer sozinho.” Encoraje a criança, mas não a deixe desamparada e só. Existe um equilíbrio para cada pessoazinha. Todas são diferentes.Mas o equilíbrio não é tão difícil de ser encontrado, de modo geral, uma vez que se tome conhecimento da sua existência. [...] Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 107 Em todos os nossos relacionamentos com crianças, devemos continuamente dizer a nós mes- mos: “Se eu fosse realmente essa pessoazinha, nessa situação, o que eu faria, o que pensaria, o que diria?” Quanto maior a sua capacidade de percepção nessa linha de pensamento, mais desinteres- sado será o seu amor, e mais compreensivo você se tornará. As crianças aplicam exatamente essa atitude no seu jogar. Elas começam com a mesma honestidade de pensamento, mas com elas isso é mais simples, mais direto, porque são novas. Elas pensam: “Se eu fosse realmente esse dragão voador, aquele cosmonauta ou essa salsicha atômica, eu faria isso ou diria aquilo.” Elas o fazem, e isso é o jogo dramático, o drama infantil. Sua manei- ra de “realizar” o pensamento é a sua forma de arte. Devemos observá-la e encorajá-la, pois existe aí um padrão de comportamento humano em desdobramento, por meio do qual o homem descobre a si mesmo e aprende a pensar nos outros. Já vimos que existem duas espécies principais de jogo: uma na qual as crianças brincam com objetos e os fazem criar vida (jogo projetado), e a outra na qual as próprias crianças se tornam as pessoas imaginadas, animais ou coisas (jogo pessoal). O jogo projetado é mais comum nos anos mais precoces. Mais tarde, dependendo da quan- tidade de absorção permitida pelos pais, esse jogo pode ser guiado por professores sensatos em direção a um estudo cuidadoso na hora da aula. Por essa época, o jogo já se erigiu num hábito de concentração. (Nota: classes do secundário “adiantadas” dependem tanto desses primeiros anos formativos quanto do estudo intensivo final e mais cansativo.) Parte da formação da concentração por meios imaginativos continua na escola também. O jogo pessoal tem recebido menos cuidados. Seus começos muitas vezes não são nota- dos, ou são mesmo desencorajados, porque necessitam de espaço e geralmente incluem a de- clamação. Ambas as formas de jogo podem ser drama, mas não necessariamente teatro como ele é entendido pelos adultos. O drama é menos óbvio no jogo projetado do que no pessoal, embora haja momentos de drama, claramente definidos em andamento quando paus e pedras ou bonecas criam vida e voz. Esses objetos muitas vezes são abandonados em forma de um padrão primitivo depois do jogo. O padrão é uma espécie de símbolo da história viva que se desenrolou na mente da criança, quer a fala tenha saído, quer não. É o que acontece também com a pintura de quadros. O jogo pessoal se desenvolve à medida que as crianças atingem maior controle sobre o pró- prio corpo e mestria sobre os objetos com os quais brincam. Para as crianças, seu próprio tipo de drama significa toda a ação da vida e isso é a sua melhor e mais natural maneira de desen- volver movimento e linguagem falada. A qualidade que elas desenvolvem nesse tipo de jogo é a sinceridade. É uma qualidade profunda de caráter e se destaca já nos anos mais precoces. Muitas vezes é nesse exato momento, quando uma confiança completa em realmente viver a vida com plenitude poderia ser atingida dessa forma, que as crianças são esmagadas por causa de um mundo ordenado pelos adultos. Tantos de nós, por isso, sem saber, causamos justamente aqueles problemas que mais tarde deploramos nas crianças. Pois elas encontrarão outras maneiras de se expressarem, maneiras que podem ser menos desejáveis, e isso muitas vezes longe da supervisão adulta. Às vezes, a forma pública dessa expressão é a formação de uma atitude negativa em rela- ção à vida, lamentavelmente comum nos jovem da nossa sociedade. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 108 Algumas sugestões detalhadas para ajudar o drama infantil em casa Permita – ruídos estrepitosos de vez em quando (desde a fase de bebê em diante). Procure interessar-se pelos diversos tipos de ruídos. Apenas retire o que for perigoso, ou puder ser es- tragado, desviando a atenção da criança para outra coisa. Não lhe arranque nada das mãos. Razão – as crianças gostam de som. Elas o dividem em cadência, ritmo e clímax. Elas des- cobrem muita coisa sobre a fala, música e drama, coisas que você não sabe, experimentando com sons, à sua própria moda. O que o adulto pode fazer: dar prazer ao associar-se à criança uma vez ou outra. Use outros ruídos. Não irrite a criança, tomando o seu brinquedo e mostrando como deve ser tocado ou usado. Guie-a lentamente para uma diferenciação entre sons altos e sons suaves, sons longos e sons de percussão. Exemplos: pedaços de metal pendentes de um cordão; pedaços de madeira ou cartolina para bater; ruído de elástico esticado; arroz numa lata. Pense em termos de perguntas e respostas. Responda à “declaração” da criança por meio de som. Faça-o simplesmente, não fale disso. Divirta-se com isso e descobrirá que as crianças não só o seguem para a civilização, como o guiam para um mundo que você não conhecia. À medida que as crianças forem crescendo, deixe-as perceber que existem horas em que você precisa de sossego. Deve haver compromisso e consideração pelos outros, especialmente em lares pequenos. Você pode treinar as crianças, mas não as destrua. Não é preciso ser músico para tudo isso. Seja apenas humano e divirta-se com seriedade. Permita – pular e ficar de pé de vez em quando (desde a fase de bebê em diante). Permita correr pelo recinto. Não impeça qualquer correria por medo que a criança caia; ela cairá, mas tem que aprender a não cair. Console-a se o desastre ocorrer e procure arrumar lugares macios para as quedas, se puder, ou fique perto, pronto para apará-la. Mas não previna sem- pre. Não force uma criancinha a andar mais tempo do que ela quer ou antes de ela querer. Encoraje-a. Razão – pular e sapatear levam ao interesse pelo atletismo mais tarde e são a base da dança infantil. São os primeiros passos para um estilo pessoal e a descoberta do ritmo corporal pessoal, que ajuda a poupar energia pela vida afora e pode afetar a potencialidade para o crí- quete, tênis, futebol etc., nos anos subsequentes. Forçar traz a repulsa e, às vezes, pode causar dano físico. O adulto pode interessar-se pelos tipos de pulos e sapateados. Associar-se de vez em quando, na mesma cadência, por vezes em cadência diferente. Não pressuponha que a criança esteja erra- da. Pense às vezes em termos de pergunta, afirmação e resposta. Sapateie “de volta”. A criança geralmente baterá os pés de novo (isso faz paralelo, em jogo pessoal, com o produzir ruídos com objetos). Use objetos algumas vezes e misture os dois tipos de jogos. Inspire a criança para outros movimentos pelos sons que você faz. Isso é o “código Morse” de batidas das mensagens sonoras. É mais importante do que o piano, para um começo. Sentenças sonoras mais longas deverão vir mais tarde. Permita – gritar, cuspir e o tatibitatear de bebês e criancinhas novas ocasionalmente. Razão – isso faz parte do descobrimento da força dos pulmões, sensibilidade do palato, pro- cura da dicção e avanço da linguagem falada. O adulto pode responder às vezes em tatibitate. Pode-se manter, dessa maneira, conver- sas emocio nais de suprema alegria ou densa seriedade até mesmo com bebês, e um forte elo de compreensão se forma por breves momentos. Inclua ocasionalmente uma palavra verdadeira. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 109 Repita-a. A criança a usará mais tarde, aumentando seu vocabulário. Baseie toda a fala, música ecomunicação num profundo amor pelo som. É isso que leva a um gosto realmente inteligente em literatura, mais tarde. É o verdadeiro caminho para a genuína apreciação da poesia. O excesso de pulos e do uso de cantilenas sentimentais rimadas leva à “versificação”, que é diferente, e a algu- ma compreensão de marcação de tempo e cadência. Não conduz à apreciação do ritmo vivo e da verdadeira percepção poética. Permita – a criação de estranhas palavras novas. Não as chame de bobagens. Razão – essa criação começa por causa do interesse pela linguagem. Palavras “verdadeiras” virão a ser igualmente amadas mais tarde. O adulto deve aceitar as palavras novas. Aprender a reconhecer as boas. Algumas são muito descritivas. Conserve algumas como palavras da família e use-as. Elas formam um elo de “lar” entre os membros da família. Permita – jogos dramáticos sobre caubóis e bandidos e um pouco de vestuário de fantasia (à medida que as crianças vão saindo da idade mais tenra). Não as hostilize em casa nem caçoe delas diante das visitas. Razão – isso é a coisa verdadeira. Isso é o drama por meio do qual se vai desenvolvendo uma extensão do vocabulário para expressar ideias, por meio do qual as emoções são exterioriza- das e no qual a criança experimenta toda sorte de personalidades até encontrar a sua própria. Ela faz experiências com a vida e encontra a si mesma. E cria também uma grande forma de atuar, representar, tão divertida quanto bela. O adulto deve compreender que o seu filho não é um delinquente em potencial só porque uma porção de mortes ocorrem durante o seu jogo. A criança, ele ou ela, está sobrepujando um adversário imaginário. Você quer que seu filho vença as batalhas da vida, não quer? Isso é treino e preparação para essa meta. Que vençam sempre! Leve isso a sério. Se a criança se dirige a você como se você fosse um súdito do seu reino, ela lhe oferece sua confiança. Responda como deve responder um cortesão e seja sincero nisso; quanto melhor você se comportar, tanto melhor poderá ensinar o comportamento certo nos momentos apropriados da vida real, o qual está sendo treinado muito profundamente nesses momentos. Se você tiver um toca-discos, coloque uma música com ritmo pronunciado ou passagens estimulantes durante a representação. A música as inspirará. Não se aborreça se as crianças fala- rem durante a música. Elas devem falar no seu drama. No começo elas só se servem do som numa base emocional. Mais tarde você pode guiá-las para uma seleção mais adiantada e pode se tornar companheiro suficiente para sugerir uma melodia do tipo marcha para servir de parte de uma pa- rada geral etc. Melhor ainda, simplesmente coloque o disco durante a marcha das crianças e esteja pronto para tirá-lo quando elas terminarem. Você adquirirá cada vez mais habilidade nisso com a prática e, à medida que for conhecendo melhor o jogo dramático infantil, aprenderá a adivinhar antecipadamente as necessidades das crianças. É útil ter à mão esses tipos de música: alegres, estimulantes, tristes e calmas. Termine com uma música “alegre”, se as crianças parecem moderadamente exaustas, ou se você consegue ainda continuar dando-lhes o seu tempo e a si mesmo depois do jogo. Se não, use música “calma”. Isso muitas vezes as aquietará e o mais provável será que elas se afastem para brincar sossegadamente entre si. Você estará ajudando o professor na escola, também. Pois um professor sensato sempre terminará uma sessão de drama infantil com uma sensação de calma, a fim de preparar as crianças para a atividade projetada em forma de aulas de leitura, escrita e aritmética. Você estará preparando as crianças para essa experiência, ou ajudando a estabelecer um bom hábito. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 110 Permita que outras crianças se reúnam às suas no drama infantil, se quiserem, e se você achar que pode controlá-las. Razão – as crianças aprendem tolerância brincando juntas. Pelo uso apropriado do jogo dramático infantil, você as ensinará a serem obedientes também, fazendo com que a sua ativi- dade emocional tenha lugar de um modo legítimo, sob supervisão simpática, em vez de tentar dominá-las. Tantas crianças anelam por isso sem o saberem. Todas necessitam disso. Muitas têm lares ou pais que tornam tudo isso difícil. Às vezes toda a atmosfera de uma rua ou aldeia pode ser modificada por um único adulto bondoso e imaginoso, arranjando tempo e hora para drama dessa espécie. Se você ficar interessado nesse tipo de jogo, uma regra de ouro é: se hou- ver necessidade, o adulto pode sugerir o que fazer; mas não deve mostrar como fazê-lo. Técnicas de expressão dramática A seguir, serão destacadas algumas técnicas de expressão dramática que poderão ajudá-los a promover as atividades dramáticas na escola infantil. Dramatização com ruídos, sons e ritmos As crianças poderão se sentir um pouco inibidas para participar de atividades teatrais. Mas essa resistência pode ser superada com práticas que envolvem sons, ruídos e ritmos, fomentando a participação espontânea dos alunos. Exemplos Conte histórias e peça para os alunos emitirem os sons e ruídos das per- sonagens e situações apresentadas, por meio de movimentos com os pés, mãos, boca, objetos etc. Solicite que os alunos deitem de costas e prestem atenção no som de seus batimentos cardíacos. Posteriormente, eles deverão reproduzir o ritmo do coração por meio de movimentos. Proponha a livre movimentação a partir da audição de uma música. Organize a gravação de sons realizados pelas crianças. Isso poderá ser feito em aparelhos de som ou no computador. Depois, ponha para tocar as grava ções e peça para os alunos se movimentarem à vontade, seguindo o que os sons sugerem. Dramatização com bonecos Nesse tipo de atividade, podem ser utilizados materiais diversos, como suca- tas, madeira, plástico, diferentes tipos de papel, espuma, isopor, giz de cera, restos de tecidos, entre outros. Dependendo da idade, a própria criança terá condições de criar os seus bonecos – mesmo que para os adultos eles não pareçam reais. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 111 Se as crianças ainda não possuírem coordenação para produzir seus bone- cos, disponibilize bonecos previamente confeccionados, convidando-as a brinca- rem com seus “personagens”, reproduzindo suas vozes e inventando os diálogos ao seu modo. Dramatização com máscaras e fantasias O uso de máscaras, fantasias e adereços (chapéus, óculos, cintos etc.) incita a imaginação infantil e permite que a criança “visualize” um personagem e atue conforme as características que ela inventa para esse personagem. Se você não conta com fantasias disponíveis no ambiente escolar, improvise: confeccione roupas e adereços de papel ou solicite aos pais que tragam algumas roupas velhas, fora de uso e coloridas para incrementar o jogo dramático. Depois, é só vestir as crianças e deixá-las brincarem à vontade. Dramatização com as mãos As mãos são um recurso estimulante para as dramatizações. Elas podem ser caracterizadas como um personagem. Também luvas ou meias servem para isso. Por exemplo: pinte a mão de cada aluno representando um animal ou uma expres- são facial. Depois, convide a turma a brincar e atuar conforme esses personagens, reproduzindo seus sons, gestos e falas livremente. Dramatização com movimentos expressivos e mímica Nesse tipo de técnica, trabalha-se estritamente com expressões gestuais e movimentos. Você pode propor essas dramatizações dando uma referência para seus alunos soltarem a imaginação. Exemplo: primeiramente, peça que cada aluno represente os movimentos de um animal(como anda, como come etc.). A seguir, deixe que todos brinquem juntos, cada um vivenciando o seu personagem do jeito que quiser. A dramatização com movimentos expressivos e mímica abrange as relações entre expressão corporal e imaginação. Sendo assim, colabora para o desenvolvi- mento psicomotor. Esses são alguns tipos de atividade dramática que podem ser executados por crianças pequenas. Lembre: essas práticas representam a expressão livre dos alunos e não devem ser conduzidas de modo formal ou visando à realização de um espetáculo. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 112 O pensamento brilhante resgata a trajetória das crianças que protagonizam a história do texto “Na pracinha” (p. 73-77), de Berry Brazelton e Joshua Sparrow. No texto a seguir, as mesmas crianças estão descobrindo o mundo do faz de conta e explorando a própria imaginação. “Faz de conta” foi extraído do livro 3 a 6 Anos: Momentos Decisivos do Desenvolvimento Infantil (Artmed, 2003, p. 96-98), de Brazelton e Sparrow (2003, p. 96-98). Faz de conta Os dias de Billy eram compostos de mudanças de uma fantasia para outra. Quando colocava um lenço em volta do rosto, tornava-se um ladrão. “Mãos ao alto”, dizia, com uma voz de homem mau. Se você não obedecesse, seus dedos já estavam em suas costelas. “Eu disse mãos ao alto e avisei. Você está morto!” Uma velha capa de sua avó e um par de óculos o tornavam um vampiro. “Onde você aprendeu sobre vampiros?” “Na tevê.” “O que é um vampiro?” “Eles voam e pousam nas pessoas. Se você chora, está perdido. Se os enfrenta, eles fogem.” Isso seguiu-se a um episódio na escola de ele ter enfrentado um valentão e brigado com ele. Muitas das fantasias de Billy eram de super-heróis. “Quem é o mais forte? Quem é o mais rápido? Eu posso derrubá-lo com tanta força que você não vai poder se levantar.” Um dia, queria tentar pintar as unhas, “como a mamãe”. Quando sua mãe deixou-o tentar, ele olhou para o esmal- te, depois para ela e disse: “Não conte para o papai.” A senhora Stone perguntou-se de onde tinha vindo sua percepção de coisas de “garota”. Seu primo de seis anos, Tom, veio para brincar. Eles vestiram capas, chapéus e máscaras. Eram piratas em um oceano, prontos para afundar qualquer navio à vista. No quintal, procu- raram gravetos para fazer de espadas. Eles lutaram um pouco com elas, mas Tom era muito mais competente; após algum tempo, era óbvio que o brinquedo de espadas não funcionaria. Então, duelaram no ar com um espadachim imaginário. “Estamos tentando salvar Abby de outros piratas.” Abby, com um ano de idade, estava aterrorizada. Ela gritou, fungindo desses dois homens maus. “Abby, se você não deixar salvá-la, nós nunca mais vamos brincar com você.” Abby se acalmou, olhou para eles seriamente. Billy e Tom atiraram-se sobre o sofá e rolaram sobre as almofadas. “É um navio balançando na água. Nós fugimos dos outros piratas e salvamos Abby.” A menina, agora rolando sobre o sofá, olhava tranquilamente para esses dois garotões valentes. Os pais de Minnie lhe deram uma porquinha-da-índia de Natal, porque eles achavam que ela poderia interessar-se por um animal pequeno. Não demorou muito para a mãe sentir que Minnie falava mais com Agula do que com ela. Agula tornou-se o alvo das brincadeiras da menina e de seus sonhos. Mais de uma vez, sua mãe espiou Minnie planando pela casa com Agula, murmu- rando para ela que “podemos voar para a lua juntas”. Um dia, Minnie deixou a porquinha-da-índia cair. Depois disso, o animal assustado se encolhia no canto de sua gaiola sempre que ela se apro- ximava. A mãe de Minnie lhe fez um discurso sério sobre tratar bem os animais. Então, a menina correu de volta até a gaiola e disse: “Agula má. Astronauta de meia-tigela.” Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 113 Marcy estava fascinada por bebês. Ela e sua mãe foram visitar sua tia, que tinha dado à luz um bebê duas semanas antes. Marcy observava tudo o que o bebê fazia. “Olhe as pernas dele se mexendo. Ele tem mãos e punhos como nós!” Ela queria segurar o bebê. Sentou-se em uma cadei- ra e lhe deram o priminho. Ela ficou imóvel e extasiada por 30 minutos, como se sentisse o quanto ele era frágil. Quando a fralda foi mudada, os olhos de Marcy ficaram atentos ao processo. Ela perguntou sobre sua “salsicha”. Ela não ousou tocar nela. Mas, mais do que tudo, parecia cons- ciente e inquisitiva sobre de onde vinham a urina e as fezes do bebê. “É dali que sai? Eu queria poder ver – apenas uma vez. Posso, mamãe? Olhe o cocô dele, é tão mole. É o mesmo que o meu? Ele vem da barriga dele ou o dos meninos vem das salsichas deles?” “Eu posso ter um bebê como ele?” Nas semanas seguintes, Marcy empurrava a barriga para fora, enquanto andava pela casa. Ela sonhava em ter um bebê. Vestia suas bonecas e colocava fraldas nelas. Colocava-as no peito e as amamentava. Falava com uma voz gentil e aguda com cada uma delas. Ela desejava tanto que seu sonho pudesse se tornar realidade: ser um bebê novamente. Ela poderia facilmente abalar-se se alguém desvalorizasse seus esforços. “Você não pode ter um bebê até crescer.” O pensamento desejoso de Marcy era muito importante para ela. Os contos de fadas sempre foram uma forma em que pais e filhos puderam compartilhar esse maravilhoso mundo de magia. Os temas da vida de uma criança nessa época – senti- mentos de raiva, diferenças entre meninos e meninas, desejos em relação aos pais – são todos tratados nos contos de fada. Cinderela e o príncipe, as malvadas meias-irmãs e a madrasta revelam as fantasias latentes que todas as crianças compartilham. Quando os pais leem esses contos para seus filhos de quatro, cinco e seis anos, eles também entregam-se às fantasias, ao horror, aos sentimentos mais profundos refletidos neles. As histórias livres de conflito e as personagens leves e carinhosas de muitas histórias contemporâneas não conseguem alcançar esses sentimentos mais profundos, e as fitas de vídeo repletas de ação sobrecarregam a ima- ginação de crianças dessa idade. Cinderela pode tornar-se uma princesa, em vez da criada que deve ajudar seus pais. A madrasta malvada de Cinderela pode ser o lado mais sombrio da própria mãe da criança. Ou ela pode ser a mãe prejudicada a quem Cinderela espera que seu pai rejeite. Cinderela pode, então, tornar-se a fêmea triunfante que supera todos os seus adversários. As meias-irmãs malvadas representam todos os problemas de irmãos e sua rivalidade. A história de Cinderela torna seguro tanto o ódio quanto a competição entre eles. Sentimentos ambivalentes ou aparentemente contraditórios são universais, mas são perturbadores e difíceis de conciliar. Na medida em que triunfa como prin- cesa, Cinderela pode até perdoar suas meias-irmãs e torná-las princesas. Que mundo se abre para uma criança que compartilha essa história com seus pais! É importante para nós como pais com- partilhar dessas histórias, mas também é importante que permitamos às crianças saboreá-las à sua própria maneira – e com total privacidade. Nós podemos muito facilmente retirar a segu rança, quando tornamos os temas das histórias das crianças explícitos demais. Com a proteção do faz de conta, uma criança pode ousar sonhar. Polícia e ladrão. Bruxas e rainhas. A menina boa e a má. Na fantasia e no brinquedo, tudo isso pode ser conciliado. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A expressão dramática na Educação Infantil 114 Nesta unidade, nosso trabalho em grupo envolve a prática da expressão dramática na Educação Infantil. A arte de contar histórias é fundamental para um educador de crianças. E elapode ser conjugada com a expressão dramática, ampliando a percepção, a imaginação, o desenvolvimento psicomotor dos alunos. Então, vamos ver se realmente sabemos contar uma boa história infantil. Formem grupos de cinco ou seis integrantes. Cada um escolhe uma historinha bem conhecida. Cuidem para que as histórias não se repitam. Depois, cada grupo vai preparar uma apresentação da história eleita e contá-la aos demais colegas, valorizando a expressão dramática (inclusive o uso de diferentes vozes) e corporal. Os grupos vão ensaiar suas apresentações. Quando todos estiverem prontos, a turma sentará em círculo e vocês começarão uma sessão de “contação de histórias”. Todos devem participar. Ao final de cada apresentação, avaliem se o grupo conseguiu contar a história de forma dinâmica, atraente e divertida. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 115 Criatividade e sua importância para a Educação A criatividade e o brincar C riatividade é a capacidade humana de gerar novas ideias ou ações, o que independe do nível ou classe social, mas depende do meio no qual o sujeito está inserido. Esse conceito pode ser mais bem entendido a partir das quatro categorias definidas por Rodhes (apud KNELLER, 1978). Do ponto de vista da pessoa que está criando, a ação criativa é fisiológica e tem como base os tem pe ramentos humanos, os hábitos e as atitudes criativas. Os processos mentais criativos englobam a percepção, a motivação, o pensamento, a aprendizagem e a comunicação. A criatividade está associada com as relações entre os homens e com os fatores ambientais e culturais. Portanto, é fruto da interação entre homens, objetos e meio. A criatividade pode ser definida em virtude de seus produtos: pinturas, conceitos, teorias, invenções, esculturas, poemas, filmes etc. Mas estas são as formas estereotipadas das ações criativas. Kneller lembra ainda que as distintas definições de criatividade estão sempre relacionadas com o conceito de novidade ou inovação. Assim, a ação criativa é a própria essência da transformação e das mudanças, tanto internas quanto externas. Mas também é possível compreender a criatividade como a base do ato de liberdade, ou melhor, da ação libertadora, pois a criação associa-se à formação do senso crítico. No contexto escolar, a criatividade pode transformar a relação do sujeito com o conhecimento. As atitudes e as ações criativas correspondem a meios para a compreensão e a alteração da realidade. Todo ato criativo expressa a percepção que alguém tem acerca do mundo, acerca de uma ideia ou situação. O indivíduo necessariamente usa o seu entendimento da dimensão real para criar algo novo. A criatividade potencializa a imaginação humana e, consequentemente, modifica o método pelo qual as pessoas lidam com a informação e o processamento da informação. A importância da criati- vidade como método é ressaltada por Rogers quando afirma que: “a sobrevivência dos povos depende da capacidade criadora do homem” (apud KNELLER, 1978, p. 19). Analisando a criatividade sob o ponto de vista educacional e considerando o processo ensino- -aprendizagem, observamos distintas formas para a abordagem desse fenômeno. Nesse sentido, as professoras Dinah Campos e Mirian Weber (1987) clas si ficaram alguns conceitos de criatividade de acordo com diferentes escolas. Escola behaviorista: vê a criatividade como o ato de produzir novas ideias a partir de ou- tras pregressas, caracterizando as associações por ensaio e erro e dando a impressão de que Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 116 quanto mais associações um sujeito faz, mais criativo será. Desse modo, a criatividade está associada à quantidade de informação e ao seu proces- samento. Modernamente, os behavioristas rela cionam o ato criador com os processos de estímulo e resposta. Gestalt: conceitua a criatividade como uma reorganização das estruturas cognitivas. Para Wertheimer, o criador da Gestalt, uma descoberta não significa necessariamente algo novo, mas representa uma situação perce- bida de maneira diferente, implicando a ampliação do campo perceptivo do indivíduo. Escola psicanalítica: destaca o desempenho do inconsciente como base do pensamento criativo. O consciente e o ego são aspectos secundários. Determina o caráter criador e criativo ao inconsciente. Muitos psicana- listas se opõem a essas ideias. Kneller, por exemplo, afirma que “a pes- soa cria apesar da neurose e não por causa dela”. Humanistas ou fenomenologistas: como Rogers, outros teóricos des- sa corrente pensam que o indivíduo cria por estar aberto a todo tipo de experiência. Um sujeito pode confiar na sua criatividade como essência construtiva. Nos ambientes educacionais, a criatividade deve ser potencializada pelas ações pedagógicas. Como define Novaes (1980, p. 13), é fundamental favorecer “a mobilização do potencial criativo em todas as disciplinas e assuntos, dando valor ao pensamento produtivo, uma vez que a criatividade estará presente em várias situações e diversidade de assuntos”. O brincar O brincar é a essência do pensamento lúdico e caracteriza as atividades execu- tadas na infância. As brincadeiras são uma forma de expressão cultural e um modo de interagir com diferentes objetos de conhecimento, implicando o processo de apren- dizagem. Tendo em vista esse conceito, percebemos que o ato de brincar acompanha o desenvolvimento da inteligência, do ser humano, das sociedades e da cultura. De acordo com o psicanalista Winnicott (1975), a criança, quando brin- ca, manipula fenômenos externos que estão a serviço do sonho. Ela veste esses fenômenos com significados e sentimentos oníricos e isso representa uma opera- ção do imaginário e a exploração da criatividade. De acordo com o autor, “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu eu”. Essa citação demonstra a relação imprescindível entre o criar e o brincar. É fun da mental para entendermos que a criatividade está associada às ativida- des lúdicas e às brincadeiras e não às tarefas formais e racionais. A brincadeira Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 117 possibilita a livre associação de ideias, pensamentos, impulsos e sensações. Brin- car também tem a ver com o prazer. Uma brincadeira, sendo ou não criativa, deve sempre proporcionar prazer ao participante. As experiências do brincar na escola auxiliam a formação de vínculos entre alunos e professores e certamente facilitam a aprendizagem. Brincar faz parte do desenvolvimento sadio e pleno dos indivíduos. Na educação, a brincadeira fun- ciona como uma vivência ou uma simulação de experiências e conteúdos, apro- ximando-os do universo dos alunos. Independente da idade dos participantes, as brincadeiras criativas resgatam o caráter lúdico, o prazer, a alegria, o poder de imaginar e criar próprios do ser humano. Para ampliar nossa visão sobre a criatividade, selecionamos uma importante contribuição de Jean Piaget a respeito do tema. O texto “Criatividade”, de Jean Piaget, foi extraído de Criatividade: psicologia, educação e conhecimento do novo, organizado por Mário S. Vasconcelos (2001, p. 11-20). Criatividade Existem dois problemas envolvidos em uma discussão sobre a criatividade. O primeiro pro- blema é o das origens ou causas da criatividade. O segundo é o do mecanismo: como ela acontece? Qual o processo de um ato criativo? Como alguém cria algo novo? Sem existirantes, como algo novo pode surgir? Gostaria primeiramente de dizer algumas palavras sobre as origens ou causas da criatividade. Está muito claro que a sua origem ainda é coberta de mistérios. De fato, alguns indivíduos são visivelmente mais criativos do que outros, mas isso com certeza não é apenas uma questão de ge- nialidade. Na verdade, a origem da criatividade permanece misteriosa, mesmo que esteja presente em todos nós. Agora é moda entre alguns psicólogos, quando eles se deparam com algo que é difícil de explicar, chamá-lo de inato ou hereditário, como se esta fosse uma explicação. Mas absolu- tamente não é uma explicação e, desse modo, só transferem o problema para o campo da bio- logia. E, na biologia, estamos muito longe de ser capazes de explicar qualquer tipo de atitude mental, que dirá a criatividade. Criatividade não é apenas uma questão de precocidade em indivíduos que se tornaram muito criativos. Os indivíduos não são sempre precoces. Mozart, é claro, é um dos melhores exemplos de uma alma precoce e criativa. Mas muitos outros se tornaram criativos muito mais tarde em suas vidas, foi bem mais tarde que tiveram as ideias mais originais. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 118 O melhor exemplo disso é Kant. Por muitos anos ele não foi um kantiano. A maior parte de sua vida passou como um discípulo de Wolf, e foi só nos seus últimos anos que sua própria origi- nalidade emergiu. Então, a princípio, a origem da criatividade para mim permanece um mistério e não é explicável. Mas, como disse um momento atrás, todo indivíduo que realiza um trabalho e tem ideias novas, mesmo que modestas, cria-as no curso de seus esforços. Algumas palavras a mais sobre a origem da criatividade. No percurso da minha vida, tenho criado uma ou duas ideias e quando reflito sobre suas origens penso que existem três condições. A primeira é trabalhar sozinho, ignorar qualquer um e suspeitar de qualquer influência de fora. Quando era estudante, tive um professor de Física que dizia: “Sempre que você começar a tra- balhar em um novo problema, não leia nada. Em vez disso, vá tão longe quanto puder por conta própria. Depois de, sozinho, ter ido tão longe quanto pôde e ter chegado à sua solução, então leia e leve em conta o que tem sido escrito sobre o assunto, fazendo as correções que julgar necessárias.” Temo ter levado o conselho muito a sério, isto é, devo ter lido muito pouco. Mas para me consolar, ou deixar de lado qualquer sentimento de culpa que possa ter, gosto de pensar na fala de Freud: “A maior punição que a divindade envia para alguém que escreve é ter de ler os trabalhos de outros.” A segunda condição que acho necessária é ler uma grande quantidade de coisas em outras áreas, e não apenas ler trabalhos da própria área. Para um psicólogo, por exemplo, é importante ler biologia, epistemologia, lógica, para que se possa promover uma visão interdisciplinar. Não ler somente no seu próprio campo, mas ler muito nas áreas próximas e relacionadas. E um terceiro aspecto, e aí penso em meu caso, é que sempre tive na cabeça um adversário, isto é, uma escola de pensamentos cujas ideias algumas pessoas consideram erradas. Talvez cometa injustiças e as deforme tornando-as adversárias, mas sempre tomo as ideias de alguém como um contraste [...]. Agora gostaria de continuar com o segundo aspecto que mencionei, que é o mecanismo da criatividade. Acho que o estudo da psicologia da inteligência pode nos ensinar muito sobre essa questão. O desenvolvimento da inteligência é uma criação contínua. Cada estágio do desenvolvi- mento produz algo radical mente novo, muito diferente do que existia antes. Desse modo, todo o desenvolvimento é caracterizado pelo aparecimento de estruturas totalmente novas. Inteligência não é uma cópia da realidade, não está representada nos objetos. É uma construção do sujeito que enriquece os objetos externos. O sujeito “adiciona” essa dimensão aos objetos externos ao invés de extrair essa dimensão dos objetos. Consideremos, por exemplo, a noção de número ou a noção de grupo. Elas nos possibilitam entender os objetos de diferentes modos, mas não são extraídas dos objetos. São adicionadas aos objetos. Isso revela que a inteligência é de fato um ato de assimilação num sentido realmente biológico. O externo é incorporado às estruturas do sujeito do conhecimento, isto é, nos termos das estruturas do sujeito é que o mundo externo é entendido. Essa criação da novidade acontece, é claro, em cada geração, mas também em cada indivíduo. Cada criança reconstrói a sua pró- pria inteligência e o seu próprio conhecimento. Por exemplo, contar ou recitar os nomes dos números, certamente, para a criança, vem do mundo externo. Porém aprender a noção de número é algo muito diferente de aprender a recitar os nomes dos números. A noção do número é construída pela criança como um ato criativo, como uma multiplicidade de atos criativos [...]. Só gostaria de terminar repetindo as palavras de um pesquisador que trabalha conosco em Genebra fazendo experiências sobre o pensamento das crianças na área da Física. Ele disse o que distingue o físico criativo do não criativo: o físico criativo, apesar do seu conhecimento, em uma parte de si tem uma criança com a curiosidade e a candura da descoberta que caracterizam a maio- ria das crianças até serem deformadas pela sociedade adulta. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 119 Criatividade: a revolução na sala de aula A importância de uma educação mais abrangente tem mobilizado os edu- cadores à busca de alternativas que supram as carências encontradas em alguns métodos de ensino. Atualmente, buscamos um ensino mais humano, voltado para os reais interesses dos alunos e propício para a atuação dos educandos como ver- dadeiros agentes do processo educacional. Considerando esse contexto, propomos as atividades e jogos criativos como uma das saídas viáveis para a qualificação do processo ensino-aprendizagem, a maior inte gração entre as diferentes áreas do conhecimento e para o desenvolvi- mento de algumas valências comumente esquecidas pela escola. O processo criativo está intimamente relacionado com o exercício da ima- ginação. Os jogos e brincadeiras que estimulam a autoexpressão, a descoberta e o poder de imaginação exploram a criatividade e permitem que alunos e professores se expressem de modo global e potencializem suas habilidades e capacidades. Ao desenvolver sua própria criatividade, o educador também passa a compreendê-la e adquire parâmetros para proporcionar experiências criativas aos seus educandos. A importância da expressão criativa para a educação Um dos instrumentos da atividade criativa é a relação entre as pessoas. Quando trabalhamos em grupo, a imaginação e a curiosidade de cada participante é ressaltada e compartilhada. E quem consegue se expressar junto aos outros se adapta melhor às circunstâncias e à troca de experiências. Por isso, é muito importante possibilitarmos vivências coletivas na escola. Elas oportunizam que o educando revele-se aos outros e a si mesmo. Com a expres- são criativa em grupo, o aluno conta com um meio de expressão espontânea e refor- mula constantemente seus pensamentos, o que possibilita novas atitudes e ideias. Tanto o mundo do faz de conta das crianças quanto o poder imaginativo dos jovens e adultos vêm à tona com os jogos criativos. Essas práticas incentivam o interesse pelo conhecimento de toda e qualquer natureza e favorecem o aprimora- mento da coordenação motora e da expressão verbal. Quando as potencialidades dos jogos criativos são aproveitadas por meio de diferentes atividades,todos participam para o mesmo fim criativo. Particularmen- te nos jogos que englobam a dramatização, o educando experimenta personagens sem deixar de ser ele mesmo. O exercício da flexibilidade para atuar como outra pessoa e em grupo colabora para a adaptação do aluno às contingências da vida em sociedade. Dentro do universo escolar, a prática de jogos criativos leva professores e alunos a compreenderem e aceitarem as formas e os padrões de comportamento pessoal e social; a terem autoconfiança; a resolverem situações inéditas, aplicando conhecimentos e habilidades adquiridas anteriormente; a analisarem, avaliarem e reavaliarem seu comportamento como indivíduos em um grupo. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 120 Retomando a criatividade A criatividade está presente em cada um de nós. Todos temos a mesma capacidade criadora. Mas essa capacidade é potencializada ou minimizada de acordo com nossas interações com o meio cultural, que pode ou não oferecer es- tímulos às atitudes e aos atos criativos. E a idade é um fator de influência? O que potencializa a criatividade são as nossas vivências. Geralmente, um indivíduo mais velho possui maior bagagem de vida, mas isso não é uma regra. Nem sempre a passagem do tempo fornece um feedback criativo. Sendo assim, o modo e a qualidade de nossas interações são bem mais relevantes que o percurso de tempo transcorrido. Nesse sentido, um sujeito pode reagir a estímulos de maneira criativa ou apenas ficar reproduzindo velhos padrões. Os processos criativos estão relacionados com a inteligência. Mais especifica- mente, eles se originam nos pensamentos divergentes. Para entendermos esse conceito, é preciso analisar o pensamento humano. Segundo Guilford, “é possí- vel organizar os fatores psicomotores que conhecemos numa espécie de sistema. Torna-se cada vez mais claro que as dimensões do intelecto também podem ser organizadas numa estrutura significativa” (apud CUNHA, 1977, p. 20). O dia- grama a seguir reproduz a caracterização das principais habilidades intelectuais, conforme elaboração de Guilford. (G U IL FO R D a pu d H A ET IN G ER , 1 99 8, p . 1 4) Linha do pensamento Intelecto Memória Pensamento Cognição Avaliação Intelecto Convergente Divergente Esse diagrama ilustra o funcionamento da inteligência humana. Nosso in- telecto abrange o pensamento (uma ideia em si) e o seu backup, ou seja, a memó- ria que armaze na experiências, informações e conceitos registrados desde a vida Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 121 intrauterina. O pensamento abrange a cognição (o entendimento de uma ideia), a produção (ideia global e sua execução prática) e a avaliação (que reúne parâmetros críticos que influenciam nossa autoimagem e nossa autoestima). A cada exercício do pensamento, o ser humano está sempre se avaliando – um processo permanente, quer a gente queira ou não. No entanto, as constan- tes avaliações podem, às vezes, nos prejudicar em vez de ajudar, principalmente quando são negativas, tendendo a inibir a ação e a expressão. A produção intelectual é feita por meio de pensamentos convergentes e diver gentes. Convergente é o pensamento direto, é a saída lógica e padrão para os problemas com os quais nos deparamos. Já o pensamento divergente ou lateral é um modo único e cria tivo de pensar. A criatividade surge justamente no âmbito do pensamento divergente e se desenvolve a cada vez que procuramos saídas al- ternativas e inovadoras para deter minadas ações. A ilustração a seguir sugere a necessidade de equilíbrio para o desenvol- vimento do pensamento lateral. Ela representa a dinâmica formada pela relação entre pensamento divergente, avaliação (senso crítico) e criatividade. (H A ET IN G ER , 1 99 8, p . 1 6) O pensamento divergente, a criatividade e o senso crítico estão associa- dos sob a forma de um triângulo equilátero (todos os lados são iguais e de igual responsabilidade perante o todo). Assim, a criatividade só se aprimora quando exploramos nosso pensamento lateral e nosso senso crítico simultanea mente. Portanto, ser criativo requer o discernimento da realidade e daquilo que é im- portante para cada um de nós. Também é preciso olhar o mundo a nossa volta com muito interesse e curiosidade, levantando novas ideias e possibilidades. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 122 Em virtude desses fatores, é muito importante proporcionar experiências criativas aos alunos. As práticas que associam arte, elementos lúdicos, movimen- to e vivências coletivas contribuem para a criatividade e o desenvolvimento do senso crítico. Os jogos criativos e suas sistemáticas lúdicas recriam a realidade, aproximam-nos e fazem-nos reagir perante novas situações. Todo tipo de atividade criativa só acontece em um ambiente de liberdade, no qual todos têm as condições ideais para se expressarem autenticamente, sem restrições ou imposições. Sobre esse aspecto e também destacando a postura da escola frente ao processo de desenvolvimento da criatividade, Maria H. Novaes (1980, p. 118) afirma: É preciso reforçar a certeza de que a formação integral da personalidade do educando será incompleta sempre que se relegar a um segundo plano a expressão criadora, portanto, é preciso que a escola esteja aparelhada ideologicamente e materialmente para proporcionar aos alunos técnicas, meios e ambientes de liberdade, onde possam desenvolver sua capa- cidade expressiva, construtiva e criadora. Aos educadores infantis cabe lembrar: a criança não aprende nem cria por imitação. Promover práticas criativas não significa estabelecer regras para a realização de brincadeiras ou tarefas. Você pode colaborar para o processo criativo de seus educandos oferecendo um ambiente de aceitação, integração e liberdade, deixando-os realizarem livremente suas atividades e brincadeiras e permitindo que eles sempre expressem sua imaginação e o seu próprio mundo de faz de conta. Sua função é organizar o meio, os recursos e os instrumentos didáticos para a criação; é criar um ambiente favorável em que a criança sinta-se segura e acolhida para atuar; é estimular a expressão da subjetividade dos alunos, sem indicar-lhes possíveis erros ou o melhor modo de fazer as coisas. Eles descobrirão por si mesmos, explorando objetos e vivendo diferentes situações. O importante é deixar o aluno brincar, imaginar, relacionar-se, expressar-se e divertir-se. Nesta unidade, destacamos, do famoso livro O Pequeno Príncipe, um excelente trecho que ressalta a importância dos vínculos interpessoais, da amizade e de “cativar” o outro. Por certo, temos muito que aprender e refletir com as palavras de Antoine Saint-Exupéry. O trecho foi extraído do capítulo xxI, p. 95-97, de O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry, coedição Ediouro/Agir, 2002. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 123 xxI E foi então que apareceu a raposa: – Bom-dia – disse a raposa. – Bom-dia – respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada. – Eu estou aqui – disse a voz debaixo da macieira... – Quem és tu? – perguntou o principezinho. – Tu és bem bonita... – Sou uma raposa – disse a raposa. – Vem brincar comigo – propôs o principezinho. – Estou tão triste... – Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda. – Ah! Desculpa – disseo principezinho. Após uma reflexão, acrescentou: – Que quer dizer cativar? – Tu não és daqui – disse a raposa. – Que procuras? – Procuro os homens – disse o principezinho. – Que quer dizer cativar? – Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam. É bem opressor! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem. Tu procuras galinhas? – Não – disse o principezinho. – Eu procuro amigos. Que quer dizer cativar? – É uma coisa muito esquecida – disse a raposa. – Significa “criar laços...” – Criar laços? – Exatamente – disse a raposa. – Tu não és ainda para mim senão um garoto inteira- mente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... – Começo a compreender – disse o principezinho. – Existe uma flor... eu creio que ela me cativou... – É possível – disse a raposa. – Vê-se tanta coisa na Terra... – Oh! Não foi na Terra – disse o principezinho. A raposa pareceu intrigada: – Num outro planeta? – Sim. – Há caçadores nesse planeta? – Não. – Que bom! E galinhas? – Também não. – Nada é perfeito – suspirou a raposa. Mas a raposa voltou à sua ideia. – Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 124 fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo. (S A IN T- Ex U PÉ RY , 2 00 2, p . 9 7) A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe: – Por favor... cativa-me! – disse ela. – Bem quisera – disse o principezinho – mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer. – A gente só conhece bem as coisas que cativou – disse a raposa. – Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! – Que é preciso fazer? – perguntou o principezinho. – É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto... No dia seguinte o principezinho voltou. – Teria sido melhor voltares à mesma hora – disse a raposa. – Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos. (S A IN T- Ex U PÉ RY , 2 00 2, p . 9 9) Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 125 Nossa proposta é que vocês desenvolvam um projeto pedagógico para a Educação Infantil no qual o movimento e os jogos lúdicos sejam fatores relevantes para a aprendizagem. O conteúdo desta disciplina e os exemplos práticos de sua realidade escolar fornecerão os subsídios necessários para o desenvolvimento de seus projetos. Vejam alguns passos a serem seguidos. 1. Reúnam-se em grupos de, no máximo, quatro integrantes. 2. Escolham um tema gerador e, a partir dele, desenvolvam um projeto, utilizando o movimento e os jogos lúdicos nas ações pedagógicas previstas. 3. Não se esqueçam dos itens que geralmente constam em todos os projetos: capa – identifica a instituição, a disciplina, o título do projeto, os criadores, o local e a data; introdução – introduz o assunto e descreve a relevância do tema para a Educação Infantil e para a comunidade em que o projeto será aplicado; objetivos – descreve os objetivos (metas) a serem alcançados com a aplicação do projeto; público-alvo – especifica as características do público que será atingido; fundamentação teórica – apresenta os conceitos teóricos e os autores que fundamentam as ações pedagógicas previstas no projeto; descrição do projeto – detalha cada etapa ou fase do projeto para que o leitor possa entender as ações a serem implementadas; plano de aula – descreve as atividades previstas para cada aula; resultados da aplicação (opcional) – caso o grupo consiga aplicar seu projeto em alguma escola infantil, deverá descrever o resultado obtido; conclusão – relevância do trabalho realizado e considerações finais; bibliografia; anexos – tabelas, fotos, materiais produzidos pelas crianças etc.; entregar para o monitor em 30 dias. É muito importante que vocês realmente planejem e discutam coletivamente os objetivos, a fundamentação teórica e as ações de seu projeto. Procurem elaborar um projeto que possa ser aplicado em sua realidade escolar e que seja relevante para o seu trabalho diário de educador infantil. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Criatividade e sua importância para a Educação 126 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ABRAMOVICH, Fanny. Teatro na Educação: o que é afinal? Disponível em: <www.wooz.org.br/ teatroeducacao.htm>. Acesso em: 15 nov. 2004. ALVES, Fátima. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção. Rio de Janeiro: Wak, 2003. ALVES, Gilberto Luiz. Apresentação. In: Klein, Lígia Regina. Alfa betização: quem tem medo de ensinar? São Paulo: Cortez; Campo Grande: Editora da UFMS, 1996. _____. A Produção da Escola Pública Contemporânea. Campinas: Unicamp, 1998. 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