Prévia do material em texto
PSICOLOGIA NA DANÇA Sumário FACUMINAS ...................................................................................................... 2 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 3 CAPÍTULO I – PSICOLOGIA DA DANÇA .......................................................... 4 CAPÍTULO II – MEU CORPO ME PERTENCE: INTERFACE ENTRE PSICOLOGIA E DANÇA. ................................................................................... 9 CAPÍTULO III - CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA CORPORAL AO ENSINO DA DANÇA. ...................................................................................................... 16 REFÊRENCIAS ................................................................................................ 27 FACUMINAS A história do Instituto FACUMINAS, inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a FACUMINAS, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A FACUMINAS tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. INTRODUÇÃO Esta apostila contribui para pensar práticas de pesquisa em Psicologia que tomam a dança como método nas quais o corpo de quem pesquisa é, ao mesmo tempo, pesquisado e pesquisador, o que requer um tipo de escrita que chamamos de coreocartografia. Versamos sobre a escrita coreocartográfica a partir do encontro entre reflexões efetuadas na dança contemporânea, nas epistemologias feministas dos estudos em ciência, tecnologia e sociedade e nos estudos sobre cartografia. As práticas experimentalistas em Psicologia ao prescreverem determinados corpos e métodos como caminhos únicos para a pesquisa atuam como coreopolícias que podem ser questionadas ao desordenar os ajustamentos dos corpos, abrindo a modos de vida cujos traçados vão se dando em movimentos coreocartografáveis. Apostamos numa noção de experimentação ampliada que revisa a noção clássica de experimentação em Psicologia, enfatizando as práticas de criação, de infixidez, de variação. Figura 1 – A dança como estratégias de enfretamento da endometriose. CAPÍTULO I –PSICOLOGIA DA DANÇA A psicologia do esporte é um ramo da ciência que surgiu nas últimas décadas. Esta área da psicologia já estudou muitos fatores psicológicos importantes e tem o objetivo, principalmente, de melhorar o rendimento dos atletas. Esta melhora de desempenho pode ocorrer pelo trabalho nos aspectos cognitivo, emocional, comportamental ou psicológico. Outro interesse muito comum de estudos da psicologia do esporte é compreender os efeitos do esporte e da atividade física para populações específicas. A partir destes interesses surge também a psicologia da dança. A dança data de muito antes da psicologia. A dança não técnica surge paralela ao surgimento do ser humano. A partir do surgimento da dança técnica na sociedade decorrem algumas questões, como, por exemplo, o interesse em melhorar o desempenho de dançarinos e compreender os efeitos da dança nas pessoas que praticam. A psicologia da dança nasce como área de estudo para responder a estas e outras questões. Ao estudar a dança, os bailarinos, instituições e os efeitos da dança o psicólogo se insere em escolas e companhias de dança a fim de melhorar o desempenho e bem-estar de bailarinos e desenvolver projetos que utilizem a dança como promotora de saúde. Porém, esta exposição ainda é genérica para definir a psicologia da dança que exige um aprofundamento sobre a própria nomenclatura e seus interesses. A psicologia aplicada à dança possui predominantemente duas nomenclaturas. São elas “dance psychology” (Lovatt, 2013) e “psychologyof dance” (Taylor & Taylor, 1995). Ambas podem ser traduzidas de forma livre como “psicologia da dança” e é assim que iremos nos referir a esta área do conhecimento. Por psicologia da dança não estamos nos referindo apenas a compreender questões psicológicas relacionadas ao movimento artístico ou terapêutico. Ou seja, o que nos importa não é somente o bailarino. Estamos sim nos referindo a aplicação e estudo de todas as áreas da psicologia (psicologia do rendimento, psicologia escolar, psicologia da saúde, psicologia clínica, etc.) à área da dança. A psicologia da dança não se preocupa apenas com os efeitos da dança em bailarinos, ou ainda, em melhorar questões cognitivas e emocionais nestas populações. Apesar de, obviamente, esta também ser uma preocupação da psicologia da dança (Franklin, 2003, Martin et al., 1993, Bläsing et al., 2012, Berardi, 2017, Stoeber, 2014). Os objetos de estudo da psicologia da dança são, naturalmente, os bailarinos, mas também, todos os envolvidos com a área da dança (bem como alunos e professores) além da população de forma geral com o objetivo de compreender os efeitos da dança para populações específicas (Lewis, et al., 2016, Scharoun et al., 2014, Murrock&Graor, 2014). Portanto, esta área de conhecimento é muito ampla com muitos temas a serem investigados. A psicologia da dança conta com muitos estudos exploratórios especialmente por ainda estar em estágios iniciais de investigação. Em muitos casos a entrevista é a técnica de recolha de dados que mais se adéqua a este objetivo nesta investigação. Algumas populações que já foram estudadas por meio de entrevistas para compreender os efeitos da dança foram praticantes adultos de danças populares brasileiras (de Lima & Abreu, 2011), mulheres adultas que sofreram abuso sexual (Mills e Daniluk, 2002) e jovens bailarinos (Ringhamet al. 2006). Em relação ao primeiro grupo (praticantes adultos de danças populares brasileiras) foram estudados os efeitos da dança em vários aspectos. Os ganhos a partir da entrada no grupo foram relatados a partir de modificações internas - “estar mais desperto, perda da timidez, melhor posicionamento perante os outros, sentir-se com mais atividade e mais feliz, sentir-se importante como pessoa, fortalecimento de autoconfiança” (de Lima & Abreu, 2011, p.44) - ampliação do conhecimento; modificação na relação com as pessoas e modificações do aspecto artístico. Apenas 2% dos participantes não perceberam mudanças. O valor dado ao grupo pelos participantes foi especialmente relatado pela aquisição cultural e pela aquisição de informação, educação e lazer. A relação com o grupo, o movimento, a música, a percepção de mudanças internas e a possibilidade de esquecer os problemas foram os fatores associados ao valor terapêutico. (de Lima & Abreu, 2011). “é a relação grupal, na forma como se apresenta hoje, o grande propiciador de efeitos terapêuticos percebidos pelos integrantes, e não a situação artística isoladamente. A arte da dança ocupa um lugar modesto na busca de identificação da presença de um valor terapêutico dentro do grupo em questão.”(de Lima & Abreu, 2011). O estudo com mulheres adultasque sofreram abuso sexual também procurou compreender os efeitos da dança. A expressão autêntica de si mesmas através do movimento foi uma das principais questões relatadas pelas participantes como positiva. Sair do processo mental e de fala e usar o movimento como alternativa em direção a cura e como forma de se reconectar com seus corpos também foi relatado como positivo. O grupo também trouxe aspectos relevantes para o processo de terapia, desde presenciar o movimento e expressão do outro até conexão com o outro e suporte, apesar do grupo também trazer certa vulnerabilidade para a expressão individual. Os autores concluem que há demandas corporais que devem ser incluídas no processo de psicoterapia regular (Mills e Daniluk, 2002). Por último, o estudo com amostra de bailarinos jovens investigou a prevalência de transtornos alimentares em 29 bailarinos (Ringhamet al., 2006). Foram utilizados inventários e entrevistas para diagnosticar transtornos alimentares e examinar sintomas. Foram utilizados inventários e entrevistas para diagnosticar transtornos alimentares e examinar sintomas. Muitos participantes apresentaram comportamentos compensatórios e de purgação. Bailarinos, de forma geral, apresentaram atitudes e comportamentos similares aos sujeitos com transtornos alimentares. A maioria dos sujeitos apresentou transtornos alimentares. A partir destes dados este estudo comparativo indica uma alta prevalência de transtornos alimentares em bailarinos. Os estudos apresentados ilustram os estudos e interesses da psicologia da dança. Como muitas outras ciências, a psicologia da dança vem para erguer ainda mais o fascinante mundo da dança. Os benéficos da psicologia da dança Desde o início da humanidade, quando o homem ainda não tinha desenvolvido a linguagem falada, a dança já fazia parte de seus rituais e existia como forma de comemoração a algum acontecimento ou data especial revelando, no próprio ato, a importância daqueles movimentos para o sujeito e/ou grupo que o praticavam. Dançar regula o sono, o estresse, a ansiedade e diminui os níveis de irritabilidade. Fora a estimulação da inteligência cinética, que é o aprimoramento dos movimentos rítmicos e coordenados do corpo. O sujeito passa a ter uma percepção positiva do próprio corpo, valorizando-se mais, acreditando em seu potencial e recorrendo a experiências de vida somadas com o que se apresenta elaborando uma maneira de resolver/lidar com determinada situação interagindo melhor com o grupo, ampliando assim, o convívio social. Tudo isso para dizer que existe uma melhora significativa na autoimagem, autoestima, autoconfiança, criatividade e linguagem... Todo estilo de dança, revela muito das opções de vida daquele sujeito. Ao optar, ele está evidenciando suas preferências de grupos, linguagem, tipos de contato, vestimenta, ritmos musicais, entre outros... Por isso, se comporta de acordo com as regras sociais determinadas por aquele grupo, assumindo o “comportamento padrão” e somando, de acordo com sua bagagem biopsicossocial. Quando se trata de dança de salão, por exemplo, um casal que fez essa escolha, apresenta uma melhora expressiva em sua vida conjugal, pois, dançando juntos eles (re) encontram momentos de troca, de descobertas e conseguem (re) criar uma harmonia, muitas vezes já ausente. A dança é considerada uma forma de terapia, pois, através da integração corpo mente, expressamos nossas emoções e sentimentos e damos vazão ao que, muitas vezes, é difícil traduzir em palavras... Nada substitui a terapia convencional, mas, muitas são as maneiras de aliviar o estresse do dia a dia e passar a lidar com suas questões de uma forma mais tranquila, propiciando assim uma trégua na própria vida para iniciar o processo de autoconhecimento. Então, quando sentir que é necessário, busque um profissional da psicologia. Figura 2 – Dança adaptada. CAPÍTULO II – MEU CORPO ME PERTENCE: INTERFACE ENTRE PSICOLOGIA E DANÇA. A inserção da Psicologia no espaço de uma oficina de dança parte da premissa de que o corpo, na medida em que não se desvincula de processos psíquicos, pode ser também objeto da Psicologia. Barros (2006, p. 69) acredita que existe no homem moderno uma tendência ao adormecimento e à mecanização da vida, frutos da racionalidade cartesiana: [...] que afasta o corpo das operações de conhecimento, acreditando-o desprovido de vida ou experiência própria. A cisão mente e corpo reflete- se nos hábitos que contraímos, é constituidora das nossas maneiras de ser, sentir, pensar e agir. Deste modo, a herança cartesiana nos lega um corpo sem vida, um mecanismo. Nesse sentido, a cisão mente-corpo objetifica o corpo e retira da psicologia a possibilidade de trabalhar com ele, uma vez que, se ele é mero objeto, não há experimentação corporal passível de elaboração psíquica. Esta cisão produz o corpo adormecido cujas conexões com o mundo são negadas: um corpo sem vitalidade, avesso a transformações, sujeitado, insensível. Entendemos, ao contrário, que a experimentação corporal proporciona a conquista de um novo espaço existencial. Como colocam Moehlecke e Fonseca (2008), a dança propicia o abandono do corpo atual na tentativa de criar novas práticas e modos estéticos de existir. Esse abandono do indenitário e da segurança em prol do corpo dançante abre um vazio que guarda a possibilidade de construir outras conexões com o mundo e encontrar formas de existência até então imprevisíveis. A dança se constitui, nesta perspectiva, como modo de subjetivação. Um corpo antes rígido, ao experimentar novos contornos, encontra a possibilidade da mudança, da desconstrução e da potência. A intervenção psicológica pode ser aqui vislumbrada, uma vez que com ela se busca a plasticidade, a transformação e o embate do sujeito com modos de existência que o aprisionam. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11 O movimento pode mostrar outros caminhos, se explorado para propiciar experiências corporais que provoquem as sensibilidades e tornem mais presentes tanto o próprio corpo quanto os sentimentos que ele elicia; esses corpos seriam “mais aptos a discernir as diferentes qualidades de forças que habitam o mundo. Corpos mais conectados, mais articulados, mais ricamente relacionáveis, menos fixados, portanto, mais livres e vitalizados” (BARROS, 2006, p. 112). Por meio do trabalho corporal e da conscientização e conhecimento do próprio corpo, as mulheres que participaram da oficina também poderiam descobrir novas formas de ser mulher. O despertar para outras possibilidades do e no corpo, isto é, para a construção de novas conexões com o corpo e com a sexualidade, já foi bastante discutido pelo feminismo. Segundo Alves e Pitanguy (2007, p. 61-62), “diretamente relacionado à questão da colocação da mulher como sujeito de sua sexualidade, o movimento feminista [...] propõe uma reapropriação do conhecimento do corpo”, partindo da ideia de que este desconhecimento gera alienação e perda da capacidade de controle sobre suas funções. Outras formas de ser mulher são possíveis através da conexão, do estabelecimento de contato, do estar em relação, ou seja, o que chamamos de afetação. Segundo Lazzarotto e Carvalho (2012, p. 26), o afetar “sinaliza a força de extensão da vida e da atividade que podemos viver”. Na medida em que somos afetados pela experiência, e nos conectamos com o vivido, abrimos a possibilidade de nos experimentarmos de outras formas. Notamos, assim, que a possibilidade de nos afetar, um dos propósitos da oficina de dança,está intimamente relacionada à construção de outras formas de ser sujeito. “Experimentar afetos sinaliza a enunciação de outras formas de agir a partir dos modos de expressão que vamos percorrendo” (LAZZAROTTO; CARVALHO, 2012, p. 26). Assim, ao se mostrarem disponíveis a habitar o espaço da oficina, as mulheres se abrem ao processo de afetação, fundamental para a mudança na forma de estar no mundo. Outra premissa importante para refletirmos sobre a prática das oficinas de dança é a de que o corpo não é uno, fixo nem estável, mas múltiplo e aberto a https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B7 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B7 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B7 transformar-se e construir outras conexões com o mundo. Partimos da visão foucaultiana segundo a qual o corpo é político, visto que as redes de saber/poder incidem na formação dos corpos. Essas relações de saber/poder também abarcam o gênero - o feminino e o masculino - e são marcadas pela submissão e domínio de um pelo outro. Desde seu surgimento, o feminismo indaga as relações de poder entre os gêneros e busca superar formas de organização tradicionais permeadas pela assimetria e pelo autoritarismo, que fizeram com que a mulher fosse desvalorizada e tivesse seu trabalho, sua educação e seus direitos negados ao longo da história (ALVES; PITANGUY, 2007). Cabe lembrar, porém, que identificar a assimetria nas relações de gênero implica localizar possibilidades de resistência: O “masculino” e o “feminino” são criações culturais e, como tal, são comportamentos apreendidos através do processo de socialização que condiciona diferentemente os sexos para cumprirem funções sociais específicas e diversas. Essa aprendizagem é um processo social. (ALVES; PITANGUY, 2007, p. 55). Dado que a diferença entre os sexos é histórica, social e cultural - e portanto não natural -, ela é passível de transformação. E dado que o corpo não é prisioneiro de uma única forma de ser, isto é, que ele é múltiplo e abarca um infinito de possibilidades e virtualidades, abre-se a possibilidade de que os corpos das mulheres possam passar da posição de corpos assujeitados para a posição de corpos sujeitos, abertos a modos de ser mulher que não aqueles definidos nas relações de dominação de gênero. A partir de uma perspectiva cultural do que é ser mulher, impregnada por relações e discursos de dominação de gênero, temos como característica do feminino o desconhecimento do próprio corpo e da própria sexualidade (ALVES et al., 1981). Esse desconhecimento responde ao modelo de pureza definido para a mulher, cria barreiras para a aquisição do saber e do domínio sobre o próprio corpo e é um empecilho para as escolhas e as alternativas de uso do corpo. Então, “se o saber é uma forma de exercício de poder pelo qual o indivíduo traduz e se apropria do mundo, o saber que não deve saber é também uma forma https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2 de apropriação condizente com a posição subordinada da mulher” (ALVES et al., 1981, p. 327). A negação do saber de si possibilita que todo um esquema de sujeição seja desenvolvido e internalizado, alienando, assim, a mulher de seu próprio corpo. Inversamente, podemos pensar que conhecer o corpo e saber de si são atitudes que contribuem para que a mulher possa questionar esquemas de dominação e se constituir como sujeito. O domínio do corpo é capaz de produzir apropriação, emancipação e empoderamento, este entendido como um “processo que desafia as relações de poder instituídas e acontece na tensão individual/coletivo” (MARINHO 2014, p. 30). O questionamento da posição passiva e a substituição dos valores impostos - produzidos pela cultura e pelos discursos patriarcais - por valores próprios abre caminho para a mudança de atitude diante da agressão, do desrespeito e da desvalorização. O movimento feminista teve como proposta básica dar voz às mulheres e trouxe no bojo de suas ações a proposição de grupos de reflexão cujos objetivos eram a apropriação pelas mulheres do discurso sobre si e a criação de espaços de manifestação coletiva (ALVES et al., 1981). Segundo Alves e Pitanguy (2007), os grupos de reflexão são também uma estratégia de luta, surgindo da necessidade de romper o isolamento em que vivem a maioria das mulheres. Nesses grupos, a mulher constitui um espaço próprio de expressão em condição de igualdade, sem interferência masculina, onde pode descobrir sua identidade, conhecer-se e verificar que suas vivências não são isoladas, mas partilhadas por outras mulheres (ALVES; PITANGUY, 2007, p. 67), percebendo-se dentro de uma coletividade: “A descoberta dessa experiência comum, a transformação do individual em coletivo, forma a base do movimento feminista. Partilhando com outras suas vivências, a mulher reconhece a sua força e conscientiza-se da dimensão política de sua vida particular.” A experiência de compartilhar vivências em grupo nos ajuda a pensar a relação entre psicologia dança e gênero no espaço da oficina que acompanhamos. Como a arte e, especificamente, a dança, pode produzir processos de transformação e reinvenção de si e do mundo, processos que importam à Psicologia e para os quais ela está atenta? Estes são processos que https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B9 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 apontam para o rompimento com padrões e modos de ser predefinidos aos papéis de gênero. Neste sentido: A arte pode se tornar uma possibilidade consistente de transformação, uma vez que ela ativa uma diluição de antigas certezas e provoca uma construção de novas territorialidades. O paradigma estético nos faz pensar que a vida está em movimento e que temos a chance de romper com aquilo que nos aprisiona, em direção ao intempestivo e à diferenciação. [...] Podemos desnaturalizar aquilo que parecia natural ou estável e provocar novos questionamentos no cotidiano (MOEHLECKE; FONSECA, 2008, p. 375). Spindler (2005, p. 271) já apontou essa possibilidade a partir das oficinas grupais de dança, para ela um espaço diferente do habitual onde as participantes “poderiam se enxergar e estar em relação de outros jeitos, criando novos dispositivos para dar passagem ao desejo, permitindo uma nova sensibilidade”. Do mesmo modo, outros autores defendem que essas estratégias de intervenção permitem o rompimento de hábitos e oferecem: [...] a possibilidade do corpo ganhar nuances, sutilezas dentro do habitual. A prática, movendo e conscientizando o corpo a partir de diferentesposturas, pode abrir espaços de indeterminação, que serão espaços ainda não significados, mas serão, muito provavelmente, espaços de vitalidade que podem contribuir para a criação de novas maneiras de lidar com a vida (BARROS, 2006, p. 115). A construção de novas formas de ser mulher a partir de composições imprevisíveis e singulares é um objetivo comum do Movimento Feminista, mesmo considerando a diversidade de feminismos existente. Para o feminismo, a prática política não precisa estar restrita a programas de lutas e reivindicações, visto que o processo de emancipação da mulher dialoga também com as experimentações singulares de mulheres, ou de grupo de mulheres, que descobrem juntas, a cada grupo ou encontro, outras formas de viver segundo novos códigos de comportamento (GREGORI, 1993). https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B11 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B14 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B6 Talvez a força maior, mais importante e menos aparente do movimento feminista esteja na semente de questionamento e de reivindicação que surge na consciência das mulheres que, vivendo o seu cotidiano, vêm tentando transformá-lo e recriar a sua relação com o mundo, com os companheiros, com os filhos, consigo mesmas (ALVES; PITANGUY, 2007, p. 70). É justamente no despertar desses questionamentos - que possibilitam movimentos de consciência das mulheres e recriação de suas relações consigo e com o mundo - que podemos perceber uma articulação entre os objetivos do movimento feminista e as possibilidades despertadas pelo trabalho com o corpo a partir da dança. Através do questionamento, da experimentação e do (re) conhecimentodo corpo, abre-se a possibilidade de “vir a ser”. Assim como Simoni e Rickes (2012), entendemos o “vir a ser” como um “outrar”, no sentido da produção de uma diferença em relação ao que se está sendo. Segundo as autoras, Outrar vem então colocar em questão os discursos de identidade, que insistem em relegar à existência uma substancialidade previsível, o que em nada lhe diz respeito. É de Nietzsche (2004) o conhecido aforisma torna-te quem tu és - convite a não temer a dimensão do tornar-se, outrar-se - no qual podemos ler que, de algum modo, existe distância entre onde se está e o que se é (SIMONI; RICKES, 2012, p. 180). Nesse sentido, consideramos que os exercícios e as discussões realizados durante a oficina de dança convidam as participantes a este movimento de deslocamento de si próprias, abrindo a possibilidade de construírem outras formas de ser mulher. O outramento passa a ser visto como um movimento, que acontece no momento mesmo em que se abre a possibilidade de contato consigo, com o outro que existe em si e com o outro que é externo a si. Outrar é fluxo, é movimento, é processo. É algo que não se pode capturar neste ou naquele exercício, ou que se pode almejar alcançar como uma consequência sinequa non de determinada atividade. Pelo contrário, o outramento de si é acontecimento imprevisível, impossível de controlar: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B13 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B13 Outrar sugere ainda, como verbo, que se trata de ação, o que de algum modo implica um sujeito que a empreenda ou sofra. É, no entanto, entre essas duas posições - a saber, as de sujeito à e sujeito de - que o outrar se situa (SIMONI; RICKES, 2012, p. 179). Dentro desta perspectiva, a oficina de dança permite que as mulheres, a partir da experimentação de seus corpos, da conscientização do que eles podem e da expansão das possibilidades de movimento, criem vazios que possam ser preenchidos de maneiras imprevisíveis, criando novas devires e possibilidades de ser e estar no mundo, permitindo a construção de outras formas de ser mulher e rompendo com os papéis hegemônicos a elas atribuídos. Figura 3 – Grupo de dança feminino. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922019000200067#B13 CAPÍTULO III - CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA CORPORAL AO ENSINO DA DANÇA. A palavra dança, em todas as línguas europeias – danza, dance,tanz -, deriva da raiz tan que em sânscrito, significa “tensão”. Dançar é se expressar e vivenciar com o máximo de intensidade, a relação do homem com a natureza, com a sociedade, com os seus desejos e consigo mesmo. É estabelecer uma estreita relação entre o homem e a natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele. A dança também nos revela que o sagrado é também carnal e que o corpo pode ensinar o que um espírito desencarnado não conhece: A beleza e a grandeza do ato quando o homem não está separado de si mesmo, mas inteiramente presente no que faz. (GARAUDY, 1980). Este estado de plenitude que a dança pode proporcionar quando de fato se está ali, presente, livre de quaisquer preconceitos e preocupações é essencialmente uma atividade vital. De acordo com Reich (1983) viver na plenitude é abandonar-se no que faz. “Pouco importa que se trabalhe, que se fale com amigos, que se eduque uma criança, que se escute uma conversa, que se pinte um quadro, que se faça isso ou aquilo”. (REICH, 1983, p. 32). Este artigo é escrito pensando justamente nas possibilidades de abandono e plenitude do ser humano no âmbito da dança. Algumas formas de ensino mais conscientes podem propiciar estes aspectos para as pessoas que buscam tal aprendizagem. Conforme diz Garaudy (1980, p. 181) “O corpo é o homem que se exterioriza, é o que me liga aos outros e ao mundo, é aquilo por meio do que eu me expresso e tomo consciência de mim mesmo”. O corpo é presente, concreto, real, e é nele que o prazer e a alegria deságuam, e é a partir dele que a dança faz o seu caminho de retorno, para chegar ao centro, aquele lugar onde a semente germina. Podemos pensar em um corpo que se movimenta pela pulsação emocional. É o corpo pulsional que denominamos corpo real ou corpo sentido. O corpo é uma forma, uma silhueta, o protótipo universal de todos os objetos criados pelo homem. Nós o denominamos corpo imaginário ou corpo visto. (...) Nós o denominamos corpo simbólico ou corpo significante. Seja organismo, força, forma ou símbolo, o corpo continua sendo o indispensável substrato de todo sentimento de si. (NASIO, 2009, p. 122) A percepção do próprio corpo revela um sentido existencial e de identidade ao indivíduo, e o movimento é o fator que possibilita a criação de unidade corporal. Bertazzo (1949) coloca que o movimento é uma tensão conduzida de um músculo a outro, organizando alavancas ósseas e permitindo a sensação de um braço inteiro, de uma perna inteira e do corpo inteiro. É toda essa síntese motora que fornece a sensação de unidade, de identidade. Se as unidades estruturais não concorrerem para a consciência de identidade, o psiquismo se sobrecarrega em um esforço de personalização, e a ausência dessa unidade pode gerar bloqueios e patologias. A expressão do movimento do corpo na dança pode ser mais rica que a linguagem articulada, que depende, em grande parte da comunicação no sentido verbal. Todo um conjunto de movimentos, ou seja, uma coreografia contribui para a expressão do sentido: por exemplo, há bailarinos que utilizam a qualidade da “presença”, ficam sem se movimentar por um tempo e conseguem contar algo para a plateia. Segundo Cunningham(apud Gil, 2001) a dança é algo presente, que está aqui, qualquer outra explicação continua a escapar-nos, pois escapa a linguagem. Enfatiza que a dança pode ser pensada como uma forma de expressão, porque seria impossível recortar nos movimentos, unidades discretas comparáveis aos fonemas das línguas naturais. No movimento dançado o sentido torna-se ação, podendo ser dito de diferentes maneiras, a dança é o movimento no qual todos os sentidos nascem. O movimento dançado é complexo para descrever e querer apreender todo o seu sentido. Figura 4 – Benefícios da dança. De acordo com Mommensohn e Petrella (2006) a dança é uma linguagem que pode conter mensagens implícitas e referir-se a conteúdos simbólicos, se expressa por si mesma, em coreografias compostas de movimentos sensíveis. O movimento pode transmitir por gestos simbólicos, mensagens propostas pela coreografia. Em contrapartida é a expressão particular de cada pessoa, revelando as particularidades e características do seu coreógrafo, e principalmente do dançarino. A dança, a música, e a arte em si vão para além das palavras. Conforme Reich (1998, p. 333): “[...] o organismo vivo tem seus próprios modos de expressar o movimento, os quais muitas vezes simplesmente não podem ser colocados em palavras”. A dança na sua produção criativa inspira numa direção de um campo de efetuação de forças, em uma materialidade encarnada, que viabiliza uma construção subjetiva através da apropriação do corpo. Pensando nisto traz-se uma visão da dança como educação, como meio de intervenção. Esta perspectiva da dança teve inicio com as pesquisas de Laban (1978) que se dedicou a estudar e compreender o movimento humano, desenvolvendo a Labanotation, ou coreologia, que é um estudo de resultados coreográficos, buscando transportar elementos do cotidiano para a composição coreográfica. De acordo com Regel (2003) apud Tibúrcio (2009, p. 184), “a coreologia baseia-se na crença que movimento e emoção, forma e conteúdo, corpo e mente é uma unidade inseparável”. Como descreve Regel (2003) a proposta de Laban era para atentarmo-nos à intenção do gesto, independente de sua profundidade. Partindo da criação da labanotation, Laban iniciou sua proposta da prática de uma dança que fosse educativa, de acordo com Tibúrcio (2009), esta proposta de Laban para uma dança educativa fundava-se em sua teoria de que é com o corpo que se adquire conhecimento, por isso não se deve separar a prática do pensamento, buscando transcender a simples “reprodução” de movimentos. De acordo com Tibúrcio (2009) Laban ensina que: [...] é com o corpo que adquirimos conhecimento [...] não é possível separar conceitos abstratos da experiência corporal. Os esforços, expressão externa da energia vital interior, apresentam características (fatores) que quando combinados nas suas qualidades geram tipos de vocabulários de movimentos infinitos e aprendizagens diversas. (TIBURCIO, 2009, p.184) A proposta de Laban, como cita Gouveia (2009), era a busca pela liberdade de expor movimentos e encontrar autossuficiência em si mesmo, no próprio corpo. Buscava libertar o corpo e a dança de um estilo idealizado, estimulando a criação, a desconstrução e o imprevisível. Não há preocupação com a produção coreográfica na teoria de Laban, e sim a elaboração de uma dança que pudesse ser vivenciada com “plena participação interna e com clareza de formas” da ao corpo como um todo. Esta pratica proposta por Laban (1978) assemelha-se com a teoria de Reich da autorregulação e também de Lowen sobre aauto possessão, podendo ser desenvolvida e aplicada em sintonia com estas ideias. É preciso que a prática da dança seja uma atividade espontânea e prazerosa, para que não acabe se tornando uma fonte de encouraçamento. Isto acontece muitas vezes em técnicas fechadas e restritas da dança, e em casos de transferência de pais sobre seus filhos. Qualquer atividade motora, realizada ritmicamente, é agradável. Se for realizada mecanicamente, sem sensação de ritmo, adquirirá qualidade dolorosa. O melhor exemplo é andar. Quando se anda ritmicamente, o andar é agradável. Quando se anda para chegar a algum lugar o mais rápido possível, a atividade física transforma-se numa tarefa. Mesmo trabalhos monótonos, como varrer folhas ou limpar assoalho, constituirão atividade agradáveis se os movimentos forem rítmicos. Pode-se avaliar o prazer ou sua falta na vida das pessoas pela forma como se movem. Os movimentos rápidos, compulsivos e abruptos da maioria em nossa cultura traem a falta de alegria em suas vidas. (LOWEN, 1984. p.201) Nosso aparelho locomotor, ou como chama Bertazzo, (1949) “órgão do movimento”, possui identidade própria, como os demais órgãos, é fruto complexo e refinado de todo um processo evolutivo, negligenciar as suas particularidades e potencialidades equivale a subestimar o dom da palavra. O homem possui um sistema de movimento de extremo refinamento, a ponto de poder guiar-se, na maior parte do tempo, apenas por seu “piloto automático”. Se esse sistema locomotor é a tal ponto sofisticado, por que então com tanta frequência acaba por se desorganizar e se desregular? De acordo com Volpi (2003), os acontecimentos vividos durante a vida são registrados em nossos corpos, com ênfase principalmente nas ocorrências da primeira infância. Marcas profundas e irreversíveis são por muitas vezes deixadas no corpo. Conforme ocorre o desenvolvimento, as experiências ficam registradas na memória celular. A teoria reichiana vem colaborar com a questão de que repressões sociais e culturais são cruciais na formação do caráter do indivíduo, a atenção dada ao fator econômico percorre a teoria e obra de Wilhelm Reich, que os corpos estão sujeitos a uma sociedade autoritária. Os corpos são submetidos através de sucessivas inibições de certos impulsos libidinais, revertendo-se em uma atitude muscular geralmente contraída, enrijecida contra o mundo exterior. A atitude muscular é o que constitui o que Reich chamou de couraça. O organismo fica contraído, o expressar se torna doloroso e isto acontece em decorrência das proibições sociais que foram internalizadas no processo de educação. A retenção ou o encouraçamento do organismo visa bloquear a liberação e o movimento da energia corporal, que se expressa nas emoções e, também, nos demais movimentos das funções vitais. (COSTA, 1984). Pensando em toda a repressão descrita acima, as quais o ser humano está sujeito a passar, tanto físico como emocional, a dança entra em cena como possibilidade de um caminho, através do qual a vida pode sermanifestada como um potencial expansivo, na expressão das emoções e suas singularidades. Muitas pessoas buscam praticar a dança por inúmeros motivos, como exercício; como forma de terapia ocupacional; como um novo aprendizado; para se profissionalizar nesta área como dançarino ou professor. Também há pessoas, que buscam a dança por projeções de desejos de outros. Motivos para estarem no meio da dança não faltam, acontece que no meio de toda beleza que há por trás de uma dança, há toda uma relação de aprendizado de uma técnica que envolve conteúdos que podem vir a ser mais uma forma de encouraçamento na história da pessoa. Principalmente quando envolve um ideal corporal que pode acirrar a competitividade, contribuindo para o reforço de um caráter narcísico. De acordo com Volpi (2003), o traço de caráter narcisista está cada dia mais presente na vida das pessoas, que vivem em busca de poder, fama e ideal corporal, podendo ultrapassar limites morais, éticos, físicos e psicológicos. São pessoas competitivas que buscam sempre uma plateia. É uma busca de alguma coisa que venha a preencher o vazio interior. O ensinoda dança destinado tanto para adultos como para criança, é uma forma de educação corporal, o corpo sendo treinado para determinados movimentos, nos quais o professor ali presente é um espelho tanto físico como psicológico, que pode ser um facilitador para a livre expressão e respeito à integridade do aluno, como pode exercer uma forma de poder e desrespeito a singularidade do aluno. Como a proposta de Laban, as aulas de dança podem ser amplamente exploradas desde a infância para que o indivíduo entenda e produza intenções e emoções em seus gestos de uma forma saudável e equilibrada. Para colaborar com esta proposta, as teorias reichianas e neo-reichianas abrem novas possibilidades de acesso ao educador de dança a um maior conhecimento destas interações. Assim pode-se através da consciência corporal obter-se também a consciência das representações e marcas do corpo, e então os bloqueios energéticos que são inevitáveis podem ser flexibilizados e superados. De acordo com Brikman (1975) o ensino da dança pode ser visto como uma disciplina que se propõem a resgatar e desenvolver todas as possibilidades humanas inerentes ao movimento corporal. É necessário observar o processo de cada aluno de dança e promover um desenvolvimento a partir dele. “É mais valioso o próprio processo de desenvolvimento que o eventual resultado que se obtenha.” (BRIKMAN, 1975, p. 25). Quando se respeita o resultado de manifestação corporal, se produz o movimento com liberdade, o resultado será de crescimento, a questão não é chegar a uma forma particular, mas, a forma possível para aquele aluno, aí se acredita que esteja à riqueza do processo de ensino da dança. A dança deve proporcionar ao individuo a exploração do seu corpo e meio em que se encontra. Exploração de formas e possibilidades de maneira livre e imprevisível. E principalmente que, além disto, a prática da dança traga consciência de si e de seus movimentos, e que isto seja aplicado durante a vida do ser que a pratica. Nesse sentido de ensino e educação no âmbito da dança, poderíamos pensar no que Reich falou sobre a educação e as crianças do futuro, pensamento que pode se aplicar ao professor de dança que ensina tanto crianças como adultos: O educador do futuro fará sistematicamente (e não mecanicamente) o que todo o educador bom e autêntico já faz hoje: sentirá as qualidades da Vida viva em cada criança, reconhecerá suas qualidades específicas e fará tudo para que elas possam se desenvolver plenamente. [...] o educador autêntico deverá assumir uma dupla tarefa: a de conhecer as expressões naturais que variam de uma criança para a outra, e a de aprender a lidar com o meio social, restrito e amplo, na medida em que estes se opõem a essas qualidades vivas. (REICH, 1983, p.9). A relação do ensino e aprendizagem da dança pode ser repensada a partir de uma perspectiva da Psicologia Corporal, pois ali se encontra o ser humano na sua totalidade, que não é somente um corpo estético. Deve ser levada em conta a técnica que cada modalidade de dança requer dentro da sua especificidade, porém, é de suma importância que se tenha clareza que acima de ser uma técnica, a dança é uma vivência que mobiliza emoções. De acordo com Lowen: Outra atividade que compartilha dessa qualidade de ser uma vivência “mobilizadora”, embora em grau muito menor que o sexo, é a dança. Normalmente, somos mobilizados a dançar pela música. Quando ouvimos música para dançar, nossos pés e pernas não conseguem ficar parados. Se o ritmo for forte e persistente, podemos ser enlevados e arrebatados por ele. Dançar assim é uma vivência mobilizadora que pode levar a um estado transcendental. (LOWEN, 1997, p. 229). Conforme Brikman (1975) o trabalho do professor de dança deve respeitar a capacidade pessoal de manifestação pessoal, na medida em que realmente contribua para libertar o movimento (o músculo bem colocado permite a livre passagem da energia e preserva os reflexos vitais), o processo é sempre enriquecedor e valioso. Esse é precisamente o objetivo do trabalho: chegar a cada caso, às formas mais enriquecedoras possíveis e não a mera obtenção de formas fixas e preestabelecidas. Neste processo de desenvolvimento corporal através da dança, será permitido a manifestação da personalidade e um maior conhecimento de si mesmo e uma comunicação mais fluida. (BRIKMAN, 1975). A dança é um movimento que deve ser levada a luz da compreensão dos profissionais que trabalham com o corpo, a fim de que essa atividade corporal expansiva, não se transforme em mais uma regra que contribui para anular a espontaneidade e acirrar a ferida narcísica. A partir de um olhar mais acurado do professor de dança sob todo o contexto que envolve o aluno, o corpo e as emoções, é possível encontrar um limite entre as técnicas da dança a ser ensinada, e o respeito ao corpo e as expressões desse aluno. Pensando nestes aspectos, as teorias reichianas e as psicoterapias corporais podem fornecer um campo de estudo teórico e prático no qual os profissionais da dança teriam mais ferramentas para trabalhar dentro da intenção de que cada pessoa deve ser importante em si mesma, conhecendo seu processo individual e auxiliando no seu desenvolvimento, não olhando somente um corpo estético e sim um delicado e grande complexo de energias emocionais, físicas e psicológicas. Dessa forma, abre-se a possibilidade da dança seguir o seu impulso original, através do movimento de pulsação emocional. Os benefícios da dança para a saúde mental. A dança é uma atividade física que consiste em realizar uma série de passos coordenados, ou não, seguindo um ritmo musical, sendo por isso muito fácil de praticar por qualquer pessoa independentemente da idade, agilidade ou tipo de corpo. Pode dançar qualquer estilo ou género musical, não importa como o faz! Dançar é um bom exercício até mesmo para pessoas fisicamente pouco ativas. A dança é uma forma de socialização que aproxima as pessoas e permite conhecer indivíduos de diferentes culturas ou de diferentes origens. É uma forma de fazer amigos, de se sentir livre, de conhecer o corpo e de aprender a expressar-se através dele. Trabalha a cooperação, a disciplina e desenvolve sentimentos de consideração e respeito pelo próximo. Estando em dúvida sobre qual a atividade a escolher para acabar com o sedentarismo, a dança é uma excelente opção, já que permite escolher o ritmo e tempos mais adequados a cada um e existe uma infinidade de estilos como zumba, ballet, dança de salão, pop, hip hop, salsa, jazz, flamenco, entre outros. Ao praticar qualquer atividade física, o cérebro liberta uma substância chamada serotonina, que é um neurotransmissor responsável pela sensação de alívio, relaxamento e bem-estar. Ao haver libertação de serotonina verificam-se ainda alterações no humor e na qualidade do sono. Dançar duas vezes por semana pode reduzir significativamente os níveis de cortisol, uma substância também conhecida por hormona do stress. Para quem anda frequentemente tenso e estressado, a dança pode ser muito benéfica para que se sinta mais relaxado e feliz. As aulas de dança proporcionam momentos de diversão e convívio, pelo que a prática de dança em grupo tem ainda mais vantagens. Quem a pratica desliga-se dos seus problemas e a dança funciona quase como uma terapia que aumenta o bem-estar e a autoestima. A dança promove um aumento da qualidade de vida e da saúde psicológica. Muitos praticantes apresentam ao longo do tempo menores sintomas depressivos e maior vitalidade. Para pessoas mais tímidas é difícil libertarem-se ao início, mas quando o fazem, verifica-se um aumento da auto-estima e da confiança em si mesmo e nas suas capacidades. Esta atividade promove também o desenvolvimentoda atenção, raciocínio e memória. O hipocampo, que é a parte do cérebro que controla a memória, vai encolhendo de forma natural durante o final da vida adulta, o que leva muitas vezes à perda de memória e até mesmo à demência. No entanto, já existem estudos que revelam que é possível reverter a perda de volume do hipocampo, sendo que a dança pode ser uma boa aliada nesta tarefa. A dança melhora as relações interpessoais, e é uma excelente forma de superar a solidão e a timidez, estabelecendo novas relações, reduzindo o stress, favorecendo o relaxamento, libertando tensões, a ansiedade e depressão. Ajuda a expressar emoções e a canalizar a adrenalina. Promove ainda a autoconfiança e a clareza de pensamento. Para além de todos os benefícios físicos ou psicológicos, o melhor da dança é a boa disposição. É praticamente impossível dançar sem sorrir. Quando dança, a mente e o corpo concentram-se unicamente nesta divertida atividade física. A pessoa consegue, ainda que por momentos, libertar-se de todos os problemas e focar-se apenas na diversão. Ser feliz é o que faz a vida valer a pena. Tudo o resto é puro detalhe. A dança ensina-nos que nada é impossível e que cada pessoa é única. Quando superamos o medo de sermos nós mesmos, tudo fica menor e mais simples. Figura 5 – Grupo de dança. REFÊRENCIAS BERTAZZO, I. Cidadão Corpo. Identidade e Autonomia do Movimento. São Paulo: Summus, 1998. BRIKMAN, L. A Linguagem do Movimento Corporal. São Paulo. Sumus, 1975 COSTA, R. A. Sobre Reich: Sexualidade e Emoção. Rio de Janeiro: AchiaméLtda, 1984. CAMARGO, M. I. S. Uma perspectiva da psicologia corporal sobre o ensino da dança. Psicologia Corporal/ Organização José Henrique Volpi e Sandra Mara Volpi. – Curitiba: Centro Reichiano, 2011. ( Revista Psicologia Corporal, vol. 12). GARAUDY, R. Dançar a Vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. GIL, J. Movimento Total. – O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d’água. 2001. LOWEN, A. Alegria: A entrega ao corpo e a vida. São Paulo: Summus, 1997. LOWEN, A. Prazer: Uma abordagem criativa da vida. SP: Summus, 1984. MOMMENSOHN. M., PETRELLA P. Reflexões sobre Laban: O mestre do movimento. São Paulo: Summus: 2006. NASIO, J. D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. REICH, W. Análise do Caráter. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. REICH, W. O Assassinato de Cristo. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983. THON, B. M. Dança e consciência corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2011. Disponível em www.centroreichiano.com.br/artigos.htm. Acesso em 12/05/2012. VOLPI, J. H; VOLPI, S. M. Reich: Da Psicanálise à Análise do Caráter. Curitiba: Centro Reichiano, 2003. VOLPI, J. H. Poder, fama e ferida narcísica: uma compreensão caracteroenergético do narcisista. Curitiba: Centro Reichiano, 2003. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos.htm.