Logo Passei Direto
Buscar

Psicologia da Dança

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

PSICOLOGIA NA DANÇA 
 
 
 
Sumário 
 
FACUMINAS ...................................................................................................... 2 
INTRODUÇÃO ................................................................................................... 3 
CAPÍTULO I – PSICOLOGIA DA DANÇA .......................................................... 4 
CAPÍTULO II – MEU CORPO ME PERTENCE: INTERFACE ENTRE 
PSICOLOGIA E DANÇA. ................................................................................... 9 
CAPÍTULO III - CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA CORPORAL AO ENSINO 
DA DANÇA. ...................................................................................................... 16 
REFÊRENCIAS ................................................................................................ 27 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FACUMINAS 
 
A história do Instituto FACUMINAS, inicia com a realização do sonho de um 
grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos 
de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a FACUMINAS, como 
entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. 
A FACUMINAS tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas 
de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a 
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua 
formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, 
científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o 
saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 Esta apostila contribui para pensar práticas de pesquisa em Psicologia que 
tomam a dança como método nas quais o corpo de quem pesquisa é, ao mesmo 
tempo, pesquisado e pesquisador, o que requer um tipo de escrita que 
chamamos de coreocartografia. Versamos sobre a escrita coreocartográfica a 
partir do encontro entre reflexões efetuadas na dança contemporânea, nas 
epistemologias feministas dos estudos em ciência, tecnologia e sociedade e nos 
estudos sobre cartografia. As práticas experimentalistas em Psicologia ao 
prescreverem determinados corpos e métodos como caminhos únicos para a 
pesquisa atuam como coreopolícias que podem ser questionadas ao desordenar 
os ajustamentos dos corpos, abrindo a modos de vida cujos traçados vão se 
dando em movimentos coreocartografáveis. Apostamos numa noção de 
experimentação ampliada que revisa a noção clássica de experimentação em 
Psicologia, enfatizando as práticas de criação, de infixidez, de variação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1 – A dança como estratégias de enfretamento da endometriose. 
 
 
CAPÍTULO I –PSICOLOGIA DA DANÇA 
 
A psicologia do esporte é um ramo da ciência que surgiu nas últimas 
décadas. Esta área da psicologia já estudou muitos fatores psicológicos 
importantes e tem o objetivo, principalmente, de melhorar o rendimento dos 
atletas. Esta melhora de desempenho pode ocorrer pelo trabalho nos aspectos 
cognitivo, emocional, comportamental ou psicológico. Outro interesse muito 
comum de estudos da psicologia do esporte é compreender os efeitos do esporte 
e da atividade física para populações específicas. A partir destes interesses 
surge também a psicologia da dança. 
 
 A dança data de muito antes da psicologia. A dança não técnica surge 
paralela ao surgimento do ser humano. A partir do surgimento da dança técnica 
na sociedade decorrem algumas questões, como, por exemplo, o interesse em 
melhorar o desempenho de dançarinos e compreender os efeitos da dança nas 
pessoas que praticam. A psicologia da dança nasce como área de estudo para 
responder a estas e outras questões. Ao estudar a dança, os bailarinos, 
instituições e os efeitos da dança o psicólogo se insere em escolas e companhias 
 
 
de dança a fim de melhorar o desempenho e bem-estar de bailarinos e 
desenvolver projetos que utilizem a dança como promotora de saúde. Porém, 
esta exposição ainda é genérica para definir a psicologia da dança que exige um 
aprofundamento sobre a própria nomenclatura e seus interesses. 
 
 A psicologia aplicada à dança possui predominantemente duas 
nomenclaturas. São elas “dance psychology” (Lovatt, 2013) e “psychologyof 
dance” (Taylor & Taylor, 1995). Ambas podem ser traduzidas de forma livre como 
“psicologia da dança” e é assim que iremos nos referir a esta área do 
conhecimento. 
Por psicologia da dança não estamos nos referindo apenas a 
compreender questões psicológicas relacionadas ao movimento artístico ou 
terapêutico. Ou seja, o que nos importa não é somente o bailarino. Estamos sim 
nos referindo a aplicação e estudo de todas as áreas da psicologia (psicologia 
do rendimento, psicologia escolar, psicologia da saúde, psicologia clínica, etc.) 
à área da dança. 
 
 A psicologia da dança não se preocupa apenas com os efeitos da dança em 
bailarinos, ou ainda, em melhorar questões cognitivas e emocionais nestas 
populações. Apesar de, obviamente, esta também ser uma preocupação da 
psicologia da dança (Franklin, 2003, Martin et al., 1993, Bläsing et al., 2012, 
Berardi, 2017, Stoeber, 2014). Os objetos de estudo da psicologia da dança são, 
naturalmente, os bailarinos, mas também, todos os envolvidos com a área da 
dança (bem como alunos e professores) além da população de forma geral com 
o objetivo de compreender os efeitos da dança para populações específicas 
(Lewis, et al., 2016, Scharoun et al., 2014, Murrock&Graor, 2014). 
 Portanto, esta área de conhecimento é muito ampla com muitos temas a 
serem investigados. A psicologia da dança conta com muitos estudos 
exploratórios especialmente por ainda estar em estágios iniciais de investigação. 
Em muitos casos a entrevista é a técnica de recolha de dados que mais se 
adéqua a este objetivo nesta investigação. Algumas populações que já foram 
estudadas por meio de entrevistas para compreender os efeitos da dança foram 
praticantes adultos de danças populares brasileiras (de Lima & Abreu, 2011), 
 
 
mulheres adultas que sofreram abuso sexual (Mills e Daniluk, 2002) e jovens 
bailarinos (Ringhamet al. 2006). 
 Em relação ao primeiro grupo (praticantes adultos de danças populares 
brasileiras) foram estudados os efeitos da dança em vários aspectos. Os ganhos 
a partir da entrada no grupo foram relatados a partir de modificações internas - 
“estar mais desperto, perda da timidez, melhor posicionamento perante os 
outros, sentir-se com mais atividade e mais feliz, sentir-se importante como 
pessoa, fortalecimento de autoconfiança” (de Lima & Abreu, 2011, p.44) - 
ampliação do conhecimento; modificação na relação com as pessoas e 
modificações do aspecto artístico. Apenas 2% dos participantes não perceberam 
mudanças. O valor dado ao grupo pelos participantes foi especialmente relatado 
pela aquisição cultural e pela aquisição de informação, educação e lazer. A 
relação com o grupo, o movimento, a música, a percepção de mudanças internas 
e a possibilidade de esquecer os problemas foram os fatores associados ao valor 
terapêutico. (de Lima & Abreu, 2011). 
 “é a relação grupal, na forma como se apresenta hoje, o grande propiciador de 
efeitos terapêuticos percebidos pelos integrantes, e não a situação artística 
isoladamente. A arte da dança ocupa um lugar modesto na busca de 
identificação da presença de um valor terapêutico dentro do grupo em 
questão.”(de Lima & Abreu, 2011). 
 O estudo com mulheres adultasque sofreram abuso sexual também procurou 
compreender os efeitos da dança. A expressão autêntica de si mesmas através 
do movimento foi uma das principais questões relatadas pelas participantes 
como positiva. Sair do processo mental e de fala e usar o movimento como 
alternativa em direção a cura e como forma de se reconectar com seus corpos 
também foi relatado como positivo. O grupo também trouxe aspectos relevantes 
para o processo de terapia, desde presenciar o movimento e expressão do outro 
até conexão com o outro e suporte, apesar do grupo também trazer certa 
vulnerabilidade para a expressão individual. Os autores concluem que há 
demandas corporais que devem ser incluídas no processo de psicoterapia 
regular (Mills e Daniluk, 2002). 
 
 
 
 
 
Por último, o estudo com amostra de bailarinos jovens investigou a 
prevalência de transtornos alimentares em 29 bailarinos (Ringhamet al., 2006). 
Foram utilizados inventários e entrevistas para diagnosticar transtornos 
alimentares e examinar sintomas. Foram utilizados inventários e entrevistas para 
diagnosticar transtornos alimentares e examinar sintomas. Muitos participantes 
apresentaram comportamentos compensatórios e de purgação. Bailarinos, de 
forma geral, apresentaram atitudes e comportamentos similares aos sujeitos 
com transtornos alimentares. A maioria dos sujeitos apresentou transtornos 
alimentares. A partir destes dados este estudo comparativo indica uma alta 
prevalência de transtornos alimentares em bailarinos. Os estudos apresentados 
ilustram os estudos e interesses da psicologia da dança. Como muitas outras 
ciências, a psicologia da dança vem para erguer ainda mais o fascinante mundo 
da dança. 
Os benéficos da psicologia da dança 
 Desde o início da humanidade, quando o homem ainda não tinha 
desenvolvido a linguagem falada, a dança já fazia parte de seus rituais e existia 
como forma de comemoração a algum acontecimento ou data especial 
revelando, no próprio ato, a importância daqueles movimentos para o sujeito e/ou 
grupo que o praticavam. 
 
 Dançar regula o sono, o estresse, a ansiedade e diminui os níveis de 
irritabilidade. Fora a estimulação da inteligência cinética, que é o aprimoramento 
dos movimentos rítmicos e coordenados do corpo. O sujeito passa a ter uma 
percepção positiva do próprio corpo, valorizando-se mais, acreditando em seu 
potencial e recorrendo a experiências de vida somadas com o que se apresenta 
elaborando uma maneira de resolver/lidar com determinada situação interagindo 
melhor com o grupo, ampliando assim, o convívio social. Tudo isso para dizer 
que existe uma melhora significativa na autoimagem, autoestima, autoconfiança, 
criatividade e linguagem... 
 
 
 
 
 Todo estilo de dança, revela muito das opções de vida daquele sujeito. Ao 
optar, ele está evidenciando suas preferências de grupos, linguagem, tipos de 
contato, vestimenta, ritmos musicais, entre outros... Por isso, se comporta de 
acordo com as regras sociais determinadas por aquele grupo, assumindo o 
“comportamento padrão” e somando, de acordo com sua bagagem 
biopsicossocial. Quando se trata de dança de salão, por exemplo, um casal que 
fez essa escolha, apresenta uma melhora expressiva em sua vida conjugal, pois, 
dançando juntos eles (re) encontram momentos de troca, de descobertas e 
conseguem (re) criar uma harmonia, muitas vezes já ausente. 
 
 A dança é considerada uma forma de terapia, pois, através da integração 
corpo mente, expressamos nossas emoções e sentimentos e damos vazão ao 
que, muitas vezes, é difícil traduzir em palavras... Nada substitui a terapia 
convencional, mas, muitas são as maneiras de aliviar o estresse do dia a dia e 
passar a lidar com suas questões de uma forma mais tranquila, propiciando 
assim uma trégua na própria vida para iniciar o processo de autoconhecimento. 
Então, quando sentir que é necessário, busque um profissional da psicologia. 
 
Figura 2 – Dança adaptada. 
 
 
 
CAPÍTULO II – MEU CORPO ME PERTENCE: 
INTERFACE ENTRE PSICOLOGIA E DANÇA. 
 A inserção da Psicologia no espaço de uma oficina de dança parte da 
premissa de que o corpo, na medida em que não se desvincula de processos 
psíquicos, pode ser também objeto da Psicologia. Barros (2006, p. 69) acredita 
que existe no homem moderno uma tendência ao adormecimento e à 
mecanização da vida, frutos da racionalidade cartesiana: 
[...] que afasta o corpo das operações de conhecimento, acreditando-o 
desprovido de vida ou experiência própria. A cisão mente e corpo reflete-
se nos hábitos que contraímos, é constituidora das nossas maneiras de 
ser, sentir, pensar e agir. Deste modo, a herança cartesiana nos lega um 
corpo sem vida, um mecanismo. 
 Nesse sentido, a cisão mente-corpo objetifica o corpo e retira da psicologia 
a possibilidade de trabalhar com ele, uma vez que, se ele é mero objeto, não há 
experimentação corporal passível de elaboração psíquica. Esta cisão produz o 
corpo adormecido cujas conexões com o mundo são negadas: um corpo sem 
vitalidade, avesso a transformações, sujeitado, insensível. 
 Entendemos, ao contrário, que a experimentação corporal proporciona a 
conquista de um novo espaço existencial. Como colocam Moehlecke e Fonseca 
(2008), a dança propicia o abandono do corpo atual na tentativa de criar novas 
práticas e modos estéticos de existir. Esse abandono do indenitário e da 
segurança em prol do corpo dançante abre um vazio que guarda a possibilidade 
de construir outras conexões com o mundo e encontrar formas de existência até 
então imprevisíveis. A dança se constitui, nesta perspectiva, como modo de 
subjetivação. Um corpo antes rígido, ao experimentar novos contornos, encontra 
a possibilidade da mudança, da desconstrução e da potência. A intervenção 
psicológica pode ser aqui vislumbrada, uma vez que com ela se busca a 
plasticidade, a transformação e o embate do sujeito com modos de existência 
que o aprisionam. 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11
 
 
 O movimento pode mostrar outros caminhos, se explorado para propiciar 
experiências corporais que provoquem as sensibilidades e tornem mais 
presentes tanto o próprio corpo quanto os sentimentos que ele elicia; esses 
corpos seriam “mais aptos a discernir as diferentes qualidades de forças que 
habitam o mundo. Corpos mais conectados, mais articulados, mais ricamente 
relacionáveis, menos fixados, portanto, mais livres e vitalizados” (BARROS, 
2006, p. 112). 
 Por meio do trabalho corporal e da conscientização e conhecimento do 
próprio corpo, as mulheres que participaram da oficina também poderiam 
descobrir novas formas de ser mulher. O despertar para outras possibilidades do 
e no corpo, isto é, para a construção de novas conexões com o corpo e com a 
sexualidade, já foi bastante discutido pelo feminismo. Segundo Alves e Pitanguy 
(2007, p. 61-62), “diretamente relacionado à questão da colocação da mulher 
como sujeito de sua sexualidade, o movimento feminista [...] propõe uma 
reapropriação do conhecimento do corpo”, partindo da ideia de que este 
desconhecimento gera alienação e perda da capacidade de controle sobre suas 
funções. 
 Outras formas de ser mulher são possíveis através da conexão, do 
estabelecimento de contato, do estar em relação, ou seja, o que chamamos de 
afetação. Segundo Lazzarotto e Carvalho (2012, p. 26), o afetar “sinaliza a força 
de extensão da vida e da atividade que podemos viver”. Na medida em que 
somos afetados pela experiência, e nos conectamos com o vivido, abrimos a 
possibilidade de nos experimentarmos de outras formas. Notamos, assim, que a 
possibilidade de nos afetar, um dos propósitos da oficina de dança,está 
intimamente relacionada à construção de outras formas de ser sujeito. 
“Experimentar afetos sinaliza a enunciação de outras formas de agir a partir dos 
modos de expressão que vamos percorrendo” (LAZZAROTTO; CARVALHO, 
2012, p. 26). Assim, ao se mostrarem disponíveis a habitar o espaço da oficina, 
as mulheres se abrem ao processo de afetação, fundamental para a mudança 
na forma de estar no mundo. 
 Outra premissa importante para refletirmos sobre a prática das oficinas de 
dança é a de que o corpo não é uno, fixo nem estável, mas múltiplo e aberto a 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B7
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B7
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B7
 
 
transformar-se e construir outras conexões com o mundo. Partimos da visão 
foucaultiana segundo a qual o corpo é político, visto que as redes de saber/poder 
incidem na formação dos corpos. Essas relações de saber/poder também 
abarcam o gênero - o feminino e o masculino - e são marcadas pela submissão 
e domínio de um pelo outro. Desde seu surgimento, o feminismo indaga as 
relações de poder entre os gêneros e busca superar formas de organização 
tradicionais permeadas pela assimetria e pelo autoritarismo, que fizeram com 
que a mulher fosse desvalorizada e tivesse seu trabalho, sua educação e seus 
direitos negados ao longo da história (ALVES; PITANGUY, 2007). Cabe lembrar, 
porém, que identificar a assimetria nas relações de gênero implica localizar 
possibilidades de resistência: 
O “masculino” e o “feminino” são criações culturais e, como tal, 
são comportamentos apreendidos através do processo de 
socialização que condiciona diferentemente os sexos para 
cumprirem funções sociais específicas e diversas. Essa 
aprendizagem é um processo social. (ALVES; PITANGUY, 
2007, p. 55). 
 Dado que a diferença entre os sexos é histórica, social e cultural - e 
portanto não natural -, ela é passível de transformação. E dado que o corpo não 
é prisioneiro de uma única forma de ser, isto é, que ele é múltiplo e abarca um 
infinito de possibilidades e virtualidades, abre-se a possibilidade de que os 
corpos das mulheres possam passar da posição de corpos assujeitados para a 
posição de corpos sujeitos, abertos a modos de ser mulher que não aqueles 
definidos nas relações de dominação de gênero. 
 A partir de uma perspectiva cultural do que é ser mulher, impregnada por 
relações e discursos de dominação de gênero, temos como característica do 
feminino o desconhecimento do próprio corpo e da própria sexualidade (ALVES 
et al., 1981). Esse desconhecimento responde ao modelo de pureza definido 
para a mulher, cria barreiras para a aquisição do saber e do domínio sobre o 
próprio corpo e é um empecilho para as escolhas e as alternativas de uso do 
corpo. Então, “se o saber é uma forma de exercício de poder pelo qual o indivíduo 
traduz e se apropria do mundo, o saber que não deve saber é também uma forma 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2
 
 
de apropriação condizente com a posição subordinada da mulher” (ALVES et al., 
1981, p. 327). 
 A negação do saber de si possibilita que todo um esquema de sujeição seja 
desenvolvido e internalizado, alienando, assim, a mulher de seu próprio corpo. 
Inversamente, podemos pensar que conhecer o corpo e saber de si são atitudes 
que contribuem para que a mulher possa questionar esquemas de dominação e 
se constituir como sujeito. O domínio do corpo é capaz de produzir apropriação, 
emancipação e empoderamento, este entendido como um “processo que desafia 
as relações de poder instituídas e acontece na tensão individual/coletivo” 
(MARINHO 2014, p. 30). O questionamento da posição passiva e a substituição 
dos valores impostos - produzidos pela cultura e pelos discursos patriarcais - por 
valores próprios abre caminho para a mudança de atitude diante da agressão, 
do desrespeito e da desvalorização. 
 O movimento feminista teve como proposta básica dar voz às mulheres e 
trouxe no bojo de suas ações a proposição de grupos de reflexão cujos objetivos 
eram a apropriação pelas mulheres do discurso sobre si e a criação de espaços 
de manifestação coletiva (ALVES et al., 1981). Segundo Alves e Pitanguy 
(2007), os grupos de reflexão são também uma estratégia de luta, surgindo da 
necessidade de romper o isolamento em que vivem a maioria das mulheres. 
Nesses grupos, a mulher constitui um espaço próprio de expressão em condição 
de igualdade, sem interferência masculina, onde pode descobrir sua identidade, 
conhecer-se e verificar que suas vivências não são isoladas, mas partilhadas por 
outras mulheres (ALVES; PITANGUY, 2007, p. 67), percebendo-se dentro de 
uma coletividade: “A descoberta dessa experiência comum, a transformação do 
individual em coletivo, forma a base do movimento feminista. Partilhando com 
outras suas vivências, a mulher reconhece a sua força e conscientiza-se da 
dimensão política de sua vida particular.” 
 A experiência de compartilhar vivências em grupo nos ajuda a pensar a 
relação entre psicologia dança e gênero no espaço da oficina que 
acompanhamos. Como a arte e, especificamente, a dança, pode produzir 
processos de transformação e reinvenção de si e do mundo, processos que 
importam à Psicologia e para os quais ela está atenta? Estes são processos que 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B9
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
 
 
apontam para o rompimento com padrões e modos de ser predefinidos aos 
papéis de gênero. Neste sentido: 
A arte pode se tornar uma possibilidade consistente de 
transformação, uma vez que ela ativa uma diluição de antigas 
certezas e provoca uma construção de novas territorialidades. O 
paradigma estético nos faz pensar que a vida está em 
movimento e que temos a chance de romper com aquilo que nos 
aprisiona, em direção ao intempestivo e à diferenciação. [...] 
Podemos desnaturalizar aquilo que parecia natural ou estável e 
provocar novos questionamentos no cotidiano (MOEHLECKE; 
FONSECA, 2008, p. 375). 
 Spindler (2005, p. 271) já apontou essa possibilidade a partir das oficinas 
grupais de dança, para ela um espaço diferente do habitual onde as participantes 
“poderiam se enxergar e estar em relação de outros jeitos, criando novos 
dispositivos para dar passagem ao desejo, permitindo uma nova sensibilidade”. 
Do mesmo modo, outros autores defendem que essas estratégias de 
intervenção permitem o rompimento de hábitos e oferecem: 
[...] a possibilidade do corpo ganhar nuances, sutilezas dentro do 
habitual. A prática, movendo e conscientizando o corpo a partir 
de diferentesposturas, pode abrir espaços de indeterminação, 
que serão espaços ainda não significados, mas serão, muito 
provavelmente, espaços de vitalidade que podem contribuir para 
a criação de novas maneiras de lidar com a vida (BARROS, 2006, p. 
115). 
 A construção de novas formas de ser mulher a partir de composições 
imprevisíveis e singulares é um objetivo comum do Movimento Feminista, 
mesmo considerando a diversidade de feminismos existente. Para o feminismo, 
a prática política não precisa estar restrita a programas de lutas e reivindicações, 
visto que o processo de emancipação da mulher dialoga também com as 
experimentações singulares de mulheres, ou de grupo de mulheres, que 
descobrem juntas, a cada grupo ou encontro, outras formas de viver segundo 
novos códigos de comportamento (GREGORI, 1993). 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B14
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B6
 
 
Talvez a força maior, mais importante e menos aparente do 
movimento feminista esteja na semente de questionamento e de 
reivindicação que surge na consciência das mulheres que, 
vivendo o seu cotidiano, vêm tentando transformá-lo e recriar a 
sua relação com o mundo, com os companheiros, com os filhos, 
consigo mesmas (ALVES; PITANGUY, 2007, p. 70). 
 É justamente no despertar desses questionamentos - que possibilitam 
movimentos de consciência das mulheres e recriação de suas relações consigo 
e com o mundo - que podemos perceber uma articulação entre os objetivos do 
movimento feminista e as possibilidades despertadas pelo trabalho com o corpo 
a partir da dança. Através do questionamento, da experimentação e do (re) 
conhecimentodo corpo, abre-se a possibilidade de “vir a ser”. Assim 
como Simoni e Rickes (2012), entendemos o “vir a ser” como um “outrar”, no 
sentido da produção de uma diferença em relação ao que se está sendo. 
Segundo as autoras, 
Outrar vem então colocar em questão os discursos de 
identidade, que insistem em relegar à existência uma 
substancialidade previsível, o que em nada lhe diz respeito. É de 
Nietzsche (2004) o conhecido aforisma torna-te quem tu és - 
convite a não temer a dimensão do tornar-se, outrar-se - no qual 
podemos ler que, de algum modo, existe distância entre onde 
se está e o que se é (SIMONI; RICKES, 2012, p. 180). 
 Nesse sentido, consideramos que os exercícios e as discussões realizados 
durante a oficina de dança convidam as participantes a este movimento de 
deslocamento de si próprias, abrindo a possibilidade de construírem outras 
formas de ser mulher. O outramento passa a ser visto como um movimento, que 
acontece no momento mesmo em que se abre a possibilidade de contato 
consigo, com o outro que existe em si e com o outro que é externo a si. Outrar é 
fluxo, é movimento, é processo. É algo que não se pode capturar neste ou 
naquele exercício, ou que se pode almejar alcançar como uma 
consequência sinequa non de determinada atividade. Pelo contrário, o 
outramento de si é acontecimento imprevisível, impossível de controlar: 
 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B13
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B13
 
 
Outrar sugere ainda, como verbo, que se trata de ação, 
o que de algum modo implica um sujeito que a 
empreenda ou sofra. É, no entanto, entre essas duas 
posições - a saber, as de sujeito à e sujeito de - que o 
outrar se situa (SIMONI; RICKES, 2012, p. 179). 
 Dentro desta perspectiva, a oficina de dança permite que as mulheres, a 
partir da experimentação de seus corpos, da conscientização do que eles podem 
e da expansão das possibilidades de movimento, criem vazios que possam ser 
preenchidos de maneiras imprevisíveis, criando novas devires e possibilidades 
de ser e estar no mundo, permitindo a construção de outras formas de ser mulher 
e rompendo com os papéis hegemônicos a elas atribuídos. 
Figura 3 – Grupo de dança feminino. 
 
 
 
 
 
 
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B13
 
 
 
CAPÍTULO III - CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA 
CORPORAL AO ENSINO DA DANÇA. 
 
 A palavra dança, em todas as línguas europeias – danza, dance,tanz -, 
deriva da raiz tan que em sânscrito, significa “tensão”. Dançar é se expressar e 
vivenciar com o máximo de intensidade, a relação do homem com a natureza, 
com a sociedade, com os seus desejos e consigo mesmo. É estabelecer uma 
estreita relação entre o homem e a natureza, é participar do movimento cósmico 
e do domínio sobre ele. A dança também nos revela que o sagrado é também 
carnal e que o corpo pode ensinar o que um espírito desencarnado não conhece: 
A beleza e a grandeza do ato quando o homem não está separado de si mesmo, 
mas inteiramente presente no que faz. (GARAUDY, 1980). 
 Este estado de plenitude que a dança pode proporcionar quando de fato se 
está ali, presente, livre de quaisquer preconceitos e preocupações é 
essencialmente uma atividade vital. De acordo com Reich (1983) viver na 
plenitude é abandonar-se no que faz. “Pouco importa que se trabalhe, que se 
fale com amigos, que se eduque uma criança, que se escute uma conversa, que 
se pinte um quadro, que se faça isso ou aquilo”. (REICH, 1983, p. 32). Este artigo 
é escrito pensando justamente nas possibilidades de abandono e plenitude do 
ser humano no âmbito da dança. Algumas formas de ensino mais conscientes 
podem propiciar estes aspectos para as pessoas que buscam tal aprendizagem. 
 Conforme diz Garaudy (1980, p. 181) “O corpo é o homem que se 
exterioriza, é o que me liga aos outros e ao mundo, é aquilo por meio do que eu 
me expresso e tomo consciência de mim mesmo”. O corpo é presente, concreto, 
real, e é nele que o prazer e a alegria deságuam, e é a partir dele que a dança 
faz o seu caminho de retorno, para chegar ao centro, aquele lugar onde a 
semente germina. Podemos pensar em um corpo que se movimenta pela 
pulsação emocional. 
 
 
 
É o corpo pulsional que denominamos corpo real ou corpo 
sentido. O corpo é uma forma, uma silhueta, o protótipo universal 
de todos os objetos criados pelo homem. Nós o denominamos 
corpo imaginário ou corpo visto. (...) Nós o denominamos corpo 
simbólico ou corpo significante. Seja organismo, força, forma ou 
símbolo, o corpo continua sendo o indispensável substrato de 
todo sentimento de si. (NASIO, 2009, p. 122) 
 A percepção do próprio corpo revela um sentido existencial e de identidade 
ao indivíduo, e o movimento é o fator que possibilita a criação de unidade 
corporal. Bertazzo (1949) coloca que o movimento é uma tensão conduzida de 
um músculo a outro, organizando alavancas ósseas e permitindo a sensação de 
um braço inteiro, de uma perna inteira e do corpo inteiro. É toda essa síntese 
motora que fornece a sensação de unidade, de identidade. Se as unidades 
estruturais não concorrerem para a consciência de identidade, o psiquismo se 
sobrecarrega em um esforço de personalização, e a ausência dessa unidade 
pode gerar bloqueios e patologias. 
 A expressão do movimento do corpo na dança pode ser mais rica que a 
linguagem articulada, que depende, em grande parte da comunicação no sentido 
verbal. Todo um conjunto de movimentos, ou seja, uma coreografia contribui 
para a expressão do sentido: por exemplo, há bailarinos que utilizam a qualidade 
da “presença”, ficam sem se movimentar por um tempo e conseguem contar algo 
para a plateia. 
 Segundo Cunningham(apud Gil, 2001) a dança é algo presente, que está 
aqui, qualquer outra explicação continua a escapar-nos, pois escapa a 
linguagem. Enfatiza que a dança pode ser pensada como uma forma de 
expressão, porque seria impossível recortar nos movimentos, unidades discretas 
comparáveis aos fonemas das línguas naturais. 
 No movimento dançado o sentido torna-se ação, podendo ser dito de 
diferentes maneiras, a dança é o movimento no qual todos os sentidos nascem. 
O movimento dançado é complexo para descrever e querer apreender todo o 
seu sentido. 
 
 
 
 
Figura 4 – Benefícios da dança. 
 
 
 
 De acordo com Mommensohn e Petrella (2006) a dança é uma linguagem 
que pode conter mensagens implícitas e referir-se a conteúdos simbólicos, se 
expressa por si mesma, em coreografias compostas de movimentos sensíveis. 
O movimento pode transmitir por gestos simbólicos, mensagens propostas pela 
coreografia. Em contrapartida é a expressão particular de cada pessoa, 
revelando as particularidades e características do seu coreógrafo, e 
principalmente do dançarino. 
 
 
 A dança, a música, e a arte em si vão para além das palavras. Conforme 
Reich (1998, p. 333): “[...] o organismo vivo tem seus próprios modos de 
expressar o movimento, os quais muitas vezes simplesmente não podem ser 
colocados em palavras”. A dança na sua produção criativa inspira numa direção 
de um campo de efetuação de forças, em uma materialidade encarnada, que 
viabiliza uma construção subjetiva através da apropriação do corpo. 
 Pensando nisto traz-se uma visão da dança como educação, como meio de 
intervenção. Esta perspectiva da dança teve inicio com as pesquisas de Laban 
(1978) que se dedicou a estudar e compreender o movimento humano, 
desenvolvendo a Labanotation, ou coreologia, que é um estudo de resultados 
coreográficos, buscando transportar elementos do cotidiano para a composição 
coreográfica. De acordo com Regel (2003) apud Tibúrcio (2009, p. 184), “a 
coreologia baseia-se na crença que movimento e emoção, forma e conteúdo, 
corpo e mente é uma unidade inseparável”. Como descreve Regel (2003) a 
proposta de Laban era para atentarmo-nos à intenção do gesto, independente 
de sua profundidade. 
 Partindo da criação da labanotation, Laban iniciou sua proposta da prática de 
uma dança que fosse educativa, de acordo com Tibúrcio (2009), esta proposta 
de Laban para uma dança educativa fundava-se em sua teoria de que é com o 
corpo que se adquire conhecimento, por isso não se deve separar a prática do 
pensamento, buscando transcender a simples “reprodução” de movimentos. 
De acordo com Tibúrcio (2009) Laban ensina que: 
[...] é com o corpo que adquirimos conhecimento [...] não é possível 
separar conceitos abstratos da experiência corporal. Os esforços, 
expressão externa da energia vital interior, apresentam características 
(fatores) que quando combinados nas suas qualidades geram tipos de 
vocabulários de movimentos infinitos e aprendizagens diversas. 
(TIBURCIO, 2009, p.184) 
 A proposta de Laban, como cita Gouveia (2009), era a busca pela liberdade 
de expor movimentos e encontrar autossuficiência em si mesmo, no próprio 
corpo. Buscava libertar o corpo e a dança de um estilo idealizado, estimulando 
a criação, a desconstrução e o imprevisível. Não há preocupação com a 
produção coreográfica na teoria de Laban, e sim a elaboração de uma dança 
 
 
que pudesse ser vivenciada com “plena participação interna e com clareza de 
formas” da ao corpo como um todo. 
 Esta pratica proposta por Laban (1978) assemelha-se com a teoria de Reich 
da autorregulação e também de Lowen sobre aauto possessão, podendo ser 
desenvolvida e aplicada em sintonia com estas ideias. 
 É preciso que a prática da dança seja uma atividade espontânea e prazerosa, 
para que não acabe se tornando uma fonte de encouraçamento. Isto acontece 
muitas vezes em técnicas fechadas e restritas da dança, e em casos de 
transferência de pais sobre seus filhos. 
Qualquer atividade motora, realizada ritmicamente, é agradável. 
Se for realizada mecanicamente, sem sensação de ritmo, 
adquirirá qualidade dolorosa. O melhor exemplo é andar. 
Quando se anda ritmicamente, o andar é agradável. Quando se 
anda para chegar a algum lugar o mais rápido possível, a 
atividade física transforma-se numa tarefa. Mesmo trabalhos 
monótonos, como varrer folhas ou limpar assoalho, constituirão 
atividade agradáveis se os movimentos forem rítmicos. 
 
 
 Pode-se avaliar o prazer ou sua falta na vida das pessoas pela 
forma como se movem. Os movimentos rápidos, compulsivos e 
abruptos da maioria em nossa cultura traem a falta de alegria em 
suas vidas. (LOWEN, 1984. p.201) 
Nosso aparelho locomotor, ou como chama Bertazzo, (1949) “órgão do 
movimento”, possui identidade própria, como os demais órgãos, é fruto complexo 
e refinado de todo um processo evolutivo, negligenciar as suas particularidades 
e potencialidades equivale a subestimar o dom da palavra. O homem possui um 
sistema de movimento de extremo refinamento, a ponto de poder guiar-se, na 
maior parte do tempo, apenas por seu “piloto automático”. 
Se esse sistema locomotor é a tal ponto sofisticado, por que então com 
tanta frequência acaba por se desorganizar e se desregular? 
 De acordo com Volpi (2003), os acontecimentos vividos durante a vida 
são registrados em nossos corpos, com ênfase principalmente nas ocorrências 
 
 
da primeira infância. Marcas profundas e irreversíveis são por muitas vezes 
deixadas no corpo. Conforme ocorre o desenvolvimento, as experiências ficam 
registradas na memória celular. 
A teoria reichiana vem colaborar com a questão de que repressões sociais 
e culturais são cruciais na formação do caráter do indivíduo, a atenção dada ao 
fator econômico percorre a teoria e obra de Wilhelm Reich, que os corpos estão 
sujeitos a uma sociedade autoritária. Os corpos são submetidos através de 
sucessivas inibições de certos impulsos libidinais, revertendo-se em uma atitude 
muscular geralmente contraída, enrijecida contra o mundo exterior. A atitude 
muscular é o que constitui o que Reich chamou de couraça. O organismo fica 
contraído, o expressar se torna doloroso e isto acontece em decorrência das 
proibições sociais que foram internalizadas no processo de educação. A 
retenção ou o encouraçamento do organismo visa bloquear a liberação e o 
movimento da energia corporal, que se expressa nas emoções e, também, nos 
demais movimentos das funções vitais. (COSTA, 1984). 
 
Pensando em toda a repressão descrita acima, as quais o ser humano 
está sujeito a passar, tanto físico como emocional, a dança entra em cena como 
possibilidade de um caminho, através do qual a vida pode sermanifestada como 
um potencial expansivo, na expressão das emoções e suas singularidades. 
Muitas pessoas buscam praticar a dança por inúmeros motivos, como exercício; 
como forma de terapia ocupacional; como um novo aprendizado; para se 
profissionalizar nesta área como dançarino ou professor. Também há pessoas, 
que buscam a dança por projeções de desejos de outros. 
 Motivos para estarem no meio da dança não faltam, acontece que no meio 
de toda beleza que há por trás de uma dança, há toda uma relação de 
aprendizado de uma técnica que envolve conteúdos que podem vir a ser mais 
uma forma de encouraçamento na história da pessoa. Principalmente quando 
envolve um ideal corporal que pode acirrar a competitividade, contribuindo para 
o reforço de um caráter narcísico. 
 De acordo com Volpi (2003), o traço de caráter narcisista está cada dia mais 
presente na vida das pessoas, que vivem em busca de poder, fama e ideal 
 
 
corporal, podendo ultrapassar limites morais, éticos, físicos e psicológicos. São 
pessoas competitivas que buscam sempre uma plateia. É uma busca de alguma 
coisa que venha a preencher o vazio interior. 
 O ensinoda dança destinado tanto para adultos como para criança, é uma 
forma de educação corporal, o corpo sendo treinado para determinados 
movimentos, nos quais o professor ali presente é um espelho tanto físico como 
psicológico, que pode ser um facilitador para a livre expressão e respeito à 
integridade do aluno, como pode exercer uma forma de poder e desrespeito a 
singularidade do aluno. 
 Como a proposta de Laban, as aulas de dança podem ser amplamente 
exploradas desde a infância para que o indivíduo entenda e produza intenções 
e emoções em seus gestos de uma forma saudável e equilibrada. Para colaborar 
com esta proposta, as teorias reichianas e neo-reichianas abrem novas 
possibilidades de acesso ao educador de dança a um maior conhecimento 
destas interações. Assim pode-se através da consciência corporal obter-se 
também a consciência das representações e marcas do corpo, e então os 
bloqueios energéticos que são inevitáveis podem ser flexibilizados e superados. 
 De acordo com Brikman (1975) o ensino da dança pode ser visto como uma 
disciplina que se propõem a resgatar e desenvolver todas as possibilidades 
humanas inerentes ao movimento corporal. É necessário observar o processo 
de cada aluno de dança e promover um desenvolvimento a partir dele. “É mais 
valioso o próprio processo de desenvolvimento que o eventual resultado que se 
obtenha.” (BRIKMAN, 1975, p. 25). Quando se respeita o resultado de 
manifestação corporal, se produz o movimento com liberdade, o resultado será 
de crescimento, a questão não é chegar a uma forma particular, mas, a forma 
possível para aquele aluno, aí se acredita que esteja à riqueza do processo de 
ensino da dança. 
 A dança deve proporcionar ao individuo a exploração do seu corpo e meio 
em que se encontra. Exploração de formas e possibilidades de maneira livre e 
imprevisível. E principalmente que, além disto, a prática da dança traga 
consciência de si e de seus movimentos, e que isto seja aplicado durante a vida 
do ser que a pratica. 
 
 
 Nesse sentido de ensino e educação no âmbito da dança, poderíamos pensar 
no que Reich falou sobre a educação e as crianças do futuro, pensamento que 
pode se aplicar ao professor de dança que ensina tanto crianças como adultos: 
O educador do futuro fará sistematicamente (e não 
mecanicamente) o que todo o educador bom e autêntico já faz 
hoje: sentirá as qualidades da Vida viva em cada criança, 
reconhecerá suas qualidades específicas e fará tudo para que 
elas possam se desenvolver plenamente. [...] 
 
 
o educador autêntico deverá assumir uma dupla tarefa: a de 
conhecer as expressões naturais que variam de uma criança 
para a outra, e a de aprender a lidar com o meio social, restrito 
e amplo, na medida em que estes se opõem a essas qualidades 
vivas. (REICH, 1983, p.9). 
 
 A relação do ensino e aprendizagem da dança pode ser repensada a partir 
de uma perspectiva da Psicologia Corporal, pois ali se encontra o ser humano 
na sua totalidade, que não é somente um corpo estético. Deve ser levada em 
conta a técnica que cada modalidade de dança requer dentro da sua 
especificidade, porém, é de suma importância que se tenha clareza que acima 
de ser uma técnica, a dança é uma vivência que mobiliza emoções. De acordo 
com Lowen: 
Outra atividade que compartilha dessa qualidade de ser uma 
vivência “mobilizadora”, embora em grau muito menor que o 
sexo, é a dança. Normalmente, somos mobilizados a dançar 
pela música. Quando ouvimos música para dançar, nossos pés 
e pernas não conseguem ficar parados. Se o ritmo for forte e 
persistente, podemos ser enlevados e arrebatados por ele. 
Dançar assim é uma vivência mobilizadora que pode levar a um 
estado transcendental. (LOWEN, 1997, p. 229). 
Conforme Brikman (1975) o trabalho do professor de dança deve respeitar 
a capacidade pessoal de manifestação pessoal, na medida em que realmente 
contribua para libertar o movimento (o músculo bem colocado permite a livre 
 
 
passagem da energia e preserva os reflexos vitais), o processo é sempre 
enriquecedor e valioso. Esse é precisamente o objetivo do trabalho: chegar a 
cada caso, às formas mais enriquecedoras possíveis e não a mera obtenção de 
formas fixas e preestabelecidas. Neste processo de desenvolvimento corporal 
através da dança, será permitido a manifestação da personalidade e um maior 
conhecimento de si mesmo e uma comunicação mais fluida. (BRIKMAN, 1975). 
 
 A dança é um movimento que deve ser levada a luz da compreensão dos 
profissionais que trabalham com o corpo, a fim de que essa atividade corporal 
expansiva, não se transforme em mais uma regra que contribui para anular a 
espontaneidade e acirrar a ferida narcísica. A partir de um olhar mais acurado 
do professor de dança sob todo o contexto que envolve o aluno, o corpo e as 
emoções, é possível encontrar um limite entre as técnicas da dança a ser 
ensinada, e o respeito ao corpo e as expressões desse aluno. 
Pensando nestes aspectos, as teorias reichianas e as psicoterapias 
corporais podem fornecer um campo de estudo teórico e prático no qual os 
profissionais da dança teriam mais ferramentas para trabalhar dentro da intenção 
de que cada pessoa deve ser importante em si mesma, conhecendo seu 
processo individual e auxiliando no seu desenvolvimento, não olhando somente 
um corpo estético e sim um delicado e grande complexo de energias emocionais, 
físicas e psicológicas. Dessa forma, abre-se a possibilidade da dança seguir o 
seu impulso original, através do movimento de pulsação emocional. 
Os benefícios da dança para a saúde mental. 
 A dança é uma atividade física que consiste em realizar uma série de passos 
coordenados, ou não, seguindo um ritmo musical, sendo por isso muito fácil de 
praticar por qualquer pessoa independentemente da idade, agilidade ou tipo de 
corpo. Pode dançar qualquer estilo ou género musical, não importa como o faz! 
Dançar é um bom exercício até mesmo para pessoas fisicamente pouco ativas. 
 A dança é uma forma de socialização que aproxima as pessoas e permite 
conhecer indivíduos de diferentes culturas ou de diferentes origens. É uma forma 
de fazer amigos, de se sentir livre, de conhecer o corpo e de aprender a 
 
 
expressar-se através dele. Trabalha a cooperação, a disciplina e desenvolve 
sentimentos de consideração e respeito pelo próximo. 
 
 Estando em dúvida sobre qual a atividade a escolher para acabar com o 
sedentarismo, a dança é uma excelente opção, já que permite escolher o ritmo 
e tempos mais adequados a cada um e existe uma infinidade de estilos como 
zumba, ballet, dança de salão, pop, hip hop, salsa, jazz, flamenco, entre outros. 
 Ao praticar qualquer atividade física, o cérebro liberta uma substância 
chamada serotonina, que é um neurotransmissor responsável pela sensação de 
alívio, relaxamento e bem-estar. Ao haver libertação de serotonina verificam-se 
ainda alterações no humor e na qualidade do sono. 
 Dançar duas vezes por semana pode reduzir significativamente os níveis de 
cortisol, uma substância também conhecida por hormona do stress. Para quem 
anda frequentemente tenso e estressado, a dança pode ser muito benéfica para 
que se sinta mais relaxado e feliz. 
 As aulas de dança proporcionam momentos de diversão e convívio, pelo 
que a prática de dança em grupo tem ainda mais vantagens. Quem a pratica 
desliga-se dos seus problemas e a dança funciona quase como uma terapia que 
aumenta o bem-estar e a autoestima. 
 A dança promove um aumento da qualidade de vida e da saúde psicológica. 
Muitos praticantes apresentam ao longo do tempo menores sintomas 
depressivos e maior vitalidade. Para pessoas mais tímidas é difícil libertarem-se 
ao início, mas quando o fazem, verifica-se um aumento da auto-estima e da 
confiança em si mesmo e nas suas capacidades. Esta atividade promove 
também o desenvolvimentoda atenção, raciocínio e memória. O hipocampo, que 
é a parte do cérebro que controla a memória, vai encolhendo de forma natural 
durante o final da vida adulta, o que leva muitas vezes à perda de memória e até 
mesmo à demência. No entanto, já existem estudos que revelam que é possível 
reverter a perda de volume do hipocampo, sendo que a dança pode ser uma boa 
aliada nesta tarefa. 
 
 
 A dança melhora as relações interpessoais, e é uma excelente forma de 
superar a solidão e a timidez, estabelecendo novas relações, reduzindo o stress, 
favorecendo o relaxamento, libertando tensões, a ansiedade e depressão. Ajuda 
a expressar emoções e a canalizar a adrenalina. Promove ainda a autoconfiança 
e a clareza de pensamento. 
 Para além de todos os benefícios físicos ou psicológicos, o melhor da dança 
é a boa disposição. É praticamente impossível dançar sem sorrir. Quando dança, 
a mente e o corpo concentram-se unicamente nesta divertida atividade física. A 
pessoa consegue, ainda que por momentos, libertar-se de todos os problemas e 
focar-se apenas na diversão. 
 Ser feliz é o que faz a vida valer a pena. Tudo o resto é puro detalhe. A dança 
ensina-nos que nada é impossível e que cada pessoa é única. Quando 
superamos o medo de sermos nós mesmos, tudo fica menor e mais simples. 
 
Figura 5 – Grupo de dança. 
 
 
 
 
 
 
REFÊRENCIAS 
 
BERTAZZO, I. Cidadão Corpo. Identidade e Autonomia do Movimento. São 
Paulo: Summus, 1998. 
BRIKMAN, L. A Linguagem do Movimento Corporal. São Paulo. Sumus, 1975 
COSTA, R. A. Sobre Reich: Sexualidade e Emoção. Rio de Janeiro: 
AchiaméLtda, 1984. 
CAMARGO, M. I. S. Uma perspectiva da psicologia corporal sobre o ensino 
da dança. Psicologia Corporal/ Organização José Henrique Volpi e Sandra Mara 
Volpi. – Curitiba: Centro Reichiano, 2011. ( Revista Psicologia Corporal, vol. 12). 
GARAUDY, R. Dançar a Vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. 
GIL, J. Movimento Total. – O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d’água. 2001. 
LOWEN, A. Alegria: A entrega ao corpo e a vida. São Paulo: Summus, 1997. 
LOWEN, A. Prazer: Uma abordagem criativa da vida. SP: Summus, 1984. 
MOMMENSOHN. M., PETRELLA P. Reflexões sobre Laban: O mestre do 
movimento. São Paulo: Summus: 2006. 
 NASIO, J. D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. 
REICH, W. Análise do Caráter. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 
 REICH, W. O Assassinato de Cristo. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983. 
THON, B. M. Dança e consciência corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2011. 
Disponível em www.centroreichiano.com.br/artigos.htm. Acesso em 12/05/2012. 
VOLPI, J. H; VOLPI, S. M. Reich: Da Psicanálise à Análise do Caráter. Curitiba: 
Centro Reichiano, 2003. 
 
 
 
VOLPI, J. H. Poder, fama e ferida narcísica: uma compreensão 
caracteroenergético do narcisista. Curitiba: Centro Reichiano, 2003. 
Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos.htm.

Mais conteúdos dessa disciplina