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Brasília-DF. Farmacoepidemiologia e Segurança na utilização de medicamentoS Elaboração Juliana Meira Guedes Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ..................................................................... 5 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 7 UNIDADE I SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA ........................................................................................................ 9 CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO À SAÚDE PÚBLICA E À EPIDEMIOLOGIA ............................................................... 9 CAPÍTULO 2 CONCEITOS E TIPOS DE ESTUDOS .......................................................................................... 14 UNIDADE II OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA ............................................................................................. 24 CAPÍTULO 1 FARMACOEPIDEMIOLOGIA .................................................................................................... 24 CAPÍTULO 2 OUTROS ESTUDOS DE FARMACOEPIDEMILOGIA ...................................................................... 41 UNIDADE III USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS ................................................................ 44 CAPÍTULO 1 O MERCADO FARMACÊUTICO .............................................................................................. 44 CAPÍTULO 2 REAÇÕES E EVENTOS ADVERSOS ........................................................................................... 48 CAPÍTULO 3 RELAÇÃO FARMACOEPIDEMIOLOGIA COM RAM/EAM’S ......................................................... 58 UNIDADE IV DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS ........................................................................................ 61 CAPÍTULO 1 FARMACOLOGIA CLÍNICA ..................................................................................................... 61 CAPÍTULO 2 FARMACOVIGILÂNCIA .......................................................................................................... 66 CAPÍTULO 3 UTILIZAÇÃO SEGURA DE MEDICAMENTOS ............................................................................... 68 PARA (NÃO) FINALIZAR ...................................................................................................................... 71 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 73 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução Caro aluno, Esta disciplina tem como objetivo fornecer uma pequena introdução à Saúde Pública conceitos básicos de Farmacologia Clínica e Epidemiologia. Discutirá questões referentes à farmacoepidemiologia e apresentará as diversas fases de Desenvolvimentos de Novos Fármacos e a Segurança nas Etapas de Investigação e Surgimento de novas drogas. Será discutido o uso de Medicamentos e a Farmacovigilância entre outras questões importantes como Reações e Eventos Adversos na Administração de Medicamentos e a Responsabilidade Sanitária. Objetivos » Revisar os princípios básicos da Saúde Pública e sua relação com a Epidemiologia e metodologia. » Adquirir conhecimento em Farmacoepidemiologia. » Conhecer as características dos principais modelos de estudos epidemiológicos aplicados ao estudo do medicamento. » Adquirir os conhecimentos básicos sobre a metodologia epidemiológica aplicada ao estudo do risco e do benefício associado ao uso do medicamento. » Compreender o racional de estudos de utilização de medicamentos. » Avaliar e interpretar criticamente os resultados de estudos farmacoepidemiológicos. » Adquirir conhecimentos e discutir do sistema de notificação ao Sistema Nacional de Farmacovigilância. Conhecer os processos de identificação de reações adversas e sua notificação. » Conhecer e discutir questões importantes como Erros na Administração de Medicamentos. 9 UNIDADE ISAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA CAPÍTULO 1 Introdução à saúde pública e à epidemiologia Não é fácil obter uma definição sucinta e clara de Saúde Pública, já que vários autores contribuíram com seus estudos e já deram cada um sua definição. Seus conceitos eas suas visões podem abordar desde um conceito mais político, como também um conceito de serviços de saúde, ou então conceitos de saneamento básico e meio ambiente. É muito importante entender que a saúde pública é uma disciplina que trata da proteção da saúde a nível populacional. Neste sentido, entendemos que a Saúde Pública procura melhorar as condições de saúde das comunidades por meio da promoção de estilos de vida saudáveis, das campanhas de sensibilização, da educação e da investigação. Em resumo, ela surge de vários movimentos tanto na Europa quanto nas Américas como forma de controlar, as endemias e epidemias que ameaçavam a ordem econômica vigente e depois como controle social, buscando a erradicação da miséria, desnutrição e analfabetismo. E vem com mais força quando surgem as transformações na química, nos processos industriais farmacêuticos, nos diagnósticos e nos métodos científicos juntamente com as transformações políticas, culturais e econômicas que as duas Grandes Guerras fizeram marcar em todo o mundo. Saúde pública Existem muitas definições sobre o que é a saúde pública, mas talvez a que mais se identifica com sua verdadeira essência é a definição de Winslow (1920) - Terris (1991), em que conceitua a saúde pública como “a arte e a ciência de prevenir a doença e a incapacidade, prolongar a vida e promover a saúde física e mental mediante os esforços organizados da comunidade” (TERRIS apud PAIM p.12). 10 UNIDADE I │ SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA Seu diferencial com a medicina é o conceito do coletivo e de comunidade, e se entende que é na população que se deve focar a solução de problemas e eventos de saúde. Em nossa Constituição Federal de 1988 a Saúde Pública e o direito à saúde são vistos entre os artigos 196 e 200, onde falam sobre as responsabilidades e direitos de cada cidadão, e além do mais reúne um conjunto de ações voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde. Podemos encontrar no primeiro e no segundo articulo o conceito do direito à saúde, e o dever do Estado de garantir não apenas serviços públicos de promoção, proteção, assistência e recuperação da saúde, mas de adotar políticas econômicas e sociais que melhorem as condições de vida da população. E com essa visão surge o Sistema Único de Saúde, SUS, Sistema Público de Saúde brasileiro, onde a este órgão e a outros setores da Administração Pública é atribuído o dever de cuidar da população e sua saúde. Com a criação do SUS, toda a população brasileira passou a ter direito à saúde universal, equitativa e gratuita, que deve ser fornecida pelos três órgãos federativos, e não somente do Estado. Estes órgãos federativos são responsáveis também pela saúde da população: União, Estados, Distrito Federal e os Municípios. Esse novo conceito de saúde considera a alimentação, moradia, saneamento, meio ambiente, trabalho, educação, transporte etc. fatores determinantes; e impõe aos órgãos que compõem o Sistema Único de Saúde o dever de identificar esses fatos sociais e ambientais e ao Governo o de formular políticas públicas condizentes com a elevação do estilo e modo de vida da população. Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado. Acessem o site da OMS e descubram quais são as funções essenciais da Saúde Publica: <http://www.who.int/en/>, você poderá escolher o idioma inglês ou espanhol. Aqui <http://www.conselho.saude.gov.br/14cns/docs/constituicaofederal.pdf> podemos encontrar todos os artigos relacionados aos Direito à Saúde, Constituição Federal de 1988. Epidemiologia A relação entre a Epidemiologia e a Saúde Pública, sempre caminharam juntas e por isso se foram definindo e fazendo sentido em conjunto desde muito tempo. 11 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I Para a Saúde Publica seu elemento principal e diferencial de estudo é a saúde coletiva, saúde e bem estar da comunidade e da população. No final do século XIX, houve uma explosão de doenças infecciosas, epidemias e endemias que preocuparam e mobilizaram toda a área de saúde desta época, e é justo neste momento em que se inicia a produção de medicamentos em grande escala. Com essa grande produção, tempos depois, surge o uso abusivo de medicamentos, as reações adversas aos medicamentos e a resistência da ação medicamentosa e não controle de doenças infecciosas na população. E à medida que aumenta o número de medicamentos no mundo, aumenta também a preocupação por parte dos profissionais da área de saúde, em como utilizar devidamente este “recurso”. Por isso a contribuição da epidemiologia ao estudo dos medicamentos nas sociedades, a pesar de um tema ainda pouco conhecido, é muito importante. Vários acontecimentos no decorrer da historia nos mostram que conhecer bem a utilização de um medicamento é muito importante. Em 1937, mais de 100 crianças morreram nos Estados Unidos pelo uso de um elixir de sulfanilamida, que foi um dos primeiros medicamentos empregados no combate às infecções bacterianas, que continha como veículo o dietilenoglicol. Apesar do conhecimento dos efeitos tóxicos do solvente já fossem bem estabelecidos naquela época, não eram conhecidos pelo próprio fabricante do elixir. Como resultado deste incidente, em 1938 foi aprovado à lei que criou nos Estados Unidos a “Food and Drug Administration” (FDA), em que as indústrias farmacêuticas deveriam por lei e supervisão deste órgão, fornecer a eles todos os dados clínicos sobre segurança de novos medicamentos antes da permissão para a sua comercialização. Depois outro ocorrido marcante foi no início da década de 1950, onde observou- se o uso terapêutico de cloranfeniclol, um antibiótico de amplo espectro, sendo eficaz contra bactérias Gram-negativas, gram-positivas e riquetsias, que induzia em alguns pacientes a anemia aplástica (Anemia Aplástica ou Aplásica ocorre quando a medula óssea produz em quantidade insuficiente os três diferentes tipos de elementos sanguíneos: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas) como efeito adverso. Em 1960 a FDA lançou nos Estados Unidos o programa de notificação de efeitos adversos causados pelos medicamentos e, também foram publicados os primeiros estudos de utilização de medicamentos, englobando a comercialização, distribuição, prescrição, dispensação e uso de medicamentos em uma sociedade, enfatizando especialmente as consequências médicas, sociais e econômicas que resultam desta utilização (Organização Mundial da Saúde, OMS, 1977). 12 UNIDADE I │ SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA O fato mais marcante relacionado ao uso de medicamentos foi o surto de focomelia, ocorrido em 1961, que atingiu vários países onde a talidomida era comercializada. Alguns dados nos mostram que mais de 10.000 crianças nasceram deformadas em consequência do uso de talidomida pelas mães, sendo que somente aproximadamente 5.000 recém-nascidos sobreviveram a este fato. A Talidomida foi desenvolvida como um sedativo, anti-inflamatório, mas seu efeito adverso resultou ser a focomelia. Focomelia quer dizer deformação dos membros, e é uma síndrome caracterizada pela aproximação ou encurtamento dos membros junto ao tronco do feto, tornando-os semelhantes aos de uma foca. Somente 01 comprimido, utilizado durante os primeiros meses de gravidez provoca graves defeitos e más formações visuais, auditivos, da coluna vertebral e, em casos mais raros, do tubo digestivo e problemas cardíacos. Durante os estudos epidemiológicosdo uso da talidomida comprovaram os seus efeitos teratogênicos. Com o FDA nos Estados Unidos praticamente não houve incidentes relacionados à talidomida, pois já se havia dado o alerta de alguns efeitos colaterais indesejáveis como o hipotireoidismo e neuropatia periférica, e devido a isso foi retirado do mercado. Neste cenário, foram iniciados os primeiros estudos com enfoque na utilização racional de medicamentos, em resposta à necessidade de se conhecer e relatar os problemas relacionados à medicação e da elevada morbidade e mortalidade associada ao uso inadequado dos medicamentos (OMS, 1969). No entanto, em 1965 foi descoberto o seu efeito benéfico no tratamento de estados reacionais em Hanseníase (antigamente conhecida como lepra), e não para tratar a doença propriamente dita, o que gerou a sua reintrodução no mercado brasileiro com essa finalidade específica. A partir daí foram descobertas inúmeras utilizações para a droga no tratamento de HIV, Lupus, e doenças crônico-degenerativas - Câncer e Transplante de Medula. Sabendo dos seus efeitos teratogênicos, a Talidomida, é um medicamento vigiado por nossa autoridade sanitária e por força da Portaria no 354, de 15 de agosto de 1997, é proibida para mulheres em idade fértil e grávidas em todo o território nacional. E para o sexo masculino, conforme a Resolução no RDC 140/2003 da ANVISA, a bula do medicamento informa que “os homens que utilizam a Talidomida e mantém vida sexual ativa com mulheres em idade fértil, mesmo tendo sido submetidos à vasectomia, devem ser orientados a adotar o uso de preservativo durante o tratamento” e ainda “sobre a importância dos usuários não doarem sangue ou esperma”. E seu uso vem acompanhado de uma notificação ao usuário e um termo de consentimento para seu uso. Podemos citar outros vários casos, mas o mais importante foi aprender com estes grandes sustos mundiais, e a partir de então, entender que a ideia do medicamento como produto de qualidade e segurança absoluta deve ser questionada. 13 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I O avanço da farmacologia clínica, com seus conhecimentos sobre o efeito do medicamento moderno ao homem, permitiu-nos compreender mais claramente a distinção sobre os efeitos terapêuticos e os efeitos indesejáveis, ambos presentes durante o uso de um medicamento. Atualmente a indústria farmacêutica é um dos maiores complexos industriais no mundo. Por isso à medida que aumenta o numero de medicamentos no mundo, e apesar dos novos e sofisticados métodos para a produção, maior é a necessidade de estuda-los e este é o dilema da Farmacoepidemiologia. Um bom texto para praticar e entender a importância da vigilância em saúde quando falamos de medicamentos é o “USO DA VIGILÂNCIA E DA MONITORIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA” que você pode encontrar <http://portal.saude.gov.br/portal/ arquivos/pdf/iesus_vol7_3_usos.pdf> 14 CAPÍTULO 2 Conceitos e tipos de estudos Conceito de Epidemiologia A palavra Epidemiologia deriva de três vocábulos gregos: » EPI – que significa ‘sobre’; » DEMOS – que quer dizer ‘população’ e » LOGOS – que pode ser traduzido como ‘tratado’, ‘estudo’. Ou seja, Epidemiologia é o ramo da Ciência de Saúde que estuda o que ocorre sobre a população. Ela é considerada como uma disciplina básica da Saúde Pública, onde se ocupa de uma dimensão coletiva utilizando métodos de estudos biológicos. A epidemiologia tem sido indicada, há quase meio século, para usos diversos como a descrição de doenças em populações, identificação de grupos suscetíveis, além da avaliação de serviços, programas e ações de saúde (MORRIS, 1975). É o estudo das relações dos diferentes fatores que determinam a frequência e distribuição de um processo ou doença numa comunidade. Deve-se observar que a Epidemiologia preocupa-se com todas as condições que dizem respeito ao estado de saúde de uma população e não somente do indivíduo. Tem como definição tradicional de ciência que trata o estudo da distribuição das doenças, de suas causas e de sua frequência no homem, assim como o conhecimento de dados para a intervenção orientada ao controle e erradicação dessas doenças. Hoje em dia esse conceito evoluiu e soma a definição também que é uma ciência que se ocupa das relações entre a saúde e a doença, e as condições de vida dos diferentes grupos populacionais, através de estudos de um grupo multidisciplinar, utilizando diversos conceitos, métodos e técnicas. [...] ciência que estuda o processo saúde–doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle, ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações em saúde. (ROUQUAYROL & GOLDBAUM, 1999, p.15). Na prática da investigação epidemiológica, nos locais de saúde e nos institutos sanitários, a epidemiologia desenvolveu primeiramente seu interesse em alguns eventos ou problemas de saúde, que por diversas razões, foram classificadas como prioridade. 15 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I Devido a isso, se desenvolveu a epidemiologia de doenças infecciosas, crônicas e degenerativas, de acidentes, mentais e recentemente as doenças ambientais. Tempos depois surgiu à epidemiologia clínica que é a aplicação de princípios e métodos epidemiológicos em problemas encontrados na clínica médica, analisando e medindo as observações cientificas em medicina. A aplicação destes métodos epidemiológicos e técnicas estatísticas para o estudo de problemas clínicos e de sua melhoria é realizado sempre e quando necessário. A epidemiologia clínica porque procura responder essas questões e ajudar a tomar decisões com a melhor evidência disponível. É epidemiológica, porque muitos dos métodos utilizados para responder a estas questões foram desenvolvidos por epidemiologistas e porque os cuidados administrados aos doentes individuais são vistos no contexto de um grupo maior da população de que o doente faz parte. Os objetivos principais da epidemiologia clínica são: definições de normalidade e anormalidade validade dos testes de história natural e prognóstico das doenças, a efetividade do tratamento e prevenção na prática clínica, análise de riscos e benefícios dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos e avaliação dos serviços de cuidados de saúde. Fonte: <http://whqlibdoc.who.int/publications/2010/9788572888394_por.pdf> E por fim, surgiu a epidemiologia social, que analisa os determinantes sociais do processo saúde- doença. O que distingue a epidemiologia social das outras abordagens epidemiológicas não é a consideração de aspectos sociais, afinal todas reconhecem a importância desses aspectos, mas sim a explicação do processo saúde-doença e sua evolução com as condições de seu entorno e a educação recebida nesta população analisada. Ela analisa discussões, questões locais, regionais, estaduais, nacionais e internacionais, os mercados financeiros, o lixo, pobreza, as catástrofes ambientais, o desemprego, a desnutrição, a precariedade do trabalho, o trabalho escravo e as condições de vida em escala mundial. Todas essas informações e toda essa investigação dos cuidados de saúde podem ser muito útil para gestão, recomendações, melhores práticas etc. A utilização efetiva do uso da epidemiologia no planejamento das ações em saúde é um assunto importante por sugerir uma tomada de decisão no campo da saúde, podendo refletir na prevenção de doenças e promoção da saúde da população. » Podemos entender o papel da Epidemiologia e sua importância para a saúde? Estudos epidemiológicos Um passo importante da investigação epidemiológica consiste na aplicação de estudos que relacionam fatores e doenças, e também estratégias para análises de dados obtidos para a melhoria da saúde da população. 16 UNIDADE I │ SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA Praticamente osestudos Epidemiológicos se dividem e se fundamentam nos seguintes métodos: » Descritivos: simples descrição da distribuição dos problemas ou eventos de saúde em determinadas populações ou diferentes grupos de uma mesma população, onde se identifica quais os grupos de risco e as necessidades e as suas características. A epidemiologia descritiva examina como a incidência (casos novos) ou a prevalência (casos existentes). » Analíticos: são estudos desenhados especialmente para examinar a validade de algumas hipóteses e questões científicas que relacionam eventos, como uma suposta “causa” e um dado “efeito”, ou “exposição” e “doença”. Ou seja, ele pode começar em um estudo descritivo, em que se selecionará grupos ou determinadas populações para realizarem-se estudos que procuram esclarecer uma dada associação entre uma exposição, em particular, e um efeito específico previamente já formulado. Sempre haverá dois grupos já que o estilo dos estudos analíticos é comparativo. Com isso terá no mínimo dois grupos de indivíduos estudados: o grupo “estudo” e o grupo de comparação conhecido como “grupo controle”. » Experimental: São estudos de manipulação, ou seja, de aplicação, modificação de frequência, intensidade da suposta causa e observação realizada neste estudo. É o momento da intervenção do investigador. Realizam-se estudos em que o investigador se questiona se a determinada intervenção funciona, qual seu efeito e o que seria o melhor método. Portanto podemos definir este tipo de estudo como um teste ou até uma comparação. A intervenção experimental pode ser uma nova droga a ser testada ou uma nova conduta de tratamento. Como é o investigador quem diz para quais indivíduos vai dar a intervenção e quais vão continuar recebendo a antiga intervenção ou a nenhuma, ele tem a possibilidade de tornar os dois grupos estudados muito semelhantes entre si, utilizando uma escolha do tipo aleatória ou randomizada, que poderia ser por sorteio, ou escolha ao azar. » Observacionais: neste método conhecido como observacional o investigador do estudo não intervém, como o próprio nome já sugere, mas realiza as medições e as investigações devidas em seu objeto de estudo. Essas medições são conhecidas como desenhos epidemiológicos, onde os grupos de estudo e de controle, já estão separados com as características já existentes nesses indivíduos. Esses desenhos são classificados como: Transversal, Coorte, Caso-Controle e Ecológico. Em realidade devido a algumas características de cada grupo, podemos observar que um tipo de estudo tem uma próxima etapa, que em realidade seria o outro tipo de estudo. Em todos se observa que se inclui vigilância, análises, pesquisa analítica e experimento. Onde a análise do tempo, local e características dos indivíduos, são determinantes, e também todos os fatores físicos, biológicos, sociais, culturais e comportamentais que influenciam a saúde. Condições relacionadas 17 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I , saúde incluem doenças, causas de mortalidade, hábitos de vida (como tabagismo, dieta, atividades físicas, estilo de vida etc.), provisão e uso de serviços de saúde e de medicamentos. Neste quadro você poderá identificar a divisão desses dois métodos e suas próximas etapas de estudo Estudos epidemiológicos observacional transversal O estudo transversal, também chamado estudo de prevalência, tem como objetivo principal medir a prevalência de um determinado evento é um dos estudos mais utilizados em epidemiologia pelas vantagens que apresenta e estas serão discutidas a seguir. Todas as medições são feitas num único «momento», não existindo, assim, período de seguimento dos indivíduos estudados. Para a realização de um estudo transversal o investigador tem que, primeiro, definir a questão a responder, depois, definir a população a estudar e eleger um método de escolha da amostra e, por fim, definir os fenômenos a estudar e os métodos de medição das variáveis de interesse. Vantagens A maior vantagem dos estudos transversais é que permite tirar conclusões sem a existência de um período de seguimento. Estas questões tornam os estudos transversais mais baratos, mais rápidos, mais fáceis em termos logísticos e não sensíveis a problemas como as perdas de seguimento e outros, característicos de outros estudos como os estudos longitudinais. Este tipo de estudo é a única maneira de calcular a prevalência das doenças e dos fatores de risco. São também estudos adequados à análise de redes de causalidade. Desvantagens A maior desvantagem dos estudos transversais é com a impossibilidade de estabelecer relações causais por não provarem a existência de uma sequência temporal entre exposição ao fator estudado e o subsequente desenvolvimento da doença. 18 UNIDADE I │ SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA O fato de nos estudos transversais só se poder medir a prevalência, e não a incidência torna limitada a informação produzida por este tipo de estudos no que respeita à história natural das doenças e ao seu prognóstico. Estudos epidemiológicos observacional coorte Nos estudos de coorte, o investigador forma os grupos de expostos e não expostos a um determinado fator de interesse, ou entre as pessoas que já apresentam cada uma das condições e segue-os durante algum tempo para verificar os efeitos da exposição, por comparação dos dois grupos. O termo coorte é utilizado para designar um grupo de indivíduos que têm em comum um conjunto de características e que são observados durante um determinado período de tempo com o intuito de analisar a sua evolução. Num estudo de coorte é, inicialmente, agrupado um conjunto de indivíduos conhecidos como coorte que não apresentam o resultado esperado outcome. É, assim, possível estudar o modo como a presença de determinada característica influencia o aparecimento de determinada doença e comprar os riscos de desenvolver a doença daqueles que têm tal característica com o risco daqueles que não a têm. Vantagens Os estudos de coorte são a melhor alternativa aos estudos experimentais que são muitas vezes inviáveis em investigação. Uma das principais vantagens destes estudos é ser o melhor método de estudar a incidência e história natural das doenças. Os estudos de coorte são estudos prospectivos que permitem uma medição das variáveis, porque se determinam exposições no presente sem ter que recorrer à memória dos indivíduos, ou outras fontes indiretas, o que poderia ser relevante para determinação. 19 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I Com ele as determinações são feitas antes do resultado esperado, geralmente uma doença, ter acontecido, evitando, assim, o enviesamento inerente à determinação da exposição num indivíduo que conhece já o seu estado de doente. Ainda relacionado com o carácter prospectivo dos estudos de coorte está o fato de estes permitirem apresentar resultados com crescentes tempos de seguimento, aumentando, assim, à medida que o tempo de seguimento se torna mais longo, o número de casos e o poder estatístico do estudo, à custa de um modesto aumento no custo do estudo. Desvantagens Cientificamente falando a maior desvantagem dos estudos observacionais de coorte, é estarem sujeitos a erros sistemáticos que os estudos experimentais, uma vez que não se controla diretamente a exposição ao fator em estudo. Um importante exemplo deste tipo de erros são os fatores de confusão, onde as pessoas que são expostas a um determinado fator de risco, provavelmente, diferem do grupo de não expostos com que são comparados em muitos outros fatores para além daquele que se pretende estudar. Se tais fatores estiverem relacionados com a doença, poderão ser eles e não o fator que se pretende estudar os responsáveis pela possível associação que se pode encontrar entre o fator em causa e a doença. A estes outros fatores que estão associados simultaneamente à doença em estudo e ao fator em causa e que confundem a relação entre este e a doença, dá-se o nome de fatoresde confusão. Outro fator de desvantagem é que este estudo pode tornar mais caro e mais difícil e também a dificuldade no seguimento dos doentes nos estudos de coorte já que se deve prolongar por um período de tempo suficientemente longo como para permitir que o risco inerente à exposição se manifeste A principal limitação para o desenvolvimento de um estudo de coorte, além do seu custo financeiro, é a perda de participantes ao longo do seguimento por conta de recusas para continuar participando do estudo, mudanças de endereços ou emigração. Os custos e as dificuldades de execução podem comprometer o desenvolvimento. 20 UNIDADE I │ SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA Estudos epidemiológicos observacional caso controle Nos estudos de caso-controle, o investigador forma dois grupos, os grupos de doentes e o grupo de não doentes entre as pessoas que já apresentam cada uma das condições para estimar fatores de risco para a doença, comparando as exposições a que os dois grupos estiveram sujeitos. Os estudos caso-controle e os estudos de coorte podem ser utilizados para investigar a etiologia de doenças ou de condições relacionadas à saúde entre idosos, determinantes da longevidade; e para avaliar ações e serviços de saúde. Os estudos de coorte também podem ser utilizados para investigar a história natural das doenças. Nos estudos caso-controle, primeiramente, identificam-se indivíduos com a doença (casos) e, para efeito de comparação, indivíduos sem a doença (controles). Os estudos caso-controle e os estudos de coorte podem ser utilizados para investigar a etiologia de doenças ou de condições relacionadas à saúde entre idosos, determinantes da longevidade; e para avaliar ações e serviços de saúde. Os estudos de coorte também podem ser utilizados para investigar a história natural das doenças. Vantagens Rápidos e baratos quando comparados com outros desenhos; Particularmente bons no estudo de doenças com períodos de latência muito longos; Ótimos para estudar doenças raras; Pode estudar múltiplos fatores de risco de uma doença; Promovem poucas perdas. Desvantagens Ineficiente para estudar exposições raras; Não mede diretamente as incidências, a não ser que seja um estudo de base populacional; Em algumas situações não se pode medir o tempo entre exposição e doença; Susceptível a erros, principalmente de seleção ou de aferição (recordatórios). 21 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I Estudos epidemiológicos observacional ecológico Utilizam como unidade de observação grupos de indivíduos e não indivíduos isolados. Estudam a ocorrência de doença num grupo de indivíduos em função das características desse grupo. Servem essencialmente para levantar hipóteses para estudos analíticos. Nos Estudos Ecológicos as medidas usadas representam características de grupos populacionais, onde é possível analisar a frequência de uma enfermidade ou problema de saúde com uma visão coletiva, bem limitada e definida. Podemos analisar comunidades, municípios, cidades, regiões ou países. Mas sempre tendo como principio populações onde uma determinada exposição é mais frequente terão maior incidência de doenças causadas por esta exposição. Vantagens » Rapidez e baixo custo. » Úteis para levantar hipóteses e avaliar programas de saúde. » Constituem, às vezes, a única alternativa razoável quando há grande homogeneidade populacional em relação à exposição (por exemplo: poluição do ar e doenças respiratórias). Desvantagens » Limitado às doenças que têm registro. » Falta controle na qualidade dos dados. A limitação que ocorre neste estudo é o que chamamos por falácia ecológica, ou seja, pode surgir uma associação entre uma exposição e evento ao nível da população que não permite afirmar que a exposição está mais presente naqueles que adquirem a doença. 22 UNIDADE I │ SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA Estes estudos, no entanto, ajudam a identificar fatores que merecem uma investigação mais detalhada através de estudo com maior capacidade analítica. Por exemplo, a demonstração de uma relação entre venda de cigarros per capita e mortalidade de doença cardiovascular (DCV) em estudos ecológicos motivou o planejamento de estudos Caso Controle e Coorte que vierem a demonstrar de forma bem mais convincente que o hábito de fumar é um dos fatores determinantes de DCV, particularmente doença coronariana e acidente vascular cerebral. Medidas de frequências As medidas de frequências nos estudos epidemiológicos compreendem medidas estatísticas (media, mediana, modo), as frequências absolutas e relativas, os coeficientes e as taxas. São as medidas básicas da ocorrência das doenças em uma determinada população e período. Para o cálculo dos coeficientes ou taxas, considera-se que o número de casos está relacionado ao tamanho da população que lhes deu origem. O numerador refere-se ao número de casos detectados que se quer estudar (por exemplo: mortes, doenças, fatores de risco etc.), e o denominador refere-se a toda população capaz de sofrer aquele evento – é a chamada população em risco. O denominador, portanto, reflete o número de casos acrescido do número de pessoas que poderiam tornar-se casos naquele período de tempo. Às vezes, dependendo do evento estudado, é preciso excluir algumas pessoas do denominador. As taxas interessam particularmente a epidemiologia, porque são utilizadas para medir o risco de saúde por meio de um coeficiente. É simplesmente a expressão matemática da relação entre o numerador e o denominador comum em um determinado tempo. São exemplos de taxas: Taxa de mortalidade, taxa de mortalidade por causa especifica e taxa de mortalidade infantil. Algumas taxas particulares apresentam um maior valor em epidemiologia: » Taxa de Incidência ou Frequência: a incidência mede o número de casos novos de uma doença, episódios ou eventos na população dentro de um período definido de tempo e é um dos melhores indicadores para avaliar se uma condição está diminuindo, aumentando ou permanecendo estável, pois indica o número de pessoas da população que passou de um estado de não doente para doente. » Incidência cumulativa = número de casos no decorrer do período /população exposta no início do período. » Taxa de Prevalência: a prevalência (P) mede o número total de casos, episódios ou eventos existentes em um determinado ponto no tempo. O coeficiente da proporção de casos ou eventos em uma população delimitada em um tempo determinado. 23 SAÚDE PÚBLICA E EPIDEMIOLOGIA │ UNIDADE I » Coeficiente de prevalência = número de casos existentes / número de pessoas na população. » Taxa de Letalidade: Número de pessoas falecidas durante um período. » Taxa de Mortalidade: O número de óbitos. Medidas de efeito e associação » Risco Relativo (RR) expressão uma comparação matemática entre o risco de enfermar-se em um grupo exposto a um fator qualquer e o risco em um grupo não exposto ao mesmo fator. » RR = Índice de incidência entre o grupo exposto / Índice de incidência entre os nãos expostos = (1,0 ausências de associação). É de grande importância porque expressa o risco de um grupo com um fator, por exemplo, homens, hipertensos, fumantes etc., em comparação a um grupo de referencia sem este fator, mulheres, não fumadoras, pressão estável etc. Não indica a frequência, mas indica à medida que esta aumentando esse risco. Determina que um paciente que talvez se encontre em um grupo de alto risco e assim prevenir. É muito útil para descobrir e estudar a etiologia de uma enfermidade. » Razão de Prevalência (RP): é um sucessor do RR, estimado a partir de dados de estudos de tipo coorte transversal. » Razão de Produtos Cruzados ou Odds Ratio (OR): Em inglês Odds significa chance e Ratio razão. Em estudos que não podemos utilizar RR utilizaremos OR, ou quando a doença ou o evento é pouco frequente. » OR = probabilidade de não ocorrer /probabilidade de um acontecimento ocorrer ou OR = odds de desenvolver a doença nosnão expostos / odds de desenvolver a doença nos expostos. » Risco Atribuído (RA): mede a magnitude de um risco absoluto (frequência) que se pode atribuir a um fator particular, como o tabagismo. » RA = índice de frequência entre os expostos – índice de frequência entre os não expostos. 24 UNIDADE IIOS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA CAPÍTULO 1 Farmacoepidemiologia Os medicamentos essenciais são de fundamental importância no âmbito do Sistema Único de Saúde. São aqueles que têm como objetivo satisfazer as necessidades prioritárias de cuidados da saúde da população. Se a população tem à disposição no SUS os medicamentos mais seguros e eficazes, do ponto de vista das evidências científicas, isso diminui muito o risco de problemas relacionados com a farmacoterapia. Esses medicamentos são selecionados por critérios embasados em evidências científicas, entre elas a melhoria da qualidade de atenção à saúde, mais eficácia na gestão dos medicamentos e prescrições médicas com mais qualidade. Conheça a RELAÇÃO NACIONAL DE MEDICAMENTOS ESSENCIAIS – RENAME <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/rename_pt_533_2012.pdf> O Ministério da Saúde publicou a Portaria MS/GM no 533, de 28 de março de 2012, que estabelece o elenco de medicamentos e insumos da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – RENAME. A RENAME/2012 foi elaborada a partir das definições do Decreto no 7.508, de 28 de junho de 2008 e estruturada de acordo com a Resolução no 1/CIT, de 17 de janeiro de 2012. Conceito de farmacoepidemiologia Quando um novo fármaco é lançado no mercado, minimamente devemos saber que durante seu desenvolvimento e sua fabricação se observou as seguintes características: a. características físico-químicas; b. perfil de atividades farmacológicas sobre modelos experimentais in vivo e in vitro; 25 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II c. perfil de toxicidade experimental aguda, subaguda e crônica; d. características farmacocinéticas; e. atividade farmacológica e seus efeitos farmacológicos no homem; f. dados de toxicidade aguda (e às vezes crônica) no homem e dados comparativos com alternativas terapêuticas obtidas a partir de ensaios clínicos controlados. A farmacologia é uma disciplina que estuda os efeitos dos fármacos, suas aplicações, benefícios, nova utilização em seres humanos por meio da Farmacologia Clínica, sendo em grupos ou em pacientes individuais como vimos anteriormente. Podemos dizer que se trata de uma área de Ciências de Saúde, que tem como objetivo principal atingir o uso racional de medicamentos. A farmacoepidemiologia é considerada como o resultado do casamento entre a farmacologia e a epidemiologia. É definida como o estudo do uso e dos efeitos dos medicamentos no conjunto das pessoas, sendo sua principal preocupação os efeitos adversos identificados após a comercialização dos produtos. (STROM, 1994) Outra definição interessante a Farmacoepidemiologia é de Porta e Hartzema, 1989 “É uma nova disciplina no campo da pesquisa com fármacos; é definida como a aplicação do conhecimento epidemiológico, dos métodos e da lógica dos estudos dos efeitos e dos usos dos fármacos em populações humanas”. E uma terceira definição “É a vigilância da vida do medicamento na comunidade, que é descrita mediante técnicas adequadas, padronizadas e comparáveis, aparecendo na literatura farmacológica como o conjunto de fatos relevantes sobre a relação do fármaco com a medicina, produzidos no cenário científico e com imagem pública” (LAPORTE e TOGNONI, 1989). O medicamento tem se convertido em elemento importante na recuperação e garantia da qualidade de vida da sociedade. Sabemos que os progressos da terapêutica medicamentosa têm sido notáveis, desde muito tempo. Com isso, os medicamentos se converteram em elementos poderosos para diminuir o sofrimento humano, produzir a cura, prolongar a vida e retardar o surgimento de complicações associadas a doenças, facilitando assim, o convívio entre o indivíduo e sua enfermidade. Estudos epidemiológicos de medicamentos Estudos de Utilização de Medicamentos-“EUM” Abordar epidemiologicamente o uso de um medicamento impõe reconhecer que sua utilização não é somente na busca de um resultado farmacoterapêutico, se não como a sociedade o utiliza, e o que esse uso gera nesta sociedade. 26 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA A análise dessa prática deve buscar demonstrar como os padrões de condutas individuais e coletivas se comportam e como são construídas perante esse grande mercado farmacêutico. Se o objeto de epidemiologia é entendido como estudar e conhecer as “doenças em populações”, podemos entender o consumo dos medicamentos pela população do lugar a disciplina de farmacoepidemiologia. A OMS define a utilização de medicamentos como “a comercialização, distribuição, prescrição e uso de medicamentos em uma sociedade, com ênfase especial sobre as consequências médicas sociais e econômicas resultantes”. (OMS, 1977) Os estudos relacionados a medicamentos e seu uso são conhecidos como EUM “Estudos de Utilização de Medicamentos”, e são aqueles que independente do método, objetivo buscam esclarecer tais aspectos. Esses estudos nos oferecem uma visão geral, ou de particularidades da questão do uso de medicamentos em uma sociedade. Seria como entender esse consumo e seus impactos na sociedade. Objetivos da EUM: » Descrição do uso de medicamentos. » Valoração qualitativa do uso de medicamentos. » Intervenção para solucionar os problemas identificados. » Identificação e analises de problemas de uso de medicamentos. » Análises e desenvolvimento de ações para solucionar os problemas encontrados. » Análises dos efeitos das ações encontradas. Aspectos médicos: » Benefícios: eficácia na prevenção, alívio e cura das doenças e de seus sintomas e complicações. » Risco: efeitos adversos a curto e longo prazo; fatores especiais de risco com provável determinação genética, doença e ambiente, nutrição, idade, sexo, gravidez, amamentação, etc. » Relação benefício/risco: até onde a prescrição e uso inapropriados reduzem os benefícios e incrementam os riscos. Aspectos econômicos: » Preços e custos dos medicamentos; produção local versus importação; custos de novos fármacos em comparação com os já existentes e com medicamentos genéricos; custos do tratamento farmacológico. » Relação custo/eficácia/segurança em comparação com os aspectos assinalados. 27 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II » Destinação atual e futura dos recursos nacionais (capital, pessoal, instalações) no orçamento dos setores de saúde e de medicamentos. Aspectos sociais: » Atitudes em relação aos fármacos e à saúde, tendências atuais na “cultura do medicamento” versus a persistência ou ressurgimento da medicina tradicional. » Abuso de fármacos e a dependência química (causas e consequências). » Uso inapropriado dos medicamentos (prescrição incorreta ou uso de automedicação, de medicamentos recomendados por família, amigos, vizinhos). » Discriminação e injustiça social (a falta de disponibilidade de medicamentos para os que dele necessitam). Problemas detectados na EUM: » Oferta inadequada – excessiva ou insuficiente. » Uso de medicamentos ineficazes ou ineficientes. » Fraude ou falsificação de medicamentos. » Abuso ou excesso de utilização absoluta de medicamentos. » Abuso ou excesso de utilização relativa de medicamentos. » Mau uso na prescrição de medicamentos. » Mau uso de medicamentos. Alguns exemplos de problemas detectados pela EUM: » Nifedipina em lugar da clortalidona ou atenolol. » Betabloqueadores na prevenção de IAM (Infarto Agudo do Miocárdio). » Elevadas Doses de Benzodiazepínicos em pessoas idosas. » Alto índice de pessoas com Hipertensão apesar de todas as opções de tratamentos. Você se animaria a entender o porquê a EUM relatou esses exemplos como problemas? Muitos estudiosos e pesquisadoresbrasileiros vêm dedicando-se cada vez mais a estudos de utilização de medicamentos por meio da EUM, incorporando aos mesmos aspectos relevantes no contexto da saúde pública. 28 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Por isso entender que saúde pública nos dias de hoje enxerga muito mais do que doenças infecto contagiosas é muito importante. Os estudos nascem de preocupações sanitárias que procuram gerar informações que possam ser usadas para melhorias na realidade observada. Na área farmacêutica, é dada mais ênfase aos estudos farmacoepidemiológicos que utilizam métodos quantitativos, porém reconhecendo que a utilização de medicamentos é um fenômeno complexo, resultado de abordagem qualitativa que pode colaborar na compreensão do fenômeno “utilização de medicamentos”, possibilitando a geração de práticas profissionais, como prescrição e atenção farmacêutica, culturalmente mais apropriada. A farmacoepidemiologia é a ciência que estuda o uso e os efeitos benéficos e adversos dos medicamentos em grandes populações a partir do método epidemiológico. Detecta riscos associados ao uso generalizado de medicamentos e sua efetividade, emprega conceitos da farmacologia clínica e da epidemiologia e seu desenvolvimento está centrado no estudo da segurança dos fármacos na etapa de pós-comercialização e no âmbito dos estudos de utilização de medicamentos (EUM). Estudos Farmacoepidemiologicos Vamos relacionar os estudos epidemiológicos com a farmacologia. Estudos descritivos Neste tipo de estudo, não tem como objetivo avaliar associações entre causas e efeitos, mas muitas vezes esse tipo de estudo tem por base dados estatísticos de mortalidade. Portanto pode-se em este tipo de estudo, analisar dados como mortes por sexo, mortes por idade, por grupos étnicos, por períodos (ano ou meses) condições climáticas ou até por localização geográfica. Em farmacoepidemiologia, este tipo de estudo tem sido muito utilizado para conhecer aspectos importantes da utilização de medicamentos por determinados grupos de população ou regiões. Com isso se pode estudar a interação do uso de medicamentos com a assistência sanitária que corresponde a esta localização, e como é a incidência do uso de determinados medicamentos, como foram prescritos, ou como a cultura da automedicação. Por meio desta análise, podemos estudar os medicamentos como indicadores da prevalência de problemas médicos e da maneira como os profissionais de saúde interagem com a comunidade utilizadora deste serviço na seleção de soluções que envolvam a intervenção farmacológica. Algumas estratégicas são estudadas: 1. Analise da oferta de medicamentos. 2. Estudos quantitativos de consumo de medicamentos. 29 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II 3. Estudos sobre a qualidade de consumo de medicamentos. 4. Estudos sobre as prescrições médicas e hábitos de prescrições. 5. Estudos de cumprimento na utilização da prescrição. 6. Vigilância orientada a problemas na utilização de medicamentos. Para o desenvolvimento destes estudos existe uma metodologia comum, com base em uma classificação de medicamentos e no reconhecimento da existência de diferentes técnicas para a quantificação e qualificação de consumo. Drug Utilization Research Group (DRUG) é um grupo da OMS que recomenda a classificação para estes tipos de estudos. Esse método recomendado chama-se Classificação Anatomico-Terapeutico- Quimico, ATC. Análise da oferta de medicamentos A análise da oferta de medicamentos tem como fonte de dados de registros nacionais, os catálogos oficias de origem nacional e os catálogos oferecidos pela indústria farmacêutica. Esses catálogos fornecem ao estudo informações sobre o consumo, a oferta e a qualidade de ambos, ou seja, a qualidade do consumo e a qualidade da oferta. Um exemplo deste estudo foi baseado no DEF, Dicionário de Especialidades Farmacêuticas. Um exemplar do ano 1989/1990, foi analisado. Um total de 95 medicamentos foi analisado, dos quais 27,4% continham uma única substancia ativa e 69,5% eram constituídos por dois ou mais princípios ativos. Os medicamentos utilizados para baixar o nível de estresse e ansiedade da vida (calmantes, tranquilizantes, antidepressivos, ansiolíticos), contribuíram com quase 70% das associações encontradas e representavam quase 50% do total de medicamentos indicados para tal fim. Os autores desses estudos alertaram sobre a deficiência e algumas distorções contidas no DEF quando comparadas com as leituras cientificas de cada droga, o que ficou sugeriu a omissão das indústrias farmacêuticas para não prejudicar a oferta e o consumo. <http://pesquisa.biblioteca.iscte.pt/record?id=other:psyh:1993-85592- 001&original=false> Se você tem um DEF já tentou fazer algum tipo de análise deste tipo? Se sim, porque não compartilha suas ideias com a gente? Caso contrário, quem se anima a um estudo descritivo deste tipo? 30 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Estudos quantitativos de consumo Os estudos quantitativos de consumo geram informações sobre tendências comparadas de consumos de diversos produtos, sobre as motivações dos médicos e permitem as análises entre regiões e períodos. Para esse estudo utilizam-se fontes sobre as vendas privadas e para instituições como hospitais, sanatórios e instituições públicas. A quantificação do consumo pode enfocar diferentes aspectos, como preços, unidades vendidas e unidades consumidas. A quantificação econômica do consumo, expressa, por exemplo, como se comporta a verba destinada à área de saúde de cada região, ou de um determinado sistema de saúde de um determinado país. Pode se analisar também o consumo de determinado princípio ativo, ou grupo terapêutico, unidades vendidas, comprar lugares de consumo, tipo de consumidor e períodos de consumo. Para enfrentar tais dificuldades em relação ao consumo abusivo e indiscriminado, foi determinada a dose diária definida (DDD), que representa a dose media diária de todos os medicamentos ou fármacos na sua dose ideal, indicada por literatura cientifica de seu laboratório fabricante. Assim a DDD é uma unidade técnica que permite as comparações neste tipo de estudo. Não interfere neste estudo, os preços de cada medicamento, que pode variar, por exemplo, em cada país. Estudos sobre a qualidade de consumo Os estudos sobre a qualidade de consumo enfocam amostras de medicamentos mais vendidos, mais receitados, mais utilizados em hospitais e serviços de saúde. Informam a qualidade de seu uso e a evolução do usuário. Esse tipo estudo pode ser utilizado também para identificar a necessidade de intervenções específicas como o esclarecimento à população quanto a seu uso adequado, a formação e educação continuada de profissionais de saúde para a prescrição racional, identificação de populações em risco de consumo crônico de medicamentos inadequados. Avaliar a qualidade do uso de medicamentos por meio da análise do padrão do uso, do grau de concordância com listas de medicamentos essenciais, do valor terapêutico e das interações medicamentosas entre o uso. Estudos de hábitos de prescrição médica Os estudos de hábitos de prescrição médica utilizam as amostras de prescrições nas comunidades, nos serviços de saúde e nos hospitais. Em geral, fornecem a prevalência da prescrição médica em 31 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II determinado grupo ou local. Podem também gerar informações sobre a relação entre a indicação e a prescrição. Este tipo de estudo pode servir para que os planejadores, administradores, investigadores e docentes façam comparações básicas entre diferentes estabelecimentos e em diferentes momentos: a. descrever práticas atuais de tratamento; b. comparar condutas prescritivas entre estabelecimentos de características similares; c. monitorar periodicamente e supervisionar as condutas na prescrição e uso de fármacos; d. avaliar o efeito de uma intervenção que tenha sido desenhadapara mudar práticas de prescrição. Estudos de cumprimento da prescrição Os estudos de cumprimento da prescrição apresentam técnicas indiretas ou diretas para a obtenção desses dados, mas nunca foi fácil avaliar o cumprimento da prescrição médica em qualquer tipo de estudo. As principais informações obtidas nestes estudos são: a prescrição comparada com o uso real; o grau de informação do paciente sobre sua doença e sobre os efeitos da medicação, indicadores da qualidade da relação médico/paciente. As técnicas indiretas incluem: curso clínico, detecção de marcadores fisiológicos, impressão do médico, entrevistas estruturadas, controle de repetição de prescrições, contagem de comprimidos, monitorização da medicação. E as técnicas indiretas, temos a determinação do fármaco, um metabólito ou um marcador em líquidos orgânicos, onde avaliaram os níveis plasmáticos do fármaco e dos seus metabolitos e analisam a estabilidade dos coeficientes do nível/dose e os níveis sanguíneos constantes, partindo do princípio que os doentes que cumprem a prescrição apresentariam coeficientes de nível/dose e níveis totais plasmáticos constantes. Métodos simples como a contagem dos comprimidos ou da prescrição raramente são exatos e a monitorização plasmática ou a contagem eletrônica raramente são simples apesar de serem mais exatos. Tanto os próprios doentes como os médicos têm tendência para subestimar o cumprimento da prescrição e, infelizmente, não existe nenhum método 100% confiável para quantificar o comprimento da prescrição. Fontes de informações como as histórias clínicas, os conhecidos como pacientes-problema ou tratamentos-problema e a partir dessa fonte pode obter uma descrição detalhada de critérios de utilização de fármacos e de técnicas e protocolos terapêuticos. Hoje em dia, existem aparelhos que registram o tempo preciso de abertura de um blister de comprimidos, para monitorar se o doente cumpre a prescrição farmacológica. No entanto, esse aparelho de alta tecnologia, não é infalível, dado que não registram o número de comprimidos retirados de cada vez e não podem inevitavelmente provar que os comprimidos foram realmente. 32 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Outros estudos sobre cumprimento da prescrição médica muitos fatores diferentes influenciam o cumprimento da medicação, principalmente que as pessoas que vivem sozinhas ou que tomam dois ou mais medicamentos evidenciam a falta de cumprimento da prescrição. Inclusive podemos ressaltar também a falta de cumprimento nos horários recomendados de toma dos comprimidos, por exemplo, de 8 em 8 horas ou de 12 em 12 horas. 1. Estudos de consumo - Descrevem quais medicamentos são empregados e em que quantidade. 2. Estudos de prescrição-indicação - Descrevem as indicações de utilização de um determinado fármaco ou grupo de fármacos. 3. Estudos indicação-prescrição - Descrevem os fármacos utilizados em uma determinada indicação ou grupo de indicações. 4. Estudos sobre o esquema terapêutico- Descrevem características da utilização prática dos medicamentos (doses, acompanhamento dos níveis plasmáticos, duração do tratamento, observância). 5. Estudos dos fatores que condicionam os hábitos de prescrição e dispensação-Descrevem características dos prescritores, dos dispensadores, dos pacientes e de outros elementos atinentes aos medicamentos e sua relação com os hábitos de prescrição e dispensação. 6. Estudos das consequências práticas da utilização dos medicamentos- Descrevem benefícios, efeitos indesejáveis e custos reais do tratamento farmacológico, podem expor sua ligação com as características da utilização dos medicamentos. 7. Estudos de intervenção- Descrevem as características da utilização dos medicamentos vinculados a um programa de intervenção concreta sobre seu uso. Arnaud et al. 1991 (in Barros). Estudos ecológicos Os estudos ecológicos podem ser chamados e também denominados estudos de correlação e são estudos de execução relativamente fácil e comparam indicadores globais de áreas geográficas distintas ou de uma mesma área geográfica, em diferentes períodos. A unidade de análise são populações ou grupos de pessoas, fato que não permite fazer a associação individual entre a exposição e a doença. 33 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II A associação observada entre variáveis de um grupo não representa necessariamente a associação existente ao nível individual, mas estudos ecológicos, entretanto, têm frequentemente proporcionado um proveitoso início para pesquisas epidemiológicas mais detalhadas. Vejamos um exemplo da utilidade deste tipo de estudo em farmacoepidemiologia, relatado por Stolley. Na Inglaterra durante um século, antes de 1960, as taxas de mortalidade por asma permaneceram muito estáveis e baixas, em torno de 0,5 mortes por 100.000 pessoas. A análise rotineira de estatísticas vitais mostrou a ocorrência de uma epidemia. Em 1961, estas taxas de mortalidade começaram a aumentar rapidamente, especialmente nas faixas etárias entre 5 e 34 anos. Depois de 1967, essas taxas começaram a declinar, aproximando-se dos níveis pré-epidêmicos nos anos 70. Fonte: (Stolley PD. The use of case-control studies in pharmacoepidemiology. In: Strom BL, Velo G. Drug epidemiology and post-marketing surveillance. New York, Plenum Press: 49-52, 1992.) Várias investigações epidemiológicas analisam o aumento de uma taxa de mortalidade em um determinado período ou em uma determinada região. Embora produzam informações úteis para a avaliação epidemiológica de medicamentos, os estudos de correlação têm sérias limitações, particularmente se a proporção da população que está usando a droga é pequena. Em geral eles somente podem ser utilizados como uma evidência auxiliar para estudos baseados em métodos mais rigorosos. Estudos transversais Este tipo de estudo é muito comum na investigação epidemiológica, também são conhecidos como estudos de prevalência. Os estudos transversais medem, em uma população previamente delimitada, a exposição a um ou mais fatores e o efeito da doença ou condição. Operacionalmente são estudos fáceis de realizar e de custo relativamente baixo, e suas informações obtidas são de muita utilidade na avaliação das necessidades de saúde das populações e no planejamento das ações para enfrentá-las. Dois autores, Rouquayrol e Almeida Filho, identificaram cinco subtipos de estudos transversais: Estudos de grupos de tratamento Estes estudos utilizam registros institucionais e a partir da procedência do paciente, identificam a base populacional para o cálculo das prevalências. Suas estimativas são influenciadas pela quantidade, qualidade e distribuição dos serviços, sendo difícil operacionalizá-lo em locais em que a organização do sistema de saúde é incipiente ou precária. Ademais, este subtipo de estudo somente é eficaz quando as doenças são graves e o tratamento se impõe. 34 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Estudos em populações especiais Os estudos deste tipo desenvolveram um interessante estudo transversal em que se investiga padrões de consumo de medicamentos em populações especiais. Inquéritos na atenção primária Os estudos deste tipo são viáveis onde existem redes regionalizadas de atenção primária organizada. A fonte de dados pode ser tanto os registros institucionais quanto um instrumento de detecção de casos aplicado a uma amostra ou à totalidade dos usuários do serviço em um período definido de tempo. Inquéritos domiciliares de morbidade Neste estudo é necessária a definição, por meio de amostragem ou recenseamento, de uma base populacional para o estudo. Todos os indivíduos incluídos na investigação são então examinados. Para minimizar a baixa confiabilidade do exame e da história clínica, deve se utilizar entrevistas estruturadas e procedimentos diagnósticos padronizados. Estudo transversal multifásico Este estudo constitui um aperfeiçoamento do subtipo anterior, melhorando a relação custo-efetividade. Inicialmente aplicam-se instrumentos simplificados a toda população ou amostra, triando para um exame mais completo aqueles participantes suspeitos de serem portadores da condição enfocada, uma vez que atingiram pontos de corte em instrumentos de detecção. Fonte: ROUQUAYROL, M. Z.; FILHO, Almeida. N. Desenhos de pesquisa em epidemiologia. In: Epidemiologia e Saúde. 5 ed. Rio de Janeiro, Medsi: 149-170, 1999. Estudos transversais realizados em populações usuárias de serviços específicos podem fornecer informações importantes para a organização destes serviços. Discutir resultados, alertar o alto consumo de medicamentos sem uma necessidade comprovada, os riscos para a saúde que estes podem causar, a alta taxa de disponibilidade de medicamentos nos domicílios e risco de intoxicações que podem produzir quando mal utilizados, o elevado consumo de analgésicos, assim como os medicamentos para o aparelho respiratório e digestório, as distorções terapêuticas e às vezes a má distribuição social da incidência desses problemas. Ainda pode-se dizer da falta de informação a respeito do uso de medicamentos. Todas essas perguntas quando respondidas geram dados estatísticos em tipo de estudo. Esses dados poderão ser utilizados para a organização do nosso sistema de saúde e da assistência farmacêutica, e quando exemplificados permitem conhecer melhor os determinantes e o padrão de consumo de medicamentos na população. Desse modo, podem contribuir significativamente tanto para o planejamento e organização das ações de saúde quanto para reorientar as práticas assistenciais, na perspectiva de uma utilização mais racional dos medicamentos em nosso país. 35 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II Estudos caso-controle O desenho deste tipo de estudo possibilita a comparação entre dois grupos de pessoas. Um dos grupos é composto por pessoas com uma determinada doença ou determinado evento e essas pessoas são denominadas casos. O outro grupo é composto por pessoas com características semelhantes aos casos, exceto pelo fato de que não sofrem a doença ou deste evento e essas pessoas são denominadas controles. A comparação entre os dois grupos tem por objetivo identificar diferenças de exposição, no passado, a uma ou mais variáveis que possam ter contribuído para a ocorrência da doença/evento. Quando se comprova a associação estatisticamente significante entre uma variável e a doença/ evento, esta passa a ser denominada fator de risco para aquela doença/evento. As principais vantagens deste desenho são: custo relativamente barato, facilidade na execução e grande utilidade na investigação de causas de doenças/eventos, especialmente quando se trata de casos raros. Estudos caso-controle podem ser particularmente úteis quando o pesquisador procura estudar várias possíveis causas de uma única doença, uma vez que ele pode estudar qualquer número de exposições como potenciais fatores de risco usando os mesmos casos e controles. Os principais problemas relacionados a este método incluem sua incapacidade de estimar o risco, sua vulnerabilidade e sua complexidade analítica. Para se obter a máxima similaridade entre casos e controles deve-se considerar na escolha dos controles: » Área geográfica de origem. » Fatores socioeconômicos. » Fatores culturais da comunidade. » A instituição ou serviço de saúde onde tenham sido atendidos previamente. Em geral, a coleta de dados em estudos do tipo caso-controle é conduzida por meio de entrevistas pessoais ou por consulta a registros médicos. Devem-se padronizar rigorosamente os instrumentos, fontes de dados e critérios de atribuição de exposição entre os grupos do estudo, com o objetivo de obter um dado de exposição válido e confiável, tanto para os casos quanto para os controles. Em farmacoepidemiologia, este tipo de desenho tem sido muito utilizado em estudos de reações adversas a medicamentos (RAM), podendo contribuir também, mas com pequena intensidade, na avaliação dos benefícios de um medicamento. Um dos primeiros exemplos de comparação entre casos e controles, investigando RAM foi a descoberta da relação entre o uso de talidomida por gestantes e a ocorrência de malformações congênitas em bebes alemães nascidos entre 1959 e 1960, já dito anteriormente. 36 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Fonte: <http://eagaspar.com.br/mcguido/conceitos.htm> Estudos de coorte Neste tipo de estudo se seleciona um grupo de pessoas de uma população que, no início do estudo, não sejam portadoras da doença ou de um evento que se quer estudar e avalia-se se a exposição a uma determinada variável contribui para o desenvolvimento dessa doença, por exemplo. Os participantes são classificados em dois subgrupos, segundo a presença ou ausência de exposição a um potencial fator de risco para a doença/evento. As variáveis de interesse são especificadas e medidas, e o estudo de coorte é acompanhado, para ver se o desenvolvimento de novos casos da doença difere entre os grupos, conforme a presença ou não da exposição. O grupo deve ser o mais homogêneo possível quanto às demais características, como por exemplo, a faixa etária, local de residência ou de trabalho, atividade ocupacional etc., que seja o mais padronizado possível. O desenho é simples e não apresenta dificuldades para sua análise, e os estudos são os que produzem a melhor informação sobre a etiologia das doenças e a medida mais direta do risco para desenvolvê-la. Além disso, como recrutam pessoas saudáveis no seu início, os estudos de coorte permitem investigar se os potenciais fatores de risco enfocados estão relacionados a uma ampla variedade de desfechos (doenças/eventos) e não apenas a um deles, como ocorre nos estudos caso-controle. Por outro lado, uma vez que a doença pode ocorrer somente após longos períodos de exposição, este método pode requerer um período prolongado de acompanhamento, o que resulta em um custo relativamente alto, e talvez até uma maior chance de perdas durante o acompanhamento por diversos motivos. 37 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II Outro problema relacionado aos estudos de coorte é sua inadequação quando a doença/evento é rara nos dois grupos (expostos e não expostos), situação em que pode ser difícil garantir um número de participantes suficientemente grandes para obter resultados válidos. Por exemplo, é necessário monitorar uma coorte com mais de 8.000 pessoas para garantir um poder estatístico de 80% na detecção de um evento (RAM) que ocorre uma vez a cada 5.000 pacientes expostos a um determinado medicamento. Os participantes devem constituir um grupo o mais homogêneo possível quanto as características de faixa etária, local de residência ou de trabalho, atividade ocupacional etc. “Tal grupo homogêneo, assim definido, denomina-se coorte. O termo “coorte” designava originalmente as unidades de combate das legiões romanas, identificadas nos campos de batalha pelo uniforme padronizado.”Fonte: ROUQUAYROL, M. Z.; FILHO, Almeida. N. Desenhos de pesquisa em epidemiologia. In: Epidemiologia e Saúde. 5 ed. Rio de Janeiro, Medsi: 149-170, 1999. Essa análise requer medidas de associação que serão comparadas: Risco Relativo (Razão de Incidências) e o Risco Atribuível (Diferença de Incidências), e os dados dos estudos serão comparados e também suas proporções entre indivíduos que desenvolvem a doença/evento no período de estudo, entre expostos e não expostos, permitindo o cálculo de medidas de incidência e de estimativas de risco. “A análise comparativa produz medidas de associação que expressam, respectivamente, o Risco Relativo (Razão de Incidências) e o Risco Atribuível (Diferença de Incidências). Como consequência do fato de quais fatores de exposição e doença são considerados sequencialmente durante o período de seguimento do estudo, seus resultados, em geral, permitem o estabelecimento da sequência temporal da associação”. Fonte: ROUQUAYROL, M. Z.; FILHO,Almeida. N. Desenhos de pesquisa em epidemiologia. In: Epidemiologia e Saúde. 5 ed. Rio de Janeiro, Medsi: 149-170, 1999. Um estudo farmacoepidemiológico de coorte pode ser prospectivo quando é desenvolvido simultaneamente com os eventos clínicos e observação. Os resultados nos pacientes são desconhecidos no início do estudo; retrospectivo quando se estuda exposições e eventos que ocorreram antes do início do estudo, mas é importante que os pacientes sejam recrutados para o estudo com base na presença ou ausência de determinada exposição, e os dois grupos devem ter uma doença ou condição clínica, assim como outras características, que proporcionem a cada grupo uma probabilidade igual de exposição ao medicamento. Uma boa leitura, <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 311X2004000100017> É um exemplo de estudo de coorte ambispectivo é um estudo multicêntrico de vigilância pós-comercialização. 38 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Fonte: <http://200.145.142.234/Metodologia/f-aula_6/01-estudos_de_coorte.htm> Os estudos de coorte podem ser utilizados em farmacoepidemiologia para avaliar: 1. o efeito de medicamentos a longo prazo; 2. efeitos cuja frequência seja muito baixa em uma população; 3. a efetividade de medicamentos na prática cotidiana, em situações reais; 4. os modificadores da eficácia do medicamento, como por exemplo, medicações simultâneas, estilo de vida ou severidade da doença. 5. a eficácia de um medicamento para uma indicação para a qual a droga não foi originalmente aprovada; Ensaio clínico randomizado É o desenho de estudo experimental utilizado para analisar uma nova forma terapêutica ou preventiva. A população participante do estudo é distribuída aleatoriamente em dois grupos, denominados grupo de tratamento e grupo controle. Os participantes do grupo de tratamento são expostos a uma determinada intervenção e os do grupo controle não sofrem essa exposição. A intervenção estudada pode ser uma nova droga ou conduta médica. Os estudos de ensaios clínicos randomizados constituem uma ferramenta essencial na construção de evidências científicas para a prática clínica e para a saúde pública. São diferentes dos estudos observacionais porque nos ensaios clínicos é feita uma intervenção, em geral são estudados dois grupos: controle e o tratado. Avaliam-se prospectivamente os resultados comparando dos dois grupos. A randomização garante, se o tamanho da amostra é suficientemente grande, que os determinantes conhecidos e desconhecidos do resultado estejam igualmente distribuídos entre os grupos de tratamento e de controle. 39 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II Outro procedimento, o duplo-cego, tornou-se padrão nos ensaios clínicos de medicamentos: o placebo recebido pelo grupo controle deve ser idêntico no tamanho, na cor, consistência e sabor ao do medicamento recebido pelo grupo de tratamento. O objetivo desse procedimento é assegurar que nem os pacientes nem os investigadores saibam quem está recebendo tratamento ativo ou placebo, diminuindo a possibilidade de introdução de vieses no estudo. Além disto, uma precisa definição das medidas de resultado, a padronização de técnicas de mensuração, seu teste e calibração visando garantir a reprodutibilidade da mensuração são estratégias para minimizar o erro aleatório neste tipo de estudo. Esses tipos de estudos enfrentam problemas que nos outros estudos não foram falados, são problemas éticos e logísticos, além de serem caros. Hoje em dia existem comissões de éticas que regulamentam este tipo de estudo. Em farmacoepidemiologia, são frequentemente utilizados pela indústria farmacêutica para demonstrar a eficácia de um determinado medicamento e convencer as agências reguladoras de que o produto pode ser comercializado. População alvo A população de interesse em um estudo é chamada de população alvo. E essa população alvo pode ser: usuários de medicamentos, população alvo do pesquisador, população elegível, população de estudo, população da pesquisa ou população distribuída no atributo. A definição deve ser clara e a escolha da população deve ser eficiente. A população de usuários de medicamentos compreende aos usuários que são portadores de uma determinada doença, dentro de uma região geográfica limitada, e com características que devem ser conhecidas, já que essas características são fatores importantes que influenciam ou não nos resultados. Essa população reflete a cultura sanitária e a qualidade do sistema de saúde local, por exemplo: acesso do usuário ao sistema de saúde, suas noções de quais serviços deve procurar, disponibilidade técnica de diagnóstico, entre outros. Amostragem, Coletar dados, questionários, formulários e entrevistas são os meios de realizar estes estudos. A escolha do delineamento epidemiológico apropriado à avaliação da eficácia e da segurança dos medicamentos depende dos objetivos do estudo. E cada desenho de estudo epidemiológico tem um papel apropriado no progresso científico e a decisão de desenvolver um estudo farmacoepidemiológico, que pode ser considerada como semelhante à decisão regulatória sobre a aprovação de um medicamento para comercialização ou a decisão clínica quanto à prescrição de um medicamento. 40 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA Em cada caso a tomada de decisão envolve a ponderação dos custos e riscos da terapia e seus benefícios. Os principais custos são obviamente os destinados ao desenvolvimento do estudo. E entre os riscos de desenvolver um estudo farmacoepidemiológico estão as possibilidades de identificar uma reação adversa associada ao medicamento, quando de fato isto não ocorre, ou prover falsas garantias quanto à segurança do medicamento. Estes riscos podem ser minimizados pelo desenho apropriado do estudo, por pesquisadores capacitados e uma interpretação dos resultados obtidos. Os benefícios dos estudos farmacoepidemiológicos envolvem a regularização do medicamento no mercado, a área legal, clínica e comercial. Cada uma será de importância para diferentes organizações e indivíduos envolvidos na decisão de iniciar um estudo. 41 CAPÍTULO 2 Outros estudos de farmacoepidemilogia Grupo de Investigação da Utilização de medicamentos A organização mundial da saúde (OMS) definiu os EUM como o grupo que se ocupa da comercialização, distribuição, prescrição e uso dos medicamentos em uma sociedade, consequências médicas, sociais e econômicas resultantes. O grupo de especialistas conhecido como Drug Utilization Research Group (DURG) propõe uma definição menos geral: os trabalhos de investigação sobre os aspectos quantitativos e qualitativos dos determinantes do uso de medicamentos e de seus efeitos em pacientes específicos ou em uma população geral. A utilização dos medicamentos se considera um indicador sócio sanitário, sendo os EUM a ferramenta que nos permite sua avaliação e posterior planejamento de estratégias de intervenção. O processo de avaliação de qualquer medicamento inclui três passos complementares: 1. A avaliação dos benefícios dos medicamentos, por exemplo, a avaliação quantitativa e qualitativa de sua eficácia. 2. O estudo do risco dos medicamentos, tanto em estudos controlados como em condições normais de cuidado. 3. A avaliação do impacto dos tratamentos na história natural das doenças na sociedade. Juntamente com a EUM a OMS e o DURG, surge o sistema ATC/DDD, que permitem fazer estudos comparativos de consumo de medicamentos no país em diferentes períodos de tempo e estudos internacionais, independente de variações de preços, de apresentações farmacêuticas e da procedência dos dados. Algumas limitações do uso da DDD são os fármacos que possuem mais de uma indicação com doses diferentes para cada indicação; não equivalem necessariamente à dose média prescrita nem à dose média ingerida; pouco útil para expressar o consumo de medicamentos quando as combinações emdoses fixas de dois ou mais princípios ativos constituem uma parte importante do mercado. » ATC: Anatomical Therapeutic Chemical (ATC), ou seja, Classificação Anatômico terapêutica, onde os fármacos são classificados em 5 grupos: 1) grupo anatômico; 2) grupo terapêutico; 3) grupo farmacológico; 4) grupo químico; 5) grupo com o nome da substância química ou princípio ativo. Exemplo: com a metformina (hipoglicemiante oral): A = trato alimentar e metabolismo (anatômico); A10: 42 UNIDADE II │ OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA drogas utilizadas para diabetes (terapêutico); A10B : droga oral para redução da glicemia(farmacológico); A10BA: Biguanida (grupo químico); A10BA02: Metformina (substância química, princípio ativo. » A DDD é a dose média diária de manutenção de um medicamento utilizada para sua indicação principal em adultos. Mais detalhes sobre a DDD: cada fármaco possui uma DDD única dependendo da via de administração; a DDD se baseia no uso em adultos com peso médio de 70 kg; sendo a administração profilática a principal indicação do fármaco, a DDD será correspondente a profilática; algumas preparações não têm DDD listada; em preparações com mais de um fármaco a DDD será em relação ao componente mais importante na ação terapêutica; preparações associadas ou aquelas que a DDD não pode ser expressa pela unidade do principio ativo é atribuído o uso de uma Unidade de Dose (UD) de acordo com a forma farmacêutica; a DDD não é uma dose recomendada, mas uma unidade de medida. Epi Info Epi Info é um software de domínio público, que podemos baixar a instalação pela Internet, que foi criado pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention), para a área da saúde na parte de epidemiologia. Tem como objetivo atender uma necessidade do gerenciamento e da análise de bancos de informações, utilizado por profissionais de saúde pública para conduzir investigações epidemiológicas, administrar bancos de dados para vigilância de saúde pública e outras tarefas, e aplicações gerais de bancos de dados e estatísticos. Embora ele possa ser programado para produzir sistemas para uso permanente, também pode ser usado interativamente para projeto rápido de um questionário, entrada de dados, e análise durante uma investigação. A primeira versão do Epi Info foi lançada em 1985 ainda utilizando o sistema DOS e EPI2000 é a primeira versão para Windows, facilitando a compatibilidade com os programas Access y Excel. Foi desenhado por Andrew G. Dean. MD, MPH, e Thomas G. ARNER, PhD. Na divisão de Epidemiologia e Informática em Atlanta, Geórgia. Nele podemos desenvolver estatísticas epidemiológicas, gráficos, e tabelas com comandos simples. E ainda um componente chamado Epi Map exibe mapas geográficos com dados provenientes do Epi Info. Nele podemos criar uma base de dados, por meio de tabelas, que estão relacionadas entre si, permitindo uma leitura simples e lógica para que se possa trabalhar com esses dados. Em farmacoepidemiologia é muito útil, para organizar os questionários, os dados dos pacientes, as reações detectadas anteriormente por determinado medicamento, podendo incluir quantas variáveis queremos investigar. O desenho da base de dados captura a informação, valida, codifica e elabora um informe. 43 OS MEDICAMENTOS E A SAÚDE PÚBLICA │ UNIDADE II Por exemplo, para criar um questionário devemos considerar: O questionário pode ser: » Historia Clínica. » Perguntas. » Formulários. Fatores importantes: » Descrever o questionário. » Escolher o desenho da tabla. » Estética da pesquisa. Tipo de estudo: » Quais são as fontes de informação. » Quais são as variáveis incluídas. » Quais são as unidades de análise. 44 UNIDADE III USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS CAPÍTULO 1 O mercado farmacêutico Medicamentos, no Brasil, são registrados na ANVISA, por sua Gerência-Geral de Medicamentos (GGMED). Esta inclui a Gerência de Medicamentos Novos, Pesquisa e Ensaios Clínicos (GEPEC), a Gerência de Medicamentos Similares (GEMES), a Gerência de Medicamentos Genéricos (GEMEG), a Gerência de Medicamentos Isentos, Fitoterápicos e Homeopáticos (GMEFH), a Unidade de Produtos Biológicos e Hemoderivados (UPBIH), a Unidade de Produtos Controlados (UPROC) e a Unidade de Farmacovigilância (UFARM). A avaliação de um dossiê de registro costuma ser dividida em três partes: análise farmacotécnica, análise de eficácia, e análise de segurança. Fonte: <http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/registro/registro_novos.htm> » Cerca de 50% dos medicamentos se prescrevem, se vendem ou se administram de forma inapropriada e cerca de 50% dos pacientes não tomam os medicamentos de forma adequada. » 50 a 70% das consultas médicas geram prescrição medicamentosa. » De todos os pacientes que dão entrada em prontos-socorros com intoxicação, 40% são vítimas dos medicamentos. Fonte: Dados retirados da OMS (2002). Promoción del USO racional de medicamentos: componentes centrales. Perspectivas políticas de la OMS sobre medicamentos, No 5 de 2002. Ginebra, Organización Mundial de la Salud. Uso racional de medicamentos Cadeia do Medicamento: processo que envolve as etapas do registro até o uso do medicamento pela população, sendo que cada uma das etapas é 45 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III determinante do efeito final do fármaco. A cadeia do medicamento envolve: os sistemas de saúde, indústria farmacêutica, universidades, sociedades científicas, profissionais de saúde, usuários (pacientes), registro do produto, comercialização, distribuição, prescrição, dispensação e utilização. Fonte: Portaria No 802, de 8 de Outubro de 1998 do Ministério da Saúde. “os pacientes recebem a medicação adequada a suas necessidades clínicas, nas doses correspondentes aos seus requisitos individuais, durante um período de tempo adequado e ao menor custo possível para eles e para a comunidade”. Fonte: Definição da OMS Diversos fatores influenciam o uso não racional de medicamentos: a promoção de medicamentos por parte da indústria farmacêutica, a falta de informação independente das atitudes, crenças e práticas dos profissionais da saúde e dos consumidores. E a taxa de uso de medicamentos e suas consequências na morbidade e mortalidade é muito alta. O conceito de dispensação é um ponto importante a se considerar quando se trata de uso racional de medicamento, mas a preocupação maior ainda é a automedicação, pois é uma das grandes causas de Problemas Relacionados com os Medicamentos (PRM´s). Os PRM´s diz respeito a todos os efeitos adversos, ou reações adversas medicamentosas (RAM`s), entre outros problemas e complicações clínicas que possam resultar de uma utilização de medicamentos, e tem de tem várias traduções: Drugrelated Problems (DRP); Drug Therapy Problems (DTP); MedicineRelated Problems (MRP), entre outros. Problemas de saúde entendida como resultados clínicos negativos, derivados da farmacoterapia que, produzidos por diversas causas, conduzem ao não alcance dos objetivos terapêuticos ou ao surgimento de efeitos não desejados (Comité de Consenso, 2002, p. 65). Fonte: <http://www.portaleducacao.com.br/farmacia/artigos/9720/problemas-relacionados- com-medicamentos-prm#ixzz2Jsvzxp1P> Seu conceito surge a partir de três pontos importantes: indicação, efetividade e segurança, discutido no Consenso de Granada. O Consenso de Granada sobre Problemas Relacionados com Medicamentos (PRM) publicado em 1999 foi um marco importante para todos os profissionais de saúde que, quer na área da investigação, quer na prática clínica, trabalham em seguimento farmacoterapêutico. Este Consenso de Granada sobre PRM visa propor uma ferramenta de trabalho a todos os autores e investigadores que, na área do seguimento do tratamento farmacológico, pretendam homologar os resultados dos seus trabalhos. Fonte: <http://actamedicaportuguesa.com/pdf/2004-17/1/059-066.pdf> 46 UNIDADE III │ USO RACIONALDE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS Conheça mais sobre o Consenso de Granada utilizando este mesmo endereço web citado acima. Para os autores Espejo; Fernández-Llimós, em 2002, definem PRM como falhas da farmacoterapia que, resultam ao não alcance dos objetivos terapêuticos ou se produzam efeitos não desejados. A atenção farmacêutica engloba todas as atividades realizadas pelo farmacêutico em orientação ao paciente, com o objetivo de conseguir o máximo de benefício os medicamentos, assim como a promoção de ações que proporcionem saúde e previnam doenças. A função do farmacêutico na farmacoterapia consiste em identificar, prevenir e resolver os resultados negativos associados à medicação e suas causas que podem ser prevenidas. A falha na farmacoterapia existe quando não se consegue os resultados terapêuticos desejados e quando provoca danos adicionais. Essa falha tem um custo adicional à saúde dos pacientes e sobre os recursos sanitários e sociais, o que a torna um verdadeiro problema de saúde pública. O primeiro Consenso de Granada estabelece uma classificação baseada nas três básicas necessidades de farmacoterapia: Necessidades, Efetividade e Segurança. Necessidade que os medicamentos estejam indicados PRM 1: o paciente não usa o medicamento que necessita. PRM 2: o paciente usa os medicamentos que não necessita. Necessidade que os medicamentos sejam efetivos. PRM 3: o paciente usa um medicamento que indicado para a situação está mal selecionado. PRM 4: o paciente usa uma dose padrão e/ou duração inferior a necessária. Necessidade que os medicamentos sejam seguros. PRM 5: o paciente usa uma dose padrão e/ou duração superior a necessária. PRM 6: o paciente usa um medicamento que provoca reação adversa (RAM). Mais recentemente foram sugeridas algumas modificações para esta classificação: A primeira eliminação do termo duração, dos PRM 4 e 5 por confundir com os 1 e 2. E a modificação do enunciado do PRM 3, proposto por Díez Rodrigálvarez a substituição do termo por má seleção do medicamento, mudando para o paciente que não responde ao tratamento. A assistência farmacêutica compreende atitudes, ética, comportamentos, compromissos e corresponsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde de forma integrada a equipe de saúde. Deve assegurar um tratamento farmacológico apropriado, efetivo, seguro e cômodo aos pacientes, satisfazendo suas necessidades em relação aos medicamentos, a promoção do uso racional dos mesmos, a redução de custos com a saúde e a melhoria contínua da qualidade de vida da população. A sua ausência pode resultar administração errada do medicamento, conservação inadequada dos medicamentos, contraindicações, dose e duração de tratamento equivocados, duplicidade, erros na dispensação, erros na prescrição, não cumprimento da terapia; efeitos adversos, etc.. 47 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III Devido a esses erros e consequências, surgiram os resultados negativos associados à medicação (RNM), que estão relacionados ao resultado dos PRM´s.. O RNM está relacionado aos resultados do uso, especificamente os resultados negativos sobre: sintomas, sinais, eventos clínicos exames laboratoriais e óbito. O uso inadequado de medicamentos é um problema de Saúde Pública prevalente em todo o mundo. <http://www.institutosalus.com/noticias/uso-racional-de-medicamentos> 48 CAPÍTULO 2 Reações e eventos adversos As reações adversas a medicamentos constituem um problema importante na prática do profissional da área da saúde. O risco associado ao uso de medicamentos é comum, apesar de existirem uma série de normas para sua comercialização. São muitas as reações adversas e qualquer sistema pode ser alvo principal ou podem estar envolvidos simultaneamente. O uso de medicamentos pode trazer, além dos efeitos benéficos de seu tratamento, as reações adversas e sabe-se que essas reações são causas significativas de hospitalização, de aumento do tempo de permanência hospitalar e, até mesmo, de óbito. Além disso, elas afetam a qualidade de vida do paciente, influenciam na perda de confiança do paciente para com o médico, aumentam custos, atrasam tratamentos, desenvolvem novos problemas. Em outras palavras, pode ocorrer na utilização de determinado medicamento, de forma não intencional e inesperada pelo paciente, caracterizando-se como um efeito nocivo. O curso temporal do efeito adverso de algum fármaco algumas vezes são resultados da administração, que em seguida pode-se realizar a interrupção dessa aplicação e cessar os efeitos, porem, alguns podem aparecer meses, ou anos após o tratamento crônico, por exemplo, ser iniciado. Segundo a OMS a definição de reação adversa a medicamentos (RAM) é: “qualquer efeito prejudicial ou indesejável, não intencional, que aparece após a administração de um medicamento em doses normalmente utilizadas no homem para a profilaxia, o diagnóstico e o tratamento de uma enfermidade”. De acordo com Laporte e Capellá, 1989, os termos “reação adversa”, “efeito indesejável” e “doença iatrogênica” são equivalentes. No entanto, diversos termos são empregados provocando confusões resultantes da própria dificuldade conceitual e de problemas de traduções. Independente do termo deve-se diferenciar deste conceito o de evento adverso, considerado que evento pode ser devido a vários fatores relacionados com o tratamento: dose do medicamento incorreta, dose omitida, via de administração não especificada, horário de administração incorreto, apesar de que RAM pode ser entendido como um evento adverso ao esperado quando se indica essa terapêutica. Evento adverso relacionado a medicamentos (EAM) é qualquer dano apresentado pelo paciente que possa ser imputado a medicamentos. Os EAM podem decorrer da utilização adequada, inadequada, ou mesmo, da falta de acesso àqueles fármacos clinicamente necessários (OMS, 2004; ROSA e PERINI, 2003). Os EAM são subdivididos em dois grupos. O primeiro, denominado reações adversas a medicamentos, diz respeito ao risco inerente frente à utilização adequada de medicamentos, portanto, inevitáveis. O outro, definido como erros de medicação, entendido como qualquer evento passível de prevenção, 49 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III decorrentes do uso inadequado ou não utilização de medicamentos necessários, portanto, possivelmente relacionado com falhas nos procedimentos (ROSA e PERINI, 2003). Classificação de reações adversas Superdosagem relativa É aquela que ocorre quando um fármaco é administrado em doses terapêuticas, porém suas concentrações são superiores às habituais. São situações que se devem a alterações funcionais, e que podem aumentar o risco de concentrações elevadas do fármaco no organismo. Exemplo: » a maior incidência de surdez entre pacientes com insuficiência renal tratados com antibióticos aminoglicosídeos; » intoxicação digitálica em paciente com insuficiência cardíaca tratados com doses usuais de digoxina, uma vez que este paciente pode apresentar hipocalemia concomitante ou uma reduzida massa muscular, ou ainda, apresentar a função renal diminuída o que diminui a excreção do glicosídeo. Efeitos colaterais São relativos à própria ação do medicamento, porém, o aparecimento é indesejável num momento determinado de sua aplicação. Na verdade, é considerado um prolongamento da ação farmacológica principal do medicamento e resulta em um efeito farmacológico menos intenso em relação à ação principal de uma determinada substância. Exemplo: » broncoespasmo produzido pelos bloqueadores b - adrenérgicos; » bloqueio neuromuscular produzido por aminoglicosídeos; » sonolência pelos benzodiazepínicos; » arritmias cardíacas com os glicosídeos. Efeitos secundários São os devidos não à ação farmacológica principal do medicamento, mas como consequência do efeito buscado. 50 UNIDADE III │ USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS Exemplo:» a tetraciclina com ação bacteriostática poderá depositar-se nos dentes, quando utilizada na pediatria, e estas deposições podem descolorir o esmalte dos dentes decíduos assim como dos permanentes; » e poderá também depositar-se nos ossos, pode provocar redução do crescimento ósseo. Idiossincrasia Reações nocivas, às vezes fatais, que ocorrem em uma minoria dos pacientes. Definida como uma sensibilidade relativa a um determinado produto. Em geral considera-se que as este tipo de reação se deve ao polimorfismo genético, que é a variação no numero e no tipo de mutações estáveis do DNA. Exemplo: » anemia hemolítica por deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD), um traço herdado na forma recessiva ligada ao sexo, esse tipo de anemia pode acontecer, por exemplo, em determinados indivíduos que utilizam a droga antimalárica primaquina. Em 5 a 10% dos indivíduos afro descendentes, a droga causa hemólise (o rompimento de uma hemácia que libera a hemoglobina no plasma), conduzindo a uma anemia grave. Hipersensibilidade alérgica Para que ocorra uma hipersensibilidade alérgica é necessária a sensibilização prévia do indivíduo e a mediação de algum mecanismo imunitário. Relaciona-se a reação de intensidade com a dose administrada. Exemplo: » Tipo I- anafilaxia, uma resposta súbita e potencialmente letal, provocada pela liberação de histamina e de outros mediadores. As principais características incluem erupções urticariformes, edema dos tecidos moles, broncoconstrição e hipotensão. Tolerância É o fenômeno pelo qual a administração de doses repetidas, de forma contínua ou crônica de um fármaco ou droga na mesma dose, diminui progressivamente a intensidade dos efeitos farmacológicos esperados, sendo necessário aumentar gradualmente a dose para poder manter os efeitos na mesma intensidade. É um efeito muito comum em pacientes que se automedicam. A tolerância é um fenômeno que leva dias ou semanas para acontecer. 51 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III Exemplo: » A tolerância produzida entre pacientes que usam barbitúricos, já que seu uso contínuo e crônico pode anular seu efeito anticonvulsivante. Para conhecer um estudo sobre EAM e RAM podemos ler essa análise realizada em um Hospital Público no Rio de Janeiro <http://www.unirio.br/propg/posgrad/ stricto_paginas/site%20Enfermagem/SiteENFv3/dissertacoes/Dissertacoes%20 2010/Rejane.pdf> Seguem alguns exemplos: » ANFOTERICINA B: calafrios, febre, dor no local da injeção, prurido, rash. » DICLOFENACO: rash, prurido, urticária, tontura, hipertensão, diarreia, vômitos, náusea. » DIPIRONA: discrasias sanguíneas, urticária, rash, prurido. » DIGOXINA: agitação, cefaleia, tontura, vertigem, arritmias, náusea, vômitos, diarreia. » FENOBARBITAL: síndrome de Stevens-Johnson, rash, urticária, náuseas, vômitos. » METOCLOPRAMIDA: reações extrapiramidais, tontura, náuseas. » PREDNISONA: síndrome de Cushing, edema, hipertensão, úlcera, insônia. » VANCOMICINA: síndrome do homem vermelho, calafrios, febre, náuseas. » WARFARINA: hemorragias, necrose, urticária, dermatites, náuseas. Para muitos autores esta classificação não tem muita aplicabilidade clínica e epidemiológica. Alguns efeitos de importância clínica e sanitária são difíceis de serem enquadrados nesta classificação, como exemplo a teratogenia. Para outros autores, a classificação proposta por Rawlins e Thompson, é considerada a mais adequada e tem sido a mais empregada. Segundo ela, as reações adversas produzidas por medicamentos poderiam subdividir-se em dois grandes grupos: as que resultam de efeitos farmacológicos normais, ou seja, reações por meio do resultado de uma ação e um efeito farmacológico exagerado de um fármaco administrado em doses terapêuticas habituais (tipo A). E as reações que possuem efeitos farmacológicos totalmente anormais e inesperados, ainda que considerando as propriedades farmacológicas de um medicamento administrado em doses habituais (tipo B). (RAWLINS,MD, THOMAS,SHL,1998) 52 UNIDADE III │ USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS As reações do tipo A são farmacologicamente previsíveis, geralmente dependem da dose, têm alta incidência e morbidade, baixa mortalidade e podem ser tratadas ajustando-se as doses. São reações produzidas por mecanismos de superdosagem relativa, efeito colateral, citotoxicidade, interações medicamentosas ou alterações na forma farmacêutica. As do tipo B não são farmacologicamente previsíveis, nem dose-dependentes, têm incidência e morbidade baixas, e sua mortalidade pode ser alta. Devem ser tratadas com a suspensão do fármaco e são produzidas por mecanismos de hipersensibilidade, idiossincrasia, intolerância e até mesmo por alterações na formulação farmacêutica. Em resumo podemos também podemos dizer que as reações adversas podem ou não estar relacionadas com a ação farmacológica principal do fármaco. Segundo Rang e Dale, se a incidência de uma reação adversa é 1 em 6000 pacientes expostos, aproximadamente 18.000 pacientes devem ter sido expostos ao fármaco para três ventos que ocorrem e aproximadamente dobrar esse número de res eventos a serem detectados, com sua possível relação do fármaco reconhecida e relatada, mesmo se não houvesse a incidência e o conhecimento preciso do evento em questão. RAM de acordo com a gravidade De acordo com a gravidade das reações adversas a medicamentos elas podem ser classificadas como leve, moderada, grave ou letal. » Leve: Não requer tratamentos específicos e não é necessária a suspensão da droga. » Moderada: Exige modificação da terapêutica medicamentosa. Pode necessitar a hospitalização e exigir tratamento específico. » Grave: Potencialmente fatal, requer a interrupção da administração do medicamento e exige tratamento específico da reação adversa. Resulta em hospitalização ou prolonga a internação de pacientes já hospitalizados. » Letal: Contribui direta ou indiretamente para a morte do paciente. RAM de acordo com a casualidade Para alguns autores há cinco tipos de causa-efeito para medicamentos que causam alguma reação adversa: 1. Definida: Uma reação que sabemos que pode ocorrer a partir da administração do medicamento ou da obtenção de níveis séricos ou tissulares resultados de exames bioquímicos; que segue uma resposta padrão conhecida para o medicamento suspeito; e que é confirmada pela melhora quando se suspende o medicamento e pelo reaparecimento da reação ao se repetir a exposição. 53 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III 2. Provável: Uma reação que surge a partir da administração do medicamento ou da obtenção de níveis séricos ou tissulares através de exames bioquímicos; que segue uma resposta padrão conhecida para o medicamento suspeito; e que não pode ser razoavelmente explicada pelas características conhecidas do estado clínico do paciente. 3. Possível: Uma reação que ocorre a partir da administração do medicamento ou da obtenção de níveis séricos ou tissulares através de exames bioquímicos; que segue uma resposta padrão conhecida para o medicamento suspeito; mas que pode ter sido produzida pelo estado clínico do paciente ou de outras terapêuticas utilizadas em um mesmo período. 4. Condicional: Uma reação surge a partir da administração do medicamento ou da de níveis séricos ou tissulares obtidos através de exames bioquímicos; que não segue uma resposta padrão conhecida para o medicamento suspeito; mas que não pode ser razoavelmente explicada pelas características conhecidas. 5. Duvidosa: Qualquer reação que não segue os critérios acima. Grupos de população e RAM Alguns grupos da população são particularmente suscetíveis ao aparecimento de RAM. Qualquer uso de medicamentos por indivíduos que pertencem a esses grupos exige uma cuidadosa monitoração clínica e uma rigorosa avaliação da relação entre o benefício e o risco de seu uso, mais uma avaliação de acordo com seu quadro clínico considerandoas reações adversas do medicamento, e o grau de comprometimento do paciente. Grupo I – Extremos de idade Neonatos e crianças As crianças podem sofrer variações farmacocinéticas e/ou farmacodinâmicas, além de outras alterações que são próprias de essa faixa etária, alterando os padrões de crescimento e diferenciação que refletem sobre o desenvolvimento. Um exemplo destas alterações em crianças são os transtornos do crescimento ósseo ocasionado por drogas como as tetraciclinas, corticoides. As alterações farmacodinâmicas podem levar a um aumento ou diminuição da sensibilidade a algumas drogas. A absorção em neonatos pode estar alterada devido a menor secreção de ácido e redução da motilidade gastrointestinal, porém, tais variações não são uniformes e são dificilmente previsíveis. Também podemos falar das vias de administração de fármacos que também apresentam limitações para uso em crianças, particularmente em neonatos, que tem a via oral de administração como uso limitado nos primeiros dias de vida. E em crianças a via oral é de difícil aceitação, muitas drogas ocasionam sensibilidade, irritação e vômitos frequentes. A absorção tópica é elevada em 54 UNIDADE III │ USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS relação aos adultos devido ao delgado extrato córneo e a via endovenosa é limitada pelo volume de diluição. Os neonatos apresentam massa muscular e tecido adiposo desproporcionalmente reduzido, se comparado aos adultos. A água corporal total é muito maior em neonatos, cerca de 75% do peso corporal, afetando diretamente a distribuição das drogas. E a concentração das proteínas plasmáticas está diminuída nos recém-nascidos, consequentemente, ocorre uma diminuição na taxa de ligação de drogas as proteínas. Entre muitos outros exemplos a evaluar clinicamente quando se decide utilizar determinada medicação em este grupo. Idosos Os pacientes idosos estão predispostos às reações adversas por diversas razões, como: a dificuldade de obediência ao regime de tratamento, seja por esquecimento, por incompreensão do esquema terapêutico, ou por dependência física, terapia com múltiplas drogas, aumento das reações de hipersensibilidade, e alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas características desta faixa etária. A absorção pode encontrar-se diminuída, devido à redução da liberação basal de ácido com aumento do pH, o que pode afetar a ionização e a solubilização de drogas. Ocorre diminuição do fluxo sanguíneo, redução do número de células de absorção, diminuição do ritmo de esvaziamento gástrico. A distribuição encontra-se alterada com a diminuição da massa muscular, aumento do tecido adiposo e pode ocorrer ainda redução na concentração de albumina. O envelhecimento também é preocupante porque sabemos que há uma diminuição do número de células hepáticas, e há ainda a diminuição do fluxo renal e da filtração glomerular, perda de função tubular e diminuição dos processos de reabsorção. Grupo II – Gênero As mulheres são mais suscetíveis às reações adversas, possivelmente, por uma associação de fatores como as complicações obstétricas que ocorrem ao longo da vida fértil da mulher, os episódios de dismenorreia que requerem o uso de medicamentos, às vezes por vários anos, o uso de contraceptivos, e uma maior concentração de tecido adiposo. É possível, ainda, que exista um determinante hormonal que possa afetar o metabolismo. Grupo III – Gestantes O uso de medicamentos deve ser avaliado considerando-se as variações farmacocinéticas que ocorrem durante a gravidez, as alterações fisiológicas das funções maternas e os efeitos que estes possam ter sobre o feto. Todas as fases da gestação e até mesmo, a fase de amamentação é muito delicada, e por isso devemos ter a maior atenção na avaliação de risco benefício. Durante a gravidez a mulher passa por alterações. Em geral, nesse período ocorre um aumento do volume sanguíneo de cerca de 50%, o que implica em aumento do volume de distribuição de drogas hidrossolúveis, por exemplo. A atividade metabolizadora enzimática pode estar alterada devido a fatores hormonais, tornando-se mais efetiva para a biotransformação de algumas drogas e menos para outras. 55 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III Ainda aumenta a excreção urinária como consequência do maior fluxo renal. E algumas drogas podem interferir com funções fisiológicas da mãe prejudicando o desenvolvimento do feto. Contudo, a maior preocupação com o uso de medicamentos durante a gravidez é com os efeitos que estes possam ter sobre o desenvolvimento e a constituição do feto. A “barreira placentária” que é constituída por tecidos que obedecem aos mesmos fatores que controlam o transporte transmembrana, tem sua velocidade de transferência de drogas dependente das características físico-químicas da droga e do seu gradiente de concentração. No período embrionário que vai da terceira à décima semana de gravidez, aproximadamente, o embrião é mais suscetível às agressões químicas devido às altas taxas de diferenciação celular, desenvolvimento funcional e crescimento que ocorrem durante este curto período de tempo. E é nesta fase que ocorre a maioria das teratogenias, sendo considerado um período crítico para o consumo de medicamentos. No estágio subsequente, período fetal, ocorre o desenvolvimento e maturação dos órgãos e sistemas e a exposição fetal a teratógenos comumente leva a lesões em áreas mais restritas ou alterações funcionais. O uso de medicamentos no período pré-parto também é preocupante, pois, neste período a unidade feto placentária será desfeita e a reduzida capacidade eliminadora do neonato pode levar a um quadro de toxicidade. E por fim durante o período de amamentação a presença de drogas no leite materno irá obedecer aos parâmetros de transporte transmembrana e também pode levar ao surgimento de toxicidade para o lactente. Grupo IV – Patologias Patologia Insuficiência Renal: O uso de medicamentos em pessoas portadores desta enfermidade necessita muita atenção, principalmente quando se faz necessário o uso de doses múltiplas. Como se trata de um problema altamente complexo, o cuidado é maior devido as alterações funcionais do rim, principal órgão excretor, e suas implicações metabólicas como: retenção de água e sódio, hiperpotassemia, acidose metabólica e uremia, entre outros. A seleção de medicamentos para esses pacientes deve levar em consideração as propriedades do fármaco, como a biodisponibilidade, margem de segurança, via de eliminação, atividade dos metabólitos e sobrecarga metabólica que esta possa vir a desencadear. Dada à complexidade do processo de insuficiência renal o uso de medicamentos por esses pacientes deve ser rigorosamente acompanhado. Insuficiência Hepática: O fígado possui diversas funções metabólicas importantes para a manutenção da homeostase corporal, desta forma, suas funções podem ficar comprometidas quando este órgão é lesado por patologias ou fármacos/compostos químicos, e a insuficiência hepática pode levar a profundas alterações na farmacocinética das drogas. 56 UNIDADE III │ USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS O grau de lesão hepática determinará alterações na formação e nos sítios de ligação das proteínas plasmáticas. Poderá ocorrer decréscimo no nível sérico de albumina, aparecimento de proteínas plasmáticas defeituosas, acúmulo de compostos endógenos como a bilirrubina, fatores que alteram a taxa de ligação das drogas às proteínas plasmáticas. Para realizar um tratamento farmacológico deverão ser realizados testes de função hepática e ajustar as doses recomendadas. Grupo V – Hipersensibilidade Reação de hipersensibilidade é uma variação resultante da exposição a um alérgeno. As reações alérgicas podem ser reconhecidas em função de algumas características: » exposição anterior ao agente sensibilizante; » independência da dose administrada; » recorrência; » reação não associada a atividade farmacológica da droga;» sintomas característicos. Grupo VI – Variabilidade genética Respostas anormais a medicamentos incidentes em uma população específica podem ser decorrentes de alterações farmacocinéticas ou farmacodinâmicas devido a um polimorfismo genético Grupo VII – Polimedicação As interações medicamentosas constituem um sério problema na prática médica e farmacêutica. A incidência de reações adversas aumenta exponencialmente com o número de drogas administradas e, isto é, em parte, devido às interações medicamentosas. O uso abusivo de drogas de venda livre, a automedicação, o uso de produtos naturais e remédios caseiros são responsáveis por uma grande parte dessas interações, que muitas vezes não são adequadamente identificadas e acabam por serem confundidas com outras patologias, devido à dificuldade de recuperar os dados da utilização de tais práticas terapêuticas. A Polimedicação também pode resultar em uma anulação de determinada droga quando utilizada concomitantemente com outra. Por exemplo, o uso excessivo de antibióticos e os anticonceptivos orais. Os antibióticos que matam as bactérias intestinais causarão uma diminuição do ciclo enterohepatico dos estrógenos, facilitados por essa bactéria. Isso diminuirá a concentração de anticoncepcionais no plasma, alterando sua efetividade. 57 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III Alguns datos encontrados em estudos Farmacoepidemiologicos sobre RAM e EAM: » O não cumprimento do tratamento farmacoterápico, por parte dos idosos, leva a problemas que colocam em perigo a vida desses pacientes. » Estudo demonstra que metade dos pacientes, que utilizavam seis ou mais medicamentos, tiveram prescrições de mais de três médicos, sugerindo falta de comunicação entre eles. » 65% das prescrições de pacientes idosos, recebidas em uma farmácia ambulatorial nos Estados Unidos, havia um ou mais medicamentos inapropriados prescritos, sendo 57% destes inefetivos, não indicados ou terapeuticamente duplicados. » Pediatria: medicamentos de 3 grupos farmacoterapêuticos (anti- infecciosos, sistema nervoso central e respiratório) representam mais de ¾ dos medicamentos prescritos. » As mulheres são mais consumidoras que os homens. » Os indivíduos caucasianos utilizam mais medicamentos do que os indivíduos de raça afrodescendente. » Aumento progressivo de consumo continuado de medicamentos psicotrópicos e antidepressivos. » Aumento progressivo de utilização de betabloqueadores (52% para 76%) e aspirina (25% para 88%). Fonte: <http://www.ismp.org/> Você encontra mais exemplos em <http://www.ismp.org/> 58 CAPÍTULO 3 Relação Farmacoepidemiologia com RAM/EAM’s As reações adversas podem limitar o uso de alguns fármacos em grupos de pacientes ou ainda podem provocar a retirada de algum medicamento do mercado. Alguns términos básicos nos ajudam a identificar farmacoepidemiologicamente, outros fatores importantes na avaliação de um estudo, como exemplo a exposição excessiva a um medicamento. Conceitos importantes e exposição aos medicamentos Términos de exposição de medicamentos » Hazard Rate: que permite, conhecendo a possibilidade de risco, prever a mortalidade. Deste resultou o Hazard Ratio, o qual originou o Risco Relativo, o ODDS Ratio, já comentado anteriormente. » Hazard Function: Probabilidade individual do aparecimento de um efeito (E) no momento t. » Temporal Tracking: Utilização do fármaco ao longo do tempo. » Risk Window ou Time Window é o tempo durante o qual se assume que o efeito (risco) pode ocorrer relacionado com a exposição em estudo. Avaliação de uma utilização recente, período de tempo após a exposição a um medicamento durante o qual o indivíduo é susceptível de vir a desenvolver um efeito adverso (EA). » Immortal Time: Período em que se considera que a exposição ao medicamento não foi relevante para o aparecimento do efeito. Dinâmica da exposição ao medicamento Dinâmica da exposição Dinâmica da exposição: » Frequência (rara, comum). » Duração (curta, intermitente, longa). 59 USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS │ UNIDADE III » Ritmo (Ocasional, intermitente, contínuo). » Processo de prescrição/utilização. Período de risco » Immortal time. » Efeito durante o uso do medicamento. » Efeito depois da descontinuação do tratamento. Parâmetros para a avalição da exposição ao medicamento 1. Rigor e exaustividade. 2. Classificação não diferencial. 3. Taxa de resposta. 4. Utilização do fármaco ao longo do tempo (temporal tracking). 5. Populações especiais (crianças, idosos, gestantes, portadores de enfermidades hepáticas, renais). 6. Informação detalhada sobre o medicamento. 7. Informação detalhada sobre a utilização. 8. Método epidemiológico disponível. 9. Eficiência. Viés (erro sistemático ou tendenciosidade) e confundimento Erro sistemático que ocorre devido à utilização de um medicamento no momento em que ocorre o efeito ou num momento imediatamente anterior (medicamento usado para tratar o efeito e não relacionado com o efeito). » Que fatores em sua opinião são importantes em uma decisão de um tratamento farmacológico? » Quais informações aprendidas nesta unidade são importantes para a Farmacoepidemiologia? 60 UNIDADE III │ USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS E REAÇÕES ADVERSAS » O paciente só deverá começar um tratamento, se estiver bem informado sobre o seus medicamentos a utilizar? » Em sua opinião qual a participação essencial do paciente durante seu tratamento? » As reações adversas correspondem aos resultados negativos associados à medicação? Tipos de viés em Farmacoepidemiologia Viés de seleção: » Traduz-se na distorção da estimativa de uma medida de risco (efeito) devido à distribuição desigual e não usual entre a exposição e o outcome entre os grupos em comparação (casos e controles). Viés de autosselecção (self –selection bias): » Erro que afecta muito os estudos de caso controle ou quando um doente decide não participar ou abandonar um estudo, a razão pode estar relacionada com o seu “estadio” relativamente à exposição ou ao outcome. Depletion of susceptibles: » Risco maior de ocorrência de um efeito adverso nos indivíduos expostos ao medicamento pela primeira vez (incident or first-time users) indivíduos que já utilizaram o medicamento anteriormente (past users or prevalent users). 61 UNIDADE IV DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS CAPÍTULO 1 Farmacologia clínica Os fármacos são substâncias químicas que podem ter sua origem animal, vegetal, mineral ou sintética. Essas substâncias químicas são utilizadas para prevenir, diagnosticar e tratar doenças. Com o desenvolvimento da indústria Farmacêutica ao final do século XIX, a descoberta de fármacos cresceu muito. Hoje a maior parte de medicamentos novos, vem das grandes indústrias farmacêuticas, de medicamentos éticos, genéricos e inovadores. E que prometem a seus tratamentos farmacológicos uma variedade de modalidades, que tem como objetivo remover os agentes causadores, aliviar sintomas, reduzir sofrimento e levar a um resultado satisfatório e de bem estar de seus usuários. Conceito de farmacologia clínica A tarefa de projetar e descobrir um novo fármaco nas indústrias farmacêuticas é contínua. A busca da seleção do alvo, proteínas funcionais, receptores, que é onde o fármaco ira atuar, encontrar as substâncias importantes, sua atividade funcional e desenvolver e otimizar o protótipo. Depois de passada a fase de descoberta de um fármaco, durante seu desenvolvimento e a fase de testes de novas drogas, a segurança e a utilidade da droga em questão deve ser determinada da seguinte maneira: Ensaios pré-clínicos Os ensaios pré clínicos são obrigatórios antes de iniciar a Farmacologia Clínica, têm duração de 1 a 6 anos, podem ser in vitro ou in vivo. E podem ser divididos em farmacológicos e toxicológicos. 62 UNIDADE IV │ DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS In vitro é uma expressãodo latim e significa «em vidro», ou seja, processos biológicos que são realizados em ambiente fechado, controlado, de um laboratório, normalmente feitos em recipientes de vidro (exemplo: fertilização in vitro realizada por meio de técnicas de reprodução assistida). E In vivo palavra derivada do latim que significa “dentro do vivo”, ou seja, “que ocorre ou tem lugar dentro de um organismo”. Em ciência, in vivo se refere a experimentos com animais (ratos, cães, camundongos ou outras espécies) ou tecidos vivos de animais. Os ensaios pré clínicos in vitro podem ser do tipo: físico-químico (estrutura, peso molecular, solubilidade, estabilidade) e celular, onde se realiza a cultura de células e aplicação da nova droga química a estudar. E os estudos farmacológicos nesta fase abordam os aspectos farmacocinéticos e farmacodinâmicos básicos da droga e servem para detectar a toxicidade aguda, subaguda e crônica. O objetivo é detectar qualquer efeito toxico que a droga possa ter sobre a celular, sobre os tecidos e órgãos, e também seus efeitos carcinogênicos, mutagênicos e teratogênicos. Farmacocinético: descreve a absorção, a distribuição, o metabolismo e a eliminação dos fármacos. Farmacodinâmico: descreve os efeitos fisiológicos que as drogas têm em células ou organismos vivos (como o corpo humano) e mostra como as drogas influenciam as funções corporais por meio das mudanças bioquímicas nos fluidos e nos tecidos corporais. Descreve o mecanismo de ação e seus efeitos terapêuticos. E os estudos toxicológicos deverão abordar ensaios de toxicidade aguda, toxicidade de doses repetidas, toxicidade subcrônica e toxicidade crônica, onde este deve abordar mutagenicidade, embriofetotoxicidade, alterações de fertilidade, carcinogenicidade, indução de dependência. Nos ensaios pré-clínicos in vivo, os estudos toxicológicos mais comuns são por meio da avaliação da dose letal 50% (DL50), dose eficaz 50% (DE50) e índice terapêutico (IT), que chamamos de fase aguda. DL50 é a dose letal em que a concentração de uma substância química é capaz de matar 50% da população de animais testados em um experimento, por exemplo. A dose geralmente é medida em miligramas (mg) de substância por quilograma (kg) de massa corporal do animal testado. E depende do modo de exposição ao produto tóxico. Para cada caso haverá uma classificação de toxicidade DE50 é a dose “eficaz” para 50% da população. Sendo assim, depende da medida de eficácia usada. Para o cálculo do Índice Terapêutico (índice que indica a margem de segurança dos fármacos considera as doses letal e eficaz em seu cálculo, isso significa que quanto maior o IT, maior a sua segurança). Índice Terapêutico IT= DL50/DE50 63 DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS │ UNIDADE IV Ensaios clínicos Ensaio clínico é o delineamento, com maior poder, para delimitar eficácia de um fármaco ou outro tratamento. O ensaio clínico consiste no principal método utilizado pela Farmacologia Clínica. Nele, o tratamento é administrado a um grupo de indivíduos (grupo intervenção), sendo seus resultados comparados com os verificados em outro grupo (grupo controle) que recebe substância desprovida de efeito próprio (placebo) ou tratamento convencional. “um experimento planejado ética e cuidadosamente com o objetivo de responder a algumas perguntas precisas e bem delineadas» Definição da OMS. Os princípio cinéticos e dinâmicos, e o perfil tóxico de uma droga continuam sendo investigados durante as fases clínicas, com supervisão médica e de uma equipe interdisciplinar sempre que necessária. Durante a Fase 1, que é o primeiro estudo onde a droga é testada em um pequeno número de indivíduos voluntários e saudáveis. Estas pesquisas se propõem a estabelecer uma evolução preliminar da segurança e do perfil farmacocinético e quando possível, um perfil farmacodinâmico. Farmacocinética no ser humano (metabolismo e biodisponibilidade). Fase I : Tolerância em voluntários saudáveis: » Maior dose tolerável. » Menor dose efetiva. » Relação dose/efeito. » Duração do efeito. » Efeitos colaterais. Na fase 2, se administra a droga em um número seleto de pacientes doentes, para demonstrar efetividade potencial da medicação. É conhecido como Estudo Terapêutico Piloto, que tem como objetivos demonstrar a atividade e estabelecer a segurança em curto prazo do princípio ativo, em pacientes afetados por uma determinada enfermidade ou condição patológica. As pesquisas realizam-se em um número limitado e reduzido de pessoas e frequentemente são seguidas de um estudo de administração. Fase II (Estudo Terapêutico Piloto) » Indicação da eficácia. » Confirmação da segurança. » Biodisponibilidade e bioequivalência de diferentes formulações. 64 UNIDADE IV │ DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS Enquanto na Fase 3 são conduzidos testes extensivos, de significância estatística. Exploram-se nesta fase o tipo e perfil das reações adversas mais frequentes, assim como características especiais do medicamento e/ou especialidade medicinal, por exemplo: interações clinicamente relevantes, principais fatores modificatórios do efeito tais como idade etc. Fase III: Estudos internacionais, de larga escala, em múltiplos centros, com diferentes populações de pacientes para demonstrar eficácia e segurança (população mínima aprox. 800). » Conhecimento do produto em doenças de expansão. » Estabelecimento do perfil terapêutico. Indicações. » Dose e via de administração. » Contraindicações. » Efeitos colaterais. » Medidas de precaução. » Demonstração de vantagem terapêutica (ex: comparação com competidores). » Farmacoeconomia e qualidade de vida. » Estratégia de publicação e comunicação (ex: congressos e workshops). Fase III: Estudo Terapêutico Ampliado São estudos realizados em grandes e variados grupos de pacientes, com o objetivo de determinar: » Resultado do risco/benefício a curto e longo prazos das formulações do princípio ativo. » Maneira global (geral) o valor terapêutico relativo. Depois de iniciada a comercialização da droga, uma nova fase conhecida como farmacovigilância começa, e então os efeitos colaterais, as indicações adicionais, a eficácia e a tolerância podem ser investigadas por completo. Fase IV: Após aprovação para comercialização do produto » Detectar eventos adversos, pouco frequentes ou não esperados (vigilância pós- comercialização) » Estudos de suporte ao marketing. » Estudos adicionais comparativos com produtos competidores. » Novas formulações (palatabilidade, facilidade de ingestão). 65 DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS │ UNIDADE IV Fase IV: São pesquisas realizadas depois de comercializado o produto e/ou especialidade medicinal. Estas pesquisas são executadas com base nas características com que foi autorizado o medicamento e/ou especialidade medicinal. Geralmente são estudos de vigilância pós-comercialização, para estabelecer o valor terapêutico, o surgimento de novas reações adversas e/ou confirmação da frequência de surgimento das já conhecidas, e as estratégias de tratamento. Nas pesquisas de fase IV devem-se seguir as mesmas normas éticas e científicas aplicadas às pesquisas de fases anteriores. Fonte: <www.anivisa.gov.br> Os testes clínicos são cuidadosamente planejados, projetados e controlados. Os testes randomizados são os mais frequentes. São diferentes dos estudos observacionais porque nos ensaios clínicos é feita uma intervenção, em geral são estudados dois grupos, o de controle e o tratado. Os ensaios controlados são aqueles em que se compara o teste com o controle (placebo: “ativo” ou “inativo”). Podem ser divididos em abertos (tratamento conhecido) e cegos (uma ou ambas as partes desconhecem o tratamento). Placebo: São substâncias farmacologicamente inativas ou ativas, mas com o fundamento de que é um tratamento inerte que apresenta efeitos fisiológicos desencadeados pela crença do paciente que está sendo tratado. Placebo ativo: umcomprimido de Vitamina C pode aliviar a dor de cabeça de quem acredite estar ingerindo um analgésico, sendo um exemplo clássico de que o que cura é não apenas o conteúdo do que inferimos, mas também a forma. Placebo inativo: por exemplo, no uso de cápsulas desprovidas de substâncias terapêuticas ou contendo produtos conhecidamente inertes e inócuos, que são administrados a grupos pacientes para comparar o efeito da sugestão no tratamento de doenças. As fases da resposta terapêutica Importante princípio em farmacologia onde nos mostra que a resposta terapêutica da grande maioria dos fármacos depende fundamentalmente da interação entre suas moléculas com receptores farmacológicos específicos. Entretanto, é totalmente conhecido que a relação existente entre dose e efeito dos fármacos é muito variável entre cada indivíduo. Tais variações dependem não só da dose, mas também da gravidade da doença, das funções cardiológicas, hepatológicas, renais e da motilidade gastrintestinal, da atividade hormonal e da farmacocinética do princípio ativo. Assim, várias fases estão envolvidas na resposta terapêutica do fármaco: fase farmacêutica; fase farmacocinética; fase farmacodinâmica. 66 CAPÍTULO 2 Farmacovigilância Farmacovigilância é definida como a ciência e atividades relacionadas à detecção, avaliação, compreensão e prevenção dos efeitos adversos ou qualquer outro problema relacionado aos medicamentos e ferramenta no cuidado ao paciente, e é essencial para a organização de sistemas de relatos de reações adversas, monitoramento de fármacos, vigilância de produtos pós comercialização e programas nacionais de saúde pública. A boa farmacovigilância identificará os riscos e os fatores de risco em tempo reduzido para evitar ou minimizar os danos. Seus objetivos são a melhoria no uso dos medicamentos para tratamento e prevenção de doenças. O medicamento antes de entrar em comercialização, tem que primeiro demonstrar a sua eficácia, qualidade e segurança. E a “vigilância pós-comercialização de medicamentos” também deve ser mantida. No Dicionário de Epidemiologia dirigido pela International Epidemiological Association, o procedimento posterior à autorização do registro de um novo fármaco é criado e desenhado para procurar informação sobre o uso real do fármaco indicado para determinada patologia e assim verificar a aparição de efeitos indesejáveis. Farmacovigilancia é o método para o estudo epidemiológico das reações adversas aos medicamentos. Isto corresponde aos procedimentos que na farmacologia clínica fase IV e V, sendo uma necessidade complementar aos ensaios clínicos fases I, II e III. A farmacovigilância, como em qualquer sistema de vigilância epidemiológica, deve-se combinar a seleção de eventos para notificação, a definição das variáveis que serão trabalhadas e a identificação e o envolvimento das fontes de informação. A definição dos eventos a serem trabalhados deve corresponder à capacidade de assimilação e resposta do sistema. E a seleção de eventos pode partir da consideração de possíveis reações adversas, tomadas de uma forma geral ou de acordo com uma relação de ocorrências estabelecida previamente, ou da definição de alguns medicamentos, cujo uso será acompanhado. Numa perspectiva ampla, portanto, o acompanhamento do uso de medicamentos pode ser objeto das ações de farmacovigilância, desde que tal acompanhamento é atividade fundamental para a prevenção da ocorrência de reações adversas. Segundo a OMS, “um reporte de casos em farmacovigilância pode ser definido como: uma notificação relativa a um paciente com um evento adverso médico (ou teste de laboratório anormal) suspeito de haver sido induzido por um medicamento.” As ações de farmacovigilância estão voltadas para a detecção precoce de reações adversas desconhecidas ou interações medicamentosas e para a detecção de aumentos na frequência de ocorrência de reações adversas conhecidas. 67 DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS │ UNIDADE IV Tal como para a vigilância epidemiológica de rotina, a notificação em farmacovigilância é quase sempre de suspeita a ser posteriormente confirmada ou não. As ações constituem, assim, um ponto de partida ou um alerta para a necessidade de desenvolvimento de estudos epidemiológicos mais apurados voltados para o estabelecimento de relações de causa e efeito. Este serão estudos farmacoepidemiológicos tipos caso-controle, coorte ou mesmo transversal. Os estudos transversais propiciam informações importantes sobre o uso de medicamentos que são especialmente úteis em países como o Brasil, onde as políticas de regulação de medicamentos ainda não alcançaram a eficácia e o nível de organização desejados. São diversas as fontes de informação em farmacovigilância: são os boletins, que chamamos também de notificações espontâneas, temos os estudos ou publicações em jornais científicos, sites como a ANVISA. A informação proveniente do notificador é inicialmente colhida num nível local, transmitida a uma estrutura central onde ela será avaliada e classificada de acordo com um índice restrito, depois se necessário, é difundida para uma ou varias administrações regionais, sendo que cada uma tem seus métodos de tratamento e conduta. O instrumento principal de um sistema de farmacovigilância é o boletim de notificação, que é um instrumento simples e objetivo, onde encontramos informações básicas sobre a identificação do paciente, o uso de medicamentos e sobre a suspeita reação adversa. No boletim devem constar as iniciais dos pacientes, sexo e data de nascimento, os nomes dos medicamentos envolvidos, o motivo do seu uso, a dosagem diária administrada, as datas de início e fim do período de uso, o uso concomitante de outros medicamentos, a descrição da reação suspeita observada e a identificação e o endereço do notificador. Informações sobre o comportamento da reação suspeita após a retirada ou reintrodução do medicamento em questão, a situação clínica dos pacientes no que diz respeito a patologias importantes preexistentes e resultados de exames laboratoriais realizados também podem constar no boletim. Para encontrar e agrupar as anomalias próximas ou semelhantes do ponto de vista médico foi proposto terminologias para as reações indesejáveis, sendo que a da OMS é a mais difundida. Trata-se em realidade de listas de términos sem definição, porque existem inúmeras definições, por exemplo, se compararmos as definições de vários dicionários médicos, vamos notar essas variações. Mas a ideia é não rejeitar nenhuma informação com o objetivo de melhorar o conhecimento de um medicamento e de identificar os dados imprecisos ou incoerentes. 68 CAPÍTULO 3 Utilização segura de medicamentos O método de conciliação de medicamentos tem grande impacto na prevenção de eventos adversos relacionados a medicamentos, sendo eficiente na redução das discrepâncias encontradas entre as prescrições hospitalares e os medicamentos utilizados em casa, promovendo, assim, a redução dos erros de medicação em cerca de 70%. Fonte: <http://www.ismp.org/> Para esta organização deve haver uma equipe multidisciplinar para o desenvolvimento e avaliação da conciliação de medicação. Recomenda-se elaboração de questionário para obtenção de informações dos medicamentos usados pelos pacientes nos pontos de transição (hospital, clínicas, consultórios, farmácias). Verificação minuciosa do histórico de utilização dos medicamentos, conferindo os medicamentos, conversando com os pacientes e familiares, entre outas medidas que devemos considerar para uma boa assistência e dedicar ao paciente um tratamento farmacológico correto. Para pensar algumas medidas seguras na utilização de medicamentos: » Uso de medicamentos em idosos: problema de saúde pública. » Disponibilizar assistência farmacêutica integral e racional aos idosos é um desafio. » A conciliação é parte do uso racional de medicamentos. » A conciliação é uma ferramenta sistematizadora e auxiliar.» Medidas não farmacológicas devem ser incentivadas. Responsabilidades sanitária e medicamentos Uma das estratégias da ANVISA são as ações de Farmacovigilância. Para a Organização Mundial da Saúde, a farmacovigilância é “a ciência e atividades relativas à identificação, avaliação, compreensão e prevenção de efeitos adversos ou qualquer problema possível relacionado com fármacos”. De acordo com a ANVISA, esse campo de atividade tem se expandindo e, recentemente, incluiu novos elementos de observação e estudo, como: » plantas medicinais; » medicina tradicional e complementar; » produtos derivados de sangue; 69 DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS │ UNIDADE IV » produtos biológicos; » produtos médico-farmacêuticos; » vacinas. A contribuição dos profissionais da saúde é fundamental, sobretudo na função de notificação voluntária de reações adversas. Método Dader Este método de seguimento Farmacoterapêutico (SFT) foi elaborado em Granada (Espanha), em 1999, pelo grupo de Investigação em Atenção Farmacêutica. Trata-se de um sistema simples que nos permite realizar este seguimento a qualquer paciente, em qualquer tipo de assistência sistematizada, documentada e contínua. Onde é permitido registrar, monitorar e avaliar os efeitos da farmacoterapia. Ele funciona a partir da obtenção de informação sobre os problemas de saúde e da farmacoterapia do paciente e na elaboração de sua história farmacoterapêutica. O Método propõe um procedimento concreto, no qual se elabora um estado de situação objetivo do paciente. Deste, derivam-se as intervenções farmacêuticas correspondentes, nas quais cada profissional clínico conjuntamente com o paciente e seu médico decidem o que fazer em função dos conhecimentos e condições particulares que afetam cada caso. O procedimento de AFT consta das seguintes fases: » Oferta do serviço. » Primeira entrevista. » Estado de situação. » Fase de estudo. » Fase de avaliação. » Fase de intervenção » Resultado da intervenção. » Novo estado de situação. » Entrevistas sucessivas. 70 UNIDADE IV │ DESENVOLVIMENTO DE NOVOS FÁRMACOS Você pode encontrar MÉTODO DÁDER “MANUAL DE ACOMPANHAMENTO FARMACOTERAPÊUTICO” Grupo de Investigação em Atenção Farmacêutica (CTS- 131) Universidade de Granada no site <http://www.pharmanet.com.br/atencao/ metododader.pdf> A entrevista farmacêutica consiste: a. Desde quando? Há quanto tempo toma a medicação? Serve para estabelecer relações de causalidade entre os problemas e os medicamentos. b. Quanto? A posologia do medicamento dá indícios da relação dose efeito, se há efeito dose dependente. c. Como toma? A maneira de tomar durante o dia, com alimento, antes ou depois das refeições, em hora determinada. Até quando? Por quanto tempo deve tomar a medicação. d. Como se sente? Como o efeito é percebido pelo paciente. e. Algo estranho? Relaciona-se algum efeito indesejável quando toma o medicamento. Você incrementaria esta entrevista? Quais perguntas você modificaria ou excluiria? Em sua opinião falta alguma pergunta? Quais são suas restrições? 71 Para (não) Finalizar Epidemiologia e medicamentos Segundo a ANVISA, a definição de farmacoepidemiologia é a aplicação do método e raciocínio epidemiológico no estudo dos efeitos - benéficos e adversos - e do uso de medicamentos em populações humanas. Esta reconhecida pela Portaria no 3.916/MS/GM, de 30 de outubro de 1998. Ela surge com a necessidade de avaliar os riscos associados ao emprego generalizado de medicamentos e à vigilância de sua eficácia em condições normais de uso efetividade e uma junção de farmacologia clínica e da epidemiologia. Seu desenvolvimento está centrado em uma parte ao estudo da segurança dos fármacos, sobretudo durante a etapa pós-comercialização e por outra parte no âmbito dos estudos de utilização de medicamentos. No Brasil teve seu início quando Carlos da Silva Lacaz, médico, cientista e professor, Formado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, destacou-se no estudo da medicina de doenças tropicais, e juntamente com seus colaboradores publicaram o livro “Doenças Latrogênicas”, no início da década de 70, com o objetivo de alertar os profissionais de saúde quanto ao risco relacionado ao uso dos medicamentos, podemos considerar o início das discussões relativas ao assunto farmacoepidemiologia. Doenças Iatrogênicas para farmacologia são doenças ou alterações patológicas resultantes de efeitos adversos dos medicamentos, que podem ocorrer devido a um erro médico, uma negligência, ou imprudência e imperícia de algum profissional da área de saúde, ou ainda devido ao uso inadequado de antibióticos e demais medicamentos por diagnóstico equivocados, por automedicação, uso excessivo de medicamentos ou por desinformação de como administrar a medicação, entre outros. Observamos que os ensaios clínicos não são feitos sobre um número suficiente de pacientes tratados durante um período suficientemente longo para permitir detectar todos os efeitos indesejáveis do produto estudado, e necessitam às vezes muitos recursos para sua realização que infelizmente nem sempre está disponível. Os estudos intensivos ou os estudos de coorte tem um custo muito elevado e nunca conseguem pacientes suficientes para descobrir e finalizar um estudo com segurança, por exemplo, de reações indesejáveis cuja incidência é inferior a 1 para 5000 ou 10000 pacientes. Devido a este motivo, é indispensável completar os conhecimentos de um medicamento após sua comercialização. A metodologia epidemiológica deve estar vinculada desde o começo com todos os processos de planificação da saúde, a fim de conhecer as necessidades e as demandas da população, mediante a uma nova análise e avalição de necessidades básicas. 72 PARA (NÃO) FINALIZAR Hospitais, clínicas, centros de unidades básicas, farmácias, assim como todas as organizações relacionadas à atenção de serviços de saúde, necessitam de ferramentas essenciais de epidemiologia. A Farmacologia como vimos, é essencial para a Saúde Pública e a farmacovigilância ocupa um lugar cada vez mais importante na avalição da relação risco/benefício de um medicamento. A notificação espontânea é uma fonte insubstituível de informações para estes objetos de estudos. A equipe deve ser de multidisciplinares, já que os médicos nem sempre são formados ou sensíveis a esta atividade, o que não é o caso de transformar todos os médicos em especialistas da avalição de um medicamento. Vale lembrar, que as reações podem começar antes mesmo da utilização de um medicamento, por isso ela deve ser estudada. Algumas surgem minutos ou horas depois de seu primeiro uso. Sua evolução cronológica é muito importante: uma reação que desaparece quando o tratamento é continuado tem poucas chances de ser devida ao produto utilizado, e uma reação que reaparece de forma idêntica sem a retomada da administração do medicamento, vários dias depois também tem poucas chances de ser devido ao medicamento. Agora se reaparece após a volta da administração do medicamento, tem grandes chances de ser devido ao seu uso. Uma boa avalição requer tempo, com dados bem precisos, como datas, horários início e términos da administração do medicamento e o tempo em que surge o efeito indesejável ou a anomalia. Hoje contamos com sistemas On-line de notificação. A Primeira Portaria é a Portaria CVS 04 publicada em 7/5/2005, que atualiza e institui os formulários de notificação de suspeita de RAM e desvio de qualidade, dispõe sobre seus fluxos e das providências correlatas. 73 Referências ACURIO, F. A.; GUIMARAES, M. D. C. Health care utilization and survival among patients with Aids in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Cad Saúde Pública 1998; 14(4): 811-20. BENICHOU, C. Guia Prático de Farmacovigilância. São Paulo: Editora Andrei, 1999. CAPELLÁ D.; LAPORTE J. R. Métodos empregados em estudos de utilização de medicamentos. In: Laporte JR, Tognoni G, Rozenfeld S. Epidemiologiado Medicamento. 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