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Exercícios de micro-história
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Exercícios de micro-história
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Copyright © 2009 Mônica Ribeiro de Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida 
Direitos desta edição reservados à EDITORA FGV
Rua Jornalista Orlando Dantas, 37 
22231-010 | Rio de Janeiro, RJ | Brasil 
Tels.: 0800-021-7777 | 21-3799-4427 
Fax: 21-3799-4430 
E-mail: editora@fgv.br | pedidoseditora@fgv.br
www.fgv.br/editora
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou 
em parte, constitui violação do copyright (Lei no 9.610/98).
Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade do autor.
Este livro foi editado segundo as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, 
aprovado pelo Decreto Legislativo no 54, de 18 de abril de 1995, e promulgado pelo Decreto 
no 6.583, de 29 de setembro de 2008.
1a edição — 2009
Versão digital — 2012
PreParação de originais: Daniela Duarte Candido, Maria Lúcia Leão Velloso 
de Magalhães, Sandra Frank
revisão: Adriana Alves Ferreira e Catalina Arica
CaPa e diagramação: Santa Fé ag.
 
 
 
Ficha catalográfica elaborada pela 
 Biblioteca Mario Henrique Simonsen / FGV
 Exercícios de micro-história / Organizadores: Mônica Ribeiro de 
Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida. — Rio de Janeiro : Editora 
FGV, 2009.
 300 p.
 Inclui bibliografia.
 ISBN: 978-85-225-0898-3
 1. História — Metodologia — Coletânea. 2. Historiografia — 
Coletânea. 3. História social — Coletânea. I. Oliveira, Mônica Ribeiro 
de. II. Almeida, Carla Maria Carvalho de. III. Fundação Getulio Vargas. 
 
 CDD – 907-2
Sumário
Apresentação 7
Mônica Ribeiro de Oliveira 
e Carla Maria Carvalho de Almeida
Prefácio 11
Giovanni Levi
Parte I: A micro-história e seus precursores 17
1. Microanálise e história social 19
Edoardo Grendi
2. Paradoxos da história contemporânea 39
Edoardo Grendi
3. Reciprocidade mediterrânea 51
Giovanni Levi 
4. Economia camponesa e mercado de terra 87
no Piemonte do Antigo Regime
Giovanni Levi 
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Parte II: O diálogo com a história e a historiografi a 111
5. Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultura 113
Cássio da Silva Fernandes 
6. Pensando as transformações e a recepção da micro-história 
no debate histórico hoje 131
Henrique Espada Lima
Parte III: Exercícios de micro-história 155
7. O capitão João Pereira Lemos e a parda Maria Sampaio: 
notas sobre hierarquias rurais costumeiras no Rio de Janeiro do século XVIII 157
João Fragoso 
8. Indivíduos, famílias e comunidades: trajetórias percorridas no tempo 
e no espaço em Minas Gerais — séculos XVIII e XIX 209
Mônica Ribeiro de Oliveira
9. Redes de compadrio em Vila Rica: um estudo de caso 239
Renato Pinto Venâncio 
10. Os vínculos interfamiliares, sociais e políticos da elite mercantil 
de Lima no fi nal do período colonial e início da República: 
estudos de caso, metodologia e fontes 263
Cristina Mazzeo de Vivó
Sobre os autores 297
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Apresentação
Mônica Ribeiro de Oliveira
Carla Maria Carvalho de Almeida
A grande ressonância da perspectiva metodológica da micro-história 
é hoje um fenômeno inquestionável. Esse movimento, inicialmente 
restrito à produção historiográfi ca italiana, vem ganhando adeptos 
em todo o mundo, inclusive no Brasil.
Desde as últimas décadas do século XX, os questionamentos à 
validade das grandes sínteses começaram a chamar a atenção para o 
perigo de se excluir o sujeito da história ou de se perder a historici-
dade de suas ações. As análises estruturais baseadas em grandes cor-
tes cronológicos e na quantifi cação não incorporariam a ação do 
sujeito como ator histórico importante na defi nição do rumo dos 
fenômenos e dos processos históricos. E mais ainda — e em decor-
rência disso —, não conseguiriam compreender as estratégias indi-
viduais que podiam tornar mais compreensível aquela realidade mais 
estrutural. Também não permitiriam apreender as ações daqueles 
atores históricos que eram motivadas por outras lógicas que não as 
da sociedade contemporânea. Outra ordem de problemas levantados 
por esses questionamentos dizia respeito à organização comparti-
mentada da disciplina história, o que acabou por criar fronteiras rí-
gidas entre as histórias social, econômica, política e cultural.
Em meio aos grandes embates travados por força de tais pondera-
ções, teve início um processo de compreensão de que seria necessário 
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8 repensar o papel do sujeito na história e reduzir a escala de observação. 
A experiência — individual ou coletiva — resgatada empiricamente 
passou a desempenhar um papel mais destacado no trabalho dos his-
toriadores do que as explicações baseadas nas deduções lógicas que as 
grandes sínteses teóricas produziam.
A micro-história italiana foi uma das respostas formuladas a partir 
de tais questionamentos. Ao conceber a priori toda a história como 
social e ao buscar uma alternativa de análise capaz de transcender as 
análises de cunho generalizante dos denominados agregados anôni-
mos, a micro-história surgiu como uma proposta de análise dinâmi-
ca da sociedade que não impunha ao estudo do passado uma ordem 
artifi cial e automática. A micro-história propõe uma refl exão histó-
rica em constante busca da totalidade, mesmo sendo esta compreen-
dida como resultante do reconhecimento da ação individual e da 
percepção de sua trajetória. Parte do pressuposto de que os indivídu-
os e os grupos têm uma complexidade difícil de ser reduzida aos fe-
nômenos econômicos ou políticos. O interesse volta-se para a análi-
se das diferenças, dos confl itos e das escolhas, situações em que a 
complexidade dos fenômenos históricos teria maior possibilidade de 
ser resgatada. A micro-história propõe um procedimento quase ar-
tesanal de aproximação do objeto, à semelhança do olhar através de 
um microscópio, que revela uma série de aspectos antes impossíveis 
de detectar pelos procedimentos formais da disciplina. Utilizando-se 
da redução de escala de observação para o entendimento de questões 
mais gerais, a micro-história resgata o elo entre o micro e o macro.
Este livro é em grande parte resultado das refl exões desenvolvidas 
durante o II Colóquio do Lahes: Micro-História e os Caminhos da 
História Social, realizado em outubro de 2008 na Universidade Fede-
ral de Juiz de Fora (UFJF), com o apoio da Fapemig, da Capes e do 
PPGHIS/UFJF. O Laboratório de História Econômica e Social (Lahes), 
criado em 1997, está ligado à linha de pesquisa História, Mercado e 
Poder, do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. Nesse 
encontro, o objetivo foi defi nir alguns eixos temáticos caros à história 
social (redes sociais, família, parentesco, estratégias sociais) e discutir 
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9até que ponto as proposições da micro-história se adequam aosobjeti-
vos dos historiadores que lidam com tais temas, ou se outras opções 
metodológicas seriam mais apropriadas para abordá-los.1 
Na primeira parte do livro, dedicada aos precursores da micro-
história, são apresentados à comunidade acadêmica brasileira, tradu-
zidos para o português, quatro importantes textos de Edoardo 
Grendi e Giovanni Levi. Os dois primeiros — “Microanálise e his-
tória social” e “Paradoxos da história contemporânea” —, de 1977 
e 1981, respectivamente, e ainda inéditos em língua portuguesa, são 
da autoria de Edoardo Grendi, considerado o principal responsável 
pela difusão desse campo de investigação e pela dimensão que o 
debate teórico sobre a micro-história alcançou, a partir da década de 
1970, através do periódico italiano Quaderni Storici.
Originariamente publicados em 1990 e 2000, e também inéditos 
em língua portuguesa, os outros dois textos que compõem a primei-
ra parte deste livro são da autoria de Giovanni Levi. Em “Recipro-
cidade mediterrânea”, partindo das noções de equidade, analogia e 
reciprocidade, Levi discute as especifi cidades das formas jurídicas das 
nações católicas do sul da Europa e sugere uma polarização entre 
países com direitos fortes em que a lei restringe a liberdade de inter-
pretação dos juízes e países em que a origem teológica do conceito 
de justiça permite aos juízes uma ampla margem de interpretação, 
mediante uma leitura muito específi ca da equidade. No texto “Eco-
nomia camponesa e mercado de terra no Piemonte do Antigo Regi-
me”, Giovanni Levi emite valiosos alertas aos historiadores interes-
sados em investigar as transações mercantis com a terra nas sociedades 
da Idade Moderna. Segundo Levi, a terra era a base da produção, 
mas também do sistema de poder e de proteção social que caracteri-
zava todo o sistema político nessas sociedades. Assim sendo, “a cir-
culação mercantil da terra, não impossível, mas complexa e viscosa, 
obstaculizava a fl uidez: direitos familiares, senhoris, comunitários, 
1 Para a organização desse evento e da presente obra contamos com o precioso 
apoio do professor dr. Cássio da Silva Fernandes, da professora dra. Ângela Brandão 
e do professor dr. Henrique Espada Lima.
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10 monárquicos, enfi m, contribuíam para fazer da terra algo que só 
muito arbitrariamente podia ser considerado um investimento pelo 
mercado”. Nos dois textos fi cam evidentes as especifi cidades das so-
ciedades modernas cujas lógicas de funcionamento são muito distin-
tas daquelas que caracterizam as sociedades capitalistas. Presente ao 
II Colóquio, Giovanni Levi brindou ainda a todos com as importan-
tes refl exões contidas no prefácio deste livro, no qual traça uma bre-
ve trajetória da micro-história, desde sua origem à ressonância nos 
meios acadêmicos, e deixa também explícita sua própria concepção 
de micro-história e sua expectativa em relação ao seu devir.
Na segunda parte, são apresentados dois textos de caráter historio-
gráfi co. Em “Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultu-
ra”, Cássio da Silva Fernandes procura discutir as interlocuções possí-
veis entre micro-história, história da cultura e história interpretativa, 
analisando alguns aspectos do percurso de Delio Cantimori que tan-
genciariam a perspectiva metodológica que depois de sua morte fi cou 
conhecida como micro-história. Em “Pensando as transformações e a 
recepção da micro-história no debate histórico hoje”, Henrique Espa-
da Lima trata das transformações e da recepção da micro-história no 
debate histórico atual, centrando sua atenção no panorama intelectu-
al mais amplo que transformou de modo signifi cativo o campo da 
história social entre os anos 1970 e tempos mais recentes. 
Na terceira e última parte do livro, a exemplo da exortação de 
Giovanni Levi em sua última frase do Prefácio, os historiadores João 
Fragoso, Mônica Ribeiro de Oliveira, Renato Pinto Venâncio e 
Cristina Mazzeo de Vivó apresentam suas pesquisas empíricas volta-
das para o resgate de como os homens organizavam suas vidas no 
passado, e o signifi cado e o sentido do mundo para indivíduos, famí-
lias, aventureiros, escravos e comerciantes. Ou seja, os quatro últimos 
capítulos constituem bons exemplos de exercícios de micro-história.
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Prefácio*
Giovanni Levi
Farei uma imagem muito particular da micro-história ao dizer que seu 
surgimento no fi nal dos anos 1960 teve para mim, antes de tudo, uma 
origem política. Eram anos de cansaço para a esquerda italiana, nos 
quais muitas tensões e muitos acontecimentos misteriosos e jamais so-
lucionados — entre a restauração conservadora depois do outono quen-
te e o ano de 1968, o terrorismo, atentados e a desconfi ança do movi-
mento sindical e das suas instâncias conciliares e igualitárias —, tinham 
posto em evidência a fragilidade das forças progressivas na Itália e os 
limites e a inércia de suas análises políticas. Filha de uma longa tradição 
operária, a esquerda italiana se afi rmou segundo o pertencimento de 
classe, escolhas políticas e ideológicas. E diante da profunda mutação da 
ordem econômica e social, as simplifi cações de leitura começavam a 
revelar toda a sua esterilidade. Isso era tanto mais verdadeiro na histo-
riografi a, na história do movimento operário, quanto na interpretação 
histórica do desenvolvimento distorcido da economia italiana.
A micro-história nasceu então, pelo menos para mim, da neces-
sidade de recuperar a complexidade das análises; da renúncia, por-
tanto, às leituras esquemáticas e gerais, para realmente compreender 
como se originavam comportamentos, escolhas, solidariedades.
∗ Tradução de Ângela Brandão.
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12 Havia modelos importantes dessa refl exão, a começar pela leitura 
de Gramsci feita pela historiografi a marxista inglesa — E. P. Thomp-
son em particular —, ou pelo trabalho minucioso dos antropólogos 
de Manchester — Clyde Mitchell, por exemplo —, ou por pesqui-
sadores no fundo isolados, mas muito inovadores, como Natalie Ze-
mon Davis. E, portanto, na redação da revista Quaderni Storici, com 
a qual muitos de nós colaborávamos (Edoardo Grendi, Carlo Poni, 
Carlo Ginzburg), teve início o debate do problema que poderíamos 
defi nir como de recuperação da complexidade.
Em 1980/1981, surgiu assim a coletânea Micro-histórias, lançada 
pelo editor Einaudi, com um breve manifesto — “Notiziario Ei-
naudi”, de junho de 1981 — que, apesar de levar minha assinatura, 
era produto do debate com outros pesquisadores, sobretudo com 
Ginzburg, com quem passei depois a dirigir a coleção. Acredito que 
esta seja uma boa ocasião para me referir a esse documento, que, 
depois, pareceu-me injustamente desaparecido da discussão.
Os historiadores discutem frequentemente suas classifi cações, 
como o duque d’Auge no Flores azuis, de Queneau, ao interrogar 
dom Biroton, o capelão:
— Diga-me uma coisa, este Concílio de Basileia é história universal?
— Mas sim: é história universal em geral.
— E os meus canhõezinhos?
— História geral em particular.
— E o matrimônio das minhas fi lhinhas?
— Com esforço, é história acontecimental. No máximo, micro-
história.
— História como? – grita o duque d’Auge – que diabo de lin-
guagem é essa? Que dia é hoje? Pentecostes?
— Queira desculpar-me, senhor. Efeitosdo cansaço.
Essa irônica hierarquia das histórias e o cansaço do capelão são, 
por certo, muito diversos das motivações que deram origem à cole-
tânea Micro-histórias. A condenação do acontecimento em prol dos 
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13fenômenos estruturais é uma discussão que então teve o seu tempo. 
Mas o problema permanece. Como fazer para chegar às generaliza-
ções sem descartar os indivíduos, as situações? Ou, vice-versa, como 
descrever situações, pessoas, sem cair em tipologias, exemplos, e sem 
renunciar à compreensão dos problemas gerais?
Talvez seja partindo desse problema insolúvel que os historiado-
res frequentemente são levados a falar de suas insatisfações, muitas 
vezes confrontadas com a descoberta de situações novas, objetos no-
vos. O resultado corre o risco de ser um tanto lamentável: a histo-
riografi a excluiu as classes populares, as mulheres, as culturas orais, 
a vida cotidiana, os mundos marginais, as sociedades diferentes da 
nossa. E não quero, por certo, subtrair minha parte de lamentação. 
Mas não basta falar de alguém para incluí-lo na história do mundo, 
para mostrar sua presença e relevância. O importante é como falar 
desse alguém.
A micro-história pretende ser antes de tudo uma tentativa: narra, 
mas sem esconder as regras do jogo que o historiador seguiu. Cer-
tamente, não apenas remetendo aos documentos — isso faz parte da 
ética profi ssional —, mas por meio de uma clara declaração do pro-
cesso pelo qual a história foi construída: os caminhos certos e erra-
dos, o modo de formular as perguntas e procurar as respostas. Por-
que o minucioso trabalho de laboratório não deve permanecer 
escondido, e a receita não deve permanecer um segredo do cozi-
nheiro. Porque talvez os verdadeiros excluídos da atenção dos his-
toriadores não sejam os protagonistas descuidados dos eventos, mas, 
sim, os leitores esmagados pelas pesadas interpretações gerais, pelas 
opiniões discutidas com as armas díspares de quem escreve e de 
quem lê, pelos mecanismos causais simplifi cados e estabelecidos a 
partir de uma percepção tardia. Por essas indagações serem feitas a 
partir da revelação do nome do assassino, o verdadeiro excluído é o 
consumidor de livros de história.
Portanto, a micro-história não é, necessariamente, a história dos 
excluídos, dos pequenos, dos distantes. Pretende ser a reconstrução 
de momentos, de situações, de pessoas que, investigadas com olho 
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14 analítico, em âmbito circunscrito, recuperam um peso e uma cor; 
não como exemplos, na falta de explicações melhores, mas como re-
ferências dos fatos à complexidade dos contextos nos quais os homens 
se movem.
A escala é habitualmente reduzida e isso coloca repentinamente 
em discussão os instrumentos conceituais do nosso ofício: desgasta-
dos pelo uso, entre alusão e metáfora, cobriram-se da ferrugem da 
ambiguidade. Pensemos, por exemplo, nas defi nições cômodas que 
agora se dão para explorar posicionamentos e comportamentos po-
líticos ou estratifi cações sociais de poder: cultura popular, setores 
médios, classe operária, Estado absoluto, camponeses. Malgrado sua 
utilidade hoje, requerem cada vez mais a especifi cação e a verifi ca-
ção das situações concretas, nas quais o indivíduo abstrato torna a 
pertencer, na realidade, a uma forma particular de sociedade, cujas 
circunstâncias concretas permitem compreender os sucessos e os in-
sucessos dos seus esforços para mudá-la.
Ao escolhermos os títulos da coletânea, partimos dessas conside-
rações, que nos propunham duas alternativas não mistifi cadoras para 
o estudo dos mecanismos causadores de fatos sociais. Por um lado, o 
consciente isolamento de um sistema normativo — as leis dos matri-
mônios consanguíneos do livro de Raul Merzario, por exemplo —, 
sem introduzir sub-repticiamente a pretensão de que isso explique 
uma sociedade em sua complexidade: é o isolamento de um frag-
mento sob a lente do pesquisador e do leitor que, para funcionar, 
estará imerso no contexto complexo, mas que experimentalmente se 
faz mover no vazio. Por outro lado, o próprio estudo das situações ou 
pessoas no seu contexto, isto é, na complexa relação de escolha livre 
e dos vínculos que indivíduos e grupos estabelecem nos interstícios 
da pluralidade contraditória dos sistemas normativos que coman-
dam. Essas escolhas e contradições são o motor interno da mutação 
social, que, desse modo, não é vista em sentido único, como um 
poder imóvel e imutável apenas nos momentos extraordinários de 
revolta aberta, mas como fruto de um contínuo confl ito, cujos efei-
tos o historiador pode mensurar. O normal e o cotidiano tornam-se 
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15assim protagonistas da história, e situações singulares assumem a in-
tensidade dos pontos de vista pelos quais se podem explicar os fun-
cionamentos sociais complexos.
Muito frequentemente, as explicações que elucidam os mecanis-
mos casuais tendem a descrever o passado como um feroz mecanismo 
de necessidades biológicas, políticas, econômicas. Introduziu-se, as-
sim, uma visão evolucionista, apologética do presente e do fato exis-
tente. Nesse sentido, as duas alternativas que procuraremos docu-
mentar e as regras em confl ito atuantes em cada situação pretendem 
também ser uma perspectiva de pesquisa diferente. Os escritos de E. 
P. Thompson, que estão na raiz de toda a renovação da história so-
cial, são, segundo o autor, uma resposta àqueles que descrevem “o 
homem como subjugado pela necessidade e sobre o qual domina um 
único absoluto”.
As palavras-chave eram então evidentes: lente ou microscópio, 
experimento, contestação, complexidade, escolha, vínculos, inters-
tícios, confl ito, ponto de vista. Mais uma série de práticas e de mé-
todos do que uma teoria. Todavia, a proposta da micro-história atin-
gia um mundo historiográfi co muito sensível. Não foi apenas o tom 
de reviravolta que caracterizou os anos 1980 desde o seu início. 
Também a crise do sistema soviético que se avizinhava e a fragmen-
tação do sistema mundial depois do fi m da bipolaridade fi zeram sen-
tir, com brutal evidência, seus efeitos no debate historiográfi co, pon-
do em crise a historiografi a de inspiração marxista, mas também de 
modo mais geral a história social, a experiência central dos Annales 
franceses, que falavam de ponto de mutação, ou dos Subalterns studies 
indianos, que abandonaram o marxismo para voltar sua atenção de 
modo especialmente confuso para os estudos pós-coloniais: no cen-
tro das atenções progressivamente apareceram temáticas culturais 
que pouco a pouco se abriram às dúvidas relativísticas do descons-
trutivismo ou à identifi cação da historiografi a com a fi cção. Afi nal, 
a própria historiografi a perdera sua centralidade nas ciências huma-
nas, porque é difícil estudar o passado quando não há perspectivas de 
futuro e também porque o papel central que desempenhara até os 
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16 anos 1960 a tinha atrasado com relação ao debate que outras ciências 
humanas travavam, sobretudo no que diz respeito à defi nição de 
uma racionalidade incompleta e não uniforme na teoria econômica, 
à autoridade do cientista na antropologia,à ambiguidade das identi-
dades pessoais e a não linearidade do personagem homem na teoria 
literária e no romance. E, contemporaneamente, também o senso 
comum historiográfi co tinha mudado devido à simplifi cação e à agi-
lidade com que os mass media propunham temáticas, que a lentidão e 
a complexidade da pesquisa histórica não estavam em condições de 
fazer frente sem uma profunda renovação. E também os leitores ti-
nham diminuído, frequentemente mais atraídos pelas imagens do 
que pela página escrita, mais pela internet do que pelos livros. Uma 
atmosfera modifi cada que hoje ainda encontra difi culdade para se 
organizar em um quadro mais sólido.
Também a micro-história, pressionada por todos os lados, sofreu 
alterações, interpretações distorcidas, simplifi cações. No entanto, 
sua proposta teve e continua a ter forte ressonância, também porque 
revelou, a meu ver, maior sensibilidade do que a história mais acadê-
mica às novas instâncias que os novos pesquisadores e os novos leito-
res colocavam. Quis, no fundo, mostrar não a fragilidade das gene-
ralizações em história, mas que aquilo que o historiador pode e deve 
generalizar são as perguntas, que podem ser colocadas em contextos 
de temporalidades e espacialidades diferentes, deixando às situações 
singulares a sua especifi cidade irrepetível. Em um mundo que não 
acredita mais na possibilidade de encontrar fundamentos comuns e 
universais, a indagação sobre como organizar os homens e dar senti-
do ao mundo de cada um continua a exigir de nós exercícios de 
micro-história.
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A micro-história e 
seus precursores
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Microanálise e história social*
Edoardo Grendi
1
No número 34 de Quaderni Storici, Villani e Romanelli retomam a 
discussão sobre a história (social) contemporânea.1 O primeiro, um 
típico “otimista”, tenta descobrir a nova alvorada em uma série de 
trabalhos recentes de valor e coerência desigual; o segundo, um tí-
pico “pessimista”, pergunta-se por que a alvorada não chega e atri-
bui a culpa disso aos esquemas práticos e mentais dos historiadores 
contemporaneístas. Tal “reifi cação” acontece em duas direções: 
contra a simplifi cação ideológico-política da análise marxista como 
princípio historiográfi co, e contra a simplifi cação teórica que deriva 
da aceitação generalizada de categorias e de um modelo interpreta-
tivo destinados a explicar um processo histórico específi co, como a 
1 Os textos a que Grendi faz referência aqui são Villani (1977) e Romanelli (1977).
* Tradução e notas de Henrique Espada Lima do artigo “Microanalisi e storia so-
ciale”, publicado em Quaderni Storici, v. 12, n. 35, p. 506-520, ago. 1977. O texto é, 
na verdade, uma intervenção em um debate sobre história social que acontecia nas 
páginas da revista e seguiu textos publicados por Pasquale Villani e Raffaele Roma-
nelli, dois historiadores da Itália contemporânea. O debate em torno da história 
social continuou em outros artigos, mas este texto em especial acabou por tornar-se 
uma referência central no debate sobre a microanálise social e, a partir daí, sobre as 
escolhas metodológicas da chamada “micro-história” italiana.
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20 revolução industrial e o capitalismo ingleses. Consequentemente, a 
crítica é dupla, no sentido de que uma simplifi cação se sobrepõe à 
outra. Daí uma conclusão cética, temperada ou acentuada, como se 
diz, por um tipo de escatologia historiográfi ca, confi ada à microa-
nálise. Menos dramaticamente, Villani, que prefere o “devir histo-
ricista”, vê na microanálise histórica um momento complementar e 
subalterno a um trabalho de síntese, colocando explicitamente o 
problema da reconstrução da estratifi cação social na escala nacional 
em uma perspectiva de “grandes problemas” — mas sem indicar o 
suporte analítico e os modos operativos. Um exemplo de “simplifi -
cação teórica”? Com efeito, os grandes problemas adquiriram certa 
dimensão intuitivo-ideológica: um pouco como aquele sujeito que 
invariavelmente responde às nossas perguntas remetendo-se à com-
plexidade do real — o que, no fi m das contas, acaba sendo um con-
vite para deixar para lá.
Uma atitude, de todo modo, bastante difundida: a história social 
é identifi cada com a questão das classes, da estratifi cação e da estru-
tura social, partindo-se do pressuposto de que se trata de realidades 
em si, objetais. A esse propósito cabe recordar a polêmica dos antro-
pólogos (de Edmund Leach em diante) contra essa entifi cação da 
estrutura — a estrutura de parentesco, por exemplo —, coerente 
com o ponto de vista de E. P. Thompson, que nega essa realidade em 
si à classe, propondo-a, ao contrário, como “relação”. Mas vale tam-
bém o ensinamento que os historiadores podem tirar dos trabalhos 
de Adeline Daumard e de seus colaboradores, nos quais as classes são 
empiricamente articuladas nos grupos socioprofi ssionais, assim como 
fazem os marxistas, que distinguem “classe em si” e “classe para si”, 
tendo como base aquela discriminante “consciência” que precisa-
mente Thompson resolve na relação (que ele tenha feito isso em 
termos impressionistas e literários, essa é outra questão).
Se esse é, aproximadamente, o emaranhado crítico ante o qual nos 
encontramos, é preciso considerar a possibilidade da pesquisa histórica 
a partir de seu ângulo analítico. Não há dúvida de que a abstração em 
termos de profi ssões e níveis de fortuna permite o máximo de agre-
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21gação geral (basta “contar”), prescindindo, obviamente, das infi nitas 
possibilidades das agregações ideológico-intuitivas, manipuláveis a 
gosto. O fato é, porém, que essa pesquisa acaba revelando sua própria 
qualidade abstrata, de modo a exigir integrações complementares, 
que remetem a um exame dos comportamentos: para qualifi car tanto 
os grupos — por exemplo, os “estilos de vida” ou os regimes alimen-
tares — quanto à relação entre os grupos — como interagem, como 
um é refl exo da consciência do outro. De modo que o projeto agre-
gativo corre o risco de fraturar-se: o exame das relações entre grupos 
(e nos grupos) impõe uma rígida concretude socioparcial.
Sublinhemos a passagem analítica do conceito de classe ao de gru-
po social: não sem razão Eric Wolf lamentou a carência de uma teo-
ria dos grupos sociais na elaboração teórica marxista, o que acabou 
por confi nar o conceito de classe a uma dimensão de pré-julgamento, 
isto é, não analítico-operativa. E esses grupos sociais podem ser qua-
lifi cados diversamente, integrando-se dados (idade, sexo, riqueza, 
profi ssões) e comportamentos (residência, escolha no cônjuge, alian-
ça/rivalidade etc.). Gostaria de recordar a Villani o interesse de algu-
mas pesquisas recentes — Le Couturier, A. Anderson, J. Foster —, 
que propõem, em termos rigorosamente quantitativos, o exame das 
solidariedades sociais, cruzando, assim, dados e comportamentos.
Vale a pena observar a propósito como a nova história urbana re-
corre sistematicamente não aos censos, mas à revelação de base cons-
tituída pelos “formulários de recenseamento”, anterioresa qualquer 
elaboração: e isso corresponde a uma verdade óbvia, isto é, a diferen-
ça entre os objetivos dos historiadores de hoje e os das autoridades 
censitárias de ontem. O recurso aos formulários de dados das famí-
lias individuais é um pressuposto de toda integração prosopográfi ca 
e, portanto, da própria base concreta da pesquisa analítica; partir dos 
censos elaborados signifi ca já condicionar unilateralmente o traba-
lho, abstrair o social, envolver-se em um confronto estéril com as 
categorias de agregação das autoridades administrativas do passado.
Como deixar de lado, por exemplo, um aspecto de relevância já 
comprovada, como o da correspondência entre a morfologia social e 
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22 a morfologia da ocupação do espaço, na qual insistem de comum 
acordo historiadores antigos e medievais, antropólogos e sociólogos, 
e que a própria dinâmica das cidades contemporâneas repropôs e 
repropõe constantemente? O mesmo se aplicando ao exame dos 
comportamentos matrimoniais, um tema recente da história demo-
gráfi ca, mas desde sempre um tema óbvio para a qualifi cação das 
homogeneidades dos grupos sociais. Nesse sentido, de resto, os te-
mas de análise têm por destino multiplicar-se também em termos 
qualitativos, quando amadurecer uma metodologia adequada.
E é por esse caminho, que exige certamente um maior esforço de 
trabalho, que poderá ser colocada uma questão igualmente impor-
tante como a do crescimento da escala social, isto é, da ampliação da 
unidade socioparcial relevante. Mesmo que ainda não saibamos como 
operar no domínio histórico-analítico para corresponder ao diagnós-
tico dos processos de unifi cação cultural em andamento como efeito 
de uma estruturação institucional articulada, da alfabetização, da po-
litização e dos modelos de imitação. Coloquemos uma simples ques-
tão: a industrialização distinguiu ou uniformizou as estruturas so-
ciais? Posto nesses termos, o problema cabe à história comparativa, e 
uma vez que faz obviamente referência a espaço e tempo, torna-se 
difícil ver como proceder de outro modo que não através de uma 
série de case studies, para depois, eventualmente, considerar tipolo-
gias. Villani parece postular que existe um mapa mudo de dimensões 
nacionais (o do censo) a ser preenchido com sinais conhecidos ou, de 
todo modo, pré-constituídos (as classes ou os grupos socioprofi ssio-
nais retirados dos censos). Na base, o que opera aqui é o mesmo 
processo de simplifi cação teórica que Romanelli denuncia: a expec-
tativa de que por esse caminho se possa chegar a quadros comparáveis 
no tempo, que qualifi quem a dinâmica social como progresso, sem-
pre prescindindo do espaço, segundo os módulos correntes do mode-
lo liberal-marxista. Esse é, de fato, o “devir historicista”, o “sentido” 
para Romanelli, ante o qual a microanálise vale como uma “suspen-
são do juízo, uma tomada de consciência da perda de sentido — que 
me parece o primeiro passo da reconquista de uma verdade”. Aceite-
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23mos a apresentação retórica de uma inversão de valores (sentido/não 
sentido). Na verdade, reconheço uma disjunção entre as teses teóri-
cas do pensamento dominante às quais se refere Romanelli e grande 
parte dos produtos historiográfi cos, considerados uma ilustração de 
uma operatividade analítica independente. Com relação às teses que 
não dizem respeito apenas ao modelo do capitalismo industrial, a 
perspectiva de microanálise histórica que se tenta ilustrar aqui tem 
certamente um signifi cado radicalmente contestatório.
2
Vale indicar de imediato o “campo de interesse” específi co, mesmo 
com o risco de cair no ridículo da abstração mais grave, aquela do 
concreto total. Digamos que se trate do “universo relacional”; por-
tanto, do campo das relações interpessoais, forçosamente válido para 
uma microárea. Essa escolha explica o interesse pela história demo-
gráfi ca, ou seja, a disciplina que coloca seus problemas em relação 
direta com a sociedade total. Que a demografi a faça isso recorrendo 
antes de tudo a números e, em particular, para contar eventos vitais 
é relativamente secundário. De fato, a reconstrução das famílias per-
mite a identifi cação desses núcleos-base, a qualifi cação de sua situa-
ção em um ciclo de desenvolvimento, a posterior elaboração de ge-
nealogias. Os apontamentos daí derivados podem ser enriquecidos, 
antes de tudo, a partir da utilização mais sistemática da própria fonte 
dos registros paroquiais, identifi cando, por exemplo, testemunhas de 
núpcias, padrinhos de batismo e de crisma, operações que permitem 
mapear relações não secundárias. E ainda, sobretudo, a partir do es-
tudo de fontes até agora pouco utilizadas, como contratos notariais, 
atos de jurisdição civil e criminal, cadastros, parlamenti, registros con-
tábeis, atos privados que remetem a fontes “centrais” de caráter judi-
ciário, contábil, fi scal, político, censitário. Cada informação exprime 
um dado ou, mais frequentemente, uma relação. Existe assim a pos-
sibilidade de reconstruir histórias de família e, às vezes, por alguma 
feliz coincidência de fontes, histórias individuais sufi cientemente ri-
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24 cas — típicas ou excepcionais —, sendo ainda possível pôr em relevo 
relações interindividuais contínuas, isto é, estruturadas (por exem-
plo, relações de débito/crédito).
Consideremos o cartório. Podemos distinguir nele diversos tipos 
de informações, como doações, testamentos, reconhecimento de dé-
bitos (dos mais diferentes tipos), quitações, vendas, aluguéis, contra-
tos de trabalho, procurações, arrendamentos, e ainda reuniões de 
ordens e irmandades, congregações religiosas, universidades, comu-
nidades etc. A linguagem e o tipo de relação documentadas valem 
como documentos históricos no sentido pleno da expressão: além de 
revelarem as relações entre dois ou mais sujeitos, têm, também por 
isso, um sentido cultural, na medida em que atestam um costume ou 
uma tipicidade.
Apresenta-se nesse ponto um problema técnico específi co: o de 
como recolher os dados e como elaborá-los — um problema que Le 
Couturier, em particular, discutiu há tempos e que induziu outros a 
declarar a morte do historiador-artesão. Não pretendo, porém, tra-
tar dessa questão, mas da organização “conceitual” dos dados, que é, 
de resto, anterior à questão citada.
Considero que o estudo das sociedades camponesas, do que cos-
tuma se chamar de antropologia das sociedades complexas, pode 
oferecer diversas sugestões e instrumentos conceituais operativos. 
Isso, mesmo tendo consciência de que o mapeamento documental 
das relações interpessoais corresponde apenas aproximadamente à 
pesquisa de campo.
De resto, a rápida expansão dos estudos das comunidades euro-
peias nos anos 1960-1970 e na década corrente colocou o problema 
específi co da utilização das fontes históricas. W. A. Douglass (1975), 
comentando alguns desses trabalhos, insiste em que os dados do 
antropólogo não são apenas “o fl uxo da vida social assim como se 
desenrola diante dos olhos do observador participante”. O trabalho 
de campo é, em geral, breve demais, não podendo seguir direta-
mente os muitos ciclos de atividade que caracterizam mesmo as me-nores comunidades, o que justifi caria o recurso a enquetes, técnicas 
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25de amostragem, entrevistas informais e diretas, documentos escri-
tos. O que distingue a antropologia das outras ciências humanas, 
portanto, não é tanto a metodologia, mas a ênfase característica na 
abordagem holística para o estudo do comportamento humano, não 
obstante o fato de que, por óbvias razões heurísticas, seja sempre 
necessário impor limites para demarcar a pesquisa em curso. Dou-
glass sustenta a complementaridade entre trabalho histórico e traba-
lho antropológico; Davis, autor de uma pesquisa sobre Pisticci, fala 
a respeito de um “uso criativo da história”. O que ele entende por 
isso fi ca claro no capítulo 6 do seu People of the Mediterranean (1976). 
É difícil, contudo, encontrar desenvolvimentos ou exemplos poste-
riores desses temas e outros semelhantes, na medida em que se trata 
de uma questão que comporta uma correspondente defi nição do 
trabalho histórico que não o considera apenas, de modo redutivo, 
como a simples utilização de fontes escritas. Cole e Wolf (1974) de-
fi niram a relevância da história a partir da experiência de campo: 
“uma história das estruturas relevantes para a nossa zona, o seu de-
terminar-se no tempo e as suas relações recíprocas”.
Nós nos colocamos no outro extremo dessa perspectiva de com-
plementaridade. Mas é claro que não se trata de estabelecer uma 
relevância correspondente do presente com o passado, mas, por as-
sim dizer, de uma relevância “analógica”, que cria a possibilidade do 
emprego de conceitos e esquemas heurísticos ligados à supracitada 
abordagem holística e que tem consequências radicalmente críticas 
em contraposição a certos parâmetros setoriais que governam a pes-
quisa histórica e distinguem os campos de investigação — o políti-
co, o econômico, o religioso, o demográfi co, o social etc. —, fre-
quentemente correlacionados a disciplinas científi cas específi cas — a 
ciência econômica, a demografi a...
Problemas como aquele, de caráter histórico-demográfi co, do 
planejamento familiar em uma sociedade camponesa de ancien régime 
evocaram recentemente elementos de necessidade, de coerção cul-
tural no âmbito familiar e social que podem se revelar congruentes 
com modelos de explicação geral, como o do “familismo amoral” 
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26 de Banfi eld (1958) ou o da “imagem do bem limitado” de Foster 
(1965). O historiador volta sua atenção mais insistentemente para os 
elementos de necessidade econômica, embora dirija sua análise tam-
bém para o problema da distância entre os matrimônios no interior 
da família, considere as fases críticas do ciclo familiar, examine as 
práticas de sucessão hereditária e coloque em relevo seu papel con-
dicionante. Nesse campo, pode-se dizer, de todo modo, que o en-
contro entre os historiadores e os antropólogos já está acontecendo. 
Mas, se a verifi cação do comportamento factual é comum às duas 
disciplinas, uma característica parece permanecer distintiva no caso 
do antropólogo: a projeção cultural mais ampla. Pensemos, por 
exemplo, no signifi cado que o “ciclo de sucessão hereditária” assu-
me no citado trabalho de Cole e Wolf, na dicotomia que ele propõe 
entre ideologia e prática e, juntamente com isso, na relevância da 
distinção ideológica — primogenitura em São Félix, divisão iguali-
tária em Tret — para a organização das relações sociais nas duas al-
deias alpinas como um todo. Esse é um indubitável benefício do 
trabalho de campo: a possibilidade de se colher imediatamente as 
conexões entre fenômenos diversos, entre o problema que é objeto 
de análise e “o resto”, lá onde o historiador parece destinado a jus-
tapor uma série de análises distintas: o que não impede, analogica-
mente, que este último planeje e oriente sua estratégia analítica geral 
(e sucessiva).
Por outro lado, é verdade que o modelo cultural geral pode pri-
vilegiar um diagnóstico sintético e intuitivo, não plenamente cir-
cunstanciado pelas análises e, portanto, eventualmente preconcebi-
do. De todo modo, também a elaboração de temas como o papel da 
inveja como mecanismo de controle social ou os valores de honra e 
vergonha no processo de conformação da comunidade podem mos-
trar-se pertinentes considerando-se diretamente a qualidade das re-
lações interpessoais, mais difíceis de serem reconstruídas no domí-
nio da história. Pelo menos na falta de sua precisa institucionalização 
e guardadas, de todo modo, as possibilidades de “revelações” (sobre-
tudo nos documentos judiciários). Caracteristicamente, o historia-
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27dor trabalha com muitos testemunhos indiretos: nessa situação, o 
documento excepcional pode ser extraordinariamente “normal”, 
precisamente por ser revelador.
Sem dúvida, a orientação sincrônica comum às duas disciplinas 
sugere uma epistemologia funcionalista: o próprio tema diacrônico 
do ciclo familiar postula a reprodução cultural “simples” da socieda-
de que de algum modo resulta entifi cada na sua estrutura. Desse 
ponto de vista, não basta considerar uma tipologia das comunidades 
— como fez Wolf —, o que, apesar de ser um modo indireto de 
acolher o princípio da transformação (confronto de uma morfologia 
que postula a passagem de um tipo a outro), resolve analiticamente 
o problema dos nexos indivíduo-sociedade. Do ponto de vista da 
antropologia social, essa é a instância do assim chamado “individua-
lismo metodológico”.2 Da perspectiva histórica, pode-se supor que a 
justaposição das análises não aconteça de forma congruente e unidi-
recional, mas multidirecional, fazendo registrar margens estatísticas 
de desvio quanto ao signifi cado indubitável das congruências ou 
correlações. O próprio historiador-demógrafo registra fenômenos de 
divergência, com relação à continuidade de residência e endogamia, 
nos vértices e na base da comunidade. Todavia, divergências simila-
res de comportamento valem sobretudo para qualifi car os grupos 
sociais, isto é, para evidenciar regularidades diferenciais. Isso não 
impede que, por algum aspecto, a verifi cação das correlações não 
seja unívoca no interior de um grupo (qualifi cado pela correspon-
dência das outras), permitindo a identifi cação de fenômenos de des-
vio como elementos inovadores ou desagregadores, ou simplesmente 
marginais, da cultura da comunidade. Um modelo de divergência de 
grupo nos vértices da comunidade (sendo a exogamia e a mobilidade 
de residência certamente alguns desses elementos) exprime um típi-
co conceito antropológico, o do elite-broker, isto é, um mediador en-
tre a comunidade e a sociedade mais ampla: posição que tem uma 
importância estratégica fundamental para o sistema político local. 
2 Ver ensaios reunidos (após a redação original deste texto) em Barth (1981).
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28 Não menos importante, a característica qualifi cação da sociedade 
camponesa como “sociedade e cultura parciais”3 não se limita ao fato 
dessa mediação. As alternativas “econômicas” que interessam a toda 
comunidade postulamum brassage demográfi co de variada relevância 
e, sobretudo, formas de mobilidade não defi nitivas, frequentemente 
ligadas à idade e diferenciadas pelo sexo.
Desse ponto de vista, como de outros, a história das sociedades 
europeias redescobre, aprofundando as tradições folclóricas, as cons-
tantes de uma estrutura social distinta por sexo e grupos etários.4 
Assim como a história rural europeia parece indicar a extraordinária 
constância das associações territoriais — agregados de vizinhos não 
necessariamente aparentados —, solidárias na execução de certos ob-
jetivos, como a repartição, a disposição ou a provisão de recursos de 
interesse comum. “Uma das máximas contribuições da pesquisa eu-
ropeia à antropologia social — escreve S. Freeman [1973] — poderia, 
acredito, derivar de um estudo amplo, histórico e etnológico das 
formas de organização comunitária.” Daí o interesse pelo estudo das 
formas de ocupação do espaço e a possibilidade de traçar um quadro 
móvel e funcionalmente diferenciado das referências socioterrito-
riais. De fato, a estrutura social tem necessariamente uma relevância 
espacial defi nida: como tal, é mais bem caracterizada a partir de 
relações que indiquem homogeneidade (por exemplo, a troca matri-
monial) ou de outras que indiquem assimetria (como, em geral, a 
troca econômica).
O interesse por instituições como a clientela e o parentesco ritual 
— mais bem exploradas até agora pelos antropólogos — deriva do fato 
de elas permitirem fazer o mapeamento das relações interpessoais, 
tanto verticais, quanto, no caso do parentesco fi ctício, horizontais, e 
talvez ambos, pelo menos no contexto mediterrâneo, relações mais 
bem enquadráveis na fórmula do “contrato diádico”.5 De fato, essas 
relações postulam uma troca que, em alguns casos — como nos de 
3 Ver Kroeber (1948).
4 Ver Davis (1975); e Castan (1974).
5 Ver Foster (1965).
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29empréstimo de dinheiro —, pode ser sistematicamente documentada. 
A dilatação dessas relações para além do espaço da comunidade amplia 
por isso mesmo a dimensão territorial da estrutura social para o nível 
de uma assimetria fundamental intracomunitária, o que não exclui o 
aprofundamento analítico da estrutura específi ca da comunidade su-
balterna. O confl ito político, assim como, por outro lado, a festa, pa-
recem momentos de revelação da estrutura social subjacente, já exaus-
tivamente mapeada com base na reconstrução sistemática das relações 
interpessoais. As análises tipicamente antropológicas do ritual e do 
simbolismo descobrem assim toda a sua relevância analógica para a 
pesquisa histórica.
3
Uma vez que a ciência econômica constituiu até agora um suporte 
privilegiado para a pesquisa histórica, parece-me útil mostrar as im-
plicações da abordagem acima ilustrada em confronto com tal “or-
todoxia”.
Cito uma súplica do fi nal do Seiscentos, na qual a comunidade de 
Monterosso — hoje pertencente à província de La Spezia —, sujeita 
às méte (impostos) aplicadas por Gênova ao vinho rossese, típico do 
lugar e um de seus poucos recursos, protesta contra o fato de que 
eram sempre os mesmos mercadores que iam ao burgo, que eles 
ofereciam tecidos velhos e grãos estragados a preços fi xados por seu 
próprio arbítrio, em troca de um vinho com preço defi nido pela 
administração. Em termos de análise econômica, a assimetria da 
troca deriva de um jogo oferta/demanda livre contra um jogo de-
manda/oferta prefi xado. Mas a “liberdade” do primeiro continua 
sendo uma função da estreiteza do mercado, o que é absolutamente 
normal em uma sociedade pré-industrial: o mercado não só é restri-
to, como também ocasional, e tal ocasionalidade está estritamente 
ligada “àqueles” mercadores. Que o preço do grão seja fruto de uma 
relação oferta/procura é no mínimo tautológico: de fato, pode-se 
assumir preliminarmente que seja assim, mas isso não quer dizer que 
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30 a análise processual da relação deva ser posta de lado. Os pobres vi-
nhateiros de Monterosso estavam cobertos de razão ao apresentarem 
sua situação em termos de uma relação interpessoal: não podiam 
esperar outros mercadores e, portanto, não tinham alternativas. Os 
mercadores “acrescentavam” a seus produtos um lucro ad libitum, 
exatamente como costuma acontecer, mas nesse caso não era possí-
vel contrapor uma contratação, que contrabalançaria em alguma 
medida o preço do rossese: e essa era, de fato, a variação-chave com 
respeito ao costume que resultou no protesto e na exigência, utópi-
ca, de outro tipo de relações interpessoais, que, enquanto tais, não 
estavam em questão. Como disse alguém, não existe troca que não 
seja desigual, e é por isso que as relações de troca são um sinal essen-
cial da articulação e da estrutura social.6 Isso volta a se ligar com o 
que foi observado no parágrafo precedente. Mas o caráter excepcio-
nal do protesto, motivado pela inovação das méte, induz a postular 
uma adaptação, em tempos “normais”, à situação de troca.
Os camponeses tinham necessidade de grãos e não tinham nada a 
oferecer senão seu vinho. No caso específi co, parece não ter existido 
uma elite de negociantes locais (brokers ou intermediários com a so-
ciedade mais ampla), mas não há dúvida de que, sendo recorrentes 
essas visitas periódicas, criaram-se relações pessoais de mão dupla 
entre compradores e vendedores que poderiam incluir a possibilida-
de, talvez mais difícil no caso de mercadores visitantes, de compen-
sações no tempo. Considerando que os dados da situação de troca 
eram elementares, é razoável supor que a novidade administrativa se 
resolvesse na possibilidade de obter menos grãos com a mesma quan-
tidade de vinho do ano precedente — abstraindo, no que diz respei-
to às variações de produção que certamente aconteciam, a solidarie-
dade entre os próprios negociantes (o monopólio dos compradores).
Uma troca natural, portanto, mas reconduzida às medidas mone-
tárias (condicionantes dos preços da méta). Essa era certamente uma 
constante importante nas transações comerciais pré-industriais e 
6 Ver, entre outros, Mintz (1971).
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31que acabava por reforçar o elemento pessoal da transação, ligado 
também ao costume eventual de diferir e resolver no tempo as com-
pensações monetárias. Apesar de tudo, a possibilidade dessas solu-
ções era limitada, dadas as diversas urgências de vender e comprar 
entre produtores e produtores, bem como de produtores e negocian-
tes, que acabavam por favorecer a consolidação de uma elite de no-
táveis, capazes de generalizar as próprias posições de privilégio eco-
nômico: grandes proprietários, negociantes e transportadores. É 
possível intuir assim a possibilidade de haver uma correspondência 
entre clientela e endividamento. E é evidente que se torna muito 
difícil fazer distinções entre relações sociais, relações econômicas e 
relações políticas: na base dessa afi rmação está o fato de que as rela-
ções de signifi cado “econômico” eram antes de tudo relações inter-
pessoais, de modo que não há motivo para privilegiar os esquemas 
da análise econômica no estudo dessas situações. Pode-se, por outro 
lado, considerar que o mercado mais amplo envolvesse sobretudoos 
grupos dirigentes (que assumiam uma função de “mediação”) e ape-
nas indiretamente os subalternos, sobre os quais os dirigentes po-
diam descarregar eventualmente o peso da conjuntura negativa, mas 
sempre em circunstâncias e segundo avaliações que não podem ser 
reduzidas à simples “racionalidade econômica”. A análise e a relação 
entre os preços estão, assim, inseridos nessa dimensão, assinalando 
crises imprevistas da estrutura social, deslocamentos de solidarieda-
de, emigrações etc. Como se apontou antes, as fontes cartoriais (e os 
documentos judiciário-civis) nos permitem reconstruir essas estru-
turas de dependência: se a transação mercantil não aparece senão 
raramente como tal, mais regular é a certifi cação ou a quitação de 
um débito, de modo que, muitas vezes, a liquidação de um débito é 
condição para um novo crédito. Os inventários post mortem (sobre-
tudo os redigidos para a divisão de bens comuns entre fi lhos) nos 
permitem, através dos registros dos créditos, mapear a clientela de 
um notável, e essas relações específi cas podem ser investigadas de 
geração em geração. A relação pode mudar de qualidade: os débitos 
podem ser consolidados em uma renda ou em uma venda que têm 
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32 por garantia e objeto, em primeiro lugar, a terra, de modo que o 
ex-proprietário torna-se um locatário ou arrendatário.
Examinado analiticamente, o mercado de terra evidencia não 
apenas — como mostrou Giovanni Levi (1976) — as lógicas dos 
ciclos familiares, mas também as divergências nos diversos níveis do 
objeto da transação. Chaianov (1966) nos explicou bem que o preço 
não corresponde ao valor da renda capitalizada. Diremos com ele 
que o preço é simplesmente uma função da demografi a e, portanto, 
uma vez mais, da demanda? Considerando processualmente o es-
quema “vertical” que acabamos de delinear acima, esse não me pa-
rece ser o caso. A fi cção do jogo equilibrado entre oferta e demanda 
torna-se, nesse caso, digna de riso. Com efeito, é preciso considerar 
se a análise econômica adquire maior signifi cado quanto mais as 
referências a procura e oferta assumem caráter de “massa”, e que 
possibilidades estratégicas daí derivam. De todo modo, não se pode 
abandonar completamente e com a consciência tranquila o patrimô-
nio de racionalização interpretativa dos processos sociais e a com-
preensão do curso da história que essa racionalização permite.
Naturalmente, porém, a troca de bens e serviços tem também 
suas dimensões horizontais. Em particular, é essa a dimensão carac-
terística da reciprocidade camponesa, entendida mais frequente-
mente como reciprocidade prolongada de serviços (trabalho), um 
fenômeno mais difícil de ilustrar historicamente. Mas as transações 
horizontais vão além dessas trocas, como se evidencia hoje em mui-
tas sociedades camponesas, nas quais a intermediação é particular-
mente desenvolvida e uma série de ligações diádicas preferenciais 
solidifi ca os canais de comércio através da institucionalização de re-
lações interpessoais.7 É óbvio que essas práticas difi cilmente podem 
ser encontradas no registro cartorial, onde, todavia, é possível en-
contrar transações minúsculas que dizem respeito não só a pequenas 
porções de terra, mas também à repartição de animais, assim como 
a débitos mínimos. São registradas, particularmente, as transações 
7 A pratik haitiana de S. Mintz (1961).
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33de dote: a troca cruzada de despesas que permite economizar dotes 
representa para os mais pobres uma forma de reciprocidade rigoro-
samente balanceada.
Podemos imaginar facilmente diferenças e limites entre as distin-
tas comunidades, como consequência da penetração diversa da eco-
nomia mercantil e, portanto, do papel diverso da autossubsistência: 
o que pode signifi car também que certas transações encontrem, nos 
distintos casos, objeções culturais. Como escreveu D. Riches, em 
Man (1975): “a proteção do setor de subsistência é a base provável 
para a ideologia de muitas economias camponesas com relação às 
esferas de troca”. Com efeito, o conceito antropológico de esferas de 
troca tem possibilidade de generalização também em uma economia 
monetária em que, por exemplo, as transações de alguns bens com-
portem a sua resolução no âmbito do sistema de crédito, enquanto as 
transações de outros bens comportem o emprego imediato de moe-
da, de modo que, uma vez sabidos quais são os bens protagonistas 
dessas trocas, têm-se duas esferas de intercâmbio relativamente dis-
tintas. Essa pode ser indicada como uma terceira linha de defesa da 
sociedade camponesa, depois da defesa da autossubsistência, que 
comporta uma orientação produtiva articulada e a desaprovação 
cultural de transações que lidem com bens alimentares de base, e 
depois a troca horizontal que opera frequentemente como forma de 
mutualismo (S. Mintz). Isso no quadro de uma resistência comum 
das sociedades camponesas a uma monetarização radical das trocas 
que lhes interessam.
Considerando a sociedade agrária como um todo, a historiografi a 
econômica coloca como fundamental o problema da relação entre 
população e recurso e, em geral, utiliza ampla escala territorial (de 
região para cima). Daí a construção ex-post de uma hipótese home-
ostática fundada no malthusianismo. No nível microanalítico que 
aqui se propõe, pode ser colocado o problema das unidades domés-
ticas singulares que investem trabalho (não contabilizável em termos 
monetários) e obtêm bens destinados, em parte por meio da sua 
conversão de mercado, à defesa e à reprodução do status tradicional. 
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34 Na medida em que tal “status” é defi nido culturalmente a partir de 
termos eminentemente relacionais, são as formas de organização so-
cial da comunidade que estão em questão e que têm, por conseguin-
te, relevância “econômica”. Ainda que a base produtiva seja restrita 
e atomizada e origine, em parte, atitudes culturais, está presente, 
entretanto, uma solidariedade de destinos que explica em última 
instância as formas de integração social. Sahlins mostrou como a 
aplicação do modelo de Chaianov (defi nido pela evolução da ratio 
consumidores-produtores segundo o ciclo de desenvolvimento do-
méstico) não explica a continuidade de algumas sociedades simples, 
que se torna então inconcebível sem a presença de formas institucio-
nalizadas de coparticipação (Stone Age Economics, 1975);8 um modo 
de evidenciar o caráter “econômico” da estrutura social. Nas socie-
dades complexas, a mobilidade dos recursos de apoio ou substituti-
vos cresce por meio da intensifi cação do trabalho, diversifi cação da 
forma de exploração dos recursos, oportunidades “externas” (traba-
lho, mercado). Em outras palavras, a comunidade — se é verdade 
que a família pode em certa medida controlar as suas próprias di-
mensões — pode adaptar-se e assegurar a sua sobrevivência de mui-
tos modos. O que signifi ca que a necessidade de chegar a uma irre-
parável e fatal “contradição” entre a comunidade e os recursos que 
dispõe não é necessariamente automática e inevitável, isto é, deverá 
ser verifi cada nas diversas situações. A dramática dialética entre po-
pulação e recursos que serve como explicação dodesenvolvimento 
histórico é uma simples hipótese que, além de tudo, é inverifi cável 
na escala territorial em que foi colocada. Tanto isso é verdade que E. 
Boserup (1970), em Evolution agraire et pression démographique, pôde 
apresentar de modo inteiramente plausível a hipótese oposta. Com 
efeito, ela é representativa da tese que se afasta de outra grande pro-
jeção histórico-etnocêntrica da “civilisation” europeia: o desenvol-
vimento entendido como o triunfo progressivo do mercador, do 
mercado e da cidade. 
8 Sahlins, 1972.
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Retornamos assim ao tema inicial deste artigo. Se Romanelli de-
nunciava a ancoragem das perspectivas historiográfi cas contemporâ-
neas em um modelo unívoco e pouco “elástico”, podemos, acredito 
que com razão, sustentar que se tratam de perspectivas historiográ-
fi cas gerais, largamente condicionadas pela economia como “ciência 
social mais avançada”. A “perda de sentido” é a recusa de um sentido 
largamente pré-constituído, “ideológico” nesta acepção. 
O que se desenha, de modo mais ou menos explícito, é a recondu-
ção da história a uma contextualização e a uma vocação analítica em 
que o objeto da análise é basicamente indicado pela série ou a rede 
das relações interpessoais. Daí a escolha de uma sociedade em escala 
reduzida como é a aldeia camponesa, uma opção guiada, sem dúvida, 
pelo exemplo paralelo da antropologia. Em princípio, a escolha po-
deria cair também sobre um bairro urbano. Mas mesmo prescindin-
do da escala da sociedade indicada, que satisfaz ao menos teorica-
mente a “virtù” da abordagem holística, acredito que a abordagem 
conserva sua validade como perspectiva geral de história social, onde, 
em minha opinião, a estrada mestra é indicada pelo estudo dos com-
portamentos ou das relações interpessoais (como paradigma de refe-
rência). Obviamente, para a época contemporânea é mais abundante 
a documentação quantifi cada ou quantifi cável, enquanto provavel-
mente se perde em parte o benefício das convergências locais da do-
cumentação como material imediatamente utilizável para os fi ns das 
reconstruções prosopográfi cas. Mas isso quer dizer, como é mostrado 
pelos exemplos já indicados, que análises mais seccionais e rigorosas 
podem ser multiplicadas.
Assim, a microanálise social liga-se mais ao caráter da base de 
dados examinada do que à dimensão da área social enquanto tal. 
Nesse sentido, não há por que haver ruptura entre história medieval 
e história contemporânea no plano teórico e metodológico. Ao con-
trário, aquilo que nós registramos hoje é um hiato gigantesco nos 
critérios de relevância da produção historiográfi ca; em um setor se 
premia a novidade histórico-analítica; no outro, ao menos na Itália, 
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36 predomina uma expectativa de síntese político-ideológica que des-
carta sistematicamente os processos sociais, considerando-os dedutí-
veis e reconhecíveis por meio de uma grade de teses e temas que são, 
frequentemente, uma mistura de “ideias recebidas”. 
É signifi cativo que a antropologia, mesmo tratando necessaria-
mente de sociedades contemporâneas, venha sendo, há bastante 
tempo, capaz de estimular, sobretudo, a história medieval e mesmo 
a história antiga. E isso não pode ser atribuído à correspondência do 
objeto (sociedades relativamente mais “simples”). De fato, o mesmo 
problema da social change foi discutido e ilustrado analiticamente pe-
los antropólogos. E o que pode ser a história contemporânea senão 
uma história das transformações sociais? E por que deve ser o agre-
gado-nação e não a comunidade, ou a cidade, ou o ofício, o lugar de 
eleição para o estudo dessas transformações?
No fundo, a argumentação que procurei ilustrar nesta interven-
ção equivale à defesa de um princípio: que a história social é a his-
tória das relações entre pessoas e grupos. O problema posterior e 
fundamental da identifi cação dos conceitos e das possibilidades ope-
rativas, que foi aqui desenvolvido de modo muito parcial, pode ser 
enriquecido indefi nidamente. Me parece indubitável que, no âmbi-
to da vida social contemporânea, tais possibilidades podem apenas 
crescer e jamais diminuir, mesmo que não utilizemos as indicações 
da história oral (das quais, é claro, não há motivos para prescindir). 
O crescimento da “administração” multiplicou as observações e le-
vantamentos, e inumeráveis depósitos de documentação (seccional, 
funcional ou de associações), hoje destinados ao descarte, são per-
feitamente capazes de se tornar objeto de imprevistas iluminações 
histórico-analíticas.
Assim, o objetivo de uma historiografi a social contemporânea é 
o de conquistar a distância cultural da sociedade que estamos viven-
do, de objetivá-la nos seus conteúdos de relação, de reconstruir a 
evolução e a dinâmica dos seus comportamentos sociais. 
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2
Paradoxos da história contemporânea*
Edoardo Grendi
A história contemporânea é, pelas próprias características do seu 
objeto, atravessada mais do que qualquer outra pelas várias perspecti-
vas das ciências sociais e pela miríade de interrogações da consciência 
presente. É paradoxal, portanto, que ao menos na Itália ela se apre-
sente como a mais repetitiva e a menos inovadora. Isso nos faz pensar 
que o historiador da idade contemporânea parte de um sistema con-
ceitual de certezas quase absolutas e considera o trabalho histórico 
não como uma operação analítica capaz de descobrir nexos signifi ca-
tivos e propor interpretações, mas como uma operação política su-
bordinada às suas certezas teóricas, e, assim, a uma interpretação ge-
ral e preconcebida que será sustentada ou, no máximo, enriquecida. 
∗ Tradução de Henrique Espada Lima. “Paradossi della storia contemporanea” foi 
publicado originalmente em maio de 1981, em uma coletânea intitulada Dieci interven-
ti sulla storia sociale, lançada pela editora Rosenberg & Sellier, em Turim (Itália). A 
origem do volume foi a organização das intervenções em um debate promovido pela 
editora sobre as tendências e instituições da história social e das classes subalternas na 
Itália. Edoardo Grendi, que havia escrito sobre o movimento operário inglês e o tra-
balhismo britânico, participou do debate, que incluiu ainda contribuições de Sergio 
Bologna, Gabriela Bonacchi, Federico Bozzini, Maurizio Carbognin, Vittorio Foa, 
Antonio Gibelli, Giovanni Levi, Dora Marucco, Luisa Passerini e Franco Ramella.
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40 O estatuto da história não é nem mesmo colocado em discussão: 
o historiador é um especialista que deve explicar o passado e respon-
der à banal questão: “Como chegamos aqui?”. Mas aqui onde? O 
advérbio é, na verdade, caracteristicamente opcional e capaz de ditar 
escolhas de relevância absoluta: a sociedade democrática, o capitalis-
mo maduro, o partido, a vanguarda. Imaginemo-nos no dia seguin-
te à catástrofe nuclear. A interrogação será a mesma, mas é fácil in-
tuir que a escolha das relevâncias seria diferente, ou ao menos isso 
podemos desejar aos sobreviventes.
A noção do “aqui” é sempre uma noção retórica, assim como é 
retórica a sua projeção educativo-política: assume-se que o indiví-
duo, o estudioso, o cidadão, ampliariam em alguns centímetros a 
sua consciência se tivessem conhecimento de “como chegamos 
aqui”. Noção retórica, como disse, na medida em que tem uma ca-
pacidade de dilatação infi nita no espaço e no tempo retrospectivo da 
“grande história” e postula uma escolha de escala não reversível, 
ainda mais clamorosa porque o único “aqui” histórico simples é a 
personalidade do indivíduo singular, a própria biografi a. 
Por outro lado, o objeto se torna, sub-repticiamente, a civilização, 
e a retrospectiva é o desenvolvimento, seja qual for seu sentido, posi-
tivo ou negativo, sejam quais forem as contradições. E a seletividade 
teleológica do tema da civilização segue normalmente como um tra-
tor, é perfeitamente congruente com os parâmetros curriculares (e 
com as orientações políticas), absorve e unifi ca, na celebração das 
sínteses, os milênios da conquista cultural: a matemática dos babilô-
nios, a fi losofi a e as artes dos gregos, a lei dos romanos, os bispos, os 
monges e os mercadores da Idade Média, a arte e a política do Renas-
cimento, as descobertas geográfi cas, a revolução científi ca, as institui-
ções políticas, a revolução industrial, a revolução proletária. Na práti-
ca é uma proposta de aculturação ao nosso eurocentrismo mais 
comum: este é o verdadeiro sentido da história como disciplina insti-
tucional. E o historiador é o funcionário desta instituição, um funcio-
nário que se considera “cientifi camente” resguardado, proclamando 
que a história deve, de todo modo, ser novamente escrita a cada gera-
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41ção. O mecanismo da seleção cultural opera de forma perfeitamente 
paralela ao mecanismo da exclusão. A opção da grande escala espaço-
temporal responde bem a esta exigência. Qualquer sistema social ad-
quire, de fato, em uma perspectiva interpretativa diacrônica, uma 
hiper-racionalidade própria, obtida da distribuição do poder no inte-
rior do próprio sistema. Seja qual for a confl itualidade, o que conta é 
o seu êxito e esse responde à lógica de uma organização posfactual 
dos acontecimentos. Curiosamente, podemos imputar ao historicis-
mo um defeito análogo àquele imputado ao funcionalismo: “tudo se 
sustém mutuamente entre si”, tanto em um caso como no outro. En-
quanto a chave funcionalista organiza “todo o empírico” segundo a 
teleologia do equilíbrio, a chave historicista organiza teleologicamen-
te as relevâncias (os Estados, as relações de produção) segundo uma 
sucessão lógica, expelindo todo o resto e limitando-se, assim, a regis-
trar a confl itualidade (afi rmada, mas nunca analisada). 
Os contemporaneístas aparecem como as vítimas predestinadas 
deste estatuto da história, mesmo quando não praticam o exercício 
conhecido como “cavalgada nos séculos”: a verifi cação pontual está 
no fato de que eles respondem muito raramente às indagações do 
presente (exorcizadas como o “campo das ciências sociais”), privile-
giando invariavelmente as questões ideológico-políticas. Quando 
não são deputados, ministros ou prefeitos, não por acaso estão am-
plamente envolvidos nas instituições de informação ( jornais, televi-
são), as mesmas que enfatizam a relevância do mundo dos partidos 
políticos, aspirando assim, paradoxalmente, a uma hegemonia tam-
bém cultural. O macroteleologismo historiográfi co é o ponto de 
conexão dessa homogeneidade.
Mas consideremos empiricamente o trabalho histórico corrente. 
É muito mais normal e frequente que sejam os historiadores medie-
vais e modernos a escolher temas mais variados, a abrir novos can-
teiros de pesquisa, em outras palavras, a descobrir novas fontes e 
novos objetos, a verifi car hipóteses e questões novas, a renovar, tal-
vez graças à inspiração de disciplinas irmãs, o aparato conceitual e as 
interpretações. O padrão científi co do trabalho, nesse caso, é referi-
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42 do à sua qualidade analítico-imaginativa, capaz de elevar o estudo 
singular a um valor ilustrativo geral. Não está mais em questão uma 
síntese que não se fará jamais, e um trabalho histórico pode vir a ser 
discutido, contestado, imitado, mas não refeito a cada geração. A 
história termina por ser redimensionada a uma experiência cognos-
citiva como as outras, com os mesmos elementos de gratuidade, a 
mesma amplidão de opções temáticas, a possibilidade absolutamente 
livre de selecionar e organizar as relevâncias. De resto, não se vê 
porque o historiador deveria condenar-se a uma perpétua esquizo-
frenia: ocupar-se de cadastros, fontescriminais ou greves singulares 
e depois disso refazer ou repetir o enésimo manual, voltando a con-
tar o costumeiro périplo secular do homem. E pelo menos neste caso 
estamos diante de um contraste entre diferentes estatutos da histó-
ria. O contemporaneísta parece ignorar esta antinomia: o episódio 
individual vem de tal modo carregado de valores ideológicos que 
nem mesmo interessa mais enquanto tal, não se torna campo espe-
cífi co de análise. 
Dentro deste campo da história contemporânea, a escolha entre as 
interrogações mais ou menos relevantes já está feita, assim como o 
esquema das relevâncias explicativas está já predefi nido. Podemos 
falar, acredito, também de uma orientação ideológica, desde que por 
isso não entendamos equivocadamente uma acusação de parcialidade 
e se tenha presente que a crítica refere-se antes ao tipo de orientação 
mental que a ideologia representa quando opera como omnicompre-
ensividade de categorias prontas para o uso, isto é, para o enquadra-
mento dos fatos e fenômenos históricos. Os temas mais comuns são 
o événémentiel, a instituição ou o debate ideológico: tudo dentro de 
uma estrutura analiticamente esgotada e dominada pelas classes e 
pelos partidos, que reproduz o debate político, ou seja, uma das ma-
nifestações mais deprimentes do nosso tempo (os discursos de Moro, 
as entrevistas de Berlinguer, em meio ao esotérico e o oracular).
Pode-se dizer, a propósito da orientação macroteleológica, que 
toda sociedade civil é autocelebrativa, e o mesmo vale para toda ins-
tituição interessada naquele etnocentrismo do qual tira sua autojusti-
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43fi cação. A história, e sobretudo a história contemporânea, está com-
pletamente envolvida nesta celebração de idola. Não está em questão 
uma oposição entre macro e microanálise. Ninguém gostaria de ne-
gar o signifi cado da macroanálise — mormente em uma época em 
que as estruturas de interdependência entre fenômenos diversos em 
escala mundial parecem tão evidentes — como referência aos mode-
los interpretativos da politologia e a economia enquanto suportes 
analíticos. Em todo caso, devemos concordar que a função da mode-
lística não é a de mecanicamente simplifi car, reduzindo realidades de 
relações a simples nexos de causa-efeito: exatamente porque um mo-
delo é válido enquanto propõe uma articulação de variáveis, fi ca 
evidente que os objetivos analíticos são somente alcançados através 
da reconstrução das relações em cadeia que não deduzam as muta-
ções do impacto externo, mas as verifi quem criticamente sobre o 
corpo social e cultural que é objeto da própria transformação.
O tema bem-sucedido da economia-mundo, apontado por Brau-
del como justifi cativa para uma macroanálise histórica (e, não por 
acaso, serializado pelos mass media em uma sucessão de imagens ex-
clamativas sobre o homem europeu), arrisca-se, me parece, a resol-
ver-se em um grande afresco de racionalização posfactual, isto é, 
uma geopolítica descritiva do intercâmbio desigual, sem que seja 
colocado o problema da mudança social que, no entanto, foi propos-
to aos economistas do crescimento pela densidade das realidades so-
cioculturais (“etnológicas”). A perspectiva da grande escala espacial, 
combinada à grande escala temporal, parece fatalmente propor uma 
teleologia da “civilisation”, com fi nalidades ideológico-políticas. E a 
instituição educativa encarrega-se de transmitir o conforto desta 
pseudoconsciência: como “missão” e não segundo esquemas de hi-
póteses-verifi cação didáticas. E é por meio deste ângulo de visão que 
o historiador se faz funcionário, e o seu papel de aculturador se dila-
ta universalmente, corifeu das instituições e da sociedade civil.
As ambiguidades de tal papel são inesgotáveis. O romancista quer 
ser lido, mas essa escolha é voluntária; o cientista, por outro lado, 
move-se entre a elaboração analítica e as verifi cações empíricas, e 
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44 ainda que marginalizado, seu papel parece encontrar um consenso 
unânime. O historiador oscila entre a gratuidade de um trabalho 
sem leitores e a sacralidade ridícula de um educador geral que se 
subtrai às verifi cações concretas do seu papel didático. E isso é possí-
vel graças a um genérico consenso retórico inteiramente superfi cial. 
Fora destas antinomias, me parece que vale a pena desenvolver as 
implicações de um estatuto alternativo para a história. No que diz 
respeito ao mercado, o exemplo francês sugere que o público prefere 
histórias particulares, histórias de momentos e episódios individuais, 
biografi as, o que de algum modo assimila o historiador ao papel do 
romancista. E sobre o terreno da didática deve-se observar que ne-
nhuma matéria de ensino é mais distante da fórmula de “laborató-
rio” quanto a história, que propõe um confronto com uma narrativa 
que não pode descompor-se como se descompõe o texto literário, e 
que também não é suscetível de ser discutida logicamente, como se 
faz com o texto fi losófi co. As ênfases alternativas são ou a tradicional 
acentuação pragmática do protagonismo, ou o exercício de uma 
complexidade com um fi m em si mesmo, ou o incentivo à curiosida-
de: todas operações confi adas ao capricho (ou mesmo à preguiça) do 
docente. É provável que a história com estatuto analítico possa cons-
tituir uma referência idônea para a refundação da didática. E isso vale 
também para a sociedade contemporânea, em que a retórica se torna 
cumplicidade (ou seja, estupidez, e em proveito oportunista). 
A proposta da microanálise histórica tem aqui, claramente, um 
sentido provocador, ou pelo menos, como se viu, um certo efeito de 
provocação. Observemos, entretanto, que está em operação uma 
certa convergência de avaliações que se dirigem ao micro: cito o 
recente boom de histórias da família, o modelo de uma história social 
como prosopografi a generalizada, a técnica de estudo fundamentada 
na análise de microepisódios e na reconstrução de biografi as ilustra-
tivas, as “histórias de vida”. Um único episódio da crônica do coti-
diano pode fornecer elementos para a determinação das estruturas 
de uma sociedade: o que vale dizer que o repetitivo, a estrutura, não 
é determinado pelo cálculo, já que normalmente este se funda sobre 
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45elementos que emanam dos processos de relação. Nesse sentido, é 
preciso redescobrir toda a utilidade das fontes qualitativo-narrativas, 
ou seja, da crônica do passado.
A escolha de escala da microanálise é exatamente em função dos 
objetos analíticos propostos, isto é, as relações interpessoais: isso vale 
para os grupos sociais e para as comunidades. A opção pela segunda, 
que constitui o nexo de correspondência entre o agregado social e o 
espaço, é feita em função de uma mais completa reconstrução das 
estruturas de dependência internas, ainda que reconheça que se 
mantém em pé para este fi m também a relevância crucial dos papéis 
de mediação com a sociedade externa. A fi delidade ao contexto tem 
um signifi cado heurístico preciso: antes de tudo possibilita a recons-
trução em termos dinâmicos da estrutura social que postula um sis-
tema de papéis, e papéis inovadores, permitindo assimestudar con-
cretamente a mudança social.
Em segundo lugar está a análise da estrutura política, que se en-
contra vinculada a um nexo complexo constituído por sentimentos 
de identidade coletiva, símbolos de prestígio, funções desempenha-
das, grupos formais e informais de gestão da universitas e da comuni-
dade, alianças parentais e familiares, a partir do elemento primário da 
instalação da habitação. Em terceiro lugar, as transações econômicas 
que incluem serviços e bens, e que postulam, do mesmo modo que as 
outras relações, continuidades, rupturas, compensações no tempo. A 
projeção sobre elas do modelo mercantil (demanda/oferta=preço) su-
põe um procedimento de abstração que corresponde a três perspecti-
vas fi ctícias: 1) a fi cção de que se trata de uma situação temporalmen-
te determinada; 2) a fi cção de que a transação seja o resultado de um 
confronto específi co; 3) a fi cção de que este confronto não tenha 
determinações espaciais. Partamos da hipótese de que a transação 
tenha por objeto um bem produzido, colocando-nos assim o proble-
ma de uma relação entre produtores e comerciantes: é claro que a 
pré-venda, a venda vinculada, as compensações débito/crédito etc., 
conferem às transações uma dimensão maior, que é de tempo médio; 
por outro lado, também é evidente que a razão da troca ocorre em 
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46 função da profundidade dessas mesmas transações, em uma circuns-
tância onde não estão presentes opções alternativas relevantes fora da 
área social dessa mesma troca. E é por todos esses elementos que o 
indício de uma transação assume um signifi cado revelador do con-
junto da estrutura social, entendida esta última, não por acaso, tam-
bém como uma pirâmide de rendimentos. 
Em quarto lugar, a cultura. A continuidade ou a renovação das 
formas expressivas coletivas constituem certamente um problema, já 
que se trata de compreendê-las e apreender seus signifi cados. Mas o 
problema central é o da função do fenômeno expressivo e, portanto, 
do seu signifi cado sociocultural contextual: apenas desse modo po-
deremos capturá-lo como orientação de valor. Naturalmente, tal 
expressividade não é apenas palavra, gesto ou rito, mas também ação 
social, violência coletiva, organização. 
Certamente a relevância destas temáticas não é válida apenas para 
os estudos do Ancien Régime. Seu signifi cado encontra-se, de fato, 
em um processo coerente que recoloca o problema do próprio sujei-
to histórico: se não sempre a comunidade (que pode ser uma comu-
nidade de produtores industriais-têxteis, de mineradores etc.), cer-
tamente o grupo social, pois trata-se sempre de tecidos de relações 
interpessoais inseridos em contextos sociais mais amplos. E tudo o 
que dissemos sobre a transação de um bem produzido vale também 
para o bem trabalho. Podemos realmente dizer que o preço/salário 
é fi xado por uma oferta/demanda de trabalho? Com certeza não 
pode ser provado ou negado que uma escolha voluntária tenha um 
papel na determinação do nível do salário. De resto, demanda e 
oferta confrontam-se em uma rede de relações interpessoais: por 
uma parte, formas diversas de delegação e subarrendamento a ter-
ceiros; por outra, os mecanismos muito humanos da imigração e da 
admissão, mais ou menos ligados entre si. E tudo isso cria a oportu-
nidade da intermediação, que é um tema inesperado. O proletário, 
por um lado, não é um trabalhador eventual, e isso oferece uma 
continuidade de referência com relação ao seu ambiente de trabalho, 
especialmente à fábrica, que lhe outorga então a ocasião para uma 
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47socialização específi ca, seja no nível do grupo de qualifi cação, seja 
no nível de agregados mais amplos.
Formalmente, o que temos que reconstruir são sempre as relações 
entre pessoas, tanto em sentido vertical quanto horizontal, o que 
equivale a uma análise dinâmica da estrutura social. Antes de uma 
teoria geral das classes sociais, o historiador deve verifi car uma teoria 
dos grupos sociais. Os modelos que lhe são oferecidos são altamente 
formais: isso exatamente para permitir apenas aquele amplo enqua-
dramento das evidências empíricas (etnológicas) necessário para 
operar as necessárias construções morfológicas. Não é por acaso que 
uma das propostas mais sugestivas e mais discutidas de história social 
tenha sido e seja aquela que enfatiza as relações entre os grupos fa-
miliares (ou de residência) e os grupos de trabalho, quer tendo como 
referência uma situação regional de protoindustrialização, ou, sobre-
tudo, uma situação de industrialização. De fato, o estudo dos grupos 
sociais comporta a análise complementar da sua cultura. Deve se 
observar aqui que há um singular paralelo entre o uso da categoria 
“mercado de trabalho” e o uso da categoria “consciência de classe”, 
no sentido de que a sua simples evocação parece esgotar os objetivos 
da pesquisa e bloquear, portanto, qualquer exploração analítica pos-
terior: uma circunstância extraordinária se considerarmos que, à luz 
do bom-senso, não é possível pensar a atribuição de uma qualifi ca-
ção tão tipicamente cultural como “consciência de classe” fora de 
um estudo dos comportamentos, pois só deles é possível extrair a 
presença operante de valores sociais. Não é por acaso que emerge 
esse problema histórico da cultura, tão difícil para o nosso historia-
dor contemporaneísta, governado pelo desejo de etiquetar, apenas 
um pouco mais sofi sticado do que o desejo do político, que notoria-
mente se ocupa de outro ofício. Donde, portanto, esse necessário 
ajustamento àquilo que deriva e alude falar todo o tempo de uma 
certa “diferença”, assim como também a referência evasiva à com-
plexidade das situações — que aparecem tão vaga e metafi sicamente 
“complexas” precisamente porque não foram verdadeiramente con-
sideradas de uma maneira analítica. 
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48 Mercado, estado, classe, consciência de classe... estas categorias da 
macro-história cuja apologia soa como uma explicação “em última 
instância” ou “fundamental” — o que vale como uma tradução, não 
muito bem dissimulada, de uma precedente opção por uma hierar-
quia de relevâncias. De fato, mesmo que admitamos um papel efeti-
vo do mercado, isso não justifi ca seu determinismo. A ação social, 
assim como a ação individual, comportam uma escolha em um cam-
po de alternativas limitadas que constituem a “fábrica da realidade 
social e psicológica do homem”. O mercado é apenas um dos seus 
componentes. Esta me parece a perspectiva de uma coerente ima-
nência, capaz de resolver a assinalada ambiguidade de algumas cate-
gorias interpretativas, como aquela, por exemplo, de “adaptação”.
O que normalmente se objeta à microanálise histórica é que não se 
pode explicar o comportamento do grupo isolando-o. Recordo que 
a instância da microanálise parte exatamente do confronto com a 
tendência triunfante de explicar o comportamento dos grupos sociais 
ignorando-os. A hipótese alternativa é a de uma reconstrução das con-
fi gurações da sociedade como um todo a partir do grupo-comunida-
de, isto é, a partir da reconstrução analítica das experiências coletivas: 
os próprios mediadores se confi guram como grupo sociale, sob o 
ponto de vista do perfi l politológico, a classe dirigente se apresenta 
como composição e decomposição de grupos. Uma nova prova dos 
danos de uma ortodoxia historiográfi ca pode ser encontrada na emer-
gência das temáticas “à parte”, concebidas como um conjunto de 
elementos que se encontram temporariamente fora da síntese (e que 
teriam que ser, portanto, reabsorvidos no futuro). Assim, o tema do 
“privado” repercute pela historiografi a: a vida cotidiana, a mentali-
dade, a mulher... tantos campos de especialização, que serão de todo 
modo restituídos ao fundamento comum do contexto sociocultural. 
E é a esta última referência, o contexto, que responde a hipótese de 
princípio sobre a unidade sociocultural que é o grupo-comunidade. 
É nesse sentido que a referência à microanálise histórica vale 
como um sinal de forte coerência de uma metodologia geral para a 
história social.
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49E insistamos na hipótese de que os resultados da micro-história 
poderiam representar algo muito próximo ao modelo de didática-la-
boratório que estamos tentando alcançar. O elemento-guia é a refe-
rência a um quadro social global, cujo tratamento implica elaborações 
teóricas formalizadas, a construção de quadros morfológicos, a sínte-
se entre a lógica histórica e a atenção ao indivíduo e ao episódio.
E quem nos diz que a mente do adolescente e do jovem (e, de res-
to, do adulto) se satisfaz ou é estimulada pelas sínteses interpretativas 
periodicamente revisadas que deveriam enriquecer a consciência his-
tórica e civil (a aproximação é comum) do aluno? E por que não?
Aquilo que importa nos termos do sentido histórico é a consciên-
cia de dimensões socioculturais outras com relação à cultura social 
em que vivemos: reencontros possíveis para ponderar um pouco 
mais a fundo sobre a especifi cidade do presente. E esse é, na minha 
opinião, o sentido profundo de uma convergência entre formação 
histórica e formação antropológica. Tudo isso me parece sóbrio e 
sensato. E é, todavia, indicativo do universo mental de alguns histo-
riadores contemporaneístas que a história social se tenha conectado 
com o tema da Autonomia: o que, na verdade, parece valer como 
uma feliz, e inesperada, confi rmação dos meus diagnósticos. 
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Reciprocidade mediterrânea*
Giovanni Levi
1 
Se quisermos empregar o conceito de reciprocidade em sentido con-
creto e não meramente formal, parece-me imprescindível incluí-lo 
em um marco amplo de relações jurídicas e econômicas relativas a um 
tempo e a uma região de referência específi cos. Portanto, buscarei 
mostrar de que modo esse conceito assume sua especifi cidade na Ida-
de Moderna, em relação com os sistemas jurídicos que, utilizando 
uma expressão inadequada, chamarei de direito débil, ou seja, siste-
mas jurídicos nos quais predomina a jurisprudência sobre a lei, em 
oposição à ação dos juízes com respeito ao caráter central do poder 
legislativo soberano, ao qual, outra vez inadequadamente, chamarei 
sistemas de direito forte. Na área mediterrânea é possível incluir nesta 
categoria de direito débil pelo menos três tradições — o direito canô-
nico, o direito islâmico e o direito talmúdico — que extraem de 
princípios gerais de origem religiosa as bases imutáveis às quais se re-
∗ Publicado originalmente em Hispania (Madri), LX/1, núm. 204 (2000), p. 103-
126 e reproduzido com a permissão da revista. Tradução para o castelhano de Mar-
co A. Galmarini e para o português de Ronald Polito.
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52 ferem as práticas jurídicas. E a primeira análise destes sistemas pode 
orientar-se de acordo com três princípios: reciprocidade, equidade e 
analogia. Um estudioso da sociedade de Ancien Régime que particular-
mente se ocupa de países mediterrâneos, não se pode propor a questão 
das formas de reciprocidade sem se referir a sociedades complexas em 
cujo centro se encontram os mecanismos de solidariedade que carac-
terizam um projeto social baseado na justiça distributiva e, ao mesmo 
tempo, na rígida hierarquização social. Portanto, a justiça na desi-
gualdade será o marco no qual se inserirão as formas específi cas da 
reciprocidade neste esboço, que pretende ser mais uma primeira refl e-
xão teórica que a exposição de uma investigação verifi cada nos fatos.
Contudo, é preciso dizer que o ponto de partida destas refl exões 
é um campo concreto de investigação que se pode adotar como 
exemplo para compreender a importância do problema que me pro-
ponho. Há tempos que estudo o consumo em Veneza de 1500 a 
1700 para responder a uma pergunta que parece essencial para com-
preender a sociedade de Ancien Régime, a saber: como se estrutura o 
consumo em uma situação em que as diversidades — e sobretudo as 
diversidades de consumo — entre irmãos, entre grupos sociais, en-
tre gêneros, se construíram estrategicamente para garantir a sobre-
vivência? E também como se passa desta sociedade onde a desigual-
dade é estratégica, aceita e racional, para uma sociedade que 
governa seus comportamentos mediante um idioma — só um idio-
ma, que se legitima nas codifi cações — de igualdade entre herdei-
ros, entre irmãos, entre grupos sociais e, idiomaticamente, entre 
gêneros. Quais são, pois, as formas que adota a justiça em uma dis-
tribuição desigual de bens em que os valores de equidade se chocam 
com os de igualdade?
Em minha opinião, a chamada revolução do consumo não é na 
realidade um problema de quantidade, de incremento das rendas 
nem de disposição de novos bens, como com farta frequência os 
historiadores têm opinado.1 Pelo contrário, trata-se de um problema 
1 Cf., por exemplo, Brewer e Porter (1993). 
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53de lenta transformação cultural da desigualdade estratégica em igual-
dade idiomática, transformação que requer uma profunda revolução 
cultural que implica, e provavelmente simplifi ca, a própria ideia de 
reciprocidade, na qual a relação de dom e contradom resulta menos 
importante que o sistema global de intercâmbio em uma sociedade 
governada por um sistema aceito de justiça da desigualdade.2
2 
No centro do discurso devemos pôr a equidade, conceito que gover-
na alguns dos sistemas jurídicos dos países mediterrâneos e certos 
aspectos profundos da cultura e da estrutura antropológica do senti-
do comum de justiça das populações mediterrâneas. Em uma socie-
dade governada pela justiça distributiva, isto é, por uma justiça que 
aspira a garantir a cada um o que lhe corresponde segundo seu status 
social, complica-se inclusive o modelo polanyiano de reciprocidade,3 
a saber, o movimento recíproco e bilateral através do qual passam os 
bens no intercâmbio: não se trata só de reciprocidade generalizada 
ou equilibrada, mas de uma multiplicação de reciprocidades possí-
veis nas quais — nas relações de cada grupo com todo outro grupo 
e no próprio seio de cada grupo ou no limite das relações de cada 
pessoa com todas as outras — as interpretações da reciprocidade se 
multiplicam de acordo comsignifi cados complexos que misturam 
tipo de reciprocidade e nível social dos protagonistas do intercâm-
bio. Desta forma, todo intercâmbio mercantil teoricamente equili-
brado pode considerar a determinação do preço segundo os níveis 
sociais e as relações dos contratantes, e todo intercâmbio de bens 
pode parecer o resultado de uma reciprocidade equilibrada ou gene-
ralizada segundo quem realiza o intercâmbio e com quem. Do mes-
mo modo, é impossível examinar uma sociedade que põe os valores 
puramente econômicos acima dos valores de boa vontade e amizade, 
2 Cf. Levi, 1996.
3 Polanyi, 1977:61-74.
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54 de dom e de contradom, sem ter em conta se sua fi nalidade é cons-
truir uma sociedade de iguais ou se, pelo contrário, se propõe con-
fi rmar uma estrutura social hierárquica.4
Queria, além disso, destacar que, todavia, se trata de um proble-
ma vigente na sociedade atual, tanto no terreno jurídico como no 
econômico. A cultura social católica e amiúde também a socialista, 
ainda que com signifi cados diversos devido à distinta atenção que 
uma e outra prestam à igualdade, falam com frequência de capitalis-
mo solidário, o qual é antes uma paradoxal fi gura retórica que um 
conceito operativo, em que pese a importância de seu refl exo nas 
práticas políticas. Mas o confl ito entre rigor da lei e equidade se 
manifesta especialmente na difi culdade frequentemente comprova-
da para aceitar a impessoalidade da justiça,5 que tantas vezes se dis-
cute em nome de uma concepção de equidade que talvez estivesse já 
latente à margem dos sistemas jurídicos formais, mas que agora tem 
a possibilidade de se expressar: a indeterminação dos limites que se 
põe à lei e o papel do juiz em relação com a lei ocupam o centro da 
4 O importante livro de Clavero (1991) me parece que subestima a necessidade de 
inserir o dom e o contradom no modelo geral de sociedade — hierárquico e prote-
gido — que aspira construir a segunda escolástica. Duas coisas não partilho com 
Clavero: a insufi ciente avaliação do sentido comum de justiça, como se se pudesse 
explicar as práticas sociais através das leis e dos códigos exclusivamente. Em segun-
do lugar — e como consequência —, a insufi ciente avaliação da permanência, nos 
comportamentos políticos nos países católicos de hoje, de uma concepção de justiça 
em confl ito com as instituições estatais. Para observações muito interessantes sobre 
a distância entre a interpretação do direito do antropólogo e do jurista, veja-se 
Geertz (1983). 
5 Na Itália são frequentes os movimentos de repúdio às leis em nome de um senti-
do indefi nido de justiça mais justa que a lei. Recentemente, um médico, o doutor 
Di Bella, provocou uma autêntica insurreição popular com uma manifestação de 
mais de dez mil pessoas perante o Ministério da Saúde e conseguiu que dois juízes 
municipais se pronunciassem a favor de que o sistema sanitário público se encarre-
gasse de uma terapia sua contra o câncer que havia se demonstrado inefi caz. Apaga-
do o caso na Itália, tentou — sem êxito — relançar a questão em outro país católico, 
a Argentina. Há anos houve um caso de adoção ilegal, anulada pelo juiz, que deu 
lugar a uma discussão que se prolongou vários meses. Sobre este tema foi publicado 
um livro exemplarmente representativo do sentido comum de justiça, escrito por 
uma conhecida autora, Natalia Ginzburg (1990:2), que sustentava precisamente que 
“o fi m de proteger a universalidade dos meninos não justifi ca uma ação cruel reali-
zada sobre a pessoa de um só menino [...] É preciso perguntar-se qual é a ação mais 
justa à luz da verdadeira justiça”. 
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55crise da justiça em muitos países europeus. Hoje retornam ao centro 
do debate jurídico e político tanto a intervenção da jurisprudência 
na elaboração do direito propondo interpretações, como a consciên-
cia da impossibilidade de individualizar uma interpretação única do 
texto. A relação entre elaboração, aplicação e interpretação da lei 
caracteriza de uma maneira muito particular a história cultural dos 
países do Mediterrâneo. Certamente não de modo unívoco; contu-
do, tenho a impressão de que os sistemas jurídicos dos países católi-
cos e dos islâmicos, enquanto tradição jurídica do judaísmo, têm 
deixado — com grandes variantes, repito — muito espaço para as 
interpretações jurisprudenciais, para o uso da analogia, para o papel 
corretivo dos juízes no sentido da equidade na hora de aplicar a casos 
concretos a lei demasiadamente geral.
Portanto, trata-se de um problema de caráter mais antropológico 
que estritamente histórico-jurídico. O papel do sentido comum de 
justiça difundido entre as pessoas que vivem nesta área parece parti-
cularmente confl itivo em relação com os sistemas jurídicos que se 
foram constituindo sucessivamente. A debilidade das instituições 
em relação ao sentido comum de equidade parece associar-se a um 
papel particularmente forte de tradições políticas de origem teológi-
ca e à permanência, na consciência comum, da imagem de um plu-
ralismo jurídico que na multiplicidade das fontes de produção das 
normas vê em realidade a possibilidade intersticial de mover-se com 
relativa liberdade entre sistemas normativos contraditórios, cada um 
deles já debilitado e erodido pela própria multiplicidade. A defi nição 
da área que temos chamado mediterrânea, não obstante sua difi cul-
dade e sua grande arbitrariedade, pode encontrar-se em todas as 
realidades nas quais, em que pesem os esforços realizados, não se 
tem alcançado estabelecer uma separação e uma hierarquização ní-
tida a favor das instituições do Estado sobre a presença de institui-
ções religiosas. Excluiria deste modelo a França, porque a formação 
do Estado moderno neste país através do absolutismo defi niu preco-
cemente a supremacia das instituições do Estado também no sentido 
comum de justiça.
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56 Uma última consideração sobre a importância do problema. Nes-
ta reconsideração da relação entre justiça e história, entre tarefas do 
juiz e tarefas do historiador, não só se tem visto implicado o debate 
recente sobre a ética e a justiça como equidade, como também a 
própria prática historiográfi ca recente; a remissão ao sentido comum 
acerca do que é justo, a difundida prática de processar a história e o 
papel jurídico (mais testemunhos de experts) que se tem confi ado 
aos historiadores nos processos recentes por crimes contra a huma-
nidade, têm voltado a pôr sobre a mesa problemas complexos de 
relação entre sistemas positivos de leis e sistemas éticos, o que reme-
te a difíceis operações analógicas e a apelações a imagens universais 
de equidade.6
3 
Mas partamos de Polanyi. Apesar de que os comentaristas não o 
tenham observado e de que não se possa encontrar neste autor uma 
elaboração ampla do conceito de equidade, o próprio Polanyi vê 
uma estreita relação entre reciprocidade e equidade:
Para retornar à reciprocidade, um grupo que decidisse organizar 
as relações próprias sobre essa base deveria, para alcançar seu en-
cargo, subdividir-se em subgrupos simétricos cujos membros res-
pectivos pudessem identifi car-se reciprocamente enquanto tais. 
Então os membros do grupo A poderiam estabelecer relações de 
reciprocidade com suascontrapartidas do grupo B e inversamen-
te; ou bem se pode dizer que três, quatro ou mais grupos são si-
métricos com relação a dois ou mais eixos e que os membros 
desses grupos não têm por que praticar necessariamente a recipro-
cidade entre si, senão com os membros correspondentes de outros 
grupos com os quais se encontram em relações análogas... o que 
6 Cf., por exemplo, o dossiê Verité judiciaire, vérité historique, com artigos de F. Har-
tog, M. Baruch, Y. Thomas e P. Y. Gaudard em Le débat, 102 (1998), p. 4-52.
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57dá vida a uma cadeia ilimitada de reciprocidades sem que exista 
reciprocidade alguma entre eles.
Um sistema de reciprocidades não é, pois, o pózinho dos atos de 
reciprocidade, de dom e contradom, que “tem lugar em ocasiões 
diferentes, segundo um cerimonial que impede qualquer noção de 
equivalência, porque com frequência as atitudes pessoais individuais 
carecem de efeitos sociais”. Só em um ambiente organizado simetri-
camente, as atitudes de reciprocidade darão lugar a instituições eco-
nômicas de certa importância.7 As formas de integração devem 
criar, portanto, um sistema. E a regra das sociedades que se baseiam 
na reciprocidade não será senão a adequação:
Enquanto nosso sentido de justiça busca a adequação em termos 
de castigo e recompensa, os movimentos recíprocos dos bens re-
clamam a adequação em termos de dom e contradom. Neste caso, 
adequação signifi ca sobretudo que a pessoa justa deveria recom-
pensar um dom com o objeto de tipo justo no momento justo. 
Naturalmente, a pessoa justa é a que se encontra em uma posição 
de simetria. De fato, a não ser por esta simetria, seria impossível 
o funcionamento do conjunto das ações de dar e receber implíci-
to em um sistema de reciprocidade. Com frequência o compor-
tamento adequado é o que se inspira na equidade e na consideração 
do outro, ou que pelo menos parece inspirar-se nela, e, em con-
sequência, é diferente da atitude stricti juris da lei antiga, que pode 
ser exemplifi cada na insistência de Shylock em ter sua libra de 
carne. O costume dos dons recíprocos não vai quase nunca acom-
panhado de rígidas práticas contratuais. Seja qual for a razão da 
elasticidade que leve a preferir a equidade ao rigor, tende clara-
mente a desalentar as manifestações de egoísmo econômico nas 
relações de reciprocidade baseadas no dar e no receber.8
7 Polanyi, 1977:64-65.
8 Polanyi (1977:66). O grifo de equidade é meu.
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58 Durante muito tempo, as sociedades complexas islâmicas e católicas 
tiveram a reciprocidade entre suas imagens centrais, em um sonho pro-
vavelmente irrealizável, uma vez superadas as pequenas dimensões das 
comunidades nas quais operam simetrias mais limitadas, sufi cientes 
para sistemas sociais mais simples. A força de um poder central, garan-
tia da justiça distributiva, e a institucionalização de classifi cações sociais 
de sociedades hierarquizadas não bastavam para garantir o funciona-
mento de um sistema de integração baseado na reciprocidade, mesmo 
quando a mistura de mecanismos de integração baseada na redistribui-
ção se propusera conviver com uma sociedade em que as células básicas 
— família e comunidade — puderam continuar operando através da 
reciprocidade que emanava da boa vontade e da amizade, da solidarie-
dade e do dom-contradom. E contudo — e nisto não estou de acordo 
com Polanyi — não se tratava de um confl ito entre rigor e adequação, 
quer dizer, entre mensurabilidade das equivalências e arbitrariedade 
relativa do intercâmbio de dons e contradons: também a equidade tem 
de ter sua medida, um rigor referido à simetria que governa o conjunto 
do sistema, distinto da equivalência. Uma medida que se deve estabe-
lecer caso a caso, transação a transação, mas que remete a uma percep-
ção social que os protagonistas possam identifi car e que mantenha a 
equidade de uma relação de intercâmbio entre pessoas desiguais.
Muitas vezes o todo que se dá será consequência desta justiça 
(distributiva); por exemplo, o soldado serve bem a seu príncipe 
ou ao capitão pelo soldo estabelecido, o criado serve bem a seu 
patrão, de quem recebe o salário, ou o fi lho responde bem às 
atenções paternas; em estrito rigor de justiça comunicativa, que 
os juristas explicam como ação civil, com capacidade para apre-
sentar-se em juizo, nenhum deles poderá aspirar a outra mercê, 
porque já a recebeu, e fez o que devia fazer; mas se o príncipe, o 
capitão, o patrão ou o pai, em relação com uma diligência par-
ticular, delicadeza no serviço ou atenções, impulsionados por 
aquela obrigação natural, que os juristas chamam antidoral, lhes 
fazem um donativo, ou lhes concedem outra mercê, cometerão 
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59um ato de justiça distributiva contanto que o exerçam com 
aquilo do que podiam dispor livremente sem molestar as posi-
ções de outro e na devida proporção da circunferência a seu 
centro do mérito, porém não sem esta condição.
A justiça distributiva, de fato,
se assemelha a uma esfera cuja circunferência está regulada por 
seu centro, onde têm origem todo raio e toda linha, e é regra 
bem proporcionada por muito que seus raios ou linhas se distan-
ciem do centro. Portanto, o mérito ou o demérito são o centro 
desta justiça, sem os quais esta não existe; porém no modo de 
quem tem o poder para exercê-la, se pode dar maior distancia-
mento, da mesma maneira em que se dá nos raios ou nas linhas, 
sem perda da proporção devida.9
Portanto, a medida é a proporção, que pode defi nir-se caso a caso 
através da avaliação que só uma autoridade pode determinar. Porém 
se trata de uma medida exata, não arbitrária, “posto que o dar ou o 
premiar sem mérito não será ato de virtude de liberdade, mas vício 
de prodigalidade, que comporta injustiça ao tirar dos meritórios e 
dar aos que carecem de mérito”. O cardeal De Luca parece aqui 
imaginar um mundo de bens limitados no qual todo ato de genero-
sidade não só premia alguém, como tira de outros. E isto é precisa-
mente o que requer uma proporção ponderada. A lei existe, porém 
é distinta para todos, segundo as condições e os méritos. Contudo, 
requer o rigor da proporcionalidade geométrica.
A esfericidade da justiça distributiva é uma metáfora: a esfera é a 
totalidade, o bem limitado a distribuir em sua perfeição; mas os 
méritos e deméritos produzem variações na longitude dos raios. E 
também é uma metáfora a imagem com que De Luca nos descreve a 
justiça comutativa e a proporcionalidade aritmética:
9 De Luca, 1740:54-65. 
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60 Pelo contrário, a justiça comutativa se assemelha à fi gura qua-
drada, que por necessidade requer a igualdade e a proporção das 
linhas, nenhuma das quais deve ser maior que as outras, ou en-
tão à balança, que para estar em equilíbrio deve ter tanto peso 
em um prato como no outro: e em consequência, que a cada um 
se dê o seu e o que lhe é devido, mas não mais nem menos.10
Portanto, não só no seio da relação entre indivíduos se pode apre-
ender a medida, mas também na coerência entre os comportamentosindividuais e o modelo geral que a sociedade prescreve. E neste caso 
se trata das prescrições da teologia e da moral cristã em suas impli-
cações políticas: se não há na revelação divina nada do qual se possa 
deduzir uma política especifi camente cristã, as instituições tempo-
rais “relinquuntur humano arbitrio”, porém, devem tender ao bem co-
mum político prescrevendo as virtudes e combatendo os vícios, seja 
qual for a forma pré-selecionada entre a pluralidade de formas que a 
comunidade dos homens possa assumir. Portanto, a liberdade dos 
homens deve estar presidida pela superioridade moral da Igreja, com 
sua função corretiva e de controle.11
Muitas vezes, os que têm se ocupado da antropologia política das 
sociedades católicas do Ancien Régime têm se surpreendido perante o 
caráter aparentemente libertário das regras sociais: os homens são 
completamente livres em suas eleições, seus sistemas políticos não 
são criações de Deus, mas fruto de seu livre-arbítrio. Porém esta li-
berdade está sob tutela: como meninos que experimentam sua rela-
ção com a realidade sob o olhar atento dos pais, os homens se aven-
turam, por sua conta e risco, na empresa prescrita de formar uma 
sociedade política e econômica; porém à Igreja, encarnação do po-
der diretivo e coativo de Deus, corresponde a tarefa de controle e de 
atração para dirigir os homens, de acordo com a lei, para a consecu-
ção de seus fi ns sobrenaturais, dos quais continuamente se distan-
10 De Luca, 1740:66.
11 Cf. Villey (1991). Mais em geral, cf. Villey (1985). 
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61ciam enquanto pecadores.
12 Na realidade, o aspecto libertário da 
doutrina católica que vendem Skinner e Clavero,13 por exemplo, só 
é aparente: é a liberdade do pecador sob tutela.
Há, pois, uma aparência de incomensurabilidade nas relações de 
reciprocidade porque há uma aparência de liberdade absoluta. Po-
rém, nela se oculta um sentido determinado de justiça que se mede 
em função da adequação na criação de uma sociedade hierarquizada 
e corporativa em que não são justos os atos econômicos que têm 
como fi nalidade o enriquecimento, a não ser os que tendem a favo-
recer a circulação de bens e o bem-estar coletivo e desigual, em que, 
portanto, predominem a amizade e a boa vontade e no qual cada um 
tenha o que lhe corresponde segundo equidade, ou seja, conservan-
do a proporção relativa a seu status. Em consequência, a equidade é 
um ideal que não se mede sobre a base de regras abstratas, mas sobre 
a base de referências ao processo geral de melhora progressiva da 
sociedade rumo a seus destinos sobrenaturais; não são objeto de me-
dição por parte dos atos particulares, mas de juízo por parte da Igre-
ja em seu papel de tutora.
Sendo assim, como podemos caracterizar mais detalhadamente 
este conceito de equidade?
4 
É obrigatório remontar o conceito de equidade (epiéicheia) a este 
conhecidíssimo fragmento da Ética a Nicômaco:
O justo e o equitativo são o mesmo, e, apesar de serem excelen-
tes ambas as coisas, o equitativo é melhor. A aporia é produto de 
que o equitativo é justo, porém não o é segundo a lei, senão que, 
pelo contrário, é uma correção do legalmente justo. Causa disso 
é que toda lei é universal, mas sobre determinados temas é im-
12 Skinner, 1978:213. 
13 Cf. Skinner (1978:199-253) sobre o renascimento do tomismo, e Clavero (1991).
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62 possível pronunciar-se corretamente em forma universal. Por-
tanto, nos casos em que é necessário pronunciar-se de maneira 
universal, porém, por outro lado, é impossível fazê-lo correta-
mente, a lei tem em conta o que sucede ordinariamente, sem 
ignorar o erro [...] Portanto, quando a lei se pronuncia em geral, 
porém no âmbito da ação sucede algo que vai contra o universal, 
é justo corrigir a omissão ali onde o legislador deixou o caso 
incompleto e errou porque se pronunciou em geral [...] Portan-
to, o equitativo é justo e é melhor que certo tipo do justo, não 
que o justo em absoluto, mas que o erro que tem como causa a 
formulação absoluta. E esta é a natureza do equitativo, a de ser 
correção da lei na medida en que esta perde valor por causa de 
sua formulação geral.14
Porém o conceito surgiu e teve importância em sociedades que 
não reconheciam a igualdade entre cidadãos abstratos — segundo a 
qual a lei é igual para todos —, mas que, pelo contrário, acentuam 
a desigualdade de uma sociedade hierárquica e segmentada, em que 
conviviam sistemas hierárquicos correspondentes a diversos siste-
mas de privilégio e de classifi cação social: portanto, uma pluralida-
de de equidades segundo o direito de cada um ao qual se reconheça 
o que lhe corresponde sobre a base de sua situação social e de acordo 
com um princípio de justiça distributivo. Na sociedade de Ancien 
Régime, o conceito de equidade era o protagonista central de seu 
sonho impossível — ou, melhor dizendo, já impossível — de cons-
truir uma sociedade justa de desiguais. Nela a impossibilidade não 
se sustentava tanto no confl ito entre aequitas y aequalitas quanto no 
sonho de que cada um fosse classifi cável com exatidão em um papel 
ou em uma condição social unívoca, defi nida e estável. A lei difere 
para cada estrato social, quando não para cada pessoa, em uma jus-
tiça do caso concreto determinado segundo as desigualdades sociais 
defi nidas.
14 Aristóteles. Ética a Nicômaco, livro V, 14, p. 5-25.
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63Frequentemente se tem imaginado na história do direito a equi-
dade como mero instrumento com efi cácia derrogadora do direito, 
embora sem atribuir-lhe natureza antijurídica ou ilícita.15 Para mim, 
em contrapartida, me parece que a equidade — ou, melhor, as equi-
dades — são a própria raiz de um sistema jurídico que aspira orga-
nizar uma sociedade estratifi cada, porém móvel, na qual convivem 
muitos sistemas normativos no esforço de conhecer o que é justo 
para cada um.
Não poderíamos compreender as revoltas camponesas da Idade 
Moderna se as concebêssemos como revoltas contra um sistema es-
tratifi cado e não como destinadas a obter o justo e equitativo para os 
camponeses no seio de um sistema de desigualdades aceitas. O mes-
mo ocorre com as revoltas anonárias básicas, segundo Edward P. 
Thompson,16 para a interpretação da economia moral do povo e que 
são precisamente revoltas pelo preço justo ou, melhor ainda, pela 
reafi rmação de um sistema adquirido diferenciado e equitativo de 
preços, mas não movimentos igualitários ou contrários à existência 
do mercado; para confi rmar e não para modifi car a estrutura social.
Além disso, me parece que acentuar a equidade contribui para 
explicar os esforços classifi catórios que caracterizam a sociedade de 
Ancien Régime, esforços desprendidos justamente para defi nir de ma-
neira estável condições sociais às quais se reconhecem privilégios 
específi cos. Para dar um exemplo extremo, pense-se no gênero pic-
tórico mexicano que fl oreceu nos séculos XVII e XVIII, que repro-
duz “a sociedade de castas” e que trata de classifi car os efeitos das 
mestiçagens e das mestiçagens de mestiçagens entre índios, brancos, 
negros e orientais: “de mulato e mestiça se produz mulato tornatrás”, 
ou “de índio e mestiça nasce coyote”, ou “deespanhol e índia nasce 
mestiço; de espanhol e mestiça, castizo; de espanhol e castiza, espa-
15 Veja-se, por exemplo, as sínteses: Calasso (1966:65-68); Guarino (1960:619-
624); Varano (1989:1-14).
16 Thompson (1993). Até que ponto os cardeais que administravam a anona roma-
na tinham presente o problema do preço justo dos alimentos é mostrado em Marti-
nat (1999). 
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64 nhol”. Além da necessidade, evidente no último caso, de fechar o 
círculo com o retorno ao espanhol, para fazer manipulável, embora 
fi ctício, um processo que do contrário seria infi nito, a classifi cação 
das mestiçagens chega a uma lista paradoxal que compreende criollo, 
mestiço, mulato, zambo, castizo, mourisco, albino, ahí te estás, albara-
zado, barcino, calpamulo, cabujo, coyote, chamizo, chino, cholo, grifo, jeníza-
ro, jíbaro lobo, no te entiendo, salta-atrás, tenté en el aire, tornatrás, zambai-
go.17 Este esforço revela a impossibilidade de se criar uma classe para 
cada diferença e a ilusão de que todo indivíduo podia ser incluído 
em uma classe segundo uma regra uniforme de atribuição. Mas os 
homens recebem muitos papéis ao mesmo tempo e criam realidades 
ambíguas que requerem equidades diferentes, não só indivíduo a 
indivíduo, como também situação a situação. Os arquivos dos tribu-
nais do Ancien Régime estão cheios de procedimentos nos quais os 
protagonistas fazem seu jogo intersticial mediante a reivindicação de 
diferentes pertencimentos para gozar de diferentes privilégios; ou se 
inscrevem em classes impróprias pela exigência de ingressar no es-
quema classifi catório requerido para gozar do mesmo privilégio de 
existência jurídica.18
Que Dante Alighieri estivesse inscrito no grêmio fl orentino dos 
médicos e dos boticários, e que, dois séculos e meio depois, João 
Calvino, ao chegar como prófugo em Estrasburgo, entrasse no 
grêmio dos alfaiates, quando na realidade nenhum deles dois 
jamais praticou o ofício em cuja corporação tinha sido inscrito, 
tornou quase proverbial a desconfi ança dos historiadores nas 
qualifi cações corporativas.19
Eram simplemente qualifi cações para existir: “no discurso me-
dieval da cidadania, a visibilidade do sujeito está mediada, pois, por 
17 Cf. García Sáinz, 1989. 
18 Uma interessante casuística neste sentido, com referência aos tribunais civis ro-
manos, pode ser vista em Groppi (1999). Cf. também Ago (1998). 
19 Berengo, 1999:339. 
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65seu pertencimento ao corpo”,
20 mesmo quando esse pertencimento 
ordenado fosse fi ctício.
5 
Mas o que agora me interessa não é a história do conceito jurídico 
de equidade, senão sua importância tanto para os sistemas jurídicos 
como para a elaboração dos sistemas políticos e a realidade antropo-
lógica das sociedades do Mediterrâneo. Contudo, toda a história do 
conceito de equidade pode ser sintetizada em dois processos contra-
postos: enquanto alguns ordenamentos — quase todos os dos Esta-
dos modernos continentais — tendiam a deixar de lado toda refe-
rência à equidade, reduzindo-a em realidade a instrumento perigoso 
ao qual recorrer unicamente em casos extremos de ausência de re-
gras no campo civil, outros ordenamentos — os que acentuam mais 
o papel dos tribunais e da jurisprudência — tendiam a fazer da equi-
dade um instrumento central da interpretação e da aplicação da lei. 
Tenho a impressão de que precisamente nas sociedades mediterrâneas 
não predominou nenhuma destas orientações, porém entre uma e 
outra se seguiu uma história própria e paralela nas atitudes e nos sis-
temas informais de direito, embora não nos ordenamentos.
Escolherei três momentos como particularmente signifi cativos. 
Comecemos pela equidade canônica que ilustram, por exemplo, Ch. 
Lefebvre,21 P. Fedele22 e, com particular atenção ao signifi cado políti-
co de longa duração do conceito, P. Grossi,23 a quem remeto também 
para uma análise mais profunda. Neste momento só me urge destacar 
que a equidade é um elemento central de um sistema normativo que, 
contrapondo a infl exibilidade e a imobilidade abstrata da justiça divi-
na à especifi cidade da justiça humana, prescreve diretamente como 
20 Costa, 1999:19. 
21 Lefebvre, 1951a. 
22 Fedele, 1966. 
23 Grossi (1995:203-222). Pelo contrário, em Gaudemet (1994) deixa-se de lado 
por completo a importância do problema.
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66 dever do juiz a aplicação da lei de acordo com os princípios da rationa-
bilitas (isto é, da conformidade da razão à teologia), da salus animarum 
e da charitas, e especial atenção à ratio peccatum vitandi e ao periculum 
animae. E disso nasce uma complexa série de normas de comporta-
mento para o juiz canônico, que tanta importância terão nas doutri-
nas políticas dos séculos XVI e XVII: por exemplo, a tolerantia é no 
essencial a dissimulatio. Em particular seria muito útil — e só o digo de 
passagem — ver em que medida as doutrinas católicas da razão de 
Estado e a discussão sobre a dissimulação honesta tomavam muitos de 
seus elementos constitutivos não só da tradição estoica, como também 
da tradição jurídica canônica. E isto nos permitiria esclarecer melhor 
em que sentido é católica a razão de Estado católica.24 A dissimulação 
tem, na prática canônica, um fi m fundamentalmente positivo, ligado 
precisamente à gestão da justiça em estrita referência à contextualiza-
ção dos casos singulares, em função de uma melhora moral geral. 
Portanto, não me parece sufi ciente vê-la como técnica política de 
domínio, como faz, por exemplo, Villari quando comenta Della dissi-
mulazione onesta, de Torquato Accetto, nestes termos: “Concebida 
pelo pensamento clássico e medieval como problema eterno do ho-
mem, da relação entre aparência e realidade, entre mentira e verdade, 
em fi ns do século XVI e durante o século seguinte foi considerada 
sobretudo como um aspecto específi co da vida política e do costume 
da época”,25 tanto que “também o mundo da oposição e da resistência 
ativa ao poder recebeu e fez sua uma técnica elaborada ofi cial e exclu-
sivamente para a ação de governo”.26 Precisamente nos limites da dis-
simulação se apoia o problema central de sua legitimidade e sua ho-
nestidade, limites que têm sua defi nição na prática jurídica católica. O 
que se traduza em técnica de governo ou de resistência ao poder, pas-
sando por Maquiavel, não afeta no fundamental a relação da razão de 
Estado católica com as origens jurídico-canônicas.27
24 Lefebvre, 1951b. 
25 Villari (1987:18). Tampouco me parece que encare este problema Borrelli (1993). 
26 Villari, 1987:25. 
27 Olivero, 1953. 
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67Grossi fala da 
notável infl uência do direito canônico clássico no desenvolvi-
mento de toda a juridicidade ocidental. A posição central da 
equidade canônica, verdadeira norma constitucional não escri-
ta; o sentimento constante da mutabilidade do direito humano; 
a consequente e forçosa elasticidade deste e o importante papel 
do juiz que o aplica: eis aqui pontos fi rmes que, ao transbordar 
os termos fechados da sociedade eclesial, penetrarão na ordem 
jurídicada sociedade civil, a solicitarão, a impregnarão.28 
Mas vale a pena destacar que não se trata tão só de relação entre 
ordem jurídica canônica e civil, senão também de infl uência da con-
cepção de unidade em um campo menos defi nido, como é o do 
sentido comum de justiça, o modo de perceber o justo e o injusto 
das sociedades católicas e, portanto, o modo de relacionar-se com o 
Estado e suas instituições. Convivência complexa que, não obstante 
os ordenamentos e as codifi cações, não se resolve em uma sucessão 
de concepções jurídicas: de fato, no sentimento comum convivem 
“nossa igualdade formal, abstrata, igualdade jurídica de sujeitos na 
realidade desiguais e que continuam sendo desiguais apesar da cíni-
ca afi rmação de princípio” e “a igualdade que a aequitas pretende 
garantir e que, pelo contrário, é pura substância […] a unicidade do 
sujeito — do sujeito civil abstrato — é um futurível das invenções 
iluministas. Não existe aqui o sujeito, mas os sujeitos, e sujeitos bem 
encarnados, com toda sua carga de faticidade, ou seja, de imersão 
nos fatos”29 e, portanto, de status e de papéis diferentes.
A equidade não se proporá sem gravíssimos confl itos: a conciên-
cia que a equidade contrapõe à própria concepção de Estado moder-
no, e em particular à monarquia absoluta, pouco a pouco abrirá ca-
28 Grossi (1995:216). A referência é também à equity do sistema jurídico inglês, que 
contudo não estudaremos aqui, pois nos distanciaria demasiadamente desta análise 
mediterrânea.
29 Grossi, 1995:179.
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68 minho para si. Da mesma maneira, cada vez será mais evidente a 
explícita contradição entre o poder do juiz na aplicação equitativa 
da norma e da segurança do direito.
6 
Podemos exemplifi car isto com Bodin, que na interpretação dos 
juízes de acordo com a equidade via precisamente uma ameaça ao 
próprio princípio de soberania: na base mesma das teorias absolutis-
tas reside a contradição que deriva da interpretação da lei e da apli-
cação equitativa das normas como modo de operar dos juízes. No 
primeiro livro de La République, capítulo X, Bodin defi ne “as ver-
dadeiras marcas de soberania”.
A primeira marca do príncipe soberano é o poder para dar a lei a 
todos em geral e a cada um em particular [...] sem consentimento 
dos maiores, nem de semelhante, nem de menor em relação a si 
mesmo [...] A segunda marca de majestade [...] declarar a guerra 
ou tratar da paz [...] A terceira marca de soberania é a de instituir 
os principais funcionários [...] Não é a eleição dos funcionários o 
que comporta direito de soberania, (mas) sua confi rmação e sua 
provisão [...] A outra marca soberana é a instância última, que é e 
sempre tem sido um dos principas direitos da soberania [...] A 
quinta marca de soberania [...] o poder de outorgar graça aos 
condenados, por cima das sentenças e contra o rigor das leis, seja 
para a vida, os bens, a honra ou o regresso do desterro.30
30 Bodin, J. Les six livres de la République, livro I, cap. 10. Tradução livre de “La 
premiere marque du prince souverain, c’est la puisssance de donner loi à tous en général et à 
chacun en particulier [...] sans le consentement de plus grand, ni de pareil, ni de moindre que 
soi [...] La seconde marque de majesté […] décerner La guerre ou traiter la pax [...] La troi-
sième marque de souveraineté est d’instituer lês principaux offi ciers [...] Ce n’est pas I’élection 
des offi ciers que emporte droit de souveraineté, (mais) la confi rmation et provisión [...] L’autre 
marque souveraine, c’est á savoir du dernier ressort, qui est et a toujours eté l’un des principaux 
droits de La souveraineté [...] La cinquiéme marque de souveraineté [...] la puissance d’octroyer 
gráce aux condamnés par-dessus les arrêts et contre la rigueur des lois, soit pour La vie, soit 
pour les biens, soit pour I’honneur, soit pour le rappel du ban”.
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69Todos estes signos de soberania, que deixam a ação derrogatória 
da lei à discrição do soberano, embora dentro dos limites da equida-
de, são inalienáveis. Só um aspecto da equidade escapa ao soberano: 
Mas entre as marcas de soberania, há os que têm posto o poder 
de julgar segundo sua consciência: o que é comum a todos os 
juízes em caso de não haver lei nem costume expresso [...] Se há 
costume ou ordenação em sentido contrário, o juiz não tem 
poder para passar por cima da lei, nem para discutir a lei [...] 
Porém o Príncipe pode fazê-lo se a lei de Deus — única limita-
ção da soberania — não é expressa a respeito.31
De tudo isto decorre a rígida atitude com que Bodin limita a 
interpretação da lei, deixando à consciência dos juízes a tarefa de 
julgar somente na ausência da lei e nunca em oposição à lei. Portan-
to, não se consente aos juízes a aplicação desigual da lei segundo a 
variedade de lugares, momentos e pessoas; a equidade, em contra-
partida, é o princípio próprio do soberano, a quem, precisamente 
em função da exclusividade dos direitos que defi nem a soberania, 
primeiro entre todos e do qual os outros aspectos são só especifi ca-
ções, se consente que faça as leis. A interpretação e a aplicação equi-
tativa da lei transformariam de algum modo o juiz em legislador, o 
que dissolveria a soberania.
Mas em que consiste a equidade para Bodin? Ele o esclarecerá no 
capítulo VI do livro sexto. A característica da justiça distributiva e 
da proporção geométrica é uma igualdade geométrica que governa 
este tipo de justiça, típica da sociedade aristocrática e hierárquica, na 
qual cada um tem direitos diferenciados e todo semelhante em status 
deve unir-se e ser tratado com seus semelhantes. Tem muitos aspec-
31 Bodin, J. Les six livres de la République, livro I, cap. 10. Tradução livre de “Mais 
entre les marques de souveraineté, plusiers on mis la puissance de juger selon sa conscience: 
chose qui est commune á tous juges, s’il n’y a loi ou coutume expresse [...] S’il y a coutume ou 
ordonnance au contraste, il n’est pas en la puissance du juge de passer par-dessus la loi, ni 
disputer la loi [...] Mais le Prince le peut faire si la loi de Dieu —única limitação a la sobera-
nía— n’y est expresse”. 
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70 tos de equidade, mas não pode funcionar por si só devido a sua rigi-
dez, “la fermeté de la regle de Polycléte”. A isto se opõe a igualdade 
da proporção aritmética da sociedade democrática, que não aceita 
diferenças de status, se baseia na justiça comutativa e está em poder 
“de la variété et incertitude de la regle Lesbienne”. Em contraste 
com as duas formas de justiça aristotélica é preciso, pois, “suivre la 
justice harmonique, et accoler ces quatre points ensemble, á savoir 
loi, equité, exécution de la loi, et le devoir du magistrat”. E a justiça 
harmônica, que é a proporção que funde ambas as igualdades, é a 
equidade garantida pela soberania absoluta do príncipe, o único que 
pode “accomoder l’équité á la varieté particuliére des lieux, des 
temps et des personnes”.32
7 
Durante todo o século XVII — de Hobbes a Leibniz —, o sonho de 
uma lei tão simples e clara que reduzisse o papel de juiz ao de mero 
agente de aplicação mecânica das normas dominaria as escolas fun-
damentais do pensamento jurídico-político. Quer se trate das inter-
pretações voluntaristase nominalistas da justiça para as quais as coi-
sas são justas porque assim Deus o quis, quer das interpretações 
essencialistas ou realistas, para as quais Deus quis que as coisas fos-
sem assim porque eram justas, quer das interpretações do positivis-
mo jurídico que deixam à vontade do homem a criação das normas 
jurídicas para que sirvam a seus apetites nas cambiantes circunstân-
cias da vida, todas têm em comum a ideia de que há uma única 
fonte de justiça e que, portanto, é possível criar uma justiça exata e 
uniforme. A justiça distributiva tende a desaparecer dos objetivos do 
32 Bodin, J. Les six livres de la République, livro VI, cap. 6. Sobre Bodin e a equidade, 
veja-se Beaud (1994:191-196). Tradução das quatro citações em francês deste pará-
grafo: “a incomovível fi rmeza da regra de Policleto”; “da variedade e incerteza da 
regra lesbiana”; “seguir a justiça harmônica e reunir os quatro pontos, a saber, a Lei, 
a Equidade, a Execução da lei e o dever do Magistrado” e “acomodar a equidade à 
variedade particular de lugares, momentos e pessoas” (N. do T.).
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71direito propriamente dito, do ius strictum,
33 enquanto a equidade ten-
de a ser reabsorvida na justiça como a moral e a vontade na razão, 
sem contrastes. Em suas refl exões jurídicas, por exemplo nas Medita-
ções sobre o sentido comum de justiça (c. 1702), Leibniz (1994) chega ao 
que talvez seja a posição mais extrema quando sonha com uma jus-
tiça praticamente mecânica, de acordo com sua teoria lógica que 
buscava a coordenação rigorosa entre signo e signifi cado, que fi xas-
se de uma vez por todas a proporção entre caracteres e coisas, que é 
o fundamento da verdade. A justiça é uma das
ciências necessárias e demonstrativas que não dependem de fa-
tos, mas unicamente da razão, como o são a lógica, a metafísica, 
a aritmética, a geometria, a ciência dos movimentos e também a 
ciência do direito, que não se fundam na experiência e nos fatos 
e servem antes para aplicá-los e regulá-los por antecipação, o que 
também valeria para o direito se não houvesse leis no mundo. 
Em consequência, este é o objetivo por agora não realizado, mas 
que poderá sê-lo quando os homens se submeterem à lei de Deus e 
à razão. Dessa forma, “quando surgirem controvérsias, já não serão 
mais necessárias as disputas entre dois fi lósofos que entre dois calcu-
listas. De fato, bastará pegar a pena, sentar-se perante o ábaco e di-
zer-se reciprocamente: calculemos” (De scientia universalis).34
A equidade, a interpretação equitativa, são, em consequência, so-
luções subalternas e parciais em um mundo imperfeito que contudo 
tem que recorrer a uma distinção entre strictum ius, bondade e equi-
dade. O conceito de equidade iniciou assim um processo progressi-
vo de marginalização e de redução, cujo desenvolvimento não se-
guirei porque nos distanciaria muito das costas mediterrâneas.
33 A busca de uma distribuição justa dos bens seria sem dúvida um objetivo dema-
siadamente ambicioso para o jurista e que, ou bem não forma parte de suas tarefas, 
ou bem carece diretamente de todo sentido para ele. Grócio descarta a justiça dis-
tributiva do campo do direito propriamente dito. Villey (1985:529). 
34 Leibniz, 1994. 
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72 Mas não ocorre o mesmo na Itália e na Espanha, sociedades nas 
quais o direito canônico conserva uma presença notável no sentido 
comum e na realidade cotidiana. A ação da Inquisição e a prática da 
confi ssão, do arrependimento e do perdão, difundida por toda parte, 
não puderam ter deixado de incidir, em um nível inconsciente, no 
sentido comum de justiça que o tribunal das consciências sugeria aos 
fi éis. Assim se criou uma cultura específi ca, que pouco a pouco se 
converteu em antropologia concreta, sentido muito estendido de um 
duplo valor da moral, de um signifi cado distante e fraco das institui-
ções do Estado.
8 
Disto se dava conta Vico — que utilizarei como último exemplo da 
evolução comparada do signifi cado da equidade —, muito infl uen-
ciado pelo sentido católico da comunidade política no caminho 
rumo à redenção, isto é, “o progresso não interrompido de toda a 
história profana”. A semelhança com Leibniz é mera aparência: para 
o primeiro, a equidade desaparece na lei, enquanto para o segundo, 
a lei desaparece na equidade. Em De universi iuris uno principio et fi ne 
uno (1720),35 Vico divide o direito natural em ius naturale prius e ius 
naturale posterius, em que o primeiro mostra o indivíduo em sua exi-
gência de conservação, para a qual o critério individual de cada um, 
dirigido à conservação, faz as vezes de norma. Em seu curso, a his-
tória tem a função de desvelar progressivamente uma ordem natural 
diferente, fundada na capacidade da razão para transformar o prin-
cípio de conservação individual em coletivo, quer dizer, referido aos 
corpos sociais. Este processo passa pelo ius gentium e pelo desenvol-
vimento do direito civil, que transformam a luta de todos contra 
todos em relações de proteção baseadas no domínio e na subordina-
ção. Da equidade natural do ius prius, que se contrapõe à verdade 
porque “ex ipsa hominis sociali natura duplex existit naturalis rerum socíe-
35 Vico (1974). A tradução italiana é de Carlo Sarchi, Milão, P. Agnelli, 1866.
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73tas: altera veri, altera aequi boni”,
36 Vico nos conduz à equidade civil: 
parte da descrição da jurisprudência benigna ou ateniense e do ius 
pretorio, no qual “o vulgo (é) sensível à equidade natural e ignora a 
equidade política (vulgus naturalis solens, civilis aequitatis ignarum)”. 
Com a manutenção invariável das fórmulas das ações — segundo as 
XII tábuas —, o pretor provia a estabilidade da região civil, e com 
as exceções, quando se tratavam questões não contidas nas XII tábu-
as ou quando a lei das XII tábuas resultava demasiadadamente dura 
(si aequitati lex surda durave esset), lhes introduzia, em caso de neces-
sidade, a equidade do ius naturale.37
Assim se introduz uma jurisprudência benigna, “ars adqui boni”, 
segundo a defi nição de Celso. A equidade natural se caracteriza, 
pois, por acolher muitas exceções nas regras que a lei expressa, por-
que no ius naturale prius domina contudo um hiato entre indivíduo e 
conveniência racional. A equidade civil, em troca, parece e é auto-
ritária, pelo que “muito frequentemente recebe o nome de rigor da 
lei porque o rigor civil que se sofre imerecidamente é muito grave e 
amargo (magis appellata est ‘iuris rigo’, quia civilis rigor est sane rigor in 
causis in quibus contra immerente duratur)”.38 Só com o desenvolvimen-
to da racionalidade e da communitas, o direito natural posterius faz 
coincidir aequitas e lei. Porém se trata de uma aequitas que tem sua 
raiz na aequitas natural, que a comunidade consente realizar. 
A alma de uma república é o direito equitativo para todos, cuja 
ideia — como temos demonstrado — é uma ideia eterna que 
vem de Deus. Portanto, temos concluído que a constituição 
eterna da república é a ordem natural e que, em consequência, 
a alma da república não é equitativa para a equidade civil, mas 
para a equidade natural animus republicae ius aequum omnibus, 
cuius ideam aeternam a Deo esse demonstravimus. Unde formam re-
rumpublicarumaeternam ordinem naturalem esse confecimus; ac proin-
36 Vico, 1974:65.
37 Vico, 1974:283-285.
38 Vico, 1974: 289.
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74 de animum reipublicae non esse aequum aequitate civili, sed aequitate 
naturali).39
porque o direito existe na natureza (ius esse in natura) e é demonstrá-
vel matematicamente. “At quod est aequum dum metiris, idem est iustum 
quod eligis”.40 Portanto, a passagem do ius prius ao ius posterius marca 
a passagem de uma equidade natural individual para a equidade na-
tural absoluta, passando pela equidade civil. Porque a equidade civil 
expressa a manipulação autoritária da segurança da lei que justifi ca a 
razão de Estado: “atque haec est aequitas civilis, qua Iustinianus in No-
vellis dicit niti usucapiones, et ‘impium praesidium’ eleganter appellat, quam 
Itali elegantiori phrasi vertunt ‘razão de Estado”.41 O processo de civili-
zação nos leva, pois, da utilidade privada à pública, na qual se fun-
dem o sentido (utilidade e necessidade) e a razão sob o domínio 
desta última e em polêmica com o ius naturale philosophicum de Gró-
cio, que reduzia só à razão a fase fi nal do sistema jurídico em que 
coincidiam aequum y justum.
Eiusque iurisprudentiae regula aeterna est aequitas naturalis, quae mul-
ta contra communes iuris regulas recipit et admittit ac iuris civilis rigores 
temperat. Sed ea ipsa durior est iuris rigor [...] neque enim ex suo iure 
immutabili quequam solvit, nec ullum unquam hominis meritum tan-
tum est ut ratio naturalis ipsi indulget quod non dictet honestas. Tamen 
totius generis nomen occupavit; et aequitas civilis magis appellata est 
“iuris rigor”, quia civilis rigor est sane rigor in caussis in quibus contra 
immerentes duratur. At aequitas naturalis ex genere “aequitas” dicta 
est, quia in ipsis caussis in quibus immota haeret — haeret autem in 
omnibus — in ipsis, inquam, caussis benigna est. Et parvum est homi-
num iudicium qui eam iniquo animo ferunt, nam de ea sensuum sapien-
ta, quam stultitiam defi nivimus, iudicant.42
39 De constantia jurisprudentis (Vico, 1974:381).
40 Vico, 1974:57.
41 Vico, 1974:261.
42 Vico (1974:289). “A norma eterna de uma jurisprudência assim realizada é a 
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75Em Vico — e especialmente no Vico de De universi iuris uno prin-
cipio et fi ne uno — é muito marcada a inspiração no cosmopolitismo 
católico e no pensamento político tomista quando descreve o pro-
cesso que, através da realização progressiva da communitas entre os 
homens dominados pelas paixões e pelo pecado, leva à explicitação 
de uma racionalidade comum, que progressivamente elimina a força 
das relações entre os homens. Em síntese, uma racionalidade que 
conhece um desenvolvimento paralelo ao desenvolvimento das for-
mas de convivência social.
9 
A fi nalidade dos exemplos que examinei era mostrar que as imagens 
de justiça que se vão estruturando na Idade Moderna nos países eu-
ropeus e nos do Mediterrâneo nascem de modos diferentes de en-
frentar a oposição entre ordenamentos que, reforçando o peso da lei, 
abrem passagem pouco a pouco para a codifi cação e o ordenamento 
que reforçam — sem renunciar a certa forma de medida e de segu-
rança do direito — o poder interpretativo dos juízes nas práticas 
judiciais. Desta forma, o problema vai se concentrando no espaço 
concedido aos juízes perante os casos não previstos explicitamente 
pela lei ou de difícil redução aos princípios fundacionais do ordena-
mento: é assim como o conceito de analogia vem cumprir um papel 
muito importante, seja em sua forma mais limitada de analogia legis, 
seja na mais geral de analogia iuris.
equidade natural, e por isso recebe e acolhe muitas exceções às regras que a lei ex-
pressa, e se esforça em temperar os rigores da razão civil. Mas por sua própria con-
dição, a equidade natural implica um rigor mais infl exível ainda; não exclui nin-
guém de sua lei imutável, e a nenhum homem pode a razão natural agradar com o 
distanciamento da honestidade, pois a equidade natural é o nome genérico, que 
compreende todas as formas do equitativo. Que a equidade civil receba mais fre-
quentemente o nome de ‘rigor de lei’ se deve a que o rigor civil sofrido imerecida-
mente é muito grave e amargo, enquanto, pelo contrário, a equidade natural, isto é, 
a ‘equidade’ genérica e absoluta, se mostra sempre benigna inclusive nas causas nas 
quais se mostra mais estreitamente unida (e em todas é encontrada); e perverso é o 
conselho dos que a toleram de má vontade, porque têm o juízo ofuscado pela sabe-
doria dos sentidos, que temos defi nido como estultícia”.
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76 O procedimento mediante o qual se busca a disciplina do caso não 
regulado pode adotar três formas: a interpretação extensiva, que não 
tem caráter integrador, mas interpretativo; a remissão aos princípios 
gerais do ordenamento, com um papel interpretativo e integrador, e 
a analogia, cuja função é integradora.43 Só me deterei na analogia, 
dada a particular clareza com que, no tocante a este conceito, se 
mostram as tendências contrastantes dos sistemas jurídicos; de fato, 
enquanto, do ponto de vista da análise teórica, a analogia tem de-
sempenhado um papel cada vez mais limitado nos sistemas jurídicos 
europeus, foi em contrapartida aumentando sua importância nos or-
denamentos do direito hebreu, do islâmico e do canônico.
Em geral, podemos dizer que o problema central na evolução para a 
codifi cação dos ordenamentos jurídicos tem sido o da limitação da ana-
logia em duas direções. Entretanto, foi-se dando uma defi nição cada 
vez mais estreita de analogia, isto é, retirando dela esse caráter um tan-
to indefi nido de semelhança que já haviam combatido o tomismo e 
depois Cayetano.44 O próprio conceito de analogia vai perdendo pouco 
a pouco a indefi nição da semelhança para converter-se em um concei-
to exato de proporção. Analogia — dirá Kant — não signifi ca, “como 
se costuma interpretar a palavra, uma semelhança imperfeita de duas 
coisas, mas uma semelhança perfeita de duas relações entre coisas inclu-
sive completamente diferentes”; isto é, precisamente, a proporção.45 E 
se recordará que para o cardeal De Luca a proporção também é a regra 
geometricamente exata da justiça distributiva e da equidade.
A segunda via, mais explícita, embora conserve o caráter da se-
melhança como faticamente defi nitório da analogia, tem sido a de 
pôr limites ao uso das práticas judiciais, excluindo-a especialmente 
43 Bobbio (1960). Cf. também Carcaterra (1988), com particular referência à rela-
ção entre equidade e analogia, p. 12-14.
44 Cf. Secretan (1984). Sobre as posições de Tomasso de Vio Cayetano a propósito 
da analogia, veja-se Nef (1993) e Riva (1955). Sobre Tomás de Aquino e Suárez, cf. 
Bastit (1990). 
45 O Kant dos Prolegomena zu einer jeden künstigen Metaphysik die als Wissenschaft wird 
ausreten können (1783) é citado por Needham (1980) em seu importante ensaio sobre 
analogia intitulado “Analogical classifi cation”. 
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77do perigoso caminho das leis excepcionais e do direito penal, com 
maior razão no caso de leis penais incriminatórias.46Pelo contrário, é preciso destacar que todos os ordenamentos que 
tendem à individualização da pena, de grande predomínio nas so-
ciedades desiguais e hierárquicas do Ancien Régime, utilizam com 
amplidão a analogia.47 Precisamente com referência à consideração 
subjetiva do delito, à sua diferenciação de acordo com os momentos, 
os lugares e as pessoas, à diferencialidade social de conjunto do sis-
tema jurídico, a equidade impõe o procedimento analógico como 
instrumento central de direito. Não é necessário recordar o papel 
central da analogia (qiyás) nos sistemas jurídicos islâmicos,48 nos 
quais constitui uma das quatro fontes da lei muçulmana referida aos 
casos em que não exista uma prescrição textual explícita do Corão 
ou de uma tradição. Na realidade, o raciocínio analógico contém 
um vigoroso elemento de insegurança e permite, por exemplo, in-
terpretações diferentes. Contudo, remete rigorosamente aos deveres 
morais dos juízes e à equidade: de fato, coincide com o esforço de 
investigação pessoal (ijtihâd).49
Mas o foco de toda a discussão sobre a analogia está ocupado pelo 
problema da segurança e da uniformidade do direito: mesmo quan-
do o papel interpretativo do juiz seja na verdade amplíssimo, o pro-
blema da proporção entre as penas e a segurança se desloca — no 
caso do direito islâmico — para o testemunho, para a multiplicidade 
das provas, para a confi ssão do réu e para a coerência com os princí-
pios e as regras do direito de Deus.
Problemas semelhantes apresenta o papel da analogia (héqèsh y gezéra 
chava) na exegese jurídica do direito talmúdico, no qual o raciocínio 
46 Cf. Vassalli, 1960. 
47 Sobre semelhança e analogia na sociedade moderna é útil referir-se também ao 
capítulo 2, “Les quatre similitudes”, de Foucault (1966). 
48 Veja-se a palavra “kiyas”, redigida por Bernard (1980:238-242). Cf. também 
Schacht (1964:64-75), Coulson (1964:59-60) e Brunschvig (1976, vol. I, p. 303-
327; vol. II, p. 347-403).
49 Em um dos textos fundadores da metodologia jurídica islâmica, Muhammad lbn 
Idrîs Ash-Shâfi î (767-820) defi ne com clareza tanto o raciocínio analógico como o 
esforço de investigação pessoal: Shâfi (1997:317-338). 
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78 analógico leva a conclusões prováveis porque se baseia em semelhanças 
e não na identidade matemática da proporção. Portanto, tem caráter 
orientativo e hipotético. Porém — como nos lembra Weingort —, a 
analogia é um instrumento necessário para o procedimento mesmo 
com o qual os Amoraim — os redatores do Talmud — construíram as 
regras gerais.
O Talmud emprega a forma casuística, graças à qual, com uso 
do método indutivo, o princípio geral abstrato é extraído a par-
tir do caso particular. O Talmud, portanto, deve assegurar-se de 
que o caso particular que cita como exemplo do princípio geral 
ilustre um princípio legal e só um, com exclusão de qualquer 
outro. Isto unicamente é possível mediante a elaboração de mo-
delos que respondam ao critério de excluir qualquer ensinamen-
to distinto do que os sábios têm requerido [...] Esta formulação 
artifi cial, em oposição aos casos da vida real, permite fazer abs-
tração dos detalhes concretos que poderiam produzir, por con-
tato, um princípio distinto do desejado.50
Porém isto admite tanto uma referência continuada à equidade 
como um uso extenso da analogia. Melhor dizendo, uma verdadeira 
proliferação da analogia: em todo o debate jurídico talmúdico vão 
se desenvolvendo progressivamente regras específi cas que consen-
tem a analogia, frequentemente distintas tanto da semelhança como 
da proporção, como, por exemplo, quando se afi rma (como ocorre 
nas sete middot de Hillel o Antigo) a analogia de lugares bíblicos 
sobre a base da semelhança fonética das palavras ou a analogia de 
duas disposições, apesar de sua grande diferença, por sua presença no 
mesmo versículo bíblico. Em síntese, tanto no direito hebreu como 
no resto da hermenêutica talmúdica, a analogia desempenha um 
papel básico. Porém — à diferença da tradição lógica aristotélica — 
sua caracterização também toma forma em obediência a regras que 
50 Wingort, 1998:xix. 
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79derivam da sacralidade do texto de referência, no qual contam ele-
mentos de vizinhança e distância entre palavras, semelhança fonéti-
ca ou valor numérico das letras. Seus limites, contudo, são específi -
cos e rigorosos porque se defi nem progressivamente a partir das sete 
regras de Hillel para passar através das treze middot de Rabbi Ismaél, 
para chegar às chamadas trinta e duas middot que devem seu nome a 
Eliezer ben Yosé há-Gelili.51
No direito canônico se apela expressamente para a analogia no 
cân. 20 C.J.C., que detalha os quatro meios para preencher as lacu-
nas. O primero destes meios é precisamente a analogia em sua versão 
débil de semelhança: “Si certa de re desit expressum praescriptum legis sive 
generalis sive particularis, norma sumenda est, nisi agitur de ponis applican-
dis, a legibus latis in similibus, a generalibus juris principiis cum aequitate 
canonica servatis, a stylo et praxi Curiae Romanae; a communi constantique 
sententia doctorum”.
No direito canônico, a distinção entre analogia tesis (o recurso a 
leges latas in similibus) e analogia iuris, com referência aos princípios 
gerais, levará Suarez ao princípio geral em virtude do qual é legíti-
ma a interpretação extensiva de qualquer lei eclesiástica, inclusive 
penal, porque se funda no fi m da lei, que acentua a salus animarum e 
a aequitas canonica. Mas tampouco aqui se trata de arbitrariedade, 
senão de uma proporção geométrica que refere o caso específi co ao 
sistema de conjunto e proporciona méritos e culpas entre eles.
Contudo, é importante recordar que no campo católico — subs-
tancialmente uniforme no que diz respeito aos procedimentos jurí-
dicos — a discussão sobre a analogia apresenta profundos contrastes 
de grande importância político-teológica. Contra as posições domi-
nicanas de Cayetano, que privilegiam a analogia de proporcionali-
dade e que consideram a analogia como diferença gradual, Suárez 
sustenta a analogia dos atributos, a analogia da atribuição. Assim, em 
De Legibus, afi rma que Deus transmite ao povo o poder soberano 
51 Abitbol (1993:94-210). Para a relação com a equidade, cf. também Cohen 
(1991:145-184). 
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80 para instituir o poder. Esta soberania popular não é totalmente dis-
tinta da divina, nem totalmente idêntica a ela: é análoga por partici-
pação. Daqui que o poder do Estado só será legítimo se o povo o 
reconhece, o que resulta bastante mais difícil na interpretação de 
Cayetano, que se remete a Deus para legitimar o poder político.52
10 
Após esta viagem, demasiado rápida sem dúvida, pelos conceitos 
mencionados, voltemos à reciprocidade. O que tratei de sugerir é 
que, quando referimos a reciprocidade equilibrada e a reciprocida-
de generalizada às sociedades complexas do Mediterrâneo e às for-
mas econômicas, sociais e jurídicas que nelas predominam, é neces-
sário complexar a diferenciação entre esses conceitos, hoje em dia 
moeda corrente entre os antropólogos. De fato, não se trata de 
identifi car transações presumivelmente altruístas, modeladas sobre 
o padrão da assistênciaprestada e, se é possível e necessário, recom-
pensada, mas sem a expectativa de uma contrapartida material di-
reta de transações diretas nas quais a compensação seja um equiva-
lente consuetudinário e instantâneo do bem recebido.53 Em uma 
sociedade que não tem uma defi nição clara da determinação dos 
valores econômicos,54 que não conhece um mercado impessoal e 
autorregulado, os problemas de defi nição do preço justo e do salá-
rio justo são complexos e remetem continuamente ao conceito de 
equidade. Não se trata de deduzir o valor dos bens intercambiados 
de uma determinação defi nida no intercâmbio, nem de uma carac-
terística intrínseca dos bens, mas de construir um sistema de inter-
52 Suárez, F. Tractatus de legibus ac Deo legislatore, III, viii, 4-6 y III, xv, 11.12. Utili-
zou-se a edição do Corpus Hispanorum de Pace do CSIC, Madri, 1975, p. 103-107 e 
p. 231-239. Sobre equidade, inclusive em relação com a analogia na interpretação 
das leis, Suárez discute amplamente sobretudo no livro II, xvi, p. 1-16.
53 Retomo aqui a defi nição de Sahlins (1972:185-261). 
54 Grenier (1996) tem proposto o problema com maior ênfase na difi culdade para a 
elaboração de uma teoria do valor que no marco cultural distinto em que se colo-
cava a prática do intercâmbio.
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81câmbio no qual os valores estejam determinados pelas característi-
cas específi cas dos que os intercambiam, ao ponto de que um mesmo 
bem adote valores distintos segundo quais sejam as pessoas que en-
tram na transação: “in salarii taxatione ad hoc, ut se cum dispositione 
iuris conforment multarum rerum rationem habere debebunt, et primo qua-
litatis personae”.55 Como se pode pagar um médico, que se ocupa da 
vida e da morte?, pergunta-se o jurista Zacchia. Ou a um juiz, que 
se ocupa do justo e do injusto? Não pode haver um salário adequa-
do: eles serão pagos de maneira diferente, não por suas prestações, 
nem por sua capacidade, mas de acordo con seu status social, seu 
prestígio, sua honra: por isso se denomina “honorários” ao salário 
do médico e do juiz.
Sendo assim, a mistura de economia e ética, de valores gerais da 
sociedade e de valores específi cos que entram na reciprocidade que 
se manifesta nos intercâmbios, complica e difi culta a determinação 
das medidas — imprescindíveis, contudo — da sociedade equitativa 
e desigual que obedece a estas regras.
Isto não se opõe ao esforço de medir e assegurar os valores e dar 
uma ordem legível à sociedade por meio de classifi cações simplifi ca-
doras: esta exigencia será precisamente a que favoreça o progressivo 
predomínio de esquemas uniformes de valor que deslocarão a aten-
ção do uso e das pessoas para o intercâmbio e para as coisas. Mas 
nunca haverá uma vitória total em nenhum campo, e menos ainda 
no campo jurídico, setor no qual sempre será difícil separar a justiça 
legal do sentido comum de justiça.
Creio que precisamente através do exame destes problemas, exa-
me que requereria sem dúvida muito mais espaço do que eu tivesse 
podido dispor aqui, será possível esclarecer algumas diferenças subs-
tanciais na história e nas características culturais e antropológicas de 
diferentes países e identifi car uma série de especifi cidades mediter-
râneas que continuam operando ainda hoje.
55 Zacchia (1658:37). Um exemplo muito evidente da relação entre economia e 
salário justo se encontrará em Trivellato (1999). 
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82 Se contemplarmos em particular a Itália, parece-me importante 
observar que a vigência do direito canônico junto ao positivo, o reco-
nhecimento da superioridade moral dos clérigos sobre os laicos e prá-
ticas religiosas como a confi ssão, que propõem por toda parte formas 
lógico-morais às consciências individuais, têm contribuído para cons-
truir uma forma específi ca de sentido comum do justo, típica desta e 
de outras sociedades católicas nas quais não teve lugar uma subordi-
nação precoce da igreja ao Estado. E isto é também o que tem contri-
buído para debilitar as instituições e para propor formas intersticiais 
de ação entre sistemas de normas contraditórias e paralelas.
Portanto, o tema da equidade confi rma seu papel central na ex-
periência dos países católicos, como critério dominante da justiça 
distributiva em uma sociedade corporativa e hierárquica. E, embora 
com signifi cados diferentes, tem-me parecido que também as socie-
dades de tradição islâmica ou a tradição jurídica talmúdica apresen-
tam caracteres similares. A importância interpretativa deste conceito 
excede em muito, contudo, o mero aspecto jurídico para converter-
se em critério de conjunto da integração e da regulação de todos os 
aspectos sociais e econômicos. A difi culdade com que topam os ju-
ristas italianos (que exemplifi quei com Vico) em pleno século XVII 
é justamente a de conservar este critério, embora lhe reconhecendo 
natureza histórica.
Contudo, é impossível imaginar uma equidade, uma solidarieda-
de e uma reciprocidade carentes de rigor: porém se trata de um rigor 
que requer um olhar autoritário que imprima proporção geométrica 
nos prêmios e nos castigos, com simultânea atenção à especifi cidade 
dos casos particulares e das perspectivas globais de melhora moral do 
sistema político geral.
As sociedades católicas do mundo mediterrâneo têm acolhido, por 
certo, sistemas jurídicos baseados em um idioma de igualdade. Não 
obstante, a hipótese que quis propor é que, sobretudo nestas socieda-
des, a permanência de um sentido comum de equidade em oposição 
às normas codifi cadas goza de tal vigor e de tal virulência, que che-
gou a ser um aspecto constitutivo de sua antropologia política.
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Economia camponesa e mercado de 
terra no Piemonte do Antigo Regime*
Giovanni Levi
1. Terra como mercadoria?
O problema dos aspectos específi cos da mercantilização da terra — suas 
origens e desenvolvimento — é um tema recorrente do debate histo-
riográfi co. E isso não apenas se deve à difi culdade de construir séries 
homogêneas de preços, mas também à artifi cialidade e ao próprio peri-
go de considerar a natureza e o ambiente como mercadoria: o postula-
do de que tudo aquilo que é comprado e vendido foi produzido para a 
venda é, para a terra, manifestadamente falso. A descrição do trabalho, 
da terra e da moeda como mercadorias é inteiramente fi ctícia, e é exa-
tamente por meio desta fi cção que tais categorias são organizadas.1
No centro da discussão está, portanto, a verifi cação da expansão 
de um dos aspectos basilares do mercado capitalista e de quando este 
1 Polanyi, 1980:32-33. 
∗ Traduzido da versão italiana “Economia contadina e mercato della terra nel Pie-
monte di Antico Regime”. Publicado em Storia dell’agricoltura italiana in età contem-
porânea, II, Uomini e classi, Marsilio Editori, 1990, p. 535-553. Tradução e notas 
para a versão em português de Ângela Brandão.
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88 fator fundamental da produção se tornou, ao menos em parte e pro-
gressivamente, desvinculado de barreiras sociais que tornavam difí-
cil a troca mercantil: antes de tudo o conjunto dos fatores coletivos 
de posse (os direitos comunitários sobre a terra, que tornavam im-
perfeita a propriedade e extraordinariamente irregular o acesso ao 
mercado, bem como os direitos senhoriais ou eclesiásticos, que obs-
taculizavam o livre desprender-se de forças da demanda e da oferta). 
Sob o Antigo Regime, a terra, elemento essencial do ordenamento 
feudal, era o alicerce do sistema militar, judiciário, administrativo e 
político; seu estatuto e sua função eram determinados por regrasjurídicas e consuetudinárias. Ela era, portanto, não só a base da pro-
dução, mas também do sistema de poder e de proteção social que 
caracterizava todo o sistema político, e isso tornava toda forma de 
circulação mercantil da terra não impossível, mas complexa e visco-
sa, obstaculizando sua fl uidez: direitos familiares, senhoriais, comu-
nitários, monárquicos, enfi m, contribuíam para fazer da terra algo 
que só muito arbitrariamente podia ser considerado parte do merca-
do. A terra não era uma mercadoria como as outras; aliás, no fundo, 
não era nem mesmo uma mercadoria. Se sua posse era transferível e, 
em caso positivo, a quem e sob quais restrições, o que implicavam os 
direitos de propriedade, a qual empenho podiam ser revertidos cer-
tos tipos de terra — todos esses problemas eram separados da orga-
nização habitual de compra e venda, e eram transferidos a um con-
junto completamente diverso de regulamentação institucional.2
E de resto, ainda que se levasse em consideração somente a terra 
livre, a presença de terras comuns, de direitos coletivos, de áreas 
feudais e senhoris contribuía para a deformação dos comportamen-
tos mercantis, multiplicando os níveis nos quais as transações se de-
senvolviam, entrelaçando lógicas econômicas diferentes e apenas 
parcial e reciprocamente intercambiáveis.
Por outro lado, descobrir nos atos notariais medievais e modernos 
um número enorme de transações mercantis sobre a terra contradizia 
2 Polanyi, 1980:29.
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89este quadro: chegou-se, por isso, ao ponto de atribuir ao processo 
progressivo de trocas mercantis de terra a prova indiscutível da difu-
são de uma mentalidade individualista — se não capitalista—, que 
incluía a terra nos circuitos impessoais do mercado, ao lado de outras 
mercadorias, e que separava os homens da viscosidade3 social e corpo-
rativa do mundo familiar e coletivo para fazê-los agentes livres, dis-
postos a maximizar utilidades puramente econômicas.4
Esta é uma discussão importante, mas no fundo formulada de 
modo estéril, e, por isso mesmo, periodicamente ressurgida sem 
solução pela pesquisa historiográfi ca. Com a desvantagem de pola-
rizar as posições entre quem negava qualquer regularidade signifi -
cativa nos comportamentos mercantis da terra — renunciando, por 
isso, ao estudo das características específi cas daquelas transações, 
que apareciam em grande número nos documentos redigidos por 
notários — e quem, de outro lado, simplifi cava o quadro adequan-
do um mercado específi co às regras do capitalismo contemporâneo 
ao somente mensurar a quantidade de terra efetivamente revestida 
das práticas de mercado. Tratava-se, de todo modo, de um mercado 
que era, na forma, homogêneo pelo menos por seis séculos e gover-
nado por leis da oferta e da procura: daí porque série de preços e 
preços médios, tendências seculares, variações conjunturais e cícli-
cas ocultavam, sob uma manipulação estatística, a dispersão dos 
preços, muito acentuada entre cada ato de troca que não podia ser 
explicada somente com uma variabilidade mais intensa da partici-
pação dos compradores e vendedores no mercado.5
3 O termo viscosidade, empregado por Giovanni Levi em diferentes momentos de 
seu texto, foi mantido na tradução como oposição à ideia de fl uidez, mas poderia ser 
entendido como complexidade.
4 MacFarlane (1978). Em realidade, os estudos sobre o mercado da terra na Inglater-
ra medieval são mais atentos aos problemas aqui discutidos do que aquele extremo de 
MacFarlane. Cf., em particular, Postan e Brooke (1960). Os estudos sobre a Inglater-
ra são muito numerosos e foram discutidos em Levi (1989:225-258). (N. do T.)
5 A utilização de preços médios que escondem as oscilações foi uma prática cor-
rente na historiografi a que se ocupou do mercado da terra no Antigo Regime. Al-
guns exemplos: para a Inglaterra medieval, cf. Rafi s (1974); para a América colo-
nial, Davisson (1967). Ainda os ótimos estudos de Béaur (1984) e Masella (1976) 
parecem-me pouco sensíveis ao problema da dispersão dos preços. Importantes con-
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90 A alternativa não está em procurar entre a ausência (ou a total di-
versidade) e a presença do mercado. Devemos, ao contrário, pergun-
tar-nos quais são as regras formais das transações de terra através do 
mercado em um contexto social ainda amplamente feudal e o que se 
pode inferir sobre os mecanismos sociais que caracterizam esta forma. 
E ainda: quais regularidades ou leis se destacam sobre a extrema va-
riabilidade de preços registrados nos atos notariais. Utilizarei, nas pá-
ginas que se seguem, o exemplo do Piemonte entre o Seiscentos e o 
Setecentos com o intento de elencar alguns problemas gerais que, 
acredito, valham ao menos pela abstrata formulação que oferecem dos 
aspectos relevantes sobre os quais devemos nos interrogar para outras 
situações ainda que geográfi ca e cronologicamente distantes.
No Piemonte do Seiscentos e do Setecentos, o número de transa-
ções de mercado registradas nos atos notariais é extremamente alto 
e, todavia, a dispersão dos preços não é derivada do leque muito 
amplo da qualidade pedológica da terra ou de sua colocação mais ou 
menos favorável em relação ao mercado ou às vias de comunicação. 
Também em uma área muito circunscrita, a de um vilarejo em par-
ticular (refi ro-me a Santena, situado entre Turim e Asti),6 por pe-
daços de terra cultivada de modo semelhante em qualidade e di-
mensão os preços unitários oscilavam entre 20 e 500 liras por 
jornada (cerca de um terço de hectar [1ha = 10.000 m²]). Isso torna 
imediatamente evidente que o preço não é determinado pelo jogo 
automático da demanda e da oferta. Se uma economia de mercado 
é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido somente 
pelos mercados em que a ordem na produção e na distribuição das 
mercadorias é confi ada a este mecanismo autorregulante; se, por-
tanto, supomos que numa economia deste tipo os seres humanos se 
tribuições para o debate histórico estão reunidas no número especial de Quaderni 
Storici, Il mercato della terra, n. 65, 1987. 
6 Cf. Levi (1985a:83-121). O mercado da terra em Santena foi estudado nos anos 
de 1678 a 1702; as variações de preço não se referem somente às diferenças de ano a 
ano, mas se acentuam de modo semelhante no curso do mesmo ano. A jornada 
piemontesa corresponde à área 38,0095 (N. do T.: no original não consta a medida 
de terra utilizada).
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91comportam de modo tal a conquistar um máximo de ganho mone-
tário e imaginamos que existem mercados nos quais a oferta das 
mercadorias e dos serviços disponíveis a um determinado preço seja 
equivalente à demanda do mesmo; e se a ordem na produção e na 
distribuição das mercadorias é assegurada somente pelos preços, al-
gum obstáculo importante deve ter entrado em jogo para criar uma 
situação tão dispersa no nível dos preços da terra.
A resposta mais evidente foi sugerida por Chayanov: numa eco-
nomia apenas parcialmente mercantilizada e na qual o objetivo pri-
mário não é a troca, o comércio, mas sim o autoconsumo; não é o 
lucro monetário, mas a subsistência; em uma economia na qual os 
mercados, portanto, são apenaselementos assessórios com relação à 
vida econômica, os preços são ditados pelas necessidades. Não é o 
mercado em geral que determina o preço da terra, mas, sim, a exi-
gência de cada família camponesa num momento específi co de seu 
ciclo de vida.7 A explicação de Chayanov é que a participação dos 
camponeses no mercado é descontínua. O objetivo não é maximizar 
o resultado monetário, mas encontrar e conservar um equilíbrio 
entre as necessidades da família e o esforço distribuído:
O que determina o preço da terra? [...] Procurar terra para ar-
rendamento ou compra é evidentemente vantajoso para a famí-
lia camponesa somente se, com esta nova terra, a família, como 
unidade econômica, pode alcançar um equilíbrio seja com me-
lhoramento do nível de vida, seja com uma diminuição da dis-
tribuição de trabalho. Os negócios camponeses que têm uma 
quantidade considerável de terra e estão, portanto, em condição 
de utilizar plenamente a força de trabalho familiar disponível 
num grau ótimo de intensidade de cultivo não têm necessidade 
de comprar ou arrendar terras. Qualquer despesa nesse sentido 
parece irracional porque não aumenta a prosperidade da família 
na medida em que subtrai recursos.
7 Chayanov, 1966:9-10.
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92 Ao contrário, se a família não dispõe de terra sufi ciente, estará 
disposta a pagar um preço de terra acrescido, que melhore o equilí-
brio entre a força de trabalho disponível e as necessidades, ainda que 
para isso seja necessário utilizar a maior parte do produto bruto que 
lhe advirá da utilização desse novo pedaço de terra: estará, portanto, 
disposta a pagar um preço excedente, ainda que em muito, em rela-
ção ao preço determinado pela situação do mercado dos produtos 
agrícolas ou pelo lucro que a agricultura almeja. O preço da terra 
camponesa será, portanto, muito mais oscilante do que aquele de-
terminado pelo mercado capitalista; dependerá, por exemplo, mais 
do crescimento da população do que da situação do mercado dos 
produtos agrícolas: “os camponeses com pouca terra pagam preços 
que signifi cativamente excedem a renda capitalista”.8
Esta explicação — à qual deverei retornar — difere, em parte, 
daquela dada por Clifford Geertz para os diferentes bens da terra, 
mas segundo uma lógica que pode ser aqui utilmente retomada. 
Geertz volta sua atenção mais acentuadamente para a fraqueza recí-
proca de demanda e oferta em situações apenas parcialmente mer-
cantilizadas, e, então, para o caráter acidental de seu encontro. Po-
demos parafrasear esta explicação dizendo que, particularmente em 
comunidades rurais pobres, nas quais não exista uma demanda ex-
terna por terra, e nas quais a quantidade de moeda acumulada seja 
escassa, as poucas ocasiões — em geral dramáticas — que levam 
certa família a vender sua terra, colocam-na em difi culdade para 
encontrar alguém em condição de comprar. Ou vice-versa: em caso 
de necessidade, custa-se a encontrar alguém disposto a colocar suas 
terras à venda.
Isso faz com que cada simples ato de compra e venda seja, de cer-
to modo, um mercado fechado em si mesmo, que determina os pre-
ços segundo regras muito mais indeterminadas do que aquelas que 
Chayanov sugeriu.9
8 Chayanov, 1966:10.
9 Cf., em particular, Geertz (1963 e 1979).
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93Finalmente, mas não menos importante, neste mercado descontí-
nuo o comércio não é nada mais que um dos momentos e dos objetos 
de um complexo mecanismo de transações e de reciprocidade, que 
deixa traços escritos nos atos notariais, diferentemente de outros ob-
jetos de comércio, porque o aparato estatal organizou precocemente 
o registro cadastral das propriedades de terra (e, portanto, da muta-
ção relativa) como objeto de transação. O mesmo não ocorre de 
maneira tão sistemática para outros gêneros mais móveis (como o 
gado, produtos agrícolas, prestação de serviços e, até mesmo, para 
muitas das trocas monetárias que precedem os empréstimos). Fre-
quentemente, então, o registro notarial das mudanças de propriedade 
é apenas uma fase fi nal ou intermediária de uma rede complexa de 
transações, e os próprios preços exprimem algo mais, além da simples 
transmissão de terra entre famílias por meio do mercado.
Uma prova disso tudo é a diferença de nível de preços segundo as 
relações pessoais que mantêm os contraentes entre si: em Santena, 
no fi nal do Seiscentos, os preços eram diferentes caso as transações 
ocorressem entre parentes, vizinhos ou estranhos, e eram sensivel-
mente mais altos à medida que se reduzia a distância de parentesco: 
justamente porque mudava o conteúdo das reciprocidades em jogo 
e as relações de troca de terra tornavam-se progressivamente mais 
puras, menos carregadas de transações precedentes, de deveres e de 
proteções, que o ato notarial, com a passagem fi nal de propriedade, 
reequilibrava de algum modo.10
De resto, o comércio no âmbito familiar é justamente um indica-
tivo da muito signifi cativa viscosidade de circulação da terra, e foi 
destacado no estudo da progressiva mercantilização da terra na In-
glaterra, como sendo a prevalência de longo período de comércio 
interfamiliar, que não permite falar de mercado da terra em sentido 
pleno além da ilusão de ótica produzida pelas transações fi xas, regis-
tradas nos atos notariais.11
10 Levi, 1985a.
11 Cf. Razi, 1980:28-30; 111-112.
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94 2. Matrimônio e hereditariedade
Também o processo de formação da propriedade era controlado nos 
negócios camponeses — mais por problemas de otimização do au-
toconsumo do que pela lógica do acesso ao mercado dos excedentes 
agrícolas. Isso quer dizer que era a estrutura de cultura diversifi cada 
a ser procurada mais do que a especialização, e que a fazenda seguia 
uma lógica de formação escalonada, ao mesmo tempo que privile-
giava as culturas de subsistência e, portanto, a lavoura em primeiro 
lugar. Seguia-se a vinha e, só sucessivamente, quando a dimensão 
da propriedade possibilitasse, a criação de gado, o pasto. O bosque 
de uso exclusivo, enfi m, era uma exceção e restringia-se somente a 
fazendas particularmente complexas e amplas. Em muitas áreas do 
Piemonte, onde os dotes incluíam não apenas bens móveis, mas 
também bens imóveis, a transmissão da terra ocorria em duas fases: 
no matrimônio, nos dotes propriamente e, portanto, pela via femi-
nina no momento de formação da nova família; e por herança, pela 
via masculina, no momento da morte do patriarca da família de 
origem e, então, numa fase sucessiva do ciclo de duração da família, 
quando o novo núcleo doméstico tinha enfrentado alguns anos 
(às vezes decênios, dependendo do índice de nascimentos e da idade 
com que as pessoas se casavam) de existência autônoma.
Este processo em dois tempos fazia, sim, com que houvesse uma 
substancial diversidade de fases: na primeira era essencial a produção 
de cereais de subsistência, e a terra que entrava nos dotes era primor-
dialmente de lavoura ( junto da moradia), enquanto as parcelas trans-
mitidas por herança davam uma contribuição mais casual e variada, e 
continham vinha, pastos e bosques ao lado dos campos. Portanto, 
existia, tendencialmente, segundo as dimensõesda propriedade, uma 
relação relativamente constante entre as destinações de cultivo (quan-
to mais cresciam as dimensões, mais aumentava a diversifi cação dos 
cultivos) e as várias fases de constituição da fazenda, que implicavam, 
com frequência, recorrer ao mercado: o dote implicava a procura de 
terras para o plantio quando não era disponível um excedente interno 
da propriedade familiar. De modo mais geral, o papel do mercado era 
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95aquele de criar um equilíbrio não somente dimensional, mas de des-
tinação, que contrabalançasse as situações familiares segundo as fases 
do ciclo da vida. Há, portanto, um jogo recíproco entre possibilidade 
de constituir novas famílias e disponibilidade de terra no mercado, 
que entra como caso particular, mas bastante generalizado, a alterar a 
lógica puramente maximizante na determinação da demanda e dos 
preços da terra sobre o mercado camponês. Também aqui, em suma, 
o mercado gerado pelo autoconsumo possui uma lógica diferente da-
quele, embora existente, da gestão efi ciente e voltada ao lucro da 
terra: variam a frequência de acesso ao mercado, a dimensão das por-
ções, as destinações de plantio, os preços pagos, as oportunidades.
O exemplo de Felizzano, no Alessandrino, durante o curso do 
Setecentos,12 é uma demonstração de tudo isso: a boa conservação 
da documentação cadastral e, especialmente, aquela rigorosa docu-
mentação das mudanças de propriedade que põem em evidência o 
papel do mercado, do dote e da herança na devolução da terra per-
mitem confi rmar a função determinante da família e do matrimô-
nio, do autoconsumo e das relações entre gerações nas estruturações 
do mercado da terra, na profunda imersão de sua lógica num mode-
lo social muito diversifi cado se comparado àquele capitalista ou ple-
namente mercantil. E isso além dos vínculos feudais e senhoris, 
eclesiásticos e comunitários, que acrescentam suas intervenções, dis-
tanciando o funcionamento desse mercado complexo daquele sim-
ples e coerente — e talvez imaginário — do mercado autorregula-
do. Parece-me, então, impróprio supor um modelo de progressiva 
absorção da terra no mercado, num único mercado fl uido governa-
do por regras impessoais de demanda e oferta, como índice do pro-
cesso de modernização: é verdadeiramente certo que o mercado 
viscoso e socialmente dominado pelo Antigo Regime fosse mais 
fi xo do que aquele mercado fl uido da sociedade capitalista nascente? 
É este o problema que será enfrentado nas páginas seguintes.
12 Levi (1985b:151-177). Também sobre Brischerasio, no Piemonte, cf. Sclarandis 
(1987).
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96 Até aqui as considerações que desenvolvi estão baseadas em duas 
pesquisas microanalíticas relativas a dois vilarejos piemonteses na 
Idade Moderna: somente trabalhando sobre as relações de parentela 
dos compradores e dos vendedores, e somente estudando cada ne-
gócio singular ao longo de seu ciclo de vida pode-se observar ple-
namente o caráter complexo da relação entre terra e mercado que 
descrevi. Todavia, uma outra fonte mais agregada nos fornece mais 
indicações. Trata-se do espólio que os funcionários piemonteses fi -
zeram de todos os contratos de compra e venda de terra por 29 anos 
(1680-90 e 1700-17), para cada comunidade continental do estado 
de Savoia aquém dos montes, a fi m de avaliar o preço médio da 
terra, durante o trabalho preparatório do grande cadastramento 
promovido por Vittorio Amedeo II, a assim chamada Equiparação. 
Um trabalho colossal e revelado inútil, porque — apesar de ter sido 
feito com grande rigor — os resultados, que resumiam, por ano, 
cada transação em particular (extensão, destinação de cultivo e pre-
ço), terminaram por ser julgados demasiado heterogêneos (em par-
ticular no que se refere aos níveis dos preços, mesmo em cada co-
munidade singular) para que se pudesse utilizar as médias como 
algo signifi cativo. A terra a ser taxada a partir do cadastro devia ser, 
de fato, avaliada não somente segundo grandes divisões específi cas 
de cultivo, mas também segundo níveis de qualidade e de fertilida-
de no âmbito de cada destinação de plantio, o que teria sido possível 
somente através de um exame mais aproximado de cada contrato 
singular — o que era claramente impossível. Assim, este enorme 
trabalho foi deixado de lado depois de algumas experiências de uti-
lização nas avaliações, e passou-se a confi ar nas estimativas mais 
genéricas, porém mais manipuláveis, dos agrimensores e dos expe-
rientes avaliadores locais.
Também os historiadores sucessivamente fi zeram uso muito parco 
desse rico material: algo parecia não funcionar e os preços médios 
que Giuseppe Prato tinha publicado, em nível de província, eram 
evidentemente fruto de dados tão diferenciados e heterogêneos a 
ponto de não suscitar, posteriormente, a curiosidade dos historiado-
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97res.
13 Também nas agregações em nível de província os dados eram 
discordantes quanto ao fato de que, por exemplo, entre 1680-85 e 
1686-90 os preços, de modo difi cilmente explicável, aumentavam 
nas províncias de Turim, Alba, Cuneo, Fossano, Mondovi, Saluzzo, 
Susa, mas diminuíam em Asti, Biella, Ivrea, Pinerolo, Vercelli, ou, 
entre 1706-10 e 1711-17, diminuíam em Turim, Alba, Fossano, Ivrea, 
Mondovi, Pinerolo, Vercelli e aumentavam nas outras províncias.
“As disparidades fortíssimas que se notam entre a média geral por 
província apresentam um desencontro ainda mais impressionante 
nas variações não menos notáveis que se verifi cam de povoado em 
povoado”, observa Prato,14 mas teria ele podido continuar obser-
vando que ainda mais fortes eram as variações de contrato a contra-
to, para os quais as médias não faziam mais do que tornar aparente-
mente uniformes realidades disparatadas. A impressão geral de um 
aumento progressivo de período a período nas agregações de todo 
o estado não faz mais do que exprimir outros fenômenos — a des-
valorização geral da moeda, por exemplo —, do que justifi car a 
consideração otimista de um “sintoma de crescente prosperidade 
que se manifestava no emergente valor das terras”.15 Mas, repito, o 
defeito não estava somente na excessiva sintetização com a qual 
eram tratados os dados, na “variedade das fórmulas de contratos, 
que indicavam de modo variado o objeto da compra/venda”.16 O 
problema estava na difi culdade teórica de perceber, a partir do cen-
tro mercantilizado de um estado mercantilista, a lógica social que 
presidia a compra/venda da terra por parte dos camponeses, que 
multiplicava um mercado aparentemente único em mais setores fra-
gilmente interligados.
13 Prato (1908:192-201 e 1910:334-339). O fundo da equiparação relativo ao espó-
lio dos contratos de compra e venda sobre os quais estão baseados todos os dados 
citados nas páginas seguintes encontra-se no Arquivo de Estado de Turim, Seções 
Reunidas, Finanças, segundo arquivamento, pasta 21, maços 162-206. Os dados 
sobre formas jurídicas de posse da terra foram retirados do maço 43 do mesmo fun-
do. Os dados sobre população estão na pasta 10, maços 1-9.
14 Prato, 1908:198.
15 Idem.
16 Bracco, 1981:51-52.
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98 E, todavia, o trabalho da equiparação sobre contratos nos pode 
mostrar algumas coisas, mas somente se a atenção se voltar não tan-
to para o nível dos preços, mas para a qualidade e a quantidade das 
transações.
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Percentuais de terras vendidas em 29 anos sobre o total 
da superfície disponível (1680-90 e 1700-17)
% vendido sobre 
superfície total
% vendido sobre 
superfície útil
% sobre alódio 
(excluídos feudais, 
eclesiásticos, comuns)
% feudais e 
eclesiásticos sobre 
superfície útil
% bens comuns 
sobre 
superfície útil
Turim 20,4 20,7 34,2 21,1 16,5
Asti 15,2 15,4 22,1 26,4 2,6
Alba 13,3 13,6 18,1 20,9 3,2
Biella 6,3 7,6 16,1 17,9 34,1
Cuneo 16,0 22,1 37,8 9,3 29,0
Fossano 23,5 23,6 35,7 25,2 6,1
Ivrea 10,6 12,2 19,9 11,1 25,9
Mondovi 11,8 12,8 17,9 15,3 13,0
Pinerolo 19,3 21,1 34,2 14,9 22,2
Susa 10,3 11,1 21,6 11,3 36,5
Saluzzo 19,2 20,8 38,4 20,1 23,2
Vercelli 7,6 7,9 15,0 31,0 14,7
Total 14,7 16,2 26,5 18,5 18,6
3. Duas lógicas diversas
Uma primeira observação: a sensibilíssima variação entre províncias 
no percentual de terras que entram no mercado.
Antes de comentar os dados da tabela 1, algumas considerações so-
bre limites da fonte. O levantamento dos atos notariais feitos por fun-
cionários de Savoia implica duas formas de subavaliação da terra que 
efetivamente passou pelo mercado: antes de tudo, as vendas por peça, 
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99e não por superfície, não eram levadas em consideração porque era 
impossível fazer referência ao preço de uma extensão determinada de 
terra vendida. Não tenho condições de apresentar nem mesmo uma 
estimativa aproximada da importância de tais vendas e assinalo este 
fato exclusivamente como indicação da fragilidade dos dados nos quais 
me baseio. Quero, todavia, imaginar que esta fragilidade documental 
não incidia de modo signifi cativamente diferente nas várias províncias. 
A outra subavaliação derivava do fato de que os empregados aos quais 
tinha sido solicitado o inventário utilizaram exclusivamente os volu-
mes concernentes aos anos objeto do recenseamento (justamente 1680-
90 e 1700-17). Alguns atos eram, no entanto, registrados alguns meses 
ou anos depois da estipulação do contrato, o que leva a uma incomple-
tude dos dados, tanto mais acentuada quando mais se aproxima dos 
anos fi nais de cada período (em particular os anos 1689-90 e 1716-17). 
Isso impede a utilização serial dos dados anuais, a menos que se elimi-
nem os últimos anos de cada série. O fato não deveria, no entanto, 
alterar o confronto horizontal entre as várias áreas. Vale, enfi m, recor-
dar que o território da cidade de Turim está excluído das medidas para 
o cadastramento e, portanto, também deste recenseamento.
A primeira coluna da tabela não é muito indicativa porque con-
tém ainda os bens infrutíferos (montanhas, rios, pântanos), mas não 
se distancia substancialmente (salvo para a província de Cuneo) da 
segunda coluna, da qual foram justamente subtraídas as áreas infru-
tíferas, que representam 326,428 jornadas sobre uma superfície total 
de 3.454.668 (9,4%). Como se vê, a situação é extremamente dife-
renciada: entram no mercado percentuais de superfície útil que os-
cilam entre 7,6% em Biella, uma província montanhosa e de agri-
cultura pobre, a 23,6% na rica província de Fossano. Esses extremos 
parecem signifi cativamente indicar que a participação no mercado 
era proporcional à fertilidade do solo; as situações intermediárias 
parecem disparatadas, mas bastante coerentes com essa hipótese: a 
província de Vercelli, onde as terras são pouquíssimo comercializa-
das, é uma área escassamente populosa, insalubre e infestada pela 
malária, nela prevalecendo os arrozais, reagrupados frequentemente 
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100 em grandes propriedades feudais ou eclesiáticas; Asti e Alba, em 
posição intermediária, são zonas em que há uma forte presença das 
vinhas e da pequena propriedade; Cuneo, Pinerolo, Saluzzo e Tu-
rim são províncias compostas, nas quais estão presentes igualmente 
montanhas e planícies. Susa, Ivrea e Mondovi são províncias nas 
quais prevalece a montanha.
E, no entanto, nem toda terra é comercializável do mesmo modo, 
ainda que somente por motivos jurídicos: feudo, propriedade eclesiás-
tica e bens comunais têm, sob vários títulos, rigidez — quando não 
impossibilidade absoluta — de participação no mercado. É somente o 
alódio, portanto, que pode ser tomado em consideração num mercado 
de terra ao menos hipoteticamente homogêneo. Observe-se, por-
tanto, a terceira coluna, na qual todas as vendas são consideradas, 
ainda que impropriamente, como relativas ao alódio e cujo peso 
percentual é calculado exclusivamente sobre terra de propriedade 
alodial. O quadro torna-se mais móvel, mas não muito: de novo 
Turim, Cuneo, Fossano, Pinerolo e Saluzzo são as províncias mais 
dinâmicas; mudam, ao contrário, as situações de Susa, por exemplo, 
e de Ivrea, onde a expectativa seria a de encontrar pouca comercia-
lização devido à estrutura fragmentária de suas propriedades e à 
grande prevalência das áreas montanhosas e pouco férteis. Procura-
rei, mais adiante, explicar o signifi cado deste comportamento. As 
últimas três colunas permitem verifi car se a presença de muita terra 
feudal e eclesiástica, se a disponibilidade de uma ampla superfície 
comunal e, portanto, se a variação no peso do alódio mudam coe-
rentemente segundo as taxas de comercialização da terra. Mas ne-
nhuma resposta unívoca parece extrair-se: isto é, não parece que 
uma redução da superfície livremente comercializável à disposição 
dos camponeses os conduza a uma comercialização mais intensa, 
nem mesmo que a presença de uma ampla terra de uso comum de-
sacelere a comercialização. São ainda perguntas que requereriam um 
exame mais detalhado, em nível de comunidade, antes que essa res-
posta negativa (e, por outro lado, interessante) em nível provincial 
pudesse ser assumida como absolutamente válida.
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101Experimentemos, então, diminuir a escala de observação e estu-
dar algumas províncias mais detalhadamente. A amostra foi escolhi-
da por acaso e representa cerca de 31% da superfície útil (e 72.500 
contratos sobre outros 520 mil).17
As áreas superiores a 10 jornadas compreendem todas as terras ocu-
padas, os estábulos com edifícios e são, portanto, propriedades me-
lhores. Podemos então considerá-las como indicadores sufi ciente-
mente bons de um mercado de mais alta qualidade que o das 
fragmentadas terras camponesas. Todavia, como se pode ver pela ta-
bela 2, em todos os casos examinados, o percentual de dinheiro que 
circula em relação a estas terras é menor do que aquele representado 
pela extensão. Pode ser uma observação relativamente evidente, que, 
em todo caso, confi rma a opinião já citada de Chayanov, de que os 
camponeses com uma pequena propriedade estão dispostos a pagar, 
pela terra, preços que excedem signifi cativamente a renda capitaliza-
da, ou seja, os preços pagos pela terraocupada.
TA BE L A 2
Percentuais de contratos relativos a propriedades superiores a 10 jornadas 
sobre o total das vendas (em jornadas e liras piamontesas)
Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli
Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro
1680-85 52,9 47,1 27,4 7,6 50,1 38,1 64,1 57,8
1686-90 52,3 46,4 31,2 10,1 44,2 29,6 47,7 34,3
1700-05 53,0 48,8 31,8 9,5 41,1 31,9 45,2 37,5
1705-10 57,3 51,6 18,9 6,2 41,5 29,4 47,4 40,6
1711-17 53,3 45,1 28,4 6,9 36,6 29,9 45,4 37,0
Total 53,9 48,1 27,3 7,7 42,2 31,10 50,1 41,5
17 O número de camponeses é uma hipótese, proporcional à superfície: o levantamen-
to completo do fundo — que tenho em curso — permitirá uma maior precisão.
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102 Uma segunda observação. Ivrea, uma zona, como dito antes, po-
bre e de propriedades fragmentadas, na qual é relativamente pouco 
representativa a terra feudal e eclesiástica, e que tem um quarto da 
superfície útil composta pelos bens comunais, apresenta um merca-
do de terra todo concentrado sobre áreas de pequeníssima extensão: 
72% da superfície e 92% do dinheiro dizem respeito a contratos de 
menos de 10 jornadas. Mas é ainda a província em que o número de 
transações (cf. tabela 3) é de longe o mais alto, o que é imputável 
apenas em pequena parte à diferença de superfície útil ou de pro-
priedade alodial. Tanto mais que o percentual da superfície ingres-
sada no mercado na província de Ivrea não era, por certo, um dos 
mais altos entre as províncias piemontesas (cf. tabela 1). Fossano e 
Saluzzo têm comportamentos muito parecidos no que se refere ao 
número e à qualidade dos contratos, ainda que a superfície e o di-
nheiro para as propriedades superiores a 10 jornadas sejam conside-
ravelmente diversos em favor de Fossano, área mais rica. Vercelli, 
que por este aspecto — um forte peso percentual das terras de mais 
de 10 jornadas — comporta-se como Fossano, é, ao contrário, uma 
província com pouquíssimas transações, ainda que sua superfície útil 
seja de longe a mais alta, e a de puro alódio seja superada somente 
pelo entorno de Ivrea, como se pode ver pela tabela 3.
TA BE L A 3
Número das transações em quatro províncias
Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli
No de contratos com mais 
de 10 jornadas
567 322 642 336
Totalidade dos contratos 13.368 36.620 14.631 7.977
% dos contratos com mais
 de 10 jornadas
4,3 0,9 4,4 4,2
Superfície útil 172.427 284.783 208.331 310.579
Superfície alodial* 114.138 174.919 113.000 163.410
N. do T.: No original não consta a medida de terra utilizada.
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TA BE L A 4 
Distribuição percentual dos contratos segundo as dimensões
 Jornadas Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli
Até 1 38,7 80,1 33,2 44,0
Até 2 35,6 13,1 34,6 27,5
Até 3 10,9 3,1 13,3 10,9
Até 4 4,1 1,2 5,6 5,3
Até 5 2,5 0,7 3,3 3,3
Até 6 1,4 0,3 1,9 1,6
Até 7 1,0 0,2 1,4 1,3
Até 8 0,7 0,2 1,0 0,8
Até 9 0,5 0,1 0,7 0,7
Até 10 0,4 0,1 0,6 0,5
Outras 4,3 0,9 4,4 4,2
Trata-se, no entanto, em todas as províncias, de um mercado 
muito fracionado, no qual prevalecem as porções inferiores a 3 jor-
nadas, isto é, pouco mais de um hectare (cf. tabela 4). Aparece, em 
cada caso, um dado de grande relevo: ao contrário daquilo que se 
poderia esperar, o mercado mais ativo do ponto de vista do número 
das transações é aquele das áreas dominadas pela pequena proprieda-
de camponesa. O hábito de trocar a terra por moeda é muito inten-
so justamente na província mais marginal e na qual a terra tem um 
papel precípuo de atender ao autoconsumo. 
É justo perguntar se a densidade da população é um fator de di-
namização do mercado da terra, isto é, se a presença de uma popu-
lação numerosa tende a fazer multiplicar as transações. Em realida-
de, é um problema de difícil solução e, por mais tentativas e 
cruzamentos que eu tenha experimentado, não consegui chegar a 
uma conclusão quantitativa aceitável: a diferença de estrutura pedo-
lógica e de posição de várias comunidades não permite encontrar 
respostas unívocas e calcular correlações entre o número de transa-
ções e a terra à disposição de cada família. Além disso, a distribuição 
da propriedade, a presença de atividades diversas da agricultura ou 
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104 de trabalhos agrícolas em terras feudais, bem como a existência da 
terra comum, podem tornar ainda mais frágil a possibilidade de uma 
aferição. As tabelas 5 e 6, sobre as províncias de Ivrea e Saluzzo, 
mostram justamente esta frágil correlação.
TA BE L A 5
Relação entre extensão de terra alodial per capita 
e número de camponeses por família — província de Ivrea
 No de jornadas 
 de alódio per capita
No de comunidades
Contratos por família (%)
Até 1 Até 2 Outros
Até 1 14 28,6 64,3 7,1
Até 2 79 18,9 49,4 31,7
Outros 24 37,5 41,7 20,8
TA BE L A 6 
Relação entre extensão de terra alodial per capita 
e número de contratos por família — província de Saluzzo
 No de jornadas
 de alódio per capita
No de comunidades
Contratos por família (%)
Até 1 Até 2 Outros
Até 1 2 100 — —
Até 2 14 28,6 64,3 7,1
Outros 26 30,8 50 19,2
Este mesmo silêncio é, no entanto, uma indicação de que a concen-
tração dos contratos, em todas as províncias, girou em torno da catego-
ria de até dois contratos por família nos 29 anos, independentemente da 
terra à disposição, que foi, de resto, distribuída de maneira extraordi-
nariamente homogênea, num assentamento muito denso — uma refe-
rência a qualquer regularidade subjacente às práticas mercantis relati-
vas à terra. Não me parece imprudente imaginar que a verdadeira 
relação entre mercado e população refi ra-se a episódios de ciclo de 
vida de cada família que modelam o mercado em ritmos relativamen-
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105te regulares: a formação de novas famílias e os matrimônios. Mas so-
mente uma pesquisa local poderá sustentar esta hipótese.
É, então, a pesquisa das condições sob as quais a terra circula 
como mercadoria em diferentes regimes de valores aquilo que pare-
ce essencial ter presente quando falamos em mercado de terra no 
Antigo Regime.18 É sempre um pouco arbitrário construir hipóteses 
de forma negativa, mas é o que tenho sido compelido a fazer ao 
longo dessas páginas: a escassa resposta que os dados forneciam a 
respeito do que se podia prever, de fato, sobre demanda e oferta, 
renda capitalizada, papel da terra comum e da propriedade feudal ou 
eclesiástica permitem ao menos imaginar o contexto cultural das 
trocas com uma pluralidade de arenas e, portanto, de signifi cados 
sociais contemporaneamente ativos, convivendo concomitantemen-
te e em confl ito direto, justamente graças às lógicas diferentes pelas 
quais são governadas. E isso justamente porque a natureza específi ca 
do negócio camponês, voltado em primeira instância ao equilíbrio 
do autoconsumo não o subtrai do mercado, mas o torna um fator 
relevante ao determinar seja a quantidade, seja o preço das transa-
ções. Para a agricultura organizada segundo princípios mercantise 
capitalistas, a aquisição de nova terra ou a introdução de melhora-
mentos técnicos depende de que o aumento da renda econômica 
devida a este incremento ou a esta melhoria seja maior ou ao menos 
igual à taxa de juros do capital investido. A decisão da família cam-
ponesa dependerá, ao contrário, do efeito que uma ampliação ou 
melhoramento da terra terão sobre o equilíbrio entre distribuição 
do trabalho e necessidades familiares. Numa situação de relativa es-
cassez de terra, a família camponesa estará disposta a pagar o preço 
ou a introduzir melhoramentos considerados irracionais num em-
preendimento capitalista: os preços, portanto, excederão claramente 
a renda econômica capitalizada, como é demonstrado pelo fato de 
que são justamente as terras mais fragmentadas as que ativam uma 
18 Uso aqui os termos de Appadurai (1986), que sustenta tese de grande interesse 
(mas um pouco geral demais) também para o estudo do mercado da terra.
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106 circulação de moeda percentualmente superior à superfície de inte-
resse. E quanto mais pobre e sufocada a área de interesse — como 
mostra do caso de Ivrea, ou, ainda, a diferença entre Fossano e Sa-
luzzo nas tabelas 2 e 3, justamente porque a segunda província é 
mais populosa e mais pobre — tanto mais os percentuais entre terra 
dos camponeses comercializada em pequenos pedaços e preços pa-
gos se distanciam.
Em síntese, a diferença entre as províncias piemontesas é explicá-
vel somente levando em conta esta contemporânea presença de uma 
agricultura relativamente moderna e voltada ao mercado e de uma 
agricultura camponesa. Nas zonas superpopulosas os limites dos 
melhoramentos, de disponibilidade para comercializar, dos preços 
são enormemente mais altos do que nas áreas em que prevalecem os 
negócios capitalistas: o número vertiginoso de transações na pobre 
província de Ivrea com relação à estagnada província de Vercelli, 
que está na vanguarda da difusão do capitalismo no campo piemon-
tês, é uma prova evidente disso. São as mesmas conclusões de Chaya-
nov (1966) sobre a Rússia ou de Latur sobre a Suíça: “Isso leva a uma 
conclusão paradoxal: nas áreas superpopulosas as famílias campone-
sas mais pobres pagarão os preços e os arrendamentos mais altos pela 
terra”. E ainda:
Nas áreas em que há um excedente absoluto de terra, e também 
onde a densidade da população corresponde à intensidade ótima 
para a agricultura, não existem bases concretas de coalizão. Mas 
nas áreas superpopulosas, quando os negócios capitalistas au-
mentam e tem-se uma escassez relativa de terra, comparecem 
em número sempre crescente compradores e vendedores em 
condições de pagar preços mais altos do que aqueles capitalistas 
[...]. Gradualmente eles se tornam sempre mais relevantes tam-
bém na determinação do preço sobre o mercado capitalista, até 
que as avaliações produzidas pelo setor camponês tornam-se de-
cisivas para o mercado e empurram para as margens o preço 
baseado nas avaliações do setor capitalista. E não se trata somen-
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107te de uma guerra sobre preços, mas também sobre a terra: ter-
se-á contemporaneamente uma clara transferência da terra do 
setor capitalista ao setor camponês.19
Mas, naturalmente, trata-se de situações em que a população é 
densa, com uma sufi ciente quantidade de dinheiro em circulação e, 
com frequência, de situações marginais em que a pressão dos negó-
cios orientados pelo mercado é relativamente escassa. Em outros 
casos, nos quais por um certo período o setor capitalista estava em 
condições de pagar rendas muito altas e, portanto, maiores do que 
podia fazer o setor camponês, é isso que empurra os negócios cam-
poneses para a margem do sistema.
A quantidade de transações e a quantidade global de dinheiro co-
locado em circulação por dois setores, a própria diferença entre as 
várias províncias piemontesas entre o Seiscentos e o Setecentos pare-
cem-me confi rmar esta hipótese, com uma característica inesperada: 
a vivacidade do mercado da terra, como número de transações, é 
tanto mais forte quanto mais a área de interesse é dominada pelos 
negócios camponeses, orientados em direção ao autoconsumo. Aqui-
lo que Raul Merzario (1989) defi niria como capitalista nas monta-
nhas é, neste caso, uma ilusão de ótica: duas lógicas diferentes e não 
coerentes presidem o advento do mercado da terra.20 O capitalismo 
nascerá justamente ali, onde mais lento e viscoso nos parece o costu-
me nas transações e no comércio.21
19 Chayanov (1966:235-238). As pesquisas de Laur sobre a Suíça são temas de con-
tínuo confronto utilizado por Chayanov.
20 Concordo em grande parte com a tese sustentada no livro; no entanto, o papel da 
terra parece-me subavaliado, em particular nas montanhas: como seria “superado 
pelo tempo o problema de separar os produtores da terra” (Merzario,1989:13), uma 
vez que me parece que seja bastante útil no estudo da proto indústria levar em con-
sideração o papel diferenciado que resulta do confl ito entre modelos diferentes de 
mercado da terra.
21 As teses de Ester Boserup, que têm alguma analogia com tudo o que aqui susten-
tei sobre a capacidade dos negócios camponeses tradicionais de desenvolver novas 
técnicas e de incrementar a produção, parecem-me não levar em conta esta diferen-
ça de confl ito de comportamento econômico. Cf. Boserup (1981).
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O diálogo com a história 
e a historiografi a
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5
Delio Cantimori: um diálogo 
com a história da cultura
Cássio da Silva Fernandes
Delio Cantimori (1904-1966) jamais falou de micro-história. Nem 
mesmo em sua vasta e signifi cativa obra ele buscou construir expli-
citamente um arcabouço metodológico que se antepusesse a suas 
investigações ou indagações históricas. Em sua incursão no campo 
da história da historiografi a, que se consolidou com a publicação 
póstuma de um volumoso livro intitulado Storici e storia, Cantimori 
sempre procurou compreender, na obra dos historiadores, muito 
mais questões de interpretação histórica do que aquelas de fundo 
teórico. Ele entendeu a história da historiografi a como pesquisa 
conduzida não sobre pressupostos ou sobre concepções gerais a res-
peito da história, não sobre um plano especulativo e metodológico, 
mas como um sofi sticado instrumento analítico voltado para a com-
preensão dos julgamentos e das representações construídas pelos his-
toriadores sobre problemas ou panoramas históricos concretos.1 No 
entanto, há um dado do percurso acadêmico de Delio Cantimori 
1 Ver a esse respeito Miccoli (1970), esp. p. 223-228.
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114 que pode remetê-lo, ainda que tangencialmente, à vertente historio-
gráfi ca que fi cou conhecida alguns anos depois de sua morte como 
micro-história: Cantimori foi reconhecido por seu aluno, Carlo 
Ginzburg, como o principal responsável por sua escolha em abraçar 
a profi ssão de historiador.
Ginzburg citou, em algumas oportunidades, a importância que 
Delio Cantimori teve em sua formação, durante os anos de estudo 
na Scuola Normale Superiore di Pisa. É signifi cativa a passagem em 
que Carlo Ginzburg narra seu primeiro contato com Cantimori, no 
ano acadêmico de 1957-1958:
[Cantimori] ia passar uma semana em Pisa, e disse que ia ler e co-
mentar a obra de Burckhardt, Considerações sobre a história universal 
[Refl exões sobre a história, na edição brasileira]. Lembro-me muito 
bem do momento em que o vi pela primeira vez: era um homem 
gordo, não muito alto, de barba branca, com uma cara de cardeal, 
como nos retratos de cardeais de El Greco. Falava com uma voz 
pastosa e perguntou: “Algum de vocês lê alemão?”. Poucos liam. 
Ele continuou: “Bom, vamos ler o livro de Burckhardt, mas vamos 
comparar as traduções italiana, francesa, inglesa etc.”. Começamos, 
e depois de uma semana tínhamos lido cerca de dez linhas. Aquilo 
me marcou profundamente. Aquela maneira de ler o texto levan-
tando uma multiplicidade de problemas foi algo que me pareceu 
realmente magnífi co. Um ano depois, decidi estudar história.2
Em outra passagem, no prefácio a Mitos, emblemas, sinais, Ginzburg, 
explicando as razões que o levaram a escrever “De A. Warburg a E. 
H. Gombrich: notas sobre um problema de método”, publicado no 
referido livro, afi rma:
No começo dos anos 60, descobri, graças a Cantimori, o Warburg 
Institute. A tentativa de acertar contas com a tradição a ele ligada 
2 Ginzburg, apud Lima, 2006:286.
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115obrigou-me a refl etir, não só sobre o uso de testemunhos fi gurati-
vos como fonte histórica, mas também sobre a permanência de 
formas e fórmulas para além do contexto em que nasceram.3
São de fato referências muito fortes à importância de Cantimori 
para a formação de Ginzburg, reveladoras da atenção dedicada pelo 
aluno às indicações do mestre. Seria necessária uma indagação pon-
tual a respeito da infl uência de Delio Cantimori sobre o primeiro 
livro de Ginzburg, I benandanti, publicado no mesmo ano da morte 
de Cantimori, em 1966, tendo em vista a semelhança do tema do 
livro (tema, aliás, que persegue a obra de Ginzburg por muito tem-
po) e o foco central dos estudos do professor em Pisa. Não desenvol-
verei aqui uma refl exão sobre esse particular. Meu interesse se volta 
especialmente para a obra de Cantimori. E, nesse sentido, há que se 
ressaltar um dado presente nas duas citações de Ginzburg: em ambos 
os casos a referência a Cantimori aparece ligada a um modelo histó-
rico-cultural de grande importância para o cenário historiográfi co 
europeu a partir da segunda metade do século XIX. Na primeira 
passagem, Ginzburg refere-se às aulas de Cantimori sobre as Refl e-
xões sobre a história, do historiador suíço Jacob Burckhardt (1961). De 
fato, nesse período, Cantimori trabalhava numa tradução italiana 
das Weltgeschichtliche Betrachtungen, de Burckhardt, editada na Itália 
em 1959. Na segunda passagem, a referência de Ginzburg a Canti-
mori relaciona-o a Aby Warburg e à tradição da Kulturwissenschaft 
(ciência da cultura) no instituto de pesquisa que leva seu nome. E é 
sabido o quanto a obra de Burckhardt serviu de modelo para War-
burg e para seus seguidores. Entretanto, concentremo-nos em Can-
timori, notando possíveis relações entre sua perspectiva historiográ-
fi ca e o citado modelo histórico-cultural.
A obra de Delio Cantimori é marcada pela amplitude e pela pro-
fundidade com que desenvolveu a pesquisa de quase uma vida a 
respeito dos hereges italianos do século XVI, fugidos das persegui-
3 Ginzburg, 2007:9-10.
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116 ções religiosas na Itália. Seu longo e paciente trabalho de pesquisa o 
conduziu a inúmeros arquivos e bibliotecas em várias partes da Eu-
ropa. A busca pelos sinais da passagem dessa multidão dehomens das 
mais variadas formações, desde doutos humanistas e homens de le-
tras até impressores, tecelões, sapateiros, teólogos, místicos, proce-
dentes das mais diversas regiões italianas, à procura de abrigo em 
várias cidades da Confederação Suíça, da atual Alemanha, da Áus-
tria, Inglaterra, Polônia, levou Cantimori a iluminar, em sua mais 
ampla e rica diversidade, os pequenos círculos de relações pessoais e 
de elaboração e divulgação de ideias que aproximaram o mundo de 
um e de outro lado dos Alpes. O produto desse trabalho fi cou docu-
mentado em especial em dois livros: o volumoso Eretici italiani del 
Cinquecento e Umanesimo e religioni nel Rinascimento.
A formação e a atuação de Delio Cantimori desenvolveram-se basi-
camente em torno de duas instituições de uma mesma cidade: a Uni-
versità degli Studi di Pisa e a Scuola Normale Superiore di Pisa. Como 
ele mesmo afi rmou mais de uma vez, não sem uma dose de ironia no 
confronto com a modernidade dos grandes centros acadêmicos euro-
peus, e com uma pitada de crítica em relação à Europa contemporânea 
(a Europa das grandes capitais), suas “pesquisas nasceram de problemas 
juvenis de um estudante de liceu, amadurecido numa cidade de pro-
víncia, em ambiente de gente de escola”.4 De fato, o cosmopolitismo 
que marca a história medieval da República de Pisa, com suas podero-
sas relações comerciais com o Ocidente e com o Oriente, propiciadas 
por sua posição geográfi ca às margens do mar Tirreno e pela força da 
civilização presente na memória que etruscos e romanos haviam dei-
xado ali, era, quando Cantimori chegou à cidade (em 1924), não mais 
que memórias, ainda que com forte presença nas monumentais cons-
truções e no traçado urbano. Porém, a diminuta importância da cidade 
no século XX não se reproduzia no papel de suas instituições acadêmi-
cas. À universidade medieval se somava a instituição de altos estudos 
— a Scuola Normale Superiore —, fundada por Napoleão Bonaparte 
4 Cantimori, 1992:11.
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117seguindo o modelo da École Normale parisiense. Além disso, as várias 
e importantes bibliotecas originadas na Idade Média, assim como os 
arquivos e os museus, faziam de Pisa um dos mais importantes centros 
de estudos humanísticos na Itália e passagem necessária de pesquisado-
res de toda a Europa. Nesse ambiente deu-se, quase integralmente, a 
formação acadêmica e a prática docente de Delio Cantimori.
Em Pisa, Cantimori participou, como aluno, da escola de Giovan-
ni Gentile e de Giuseppe Saitta. No prefácio de Eretici italiani del Cin-
quecento, ele próprio afi rmaria que seu interesse original em estudar 
esse tema teria surgido da leitura do livro de Gentile, Giordano Bruno 
e il pensiero del Rinascimento. Certamente também as conferências de 
Gentile, em parte publicadas depois no livro Il pensiero italiano del Ri-
nascimento, conferências que mergulhavam com amplitude na ciência 
e na fi losofi a do Renascimento, teriam aberto ao jovem estudante o 
universo do humanismo italiano. Com os escritos e o ensinamento 
acadêmico de Gentile, Cantimori diz ter sido encorajado a retomar a 
leitura ( já realizada na juventude) da obra de Burckhardt sobre o Re-
nascimento italiano. Gentile, afi nal, era um dos principais responsá-
veis pela recepção dos escritos de Burckhardt em solo italiano nas 
primeiras décadas do século XX. Vale lembrar as páginas de Gentile 
sobre o papel de Petrarca na formação do humanismo italiano, além 
de seu estudo sobre o caráter do Renascimento ou aquele sobre o 
conceito de homem no Renascimento, todos publicados em Il pensiero 
italiano del Rinascimento. Esses escritos traziam a marca burckhardtiana 
da compreensão do Renascimento italiano como berço e origem do 
indivíduo moderno, e eram interpretados, pelas mãos de Gentile, 
numa chave de cunho fi losófi co-idealista que marcou um tipo de 
leitura de Burckhardt nas primeiras décadas do século XX, e não 
somente na Itália. A tese de perfezionamento de Cantimori sobre o 
conceito de Renascimento fora discutida na Scuola Normale exata-
mente com Giovanni Gentile, e publicada em 1932.5 Sobre o papel 
de Giuseppe Saitta, autor de livros como Marsilio Ficino e la fi losofi a 
5 Cantimori, 1932:229-268, reed.: Cantimori, 1971:413-462.
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118 dell’Umanesimo (Bolonha, 1923) e L’educazione dell’Umanesimo in Ita-
lia (Veneza, 1927), em sua formação, afi rma Cantimori no prefácio 
à edição suíça dos Eretici (p. 11):
A contemporânea experiência fi losófi ca neoidealista, fez[-me] 
formular o problema primeiramente como problema de história 
do pensamento fi losófi co: no quadro das discussões sobre as re-
lações entre Renascimento e Reforma [...] e de uma acentuação 
do caráter imanente do pensamento neoidealista de Giuseppe 
Saitta [...].
Ele afi rma que teve o primeiro impulso em direção aos hereges 
italianos sob a ótica da relação entre fi losofi a e história das ideias, que 
tinha colocado isoladamente, como monumentos à memória, fi guras 
que representassem a resistência fi losófi ca e científi ca à ameaça das 
perseguições religiosas e dos tribunais da Inquisição na Itália. Assim 
tinham vindo à tona, até então, os estudos sobre Lelio e Fausto Sozzi-
ni e sobre Giordano Bruno. Em relação a Marsilio Ficino, Giuseppe 
Saitta teve que se defender, nas reedições de seu livro (em 1942 e em 
1953), da acusação de fornecer a demonstração de um Ficino idealista 
e extemporâneo e de interpretar o pensamento de Ficino contra um 
fundo subjetivista e revolucionário, e portanto também extemporâ-
neo. O fato é que o Ficino que G. Saitta apresenta em seu livro de 
1923 é o representante, como ele mesmo afi rma, “da nossa verdadei-
ra tradição, que tem início com o Humanismo, o berço da consciên-
cia italiana”.6 Era o problema da compreensão, em suas palavras, “della 
nostra anima nazionale” [de nossa alma nacional].7 O estudo de G. 
Saitta tinha um fundo romântico, sustentado na ideia de nação. Para-
lelamente, o Giordano Bruno de Giovanni Gentile (1955:ix) tinha 
uma marca semelhante, à qual era acrescida a simbologia do mártir. 
Desses modelos de interpretação de dois personagens do humanismo 
6 Saitta, 1953:vi.
7 Idem.
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119italiano, Marsilio Ficino, pelas mãos de G. Saitta, e Giordano Bruno, 
por Gentile, havia partido Delio Cantimori, no momento inicial de 
seus estudos sobre um grande tema de história moderna.
Mas o deslocamento da fi losofi a para a história, de acordo com o 
próprio Cantimori, teve no centro dois acontecimentos: a leitura do 
livro do historiador Gioacchino Volpe, Movimenti religiosi e sette ereti-
cale nella società medievale italiana, e a permanência para estudos em 
Basileia (Suíça), no início da década de 1930. A importância do li-
vro de Volpe fi caria atestada em uma carta dirigida a ele por Canti-
mori, em 30 de novembro de 1939, que dizia o seguinte:
O primeiro distante princípio nestes estudos o devo a seu livro. 
Com aquela leitura começou o meu interesse a deslocar-se len-
tamente da fi losofi a, da especulação para dizer melhor, àquela 
concreta fi losofi a que é o estudo da história.8
Mas o momento em que o projeto verdadeiramente amadureceu 
teria sido entre dezembro de 1931 e julho de 1932, período em que 
o historiadorfrequentou os cursos de história da Igreja na Faculdade 
de Teologia da Universidade de Basileia, ministrados pelos professo-
res Ernst Stähelin e Johannes Wendland. Nesse período, enquanto 
estudava a vida e a obra do historiador Alexandre Vinet (estudioso 
oitocentista de história da Igreja), nas aulas de Stähelin, e lia o Ins-
titutio de Calvino, nas de Wendland, Cantimori iniciou suas pes-
quisas sobre os hereges e protestantes italianos em Basileia no século 
XVI, trabalhando na Biblioteca Universitária e no Arquivo de Esta-
do de Basileia. Na verdade, Cantimori havia se decidido por Basileia 
após um período de dúvida entre essa cidade e Genebra. A escolha 
de Basileia representou a escolha por um problema histórico a ser 
desenvolvido. Genebra, a cidade de Calvino, tinha sido uma indica-
ção de Benedetto Croce.9 No século XVI, a cidade era o destino 
8 Apud Prosperi, 1971:XXVII.
9 A esse respeito, ver Miccoli (1970:54-62).
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120 dos hereges italianos que pretendiam assimilar a Reforma confessio-
nal e voltar as costas à Itália. Basileia, ao contrário, tinha uma at-
mosfera de concórdia, estabelecida pela atuação de Erasmo na uni-
versidade e na vida erudita da cidade, pelo legado que havia deixado, 
tanto de maneira difusa, quanto concretamente, nas mãos de seu 
herdeiro testamentário, Bonifacius Amerbach, professor de direito 
romano e fi lho do erudito impressor e amigo do humanista holan-
dês, Johannes Amerbach. Basileia, então, era o destino desejado pe-
los hereges italianos que pretendiam manter um olhar voltado para 
a Itália e fi car apartados da aceitação confessional da Reforma. A 
cidade, que havia sido o palco de onde Erasmo polemizara com Lu-
tero, seria, no contexto imediatamente posterior — naquele que 
interessava a Cantimori —, o local das polêmicas dos humanistas 
italianos ali refugiados, como Celio Secondo Curione e Pietro Per-
na, ou o “savoiardo” Sebastian Castellion, contra os luteranos e con-
tra Calvino. Vale lembrar, em especial, a polêmica de Castellion 
(expulso da Genebra de Calvino exatamente por suas interpretações 
“muito livres” da Bíblia) contra Calvino, polêmica que resultou 
num livro célebre de um escritor célebre: Stefan Zweig. Basileia 
seria, então, para Cantimori, o local de encontro, a fronteira, o limi-
te; a cidade cosmopolita, reformada e humanista: a cidade do refor-
mador Johann Oecolampad, mas também a cidade de Erasmo e dos 
erasmianos, e que se abria ainda, logo após a morte de Erasmo, à 
infl uência direta dos humanistas italianos (dos hereges, que Canti-
mori buscava).
Mas Basileia tinha sido importante, para Cantimori, também do 
ponto de vista metodológico, como ele próprio revela no prefácio à 
edição suíça dos Eretici:
Sob infl uência de G. Saitta, [...] a pesquisa da participação italia-
na no grande movimento europeu de reforma e de renovação 
[...] não encontrava resposta satisfatória para quem não se con-
tentava com uma história intelectual de gênios, mas buscava 
instintivamente uma [história] de homens [...].
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Relações entre ideias e ideias podiam-se estabelecer muitas, e 
tão facilmente que ao fi nal surgia a suspeição de sua arbitrarie-
dade; mas as vidas dos homens, as suas atividades intelectuais, as 
relações entre homens pareciam sempre menos claras e precisas; 
assim sensivelmente se passou do estudo doutrinário ao estudo 
erudito, pensando, porém, sempre em dar uma base concreta a 
uma pesquisa de ordem puramente fi losófi ca ou de história da 
vida intelectual fi losófi co-religiosa. [...]
[A estada em Basileia proporcionou] uma passagem da “fi losofi a” 
à “história” que coincidiu com uma crítica à fi losofi a e um distan-
ciamento de sua profi ssão, de sua função e de seus elementos.10
Para Cantimori, a passagem da fi losofi a para a história signifi cava 
aproximar-se da concretude da vida dos homens, compreender o 
espaço de suas vidas a partir da relação direta entre personagens. A 
passagem da fi losofi a à história signifi cava, então, empreender uma 
redução de escala (embora ele não utilize essa expressão) na obser-
vação dos fenômenos. Ele passaria a se concentrar nos contextos 
mais específi cos, nos círculos de contatos diretos entre personagens. 
É assim que seu livro publicado na Itália em 1939 e traduzido em 
Basileia em 1949, Eretici italiani del Cinquecento, foi inteiramente con-
cebido a partir desse ponto de vista. Para comprovar essa afi rmação, 
basta observar a organização dos capítulos da obra. Eis alguns de 
seus títulos: “A imigração italiana a Zurique e a Basileia”, “Curione 
em Basileia. Curione e Bullinger”, “Os amigos basileenses de Curio-
ne: David Joris, M. Borrhaus, S. Castellione. A atmosfera mística e 
iluminada do círculo de Basileia”, “Fausto Sozzini em Basileia”, 
“Aconcio na Inglaterra”, “Cracóvia e os hereges italianos”, “Um 
seguidor de Occhino e de Lelio Sozzini em Zurique (Anton Mario 
Besozzi), e o seu processo”, “O processo de Curione”.
É claro que há, na apreciação historiográfi ca de Cantimori, ainda 
que veladamente, um posicionamento quanto aos caminhos da po-
10 Cantimori, 1992:11-13.
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122 lítica na Europa contemporânea, interligado ainda a uma crítica 
voltada para a compreensão da história da Europa pela historiogra-
fi a a partir do início do século XIX. O empenho de sua investiga-
ção, que culmina no livro sobre os Eretici, e que se estende em sua 
pesquisa no pós-guerra, sustenta uma argumentação de cunho ao 
mesmo tempo político e historiográfi co. Em outras palavras, Can-
timori levanta-se contra a Europa das grandes nações, contra a Eu-
ropa dos Estados nacionais, que havia se ancorado sempre num dis-
curso histórico, ou melhor, de fi losofi a da história e assumido pela 
historiografi a o discurso das identidades nacionais. A pesquisa de 
Cantimori opunha-se à Europa das nações e à historiografi a que 
compreendia a Europa a partir do conceito romântico de “nação”. 
Ao mesmo tempo, e também de maneira velada, ele mostrava a 
impossibilidade de separar as raízes históricas formadoras dos povos 
que vivem, no século XX, sob a égide dos Estados nacionais. As-
sim, ao buscar, através de caminhos muito concretos, as relações 
transalpinas dos hereges italianos, Cantimori sinalizava na direção 
dos contatos, das transposições, das fusões, em detrimento das no-
ções de identidades nacionais e da concepção de unidades espiritu-
ais impenetráveis. A pesquisa de Cantimori sobre os hereges italia-
nos do século XVI inaugura, em sua própria obra, um caminho em 
direção à história da cultura, porém a uma vertente histórico-cul-
tural inteiramente estranha à perspectiva da Geistgeschichte (história 
do espírito). Esta, sendo de origem prussiana, de viés marcadamen-
te hegeliano, estendeu seus tentáculos para além da Prússia e para 
além da história política, infl uenciando certos modelos de história 
cultural e de história da arte. Lembremos de boa parte dos repre-
sentantes da chamada “Escola de Viena”, da segunda metade do 
século XIX ao início do XX: em Viena, o livro que representa o 
testamento intelectual do historiador da arte Max Dvorák tem por 
título Kunstgeschichte als Geistgeschichte (História da arte comohistó-
ria do espírito). Essas correntes também atingiram a Itália no início 
do século XX. A pesquisa de Cantimori, ao contrário dos modelos 
histórico-espirituais, tinha aquele extraordinário sentido de preci-
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123são e de concretude, de objetivo e pontual esclarecimento de parte 
da realidade.11
Nesse sentido, é signifi cativo que, no futuro, tenha sido a esposa 
de Cantimori, Emma Cantimori, a tradutora para o italiano da obra 
de Aby Warburg, editada na Itália em 1966. É também sintomático 
que no primeiro número do Journal of the Warburg Institute, de 1937, 
Delio Cantimori tenha publicado o artigo “Retórica e política no 
humanismo italiano”. Em 1937, Aby Warburg não mais vivia. Po-
rém, seus estudos e sua memória eram celebrados por um círculo de 
historiadores da arte e da cultura em torno do “Instituto Warburg 
para a Ciência da Cultura”, então instalado em Londres. O historia-
dor alemão, que tinha eleito como mote de seu trabalho intelectual 
a máxima de Flaubert, “Deus está no particular”, o estudioso do 
Renascimento que já em 1902, concentrando-se no círculo erudito 
de Lorenzo, o Magnífi co, em Florença, observava as pinturas de 
Domenico Ghirlandaio como “provas indiciárias” (Indizienbeweis) 
do gosto clássico fl orentino, havia sido importante para Cantimori.12 
Especialmente os estudos de Warburg sobre a “profecia antiga pagã 
em textos e imagens da época de Lutero”13 (publicados em 1920) 
tinham interessado ao estudioso italiano, e não apenas pelo tema. O 
modo pelo qual Warburg percebia o traço de paganismo nas ima-
gens astrológicas elaboradas no âmbito do cristianismo luterano, e 
especialmente no círculo de relações muito próximas a Lutero, abri-
ra os olhos de Cantimori, fazendo-o perceber que, no oceano de 
diversidade que compõe o tecido histórico, a concretude da vida e 
da ação dos homens instala-se sempre nas fronteiras dos modelos 
ideais. Warburg, no texto em questão, percebia a presença dos de-
mônios astrais nas imagens e nos textos astrológicos elaborados no 
ambiente de Lutero como produtos de um entrecruzamento cultural 
que dizia respeito a interpretações árabes medievais de estudos astro-
lógicos gregos no âmbito de Aristóteles, depois aportadas na Itália 
11 Ver, a esse respeito, Miccoli (1970:90).
12 Warburg, 1932a:96.
13 Warburg, 1932b:487-557.
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124 pelas mãos de um humanista fl orentino da segunda metade do século 
XV, Marsilio Ficino. Ficino as interpretava à luz do classicismo fl o-
rentino de então. As interpretações astrológicas de Ficino, por sua 
vez, atingiram, segundo o texto de Warburg, o ambiente de Lutero 
através de um humanista germânico muito próximo ao monge refor-
mista: Filipe Melanchton. É aí então que os demônios astrais se mes-
clam ao universo pio e reformista em torno de Lutero, sofrendo novas 
transformações. Decerto, o texto de Warburg, tão próximo dos pro-
blemas posteriormente tratados por Cantimori a respeito dos hereges 
italianos do século XVI emigrados para ambientes reformados ao 
norte dos Alpes, serviu-lhe de exemplo. Através dos textos de War-
burg, Cantimori percebeu que as imagens construídas pelos homens, 
produtos de um contexto muito preciso de relações pessoais, não são 
redutíveis às grandes correntes de ideias. Cantimori tornara-se um 
crítico dos conceitos historiográfi cos, tais como Renascimento, Con-
trarreforma, Barroco, vistos, em suas palavras, como “meras e arbi-
trárias abstrações, derivadas de tendências e concepções gerais da his-
tória e do mundo”, portanto quase inúteis “para se entender situações 
de fato, gerais ou particulares, individuais ou biográfi cas”.14 Diante 
dessa postura, era preciso, então, reduzir a escala e observar com pre-
cisão os espaços de vida dos personagens e sua produção concreta. 
Cantimori chegou a afi rmar, tempos depois, que, diante da cena ita-
liana dos historiadores voltados para o estudo do mundo moderno, 
que nos anos 1950 tinha no centro a fi gura de Federico Chabod, en-
tão professor em Roma, ele preferia a companhia dos historiadores da 
arte. E ele tinha sido, quando aluno em Pisa, e agora o era como 
professor também em Pisa, colega de um dos principais historiadores 
da arte da Itália da época: Carlo Ludovico Ragghianti (1910-1987).
No que diz respeito aos historiadores da cultura, Cantimori en-
controu acolhida também fora da Itália. Certamente entre os compo-
nentes do Instituto Warburg, que procuravam fazer reverberar o es-
tudo da arte num fundo histórico-cultural. Mas não apenas ali. Em 
14 Apud Miccoli, 1970:310.
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125Basileia, nos anos 1930, encontrava-se o jovem Werner Kaegi, oriun-
do da escola de Ernst Walser, o grande representante em Basileia, 
naquele momento, dos estudos sobre o humanismo italiano, aluno de 
alunos de Jacob Burckhardt. Kaegi, por sua vez, discípulo de Walser, 
era o estudioso do humanismo na Europa central, autor recente de 
uma tese sobre Hutten e Erasmo. Com Kaegi iria se prolongar, por 
parte de Cantimori, um frutífero diálogo erudito e uma sincera ami-
zade que levaria um e outro a transpor inúmeras vezes a barreira dos 
Alpes. Além das várias conferências pronunciadas por Werner Kaegi 
na Scuola Normale Superiore di Pisa e das muitas visitas de Cantimo-
ri à Universidade de Basileia, visitas que incluem a de 1960, para re-
ceber das mãos de seu ex-professor de história da Igreja, então reitor 
Ernst Stähelin, o título de doutor honoris causa. O contato erudito 
entre os dois fi caria registrado na história das edições de seus livros. 
Kaegi foi o responsável pela publicação basileense dos Eretici italiani del 
Cinquecento, em 1949. Cantimori foi o tradutor na Itália das Historische 
Meditationen de Werner Kaegi. No dramático contexto da II Guerra 
Mundial, as conferências de ambos juntaram-se à voz de um outro 
historiador da cultura, o holandês Johan Huizinga. Os três haviam se 
encontrado em Basileia, em 1936, para celebrarem o quarto centená-
rio de morte de Erasmo. Naquele momento, eram três conferencistas 
refl etindo sobre o humanismo na Europa central. Tempos depois, 
Cantimori trabalharia na edição em italiano do livro do historiador 
holandês, As sombras do amanhã, e Kaegi traduziria para o alemão o 
último manuscrito de Huizinga, inédito até mesmo em idioma ori-
ginal, Quando falam as armas. Entre Cantimori e Kaegi havia ainda 
outro ponto de aproximação. Enquanto Kaegi trabalhava no maior 
empreendimento de sua vida, a biografi a intelectual do historiador 
de Basileia, Jacob Burckhardt, em sete volumes e editada entre 1947 
e 1982 (o último publicado postumamente), Cantimori fazia a já 
referida tradução italiana das Weltgeschichtliche Betrachtungen de Bur-
ckhardt: as Meditazioni sulla storia universale15 publicadas na Itália em 
15 Burckhardt, 1959.
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126 1959. É certo que a maneira de Kaegi mergulhar a biografi a de Bur-
ckhardt na cultura citadina de Basileia serviu de exemplo para Canti-
mori, nos anos 1940 e 1950, de como o contexto de vida de um 
personagem pode, de fato, tocar o teor de sua obra. Na longaresenha 
que Cantimori compôs, na Itália, do primeiro volume da biografi a 
intelectual de Burckhardt, escrita por Kaegi, tal afi rmação se confi r-
ma.16 Certamente, a imagem de Burckhardt iluminava as faces de 
Kaegi, de Cantimori e de Huizinga, indicando um caminho para a 
compreensão da trágica crise da Europa naquele momento tão obscu-
ro. Era, de novo, o cenário cosmopolita da cidade de Basileia a con-
ferir um sentido à obra de Delio Cantimori. E devemos levar em 
consideração que os textos de Cantimori sobre Burckhardt represen-
tam uma virada na compreensão da obra do historiador suíço, perce-
bendo um novo Burckhardt em relação à imagem do pessimista e 
niilista radical, do pensador espremido entre Nietzsche e Schope-
nhauer. Cantimori apresenta um Burckhardt até então conhecido 
quase exclusivamente no erudito meio dos estudiosos de Basileia. 
Exatamente o Burckhardt de quem Warburg se diz seguidor. E quan-
to o Burckhardt de Cantimori abriu caminho para os estudos atuais 
sobre o historiador de Basileia!
De todo modo, o diálogo de Cantimori com esse grupo de histo-
riadores propiciou ainda a amplitude de sua perspectiva de pesquisa, 
no sentido de ultrapassar os limites da história italiana para tocar 
problemas relativos à vida religiosa e ao humanismo europeu. Além 
disso, Cantimori frisava a importância de tirar o foco dos estudos 
sobre os hereges e os movimentos reformistas no século XVI dos 
grandes homens, para daí, com o auxílio da história da cultura, bus-
car os contextos mais precisos. Portanto, a perspectiva centrada em 
pequenos grupos, em contextos precisos e concretos, propiciaria ao 
mesmo tempo compreender o fenômeno histórico na diversidade e 
profundidade de seu caráter europeu. Cantimori trata o problema 
metodológico num curso ministrado na Scuola Normale Superiore 
16 Ver Cantimori (1971).
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127di Pisa em 1959. Essas aulas foram posteriormente editadas em livro, 
sob o título Prospettive di storia ereticale italiana del Cinquecento.17 Nes-
sas aulas, o historiador afi rma a necessidade de descentralizar os es-
tudos dos hereges italianos, apagando seu sentido de movimento 
(entendido como corrente de algum modo unitária e contínua), 
para integrá-los na vida religiosa italiana e europeia. Nas palavras de 
Delio Cantimori (1992:424):
Há também que estudá-los, sob certos aspectos, pelo interesse 
que apresentam as formas da vida religiosa de pequenas comu-
nidades ou de grupos de exilados e de emigrados, e entre estes 
grupos, distribuídos e dispersos em seu interior, daquele núcleo 
de pessoas mais inquietas e radicais que foram chamadas hereges 
no sentido mais delimitado e restrito. [...] Poder-se-ia, assim, 
falar de problemas e questões de história da vida religiosa do 
Cinquecento europeu, na qual aqueles grupos e aqueles núcleos se 
inserem, considerados na perspectiva e sob o ponto de vista da 
história da cultura [...].
Nesse sentido, a história da cultura funcionava como uma ope-
ração de síntese que podia conferir um sentido cosmopolita ao fe-
nômeno histórico, visto que sua compreensão extrapola os limites 
nacionais e a centralidade nos chamados “grandes personagens”. 
Essa síntese histórico-cultural, entretanto, não era aplicada como 
um amálgama uniformizador e, sim, como um campo de relações 
diretas entre homens percebidos concretamente em suas ações e 
inter-relações, de modo que a operação de tecitura histórica não 
apagasse o brilho e a diversidade dos contextos locais, nem a face 
multiforme de suas expressões e ideias. Como afi rmou o próprio 
Cantimori (1992:426), ainda nessas aulas de 1959, essa operação 
historiográfi ca
17 Cantimori, 1992:419-481.
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128 constitui para o estudioso um espelho que amplia de maneira 
mais evidente os fenômenos da vida religiosa europeia, permi-
tindo assim usar (com um método análogo àquele da Wissensso-
ziologie) os materiais e os resultados da pesquisa microscópica 
para uma indagação e consideração macroscópica, sem revogar 
os cânones da concretude, da especifi cação e da cautela que são 
próprios de todo estudioso de história, e sem incorrer em gene-
ralizações arriscadas ou fantásticas.
Foi assim que Delio Cantimori, quando se concentrou em peque-
nos círculos eruditos formados por italianos e não italianos fora da 
Itália, pôde tocar um problema primordial de história moderna: a 
transposição do humanismo italiano para o cenário da Europa central. 
Essa era uma indagação cosmopolita (europeia), bem adequada à tradi-
ção histórico-cultural à qual ele podia se ligar por seu contato com as 
obras de Jacob Burckhardt e de Aby Warburg, e por seu diálogo com 
Werner Kaegi e com Johan Huizinga. A redução de escala, tal como a 
realizava Cantimori, tinha sido certamente intuída desse diálogo. Mas 
não apenas dele. A concentração na perspectiva microscópica, como 
primeiro passo de sua operação metodológica, denunciava sua ligação 
com a grande tradição historiográfi ca italiana, que desde os escritores 
latinos antigos havia concebido a biografi a como a forma primordial de 
compreender a ação do homem com um profundo senso histórico.
Talvez, pelos elementos aqui apresentados, seja possível compreen-
der, pelo menos em alguns traços, a importância de Cantimori para a 
formação de Carlo Ginzburg. Se assim for, que não apaguemos tam-
bém aquilo que os distancia. E nesse sentido, tenhamos presente que 
um dos pontos mais instigantes da obra de Delio Cantimori é sua 
aversão à aplicabilidade em contextos e pesquisas distintas de pressu-
postos metodológicos. Se há uma construção de caráter metódico em 
sua obra, ela foi concebida como aparato analítico para compreender 
um problema muito preciso de história. Esse aparato analítico, cons-
truído no próprio processo da pesquisa histórica, servia apenas para a 
compreensão da história dos hereges italianos do século XVI.
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6
Pensando as transformações e a recepção da 
micro-história no debate histórico hoje
Henrique Espada Lima
Abordarei aqui três questões que me parecem pertinentes para refl e-
tir sobre o lugar que a micro-história pode ocupar no debate histó-
rico no Brasil hoje. A primeira diz respeito ao panorama intelectual 
mais amplo que transformou de modo signifi cativo o campo da his-
tória social entre os anos 1970 e tempos mais recentes. Essa primeira 
indagação toca, portanto, aquele “contexto” em que, supostamente, 
o debate — e sobretudo o debate italiano — sobre a micro-história 
encontra de algum modo o seu lugar.
A segunda questão, que se relaciona bem estreitamente à primei-
ra, diz respeito a como a micro-história — ou pelo menos os histo-
riadores mais fortemente ligados a ela — respondeu a essas transfor-
mações ao longo da própria trajetória do debate.
Enfi m, a terceira questão que gostaria de abordar diz respeito à 
recepção seletiva da micro-história no debate intelectual brasileiro, 
desde o seu princípio, em meados dos anos 1980, até os dias atuais.
Como se verá, trato dessas três questões de modo desigual, mas 
procurando tecê-las em um objetivo geral. Creio que a articulação 
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132 dessas três dimensões pode ajudar tanto a pensar os modos pelos 
quais o debate fl orescente sobre a micro-história no Brasil vem se 
desenvolvendo, quanto a tornar mais claros os impasses — teóricos 
e outros — que esse debate envolve.
Como já discuti em A micro-história italiana (2006a), em meados 
dos anos 1960, o panorama intelectual no qual surgiram os debates 
e propostas que se articularam sob o nome de micro-história na 
Itália era marcado por um modelo de história social que tinha como 
características mais destacadas a preocupação em explicar a socieda-
de através de suas variáveis materiais e estruturais, contando ainda 
com um forte componente racionalista. Havia nisso o impulso de 
construir modelos sintéticos de interpretação — sobretudo da socie-
dade europeia dos séculos XVI a XIX —, a partir de uma hierarquia 
de relevâncias muito bem defi nida.
Essa versão “triunfante” da história social pode ser caracterizada 
por certos eixos de que vale a pena lembrar. Primeiro, pode-se dizer 
que ela se baseava na convicção otimista de que o questionário perti-
nente para explicar a sociedade havia sido construído de uma vez por 
todas em seus aspectos mais fundamentais. Esse questionário — for-
temente “materialista” — previa, por um lado, um conjunto de diá-
logos entre a história e as ciências sociais que priorizavam muito 
claramente aquelas disciplinas que, como a economia, a sociologia e 
a demografi a, utilizavam amplamenmte métodos quantitativos e 
apresentavam, igualmente, forte tendência à modelização. Por outro, 
era também marcado por modelos explicativos fortes, como — em 
uma versão marxista — aquele que discutia a ascensão do capitalismo 
e, em outras vertentes, o modelo da “modernização”.
Em suas distintas versões, sobretudo na Europa, esse era um mo-
delo de história social certamente triunfante, tanto do ponto de vis-
ta intelectual quanto do institucional (especialmente na França). A 
história social era, desde o pós-guerra, um verdadeiro projeto 
internacional,1 que havia produzido resultados sólidos, e era visto 
1 Cf. Sewell Jr., 2005:25.
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133e reconhecido como sinônimo de uma historiografi a mais sofi stica-
da. Portanto, também, um programa a ser seguido.
Esse quadro se transformou bastante entre o fi nal dos anos 1960 e o 
início dos 80. Os motivos são muitos, de natureza tanto historiográfi ca 
quanto extra-historiográfi ca. Não há dúvida de que há uma relação 
dialética entre as transformações políticas e culturais e as mudanças no 
campo das ciências sociais. A crescente percepção de que uma “crise” 
se abria no horizonte aconteceu simultaneamente nos dois campos.2
Não creio que haja necessidade de detalhar a natureza dessas 
transformações. Falando dos Estados Unidos e da Europa ocidental, 
pode-se acompanhar a análise de William Sewell Jr. (2005:30 et 
seq.), que vê na falência do modelo “fordista” (uma expressão usada 
por ele para classifi car tanto as sociedades quanto as ciências sociais 
que nelas se desenvolviam no período) um dos fatores essenciais 
dessa crise. De acordo com Sewell Jr., a desconfi ança crescente 
quanto às virtudes de um modelo de sociedade padronizada e estru-
turada foi um dos fatores essenciais a mover tanto os movimentos 
políticos de esquerda e a contracultura a partir do fi nal da década de 
1960, quanto a própria agenda dos historiadores sociais.
Assim, o que se vê na década de 1970 é que o ponto alto do su-
cesso da história social coincidiu com o momento em que ela come-
çou a passar por profundos questionamentos sobre o próprio alcance 
de seus resultados como disciplina. Dois diagnósticos, publicados 
com duas décadas de diferença e realizados por protagonistas dos 
debates sobre a história social, nos ajudam a compreender o alcance 
e a direção das transformações que ocorreram no período.
Pensando o estado da história social em 1971, é perfeitamente ra-
zoável que Eric Hobsbawm concluísse seu amplo diagnóstico sobre o 
campo afi rmando que era “um bom momento para ser historiador 
social”,3 sublinhando ao mesmo tempo as fronteiras ilimitadas da 
2 Sobre alguns dos impasses que brotaram dessa conjuntura de “crise”, ver Lima 
(2002:77-106).
3 Hobsbawm (1997:105), texto originariamente publicado em Daedalus, n. 100, p. 
20-45, 1971.
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134 disciplina e o otimismo quanto a sua capacidade de assegurá-las. Por 
outro lado, em contraste, em 1990, a historiadora americana Natalie 
Zemon Davis, em um artigo intitulado precisamente “As formas da 
história social” — uma discussão sobre os rumos da disciplina na 
década anterior — concluía seu diagnóstico dizendo: a história so-
cial, no início dos anos 1990, é, antes de tudo, história cultural. O 
tom otimista permanece, mas uma mudança considerável certamente 
se havia operado naqueles 20 anos.
Davis apontava alguns dos aspectos gerais dessa transformação: a 
história social, que havia estabelecido seu domínio através de um 
intercâmbio intenso com a sociologia, a economia e a antropologia 
social, passou a se interessar cada vez mais pelo tema da cultura e, 
rearticulando ao mesmo tempo seu horizonte de intercâmbio inte-
lectual na direção da antropologia cultural e simbólica, pelos estu-
dos literários e mesmo pela psicologia. No plano das fontes, a ênfase 
na documentação serial e quantitativa havia se deslocado para fontes 
menos serializáveis, mais capazes de ser interpretadas em uma chave 
simbólica. Natalie Davis não hesitava em incluir a micro-históriaitaliana como um exemplo claro dessa nova estação de estudos.
Vocabulários, fontes de pesquisa, métodos de análise, temas de 
investigação, estilo intelectual: os termos de defi nição da “nova his-
tória cultural” (para usar uma expressão que começou a circular 
mais ou menos na mesma época4) passavam por uma reavaliação de 
tudo isso. Claro que essa reavaliação não era homogênea e, certa-
mente, seria um equívoco imaginar que apenas um modelo alterna-
tivo de história cultural tenha surgido nesse horizonte. Desde um 
“culturalismo” não inteiramente incompatível com as preocupações 
clássicas da história social até as versões mais radicais e “pós-moder-
nas” de uma crítica radical e epistemologicamente cética dos pró-
prios fundamentos do conhecimento histórico, o que se via era uma 
reorientação de prioridades e uma redefi nição do consenso em tor-
no daquilo que deveria ser o principal foco da pesquisa histórica.
4 Cf. Hunt, 1992.
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135É verdade que muitos ramos da “velha” história social continua-
ram a fl orescer e a dar frutos, mas com menos alarde. Não há dúvida, 
porém, de que o centro do palco — o que ecoava mais fortemente 
nas caixas de reverberação acadêmica (sobretudo nos Estados Uni-
dos e na França) — era um debate que tematizava crescentemente a 
cultura. O impacto sobre o vocabulário em circulação nos debates 
centrais da historiografi a mostra isso: noções como “classe”, “estru-
tura”, “organização social” foram sendo menos escutadas, enquanto 
termos como “identidade”, “gênero”, “subjetividade” e “representa-
ção” tomavam clamorosamente a dianteira.
A “virada cultural” (e mesmo, em uma versão mais extrema, uma 
“virada linguística”) sintetizou essa busca por rearranjar a hierarquia 
de importância na interpretação histórica entre os anos 1980 e o fi -
nal da década de 90. É importante notar, entretanto, que esse qua-
dro não deixou de se transformar. O último capítulo ou, quem sabe, 
o último capítulo antes do último — para parafrasear Siegfried Kra-
cauer (1969) — dessa história é o que se vive hoje, com a revisão de 
parte desse quadro, onde parece estar em curso uma nova infl exão 
desse panorama teórico.5 Isso se deve, é preciso acrescentar, pelo 
menos em parte, à dinâmica própria ao desenvolvimento de qual-
quer debate intelectual, e que faz com que fi nalmente se acabe con-
frontando as promessas feitas no momento com os resultados teóri-
cos e empíricos que as próprias pesquisas obtiveram ao longo do 
tempo. Pretendo voltar a falar mais adiante sobre esse quadro de 
reavaliação, após me deter no segundo ponto de discussão que le-
vantei no início deste capítulo.
A pergunta sobre os modos às vezes contraditórios pelos quais a 
micro-história se relacionou com esse quadro de transformações da 
história social levanta alguns pontos de discussão nos quais valeria a 
pena nos deter mais.
5 Atestam isso, parece-me, as recentes avaliações dos caminhos do debate históri-
co nos Estados Unidos, das quais se pode destacar o já citado livro de William 
Sewell Jr., Logics of history, e o de Geoff Eley, Una linea torcida (publicado originaria-
mente em inglês em 2005).
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136 O primeiro ponto diz respeito à relação entre a micro-história e 
aquele primeiro panorama da história social triunfante no início dos 
anos 1970. Como foi dito, a sofi sticada discussão historiográfi ca, 
sobretudo na França (com os Annales) e na Inglaterra (com a história 
social marxista britânica), aparecia como o horizonte a seguir e o 
modelo historiográfi co ante o qual se posicionar de algum modo. 
Diante desse panorama, a “micro-história” surge simultaneamente 
como resultado e como reação no debate italiano sobre a história de 
início dos anos 1970.
Digo resultado e reação porque não há dúvida de que é como 
uma tentativa de se aproximar desse modelo de uma história com 
instrumentos e modelos interpretativos fortes e fôlego intelectual 
amplo que os debates sobre a história social aparecem na Itália nos 
anos 1960 e 1970.6 E esse, é preciso lembrar, era um debate que se 
travava na Itália também contra um quadro de discussões históricas 
bastante impermeável ao diálogo com as ciências sociais, marcado 
por tradições intelectuais importantes e contrastantes, desde a histó-
ria ético-política, com forte interesse pela história intelectual e a 
história do Estado, até uma historiografi a de inspiração marxista, 
também muito marcada pela busca de uma “história-síntese”.
Se tomarmos os primeiros textos em que se anuncia o que depois 
viria a se chamar de micro-história, reconheceremos imediatamente 
que são essas as preocupações que estão no horizonte do debate: a 
necessidade de se construir modelos explicativos mais adequados, a 
convicção de que era possível — através do aperfeiçoamento dos 
métodos da história social — fortalecer a disciplina do ponto de vis-
ta científi co. Claro que isso tudo vinha acompanhado de uma rejei-
ção muito clara aos modelos estrutural-funcionalistas adotados pelas 
6 Edoardo Grendi (1998:258) afi rmou, em um artigo de balanço publicado pela 
primeira vez em francês em 1996, que a “microanálise representou uma espécie de 
‘via italiana’ para uma história social mais elaborada (e mais fundamentada teorica-
mente) num contexto particular, fechado às ciências sociais e dominada por uma 
ortodoxia historiográfi ca que hierarquizava de maneira rígida a importância dos 
objetos”. O diagnóstico, a meu ver, pode ser estendido ao debate sobre a micro-
história como um todo.
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137ciências sociais, bem como de uma reapreciação crítica muito articu-
lada dos resultados alcançados pela história social naqueles anos.
O tema da “microanálise”, que emergiu inicialmente como o ter-
mo que sintetizava as preocupações teóricas e metodológicas, brota 
das intervenções de Edoardo Grendi no debate sobre a história so-
cial nas páginas dos Quaderni Storici. A trajetória intelectual de 
Grendi revela, por outro lado, o quanto a micro-história devia a esse 
debate mais amplo que ocorria não só sobre a história social fora da 
Itália, mas também sobre a forma original que poderia adquirir 
(como, de fato, adquiriu) ao entrelaçar-se com discussões menos 
óbvias e problemas de investigação que brotavam da própria histo-
riografi a italiana.7
Um aspecto importante a ser ressaltado é que a microanálise ape-
nas lentamente ganhou substância em trabalhos de pesquisa empíri-
ca. Tratava-se antes de tudo de uma proposta metodológica, com 
forte inspiração na antropologia social. Na medida em que o debate 
se tornou mais amplo e mais diversifi cado, aquele programa intelec-
tual inicial foi bastante alterado. Como falou Carlo Ginzburg 
(2007a:249), o fato é que, em meados dos anos 1970, a micro-histó-
ria mais parecia um rótulo em uma caixa vazia, a ser preenchida.
A citação de Ginzburg não é casual, pois ele é um dos responsá-
veis pela complicação do quadro da interpretação do debate. Como 
já se falou muitas vezes, a trajetória de Ginzburg e suas preocupações 
intelectuais não poderiam estar mais distantes das dos outros prota-
gonistas da micro-história, como Giovanni Levi, Edoardo Grendi e 
mesmo Carlo Poni, com quem de resto Ginzburgescreveu um tex-
to sugestivo sobre o tema em 1979.8
A aproximação de Ginzburg passava por um conjunto muito 
diferente de diálogos e aproximações, e sua abordagem da história 
7 Sobre a trajetória intelectual de Grendi, ver a introdução de Osvaldo Raggio e 
Angelo Torre ao livro de Grendi publicado postumamente, In altri termini. Ver tam-
bém o capítulo “História social e microanálise: Edoardo Grendi”, de Lima 
(2006:151-224).
8 Ver Ginzburg e Poni (1989:169-178).
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138 social já era alimentada, desde meados dos anos 1960, por um in-
teresse de pesquisa em “crenças”, “atitudes religiosas” e “mentali-
dades” do mundo camponês (para mencionar três expressões pre-
sentes na introdução de seu primeiro livro, em 1966).9 Quando 
passou a colaborar com os Quaderni Storici, em meados dos anos 
1970, O queijo e os vermes estava em processo de publicação e ele 
preparava seu livro sobre Piero della Francesca.10 Os dois livros 
abordavam o tema da “microanálise” por um ângulo bastante dis-
tante das propostas de Grendi e Levi: não se tratava da reconstru-
ção de teias de relações sociais, nem da recomposição das trajetó-
rias individuais e de grupo através da documentação serial, mas de 
abordar a história a partir da observação de um episódio singular, 
ou da análise de uma anomalia iconográfi ca localizada, na tentati-
va de investigar uma realidade mais profunda, que não havia dei-
xado traços documentais.
A contribuição de Ginzburg ao debate da micro-história não é 
negligenciável, como se sabe. Basta lembrarmos o quanto as discus-
sões elaboradas por ele em um texto de 1979 chamado “Sinais” aca-
baram se tornando indissociáveis das propostas micro-históricas, mes-
mo sabendo que a fórmula do “paradigma indiciário” estava longe de 
encontrar boa aceitação entre os próprios micro-historiadores.11
Havia, e isso foi reconhecido imediatamente, pontos de vista dis-
tintos no projeto micro-histórico. Não faltaram discussões sobre o 
que os separava e os unia. Tentando sintetizar essas diferenças, em 
1996, Edoardo Grendi identifi cou duas vertentes da microanálise 
histórica: uma delas, representada antes de tudo por Ginzburg, deti-
nha-se no episódio ou no caso e projetava-o “sobre um contexto 
histórico-cultural. E, nesse ponto”, nas palavras de Grendi (1998:253), 
“sua pertinência era pelo menos dupla: ele servia para ilustrar, de um 
lado, um problema historiográfi co particular (por exemplo, as rela-
9 Ver Ginzburg (1988).
10 Ver Ginzburg (1987 e 1989a).
11 O texto a que me refi ro é “Sinais. Raízes de um paradigma indiciário”, em Ginz-
burg (1989b).
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139ções entre a cultura de elite e a cultura popular) e, de outro, a cultu-
ra de uma época (mais que a de um grupo social específi co)”. A se-
gunda vertente microanalítica, na qual se incluía, Grendi qualifi cava 
como voltada para a contextualização social, marcada por outros 
“procedimentos analíticos” e interessada na “reconstrução de redes 
de relações e [na] identifi cação de escolhas específi cas (individuais e 
coletivas)”, que reconhecia o “primado das relações interpessoais” 
como seu principal plano de investigação.12
Esse quadro esquemático era problematizado, no entanto, mais 
adiante pelo próprio Grendi. “Empréstimos e trocas recíprocas” aju-
davam a turvar esses limites, sendo a “alternativa original entre con-
textualização social e contextualização cultural” excessivamente 
abstrata e havendo sido superada, ao menos parcialmente, pela pró-
pria pesquisa.13 Além disso, Grendi reconhecia que a mudança no 
quadro de infl uências e diálogos que os historiadores ligados à mi-
cro-história empreenderam acabou sendo responsável por reforçar 
temas não previstos no programa original, como a aproximação 
com a antropologia cultural, o interesse por idiomas políticos, a dis-
cussão sobre as “práticas sociais”. De resto, o “elemento decisivo” a 
marcar a experiência historiográfi ca entre meados dos anos 1980 e 
meados dos 90 havia sido a “passagem de uma problemática da pro-
dução e da troca para a da linguagem e da representação”.14
O quadro abstrato que dividia arbitrariamente a micro-história 
social da micro-história cultural permaneceu não resolvido no pla-
no da discussão teórica. Um dos motivos disso talvez tenha sido o 
fato de nunca ter acontecido um verdadeiro diálogo sobre as dife-
renças e convergências entre as duas abordagens possíveis para a 
micro-história. Isso talvez tenha acontecido — o que me parece 
mais importante — no próprio trabalho dos micro-historiadores 
nos anos seguintes e se mantido como uma das fontes de renovação 
do próprio debate.
12 Grendi, 1998:253.
13 Cf. Grendi, 1998:259.
14 Grendi, 1998:254.
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140 O tema da “cultura” parece estar no centro dessa área de indefi -
nição na qual se desenvolveu o debate em torno da micro-história. 
É preciso olhar com mais atenção, portanto, o lugar que esse tema 
ocupou nas “duas vertentes” micro-históricas, o que tem a ver, aliás, 
com o próprio lugar da micro-história na reorientação do debate 
sobre a história social durante as décadas de 1970 e 80.
O tema da cultura estava longe de ser uma preocupação ausente 
nas discussões sobre a microanálise. Ao contrário, o projeto históri-
co-antropológico que inspirava a micro-história sugeria exatamente 
que a avaliação da importância dos modelos culturais tinha um peso 
signifi cativo para a compreensão das lógicas e estratégias sociais. Nes-
se sentido, é digno de nota o entusiasmo com que um historiador 
como Grendi acolheu os trabalhos publicados por Natalie Davis no 
início dos anos 1970,15 bem como sua análise certamente positiva dos 
trabalhos de antropologia histórica publicados por E. P. Thompson, 
reunidos por Grendi em um volume intitulado Societá patrizia, cultura 
plebea (Sociedade patrícia e cultura plebeia), publicado em 1981 como 
o segundo número da coleção einaudiana “Micro-histórias”.16 Davis 
e Thompson haviam sido pioneiros nessa exploração da interface 
com a antropologia, sem abandonarem um programa forte de histó-
ria social.
Mas a questão que me parece mais relevante aqui é a maneira dis-
tintiva com que a vertente “social” da micro-história tratava o proble-
ma da cultura. Esse elemento está ligado, a meu ver, ao modo de in-
vestigar essa dimensão.
Se observarmos alguns dos principais trabalhos que levaram adian-
te as exigências de contextualização social que a microanálise havia 
colocado em pauta — por exemplo, o livro de Giovanni Levi A he-
rança imaterial —, a cultura tinha um papel importante e confundia-se 
com o modo pelo qual os sujeitos sociais organizavam suas vidas e o 
horizonte de racionalidade em que suas ações faziam sentido. A cul-
15 Ver Grendi, 1976.
16 Thompson (1981). Sobre a avaliação de Grendi do trabalho de N. Davis, ver tam-
bém Lima (2006b:151-224).
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141tura, desse modo, era lida através dos comportamentos dos atores 
sociais: a lógica que guiava as estratégias dos grupos e defi nia seu le-
que de respostas para oproblema da incerteza e defi nia um conjunto 
de valores e de princípios comuns que davam sentido às escolhas fa-
miliares, a lógica do mercado de terra, a política e assim por diante.
O que Levi evitava fazer em seu livro era pensar a cultura como um 
contexto autônomo, tomando uma distância considerável da história 
das ideias. Assim, sua investigação sobre a trajetória de Giovan Battista 
Chiesa não procura encontrar o sentido da pregação do padre exorcis-
ta nos livros religiosos ou nos manuais de exorcismo, mas busca-o so-
bretudo nos modos possíveis com que os camponeses que seguiam 
Chiesa organizavam seu horizonte de expectativas diante de um mun-
do em colapso. A discussão de Levi ecoa em muitos pontos o programa 
de pesquisa que Edoardo Grendi havia feito discutir alguns anos antes: 
para Grendi (1981:71-72), entre os “objetos analíticos” de uma micro-
análise deveria estar seguramente a cultura, isto é, as “formas expressi-
vas coletivas” cujo signifi cado, enquanto “orientação de valor”, pode-
ria ser capturado não só na palavra, no gesto ou rito, mas também na 
“ação social, [na] violência coletiva, [na] organização”. Essa inspiração 
etnográfi ca estava presente, em A herança imaterial, na pesquisa intensiva 
sobre as formas de organização da vida camponesa, no funcionamento 
do mercado de terras, no estudo do jogo de alianças verticais e hori-
zontais operado pelos vários sujeitos sociais, bem como na refl exão 
sobre o caráter imaterial do poder político que dava título ao livro.
Em contraste, podemos pensar um pouco sobre aquilo que separa 
e aproxima o livro de Levi de um outro trabalho que ajudou a dar 
conteúdo ao termo “micro-história”: O queijo e os vermes, de Carlo 
Ginzburg. Ali o autor procura reconstruir, através da leitura intensi-
va das palavras do moleiro Menocchio registradas no processo inqui-
sitorial de que fora objeto, um contexto cultural e intelectual perdi-
do. As ideias de Menocchio e, em especial, a grade de leitura que ele 
projetava nos livros que lia faziam emergir um extrato cultural desa-
parecido de uma cultura camponesa com componentes materialistas 
e radicais que não podiam ser intuídos através de outras fontes e, 
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142 muito menos, das ideias heréticas eruditas que circulavam no perío-
do. A excepcionalidade e singularidade de Menocchio tornavam-se 
uma via de acesso, uma sonda para explorar um contexto cultural 
que não se conhecia precisamente. 
Para além da distinção entre uma contextualização “cultural” e 
uma contextualização “social”, as diferenças entre os dois livros 
eram ligadas tanto à própria escolha do problema de pesquisa quan-
to às ferramentas intelectuais colocadas à serviço da investigação. A 
análise intensiva das fontes cartoriais sob a inspiração da antropolo-
gia social e da network analysis, no caso de Levi; o uso da rica crônica 
do processo inquisitorial, escrutado por uma leitura fi lológica, no 
caso de Ginzburg. Mas, unindo os dois livros, uma convicção co-
mum na capacidade de penetrar, através da leitura intensa da docu-
mentação e da atenção obsessiva pelos aspectos singulares de cada 
caso estudado, em uma realidade social e cultural cuja compreensão 
anterior era julgada inadequada ou incompleta.
O que essa comparação permite ver — e, é preciso dizer, outras 
comparações e outros livros poderiam ser chamados a comparecer 
nessa mesma chave — é que, para além das diferenças evidentes, ha-
via uma coerência de perspectivas que dotava o empreendimento (ou 
o programa) da micro-história de uma coerência de fundo. Portanto, 
aquela linha fronteiriça entre duas maneiras de se pensar e fazer a 
micro-história era, de fato, constantemente turvada. Se tomarmos 
apenas os livros publicados na coleção “Micro-histórias” — organi-
zada por Carlo Ginzburg e Giovanni Levi entre 1981 e 1992 —, ve-
remos a presença tanto de trabalhos que seguem muito de perto o 
programa de uma microanálise histórica das redes sociais, como o 
livro de Raul Merzario sobre as estratégias matrimoniais da diocese 
de Como entre os séculos XVI e XVIII, até livros decididamente 
voltados para o estudo do imaginário e da crença, como o de Alain 
Boureau sobre a lenda medieval da papisa Joana, traduzido para o 
italiano e proposto a ser lido sob o rótulo de “micro-história”.17 Não 
17 Ver Merzario (1982); e Boureau (1991).
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143vou continuar a lista, mas o que quero não é apenas reafi rmar o cará-
ter aberto e experimental da micro-história, mas pensar um pouco 
como o seu programa original foi também modifi cado e tornado 
mais complexo com o tempo.
Aqui, vale a pena voltar um pouco à relação problemática que o 
debate sobre a micro-história teve com o panorama cambiante dos 
estudos históricos durante os anos 1980.
Creio que não se pode ignorar que alguns dos caminhos tomados 
pelas pesquisas dos micro-historiadores estão diretamente ligados a 
essas transformações. O erro, nesse caso, é tentar simplesmente en-
caixar a micro-história em um quadro mais geral e homogêneo de 
“virada cultural”. Olhar o debate por esse ângulo — um ângulo 
externo — é antes de tudo multiplicar os mal-entendidos. 
O que se pode identifi car de saída é uma clara reação ao rumo 
que o debate histórico tomou a partir da década de 1980. De um 
ponto de vista interno, acredito que as questões propostas pelo tra-
balho de Ginzburg não deixaram de ter algum efeito sobre as for-
mulações gerais do debate. As diferenças e aproximações foram ne-
gociadas nos resultados das próprias pesquisas dos historiadores e 
historiadoras que tiveram sua formação sob essa inspiração. Por ou-
tro lado, a abertura ao debate internacional exigiu uma readequação 
das discussões às novas questões que se impunham. Há também uma 
dinâmica institucional da qual vale a pena falar brevemente.
Os estudos de história nas universidades italianas permaneceram 
fortemente impermeáveis à micro-história, enquanto o interesse 
pela micro-história fora da Itália apenas crescia. A circulação de 
pessoas tem aqui um papel fundamental, não sendo uma informação 
secundária considerar que vários dos ex-alunos dos micro-historia-
dores italianos foram fazer seus doutorados fora da Itália, na École 
des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, bem como na In-
glaterra e nos Estados Unidos, onde mais tarde muitos se inseriram 
profi ssionalmente. Assim, os temas e problemas teóricos em circula-
ção no debate histórico dos anos 1980 entraram no horizonte das 
pesquisas que se inspiravam com maior ou menor intensidade no 
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144 debate italiano sobre a micro-história. Também a mobilidade dos 
historiadores garantiu que o programa da micro-história fosse refl e-
tido e, eventualmente, reavaliado em confronto com os debates mais 
amplos da disciplina.
O exemplo em que gostaria de me deter brevemente é mais uma 
vez o de Giovanni Levi. Na introdução de A herança imaterial, Levi 
assinala a oportunidade que teve de discutir seu livro nos seminários 
do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, entre 1983 e 1984. 
É verossímil pensar que foi essa temporada americana que o colocou 
em contato com o debate corrente que se travava então entre os es-tudos históricos e a antropologia cultural e interpretativa. A referên-
cia fundamental aqui é, naturalmente, Clifford Geertz, que fazia 
parte do corpo permanente do instituto.
Ora, há pelo menos duas circunstâncias nas quais Levi se dedica 
a explorar suas diferenças com a história interpretativa que brota 
desse debate com Geertz. A primeira delas é em uma resenha muito 
crítica sobre o livro recém-publicado de Robert Darnton, O grande 
massacre dos gatos. O título da resenha era precisamente “Os perigos 
do geertzismo”.18
Nesse texto, Levi criticava fortemente os pressupostos intelectuais 
de Darnton, sobretudo sua proposta de aproximar a investigação his-
tórica do modelo hermenêutico de Geertz. Acompanhando o antro-
pólogo americano, Darnton propunha o modelo de uma disciplina 
interpretativa que, baseada na leitura intensa de episódios singulares, 
fosse capaz de atravessar a opacidade do passado, reconstituindo seus 
signifi cados historicamente localizados. O eixo central do livro era a 
metáfora da “leitura”: a ideia de que o mundo social deveria ser en-
carado como um texto a ser decifrado.
A crítica de Levi apontava exatamente para a debilidade intelec-
tual de uma análise histórica construída nessas bases. A abordagem 
hermenêutica deixava em aberto o problema de um conhecimento 
18 Publicado originariamente em Quaderni Storici em 1985. Para a versão em por-
tuguês, ver Levi (1999).
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145empiricamente mais sólido sobre o passado, dando espaço para o 
relativismo historiográfi co. Quanto à metodologia em si, os resulta-
dos também não apresentavam novidade: a atenção ao caso indivi-
dual, a descrição densa não resultavam em um verdadeiro ganho 
cognitivo, apenas ilustravam um contexto estático. O episódio em si 
era lido através de um vocabulário já conhecido.
Poucos anos depois, Levi (1992:149) retomou a discussão acerca 
da história interpretativa, desta vez em um balanço seu sobre a mi-
cro-história. O julgamento, nesse caso, era mais claro: 
Parece-me que uma das principais diferenças de perspectiva en-
tre a micro-história e a antropologia interpretativa é que a últi-
ma enxerga um signifi cado homogêneo nos sinais e símbolos 
públicos, enquanto a micro-história busca defi ni-los e medi-los 
como referência à multiplicidade das representações sociais que 
eles produzem. Portanto, o problema não é simplesmente aque-
le do funcionamento do intelecto. Há também o perigo de se 
perder a visão da natureza socialmente diferenciada dos signifi -
cados simbólicos e consequentemente de sua qualidade em par-
te ambígua.
Ora, a ênfase no caráter descontínuo, ambíguo e fragmentado das 
representações (e, do mesmo modo, da própria experiência humana), 
no caráter limitado e incompleto da sua “racionalidade”, comple-
mentam a crítica a certa forma de compreender a cultura, a lingua-
gem e o signifi cado, que seriam marcados por uma tendência a pro-
curar a homogeneidade e a descrevê-la em termos normativos. O 
projeto da microanálise — da redução da escala de observação com o 
fi m de explorar uma realidade não acessível de outra forma — apon-
tava para uma maneira distinta e muito mais complicada de enxergar 
também o mundo dos signifi cados.
Creio que essa polêmica é particularmente reveladora. A virulên-
cia da crítica de Levi a Darnton e, através dele, a Clifford Geertz e a 
Georg Gadamer deve ser lida contra o fundo dos vários paralelos que 
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146 se pode enxergar entre a micro-história e a proposta da “descrição 
densa” formulada por Geertz,19 bem como a toda uma maneira de 
pensar a “história cultural” que acabava por se inspirar nessa mesma 
proposta.
O que essa atenção crítica à história interpretativa sugere é que 
Levi reconhecia que havia questões importantes ali, questões para as 
quais a micro-história — pelo menos aquela vertente da micro-his-
tória que ele e Grendi haviam defendido — talvez não tivesse dado 
a atenção devida. Havia uma pergunta intelectualmente legítima ali, 
ainda que a resposta — a dada por Darnton, por exemplo — não 
fosse convincente.
Essa preocupação marcaria, a meu ver, muitas das reelaborações 
que a micro-história sofreu ao longo dos anos. Sem dúvida é uma 
preocupação fundamental nas discussões de Ginzburg, por exemplo, 
que a partir de outras questões também se engajou no debate sobre 
os limites da história das representações e a necessidade de levar a 
sério o desafi o daqueles que achavam por bem dissolver os limites 
entre a história e a fi cção.20
Mas essa foi também uma preocupação de Edoardo Grendi, que 
manifestou isso claramente em seu balanço sobre a micro-história 
publicado no livro organizado por Jacques Revel, Jogos de escalas. 
Nele, Grendi (1998:261) reconhece o impacto das questões coloca-
das pela “virada cultural” sobre o seu próprio programa historiográ-
fi co, apontando a necessidade de incorporar a preocupação com as 
“formas expressivas” e o “problema da interpretação histórica”.
A geração de historiadores que se formaram sob o impacto da 
micro-história talvez tenha sido responsável por enfrentar mais de 
perto em suas próprias pesquisas esse diálogo. Reconhecemos isso 
em trabalhos como o de Maurizio Gribaudi (1987) sobre os traba-
19 E, de fato, mais de um comentador da micro-história enfatizou essa suposta 
“dívida” da micro-história para com a antropologia interpretativa de Geertz, como 
é Ronaldo Vainfas (2002). Mesmo algumas passagens do autorretrato de Levi dis-
cutindo sua própria versão da micro-história sugerem essa ambiguidade (que, a 
propósito, me parece equivocada). Ver, por exemplo, Levi (1992:141).
20 Ver, por exemplo, Ginsburg (2002 e 2007b).
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147lhadores de um bairro operário de Turim no entreguerras — um 
trabalho marcado por uma verdadeira desconstrução da ideia de 
uma “classe trabalhadora” homogênea e dotada de interesses co-
muns e coerentes, explorando amplamente o papel construtivo das 
linguagens políticas. Temas igualmente presentes no livro de Simo-
na Cerutti (1992) sobre o nascimento de uma linguagem corporati-
va no Piemonte do século XVII. Poderíamos acrescentar outros li-
vros, como o de Oswaldo Raggio (1990), colega e orientando de 
Edoardo Grendi em Gênova, sobre os rituais de violência e de poder 
na vida familiar e comunitária da Fontanabuona, na Liguria, ou 
ainda o livro de Angelo Torre (1995) sobre o consumo das devoções 
no Piemonte moderno. Também os estudos de gênero passaram a 
ocupar aí um lugar importante, como nos trabalhos de outras histo-
riadoras ligadas à micro-história, por exemplo Gianna Pomata e 
Sandra Cavallo.21
Poderia citar outros, mas o que essa breve lista quer dizer é que os 
temas da cultura (e da pluralidade das culturas), dos signifi cados, da 
dimensão ritual e simbólica, da subjetividade, que pareciam aspectos 
negligenciados pelo programa de microanálise social colocado ini-
cialmente em circulação por Grendi e Levi, acabaram sendo incor-
porados ao universo de temas e questões centrais da micro-história. 
O debate em torno dessas questões, bem como sobre o alargamento 
não só do leque de interesses dos micro-historiadores, mas das cate-
gorias de análise e dos procedimentosinterpretativos, continua.
Muito recentemente, Simona Cerutti (2004:17-40), uma das 
principais responsáveis por levar adiante a pesquisa micro-histórica 
nos últimos anos, debruçou-se sobre essas mesmas questões e for-
mulou uma autocrítica muito articulada tanto à forma pela qual a 
21 Pomata vem trabalhando com temas relacionados ao gênero e à história da saúde 
desde o fi nal dos anos 1980. O primeiro livro de Sandra Cavallo (1995) é um exem-
plo dessa convergência entre microanálise e estudos de gênero. A temática do gêne-
ro estava presente, de todo modo, na discussão dos Quaderni Storici (a revista que 
reuniu a maior parte das colaborações dos micro-historiadores) desde o início dos 
anos 1980, como atesta a coletânea organizada por Edward Muir e Guido Ruggie-
ro, Sex & gender in historical perspective (1990).
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148 chamada micro-história cultural ao estilo de Ginzburg ocupava-se 
dessas questões quanto à micro-história social que ela mesma havia 
encampado em seu trabalho anterior. Para Cerutti, os próprios mi-
cro-historiadores sentiram a necessidade de superar essa dicotomia 
artifi cial entre uma perspectiva voltada estritamente para o estudo 
das relações sociais e outra dedicada ao estudo dos modelos cultu-
rais. Para ela, a necessidade de uma nova contextualização cultural 
brota da pesquisa das próprias relações sociais, sendo possível “ana-
lisar melhor signifi cados profundos (e recônditos) se nós não desco-
nectarmos a análise dos modelos culturais da análise do comporta-
mento, mas os mantivermos juntos”. Afi rma, portanto, “que é o 
comportamento que explica a efi cácia e a vitalidade dos modelos 
culturais”.22
O objetivo de Cerutti de pensar uma convergência possível de 
interesses entre as duas exigências intelectuais que moldaram a mi-
cro-história ilustra o caráter dinâmico de um debate que, aparente-
mente, está longe de ter visto seus últimos momentos. Essa vitalida-
de que a micro-história ainda parece possuir está ligada ao caráter 
experimental que ela desenvolveu desde os seus primórdios e que 
também se expressa em uma saudável “autossubversão”. Como se 
sabe, boa parte do “senso comum historiográfi co” contra o qual a 
micro-história se insurgiu foi também bastante alterado. As tradi-
cionais hierarquias de relevância foram desafi adas por histórias que 
chamavam a atenção para os grupos marginais, as histórias locais, as 
histórias ligadas às identidades étnicas, sexuais, de gênero. A micro-
história foi um dos vetores dessa transformação no debate contem-
porâneo, ao mesmo tempo em que se viu transformada por ele. A 
pluralização de temas, a emergência de novas categorias de análise e 
de novos diálogos disciplinares signifi caram também o aparecimen-
to de novas contradições e simplifi cações que reestruturaram o ho-
rizonte de crítica e refl exão histórica. A infl exão recente que parece 
representar uma revisão do quadro teórico que fez triunfar a “virada 
22 Cerutti, 2004:19.
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149cultural”
23 pode sugerir que as questões levantadas pela micro-his-
tória ainda podem ter muito a dizer sobre os caminhos do debate 
historiográfi co nos próximos anos.
Chegando às últimas considerações deste texto, seria importante 
concluir com uma constatação, que toca o terceiro ponto que eu 
havia me proposto a discutir nas primeiras páginas do capítulo.
No início dos anos 1990 — época em começa a circular a palavra 
“micro-história” no Brasil —, a atenção a esse debate italiano era 
muito seletiva e, ao mesmo tempo, excessivamente impressionista e 
lacunar. Em contraste, o debate sobre a micro-história parece hoje 
muito mais rico e atento às sugestões e propostas que a própria pes-
quisa dos micro-historiadores produziu ao longo dos anos. Ainda 
que se possa lamentar a ausência de traduções de muitos livros e 
textos importantes sobre a micro-história — e a centralização da 
atenção e da leitura, que daí deriva, em um pequeno número de 
autores selecionados —, não há dúvida de que o debate brasileiro 
vem conseguindo articular as sugestões de pesquisa oriundas dos 
trabalhos dos micro-historiadores com as próprias conquistas da his-
tória social e cultural no Brasil dos últimos anos, que passou por 
uma rearticulação de problemas e um vigor renovado de pesquisa 
certamente notáveis.
A primeira recepção da micro-história coincide com a própria 
recepção de um debate mais amplo sobre a historiografi a que se in-
ternacionalizava. Esse foi o contexto que permitiu, em meados da 
década de 1980, o contato com um conjunto amplo de leituras que 
vinham traduzidas para o português e lidas, pelo menos nos cursos 
universitários, de modo quase simultâneo: a tradução maciça de his-
toriadores franceses ligados aos Annales, como Jacques Le Goff e 
Georges Duby, bem como historiadores ingleses e anglo-america-
nos, como Edward Thompson, Eugene Genovese e Natalie Davis, 
além de todo um leque de discussões que brotavam da fi losofi a, da 
23 E aqui, como referência desse quadro de revisão, aponto para os livros de Geoff 
Eley (2008) e William Sewell Jr. (2005).
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150 antropologia ou da sociologia — como é o caso, por exemplo, de 
Michel Foulcault e, mais tarde, Pierre Bourdieu, que tiveram todos 
enorme impacto sobre as discussões dos historiadores brasileiros. 
Pode-se dizer que esse foi também um momento em que a historio-
grafi a brasileira descobriu com mais intensidade seu próprio cami-
nho para uma “história social”, isto é, uma história simultaneamen-
te em sintonia com o debate internacional e disposta a intensifi car 
suas relações com as outras disciplinas das ciências humanas.
A recepção dessa impressionante massa de textos, ideias e suges-
tões de pesquisa foi mediada — como talvez não pudesse deixar de 
ser — por leituras parciais e aproximações inesperadas. Esse é o en-
quadramento que permite compreender como a micro-história 
pode se tornar não só sinônimo da obra de Carlo Ginzburg (tradu-
zido conspicuamente a partir de 1987), mas uma das modalidades de 
uma “história cultural” ou “história das mentalidades” cujos signi-
fi cados permaneciam sufi cientemente ambíguos para permitir com-
binações de toda ordem.
A micro-história, inicialmente capturada como parte de uma 
constelação mais ampla de sugestões de pesquisa, foi tomando con-
tornos mais claros. De todo modo, a inspiração que o prefi xo “mi-
cro” sugeria acabou ainda por reforçar um quadro — que também 
emerge dos desdobramentos do debate historiográfi co dos anos 1980 
e 90 — que parecia justifi car uma atenção às singularidades e aos 
estudos de caso, bem como uma história “a partir de baixo”.
A micro-história, nesse contexto, acabou também por reforçar 
algumas das transformações mais signifi cativas dos estudos históri-
cos no Brasil dos últimos anos. Se nos mantivermos apenas nos re-
sultados coletivos mais evidentes, cabe citar os estudos sobre a histó-
ria da escravidão e da pós-emancipação, os estudos de história social 
do trabalho, bem como aqueles sobre o funcionamento do antigo 
regime na América portuguesa, e todo o conjunto de questões que 
tratam da renovação da história social e econômica.
Novas publicações, como o livro organizadopor Jacques Revel 
em 1996 e publicado quase em seguida no Brasil — Jogos de escalas; a 
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151experiência da microanálise — reunindo contribuições de historiadores 
e antropólogos italianos e franceses sobre a micro-história em sua 
versão “social”, certamente ajudaram a tornar o debate sobre a mi-
cro-história mais rico e mais fundamentado.
A publicação do livro de Giovanni Levi — A herança imaterial — 
em 2000 tanto atesta a atenção aos desdobramentos da micro-histó-
ria para além da referência da obra de Ginzburg, como acabou por 
acrescentar um elemento novo no quadro da recepção do debate no 
Brasil, fazendo circular um texto que, entre outras qualidades, tem 
o mérito de apresentar um exemplo de microanálise histórica cujos 
procedimentos e estratégias de investigação são perfeitamente capa-
zes de instruir trabalhos do gênero que abordem temas de pesquisa 
mais próximos das possibilidades oferecidas pelos arquivos brasilei-
ros. Por outro lado, manifesta-se o risco — já presente, pontual-
mente, em alguns dos debates recentes — de tomar a “microanálise” 
como um procedimento com fi m em si mesmo, deixando de lado o 
aspecto essencial da proposta, isto é, ser uma estratégia de pesquisa 
colocada a serviço da investigação de um problema historiográfi co 
de amplo fôlego.
O que se atesta, portanto, é que o interesse pela micro-história 
não deixa de crescer entre os pesquisadores brasileiros. Apesar de 
esse interesse ainda ser mediado por traduções seletivas, que tendem 
a ignorar os desenvolvimentos (mesmo contraditórios) do debate 
sobre a micro-história, tanto na Itália quanto na França, ele também 
testemunha aquela característica da micro-história enfatizada por 
Giovanni Levi,24 que é sua capacidade de formular perguntas que 
puderam ser generalizadas a ponto de servir de inspiração e contra-
ponto aos avanços recentes da história social no Brasil.
As transformações recentes no horizonte das discussões historio-
gráfi cas apontam para uma reconfi guração de temas e questões que 
terão certamente impacto sobre o modo pelo qual a micro-história 
24 Por exemplo, na entrevista dada a Diego Sempol na Costa Rica. Ver Levi 
(1998:16-17).
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152 vem sendo lida no Brasil. O confronto entre esse quadro, o próprio 
desenvolvimento das pesquisas inspiradas na micro-história realiza-
das por historiadores brasileiros e as contribuições que o debate so-
bre a micro-história continua a fazer sugerem que, na verdade, o 
debate está apenas começando.
R E F E R Ê NC I A S 
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Exercícios de micro-história
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7
O capitão João Pereira Lemos 
e a parda Maria Sampaio: 
notas sobre hierarquias rurais costumeiras
 no Rio de Janeiro do século XVIII*
João Fragoso
Entre 1601 e 1800 o tráfi co atlântico de escravos trouxe para as Amé-
ricas cerca de 5.609.869 escravos, dos quais aproximadamente 39% para 
o Brasil, tornando-o o principal porto de destino daquele negócio.1 
Assim, ao longo de dois séculos, o sistema atlântico luso, com suas prá-
ticas de resgate nas costas africanas, arrematações de contratos e econo-
mia de mercês, expedientes políticos da monarquia corporativa nada 
regulados pelo mercado,2 conseguiu superar as importações tumbeiras 
custeadas pelo capital mercantil-bancário de Londres e Amsterdã.
1 Ver Eltis, Richardson, Berhens e Florentino, em <http://wilson.library.emory.edu>.
2 Sistema pelo qual a coroa concedia o privilégio do comércio de cativos em de-
terminadas áreas da costa africana. Por exemplo, no século XVI, os moradores de 
Cabo Verde tinham tal exclusividade na área da Senegambia. Ver Teixeira (2005, 
t.II); e Serrão e Marques (2005:85-89). Através da economia do dom, os serviços 
prestados à monarquia, no Atlântico e em outras paragens, eram pagos com a con-
cessão de hábitos militares, tenças, monopólios etc. Sobre o tema, ver Xavier e 
Hespanha (1993); e Fragoso (2000).
∗ Pesquisa fi nanciada pelo CNPq.
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158 No Caribe inglês, aqueles cativos, conforme Blackburn (2003) e Hig-
man (2000), foram usados nas chamadas plantations integradas — protó-
tipos do sistema manufatureiro europeu —, dirigidas pelo capital absen-
teísta situado em Londres. Na América lusa, os engenhos de açúcar, ao 
contrário das imensas gangs de escravos de Barbados, se desdobravam nos 
chamados partidos de canas, explorados em geral pelo dono do engenho 
e por lavradores com seus parentes e escravos. Em 1795, o Engenho de 
São João Batista de Sapopema, um dos 13 situados em Irajá, freguesia 
rural da então principal praça comercial do Atlântico Sul português, con-
tava com 113 cativos responsáveis por cerca de um quarto do valor das 
colheitas daquele ano. Os demais três quartos do açúcar, como se vê na 
tabela 1, foram colhidos principalmente dos 14 partidos de cana de lavra-
dores livres, alguns dos quais consanguíneos e compadres dos senhores 
do engenho, como Miguel Cardoso Castelo-Branco, primo e cunhado 
do capitão João Pereira Lemos, senhor de Sapopema, e o tenente Antonio 
Gomes de Abreu, compadre da mesma família senhorial. Um fenômeno 
que transformava essa centenária empresa num empreendimento em que 
as relações econômicas se confundiam com as parentais. Entretanto, a 
tabela 1 também nos informa que, além daqueles lavradores, existiam os 
chamados partidos dos pretos, ou seja, lavouras de cana nas mãos de 11 
escravos da fazenda, como o cabra José Batista. A família de Batista, a 
exemplo de outros integrantes dessa elite das senzalas, mantinha também 
relações de parentesco ritual com a família senhorial.
TA BE L A 1
Distribuição dos partidos de cana entre diferentes estratos sociais: 
Engenho São João de Sapopema
Partidos de cana No de lavradores Valor %
Do engenho 115$200 24,3
Dos lavradores livres 14 332$500 70,2
Dos libertos 2 5$200 1,1
Dos pretos da fazenda 11 20$500 4,3
Total 27 473$400 99,9
Fonte: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus, 1795, no 9.225, cx. 872.
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159Não sei até que ponto as relações sociais vividas em Sapopema — 
acesso de escravos a partidos de cana, presença de uma elite nas sen-
zalas, combinação de parentesco e economia — foram comuns a ou-
tros engenhos da região e da América lusa. Mas com certeza 
Sapopema se distanciava daquilo que conheço sobre a plantation inte-
grada de Barbados. Assim como, também com certeza, Sapopema não 
era uma colônia de marcianos encravada na economia exportadora e 
escravista do Rio de Janeiro. Tenho conhecimento de outras fazendas 
do século XVII e XVIII onde os escravos tinham acesso a plantações 
de cana, e pardos livres tinham a posse de escravos.3 Sapopema, po-
rém, é a que apresenta maiores detalhes. Seja como for, as normas 
sociais desse engenho foram produzidas conforme os parâmetros da 
sociedade considerada. Para tanto basta lembrar que seu dono era ca-
pitão de ordenanças, portanto tinha legitimidade para exercer o man-
do local. Da mesma forma, sua família, de longa data senhorial, estava 
envolvida em uma extensa rede parental da nobreza da terra da capi-
tania. Sapopema vivia ainda a ideia de autogoverno das casas, concei-
to presente na concepção da monarquia corporativa lusa.
Nas páginas a seguir procuro, através de fragmentos das trajetó-
rias de João Pereira Lemos, de José Batista e de outros sujeitos da 
mesma capitania, contribuir para o entendimento da lógica de fun-
cionamento das empresas açucareiras do sistema atlântico luso, 
aquelas que surgiram de mecanismos identifi cados com a economia 
das mercês, a ideia de autogoverno etc. Para tanto, procuro combi-
nar a micro-história italiana (trajetórias de vidas como ponto de 
encontro de diferentes relações sociais e, portanto, de outras vidas) 
com a longa duração, esta entendida como uma temporalidade que 
ultrapassa as existências de João Pereira e de seu cabra. Com isso, a 
ideia é recuperar um antigo e bom chavão da história: capturar mu-
3 Ver escritura de entrega que faz Vicente João da Cruz ao capitão-mor Agostinho 
de Carvalho, da fazenda do visconde Asseca, 1692, 1o Livro de Notas do Tabelião de 
Campos. Agradeço a Sheila de Castro Faria a consulta dessa fonte. Sobre o início do 
século XIX, ver inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher, 
Maria Januária Galvez Palença, 1818, cx. 3622, DEP 511. Arquivo Nacional do Rio 
de Janeiro.
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160 danças e permanências na vida social ao longo do tempo. Na minha 
época de estudante, a professora Yedda Linhares gostava sempre de 
repetir uma ideia de Pierre Vilar, algo como “ao historiador cabe o 
estudo das mudanças principalmente das estruturas sociais, daí a ne-
cessidade de investigações sobre a longa duração”. Essa ideia talvez 
esteja em desuso, mas acredito que cabe ao profi ssional de história o 
estudo do tempo social e, nessa ótica, das mudanças e permanências. 
No texto a seguir, minha intenção, como afi rmei, éestudar até que 
ponto a chamada plantation açucareira brasileira do Setecentos seguia 
a ideia de autogoverno das casas, um conceito caro à concepção cor-
porativa. Com esse intuito, procuro compreender os comportamen-
tos dos moradores — senhores, escravos e pardos — das plantations 
no sistema normativo considerado.4 Escolhi duas freguesias — Ira-
já e Jacarepaguá — e, através dos registros paroquiais, procurei fazer 
uma primeira aproximação das estratégias de vida de mais de 2 mil 
famílias (casais e solitários) de diferentes status sociais, distribuídas 
entre 1700 e 1800.
Capitão João Pereira Lemos — descendente postiço de conquistadores 
e senhor de São João de Sapopema — e uma hierarquia social costumeira 
no Antigo Regime nos trópicos
Na época em que João Pereira Lemos nasceu, no início do século 
XVIII, a capitania do Rio de Janeiro estava prestes a se tornar a prin-
cipal praça comercial do Atlântico Sul escravista, dominada por nego-
4 A principal documentação utilizada foi a coleção dos registros paroquiais de batis-
mos do Rio de Janeiro, especialmente os das freguesias de Irajá e Jacarepaguá. Trata-
se de uma documentação seriada, o que permite acompanhar as decisões de escravos, 
senhores e pardos, entre outros, quanto às suas alianças na vida (casamentos e com-
padrios); reconstruir redes parentais, o vocabulário social usado pelos fregueses, per-
guntas atinentes a uma antropologia da aldeia. Através dos registros também é pos-
sível ter ideia da dimensão dos plantéis, da taxa de fecundidade e das decisões dos 
casais quanto a tais taxas etc. Essa fonte serviu como espinha dorsal, e a ela foram 
incorporadas outras, como inventários post mortem, genealogias etc. Tudo faz parte de 
um pesquisa minha em andamento — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada 
pelo CNPq.
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161ciantes de grosso trato e seus negócios. Porém, a cidade ainda guarda-
va traços da velha sociedade agrária seiscentista. Em outras palavras, 
no primeiro quartel do século XVIII, prevalecia no recôncavo e cer-
canias uma economia escravista açucareira, e os postos honrosos eram 
ocupados por senhores saídos de uma complexa rede de parentesco 
autodenominada nobreza principal da terra. Isso porque se viam como 
descendentes de conquistadores que, no século XVI, tinham vencido 
os invasores franceses na região e, depois, construído a sociedade local 
conforme os preceitos da monarquia e do cristianismo.5
João Pereira Lemos, no registro de batismo de seus fi lhos, aparece 
como exposto na casa do padre Luis Pereira Lemos, senhor de Sapo-
pema. Porém, a condição de exposto não o impediu de se tornar 
dono da fábrica. Desse modo, tal engenho escravista passara pelo me-
nos por duas gerações sem ser fragmentado, fenômeno com todo um 
signifi cado particular para seus moradores, escravos ou não. Tal esta-
bilidade permitiu aos escravos e pardos formarem famílias, escolhe-
rem aliados e afi narem estratégias num mundo escravista marcado 
por incertezas.
Essa estabilidade, por seu turno, provavelmente resultara de uma 
prática comum entre soldados profi ssionais (tropa paga e/ou integran-
te de ordens militares) a serviço da monarquia lusa no Atlântico.6 O 
avô materno de Luis Pereira e bisavô postiço de nosso personagem, 
Francisco de Lemos de Faria, aportou no Rio de Janeiro no segundo 
quartel do século XVII. Natural de Fayal e descendente das famílias 
fi dalgas da casa real — a Abreu Lima, a Furtado de Mendonça e a 
Vieira Fialho —, chegara à América na esquadra aprestada por seu tio, 
o comendador Jorge Lemos de Bitencourt, com o intuito de povoar o 
Maranhão, após a conquista feita por Jerônimo de Albuquerque Ma-
ranhão. Em razão dos serviços prestados no norte, Francisco Lemos 
recebeu as comendas da Ilha de Santa Maria, São Miguel de Cássia e 
do Termo dos Palhaes.7 Com tais insígnias passou ao Rio de Janeiro, 
5 Ver Fragoso (2007), v. 1, p. 33-120.
6 Ver Olival (2001).
7 Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Seção de Obras Raras, Ms. 5, 3, 13-15.
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162 onde se casou com d. Isabel Pereira de Carvalho, fi lha de Gaspar Pe-
reira de Carvalho e de Margarida Gomes de Oliveira, senhores do 
Engenho de Pendotiba, região situada no recôncavo da Guanabara, 
porém do lado oposto ao de Irajá. Assim, a família Pereira Lemos, a 
exemplo de outras tradicionais da capitania vindas da Madeira e dos 
Açores, foi produto de algumas experiências do Atlântico luso nos 
séculos XVI e XVII, quais sejam:
ƒ a descendência da clientela do duque de Viseu, que no século XV, 
em nome de seu amo e a serviço de sua majestade, ocupou o se-
nhorio marítimo Ilha da Madeira, Açores e Cabo Verde;
ƒ o conhecimento, através da experiência na Madeira, do funcio-
namento das plantations de açúcar baseadas no trabalho escravo e 
em partidos de cana distribuídos entre lavradores livres;
ƒ o uso de recursos provenientes de tais empresas no serviço ao rei 
nas campanhas no norte da África contra o Islã como forma de 
manter a grandeza de casas fi dalgas;8
ƒ a ideia de casa e, com ela, a de autogoverno — este entendido 
como espaço social no qual existia um chefe e, sob sua tutela, 
uma família extensa constituída por consanguíneos, parentes ri-
tuais, clientes, criados e agregados; e
ƒ a crescente difi culdade de formação de novas casas, em razão da 
escassez de terras, coroada com o sistema do morgadio.
Em outras palavras, João Pereira, a princípio, resultava de um 
ethos da fi dalguia, que percebia no serviço ao rei, à custa de sua pró-
pria fazenda, a forma de manter e acrescentar grandeza e honra às 
suas casas. Fenômeno que se traduzia, nos séculos considerados, na 
circulação desses fi dalgos pelo ultramar na defesa dos interesses da 
monarquia, fosse na luta contra o Islã ou na ocupação de áreas ame-
açadas.9 Em troca desses serviços, tais fi dalgos recebiam a gratidão 
8 Sousa, 2005, t. I; e Serrão e Marques, 2005:140-150.
9 Um bom exemplo disso são as folhas de serviço dos capitães de fortaleza ou da-
queles que adquiriam ordens militares. Nesse ethos existia uma hierarquia das áreas 
preferidas para a prestação do serviço. Ver Cunha e Monteiro (2005:191-252).
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163régia, além de mercês (comendas, terras, ofícios etc.), e a possibili-
dade de formarem uma casa. Por isso a chegada às amplas terras 
americanas dos avós postiços de João, assim como de outros con-
quistadores.
Nosso personagem tinha por orientação valorativa itens como 
uma hierarquia estamental e a formação de uma casa, que provavel-
mente contribuíram para o casamento de seus bisavós postiços. 
Francisco de Faria Lemos pertencia à fi dalguia; portanto, sua posi-
ção social era reconhecida em qualquer canto do império, pois fora 
concedida pela monarquia, sendo, desse modo, algo cobiçado, em 
meados do século XVII, por boa parte dos moradores do Rio de 
Janeiro. Entre eles, provavelmente, o sogro Gaspar Pereira Lemos, 
cuja autoridade, apesar de possuir um engenho de açúcar, tinha os 
limites do poder local: a república. Em contrapartida, para Lemos 
Faria, vindo do distante Maranhão, aquele casamento signifi cava o 
ingresso em uma nova república e em sua respectiva estratifi cação 
local, além da chance de criar sua própria casa, algoque talvez não 
mais fosse possível em Faial, com o seu sistema de morgadio.
No século XVII, como no seguinte, pode-se encontrar consór-
cios maritais em que fi dalgos da casa real ou portadores de hábitos 
militares casam-se com fi lhas de donos de engenho e, com isso, 
adquirem a possibilidade de construir suas próprias casas e galgar 
uma posição cimeira na hierarquia social. Talvez este tenha sido o 
caso do contrato entre o fi dalgo da casa real Egaz Muniz Telo, da 
Madeira, e os Pimenta Carvalho em 1667; dos Andrade Soutomaior 
com Castro Morais (o casamento com o fi lho do mestre de campo 
Gregório de Castro Morais) e com Francisco Camelo Pinto de Mi-
randa; de Gregório Nazianzeno da Fonseca com Bartolomeu da Si-
queira Cordovil, familiar do Santo Ofício e secretário da capitania; 
de José Barreto de Faria e Sebastião Martins Coutinho com os fi lhos 
de Egas Moniz da Silva, fi dalgo da casa real.10
10 Cf. minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada 
pelo CNPq. Ver também Rheingantz, 1965, v. 1, p. 92, 165 e 217.
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164 Parece que essa sociedade americana, baseada no trabalho escravo 
e em plantations, estimava tais consórcios e os valores por eles repre-
sentados — leia-se Antigo Regime. Valores que, portanto, ultrapas-
savam as fronteiras da baía da Guanabara.11
Desse modo, a hierarquia da qual saíra João Pereira Lemos, quando 
da fundação da cidade no Quinhentos, resultara dos serviços presta-
dos à coroa e à república, e suas orientações valorativas tinham um 
quê de aristocráticas. Contudo, a elite senhorial que se formara na 
América tinha as suas diferenças quanto às da Madeira e do reino. 
Nem todos os fi lhos de fi dalgos da casa real ou da nobreza principal 
da terra serviram ao rei em longínquas paragens, como fi zeram os da 
Madeira. Assim como, na América, não prevaleceu entre os melhores 
da terra o sistema de centralidade da autoridade familiar na forma do 
morgadio. Para tanto é exemplar o caso dos Correa Vasqueanes, cujos 
bens foram partilhados entre os herdeiros e, isso, sem pôr em perigo o 
poder da família ou sua unidade política. Na verdade, houve a multi-
plicação de casas. Nesse ponto, temos no sistema de transmissão uma 
das diferenças em relação às práticas aristocráticas do reino e das ilhas. 
Na América, o morgadio não era imprescindível para manter a gran-
deza das famílias e, com o conjunto delas, a da monarquia. Porém, 
prevalecia a ideia de casa. Na verdade, na América, as casas puderam 
proliferar sem porem em risco a monarquia ou a elite local.
Por seu turno, ao que parece, na América prevaleceu uma hierar-
quia cujas posições cimeiras foram ocupadas por famílias de antiga e 
conhecida nobreza, vindas da Conquista, e por fi lhos de fi dalgos da 
11 Um exemplo emblemático e talvez limite de tal ethos aristocrático é dado pela 
trajetória do capitão Francisco de Lemos Peixoto, natural do Rio de Janeiro, neto 
de Francisco Lemos de Azevedo, alcaide da cidade e senhor de engenho. Lemos 
Peixoto serviu em Massagano e Luanda, retornando depois ao Rio de Janeiro, onde 
recebeu em 1653 a ordem de Aviz. Ou ainda o caso de Salvador Correa Vasqueanes, 
fi dalgo da casa real, fi lho de Duarte Correa Vasqueanes (governador do Rio de Ja-
neiro na década de 1640 e dono de engenhos de açúcar). Salvador Correa lutou 
contra os holandeses em Recife e serviu no Castelo de São Jorge de Mina, sendo por 
essas atividades agraciado com uma tença por ano retirada do almoxarifado da ca-
pitania do Rio de Janeiro, vindo depois a se fi xar na Bahia. Arquivo do Instituto 
Histórico Geográfi co Brasileiro (IHGB), Inventário dos livros das portarias do 
Reino, v. 1, p. 122, e v. 2, p. 482 (ARM. 34-8), p. 122.
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165casa real recém-chegados à América. O hábito da Ordem de Cristo 
por si só ou o foro de fi dalgo da casa real não garantia o mando na 
sociedade. O que não invalida o que escrevi anteriormente de alguns 
potentados plebeus procurarem maior honra junto ao reino mediante 
casamentos e genros fi dalgos. Nos trópicos foi construída outra hie-
rarquia de mando.
Em outras palavras, vários dos conquistadores do Rio de Janeiro 
eram velhos soldados, fi dalgos e/ou cavaleiros das ordens milita-
res.12 Esses conquistadores fi zeram escolhas diferentes dos da Ma-
deira e do reino. Eles e/ou seus descendentes deixaram de circular 
no império para defender o rei e o cristianismo. Com essa opção, 
abriram mão desse aspecto do ethos aristocrático e passaram a com-
por uma elite local, com suas insígnias e normas. Mas alguns valores 
vindos do reino permaneceram, entre os quais:
ƒ o de casa, sendo esta gerida por um capo, cuja autoridade, por 
exemplo, se traduzia na possibilidade de dar liberdade a escravos 
e de conceder acesso à terra;
ƒ o de uma hierarquia estamental, na qual recursos eram subtraídos 
da sociedade e usufruídos por algumas poucas famílias. Por exem-
plo, a terra ser adquirida em sesmaria por conquistadores e fi lhos 
e, depois, seu acesso, em grande medida, ocorrer conforme as 
normas de tal grupo — através de pactos nupciais, do sistema de 
transmissão de patrimônio do grupo, e de relações pessoais de 
dependência, no caso dos lavradores e descendentes de escravos.
A ideia de hierarquia estamental estava presente nas regras que 
presidiam as relações pessoais na casa: escravos, forros, pardos e li-
vres. Assim como nas classifi cações sociais rotineiras, que não guar-
davam uma exata correspondência com as do reino, mas decorriam 
da conquista da região, tendo algumas de tais classifi cações, portan-
to, mais de 100 anos em 1700. Através do estudo das freguesias ru-
12 Entre eles, lembro Antonio de Mariz (Ordem de Cristo), Crispim da Cunha, João 
Gomes da Silva, Afonso Guimarães, Pedro Gago da Camara etc. Ver Borrego (2008).
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166 rais do Rio de Janeiro é possível recuperar aspectos de tal hierarquia 
nas categorias usadas pelos clérigos das freguesias para classifi car seus 
paroquianos. Eles recorriam, entre outros procedimentos, a patentes 
de ordenanças, a títulos de dona, a qualitativos jurídicos como forro, 
a qualitativos sociais como pardos ou ainda a expressões como “as-
sistente de casa”. Em seguida, procuro combinar tal classifi cação so-
cial com as informações disponíveis sobre a trajetória de vida e a 
genealogia do sujeito considerado. Assim, grosso modo, nos séculos 
XVII e XVIII, a população recenseada pelos curas era distribuída 
em quatro categorias recorrentes:
ƒ “ofi ciais de milícia”13 para uns poucos homens e “dona” para algu-
mas mulheres. As patentes dos auxiliares não designam, no cotidia-
no municipal, postos milicianos em sentido restrito. Pelo menos na 
América, tais postos foram apropriados pela república para sua or-
ganização política, ou melhor, como maneira de viabilizar a estra-
tifi cação social local conforme as negociações com a coroa e entre 
os locais.14 Até princípios do século XVIII, em geral tais categorias 
foram empregadas para designar os descendentes dos conquistado-
res da região e responsáveis pela montagem das instituições do An-
tigo Regime na região (municipais e régias). Em função ainda da 
conquista, detinham o controle sobre as terras (via sesmarias)e 
formavam grandes parentelas com diversas facções sedimentadas 
com o tempo.15 A razão de alguns ostentarem títulos e outros não 
é mais bem explicada pela história da família do portador do título. 
A ostentação da patente de ofi cial ordenança ou dos auxiliares evo-
13 Para a caracterização das patentes de ordenanças na organização municipal portu-
guesa e da monarquia, ver Costa (1816), na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
14 A partir de fi nais do século XVII, os postos de ofi ciais de ordenança tinham de 
ser confi rmados pelos governadores. Nesse processo, a câmara indicava ou podia 
negociar os nomes para desempenhar esse papel. Cf. minha pesquisa em curso — 
“Fidalgos parentes de pretos” —, fi nanciada pelo CNPq.
15 Em diversos outros trabalhos procurei caracterizar esse grupo, que denominei 
nobreza principal da terra (Fragoso, 2007). Gostaria somente de lembrar que essas 
famílias absorviam estrangeiros conforme seus interesses. Desnecessário dizer que 
as patentes das ordenanças e auxiliares serviam para identifi car alguns dos homens 
das famílias da nobreza da terra.
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167cava a legitimidade social conferida pela freguesia e, ao mesmo 
tempo, a universalidade da monarquia. Nunca é demais lembrar 
que a concessão de tal patente dependia da confi rmação do rei. Isso 
signifi cava que seu portador tinha uma autoridade e um prestígio 
que ultrapassam os limites de sua república e era assim reconhecido 
como tal em outras repúblicas ou municípios. O título de “dona” 
para as mulheres, apesar de corresponder a uma posição de mando 
em tal estratifi cação e, portanto, ser compatível com o de ofi cial das 
ordenanças, diferencia-se deste por um simples motivo: sua conces-
são não era uma prerrogativa da monarquia, do governador ou dos 
conselhos palacianos situados em Lisboa, mas dos párocos locais, 
sendo concedido como uma deferência às freguesas, aos seus olhos 
e aos dos demais paroquianos, de melhor qualidade. Assim, as mo-
ças portadoras de tal honra eram de fato as melhores da terra. Tal-
vez esse seja um dos melhores vocábulos locais para se identifi car as 
famílias mandatárias da freguesia;
ƒ “pardos, forros e libertos” — não consegui ainda precisar as dife-
renças existentes entre tais categorias. Porém, elas designavam 
um passado de escravidão, valendo tal classifi cação para ambos os 
sexos. Mais adiante falarei mais sobre o grupo;
ƒ “assistentes de casa” — pessoas de ambos os sexos que residiam 
sob o teto de um outro personagem, em geral um ofi cial da orde-
nança ou uma dona. Muitos dos assistentes eram pardos. Por essa 
categoria nota-se a ideia de casa para designar pertencimento e 
proteção;
ƒ “população sem cor” ou aqui apresentados genericamente como 
“livres”, muitos dos quais portugueses ou seus fi lhos. Consiste na 
maior parte da população registrada nos livros paroquiais de li-
vres. Tais sujeitos aparecem sem qualifi cativo, ou seja, somente o 
nome e apelido. Acompanhando a trajetória de certos pardos e/ou 
forros pude verifi car que alguns, a certa altura, apareciam sem 
cor.16 Cabe ver se essa perda da cor correspondia a uma mudança 
16 Para o século XIX, ver Mattos (1993).
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168 no quadro de alianças (casamentos e compadrio) do sujeito con-
siderado. Os sem cor também incluíam ex-forros e ex-pardos.
Assim, essa classifi cação social sublinhada pelo clérigo até meados 
do século XVIII não tinha por base a riqueza material, como o nú-
mero de escravos. Ainda não dei tratamento mais elaborado a essa 
classifi cação; falta, por exemplo, perceber as mudanças no quadro de 
alianças e de inserção social, o signifi cado da passagem dos pardos 
para os sem cor. Também ainda não me detive em um outro grupo: 
os expostos. De qualquer forma, pode-se agregar tais categorias em 
três grupos: nobreza da terra (ofi ciais e donas), livres (os sem cor) e 
pardos (forros, pardos, libertos etc).
Alguns traços da dinâmica das freguesias rurais 
do Rio de Janeiro no século XVIII
A freguesia de Jacarepaguá, próxima da de Irajá, onde João Pereira 
Lemos nasceu, dispõe de mais documentos preservados e pode nos 
auxiliar na apresentação do Antigo Regime nos trópicos.
Segundo os livros das paróquias de Jacarepaguá da década de 1700 
foram batizadas 558 crianças, 395 escravas e 163 ditas livres, sendo 
oito pardas. Sabe-se de imediato que se está diante de uma sociedade 
estamental, onde prevalece numericamente o estrato dos escravos. 
Entretanto, caso se queira fugir de esquemas explicativos fáceis, o 
entendimento dessa sociedade estamental não se esgota com o termo 
“escravidão”, compreendido como palavra mágica, sinônimo de uma 
disciplina social capaz de manter vastos continentes humanos por su-
cessivas gerações como estrangeiros; leia-se pessoas sem nexos sociais 
(culturais, parentais ou de outro tipo de aliança) e, portanto, descere-
bradas. Caso a intenção seja encarar os cativos como agentes sociais é 
necessário lembrar que Jacarepaguá consistia, a princípio, numa ver-
dadeira torre de babel. Suas lavouras eram trabalhadas por pessoas 
vindas de sociedades africanas de diferentes complexidades — de rei-
nos a aldeias baseadas em linhagens matrilineares — e distintas lín-
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169guas. Na década de 1700-1709 havia na freguesia de Jacarepaguá 290 
mães escravas, casadas ou não, e destas, pelo menos 155, ou 81,6%, 
vinham de distintas sociedades africanas.17
Como veremos mais adiante, tais pessoas incorporaram a ideia de 
escravidão e de hierarquia social como normas suas. Nesse processo, 
com certeza, alguns dos traços de suas regiões de origem devem ter 
ajudado. Basta lembrar que, no golfo da Guiné ou no Congo-Ango-
la, eram comuns guerras para a produção de cativos e estas, por sua 
vez, fundavam Estados e estratifi cações sociais.18 Porém, além disso, 
para a incorporação pelos ditos africanos das normas hierárquicas do 
Antigo Regime era necessário que eles se sentissem agentes sociais, 
isto é, portadores de recursos (com certeza, diferentes e em menor 
quantidade que os dos proprietários, porém recursos), e com estes 
jogassem com seus donos.
Parece-me que um dos segredos para se entender tal jogo é per-
ceber que ele se inseria nos próprios preceitos da concepção corpo-
rativa tomista do Antigo Regime. Em outras palavras, em tal con-
cepção existia a ideia de estamento, e também a de casas. E estas 
funcionavam conforme relações de dependência e pessoais. Os se-
nhores tinham a capacidade de conceder ou a alforria ou o acesso à 
terra. A possibilidade da alforria resultava do autogoverno da casa, e 
o guardião desse paradigma era a própria monarquia. Na casa, o 
senhor podia também dar a um ex-escravo o uso de terras.
Por sua vez, a possibilidade de o gentio da Guiné, ou seu fi lho, 
adquirir tais promoções implicava seguir certas regras, muitas das 
quais, como veremos, apresentadas nas alianças do compadrio cató-
lico. Nesse momento, começamos a entrar nos códigos que compu-
nham o que chamo de autoridade moral dos conquistadores e sua 
capacidade de brokers entre outros agentes sociais, como os curas 
locais, de imprimir normas sociais compartilhadas pelas populações 
provenientes de outras partes do impérioportuguês.
17 Registros paroquiais de batismos de escravos de Jacarepaguá, 1700-1709, da 
Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.
18 Ver Thornton (2004) Lovejoy (2002); e Silva (2002).
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170 A possibilidade de Jacarepaguá ter virado uma torre de babel, em 
vez de uma sociedade, é ainda confi rmada quando nos lembramos 
de que ela era também povoada por açorianos, minhotos e outros 
reinóis. Estes partilhavam da mesma língua, da mesma monarquia 
corporativa e católica, mas vinham de aldeias distantes, com práticas 
de organização familiar e de transmissão de patrimônio distantes. 
Além disso, eram estrangeiros nesse lado do Atlântico. Assim, apesar 
de as freguesias de Jacarepaguá e de Irajá fi carem nos confi ns do Rio 
de Janeiro, elas continham alguns dos agentes do Atlântico luso: 
açorianos, reinóis, madeirenses, africanos de diferentes procedên-
cias. O que, mais uma vez, sublinha o caráter complexo da socieda-
de considerada e destaca o papel dos descendentes dos conquistado-
res como elite local, ou ainda como fi adores ou brokers de uma 
sociedade cujas bases foram lançadas no século XVI.
A natureza hierárquica da freguesia fi ca mais nítida quando, além 
das diferenças de qualidade produzidas pela distribuição da proprie-
dade escrava, percebe-se aquelas existentes entre os 142 donos de 
cativos. Dos 115 proprietários homens, somente nove eram ofi ciais 
de tropas auxiliares, todos pertencendo a famílias com mais de 100 
anos na terra. Portanto, a monarquia escolhia para mandatários na 
terra os de antiga e conhecida nobreza. Pode-se usar ainda um outro 
critério, não mais o da propriedade cativa ou da monarquia, mas a 
percepção daquelas gentes, ou seja, que famílias os fregueses reco-
nheciam como de melhor qualidade. Neste último caso, podemos 
nos valer do depoimento do pároco local (entendo que ele escrevia 
numa linguagem aceita por todos). A quem ele concedia o título de 
dona? Um título reservado a poucas mulheres, das mais seletas famí-
lias da freguesia. Nesse particular, tal título nada tinha a ver com as 
leis do reino, como era o caso das ordenanças, mas com as práticas 
costumeiras, sendo portanto mais útil para os nossos propósitos do 
que as patentes das ordenanças.
Através das donas pode-se identifi car as famílias que ocupavam as 
posições cimeiras na estratifi cação social surgida na localidade e refe-
rendada pela ideia de casa e autogoverno dos conselhos. Das 27 pro-
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171prietárias de escravos da década de 1700, somente seis tinham tal 
respeitabilidade social. Todas, mais uma vez, descendentes de famílias 
que comandaram a conquista e a formação da sociedade local no 
Quinhentos. Esse era o caso da senhora dona Ignes, que quase sempre 
aparece sem apelido no registro paroquial. Porém, essa Ignes era dife-
rente das demais homônimas das redondezas. Ela pertencia aos Pon-
tes, uma família vinda das ilhas do Atlântico no século XVI e cujos 
homens serviram sempre nos cargos honrosos da república e, alguns, 
nos ofícios régios. Algo semelhante acontecia com outra dona, dona 
Brites, senhora de escravos em Irajá entre 1704 e 1707, numa época 
anterior ao nascimento de João Pereira Lemos. Na ocasião, para o 
pároco João Barcelos Machado e demais fregueses, o qualitativo dona 
bastava para identifi car a referida Brites. Isso talvez por ela pertencer 
aos Azeredo Coutinho, expedicionários comandados por Estácio de 
Sá nas lutas contra os franceses cerca de 140 anos atrás. Dona Brites 
pertencia a uma velha família com “autoridade moral”19 de longa 
data. Aliás, o próprio cura tinha descendência semelhante. Provavel-
mente, o clérigo passava a seu rebanho não só a moral católica, mas 
também a do seu segmento, o dos conquistadores.
Por essa época Jacarepaguá devia contar com cerca de quatro ou 
cinco engenhos de açúcar oriundos das velhas sesmarias concedidas 
aos conquistadores da terra, como os Sampaio, ou de vendas feitas 
pela família Correia de Sá e Benevides a seus aliados,20 todas no sé-
culo XVI. Aliás, os Sampaio, através de um sistema de transmissão de 
patrimônio que será mais adiante examinado, mantinham em sua 
casa as terras do Rio Grande e uma fábrica de açúcar, fato que lembra 
a estabilidade de outro engenho — o São João Batista de Sapopema.
19 A expressão designa a capacidade de certas famílias de infl uenciarem na organi-
zação social da população. Por exemplo, impelindo as velhas famílias ao casamento 
e ao compadrio católico, mediante a doação de dotes em testamento, a construção 
e manutenção de capelas nas fazendas. Essas práticas estavam presentes nas famílias 
conquistadoras da região. Além destas, foi também introduzido o costume da alfor-
ria, da formação da clientela via compadrio e a adoção do apelido da casa pelos não 
consanguíneos.
20 Cf. Rudge (1983); e sobre o funcionamento do mercado, ver Fragoso (2009).
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172 Mas voltando aos dados agregados de Jacarepaguá na década de 
1700. Dos 395 registros de escravos feitos na década, 163 (41%) foram 
de crias cativas de plantéis de conquistadores, sendo o campeão, com 
46 crias, o capitão Ignácio da Silveira Vilasboas. Assim, nessa época, 
as famílias vindas do Quinhentos ainda dominavam a paisagem rural, 
e algumas, a propriedade escrava. Porém, diversos conquistadores não 
mais sobressaíam como grandes escravistas. A já mencionada dona 
Ignes registrou apenas seis crias, e o capitão-mor Luis Vieira Medanha 
Soutomaior, de tradicional família da capitania, cinco cativos. Na 
mesma ocasião, comerciantes como Sebastião da Fonseca Coutinho 
apareciam com 12 batismos. Assim, parece ser um equívoco associar 
a patente de milícia ou a costumeira dona à propriedade escrava.
Passando à população livre, temos 163 registros de crianças, equiva-
lentes a 82 casais e/ou mães solteiras, e sete expostos. Daqueles 163 
batizados, 25 o foram por 12 famílias descendentes de conquistadores. 
Em 10 famílias, pai e mãe possuíam a mesma origem quinhentista e, 
em duas, desconheço a procedência paterna, mas a materna era qui-
nhentista. Portanto, nessa década, como em outras passadas, prevalecia 
a estratégia de endogamia nas escolhas matrimoniais entre as famílias 
de antiga nobreza. Com isso, o grupo garantia o compartilhamento de 
uma mesma identidade marcada pela conquista, pelo domínio dos car-
gos honrosos da república, pelo controle da terra e pela direção políti-
ca dos paroquianos. Essa sociedade ciosa de suas diferenças era também 
uma conquista e, portanto, estava aberta à imigração reinol. E preva-
leciam nos registros de batismos, entre aqueles 163, os lavradores sem 
cor, que somavam 58 famílias com 120 crianças. Quanto às famílias 
designadas como pardas, eram oito (conjugais ou solitárias), registran-
do um mesmo número de rebentos. Três mães solteiras batizaram 
também três fi lhos. Sete crianças foram expostas.
Em termos de relações de compadrio, temos 108 padrinhos: 35 
conquistadores (32,4%) e 73 sem cor (67,6%). Desse modo, como era 
de se esperar, havia um predomínio esmagador dos livres como pais 
espirituais. Em primeiro lugar, temos um predomínio demográfi co 
dos sem cor sobre os conquistadores na freguesia; em segundo, nessa 
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173sociedade católica, prevalecia a prática de os pais convidarem os pró-
prios familiares (irmãos e avós) para batizarem suas crianças.
Porém, o gráfi co a seguir mostra que essa prática era acompanha-
da por outra. Vê-se que os padrinhos conquistadores, apesar de mi-
noritários, protegiam, em termos relativos, um maior número de 
famílias que os padrinhos sem cor. Eram 35 padrinhos quinhentistas 
e 38 famílias (1,1) e 73 padrinhos sem cor e 65 famílias (0,9). Em 
diversas situações os conquistadores eram parentes rituais em mais 
de uma família. Só o jovem capitão João Aires Aguirre foi convida-
do como padrinho por oito famílias diferentes, das quais sete de la-
vradores sem origens quinhentistas. O raio de ação dos conquista-
dores seria maior se considerássemos a ação de seus clientes como 
padrinhos de crianças livres. Por exemplo, os lavradores ligados à 
casa de um primo do capitão Aguirre, o também capitão Ignácio da 
Silveira Vilasboas, mantinham laços de compadrio com outras qua-
tro famílias livres.21 Enfi m, através dos batizados, temos indícios da 
formação de clientelas comandadas por quinhentistas e, portanto, 
do seu poder moral sobre a região.
No de famílias batizadas por padrinhos livres e conquistadores, em Jacarepaguá, 
entre 1700-1709 e 1750-1759
Como afi rmei, na época do nascimento do capitão João Pereira 
Lemos, o Rio de Janeiro estava se convertendo na maior praça do 
Atlântico Sul, e em suas freguesias rurais os conquistadores já não 
eram mais os maiores donos de escravarias. Porém, tais modifi cações 
tinham os seus limites.
21 Cf. Fragoso, 2009.
1750-9
1700-9
# famílias batizadas por padrinhos livres
# famílias batizadas por conquistadores
0,6
0,9
1,1
1,9
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174 Entre a primeira década do século XVIII e a de 1750, o número de 
batismos por livres, em Jacarepaguá, passou de 163 para 352 registros 
(ou 187 casais e/ou mães solteiras e 18 expostos). Esse fenômeno re-
trata principalmente a grande imigração de ilhéus e reinóis no Rio de 
Janeiro da época. Já o de escravos decresce de 395 para 375 na fregue-
sia. Porém, no geral, entre a população de Jacarepaguá, o número de 
batismos aumentou de 558 para 727, ou seja, 30%. É de supor que por 
essa época o fantasma da torre de babel ainda rondasse a freguesia.
A tabela 2 nos dá uma ideia de tal imigração em Irajá, insinuando 
mais uma vez a capacidade de organização dos conquistadores diante 
dessas diferentes multidões. Pode-se identifi car a procedência de 74 
avôs paternos, dos quais uma metade era constituída de brasileiros e 
a outra de ilhéus e reinóis, num universo de avôs paternos de 89. Para 
avós paternas tivemos 83 mulheres, 48 (58,5%) nativas e as demais 
provenientes do reino e das ilhas, sendo o total geral de 90. Assim, 
considerando apenas a procedência dos avós paternos, tais números 
mostram que cerca da metade da população sem cor era recém-insta-
lada na freguesia, fenômeno que nos informa sobre a diversidade po-
pulacional na qual as práticas costumeiras (tipos de compadrio, alfor-
rias, casa, acesso a terra, hierarquia social simbolizada pelas donas 
etc.), criadas pelos conquistadores e primeiras gerações de escravos e 
pardos na região, tiveram que se defrontar e que organizar.
TA BE L A 2
Naturalidade dos avôs e avós paternos em Irajá (1750-1759)
Ilhéus Reinóis Subtotal Brasileiros Totais
Avôs paternos 6 31 37 (50%) 37 74
Avós paternas 6 29 35 (43%) 48 83
Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá, 1750-1759, da Cúria 
Metropolitana do Rio de Janeiro.
Conforme a classifi cação social utilizada para 1700, e tendo como cri-
tério a condição do esposo, as 142 famílias conjugais livres de 1750 assim 
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175se distribuíam: 20 casais de conquistadores, ou 14%, com 54 crianças; 97 
casais sem cor, ou 67%, e 166 batismos; 25 casais pardos, ou 17,6%, com 
46 rebentos. As famílias solitárias reuniam 41 mães e 45 fi lhos.
TA BE L A 3
Homens e mulheres e suas opções de união marital, segundo a condição social 
Jacarepaguá, 1750-1759
 Personagens e opções Casais Registros
Homem conquistador x mulher conquistadora 16 44
Homem conquistador x mulher livre 2 2
Homem conquistador x mulher exposta 1 5
Homem livre x mulher conquistadora 1 3
Total de conquistadores 20 54
Homem livre x mulher livre 83 143
Homem livre x mulher exposta 4 8
Homem livre x mulher parda 10 15
Total de sem cor ou livre 97 166
Homem pardo x mulher parda 19 36
Homem pardo x mulher livre 6 10
Total de pardos 25 46
Homem exposto x mulher exposta 2 2
Homem exposto x mulher parda 1 1
Homem exposto x mulher livre 1 2
Total de expostos 4 5
Mães solitárias pardas 29 34
Mães solitárias expostas 1 1
Mães solteiras sem cor 11 12
Expostos - 18
Mães solteiras e expostos 41 65
Total geral 187 336
Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá, 1750-1759, da Cúria 
Metropolitana do Rio de Janeiro.
Nota: Tipo de casal classifi cado conforme o tipo de pai.
Neste cenário, o grupo por mim classifi cado como “nobreza prin-
cipal da terra” permaneceu o mais resistente a mudanças. Dos 20 ca-
sais considerados, apenas quatro mulheres não tinham a mesma ori-
gem do marido e somente uma mulher de descendência quinhentista 
casou-se com um sem cor, e mesmo assim este foi designado de dou-
tor. Esta última situação reafi rma uma velha prática seiscentista do 
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176 grupo, qual seja: ser refratário a estrangeiros, mas capturar os porta-
dores de foro de fi dalgos, alguns grandes negociantes e letrados.
Entre 1700 e 1759, o grupo dos sem cor apresentou o maior cres-
cimento absoluto. No último período, ele constava com 97 casais e 
166 batizados. Mais de dois terços da população era formada por essas 
pessoas, às quais o cura não atribuiu qualquer qualidade particular. A 
tabela 3 demonstra que o grupo abrigava diversas possibilidades de 
alianças étnicas e sociais, na falta de melhores expressões. Dos 97 
casais, em 10 (mais de 10% do total) a esposa era parda ou forra e em 
quatro, exposta. Assim, apesar de 83 dos casais sem cor, ou mais de 
85%, aparecerem com a mesma procedência, segundo os costumes 
locais expressados por nosso padre, o grupo permitia a incorporação 
de pessoas egressas da escravidão.
Além do crescimento populacional de Jacarepaguá na primeira 
metade do século XVIII, a estratifi cação social da região e da capita-
nia tornou-se mais complexa, ou pelo menos foi assim registrada pelo 
pároco. Na tabela 3, nota-se que as famílias em que um dos pais era 
pardo, por exemplo, passaram de oito (10% das 82 famílias do início 
do século) para 55 famílias conjugais ou solitárias, ou 29% do total 
(187) da década de 1750. Explicando melhor: temos 19 casos em que 
ambos os esposos eram pardos, 10 em que as mães pardas se juntam 
com pais sem cor, um exposto, uma parda e 29 mães solitárias. Entre 
outras coisas, isso indicava a maior sedimentação de um agregado fa-
miliar procedente da escravidão, ou um processo de ascensão social 
em meio a uma estrutura estamental. Nesse momento,cabe lembrar 
que o dito pardo não decorria de uma intervenção da monarquia, pois 
fora produzido por relações pessoais no interior, principalmente dos 
engenhos de açúcar. Além disso, o fato de pelo menos 10% dos 97 
casais encabeçados por homens sem cor escolherem moças pardas in-
sinua a não racialização de tal estrato.
Ainda na tabela 3 verifi ca-se que, apesar do número de mães, os 
pardos e pardas preferiam a união marital. Mas existiam outras for-
mas de organização familiar em que a mãe solitária (um quinto das 
mães) tinha abrigo. Provavelmente, ela estava sob a tutela de uma 
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177casa ou de outro arranjo familiar: difi cilmente uma mãe solteira 
sobreviveria sozinha com uma criança.
Vale ainda realçar a plasticidade da hierarquia estamental consi-
derada através do aumento dos pardos. A população total somava 
187 famílias conjugais e ou solitárias, das quais pelo menos 28% ti-
nham um integrante pardo ou forro. Esse número nos informa que 
estamos diante de uma sociedade escravista em que a alforria não 
pode ser classifi cada apenas como fenômeno marginal.
Passemos ao parentesco fi ctício, outro tipo de aliança com o esta-
tuto formador de família e que transforma a autoridade moral em 
um critério de classifi cação social.
A presença de padrinhos livres aumenta, indicando o alastramento 
de novas formas de acumulação e entrada de personagens em velhas 
práticas sociais, no caso o compadrio como formador de clientelas. 
Na década de 1700, os sem cor representavam 63,8% dos padrinhos; 
décadas depois, esse número subiu para 202, ou 86% dos 234 pais 
espirituais (ver tabela 4). Em um universo de 217 casais e/ou mães 
solteiras, os conquistadores apenas surgem como padrinhos em 56, ou 
26%. Os cinco padrinhos pardos batizaram apenas rebentos de seis 
famílias; ou seja, eles próprios não se escolhiam como padrinhos. Na 
mesma tabela 4, das 75 famílias de pardos, 56 escolheram compadres 
sem cor, 15 conquistadores e apenas quatro optaram por pardos.
TA BE L A 4
Padrinhos e afi lhados em Jacarepaguá entre 1750 e 1759
 Padrinhos
Famílias afi lhadas (conjugais e solitárias)
Conquistadores Sem cor Pardos Totais
Conquistadores 27 (11,5%) 15 (23 reg.) 26 15 56 (26%)
Sem cor 202 (86%) 14 (19 reg.) 66 56 136 (63%)
Pardos/Forros 5 0 2 4 6 (3%)
Escravos 0 0 0 0 0
Totais 234 29 94 75 217
Obs.: Uma mesma família podia ser batizada por padrinhos de diferentes grupos.
Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá, 1750-1759, da 
Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.
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178 Os sem cor praticamente aparecem como padrinhos em todos os 
lares, mesmo nos dos conquistadores. Dos 217 casais e/ou mães sol-
teiras que levaram suas crianças à pia batismal, 136 pais, ou dois 
terços, preferiram os sem cor. Algo bem diferente do que ocorria em 
1700, quando todas as crianças de casais conquistadores foram bati-
zadas dentro do próprio grupo. É importante aqui qualifi car os pa-
drinhos desses potentados locais. Em 1751, Francisco de Almeida 
Jordão, cavaleiro da Ordem de Cristo e integrante de uma das mais 
poderosas famílias de grosso trato do Rio de Janeiro da primeira 
metade do século XVIII, foi a Jacarepaguá para batizar Joaquim, 
neto do juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes. Sete anos depois, 
em 1758, Francisco voltou à freguesia para batizar o fi lho do então 
coronel das ordenanças e futuro mestre de campo dos auxiliares 
João Barbosa de Sá Freire. Essas cerimônias demonstram as ligações 
e mesmo a dependência dos potentados quinhentistas ao capital 
mercantil. Por exemplo, desde fi nais do século XVII, os Barbosa de 
Sá tinham ligações creditícias com os Almeida Jordão. Em meados 
do Setecentos, tais ligações tornaram-se mais pessoais, no caso pa-
rentais, seguindo assim as normas do catolicismo em vigor. Talvez 
seguindo também os costumes desse Antigo Regime nos trópicos, o 
mesmo Francisco, cavaleiro da ordem de Cristo, batizou ainda em 
Jacarepaguá, em 1753, outro menino de nome Manuel. A diferença 
entre esse afi lhado e os já mencionados era o fato de Manuel ser fi -
lho de Bernarda parda, escrava do juiz de órfãos; a madrinha fora 
Antonia Luzia de Menezes, fi lha do mesmo juiz.
Enfi m, o crescimento populacional verifi cado em 1750-1759 
ocorreu em uma sociedade em transformação, porém ainda segundo 
regras hierárquicas e costumeiras e, portanto, preexistentes. Na dé-
cada de 1750, existiam em Jacarepaguá seis engenhos e pelo menos 
134 proprietários escravistas, que possuíam 276 famílias escravas e 
mais expostos. O campeão nos registros de crias escravas e provavel-
mente o maior proprietário de cativos da região era o estrangeiro 
José Rodrigues Aragão, com 37 crias. Ele era o proprietário do En-
genho da Serra, adquirido por meio de uma arrematação em 1751 
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179do tenente José Francisco Souza Leite, integrante, salvo engano, das 
antigas famílias Coelho Cam e Teles de Menezes. O segundo colo-
cado era o já referido juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes, com 
26 crias. Na ocasião, os conquistadores (num total de 25) registra-
ram 124 crias, ou um terço do total. Portanto, em meados do século 
XVIII, o grupo perdeu o controle da propriedade cativa, mas não o 
da terra e do sistema de normas local.
Na freguesia de Irajá ocorreu algo semelhante quanto à proprie-
dade cativa. Os negociantes e estrangeiros na terra, Antonio da Rosa 
e Bráz de Pina, eram, respectivamente, o primeiro e o terceiro 
maiores proprietários de cativos, conforme os registros de batismo; 
o segundo era João Pereira Lemos. Aqueles dois senhores, nos anos 
de 1740, fi zeram 99, ou 15%, dos 668 registros de escravos da déca-
da. Desses 99, 88 eram adultos — homens e mulheres recém-adqui-
ridos do tráfi co atlântico. Esses números informam provavelmente a 
instalação de fazendas desses negociantes na freguesia, ou, o que é o 
mesmo, a transformação de parte da acumulação mercantil atlântica 
em terras e escravos; no caso, adentrando nas áreas dominadas até 
então pela velha nobreza da terra. Assim, o mundo estava mudando. 
Mas resta saber o que esses personagens vindos da mercancia preten-
diam de tal sociedade agroexportadora criada pelos conquistadores, 
escravos e pardos.
Segundo as mesmas fontes, em Jacarepaguá, contrariando o mo-
vimento da propriedade sobre pessoas, a velha hierarquia social 
abençoada pela tradição continuava de pé. Em outras palavras, por 
essa época, a não correspondência entre a propriedade e as insígnias 
de donas e os postos de ordenança continuava clara. Dos 95 proprie-
tários homens, quatro ostentavam patentes de auxiliares superiores 
ou equivalentes a capitão. Três pertenciam a tradicionais famílias 
quinhentistas e o outro desconheço a origem. Desse modo, a pri-
mazia do mando na freguesia permanecia fi rmemente nas mãos das 
velhas parentelas da terra, apesar de a propriedade cativa ter escapa-
do. Bom exemplo disso é o coronel João Barbosa Sá Freire. Apesar 
de ter a patente mais alta da freguesia, só registrou quatro cativos, 
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180 enquanto seu subalterno, o capitão Manuel Pimenta de Sampaio, 
registrou oito crias. 
A permanência da velha estratifi cação social costumeira é ainda 
percebida na ostentação da insígnia de dona. Esta continuava reser-
vada às senhoras e moças das famílias quinhentistas. Trinta e quatro 
mulheres aparecem como proprietárias de escravos, das quais so-
mente 16 o pároco reconhece como dona. Destas, 10 estavam ligadas 
às mais honrosas famílias da terra (não tenho notícias precisas sobre 
as outras seis).
Passando para Irajá, onde a instalação de reinóis negociantes era 
fl agrante, temos resultados semelhantes aos de Jacarepaguá. Apesar 
disso, a tabela 5 confi rma a proeminência das famílias conquistado-
ras na freguesia, através da distribuição do título de dona entre as 
madrinhas nos batismos livres. Na década de 1750, o pároco atri-
buiu tal reverência a 55 senhoras, das quais 33, ou 60%, vinham de 
famílias do século XVI; desconheço a origem das demais. Em 1740, 
apesar desse predomínio, moças de famílias mais recentes estavam 
obtendo aquela honraria, como sugere a tabela 5. Na década de 
1730, elas representavam 29, ou 70%, de 41 madrinhas. O fato de 
novas famílias adquirirem o título de dona e o crescimento dos par-
dos são fenômenos que informam transformações na sociedade esta-
mental da época.
Entretanto, a força dessa hierarquia costumeira e sua não sincro-
nia com as demais, seja como derivada da propriedade cativa, seja da 
autoridade da coroa, são demonstradas na freguesia de João Pereira 
Lemos em 1745. Nesse ano, o açoriano Antonio da Rosa já era me-
recedor, aos olhos do rei, da patente de capitão das ordenanças, po-
rém essa opinião não coincidia com a do cura local, Francisco de 
Araújo Macedo, que acredito ser de uma família quinhentista. Nas 
duas vezes em que o dito padre batizou os netos do capitão Antonio, 
sua esposa não foi reconhecida nos assentos como dona.
Os caminhos tortuosos da promoção social nessa sociedade são 
percebidos quando confrontamos casos de mulheres da família de 
João Pereira Lemos. Seu sogro jamais teve a dignidade do ofi cial das 
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181ordenanças e sua sogra nunca a de dona. Porém, o casamento da 
fi lha destes, Ana Maria de Jesus, com o dito João Pereira — um 
exposto de uma família tradicional — lhe valeu a entrada no rol das 
donas. Assim, se o governador podia promover um reinol à condi-
ção de capitão, sua autoridade não bastava para criar donas. Esta úl-
tima distinção estava nas mãos da sociedade local. Na década de 
1740, entre as mães de Irajá existiam 12 donas, e uma apenas era 
portuguesa.
TA BE L A 5
No de madrinhas conquistadoras no universo das madrinhas qualifi cadas como donas 
Irajá, décadas de 1730, 1740 e 1750
 Décadas
Madrinhas de famílias 
quinhentistas conquistadoras
Madrinhas de famílias 
desconhecidas ou recentes
Total de madrinhas com 
a insígnia de dona
1730 29 (70%) 12 41
1740 32 (53%) 28 60
1750 33 (60%) 22 55
Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá, 1730-1750, da Cúria 
Metropolitana do Rio de Janeiro.
Voltando à Jacarepaguá de 1750, seus seis engenhos de açúcar 
estavam em mãos dos já conhecidos coronel João Barbosa Sá Freire, 
capitão Manuel Pimenta de Sampaio, juiz de órfãos (com duas fábri-
cas), o visconde Asseca (Correia de Sá e Benevides, residente no 
reino), e o estrangeiro José Rodrigues Aragão. Desse modo, os fi -
lhos dos conquistadores ainda mantinham o controle sobre as terras 
e a população da região. Em outras palavras, por essa época, a vida 
dos fregueses ocorria conforme a lógica do que chamei de autorida-
de moral dos conquistadores. As paróquias consideradas eram divi-
didas em engenhos de açúcar, sendo administradas como casas con-
forme o princípio do autogoverno. Desse modo, em tais freguesias 
prevaleciam relações pessoais de dependência, hierarquicamente 
construídas dentro de casas. Porém, isso ainda não é tudo.
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182 Maria Sampaio — parda, senhora de escravos e assistente 
no Rio Grande — e José Batista, cabra de João Pereira Lemos: 
casa, costumes e hierarquia nas senzalas
Para entendermos um pouco melhor a realidade da estratifi cação 
social construída pelas relações de dependência nos engenhos não 
podemos tirar do horizonte a possibilidade de escravos, pardos e 
demais lavradores atuarem como agentes. Isso fi ca patente quando 
lembramos que a posse de terras, e principalmente de engenhos, não 
signifi cava necessariamente poder de mando na freguesia. José Ro-
drigues Aragão tinha a maior escravaria de Jacarepaguá e uma fábri-
ca de açúcar, mas não tinha, na década de 1750, o domínio moral e 
político sobre a população, caso consideremos a patente de ordenan-
ça como um dos índices disso. Como ainda veremos, na mesma 
década ele procurou deixar de ser visto como estrangeiro por meio 
de negociações com os moradores, inclusive pardos e escravos, da 
região, mediante a formação de clientelas. Provavelmente, essa polí-
tica deve ter contribuído para o agraciamento do título de capitão 
pelo rei a Manuel, fi lho de José Aragão. Por conseguinte, entendo o 
apadrinhamento como prática de autoridade moral. Ou melhor, 
nele vejo uma negociação em âmbito hierárquico. O número de 
afi lhados de uma casa informava sua posição na estratifi cação social. 
Talvez um critério mais refi nado de classifi cação social seja o fato de 
tais senhores darem vida, ou melhor, possibilitarem a formação de 
arranjos familiares, através do acesso à terra e à liberdade. Os que 
tinham tal poder ocupavam as posições cimeiras da sociedade.
Mas voltemos a um ponto que acima fi cou perdido. Viver nas 
freguesias açucareiras do Rio de Janeiro da época implicava residir 
em um de seus engenhos e, consequentemente, aceitar as normas 
que presidiam o autogoverno das casas. Para tanto, basta lembrar 
alguns números. Na tabela 6 verifi ca-se que entre os 134 proprietá-
rios de escravos da freguesia, 37 pelo menos, ou 27,6%, moravam 
nos seis engenhos já mencionados. Tais números seriam bem maiores 
caso as informações dos registros paroquiais fossem mais completas. 
Mesmo assim, esses proprietários tinham 122 famílias escravas com 
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183crias batizadas no período estudado, ou 44,2% do total dos casais e 
mães solteiras presentes nos livros de batismos de escravos da época.
TA BE L A 6
Engenhos de açúcar e seus moradores proprietários de escravos em Jacarepaguá, 1750-1759
 Engenhos de açúcar Proprietário
Proprietários de 
escravos
Famílias escravas*
Taquara Antonio Teles Barreto 5 40
Fora João Barbosa Sá Freire 4 9
Rio Grande Manuel Pimenta de Sampaio 20 37
Serra Antonio Teles Barreto 2 25
Água Visconde Asseca 6 11
Subtotal 37 (27,6%) 122 (44,2%)
Total 134 276
* Famílias conjugais ou solitárias.
Fontes: Rudge (1983); e Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepa-
guá, 1750-1759, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.
Entre esses senhores temos não só parentes consanguíneos do dono 
de engenho, lavradores da terra e reinóis, mas também pardos como 
Maria Sampaio, moradora no Rio Grande com seus escravos, fi lhos, 
genros e netos.Aliás, uma cria escrava de Manuel Pimenta Sampaio 
era afi lhada do fi lho e da neta de Maria. Outro senhor de escravos 
pardo e residente com sua família nas mesmas terras era Boaventura 
Sampaio. João, seu fi lho, era afi lhado de Antonia Neves Sampaio, 
fi lha do pardo José Rodrigues Homem, mas sem escravos, como vá-
rios outros pardos assistentes no Rio Grande. Esses fragmentos de his-
tórias têm em comum alguns traços: as três famílias saíram da escra-
vidão, tinham o apelido de Sampaio e residiam no mesmo engenho. 
Em outras palavras, receberam alforria e depois terras. Nessa trajetó-
ria, incorporaram o apelido da casa Sampaio. Eles batizaram fi lhos de 
escravos de seus antigos amos, servindo assim como instrumentos na 
cadeia de autoridade cuja referência era o capo. Entretanto, esses par-
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184 dos também mantinham alianças entre si, via compadrio, reforçando 
sua capacidade de negociação com o mesmo capo.
Provavelmente, Maria e Boaventura, entre outros ex-escravos, 
conseguiram alforria como resultado de uma série de estratégias ou 
de relações pessoais, horizontais e verticais, nas quais reconheciam a 
autoridade dos Sampaio — cravado em seu nome. Mas, ao mesmo 
tempo, conferiam legitimidade social aos Sampaio, transformando-
os em capitães de ordenança e em donas. Enfi m, estamos em meio a 
uma série de jogos ou interações, nos quais os agentes possuíam re-
cursos desiguais e diferentes, mas eram sujeitos com suas devidas 
estratégias. E a vida seguia nas freguesias.
A possibilidade desses jogos e histórias de escravos e pardos se 
desenrolarem por várias gerações no Rio Grande, como terra dos 
Sampaio, pressupõe um sistema de transmissão de patrimônio, uma 
ideia de família, opções relativas ao mercado e outras estratégias da 
nobreza principal. De imediato pode-se dizer que tal prática impli-
cava um sistema de transmissão de patrimônio que, apesar de preser-
var a casa no tempo, diferia do morgadio.22 Em gerações sucessivas 
dos Pimenta de Almeida e dos Sampaio parece haver sido escolhido 
um herdeiro preferencial.23 Em contrapartida, ele abrigava nas ditas 
terras os demais herdeiros e parentes, adotando uma atitude distante 
do morgadio. Daí que nos registros da década de 1750, pelo menos 
13 dos 20 proprietários de escravos residentes do Rio Grande eram 
tios, primos ou irmãos de Manuel. Nesse caso, portanto, optou-se 
por um padrão de transmissão de patrimônio que protegesse a famí-
lia das inseguranças de uma sociedade rural pré-industrial, sujeita às 
oscilações do comércio internacional (escravos e açúcar) e às intem-
péries da natureza. Fenômeno que, por sua vez, estava ligado aos 
pactos nupciais, nos quais as famílias dos nubentes pré-acordavam a 
não fragmentação das terras. O capitão Manuel Pimenta Sampaio 
casou-se duas vezes (1742 e 1756), em ambas as ocasiões com moças 
22 Tratei desses assuntos em outros textos. Ver Fragoso (2009).
23 Ver Pedroza (2008).
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185de tradicionais famílias quinhentistas de nobreza reconhecida na lo-
calidade: os Machado Homem e os Muniz Telo (fi dalgo da casa real). 
Com essas núpcias, em termos legais, as terras do Rio Grande passa-
vam a pertencer ao casal, ou seja, também à esposa do capitão, po-
rém, na prática, continuaram em mãos da família do marido; e isso 
deve ter sido discutido nos pactos pré-nupciais.
Algo semelhante ocorreu com o engenho de São João Batista de 
Sapopema. Pelo menos desde fi ns do século XVII ele estava em 
mãos da família Pereira Lemos. Como vimos, primeiro com o padre 
Luis, depois com João Pereira Lemos, e após sua morte com a espo-
sa Ana Maria de Jesus até seu falecimento em 1795, passando então 
ao primogênito do casal — homônimo do pai —, como resultado de 
um pedido em testamento de Ana Maria. Assim, a exemplo do Rio 
Grande, por mais de três gerações as terras da fábrica continuaram 
indivisas nas mãos de um único senhor, apesar de o acesso ser facul-
tado a outros parentes. No Engenho das Capoeiras, outro do capitão 
João Pereira Lemos, quando da morte de Ana Maria de Jesus, em 
1795, foram listados 20 lavradores de cana livres presentes, dos quais 
dois pertenciam aos fi lhos e um ao irmão daquela senhora. O fato de 
esse engenho e o de Sapopema terem fi cado por todo o século XVIII 
com a mesma família ajudou, entre outros pardos e escravos, João 
Batista, forro, e Perpétua, sua mulher escrava, a montarem estraté-
gias que culminaram na alforria da segunda e na transformação de 
João em um pequeno senhor de cativos.
Algo parecido deve ter ocorrido na vida de Boaventura Sampaio, 
ex-escravo, forro e depois dono de escravos. A estabilidade ao longo 
do tempo como prática costumeira provavelmente diminuiu as mar-
gens de insegurança de Boaventura, em um mundo marcado pela 
compra e venda de escravos e de terras. Com certeza essa permanên-
cia da casa não reduziu as desigualdades sociais, nem o terror da es-
cravidão, mas talvez tenha facilitado a Boaventura e a outros escravos 
— em meio a uma hierarquia social ciosa de suas diferenças — a 
criação de estratégias para formar uma família, estabelecer alianças 
dentro e fora das senzalas, assim como outros expedientes para me-
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186 lhorar suas condições de negociação com os senhores; enfi m, melho-
rar de vida. Parece, pois, que esse sistema de transmissão de patrimô-
nio era vital na vida de diferentes grupos sociais da freguesia.
A avó paterna de Ana Maria de Jesus era parente do padre Luis 
Pereira e sua família residia no Engenho do Sapopema. Pelo menos 
Ana, com 15 anos, e o irmão batizaram escravos do dito domínio. 
Além dessas ligações, temos o fato de João Pereira Lemos ser viúvo 
de uma tia de Ana. Em outras palavras, o casamento de João e Ana 
não resultara do acaso, mas de uma longa convivência e de pactos. 
Ou melhor, de valores que orientavam as opções de João Pereira.
Como vimos, João era exposto. Porém, isso não o impediu de 
receber do rei a patente de ofi cial das ordenanças, e o casamento 
com a prima postiça rendeu a ela o título de dona, concedido pela 
comunidade, uma prerrogativa que sua mãe não tivera. Portanto, 
João tinha prestígio aos olhos daquela sociedade. Em razão disso, 
podia ter se casado com uma esposa proveniente da nobreza da terra 
e, com isso, ampliar seu cabedal. Mas preferiu se casar com uma 
parente postiça, provavelmente mais pobre. Uma escolha que deu 
maior alento a sua família postiça e permitiu a promoção social da 
parte materna do velho padre, assegurando-lhes o acesso formal ao 
senhorio das terras de Sapopema.24 Esse ato, portanto, informa so-
bre as orientações valorativas de João e sobre sua ideia de casa.
Desse modo, o tipo de transmissão de patrimônio no qual este é 
indiviso pressupõe uma ideia de família. Algo que merece um estu-
do mais cuidadoso. Uma das interpretações possíveis é a prioridade 
atribuída à manutenção da qualidade social dos integrantes da famí-
lia, garantida pelo compartilhamento costumeiro do senhorio das 
terras e das relações de clientela nela estabelecidas.25 Condição que 
seria posta em risco caso a partilha fosse igualitária ou através do 
morgadio. Na primeira situação, a família podia perder sua

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