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Exercícios de micro-história AF_livro final ok.indd 1AF_livro final ok.indd 1 4/12/2009 15:03:134/12/2009 15:03:13 AF_livro final ok.indd 2AF_livro final ok.indd 2 4/12/2009 15:03:134/12/2009 15:03:13 M Ô N I C A R I B E I R O D E O L I V E I R A C A R L A M A R I A C A R V A L H O D E A L M E I D A O R G A N I Z A D O R A S Exercícios de micro-história AF_livro final ok.indd 3AF_livro final ok.indd 3 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 Copyright © 2009 Mônica Ribeiro de Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida Direitos desta edição reservados à EDITORA FGV Rua Jornalista Orlando Dantas, 37 22231-010 | Rio de Janeiro, RJ | Brasil Tels.: 0800-021-7777 | 21-3799-4427 Fax: 21-3799-4430 E-mail: editora@fgv.br | pedidoseditora@fgv.br www.fgv.br/editora Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (Lei no 9.610/98). Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade do autor. Este livro foi editado segundo as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pelo Decreto Legislativo no 54, de 18 de abril de 1995, e promulgado pelo Decreto no 6.583, de 29 de setembro de 2008. 1a edição — 2009 Versão digital — 2012 PreParação de originais: Daniela Duarte Candido, Maria Lúcia Leão Velloso de Magalhães, Sandra Frank revisão: Adriana Alves Ferreira e Catalina Arica CaPa e diagramação: Santa Fé ag. Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen / FGV Exercícios de micro-história / Organizadores: Mônica Ribeiro de Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida. — Rio de Janeiro : Editora FGV, 2009. 300 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-225-0898-3 1. História — Metodologia — Coletânea. 2. Historiografia — Coletânea. 3. História social — Coletânea. I. Oliveira, Mônica Ribeiro de. II. Almeida, Carla Maria Carvalho de. III. Fundação Getulio Vargas. CDD – 907-2 Sumário Apresentação 7 Mônica Ribeiro de Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida Prefácio 11 Giovanni Levi Parte I: A micro-história e seus precursores 17 1. Microanálise e história social 19 Edoardo Grendi 2. Paradoxos da história contemporânea 39 Edoardo Grendi 3. Reciprocidade mediterrânea 51 Giovanni Levi 4. Economia camponesa e mercado de terra 87 no Piemonte do Antigo Regime Giovanni Levi AF_livro final ok.indd 5AF_livro final ok.indd 5 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 Parte II: O diálogo com a história e a historiografi a 111 5. Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultura 113 Cássio da Silva Fernandes 6. Pensando as transformações e a recepção da micro-história no debate histórico hoje 131 Henrique Espada Lima Parte III: Exercícios de micro-história 155 7. O capitão João Pereira Lemos e a parda Maria Sampaio: notas sobre hierarquias rurais costumeiras no Rio de Janeiro do século XVIII 157 João Fragoso 8. Indivíduos, famílias e comunidades: trajetórias percorridas no tempo e no espaço em Minas Gerais — séculos XVIII e XIX 209 Mônica Ribeiro de Oliveira 9. Redes de compadrio em Vila Rica: um estudo de caso 239 Renato Pinto Venâncio 10. Os vínculos interfamiliares, sociais e políticos da elite mercantil de Lima no fi nal do período colonial e início da República: estudos de caso, metodologia e fontes 263 Cristina Mazzeo de Vivó Sobre os autores 297 AF_livro final ok.indd 6AF_livro final ok.indd 6 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 Apresentação Mônica Ribeiro de Oliveira Carla Maria Carvalho de Almeida A grande ressonância da perspectiva metodológica da micro-história é hoje um fenômeno inquestionável. Esse movimento, inicialmente restrito à produção historiográfi ca italiana, vem ganhando adeptos em todo o mundo, inclusive no Brasil. Desde as últimas décadas do século XX, os questionamentos à validade das grandes sínteses começaram a chamar a atenção para o perigo de se excluir o sujeito da história ou de se perder a historici- dade de suas ações. As análises estruturais baseadas em grandes cor- tes cronológicos e na quantifi cação não incorporariam a ação do sujeito como ator histórico importante na defi nição do rumo dos fenômenos e dos processos históricos. E mais ainda — e em decor- rência disso —, não conseguiriam compreender as estratégias indi- viduais que podiam tornar mais compreensível aquela realidade mais estrutural. Também não permitiriam apreender as ações daqueles atores históricos que eram motivadas por outras lógicas que não as da sociedade contemporânea. Outra ordem de problemas levantados por esses questionamentos dizia respeito à organização comparti- mentada da disciplina história, o que acabou por criar fronteiras rí- gidas entre as histórias social, econômica, política e cultural. Em meio aos grandes embates travados por força de tais pondera- ções, teve início um processo de compreensão de que seria necessário AF_livro final ok.indd Sec3:7AF_livro final ok.indd Sec3:7 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 8 repensar o papel do sujeito na história e reduzir a escala de observação. A experiência — individual ou coletiva — resgatada empiricamente passou a desempenhar um papel mais destacado no trabalho dos his- toriadores do que as explicações baseadas nas deduções lógicas que as grandes sínteses teóricas produziam. A micro-história italiana foi uma das respostas formuladas a partir de tais questionamentos. Ao conceber a priori toda a história como social e ao buscar uma alternativa de análise capaz de transcender as análises de cunho generalizante dos denominados agregados anôni- mos, a micro-história surgiu como uma proposta de análise dinâmi- ca da sociedade que não impunha ao estudo do passado uma ordem artifi cial e automática. A micro-história propõe uma refl exão histó- rica em constante busca da totalidade, mesmo sendo esta compreen- dida como resultante do reconhecimento da ação individual e da percepção de sua trajetória. Parte do pressuposto de que os indivídu- os e os grupos têm uma complexidade difícil de ser reduzida aos fe- nômenos econômicos ou políticos. O interesse volta-se para a análi- se das diferenças, dos confl itos e das escolhas, situações em que a complexidade dos fenômenos históricos teria maior possibilidade de ser resgatada. A micro-história propõe um procedimento quase ar- tesanal de aproximação do objeto, à semelhança do olhar através de um microscópio, que revela uma série de aspectos antes impossíveis de detectar pelos procedimentos formais da disciplina. Utilizando-se da redução de escala de observação para o entendimento de questões mais gerais, a micro-história resgata o elo entre o micro e o macro. Este livro é em grande parte resultado das refl exões desenvolvidas durante o II Colóquio do Lahes: Micro-História e os Caminhos da História Social, realizado em outubro de 2008 na Universidade Fede- ral de Juiz de Fora (UFJF), com o apoio da Fapemig, da Capes e do PPGHIS/UFJF. O Laboratório de História Econômica e Social (Lahes), criado em 1997, está ligado à linha de pesquisa História, Mercado e Poder, do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. Nesse encontro, o objetivo foi defi nir alguns eixos temáticos caros à história social (redes sociais, família, parentesco, estratégias sociais) e discutir AF_livro final ok.indd Sec3:8AF_livro final ok.indd Sec3:8 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 AP R ES EN TA ÇÃ O 9até que ponto as proposições da micro-história se adequam aosobjeti- vos dos historiadores que lidam com tais temas, ou se outras opções metodológicas seriam mais apropriadas para abordá-los.1 Na primeira parte do livro, dedicada aos precursores da micro- história, são apresentados à comunidade acadêmica brasileira, tradu- zidos para o português, quatro importantes textos de Edoardo Grendi e Giovanni Levi. Os dois primeiros — “Microanálise e his- tória social” e “Paradoxos da história contemporânea” —, de 1977 e 1981, respectivamente, e ainda inéditos em língua portuguesa, são da autoria de Edoardo Grendi, considerado o principal responsável pela difusão desse campo de investigação e pela dimensão que o debate teórico sobre a micro-história alcançou, a partir da década de 1970, através do periódico italiano Quaderni Storici. Originariamente publicados em 1990 e 2000, e também inéditos em língua portuguesa, os outros dois textos que compõem a primei- ra parte deste livro são da autoria de Giovanni Levi. Em “Recipro- cidade mediterrânea”, partindo das noções de equidade, analogia e reciprocidade, Levi discute as especifi cidades das formas jurídicas das nações católicas do sul da Europa e sugere uma polarização entre países com direitos fortes em que a lei restringe a liberdade de inter- pretação dos juízes e países em que a origem teológica do conceito de justiça permite aos juízes uma ampla margem de interpretação, mediante uma leitura muito específi ca da equidade. No texto “Eco- nomia camponesa e mercado de terra no Piemonte do Antigo Regi- me”, Giovanni Levi emite valiosos alertas aos historiadores interes- sados em investigar as transações mercantis com a terra nas sociedades da Idade Moderna. Segundo Levi, a terra era a base da produção, mas também do sistema de poder e de proteção social que caracteri- zava todo o sistema político nessas sociedades. Assim sendo, “a cir- culação mercantil da terra, não impossível, mas complexa e viscosa, obstaculizava a fl uidez: direitos familiares, senhoris, comunitários, 1 Para a organização desse evento e da presente obra contamos com o precioso apoio do professor dr. Cássio da Silva Fernandes, da professora dra. Ângela Brandão e do professor dr. Henrique Espada Lima. AF_livro final ok.indd Sec3:9AF_livro final ok.indd Sec3:9 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 10 monárquicos, enfi m, contribuíam para fazer da terra algo que só muito arbitrariamente podia ser considerado um investimento pelo mercado”. Nos dois textos fi cam evidentes as especifi cidades das so- ciedades modernas cujas lógicas de funcionamento são muito distin- tas daquelas que caracterizam as sociedades capitalistas. Presente ao II Colóquio, Giovanni Levi brindou ainda a todos com as importan- tes refl exões contidas no prefácio deste livro, no qual traça uma bre- ve trajetória da micro-história, desde sua origem à ressonância nos meios acadêmicos, e deixa também explícita sua própria concepção de micro-história e sua expectativa em relação ao seu devir. Na segunda parte, são apresentados dois textos de caráter historio- gráfi co. Em “Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultu- ra”, Cássio da Silva Fernandes procura discutir as interlocuções possí- veis entre micro-história, história da cultura e história interpretativa, analisando alguns aspectos do percurso de Delio Cantimori que tan- genciariam a perspectiva metodológica que depois de sua morte fi cou conhecida como micro-história. Em “Pensando as transformações e a recepção da micro-história no debate histórico hoje”, Henrique Espa- da Lima trata das transformações e da recepção da micro-história no debate histórico atual, centrando sua atenção no panorama intelectu- al mais amplo que transformou de modo signifi cativo o campo da história social entre os anos 1970 e tempos mais recentes. Na terceira e última parte do livro, a exemplo da exortação de Giovanni Levi em sua última frase do Prefácio, os historiadores João Fragoso, Mônica Ribeiro de Oliveira, Renato Pinto Venâncio e Cristina Mazzeo de Vivó apresentam suas pesquisas empíricas volta- das para o resgate de como os homens organizavam suas vidas no passado, e o signifi cado e o sentido do mundo para indivíduos, famí- lias, aventureiros, escravos e comerciantes. Ou seja, os quatro últimos capítulos constituem bons exemplos de exercícios de micro-história. AF_livro final ok.indd Sec3:10AF_livro final ok.indd Sec3:10 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 Prefácio* Giovanni Levi Farei uma imagem muito particular da micro-história ao dizer que seu surgimento no fi nal dos anos 1960 teve para mim, antes de tudo, uma origem política. Eram anos de cansaço para a esquerda italiana, nos quais muitas tensões e muitos acontecimentos misteriosos e jamais so- lucionados — entre a restauração conservadora depois do outono quen- te e o ano de 1968, o terrorismo, atentados e a desconfi ança do movi- mento sindical e das suas instâncias conciliares e igualitárias —, tinham posto em evidência a fragilidade das forças progressivas na Itália e os limites e a inércia de suas análises políticas. Filha de uma longa tradição operária, a esquerda italiana se afi rmou segundo o pertencimento de classe, escolhas políticas e ideológicas. E diante da profunda mutação da ordem econômica e social, as simplifi cações de leitura começavam a revelar toda a sua esterilidade. Isso era tanto mais verdadeiro na histo- riografi a, na história do movimento operário, quanto na interpretação histórica do desenvolvimento distorcido da economia italiana. A micro-história nasceu então, pelo menos para mim, da neces- sidade de recuperar a complexidade das análises; da renúncia, por- tanto, às leituras esquemáticas e gerais, para realmente compreender como se originavam comportamentos, escolhas, solidariedades. ∗ Tradução de Ângela Brandão. AF_livro final ok.indd Sec2:11AF_livro final ok.indd Sec2:11 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 12 Havia modelos importantes dessa refl exão, a começar pela leitura de Gramsci feita pela historiografi a marxista inglesa — E. P. Thomp- son em particular —, ou pelo trabalho minucioso dos antropólogos de Manchester — Clyde Mitchell, por exemplo —, ou por pesqui- sadores no fundo isolados, mas muito inovadores, como Natalie Ze- mon Davis. E, portanto, na redação da revista Quaderni Storici, com a qual muitos de nós colaborávamos (Edoardo Grendi, Carlo Poni, Carlo Ginzburg), teve início o debate do problema que poderíamos defi nir como de recuperação da complexidade. Em 1980/1981, surgiu assim a coletânea Micro-histórias, lançada pelo editor Einaudi, com um breve manifesto — “Notiziario Ei- naudi”, de junho de 1981 — que, apesar de levar minha assinatura, era produto do debate com outros pesquisadores, sobretudo com Ginzburg, com quem passei depois a dirigir a coleção. Acredito que esta seja uma boa ocasião para me referir a esse documento, que, depois, pareceu-me injustamente desaparecido da discussão. Os historiadores discutem frequentemente suas classifi cações, como o duque d’Auge no Flores azuis, de Queneau, ao interrogar dom Biroton, o capelão: — Diga-me uma coisa, este Concílio de Basileia é história universal? — Mas sim: é história universal em geral. — E os meus canhõezinhos? — História geral em particular. — E o matrimônio das minhas fi lhinhas? — Com esforço, é história acontecimental. No máximo, micro- história. — História como? – grita o duque d’Auge – que diabo de lin- guagem é essa? Que dia é hoje? Pentecostes? — Queira desculpar-me, senhor. Efeitosdo cansaço. Essa irônica hierarquia das histórias e o cansaço do capelão são, por certo, muito diversos das motivações que deram origem à cole- tânea Micro-histórias. A condenação do acontecimento em prol dos AF_livro final ok.indd Sec2:12AF_livro final ok.indd Sec2:12 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 PR EF ÁC IO 13fenômenos estruturais é uma discussão que então teve o seu tempo. Mas o problema permanece. Como fazer para chegar às generaliza- ções sem descartar os indivíduos, as situações? Ou, vice-versa, como descrever situações, pessoas, sem cair em tipologias, exemplos, e sem renunciar à compreensão dos problemas gerais? Talvez seja partindo desse problema insolúvel que os historiado- res frequentemente são levados a falar de suas insatisfações, muitas vezes confrontadas com a descoberta de situações novas, objetos no- vos. O resultado corre o risco de ser um tanto lamentável: a histo- riografi a excluiu as classes populares, as mulheres, as culturas orais, a vida cotidiana, os mundos marginais, as sociedades diferentes da nossa. E não quero, por certo, subtrair minha parte de lamentação. Mas não basta falar de alguém para incluí-lo na história do mundo, para mostrar sua presença e relevância. O importante é como falar desse alguém. A micro-história pretende ser antes de tudo uma tentativa: narra, mas sem esconder as regras do jogo que o historiador seguiu. Cer- tamente, não apenas remetendo aos documentos — isso faz parte da ética profi ssional —, mas por meio de uma clara declaração do pro- cesso pelo qual a história foi construída: os caminhos certos e erra- dos, o modo de formular as perguntas e procurar as respostas. Por- que o minucioso trabalho de laboratório não deve permanecer escondido, e a receita não deve permanecer um segredo do cozi- nheiro. Porque talvez os verdadeiros excluídos da atenção dos his- toriadores não sejam os protagonistas descuidados dos eventos, mas, sim, os leitores esmagados pelas pesadas interpretações gerais, pelas opiniões discutidas com as armas díspares de quem escreve e de quem lê, pelos mecanismos causais simplifi cados e estabelecidos a partir de uma percepção tardia. Por essas indagações serem feitas a partir da revelação do nome do assassino, o verdadeiro excluído é o consumidor de livros de história. Portanto, a micro-história não é, necessariamente, a história dos excluídos, dos pequenos, dos distantes. Pretende ser a reconstrução de momentos, de situações, de pessoas que, investigadas com olho AF_livro final ok.indd Sec2:13AF_livro final ok.indd Sec2:13 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 14 analítico, em âmbito circunscrito, recuperam um peso e uma cor; não como exemplos, na falta de explicações melhores, mas como re- ferências dos fatos à complexidade dos contextos nos quais os homens se movem. A escala é habitualmente reduzida e isso coloca repentinamente em discussão os instrumentos conceituais do nosso ofício: desgasta- dos pelo uso, entre alusão e metáfora, cobriram-se da ferrugem da ambiguidade. Pensemos, por exemplo, nas defi nições cômodas que agora se dão para explorar posicionamentos e comportamentos po- líticos ou estratifi cações sociais de poder: cultura popular, setores médios, classe operária, Estado absoluto, camponeses. Malgrado sua utilidade hoje, requerem cada vez mais a especifi cação e a verifi ca- ção das situações concretas, nas quais o indivíduo abstrato torna a pertencer, na realidade, a uma forma particular de sociedade, cujas circunstâncias concretas permitem compreender os sucessos e os in- sucessos dos seus esforços para mudá-la. Ao escolhermos os títulos da coletânea, partimos dessas conside- rações, que nos propunham duas alternativas não mistifi cadoras para o estudo dos mecanismos causadores de fatos sociais. Por um lado, o consciente isolamento de um sistema normativo — as leis dos matri- mônios consanguíneos do livro de Raul Merzario, por exemplo —, sem introduzir sub-repticiamente a pretensão de que isso explique uma sociedade em sua complexidade: é o isolamento de um frag- mento sob a lente do pesquisador e do leitor que, para funcionar, estará imerso no contexto complexo, mas que experimentalmente se faz mover no vazio. Por outro lado, o próprio estudo das situações ou pessoas no seu contexto, isto é, na complexa relação de escolha livre e dos vínculos que indivíduos e grupos estabelecem nos interstícios da pluralidade contraditória dos sistemas normativos que coman- dam. Essas escolhas e contradições são o motor interno da mutação social, que, desse modo, não é vista em sentido único, como um poder imóvel e imutável apenas nos momentos extraordinários de revolta aberta, mas como fruto de um contínuo confl ito, cujos efei- tos o historiador pode mensurar. O normal e o cotidiano tornam-se AF_livro final ok.indd Sec2:14AF_livro final ok.indd Sec2:14 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 PR EF ÁC IO 15assim protagonistas da história, e situações singulares assumem a in- tensidade dos pontos de vista pelos quais se podem explicar os fun- cionamentos sociais complexos. Muito frequentemente, as explicações que elucidam os mecanis- mos casuais tendem a descrever o passado como um feroz mecanismo de necessidades biológicas, políticas, econômicas. Introduziu-se, as- sim, uma visão evolucionista, apologética do presente e do fato exis- tente. Nesse sentido, as duas alternativas que procuraremos docu- mentar e as regras em confl ito atuantes em cada situação pretendem também ser uma perspectiva de pesquisa diferente. Os escritos de E. P. Thompson, que estão na raiz de toda a renovação da história so- cial, são, segundo o autor, uma resposta àqueles que descrevem “o homem como subjugado pela necessidade e sobre o qual domina um único absoluto”. As palavras-chave eram então evidentes: lente ou microscópio, experimento, contestação, complexidade, escolha, vínculos, inters- tícios, confl ito, ponto de vista. Mais uma série de práticas e de mé- todos do que uma teoria. Todavia, a proposta da micro-história atin- gia um mundo historiográfi co muito sensível. Não foi apenas o tom de reviravolta que caracterizou os anos 1980 desde o seu início. Também a crise do sistema soviético que se avizinhava e a fragmen- tação do sistema mundial depois do fi m da bipolaridade fi zeram sen- tir, com brutal evidência, seus efeitos no debate historiográfi co, pon- do em crise a historiografi a de inspiração marxista, mas também de modo mais geral a história social, a experiência central dos Annales franceses, que falavam de ponto de mutação, ou dos Subalterns studies indianos, que abandonaram o marxismo para voltar sua atenção de modo especialmente confuso para os estudos pós-coloniais: no cen- tro das atenções progressivamente apareceram temáticas culturais que pouco a pouco se abriram às dúvidas relativísticas do descons- trutivismo ou à identifi cação da historiografi a com a fi cção. Afi nal, a própria historiografi a perdera sua centralidade nas ciências huma- nas, porque é difícil estudar o passado quando não há perspectivas de futuro e também porque o papel central que desempenhara até os AF_livro final ok.indd Sec2:15AF_livro final ok.indd Sec2:15 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 16 anos 1960 a tinha atrasado com relação ao debate que outras ciências humanas travavam, sobretudo no que diz respeito à defi nição de uma racionalidade incompleta e não uniforme na teoria econômica, à autoridade do cientista na antropologia,à ambiguidade das identi- dades pessoais e a não linearidade do personagem homem na teoria literária e no romance. E, contemporaneamente, também o senso comum historiográfi co tinha mudado devido à simplifi cação e à agi- lidade com que os mass media propunham temáticas, que a lentidão e a complexidade da pesquisa histórica não estavam em condições de fazer frente sem uma profunda renovação. E também os leitores ti- nham diminuído, frequentemente mais atraídos pelas imagens do que pela página escrita, mais pela internet do que pelos livros. Uma atmosfera modifi cada que hoje ainda encontra difi culdade para se organizar em um quadro mais sólido. Também a micro-história, pressionada por todos os lados, sofreu alterações, interpretações distorcidas, simplifi cações. No entanto, sua proposta teve e continua a ter forte ressonância, também porque revelou, a meu ver, maior sensibilidade do que a história mais acadê- mica às novas instâncias que os novos pesquisadores e os novos leito- res colocavam. Quis, no fundo, mostrar não a fragilidade das gene- ralizações em história, mas que aquilo que o historiador pode e deve generalizar são as perguntas, que podem ser colocadas em contextos de temporalidades e espacialidades diferentes, deixando às situações singulares a sua especifi cidade irrepetível. Em um mundo que não acredita mais na possibilidade de encontrar fundamentos comuns e universais, a indagação sobre como organizar os homens e dar senti- do ao mundo de cada um continua a exigir de nós exercícios de micro-história. AF_livro final ok.indd Sec2:16AF_livro final ok.indd Sec2:16 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 P A R T E I A micro-história e seus precursores AF_livro final ok.indd Sec2:17AF_livro final ok.indd Sec2:17 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 AF_livro final ok.indd Sec2:18AF_livro final ok.indd Sec2:18 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 1 Microanálise e história social* Edoardo Grendi 1 No número 34 de Quaderni Storici, Villani e Romanelli retomam a discussão sobre a história (social) contemporânea.1 O primeiro, um típico “otimista”, tenta descobrir a nova alvorada em uma série de trabalhos recentes de valor e coerência desigual; o segundo, um tí- pico “pessimista”, pergunta-se por que a alvorada não chega e atri- bui a culpa disso aos esquemas práticos e mentais dos historiadores contemporaneístas. Tal “reifi cação” acontece em duas direções: contra a simplifi cação ideológico-política da análise marxista como princípio historiográfi co, e contra a simplifi cação teórica que deriva da aceitação generalizada de categorias e de um modelo interpreta- tivo destinados a explicar um processo histórico específi co, como a 1 Os textos a que Grendi faz referência aqui são Villani (1977) e Romanelli (1977). * Tradução e notas de Henrique Espada Lima do artigo “Microanalisi e storia so- ciale”, publicado em Quaderni Storici, v. 12, n. 35, p. 506-520, ago. 1977. O texto é, na verdade, uma intervenção em um debate sobre história social que acontecia nas páginas da revista e seguiu textos publicados por Pasquale Villani e Raffaele Roma- nelli, dois historiadores da Itália contemporânea. O debate em torno da história social continuou em outros artigos, mas este texto em especial acabou por tornar-se uma referência central no debate sobre a microanálise social e, a partir daí, sobre as escolhas metodológicas da chamada “micro-história” italiana. AF_livro final ok.indd Sec1:19AF_livro final ok.indd Sec1:19 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 20 revolução industrial e o capitalismo ingleses. Consequentemente, a crítica é dupla, no sentido de que uma simplifi cação se sobrepõe à outra. Daí uma conclusão cética, temperada ou acentuada, como se diz, por um tipo de escatologia historiográfi ca, confi ada à microa- nálise. Menos dramaticamente, Villani, que prefere o “devir histo- ricista”, vê na microanálise histórica um momento complementar e subalterno a um trabalho de síntese, colocando explicitamente o problema da reconstrução da estratifi cação social na escala nacional em uma perspectiva de “grandes problemas” — mas sem indicar o suporte analítico e os modos operativos. Um exemplo de “simplifi - cação teórica”? Com efeito, os grandes problemas adquiriram certa dimensão intuitivo-ideológica: um pouco como aquele sujeito que invariavelmente responde às nossas perguntas remetendo-se à com- plexidade do real — o que, no fi m das contas, acaba sendo um con- vite para deixar para lá. Uma atitude, de todo modo, bastante difundida: a história social é identifi cada com a questão das classes, da estratifi cação e da estru- tura social, partindo-se do pressuposto de que se trata de realidades em si, objetais. A esse propósito cabe recordar a polêmica dos antro- pólogos (de Edmund Leach em diante) contra essa entifi cação da estrutura — a estrutura de parentesco, por exemplo —, coerente com o ponto de vista de E. P. Thompson, que nega essa realidade em si à classe, propondo-a, ao contrário, como “relação”. Mas vale tam- bém o ensinamento que os historiadores podem tirar dos trabalhos de Adeline Daumard e de seus colaboradores, nos quais as classes são empiricamente articuladas nos grupos socioprofi ssionais, assim como fazem os marxistas, que distinguem “classe em si” e “classe para si”, tendo como base aquela discriminante “consciência” que precisa- mente Thompson resolve na relação (que ele tenha feito isso em termos impressionistas e literários, essa é outra questão). Se esse é, aproximadamente, o emaranhado crítico ante o qual nos encontramos, é preciso considerar a possibilidade da pesquisa histórica a partir de seu ângulo analítico. Não há dúvida de que a abstração em termos de profi ssões e níveis de fortuna permite o máximo de agre- AF_livro final ok.indd Sec1:20AF_livro final ok.indd Sec1:20 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 21gação geral (basta “contar”), prescindindo, obviamente, das infi nitas possibilidades das agregações ideológico-intuitivas, manipuláveis a gosto. O fato é, porém, que essa pesquisa acaba revelando sua própria qualidade abstrata, de modo a exigir integrações complementares, que remetem a um exame dos comportamentos: para qualifi car tanto os grupos — por exemplo, os “estilos de vida” ou os regimes alimen- tares — quanto à relação entre os grupos — como interagem, como um é refl exo da consciência do outro. De modo que o projeto agre- gativo corre o risco de fraturar-se: o exame das relações entre grupos (e nos grupos) impõe uma rígida concretude socioparcial. Sublinhemos a passagem analítica do conceito de classe ao de gru- po social: não sem razão Eric Wolf lamentou a carência de uma teo- ria dos grupos sociais na elaboração teórica marxista, o que acabou por confi nar o conceito de classe a uma dimensão de pré-julgamento, isto é, não analítico-operativa. E esses grupos sociais podem ser qua- lifi cados diversamente, integrando-se dados (idade, sexo, riqueza, profi ssões) e comportamentos (residência, escolha no cônjuge, alian- ça/rivalidade etc.). Gostaria de recordar a Villani o interesse de algu- mas pesquisas recentes — Le Couturier, A. Anderson, J. Foster —, que propõem, em termos rigorosamente quantitativos, o exame das solidariedades sociais, cruzando, assim, dados e comportamentos. Vale a pena observar a propósito como a nova história urbana re- corre sistematicamente não aos censos, mas à revelação de base cons- tituída pelos “formulários de recenseamento”, anterioresa qualquer elaboração: e isso corresponde a uma verdade óbvia, isto é, a diferen- ça entre os objetivos dos historiadores de hoje e os das autoridades censitárias de ontem. O recurso aos formulários de dados das famí- lias individuais é um pressuposto de toda integração prosopográfi ca e, portanto, da própria base concreta da pesquisa analítica; partir dos censos elaborados signifi ca já condicionar unilateralmente o traba- lho, abstrair o social, envolver-se em um confronto estéril com as categorias de agregação das autoridades administrativas do passado. Como deixar de lado, por exemplo, um aspecto de relevância já comprovada, como o da correspondência entre a morfologia social e AF_livro final ok.indd Sec1:21AF_livro final ok.indd Sec1:21 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 22 a morfologia da ocupação do espaço, na qual insistem de comum acordo historiadores antigos e medievais, antropólogos e sociólogos, e que a própria dinâmica das cidades contemporâneas repropôs e repropõe constantemente? O mesmo se aplicando ao exame dos comportamentos matrimoniais, um tema recente da história demo- gráfi ca, mas desde sempre um tema óbvio para a qualifi cação das homogeneidades dos grupos sociais. Nesse sentido, de resto, os te- mas de análise têm por destino multiplicar-se também em termos qualitativos, quando amadurecer uma metodologia adequada. E é por esse caminho, que exige certamente um maior esforço de trabalho, que poderá ser colocada uma questão igualmente impor- tante como a do crescimento da escala social, isto é, da ampliação da unidade socioparcial relevante. Mesmo que ainda não saibamos como operar no domínio histórico-analítico para corresponder ao diagnós- tico dos processos de unifi cação cultural em andamento como efeito de uma estruturação institucional articulada, da alfabetização, da po- litização e dos modelos de imitação. Coloquemos uma simples ques- tão: a industrialização distinguiu ou uniformizou as estruturas so- ciais? Posto nesses termos, o problema cabe à história comparativa, e uma vez que faz obviamente referência a espaço e tempo, torna-se difícil ver como proceder de outro modo que não através de uma série de case studies, para depois, eventualmente, considerar tipolo- gias. Villani parece postular que existe um mapa mudo de dimensões nacionais (o do censo) a ser preenchido com sinais conhecidos ou, de todo modo, pré-constituídos (as classes ou os grupos socioprofi ssio- nais retirados dos censos). Na base, o que opera aqui é o mesmo processo de simplifi cação teórica que Romanelli denuncia: a expec- tativa de que por esse caminho se possa chegar a quadros comparáveis no tempo, que qualifi quem a dinâmica social como progresso, sem- pre prescindindo do espaço, segundo os módulos correntes do mode- lo liberal-marxista. Esse é, de fato, o “devir historicista”, o “sentido” para Romanelli, ante o qual a microanálise vale como uma “suspen- são do juízo, uma tomada de consciência da perda de sentido — que me parece o primeiro passo da reconquista de uma verdade”. Aceite- AF_livro final ok.indd Sec1:22AF_livro final ok.indd Sec1:22 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 23mos a apresentação retórica de uma inversão de valores (sentido/não sentido). Na verdade, reconheço uma disjunção entre as teses teóri- cas do pensamento dominante às quais se refere Romanelli e grande parte dos produtos historiográfi cos, considerados uma ilustração de uma operatividade analítica independente. Com relação às teses que não dizem respeito apenas ao modelo do capitalismo industrial, a perspectiva de microanálise histórica que se tenta ilustrar aqui tem certamente um signifi cado radicalmente contestatório. 2 Vale indicar de imediato o “campo de interesse” específi co, mesmo com o risco de cair no ridículo da abstração mais grave, aquela do concreto total. Digamos que se trate do “universo relacional”; por- tanto, do campo das relações interpessoais, forçosamente válido para uma microárea. Essa escolha explica o interesse pela história demo- gráfi ca, ou seja, a disciplina que coloca seus problemas em relação direta com a sociedade total. Que a demografi a faça isso recorrendo antes de tudo a números e, em particular, para contar eventos vitais é relativamente secundário. De fato, a reconstrução das famílias per- mite a identifi cação desses núcleos-base, a qualifi cação de sua situa- ção em um ciclo de desenvolvimento, a posterior elaboração de ge- nealogias. Os apontamentos daí derivados podem ser enriquecidos, antes de tudo, a partir da utilização mais sistemática da própria fonte dos registros paroquiais, identifi cando, por exemplo, testemunhas de núpcias, padrinhos de batismo e de crisma, operações que permitem mapear relações não secundárias. E ainda, sobretudo, a partir do es- tudo de fontes até agora pouco utilizadas, como contratos notariais, atos de jurisdição civil e criminal, cadastros, parlamenti, registros con- tábeis, atos privados que remetem a fontes “centrais” de caráter judi- ciário, contábil, fi scal, político, censitário. Cada informação exprime um dado ou, mais frequentemente, uma relação. Existe assim a pos- sibilidade de reconstruir histórias de família e, às vezes, por alguma feliz coincidência de fontes, histórias individuais sufi cientemente ri- AF_livro final ok.indd Sec1:23AF_livro final ok.indd Sec1:23 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 24 cas — típicas ou excepcionais —, sendo ainda possível pôr em relevo relações interindividuais contínuas, isto é, estruturadas (por exem- plo, relações de débito/crédito). Consideremos o cartório. Podemos distinguir nele diversos tipos de informações, como doações, testamentos, reconhecimento de dé- bitos (dos mais diferentes tipos), quitações, vendas, aluguéis, contra- tos de trabalho, procurações, arrendamentos, e ainda reuniões de ordens e irmandades, congregações religiosas, universidades, comu- nidades etc. A linguagem e o tipo de relação documentadas valem como documentos históricos no sentido pleno da expressão: além de revelarem as relações entre dois ou mais sujeitos, têm, também por isso, um sentido cultural, na medida em que atestam um costume ou uma tipicidade. Apresenta-se nesse ponto um problema técnico específi co: o de como recolher os dados e como elaborá-los — um problema que Le Couturier, em particular, discutiu há tempos e que induziu outros a declarar a morte do historiador-artesão. Não pretendo, porém, tra- tar dessa questão, mas da organização “conceitual” dos dados, que é, de resto, anterior à questão citada. Considero que o estudo das sociedades camponesas, do que cos- tuma se chamar de antropologia das sociedades complexas, pode oferecer diversas sugestões e instrumentos conceituais operativos. Isso, mesmo tendo consciência de que o mapeamento documental das relações interpessoais corresponde apenas aproximadamente à pesquisa de campo. De resto, a rápida expansão dos estudos das comunidades euro- peias nos anos 1960-1970 e na década corrente colocou o problema específi co da utilização das fontes históricas. W. A. Douglass (1975), comentando alguns desses trabalhos, insiste em que os dados do antropólogo não são apenas “o fl uxo da vida social assim como se desenrola diante dos olhos do observador participante”. O trabalho de campo é, em geral, breve demais, não podendo seguir direta- mente os muitos ciclos de atividade que caracterizam mesmo as me-nores comunidades, o que justifi caria o recurso a enquetes, técnicas AF_livro final ok.indd Sec1:24AF_livro final ok.indd Sec1:24 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 25de amostragem, entrevistas informais e diretas, documentos escri- tos. O que distingue a antropologia das outras ciências humanas, portanto, não é tanto a metodologia, mas a ênfase característica na abordagem holística para o estudo do comportamento humano, não obstante o fato de que, por óbvias razões heurísticas, seja sempre necessário impor limites para demarcar a pesquisa em curso. Dou- glass sustenta a complementaridade entre trabalho histórico e traba- lho antropológico; Davis, autor de uma pesquisa sobre Pisticci, fala a respeito de um “uso criativo da história”. O que ele entende por isso fi ca claro no capítulo 6 do seu People of the Mediterranean (1976). É difícil, contudo, encontrar desenvolvimentos ou exemplos poste- riores desses temas e outros semelhantes, na medida em que se trata de uma questão que comporta uma correspondente defi nição do trabalho histórico que não o considera apenas, de modo redutivo, como a simples utilização de fontes escritas. Cole e Wolf (1974) de- fi niram a relevância da história a partir da experiência de campo: “uma história das estruturas relevantes para a nossa zona, o seu de- terminar-se no tempo e as suas relações recíprocas”. Nós nos colocamos no outro extremo dessa perspectiva de com- plementaridade. Mas é claro que não se trata de estabelecer uma relevância correspondente do presente com o passado, mas, por as- sim dizer, de uma relevância “analógica”, que cria a possibilidade do emprego de conceitos e esquemas heurísticos ligados à supracitada abordagem holística e que tem consequências radicalmente críticas em contraposição a certos parâmetros setoriais que governam a pes- quisa histórica e distinguem os campos de investigação — o políti- co, o econômico, o religioso, o demográfi co, o social etc. —, fre- quentemente correlacionados a disciplinas científi cas específi cas — a ciência econômica, a demografi a... Problemas como aquele, de caráter histórico-demográfi co, do planejamento familiar em uma sociedade camponesa de ancien régime evocaram recentemente elementos de necessidade, de coerção cul- tural no âmbito familiar e social que podem se revelar congruentes com modelos de explicação geral, como o do “familismo amoral” AF_livro final ok.indd Sec1:25AF_livro final ok.indd Sec1:25 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 26 de Banfi eld (1958) ou o da “imagem do bem limitado” de Foster (1965). O historiador volta sua atenção mais insistentemente para os elementos de necessidade econômica, embora dirija sua análise tam- bém para o problema da distância entre os matrimônios no interior da família, considere as fases críticas do ciclo familiar, examine as práticas de sucessão hereditária e coloque em relevo seu papel con- dicionante. Nesse campo, pode-se dizer, de todo modo, que o en- contro entre os historiadores e os antropólogos já está acontecendo. Mas, se a verifi cação do comportamento factual é comum às duas disciplinas, uma característica parece permanecer distintiva no caso do antropólogo: a projeção cultural mais ampla. Pensemos, por exemplo, no signifi cado que o “ciclo de sucessão hereditária” assu- me no citado trabalho de Cole e Wolf, na dicotomia que ele propõe entre ideologia e prática e, juntamente com isso, na relevância da distinção ideológica — primogenitura em São Félix, divisão iguali- tária em Tret — para a organização das relações sociais nas duas al- deias alpinas como um todo. Esse é um indubitável benefício do trabalho de campo: a possibilidade de se colher imediatamente as conexões entre fenômenos diversos, entre o problema que é objeto de análise e “o resto”, lá onde o historiador parece destinado a jus- tapor uma série de análises distintas: o que não impede, analogica- mente, que este último planeje e oriente sua estratégia analítica geral (e sucessiva). Por outro lado, é verdade que o modelo cultural geral pode pri- vilegiar um diagnóstico sintético e intuitivo, não plenamente cir- cunstanciado pelas análises e, portanto, eventualmente preconcebi- do. De todo modo, também a elaboração de temas como o papel da inveja como mecanismo de controle social ou os valores de honra e vergonha no processo de conformação da comunidade podem mos- trar-se pertinentes considerando-se diretamente a qualidade das re- lações interpessoais, mais difíceis de serem reconstruídas no domí- nio da história. Pelo menos na falta de sua precisa institucionalização e guardadas, de todo modo, as possibilidades de “revelações” (sobre- tudo nos documentos judiciários). Caracteristicamente, o historia- AF_livro final ok.indd Sec1:26AF_livro final ok.indd Sec1:26 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 27dor trabalha com muitos testemunhos indiretos: nessa situação, o documento excepcional pode ser extraordinariamente “normal”, precisamente por ser revelador. Sem dúvida, a orientação sincrônica comum às duas disciplinas sugere uma epistemologia funcionalista: o próprio tema diacrônico do ciclo familiar postula a reprodução cultural “simples” da socieda- de que de algum modo resulta entifi cada na sua estrutura. Desse ponto de vista, não basta considerar uma tipologia das comunidades — como fez Wolf —, o que, apesar de ser um modo indireto de acolher o princípio da transformação (confronto de uma morfologia que postula a passagem de um tipo a outro), resolve analiticamente o problema dos nexos indivíduo-sociedade. Do ponto de vista da antropologia social, essa é a instância do assim chamado “individua- lismo metodológico”.2 Da perspectiva histórica, pode-se supor que a justaposição das análises não aconteça de forma congruente e unidi- recional, mas multidirecional, fazendo registrar margens estatísticas de desvio quanto ao signifi cado indubitável das congruências ou correlações. O próprio historiador-demógrafo registra fenômenos de divergência, com relação à continuidade de residência e endogamia, nos vértices e na base da comunidade. Todavia, divergências simila- res de comportamento valem sobretudo para qualifi car os grupos sociais, isto é, para evidenciar regularidades diferenciais. Isso não impede que, por algum aspecto, a verifi cação das correlações não seja unívoca no interior de um grupo (qualifi cado pela correspon- dência das outras), permitindo a identifi cação de fenômenos de des- vio como elementos inovadores ou desagregadores, ou simplesmente marginais, da cultura da comunidade. Um modelo de divergência de grupo nos vértices da comunidade (sendo a exogamia e a mobilidade de residência certamente alguns desses elementos) exprime um típi- co conceito antropológico, o do elite-broker, isto é, um mediador en- tre a comunidade e a sociedade mais ampla: posição que tem uma importância estratégica fundamental para o sistema político local. 2 Ver ensaios reunidos (após a redação original deste texto) em Barth (1981). AF_livro final ok.indd Sec1:27AF_livro final ok.indd Sec1:27 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 28 Não menos importante, a característica qualifi cação da sociedade camponesa como “sociedade e cultura parciais”3 não se limita ao fato dessa mediação. As alternativas “econômicas” que interessam a toda comunidade postulamum brassage demográfi co de variada relevância e, sobretudo, formas de mobilidade não defi nitivas, frequentemente ligadas à idade e diferenciadas pelo sexo. Desse ponto de vista, como de outros, a história das sociedades europeias redescobre, aprofundando as tradições folclóricas, as cons- tantes de uma estrutura social distinta por sexo e grupos etários.4 Assim como a história rural europeia parece indicar a extraordinária constância das associações territoriais — agregados de vizinhos não necessariamente aparentados —, solidárias na execução de certos ob- jetivos, como a repartição, a disposição ou a provisão de recursos de interesse comum. “Uma das máximas contribuições da pesquisa eu- ropeia à antropologia social — escreve S. Freeman [1973] — poderia, acredito, derivar de um estudo amplo, histórico e etnológico das formas de organização comunitária.” Daí o interesse pelo estudo das formas de ocupação do espaço e a possibilidade de traçar um quadro móvel e funcionalmente diferenciado das referências socioterrito- riais. De fato, a estrutura social tem necessariamente uma relevância espacial defi nida: como tal, é mais bem caracterizada a partir de relações que indiquem homogeneidade (por exemplo, a troca matri- monial) ou de outras que indiquem assimetria (como, em geral, a troca econômica). O interesse por instituições como a clientela e o parentesco ritual — mais bem exploradas até agora pelos antropólogos — deriva do fato de elas permitirem fazer o mapeamento das relações interpessoais, tanto verticais, quanto, no caso do parentesco fi ctício, horizontais, e talvez ambos, pelo menos no contexto mediterrâneo, relações mais bem enquadráveis na fórmula do “contrato diádico”.5 De fato, essas relações postulam uma troca que, em alguns casos — como nos de 3 Ver Kroeber (1948). 4 Ver Davis (1975); e Castan (1974). 5 Ver Foster (1965). AF_livro final ok.indd Sec1:28AF_livro final ok.indd Sec1:28 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 29empréstimo de dinheiro —, pode ser sistematicamente documentada. A dilatação dessas relações para além do espaço da comunidade amplia por isso mesmo a dimensão territorial da estrutura social para o nível de uma assimetria fundamental intracomunitária, o que não exclui o aprofundamento analítico da estrutura específi ca da comunidade su- balterna. O confl ito político, assim como, por outro lado, a festa, pa- recem momentos de revelação da estrutura social subjacente, já exaus- tivamente mapeada com base na reconstrução sistemática das relações interpessoais. As análises tipicamente antropológicas do ritual e do simbolismo descobrem assim toda a sua relevância analógica para a pesquisa histórica. 3 Uma vez que a ciência econômica constituiu até agora um suporte privilegiado para a pesquisa histórica, parece-me útil mostrar as im- plicações da abordagem acima ilustrada em confronto com tal “or- todoxia”. Cito uma súplica do fi nal do Seiscentos, na qual a comunidade de Monterosso — hoje pertencente à província de La Spezia —, sujeita às méte (impostos) aplicadas por Gênova ao vinho rossese, típico do lugar e um de seus poucos recursos, protesta contra o fato de que eram sempre os mesmos mercadores que iam ao burgo, que eles ofereciam tecidos velhos e grãos estragados a preços fi xados por seu próprio arbítrio, em troca de um vinho com preço defi nido pela administração. Em termos de análise econômica, a assimetria da troca deriva de um jogo oferta/demanda livre contra um jogo de- manda/oferta prefi xado. Mas a “liberdade” do primeiro continua sendo uma função da estreiteza do mercado, o que é absolutamente normal em uma sociedade pré-industrial: o mercado não só é restri- to, como também ocasional, e tal ocasionalidade está estritamente ligada “àqueles” mercadores. Que o preço do grão seja fruto de uma relação oferta/procura é no mínimo tautológico: de fato, pode-se assumir preliminarmente que seja assim, mas isso não quer dizer que AF_livro final ok.indd Sec1:29AF_livro final ok.indd Sec1:29 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 30 a análise processual da relação deva ser posta de lado. Os pobres vi- nhateiros de Monterosso estavam cobertos de razão ao apresentarem sua situação em termos de uma relação interpessoal: não podiam esperar outros mercadores e, portanto, não tinham alternativas. Os mercadores “acrescentavam” a seus produtos um lucro ad libitum, exatamente como costuma acontecer, mas nesse caso não era possí- vel contrapor uma contratação, que contrabalançaria em alguma medida o preço do rossese: e essa era, de fato, a variação-chave com respeito ao costume que resultou no protesto e na exigência, utópi- ca, de outro tipo de relações interpessoais, que, enquanto tais, não estavam em questão. Como disse alguém, não existe troca que não seja desigual, e é por isso que as relações de troca são um sinal essen- cial da articulação e da estrutura social.6 Isso volta a se ligar com o que foi observado no parágrafo precedente. Mas o caráter excepcio- nal do protesto, motivado pela inovação das méte, induz a postular uma adaptação, em tempos “normais”, à situação de troca. Os camponeses tinham necessidade de grãos e não tinham nada a oferecer senão seu vinho. No caso específi co, parece não ter existido uma elite de negociantes locais (brokers ou intermediários com a so- ciedade mais ampla), mas não há dúvida de que, sendo recorrentes essas visitas periódicas, criaram-se relações pessoais de mão dupla entre compradores e vendedores que poderiam incluir a possibilida- de, talvez mais difícil no caso de mercadores visitantes, de compen- sações no tempo. Considerando que os dados da situação de troca eram elementares, é razoável supor que a novidade administrativa se resolvesse na possibilidade de obter menos grãos com a mesma quan- tidade de vinho do ano precedente — abstraindo, no que diz respei- to às variações de produção que certamente aconteciam, a solidarie- dade entre os próprios negociantes (o monopólio dos compradores). Uma troca natural, portanto, mas reconduzida às medidas mone- tárias (condicionantes dos preços da méta). Essa era certamente uma constante importante nas transações comerciais pré-industriais e 6 Ver, entre outros, Mintz (1971). AF_livro final ok.indd Sec1:30AF_livro final ok.indd Sec1:30 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 31que acabava por reforçar o elemento pessoal da transação, ligado também ao costume eventual de diferir e resolver no tempo as com- pensações monetárias. Apesar de tudo, a possibilidade dessas solu- ções era limitada, dadas as diversas urgências de vender e comprar entre produtores e produtores, bem como de produtores e negocian- tes, que acabavam por favorecer a consolidação de uma elite de no- táveis, capazes de generalizar as próprias posições de privilégio eco- nômico: grandes proprietários, negociantes e transportadores. É possível intuir assim a possibilidade de haver uma correspondência entre clientela e endividamento. E é evidente que se torna muito difícil fazer distinções entre relações sociais, relações econômicas e relações políticas: na base dessa afi rmação está o fato de que as rela- ções de signifi cado “econômico” eram antes de tudo relações inter- pessoais, de modo que não há motivo para privilegiar os esquemas da análise econômica no estudo dessas situações. Pode-se, por outro lado, considerar que o mercado mais amplo envolvesse sobretudoos grupos dirigentes (que assumiam uma função de “mediação”) e ape- nas indiretamente os subalternos, sobre os quais os dirigentes po- diam descarregar eventualmente o peso da conjuntura negativa, mas sempre em circunstâncias e segundo avaliações que não podem ser reduzidas à simples “racionalidade econômica”. A análise e a relação entre os preços estão, assim, inseridos nessa dimensão, assinalando crises imprevistas da estrutura social, deslocamentos de solidarieda- de, emigrações etc. Como se apontou antes, as fontes cartoriais (e os documentos judiciário-civis) nos permitem reconstruir essas estru- turas de dependência: se a transação mercantil não aparece senão raramente como tal, mais regular é a certifi cação ou a quitação de um débito, de modo que, muitas vezes, a liquidação de um débito é condição para um novo crédito. Os inventários post mortem (sobre- tudo os redigidos para a divisão de bens comuns entre fi lhos) nos permitem, através dos registros dos créditos, mapear a clientela de um notável, e essas relações específi cas podem ser investigadas de geração em geração. A relação pode mudar de qualidade: os débitos podem ser consolidados em uma renda ou em uma venda que têm AF_livro final ok.indd Sec1:31AF_livro final ok.indd Sec1:31 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 32 por garantia e objeto, em primeiro lugar, a terra, de modo que o ex-proprietário torna-se um locatário ou arrendatário. Examinado analiticamente, o mercado de terra evidencia não apenas — como mostrou Giovanni Levi (1976) — as lógicas dos ciclos familiares, mas também as divergências nos diversos níveis do objeto da transação. Chaianov (1966) nos explicou bem que o preço não corresponde ao valor da renda capitalizada. Diremos com ele que o preço é simplesmente uma função da demografi a e, portanto, uma vez mais, da demanda? Considerando processualmente o es- quema “vertical” que acabamos de delinear acima, esse não me pa- rece ser o caso. A fi cção do jogo equilibrado entre oferta e demanda torna-se, nesse caso, digna de riso. Com efeito, é preciso considerar se a análise econômica adquire maior signifi cado quanto mais as referências a procura e oferta assumem caráter de “massa”, e que possibilidades estratégicas daí derivam. De todo modo, não se pode abandonar completamente e com a consciência tranquila o patrimô- nio de racionalização interpretativa dos processos sociais e a com- preensão do curso da história que essa racionalização permite. Naturalmente, porém, a troca de bens e serviços tem também suas dimensões horizontais. Em particular, é essa a dimensão carac- terística da reciprocidade camponesa, entendida mais frequente- mente como reciprocidade prolongada de serviços (trabalho), um fenômeno mais difícil de ilustrar historicamente. Mas as transações horizontais vão além dessas trocas, como se evidencia hoje em mui- tas sociedades camponesas, nas quais a intermediação é particular- mente desenvolvida e uma série de ligações diádicas preferenciais solidifi ca os canais de comércio através da institucionalização de re- lações interpessoais.7 É óbvio que essas práticas difi cilmente podem ser encontradas no registro cartorial, onde, todavia, é possível en- contrar transações minúsculas que dizem respeito não só a pequenas porções de terra, mas também à repartição de animais, assim como a débitos mínimos. São registradas, particularmente, as transações 7 A pratik haitiana de S. Mintz (1961). AF_livro final ok.indd Sec1:32AF_livro final ok.indd Sec1:32 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 33de dote: a troca cruzada de despesas que permite economizar dotes representa para os mais pobres uma forma de reciprocidade rigoro- samente balanceada. Podemos imaginar facilmente diferenças e limites entre as distin- tas comunidades, como consequência da penetração diversa da eco- nomia mercantil e, portanto, do papel diverso da autossubsistência: o que pode signifi car também que certas transações encontrem, nos distintos casos, objeções culturais. Como escreveu D. Riches, em Man (1975): “a proteção do setor de subsistência é a base provável para a ideologia de muitas economias camponesas com relação às esferas de troca”. Com efeito, o conceito antropológico de esferas de troca tem possibilidade de generalização também em uma economia monetária em que, por exemplo, as transações de alguns bens com- portem a sua resolução no âmbito do sistema de crédito, enquanto as transações de outros bens comportem o emprego imediato de moe- da, de modo que, uma vez sabidos quais são os bens protagonistas dessas trocas, têm-se duas esferas de intercâmbio relativamente dis- tintas. Essa pode ser indicada como uma terceira linha de defesa da sociedade camponesa, depois da defesa da autossubsistência, que comporta uma orientação produtiva articulada e a desaprovação cultural de transações que lidem com bens alimentares de base, e depois a troca horizontal que opera frequentemente como forma de mutualismo (S. Mintz). Isso no quadro de uma resistência comum das sociedades camponesas a uma monetarização radical das trocas que lhes interessam. Considerando a sociedade agrária como um todo, a historiografi a econômica coloca como fundamental o problema da relação entre população e recurso e, em geral, utiliza ampla escala territorial (de região para cima). Daí a construção ex-post de uma hipótese home- ostática fundada no malthusianismo. No nível microanalítico que aqui se propõe, pode ser colocado o problema das unidades domés- ticas singulares que investem trabalho (não contabilizável em termos monetários) e obtêm bens destinados, em parte por meio da sua conversão de mercado, à defesa e à reprodução do status tradicional. AF_livro final ok.indd Sec1:33AF_livro final ok.indd Sec1:33 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 34 Na medida em que tal “status” é defi nido culturalmente a partir de termos eminentemente relacionais, são as formas de organização so- cial da comunidade que estão em questão e que têm, por conseguin- te, relevância “econômica”. Ainda que a base produtiva seja restrita e atomizada e origine, em parte, atitudes culturais, está presente, entretanto, uma solidariedade de destinos que explica em última instância as formas de integração social. Sahlins mostrou como a aplicação do modelo de Chaianov (defi nido pela evolução da ratio consumidores-produtores segundo o ciclo de desenvolvimento do- méstico) não explica a continuidade de algumas sociedades simples, que se torna então inconcebível sem a presença de formas institucio- nalizadas de coparticipação (Stone Age Economics, 1975);8 um modo de evidenciar o caráter “econômico” da estrutura social. Nas socie- dades complexas, a mobilidade dos recursos de apoio ou substituti- vos cresce por meio da intensifi cação do trabalho, diversifi cação da forma de exploração dos recursos, oportunidades “externas” (traba- lho, mercado). Em outras palavras, a comunidade — se é verdade que a família pode em certa medida controlar as suas próprias di- mensões — pode adaptar-se e assegurar a sua sobrevivência de mui- tos modos. O que signifi ca que a necessidade de chegar a uma irre- parável e fatal “contradição” entre a comunidade e os recursos que dispõe não é necessariamente automática e inevitável, isto é, deverá ser verifi cada nas diversas situações. A dramática dialética entre po- pulação e recursos que serve como explicação dodesenvolvimento histórico é uma simples hipótese que, além de tudo, é inverifi cável na escala territorial em que foi colocada. Tanto isso é verdade que E. Boserup (1970), em Evolution agraire et pression démographique, pôde apresentar de modo inteiramente plausível a hipótese oposta. Com efeito, ela é representativa da tese que se afasta de outra grande pro- jeção histórico-etnocêntrica da “civilisation” europeia: o desenvol- vimento entendido como o triunfo progressivo do mercador, do mercado e da cidade. 8 Sahlins, 1972. AF_livro final ok.indd Sec1:34AF_livro final ok.indd Sec1:34 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 354 Retornamos assim ao tema inicial deste artigo. Se Romanelli de- nunciava a ancoragem das perspectivas historiográfi cas contemporâ- neas em um modelo unívoco e pouco “elástico”, podemos, acredito que com razão, sustentar que se tratam de perspectivas historiográ- fi cas gerais, largamente condicionadas pela economia como “ciência social mais avançada”. A “perda de sentido” é a recusa de um sentido largamente pré-constituído, “ideológico” nesta acepção. O que se desenha, de modo mais ou menos explícito, é a recondu- ção da história a uma contextualização e a uma vocação analítica em que o objeto da análise é basicamente indicado pela série ou a rede das relações interpessoais. Daí a escolha de uma sociedade em escala reduzida como é a aldeia camponesa, uma opção guiada, sem dúvida, pelo exemplo paralelo da antropologia. Em princípio, a escolha po- deria cair também sobre um bairro urbano. Mas mesmo prescindin- do da escala da sociedade indicada, que satisfaz ao menos teorica- mente a “virtù” da abordagem holística, acredito que a abordagem conserva sua validade como perspectiva geral de história social, onde, em minha opinião, a estrada mestra é indicada pelo estudo dos com- portamentos ou das relações interpessoais (como paradigma de refe- rência). Obviamente, para a época contemporânea é mais abundante a documentação quantifi cada ou quantifi cável, enquanto provavel- mente se perde em parte o benefício das convergências locais da do- cumentação como material imediatamente utilizável para os fi ns das reconstruções prosopográfi cas. Mas isso quer dizer, como é mostrado pelos exemplos já indicados, que análises mais seccionais e rigorosas podem ser multiplicadas. Assim, a microanálise social liga-se mais ao caráter da base de dados examinada do que à dimensão da área social enquanto tal. Nesse sentido, não há por que haver ruptura entre história medieval e história contemporânea no plano teórico e metodológico. Ao con- trário, aquilo que nós registramos hoje é um hiato gigantesco nos critérios de relevância da produção historiográfi ca; em um setor se premia a novidade histórico-analítica; no outro, ao menos na Itália, AF_livro final ok.indd Sec1:35AF_livro final ok.indd Sec1:35 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 36 predomina uma expectativa de síntese político-ideológica que des- carta sistematicamente os processos sociais, considerando-os dedutí- veis e reconhecíveis por meio de uma grade de teses e temas que são, frequentemente, uma mistura de “ideias recebidas”. É signifi cativo que a antropologia, mesmo tratando necessaria- mente de sociedades contemporâneas, venha sendo, há bastante tempo, capaz de estimular, sobretudo, a história medieval e mesmo a história antiga. E isso não pode ser atribuído à correspondência do objeto (sociedades relativamente mais “simples”). De fato, o mesmo problema da social change foi discutido e ilustrado analiticamente pe- los antropólogos. E o que pode ser a história contemporânea senão uma história das transformações sociais? E por que deve ser o agre- gado-nação e não a comunidade, ou a cidade, ou o ofício, o lugar de eleição para o estudo dessas transformações? No fundo, a argumentação que procurei ilustrar nesta interven- ção equivale à defesa de um princípio: que a história social é a his- tória das relações entre pessoas e grupos. O problema posterior e fundamental da identifi cação dos conceitos e das possibilidades ope- rativas, que foi aqui desenvolvido de modo muito parcial, pode ser enriquecido indefi nidamente. Me parece indubitável que, no âmbi- to da vida social contemporânea, tais possibilidades podem apenas crescer e jamais diminuir, mesmo que não utilizemos as indicações da história oral (das quais, é claro, não há motivos para prescindir). O crescimento da “administração” multiplicou as observações e le- vantamentos, e inumeráveis depósitos de documentação (seccional, funcional ou de associações), hoje destinados ao descarte, são per- feitamente capazes de se tornar objeto de imprevistas iluminações histórico-analíticas. Assim, o objetivo de uma historiografi a social contemporânea é o de conquistar a distância cultural da sociedade que estamos viven- do, de objetivá-la nos seus conteúdos de relação, de reconstruir a evolução e a dinâmica dos seus comportamentos sociais. AF_livro final ok.indd Sec1:36AF_livro final ok.indd Sec1:36 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 M IC RO AN ÁL IS E E H IS TÓ R IA S O CI AL 37 R E F E R Ê NC I A S BANFIELD, Edward C. 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AF_livro final ok.indd Sec1:37AF_livro final ok.indd Sec1:37 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 38 ROMANELLI, Raffaele. Storia politica e storia sociale dell’Italia contem- poranea: problemi aperti. Quaderni Storici,Bolonha, v. 12, n. 34, p. 230-248, apr. 1977. SAHLINS, Marshal. Stone Age economics. Chicago, Ill.: Aldine, 1972. VILLANI, Pasquale. Problemi e prospettive di ricerca: la storia sociale dell’Italia contemporanea. Quaderni Storici, Bolonha, v. 12, n. 34, p. 215-229, apr. 1977. AF_livro final ok.indd Sec1:38AF_livro final ok.indd Sec1:38 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 2 Paradoxos da história contemporânea* Edoardo Grendi A história contemporânea é, pelas próprias características do seu objeto, atravessada mais do que qualquer outra pelas várias perspecti- vas das ciências sociais e pela miríade de interrogações da consciência presente. É paradoxal, portanto, que ao menos na Itália ela se apre- sente como a mais repetitiva e a menos inovadora. Isso nos faz pensar que o historiador da idade contemporânea parte de um sistema con- ceitual de certezas quase absolutas e considera o trabalho histórico não como uma operação analítica capaz de descobrir nexos signifi ca- tivos e propor interpretações, mas como uma operação política su- bordinada às suas certezas teóricas, e, assim, a uma interpretação ge- ral e preconcebida que será sustentada ou, no máximo, enriquecida. ∗ Tradução de Henrique Espada Lima. “Paradossi della storia contemporanea” foi publicado originalmente em maio de 1981, em uma coletânea intitulada Dieci interven- ti sulla storia sociale, lançada pela editora Rosenberg & Sellier, em Turim (Itália). A origem do volume foi a organização das intervenções em um debate promovido pela editora sobre as tendências e instituições da história social e das classes subalternas na Itália. Edoardo Grendi, que havia escrito sobre o movimento operário inglês e o tra- balhismo britânico, participou do debate, que incluiu ainda contribuições de Sergio Bologna, Gabriela Bonacchi, Federico Bozzini, Maurizio Carbognin, Vittorio Foa, Antonio Gibelli, Giovanni Levi, Dora Marucco, Luisa Passerini e Franco Ramella. AF_livro final ok.indd Sec1:39AF_livro final ok.indd Sec1:39 4/12/2009 15:03:144/12/2009 15:03:14 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 40 O estatuto da história não é nem mesmo colocado em discussão: o historiador é um especialista que deve explicar o passado e respon- der à banal questão: “Como chegamos aqui?”. Mas aqui onde? O advérbio é, na verdade, caracteristicamente opcional e capaz de ditar escolhas de relevância absoluta: a sociedade democrática, o capitalis- mo maduro, o partido, a vanguarda. Imaginemo-nos no dia seguin- te à catástrofe nuclear. A interrogação será a mesma, mas é fácil in- tuir que a escolha das relevâncias seria diferente, ou ao menos isso podemos desejar aos sobreviventes. A noção do “aqui” é sempre uma noção retórica, assim como é retórica a sua projeção educativo-política: assume-se que o indiví- duo, o estudioso, o cidadão, ampliariam em alguns centímetros a sua consciência se tivessem conhecimento de “como chegamos aqui”. Noção retórica, como disse, na medida em que tem uma ca- pacidade de dilatação infi nita no espaço e no tempo retrospectivo da “grande história” e postula uma escolha de escala não reversível, ainda mais clamorosa porque o único “aqui” histórico simples é a personalidade do indivíduo singular, a própria biografi a. Por outro lado, o objeto se torna, sub-repticiamente, a civilização, e a retrospectiva é o desenvolvimento, seja qual for seu sentido, posi- tivo ou negativo, sejam quais forem as contradições. E a seletividade teleológica do tema da civilização segue normalmente como um tra- tor, é perfeitamente congruente com os parâmetros curriculares (e com as orientações políticas), absorve e unifi ca, na celebração das sínteses, os milênios da conquista cultural: a matemática dos babilô- nios, a fi losofi a e as artes dos gregos, a lei dos romanos, os bispos, os monges e os mercadores da Idade Média, a arte e a política do Renas- cimento, as descobertas geográfi cas, a revolução científi ca, as institui- ções políticas, a revolução industrial, a revolução proletária. Na práti- ca é uma proposta de aculturação ao nosso eurocentrismo mais comum: este é o verdadeiro sentido da história como disciplina insti- tucional. E o historiador é o funcionário desta instituição, um funcio- nário que se considera “cientifi camente” resguardado, proclamando que a história deve, de todo modo, ser novamente escrita a cada gera- AF_livro final ok.indd Sec1:40AF_livro final ok.indd Sec1:40 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 PA R AD O XO S D A H IS TÓ R IA C O N TE M PO R ÂN EA 41ção. O mecanismo da seleção cultural opera de forma perfeitamente paralela ao mecanismo da exclusão. A opção da grande escala espaço- temporal responde bem a esta exigência. Qualquer sistema social ad- quire, de fato, em uma perspectiva interpretativa diacrônica, uma hiper-racionalidade própria, obtida da distribuição do poder no inte- rior do próprio sistema. Seja qual for a confl itualidade, o que conta é o seu êxito e esse responde à lógica de uma organização posfactual dos acontecimentos. Curiosamente, podemos imputar ao historicis- mo um defeito análogo àquele imputado ao funcionalismo: “tudo se sustém mutuamente entre si”, tanto em um caso como no outro. En- quanto a chave funcionalista organiza “todo o empírico” segundo a teleologia do equilíbrio, a chave historicista organiza teleologicamen- te as relevâncias (os Estados, as relações de produção) segundo uma sucessão lógica, expelindo todo o resto e limitando-se, assim, a regis- trar a confl itualidade (afi rmada, mas nunca analisada). Os contemporaneístas aparecem como as vítimas predestinadas deste estatuto da história, mesmo quando não praticam o exercício conhecido como “cavalgada nos séculos”: a verifi cação pontual está no fato de que eles respondem muito raramente às indagações do presente (exorcizadas como o “campo das ciências sociais”), privile- giando invariavelmente as questões ideológico-políticas. Quando não são deputados, ministros ou prefeitos, não por acaso estão am- plamente envolvidos nas instituições de informação ( jornais, televi- são), as mesmas que enfatizam a relevância do mundo dos partidos políticos, aspirando assim, paradoxalmente, a uma hegemonia tam- bém cultural. O macroteleologismo historiográfi co é o ponto de conexão dessa homogeneidade. Mas consideremos empiricamente o trabalho histórico corrente. É muito mais normal e frequente que sejam os historiadores medie- vais e modernos a escolher temas mais variados, a abrir novos can- teiros de pesquisa, em outras palavras, a descobrir novas fontes e novos objetos, a verifi car hipóteses e questões novas, a renovar, tal- vez graças à inspiração de disciplinas irmãs, o aparato conceitual e as interpretações. O padrão científi co do trabalho, nesse caso, é referi- AF_livro final ok.indd Sec1:41AF_livro final ok.indd Sec1:41 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 42 do à sua qualidade analítico-imaginativa, capaz de elevar o estudo singular a um valor ilustrativo geral. Não está mais em questão uma síntese que não se fará jamais, e um trabalho histórico pode vir a ser discutido, contestado, imitado, mas não refeito a cada geração. A história termina por ser redimensionada a uma experiência cognos- citiva como as outras, com os mesmos elementos de gratuidade, a mesma amplidão de opções temáticas, a possibilidade absolutamente livre de selecionar e organizar as relevâncias. De resto, não se vê porque o historiador deveria condenar-se a uma perpétua esquizo- frenia: ocupar-se de cadastros, fontescriminais ou greves singulares e depois disso refazer ou repetir o enésimo manual, voltando a con- tar o costumeiro périplo secular do homem. E pelo menos neste caso estamos diante de um contraste entre diferentes estatutos da histó- ria. O contemporaneísta parece ignorar esta antinomia: o episódio individual vem de tal modo carregado de valores ideológicos que nem mesmo interessa mais enquanto tal, não se torna campo espe- cífi co de análise. Dentro deste campo da história contemporânea, a escolha entre as interrogações mais ou menos relevantes já está feita, assim como o esquema das relevâncias explicativas está já predefi nido. Podemos falar, acredito, também de uma orientação ideológica, desde que por isso não entendamos equivocadamente uma acusação de parcialidade e se tenha presente que a crítica refere-se antes ao tipo de orientação mental que a ideologia representa quando opera como omnicompre- ensividade de categorias prontas para o uso, isto é, para o enquadra- mento dos fatos e fenômenos históricos. Os temas mais comuns são o événémentiel, a instituição ou o debate ideológico: tudo dentro de uma estrutura analiticamente esgotada e dominada pelas classes e pelos partidos, que reproduz o debate político, ou seja, uma das ma- nifestações mais deprimentes do nosso tempo (os discursos de Moro, as entrevistas de Berlinguer, em meio ao esotérico e o oracular). Pode-se dizer, a propósito da orientação macroteleológica, que toda sociedade civil é autocelebrativa, e o mesmo vale para toda ins- tituição interessada naquele etnocentrismo do qual tira sua autojusti- AF_livro final ok.indd Sec1:42AF_livro final ok.indd Sec1:42 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 PA R AD O XO S D A H IS TÓ R IA C O N TE M PO R ÂN EA 43fi cação. A história, e sobretudo a história contemporânea, está com- pletamente envolvida nesta celebração de idola. Não está em questão uma oposição entre macro e microanálise. Ninguém gostaria de ne- gar o signifi cado da macroanálise — mormente em uma época em que as estruturas de interdependência entre fenômenos diversos em escala mundial parecem tão evidentes — como referência aos mode- los interpretativos da politologia e a economia enquanto suportes analíticos. Em todo caso, devemos concordar que a função da mode- lística não é a de mecanicamente simplifi car, reduzindo realidades de relações a simples nexos de causa-efeito: exatamente porque um mo- delo é válido enquanto propõe uma articulação de variáveis, fi ca evidente que os objetivos analíticos são somente alcançados através da reconstrução das relações em cadeia que não deduzam as muta- ções do impacto externo, mas as verifi quem criticamente sobre o corpo social e cultural que é objeto da própria transformação. O tema bem-sucedido da economia-mundo, apontado por Brau- del como justifi cativa para uma macroanálise histórica (e, não por acaso, serializado pelos mass media em uma sucessão de imagens ex- clamativas sobre o homem europeu), arrisca-se, me parece, a resol- ver-se em um grande afresco de racionalização posfactual, isto é, uma geopolítica descritiva do intercâmbio desigual, sem que seja colocado o problema da mudança social que, no entanto, foi propos- to aos economistas do crescimento pela densidade das realidades so- cioculturais (“etnológicas”). A perspectiva da grande escala espacial, combinada à grande escala temporal, parece fatalmente propor uma teleologia da “civilisation”, com fi nalidades ideológico-políticas. E a instituição educativa encarrega-se de transmitir o conforto desta pseudoconsciência: como “missão” e não segundo esquemas de hi- póteses-verifi cação didáticas. E é por meio deste ângulo de visão que o historiador se faz funcionário, e o seu papel de aculturador se dila- ta universalmente, corifeu das instituições e da sociedade civil. As ambiguidades de tal papel são inesgotáveis. O romancista quer ser lido, mas essa escolha é voluntária; o cientista, por outro lado, move-se entre a elaboração analítica e as verifi cações empíricas, e AF_livro final ok.indd Sec1:43AF_livro final ok.indd Sec1:43 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 44 ainda que marginalizado, seu papel parece encontrar um consenso unânime. O historiador oscila entre a gratuidade de um trabalho sem leitores e a sacralidade ridícula de um educador geral que se subtrai às verifi cações concretas do seu papel didático. E isso é possí- vel graças a um genérico consenso retórico inteiramente superfi cial. Fora destas antinomias, me parece que vale a pena desenvolver as implicações de um estatuto alternativo para a história. No que diz respeito ao mercado, o exemplo francês sugere que o público prefere histórias particulares, histórias de momentos e episódios individuais, biografi as, o que de algum modo assimila o historiador ao papel do romancista. E sobre o terreno da didática deve-se observar que ne- nhuma matéria de ensino é mais distante da fórmula de “laborató- rio” quanto a história, que propõe um confronto com uma narrativa que não pode descompor-se como se descompõe o texto literário, e que também não é suscetível de ser discutida logicamente, como se faz com o texto fi losófi co. As ênfases alternativas são ou a tradicional acentuação pragmática do protagonismo, ou o exercício de uma complexidade com um fi m em si mesmo, ou o incentivo à curiosida- de: todas operações confi adas ao capricho (ou mesmo à preguiça) do docente. É provável que a história com estatuto analítico possa cons- tituir uma referência idônea para a refundação da didática. E isso vale também para a sociedade contemporânea, em que a retórica se torna cumplicidade (ou seja, estupidez, e em proveito oportunista). A proposta da microanálise histórica tem aqui, claramente, um sentido provocador, ou pelo menos, como se viu, um certo efeito de provocação. Observemos, entretanto, que está em operação uma certa convergência de avaliações que se dirigem ao micro: cito o recente boom de histórias da família, o modelo de uma história social como prosopografi a generalizada, a técnica de estudo fundamentada na análise de microepisódios e na reconstrução de biografi as ilustra- tivas, as “histórias de vida”. Um único episódio da crônica do coti- diano pode fornecer elementos para a determinação das estruturas de uma sociedade: o que vale dizer que o repetitivo, a estrutura, não é determinado pelo cálculo, já que normalmente este se funda sobre AF_livro final ok.indd Sec1:44AF_livro final ok.indd Sec1:44 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 PA R AD O XO S D A H IS TÓ R IA C O N TE M PO R ÂN EA 45elementos que emanam dos processos de relação. Nesse sentido, é preciso redescobrir toda a utilidade das fontes qualitativo-narrativas, ou seja, da crônica do passado. A escolha de escala da microanálise é exatamente em função dos objetos analíticos propostos, isto é, as relações interpessoais: isso vale para os grupos sociais e para as comunidades. A opção pela segunda, que constitui o nexo de correspondência entre o agregado social e o espaço, é feita em função de uma mais completa reconstrução das estruturas de dependência internas, ainda que reconheça que se mantém em pé para este fi m também a relevância crucial dos papéis de mediação com a sociedade externa. A fi delidade ao contexto tem um signifi cado heurístico preciso: antes de tudo possibilita a recons- trução em termos dinâmicos da estrutura social que postula um sis- tema de papéis, e papéis inovadores, permitindo assimestudar con- cretamente a mudança social. Em segundo lugar está a análise da estrutura política, que se en- contra vinculada a um nexo complexo constituído por sentimentos de identidade coletiva, símbolos de prestígio, funções desempenha- das, grupos formais e informais de gestão da universitas e da comuni- dade, alianças parentais e familiares, a partir do elemento primário da instalação da habitação. Em terceiro lugar, as transações econômicas que incluem serviços e bens, e que postulam, do mesmo modo que as outras relações, continuidades, rupturas, compensações no tempo. A projeção sobre elas do modelo mercantil (demanda/oferta=preço) su- põe um procedimento de abstração que corresponde a três perspecti- vas fi ctícias: 1) a fi cção de que se trata de uma situação temporalmen- te determinada; 2) a fi cção de que a transação seja o resultado de um confronto específi co; 3) a fi cção de que este confronto não tenha determinações espaciais. Partamos da hipótese de que a transação tenha por objeto um bem produzido, colocando-nos assim o proble- ma de uma relação entre produtores e comerciantes: é claro que a pré-venda, a venda vinculada, as compensações débito/crédito etc., conferem às transações uma dimensão maior, que é de tempo médio; por outro lado, também é evidente que a razão da troca ocorre em AF_livro final ok.indd Sec1:45AF_livro final ok.indd Sec1:45 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 46 função da profundidade dessas mesmas transações, em uma circuns- tância onde não estão presentes opções alternativas relevantes fora da área social dessa mesma troca. E é por todos esses elementos que o indício de uma transação assume um signifi cado revelador do con- junto da estrutura social, entendida esta última, não por acaso, tam- bém como uma pirâmide de rendimentos. Em quarto lugar, a cultura. A continuidade ou a renovação das formas expressivas coletivas constituem certamente um problema, já que se trata de compreendê-las e apreender seus signifi cados. Mas o problema central é o da função do fenômeno expressivo e, portanto, do seu signifi cado sociocultural contextual: apenas desse modo po- deremos capturá-lo como orientação de valor. Naturalmente, tal expressividade não é apenas palavra, gesto ou rito, mas também ação social, violência coletiva, organização. Certamente a relevância destas temáticas não é válida apenas para os estudos do Ancien Régime. Seu signifi cado encontra-se, de fato, em um processo coerente que recoloca o problema do próprio sujei- to histórico: se não sempre a comunidade (que pode ser uma comu- nidade de produtores industriais-têxteis, de mineradores etc.), cer- tamente o grupo social, pois trata-se sempre de tecidos de relações interpessoais inseridos em contextos sociais mais amplos. E tudo o que dissemos sobre a transação de um bem produzido vale também para o bem trabalho. Podemos realmente dizer que o preço/salário é fi xado por uma oferta/demanda de trabalho? Com certeza não pode ser provado ou negado que uma escolha voluntária tenha um papel na determinação do nível do salário. De resto, demanda e oferta confrontam-se em uma rede de relações interpessoais: por uma parte, formas diversas de delegação e subarrendamento a ter- ceiros; por outra, os mecanismos muito humanos da imigração e da admissão, mais ou menos ligados entre si. E tudo isso cria a oportu- nidade da intermediação, que é um tema inesperado. O proletário, por um lado, não é um trabalhador eventual, e isso oferece uma continuidade de referência com relação ao seu ambiente de trabalho, especialmente à fábrica, que lhe outorga então a ocasião para uma AF_livro final ok.indd Sec1:46AF_livro final ok.indd Sec1:46 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 PA R AD O XO S D A H IS TÓ R IA C O N TE M PO R ÂN EA 47socialização específi ca, seja no nível do grupo de qualifi cação, seja no nível de agregados mais amplos. Formalmente, o que temos que reconstruir são sempre as relações entre pessoas, tanto em sentido vertical quanto horizontal, o que equivale a uma análise dinâmica da estrutura social. Antes de uma teoria geral das classes sociais, o historiador deve verifi car uma teoria dos grupos sociais. Os modelos que lhe são oferecidos são altamente formais: isso exatamente para permitir apenas aquele amplo enqua- dramento das evidências empíricas (etnológicas) necessário para operar as necessárias construções morfológicas. Não é por acaso que uma das propostas mais sugestivas e mais discutidas de história social tenha sido e seja aquela que enfatiza as relações entre os grupos fa- miliares (ou de residência) e os grupos de trabalho, quer tendo como referência uma situação regional de protoindustrialização, ou, sobre- tudo, uma situação de industrialização. De fato, o estudo dos grupos sociais comporta a análise complementar da sua cultura. Deve se observar aqui que há um singular paralelo entre o uso da categoria “mercado de trabalho” e o uso da categoria “consciência de classe”, no sentido de que a sua simples evocação parece esgotar os objetivos da pesquisa e bloquear, portanto, qualquer exploração analítica pos- terior: uma circunstância extraordinária se considerarmos que, à luz do bom-senso, não é possível pensar a atribuição de uma qualifi ca- ção tão tipicamente cultural como “consciência de classe” fora de um estudo dos comportamentos, pois só deles é possível extrair a presença operante de valores sociais. Não é por acaso que emerge esse problema histórico da cultura, tão difícil para o nosso historia- dor contemporaneísta, governado pelo desejo de etiquetar, apenas um pouco mais sofi sticado do que o desejo do político, que notoria- mente se ocupa de outro ofício. Donde, portanto, esse necessário ajustamento àquilo que deriva e alude falar todo o tempo de uma certa “diferença”, assim como também a referência evasiva à com- plexidade das situações — que aparecem tão vaga e metafi sicamente “complexas” precisamente porque não foram verdadeiramente con- sideradas de uma maneira analítica. AF_livro final ok.indd Sec1:47AF_livro final ok.indd Sec1:47 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 48 Mercado, estado, classe, consciência de classe... estas categorias da macro-história cuja apologia soa como uma explicação “em última instância” ou “fundamental” — o que vale como uma tradução, não muito bem dissimulada, de uma precedente opção por uma hierar- quia de relevâncias. De fato, mesmo que admitamos um papel efeti- vo do mercado, isso não justifi ca seu determinismo. A ação social, assim como a ação individual, comportam uma escolha em um cam- po de alternativas limitadas que constituem a “fábrica da realidade social e psicológica do homem”. O mercado é apenas um dos seus componentes. Esta me parece a perspectiva de uma coerente ima- nência, capaz de resolver a assinalada ambiguidade de algumas cate- gorias interpretativas, como aquela, por exemplo, de “adaptação”. O que normalmente se objeta à microanálise histórica é que não se pode explicar o comportamento do grupo isolando-o. Recordo que a instância da microanálise parte exatamente do confronto com a tendência triunfante de explicar o comportamento dos grupos sociais ignorando-os. A hipótese alternativa é a de uma reconstrução das con- fi gurações da sociedade como um todo a partir do grupo-comunida- de, isto é, a partir da reconstrução analítica das experiências coletivas: os próprios mediadores se confi guram como grupo sociale, sob o ponto de vista do perfi l politológico, a classe dirigente se apresenta como composição e decomposição de grupos. Uma nova prova dos danos de uma ortodoxia historiográfi ca pode ser encontrada na emer- gência das temáticas “à parte”, concebidas como um conjunto de elementos que se encontram temporariamente fora da síntese (e que teriam que ser, portanto, reabsorvidos no futuro). Assim, o tema do “privado” repercute pela historiografi a: a vida cotidiana, a mentali- dade, a mulher... tantos campos de especialização, que serão de todo modo restituídos ao fundamento comum do contexto sociocultural. E é a esta última referência, o contexto, que responde a hipótese de princípio sobre a unidade sociocultural que é o grupo-comunidade. É nesse sentido que a referência à microanálise histórica vale como um sinal de forte coerência de uma metodologia geral para a história social. AF_livro final ok.indd Sec1:48AF_livro final ok.indd Sec1:48 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 PA R AD O XO S D A H IS TÓ R IA C O N TE M PO R ÂN EA 49E insistamos na hipótese de que os resultados da micro-história poderiam representar algo muito próximo ao modelo de didática-la- boratório que estamos tentando alcançar. O elemento-guia é a refe- rência a um quadro social global, cujo tratamento implica elaborações teóricas formalizadas, a construção de quadros morfológicos, a sínte- se entre a lógica histórica e a atenção ao indivíduo e ao episódio. E quem nos diz que a mente do adolescente e do jovem (e, de res- to, do adulto) se satisfaz ou é estimulada pelas sínteses interpretativas periodicamente revisadas que deveriam enriquecer a consciência his- tórica e civil (a aproximação é comum) do aluno? E por que não? Aquilo que importa nos termos do sentido histórico é a consciên- cia de dimensões socioculturais outras com relação à cultura social em que vivemos: reencontros possíveis para ponderar um pouco mais a fundo sobre a especifi cidade do presente. E esse é, na minha opinião, o sentido profundo de uma convergência entre formação histórica e formação antropológica. Tudo isso me parece sóbrio e sensato. E é, todavia, indicativo do universo mental de alguns histo- riadores contemporaneístas que a história social se tenha conectado com o tema da Autonomia: o que, na verdade, parece valer como uma feliz, e inesperada, confi rmação dos meus diagnósticos. AF_livro final ok.indd Sec1:49AF_livro final ok.indd Sec1:49 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 AF_livro final ok.indd Sec1:50AF_livro final ok.indd Sec1:50 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 3 Reciprocidade mediterrânea* Giovanni Levi 1 Se quisermos empregar o conceito de reciprocidade em sentido con- creto e não meramente formal, parece-me imprescindível incluí-lo em um marco amplo de relações jurídicas e econômicas relativas a um tempo e a uma região de referência específi cos. Portanto, buscarei mostrar de que modo esse conceito assume sua especifi cidade na Ida- de Moderna, em relação com os sistemas jurídicos que, utilizando uma expressão inadequada, chamarei de direito débil, ou seja, siste- mas jurídicos nos quais predomina a jurisprudência sobre a lei, em oposição à ação dos juízes com respeito ao caráter central do poder legislativo soberano, ao qual, outra vez inadequadamente, chamarei sistemas de direito forte. Na área mediterrânea é possível incluir nesta categoria de direito débil pelo menos três tradições — o direito canô- nico, o direito islâmico e o direito talmúdico — que extraem de princípios gerais de origem religiosa as bases imutáveis às quais se re- ∗ Publicado originalmente em Hispania (Madri), LX/1, núm. 204 (2000), p. 103- 126 e reproduzido com a permissão da revista. Tradução para o castelhano de Mar- co A. Galmarini e para o português de Ronald Polito. AF_livro final ok.indd Sec4:51AF_livro final ok.indd Sec4:51 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 52 ferem as práticas jurídicas. E a primeira análise destes sistemas pode orientar-se de acordo com três princípios: reciprocidade, equidade e analogia. Um estudioso da sociedade de Ancien Régime que particular- mente se ocupa de países mediterrâneos, não se pode propor a questão das formas de reciprocidade sem se referir a sociedades complexas em cujo centro se encontram os mecanismos de solidariedade que carac- terizam um projeto social baseado na justiça distributiva e, ao mesmo tempo, na rígida hierarquização social. Portanto, a justiça na desi- gualdade será o marco no qual se inserirão as formas específi cas da reciprocidade neste esboço, que pretende ser mais uma primeira refl e- xão teórica que a exposição de uma investigação verifi cada nos fatos. Contudo, é preciso dizer que o ponto de partida destas refl exões é um campo concreto de investigação que se pode adotar como exemplo para compreender a importância do problema que me pro- ponho. Há tempos que estudo o consumo em Veneza de 1500 a 1700 para responder a uma pergunta que parece essencial para com- preender a sociedade de Ancien Régime, a saber: como se estrutura o consumo em uma situação em que as diversidades — e sobretudo as diversidades de consumo — entre irmãos, entre grupos sociais, en- tre gêneros, se construíram estrategicamente para garantir a sobre- vivência? E também como se passa desta sociedade onde a desigual- dade é estratégica, aceita e racional, para uma sociedade que governa seus comportamentos mediante um idioma — só um idio- ma, que se legitima nas codifi cações — de igualdade entre herdei- ros, entre irmãos, entre grupos sociais e, idiomaticamente, entre gêneros. Quais são, pois, as formas que adota a justiça em uma dis- tribuição desigual de bens em que os valores de equidade se chocam com os de igualdade? Em minha opinião, a chamada revolução do consumo não é na realidade um problema de quantidade, de incremento das rendas nem de disposição de novos bens, como com farta frequência os historiadores têm opinado.1 Pelo contrário, trata-se de um problema 1 Cf., por exemplo, Brewer e Porter (1993). AF_livro final ok.indd Sec4:52AF_livro final ok.indd Sec4:52 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 53de lenta transformação cultural da desigualdade estratégica em igual- dade idiomática, transformação que requer uma profunda revolução cultural que implica, e provavelmente simplifi ca, a própria ideia de reciprocidade, na qual a relação de dom e contradom resulta menos importante que o sistema global de intercâmbio em uma sociedade governada por um sistema aceito de justiça da desigualdade.2 2 No centro do discurso devemos pôr a equidade, conceito que gover- na alguns dos sistemas jurídicos dos países mediterrâneos e certos aspectos profundos da cultura e da estrutura antropológica do senti- do comum de justiça das populações mediterrâneas. Em uma socie- dade governada pela justiça distributiva, isto é, por uma justiça que aspira a garantir a cada um o que lhe corresponde segundo seu status social, complica-se inclusive o modelo polanyiano de reciprocidade,3 a saber, o movimento recíproco e bilateral através do qual passam os bens no intercâmbio: não se trata só de reciprocidade generalizada ou equilibrada, mas de uma multiplicação de reciprocidades possí- veis nas quais — nas relações de cada grupo com todo outro grupo e no próprio seio de cada grupo ou no limite das relações de cada pessoa com todas as outras — as interpretações da reciprocidade se multiplicam de acordo comsignifi cados complexos que misturam tipo de reciprocidade e nível social dos protagonistas do intercâm- bio. Desta forma, todo intercâmbio mercantil teoricamente equili- brado pode considerar a determinação do preço segundo os níveis sociais e as relações dos contratantes, e todo intercâmbio de bens pode parecer o resultado de uma reciprocidade equilibrada ou gene- ralizada segundo quem realiza o intercâmbio e com quem. Do mes- mo modo, é impossível examinar uma sociedade que põe os valores puramente econômicos acima dos valores de boa vontade e amizade, 2 Cf. Levi, 1996. 3 Polanyi, 1977:61-74. AF_livro final ok.indd Sec4:53AF_livro final ok.indd Sec4:53 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 54 de dom e de contradom, sem ter em conta se sua fi nalidade é cons- truir uma sociedade de iguais ou se, pelo contrário, se propõe con- fi rmar uma estrutura social hierárquica.4 Queria, além disso, destacar que, todavia, se trata de um proble- ma vigente na sociedade atual, tanto no terreno jurídico como no econômico. A cultura social católica e amiúde também a socialista, ainda que com signifi cados diversos devido à distinta atenção que uma e outra prestam à igualdade, falam com frequência de capitalis- mo solidário, o qual é antes uma paradoxal fi gura retórica que um conceito operativo, em que pese a importância de seu refl exo nas práticas políticas. Mas o confl ito entre rigor da lei e equidade se manifesta especialmente na difi culdade frequentemente comprova- da para aceitar a impessoalidade da justiça,5 que tantas vezes se dis- cute em nome de uma concepção de equidade que talvez estivesse já latente à margem dos sistemas jurídicos formais, mas que agora tem a possibilidade de se expressar: a indeterminação dos limites que se põe à lei e o papel do juiz em relação com a lei ocupam o centro da 4 O importante livro de Clavero (1991) me parece que subestima a necessidade de inserir o dom e o contradom no modelo geral de sociedade — hierárquico e prote- gido — que aspira construir a segunda escolástica. Duas coisas não partilho com Clavero: a insufi ciente avaliação do sentido comum de justiça, como se se pudesse explicar as práticas sociais através das leis e dos códigos exclusivamente. Em segun- do lugar — e como consequência —, a insufi ciente avaliação da permanência, nos comportamentos políticos nos países católicos de hoje, de uma concepção de justiça em confl ito com as instituições estatais. Para observações muito interessantes sobre a distância entre a interpretação do direito do antropólogo e do jurista, veja-se Geertz (1983). 5 Na Itália são frequentes os movimentos de repúdio às leis em nome de um senti- do indefi nido de justiça mais justa que a lei. Recentemente, um médico, o doutor Di Bella, provocou uma autêntica insurreição popular com uma manifestação de mais de dez mil pessoas perante o Ministério da Saúde e conseguiu que dois juízes municipais se pronunciassem a favor de que o sistema sanitário público se encarre- gasse de uma terapia sua contra o câncer que havia se demonstrado inefi caz. Apaga- do o caso na Itália, tentou — sem êxito — relançar a questão em outro país católico, a Argentina. Há anos houve um caso de adoção ilegal, anulada pelo juiz, que deu lugar a uma discussão que se prolongou vários meses. Sobre este tema foi publicado um livro exemplarmente representativo do sentido comum de justiça, escrito por uma conhecida autora, Natalia Ginzburg (1990:2), que sustentava precisamente que “o fi m de proteger a universalidade dos meninos não justifi ca uma ação cruel reali- zada sobre a pessoa de um só menino [...] É preciso perguntar-se qual é a ação mais justa à luz da verdadeira justiça”. AF_livro final ok.indd Sec4:54AF_livro final ok.indd Sec4:54 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 55crise da justiça em muitos países europeus. Hoje retornam ao centro do debate jurídico e político tanto a intervenção da jurisprudência na elaboração do direito propondo interpretações, como a consciên- cia da impossibilidade de individualizar uma interpretação única do texto. A relação entre elaboração, aplicação e interpretação da lei caracteriza de uma maneira muito particular a história cultural dos países do Mediterrâneo. Certamente não de modo unívoco; contu- do, tenho a impressão de que os sistemas jurídicos dos países católi- cos e dos islâmicos, enquanto tradição jurídica do judaísmo, têm deixado — com grandes variantes, repito — muito espaço para as interpretações jurisprudenciais, para o uso da analogia, para o papel corretivo dos juízes no sentido da equidade na hora de aplicar a casos concretos a lei demasiadamente geral. Portanto, trata-se de um problema de caráter mais antropológico que estritamente histórico-jurídico. O papel do sentido comum de justiça difundido entre as pessoas que vivem nesta área parece parti- cularmente confl itivo em relação com os sistemas jurídicos que se foram constituindo sucessivamente. A debilidade das instituições em relação ao sentido comum de equidade parece associar-se a um papel particularmente forte de tradições políticas de origem teológi- ca e à permanência, na consciência comum, da imagem de um plu- ralismo jurídico que na multiplicidade das fontes de produção das normas vê em realidade a possibilidade intersticial de mover-se com relativa liberdade entre sistemas normativos contraditórios, cada um deles já debilitado e erodido pela própria multiplicidade. A defi nição da área que temos chamado mediterrânea, não obstante sua difi cul- dade e sua grande arbitrariedade, pode encontrar-se em todas as realidades nas quais, em que pesem os esforços realizados, não se tem alcançado estabelecer uma separação e uma hierarquização ní- tida a favor das instituições do Estado sobre a presença de institui- ções religiosas. Excluiria deste modelo a França, porque a formação do Estado moderno neste país através do absolutismo defi niu preco- cemente a supremacia das instituições do Estado também no sentido comum de justiça. AF_livro final ok.indd Sec4:55AF_livro final ok.indd Sec4:55 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 56 Uma última consideração sobre a importância do problema. Nes- ta reconsideração da relação entre justiça e história, entre tarefas do juiz e tarefas do historiador, não só se tem visto implicado o debate recente sobre a ética e a justiça como equidade, como também a própria prática historiográfi ca recente; a remissão ao sentido comum acerca do que é justo, a difundida prática de processar a história e o papel jurídico (mais testemunhos de experts) que se tem confi ado aos historiadores nos processos recentes por crimes contra a huma- nidade, têm voltado a pôr sobre a mesa problemas complexos de relação entre sistemas positivos de leis e sistemas éticos, o que reme- te a difíceis operações analógicas e a apelações a imagens universais de equidade.6 3 Mas partamos de Polanyi. Apesar de que os comentaristas não o tenham observado e de que não se possa encontrar neste autor uma elaboração ampla do conceito de equidade, o próprio Polanyi vê uma estreita relação entre reciprocidade e equidade: Para retornar à reciprocidade, um grupo que decidisse organizar as relações próprias sobre essa base deveria, para alcançar seu en- cargo, subdividir-se em subgrupos simétricos cujos membros res- pectivos pudessem identifi car-se reciprocamente enquanto tais. Então os membros do grupo A poderiam estabelecer relações de reciprocidade com suascontrapartidas do grupo B e inversamen- te; ou bem se pode dizer que três, quatro ou mais grupos são si- métricos com relação a dois ou mais eixos e que os membros desses grupos não têm por que praticar necessariamente a recipro- cidade entre si, senão com os membros correspondentes de outros grupos com os quais se encontram em relações análogas... o que 6 Cf., por exemplo, o dossiê Verité judiciaire, vérité historique, com artigos de F. Har- tog, M. Baruch, Y. Thomas e P. Y. Gaudard em Le débat, 102 (1998), p. 4-52. AF_livro final ok.indd Sec4:56AF_livro final ok.indd Sec4:56 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 57dá vida a uma cadeia ilimitada de reciprocidades sem que exista reciprocidade alguma entre eles. Um sistema de reciprocidades não é, pois, o pózinho dos atos de reciprocidade, de dom e contradom, que “tem lugar em ocasiões diferentes, segundo um cerimonial que impede qualquer noção de equivalência, porque com frequência as atitudes pessoais individuais carecem de efeitos sociais”. Só em um ambiente organizado simetri- camente, as atitudes de reciprocidade darão lugar a instituições eco- nômicas de certa importância.7 As formas de integração devem criar, portanto, um sistema. E a regra das sociedades que se baseiam na reciprocidade não será senão a adequação: Enquanto nosso sentido de justiça busca a adequação em termos de castigo e recompensa, os movimentos recíprocos dos bens re- clamam a adequação em termos de dom e contradom. Neste caso, adequação signifi ca sobretudo que a pessoa justa deveria recom- pensar um dom com o objeto de tipo justo no momento justo. Naturalmente, a pessoa justa é a que se encontra em uma posição de simetria. De fato, a não ser por esta simetria, seria impossível o funcionamento do conjunto das ações de dar e receber implíci- to em um sistema de reciprocidade. Com frequência o compor- tamento adequado é o que se inspira na equidade e na consideração do outro, ou que pelo menos parece inspirar-se nela, e, em con- sequência, é diferente da atitude stricti juris da lei antiga, que pode ser exemplifi cada na insistência de Shylock em ter sua libra de carne. O costume dos dons recíprocos não vai quase nunca acom- panhado de rígidas práticas contratuais. Seja qual for a razão da elasticidade que leve a preferir a equidade ao rigor, tende clara- mente a desalentar as manifestações de egoísmo econômico nas relações de reciprocidade baseadas no dar e no receber.8 7 Polanyi, 1977:64-65. 8 Polanyi (1977:66). O grifo de equidade é meu. AF_livro final ok.indd Sec4:57AF_livro final ok.indd Sec4:57 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 58 Durante muito tempo, as sociedades complexas islâmicas e católicas tiveram a reciprocidade entre suas imagens centrais, em um sonho pro- vavelmente irrealizável, uma vez superadas as pequenas dimensões das comunidades nas quais operam simetrias mais limitadas, sufi cientes para sistemas sociais mais simples. A força de um poder central, garan- tia da justiça distributiva, e a institucionalização de classifi cações sociais de sociedades hierarquizadas não bastavam para garantir o funciona- mento de um sistema de integração baseado na reciprocidade, mesmo quando a mistura de mecanismos de integração baseada na redistribui- ção se propusera conviver com uma sociedade em que as células básicas — família e comunidade — puderam continuar operando através da reciprocidade que emanava da boa vontade e da amizade, da solidarie- dade e do dom-contradom. E contudo — e nisto não estou de acordo com Polanyi — não se tratava de um confl ito entre rigor e adequação, quer dizer, entre mensurabilidade das equivalências e arbitrariedade relativa do intercâmbio de dons e contradons: também a equidade tem de ter sua medida, um rigor referido à simetria que governa o conjunto do sistema, distinto da equivalência. Uma medida que se deve estabe- lecer caso a caso, transação a transação, mas que remete a uma percep- ção social que os protagonistas possam identifi car e que mantenha a equidade de uma relação de intercâmbio entre pessoas desiguais. Muitas vezes o todo que se dá será consequência desta justiça (distributiva); por exemplo, o soldado serve bem a seu príncipe ou ao capitão pelo soldo estabelecido, o criado serve bem a seu patrão, de quem recebe o salário, ou o fi lho responde bem às atenções paternas; em estrito rigor de justiça comunicativa, que os juristas explicam como ação civil, com capacidade para apre- sentar-se em juizo, nenhum deles poderá aspirar a outra mercê, porque já a recebeu, e fez o que devia fazer; mas se o príncipe, o capitão, o patrão ou o pai, em relação com uma diligência par- ticular, delicadeza no serviço ou atenções, impulsionados por aquela obrigação natural, que os juristas chamam antidoral, lhes fazem um donativo, ou lhes concedem outra mercê, cometerão AF_livro final ok.indd Sec4:58AF_livro final ok.indd Sec4:58 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 59um ato de justiça distributiva contanto que o exerçam com aquilo do que podiam dispor livremente sem molestar as posi- ções de outro e na devida proporção da circunferência a seu centro do mérito, porém não sem esta condição. A justiça distributiva, de fato, se assemelha a uma esfera cuja circunferência está regulada por seu centro, onde têm origem todo raio e toda linha, e é regra bem proporcionada por muito que seus raios ou linhas se distan- ciem do centro. Portanto, o mérito ou o demérito são o centro desta justiça, sem os quais esta não existe; porém no modo de quem tem o poder para exercê-la, se pode dar maior distancia- mento, da mesma maneira em que se dá nos raios ou nas linhas, sem perda da proporção devida.9 Portanto, a medida é a proporção, que pode defi nir-se caso a caso através da avaliação que só uma autoridade pode determinar. Porém se trata de uma medida exata, não arbitrária, “posto que o dar ou o premiar sem mérito não será ato de virtude de liberdade, mas vício de prodigalidade, que comporta injustiça ao tirar dos meritórios e dar aos que carecem de mérito”. O cardeal De Luca parece aqui imaginar um mundo de bens limitados no qual todo ato de genero- sidade não só premia alguém, como tira de outros. E isto é precisa- mente o que requer uma proporção ponderada. A lei existe, porém é distinta para todos, segundo as condições e os méritos. Contudo, requer o rigor da proporcionalidade geométrica. A esfericidade da justiça distributiva é uma metáfora: a esfera é a totalidade, o bem limitado a distribuir em sua perfeição; mas os méritos e deméritos produzem variações na longitude dos raios. E também é uma metáfora a imagem com que De Luca nos descreve a justiça comutativa e a proporcionalidade aritmética: 9 De Luca, 1740:54-65. AF_livro final ok.indd Sec4:59AF_livro final ok.indd Sec4:59 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 60 Pelo contrário, a justiça comutativa se assemelha à fi gura qua- drada, que por necessidade requer a igualdade e a proporção das linhas, nenhuma das quais deve ser maior que as outras, ou en- tão à balança, que para estar em equilíbrio deve ter tanto peso em um prato como no outro: e em consequência, que a cada um se dê o seu e o que lhe é devido, mas não mais nem menos.10 Portanto, não só no seio da relação entre indivíduos se pode apre- ender a medida, mas também na coerência entre os comportamentosindividuais e o modelo geral que a sociedade prescreve. E neste caso se trata das prescrições da teologia e da moral cristã em suas impli- cações políticas: se não há na revelação divina nada do qual se possa deduzir uma política especifi camente cristã, as instituições tempo- rais “relinquuntur humano arbitrio”, porém, devem tender ao bem co- mum político prescrevendo as virtudes e combatendo os vícios, seja qual for a forma pré-selecionada entre a pluralidade de formas que a comunidade dos homens possa assumir. Portanto, a liberdade dos homens deve estar presidida pela superioridade moral da Igreja, com sua função corretiva e de controle.11 Muitas vezes, os que têm se ocupado da antropologia política das sociedades católicas do Ancien Régime têm se surpreendido perante o caráter aparentemente libertário das regras sociais: os homens são completamente livres em suas eleições, seus sistemas políticos não são criações de Deus, mas fruto de seu livre-arbítrio. Porém esta li- berdade está sob tutela: como meninos que experimentam sua rela- ção com a realidade sob o olhar atento dos pais, os homens se aven- turam, por sua conta e risco, na empresa prescrita de formar uma sociedade política e econômica; porém à Igreja, encarnação do po- der diretivo e coativo de Deus, corresponde a tarefa de controle e de atração para dirigir os homens, de acordo com a lei, para a consecu- ção de seus fi ns sobrenaturais, dos quais continuamente se distan- 10 De Luca, 1740:66. 11 Cf. Villey (1991). Mais em geral, cf. Villey (1985). AF_livro final ok.indd Sec4:60AF_livro final ok.indd Sec4:60 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 61ciam enquanto pecadores. 12 Na realidade, o aspecto libertário da doutrina católica que vendem Skinner e Clavero,13 por exemplo, só é aparente: é a liberdade do pecador sob tutela. Há, pois, uma aparência de incomensurabilidade nas relações de reciprocidade porque há uma aparência de liberdade absoluta. Po- rém, nela se oculta um sentido determinado de justiça que se mede em função da adequação na criação de uma sociedade hierarquizada e corporativa em que não são justos os atos econômicos que têm como fi nalidade o enriquecimento, a não ser os que tendem a favo- recer a circulação de bens e o bem-estar coletivo e desigual, em que, portanto, predominem a amizade e a boa vontade e no qual cada um tenha o que lhe corresponde segundo equidade, ou seja, conservan- do a proporção relativa a seu status. Em consequência, a equidade é um ideal que não se mede sobre a base de regras abstratas, mas sobre a base de referências ao processo geral de melhora progressiva da sociedade rumo a seus destinos sobrenaturais; não são objeto de me- dição por parte dos atos particulares, mas de juízo por parte da Igre- ja em seu papel de tutora. Sendo assim, como podemos caracterizar mais detalhadamente este conceito de equidade? 4 É obrigatório remontar o conceito de equidade (epiéicheia) a este conhecidíssimo fragmento da Ética a Nicômaco: O justo e o equitativo são o mesmo, e, apesar de serem excelen- tes ambas as coisas, o equitativo é melhor. A aporia é produto de que o equitativo é justo, porém não o é segundo a lei, senão que, pelo contrário, é uma correção do legalmente justo. Causa disso é que toda lei é universal, mas sobre determinados temas é im- 12 Skinner, 1978:213. 13 Cf. Skinner (1978:199-253) sobre o renascimento do tomismo, e Clavero (1991). AF_livro final ok.indd Sec4:61AF_livro final ok.indd Sec4:61 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 62 possível pronunciar-se corretamente em forma universal. Por- tanto, nos casos em que é necessário pronunciar-se de maneira universal, porém, por outro lado, é impossível fazê-lo correta- mente, a lei tem em conta o que sucede ordinariamente, sem ignorar o erro [...] Portanto, quando a lei se pronuncia em geral, porém no âmbito da ação sucede algo que vai contra o universal, é justo corrigir a omissão ali onde o legislador deixou o caso incompleto e errou porque se pronunciou em geral [...] Portan- to, o equitativo é justo e é melhor que certo tipo do justo, não que o justo em absoluto, mas que o erro que tem como causa a formulação absoluta. E esta é a natureza do equitativo, a de ser correção da lei na medida en que esta perde valor por causa de sua formulação geral.14 Porém o conceito surgiu e teve importância em sociedades que não reconheciam a igualdade entre cidadãos abstratos — segundo a qual a lei é igual para todos —, mas que, pelo contrário, acentuam a desigualdade de uma sociedade hierárquica e segmentada, em que conviviam sistemas hierárquicos correspondentes a diversos siste- mas de privilégio e de classifi cação social: portanto, uma pluralida- de de equidades segundo o direito de cada um ao qual se reconheça o que lhe corresponde sobre a base de sua situação social e de acordo com um princípio de justiça distributivo. Na sociedade de Ancien Régime, o conceito de equidade era o protagonista central de seu sonho impossível — ou, melhor dizendo, já impossível — de cons- truir uma sociedade justa de desiguais. Nela a impossibilidade não se sustentava tanto no confl ito entre aequitas y aequalitas quanto no sonho de que cada um fosse classifi cável com exatidão em um papel ou em uma condição social unívoca, defi nida e estável. A lei difere para cada estrato social, quando não para cada pessoa, em uma jus- tiça do caso concreto determinado segundo as desigualdades sociais defi nidas. 14 Aristóteles. Ética a Nicômaco, livro V, 14, p. 5-25. AF_livro final ok.indd Sec4:62AF_livro final ok.indd Sec4:62 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 63Frequentemente se tem imaginado na história do direito a equi- dade como mero instrumento com efi cácia derrogadora do direito, embora sem atribuir-lhe natureza antijurídica ou ilícita.15 Para mim, em contrapartida, me parece que a equidade — ou, melhor, as equi- dades — são a própria raiz de um sistema jurídico que aspira orga- nizar uma sociedade estratifi cada, porém móvel, na qual convivem muitos sistemas normativos no esforço de conhecer o que é justo para cada um. Não poderíamos compreender as revoltas camponesas da Idade Moderna se as concebêssemos como revoltas contra um sistema es- tratifi cado e não como destinadas a obter o justo e equitativo para os camponeses no seio de um sistema de desigualdades aceitas. O mes- mo ocorre com as revoltas anonárias básicas, segundo Edward P. Thompson,16 para a interpretação da economia moral do povo e que são precisamente revoltas pelo preço justo ou, melhor ainda, pela reafi rmação de um sistema adquirido diferenciado e equitativo de preços, mas não movimentos igualitários ou contrários à existência do mercado; para confi rmar e não para modifi car a estrutura social. Além disso, me parece que acentuar a equidade contribui para explicar os esforços classifi catórios que caracterizam a sociedade de Ancien Régime, esforços desprendidos justamente para defi nir de ma- neira estável condições sociais às quais se reconhecem privilégios específi cos. Para dar um exemplo extremo, pense-se no gênero pic- tórico mexicano que fl oreceu nos séculos XVII e XVIII, que repro- duz “a sociedade de castas” e que trata de classifi car os efeitos das mestiçagens e das mestiçagens de mestiçagens entre índios, brancos, negros e orientais: “de mulato e mestiça se produz mulato tornatrás”, ou “de índio e mestiça nasce coyote”, ou “deespanhol e índia nasce mestiço; de espanhol e mestiça, castizo; de espanhol e castiza, espa- 15 Veja-se, por exemplo, as sínteses: Calasso (1966:65-68); Guarino (1960:619- 624); Varano (1989:1-14). 16 Thompson (1993). Até que ponto os cardeais que administravam a anona roma- na tinham presente o problema do preço justo dos alimentos é mostrado em Marti- nat (1999). AF_livro final ok.indd Sec4:63AF_livro final ok.indd Sec4:63 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 64 nhol”. Além da necessidade, evidente no último caso, de fechar o círculo com o retorno ao espanhol, para fazer manipulável, embora fi ctício, um processo que do contrário seria infi nito, a classifi cação das mestiçagens chega a uma lista paradoxal que compreende criollo, mestiço, mulato, zambo, castizo, mourisco, albino, ahí te estás, albara- zado, barcino, calpamulo, cabujo, coyote, chamizo, chino, cholo, grifo, jeníza- ro, jíbaro lobo, no te entiendo, salta-atrás, tenté en el aire, tornatrás, zambai- go.17 Este esforço revela a impossibilidade de se criar uma classe para cada diferença e a ilusão de que todo indivíduo podia ser incluído em uma classe segundo uma regra uniforme de atribuição. Mas os homens recebem muitos papéis ao mesmo tempo e criam realidades ambíguas que requerem equidades diferentes, não só indivíduo a indivíduo, como também situação a situação. Os arquivos dos tribu- nais do Ancien Régime estão cheios de procedimentos nos quais os protagonistas fazem seu jogo intersticial mediante a reivindicação de diferentes pertencimentos para gozar de diferentes privilégios; ou se inscrevem em classes impróprias pela exigência de ingressar no es- quema classifi catório requerido para gozar do mesmo privilégio de existência jurídica.18 Que Dante Alighieri estivesse inscrito no grêmio fl orentino dos médicos e dos boticários, e que, dois séculos e meio depois, João Calvino, ao chegar como prófugo em Estrasburgo, entrasse no grêmio dos alfaiates, quando na realidade nenhum deles dois jamais praticou o ofício em cuja corporação tinha sido inscrito, tornou quase proverbial a desconfi ança dos historiadores nas qualifi cações corporativas.19 Eram simplemente qualifi cações para existir: “no discurso me- dieval da cidadania, a visibilidade do sujeito está mediada, pois, por 17 Cf. García Sáinz, 1989. 18 Uma interessante casuística neste sentido, com referência aos tribunais civis ro- manos, pode ser vista em Groppi (1999). Cf. também Ago (1998). 19 Berengo, 1999:339. AF_livro final ok.indd Sec4:64AF_livro final ok.indd Sec4:64 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 65seu pertencimento ao corpo”, 20 mesmo quando esse pertencimento ordenado fosse fi ctício. 5 Mas o que agora me interessa não é a história do conceito jurídico de equidade, senão sua importância tanto para os sistemas jurídicos como para a elaboração dos sistemas políticos e a realidade antropo- lógica das sociedades do Mediterrâneo. Contudo, toda a história do conceito de equidade pode ser sintetizada em dois processos contra- postos: enquanto alguns ordenamentos — quase todos os dos Esta- dos modernos continentais — tendiam a deixar de lado toda refe- rência à equidade, reduzindo-a em realidade a instrumento perigoso ao qual recorrer unicamente em casos extremos de ausência de re- gras no campo civil, outros ordenamentos — os que acentuam mais o papel dos tribunais e da jurisprudência — tendiam a fazer da equi- dade um instrumento central da interpretação e da aplicação da lei. Tenho a impressão de que precisamente nas sociedades mediterrâneas não predominou nenhuma destas orientações, porém entre uma e outra se seguiu uma história própria e paralela nas atitudes e nos sis- temas informais de direito, embora não nos ordenamentos. Escolherei três momentos como particularmente signifi cativos. Comecemos pela equidade canônica que ilustram, por exemplo, Ch. Lefebvre,21 P. Fedele22 e, com particular atenção ao signifi cado políti- co de longa duração do conceito, P. Grossi,23 a quem remeto também para uma análise mais profunda. Neste momento só me urge destacar que a equidade é um elemento central de um sistema normativo que, contrapondo a infl exibilidade e a imobilidade abstrata da justiça divi- na à especifi cidade da justiça humana, prescreve diretamente como 20 Costa, 1999:19. 21 Lefebvre, 1951a. 22 Fedele, 1966. 23 Grossi (1995:203-222). Pelo contrário, em Gaudemet (1994) deixa-se de lado por completo a importância do problema. AF_livro final ok.indd Sec4:65AF_livro final ok.indd Sec4:65 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 66 dever do juiz a aplicação da lei de acordo com os princípios da rationa- bilitas (isto é, da conformidade da razão à teologia), da salus animarum e da charitas, e especial atenção à ratio peccatum vitandi e ao periculum animae. E disso nasce uma complexa série de normas de comporta- mento para o juiz canônico, que tanta importância terão nas doutri- nas políticas dos séculos XVI e XVII: por exemplo, a tolerantia é no essencial a dissimulatio. Em particular seria muito útil — e só o digo de passagem — ver em que medida as doutrinas católicas da razão de Estado e a discussão sobre a dissimulação honesta tomavam muitos de seus elementos constitutivos não só da tradição estoica, como também da tradição jurídica canônica. E isto nos permitiria esclarecer melhor em que sentido é católica a razão de Estado católica.24 A dissimulação tem, na prática canônica, um fi m fundamentalmente positivo, ligado precisamente à gestão da justiça em estrita referência à contextualiza- ção dos casos singulares, em função de uma melhora moral geral. Portanto, não me parece sufi ciente vê-la como técnica política de domínio, como faz, por exemplo, Villari quando comenta Della dissi- mulazione onesta, de Torquato Accetto, nestes termos: “Concebida pelo pensamento clássico e medieval como problema eterno do ho- mem, da relação entre aparência e realidade, entre mentira e verdade, em fi ns do século XVI e durante o século seguinte foi considerada sobretudo como um aspecto específi co da vida política e do costume da época”,25 tanto que “também o mundo da oposição e da resistência ativa ao poder recebeu e fez sua uma técnica elaborada ofi cial e exclu- sivamente para a ação de governo”.26 Precisamente nos limites da dis- simulação se apoia o problema central de sua legitimidade e sua ho- nestidade, limites que têm sua defi nição na prática jurídica católica. O que se traduza em técnica de governo ou de resistência ao poder, pas- sando por Maquiavel, não afeta no fundamental a relação da razão de Estado católica com as origens jurídico-canônicas.27 24 Lefebvre, 1951b. 25 Villari (1987:18). Tampouco me parece que encare este problema Borrelli (1993). 26 Villari, 1987:25. 27 Olivero, 1953. AF_livro final ok.indd Sec4:66AF_livro final ok.indd Sec4:66 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 67Grossi fala da notável infl uência do direito canônico clássico no desenvolvi- mento de toda a juridicidade ocidental. A posição central da equidade canônica, verdadeira norma constitucional não escri- ta; o sentimento constante da mutabilidade do direito humano; a consequente e forçosa elasticidade deste e o importante papel do juiz que o aplica: eis aqui pontos fi rmes que, ao transbordar os termos fechados da sociedade eclesial, penetrarão na ordem jurídicada sociedade civil, a solicitarão, a impregnarão.28 Mas vale a pena destacar que não se trata tão só de relação entre ordem jurídica canônica e civil, senão também de infl uência da con- cepção de unidade em um campo menos defi nido, como é o do sentido comum de justiça, o modo de perceber o justo e o injusto das sociedades católicas e, portanto, o modo de relacionar-se com o Estado e suas instituições. Convivência complexa que, não obstante os ordenamentos e as codifi cações, não se resolve em uma sucessão de concepções jurídicas: de fato, no sentimento comum convivem “nossa igualdade formal, abstrata, igualdade jurídica de sujeitos na realidade desiguais e que continuam sendo desiguais apesar da cíni- ca afi rmação de princípio” e “a igualdade que a aequitas pretende garantir e que, pelo contrário, é pura substância […] a unicidade do sujeito — do sujeito civil abstrato — é um futurível das invenções iluministas. Não existe aqui o sujeito, mas os sujeitos, e sujeitos bem encarnados, com toda sua carga de faticidade, ou seja, de imersão nos fatos”29 e, portanto, de status e de papéis diferentes. A equidade não se proporá sem gravíssimos confl itos: a conciên- cia que a equidade contrapõe à própria concepção de Estado moder- no, e em particular à monarquia absoluta, pouco a pouco abrirá ca- 28 Grossi (1995:216). A referência é também à equity do sistema jurídico inglês, que contudo não estudaremos aqui, pois nos distanciaria demasiadamente desta análise mediterrânea. 29 Grossi, 1995:179. AF_livro final ok.indd Sec4:67AF_livro final ok.indd Sec4:67 4/12/2009 15:03:154/12/2009 15:03:15 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 68 minho para si. Da mesma maneira, cada vez será mais evidente a explícita contradição entre o poder do juiz na aplicação equitativa da norma e da segurança do direito. 6 Podemos exemplifi car isto com Bodin, que na interpretação dos juízes de acordo com a equidade via precisamente uma ameaça ao próprio princípio de soberania: na base mesma das teorias absolutis- tas reside a contradição que deriva da interpretação da lei e da apli- cação equitativa das normas como modo de operar dos juízes. No primeiro livro de La République, capítulo X, Bodin defi ne “as ver- dadeiras marcas de soberania”. A primeira marca do príncipe soberano é o poder para dar a lei a todos em geral e a cada um em particular [...] sem consentimento dos maiores, nem de semelhante, nem de menor em relação a si mesmo [...] A segunda marca de majestade [...] declarar a guerra ou tratar da paz [...] A terceira marca de soberania é a de instituir os principais funcionários [...] Não é a eleição dos funcionários o que comporta direito de soberania, (mas) sua confi rmação e sua provisão [...] A outra marca soberana é a instância última, que é e sempre tem sido um dos principas direitos da soberania [...] A quinta marca de soberania [...] o poder de outorgar graça aos condenados, por cima das sentenças e contra o rigor das leis, seja para a vida, os bens, a honra ou o regresso do desterro.30 30 Bodin, J. Les six livres de la République, livro I, cap. 10. Tradução livre de “La premiere marque du prince souverain, c’est la puisssance de donner loi à tous en général et à chacun en particulier [...] sans le consentement de plus grand, ni de pareil, ni de moindre que soi [...] La seconde marque de majesté […] décerner La guerre ou traiter la pax [...] La troi- sième marque de souveraineté est d’instituer lês principaux offi ciers [...] Ce n’est pas I’élection des offi ciers que emporte droit de souveraineté, (mais) la confi rmation et provisión [...] L’autre marque souveraine, c’est á savoir du dernier ressort, qui est et a toujours eté l’un des principaux droits de La souveraineté [...] La cinquiéme marque de souveraineté [...] la puissance d’octroyer gráce aux condamnés par-dessus les arrêts et contre la rigueur des lois, soit pour La vie, soit pour les biens, soit pour I’honneur, soit pour le rappel du ban”. AF_livro final ok.indd Sec4:68AF_livro final ok.indd Sec4:68 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 69Todos estes signos de soberania, que deixam a ação derrogatória da lei à discrição do soberano, embora dentro dos limites da equida- de, são inalienáveis. Só um aspecto da equidade escapa ao soberano: Mas entre as marcas de soberania, há os que têm posto o poder de julgar segundo sua consciência: o que é comum a todos os juízes em caso de não haver lei nem costume expresso [...] Se há costume ou ordenação em sentido contrário, o juiz não tem poder para passar por cima da lei, nem para discutir a lei [...] Porém o Príncipe pode fazê-lo se a lei de Deus — única limita- ção da soberania — não é expressa a respeito.31 De tudo isto decorre a rígida atitude com que Bodin limita a interpretação da lei, deixando à consciência dos juízes a tarefa de julgar somente na ausência da lei e nunca em oposição à lei. Portan- to, não se consente aos juízes a aplicação desigual da lei segundo a variedade de lugares, momentos e pessoas; a equidade, em contra- partida, é o princípio próprio do soberano, a quem, precisamente em função da exclusividade dos direitos que defi nem a soberania, primeiro entre todos e do qual os outros aspectos são só especifi ca- ções, se consente que faça as leis. A interpretação e a aplicação equi- tativa da lei transformariam de algum modo o juiz em legislador, o que dissolveria a soberania. Mas em que consiste a equidade para Bodin? Ele o esclarecerá no capítulo VI do livro sexto. A característica da justiça distributiva e da proporção geométrica é uma igualdade geométrica que governa este tipo de justiça, típica da sociedade aristocrática e hierárquica, na qual cada um tem direitos diferenciados e todo semelhante em status deve unir-se e ser tratado com seus semelhantes. Tem muitos aspec- 31 Bodin, J. Les six livres de la République, livro I, cap. 10. Tradução livre de “Mais entre les marques de souveraineté, plusiers on mis la puissance de juger selon sa conscience: chose qui est commune á tous juges, s’il n’y a loi ou coutume expresse [...] S’il y a coutume ou ordonnance au contraste, il n’est pas en la puissance du juge de passer par-dessus la loi, ni disputer la loi [...] Mais le Prince le peut faire si la loi de Dieu —única limitação a la sobera- nía— n’y est expresse”. AF_livro final ok.indd Sec4:69AF_livro final ok.indd Sec4:69 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 70 tos de equidade, mas não pode funcionar por si só devido a sua rigi- dez, “la fermeté de la regle de Polycléte”. A isto se opõe a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática, que não aceita diferenças de status, se baseia na justiça comutativa e está em poder “de la variété et incertitude de la regle Lesbienne”. Em contraste com as duas formas de justiça aristotélica é preciso, pois, “suivre la justice harmonique, et accoler ces quatre points ensemble, á savoir loi, equité, exécution de la loi, et le devoir du magistrat”. E a justiça harmônica, que é a proporção que funde ambas as igualdades, é a equidade garantida pela soberania absoluta do príncipe, o único que pode “accomoder l’équité á la varieté particuliére des lieux, des temps et des personnes”.32 7 Durante todo o século XVII — de Hobbes a Leibniz —, o sonho de uma lei tão simples e clara que reduzisse o papel de juiz ao de mero agente de aplicação mecânica das normas dominaria as escolas fun- damentais do pensamento jurídico-político. Quer se trate das inter- pretações voluntaristase nominalistas da justiça para as quais as coi- sas são justas porque assim Deus o quis, quer das interpretações essencialistas ou realistas, para as quais Deus quis que as coisas fos- sem assim porque eram justas, quer das interpretações do positivis- mo jurídico que deixam à vontade do homem a criação das normas jurídicas para que sirvam a seus apetites nas cambiantes circunstân- cias da vida, todas têm em comum a ideia de que há uma única fonte de justiça e que, portanto, é possível criar uma justiça exata e uniforme. A justiça distributiva tende a desaparecer dos objetivos do 32 Bodin, J. Les six livres de la République, livro VI, cap. 6. Sobre Bodin e a equidade, veja-se Beaud (1994:191-196). Tradução das quatro citações em francês deste pará- grafo: “a incomovível fi rmeza da regra de Policleto”; “da variedade e incerteza da regra lesbiana”; “seguir a justiça harmônica e reunir os quatro pontos, a saber, a Lei, a Equidade, a Execução da lei e o dever do Magistrado” e “acomodar a equidade à variedade particular de lugares, momentos e pessoas” (N. do T.). AF_livro final ok.indd Sec4:70AF_livro final ok.indd Sec4:70 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 71direito propriamente dito, do ius strictum, 33 enquanto a equidade ten- de a ser reabsorvida na justiça como a moral e a vontade na razão, sem contrastes. Em suas refl exões jurídicas, por exemplo nas Medita- ções sobre o sentido comum de justiça (c. 1702), Leibniz (1994) chega ao que talvez seja a posição mais extrema quando sonha com uma jus- tiça praticamente mecânica, de acordo com sua teoria lógica que buscava a coordenação rigorosa entre signo e signifi cado, que fi xas- se de uma vez por todas a proporção entre caracteres e coisas, que é o fundamento da verdade. A justiça é uma das ciências necessárias e demonstrativas que não dependem de fa- tos, mas unicamente da razão, como o são a lógica, a metafísica, a aritmética, a geometria, a ciência dos movimentos e também a ciência do direito, que não se fundam na experiência e nos fatos e servem antes para aplicá-los e regulá-los por antecipação, o que também valeria para o direito se não houvesse leis no mundo. Em consequência, este é o objetivo por agora não realizado, mas que poderá sê-lo quando os homens se submeterem à lei de Deus e à razão. Dessa forma, “quando surgirem controvérsias, já não serão mais necessárias as disputas entre dois fi lósofos que entre dois calcu- listas. De fato, bastará pegar a pena, sentar-se perante o ábaco e di- zer-se reciprocamente: calculemos” (De scientia universalis).34 A equidade, a interpretação equitativa, são, em consequência, so- luções subalternas e parciais em um mundo imperfeito que contudo tem que recorrer a uma distinção entre strictum ius, bondade e equi- dade. O conceito de equidade iniciou assim um processo progressi- vo de marginalização e de redução, cujo desenvolvimento não se- guirei porque nos distanciaria muito das costas mediterrâneas. 33 A busca de uma distribuição justa dos bens seria sem dúvida um objetivo dema- siadamente ambicioso para o jurista e que, ou bem não forma parte de suas tarefas, ou bem carece diretamente de todo sentido para ele. Grócio descarta a justiça dis- tributiva do campo do direito propriamente dito. Villey (1985:529). 34 Leibniz, 1994. AF_livro final ok.indd Sec4:71AF_livro final ok.indd Sec4:71 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 72 Mas não ocorre o mesmo na Itália e na Espanha, sociedades nas quais o direito canônico conserva uma presença notável no sentido comum e na realidade cotidiana. A ação da Inquisição e a prática da confi ssão, do arrependimento e do perdão, difundida por toda parte, não puderam ter deixado de incidir, em um nível inconsciente, no sentido comum de justiça que o tribunal das consciências sugeria aos fi éis. Assim se criou uma cultura específi ca, que pouco a pouco se converteu em antropologia concreta, sentido muito estendido de um duplo valor da moral, de um signifi cado distante e fraco das institui- ções do Estado. 8 Disto se dava conta Vico — que utilizarei como último exemplo da evolução comparada do signifi cado da equidade —, muito infl uen- ciado pelo sentido católico da comunidade política no caminho rumo à redenção, isto é, “o progresso não interrompido de toda a história profana”. A semelhança com Leibniz é mera aparência: para o primeiro, a equidade desaparece na lei, enquanto para o segundo, a lei desaparece na equidade. Em De universi iuris uno principio et fi ne uno (1720),35 Vico divide o direito natural em ius naturale prius e ius naturale posterius, em que o primeiro mostra o indivíduo em sua exi- gência de conservação, para a qual o critério individual de cada um, dirigido à conservação, faz as vezes de norma. Em seu curso, a his- tória tem a função de desvelar progressivamente uma ordem natural diferente, fundada na capacidade da razão para transformar o prin- cípio de conservação individual em coletivo, quer dizer, referido aos corpos sociais. Este processo passa pelo ius gentium e pelo desenvol- vimento do direito civil, que transformam a luta de todos contra todos em relações de proteção baseadas no domínio e na subordina- ção. Da equidade natural do ius prius, que se contrapõe à verdade porque “ex ipsa hominis sociali natura duplex existit naturalis rerum socíe- 35 Vico (1974). A tradução italiana é de Carlo Sarchi, Milão, P. Agnelli, 1866. AF_livro final ok.indd Sec4:72AF_livro final ok.indd Sec4:72 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 73tas: altera veri, altera aequi boni”, 36 Vico nos conduz à equidade civil: parte da descrição da jurisprudência benigna ou ateniense e do ius pretorio, no qual “o vulgo (é) sensível à equidade natural e ignora a equidade política (vulgus naturalis solens, civilis aequitatis ignarum)”. Com a manutenção invariável das fórmulas das ações — segundo as XII tábuas —, o pretor provia a estabilidade da região civil, e com as exceções, quando se tratavam questões não contidas nas XII tábu- as ou quando a lei das XII tábuas resultava demasiadadamente dura (si aequitati lex surda durave esset), lhes introduzia, em caso de neces- sidade, a equidade do ius naturale.37 Assim se introduz uma jurisprudência benigna, “ars adqui boni”, segundo a defi nição de Celso. A equidade natural se caracteriza, pois, por acolher muitas exceções nas regras que a lei expressa, por- que no ius naturale prius domina contudo um hiato entre indivíduo e conveniência racional. A equidade civil, em troca, parece e é auto- ritária, pelo que “muito frequentemente recebe o nome de rigor da lei porque o rigor civil que se sofre imerecidamente é muito grave e amargo (magis appellata est ‘iuris rigo’, quia civilis rigor est sane rigor in causis in quibus contra immerente duratur)”.38 Só com o desenvolvimen- to da racionalidade e da communitas, o direito natural posterius faz coincidir aequitas e lei. Porém se trata de uma aequitas que tem sua raiz na aequitas natural, que a comunidade consente realizar. A alma de uma república é o direito equitativo para todos, cuja ideia — como temos demonstrado — é uma ideia eterna que vem de Deus. Portanto, temos concluído que a constituição eterna da república é a ordem natural e que, em consequência, a alma da república não é equitativa para a equidade civil, mas para a equidade natural animus republicae ius aequum omnibus, cuius ideam aeternam a Deo esse demonstravimus. Unde formam re- rumpublicarumaeternam ordinem naturalem esse confecimus; ac proin- 36 Vico, 1974:65. 37 Vico, 1974:283-285. 38 Vico, 1974: 289. AF_livro final ok.indd Sec4:73AF_livro final ok.indd Sec4:73 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 74 de animum reipublicae non esse aequum aequitate civili, sed aequitate naturali).39 porque o direito existe na natureza (ius esse in natura) e é demonstrá- vel matematicamente. “At quod est aequum dum metiris, idem est iustum quod eligis”.40 Portanto, a passagem do ius prius ao ius posterius marca a passagem de uma equidade natural individual para a equidade na- tural absoluta, passando pela equidade civil. Porque a equidade civil expressa a manipulação autoritária da segurança da lei que justifi ca a razão de Estado: “atque haec est aequitas civilis, qua Iustinianus in No- vellis dicit niti usucapiones, et ‘impium praesidium’ eleganter appellat, quam Itali elegantiori phrasi vertunt ‘razão de Estado”.41 O processo de civili- zação nos leva, pois, da utilidade privada à pública, na qual se fun- dem o sentido (utilidade e necessidade) e a razão sob o domínio desta última e em polêmica com o ius naturale philosophicum de Gró- cio, que reduzia só à razão a fase fi nal do sistema jurídico em que coincidiam aequum y justum. Eiusque iurisprudentiae regula aeterna est aequitas naturalis, quae mul- ta contra communes iuris regulas recipit et admittit ac iuris civilis rigores temperat. Sed ea ipsa durior est iuris rigor [...] neque enim ex suo iure immutabili quequam solvit, nec ullum unquam hominis meritum tan- tum est ut ratio naturalis ipsi indulget quod non dictet honestas. Tamen totius generis nomen occupavit; et aequitas civilis magis appellata est “iuris rigor”, quia civilis rigor est sane rigor in caussis in quibus contra immerentes duratur. At aequitas naturalis ex genere “aequitas” dicta est, quia in ipsis caussis in quibus immota haeret — haeret autem in omnibus — in ipsis, inquam, caussis benigna est. Et parvum est homi- num iudicium qui eam iniquo animo ferunt, nam de ea sensuum sapien- ta, quam stultitiam defi nivimus, iudicant.42 39 De constantia jurisprudentis (Vico, 1974:381). 40 Vico, 1974:57. 41 Vico, 1974:261. 42 Vico (1974:289). “A norma eterna de uma jurisprudência assim realizada é a AF_livro final ok.indd Sec4:74AF_livro final ok.indd Sec4:74 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 75Em Vico — e especialmente no Vico de De universi iuris uno prin- cipio et fi ne uno — é muito marcada a inspiração no cosmopolitismo católico e no pensamento político tomista quando descreve o pro- cesso que, através da realização progressiva da communitas entre os homens dominados pelas paixões e pelo pecado, leva à explicitação de uma racionalidade comum, que progressivamente elimina a força das relações entre os homens. Em síntese, uma racionalidade que conhece um desenvolvimento paralelo ao desenvolvimento das for- mas de convivência social. 9 A fi nalidade dos exemplos que examinei era mostrar que as imagens de justiça que se vão estruturando na Idade Moderna nos países eu- ropeus e nos do Mediterrâneo nascem de modos diferentes de en- frentar a oposição entre ordenamentos que, reforçando o peso da lei, abrem passagem pouco a pouco para a codifi cação e o ordenamento que reforçam — sem renunciar a certa forma de medida e de segu- rança do direito — o poder interpretativo dos juízes nas práticas judiciais. Desta forma, o problema vai se concentrando no espaço concedido aos juízes perante os casos não previstos explicitamente pela lei ou de difícil redução aos princípios fundacionais do ordena- mento: é assim como o conceito de analogia vem cumprir um papel muito importante, seja em sua forma mais limitada de analogia legis, seja na mais geral de analogia iuris. equidade natural, e por isso recebe e acolhe muitas exceções às regras que a lei ex- pressa, e se esforça em temperar os rigores da razão civil. Mas por sua própria con- dição, a equidade natural implica um rigor mais infl exível ainda; não exclui nin- guém de sua lei imutável, e a nenhum homem pode a razão natural agradar com o distanciamento da honestidade, pois a equidade natural é o nome genérico, que compreende todas as formas do equitativo. Que a equidade civil receba mais fre- quentemente o nome de ‘rigor de lei’ se deve a que o rigor civil sofrido imerecida- mente é muito grave e amargo, enquanto, pelo contrário, a equidade natural, isto é, a ‘equidade’ genérica e absoluta, se mostra sempre benigna inclusive nas causas nas quais se mostra mais estreitamente unida (e em todas é encontrada); e perverso é o conselho dos que a toleram de má vontade, porque têm o juízo ofuscado pela sabe- doria dos sentidos, que temos defi nido como estultícia”. AF_livro final ok.indd Sec4:75AF_livro final ok.indd Sec4:75 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 76 O procedimento mediante o qual se busca a disciplina do caso não regulado pode adotar três formas: a interpretação extensiva, que não tem caráter integrador, mas interpretativo; a remissão aos princípios gerais do ordenamento, com um papel interpretativo e integrador, e a analogia, cuja função é integradora.43 Só me deterei na analogia, dada a particular clareza com que, no tocante a este conceito, se mostram as tendências contrastantes dos sistemas jurídicos; de fato, enquanto, do ponto de vista da análise teórica, a analogia tem de- sempenhado um papel cada vez mais limitado nos sistemas jurídicos europeus, foi em contrapartida aumentando sua importância nos or- denamentos do direito hebreu, do islâmico e do canônico. Em geral, podemos dizer que o problema central na evolução para a codifi cação dos ordenamentos jurídicos tem sido o da limitação da ana- logia em duas direções. Entretanto, foi-se dando uma defi nição cada vez mais estreita de analogia, isto é, retirando dela esse caráter um tan- to indefi nido de semelhança que já haviam combatido o tomismo e depois Cayetano.44 O próprio conceito de analogia vai perdendo pouco a pouco a indefi nição da semelhança para converter-se em um concei- to exato de proporção. Analogia — dirá Kant — não signifi ca, “como se costuma interpretar a palavra, uma semelhança imperfeita de duas coisas, mas uma semelhança perfeita de duas relações entre coisas inclu- sive completamente diferentes”; isto é, precisamente, a proporção.45 E se recordará que para o cardeal De Luca a proporção também é a regra geometricamente exata da justiça distributiva e da equidade. A segunda via, mais explícita, embora conserve o caráter da se- melhança como faticamente defi nitório da analogia, tem sido a de pôr limites ao uso das práticas judiciais, excluindo-a especialmente 43 Bobbio (1960). Cf. também Carcaterra (1988), com particular referência à rela- ção entre equidade e analogia, p. 12-14. 44 Cf. Secretan (1984). Sobre as posições de Tomasso de Vio Cayetano a propósito da analogia, veja-se Nef (1993) e Riva (1955). Sobre Tomás de Aquino e Suárez, cf. Bastit (1990). 45 O Kant dos Prolegomena zu einer jeden künstigen Metaphysik die als Wissenschaft wird ausreten können (1783) é citado por Needham (1980) em seu importante ensaio sobre analogia intitulado “Analogical classifi cation”. AF_livro final ok.indd Sec4:76AF_livro final ok.indd Sec4:76 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 77do perigoso caminho das leis excepcionais e do direito penal, com maior razão no caso de leis penais incriminatórias.46Pelo contrário, é preciso destacar que todos os ordenamentos que tendem à individualização da pena, de grande predomínio nas so- ciedades desiguais e hierárquicas do Ancien Régime, utilizam com amplidão a analogia.47 Precisamente com referência à consideração subjetiva do delito, à sua diferenciação de acordo com os momentos, os lugares e as pessoas, à diferencialidade social de conjunto do sis- tema jurídico, a equidade impõe o procedimento analógico como instrumento central de direito. Não é necessário recordar o papel central da analogia (qiyás) nos sistemas jurídicos islâmicos,48 nos quais constitui uma das quatro fontes da lei muçulmana referida aos casos em que não exista uma prescrição textual explícita do Corão ou de uma tradição. Na realidade, o raciocínio analógico contém um vigoroso elemento de insegurança e permite, por exemplo, in- terpretações diferentes. Contudo, remete rigorosamente aos deveres morais dos juízes e à equidade: de fato, coincide com o esforço de investigação pessoal (ijtihâd).49 Mas o foco de toda a discussão sobre a analogia está ocupado pelo problema da segurança e da uniformidade do direito: mesmo quan- do o papel interpretativo do juiz seja na verdade amplíssimo, o pro- blema da proporção entre as penas e a segurança se desloca — no caso do direito islâmico — para o testemunho, para a multiplicidade das provas, para a confi ssão do réu e para a coerência com os princí- pios e as regras do direito de Deus. Problemas semelhantes apresenta o papel da analogia (héqèsh y gezéra chava) na exegese jurídica do direito talmúdico, no qual o raciocínio 46 Cf. Vassalli, 1960. 47 Sobre semelhança e analogia na sociedade moderna é útil referir-se também ao capítulo 2, “Les quatre similitudes”, de Foucault (1966). 48 Veja-se a palavra “kiyas”, redigida por Bernard (1980:238-242). Cf. também Schacht (1964:64-75), Coulson (1964:59-60) e Brunschvig (1976, vol. I, p. 303- 327; vol. II, p. 347-403). 49 Em um dos textos fundadores da metodologia jurídica islâmica, Muhammad lbn Idrîs Ash-Shâfi î (767-820) defi ne com clareza tanto o raciocínio analógico como o esforço de investigação pessoal: Shâfi (1997:317-338). AF_livro final ok.indd Sec4:77AF_livro final ok.indd Sec4:77 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 78 analógico leva a conclusões prováveis porque se baseia em semelhanças e não na identidade matemática da proporção. Portanto, tem caráter orientativo e hipotético. Porém — como nos lembra Weingort —, a analogia é um instrumento necessário para o procedimento mesmo com o qual os Amoraim — os redatores do Talmud — construíram as regras gerais. O Talmud emprega a forma casuística, graças à qual, com uso do método indutivo, o princípio geral abstrato é extraído a par- tir do caso particular. O Talmud, portanto, deve assegurar-se de que o caso particular que cita como exemplo do princípio geral ilustre um princípio legal e só um, com exclusão de qualquer outro. Isto unicamente é possível mediante a elaboração de mo- delos que respondam ao critério de excluir qualquer ensinamen- to distinto do que os sábios têm requerido [...] Esta formulação artifi cial, em oposição aos casos da vida real, permite fazer abs- tração dos detalhes concretos que poderiam produzir, por con- tato, um princípio distinto do desejado.50 Porém isto admite tanto uma referência continuada à equidade como um uso extenso da analogia. Melhor dizendo, uma verdadeira proliferação da analogia: em todo o debate jurídico talmúdico vão se desenvolvendo progressivamente regras específi cas que consen- tem a analogia, frequentemente distintas tanto da semelhança como da proporção, como, por exemplo, quando se afi rma (como ocorre nas sete middot de Hillel o Antigo) a analogia de lugares bíblicos sobre a base da semelhança fonética das palavras ou a analogia de duas disposições, apesar de sua grande diferença, por sua presença no mesmo versículo bíblico. Em síntese, tanto no direito hebreu como no resto da hermenêutica talmúdica, a analogia desempenha um papel básico. Porém — à diferença da tradição lógica aristotélica — sua caracterização também toma forma em obediência a regras que 50 Wingort, 1998:xix. AF_livro final ok.indd Sec4:78AF_livro final ok.indd Sec4:78 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 79derivam da sacralidade do texto de referência, no qual contam ele- mentos de vizinhança e distância entre palavras, semelhança fonéti- ca ou valor numérico das letras. Seus limites, contudo, são específi - cos e rigorosos porque se defi nem progressivamente a partir das sete regras de Hillel para passar através das treze middot de Rabbi Ismaél, para chegar às chamadas trinta e duas middot que devem seu nome a Eliezer ben Yosé há-Gelili.51 No direito canônico se apela expressamente para a analogia no cân. 20 C.J.C., que detalha os quatro meios para preencher as lacu- nas. O primero destes meios é precisamente a analogia em sua versão débil de semelhança: “Si certa de re desit expressum praescriptum legis sive generalis sive particularis, norma sumenda est, nisi agitur de ponis applican- dis, a legibus latis in similibus, a generalibus juris principiis cum aequitate canonica servatis, a stylo et praxi Curiae Romanae; a communi constantique sententia doctorum”. No direito canônico, a distinção entre analogia tesis (o recurso a leges latas in similibus) e analogia iuris, com referência aos princípios gerais, levará Suarez ao princípio geral em virtude do qual é legíti- ma a interpretação extensiva de qualquer lei eclesiástica, inclusive penal, porque se funda no fi m da lei, que acentua a salus animarum e a aequitas canonica. Mas tampouco aqui se trata de arbitrariedade, senão de uma proporção geométrica que refere o caso específi co ao sistema de conjunto e proporciona méritos e culpas entre eles. Contudo, é importante recordar que no campo católico — subs- tancialmente uniforme no que diz respeito aos procedimentos jurí- dicos — a discussão sobre a analogia apresenta profundos contrastes de grande importância político-teológica. Contra as posições domi- nicanas de Cayetano, que privilegiam a analogia de proporcionali- dade e que consideram a analogia como diferença gradual, Suárez sustenta a analogia dos atributos, a analogia da atribuição. Assim, em De Legibus, afi rma que Deus transmite ao povo o poder soberano 51 Abitbol (1993:94-210). Para a relação com a equidade, cf. também Cohen (1991:145-184). AF_livro final ok.indd Sec4:79AF_livro final ok.indd Sec4:79 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 80 para instituir o poder. Esta soberania popular não é totalmente dis- tinta da divina, nem totalmente idêntica a ela: é análoga por partici- pação. Daqui que o poder do Estado só será legítimo se o povo o reconhece, o que resulta bastante mais difícil na interpretação de Cayetano, que se remete a Deus para legitimar o poder político.52 10 Após esta viagem, demasiado rápida sem dúvida, pelos conceitos mencionados, voltemos à reciprocidade. O que tratei de sugerir é que, quando referimos a reciprocidade equilibrada e a reciprocida- de generalizada às sociedades complexas do Mediterrâneo e às for- mas econômicas, sociais e jurídicas que nelas predominam, é neces- sário complexar a diferenciação entre esses conceitos, hoje em dia moeda corrente entre os antropólogos. De fato, não se trata de identifi car transações presumivelmente altruístas, modeladas sobre o padrão da assistênciaprestada e, se é possível e necessário, recom- pensada, mas sem a expectativa de uma contrapartida material di- reta de transações diretas nas quais a compensação seja um equiva- lente consuetudinário e instantâneo do bem recebido.53 Em uma sociedade que não tem uma defi nição clara da determinação dos valores econômicos,54 que não conhece um mercado impessoal e autorregulado, os problemas de defi nição do preço justo e do salá- rio justo são complexos e remetem continuamente ao conceito de equidade. Não se trata de deduzir o valor dos bens intercambiados de uma determinação defi nida no intercâmbio, nem de uma carac- terística intrínseca dos bens, mas de construir um sistema de inter- 52 Suárez, F. Tractatus de legibus ac Deo legislatore, III, viii, 4-6 y III, xv, 11.12. Utili- zou-se a edição do Corpus Hispanorum de Pace do CSIC, Madri, 1975, p. 103-107 e p. 231-239. Sobre equidade, inclusive em relação com a analogia na interpretação das leis, Suárez discute amplamente sobretudo no livro II, xvi, p. 1-16. 53 Retomo aqui a defi nição de Sahlins (1972:185-261). 54 Grenier (1996) tem proposto o problema com maior ênfase na difi culdade para a elaboração de uma teoria do valor que no marco cultural distinto em que se colo- cava a prática do intercâmbio. AF_livro final ok.indd Sec4:80AF_livro final ok.indd Sec4:80 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 81câmbio no qual os valores estejam determinados pelas característi- cas específi cas dos que os intercambiam, ao ponto de que um mesmo bem adote valores distintos segundo quais sejam as pessoas que en- tram na transação: “in salarii taxatione ad hoc, ut se cum dispositione iuris conforment multarum rerum rationem habere debebunt, et primo qua- litatis personae”.55 Como se pode pagar um médico, que se ocupa da vida e da morte?, pergunta-se o jurista Zacchia. Ou a um juiz, que se ocupa do justo e do injusto? Não pode haver um salário adequa- do: eles serão pagos de maneira diferente, não por suas prestações, nem por sua capacidade, mas de acordo con seu status social, seu prestígio, sua honra: por isso se denomina “honorários” ao salário do médico e do juiz. Sendo assim, a mistura de economia e ética, de valores gerais da sociedade e de valores específi cos que entram na reciprocidade que se manifesta nos intercâmbios, complica e difi culta a determinação das medidas — imprescindíveis, contudo — da sociedade equitativa e desigual que obedece a estas regras. Isto não se opõe ao esforço de medir e assegurar os valores e dar uma ordem legível à sociedade por meio de classifi cações simplifi ca- doras: esta exigencia será precisamente a que favoreça o progressivo predomínio de esquemas uniformes de valor que deslocarão a aten- ção do uso e das pessoas para o intercâmbio e para as coisas. Mas nunca haverá uma vitória total em nenhum campo, e menos ainda no campo jurídico, setor no qual sempre será difícil separar a justiça legal do sentido comum de justiça. Creio que precisamente através do exame destes problemas, exa- me que requereria sem dúvida muito mais espaço do que eu tivesse podido dispor aqui, será possível esclarecer algumas diferenças subs- tanciais na história e nas características culturais e antropológicas de diferentes países e identifi car uma série de especifi cidades mediter- râneas que continuam operando ainda hoje. 55 Zacchia (1658:37). Um exemplo muito evidente da relação entre economia e salário justo se encontrará em Trivellato (1999). AF_livro final ok.indd Sec4:81AF_livro final ok.indd Sec4:81 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 82 Se contemplarmos em particular a Itália, parece-me importante observar que a vigência do direito canônico junto ao positivo, o reco- nhecimento da superioridade moral dos clérigos sobre os laicos e prá- ticas religiosas como a confi ssão, que propõem por toda parte formas lógico-morais às consciências individuais, têm contribuído para cons- truir uma forma específi ca de sentido comum do justo, típica desta e de outras sociedades católicas nas quais não teve lugar uma subordi- nação precoce da igreja ao Estado. E isto é também o que tem contri- buído para debilitar as instituições e para propor formas intersticiais de ação entre sistemas de normas contraditórias e paralelas. Portanto, o tema da equidade confi rma seu papel central na ex- periência dos países católicos, como critério dominante da justiça distributiva em uma sociedade corporativa e hierárquica. E, embora com signifi cados diferentes, tem-me parecido que também as socie- dades de tradição islâmica ou a tradição jurídica talmúdica apresen- tam caracteres similares. A importância interpretativa deste conceito excede em muito, contudo, o mero aspecto jurídico para converter- se em critério de conjunto da integração e da regulação de todos os aspectos sociais e econômicos. A difi culdade com que topam os ju- ristas italianos (que exemplifi quei com Vico) em pleno século XVII é justamente a de conservar este critério, embora lhe reconhecendo natureza histórica. Contudo, é impossível imaginar uma equidade, uma solidarieda- de e uma reciprocidade carentes de rigor: porém se trata de um rigor que requer um olhar autoritário que imprima proporção geométrica nos prêmios e nos castigos, com simultânea atenção à especifi cidade dos casos particulares e das perspectivas globais de melhora moral do sistema político geral. As sociedades católicas do mundo mediterrâneo têm acolhido, por certo, sistemas jurídicos baseados em um idioma de igualdade. Não obstante, a hipótese que quis propor é que, sobretudo nestas socieda- des, a permanência de um sentido comum de equidade em oposição às normas codifi cadas goza de tal vigor e de tal virulência, que che- gou a ser um aspecto constitutivo de sua antropologia política. AF_livro final ok.indd Sec4:82AF_livro final ok.indd Sec4:82 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 R EC IP RO CI D AD E M ED IT ER R ÂN EA 83 R E F E R Ê NC I A S ABITBOL, Gabriel. Logique du droit talmudique. 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A descrição do trabalho, da terra e da moeda como mercadorias é inteiramente fi ctícia, e é exa- tamente por meio desta fi cção que tais categorias são organizadas.1 No centro da discussão está, portanto, a verifi cação da expansão de um dos aspectos basilares do mercado capitalista e de quando este 1 Polanyi, 1980:32-33. ∗ Traduzido da versão italiana “Economia contadina e mercato della terra nel Pie- monte di Antico Regime”. Publicado em Storia dell’agricoltura italiana in età contem- porânea, II, Uomini e classi, Marsilio Editori, 1990, p. 535-553. Tradução e notas para a versão em português de Ângela Brandão. AF_livro final ok.indd Sec5:87AF_livro final ok.indd Sec5:87 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 88 fator fundamental da produção se tornou, ao menos em parte e pro- gressivamente, desvinculado de barreiras sociais que tornavam difí- cil a troca mercantil: antes de tudo o conjunto dos fatores coletivos de posse (os direitos comunitários sobre a terra, que tornavam im- perfeita a propriedade e extraordinariamente irregular o acesso ao mercado, bem como os direitos senhoriais ou eclesiásticos, que obs- taculizavam o livre desprender-se de forças da demanda e da oferta). Sob o Antigo Regime, a terra, elemento essencial do ordenamento feudal, era o alicerce do sistema militar, judiciário, administrativo e político; seu estatuto e sua função eram determinados por regrasjurídicas e consuetudinárias. Ela era, portanto, não só a base da pro- dução, mas também do sistema de poder e de proteção social que caracterizava todo o sistema político, e isso tornava toda forma de circulação mercantil da terra não impossível, mas complexa e visco- sa, obstaculizando sua fl uidez: direitos familiares, senhoriais, comu- nitários, monárquicos, enfi m, contribuíam para fazer da terra algo que só muito arbitrariamente podia ser considerado parte do merca- do. A terra não era uma mercadoria como as outras; aliás, no fundo, não era nem mesmo uma mercadoria. Se sua posse era transferível e, em caso positivo, a quem e sob quais restrições, o que implicavam os direitos de propriedade, a qual empenho podiam ser revertidos cer- tos tipos de terra — todos esses problemas eram separados da orga- nização habitual de compra e venda, e eram transferidos a um con- junto completamente diverso de regulamentação institucional.2 E de resto, ainda que se levasse em consideração somente a terra livre, a presença de terras comuns, de direitos coletivos, de áreas feudais e senhoris contribuía para a deformação dos comportamen- tos mercantis, multiplicando os níveis nos quais as transações se de- senvolviam, entrelaçando lógicas econômicas diferentes e apenas parcial e reciprocamente intercambiáveis. Por outro lado, descobrir nos atos notariais medievais e modernos um número enorme de transações mercantis sobre a terra contradizia 2 Polanyi, 1980:29. AF_livro final ok.indd Sec5:88AF_livro final ok.indd Sec5:88 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 89este quadro: chegou-se, por isso, ao ponto de atribuir ao processo progressivo de trocas mercantis de terra a prova indiscutível da difu- são de uma mentalidade individualista — se não capitalista—, que incluía a terra nos circuitos impessoais do mercado, ao lado de outras mercadorias, e que separava os homens da viscosidade3 social e corpo- rativa do mundo familiar e coletivo para fazê-los agentes livres, dis- postos a maximizar utilidades puramente econômicas.4 Esta é uma discussão importante, mas no fundo formulada de modo estéril, e, por isso mesmo, periodicamente ressurgida sem solução pela pesquisa historiográfi ca. Com a desvantagem de pola- rizar as posições entre quem negava qualquer regularidade signifi - cativa nos comportamentos mercantis da terra — renunciando, por isso, ao estudo das características específi cas daquelas transações, que apareciam em grande número nos documentos redigidos por notários — e quem, de outro lado, simplifi cava o quadro adequan- do um mercado específi co às regras do capitalismo contemporâneo ao somente mensurar a quantidade de terra efetivamente revestida das práticas de mercado. Tratava-se, de todo modo, de um mercado que era, na forma, homogêneo pelo menos por seis séculos e gover- nado por leis da oferta e da procura: daí porque série de preços e preços médios, tendências seculares, variações conjunturais e cícli- cas ocultavam, sob uma manipulação estatística, a dispersão dos preços, muito acentuada entre cada ato de troca que não podia ser explicada somente com uma variabilidade mais intensa da partici- pação dos compradores e vendedores no mercado.5 3 O termo viscosidade, empregado por Giovanni Levi em diferentes momentos de seu texto, foi mantido na tradução como oposição à ideia de fl uidez, mas poderia ser entendido como complexidade. 4 MacFarlane (1978). Em realidade, os estudos sobre o mercado da terra na Inglater- ra medieval são mais atentos aos problemas aqui discutidos do que aquele extremo de MacFarlane. Cf., em particular, Postan e Brooke (1960). Os estudos sobre a Inglater- ra são muito numerosos e foram discutidos em Levi (1989:225-258). (N. do T.) 5 A utilização de preços médios que escondem as oscilações foi uma prática cor- rente na historiografi a que se ocupou do mercado da terra no Antigo Regime. Al- guns exemplos: para a Inglaterra medieval, cf. Rafi s (1974); para a América colo- nial, Davisson (1967). Ainda os ótimos estudos de Béaur (1984) e Masella (1976) parecem-me pouco sensíveis ao problema da dispersão dos preços. Importantes con- AF_livro final ok.indd Sec5:89AF_livro final ok.indd Sec5:89 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 90 A alternativa não está em procurar entre a ausência (ou a total di- versidade) e a presença do mercado. Devemos, ao contrário, pergun- tar-nos quais são as regras formais das transações de terra através do mercado em um contexto social ainda amplamente feudal e o que se pode inferir sobre os mecanismos sociais que caracterizam esta forma. E ainda: quais regularidades ou leis se destacam sobre a extrema va- riabilidade de preços registrados nos atos notariais. Utilizarei, nas pá- ginas que se seguem, o exemplo do Piemonte entre o Seiscentos e o Setecentos com o intento de elencar alguns problemas gerais que, acredito, valham ao menos pela abstrata formulação que oferecem dos aspectos relevantes sobre os quais devemos nos interrogar para outras situações ainda que geográfi ca e cronologicamente distantes. No Piemonte do Seiscentos e do Setecentos, o número de transa- ções de mercado registradas nos atos notariais é extremamente alto e, todavia, a dispersão dos preços não é derivada do leque muito amplo da qualidade pedológica da terra ou de sua colocação mais ou menos favorável em relação ao mercado ou às vias de comunicação. Também em uma área muito circunscrita, a de um vilarejo em par- ticular (refi ro-me a Santena, situado entre Turim e Asti),6 por pe- daços de terra cultivada de modo semelhante em qualidade e di- mensão os preços unitários oscilavam entre 20 e 500 liras por jornada (cerca de um terço de hectar [1ha = 10.000 m²]). Isso torna imediatamente evidente que o preço não é determinado pelo jogo automático da demanda e da oferta. Se uma economia de mercado é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido somente pelos mercados em que a ordem na produção e na distribuição das mercadorias é confi ada a este mecanismo autorregulante; se, por- tanto, supomos que numa economia deste tipo os seres humanos se tribuições para o debate histórico estão reunidas no número especial de Quaderni Storici, Il mercato della terra, n. 65, 1987. 6 Cf. Levi (1985a:83-121). O mercado da terra em Santena foi estudado nos anos de 1678 a 1702; as variações de preço não se referem somente às diferenças de ano a ano, mas se acentuam de modo semelhante no curso do mesmo ano. A jornada piemontesa corresponde à área 38,0095 (N. do T.: no original não consta a medida de terra utilizada). AF_livro final ok.indd Sec5:90AF_livro final ok.indd Sec5:90 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 91comportam de modo tal a conquistar um máximo de ganho mone- tário e imaginamos que existem mercados nos quais a oferta das mercadorias e dos serviços disponíveis a um determinado preço seja equivalente à demanda do mesmo; e se a ordem na produção e na distribuição das mercadorias é assegurada somente pelos preços, al- gum obstáculo importante deve ter entrado em jogo para criar uma situação tão dispersa no nível dos preços da terra. A resposta mais evidente foi sugerida por Chayanov: numa eco- nomia apenas parcialmente mercantilizada e na qual o objetivo pri- mário não é a troca, o comércio, mas sim o autoconsumo; não é o lucro monetário, mas a subsistência; em uma economia na qual os mercados, portanto, são apenaselementos assessórios com relação à vida econômica, os preços são ditados pelas necessidades. Não é o mercado em geral que determina o preço da terra, mas, sim, a exi- gência de cada família camponesa num momento específi co de seu ciclo de vida.7 A explicação de Chayanov é que a participação dos camponeses no mercado é descontínua. O objetivo não é maximizar o resultado monetário, mas encontrar e conservar um equilíbrio entre as necessidades da família e o esforço distribuído: O que determina o preço da terra? [...] Procurar terra para ar- rendamento ou compra é evidentemente vantajoso para a famí- lia camponesa somente se, com esta nova terra, a família, como unidade econômica, pode alcançar um equilíbrio seja com me- lhoramento do nível de vida, seja com uma diminuição da dis- tribuição de trabalho. Os negócios camponeses que têm uma quantidade considerável de terra e estão, portanto, em condição de utilizar plenamente a força de trabalho familiar disponível num grau ótimo de intensidade de cultivo não têm necessidade de comprar ou arrendar terras. Qualquer despesa nesse sentido parece irracional porque não aumenta a prosperidade da família na medida em que subtrai recursos. 7 Chayanov, 1966:9-10. AF_livro final ok.indd Sec5:91AF_livro final ok.indd Sec5:91 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 92 Ao contrário, se a família não dispõe de terra sufi ciente, estará disposta a pagar um preço de terra acrescido, que melhore o equilí- brio entre a força de trabalho disponível e as necessidades, ainda que para isso seja necessário utilizar a maior parte do produto bruto que lhe advirá da utilização desse novo pedaço de terra: estará, portanto, disposta a pagar um preço excedente, ainda que em muito, em rela- ção ao preço determinado pela situação do mercado dos produtos agrícolas ou pelo lucro que a agricultura almeja. O preço da terra camponesa será, portanto, muito mais oscilante do que aquele de- terminado pelo mercado capitalista; dependerá, por exemplo, mais do crescimento da população do que da situação do mercado dos produtos agrícolas: “os camponeses com pouca terra pagam preços que signifi cativamente excedem a renda capitalista”.8 Esta explicação — à qual deverei retornar — difere, em parte, daquela dada por Clifford Geertz para os diferentes bens da terra, mas segundo uma lógica que pode ser aqui utilmente retomada. Geertz volta sua atenção mais acentuadamente para a fraqueza recí- proca de demanda e oferta em situações apenas parcialmente mer- cantilizadas, e, então, para o caráter acidental de seu encontro. Po- demos parafrasear esta explicação dizendo que, particularmente em comunidades rurais pobres, nas quais não exista uma demanda ex- terna por terra, e nas quais a quantidade de moeda acumulada seja escassa, as poucas ocasiões — em geral dramáticas — que levam certa família a vender sua terra, colocam-na em difi culdade para encontrar alguém em condição de comprar. Ou vice-versa: em caso de necessidade, custa-se a encontrar alguém disposto a colocar suas terras à venda. Isso faz com que cada simples ato de compra e venda seja, de cer- to modo, um mercado fechado em si mesmo, que determina os pre- ços segundo regras muito mais indeterminadas do que aquelas que Chayanov sugeriu.9 8 Chayanov, 1966:10. 9 Cf., em particular, Geertz (1963 e 1979). AF_livro final ok.indd Sec5:92AF_livro final ok.indd Sec5:92 4/12/2009 15:03:164/12/2009 15:03:16 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 93Finalmente, mas não menos importante, neste mercado descontí- nuo o comércio não é nada mais que um dos momentos e dos objetos de um complexo mecanismo de transações e de reciprocidade, que deixa traços escritos nos atos notariais, diferentemente de outros ob- jetos de comércio, porque o aparato estatal organizou precocemente o registro cadastral das propriedades de terra (e, portanto, da muta- ção relativa) como objeto de transação. O mesmo não ocorre de maneira tão sistemática para outros gêneros mais móveis (como o gado, produtos agrícolas, prestação de serviços e, até mesmo, para muitas das trocas monetárias que precedem os empréstimos). Fre- quentemente, então, o registro notarial das mudanças de propriedade é apenas uma fase fi nal ou intermediária de uma rede complexa de transações, e os próprios preços exprimem algo mais, além da simples transmissão de terra entre famílias por meio do mercado. Uma prova disso tudo é a diferença de nível de preços segundo as relações pessoais que mantêm os contraentes entre si: em Santena, no fi nal do Seiscentos, os preços eram diferentes caso as transações ocorressem entre parentes, vizinhos ou estranhos, e eram sensivel- mente mais altos à medida que se reduzia a distância de parentesco: justamente porque mudava o conteúdo das reciprocidades em jogo e as relações de troca de terra tornavam-se progressivamente mais puras, menos carregadas de transações precedentes, de deveres e de proteções, que o ato notarial, com a passagem fi nal de propriedade, reequilibrava de algum modo.10 De resto, o comércio no âmbito familiar é justamente um indica- tivo da muito signifi cativa viscosidade de circulação da terra, e foi destacado no estudo da progressiva mercantilização da terra na In- glaterra, como sendo a prevalência de longo período de comércio interfamiliar, que não permite falar de mercado da terra em sentido pleno além da ilusão de ótica produzida pelas transações fi xas, regis- tradas nos atos notariais.11 10 Levi, 1985a. 11 Cf. Razi, 1980:28-30; 111-112. AF_livro final ok.indd Sec5:93AF_livro final ok.indd Sec5:93 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 94 2. Matrimônio e hereditariedade Também o processo de formação da propriedade era controlado nos negócios camponeses — mais por problemas de otimização do au- toconsumo do que pela lógica do acesso ao mercado dos excedentes agrícolas. Isso quer dizer que era a estrutura de cultura diversifi cada a ser procurada mais do que a especialização, e que a fazenda seguia uma lógica de formação escalonada, ao mesmo tempo que privile- giava as culturas de subsistência e, portanto, a lavoura em primeiro lugar. Seguia-se a vinha e, só sucessivamente, quando a dimensão da propriedade possibilitasse, a criação de gado, o pasto. O bosque de uso exclusivo, enfi m, era uma exceção e restringia-se somente a fazendas particularmente complexas e amplas. Em muitas áreas do Piemonte, onde os dotes incluíam não apenas bens móveis, mas também bens imóveis, a transmissão da terra ocorria em duas fases: no matrimônio, nos dotes propriamente e, portanto, pela via femi- nina no momento de formação da nova família; e por herança, pela via masculina, no momento da morte do patriarca da família de origem e, então, numa fase sucessiva do ciclo de duração da família, quando o novo núcleo doméstico tinha enfrentado alguns anos (às vezes decênios, dependendo do índice de nascimentos e da idade com que as pessoas se casavam) de existência autônoma. Este processo em dois tempos fazia, sim, com que houvesse uma substancial diversidade de fases: na primeira era essencial a produção de cereais de subsistência, e a terra que entrava nos dotes era primor- dialmente de lavoura ( junto da moradia), enquanto as parcelas trans- mitidas por herança davam uma contribuição mais casual e variada, e continham vinha, pastos e bosques ao lado dos campos. Portanto, existia, tendencialmente, segundo as dimensõesda propriedade, uma relação relativamente constante entre as destinações de cultivo (quan- to mais cresciam as dimensões, mais aumentava a diversifi cação dos cultivos) e as várias fases de constituição da fazenda, que implicavam, com frequência, recorrer ao mercado: o dote implicava a procura de terras para o plantio quando não era disponível um excedente interno da propriedade familiar. De modo mais geral, o papel do mercado era AF_livro final ok.indd Sec5:94AF_livro final ok.indd Sec5:94 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 95aquele de criar um equilíbrio não somente dimensional, mas de des- tinação, que contrabalançasse as situações familiares segundo as fases do ciclo da vida. Há, portanto, um jogo recíproco entre possibilidade de constituir novas famílias e disponibilidade de terra no mercado, que entra como caso particular, mas bastante generalizado, a alterar a lógica puramente maximizante na determinação da demanda e dos preços da terra sobre o mercado camponês. Também aqui, em suma, o mercado gerado pelo autoconsumo possui uma lógica diferente da- quele, embora existente, da gestão efi ciente e voltada ao lucro da terra: variam a frequência de acesso ao mercado, a dimensão das por- ções, as destinações de plantio, os preços pagos, as oportunidades. O exemplo de Felizzano, no Alessandrino, durante o curso do Setecentos,12 é uma demonstração de tudo isso: a boa conservação da documentação cadastral e, especialmente, aquela rigorosa docu- mentação das mudanças de propriedade que põem em evidência o papel do mercado, do dote e da herança na devolução da terra per- mitem confi rmar a função determinante da família e do matrimô- nio, do autoconsumo e das relações entre gerações nas estruturações do mercado da terra, na profunda imersão de sua lógica num mode- lo social muito diversifi cado se comparado àquele capitalista ou ple- namente mercantil. E isso além dos vínculos feudais e senhoris, eclesiásticos e comunitários, que acrescentam suas intervenções, dis- tanciando o funcionamento desse mercado complexo daquele sim- ples e coerente — e talvez imaginário — do mercado autorregula- do. Parece-me, então, impróprio supor um modelo de progressiva absorção da terra no mercado, num único mercado fl uido governa- do por regras impessoais de demanda e oferta, como índice do pro- cesso de modernização: é verdadeiramente certo que o mercado viscoso e socialmente dominado pelo Antigo Regime fosse mais fi xo do que aquele mercado fl uido da sociedade capitalista nascente? É este o problema que será enfrentado nas páginas seguintes. 12 Levi (1985b:151-177). Também sobre Brischerasio, no Piemonte, cf. Sclarandis (1987). AF_livro final ok.indd Sec5:95AF_livro final ok.indd Sec5:95 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 96 Até aqui as considerações que desenvolvi estão baseadas em duas pesquisas microanalíticas relativas a dois vilarejos piemonteses na Idade Moderna: somente trabalhando sobre as relações de parentela dos compradores e dos vendedores, e somente estudando cada ne- gócio singular ao longo de seu ciclo de vida pode-se observar ple- namente o caráter complexo da relação entre terra e mercado que descrevi. Todavia, uma outra fonte mais agregada nos fornece mais indicações. Trata-se do espólio que os funcionários piemonteses fi - zeram de todos os contratos de compra e venda de terra por 29 anos (1680-90 e 1700-17), para cada comunidade continental do estado de Savoia aquém dos montes, a fi m de avaliar o preço médio da terra, durante o trabalho preparatório do grande cadastramento promovido por Vittorio Amedeo II, a assim chamada Equiparação. Um trabalho colossal e revelado inútil, porque — apesar de ter sido feito com grande rigor — os resultados, que resumiam, por ano, cada transação em particular (extensão, destinação de cultivo e pre- ço), terminaram por ser julgados demasiado heterogêneos (em par- ticular no que se refere aos níveis dos preços, mesmo em cada co- munidade singular) para que se pudesse utilizar as médias como algo signifi cativo. A terra a ser taxada a partir do cadastro devia ser, de fato, avaliada não somente segundo grandes divisões específi cas de cultivo, mas também segundo níveis de qualidade e de fertilida- de no âmbito de cada destinação de plantio, o que teria sido possível somente através de um exame mais aproximado de cada contrato singular — o que era claramente impossível. Assim, este enorme trabalho foi deixado de lado depois de algumas experiências de uti- lização nas avaliações, e passou-se a confi ar nas estimativas mais genéricas, porém mais manipuláveis, dos agrimensores e dos expe- rientes avaliadores locais. Também os historiadores sucessivamente fi zeram uso muito parco desse rico material: algo parecia não funcionar e os preços médios que Giuseppe Prato tinha publicado, em nível de província, eram evidentemente fruto de dados tão diferenciados e heterogêneos a ponto de não suscitar, posteriormente, a curiosidade dos historiado- AF_livro final ok.indd Sec5:96AF_livro final ok.indd Sec5:96 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 97res. 13 Também nas agregações em nível de província os dados eram discordantes quanto ao fato de que, por exemplo, entre 1680-85 e 1686-90 os preços, de modo difi cilmente explicável, aumentavam nas províncias de Turim, Alba, Cuneo, Fossano, Mondovi, Saluzzo, Susa, mas diminuíam em Asti, Biella, Ivrea, Pinerolo, Vercelli, ou, entre 1706-10 e 1711-17, diminuíam em Turim, Alba, Fossano, Ivrea, Mondovi, Pinerolo, Vercelli e aumentavam nas outras províncias. “As disparidades fortíssimas que se notam entre a média geral por província apresentam um desencontro ainda mais impressionante nas variações não menos notáveis que se verifi cam de povoado em povoado”, observa Prato,14 mas teria ele podido continuar obser- vando que ainda mais fortes eram as variações de contrato a contra- to, para os quais as médias não faziam mais do que tornar aparente- mente uniformes realidades disparatadas. A impressão geral de um aumento progressivo de período a período nas agregações de todo o estado não faz mais do que exprimir outros fenômenos — a des- valorização geral da moeda, por exemplo —, do que justifi car a consideração otimista de um “sintoma de crescente prosperidade que se manifestava no emergente valor das terras”.15 Mas, repito, o defeito não estava somente na excessiva sintetização com a qual eram tratados os dados, na “variedade das fórmulas de contratos, que indicavam de modo variado o objeto da compra/venda”.16 O problema estava na difi culdade teórica de perceber, a partir do cen- tro mercantilizado de um estado mercantilista, a lógica social que presidia a compra/venda da terra por parte dos camponeses, que multiplicava um mercado aparentemente único em mais setores fra- gilmente interligados. 13 Prato (1908:192-201 e 1910:334-339). O fundo da equiparação relativo ao espó- lio dos contratos de compra e venda sobre os quais estão baseados todos os dados citados nas páginas seguintes encontra-se no Arquivo de Estado de Turim, Seções Reunidas, Finanças, segundo arquivamento, pasta 21, maços 162-206. Os dados sobre formas jurídicas de posse da terra foram retirados do maço 43 do mesmo fun- do. Os dados sobre população estão na pasta 10, maços 1-9. 14 Prato, 1908:198. 15 Idem. 16 Bracco, 1981:51-52. AF_livro final ok.indd Sec5:97AF_livrofinal ok.indd Sec5:97 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 98 E, todavia, o trabalho da equiparação sobre contratos nos pode mostrar algumas coisas, mas somente se a atenção se voltar não tan- to para o nível dos preços, mas para a qualidade e a quantidade das transações. TA BE L A 1 Percentuais de terras vendidas em 29 anos sobre o total da superfície disponível (1680-90 e 1700-17) % vendido sobre superfície total % vendido sobre superfície útil % sobre alódio (excluídos feudais, eclesiásticos, comuns) % feudais e eclesiásticos sobre superfície útil % bens comuns sobre superfície útil Turim 20,4 20,7 34,2 21,1 16,5 Asti 15,2 15,4 22,1 26,4 2,6 Alba 13,3 13,6 18,1 20,9 3,2 Biella 6,3 7,6 16,1 17,9 34,1 Cuneo 16,0 22,1 37,8 9,3 29,0 Fossano 23,5 23,6 35,7 25,2 6,1 Ivrea 10,6 12,2 19,9 11,1 25,9 Mondovi 11,8 12,8 17,9 15,3 13,0 Pinerolo 19,3 21,1 34,2 14,9 22,2 Susa 10,3 11,1 21,6 11,3 36,5 Saluzzo 19,2 20,8 38,4 20,1 23,2 Vercelli 7,6 7,9 15,0 31,0 14,7 Total 14,7 16,2 26,5 18,5 18,6 3. Duas lógicas diversas Uma primeira observação: a sensibilíssima variação entre províncias no percentual de terras que entram no mercado. Antes de comentar os dados da tabela 1, algumas considerações so- bre limites da fonte. O levantamento dos atos notariais feitos por fun- cionários de Savoia implica duas formas de subavaliação da terra que efetivamente passou pelo mercado: antes de tudo, as vendas por peça, AF_livro final ok.indd Sec5:98AF_livro final ok.indd Sec5:98 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 99e não por superfície, não eram levadas em consideração porque era impossível fazer referência ao preço de uma extensão determinada de terra vendida. Não tenho condições de apresentar nem mesmo uma estimativa aproximada da importância de tais vendas e assinalo este fato exclusivamente como indicação da fragilidade dos dados nos quais me baseio. Quero, todavia, imaginar que esta fragilidade documental não incidia de modo signifi cativamente diferente nas várias províncias. A outra subavaliação derivava do fato de que os empregados aos quais tinha sido solicitado o inventário utilizaram exclusivamente os volu- mes concernentes aos anos objeto do recenseamento (justamente 1680- 90 e 1700-17). Alguns atos eram, no entanto, registrados alguns meses ou anos depois da estipulação do contrato, o que leva a uma incomple- tude dos dados, tanto mais acentuada quando mais se aproxima dos anos fi nais de cada período (em particular os anos 1689-90 e 1716-17). Isso impede a utilização serial dos dados anuais, a menos que se elimi- nem os últimos anos de cada série. O fato não deveria, no entanto, alterar o confronto horizontal entre as várias áreas. Vale, enfi m, recor- dar que o território da cidade de Turim está excluído das medidas para o cadastramento e, portanto, também deste recenseamento. A primeira coluna da tabela não é muito indicativa porque con- tém ainda os bens infrutíferos (montanhas, rios, pântanos), mas não se distancia substancialmente (salvo para a província de Cuneo) da segunda coluna, da qual foram justamente subtraídas as áreas infru- tíferas, que representam 326,428 jornadas sobre uma superfície total de 3.454.668 (9,4%). Como se vê, a situação é extremamente dife- renciada: entram no mercado percentuais de superfície útil que os- cilam entre 7,6% em Biella, uma província montanhosa e de agri- cultura pobre, a 23,6% na rica província de Fossano. Esses extremos parecem signifi cativamente indicar que a participação no mercado era proporcional à fertilidade do solo; as situações intermediárias parecem disparatadas, mas bastante coerentes com essa hipótese: a província de Vercelli, onde as terras são pouquíssimo comercializa- das, é uma área escassamente populosa, insalubre e infestada pela malária, nela prevalecendo os arrozais, reagrupados frequentemente AF_livro final ok.indd Sec5:99AF_livro final ok.indd Sec5:99 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 100 em grandes propriedades feudais ou eclesiáticas; Asti e Alba, em posição intermediária, são zonas em que há uma forte presença das vinhas e da pequena propriedade; Cuneo, Pinerolo, Saluzzo e Tu- rim são províncias compostas, nas quais estão presentes igualmente montanhas e planícies. Susa, Ivrea e Mondovi são províncias nas quais prevalece a montanha. E, no entanto, nem toda terra é comercializável do mesmo modo, ainda que somente por motivos jurídicos: feudo, propriedade eclesiás- tica e bens comunais têm, sob vários títulos, rigidez — quando não impossibilidade absoluta — de participação no mercado. É somente o alódio, portanto, que pode ser tomado em consideração num mercado de terra ao menos hipoteticamente homogêneo. Observe-se, por- tanto, a terceira coluna, na qual todas as vendas são consideradas, ainda que impropriamente, como relativas ao alódio e cujo peso percentual é calculado exclusivamente sobre terra de propriedade alodial. O quadro torna-se mais móvel, mas não muito: de novo Turim, Cuneo, Fossano, Pinerolo e Saluzzo são as províncias mais dinâmicas; mudam, ao contrário, as situações de Susa, por exemplo, e de Ivrea, onde a expectativa seria a de encontrar pouca comercia- lização devido à estrutura fragmentária de suas propriedades e à grande prevalência das áreas montanhosas e pouco férteis. Procura- rei, mais adiante, explicar o signifi cado deste comportamento. As últimas três colunas permitem verifi car se a presença de muita terra feudal e eclesiástica, se a disponibilidade de uma ampla superfície comunal e, portanto, se a variação no peso do alódio mudam coe- rentemente segundo as taxas de comercialização da terra. Mas ne- nhuma resposta unívoca parece extrair-se: isto é, não parece que uma redução da superfície livremente comercializável à disposição dos camponeses os conduza a uma comercialização mais intensa, nem mesmo que a presença de uma ampla terra de uso comum de- sacelere a comercialização. São ainda perguntas que requereriam um exame mais detalhado, em nível de comunidade, antes que essa res- posta negativa (e, por outro lado, interessante) em nível provincial pudesse ser assumida como absolutamente válida. AF_livro final ok.indd Sec5:100AF_livro final ok.indd Sec5:100 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 101Experimentemos, então, diminuir a escala de observação e estu- dar algumas províncias mais detalhadamente. A amostra foi escolhi- da por acaso e representa cerca de 31% da superfície útil (e 72.500 contratos sobre outros 520 mil).17 As áreas superiores a 10 jornadas compreendem todas as terras ocu- padas, os estábulos com edifícios e são, portanto, propriedades me- lhores. Podemos então considerá-las como indicadores sufi ciente- mente bons de um mercado de mais alta qualidade que o das fragmentadas terras camponesas. Todavia, como se pode ver pela ta- bela 2, em todos os casos examinados, o percentual de dinheiro que circula em relação a estas terras é menor do que aquele representado pela extensão. Pode ser uma observação relativamente evidente, que, em todo caso, confi rma a opinião já citada de Chayanov, de que os camponeses com uma pequena propriedade estão dispostos a pagar, pela terra, preços que excedem signifi cativamente a renda capitaliza- da, ou seja, os preços pagos pela terraocupada. TA BE L A 2 Percentuais de contratos relativos a propriedades superiores a 10 jornadas sobre o total das vendas (em jornadas e liras piamontesas) Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro 1680-85 52,9 47,1 27,4 7,6 50,1 38,1 64,1 57,8 1686-90 52,3 46,4 31,2 10,1 44,2 29,6 47,7 34,3 1700-05 53,0 48,8 31,8 9,5 41,1 31,9 45,2 37,5 1705-10 57,3 51,6 18,9 6,2 41,5 29,4 47,4 40,6 1711-17 53,3 45,1 28,4 6,9 36,6 29,9 45,4 37,0 Total 53,9 48,1 27,3 7,7 42,2 31,10 50,1 41,5 17 O número de camponeses é uma hipótese, proporcional à superfície: o levantamen- to completo do fundo — que tenho em curso — permitirá uma maior precisão. AF_livro final ok.indd Sec5:101AF_livro final ok.indd Sec5:101 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 102 Uma segunda observação. Ivrea, uma zona, como dito antes, po- bre e de propriedades fragmentadas, na qual é relativamente pouco representativa a terra feudal e eclesiástica, e que tem um quarto da superfície útil composta pelos bens comunais, apresenta um merca- do de terra todo concentrado sobre áreas de pequeníssima extensão: 72% da superfície e 92% do dinheiro dizem respeito a contratos de menos de 10 jornadas. Mas é ainda a província em que o número de transações (cf. tabela 3) é de longe o mais alto, o que é imputável apenas em pequena parte à diferença de superfície útil ou de pro- priedade alodial. Tanto mais que o percentual da superfície ingres- sada no mercado na província de Ivrea não era, por certo, um dos mais altos entre as províncias piemontesas (cf. tabela 1). Fossano e Saluzzo têm comportamentos muito parecidos no que se refere ao número e à qualidade dos contratos, ainda que a superfície e o di- nheiro para as propriedades superiores a 10 jornadas sejam conside- ravelmente diversos em favor de Fossano, área mais rica. Vercelli, que por este aspecto — um forte peso percentual das terras de mais de 10 jornadas — comporta-se como Fossano, é, ao contrário, uma província com pouquíssimas transações, ainda que sua superfície útil seja de longe a mais alta, e a de puro alódio seja superada somente pelo entorno de Ivrea, como se pode ver pela tabela 3. TA BE L A 3 Número das transações em quatro províncias Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli No de contratos com mais de 10 jornadas 567 322 642 336 Totalidade dos contratos 13.368 36.620 14.631 7.977 % dos contratos com mais de 10 jornadas 4,3 0,9 4,4 4,2 Superfície útil 172.427 284.783 208.331 310.579 Superfície alodial* 114.138 174.919 113.000 163.410 N. do T.: No original não consta a medida de terra utilizada. AF_livro final ok.indd Sec5:102AF_livro final ok.indd Sec5:102 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 103 TA BE L A 4 Distribuição percentual dos contratos segundo as dimensões Jornadas Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli Até 1 38,7 80,1 33,2 44,0 Até 2 35,6 13,1 34,6 27,5 Até 3 10,9 3,1 13,3 10,9 Até 4 4,1 1,2 5,6 5,3 Até 5 2,5 0,7 3,3 3,3 Até 6 1,4 0,3 1,9 1,6 Até 7 1,0 0,2 1,4 1,3 Até 8 0,7 0,2 1,0 0,8 Até 9 0,5 0,1 0,7 0,7 Até 10 0,4 0,1 0,6 0,5 Outras 4,3 0,9 4,4 4,2 Trata-se, no entanto, em todas as províncias, de um mercado muito fracionado, no qual prevalecem as porções inferiores a 3 jor- nadas, isto é, pouco mais de um hectare (cf. tabela 4). Aparece, em cada caso, um dado de grande relevo: ao contrário daquilo que se poderia esperar, o mercado mais ativo do ponto de vista do número das transações é aquele das áreas dominadas pela pequena proprieda- de camponesa. O hábito de trocar a terra por moeda é muito inten- so justamente na província mais marginal e na qual a terra tem um papel precípuo de atender ao autoconsumo. É justo perguntar se a densidade da população é um fator de di- namização do mercado da terra, isto é, se a presença de uma popu- lação numerosa tende a fazer multiplicar as transações. Em realida- de, é um problema de difícil solução e, por mais tentativas e cruzamentos que eu tenha experimentado, não consegui chegar a uma conclusão quantitativa aceitável: a diferença de estrutura pedo- lógica e de posição de várias comunidades não permite encontrar respostas unívocas e calcular correlações entre o número de transa- ções e a terra à disposição de cada família. Além disso, a distribuição da propriedade, a presença de atividades diversas da agricultura ou AF_livro final ok.indd Sec5:103AF_livro final ok.indd Sec5:103 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 104 de trabalhos agrícolas em terras feudais, bem como a existência da terra comum, podem tornar ainda mais frágil a possibilidade de uma aferição. As tabelas 5 e 6, sobre as províncias de Ivrea e Saluzzo, mostram justamente esta frágil correlação. TA BE L A 5 Relação entre extensão de terra alodial per capita e número de camponeses por família — província de Ivrea No de jornadas de alódio per capita No de comunidades Contratos por família (%) Até 1 Até 2 Outros Até 1 14 28,6 64,3 7,1 Até 2 79 18,9 49,4 31,7 Outros 24 37,5 41,7 20,8 TA BE L A 6 Relação entre extensão de terra alodial per capita e número de contratos por família — província de Saluzzo No de jornadas de alódio per capita No de comunidades Contratos por família (%) Até 1 Até 2 Outros Até 1 2 100 — — Até 2 14 28,6 64,3 7,1 Outros 26 30,8 50 19,2 Este mesmo silêncio é, no entanto, uma indicação de que a concen- tração dos contratos, em todas as províncias, girou em torno da catego- ria de até dois contratos por família nos 29 anos, independentemente da terra à disposição, que foi, de resto, distribuída de maneira extraordi- nariamente homogênea, num assentamento muito denso — uma refe- rência a qualquer regularidade subjacente às práticas mercantis relati- vas à terra. Não me parece imprudente imaginar que a verdadeira relação entre mercado e população refi ra-se a episódios de ciclo de vida de cada família que modelam o mercado em ritmos relativamen- AF_livro final ok.indd Sec5:104AF_livro final ok.indd Sec5:104 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 105te regulares: a formação de novas famílias e os matrimônios. Mas so- mente uma pesquisa local poderá sustentar esta hipótese. É, então, a pesquisa das condições sob as quais a terra circula como mercadoria em diferentes regimes de valores aquilo que pare- ce essencial ter presente quando falamos em mercado de terra no Antigo Regime.18 É sempre um pouco arbitrário construir hipóteses de forma negativa, mas é o que tenho sido compelido a fazer ao longo dessas páginas: a escassa resposta que os dados forneciam a respeito do que se podia prever, de fato, sobre demanda e oferta, renda capitalizada, papel da terra comum e da propriedade feudal ou eclesiástica permitem ao menos imaginar o contexto cultural das trocas com uma pluralidade de arenas e, portanto, de signifi cados sociais contemporaneamente ativos, convivendo concomitantemen- te e em confl ito direto, justamente graças às lógicas diferentes pelas quais são governadas. E isso justamente porque a natureza específi ca do negócio camponês, voltado em primeira instância ao equilíbrio do autoconsumo não o subtrai do mercado, mas o torna um fator relevante ao determinar seja a quantidade, seja o preço das transa- ções. Para a agricultura organizada segundo princípios mercantise capitalistas, a aquisição de nova terra ou a introdução de melhora- mentos técnicos depende de que o aumento da renda econômica devida a este incremento ou a esta melhoria seja maior ou ao menos igual à taxa de juros do capital investido. A decisão da família cam- ponesa dependerá, ao contrário, do efeito que uma ampliação ou melhoramento da terra terão sobre o equilíbrio entre distribuição do trabalho e necessidades familiares. Numa situação de relativa es- cassez de terra, a família camponesa estará disposta a pagar o preço ou a introduzir melhoramentos considerados irracionais num em- preendimento capitalista: os preços, portanto, excederão claramente a renda econômica capitalizada, como é demonstrado pelo fato de que são justamente as terras mais fragmentadas as que ativam uma 18 Uso aqui os termos de Appadurai (1986), que sustenta tese de grande interesse (mas um pouco geral demais) também para o estudo do mercado da terra. AF_livro final ok.indd Sec5:105AF_livro final ok.indd Sec5:105 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 106 circulação de moeda percentualmente superior à superfície de inte- resse. E quanto mais pobre e sufocada a área de interesse — como mostra do caso de Ivrea, ou, ainda, a diferença entre Fossano e Sa- luzzo nas tabelas 2 e 3, justamente porque a segunda província é mais populosa e mais pobre — tanto mais os percentuais entre terra dos camponeses comercializada em pequenos pedaços e preços pa- gos se distanciam. Em síntese, a diferença entre as províncias piemontesas é explicá- vel somente levando em conta esta contemporânea presença de uma agricultura relativamente moderna e voltada ao mercado e de uma agricultura camponesa. Nas zonas superpopulosas os limites dos melhoramentos, de disponibilidade para comercializar, dos preços são enormemente mais altos do que nas áreas em que prevalecem os negócios capitalistas: o número vertiginoso de transações na pobre província de Ivrea com relação à estagnada província de Vercelli, que está na vanguarda da difusão do capitalismo no campo piemon- tês, é uma prova evidente disso. São as mesmas conclusões de Chaya- nov (1966) sobre a Rússia ou de Latur sobre a Suíça: “Isso leva a uma conclusão paradoxal: nas áreas superpopulosas as famílias campone- sas mais pobres pagarão os preços e os arrendamentos mais altos pela terra”. E ainda: Nas áreas em que há um excedente absoluto de terra, e também onde a densidade da população corresponde à intensidade ótima para a agricultura, não existem bases concretas de coalizão. Mas nas áreas superpopulosas, quando os negócios capitalistas au- mentam e tem-se uma escassez relativa de terra, comparecem em número sempre crescente compradores e vendedores em condições de pagar preços mais altos do que aqueles capitalistas [...]. Gradualmente eles se tornam sempre mais relevantes tam- bém na determinação do preço sobre o mercado capitalista, até que as avaliações produzidas pelo setor camponês tornam-se de- cisivas para o mercado e empurram para as margens o preço baseado nas avaliações do setor capitalista. E não se trata somen- AF_livro final ok.indd Sec5:106AF_livro final ok.indd Sec5:106 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EC O N O M IA C AM PO N ES A E M ER CA D O D E TE R R A 107te de uma guerra sobre preços, mas também sobre a terra: ter- se-á contemporaneamente uma clara transferência da terra do setor capitalista ao setor camponês.19 Mas, naturalmente, trata-se de situações em que a população é densa, com uma sufi ciente quantidade de dinheiro em circulação e, com frequência, de situações marginais em que a pressão dos negó- cios orientados pelo mercado é relativamente escassa. Em outros casos, nos quais por um certo período o setor capitalista estava em condições de pagar rendas muito altas e, portanto, maiores do que podia fazer o setor camponês, é isso que empurra os negócios cam- poneses para a margem do sistema. A quantidade de transações e a quantidade global de dinheiro co- locado em circulação por dois setores, a própria diferença entre as várias províncias piemontesas entre o Seiscentos e o Setecentos pare- cem-me confi rmar esta hipótese, com uma característica inesperada: a vivacidade do mercado da terra, como número de transações, é tanto mais forte quanto mais a área de interesse é dominada pelos negócios camponeses, orientados em direção ao autoconsumo. Aqui- lo que Raul Merzario (1989) defi niria como capitalista nas monta- nhas é, neste caso, uma ilusão de ótica: duas lógicas diferentes e não coerentes presidem o advento do mercado da terra.20 O capitalismo nascerá justamente ali, onde mais lento e viscoso nos parece o costu- me nas transações e no comércio.21 19 Chayanov (1966:235-238). As pesquisas de Laur sobre a Suíça são temas de con- tínuo confronto utilizado por Chayanov. 20 Concordo em grande parte com a tese sustentada no livro; no entanto, o papel da terra parece-me subavaliado, em particular nas montanhas: como seria “superado pelo tempo o problema de separar os produtores da terra” (Merzario,1989:13), uma vez que me parece que seja bastante útil no estudo da proto indústria levar em con- sideração o papel diferenciado que resulta do confl ito entre modelos diferentes de mercado da terra. 21 As teses de Ester Boserup, que têm alguma analogia com tudo o que aqui susten- tei sobre a capacidade dos negócios camponeses tradicionais de desenvolver novas técnicas e de incrementar a produção, parecem-me não levar em conta esta diferen- ça de confl ito de comportamento econômico. Cf. Boserup (1981). AF_livro final ok.indd Sec5:107AF_livro final ok.indd Sec5:107 4/12/2009 15:03:174/12/2009 15:03:17 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 108 R E F E R Ê NC I A S APPADURAI, Arjun. Introduction: commodities and the politics of value. In: ——— (Ed.). The social life of things. Commodities in cultural perspective. Reino Unido: Cambridge University Press, 1986. p. 3-36. BÉAUR, Gérard. Le marché foncier à la veille de la Révolution. Paris: Editions de l’Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, 1984 BOSERUP, Ester. Population and technology. Oxford: Basil Blackwell, 1981. BRACCO, G. Terra e fi scalità nel Piemonte sabaudo. Turim: G. Giappichelli Editore, 1981. CHAYANOV, Aleksandr V. On the theory of peasant economy. Homewood, IL: Richard D. Irwin, 1966. DAVISSON, William I. Essex couty price trends: money and markets in 17th century. Massachussets: Essex Institute Historical Collection, CIII, 1967. p. 144-85; 191-342. GEERTZ, Clifford. 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Nem mesmo em sua vasta e signifi cativa obra ele buscou construir expli- citamente um arcabouço metodológico que se antepusesse a suas investigações ou indagações históricas. Em sua incursão no campo da história da historiografi a, que se consolidou com a publicação póstuma de um volumoso livro intitulado Storici e storia, Cantimori sempre procurou compreender, na obra dos historiadores, muito mais questões de interpretação histórica do que aquelas de fundo teórico. Ele entendeu a história da historiografi a como pesquisa conduzida não sobre pressupostos ou sobre concepções gerais a res- peito da história, não sobre um plano especulativo e metodológico, mas como um sofi sticado instrumento analítico voltado para a com- preensão dos julgamentos e das representações construídas pelos his- toriadores sobre problemas ou panoramas históricos concretos.1 No entanto, há um dado do percurso acadêmico de Delio Cantimori 1 Ver a esse respeito Miccoli (1970), esp. p. 223-228. AF_livro final ok.indd Sec6:113AF_livro final ok.indd Sec6:113 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 114 que pode remetê-lo, ainda que tangencialmente, à vertente historio- gráfi ca que fi cou conhecida alguns anos depois de sua morte como micro-história: Cantimori foi reconhecido por seu aluno, Carlo Ginzburg, como o principal responsável por sua escolha em abraçar a profi ssão de historiador. Ginzburg citou, em algumas oportunidades, a importância que Delio Cantimori teve em sua formação, durante os anos de estudo na Scuola Normale Superiore di Pisa. É signifi cativa a passagem em que Carlo Ginzburg narra seu primeiro contato com Cantimori, no ano acadêmico de 1957-1958: [Cantimori] ia passar uma semana em Pisa, e disse que ia ler e co- mentar a obra de Burckhardt, Considerações sobre a história universal [Refl exões sobre a história, na edição brasileira]. Lembro-me muito bem do momento em que o vi pela primeira vez: era um homem gordo, não muito alto, de barba branca, com uma cara de cardeal, como nos retratos de cardeais de El Greco. Falava com uma voz pastosa e perguntou: “Algum de vocês lê alemão?”. Poucos liam. Ele continuou: “Bom, vamos ler o livro de Burckhardt, mas vamos comparar as traduções italiana, francesa, inglesa etc.”. Começamos, e depois de uma semana tínhamos lido cerca de dez linhas. Aquilo me marcou profundamente. Aquela maneira de ler o texto levan- tando uma multiplicidade de problemas foi algo que me pareceu realmente magnífi co. Um ano depois, decidi estudar história.2 Em outra passagem, no prefácio a Mitos, emblemas, sinais, Ginzburg, explicando as razões que o levaram a escrever “De A. Warburg a E. H. Gombrich: notas sobre um problema de método”, publicado no referido livro, afi rma: No começo dos anos 60, descobri, graças a Cantimori, o Warburg Institute. A tentativa de acertar contas com a tradição a ele ligada 2 Ginzburg, apud Lima, 2006:286. AF_livro final ok.indd Sec6:114AF_livro final ok.indd Sec6:114 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 115obrigou-me a refl etir, não só sobre o uso de testemunhos fi gurati- vos como fonte histórica, mas também sobre a permanência de formas e fórmulas para além do contexto em que nasceram.3 São de fato referências muito fortes à importância de Cantimori para a formação de Ginzburg, reveladoras da atenção dedicada pelo aluno às indicações do mestre. Seria necessária uma indagação pon- tual a respeito da infl uência de Delio Cantimori sobre o primeiro livro de Ginzburg, I benandanti, publicado no mesmo ano da morte de Cantimori, em 1966, tendo em vista a semelhança do tema do livro (tema, aliás, que persegue a obra de Ginzburg por muito tem- po) e o foco central dos estudos do professor em Pisa. Não desenvol- verei aqui uma refl exão sobre esse particular. Meu interesse se volta especialmente para a obra de Cantimori. E, nesse sentido, há que se ressaltar um dado presente nas duas citações de Ginzburg: em ambos os casos a referência a Cantimori aparece ligada a um modelo histó- rico-cultural de grande importância para o cenário historiográfi co europeu a partir da segunda metade do século XIX. Na primeira passagem, Ginzburg refere-se às aulas de Cantimori sobre as Refl e- xões sobre a história, do historiador suíço Jacob Burckhardt (1961). De fato, nesse período, Cantimori trabalhava numa tradução italiana das Weltgeschichtliche Betrachtungen, de Burckhardt, editada na Itália em 1959. Na segunda passagem, a referência de Ginzburg a Canti- mori relaciona-o a Aby Warburg e à tradição da Kulturwissenschaft (ciência da cultura) no instituto de pesquisa que leva seu nome. E é sabido o quanto a obra de Burckhardt serviu de modelo para War- burg e para seus seguidores. Entretanto, concentremo-nos em Can- timori, notando possíveis relações entre sua perspectiva historiográ- fi ca e o citado modelo histórico-cultural. A obra de Delio Cantimori é marcada pela amplitude e pela pro- fundidade com que desenvolveu a pesquisa de quase uma vida a respeito dos hereges italianos do século XVI, fugidos das persegui- 3 Ginzburg, 2007:9-10. AF_livro final ok.indd Sec6:115AF_livro final ok.indd Sec6:115 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 116 ções religiosas na Itália. Seu longo e paciente trabalho de pesquisa o conduziu a inúmeros arquivos e bibliotecas em várias partes da Eu- ropa. A busca pelos sinais da passagem dessa multidão dehomens das mais variadas formações, desde doutos humanistas e homens de le- tras até impressores, tecelões, sapateiros, teólogos, místicos, proce- dentes das mais diversas regiões italianas, à procura de abrigo em várias cidades da Confederação Suíça, da atual Alemanha, da Áus- tria, Inglaterra, Polônia, levou Cantimori a iluminar, em sua mais ampla e rica diversidade, os pequenos círculos de relações pessoais e de elaboração e divulgação de ideias que aproximaram o mundo de um e de outro lado dos Alpes. O produto desse trabalho fi cou docu- mentado em especial em dois livros: o volumoso Eretici italiani del Cinquecento e Umanesimo e religioni nel Rinascimento. A formação e a atuação de Delio Cantimori desenvolveram-se basi- camente em torno de duas instituições de uma mesma cidade: a Uni- versità degli Studi di Pisa e a Scuola Normale Superiore di Pisa. Como ele mesmo afi rmou mais de uma vez, não sem uma dose de ironia no confronto com a modernidade dos grandes centros acadêmicos euro- peus, e com uma pitada de crítica em relação à Europa contemporânea (a Europa das grandes capitais), suas “pesquisas nasceram de problemas juvenis de um estudante de liceu, amadurecido numa cidade de pro- víncia, em ambiente de gente de escola”.4 De fato, o cosmopolitismo que marca a história medieval da República de Pisa, com suas podero- sas relações comerciais com o Ocidente e com o Oriente, propiciadas por sua posição geográfi ca às margens do mar Tirreno e pela força da civilização presente na memória que etruscos e romanos haviam dei- xado ali, era, quando Cantimori chegou à cidade (em 1924), não mais que memórias, ainda que com forte presença nas monumentais cons- truções e no traçado urbano. Porém, a diminuta importância da cidade no século XX não se reproduzia no papel de suas instituições acadêmi- cas. À universidade medieval se somava a instituição de altos estudos — a Scuola Normale Superiore —, fundada por Napoleão Bonaparte 4 Cantimori, 1992:11. AF_livro final ok.indd Sec6:116AF_livro final ok.indd Sec6:116 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 117seguindo o modelo da École Normale parisiense. Além disso, as várias e importantes bibliotecas originadas na Idade Média, assim como os arquivos e os museus, faziam de Pisa um dos mais importantes centros de estudos humanísticos na Itália e passagem necessária de pesquisado- res de toda a Europa. Nesse ambiente deu-se, quase integralmente, a formação acadêmica e a prática docente de Delio Cantimori. Em Pisa, Cantimori participou, como aluno, da escola de Giovan- ni Gentile e de Giuseppe Saitta. No prefácio de Eretici italiani del Cin- quecento, ele próprio afi rmaria que seu interesse original em estudar esse tema teria surgido da leitura do livro de Gentile, Giordano Bruno e il pensiero del Rinascimento. Certamente também as conferências de Gentile, em parte publicadas depois no livro Il pensiero italiano del Ri- nascimento, conferências que mergulhavam com amplitude na ciência e na fi losofi a do Renascimento, teriam aberto ao jovem estudante o universo do humanismo italiano. Com os escritos e o ensinamento acadêmico de Gentile, Cantimori diz ter sido encorajado a retomar a leitura ( já realizada na juventude) da obra de Burckhardt sobre o Re- nascimento italiano. Gentile, afi nal, era um dos principais responsá- veis pela recepção dos escritos de Burckhardt em solo italiano nas primeiras décadas do século XX. Vale lembrar as páginas de Gentile sobre o papel de Petrarca na formação do humanismo italiano, além de seu estudo sobre o caráter do Renascimento ou aquele sobre o conceito de homem no Renascimento, todos publicados em Il pensiero italiano del Rinascimento. Esses escritos traziam a marca burckhardtiana da compreensão do Renascimento italiano como berço e origem do indivíduo moderno, e eram interpretados, pelas mãos de Gentile, numa chave de cunho fi losófi co-idealista que marcou um tipo de leitura de Burckhardt nas primeiras décadas do século XX, e não somente na Itália. A tese de perfezionamento de Cantimori sobre o conceito de Renascimento fora discutida na Scuola Normale exata- mente com Giovanni Gentile, e publicada em 1932.5 Sobre o papel de Giuseppe Saitta, autor de livros como Marsilio Ficino e la fi losofi a 5 Cantimori, 1932:229-268, reed.: Cantimori, 1971:413-462. AF_livro final ok.indd Sec6:117AF_livro final ok.indd Sec6:117 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 118 dell’Umanesimo (Bolonha, 1923) e L’educazione dell’Umanesimo in Ita- lia (Veneza, 1927), em sua formação, afi rma Cantimori no prefácio à edição suíça dos Eretici (p. 11): A contemporânea experiência fi losófi ca neoidealista, fez[-me] formular o problema primeiramente como problema de história do pensamento fi losófi co: no quadro das discussões sobre as re- lações entre Renascimento e Reforma [...] e de uma acentuação do caráter imanente do pensamento neoidealista de Giuseppe Saitta [...]. Ele afi rma que teve o primeiro impulso em direção aos hereges italianos sob a ótica da relação entre fi losofi a e história das ideias, que tinha colocado isoladamente, como monumentos à memória, fi guras que representassem a resistência fi losófi ca e científi ca à ameaça das perseguições religiosas e dos tribunais da Inquisição na Itália. Assim tinham vindo à tona, até então, os estudos sobre Lelio e Fausto Sozzi- ni e sobre Giordano Bruno. Em relação a Marsilio Ficino, Giuseppe Saitta teve que se defender, nas reedições de seu livro (em 1942 e em 1953), da acusação de fornecer a demonstração de um Ficino idealista e extemporâneo e de interpretar o pensamento de Ficino contra um fundo subjetivista e revolucionário, e portanto também extemporâ- neo. O fato é que o Ficino que G. Saitta apresenta em seu livro de 1923 é o representante, como ele mesmo afi rma, “da nossa verdadei- ra tradição, que tem início com o Humanismo, o berço da consciên- cia italiana”.6 Era o problema da compreensão, em suas palavras, “della nostra anima nazionale” [de nossa alma nacional].7 O estudo de G. Saitta tinha um fundo romântico, sustentado na ideia de nação. Para- lelamente, o Giordano Bruno de Giovanni Gentile (1955:ix) tinha uma marca semelhante, à qual era acrescida a simbologia do mártir. Desses modelos de interpretação de dois personagens do humanismo 6 Saitta, 1953:vi. 7 Idem. AF_livro final ok.indd Sec6:118AF_livro final ok.indd Sec6:118 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 119italiano, Marsilio Ficino, pelas mãos de G. Saitta, e Giordano Bruno, por Gentile, havia partido Delio Cantimori, no momento inicial de seus estudos sobre um grande tema de história moderna. Mas o deslocamento da fi losofi a para a história, de acordo com o próprio Cantimori, teve no centro dois acontecimentos: a leitura do livro do historiador Gioacchino Volpe, Movimenti religiosi e sette ereti- cale nella società medievale italiana, e a permanência para estudos em Basileia (Suíça), no início da década de 1930. A importância do li- vro de Volpe fi caria atestada em uma carta dirigida a ele por Canti- mori, em 30 de novembro de 1939, que dizia o seguinte: O primeiro distante princípio nestes estudos o devo a seu livro. Com aquela leitura começou o meu interesse a deslocar-se len- tamente da fi losofi a, da especulação para dizer melhor, àquela concreta fi losofi a que é o estudo da história.8 Mas o momento em que o projeto verdadeiramente amadureceu teria sido entre dezembro de 1931 e julho de 1932, período em que o historiadorfrequentou os cursos de história da Igreja na Faculdade de Teologia da Universidade de Basileia, ministrados pelos professo- res Ernst Stähelin e Johannes Wendland. Nesse período, enquanto estudava a vida e a obra do historiador Alexandre Vinet (estudioso oitocentista de história da Igreja), nas aulas de Stähelin, e lia o Ins- titutio de Calvino, nas de Wendland, Cantimori iniciou suas pes- quisas sobre os hereges e protestantes italianos em Basileia no século XVI, trabalhando na Biblioteca Universitária e no Arquivo de Esta- do de Basileia. Na verdade, Cantimori havia se decidido por Basileia após um período de dúvida entre essa cidade e Genebra. A escolha de Basileia representou a escolha por um problema histórico a ser desenvolvido. Genebra, a cidade de Calvino, tinha sido uma indica- ção de Benedetto Croce.9 No século XVI, a cidade era o destino 8 Apud Prosperi, 1971:XXVII. 9 A esse respeito, ver Miccoli (1970:54-62). AF_livro final ok.indd Sec6:119AF_livro final ok.indd Sec6:119 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 120 dos hereges italianos que pretendiam assimilar a Reforma confessio- nal e voltar as costas à Itália. Basileia, ao contrário, tinha uma at- mosfera de concórdia, estabelecida pela atuação de Erasmo na uni- versidade e na vida erudita da cidade, pelo legado que havia deixado, tanto de maneira difusa, quanto concretamente, nas mãos de seu herdeiro testamentário, Bonifacius Amerbach, professor de direito romano e fi lho do erudito impressor e amigo do humanista holan- dês, Johannes Amerbach. Basileia, então, era o destino desejado pe- los hereges italianos que pretendiam manter um olhar voltado para a Itália e fi car apartados da aceitação confessional da Reforma. A cidade, que havia sido o palco de onde Erasmo polemizara com Lu- tero, seria, no contexto imediatamente posterior — naquele que interessava a Cantimori —, o local das polêmicas dos humanistas italianos ali refugiados, como Celio Secondo Curione e Pietro Per- na, ou o “savoiardo” Sebastian Castellion, contra os luteranos e con- tra Calvino. Vale lembrar, em especial, a polêmica de Castellion (expulso da Genebra de Calvino exatamente por suas interpretações “muito livres” da Bíblia) contra Calvino, polêmica que resultou num livro célebre de um escritor célebre: Stefan Zweig. Basileia seria, então, para Cantimori, o local de encontro, a fronteira, o limi- te; a cidade cosmopolita, reformada e humanista: a cidade do refor- mador Johann Oecolampad, mas também a cidade de Erasmo e dos erasmianos, e que se abria ainda, logo após a morte de Erasmo, à infl uência direta dos humanistas italianos (dos hereges, que Canti- mori buscava). Mas Basileia tinha sido importante, para Cantimori, também do ponto de vista metodológico, como ele próprio revela no prefácio à edição suíça dos Eretici: Sob infl uência de G. Saitta, [...] a pesquisa da participação italia- na no grande movimento europeu de reforma e de renovação [...] não encontrava resposta satisfatória para quem não se con- tentava com uma história intelectual de gênios, mas buscava instintivamente uma [história] de homens [...]. AF_livro final ok.indd Sec6:120AF_livro final ok.indd Sec6:120 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 121 Relações entre ideias e ideias podiam-se estabelecer muitas, e tão facilmente que ao fi nal surgia a suspeição de sua arbitrarie- dade; mas as vidas dos homens, as suas atividades intelectuais, as relações entre homens pareciam sempre menos claras e precisas; assim sensivelmente se passou do estudo doutrinário ao estudo erudito, pensando, porém, sempre em dar uma base concreta a uma pesquisa de ordem puramente fi losófi ca ou de história da vida intelectual fi losófi co-religiosa. [...] [A estada em Basileia proporcionou] uma passagem da “fi losofi a” à “história” que coincidiu com uma crítica à fi losofi a e um distan- ciamento de sua profi ssão, de sua função e de seus elementos.10 Para Cantimori, a passagem da fi losofi a para a história signifi cava aproximar-se da concretude da vida dos homens, compreender o espaço de suas vidas a partir da relação direta entre personagens. A passagem da fi losofi a à história signifi cava, então, empreender uma redução de escala (embora ele não utilize essa expressão) na obser- vação dos fenômenos. Ele passaria a se concentrar nos contextos mais específi cos, nos círculos de contatos diretos entre personagens. É assim que seu livro publicado na Itália em 1939 e traduzido em Basileia em 1949, Eretici italiani del Cinquecento, foi inteiramente con- cebido a partir desse ponto de vista. Para comprovar essa afi rmação, basta observar a organização dos capítulos da obra. Eis alguns de seus títulos: “A imigração italiana a Zurique e a Basileia”, “Curione em Basileia. Curione e Bullinger”, “Os amigos basileenses de Curio- ne: David Joris, M. Borrhaus, S. Castellione. A atmosfera mística e iluminada do círculo de Basileia”, “Fausto Sozzini em Basileia”, “Aconcio na Inglaterra”, “Cracóvia e os hereges italianos”, “Um seguidor de Occhino e de Lelio Sozzini em Zurique (Anton Mario Besozzi), e o seu processo”, “O processo de Curione”. É claro que há, na apreciação historiográfi ca de Cantimori, ainda que veladamente, um posicionamento quanto aos caminhos da po- 10 Cantimori, 1992:11-13. AF_livro final ok.indd Sec6:121AF_livro final ok.indd Sec6:121 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 122 lítica na Europa contemporânea, interligado ainda a uma crítica voltada para a compreensão da história da Europa pela historiogra- fi a a partir do início do século XIX. O empenho de sua investiga- ção, que culmina no livro sobre os Eretici, e que se estende em sua pesquisa no pós-guerra, sustenta uma argumentação de cunho ao mesmo tempo político e historiográfi co. Em outras palavras, Can- timori levanta-se contra a Europa das grandes nações, contra a Eu- ropa dos Estados nacionais, que havia se ancorado sempre num dis- curso histórico, ou melhor, de fi losofi a da história e assumido pela historiografi a o discurso das identidades nacionais. A pesquisa de Cantimori opunha-se à Europa das nações e à historiografi a que compreendia a Europa a partir do conceito romântico de “nação”. Ao mesmo tempo, e também de maneira velada, ele mostrava a impossibilidade de separar as raízes históricas formadoras dos povos que vivem, no século XX, sob a égide dos Estados nacionais. As- sim, ao buscar, através de caminhos muito concretos, as relações transalpinas dos hereges italianos, Cantimori sinalizava na direção dos contatos, das transposições, das fusões, em detrimento das no- ções de identidades nacionais e da concepção de unidades espiritu- ais impenetráveis. A pesquisa de Cantimori sobre os hereges italia- nos do século XVI inaugura, em sua própria obra, um caminho em direção à história da cultura, porém a uma vertente histórico-cul- tural inteiramente estranha à perspectiva da Geistgeschichte (história do espírito). Esta, sendo de origem prussiana, de viés marcadamen- te hegeliano, estendeu seus tentáculos para além da Prússia e para além da história política, infl uenciando certos modelos de história cultural e de história da arte. Lembremos de boa parte dos repre- sentantes da chamada “Escola de Viena”, da segunda metade do século XIX ao início do XX: em Viena, o livro que representa o testamento intelectual do historiador da arte Max Dvorák tem por título Kunstgeschichte als Geistgeschichte (História da arte comohistó- ria do espírito). Essas correntes também atingiram a Itália no início do século XX. A pesquisa de Cantimori, ao contrário dos modelos histórico-espirituais, tinha aquele extraordinário sentido de preci- AF_livro final ok.indd Sec6:122AF_livro final ok.indd Sec6:122 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 123são e de concretude, de objetivo e pontual esclarecimento de parte da realidade.11 Nesse sentido, é signifi cativo que, no futuro, tenha sido a esposa de Cantimori, Emma Cantimori, a tradutora para o italiano da obra de Aby Warburg, editada na Itália em 1966. É também sintomático que no primeiro número do Journal of the Warburg Institute, de 1937, Delio Cantimori tenha publicado o artigo “Retórica e política no humanismo italiano”. Em 1937, Aby Warburg não mais vivia. Po- rém, seus estudos e sua memória eram celebrados por um círculo de historiadores da arte e da cultura em torno do “Instituto Warburg para a Ciência da Cultura”, então instalado em Londres. O historia- dor alemão, que tinha eleito como mote de seu trabalho intelectual a máxima de Flaubert, “Deus está no particular”, o estudioso do Renascimento que já em 1902, concentrando-se no círculo erudito de Lorenzo, o Magnífi co, em Florença, observava as pinturas de Domenico Ghirlandaio como “provas indiciárias” (Indizienbeweis) do gosto clássico fl orentino, havia sido importante para Cantimori.12 Especialmente os estudos de Warburg sobre a “profecia antiga pagã em textos e imagens da época de Lutero”13 (publicados em 1920) tinham interessado ao estudioso italiano, e não apenas pelo tema. O modo pelo qual Warburg percebia o traço de paganismo nas ima- gens astrológicas elaboradas no âmbito do cristianismo luterano, e especialmente no círculo de relações muito próximas a Lutero, abri- ra os olhos de Cantimori, fazendo-o perceber que, no oceano de diversidade que compõe o tecido histórico, a concretude da vida e da ação dos homens instala-se sempre nas fronteiras dos modelos ideais. Warburg, no texto em questão, percebia a presença dos de- mônios astrais nas imagens e nos textos astrológicos elaborados no ambiente de Lutero como produtos de um entrecruzamento cultural que dizia respeito a interpretações árabes medievais de estudos astro- lógicos gregos no âmbito de Aristóteles, depois aportadas na Itália 11 Ver, a esse respeito, Miccoli (1970:90). 12 Warburg, 1932a:96. 13 Warburg, 1932b:487-557. AF_livro final ok.indd Sec6:123AF_livro final ok.indd Sec6:123 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 124 pelas mãos de um humanista fl orentino da segunda metade do século XV, Marsilio Ficino. Ficino as interpretava à luz do classicismo fl o- rentino de então. As interpretações astrológicas de Ficino, por sua vez, atingiram, segundo o texto de Warburg, o ambiente de Lutero através de um humanista germânico muito próximo ao monge refor- mista: Filipe Melanchton. É aí então que os demônios astrais se mes- clam ao universo pio e reformista em torno de Lutero, sofrendo novas transformações. Decerto, o texto de Warburg, tão próximo dos pro- blemas posteriormente tratados por Cantimori a respeito dos hereges italianos do século XVI emigrados para ambientes reformados ao norte dos Alpes, serviu-lhe de exemplo. Através dos textos de War- burg, Cantimori percebeu que as imagens construídas pelos homens, produtos de um contexto muito preciso de relações pessoais, não são redutíveis às grandes correntes de ideias. Cantimori tornara-se um crítico dos conceitos historiográfi cos, tais como Renascimento, Con- trarreforma, Barroco, vistos, em suas palavras, como “meras e arbi- trárias abstrações, derivadas de tendências e concepções gerais da his- tória e do mundo”, portanto quase inúteis “para se entender situações de fato, gerais ou particulares, individuais ou biográfi cas”.14 Diante dessa postura, era preciso, então, reduzir a escala e observar com pre- cisão os espaços de vida dos personagens e sua produção concreta. Cantimori chegou a afi rmar, tempos depois, que, diante da cena ita- liana dos historiadores voltados para o estudo do mundo moderno, que nos anos 1950 tinha no centro a fi gura de Federico Chabod, en- tão professor em Roma, ele preferia a companhia dos historiadores da arte. E ele tinha sido, quando aluno em Pisa, e agora o era como professor também em Pisa, colega de um dos principais historiadores da arte da Itália da época: Carlo Ludovico Ragghianti (1910-1987). No que diz respeito aos historiadores da cultura, Cantimori en- controu acolhida também fora da Itália. Certamente entre os compo- nentes do Instituto Warburg, que procuravam fazer reverberar o es- tudo da arte num fundo histórico-cultural. Mas não apenas ali. Em 14 Apud Miccoli, 1970:310. AF_livro final ok.indd Sec6:124AF_livro final ok.indd Sec6:124 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 125Basileia, nos anos 1930, encontrava-se o jovem Werner Kaegi, oriun- do da escola de Ernst Walser, o grande representante em Basileia, naquele momento, dos estudos sobre o humanismo italiano, aluno de alunos de Jacob Burckhardt. Kaegi, por sua vez, discípulo de Walser, era o estudioso do humanismo na Europa central, autor recente de uma tese sobre Hutten e Erasmo. Com Kaegi iria se prolongar, por parte de Cantimori, um frutífero diálogo erudito e uma sincera ami- zade que levaria um e outro a transpor inúmeras vezes a barreira dos Alpes. Além das várias conferências pronunciadas por Werner Kaegi na Scuola Normale Superiore di Pisa e das muitas visitas de Cantimo- ri à Universidade de Basileia, visitas que incluem a de 1960, para re- ceber das mãos de seu ex-professor de história da Igreja, então reitor Ernst Stähelin, o título de doutor honoris causa. O contato erudito entre os dois fi caria registrado na história das edições de seus livros. Kaegi foi o responsável pela publicação basileense dos Eretici italiani del Cinquecento, em 1949. Cantimori foi o tradutor na Itália das Historische Meditationen de Werner Kaegi. No dramático contexto da II Guerra Mundial, as conferências de ambos juntaram-se à voz de um outro historiador da cultura, o holandês Johan Huizinga. Os três haviam se encontrado em Basileia, em 1936, para celebrarem o quarto centená- rio de morte de Erasmo. Naquele momento, eram três conferencistas refl etindo sobre o humanismo na Europa central. Tempos depois, Cantimori trabalharia na edição em italiano do livro do historiador holandês, As sombras do amanhã, e Kaegi traduziria para o alemão o último manuscrito de Huizinga, inédito até mesmo em idioma ori- ginal, Quando falam as armas. Entre Cantimori e Kaegi havia ainda outro ponto de aproximação. Enquanto Kaegi trabalhava no maior empreendimento de sua vida, a biografi a intelectual do historiador de Basileia, Jacob Burckhardt, em sete volumes e editada entre 1947 e 1982 (o último publicado postumamente), Cantimori fazia a já referida tradução italiana das Weltgeschichtliche Betrachtungen de Bur- ckhardt: as Meditazioni sulla storia universale15 publicadas na Itália em 15 Burckhardt, 1959. AF_livro final ok.indd Sec6:125AF_livro final ok.indd Sec6:125 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 126 1959. É certo que a maneira de Kaegi mergulhar a biografi a de Bur- ckhardt na cultura citadina de Basileia serviu de exemplo para Canti- mori, nos anos 1940 e 1950, de como o contexto de vida de um personagem pode, de fato, tocar o teor de sua obra. Na longaresenha que Cantimori compôs, na Itália, do primeiro volume da biografi a intelectual de Burckhardt, escrita por Kaegi, tal afi rmação se confi r- ma.16 Certamente, a imagem de Burckhardt iluminava as faces de Kaegi, de Cantimori e de Huizinga, indicando um caminho para a compreensão da trágica crise da Europa naquele momento tão obscu- ro. Era, de novo, o cenário cosmopolita da cidade de Basileia a con- ferir um sentido à obra de Delio Cantimori. E devemos levar em consideração que os textos de Cantimori sobre Burckhardt represen- tam uma virada na compreensão da obra do historiador suíço, perce- bendo um novo Burckhardt em relação à imagem do pessimista e niilista radical, do pensador espremido entre Nietzsche e Schope- nhauer. Cantimori apresenta um Burckhardt até então conhecido quase exclusivamente no erudito meio dos estudiosos de Basileia. Exatamente o Burckhardt de quem Warburg se diz seguidor. E quan- to o Burckhardt de Cantimori abriu caminho para os estudos atuais sobre o historiador de Basileia! De todo modo, o diálogo de Cantimori com esse grupo de histo- riadores propiciou ainda a amplitude de sua perspectiva de pesquisa, no sentido de ultrapassar os limites da história italiana para tocar problemas relativos à vida religiosa e ao humanismo europeu. Além disso, Cantimori frisava a importância de tirar o foco dos estudos sobre os hereges e os movimentos reformistas no século XVI dos grandes homens, para daí, com o auxílio da história da cultura, bus- car os contextos mais precisos. Portanto, a perspectiva centrada em pequenos grupos, em contextos precisos e concretos, propiciaria ao mesmo tempo compreender o fenômeno histórico na diversidade e profundidade de seu caráter europeu. Cantimori trata o problema metodológico num curso ministrado na Scuola Normale Superiore 16 Ver Cantimori (1971). AF_livro final ok.indd Sec6:126AF_livro final ok.indd Sec6:126 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 127di Pisa em 1959. Essas aulas foram posteriormente editadas em livro, sob o título Prospettive di storia ereticale italiana del Cinquecento.17 Nes- sas aulas, o historiador afi rma a necessidade de descentralizar os es- tudos dos hereges italianos, apagando seu sentido de movimento (entendido como corrente de algum modo unitária e contínua), para integrá-los na vida religiosa italiana e europeia. Nas palavras de Delio Cantimori (1992:424): Há também que estudá-los, sob certos aspectos, pelo interesse que apresentam as formas da vida religiosa de pequenas comu- nidades ou de grupos de exilados e de emigrados, e entre estes grupos, distribuídos e dispersos em seu interior, daquele núcleo de pessoas mais inquietas e radicais que foram chamadas hereges no sentido mais delimitado e restrito. [...] Poder-se-ia, assim, falar de problemas e questões de história da vida religiosa do Cinquecento europeu, na qual aqueles grupos e aqueles núcleos se inserem, considerados na perspectiva e sob o ponto de vista da história da cultura [...]. Nesse sentido, a história da cultura funcionava como uma ope- ração de síntese que podia conferir um sentido cosmopolita ao fe- nômeno histórico, visto que sua compreensão extrapola os limites nacionais e a centralidade nos chamados “grandes personagens”. Essa síntese histórico-cultural, entretanto, não era aplicada como um amálgama uniformizador e, sim, como um campo de relações diretas entre homens percebidos concretamente em suas ações e inter-relações, de modo que a operação de tecitura histórica não apagasse o brilho e a diversidade dos contextos locais, nem a face multiforme de suas expressões e ideias. Como afi rmou o próprio Cantimori (1992:426), ainda nessas aulas de 1959, essa operação historiográfi ca 17 Cantimori, 1992:419-481. AF_livro final ok.indd Sec6:127AF_livro final ok.indd Sec6:127 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 128 constitui para o estudioso um espelho que amplia de maneira mais evidente os fenômenos da vida religiosa europeia, permi- tindo assim usar (com um método análogo àquele da Wissensso- ziologie) os materiais e os resultados da pesquisa microscópica para uma indagação e consideração macroscópica, sem revogar os cânones da concretude, da especifi cação e da cautela que são próprios de todo estudioso de história, e sem incorrer em gene- ralizações arriscadas ou fantásticas. Foi assim que Delio Cantimori, quando se concentrou em peque- nos círculos eruditos formados por italianos e não italianos fora da Itália, pôde tocar um problema primordial de história moderna: a transposição do humanismo italiano para o cenário da Europa central. Essa era uma indagação cosmopolita (europeia), bem adequada à tradi- ção histórico-cultural à qual ele podia se ligar por seu contato com as obras de Jacob Burckhardt e de Aby Warburg, e por seu diálogo com Werner Kaegi e com Johan Huizinga. A redução de escala, tal como a realizava Cantimori, tinha sido certamente intuída desse diálogo. Mas não apenas dele. A concentração na perspectiva microscópica, como primeiro passo de sua operação metodológica, denunciava sua ligação com a grande tradição historiográfi ca italiana, que desde os escritores latinos antigos havia concebido a biografi a como a forma primordial de compreender a ação do homem com um profundo senso histórico. Talvez, pelos elementos aqui apresentados, seja possível compreen- der, pelo menos em alguns traços, a importância de Cantimori para a formação de Carlo Ginzburg. Se assim for, que não apaguemos tam- bém aquilo que os distancia. E nesse sentido, tenhamos presente que um dos pontos mais instigantes da obra de Delio Cantimori é sua aversão à aplicabilidade em contextos e pesquisas distintas de pressu- postos metodológicos. Se há uma construção de caráter metódico em sua obra, ela foi concebida como aparato analítico para compreender um problema muito preciso de história. Esse aparato analítico, cons- truído no próprio processo da pesquisa histórica, servia apenas para a compreensão da história dos hereges italianos do século XVI. AF_livro final ok.indd Sec6:128AF_livro final ok.indd Sec6:128 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 D EL IO C AN TI M O R I 129 R E F E R Ê NC I A S BURCKHARDT, Jacob. Meditazioni sulla storia universale. Trad. Delio Can- timori. Florença: Sansoni, 1959. ———. Refl exões sobre a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1961. CANTIMORI, Delio. Sulla storia del concetto di Rinascimento. Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa, v. 2, n. 1, 1932, p. 229-268, 1932. ———. Storici e storia. 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Essa primeira indagação toca, portanto, aquele “contexto” em que, supostamente, o debate — e sobretudo o debate italiano — sobre a micro-história encontra de algum modo o seu lugar. A segunda questão, que se relaciona bem estreitamente à primei- ra, diz respeito a como a micro-história — ou pelo menos os histo- riadores mais fortemente ligados a ela — respondeu a essas transfor- mações ao longo da própria trajetória do debate. Enfi m, a terceira questão que gostaria de abordar diz respeito à recepção seletiva da micro-história no debate intelectual brasileiro, desde o seu princípio, em meados dos anos 1980, até os dias atuais. Como se verá, trato dessas três questões de modo desigual, mas procurando tecê-las em um objetivo geral. Creio que a articulação AF_livro final ok.indd Sec7:131AF_livro final ok.indd Sec7:131 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 132 dessas três dimensões pode ajudar tanto a pensar os modos pelos quais o debate fl orescente sobre a micro-história no Brasil vem se desenvolvendo, quanto a tornar mais claros os impasses — teóricos e outros — que esse debate envolve. Como já discuti em A micro-história italiana (2006a), em meados dos anos 1960, o panorama intelectual no qual surgiram os debates e propostas que se articularam sob o nome de micro-história na Itália era marcado por um modelo de história social que tinha como características mais destacadas a preocupação em explicar a socieda- de através de suas variáveis materiais e estruturais, contando ainda com um forte componente racionalista. Havia nisso o impulso de construir modelos sintéticos de interpretação — sobretudo da socie- dade europeia dos séculos XVI a XIX —, a partir de uma hierarquia de relevâncias muito bem defi nida. Essa versão “triunfante” da história social pode ser caracterizada por certos eixos de que vale a pena lembrar. Primeiro, pode-se dizer que ela se baseava na convicção otimista de que o questionário perti- nente para explicar a sociedade havia sido construído de uma vez por todas em seus aspectos mais fundamentais. Esse questionário — for- temente “materialista” — previa, por um lado, um conjunto de diá- logos entre a história e as ciências sociais que priorizavam muito claramente aquelas disciplinas que, como a economia, a sociologia e a demografi a, utilizavam amplamenmte métodos quantitativos e apresentavam, igualmente, forte tendência à modelização. Por outro, era também marcado por modelos explicativos fortes, como — em uma versão marxista — aquele que discutia a ascensão do capitalismo e, em outras vertentes, o modelo da “modernização”. Em suas distintas versões, sobretudo na Europa, esse era um mo- delo de história social certamente triunfante, tanto do ponto de vis- ta intelectual quanto do institucional (especialmente na França). A história social era, desde o pós-guerra, um verdadeiro projeto internacional,1 que havia produzido resultados sólidos, e era visto 1 Cf. Sewell Jr., 2005:25. AF_livro final ok.indd Sec7:132AF_livro final ok.indd Sec7:132 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 133e reconhecido como sinônimo de uma historiografi a mais sofi stica- da. Portanto, também, um programa a ser seguido. Esse quadro se transformou bastante entre o fi nal dos anos 1960 e o início dos 80. Os motivos são muitos, de natureza tanto historiográfi ca quanto extra-historiográfi ca. Não há dúvida de que há uma relação dialética entre as transformações políticas e culturais e as mudanças no campo das ciências sociais. A crescente percepção de que uma “crise” se abria no horizonte aconteceu simultaneamente nos dois campos.2 Não creio que haja necessidade de detalhar a natureza dessas transformações. Falando dos Estados Unidos e da Europa ocidental, pode-se acompanhar a análise de William Sewell Jr. (2005:30 et seq.), que vê na falência do modelo “fordista” (uma expressão usada por ele para classifi car tanto as sociedades quanto as ciências sociais que nelas se desenvolviam no período) um dos fatores essenciais dessa crise. De acordo com Sewell Jr., a desconfi ança crescente quanto às virtudes de um modelo de sociedade padronizada e estru- turada foi um dos fatores essenciais a mover tanto os movimentos políticos de esquerda e a contracultura a partir do fi nal da década de 1960, quanto a própria agenda dos historiadores sociais. Assim, o que se vê na década de 1970 é que o ponto alto do su- cesso da história social coincidiu com o momento em que ela come- çou a passar por profundos questionamentos sobre o próprio alcance de seus resultados como disciplina. Dois diagnósticos, publicados com duas décadas de diferença e realizados por protagonistas dos debates sobre a história social, nos ajudam a compreender o alcance e a direção das transformações que ocorreram no período. Pensando o estado da história social em 1971, é perfeitamente ra- zoável que Eric Hobsbawm concluísse seu amplo diagnóstico sobre o campo afi rmando que era “um bom momento para ser historiador social”,3 sublinhando ao mesmo tempo as fronteiras ilimitadas da 2 Sobre alguns dos impasses que brotaram dessa conjuntura de “crise”, ver Lima (2002:77-106). 3 Hobsbawm (1997:105), texto originariamente publicado em Daedalus, n. 100, p. 20-45, 1971. AF_livro final ok.indd Sec7:133AF_livro final ok.indd Sec7:133 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 134 disciplina e o otimismo quanto a sua capacidade de assegurá-las. Por outro lado, em contraste, em 1990, a historiadora americana Natalie Zemon Davis, em um artigo intitulado precisamente “As formas da história social” — uma discussão sobre os rumos da disciplina na década anterior — concluía seu diagnóstico dizendo: a história so- cial, no início dos anos 1990, é, antes de tudo, história cultural. O tom otimista permanece, mas uma mudança considerável certamente se havia operado naqueles 20 anos. Davis apontava alguns dos aspectos gerais dessa transformação: a história social, que havia estabelecido seu domínio através de um intercâmbio intenso com a sociologia, a economia e a antropologia social, passou a se interessar cada vez mais pelo tema da cultura e, rearticulando ao mesmo tempo seu horizonte de intercâmbio inte- lectual na direção da antropologia cultural e simbólica, pelos estu- dos literários e mesmo pela psicologia. No plano das fontes, a ênfase na documentação serial e quantitativa havia se deslocado para fontes menos serializáveis, mais capazes de ser interpretadas em uma chave simbólica. Natalie Davis não hesitava em incluir a micro-históriaitaliana como um exemplo claro dessa nova estação de estudos. Vocabulários, fontes de pesquisa, métodos de análise, temas de investigação, estilo intelectual: os termos de defi nição da “nova his- tória cultural” (para usar uma expressão que começou a circular mais ou menos na mesma época4) passavam por uma reavaliação de tudo isso. Claro que essa reavaliação não era homogênea e, certa- mente, seria um equívoco imaginar que apenas um modelo alterna- tivo de história cultural tenha surgido nesse horizonte. Desde um “culturalismo” não inteiramente incompatível com as preocupações clássicas da história social até as versões mais radicais e “pós-moder- nas” de uma crítica radical e epistemologicamente cética dos pró- prios fundamentos do conhecimento histórico, o que se via era uma reorientação de prioridades e uma redefi nição do consenso em tor- no daquilo que deveria ser o principal foco da pesquisa histórica. 4 Cf. Hunt, 1992. AF_livro final ok.indd Sec7:134AF_livro final ok.indd Sec7:134 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 135É verdade que muitos ramos da “velha” história social continua- ram a fl orescer e a dar frutos, mas com menos alarde. Não há dúvida, porém, de que o centro do palco — o que ecoava mais fortemente nas caixas de reverberação acadêmica (sobretudo nos Estados Uni- dos e na França) — era um debate que tematizava crescentemente a cultura. O impacto sobre o vocabulário em circulação nos debates centrais da historiografi a mostra isso: noções como “classe”, “estru- tura”, “organização social” foram sendo menos escutadas, enquanto termos como “identidade”, “gênero”, “subjetividade” e “representa- ção” tomavam clamorosamente a dianteira. A “virada cultural” (e mesmo, em uma versão mais extrema, uma “virada linguística”) sintetizou essa busca por rearranjar a hierarquia de importância na interpretação histórica entre os anos 1980 e o fi - nal da década de 90. É importante notar, entretanto, que esse qua- dro não deixou de se transformar. O último capítulo ou, quem sabe, o último capítulo antes do último — para parafrasear Siegfried Kra- cauer (1969) — dessa história é o que se vive hoje, com a revisão de parte desse quadro, onde parece estar em curso uma nova infl exão desse panorama teórico.5 Isso se deve, é preciso acrescentar, pelo menos em parte, à dinâmica própria ao desenvolvimento de qual- quer debate intelectual, e que faz com que fi nalmente se acabe con- frontando as promessas feitas no momento com os resultados teóri- cos e empíricos que as próprias pesquisas obtiveram ao longo do tempo. Pretendo voltar a falar mais adiante sobre esse quadro de reavaliação, após me deter no segundo ponto de discussão que le- vantei no início deste capítulo. A pergunta sobre os modos às vezes contraditórios pelos quais a micro-história se relacionou com esse quadro de transformações da história social levanta alguns pontos de discussão nos quais valeria a pena nos deter mais. 5 Atestam isso, parece-me, as recentes avaliações dos caminhos do debate históri- co nos Estados Unidos, das quais se pode destacar o já citado livro de William Sewell Jr., Logics of history, e o de Geoff Eley, Una linea torcida (publicado originaria- mente em inglês em 2005). AF_livro final ok.indd Sec7:135AF_livro final ok.indd Sec7:135 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 136 O primeiro ponto diz respeito à relação entre a micro-história e aquele primeiro panorama da história social triunfante no início dos anos 1970. Como foi dito, a sofi sticada discussão historiográfi ca, sobretudo na França (com os Annales) e na Inglaterra (com a história social marxista britânica), aparecia como o horizonte a seguir e o modelo historiográfi co ante o qual se posicionar de algum modo. Diante desse panorama, a “micro-história” surge simultaneamente como resultado e como reação no debate italiano sobre a história de início dos anos 1970. Digo resultado e reação porque não há dúvida de que é como uma tentativa de se aproximar desse modelo de uma história com instrumentos e modelos interpretativos fortes e fôlego intelectual amplo que os debates sobre a história social aparecem na Itália nos anos 1960 e 1970.6 E esse, é preciso lembrar, era um debate que se travava na Itália também contra um quadro de discussões históricas bastante impermeável ao diálogo com as ciências sociais, marcado por tradições intelectuais importantes e contrastantes, desde a histó- ria ético-política, com forte interesse pela história intelectual e a história do Estado, até uma historiografi a de inspiração marxista, também muito marcada pela busca de uma “história-síntese”. Se tomarmos os primeiros textos em que se anuncia o que depois viria a se chamar de micro-história, reconheceremos imediatamente que são essas as preocupações que estão no horizonte do debate: a necessidade de se construir modelos explicativos mais adequados, a convicção de que era possível — através do aperfeiçoamento dos métodos da história social — fortalecer a disciplina do ponto de vis- ta científi co. Claro que isso tudo vinha acompanhado de uma rejei- ção muito clara aos modelos estrutural-funcionalistas adotados pelas 6 Edoardo Grendi (1998:258) afi rmou, em um artigo de balanço publicado pela primeira vez em francês em 1996, que a “microanálise representou uma espécie de ‘via italiana’ para uma história social mais elaborada (e mais fundamentada teorica- mente) num contexto particular, fechado às ciências sociais e dominada por uma ortodoxia historiográfi ca que hierarquizava de maneira rígida a importância dos objetos”. O diagnóstico, a meu ver, pode ser estendido ao debate sobre a micro- história como um todo. AF_livro final ok.indd Sec7:136AF_livro final ok.indd Sec7:136 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 137ciências sociais, bem como de uma reapreciação crítica muito articu- lada dos resultados alcançados pela história social naqueles anos. O tema da “microanálise”, que emergiu inicialmente como o ter- mo que sintetizava as preocupações teóricas e metodológicas, brota das intervenções de Edoardo Grendi no debate sobre a história so- cial nas páginas dos Quaderni Storici. A trajetória intelectual de Grendi revela, por outro lado, o quanto a micro-história devia a esse debate mais amplo que ocorria não só sobre a história social fora da Itália, mas também sobre a forma original que poderia adquirir (como, de fato, adquiriu) ao entrelaçar-se com discussões menos óbvias e problemas de investigação que brotavam da própria histo- riografi a italiana.7 Um aspecto importante a ser ressaltado é que a microanálise ape- nas lentamente ganhou substância em trabalhos de pesquisa empíri- ca. Tratava-se antes de tudo de uma proposta metodológica, com forte inspiração na antropologia social. Na medida em que o debate se tornou mais amplo e mais diversifi cado, aquele programa intelec- tual inicial foi bastante alterado. Como falou Carlo Ginzburg (2007a:249), o fato é que, em meados dos anos 1970, a micro-histó- ria mais parecia um rótulo em uma caixa vazia, a ser preenchida. A citação de Ginzburg não é casual, pois ele é um dos responsá- veis pela complicação do quadro da interpretação do debate. Como já se falou muitas vezes, a trajetória de Ginzburg e suas preocupações intelectuais não poderiam estar mais distantes das dos outros prota- gonistas da micro-história, como Giovanni Levi, Edoardo Grendi e mesmo Carlo Poni, com quem de resto Ginzburgescreveu um tex- to sugestivo sobre o tema em 1979.8 A aproximação de Ginzburg passava por um conjunto muito diferente de diálogos e aproximações, e sua abordagem da história 7 Sobre a trajetória intelectual de Grendi, ver a introdução de Osvaldo Raggio e Angelo Torre ao livro de Grendi publicado postumamente, In altri termini. Ver tam- bém o capítulo “História social e microanálise: Edoardo Grendi”, de Lima (2006:151-224). 8 Ver Ginzburg e Poni (1989:169-178). AF_livro final ok.indd Sec7:137AF_livro final ok.indd Sec7:137 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 138 social já era alimentada, desde meados dos anos 1960, por um in- teresse de pesquisa em “crenças”, “atitudes religiosas” e “mentali- dades” do mundo camponês (para mencionar três expressões pre- sentes na introdução de seu primeiro livro, em 1966).9 Quando passou a colaborar com os Quaderni Storici, em meados dos anos 1970, O queijo e os vermes estava em processo de publicação e ele preparava seu livro sobre Piero della Francesca.10 Os dois livros abordavam o tema da “microanálise” por um ângulo bastante dis- tante das propostas de Grendi e Levi: não se tratava da reconstru- ção de teias de relações sociais, nem da recomposição das trajetó- rias individuais e de grupo através da documentação serial, mas de abordar a história a partir da observação de um episódio singular, ou da análise de uma anomalia iconográfi ca localizada, na tentati- va de investigar uma realidade mais profunda, que não havia dei- xado traços documentais. A contribuição de Ginzburg ao debate da micro-história não é negligenciável, como se sabe. Basta lembrarmos o quanto as discus- sões elaboradas por ele em um texto de 1979 chamado “Sinais” aca- baram se tornando indissociáveis das propostas micro-históricas, mes- mo sabendo que a fórmula do “paradigma indiciário” estava longe de encontrar boa aceitação entre os próprios micro-historiadores.11 Havia, e isso foi reconhecido imediatamente, pontos de vista dis- tintos no projeto micro-histórico. Não faltaram discussões sobre o que os separava e os unia. Tentando sintetizar essas diferenças, em 1996, Edoardo Grendi identifi cou duas vertentes da microanálise histórica: uma delas, representada antes de tudo por Ginzburg, deti- nha-se no episódio ou no caso e projetava-o “sobre um contexto histórico-cultural. E, nesse ponto”, nas palavras de Grendi (1998:253), “sua pertinência era pelo menos dupla: ele servia para ilustrar, de um lado, um problema historiográfi co particular (por exemplo, as rela- 9 Ver Ginzburg (1988). 10 Ver Ginzburg (1987 e 1989a). 11 O texto a que me refi ro é “Sinais. Raízes de um paradigma indiciário”, em Ginz- burg (1989b). AF_livro final ok.indd Sec7:138AF_livro final ok.indd Sec7:138 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 139ções entre a cultura de elite e a cultura popular) e, de outro, a cultu- ra de uma época (mais que a de um grupo social específi co)”. A se- gunda vertente microanalítica, na qual se incluía, Grendi qualifi cava como voltada para a contextualização social, marcada por outros “procedimentos analíticos” e interessada na “reconstrução de redes de relações e [na] identifi cação de escolhas específi cas (individuais e coletivas)”, que reconhecia o “primado das relações interpessoais” como seu principal plano de investigação.12 Esse quadro esquemático era problematizado, no entanto, mais adiante pelo próprio Grendi. “Empréstimos e trocas recíprocas” aju- davam a turvar esses limites, sendo a “alternativa original entre con- textualização social e contextualização cultural” excessivamente abstrata e havendo sido superada, ao menos parcialmente, pela pró- pria pesquisa.13 Além disso, Grendi reconhecia que a mudança no quadro de infl uências e diálogos que os historiadores ligados à mi- cro-história empreenderam acabou sendo responsável por reforçar temas não previstos no programa original, como a aproximação com a antropologia cultural, o interesse por idiomas políticos, a dis- cussão sobre as “práticas sociais”. De resto, o “elemento decisivo” a marcar a experiência historiográfi ca entre meados dos anos 1980 e meados dos 90 havia sido a “passagem de uma problemática da pro- dução e da troca para a da linguagem e da representação”.14 O quadro abstrato que dividia arbitrariamente a micro-história social da micro-história cultural permaneceu não resolvido no pla- no da discussão teórica. Um dos motivos disso talvez tenha sido o fato de nunca ter acontecido um verdadeiro diálogo sobre as dife- renças e convergências entre as duas abordagens possíveis para a micro-história. Isso talvez tenha acontecido — o que me parece mais importante — no próprio trabalho dos micro-historiadores nos anos seguintes e se mantido como uma das fontes de renovação do próprio debate. 12 Grendi, 1998:253. 13 Cf. Grendi, 1998:259. 14 Grendi, 1998:254. AF_livro final ok.indd Sec7:139AF_livro final ok.indd Sec7:139 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 140 O tema da “cultura” parece estar no centro dessa área de indefi - nição na qual se desenvolveu o debate em torno da micro-história. É preciso olhar com mais atenção, portanto, o lugar que esse tema ocupou nas “duas vertentes” micro-históricas, o que tem a ver, aliás, com o próprio lugar da micro-história na reorientação do debate sobre a história social durante as décadas de 1970 e 80. O tema da cultura estava longe de ser uma preocupação ausente nas discussões sobre a microanálise. Ao contrário, o projeto históri- co-antropológico que inspirava a micro-história sugeria exatamente que a avaliação da importância dos modelos culturais tinha um peso signifi cativo para a compreensão das lógicas e estratégias sociais. Nes- se sentido, é digno de nota o entusiasmo com que um historiador como Grendi acolheu os trabalhos publicados por Natalie Davis no início dos anos 1970,15 bem como sua análise certamente positiva dos trabalhos de antropologia histórica publicados por E. P. Thompson, reunidos por Grendi em um volume intitulado Societá patrizia, cultura plebea (Sociedade patrícia e cultura plebeia), publicado em 1981 como o segundo número da coleção einaudiana “Micro-histórias”.16 Davis e Thompson haviam sido pioneiros nessa exploração da interface com a antropologia, sem abandonarem um programa forte de histó- ria social. Mas a questão que me parece mais relevante aqui é a maneira dis- tintiva com que a vertente “social” da micro-história tratava o proble- ma da cultura. Esse elemento está ligado, a meu ver, ao modo de in- vestigar essa dimensão. Se observarmos alguns dos principais trabalhos que levaram adian- te as exigências de contextualização social que a microanálise havia colocado em pauta — por exemplo, o livro de Giovanni Levi A he- rança imaterial —, a cultura tinha um papel importante e confundia-se com o modo pelo qual os sujeitos sociais organizavam suas vidas e o horizonte de racionalidade em que suas ações faziam sentido. A cul- 15 Ver Grendi, 1976. 16 Thompson (1981). Sobre a avaliação de Grendi do trabalho de N. Davis, ver tam- bém Lima (2006b:151-224). AF_livro final ok.indd Sec7:140AF_livro final ok.indd Sec7:140 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 141tura, desse modo, era lida através dos comportamentos dos atores sociais: a lógica que guiava as estratégias dos grupos e defi nia seu le- que de respostas para oproblema da incerteza e defi nia um conjunto de valores e de princípios comuns que davam sentido às escolhas fa- miliares, a lógica do mercado de terra, a política e assim por diante. O que Levi evitava fazer em seu livro era pensar a cultura como um contexto autônomo, tomando uma distância considerável da história das ideias. Assim, sua investigação sobre a trajetória de Giovan Battista Chiesa não procura encontrar o sentido da pregação do padre exorcis- ta nos livros religiosos ou nos manuais de exorcismo, mas busca-o so- bretudo nos modos possíveis com que os camponeses que seguiam Chiesa organizavam seu horizonte de expectativas diante de um mun- do em colapso. A discussão de Levi ecoa em muitos pontos o programa de pesquisa que Edoardo Grendi havia feito discutir alguns anos antes: para Grendi (1981:71-72), entre os “objetos analíticos” de uma micro- análise deveria estar seguramente a cultura, isto é, as “formas expressi- vas coletivas” cujo signifi cado, enquanto “orientação de valor”, pode- ria ser capturado não só na palavra, no gesto ou rito, mas também na “ação social, [na] violência coletiva, [na] organização”. Essa inspiração etnográfi ca estava presente, em A herança imaterial, na pesquisa intensiva sobre as formas de organização da vida camponesa, no funcionamento do mercado de terras, no estudo do jogo de alianças verticais e hori- zontais operado pelos vários sujeitos sociais, bem como na refl exão sobre o caráter imaterial do poder político que dava título ao livro. Em contraste, podemos pensar um pouco sobre aquilo que separa e aproxima o livro de Levi de um outro trabalho que ajudou a dar conteúdo ao termo “micro-história”: O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg. Ali o autor procura reconstruir, através da leitura intensi- va das palavras do moleiro Menocchio registradas no processo inqui- sitorial de que fora objeto, um contexto cultural e intelectual perdi- do. As ideias de Menocchio e, em especial, a grade de leitura que ele projetava nos livros que lia faziam emergir um extrato cultural desa- parecido de uma cultura camponesa com componentes materialistas e radicais que não podiam ser intuídos através de outras fontes e, AF_livro final ok.indd Sec7:141AF_livro final ok.indd Sec7:141 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 142 muito menos, das ideias heréticas eruditas que circulavam no perío- do. A excepcionalidade e singularidade de Menocchio tornavam-se uma via de acesso, uma sonda para explorar um contexto cultural que não se conhecia precisamente. Para além da distinção entre uma contextualização “cultural” e uma contextualização “social”, as diferenças entre os dois livros eram ligadas tanto à própria escolha do problema de pesquisa quan- to às ferramentas intelectuais colocadas à serviço da investigação. A análise intensiva das fontes cartoriais sob a inspiração da antropolo- gia social e da network analysis, no caso de Levi; o uso da rica crônica do processo inquisitorial, escrutado por uma leitura fi lológica, no caso de Ginzburg. Mas, unindo os dois livros, uma convicção co- mum na capacidade de penetrar, através da leitura intensa da docu- mentação e da atenção obsessiva pelos aspectos singulares de cada caso estudado, em uma realidade social e cultural cuja compreensão anterior era julgada inadequada ou incompleta. O que essa comparação permite ver — e, é preciso dizer, outras comparações e outros livros poderiam ser chamados a comparecer nessa mesma chave — é que, para além das diferenças evidentes, ha- via uma coerência de perspectivas que dotava o empreendimento (ou o programa) da micro-história de uma coerência de fundo. Portanto, aquela linha fronteiriça entre duas maneiras de se pensar e fazer a micro-história era, de fato, constantemente turvada. Se tomarmos apenas os livros publicados na coleção “Micro-histórias” — organi- zada por Carlo Ginzburg e Giovanni Levi entre 1981 e 1992 —, ve- remos a presença tanto de trabalhos que seguem muito de perto o programa de uma microanálise histórica das redes sociais, como o livro de Raul Merzario sobre as estratégias matrimoniais da diocese de Como entre os séculos XVI e XVIII, até livros decididamente voltados para o estudo do imaginário e da crença, como o de Alain Boureau sobre a lenda medieval da papisa Joana, traduzido para o italiano e proposto a ser lido sob o rótulo de “micro-história”.17 Não 17 Ver Merzario (1982); e Boureau (1991). AF_livro final ok.indd Sec7:142AF_livro final ok.indd Sec7:142 4/12/2009 15:03:184/12/2009 15:03:18 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 143vou continuar a lista, mas o que quero não é apenas reafi rmar o cará- ter aberto e experimental da micro-história, mas pensar um pouco como o seu programa original foi também modifi cado e tornado mais complexo com o tempo. Aqui, vale a pena voltar um pouco à relação problemática que o debate sobre a micro-história teve com o panorama cambiante dos estudos históricos durante os anos 1980. Creio que não se pode ignorar que alguns dos caminhos tomados pelas pesquisas dos micro-historiadores estão diretamente ligados a essas transformações. O erro, nesse caso, é tentar simplesmente en- caixar a micro-história em um quadro mais geral e homogêneo de “virada cultural”. Olhar o debate por esse ângulo — um ângulo externo — é antes de tudo multiplicar os mal-entendidos. O que se pode identifi car de saída é uma clara reação ao rumo que o debate histórico tomou a partir da década de 1980. De um ponto de vista interno, acredito que as questões propostas pelo tra- balho de Ginzburg não deixaram de ter algum efeito sobre as for- mulações gerais do debate. As diferenças e aproximações foram ne- gociadas nos resultados das próprias pesquisas dos historiadores e historiadoras que tiveram sua formação sob essa inspiração. Por ou- tro lado, a abertura ao debate internacional exigiu uma readequação das discussões às novas questões que se impunham. Há também uma dinâmica institucional da qual vale a pena falar brevemente. Os estudos de história nas universidades italianas permaneceram fortemente impermeáveis à micro-história, enquanto o interesse pela micro-história fora da Itália apenas crescia. A circulação de pessoas tem aqui um papel fundamental, não sendo uma informação secundária considerar que vários dos ex-alunos dos micro-historia- dores italianos foram fazer seus doutorados fora da Itália, na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, bem como na In- glaterra e nos Estados Unidos, onde mais tarde muitos se inseriram profi ssionalmente. Assim, os temas e problemas teóricos em circula- ção no debate histórico dos anos 1980 entraram no horizonte das pesquisas que se inspiravam com maior ou menor intensidade no AF_livro final ok.indd Sec7:143AF_livro final ok.indd Sec7:143 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 144 debate italiano sobre a micro-história. Também a mobilidade dos historiadores garantiu que o programa da micro-história fosse refl e- tido e, eventualmente, reavaliado em confronto com os debates mais amplos da disciplina. O exemplo em que gostaria de me deter brevemente é mais uma vez o de Giovanni Levi. Na introdução de A herança imaterial, Levi assinala a oportunidade que teve de discutir seu livro nos seminários do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, entre 1983 e 1984. É verossímil pensar que foi essa temporada americana que o colocou em contato com o debate corrente que se travava então entre os es-tudos históricos e a antropologia cultural e interpretativa. A referên- cia fundamental aqui é, naturalmente, Clifford Geertz, que fazia parte do corpo permanente do instituto. Ora, há pelo menos duas circunstâncias nas quais Levi se dedica a explorar suas diferenças com a história interpretativa que brota desse debate com Geertz. A primeira delas é em uma resenha muito crítica sobre o livro recém-publicado de Robert Darnton, O grande massacre dos gatos. O título da resenha era precisamente “Os perigos do geertzismo”.18 Nesse texto, Levi criticava fortemente os pressupostos intelectuais de Darnton, sobretudo sua proposta de aproximar a investigação his- tórica do modelo hermenêutico de Geertz. Acompanhando o antro- pólogo americano, Darnton propunha o modelo de uma disciplina interpretativa que, baseada na leitura intensa de episódios singulares, fosse capaz de atravessar a opacidade do passado, reconstituindo seus signifi cados historicamente localizados. O eixo central do livro era a metáfora da “leitura”: a ideia de que o mundo social deveria ser en- carado como um texto a ser decifrado. A crítica de Levi apontava exatamente para a debilidade intelec- tual de uma análise histórica construída nessas bases. A abordagem hermenêutica deixava em aberto o problema de um conhecimento 18 Publicado originariamente em Quaderni Storici em 1985. Para a versão em por- tuguês, ver Levi (1999). AF_livro final ok.indd Sec7:144AF_livro final ok.indd Sec7:144 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 145empiricamente mais sólido sobre o passado, dando espaço para o relativismo historiográfi co. Quanto à metodologia em si, os resulta- dos também não apresentavam novidade: a atenção ao caso indivi- dual, a descrição densa não resultavam em um verdadeiro ganho cognitivo, apenas ilustravam um contexto estático. O episódio em si era lido através de um vocabulário já conhecido. Poucos anos depois, Levi (1992:149) retomou a discussão acerca da história interpretativa, desta vez em um balanço seu sobre a mi- cro-história. O julgamento, nesse caso, era mais claro: Parece-me que uma das principais diferenças de perspectiva en- tre a micro-história e a antropologia interpretativa é que a últi- ma enxerga um signifi cado homogêneo nos sinais e símbolos públicos, enquanto a micro-história busca defi ni-los e medi-los como referência à multiplicidade das representações sociais que eles produzem. Portanto, o problema não é simplesmente aque- le do funcionamento do intelecto. Há também o perigo de se perder a visão da natureza socialmente diferenciada dos signifi - cados simbólicos e consequentemente de sua qualidade em par- te ambígua. Ora, a ênfase no caráter descontínuo, ambíguo e fragmentado das representações (e, do mesmo modo, da própria experiência humana), no caráter limitado e incompleto da sua “racionalidade”, comple- mentam a crítica a certa forma de compreender a cultura, a lingua- gem e o signifi cado, que seriam marcados por uma tendência a pro- curar a homogeneidade e a descrevê-la em termos normativos. O projeto da microanálise — da redução da escala de observação com o fi m de explorar uma realidade não acessível de outra forma — apon- tava para uma maneira distinta e muito mais complicada de enxergar também o mundo dos signifi cados. Creio que essa polêmica é particularmente reveladora. A virulên- cia da crítica de Levi a Darnton e, através dele, a Clifford Geertz e a Georg Gadamer deve ser lida contra o fundo dos vários paralelos que AF_livro final ok.indd Sec7:145AF_livro final ok.indd Sec7:145 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 146 se pode enxergar entre a micro-história e a proposta da “descrição densa” formulada por Geertz,19 bem como a toda uma maneira de pensar a “história cultural” que acabava por se inspirar nessa mesma proposta. O que essa atenção crítica à história interpretativa sugere é que Levi reconhecia que havia questões importantes ali, questões para as quais a micro-história — pelo menos aquela vertente da micro-his- tória que ele e Grendi haviam defendido — talvez não tivesse dado a atenção devida. Havia uma pergunta intelectualmente legítima ali, ainda que a resposta — a dada por Darnton, por exemplo — não fosse convincente. Essa preocupação marcaria, a meu ver, muitas das reelaborações que a micro-história sofreu ao longo dos anos. Sem dúvida é uma preocupação fundamental nas discussões de Ginzburg, por exemplo, que a partir de outras questões também se engajou no debate sobre os limites da história das representações e a necessidade de levar a sério o desafi o daqueles que achavam por bem dissolver os limites entre a história e a fi cção.20 Mas essa foi também uma preocupação de Edoardo Grendi, que manifestou isso claramente em seu balanço sobre a micro-história publicado no livro organizado por Jacques Revel, Jogos de escalas. Nele, Grendi (1998:261) reconhece o impacto das questões coloca- das pela “virada cultural” sobre o seu próprio programa historiográ- fi co, apontando a necessidade de incorporar a preocupação com as “formas expressivas” e o “problema da interpretação histórica”. A geração de historiadores que se formaram sob o impacto da micro-história talvez tenha sido responsável por enfrentar mais de perto em suas próprias pesquisas esse diálogo. Reconhecemos isso em trabalhos como o de Maurizio Gribaudi (1987) sobre os traba- 19 E, de fato, mais de um comentador da micro-história enfatizou essa suposta “dívida” da micro-história para com a antropologia interpretativa de Geertz, como é Ronaldo Vainfas (2002). Mesmo algumas passagens do autorretrato de Levi dis- cutindo sua própria versão da micro-história sugerem essa ambiguidade (que, a propósito, me parece equivocada). Ver, por exemplo, Levi (1992:141). 20 Ver, por exemplo, Ginsburg (2002 e 2007b). AF_livro final ok.indd Sec7:146AF_livro final ok.indd Sec7:146 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 147lhadores de um bairro operário de Turim no entreguerras — um trabalho marcado por uma verdadeira desconstrução da ideia de uma “classe trabalhadora” homogênea e dotada de interesses co- muns e coerentes, explorando amplamente o papel construtivo das linguagens políticas. Temas igualmente presentes no livro de Simo- na Cerutti (1992) sobre o nascimento de uma linguagem corporati- va no Piemonte do século XVII. Poderíamos acrescentar outros li- vros, como o de Oswaldo Raggio (1990), colega e orientando de Edoardo Grendi em Gênova, sobre os rituais de violência e de poder na vida familiar e comunitária da Fontanabuona, na Liguria, ou ainda o livro de Angelo Torre (1995) sobre o consumo das devoções no Piemonte moderno. Também os estudos de gênero passaram a ocupar aí um lugar importante, como nos trabalhos de outras histo- riadoras ligadas à micro-história, por exemplo Gianna Pomata e Sandra Cavallo.21 Poderia citar outros, mas o que essa breve lista quer dizer é que os temas da cultura (e da pluralidade das culturas), dos signifi cados, da dimensão ritual e simbólica, da subjetividade, que pareciam aspectos negligenciados pelo programa de microanálise social colocado ini- cialmente em circulação por Grendi e Levi, acabaram sendo incor- porados ao universo de temas e questões centrais da micro-história. O debate em torno dessas questões, bem como sobre o alargamento não só do leque de interesses dos micro-historiadores, mas das cate- gorias de análise e dos procedimentosinterpretativos, continua. Muito recentemente, Simona Cerutti (2004:17-40), uma das principais responsáveis por levar adiante a pesquisa micro-histórica nos últimos anos, debruçou-se sobre essas mesmas questões e for- mulou uma autocrítica muito articulada tanto à forma pela qual a 21 Pomata vem trabalhando com temas relacionados ao gênero e à história da saúde desde o fi nal dos anos 1980. O primeiro livro de Sandra Cavallo (1995) é um exem- plo dessa convergência entre microanálise e estudos de gênero. A temática do gêne- ro estava presente, de todo modo, na discussão dos Quaderni Storici (a revista que reuniu a maior parte das colaborações dos micro-historiadores) desde o início dos anos 1980, como atesta a coletânea organizada por Edward Muir e Guido Ruggie- ro, Sex & gender in historical perspective (1990). AF_livro final ok.indd Sec7:147AF_livro final ok.indd Sec7:147 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 148 chamada micro-história cultural ao estilo de Ginzburg ocupava-se dessas questões quanto à micro-história social que ela mesma havia encampado em seu trabalho anterior. Para Cerutti, os próprios mi- cro-historiadores sentiram a necessidade de superar essa dicotomia artifi cial entre uma perspectiva voltada estritamente para o estudo das relações sociais e outra dedicada ao estudo dos modelos cultu- rais. Para ela, a necessidade de uma nova contextualização cultural brota da pesquisa das próprias relações sociais, sendo possível “ana- lisar melhor signifi cados profundos (e recônditos) se nós não desco- nectarmos a análise dos modelos culturais da análise do comporta- mento, mas os mantivermos juntos”. Afi rma, portanto, “que é o comportamento que explica a efi cácia e a vitalidade dos modelos culturais”.22 O objetivo de Cerutti de pensar uma convergência possível de interesses entre as duas exigências intelectuais que moldaram a mi- cro-história ilustra o caráter dinâmico de um debate que, aparente- mente, está longe de ter visto seus últimos momentos. Essa vitalida- de que a micro-história ainda parece possuir está ligada ao caráter experimental que ela desenvolveu desde os seus primórdios e que também se expressa em uma saudável “autossubversão”. Como se sabe, boa parte do “senso comum historiográfi co” contra o qual a micro-história se insurgiu foi também bastante alterado. As tradi- cionais hierarquias de relevância foram desafi adas por histórias que chamavam a atenção para os grupos marginais, as histórias locais, as histórias ligadas às identidades étnicas, sexuais, de gênero. A micro- história foi um dos vetores dessa transformação no debate contem- porâneo, ao mesmo tempo em que se viu transformada por ele. A pluralização de temas, a emergência de novas categorias de análise e de novos diálogos disciplinares signifi caram também o aparecimen- to de novas contradições e simplifi cações que reestruturaram o ho- rizonte de crítica e refl exão histórica. A infl exão recente que parece representar uma revisão do quadro teórico que fez triunfar a “virada 22 Cerutti, 2004:19. AF_livro final ok.indd Sec7:148AF_livro final ok.indd Sec7:148 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 149cultural” 23 pode sugerir que as questões levantadas pela micro-his- tória ainda podem ter muito a dizer sobre os caminhos do debate historiográfi co nos próximos anos. Chegando às últimas considerações deste texto, seria importante concluir com uma constatação, que toca o terceiro ponto que eu havia me proposto a discutir nas primeiras páginas do capítulo. No início dos anos 1990 — época em começa a circular a palavra “micro-história” no Brasil —, a atenção a esse debate italiano era muito seletiva e, ao mesmo tempo, excessivamente impressionista e lacunar. Em contraste, o debate sobre a micro-história parece hoje muito mais rico e atento às sugestões e propostas que a própria pes- quisa dos micro-historiadores produziu ao longo dos anos. Ainda que se possa lamentar a ausência de traduções de muitos livros e textos importantes sobre a micro-história — e a centralização da atenção e da leitura, que daí deriva, em um pequeno número de autores selecionados —, não há dúvida de que o debate brasileiro vem conseguindo articular as sugestões de pesquisa oriundas dos trabalhos dos micro-historiadores com as próprias conquistas da his- tória social e cultural no Brasil dos últimos anos, que passou por uma rearticulação de problemas e um vigor renovado de pesquisa certamente notáveis. A primeira recepção da micro-história coincide com a própria recepção de um debate mais amplo sobre a historiografi a que se in- ternacionalizava. Esse foi o contexto que permitiu, em meados da década de 1980, o contato com um conjunto amplo de leituras que vinham traduzidas para o português e lidas, pelo menos nos cursos universitários, de modo quase simultâneo: a tradução maciça de his- toriadores franceses ligados aos Annales, como Jacques Le Goff e Georges Duby, bem como historiadores ingleses e anglo-america- nos, como Edward Thompson, Eugene Genovese e Natalie Davis, além de todo um leque de discussões que brotavam da fi losofi a, da 23 E aqui, como referência desse quadro de revisão, aponto para os livros de Geoff Eley (2008) e William Sewell Jr. (2005). AF_livro final ok.indd Sec7:149AF_livro final ok.indd Sec7:149 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 150 antropologia ou da sociologia — como é o caso, por exemplo, de Michel Foulcault e, mais tarde, Pierre Bourdieu, que tiveram todos enorme impacto sobre as discussões dos historiadores brasileiros. Pode-se dizer que esse foi também um momento em que a historio- grafi a brasileira descobriu com mais intensidade seu próprio cami- nho para uma “história social”, isto é, uma história simultaneamen- te em sintonia com o debate internacional e disposta a intensifi car suas relações com as outras disciplinas das ciências humanas. A recepção dessa impressionante massa de textos, ideias e suges- tões de pesquisa foi mediada — como talvez não pudesse deixar de ser — por leituras parciais e aproximações inesperadas. Esse é o en- quadramento que permite compreender como a micro-história pode se tornar não só sinônimo da obra de Carlo Ginzburg (tradu- zido conspicuamente a partir de 1987), mas uma das modalidades de uma “história cultural” ou “história das mentalidades” cujos signi- fi cados permaneciam sufi cientemente ambíguos para permitir com- binações de toda ordem. A micro-história, inicialmente capturada como parte de uma constelação mais ampla de sugestões de pesquisa, foi tomando con- tornos mais claros. De todo modo, a inspiração que o prefi xo “mi- cro” sugeria acabou ainda por reforçar um quadro — que também emerge dos desdobramentos do debate historiográfi co dos anos 1980 e 90 — que parecia justifi car uma atenção às singularidades e aos estudos de caso, bem como uma história “a partir de baixo”. A micro-história, nesse contexto, acabou também por reforçar algumas das transformações mais signifi cativas dos estudos históri- cos no Brasil dos últimos anos. Se nos mantivermos apenas nos re- sultados coletivos mais evidentes, cabe citar os estudos sobre a histó- ria da escravidão e da pós-emancipação, os estudos de história social do trabalho, bem como aqueles sobre o funcionamento do antigo regime na América portuguesa, e todo o conjunto de questões que tratam da renovação da história social e econômica. Novas publicações, como o livro organizadopor Jacques Revel em 1996 e publicado quase em seguida no Brasil — Jogos de escalas; a AF_livro final ok.indd Sec7:150AF_livro final ok.indd Sec7:150 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 PE N SA N D O AS T R AN SF O R M AÇ Õ ES 151experiência da microanálise — reunindo contribuições de historiadores e antropólogos italianos e franceses sobre a micro-história em sua versão “social”, certamente ajudaram a tornar o debate sobre a mi- cro-história mais rico e mais fundamentado. A publicação do livro de Giovanni Levi — A herança imaterial — em 2000 tanto atesta a atenção aos desdobramentos da micro-histó- ria para além da referência da obra de Ginzburg, como acabou por acrescentar um elemento novo no quadro da recepção do debate no Brasil, fazendo circular um texto que, entre outras qualidades, tem o mérito de apresentar um exemplo de microanálise histórica cujos procedimentos e estratégias de investigação são perfeitamente capa- zes de instruir trabalhos do gênero que abordem temas de pesquisa mais próximos das possibilidades oferecidas pelos arquivos brasilei- ros. Por outro lado, manifesta-se o risco — já presente, pontual- mente, em alguns dos debates recentes — de tomar a “microanálise” como um procedimento com fi m em si mesmo, deixando de lado o aspecto essencial da proposta, isto é, ser uma estratégia de pesquisa colocada a serviço da investigação de um problema historiográfi co de amplo fôlego. O que se atesta, portanto, é que o interesse pela micro-história não deixa de crescer entre os pesquisadores brasileiros. Apesar de esse interesse ainda ser mediado por traduções seletivas, que tendem a ignorar os desenvolvimentos (mesmo contraditórios) do debate sobre a micro-história, tanto na Itália quanto na França, ele também testemunha aquela característica da micro-história enfatizada por Giovanni Levi,24 que é sua capacidade de formular perguntas que puderam ser generalizadas a ponto de servir de inspiração e contra- ponto aos avanços recentes da história social no Brasil. As transformações recentes no horizonte das discussões historio- gráfi cas apontam para uma reconfi guração de temas e questões que terão certamente impacto sobre o modo pelo qual a micro-história 24 Por exemplo, na entrevista dada a Diego Sempol na Costa Rica. Ver Levi (1998:16-17). AF_livro final ok.indd Sec7:151AF_livro final ok.indd Sec7:151 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 152 vem sendo lida no Brasil. O confronto entre esse quadro, o próprio desenvolvimento das pesquisas inspiradas na micro-história realiza- das por historiadores brasileiros e as contribuições que o debate so- bre a micro-história continua a fazer sugerem que, na verdade, o debate está apenas começando. R E F E R Ê NC I A S BOUREAU, Alain. La papessa Giovanna. Turim: Einaudi, 1991. (Microsto- rie, 20.) CAVALLO, Sandra. Charity and power in early modern Italy. Benefactors and their motives in Turin, 1541-1789. Cambridge, Mass.: Cambridge University Press, 1995. CERUTTI, Simona. Mestieri e privilegi. Nascita delle corporazioni a Torino, secoli XVII-XVII. Turim: Einaudi, 1992. ———. Micro-history: social relations versus cultural models? In: CAS- TRÉN, Anna-Maija; LONKILA, Markku; PELTONEN, Matti (Eds.). Between sociology and history. 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AF_livro final ok.indd Sec7:154AF_livro final ok.indd Sec7:154 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 P A R T E I I I Exercícios de micro-história AF_livro final ok.indd Sec7:155AF_livro final ok.indd Sec7:155 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 AF_livro final ok.indd Sec7:156AF_livro final ok.indd Sec7:156 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 7 O capitão João Pereira Lemos e a parda Maria Sampaio: notas sobre hierarquias rurais costumeiras no Rio de Janeiro do século XVIII* João Fragoso Entre 1601 e 1800 o tráfi co atlântico de escravos trouxe para as Amé- ricas cerca de 5.609.869 escravos, dos quais aproximadamente 39% para o Brasil, tornando-o o principal porto de destino daquele negócio.1 Assim, ao longo de dois séculos, o sistema atlântico luso, com suas prá- ticas de resgate nas costas africanas, arrematações de contratos e econo- mia de mercês, expedientes políticos da monarquia corporativa nada regulados pelo mercado,2 conseguiu superar as importações tumbeiras custeadas pelo capital mercantil-bancário de Londres e Amsterdã. 1 Ver Eltis, Richardson, Berhens e Florentino, em <http://wilson.library.emory.edu>. 2 Sistema pelo qual a coroa concedia o privilégio do comércio de cativos em de- terminadas áreas da costa africana. Por exemplo, no século XVI, os moradores de Cabo Verde tinham tal exclusividade na área da Senegambia. Ver Teixeira (2005, t.II); e Serrão e Marques (2005:85-89). Através da economia do dom, os serviços prestados à monarquia, no Atlântico e em outras paragens, eram pagos com a con- cessão de hábitos militares, tenças, monopólios etc. Sobre o tema, ver Xavier e Hespanha (1993); e Fragoso (2000). ∗ Pesquisa fi nanciada pelo CNPq. AF_livro final ok.indd Sec8:157AF_livro final ok.indd Sec8:157 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 158 No Caribe inglês, aqueles cativos, conforme Blackburn (2003) e Hig- man (2000), foram usados nas chamadas plantations integradas — protó- tipos do sistema manufatureiro europeu —, dirigidas pelo capital absen- teísta situado em Londres. Na América lusa, os engenhos de açúcar, ao contrário das imensas gangs de escravos de Barbados, se desdobravam nos chamados partidos de canas, explorados em geral pelo dono do engenho e por lavradores com seus parentes e escravos. Em 1795, o Engenho de São João Batista de Sapopema, um dos 13 situados em Irajá, freguesia rural da então principal praça comercial do Atlântico Sul português, con- tava com 113 cativos responsáveis por cerca de um quarto do valor das colheitas daquele ano. Os demais três quartos do açúcar, como se vê na tabela 1, foram colhidos principalmente dos 14 partidos de cana de lavra- dores livres, alguns dos quais consanguíneos e compadres dos senhores do engenho, como Miguel Cardoso Castelo-Branco, primo e cunhado do capitão João Pereira Lemos, senhor de Sapopema, e o tenente Antonio Gomes de Abreu, compadre da mesma família senhorial. Um fenômeno que transformava essa centenária empresa num empreendimento em que as relações econômicas se confundiam com as parentais. Entretanto, a tabela 1 também nos informa que, além daqueles lavradores, existiam os chamados partidos dos pretos, ou seja, lavouras de cana nas mãos de 11 escravos da fazenda, como o cabra José Batista. A família de Batista, a exemplo de outros integrantes dessa elite das senzalas, mantinha também relações de parentesco ritual com a família senhorial. TA BE L A 1 Distribuição dos partidos de cana entre diferentes estratos sociais: Engenho São João de Sapopema Partidos de cana No de lavradores Valor % Do engenho 115$200 24,3 Dos lavradores livres 14 332$500 70,2 Dos libertos 2 5$200 1,1 Dos pretos da fazenda 11 20$500 4,3 Total 27 473$400 99,9 Fonte: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus, 1795, no 9.225, cx. 872. AF_livro final ok.indd Sec8:158AF_livro final ok.indd Sec8:158 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 159Não sei até que ponto as relações sociais vividas em Sapopema — acesso de escravos a partidos de cana, presença de uma elite nas sen- zalas, combinação de parentesco e economia — foram comuns a ou- tros engenhos da região e da América lusa. Mas com certeza Sapopema se distanciava daquilo que conheço sobre a plantation inte- grada de Barbados. Assim como, também com certeza, Sapopema não era uma colônia de marcianos encravada na economia exportadora e escravista do Rio de Janeiro. Tenho conhecimento de outras fazendas do século XVII e XVIII onde os escravos tinham acesso a plantações de cana, e pardos livres tinham a posse de escravos.3 Sapopema, po- rém, é a que apresenta maiores detalhes. Seja como for, as normas sociais desse engenho foram produzidas conforme os parâmetros da sociedade considerada. Para tanto basta lembrar que seu dono era ca- pitão de ordenanças, portanto tinha legitimidade para exercer o man- do local. Da mesma forma, sua família, de longa data senhorial, estava envolvida em uma extensa rede parental da nobreza da terra da capi- tania. Sapopema vivia ainda a ideia de autogoverno das casas, concei- to presente na concepção da monarquia corporativa lusa. Nas páginas a seguir procuro, através de fragmentos das trajetó- rias de João Pereira Lemos, de José Batista e de outros sujeitos da mesma capitania, contribuir para o entendimento da lógica de fun- cionamento das empresas açucareiras do sistema atlântico luso, aquelas que surgiram de mecanismos identifi cados com a economia das mercês, a ideia de autogoverno etc. Para tanto, procuro combi- nar a micro-história italiana (trajetórias de vidas como ponto de encontro de diferentes relações sociais e, portanto, de outras vidas) com a longa duração, esta entendida como uma temporalidade que ultrapassa as existências de João Pereira e de seu cabra. Com isso, a ideia é recuperar um antigo e bom chavão da história: capturar mu- 3 Ver escritura de entrega que faz Vicente João da Cruz ao capitão-mor Agostinho de Carvalho, da fazenda do visconde Asseca, 1692, 1o Livro de Notas do Tabelião de Campos. Agradeço a Sheila de Castro Faria a consulta dessa fonte. Sobre o início do século XIX, ver inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher, Maria Januária Galvez Palença, 1818, cx. 3622, DEP 511. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. AF_livro final ok.indd Sec8:159AF_livro final ok.indd Sec8:159 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 160 danças e permanências na vida social ao longo do tempo. Na minha época de estudante, a professora Yedda Linhares gostava sempre de repetir uma ideia de Pierre Vilar, algo como “ao historiador cabe o estudo das mudanças principalmente das estruturas sociais, daí a ne- cessidade de investigações sobre a longa duração”. Essa ideia talvez esteja em desuso, mas acredito que cabe ao profi ssional de história o estudo do tempo social e, nessa ótica, das mudanças e permanências. No texto a seguir, minha intenção, como afi rmei, éestudar até que ponto a chamada plantation açucareira brasileira do Setecentos seguia a ideia de autogoverno das casas, um conceito caro à concepção cor- porativa. Com esse intuito, procuro compreender os comportamen- tos dos moradores — senhores, escravos e pardos — das plantations no sistema normativo considerado.4 Escolhi duas freguesias — Ira- já e Jacarepaguá — e, através dos registros paroquiais, procurei fazer uma primeira aproximação das estratégias de vida de mais de 2 mil famílias (casais e solitários) de diferentes status sociais, distribuídas entre 1700 e 1800. Capitão João Pereira Lemos — descendente postiço de conquistadores e senhor de São João de Sapopema — e uma hierarquia social costumeira no Antigo Regime nos trópicos Na época em que João Pereira Lemos nasceu, no início do século XVIII, a capitania do Rio de Janeiro estava prestes a se tornar a prin- cipal praça comercial do Atlântico Sul escravista, dominada por nego- 4 A principal documentação utilizada foi a coleção dos registros paroquiais de batis- mos do Rio de Janeiro, especialmente os das freguesias de Irajá e Jacarepaguá. Trata- se de uma documentação seriada, o que permite acompanhar as decisões de escravos, senhores e pardos, entre outros, quanto às suas alianças na vida (casamentos e com- padrios); reconstruir redes parentais, o vocabulário social usado pelos fregueses, per- guntas atinentes a uma antropologia da aldeia. Através dos registros também é pos- sível ter ideia da dimensão dos plantéis, da taxa de fecundidade e das decisões dos casais quanto a tais taxas etc. Essa fonte serviu como espinha dorsal, e a ela foram incorporadas outras, como inventários post mortem, genealogias etc. Tudo faz parte de um pesquisa minha em andamento — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada pelo CNPq. AF_livro final ok.indd Sec8:160AF_livro final ok.indd Sec8:160 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 161ciantes de grosso trato e seus negócios. Porém, a cidade ainda guarda- va traços da velha sociedade agrária seiscentista. Em outras palavras, no primeiro quartel do século XVIII, prevalecia no recôncavo e cer- canias uma economia escravista açucareira, e os postos honrosos eram ocupados por senhores saídos de uma complexa rede de parentesco autodenominada nobreza principal da terra. Isso porque se viam como descendentes de conquistadores que, no século XVI, tinham vencido os invasores franceses na região e, depois, construído a sociedade local conforme os preceitos da monarquia e do cristianismo.5 João Pereira Lemos, no registro de batismo de seus fi lhos, aparece como exposto na casa do padre Luis Pereira Lemos, senhor de Sapo- pema. Porém, a condição de exposto não o impediu de se tornar dono da fábrica. Desse modo, tal engenho escravista passara pelo me- nos por duas gerações sem ser fragmentado, fenômeno com todo um signifi cado particular para seus moradores, escravos ou não. Tal esta- bilidade permitiu aos escravos e pardos formarem famílias, escolhe- rem aliados e afi narem estratégias num mundo escravista marcado por incertezas. Essa estabilidade, por seu turno, provavelmente resultara de uma prática comum entre soldados profi ssionais (tropa paga e/ou integran- te de ordens militares) a serviço da monarquia lusa no Atlântico.6 O avô materno de Luis Pereira e bisavô postiço de nosso personagem, Francisco de Lemos de Faria, aportou no Rio de Janeiro no segundo quartel do século XVII. Natural de Fayal e descendente das famílias fi dalgas da casa real — a Abreu Lima, a Furtado de Mendonça e a Vieira Fialho —, chegara à América na esquadra aprestada por seu tio, o comendador Jorge Lemos de Bitencourt, com o intuito de povoar o Maranhão, após a conquista feita por Jerônimo de Albuquerque Ma- ranhão. Em razão dos serviços prestados no norte, Francisco Lemos recebeu as comendas da Ilha de Santa Maria, São Miguel de Cássia e do Termo dos Palhaes.7 Com tais insígnias passou ao Rio de Janeiro, 5 Ver Fragoso (2007), v. 1, p. 33-120. 6 Ver Olival (2001). 7 Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Seção de Obras Raras, Ms. 5, 3, 13-15. AF_livro final ok.indd Sec8:161AF_livro final ok.indd Sec8:161 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 162 onde se casou com d. Isabel Pereira de Carvalho, fi lha de Gaspar Pe- reira de Carvalho e de Margarida Gomes de Oliveira, senhores do Engenho de Pendotiba, região situada no recôncavo da Guanabara, porém do lado oposto ao de Irajá. Assim, a família Pereira Lemos, a exemplo de outras tradicionais da capitania vindas da Madeira e dos Açores, foi produto de algumas experiências do Atlântico luso nos séculos XVI e XVII, quais sejam: a descendência da clientela do duque de Viseu, que no século XV, em nome de seu amo e a serviço de sua majestade, ocupou o se- nhorio marítimo Ilha da Madeira, Açores e Cabo Verde; o conhecimento, através da experiência na Madeira, do funcio- namento das plantations de açúcar baseadas no trabalho escravo e em partidos de cana distribuídos entre lavradores livres; o uso de recursos provenientes de tais empresas no serviço ao rei nas campanhas no norte da África contra o Islã como forma de manter a grandeza de casas fi dalgas;8 a ideia de casa e, com ela, a de autogoverno — este entendido como espaço social no qual existia um chefe e, sob sua tutela, uma família extensa constituída por consanguíneos, parentes ri- tuais, clientes, criados e agregados; e a crescente difi culdade de formação de novas casas, em razão da escassez de terras, coroada com o sistema do morgadio. Em outras palavras, João Pereira, a princípio, resultava de um ethos da fi dalguia, que percebia no serviço ao rei, à custa de sua pró- pria fazenda, a forma de manter e acrescentar grandeza e honra às suas casas. Fenômeno que se traduzia, nos séculos considerados, na circulação desses fi dalgos pelo ultramar na defesa dos interesses da monarquia, fosse na luta contra o Islã ou na ocupação de áreas ame- açadas.9 Em troca desses serviços, tais fi dalgos recebiam a gratidão 8 Sousa, 2005, t. I; e Serrão e Marques, 2005:140-150. 9 Um bom exemplo disso são as folhas de serviço dos capitães de fortaleza ou da- queles que adquiriam ordens militares. Nesse ethos existia uma hierarquia das áreas preferidas para a prestação do serviço. Ver Cunha e Monteiro (2005:191-252). AF_livro final ok.indd Sec8:162AF_livro final ok.indd Sec8:162 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 163régia, além de mercês (comendas, terras, ofícios etc.), e a possibili- dade de formarem uma casa. Por isso a chegada às amplas terras americanas dos avós postiços de João, assim como de outros con- quistadores. Nosso personagem tinha por orientação valorativa itens como uma hierarquia estamental e a formação de uma casa, que provavel- mente contribuíram para o casamento de seus bisavós postiços. Francisco de Faria Lemos pertencia à fi dalguia; portanto, sua posi- ção social era reconhecida em qualquer canto do império, pois fora concedida pela monarquia, sendo, desse modo, algo cobiçado, em meados do século XVII, por boa parte dos moradores do Rio de Janeiro. Entre eles, provavelmente, o sogro Gaspar Pereira Lemos, cuja autoridade, apesar de possuir um engenho de açúcar, tinha os limites do poder local: a república. Em contrapartida, para Lemos Faria, vindo do distante Maranhão, aquele casamento signifi cava o ingresso em uma nova república e em sua respectiva estratifi cação local, além da chance de criar sua própria casa, algoque talvez não mais fosse possível em Faial, com o seu sistema de morgadio. No século XVII, como no seguinte, pode-se encontrar consór- cios maritais em que fi dalgos da casa real ou portadores de hábitos militares casam-se com fi lhas de donos de engenho e, com isso, adquirem a possibilidade de construir suas próprias casas e galgar uma posição cimeira na hierarquia social. Talvez este tenha sido o caso do contrato entre o fi dalgo da casa real Egaz Muniz Telo, da Madeira, e os Pimenta Carvalho em 1667; dos Andrade Soutomaior com Castro Morais (o casamento com o fi lho do mestre de campo Gregório de Castro Morais) e com Francisco Camelo Pinto de Mi- randa; de Gregório Nazianzeno da Fonseca com Bartolomeu da Si- queira Cordovil, familiar do Santo Ofício e secretário da capitania; de José Barreto de Faria e Sebastião Martins Coutinho com os fi lhos de Egas Moniz da Silva, fi dalgo da casa real.10 10 Cf. minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada pelo CNPq. Ver também Rheingantz, 1965, v. 1, p. 92, 165 e 217. AF_livro final ok.indd Sec8:163AF_livro final ok.indd Sec8:163 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 164 Parece que essa sociedade americana, baseada no trabalho escravo e em plantations, estimava tais consórcios e os valores por eles repre- sentados — leia-se Antigo Regime. Valores que, portanto, ultrapas- savam as fronteiras da baía da Guanabara.11 Desse modo, a hierarquia da qual saíra João Pereira Lemos, quando da fundação da cidade no Quinhentos, resultara dos serviços presta- dos à coroa e à república, e suas orientações valorativas tinham um quê de aristocráticas. Contudo, a elite senhorial que se formara na América tinha as suas diferenças quanto às da Madeira e do reino. Nem todos os fi lhos de fi dalgos da casa real ou da nobreza principal da terra serviram ao rei em longínquas paragens, como fi zeram os da Madeira. Assim como, na América, não prevaleceu entre os melhores da terra o sistema de centralidade da autoridade familiar na forma do morgadio. Para tanto é exemplar o caso dos Correa Vasqueanes, cujos bens foram partilhados entre os herdeiros e, isso, sem pôr em perigo o poder da família ou sua unidade política. Na verdade, houve a multi- plicação de casas. Nesse ponto, temos no sistema de transmissão uma das diferenças em relação às práticas aristocráticas do reino e das ilhas. Na América, o morgadio não era imprescindível para manter a gran- deza das famílias e, com o conjunto delas, a da monarquia. Porém, prevalecia a ideia de casa. Na verdade, na América, as casas puderam proliferar sem porem em risco a monarquia ou a elite local. Por seu turno, ao que parece, na América prevaleceu uma hierar- quia cujas posições cimeiras foram ocupadas por famílias de antiga e conhecida nobreza, vindas da Conquista, e por fi lhos de fi dalgos da 11 Um exemplo emblemático e talvez limite de tal ethos aristocrático é dado pela trajetória do capitão Francisco de Lemos Peixoto, natural do Rio de Janeiro, neto de Francisco Lemos de Azevedo, alcaide da cidade e senhor de engenho. Lemos Peixoto serviu em Massagano e Luanda, retornando depois ao Rio de Janeiro, onde recebeu em 1653 a ordem de Aviz. Ou ainda o caso de Salvador Correa Vasqueanes, fi dalgo da casa real, fi lho de Duarte Correa Vasqueanes (governador do Rio de Ja- neiro na década de 1640 e dono de engenhos de açúcar). Salvador Correa lutou contra os holandeses em Recife e serviu no Castelo de São Jorge de Mina, sendo por essas atividades agraciado com uma tença por ano retirada do almoxarifado da ca- pitania do Rio de Janeiro, vindo depois a se fi xar na Bahia. Arquivo do Instituto Histórico Geográfi co Brasileiro (IHGB), Inventário dos livros das portarias do Reino, v. 1, p. 122, e v. 2, p. 482 (ARM. 34-8), p. 122. AF_livro final ok.indd Sec8:164AF_livro final ok.indd Sec8:164 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 165casa real recém-chegados à América. O hábito da Ordem de Cristo por si só ou o foro de fi dalgo da casa real não garantia o mando na sociedade. O que não invalida o que escrevi anteriormente de alguns potentados plebeus procurarem maior honra junto ao reino mediante casamentos e genros fi dalgos. Nos trópicos foi construída outra hie- rarquia de mando. Em outras palavras, vários dos conquistadores do Rio de Janeiro eram velhos soldados, fi dalgos e/ou cavaleiros das ordens milita- res.12 Esses conquistadores fi zeram escolhas diferentes dos da Ma- deira e do reino. Eles e/ou seus descendentes deixaram de circular no império para defender o rei e o cristianismo. Com essa opção, abriram mão desse aspecto do ethos aristocrático e passaram a com- por uma elite local, com suas insígnias e normas. Mas alguns valores vindos do reino permaneceram, entre os quais: o de casa, sendo esta gerida por um capo, cuja autoridade, por exemplo, se traduzia na possibilidade de dar liberdade a escravos e de conceder acesso à terra; o de uma hierarquia estamental, na qual recursos eram subtraídos da sociedade e usufruídos por algumas poucas famílias. Por exem- plo, a terra ser adquirida em sesmaria por conquistadores e fi lhos e, depois, seu acesso, em grande medida, ocorrer conforme as normas de tal grupo — através de pactos nupciais, do sistema de transmissão de patrimônio do grupo, e de relações pessoais de dependência, no caso dos lavradores e descendentes de escravos. A ideia de hierarquia estamental estava presente nas regras que presidiam as relações pessoais na casa: escravos, forros, pardos e li- vres. Assim como nas classifi cações sociais rotineiras, que não guar- davam uma exata correspondência com as do reino, mas decorriam da conquista da região, tendo algumas de tais classifi cações, portan- to, mais de 100 anos em 1700. Através do estudo das freguesias ru- 12 Entre eles, lembro Antonio de Mariz (Ordem de Cristo), Crispim da Cunha, João Gomes da Silva, Afonso Guimarães, Pedro Gago da Camara etc. Ver Borrego (2008). AF_livro final ok.indd Sec8:165AF_livro final ok.indd Sec8:165 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 166 rais do Rio de Janeiro é possível recuperar aspectos de tal hierarquia nas categorias usadas pelos clérigos das freguesias para classifi car seus paroquianos. Eles recorriam, entre outros procedimentos, a patentes de ordenanças, a títulos de dona, a qualitativos jurídicos como forro, a qualitativos sociais como pardos ou ainda a expressões como “as- sistente de casa”. Em seguida, procuro combinar tal classifi cação so- cial com as informações disponíveis sobre a trajetória de vida e a genealogia do sujeito considerado. Assim, grosso modo, nos séculos XVII e XVIII, a população recenseada pelos curas era distribuída em quatro categorias recorrentes: “ofi ciais de milícia”13 para uns poucos homens e “dona” para algu- mas mulheres. As patentes dos auxiliares não designam, no cotidia- no municipal, postos milicianos em sentido restrito. Pelo menos na América, tais postos foram apropriados pela república para sua or- ganização política, ou melhor, como maneira de viabilizar a estra- tifi cação social local conforme as negociações com a coroa e entre os locais.14 Até princípios do século XVIII, em geral tais categorias foram empregadas para designar os descendentes dos conquistado- res da região e responsáveis pela montagem das instituições do An- tigo Regime na região (municipais e régias). Em função ainda da conquista, detinham o controle sobre as terras (via sesmarias)e formavam grandes parentelas com diversas facções sedimentadas com o tempo.15 A razão de alguns ostentarem títulos e outros não é mais bem explicada pela história da família do portador do título. A ostentação da patente de ofi cial ordenança ou dos auxiliares evo- 13 Para a caracterização das patentes de ordenanças na organização municipal portu- guesa e da monarquia, ver Costa (1816), na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. 14 A partir de fi nais do século XVII, os postos de ofi ciais de ordenança tinham de ser confi rmados pelos governadores. Nesse processo, a câmara indicava ou podia negociar os nomes para desempenhar esse papel. Cf. minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada pelo CNPq. 15 Em diversos outros trabalhos procurei caracterizar esse grupo, que denominei nobreza principal da terra (Fragoso, 2007). Gostaria somente de lembrar que essas famílias absorviam estrangeiros conforme seus interesses. Desnecessário dizer que as patentes das ordenanças e auxiliares serviam para identifi car alguns dos homens das famílias da nobreza da terra. AF_livro final ok.indd Sec8:166AF_livro final ok.indd Sec8:166 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 167cava a legitimidade social conferida pela freguesia e, ao mesmo tempo, a universalidade da monarquia. Nunca é demais lembrar que a concessão de tal patente dependia da confi rmação do rei. Isso signifi cava que seu portador tinha uma autoridade e um prestígio que ultrapassam os limites de sua república e era assim reconhecido como tal em outras repúblicas ou municípios. O título de “dona” para as mulheres, apesar de corresponder a uma posição de mando em tal estratifi cação e, portanto, ser compatível com o de ofi cial das ordenanças, diferencia-se deste por um simples motivo: sua conces- são não era uma prerrogativa da monarquia, do governador ou dos conselhos palacianos situados em Lisboa, mas dos párocos locais, sendo concedido como uma deferência às freguesas, aos seus olhos e aos dos demais paroquianos, de melhor qualidade. Assim, as mo- ças portadoras de tal honra eram de fato as melhores da terra. Tal- vez esse seja um dos melhores vocábulos locais para se identifi car as famílias mandatárias da freguesia; “pardos, forros e libertos” — não consegui ainda precisar as dife- renças existentes entre tais categorias. Porém, elas designavam um passado de escravidão, valendo tal classifi cação para ambos os sexos. Mais adiante falarei mais sobre o grupo; “assistentes de casa” — pessoas de ambos os sexos que residiam sob o teto de um outro personagem, em geral um ofi cial da orde- nança ou uma dona. Muitos dos assistentes eram pardos. Por essa categoria nota-se a ideia de casa para designar pertencimento e proteção; “população sem cor” ou aqui apresentados genericamente como “livres”, muitos dos quais portugueses ou seus fi lhos. Consiste na maior parte da população registrada nos livros paroquiais de li- vres. Tais sujeitos aparecem sem qualifi cativo, ou seja, somente o nome e apelido. Acompanhando a trajetória de certos pardos e/ou forros pude verifi car que alguns, a certa altura, apareciam sem cor.16 Cabe ver se essa perda da cor correspondia a uma mudança 16 Para o século XIX, ver Mattos (1993). AF_livro final ok.indd Sec8:167AF_livro final ok.indd Sec8:167 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 168 no quadro de alianças (casamentos e compadrio) do sujeito con- siderado. Os sem cor também incluíam ex-forros e ex-pardos. Assim, essa classifi cação social sublinhada pelo clérigo até meados do século XVIII não tinha por base a riqueza material, como o nú- mero de escravos. Ainda não dei tratamento mais elaborado a essa classifi cação; falta, por exemplo, perceber as mudanças no quadro de alianças e de inserção social, o signifi cado da passagem dos pardos para os sem cor. Também ainda não me detive em um outro grupo: os expostos. De qualquer forma, pode-se agregar tais categorias em três grupos: nobreza da terra (ofi ciais e donas), livres (os sem cor) e pardos (forros, pardos, libertos etc). Alguns traços da dinâmica das freguesias rurais do Rio de Janeiro no século XVIII A freguesia de Jacarepaguá, próxima da de Irajá, onde João Pereira Lemos nasceu, dispõe de mais documentos preservados e pode nos auxiliar na apresentação do Antigo Regime nos trópicos. Segundo os livros das paróquias de Jacarepaguá da década de 1700 foram batizadas 558 crianças, 395 escravas e 163 ditas livres, sendo oito pardas. Sabe-se de imediato que se está diante de uma sociedade estamental, onde prevalece numericamente o estrato dos escravos. Entretanto, caso se queira fugir de esquemas explicativos fáceis, o entendimento dessa sociedade estamental não se esgota com o termo “escravidão”, compreendido como palavra mágica, sinônimo de uma disciplina social capaz de manter vastos continentes humanos por su- cessivas gerações como estrangeiros; leia-se pessoas sem nexos sociais (culturais, parentais ou de outro tipo de aliança) e, portanto, descere- bradas. Caso a intenção seja encarar os cativos como agentes sociais é necessário lembrar que Jacarepaguá consistia, a princípio, numa ver- dadeira torre de babel. Suas lavouras eram trabalhadas por pessoas vindas de sociedades africanas de diferentes complexidades — de rei- nos a aldeias baseadas em linhagens matrilineares — e distintas lín- AF_livro final ok.indd Sec8:168AF_livro final ok.indd Sec8:168 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 169guas. Na década de 1700-1709 havia na freguesia de Jacarepaguá 290 mães escravas, casadas ou não, e destas, pelo menos 155, ou 81,6%, vinham de distintas sociedades africanas.17 Como veremos mais adiante, tais pessoas incorporaram a ideia de escravidão e de hierarquia social como normas suas. Nesse processo, com certeza, alguns dos traços de suas regiões de origem devem ter ajudado. Basta lembrar que, no golfo da Guiné ou no Congo-Ango- la, eram comuns guerras para a produção de cativos e estas, por sua vez, fundavam Estados e estratifi cações sociais.18 Porém, além disso, para a incorporação pelos ditos africanos das normas hierárquicas do Antigo Regime era necessário que eles se sentissem agentes sociais, isto é, portadores de recursos (com certeza, diferentes e em menor quantidade que os dos proprietários, porém recursos), e com estes jogassem com seus donos. Parece-me que um dos segredos para se entender tal jogo é per- ceber que ele se inseria nos próprios preceitos da concepção corpo- rativa tomista do Antigo Regime. Em outras palavras, em tal con- cepção existia a ideia de estamento, e também a de casas. E estas funcionavam conforme relações de dependência e pessoais. Os se- nhores tinham a capacidade de conceder ou a alforria ou o acesso à terra. A possibilidade da alforria resultava do autogoverno da casa, e o guardião desse paradigma era a própria monarquia. Na casa, o senhor podia também dar a um ex-escravo o uso de terras. Por sua vez, a possibilidade de o gentio da Guiné, ou seu fi lho, adquirir tais promoções implicava seguir certas regras, muitas das quais, como veremos, apresentadas nas alianças do compadrio cató- lico. Nesse momento, começamos a entrar nos códigos que compu- nham o que chamo de autoridade moral dos conquistadores e sua capacidade de brokers entre outros agentes sociais, como os curas locais, de imprimir normas sociais compartilhadas pelas populações provenientes de outras partes do impérioportuguês. 17 Registros paroquiais de batismos de escravos de Jacarepaguá, 1700-1709, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. 18 Ver Thornton (2004) Lovejoy (2002); e Silva (2002). AF_livro final ok.indd Sec8:169AF_livro final ok.indd Sec8:169 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 170 A possibilidade de Jacarepaguá ter virado uma torre de babel, em vez de uma sociedade, é ainda confi rmada quando nos lembramos de que ela era também povoada por açorianos, minhotos e outros reinóis. Estes partilhavam da mesma língua, da mesma monarquia corporativa e católica, mas vinham de aldeias distantes, com práticas de organização familiar e de transmissão de patrimônio distantes. Além disso, eram estrangeiros nesse lado do Atlântico. Assim, apesar de as freguesias de Jacarepaguá e de Irajá fi carem nos confi ns do Rio de Janeiro, elas continham alguns dos agentes do Atlântico luso: açorianos, reinóis, madeirenses, africanos de diferentes procedên- cias. O que, mais uma vez, sublinha o caráter complexo da socieda- de considerada e destaca o papel dos descendentes dos conquistado- res como elite local, ou ainda como fi adores ou brokers de uma sociedade cujas bases foram lançadas no século XVI. A natureza hierárquica da freguesia fi ca mais nítida quando, além das diferenças de qualidade produzidas pela distribuição da proprie- dade escrava, percebe-se aquelas existentes entre os 142 donos de cativos. Dos 115 proprietários homens, somente nove eram ofi ciais de tropas auxiliares, todos pertencendo a famílias com mais de 100 anos na terra. Portanto, a monarquia escolhia para mandatários na terra os de antiga e conhecida nobreza. Pode-se usar ainda um outro critério, não mais o da propriedade cativa ou da monarquia, mas a percepção daquelas gentes, ou seja, que famílias os fregueses reco- nheciam como de melhor qualidade. Neste último caso, podemos nos valer do depoimento do pároco local (entendo que ele escrevia numa linguagem aceita por todos). A quem ele concedia o título de dona? Um título reservado a poucas mulheres, das mais seletas famí- lias da freguesia. Nesse particular, tal título nada tinha a ver com as leis do reino, como era o caso das ordenanças, mas com as práticas costumeiras, sendo portanto mais útil para os nossos propósitos do que as patentes das ordenanças. Através das donas pode-se identifi car as famílias que ocupavam as posições cimeiras na estratifi cação social surgida na localidade e refe- rendada pela ideia de casa e autogoverno dos conselhos. Das 27 pro- AF_livro final ok.indd Sec8:170AF_livro final ok.indd Sec8:170 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 171prietárias de escravos da década de 1700, somente seis tinham tal respeitabilidade social. Todas, mais uma vez, descendentes de famílias que comandaram a conquista e a formação da sociedade local no Quinhentos. Esse era o caso da senhora dona Ignes, que quase sempre aparece sem apelido no registro paroquial. Porém, essa Ignes era dife- rente das demais homônimas das redondezas. Ela pertencia aos Pon- tes, uma família vinda das ilhas do Atlântico no século XVI e cujos homens serviram sempre nos cargos honrosos da república e, alguns, nos ofícios régios. Algo semelhante acontecia com outra dona, dona Brites, senhora de escravos em Irajá entre 1704 e 1707, numa época anterior ao nascimento de João Pereira Lemos. Na ocasião, para o pároco João Barcelos Machado e demais fregueses, o qualitativo dona bastava para identifi car a referida Brites. Isso talvez por ela pertencer aos Azeredo Coutinho, expedicionários comandados por Estácio de Sá nas lutas contra os franceses cerca de 140 anos atrás. Dona Brites pertencia a uma velha família com “autoridade moral”19 de longa data. Aliás, o próprio cura tinha descendência semelhante. Provavel- mente, o clérigo passava a seu rebanho não só a moral católica, mas também a do seu segmento, o dos conquistadores. Por essa época Jacarepaguá devia contar com cerca de quatro ou cinco engenhos de açúcar oriundos das velhas sesmarias concedidas aos conquistadores da terra, como os Sampaio, ou de vendas feitas pela família Correia de Sá e Benevides a seus aliados,20 todas no sé- culo XVI. Aliás, os Sampaio, através de um sistema de transmissão de patrimônio que será mais adiante examinado, mantinham em sua casa as terras do Rio Grande e uma fábrica de açúcar, fato que lembra a estabilidade de outro engenho — o São João Batista de Sapopema. 19 A expressão designa a capacidade de certas famílias de infl uenciarem na organi- zação social da população. Por exemplo, impelindo as velhas famílias ao casamento e ao compadrio católico, mediante a doação de dotes em testamento, a construção e manutenção de capelas nas fazendas. Essas práticas estavam presentes nas famílias conquistadoras da região. Além destas, foi também introduzido o costume da alfor- ria, da formação da clientela via compadrio e a adoção do apelido da casa pelos não consanguíneos. 20 Cf. Rudge (1983); e sobre o funcionamento do mercado, ver Fragoso (2009). AF_livro final ok.indd Sec8:171AF_livro final ok.indd Sec8:171 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 172 Mas voltando aos dados agregados de Jacarepaguá na década de 1700. Dos 395 registros de escravos feitos na década, 163 (41%) foram de crias cativas de plantéis de conquistadores, sendo o campeão, com 46 crias, o capitão Ignácio da Silveira Vilasboas. Assim, nessa época, as famílias vindas do Quinhentos ainda dominavam a paisagem rural, e algumas, a propriedade escrava. Porém, diversos conquistadores não mais sobressaíam como grandes escravistas. A já mencionada dona Ignes registrou apenas seis crias, e o capitão-mor Luis Vieira Medanha Soutomaior, de tradicional família da capitania, cinco cativos. Na mesma ocasião, comerciantes como Sebastião da Fonseca Coutinho apareciam com 12 batismos. Assim, parece ser um equívoco associar a patente de milícia ou a costumeira dona à propriedade escrava. Passando à população livre, temos 163 registros de crianças, equiva- lentes a 82 casais e/ou mães solteiras, e sete expostos. Daqueles 163 batizados, 25 o foram por 12 famílias descendentes de conquistadores. Em 10 famílias, pai e mãe possuíam a mesma origem quinhentista e, em duas, desconheço a procedência paterna, mas a materna era qui- nhentista. Portanto, nessa década, como em outras passadas, prevalecia a estratégia de endogamia nas escolhas matrimoniais entre as famílias de antiga nobreza. Com isso, o grupo garantia o compartilhamento de uma mesma identidade marcada pela conquista, pelo domínio dos car- gos honrosos da república, pelo controle da terra e pela direção políti- ca dos paroquianos. Essa sociedade ciosa de suas diferenças era também uma conquista e, portanto, estava aberta à imigração reinol. E preva- leciam nos registros de batismos, entre aqueles 163, os lavradores sem cor, que somavam 58 famílias com 120 crianças. Quanto às famílias designadas como pardas, eram oito (conjugais ou solitárias), registran- do um mesmo número de rebentos. Três mães solteiras batizaram também três fi lhos. Sete crianças foram expostas. Em termos de relações de compadrio, temos 108 padrinhos: 35 conquistadores (32,4%) e 73 sem cor (67,6%). Desse modo, como era de se esperar, havia um predomínio esmagador dos livres como pais espirituais. Em primeiro lugar, temos um predomínio demográfi co dos sem cor sobre os conquistadores na freguesia; em segundo, nessa AF_livrofinal ok.indd Sec8:172AF_livro final ok.indd Sec8:172 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 173sociedade católica, prevalecia a prática de os pais convidarem os pró- prios familiares (irmãos e avós) para batizarem suas crianças. Porém, o gráfi co a seguir mostra que essa prática era acompanha- da por outra. Vê-se que os padrinhos conquistadores, apesar de mi- noritários, protegiam, em termos relativos, um maior número de famílias que os padrinhos sem cor. Eram 35 padrinhos quinhentistas e 38 famílias (1,1) e 73 padrinhos sem cor e 65 famílias (0,9). Em diversas situações os conquistadores eram parentes rituais em mais de uma família. Só o jovem capitão João Aires Aguirre foi convida- do como padrinho por oito famílias diferentes, das quais sete de la- vradores sem origens quinhentistas. O raio de ação dos conquista- dores seria maior se considerássemos a ação de seus clientes como padrinhos de crianças livres. Por exemplo, os lavradores ligados à casa de um primo do capitão Aguirre, o também capitão Ignácio da Silveira Vilasboas, mantinham laços de compadrio com outras qua- tro famílias livres.21 Enfi m, através dos batizados, temos indícios da formação de clientelas comandadas por quinhentistas e, portanto, do seu poder moral sobre a região. No de famílias batizadas por padrinhos livres e conquistadores, em Jacarepaguá, entre 1700-1709 e 1750-1759 Como afi rmei, na época do nascimento do capitão João Pereira Lemos, o Rio de Janeiro estava se convertendo na maior praça do Atlântico Sul, e em suas freguesias rurais os conquistadores já não eram mais os maiores donos de escravarias. Porém, tais modifi cações tinham os seus limites. 21 Cf. Fragoso, 2009. 1750-9 1700-9 # famílias batizadas por padrinhos livres # famílias batizadas por conquistadores 0,6 0,9 1,1 1,9 AF_livro final ok.indd Sec8:173AF_livro final ok.indd Sec8:173 4/12/2009 15:03:194/12/2009 15:03:19 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 174 Entre a primeira década do século XVIII e a de 1750, o número de batismos por livres, em Jacarepaguá, passou de 163 para 352 registros (ou 187 casais e/ou mães solteiras e 18 expostos). Esse fenômeno re- trata principalmente a grande imigração de ilhéus e reinóis no Rio de Janeiro da época. Já o de escravos decresce de 395 para 375 na fregue- sia. Porém, no geral, entre a população de Jacarepaguá, o número de batismos aumentou de 558 para 727, ou seja, 30%. É de supor que por essa época o fantasma da torre de babel ainda rondasse a freguesia. A tabela 2 nos dá uma ideia de tal imigração em Irajá, insinuando mais uma vez a capacidade de organização dos conquistadores diante dessas diferentes multidões. Pode-se identifi car a procedência de 74 avôs paternos, dos quais uma metade era constituída de brasileiros e a outra de ilhéus e reinóis, num universo de avôs paternos de 89. Para avós paternas tivemos 83 mulheres, 48 (58,5%) nativas e as demais provenientes do reino e das ilhas, sendo o total geral de 90. Assim, considerando apenas a procedência dos avós paternos, tais números mostram que cerca da metade da população sem cor era recém-insta- lada na freguesia, fenômeno que nos informa sobre a diversidade po- pulacional na qual as práticas costumeiras (tipos de compadrio, alfor- rias, casa, acesso a terra, hierarquia social simbolizada pelas donas etc.), criadas pelos conquistadores e primeiras gerações de escravos e pardos na região, tiveram que se defrontar e que organizar. TA BE L A 2 Naturalidade dos avôs e avós paternos em Irajá (1750-1759) Ilhéus Reinóis Subtotal Brasileiros Totais Avôs paternos 6 31 37 (50%) 37 74 Avós paternas 6 29 35 (43%) 48 83 Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá, 1750-1759, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Conforme a classifi cação social utilizada para 1700, e tendo como cri- tério a condição do esposo, as 142 famílias conjugais livres de 1750 assim AF_livro final ok.indd Sec8:174AF_livro final ok.indd Sec8:174 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 175se distribuíam: 20 casais de conquistadores, ou 14%, com 54 crianças; 97 casais sem cor, ou 67%, e 166 batismos; 25 casais pardos, ou 17,6%, com 46 rebentos. As famílias solitárias reuniam 41 mães e 45 fi lhos. TA BE L A 3 Homens e mulheres e suas opções de união marital, segundo a condição social Jacarepaguá, 1750-1759 Personagens e opções Casais Registros Homem conquistador x mulher conquistadora 16 44 Homem conquistador x mulher livre 2 2 Homem conquistador x mulher exposta 1 5 Homem livre x mulher conquistadora 1 3 Total de conquistadores 20 54 Homem livre x mulher livre 83 143 Homem livre x mulher exposta 4 8 Homem livre x mulher parda 10 15 Total de sem cor ou livre 97 166 Homem pardo x mulher parda 19 36 Homem pardo x mulher livre 6 10 Total de pardos 25 46 Homem exposto x mulher exposta 2 2 Homem exposto x mulher parda 1 1 Homem exposto x mulher livre 1 2 Total de expostos 4 5 Mães solitárias pardas 29 34 Mães solitárias expostas 1 1 Mães solteiras sem cor 11 12 Expostos - 18 Mães solteiras e expostos 41 65 Total geral 187 336 Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1750-1759, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Nota: Tipo de casal classifi cado conforme o tipo de pai. Neste cenário, o grupo por mim classifi cado como “nobreza prin- cipal da terra” permaneceu o mais resistente a mudanças. Dos 20 ca- sais considerados, apenas quatro mulheres não tinham a mesma ori- gem do marido e somente uma mulher de descendência quinhentista casou-se com um sem cor, e mesmo assim este foi designado de dou- tor. Esta última situação reafi rma uma velha prática seiscentista do AF_livro final ok.indd Sec8:175AF_livro final ok.indd Sec8:175 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 176 grupo, qual seja: ser refratário a estrangeiros, mas capturar os porta- dores de foro de fi dalgos, alguns grandes negociantes e letrados. Entre 1700 e 1759, o grupo dos sem cor apresentou o maior cres- cimento absoluto. No último período, ele constava com 97 casais e 166 batizados. Mais de dois terços da população era formada por essas pessoas, às quais o cura não atribuiu qualquer qualidade particular. A tabela 3 demonstra que o grupo abrigava diversas possibilidades de alianças étnicas e sociais, na falta de melhores expressões. Dos 97 casais, em 10 (mais de 10% do total) a esposa era parda ou forra e em quatro, exposta. Assim, apesar de 83 dos casais sem cor, ou mais de 85%, aparecerem com a mesma procedência, segundo os costumes locais expressados por nosso padre, o grupo permitia a incorporação de pessoas egressas da escravidão. Além do crescimento populacional de Jacarepaguá na primeira metade do século XVIII, a estratifi cação social da região e da capita- nia tornou-se mais complexa, ou pelo menos foi assim registrada pelo pároco. Na tabela 3, nota-se que as famílias em que um dos pais era pardo, por exemplo, passaram de oito (10% das 82 famílias do início do século) para 55 famílias conjugais ou solitárias, ou 29% do total (187) da década de 1750. Explicando melhor: temos 19 casos em que ambos os esposos eram pardos, 10 em que as mães pardas se juntam com pais sem cor, um exposto, uma parda e 29 mães solitárias. Entre outras coisas, isso indicava a maior sedimentação de um agregado fa- miliar procedente da escravidão, ou um processo de ascensão social em meio a uma estrutura estamental. Nesse momento,cabe lembrar que o dito pardo não decorria de uma intervenção da monarquia, pois fora produzido por relações pessoais no interior, principalmente dos engenhos de açúcar. Além disso, o fato de pelo menos 10% dos 97 casais encabeçados por homens sem cor escolherem moças pardas in- sinua a não racialização de tal estrato. Ainda na tabela 3 verifi ca-se que, apesar do número de mães, os pardos e pardas preferiam a união marital. Mas existiam outras for- mas de organização familiar em que a mãe solitária (um quinto das mães) tinha abrigo. Provavelmente, ela estava sob a tutela de uma AF_livro final ok.indd Sec8:176AF_livro final ok.indd Sec8:176 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 177casa ou de outro arranjo familiar: difi cilmente uma mãe solteira sobreviveria sozinha com uma criança. Vale ainda realçar a plasticidade da hierarquia estamental consi- derada através do aumento dos pardos. A população total somava 187 famílias conjugais e ou solitárias, das quais pelo menos 28% ti- nham um integrante pardo ou forro. Esse número nos informa que estamos diante de uma sociedade escravista em que a alforria não pode ser classifi cada apenas como fenômeno marginal. Passemos ao parentesco fi ctício, outro tipo de aliança com o esta- tuto formador de família e que transforma a autoridade moral em um critério de classifi cação social. A presença de padrinhos livres aumenta, indicando o alastramento de novas formas de acumulação e entrada de personagens em velhas práticas sociais, no caso o compadrio como formador de clientelas. Na década de 1700, os sem cor representavam 63,8% dos padrinhos; décadas depois, esse número subiu para 202, ou 86% dos 234 pais espirituais (ver tabela 4). Em um universo de 217 casais e/ou mães solteiras, os conquistadores apenas surgem como padrinhos em 56, ou 26%. Os cinco padrinhos pardos batizaram apenas rebentos de seis famílias; ou seja, eles próprios não se escolhiam como padrinhos. Na mesma tabela 4, das 75 famílias de pardos, 56 escolheram compadres sem cor, 15 conquistadores e apenas quatro optaram por pardos. TA BE L A 4 Padrinhos e afi lhados em Jacarepaguá entre 1750 e 1759 Padrinhos Famílias afi lhadas (conjugais e solitárias) Conquistadores Sem cor Pardos Totais Conquistadores 27 (11,5%) 15 (23 reg.) 26 15 56 (26%) Sem cor 202 (86%) 14 (19 reg.) 66 56 136 (63%) Pardos/Forros 5 0 2 4 6 (3%) Escravos 0 0 0 0 0 Totais 234 29 94 75 217 Obs.: Uma mesma família podia ser batizada por padrinhos de diferentes grupos. Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá, 1750-1759, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. AF_livro final ok.indd Sec8:177AF_livro final ok.indd Sec8:177 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 178 Os sem cor praticamente aparecem como padrinhos em todos os lares, mesmo nos dos conquistadores. Dos 217 casais e/ou mães sol- teiras que levaram suas crianças à pia batismal, 136 pais, ou dois terços, preferiram os sem cor. Algo bem diferente do que ocorria em 1700, quando todas as crianças de casais conquistadores foram bati- zadas dentro do próprio grupo. É importante aqui qualifi car os pa- drinhos desses potentados locais. Em 1751, Francisco de Almeida Jordão, cavaleiro da Ordem de Cristo e integrante de uma das mais poderosas famílias de grosso trato do Rio de Janeiro da primeira metade do século XVIII, foi a Jacarepaguá para batizar Joaquim, neto do juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes. Sete anos depois, em 1758, Francisco voltou à freguesia para batizar o fi lho do então coronel das ordenanças e futuro mestre de campo dos auxiliares João Barbosa de Sá Freire. Essas cerimônias demonstram as ligações e mesmo a dependência dos potentados quinhentistas ao capital mercantil. Por exemplo, desde fi nais do século XVII, os Barbosa de Sá tinham ligações creditícias com os Almeida Jordão. Em meados do Setecentos, tais ligações tornaram-se mais pessoais, no caso pa- rentais, seguindo assim as normas do catolicismo em vigor. Talvez seguindo também os costumes desse Antigo Regime nos trópicos, o mesmo Francisco, cavaleiro da ordem de Cristo, batizou ainda em Jacarepaguá, em 1753, outro menino de nome Manuel. A diferença entre esse afi lhado e os já mencionados era o fato de Manuel ser fi - lho de Bernarda parda, escrava do juiz de órfãos; a madrinha fora Antonia Luzia de Menezes, fi lha do mesmo juiz. Enfi m, o crescimento populacional verifi cado em 1750-1759 ocorreu em uma sociedade em transformação, porém ainda segundo regras hierárquicas e costumeiras e, portanto, preexistentes. Na dé- cada de 1750, existiam em Jacarepaguá seis engenhos e pelo menos 134 proprietários escravistas, que possuíam 276 famílias escravas e mais expostos. O campeão nos registros de crias escravas e provavel- mente o maior proprietário de cativos da região era o estrangeiro José Rodrigues Aragão, com 37 crias. Ele era o proprietário do En- genho da Serra, adquirido por meio de uma arrematação em 1751 AF_livro final ok.indd Sec8:178AF_livro final ok.indd Sec8:178 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 179do tenente José Francisco Souza Leite, integrante, salvo engano, das antigas famílias Coelho Cam e Teles de Menezes. O segundo colo- cado era o já referido juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes, com 26 crias. Na ocasião, os conquistadores (num total de 25) registra- ram 124 crias, ou um terço do total. Portanto, em meados do século XVIII, o grupo perdeu o controle da propriedade cativa, mas não o da terra e do sistema de normas local. Na freguesia de Irajá ocorreu algo semelhante quanto à proprie- dade cativa. Os negociantes e estrangeiros na terra, Antonio da Rosa e Bráz de Pina, eram, respectivamente, o primeiro e o terceiro maiores proprietários de cativos, conforme os registros de batismo; o segundo era João Pereira Lemos. Aqueles dois senhores, nos anos de 1740, fi zeram 99, ou 15%, dos 668 registros de escravos da déca- da. Desses 99, 88 eram adultos — homens e mulheres recém-adqui- ridos do tráfi co atlântico. Esses números informam provavelmente a instalação de fazendas desses negociantes na freguesia, ou, o que é o mesmo, a transformação de parte da acumulação mercantil atlântica em terras e escravos; no caso, adentrando nas áreas dominadas até então pela velha nobreza da terra. Assim, o mundo estava mudando. Mas resta saber o que esses personagens vindos da mercancia preten- diam de tal sociedade agroexportadora criada pelos conquistadores, escravos e pardos. Segundo as mesmas fontes, em Jacarepaguá, contrariando o mo- vimento da propriedade sobre pessoas, a velha hierarquia social abençoada pela tradição continuava de pé. Em outras palavras, por essa época, a não correspondência entre a propriedade e as insígnias de donas e os postos de ordenança continuava clara. Dos 95 proprie- tários homens, quatro ostentavam patentes de auxiliares superiores ou equivalentes a capitão. Três pertenciam a tradicionais famílias quinhentistas e o outro desconheço a origem. Desse modo, a pri- mazia do mando na freguesia permanecia fi rmemente nas mãos das velhas parentelas da terra, apesar de a propriedade cativa ter escapa- do. Bom exemplo disso é o coronel João Barbosa Sá Freire. Apesar de ter a patente mais alta da freguesia, só registrou quatro cativos, AF_livro final ok.indd Sec8:179AF_livro final ok.indd Sec8:179 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 EX ER CÍ CI O S D EM IC RO -H IS TÓ R IA 180 enquanto seu subalterno, o capitão Manuel Pimenta de Sampaio, registrou oito crias. A permanência da velha estratifi cação social costumeira é ainda percebida na ostentação da insígnia de dona. Esta continuava reser- vada às senhoras e moças das famílias quinhentistas. Trinta e quatro mulheres aparecem como proprietárias de escravos, das quais so- mente 16 o pároco reconhece como dona. Destas, 10 estavam ligadas às mais honrosas famílias da terra (não tenho notícias precisas sobre as outras seis). Passando para Irajá, onde a instalação de reinóis negociantes era fl agrante, temos resultados semelhantes aos de Jacarepaguá. Apesar disso, a tabela 5 confi rma a proeminência das famílias conquistado- ras na freguesia, através da distribuição do título de dona entre as madrinhas nos batismos livres. Na década de 1750, o pároco atri- buiu tal reverência a 55 senhoras, das quais 33, ou 60%, vinham de famílias do século XVI; desconheço a origem das demais. Em 1740, apesar desse predomínio, moças de famílias mais recentes estavam obtendo aquela honraria, como sugere a tabela 5. Na década de 1730, elas representavam 29, ou 70%, de 41 madrinhas. O fato de novas famílias adquirirem o título de dona e o crescimento dos par- dos são fenômenos que informam transformações na sociedade esta- mental da época. Entretanto, a força dessa hierarquia costumeira e sua não sincro- nia com as demais, seja como derivada da propriedade cativa, seja da autoridade da coroa, são demonstradas na freguesia de João Pereira Lemos em 1745. Nesse ano, o açoriano Antonio da Rosa já era me- recedor, aos olhos do rei, da patente de capitão das ordenanças, po- rém essa opinião não coincidia com a do cura local, Francisco de Araújo Macedo, que acredito ser de uma família quinhentista. Nas duas vezes em que o dito padre batizou os netos do capitão Antonio, sua esposa não foi reconhecida nos assentos como dona. Os caminhos tortuosos da promoção social nessa sociedade são percebidos quando confrontamos casos de mulheres da família de João Pereira Lemos. Seu sogro jamais teve a dignidade do ofi cial das AF_livro final ok.indd Sec8:180AF_livro final ok.indd Sec8:180 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 181ordenanças e sua sogra nunca a de dona. Porém, o casamento da fi lha destes, Ana Maria de Jesus, com o dito João Pereira — um exposto de uma família tradicional — lhe valeu a entrada no rol das donas. Assim, se o governador podia promover um reinol à condi- ção de capitão, sua autoridade não bastava para criar donas. Esta úl- tima distinção estava nas mãos da sociedade local. Na década de 1740, entre as mães de Irajá existiam 12 donas, e uma apenas era portuguesa. TA BE L A 5 No de madrinhas conquistadoras no universo das madrinhas qualifi cadas como donas Irajá, décadas de 1730, 1740 e 1750 Décadas Madrinhas de famílias quinhentistas conquistadoras Madrinhas de famílias desconhecidas ou recentes Total de madrinhas com a insígnia de dona 1730 29 (70%) 12 41 1740 32 (53%) 28 60 1750 33 (60%) 22 55 Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá, 1730-1750, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Voltando à Jacarepaguá de 1750, seus seis engenhos de açúcar estavam em mãos dos já conhecidos coronel João Barbosa Sá Freire, capitão Manuel Pimenta de Sampaio, juiz de órfãos (com duas fábri- cas), o visconde Asseca (Correia de Sá e Benevides, residente no reino), e o estrangeiro José Rodrigues Aragão. Desse modo, os fi - lhos dos conquistadores ainda mantinham o controle sobre as terras e a população da região. Em outras palavras, por essa época, a vida dos fregueses ocorria conforme a lógica do que chamei de autorida- de moral dos conquistadores. As paróquias consideradas eram divi- didas em engenhos de açúcar, sendo administradas como casas con- forme o princípio do autogoverno. Desse modo, em tais freguesias prevaleciam relações pessoais de dependência, hierarquicamente construídas dentro de casas. Porém, isso ainda não é tudo. AF_livro final ok.indd Sec8:181AF_livro final ok.indd Sec8:181 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 182 Maria Sampaio — parda, senhora de escravos e assistente no Rio Grande — e José Batista, cabra de João Pereira Lemos: casa, costumes e hierarquia nas senzalas Para entendermos um pouco melhor a realidade da estratifi cação social construída pelas relações de dependência nos engenhos não podemos tirar do horizonte a possibilidade de escravos, pardos e demais lavradores atuarem como agentes. Isso fi ca patente quando lembramos que a posse de terras, e principalmente de engenhos, não signifi cava necessariamente poder de mando na freguesia. José Ro- drigues Aragão tinha a maior escravaria de Jacarepaguá e uma fábri- ca de açúcar, mas não tinha, na década de 1750, o domínio moral e político sobre a população, caso consideremos a patente de ordenan- ça como um dos índices disso. Como ainda veremos, na mesma década ele procurou deixar de ser visto como estrangeiro por meio de negociações com os moradores, inclusive pardos e escravos, da região, mediante a formação de clientelas. Provavelmente, essa polí- tica deve ter contribuído para o agraciamento do título de capitão pelo rei a Manuel, fi lho de José Aragão. Por conseguinte, entendo o apadrinhamento como prática de autoridade moral. Ou melhor, nele vejo uma negociação em âmbito hierárquico. O número de afi lhados de uma casa informava sua posição na estratifi cação social. Talvez um critério mais refi nado de classifi cação social seja o fato de tais senhores darem vida, ou melhor, possibilitarem a formação de arranjos familiares, através do acesso à terra e à liberdade. Os que tinham tal poder ocupavam as posições cimeiras da sociedade. Mas voltemos a um ponto que acima fi cou perdido. Viver nas freguesias açucareiras do Rio de Janeiro da época implicava residir em um de seus engenhos e, consequentemente, aceitar as normas que presidiam o autogoverno das casas. Para tanto, basta lembrar alguns números. Na tabela 6 verifi ca-se que entre os 134 proprietá- rios de escravos da freguesia, 37 pelo menos, ou 27,6%, moravam nos seis engenhos já mencionados. Tais números seriam bem maiores caso as informações dos registros paroquiais fossem mais completas. Mesmo assim, esses proprietários tinham 122 famílias escravas com AF_livro final ok.indd Sec8:182AF_livro final ok.indd Sec8:182 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 183crias batizadas no período estudado, ou 44,2% do total dos casais e mães solteiras presentes nos livros de batismos de escravos da época. TA BE L A 6 Engenhos de açúcar e seus moradores proprietários de escravos em Jacarepaguá, 1750-1759 Engenhos de açúcar Proprietário Proprietários de escravos Famílias escravas* Taquara Antonio Teles Barreto 5 40 Fora João Barbosa Sá Freire 4 9 Rio Grande Manuel Pimenta de Sampaio 20 37 Serra Antonio Teles Barreto 2 25 Água Visconde Asseca 6 11 Subtotal 37 (27,6%) 122 (44,2%) Total 134 276 * Famílias conjugais ou solitárias. Fontes: Rudge (1983); e Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepa- guá, 1750-1759, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Entre esses senhores temos não só parentes consanguíneos do dono de engenho, lavradores da terra e reinóis, mas também pardos como Maria Sampaio, moradora no Rio Grande com seus escravos, fi lhos, genros e netos.Aliás, uma cria escrava de Manuel Pimenta Sampaio era afi lhada do fi lho e da neta de Maria. Outro senhor de escravos pardo e residente com sua família nas mesmas terras era Boaventura Sampaio. João, seu fi lho, era afi lhado de Antonia Neves Sampaio, fi lha do pardo José Rodrigues Homem, mas sem escravos, como vá- rios outros pardos assistentes no Rio Grande. Esses fragmentos de his- tórias têm em comum alguns traços: as três famílias saíram da escra- vidão, tinham o apelido de Sampaio e residiam no mesmo engenho. Em outras palavras, receberam alforria e depois terras. Nessa trajetó- ria, incorporaram o apelido da casa Sampaio. Eles batizaram fi lhos de escravos de seus antigos amos, servindo assim como instrumentos na cadeia de autoridade cuja referência era o capo. Entretanto, esses par- AF_livro final ok.indd Sec8:183AF_livro final ok.indd Sec8:183 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 184 dos também mantinham alianças entre si, via compadrio, reforçando sua capacidade de negociação com o mesmo capo. Provavelmente, Maria e Boaventura, entre outros ex-escravos, conseguiram alforria como resultado de uma série de estratégias ou de relações pessoais, horizontais e verticais, nas quais reconheciam a autoridade dos Sampaio — cravado em seu nome. Mas, ao mesmo tempo, conferiam legitimidade social aos Sampaio, transformando- os em capitães de ordenança e em donas. Enfi m, estamos em meio a uma série de jogos ou interações, nos quais os agentes possuíam re- cursos desiguais e diferentes, mas eram sujeitos com suas devidas estratégias. E a vida seguia nas freguesias. A possibilidade desses jogos e histórias de escravos e pardos se desenrolarem por várias gerações no Rio Grande, como terra dos Sampaio, pressupõe um sistema de transmissão de patrimônio, uma ideia de família, opções relativas ao mercado e outras estratégias da nobreza principal. De imediato pode-se dizer que tal prática impli- cava um sistema de transmissão de patrimônio que, apesar de preser- var a casa no tempo, diferia do morgadio.22 Em gerações sucessivas dos Pimenta de Almeida e dos Sampaio parece haver sido escolhido um herdeiro preferencial.23 Em contrapartida, ele abrigava nas ditas terras os demais herdeiros e parentes, adotando uma atitude distante do morgadio. Daí que nos registros da década de 1750, pelo menos 13 dos 20 proprietários de escravos residentes do Rio Grande eram tios, primos ou irmãos de Manuel. Nesse caso, portanto, optou-se por um padrão de transmissão de patrimônio que protegesse a famí- lia das inseguranças de uma sociedade rural pré-industrial, sujeita às oscilações do comércio internacional (escravos e açúcar) e às intem- péries da natureza. Fenômeno que, por sua vez, estava ligado aos pactos nupciais, nos quais as famílias dos nubentes pré-acordavam a não fragmentação das terras. O capitão Manuel Pimenta Sampaio casou-se duas vezes (1742 e 1756), em ambas as ocasiões com moças 22 Tratei desses assuntos em outros textos. Ver Fragoso (2009). 23 Ver Pedroza (2008). AF_livro final ok.indd Sec8:184AF_livro final ok.indd Sec8:184 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 O CA PI TÃ O JO ÃO P ER EI R A LE M O S 185de tradicionais famílias quinhentistas de nobreza reconhecida na lo- calidade: os Machado Homem e os Muniz Telo (fi dalgo da casa real). Com essas núpcias, em termos legais, as terras do Rio Grande passa- vam a pertencer ao casal, ou seja, também à esposa do capitão, po- rém, na prática, continuaram em mãos da família do marido; e isso deve ter sido discutido nos pactos pré-nupciais. Algo semelhante ocorreu com o engenho de São João Batista de Sapopema. Pelo menos desde fi ns do século XVII ele estava em mãos da família Pereira Lemos. Como vimos, primeiro com o padre Luis, depois com João Pereira Lemos, e após sua morte com a espo- sa Ana Maria de Jesus até seu falecimento em 1795, passando então ao primogênito do casal — homônimo do pai —, como resultado de um pedido em testamento de Ana Maria. Assim, a exemplo do Rio Grande, por mais de três gerações as terras da fábrica continuaram indivisas nas mãos de um único senhor, apesar de o acesso ser facul- tado a outros parentes. No Engenho das Capoeiras, outro do capitão João Pereira Lemos, quando da morte de Ana Maria de Jesus, em 1795, foram listados 20 lavradores de cana livres presentes, dos quais dois pertenciam aos fi lhos e um ao irmão daquela senhora. O fato de esse engenho e o de Sapopema terem fi cado por todo o século XVIII com a mesma família ajudou, entre outros pardos e escravos, João Batista, forro, e Perpétua, sua mulher escrava, a montarem estraté- gias que culminaram na alforria da segunda e na transformação de João em um pequeno senhor de cativos. Algo parecido deve ter ocorrido na vida de Boaventura Sampaio, ex-escravo, forro e depois dono de escravos. A estabilidade ao longo do tempo como prática costumeira provavelmente diminuiu as mar- gens de insegurança de Boaventura, em um mundo marcado pela compra e venda de escravos e de terras. Com certeza essa permanên- cia da casa não reduziu as desigualdades sociais, nem o terror da es- cravidão, mas talvez tenha facilitado a Boaventura e a outros escravos — em meio a uma hierarquia social ciosa de suas diferenças — a criação de estratégias para formar uma família, estabelecer alianças dentro e fora das senzalas, assim como outros expedientes para me- AF_livro final ok.indd Sec8:185AF_livro final ok.indd Sec8:185 4/12/2009 15:03:204/12/2009 15:03:20 EX ER CÍ CI O S D E M IC RO -H IS TÓ R IA 186 lhorar suas condições de negociação com os senhores; enfi m, melho- rar de vida. Parece, pois, que esse sistema de transmissão de patrimô- nio era vital na vida de diferentes grupos sociais da freguesia. A avó paterna de Ana Maria de Jesus era parente do padre Luis Pereira e sua família residia no Engenho do Sapopema. Pelo menos Ana, com 15 anos, e o irmão batizaram escravos do dito domínio. Além dessas ligações, temos o fato de João Pereira Lemos ser viúvo de uma tia de Ana. Em outras palavras, o casamento de João e Ana não resultara do acaso, mas de uma longa convivência e de pactos. Ou melhor, de valores que orientavam as opções de João Pereira. Como vimos, João era exposto. Porém, isso não o impediu de receber do rei a patente de ofi cial das ordenanças, e o casamento com a prima postiça rendeu a ela o título de dona, concedido pela comunidade, uma prerrogativa que sua mãe não tivera. Portanto, João tinha prestígio aos olhos daquela sociedade. Em razão disso, podia ter se casado com uma esposa proveniente da nobreza da terra e, com isso, ampliar seu cabedal. Mas preferiu se casar com uma parente postiça, provavelmente mais pobre. Uma escolha que deu maior alento a sua família postiça e permitiu a promoção social da parte materna do velho padre, assegurando-lhes o acesso formal ao senhorio das terras de Sapopema.24 Esse ato, portanto, informa so- bre as orientações valorativas de João e sobre sua ideia de casa. Desse modo, o tipo de transmissão de patrimônio no qual este é indiviso pressupõe uma ideia de família. Algo que merece um estu- do mais cuidadoso. Uma das interpretações possíveis é a prioridade atribuída à manutenção da qualidade social dos integrantes da famí- lia, garantida pelo compartilhamento costumeiro do senhorio das terras e das relações de clientela nela estabelecidas.25 Condição que seria posta em risco caso a partilha fosse igualitária ou através do morgadio. Na primeira situação, a família podia perder sua