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Júlia Lagoa Pedroni TX 1 CIRURGIA GERAL – Dr. Mário Fuhrmann Neto 02/09/2020 DOENÇAS BENIGNAS DO PERITÔNIO E CAVIDADE PERITONEAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM 1. Avaliar a anatomia peritoneal 2. Conceito de Ascite 3. Peritonite Bacteriana Espontânea 4. Peritonite Tuberculosa PERITÔNIO O peritônio é uma membrana serosa, a maior do corpo, transparente e que recobre tanto a parede abdominal quanto as vísceras, formando um saco dentro do abdome. Vísceras peritoneais são aquelas compreendidas dentro do peritônio: fígado, baço, estômago, intestino delgado, intestino grosso. Possui 2 camadas: Parietal recobre as paredes abdominais e a superfície inferior do diafragma Visceral recobre boa parte das vísceras, formando uma cobertura completa para algumas delas (estômago, baço, etc.) e incompleta para outras (bexiga, reto, etc.). Assim, as vísceras podem ser classificadas como peritonizadas (por ambas lâminas), extraperitoneais (fora do parietal) ou retroperitoneais (dentro do parietal). Estas duas camadas são responsáveis por formar a cavidade peritoneal, espaço virtual entremado por líquido peritoneal. FISIOLOGIA DO PERITÔNIO Membrana semipermeável bidirecional com capacidade de realizar trocas. Promove a remoção de bactérias da cavidade. Facilita a migração de células inflamatórias. Contém cerca de 100 mL de líquido seroso. ANATOMIA DA CAVIDADE PERITONEAL Retroperitôneo: Rins, grandes vasos (vv. hepáticas, v. porta, v. cava, a. aorta), pâncreas, parte do duodeno Júlia Lagoa Pedroni TX 2 Intraperitoneal: fígado, estômago, baço, colon, omento Peritônio / saco peritoneal: fina membrana brilhante ASCITE Acúmulo patológico de líquido dentro da cavidade peritoneal. A Ascite está mais comumente relacionada com a Cirrose. Causas Cirrose – mais comum (80%) Síndrome de Budd-Chiari – trombose da veia porta Insuficiência cardíaca Carcinomatose peritoneal Pancreatite aguda Síndrome nefrótica Linfoma As alças intestinais ficam boiando no líquido ascítico Fatores predisponentes Retenção renal de sódio e água Hipertensão portal – mais importante Júlia Lagoa Pedroni TX 3 Classificação da Ascite por gradiente Relação entre a quantidade de albumina no soro e na ascite. HIPERTENSÃO PORTAL A hipertensão portal é o aumento da pressão do sangue na veia porta. A congestão venosa do sistema porta acarreta em baixa função hepática e dificuldade de retorno venoso. A hipertensão portal está relacionada com tortuosidade dos vasos que desembocam na veia porta, varizes no estômago e no terço inferior do esôfago, esplenomegalia, ascite, derrame pleural, hemorragia digestiva alta. PARACENTESE Punção abdominal, próxima a borda lateral do músculo reto do abdome, para aspiração do líquido que está presente na cavidade peritoneal. Possui finalidade diagnóstica (paracentese diagnóstica) e terapêutica (paracentese terapêutica). A paracentese terapêutica é realizada em paciente com ascite volumosa que possui desconforto abdominal e/ou respiratório (dispnéia pela restrição respiratória decorrente de uma ascite de grande volume). A punção da ascite não é realizada em todos os pacientes, pelo risco infeccioso e de perfuração de alça. Júlia Lagoa Pedroni TX 4 Técnica: 1) Assepsia e antissepsia da pele 2) Marcação do local da punção 3) Bloqueio anestésico local 4) Introduzir agulha à 90º fazendo pressão negativa a fim de passar todas as camadas até perfurar o peritônio 5) Quando a agulha perfurar o peritônio, inicia-se a drenagem do líquido com uma seringa ou à vácuo Em caso de retirada de volumes muito grandes (mais do que 1000-1500 mL), é necessário realizar a reposição de plasma, fluídos e eletrólitos. PERITONITE BACTERIANA ESPONTÂNEA É a infecção bacteriana do líquido ascítico. Flora entérica: Adultos: Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae Crianças: Streptococcus do grupo A, Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae Mais comum nos cirróticos e nos pacientes com Síndrome Nefrótica. Geralmente está relacionada com translocação bacteriana para cavidade peritoneal – fator da patogênese da PBE. Paciente com infecção sistêmica sofre uma translocação bacteriana para a cavidade peritoneal Quadro clínico Dor abdominal Febre Diagnóstico Análise do líquido pela paracentese: mais de 250 neutrófilos/mL. Tratamento Antibioticoterapia: cefalosporinas de terceira geração (Ceftriaxone e Ceftazidima). Manter regime de internação hospitalar durante todo o tratamento. PERITONITE TUBERCULOSA Material complementar: A tuberculose peritoneal consiste num processo inflamatório crônico causado pelo Mycobacterium tuberculosis. Sua sintomatologia é inespecífica, com comprometimento sistêmico. A Peritonite Tuberculosa é uma das principais doenças que acometem o peritônio, embora não seja das formas mais comuns da tuberculose. Suas características clínicas são ambíguas e, portanto, de difícil diagnóstico, uma vez que deriva de processo inflamatório crônico. O peritônio é o sexto local mais comum de tuberculose extra-pulmonar. Ordem de acometimento da tuberculose: linfática, geniturinária, óssea, miliar, meningea, peritoneal. Paciente com foco de tuberculose extra-pulmonar não necessariamente tem foco pulmonar. Quadro clínico As manifestações clínicas da tuberculose peritoneal são bastante inespecíficas. Júlia Lagoa Pedroni TX 5 Na maioria dos casos, o doente tem um quadro insidioso de progressão lenta, com sintomas de comprometimento sistêmico. Dor abdominal inespecífica Febre baixa geralmente recorrente no final da tarde Sudorese noturna Perda de peso Anorexia Ascite Anemia Diagnóstico Teste tuberculínico Exame microscópico do líquido ascítico: eritrócitos e muitos linfócitos TC de abdome: mesentério espessado e nodular com linfadenopatia – achados geralmente inespecíficos Laparoscopia com biópsia de peritônio – padrão ouro Material complementar: Em pacientes com suspeita de peritonite tuberculosa, a laparoscopia consiste no método definitivo para estabelecimento do diagnóstico. Em mais de 90% dos pacientes, achados sugestivos incluem nódulos peritoneais característicos visíveis a laparoscopia e granulomas que podem ser documentados por meio de biopsia peritoneal. Tratamento Esquema RIPE por 6 meses: Isoniazida, Rifampicina, Pirazinamida e Etambutol.