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PROCESSOS DECISÓRIOS E NEGOCIAÇÃO AULA 5 Prof. Eric Gil Dantas CONVERSA INICIAL Até agora vimos, nesta disciplina, o processo decisório (o que é a decisão e seus métodos de apoio). Nesta e na próxima aula, veremos a outra parte da disciplina, tratando sobre negociação. Assim como em todos os momentos de nossa visão, estamos tomando decisões, em inúmeras oportunidades dela também fazemos negociações: de que horas sairemos para almoçar (pessoas sentem fome em horários distintos)? De que horas voltaremos do bar (um marido sua esposa sentirão sono em horários diferentes)? Ou mesmo uma pechincha no mercado (quero levar este tapete, mas só pago até R$ 800,00). No mundo organizacional, não é diferente, a ordem é haver conflitos, seja entre funcionários, entre grupos, entre empresas ou entre órgãos públicos. É algo natural em nossa sociedade, e como todo fenômeno social inevitável deve ser estudado para ser compreendido e otimizado. Nesta aula, veremos, no primeiro tema, qual é o conceito de conflito e em quais níveis ele aparece em uma organização, bem como quais são as visões acerca do conflito. No segundo tema, trataremos de uma pergunta clássica do tema: “o conflito é bom ou ruim?”. Levantaremos os pontos positivos e negativos do conflito. Adiantando a questão, veremos que o conflito pode nos trazer várias coisas boas no contexto organizacional, como a inovação. No terceiro tema, trataremos do conceito de negociação. Advinda do conflito, a negociação é necessária para que duas ou mais partes cheguem ao conflito. No quarto tema, trataremos dos estilos de negociação, se eles causam um ganho para todos ou perda para um ou até mesmo para ambas as partes. Por fim, no último tema, trataremos sobre habilidades e competências essenciais ao negociador. Bons estudos! TEMA 1 – O CONCEITO E AS VISÕES SOBRE O CONFLITO Segundo Lewicki, Saunders e Barry (2014): o conflito é definido como um “forte desacordo ou oposição de interesses, ideias, etc.” e inclui “a divergência de interesses ou a convicção de que as aspirações atuais das partes não são concretizáveis simultaneamente”. Um conflito surge da “interação de pessoas interdependentes que percebem a incompatibilidade e a interferência recíproca em relação à realização de seus objetivos”. (p. 20) 3 Ou ainda, segundo Glinow e McShane (2014), o conflito pode ser entendido por: Um processo no qual uma parte percebe que seus interesses estão sendo contrariados ou afetados negativamente pela outra parte. Ele pode ocorrer quando uma parte obstrui outra de alguma forma na busca de seus objetivos ou simplesmente quando uma parte percebe a situação dessa maneira. Em última análise, o conflito se baseia em percepções; ele existe sempre que uma parte acredita que a outra pode obstruir seus esforços, independentemente desta pretender de fato obstruí-la ou não. (Glinow; McShane, 2014, apud Garbelini, 2016, p. 20) Ou seja, o conflito ocorre quando dois objetivos antagônicos de dois agentes diferentes se chocam, e estes dois indivíduos pretendem chegar a uma solução em comum. A abrangência desses conflitos vai do macro ao micro, da organização ao indivíduo. Estes conflitos podem ser organizacionais, intergrupais, interpessoais e intraindividuais. O organizacional é o conflito generalizado quando, por todas as partes de uma empresa, ou qualquer outra organização, há conflitos. O intergrupal é um conflito entre grupos, quando um ou mais grupos conflitam entre si em uma organização. Já o interpessoal são conflitos entre diferentes indivíduos com interesses e objetivos antagônicos. E, por fim, o intraindividual é o conflito do indivíduo com ele mesmo, relacionado a dúvidas, indecisões e conflitos de interesse. Figura 1 – Níveis de abrangência de conflitos Fonte: Garbelini, 2016, p. 25. Organizacional Intergrupal Interpessoal Intraindividual Macro Micro Conflito interativo Conflito intraindividual 4 Este conflito pode ser visto de diversas formas. A literatura sobre o tema é classificada em três distintas visões sobre o conflito: (i) visão tradicional, que enxerga o conflito como algo ruim a ser evitado no processo administrativo, pois geraria disfuncionalidade no grupo ou na organização; (ii) visão das relações humanas, que percebe o conflito como consequência natural e inevitável das relações interpessoais, pois cada indivíduo tem suas particularidades (como ideias, necessidades e atitudes); e a (iii) visão interacionaista, que, sendo uma abordagem mais recente, enxerga o conflito como uma força positiva, é necessária para o desempenho eficaz de um grupos de uma organização, pois conflitos impulsionam a criatividade e, consequentemente, a inovação. Figura 2 – Três abordagens para o conflito Fonte: Garbelini, 2016, p. 28. É importante pensarmos que, independentemente de como os autores pensam o conflito, este fenômeno é inevitável em um contexto organizacional. O que nos resta é entendê-lo e aprendermos o que fazer em meio a isto. TEMA 2 – O CONFLITO É BOM OU RUIM? Como vimos no tema anterior, o conflito é enxergado de diversas formas pela literatura. Mas, afinal, ele é bom ou ruim? Funcional ou disfuncional para uma organização? Este fenômeno tem aspectos positivos e negativos para uma organização. Elenquemos inicialmente as suas repercussões positivas: • Servem de indicadores para analisar o que precisa ser melhorado; • Auxiliam o crescimento individual e organizacional; • Contribuem para que os objetivos e as metas sejam alcançados; • Estimulam a criatividade dos envolvidos; Visão tradicional • Conflito negativo • Deve ser evitado Visão das relações humanas • Conflito inevitável • Pode ser positivo ou negativo Visão interacionaista • Conflito essencial • Estímulo à criatividade e ao desenvolvimento 5 • Proporcionam a coesão entre as pessoas envolvidas, na medida em que se unem para obter uma resposta positiva (Garbelini, 2016, p. 47). Os efeitos positivos do conflito ocorrem por conta das seguintes características do fenômeno: (i) incentivam novos pensamentos; (ii) levantam dúvidas; (iii) constroem relacionamentos; (iv) abrem a mente; e (v) evitam a estagnação (Garbelini, 2016, p. 47-48). Já a repercussão negativa causada por conflitos pode ser elencada da seguinte forma: • Gera tensão e desacordo entre os envolvidos; • Gera desmotivação e incertezas, diminuindo a produtividade; • Provoca o desvio do foco principal; • Cria situações que resultam em desperdício de tempo e esforços (Garbelini, 2016, p. 48). Agora podemos ver que, apesar de em uma primeira impressão os conflitos serem fenômenos meramente negativos, há tanto fatores positivos quanto negativos. Outros pontos positivos e negativos podem ser visto no quadro abaixo. Quadro 1 – Pontos positivos e negativos do conflito Fonte: Garbelini, 2016, p. 49. Pontos positivos - Incentivo à inovação e à criatividade; - Identificação de soluções diferentes para os problemas antigos; - Melhor desempenho individual e grupal; - Aumento da sinergia entre as pessoas; - Comunicação direta e clara, diminuindo os ruídos. Pontos negativos - Estresse individual e grupal; - Clima organizacional negativo; - Redução do desempenho individual e grupal; - Desgaste das relações intrapessoais; - Comunicação falha entre indivíduos e grupos. 6 TEMA 3 – O CONCEITO DE NEGOCIAÇÃO Como Lewicki, Saunders e Barry (2014) disseram, “a negociação é o processo pelo qual duas ou mais partes tentam resolver interesses opostos. Logo, [...] a negociação é um dos vários mecanismos pelos quais as pessoas resolvem conflitos” (p. 7). Ou seja, a negociação é decorrente de uma situação anterior de conflito. Outra forma de conceituar “negociação” pode ser vista na citação de Idalberto Chiavenato, em que o autor diz:A negociação ou barganha é o processo de tomar decisões conjuntas quando as partes envolvidas têm preferências diferentes [...] as partes envolvidas precisam chegar a alguma forma de acordo ou consenso sobre assuntos ou pendências que as afetas direta ou indiretamente. (Chiavenato, 2014, p. 283, apud Garbelini, 2016, p. 75) Lewicki, Saunders e Barry (2014) afirmam que toda negociação tem ao menos seis aspectos em comum: (i) envolvem duas ou mais partes, pois apesar de uma negociação poder ocorrer consigo mesmo (assim como o conflito, na Figura 1), normalmente entendemos negociação como algo entre indivíduos ou entre grupos de indivíduos; (ii) existe um conflito de desejos entre estas duas ou mais partes, tendo a negociação justamente o objetivo de encontrar um meio de resolver tal conflito; (iii) negociam deliberadamente, ou seja, fazem isto livremente por acreditarem que este seja um método que fará eles chegarem aos seus objetivos; (iv) se espera tanto dar quanto receber neste processo de negociação, ou seja, ambas as partes têm como expectativa abandonarem seus desejos iniciais para chegarem a um denominador comum; (v) as partes preferem negociar a lutar entre si; e (vi) o sucesso da negociação envolve tanto fatores tangíveis (como um preço menor conseguido por uma das partes) como intangíveis (como motivações psicológicas – venceu, causou boa impressão, defendeu seus princípios, etc.) (Lewicki, Saunders, Barry, 2014, p. 7-9). Esses aspectos caracterizariam uma negociação, seja ela salarial, para o aluguel de uma casa ou uma negociação diplomática para se encerrar um conflito internacional. Segundo Garbelini (2016), a visão atual sobre as negociações difere de períodos anteriores, “hoje o processo de negociação se apresenta mais abrangente, sendo o foco principal a satisfação de ambos os lados, em uma negociação ganha-ganha [veremos este conceito no tema 4]” (p. 76), pois os 7 relacionamentos seriam mais duradouros (tal como o de clientes e fornecedores) e com interesses complementares, e não excludentes. TEMA 4 – OS ESTILOS DE NEGOCIAÇÃO Segundo Garbelini (2016), temos três tipos distintos de negociações: a negociação de sucesso (negociação ganha-ganha), a negociação ganha-perde e a negociação perde-perde. Vejamos o primeiro tipo, o de negociação ganha-ganha. Segundo Garbelini (2016), “o objetivo da negociação ganha-ganha é encontrar uma solução que seja aceitável para ambas as partes, satisfazendo, ao final do processo, ambos os lados do conflito, ainda que os dois tenham de ceder em alguns pontos” (p. 77). Ou seja, para que uma negociação seja caracterizada como tal, “ambas as partes devem sair satisfeitas desse processo, possibilitando que boas relações de trabalho sejam mantidas” (p. 77). Este tipo de negociação está baseada na concepção de que a negociação não é algo ruim e pode beneficiar ambas as partes. O segundo tipo, a negociação perde-ganha, “consiste em uma negociação para resolver problemas imediatos, contornando as situações-problema para que a ação seja executada a contento, somente enquanto durar o conflito, se a esperança de que o relacionamento tenha continuidade” (p. 77), não sendo recomendada para partes que precisem se relacionar posteriormente. Neste tipo de negociação, um lado sempre sairá prejudicado e o outro, beneficiado em detrimento do prejudicado. Por fim, a negociação perde-perde ocorre quando “os indivíduos envolvidos no conflito estão mais preocupados em impedir que o outro ganhe do que realmente encontrar uma solução eficaz para o conflito” (Garbelini, 2016, p. 78). Neste tipo de negociação, nenhum dos dois lados acaba com um resultado positivo. 8 Figura 3 – Estilos de negociação Fonte: Garbelini, 2016, p. 78. TEMA 5 – COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS E HABILIDADES BÁSICAS NO PROCESSO DE NEGOCIAÇÃO O ato de negociar: [...] tornou-se fator determinante para uma vida profissional, até mesmo pessoal, bem-sucedida. Trata-se de uma ferramenta cada vez mais valorizada no mundo moderno, tendo em vista a crescente pressão que empresas e pessoas sofrem para manter e elevar sua performance. (Ghisi, Martinelli, 2006, apud Garbelini, 2016, p. 78) Neste contexto, é importante entendermos quais são as competências e habilidades necessárias para um bom negociador. Garbelini (2016) listou 11 competências e 10 habilidades, as quais veremos uma por uma nos parágrafos a seguir. A primeira competência é a inteligência emocional. Tendo em vista que a negociação eleva os ânimos de qualquer um, “negociar significa, entre outras coisas, ter o domínio dos sentidos e das emoções” (Garbelini, 2016, p. 82). Esta competência garante que a racionalidade domine os instintos, trazendo segurança para a negociação. A segunda competência é a assertividade. O negociador precisa ser muito claro e objetivo, e isso ocorre porque, nas palavras de Garbelini (2016), “expor ideias de maneira consciente facilita o convencimento do outro, já que • Ambos os lados devem se sentir confortáveis com a solução final, mesmo que nem todas as suas expectativas sejam contempladas. Portanto, todos ganham. Negociação ganha-ganha • Normalmente, uma das partes utiliza seu poder para impor soluções para o conflito, não abrindo possibilidades para que a outra se manifeste, e esta sai insatisfeita do processo. Negociação ganha-perde • Ambos os lados envolvidos no conflito acabam cedendo e não se alcança um resultado satisfatório para nenhum dos lados. Negociação perde-perde 9 negociar também é convencer, de forma positiva, o cliente, trazendo-o para o seu lado” (p. 83). O negociador também precisa ter bom senso. Como o melhor tipo de negociação é aquela em que todas as partes ganham (ganha-ganha), é importante que o negociador tenha o bom senso de saber o que é positivo para todos, afinal de contas, cada parte deve ceder em algum momento para se chegar a um consenso. A quarta competência é a confiança. Nenhum tipo de negociação pode ocorrer se uma parte não tiver minimamente confiança na outra. Se um negociador não conseguir passar credibilidade para outro, a negociação está fadada ao fracasso. A quinta competência é a empatia. Tal como o bom senso, a empatia também é necessária para negociar tendo em vista que esse ato também é ceder ao outro. É necessário que nos coloquemos no lugar do outro ao fazermos qualquer negociação. Outra competência é a de pensamento sistêmico. Como disse Garbelini (2016), “cada negociação é única, pois envolve elementos diferentes que se entrelaçam e se cruzam [...]. Todas as variáveis precisam ser levadas em conta, sob pena de obstrução da negociação. A proposta é a interação e a integração entre as partes”. (p. 85) Para isso, é importante que o negociador consiga sistematizar causas e efeitos para pensar em possíveis alternativas na negociação. Também é necessário ter resistência à frustração. Toda negociação pode acabar sem o resultado esperado inicialmente. É importante que o negociador não se abale caso isso ocorra. O empoderamento é outra competência importante. Para que o negociador possa inovar e melhorar a relação com clientes ou demais partes interessadas, ele deve ter liberdade e poder de mudar o que achar necessário, mas com responsabilidade. A nona competência necessária é o que foi chamado pela autora de circularidade. “No sentido de agir em diversas frentes em movimento e conectadas, hoje é condição sine qua non para qualquer processo humano” (Garbelini, 2016, p. 86). 10 Outra competência é a orientação para resultados. Toda negociação deve ter metas claras e o negociador, tentar atingi-las, traçando o caminho adequado. Por fim, a décima primeira competência é o timing. “Existe um momento para agir. Se o negociador não tem essa percepção, a negociação não acontece e o processo ‘desanda’” (Garbelini, 2016,p. 86). Além dessas competências, Garbelini chama a atenção para as seguintes habilidades básicas que ajudam no processo de negociação: (I) analisar problemas; (II) preparar-se para a negociação; (III) saber escutar; (IV) ter controle emocional; (V) ter boa comunicação verbal; (VI) colaborar no trabalho em equipe; (VII) resolver problemas; (VIII) tomar decisão; (IX) relacionar-se bem com outras pessoas; e (X) ser ético e confiável. NA PRÁTICA Grande parte da Administração Pública é composta de servidores com estabilidade. Com isto, o conflito organizacional ganha suas particularidades, pois os funcionários passam a ter maior liberdade de expressar o que pensam. Tendo em vista que a literatura mais desenvolvida sobre o tema é pensada na iniciativa privada, é importante que o aluno elenque diferenciais entre um tipo ou outro de administração e quais as habilidades o gestor público deve ter mais desenvolvidas para tratar da questão pública do que da privada. FINALIZANDO Nesta aula, vimos o início do tema sobre negociação. Tema fundamental para qualquer gestor público, vimos que um outro fenômeno o antecede, o de conflito. A negociação é decorrente de um estágio anterior de conflito. Vimos que a literatura trata o conflito de formas distintas (com visões positivas e visões negativas sobre o tema) e que este conflito ocorre em vários níveis em uma organização. Também vimos que o conflito tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Posteriormente, vimos como os autores conceituam negociação e quais são os estilos possíveis de negociar (ganha-ganha, ganha-perde e perde- perde). Por fim, vimos que há habilidades e competências essenciais para o negociador. 11 REFERÊNCIAS GAMBERLINE, V. M. P. Negociação e Conflitos. Curitiba: Editora Intersaberes, 2016. LEWICKI, R.; SAUNDERS, D.; BARRY, B. Fundamentos de negociação. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.