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Mecanismo de evasão a apoptose - No câncer, ocorrem mutações nos genes que regulam a apoptose, pois, neste cenário, a apoptose é uma barreira que deve ser sobreposta. - Vias da apoptose: extrínseca (por meio do receptor FAS) e intrínseca (por meio do dano ao DNA). 1- Extrínseca: Fas se liga ao FasL, levando à trimerização do receptor e de seus domínios de morte citoplasmáticos, que atraem a proteína adaptadora intracelular FADD. Essa proteína recruta a pró-caspase 8 para formar o complexo de sinalização indutor de morte. A pró-caspase 8 é ativada pela clivagem em subunidades menores, gerando a caspase 8. A caspase 8 então ativa as caspases efetoras, como a caspase 3, que cliva o DNA para causar a morte celular. Além disso, a caspase 8 cliva/ativa a BID, ativando também a via intrínseca. 2- Intrínseca: retirada de fatores de sobrevivência, estresse e injúria levam a permeabilização da membrana mitocondrial externa, resultando em liberação do citocromo c, que se liga ao APAF1, ativando a caspase 9, que cliva/ativa as caspases efetoras. A integridade da membrana mitocondrial externa é regulada por membros pró e anti- apoptóticos da família BCL2 de proteínas. As proteínas pró-apoptóticas BAX e BAK promovem diretamente a permeabilização da membrana. Sua ação é inibida pelas proteínas anti-apoptóticas BCL2 e BCL-XL. - As caspases podem ser inibidas por Inibidores de Proteínas da Apoptose (IAP). Alguns tumores evitam a apoptose por meio do aumento da regulação dessas proteínas. Anti-apoptóticos Pró-apoptóticos BCL-2 BCL-XL IAP BH123 (BAX, BAK) BH3 Anti-IAP - As células tumorais conseguem evadir o mecanismo da apoptose através da mutação, amplificação e alteração na expressão desses genes. - As mutações que levam a evasão da apoptose são: → Redução da expressão de Fas. → Aumento de FLIP (proteína que se liga ao complexo de sinalização indutor de morte e evitar a ativação da caspase 8). → Superexpressão da proteína BCL2/BCL-XL. → Deleção de p53 (p53 é um importante gene pró- apoptótico que induz a apoptose em células que não são capazes de reparar o dano ao DNA). A p53 promove transcrição de BAX (proteína pró- apoptotica). → Perda de função de BAX e BAK. 1- Qual processo está relacionado a proteína FAS? Qual a implicação da redução da sua expressão para o tumor? - A proteína Fas liga no ligante de Fas (FasL) que é expresso pelas células T CD8 e isso faz com que seja ativada a via extrínseca da apoptose. Se a célula tumoral reduz a expressão dessa proteína, ela sobrevive e escapa dos mecanismos de apoptose. Portanto, este é um dos mecanismos de evasão da apoptose. - Quando pensamos em uma célula tumoral, pensamos em uma célula que prolifera muito e não morre por conseguir escapar dos mecanismos de morte. Então, um desses mecanismos é a redução da expressão de Fas e, com isso, o bloqueio da apoptose pela via extrínseca. Iniciadoras: Caspases 2, 8, 9, 10. Executoras: Caspases 3, 6, 7. Via extrínseca: Pró-caspases 8, 10. Via intrínseca: Caspases 2, 9. 2- Qual a função da proteína BCL2? Qual relação entre a amplificação e o desenvolvimento tumoral? - A família do BCL2 tem proteínas que são pró e que são anti-apoptóticas. - As pró-apoptóticas são BAX e BAK e as anti- apoptóticas são as proteínas BCL2 e BCL-XL. - Como a proteína BCL2 é anti-apoptótica e está amplificada, o desenvolvimento tumoral está aumentado, e isso, consequentemente, inibe BAX e BAK, favorecendo o lado anti-apoptótico. - Esse é outro mecanismo de evasão do mecanismo de apoptose importante para as células tumorais. 3- Como as células tumorais são reconhecidas pelo sistema imune? - Célula tumoral: é uma célula própria que sofreu alterações genéticas e, perdeu o controle do ciclo, evadiu o sistema imune e tem todas as características Hallmarks. - Em tese, não se reconheceria essas células, por serem células do próprio organismo. No entanto, esse reconhecimento ocorre em consequência a formação de antígenos tumorais, gerando um infiltrado inflamatório nos tumores e, consequentemente, a resposta imune. Esses antígenos tumorais podem ser: - Produtos de genes mutados: a mutação gera proteínas alteradas que representam antígenos que nunca foram vistos pelo sistema imunológico e, assim, podem ser reconhecidos como sendo não próprios. P. ex. BCR-ABL (presente em alguns tipos de leucemias, gerada quando temos fusão de 2 genes que codificam essa proteína). Reconhecidos pelos LTCD8 e LTCD4 (fagocitose - MHCII). - Antígenos de vírus oncogênicos: quando temos um vírus levando ao desenvolvimento da célula tumoral (p. ex. HPV), nosso organismo consegue identificar, nas células tumorais, proteínas virais que facilitam o reconhecimento e a morte dessa célula (antígenos E6 e E7 no HPV). - Proteína anormalmente expressa: antígenos que são produzidos em níveis baixos nas células normais e estão superexpressados nas células tumorais. P. ex. a tirosinase, enzima envolvida na biossíntese de melanina, que é expressa somente nos melanócitos normais e em grande quantidade nos melanomas. Pode ser surpreendente que esses pacientes sejam capazes de responder a um antígeno próprio normal. A explicação provável é que a tirosinase normalmente é produzida em quantidades tão pequenas e em tão poucas células que não é reconhecida pelo sistema imunológico e não é capaz de induzir tolerância. - Antígenos oncofetais: são proteínas expressas em altos níveis nas células cancerosas e nos tecidos normais em desenvolvimento (fetais), mas não nos tecidos adultos. Alguns tumores, por alterações genéticas e epigenéticas, voltam a expressar esses genes e, não temos tolerância contra essas proteínas oncofetais, então nosso sistema imune reage contra elas, que são potentes antígenos tumorais também. P. ex. antígeno carcinoembrionico (CEA) e a α- fetoproteína (AFP). Eles provêm marcadores que auxiliam no diagnóstico do tumor. - Antígenos de diferenciação tecido-específicos: o antígeno do “câncer de testículo”, é codificado por genes que são silenciosos em todos os tecidos adultos, exceto nos testículos. Apesar de a proteína estar presente nos testículos, ela não é expressa na superfície celular sob sua forma antigênica, e sim associadas ao testículo. Alguns melanomas expressam essas proteínas que são expressas no testículo e, isso desencadeia uma resposta imune. Além disso, esses antígenos de diferenciação órgão-específica, apesar de serem pouco imunogênicos por estarem presentes nos nossos tecidos, são importantes para o diagnóstico e identificação da origem primária do tumor. - Existem duas classes de antígenos tumorais. Os ANTÍGENOS TUMOR-ESPECÍFICOS (TSAS), que estão presentes somente nas células tumorais e não em qualquer uma das células normais, e ANTÍGENOS ASSOCIADOS AO TUMOR (TAAS), que estão presentes nas células tumorais (de forma aberrante ou desregulada) e também em algumas células normais. - Através desses antígenos as células T conseguem reconhecer o tumor e responder contra ele. Os linfócitos T citotóxicos (CTL) são o principal mecanismo imunológico de defesa contra os tumores. Eles reconhecem os peptídeos citoplasmáticos que são apresentados ligados às moléculas do complexo de histocompatibilidade principal classe I (MHC). 4- Quais as células do sistema imune estão mais relacionadas a proteção contra tumores? - Foi demonstrado que respostas imunes adaptativas, mediadas principalmente por células T, controlam o desenvolvimento e a progressão de tumores malignos. 1- Linfócitos T: o principal mecanismo de proteção imune adaptativa contra tumores está na eliminação das células tumorais por CTL CD8+. Os CTLs podem desempenhar uma função de vigilância por reconhecer e destruir células potencialmente malignas que expressam peptídiosderivados de antígenos tumorais que são apresentados associados a moléculas do MHC de classe I. *CTLs específicos de tumor podem ser isolados de animais e seres humanos com tumores estabelecidos. - As respostas de células T CD8+ específicas para antígenos tumorais podem exigir apresentação cruzada dos antígenos tumorais pelas células dendríticas (APCs). As células tumorais ou seus antígenos são ingeridos pelas APCs dos hopedeiros e, os antígenos tumorais são processados em seu interior. Os peptídios derivados desses antígenos são, em seguida, exibidos ligados a proteínas do MHC I para o reconhecimento pelas células T CD8+. As APCs expressam coestimuladores que fornecem os sinais necessários para a diferenciação de células T CD8+ em CTLs antitumorais. Este processo de apresentação cruzada, ou cross-priming. - Uma vez sendo gerados os CTL efetores, eles são capazes de reconhecer e destruir as células tumorais sem a necessidade de haver uma coestimulação. - A importância das células T CD4+ auxiliares na imunidade tumoral está menos esclarecida. Elas podem desempenhar um papel nas respostas imunes antitumorais, proporcionando citocinas para a diferenciação de células T CD8+ naive e de memória em CTL efetores. Além disso, as células TCD4+ auxiliares específicas para antígenos tumorais são capazes de secretar citocinas, como TNF e IFN-γ, que podem aumentar expressão do MHC de classe I pelas células tumorais e a sensibilidade à lise por CTLs. O IFN-γ também pode ativar macrófagos para eliminar células tumorais. *A importância do IFN-γ na imunidade antitumoral é demonstrada pelo achado de que há aumento da incidência de tumores em camundongos knockout desprovidos dessa citocina, o receptor de IFN-γ ou dos componentes da cascata de sinalização do receptor de IFN- γ. 2- Anticorpos: hospedeiros portadores de tumores podem produzir anticorpos contra vários antígenos tumorais. Os anticorpos podem destruir as células tumorais através da ativação do complemento ou por citotoxicidade dependente de anticorpos, na qual macrófagos portadores do receptor Fc ou células NK medeiam a eliminação. *No entanto, a capacidade dos anticorpos de eliminar as células tumorais tem sido amplamente demonstrada in vitro, e há poucas evidências de respostas imunes humorais efetivas contra tumores. 3- Células Natural Killer (NK): as células NK eliminam muitos tipos de células tumorais, especialmente células que apresentam expressão diminuída do MHC de classe I (pois o reconhecimento das moléculas do MHC I proporciona sinais inibidores para as células NK) e expressam ligantes (MIC-A, MIC-B e ULB) para receptores (receptor NKG2D) de ativação da célula NK. Além disso, as células NK podem ser direcionadas para as células tumorais revestidas por anticorpo IgG pelos receptores Fc. 4- Macrófagos: são capazes tanto de inibir como de promover o crescimento e a propagação de cânceres, dependendo do seu estado de ativação. Classicamente, os macrófagos M1 ativados, podem destruir muitas células tumorais por mecanismos que eles também usam para matar organismos infecciosos. Entre estes está a produção de óxido nítrico (NO), enzimas lisossômicas, espécies reativas de oxigênio e citocinas (TNF-α). *Existem evidências de que alguns macrófagos em tumores contribuem para a progressão tumoral e apresentam um fenótipo M2. Estas células secretam fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), fator transformador do crescimento β (TGF-β), e outros fatores solúveis que promovem a angiogênese tumoral. ✓ Por que os mecanismos de defesa falham no controle tumoral? - Células tumorais derivam das nossas células normais, por isso geralmente são fracamente imunogênicas. - O crescimento e a disseminação rápida do tumor podem superar a capacidade do sistema imune. - Tumores possuem mecanismos especializados para evadir as respostas imunológicas do hospedeiro. 5- Qual a função da proteína PD-L1? De que forma sua expressão em células tumorais está relacionada a imunoevasão? - Os tumores podem envolver mecanismos inibitórios que suprimem as respostas imunes. A resposta das células T para alguns tumores é inibida pelo envolvimento de CTLA-4 ou PD-1, duas das vias inibitórias mais bem definidas nas células T. - No caso clínico, o tumor do paciente tinha células que expressam PD-L1. O PD-L1 é o ligante do PD1, que inibe a função das células T. Portanto, o tumor do paciente expressa grande quantidade de uma molécula que se liga no PD1 e inibe a célula T, resultando na evasão do ataque da célula imune. - CTLA-4: outro receptor inibidor que está mais envolvido na inibição da ativação de uma célula T virgem em uma célula T efetora. Ele inibe competindo com CD28 na ligação com B7, ou seja, na molécula coestimuladora da ativação da célula T. O B7 se liga no CTLA4 e não no CD28, então a célula não recebe coestimulação e fica anérgica, não virando uma célula citotóxica, por exemplo. Menos células T efetoras permitem o desenvolvimento do tumor. 6- Quais outras formas do tumor evadir a resposta imune? 1- Redução da expressão de antígenos que provocam respostas imunes (por mutações que levam uma instabilidade genética). 2- Mascaramento antigênico – os antígenos ficam escondidos, por exemplo, por uma camada de glicocalice (inacessíveis ao sistema imunológico). 3- Perda da expressão de moléculas de MHC I – assim, as células tumorais deixam de ser reconhecidas pelas TCD8. No entanto, este é um fator positivo para reconhecimento pelas células NK. 4- Ausência de moléculas co-estimuladoras – estas moléculas são o segundo sinal para ativação celular, e, em sua falta, não são induzidas respostas imunológicas fortes. 5- Expressão de ligantes inibidores da resposta como PD-L1 e CTLA-4 nas células tumorais. 6- Produção de mediadores imunossupressores pelas células tumorais, como IL-10 e TGF-β, que induzem populações celulares que suprimem a resposta antitumoral como células T reguladoras e macrófagos M2. 7- Apoptose de células T citotóxicas – alguns melanomas e carcinomas hepatocelulares expressam o FasL. A produção de FasL pelas células tumorais (que se liga ao Fas da célula T) acabam, então, induzindo a morte das células T citotóxicas. *Para matar a célula tumoral, o FasL da célula T se liga no Fas da célula tumoral. No entanto, o que também acontece, é que a célula T também expressa o receptor Fas e alguns tipos de tumores aumentam sua expressão do FasL. Logo, quando a célula T chega, o FasL do tumor se liga no Fas da célula T, induzindo sua apoptose. 8- As células T regulatórias podem suprimir a resposta antitumoral das células T (quanto menor o número de células T regulatórias, maior a imunidade antitumoral e a redução do crescimento do tumor). 9- Macrófagos associados a tumores podem promover o crescimento tumoral e invasão por alterar o microambiente do tecido e pela supressão de respostas das células T. M2 secretam mediadores, como IL-10 e prostaglandina E2, que prejudicam as funções ativadoras e efetoras das células T. Além disso, também secretam fatores que promovem a angiogênese, como TGF-β e VEGF, que podem favorecer o crescimento do tumor. 10- Células supressoras mieloide-derivadas (MDSCs) são um conjunto de precursores mieloides imaturos recrutados a partir da medula óssea e que se acumulam nos tecidos linfoides, sangue ou tumores e suprimem as respostas das células T e inatas antitumorais. *Com base no conhecimento de escape do sistema imune é que foram se pensando em estratégias de imunoterapia, como o uso do anti-PDL1, vacina de células dendríticas (as DC são ativadas fora do organismo e colocadas no organismo já com moléculas co-estimuladoras). 7- Explique como a infecção por H. pylori está associada ao câncer gástrico? - O H.pylori produz uma citotoxina, que provoca uma lesão e uma inflamação crônica (dano tecidual) → Ambiente propício → Mecanismos de reparo promovem um aumento dos fatores de crescimento, angiogênese, aumento de macrófagos M2. Isso favorece o aparecimento de mutações (citotoxinas, EROs, NO causam lesão no DNA) aliado a um ambiente da inflamação crônica, o que favorece o desenvolvimento tumoral. - A inflamação crônica tem sido reconhecida como um fator de risco para o desenvolvimento de tumores, como por esôfago de Barrett, a doença de Crohn e a colite ulcerativa. Além disso, organismos infecciosos também podem a levar a estado inflamatórios crônicos que levam ao desenvolvimento de CA, como o CA gástrico causado por Helicobacter pylori e CA de fígado associado a hepatite B e C crônica. - As células do sistema imune inato, como macrófagos M2, secretam VEGF e metaloproteínas, levando a angiogênese e remodelamento da matriz, promovendo o desenvolvimento do tumor. Células imunes inatas também podem contribuir para a transformação maligna celular através da geração de radicais livres que causam danos no DNA e desencadeiam mutações em genes supressores de tumor e oncogenes. 8- O infiltrado inflamatório presente no caso (infiltrado mononuclear, rico em macrófagos M2) é favorável ou prejudicial ao tumor? Explique. - Favorável. O infiltrado inflamatório mononuclear é composto por monócitos, linfócitos, macrófagos. Os macrófagos M2 são benéficos para o tumor porque ele produz TGF-β e IL-10, que são citocinas anti- inflamatórias que vão inibir a resposta das células T CD8, favorecer as células T reguladoras, favorecer células supressoras mieloides e estimular angiogênese. - Os macrófagos M2 em tumores contribuem para a progressão tumoral pois secretam fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), fator transformador do crescimento β (TGF-β), e outros fatores solúveis que promovem a angiogênese tumoral. São macrófagos ativados alternativamente induzidos por IL-4 e IL-13, produzidas pelas células TH2. Imunoedição tumoral - É um processo dinâmico composto por 3 fases principais: ELIMINAÇÃO, EQUILÍBRIO e ESCAPE. - Eliminação: sistema imune impede o desenvolvimento tumoral (vigilância imunológica). (Antígenos tumorais → receptor NKG2D → linfócitos TCD8+; células NK). - Equilíbrio: sistema imune não elimina mais todas as células tumorais. Há apenas o controle do desenvolvimento tumoral. (Exposição a carcinógenos → apoptose, reparo, senescência). - Escape dos mecanismos imunológicos: as células tumorais evadem os mecanismos da resposta imune, ocorrendo crescimento tumoral e sinais clínicos. (FasL, PDL-1, IL-10, TGF-β, VEGF).