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CAPÍTULO 3
Polimorfismo em Fármacos
Sílv ia L. Cuffini, Altivo Pitaluga ]r. e Dora Tombari
INTRODUÇÃO: ASPECTOS GERAIS
DO POLIMORFISMO
Polimorfismo e Alotropia
A capacidade de uma substância existir em mais de uma
estrutura cristalina é chamada de polimorfismo (BRfITAIN,
1999). Por isso, o polimorfismo possui uma conotação crista-
lográfica e só ocorre no estado sólido.
Jâ a alotropia pode ocorrer em qualquer estado f1Sico da
1natéria e está relacionada a alterações da equação de estado
- e::m inglês, equation of state (EOS) - da substância (HEIMANN
et ai., 1997). Essas alterações fazem com que os átomos inte-
rajam de forma distinta e são o motivo das diferentes proprie-
dades das formas alotrópicas (ou alótropos).
O par oxigênio (O:z) e ozônio (O;> é um bom exemplo de
alotropia. Ambos são formas aJOlrópicas do elemento químico
oxigênio. Independentemente do estado ftSico em que 0 2 e 0 3
estejam (na nossa atmosfera eles são gases), eles continuam
sendo alótropos.
É fácil identificar nesse exemplo que o oxigênio (O:z) e o
ozônio (O;> não são polimorfos, pelo simples fato de o poli-
morfismo só ocorrer no estado sólido da matéria.
Entretanto, quando são estudadas apenas formas alotrópicas
sólidas, muitas vezes os conceitos de alotropia e polimorfismo
são distorcidos, por se considerar (de forma equivocada) que
a alotropia é o polimorfismo dos elementos quírnicos. Nesses
casos, os dois fenômenos podem ocorrer simultaneamente.
Consideremos o caso do grafite e do diamante. Eles são
alótropos do elemento químico carbono, assim como o 0 2 e
o 0 3 são alótropos do elemento químico oxigênio. Em ambos
os casos ocorre alteração da equação de estado da substância
e os átomos interagem de forma diferente.
Entretanto, o grafite e o diamante são sólidos cristalinos que
possuem estruturas cristalinas distintas e são compostos pela
mesma substância (elemento químico carbono) (IiElMANN et
ai., 1997; SCANDOLO et ai., 1995). Portanto, de acordo com a
definição de polimorfismo, também é correto afi rmar que as
fase::s sólidas do grafite e do diamante são polimorfas, ou seja,
o grafite e o diamante são alótropos do carbono e os seus dife-
rentes sólidos são polimorfos do mesmo elemento químico.
Estados Sólidos dos Fánnacos
Como qualquer composco químico, os fármacos - também
chamados de insumos farmacêuticos ativos (IFA)• - podem
se apresent:ar como gases, líquidos ou sólidos. o caso dos
compostos sólidos, estes podem ser sólidos amorfos (quando
não se observa a formação de cristais, devido ao sólido possuir
uma desordem em nível molecular) e sólidos cristalinos (quando
as suas moléculas formam arranjos ordenados).
Os sólidos amorfos e crisi:alinos também podem ser classificados
como sólldos monocomponentes (quando cont&n apenas urna
substância) ou sólidos multicomponentes (quando contêm mais
de uma substância) (}IILFIKER, 2oo6). Seguindo esta classificação,
podem ser citadas as seguintes formas sólidas cristalinas para os
fármacos, sendo que a Fig. 3.1 os apresenta graficamente.
MONOCOMPONENTE
Anidros. Sólidos que contêm apenas um fármaco na
estrutura cristalina. Os dessolvatos isomórficos são um caso
particular de sólidos anidros. Eles passaram por um processo
de dessolvatação e perderam as moléculas de solvente, mas
conservaram parte do retículo cristalino do solvaco precursor.
MUIIICOMPONENTE
Solvatos. Sólidos que possuem moléculas de solvente e do
fârmaco incorporadas na estrutura cristalina. Os hidratos são
um caso particular de solvato em que a molécula de solvente
é a água.
Sais. Sólidos que contêm o fármaco prolonado (ou não) e
o seu correspondente contraíon incorporados na estrutura cris-
talina. Exempl-Os: fárniaro desprotonado => diclof enaco sódico e
losartana potássfca; fármaco protonado => cloridrato de venla-
f axina e tartarato de zolpídem.
Cocristais. Sólidos que possuem moléculas de diferentes
fármacos (ou de um fármaco e outras substâncias não volá-
teis) incorporadas na sua estrutura cristalina (ULLMAN e
BOlITELLIER, 2008).
•Em inglês, adlve pbarmaceutical ingredients (APO.
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22 Polirrwrfa~no em Fármacos
-1-1- ---- Polimorfos - - - ----
.J>-- -
Fármaco
• Molécula de solvente Amorfo
Ili Base -l ... Ácido desprotonado - Fármaco protonado -·-·- Solvato -. Fármaco desprotonado ·-·-·- Molécula não volátil
111111111111 Cocristal
- - - Dessolvato ---
Fig. 3.1 11.<;quema de várias formas sóLida.s. (Adaptado de Hilfiker, 2oo6.)
Todos os compostos químicos monocomponentes e multi-
componetes podem ter polimorfos. Em relação aos cocristais,
independentemente da conLCOvérsia que ocorre na comuni-
dade científica a respeito do termo,• cocristais com uma mesma
composição química podem ter escrururas cristalinas distintas
(DUNITZ, 2003). Portanto, este tipo de sólido também pode
apresentar polimorfismo.
Outro ponto que pode ser destacado é que diversas auto-
ridades reguladoras e instituições do setor farmacêutico, tais
como a Food and Drug Administration (FOA) dos EStados
Unidos e a lnternalional Conference on l lannonization (ICH),
expandiram a definição formal de polimorfismo de forma que
os dive::rsos sólidos (polimorfos, solvatos e sólídos amorfos)
sejatn considerados polimorfos (ICH, 1999; FDA, 2007). Apesar
de esta abordagem não estar correta do ponto de vista cien-
tífico,*• ela se justifica do ponto d e vista p rático porque os
diferentes sólidos de um insumo fa rmacêutico podem alterar o
processo p rodutivo e/ou o desernpenho do medicamento.
Neste capítulo apenas os polimorfos dos fármacos serão
discutidos. Entretanto, cabe ressaltar que mu itas das questões
aqui abordadas poderão ser extrapoladas para todas as formas
sólidas dos fármacos e dos outros insumos farmacêuticos.
POUMORFOS DE INSUMOS FARMActUTICOS
ATIVOS (IFA)
Os insumos farmacêuticos ativos (IFA) são frequentemente
administrados por meio de formas farmacêuticas sólidas. Apesar
de esta ter sido uma das razões para o crescimento do estudo
ºEste texto seguiu a tenck.'ncia atual do setor farmacêutico sobre a definição
de cocristal.
-Por exemplo, os sólidos amorfos rulo estjo conccmplados na defmição formal
de polimorfismo, pois este fenômeno só pode ocorrer em sólidos cristalinos.
de polimorfismo na área farmacêutica, seu estudo também é
importante para as outras formas de administração e permeia
todo o setor farmacêutico.
Na realídade, o polimorfismo pode interferir em todas as
formas farmacêuticas. Essa interferência é devida às variações
que as propriedades dos polimorfos podem ter. Por sua vez,
as diferenças nas propriedades são oriundas das diferentes
conformações e/ ou interações intra e intermoleculares que
modificam os empacotamentos das moléculas nos polimorfos
(BYR1'1 ec ai., 1999; McCRONE, 1965).
As propriedades que podem ser afetadas pelo polimor-
fismo estão detalhadas no Quadro 3.1, enquanto no Quadro
3.2 destacam-se aquelas que são consideradas farmacêuticas e
biofarmacêuticas (BYRN et ai., 1999). A indústria farmacêutica
possui maior inte::resse nestas últimas por estarem relacionadas
ao desempenho global dos IFA e impactarem diretamente o
processo produtivo e a qualidade do medicamento.
Os IFA de todas as classes terapêuticas podem apresentar
polimorfismo . Apenas para exemplificar, pode ser citado que
70% dos barbin1ricos, 60o/o das sulfonamidas e 23% dos este-
roides possuem polimorfos (BYRN el ai., 1999). Entretanto,
corno é possível saber quais são os fá rmacos que possuem poli-
morfos? Será que todos os polimorfos possíveis de um fármaco
são conhecidos? Em 1963, McCrone, reconhecido especialista
na área de microscopia e estudioso do tema polimorfismo,
afirmou, com muita propriedade (BRITIArN, 1999; McCRONE,
1965; BERNSTEIN, 2002): "O número deformas cristalinas
(ou polimorfos) que se conhece de um dado composto
é proporc;Umal ao tempo e recursos (econômicos e
humanos)dedicados tl lnvestlgaçilo do mesmo.."
As palavras de:: McCrone ainda são válidas atualmente.
Mesmo com os esforços que estão sendo realizados nas áreas
de cálculo teórico e modelagem, ainda não é poss!vel predizer
todos os polimorfos possfveis de um fármaco. Além disso, a
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QUADRO 3.1 Propriedades físico-químicas afetadas pelo
polimorfismo
Propriedades de empacotamento
- Volu1ne molar e densidade
- índice de refração
- Condutividade térmica e eléctrica
- Higroscopicidade
- Cor
Propriedades termodinâmicas
- Temperaturas de fusão e sublimação
- Energia interna e entropia
- Capacidade caloófica
- Potencial qtúmico e energia livre
- Atividade termodinâmica
- Pressão de vapor
- Solubilidade
Propriedades espectroscópicas
- Transições eletrônicas UV-Vis
- Transições vibracionais IR-Raman
- Transições rotacionais IR-Lejano
- Transições spin nuclear RMN
Propriedades cinéticas
- Velocidade de dissolução
- Velocidade de reação de estado sólido
- Estabilidade
Propriedades superficiais
- Energia livre de superfície
- Tensões interfaciais
- Hábito cristalino (forma)
Propriedades mecânicas
- Dureza, compactabilidade e propriedades de tableting
- Fluidez, tensão superficial, misturado
QUADRO 3.2 Propriedades de interesse par'.i. a área fannacêutica
que se alteram com o polimorfismo
Propriedades farmacêuticas e biofarmacêuticas
- Densidade
- Dureza
- Tensão superficial
- Fluidez
- Ponto de fusão
- Higroscopicidade
- Propriedades ópticas e elétricas
- Estabilidade quúnica e física/reatividade
- Solubilidade
- Velocidade de dissolução
- Biodisponibilidade
- Bioequivalência
utilização de ferramentas poderosas, como a cristalização para-
lela (MORISSET et ai., 2004), pode não ser capaz de produzir
todos os polimorfos possíveis. Afinal, é possível que existam
Poll1norfismo em Fármacos 23
polimorfos que necessitem de condições experimentais impos-
síveis de se obter na prática.
Pelo exposto, para minimizar a possibilidade de ocorrerem
surpresas desagradáveis, o estado sólido do fármaco deve ser
sempre estudado e compreendido. Também se deve verificar
a necessidade de controlar o estado sólido, pois desvios de
qualidade ocasionados pelo polimorfismo podem ocorrer nas
mais diversas situações: na produção dos insumos IFA, na
fabricação do medicamento, no período que o medicamento
fica armazenado na prateleira da farmácia etc.
IMPACTO DOS PROCESSOS FARMOQUÍMICOS
E FARMArnUTICOS NO ESTADO SÓLIDO
DE FÁRMACOS
Processos para Obter os IFA
Sólidos cristalinos podem ser obtidos de diversas maneiras:
cristalização, solidificação da substância fundida, sublimação
de um sólido, evaporação do(s) solvente(s) de uma solução,
difusão de vapor, tratamento térmico etc. Entretanto, o processo
mais utilizado para produzir os IFA sólidos na indústria farmo-
química é a cristalização (MORISSETI et ai., 2004). Vários
fatores podem influenciar o processo de cristalização e, conse-
quentemente, o estado sólido do fármaco obtido (HUANGA et
ai., 2004). Sendo assim, é necessário compreender a termodi-
nâmica e a cinética do processo utilizado para a obtenção do
IFA para determinar e controlar os parâmetros críticos.
A rota de síntese, teor de impurezas, concentrações, tempe-
raruras, solvente, taxa de resfriamento, adições (inclusive de
aditivos e sementes), entre outros, são alguns dos parâmetros que
devem ser avaliados (CAIRA, 1998). E, como na maioria das vezes
a forma sólida que pode ser obtida em um processo de cristali-
zação não é evidente nem previsível, apenas com o controle do
processo é possível garantir a reprodutibilidade da forma sólida
do fármaco que será retirada do reator/cristalizador.
Além do processo de cristalização, existem outras etapas
na produção de um IFA que pode1n alterar sua forma sólida:
secagem, moenda, micronização etc. Em alguns casos, a alte-
ração faz parte do processo de fabricação como, por exemplo,
a transformação de um solvato em um sólido anidro durante a
secagem ou a alteração da forma sólida durante o processo de
micronização. Mas, em outros casos, não é desejável mudar a
forma sólida do fármaco obtido. Por isso, é necessário identi-
ficar todos os processos utilizados que podem modificar a forma
sólida do produto desejado e, quando necessário, saber evitar
qualquer transformação (RODRIGUEZ-SPONG et ai., 2004).
Processos Farmacêuticos
Os processos farmacêuticos são compreendidos como as
etapas que compõem a fabricação do produto farmacêutico
final (medicamento). Existem casos em que a utilização de
polimorfos metaestáveis pode ser interessante para resolver
algum problema de processabilidade. E como a energia interna
dos polimorfos metaestáveis é maior que a energia interna do
polimorfo termodinamicamente mais estável, os metaestáveis
também podem ser utilizados como u1na estratégia viável para
aumentar a velocidade de dissolução e a biodisponibilidade
dos IFA pouco solúveis (LIU, 2008; MORRIS et ai., 1998).
Entretanto, quando se emprega um polimorfo metaestável
na produção de um medicamento, existe o risco potencial de
conversão para o polimorfo termodinamicamente mais estável
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24 Polimorfis1no em Fármacos
ou para as outras fornias sólidas do fármaco (outros polimorfos
1netaestáveis, solvatos ou sólido amorfo) em algum ponto do
processo produtivo ou no próprio produto final.
A princípio, utilizar o polimorfo mais estável em vez da forma
metaestável é a solução definitiva para resolver o problema
de conversão. Porém, mesmo neste caso, também é possível
que ocorram transformações durante os processos farmacêu-
ticos (granulação, secagem, compressão) (HUANG et ai. , 2004;
ZHANG et ai. , 2004).
Portanto, independentemente da forrna sólida selecionada
do fármaco, sempre se deve identificar as etapas críticas do
processo produtivo e os controles necessários para garantir
que as características do medicamento se mantenham íntegrdS
até o término do seu prazo de validade.
Enquanto a estabilidade química é avaliada correta1nence nos
desenvolvimentos, a estabilidade física é muitas vezes deixada
de lado ou realizada de forma inadequada. Por isso, cabe
ressaltar que a estabiUdade física também é importante tanto
para o IFA como para o produto farmacêutico final.
O estudo da estabilidade física deve ser bem planejado para
contemplar os aspectos particulares da formulação e deve ser
capaz de determinar possíveis alterações no estado sólido do
fármaco em matrizes complexas.
Apenas com uma avaliação consistente do estado sólido é
possível determinar, com segurança, a relação entre o polimorfo
"candidato" do fármaco, o p rocesso proposto e a qualidade
do produto final.
POLIMORFISMO E EFICÁCIA TERAPÊUTICA
O polimorfo do IFA selecionado para a formulação deve
apresentar, além da estabilidade química e física, a eficácia
terapêutica desejada (SINGHAJ, et ai., 2004). E, no caso do
medicamento genérico, deve cumprir a bioequivalência (STOR-
PIRTIS e CONSIGLIERI, 1995). Existem casos de medicamentos
produzidos com polimorfos diferentes que são equivalentes do
ponto de vista terapêutico. Enretanto, deve-se destacar que,
em muitos casos, o medicamento pode ser inativo, tóxico ou
ter uma eficácia terapêutica inadequada.
Para demonstrar que o polimorfismo pode acarretar graves
implicações terapêuticas, pode-se citar os casos do palmitato
de cloranfenicol, da carbamazepina e do ritonavir, a saber:
Palrnitato de Cloranfenicol. É um dos prilneiros exemplos
apresentados na literatura, que mostra mudanças significativas
na biodisporúbilidade devido ao polimorfismo (AGUIAR, 1967).
A forma B do palmitato de cloranferúcol tem uma atividade
terapêutica oito vezes maior do que a forma A. Para evitar a
comercialização de medicamentos com problema de eficácia,
a FarmacopeiaAmericana• implementou um teste para
quantificar a presença do polimorfo indesejado A, sendo que
este polimorfo não pode exceder 10% do IFA.
Carbamazepina. São conhecidas diversas formas sólidas deste
fármaco: cristais anidros, solvatos, cocristais e o sólido amorfo
(GRZESIAK et ai., 2003). Entretanto, o insumo farmacêutico
se apresenta quase sempre como cristal arúdro (polimorfo p-
monoclínico, triclínico ou misturas de ambos).
Foram relatadas mortes pela utilização de medicamentos
com este fármaco no final dos anos 1980 nos Estados Unidos.
Isto fez com que a FDA iniciasse estudos sobre o comporta-
mento do estado sólido do fánnaco em conjunto com diversas
universidades. O estudo concluiu que a presença de diferentes
•Unifed States Pharmacopoeia (USP).
polimorfos anidros e/ ou do solvato di-hidrato era a causa do
problema no medicamento. Desde então, a USP adicionou o
ensaio de difração de raios X de pó (DR){ de pó) à monografia
da carbamazepina, de forma a garantir que o IFA utilizado
possua apenas o polimorfo p-monoclínico (MEYER et ai., 1992;
KAHEIA et ai. , 1983; KOBAYASHI et a i. , 2000).
Ritonavir. O laboratório Abbott identificou apenas uma forma
cristalina do ritonavir durante o desenvolvimento do medi-
camento Norvir~. Devido à baixa solubilidade do ritonavir,
definiu-se que o medicamento seria uma solução da forma
cristalina obtida (chamada atualmente de polimorfo ú, em uma
cápsula gelatinosa mole. O medica1nento começou a ser comer-
cializado em 1996. Entretanto, dois anos mais tarde, vários lotes
de Norvifl' foram reprovados no teste de dissolução. Este fato
acarretou a remoção do produto do mercado até 1999, quando
o problema foi resolvido. A razão da diminuição da dissolução
foi uma segunda forma cristalina do ritonavir (chamada de
polimorfo Iú que não foi encontrada durante o desenvolvi-
mento. Este segundo polimorfo apresenta solubilidade quase
seis vezes menor do que o polimorfo 1 em soluções hidroeta-
nólicas (CHEMBURKAR et al., 2000).
Esse incidente suscitou discussões a respeito da possibili-
dade de ocorrerem desvios de qualidade devido ao polilnor-
fismo nas mais diversas formulações, de tal forma que esses
exemplos motivaram as autoridades reguladoras de vários
países, principalmente da América do Norte e da Europa, a
emitir resoluções para melhorar o controle do polimorfismo
e diminuir a possibilidade de ocorrerem alterações na forma
sólida do fármaco.
Deve-se considerar que o corpo humano possui aminoá-
cidos, peptídeos, proteínas, ácidos graxos, lipídeos etc., que
são constituídos por diversos grupos funcionais. Estes grupos
funcionais são necessários para que o fármaco possa inte-
ragir com as estruturas de interesse e, consequentemente, ter
atividade farmacológica. Entretanto, esses grupos funcionais
também podem produzir diferentes interações inter e intramo-
leculares, que ocorrem por intermédio de:
1. Pontes de hidrogênio: os grupos funcionais normalmente
envolvidos com esse tipo de interações são: OH, =.Nlf, NH2,
=O, -SH, =S.
2. Efeitos de cargas eletrõrúcas (interações eletrostáticas).
3. Forças de Van der Waals.
4. Ligações de hidrogêrúo não clássicas.
Essas interações inter e intramoleculares diferenciadas podem
produzir polilnorfos distintos. No ritonavir, por exemplo, o
polimorfo 1 possui seis pontes de hidrogêrúo intermoleculares
enquanto o polimorfo II possui oito. Essas diferenças nas inte-
rações entre as moléculas dos diferentes polimorfos de ritonavir
ajuda a explicar a diferença de solubilidade das duas formas
cristalinas (BAUER et ai. , 2000).
A solubilidade é um dos parâmetros utilizados par.t dire-
cionar o desenvolvimento farmacotécrúco, principalmente para
os fármacos que são pouco solúveis. Por isso, é ilnportante
diferenciar, neste ponto, o conceito termodinâmico da solubi-
lidade de uma substância e o parâmetro solubilidade utilizado
pelo Sistema de Cla5sificação Biofarrnacêutica (SCB)* (AMIDON
et ai. , 1995).
Solubilidade pode ser definida como a concentração de urn
soluto (mg/L) dissolvido em solvente a temperatura e pressão
constantes, depois que ocorre equilibrio entre o soluto disso!-
•Em inglês, Biopharmaceutics Classiflcation System (BCS).
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vido e não dissolvido. Quando ocorre esle equilibrio, pode-se
dizer que a solução está sarurada.
Enquanto isso, o SCB define a solubilidade de um fárrnaco
como alla ou baixa. Alta solubilidade quando a maior dose
existente do fármaco se dissolve em até 250 mL de uma solução
aquosa de pli entre 1 e 7,5. Caso contrário, o fármaco é consi-
derado de baixa solubilidade (KASIM et ai., 2004).
Existem quatro classes biofarmacêuticas. São elas:
Classe 1: alta solubilidade e alta permeabilidade.
Classe n: baixa solubilidade e alta permeabilidade.
Classe W: alla solubilidade e baixa permeabilidade.
Classe IV: baixa solubilidade e baixa permeabilidade.
É de esperar que o esrudo e o controle do polimorfismo
sejam mais críticos para os fárrnacos de classes II e IV. l\1as
exislem casos em que o escudo de polimorfismo é importante
mesmo para os fármacos que possuem alta solubilidade. Um
exemplo clássico é o palmitato de cloranfenicol, um fármaco
classe ITI pelo SCB.
O ensaio de dissolução do medicamenLO delermina a massa
dissolvida do fármaco em função do tempo, enquanto a disso-
lução intrínseca determina a velocidade de massa dissolvida do
fármaco. Por isso, quando se avaliam os diferentes polimorfos
nesses testes, eles normalmente se tornam mais eficientes do
que a solubilidade para predizer o desempenho dos diferentes
polimorfos em uma formulação.
Teoricamente os diversos polimorfos de um fármaco
possuem diferenles velocidades de dissolução. Em alguns <.-asos
a diferença não é significativa. Mas quando ocorre o oposto,
os medicamentos podem tornar-se menos ativos, inativos ou
tóxicos quando existe uma relação direta entre esse parâmetro
e a atividade farmacológica. Vários casos apresentam a veloci-
dade de dissolução dos polimorfos como um parâmetro impor-
tante para garantir a eficácia terapêutica.
TÉCNICAS ANALÍTICAS EMPREGADAS NA
CARACTERIZAÇÃO DO ESTADO SÓLIDO
Como mostrado até aqui, desvios de qualidade oriundos
do polimorfismo podem trazer graves consequências para o
setor farmacêutico. Portanto, é importanle caracterizar o estado
sólido das substâncias da melhor forma possivel. Isto implica
a utilização de uma série de técnicas de forma adequada e
integrada (YU et ai., 1998; YU et ai., 2004; VlPPAGUNTA et
ai., 2001; TIIRELFALL, 1995). Este tópico apresenta as técnicas
mais indicadas para investigar o polimorfismo, os seus funda-
mentos básicos e a caracterização de quatro polimorfos da
clorpropamida pelas diversas técnicas abordadas (FAUDONE,
2009). As técnicas podem ser classificadas em cinco grupos•
(BlU'I"fAIN, 1995):
Técnicas para Determinação da F.strutura Cristalina. Difração
de raios X (de monocristal e de pó) com fonles convencionais
ou radiação síncroton (LENWINS et ai., 1996; GIACOVAZZO,
2002).
Técnicas Tennoanalíticas. Apesar de existirem diversas técnicas
deste grupo, as mais utili?.adas no esrudo de polimorfismo são
a calorimetria exploratória diferencial (DSC), a análise térmica
diferencial (DTA), a termomicroscopia (TM)•• e a terrnogravi-
'Decidiu-se manter as siglas das técnicas na língua ingles.~ para facilitar ao leitor
durJ.nlc as su11s pcsqL1isas na literarurd internacional.
" Também chamada, em inglês, de bo1stagemicroscopy(HSM) ou termo-optlca/
analysls (TOA).
Polimorfismo em Fdrmacos 25
metria (TG) (GffiON, 1995; FORD e TIMtvlINS, 1989; KUHNERT-
BRANDSTATIER, 1971).
Técnicas Espectroscópicas. Espectroscopia de infravermelho
(IR), Raman e ressonância magnética nuclear do estado sólido
(ssNMR) (BUGAY, 2001; TISHMACK et ai., 2003; HARRIS,
1996).
Técnicas para Caracterização Morfológica. Microscopia óptica
(com e sein luz polarizada) e eletrônicade varredura (SEM)
(WOOD, 1977; GOODHEW et ai., 2000).
Técnicas para Avaliação de Desempenho. Dissoluç.ão intrinseca
(VIEGAS, 2001; YU et ai., 2004; ABDOU, 1995; USP, 2007).
Difração de Raios X
FUNDAMENTOS
A disposição ordenada dos átomos presentes em um mate-
rial sólido cristalino faz que os ãtomos se ordenem em planos
cristalinos separados entre si por distâncias interplanares (d)
da mesma ordem de grandeza dos comprimentos de onda dos
raios X. U1n feixe de raios X incide e m um cristal (ou amostra
cristalina) e interage com os elétrons dos átomos p resentes,
originando o fenômeno de difração.
A descrição do ordenamento de átomos e/ou moléculas no
sólido é chamada de estrutura cristalina. Por isso, todo sólido
cristalino monocomponente ou multicomponente apresenta
uma determinada dislribuição periódica dos seus áLomos ou
moléculas que tem associado a ela um padrão de difração
característico determinado pela estrurura cristalina do sólido.
Para conhecer como é a estrutura cristalina do criscal, quase
sempre é necessário obter um monocristal com a qualidade
necessária para realizar o ensaio de difração de raios X de
monocristal Nesta técnica são determinados parâmetros que
permitem determinar univocamente a estrutura cristalina do
cristal. São eles:
• Parâme tros da célula unitária (dhne nsões a, b , e;
ãngulos a , p, ô).
• Posições atômicas das moléculas inequivalentes (x , y,
z).
• Grupo espacial (descrição matemática da simetria cris-
talográfica; existem 230 grupos espaciais).
Uma vez determinada a estrutura cristalina, é possível
analisar as interações intra e intermoleculares, assim como a
conformação e o empacotamento das molC::culas.
A possibilidade de conseguir detenninar todos esses parâ-
metros faz com que o ensaio de difração de raios X de mo no-
cristal seja a técnica mais adequada para determinar a estrutura
interna de um cristal. Por isso ela é considerada a técnica de
referência para o csrudo do polimorfismo.
Mas quase sempre não se pode utilirar essa técnica na rotina
industrial, pois praticamente todos os insumos farmacêuticos
cristalinos recebidos pelas indústrias são pós. A produção de
monocristais é normalmente realizada em pequena escala na
etapa de pesquisa e desenvolvimento. Uma alternativa é utilizar
a difração de raios X de pó. Esta técnica está ao alcance da
rotina industrial, pois se necessita apenas de urna pequena
quantidade (dependendo do acessório disponível e da amostra
utilizam-se entre 50 e 500 mg) do insumo recebido.
Na difração de r.iios X de pó o padrão de difração apresenta
uma SC::rie de reflexões, as quais são identificadas no difr:atograma
pelo ângulo (20) ou pela distância interplanar (d) contra a sua
intensidade. Este padrão está relacionado à composição química
e ao ordenamento cristalino das moléculas no cristal. Por isso
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26 Polimorfis1no em Fármacos
Pol. I
Pol. li
Pol. Ili
Pol. IV
1 1 1 r 1 1 liil l l i liil1
2 10 30 40
Escala Theta
Fig. 3.2 Espectros de ITIR de quatro polimorfos de clorpropamida. (Agradecemos a colaboração do Prof. Dr. Ayala- UFC.)
estruturas cristalinas distintas de uma mesma substância podem
ser distinguidas univocamente pelo padrão de difração.
Além de se utilizarem fontes convencionais (que estão
presentes nos equipa.mentos de laboratório), pode-se realizar
ensaios de difração de raios X com radiação sincroton, que
apresenta características diferenciadas. Com esta abordagem é
possível realizar ensaios de melhor qualidade e obter resultados
com sensibilidade e resolução 1nuito superiores às obtidas com
a difração de raios X convencional. Tanto que nos últimos anos
tem crescido significativamente o número de determinações
de estruturas cristalinas a partir de pós.
Registros típicos. A Fig. 3.2 mostra o padrão de difração de
raios X de pó de quatro polimorfos da clorpropamida (FAUDONE,
2009; LEN\VINS e SNYDER, 1996; GlACOVAZZO, 2002).
Técnicas Termoanalíticas
RJNDAMENfOS
As técnicas terrnoanalíticas envolvem urna série de técnicas
que estudam a relação entre uma propriedade da amostra e a
sua temperatura. Na área farmacêutica as amostras podem ser
insumos farmacêuticos puros e misturados, produtos interme-
diários, medicamentos etc.
Estas técnicas são rnuito versáteis e possuem uma diversi-
dade de aplicações. Entre os estudos que podem ser realizados
podem-se citar: cristalização, compatibilidade, degradação,
dessolvatação, diagrama d e fases, estabilidade, evaporação
de voláteis, fusão, interação, polimorfismo, pureza, reação
química, sublimação etc. As seguintes técnicas se destacam no
estudo de polimorfismo:
• Calorlmetria exploratória diferen cial => determina o
fluxo de calor.
• Análise térmica diferencial => determina a variação de
temperatura.
• Termomicroscopia => permite a visualização óptica das
transições.
• Termogravimetria =>determina a variação de massa.
Como os diferentes polimorfos absorvem e liberam energia
de forma diferenciada, a calorimetria exploratória diferencial é
a técnica mais utilizada no estudo de polimorfismo.
O acoplamento de técnicas está se tornando uma prática
comum para as técnicas termoanalíticas. Atualmente já existem
equipamentos simultâneos (por exemplo , calorimetria explo-
ratória diferencial e termogravimetria, caloriinetria exploratória
diferencial e termotnicroscopia etc.) e equipamentos acoplados
com outras técnicas analíticas (por exemplo, termogravime-
tria acoplada a espectroscopia de massas, termogravimetria
acoplada a espectroscopia de infravermelho etc.).
A calorimetria exploratória diferencial acoplada com a
difração de raios X de pó é uma ferramenta muito poderosa
para o estudo do polimorfismo. Entretanto, este tipo de equi-
pamento ainda não é muito acessível para a área industrial e
está praticamente restrito às universidades e aos centros de
pesquisa.
Cabe lembrar que também existe a combinação de calo-
rimetria exploratória diferencial com difração de raios X de
pó utilizando radiação síncroton. Apesar de o acesso a esta
tecnologia ser muito restrito, este equipamento pode auxilar
na resolução de problemas complexos, que são de interesse
do setor farmacêutico.
Registros típicos. A Fig. 3.3 compara os perfis energé-
ticos de quatro polimorfos de clorpropamida por calorimetria
exploratória diferencial (FAUDOf\'E, 2009). Os picos abaixo da
linha de base correspondem a eventos endotérmicos (a amostra
absorve calor), enquanto os eventos acima da linha de base
são exotérmicos (a amostra libera calor).
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-0,5 -
-2,5 -
-4,5 -
-6,5 -
-8,5 -
-10,5
25
Exof
• ' 35
' • ' • • ' • 45 55 65
Poll1norfismo em Fármacos 27
• • ' • ' • • • • • • • •
75 85 95 105 115 125 135
Temperatura (ºC)
Fig. 3.3 Curvas de DSC de quatro polimorfos de clorpropamida (taxa de aquecimento: 5º C'Jmin; escala negativa: processos endotérmicos). (Agradecemoo a cola-
boração da Profa. Dra. Sperandeo- UNC.)
Ainda coexistem duas normas para direcionar os eventos
endotérmicos e exotérmicos. Sendo assim, para que não ocorram
interpretações equivocadas dos eventos observados, sempre
deve existir uma indicação sobre a posição dos eventos no
gráfico. No exemplo em questão, está sinalizado que os eventos
exotérmicos estão acima da linha de base (GIRON, 1995; FORD
e TIMiVllNS, 1989; KUI-INERT-BRANDSTATfER, 1971).
Espectroscopias do Estado Sólido
As técnicas espectroscópicas são muito utilizadas nas áreas
quírrúca e farmacêutica para a identificação rnolecular. Mas
quando o analito é um sólido, elas também podem ser utili-
zadas para identificar o estado sólido de uma substância.
As técnicas espectroscópicas vibracionais (infravermelho e
Raman) conseguem identificar os polimorfos porque as suas
diferentesestruturas cristalinas afetam as vibrações moleculares,
enquanto na ressonância magnética nuclear (RMN) são as dife-
rentes interações de deslocamento químico do mesmo átomo,
p ropiciadas pelas alterações no ambiente local dos núcleos,
que permitem a identificação.
ESPECTROSCOPIA DE INFRAVERMELHO
Fundamentos
Esta técnica se baseia na exposição da amostra a uma
radiação eletromagnética de cornprirnento de onda na região
do infravermelho, que induz transições vibracionais e rota-
cionais.
Os espectrômetros atuais possuem um interferômetro em
vez de um monocromador para guiar a luz infravermelha que
faz com que os espectros sejam obtidos de forma mais rápida e
com maior sensibilidade e resolução. Com este aprimoramento
os equipamentos passaram a ser chamados de espectrômetros
de infravermlho por transformada de Fourier.
A forma clássica de se prepararem amostras sólidas para
serem analisadas por infravermelho é por meio de pastilhas
KBr, principalmente. Este não é o melhor modo para avaliar
o estado sólido de uma amostra, pois a pressão necessária
para fazer a pastilha pode acarretar modificações do polimorfo
objeto da análise, devido a uma transformação sólido-sólido.
Como para realizar o ensaio de infravermelho por reflec-
tância difusa• não é necessário adicionar pressão à amostra, este
método é mais adequado para analisar os polimorfos. Neste
método, o feixe de luz infravermelha incide sobre a amostra
e sofre absorção, reflexão e difração. A parte da radiação inci-
dente que sofre reflectância difusa é, então, utilizada para
construir o espectro de infravermelho da amostra.
A faixa espectral da radiação de infravermelho compreende
três regiões:
• Wravermelho distante .. => entre 10 e 400 cm-1
• Wravermelho médio* .. => entre 400 e 4.000 cm-1
• Wravermelho próxitno•• .. => entre 4.000 e 20.000 cm-1
Os sólidos orgânicos normalmente não são avaliados na
região do infravermelho distante.
O infravermelho médio é bastante difundido na área
farmacêutica. Ele é utilizado há muito tempo para identificar
quimicamente os insumos farmacêuticos, pois as regiões das
'Em inglês, diffuse rejlectance infrared Fourier transform (ORlfl').
••Em inglês, far lnfrared (FIR).
"'Em inglês, mid infrared (MIV).
"•'Em inglês, near infrared (NJR}.
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28 Polimorfis1no em Fármacos
bandas de absorção dos grupos funcionais são conhecidas
com precisão.
O uso do infravermelho próximo cem crescido muito devido
a sua versatilidade e rapidez. Mas como ele possui menor reso-
lução e sensibilidade que o infravermelho médio, é necessário
utilizar a quimiometria para uma avaliação mais robusta das
amostras.
ESPECTROSCOPIA RAMAN
Fundamentos
A. espectroscopia Raman baseia-se no fenômeno da dispersão
inelástica. Esta técnica é útil em uma ainpla faixa espectral,
desde o u lcravioleca até o infravermelho, sendo que esta última
região é a mais utilizada para a caracterização dos sólidos
orgânicos.
Como o sinal obtido após a irradiação da amostra é muito
fraco, o equiparnento de Raman necessita de unia fonte
monocromática e de alta intensidade, assim como filtros para
remover parte da radiação coletada que interfere na quali-
dade do resultado.
Enquanto o infravermelho responde melhor às transições
dos grupos polares e às vibrações assimétricas, as transições
das ligações apoiares e vibrações simétricas são mais intensas
no Raman. Por isso, as duas espectroscopias, IV e Raman, são
complementares em diversas situações.
ESPECTROSCOPIA DE RESSONÂNCJAMAGNÉTICANUCLEAR
DO ESTADO SÓLIDO
Fundamentos
O princípio da ressonância magnética nuclear é a absorção
de energia de radiofrequência (RF). Isto ocorre devido à modifi-
cação do spin do núcleo, quando a amoscra é colocada em um
campo magnético. Ou seja, a técnica consiste em submeter um
núcleo, cujo spin é diferente de zero, a um campo magnético
e detectar o seu 1nomento magnético. Como cada núcleo tem
um momenco magnético diferente, é possível determinar que
tipo de ligação química ele possui. Os isótopos mais estudados
são o próton ('H), o carbono 13 ('3C) e o fósforo 31 (3'P).
A ressonância magnética nuclear de sólidos tem que ser
realizada em condições experimentais diferentes das utiliz.adas
para uma solução e é necessário utilizar um probe específico
para esta finalidade.
MICROSCOPIA ÓPTICA
O estudo dos materiais sólidos é possível por esta técnica
porque um feixe de luz visível pode ser transmitido ou refle-
tido, quando ele é incidido sobre uma amostra.
Enquanto a microscopia de luz refletida pode ana.lisar mate-
riais opacos e partículas aglomeradas, a microscopia de luz
transmitida é utilizada para materiais translúcidos.
O estudo da morfologia externa das partículas é a principal
aplicação da microscopia óptica na área farmacêutica.
Também se avalia a cristalinidade, mas, na maioria das
vezes, apenas quando o ensaio está descrito nas monografias
dos compêndios oficiais. Neste caso é necessário trabalhar
com um feixe de luz polarizada, pois, ao contrário do sólido
a1norfo, o sólido cristalino (exceto para a célula unitária cúbica)
desvia a luz polarizada.
Mas a microscopia óptica possui outras aplicações, tais como
avaliação das dimensões das partículas e estudo de polimor-
fismo (polimorfos diferentes desviain a luz polarizada de forma
distinta).
MICROSCOPIA ELETRÔNICA DE VARREDURA
Fundamentos
Esta técnica é muito útil para a caracterização dos diferentes
hábitos e efeitos superficiais dos polimorfos. Ela se baseia na
irradiação de um feixe fino de elétrons sobre uma amostra.
A interação entre o feixe e a superfície da amoscra provoca
a ernissão de uma série de radiações: elétrons secundários,
elétrons retrodispersados, elétrons Auger, fótons, raios X carac-
terísticos etc.
Na microscopia eletrônica de varredura, a detecção dos
elétrons secundários é responsável pela imagem de alta reso-
lução da topografia da superfície da amostra analisada.
O aumento da imagem é muito superior ao obtido pela
microscopia óptica. Os aumentos podem chegar a 300.000
vezes, mas, para urna avaliação detalhada da superfície dos
polimorfos, são utilizadas escalas entre nanômetros e centenas
de micrômetros.
Dissolução Intrínsec.a
As propriedades do estado sólido (polimorfismo, tamanho
de partícula, área superficial etc.) dos insumos farmacêuticos
influenciam a velocidade de dissolução de um fármaco.
Por isso, uma vez que variações na dissolução podem alterar
a eficácia terapêutica de um medicamento, é mais adequado
estudar a velocidade de dissolução do que estudar a solubili-
dade (que é uma propriedade de equilíbrio termodinâmico)
durante a avaliação da influência do estado sólido no desen-
volvimento farmacotécnico e no controle de qualidade.
A dissolução intrínseca é uma ferramenta que auxilia esta
avaliação e já está descrita em vários compêndios oficiais. Por
exemplo, na Farmacopeía Americana ela está apresentada
no capítulo geral <1087>. O ensaio é realizado em um disso-
lutor convencional e o aparato pode ser de disco rotatório ou
estático.
Essa técnica determina a velocidade de dissolução intrín-
seca,* que é a quantidade acumulada de massa dissolvida de
uma substância por unidade de área por tempo. A amostra fica
em contato com o meio de dissolução através da face de uma
pastilha de área definida (normalmente 0,5 cm2) e deve-se inter-
romper o ensaio quando a área superficial da face da pastilha
deixa de ser constante. Também se deve avaliar se a pressão
de compressão utilizada para produzir a pastilha não modificou
a forma sólida da amostra, o que invalidaria o ensaio.
Após o ensaio, a velocidade de dissolução intfmseca é deter-
minada a partir da regressão linear dos pontos obtidos, sendo
que deve-se utilizar apenas os pontos em que a área da face
da pastilha se manteve constante e em que o ensaio estava
na condição sink (concentração dissolvidamuito menor que
a concentração de saturação). Os resultados são expressos
normalmente em miligramas por minuto por cent'liletro ao
quadrado (mg · min-1 · cm·2) . (FAUDONE, 2009; VIEGAS, 2001;
YU, 2004; ABDOU, 1995; USP, 2007).
ASPECTOS REGULATÓRIOS SOBRE O
POLIMORFISMO
Os desvios de qualidade que têm ocorrido nos medica-
mentos devido ao polimorfismo têm acelerado a adoção de
• Jntrinsic dissolution rate (!DR).
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novas normas sobre o Lema no setor farmacêutico. Elas discutem
a identificação dos polimorfos e as questões relacionadas com
o impacto e o controle do polimorfismo.
Mas cabe ressaltar que a maioria das normas e outros docu-
mentos oficiais que foram elaborados restringe a discussão às
formas sólidas (muitas vezes apenas às formas sólidas orais)
e às suspensões. Por não contemplarem as diversas formas
farmacêuticas, esses documentos deixam lacunas importantes,
as quais se forem eliminadas no futuro, poderão diminuir a
probabilidade de ocorrerem novos casos como o do ritonavir,
apresentado neste capítulo.
A Conferência Internacional de Harmonização (em inglês
International Conference on 1-larmonization - ICH) emitiu docu-
mentos que visam a melhorar o controle do polimorfismo nos
medicamentos novos e já existentes. Entre eles, o guia conhe-
cido como Guidance on Specifications: Test Procedures and
Acceptance Criteria for New Drug Subslances and New Drug
Products: Cbemical St.tbstances (lCH Guidence Q6A, 1999)
discute diversas questões, entre elas o polimorfismo. Entre as
árvores de decisão utilizadas nesse documento para indicar os
procedimentos a serem seguidos durante as investigações, a
árvore #4 trata do tema polimorfismo:
• Árvore de decisão #4 - Investigação da necessidade de
estabelecer critérios de aceitação para o polimorfismo em
substâncias farmacêuticas e medicamentos.
Para a agência Food and Drug Administration (FDA) dos
Estados Unidos, as questões relacionadas ao polimorfismo
devem estar contempladas tanto na fase clínica (lnvestigational
New Drug - IND) como na fase de registro (New Drug Appli-
cation - NDA) de medicamentos inovadores.
A preocupação com o polimorfismo também existe para
os medicamentos genéricos, tanto que o guia para a indústria
Abbreviated New Drug Applications (ANDAs): Pbarmaceutical
So/id Polymorpbis1n (Cbemistry, Manufacturing and Contro/s
Jnformation)- CDERIFDA, july 2007 trata apenas deste tema.
O documento possui uma árvore de decisão subdividida em
três árvores menores, em que se discutem a investigação do
polimorfismo e a definição de uma especificação para o IFA
e o medicamento.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do Brasil
também possui documentações em que o tema polimorfismo é
abordado. A seguir são destacadas algumas resoluções e alguns
trechos das mesmas:
Resolução RDC nll 136, de 29 de maio de 2003
1 - Das medidas antecedentes d e registro de medica-
mentos novos
h) Informações técnicas do(s) princípio(s) ativo(s), como segue,
quando aplicável:
(. . .)
hll) Polimorfismo, descriminando a5 características do poli-
morfo utilizado e de outros relacionados ao princípio ativo.
Resolução RE nº 893, de 29 de maio de 2003
Alterações, Inclusões e Notificações Pós-registro de Medi-
camentos
2.5. A lleraçifo na rota de síntese defarmaco novo e gené-
ricos já registrados, será exigida:
(. .. )
2.5.4.7. Para os fármacos que apresentem polimorfismo:
fornecer informações sobre os prováveis polimorfos e, sempre
que possível, a metodologia analítica para sua determinação;
2.6. Alteração defabrlcarrle dosfdrmacos similares e gené-
ricos já registrados. Será exigida:
(. . .)
Polimorfismo em Fármacos 29
2.6.4.7. Para os fármacos que apreseni.em polimorfismo: infor-
mações sobre os prováveis polimorfos e, sempre que possível,
a metodologia analítica para sua determinação;
3.11. lnclusiü> de fabrlcarrle do fdrmaco àquele já bifor-
mado no registro . Aplica-se a medicamentos novos, similares e
genéricos já registrados. Será exigida a documentação seguinte:
(. .. )
3.11.4.7. Para os fármacos que apresentam polimorfismo, apre-
sentar informações sobre os prováveis polimorfos e, sempre
que possível, a metodologia analítica para sua determinação;
Resolução RDC o º 16, de 02 de março de 2007
Registro de Medicamentos Genéricos
12. Relatório de controle de qualidade das matérias-primas.
Fármacos:
(. . .)
12.2.6. No caso de fármacos que apresentem polimorfismo,
metodologia analítica adotada e resultados dos Lestes de deter-
minação dos prováveis polimorfos do fármaco;
Resolução RDC nR 17, d e 02 d e março d e 2007
Registro de Medicamento Similar
1. Relatório técnico:
(. .. )
1.2.2.2.6. No caso de fármacos que apresentem polirnorfismo,
informações, metodologia analítica adotada e resultados dos
testes de determinação dos prováveis polimorfos do fármaco
(BYRN et ai., 1999; BYRN et ai., 1995; RAW e YU, 2004;
CHAWI.A e BANSAL, 2004).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diversos aspectos importantes do polimorfismo foram discu-
tidos, em particular, do polimorfismo dos fármacos. Algumas
questões abordadas já estão difundidas ou est.ão se difundido
no setor farmacêutico. Mas alguns tópicos focaram questões
pouco exploradas, tais como a diferença entre alotropia e poli-
morfismo e a necessidade de se pensar no polimorfismo em
todas as formas farmacêuticas.
Como o objetivo desce cexto era apresentar o polimorfismo
e mostrar a sua importância para setor farmacêutico de forma
concisa, por meio de uma liguagem simples, é necessário dizer
que todas as questões abordadas podem ser aprofundadas.
Também é importante ressaltar que, além do polimorfismo,
existem outros par-:imetros do estado sólido que são importantes
para o setor farmacêutico (distribuição granulométrica, área super-
ficial específica, morfologia etc.). Portanto, sempre se deve utilizar
uma abordagem integrada par-.i deterrninar qual é a influência de
cada parâmetro do estado sólido nos processos e nos produtos.
Finalmente, o estudo de polÍ!norf1smo está em pleno desen-
volvimento no setor farmacêutico, com o intuito de produzir
inovações e melhorar a qualidade dos processos e produtos
(CHAWLA e BANSAL, 2004).
Além disso, investigações estão sendo realiz.adas para
compreender o comportamento da(s) forma(s) sólida(s)
utihzada(s) na produção dos medicamentos atuais, pois, como
dito no decorrer do capítulo, a falta do controle do polimor-
fismo pode acarretar desvios de qualidade desde a produção
do fármaco até o fim do prazo de validade do medicamento.
Apenas desta forma é possível dispor de um nível de controle
adequado para assegurar:
./' O cumprimento das normas nacionais e internacionais.
./' Que não seja necessário descartar ou reprocessar insumos
ou produtos que sofreram mudanças indesejáveis no
estado sólido.
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30 Polimorfis1no em Fármacos
./ O objetivo final de todo medicamento: segurança
do paciente e eficácia terapêutica.
AVAIJESEUSCONHECIMENTOS
1. Diferencie polimorfismo de alotropia. F.stas duas proprie-
dades podem ocorrer ao mesmo tempo? Quando?
2. Qual é a definição formal de polimorfismo adotada por
diversas instituições do setor farmacêutico?
3. Entre as propriedades que podem ser afetadas pelo poli-
morfismo, quais são as mais relevantes para o setor farma-
cêutico? Por q uê?
4. A partir de uma molécula, pergunta-se:
a) Pode-se prever o número de polimorfos que ela pode
apresentar?
b) Mencione quais são as condições que produze1n
mudanças polimórficas mais frequentemente durante o
processo de cristalização.
c) Liste alguns m.étodos de obtenção de polimorfos comu-
mente utilizados.
5. Diferencie solubilidade termodinâmica da solubilidade
adotada pelo Sistema de Classificação Biofarmacêutica
(SCB). De acordo com o SCB, que classes de fármacos
devem ser maisafetadas pelo polimorfismo? Por quê?
6. Quais são as informações cristalográficas que definem
completamente a estrutura cristalina de uma substância pura?
Mediante que técnica se obtêm os parâmetros que definem
a estrutura cristalina?
7.
8.
a) Pelos fundamentos das técnicas da espectroscopia IR,
quais vibrações moleculares são detectadas e quais são
as diferenças entre as espectroscopias IR e Raman?
b) Para detectar polimorfismo pelo espectro de IR de uma
substância, é aconselhável utilizar a metodologia com a
preparação da amostra com KBr ou KCl ou a técnica por
DRIFI? Justifique sua resposta.
a) Se o fármaco não é muito solúvel em água e apresenta
diferentes polimorfos, quais testes podem ser utilizados
para verificar a existência de propriedades com impacto
sobre a biodisponibilidade?
b) Os testes de VDI são utilizados para caracterizar produtos
finais ou substâncias puras? Quais condições devern ser
avaliadas antes de iniciar os testes de VDI?
~CIAS
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