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MATERIAL DIDÁTICO FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA CREDENCIADA JUNTO AO MEC PELA PORTARIA Nº 1.282 DO DIA 26/10/2010 0800 283 8380 www.ucamprominas.com.br Impressão e Editoração 2 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 UNIDADE 2 – TEORIAS DA PERSONALIDADE ....................................................... 6 2.1 Teorias Psicodinâmicas ..................................................................................... 8 2.2 Teorias Comportamentalistas .......................................................................... 13 2.3 Teorias Humanistas ......................................................................................... 16 2.4 Teorias Culturalistas ........................................................................................ 20 2.5 Bases biológicas da personalidade ................................................................. 22 UNIDADE 3 – QUEIXA EM SAÚDE E ESCUTA CLÍNICA ....................................... 24 3.1 Relações interpessoais e o papel do psicólogo ............................................... 25 3.2 Psicoterapia ..................................................................................................... 27 3.3 Psicologia hospitalar ........................................................................................ 28 3.4 Psicoterapia breve ........................................................................................... 29 UNIDADE 4 – ABORDAGENS TEÓRICO/CLÍNICAS QUE FUNDAMENTAM O TRABALHO DO PSICÓLOGO HOSPITALAR E DA SAÚDE .................................. 30 4.1 Behaviorismo / Terapia comportamental / Terapia Cognitivo-comportamental 31 4.2 Gestalt ............................................................................................................. 32 4.3 Neuropsicologia ............................................................................................... 33 4.4 Psicanálise ....................................................................................................... 34 4.5 Psicodrama ...................................................................................................... 35 4.6 Psicologia Analítica .......................................................................................... 36 4.7 Teoria Sistêmica .............................................................................................. 36 4.8 Psicoterapia de grupo ...................................................................................... 37 4.9 Reflexão final sobre as linhas de abordagem psicológica ............................... 38 UNIDADE 5 – PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E SUA RELAÇÃO COM A SAÚDE E O ADOECIMENTO ................................................................................... 41 5.1 O processo de desenvolvimento humano ........................................................ 41 5.2 Desenvolvimento humano, saúde e adoecimento ........................................... 48 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 66 3 INTRODUÇÃO Enquanto orientadores, sempre recomendamos a pesquisa de materiais recentes, porém, ao se utilizar obras clássicas (como no caso deste material, em que grande parte do conteúdo foi embasado em obras de teóricos que abordam sobre diferentes autores) isso não se faz possível – ainda mais em caso de livros que já possuem edições mais recentes, porém lançamos mão de cópias mais antigas. Fora isso é sempre importante mantermos o conhecimento científico atualizado! Bons estudos! Iniciaremos aqui os nossos estudos sobre a psicologia hospitalar e da saúde. Antes de mencionarmos qualquer conteúdo teórico acerca da temática, propomos apresentar a figura a seguir, a qual não possui nenhuma legenda para que a comunicação verbal não interfira no objetivo da reflexão proposta. Figura 1: Sem título Fonte: M de mapa (2012). Contenha a sua curiosidade e não leia o conteúdo a seguir. Observe atentamente a ilustração anterior e reflita: 4 Qual a relação da mesma com o trabalho do psicólogo hospitalar? Sua interpretação pode ser diferente da nossa, visto que em muitas situações não há uma conclusão única, porém reflexões, possibilidades e pontos de vista. Descrevendo a imagem (claro que há vários outros detalhes que compõem a mesma), algumas coisas nos chamam a atenção: Do lado direito há uma série de pessoas, todas bem vestidas e, do lado esquerdo, o grupo de pessoas representa o povo, os pacientes. Analisando o que cada um dos grupos carrega em seus cartazes, do lado direito há uma placa frequentemente encontrada em hospitais, o símbolo de silêncio, o qual sinaliza que o hospital é um local de recuperação, onde os pacientes ali internos precisam repousar em tranquilidade e conversas podem atrapalhar sua convalescência. Do outro lado, o povo (nossos pacientes / clientes) traz uma reivindicação: de falar, de queixar-se, de serem ouvidos em suas angústias. Parece contrastante, pois de um lado, há a demanda do paciente de se expressar, porém, de outro, a realidade hospitalar apregoa que este é um local de silêncio. Além do silêncio, observamos também que todos ao lado direito parecem uniformizados, fazendo uma alusão aos trajes que a equipe de saúde utiliza nos hospitais: jalecos brancos, que tornam todos parecidos entre si, porém que diferenciam claramente os profissionais daqueles que vêm fazer seu pedido de ajuda. Porém, como pedir ajuda se não se pode falar? A demanda não parte da fala? Será que o processo de tratamento e cura implica apenas em administrar procedimentos e medicamentos em pessoas literalmente pacientes, apáticas, que não podem expressar suas dores e angústias? O tratamento no hospital visa apenas ao corpo? Mas o homem é um ser biopsicossocial e espiritual. Pode haver intervenções para o corpo sem a fala, mas como se atingir o psicológico, o social e o espiritual? O psicólogo hospitalar pode trazer alívio a esse grupo de manifestantes que reivindicam pelo seu direito de falar, pois, além de falarem, esse profissional irá ouvi- los atentamente, buscando compreender suas queixas, seus sintomas, proporcionando-lhes conforto em suas angústias, além de serem profissionais 5 capacitados para tentar melhorar a dinâmica da comunicação que existe na instituição de saúde. Esse profissional poderia ser a lâmpada que se acende na escuridão e traz amparo, conforto, além de apontar que os dois grupos não devem ser antagônicos, porém devem falar a mesma língua, de forma a exercer o cuidado integral do paciente. E essa reflexão torna-se a maior parte da nossa introdução. Se buscamos um curso de pós-graduação em psicologia hospitalar e da saúde é porque desejamos dar ao paciente o direito de se expressar, queremos ouvir suas queixas, sem romper o silêncio que realmente é benéfico à recuperação dos pacientes enquanto fonte de tranquilidade. Não podemos confundir o silêncio da tranquilidade com o direito do paciente de se expressar. Nesta apostila não falaremos tão diretamente sobre a psicologia hospitalar e da saúde. Antes disso, faz-se necessário compreender a personalidade do paciente, ou seja, as características que garantem ao ser humano o status de único e individual. Diversas teorias propõem estudar a personalidade, porém selecionamos algumas delas para ilustrar este primeiro momento. Também está no escopo deste material falar brevemente sobre a psicologia hospitalar, a psicoterapia e a abordagem psicoterápica mais desenvolvida na instituição hospitalar: a psicoterapia breve. Abordaremos a importância das relações interpessoais que se estabelecem entre equipe de saúde, paciente e família, áreade interesse da psicologia. Em seguida, apresentaremos algumas linhas teóricas que fundamentam a escuta clínica do psicólogo hospitalar e da saúde, as quais foram apontadas por Lazzaretti et al. (2007). Para finalizar, uma ampla parte desse material será destinada ao estudo do desenvolvimento humano a partir da perspectiva de Papalia, Olds e Feldman (2006), pretendendo-se contextualizar a experiência de saúde e adoecimento em diferentes etapas do ciclo vital. Este material foi embasado nas ideias de Papalia, Olds e Feldman (2006), Lazzaretti et al. (2007), Gazzaninga e Heatherton (2005), Hall e Lindzey (1984), Fadiman; Frager (1986), Cordioli (2008), dentre outros autores de livros e artigos científicos que serão enumerados no decorrer da apostila. 6 UNIDADE 2 – TEORIAS DA PERSONALIDADE Compreender o conceito de personalidade (ou aprofundar o seu estudo) se faz necessário para o psicólogo que deseja atuar em diferentes áreas, inclusive a hospitalar. Antes de realizarmos um estudo mais minucioso sobre a psicologia hospitalar e da saúde, além dos processos saúde - doença, envolvidos na dinâmica psicológica daquele que adoece (ou busca estratégias preventivas), faz-se necessário compreender que o adoecimento acarreta em algumas modificações no estado biopsicossocial do paciente. Antes de entender quais são essas mudanças e por que as mesmas ocorrem, faz-se necessário conhecer o paciente e sua estrutura psicológica. Partimos do pressuposto de que a personalidade garante a singularidade psicológica do indivíduo (assim como comparamos que sua composição genética carrega componentes que o caracterizam como indivíduo único). Procuraremos abordar nessa seção algumas teorias da personalidade, considerando a diversidade de aspectos, segundo os teóricos seguidores da mesma, que influenciam na estrutura da personalidade humana. Existem diversas teorias de personalidade, porém, para fins didáticos, selecionamos apenas algumas. Assim, serão apresentadas teorias de base psicodinâmica, humanista, culturalista, behaviorista e biológica. Algumas delas servem como base nas linhas de abordagem em clínica pelas quais o psicólogo hospitalar e da saúde pode embasar o seu trabalho (tema que será abordado a seguir). Sabemos que cada teoria da personalidade carrega consigo características de extrema importância, mas como o intuito desse material é relacionar as teorias com a práxis do psicólogo hospitalar e da saúde, procuraremos abordar apenas as mais relacionadas ao assunto. Segundo a abordagem psicodinâmica, os motivos e conflitos inconscientes que são experienciados durante toda a vida, mas especialmente na infância, moldam a personalidade. Os humanistas acreditam que cada pessoa é única e capaz de realizar um grande potencial. Os teóricos do traço descrevem o comportamento das pessoas com base em disposições de traços. Os teóricos cognitivo-sociais focalizam como as interpretações e crenças cognitivas afetam a percepção das pessoas de seu ambiente social. Essas variadas abordagens não se opõem, necessariamente, umas às outras. Elas compartilham o objetivo comum de tentar compreender de que maneira as pessoas são semelhantes e diferentes entre si (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.479). 7 Existem várias teorias, as quais divergem e convergem em vários aspectos, e podem ser definidas como tentativas desses diferentes teóricos para formular ou representar aspectos significativos do comportamento humano. Falamos sobre personalidade desde em rodas de conversa informais até nos meios acadêmicos, mas o que é personalidade? Gazzaninga e Heatherton (2005) definem que: A personalidade se refere às características, respostas emocionais, pensamentos e comportamentos do indivíduo que são relativamente estáveis ao longo do tempo e em diferentes circunstâncias. Os psicólogos da personalidade estudam os processos básicos que influenciam o desenvolvimento da personalidade em diversos tipos de análise, tal como a influência da cultura, aprendizagem, biologia e fatores cognitivos. Ao mesmo tempo, os que estudam a personalidade estão mais interessados em compreender pessoas na sua totalidade. Isto é, eles tentam entender o que torna cada pessoa única. (p.471) Já Hall e Lindzey (1984), importantes teóricos sobre o assunto, afirmam que é impossível definir personalidade de forma geral, sem, para isso, lançar mão dos conceitos de determinada teoria. Os autores enumeram alguns aspectos que se relacionam ao conceito, como habilidades sociais (caracterizam-se o indivíduo a partir de traços de personalidade, sejam eles positivos, ou negativos, como, por exemplo, uma “personalidade agressiva”); mediadora ao ajustamento do indivíduo; essência do homem (aquilo que é mais característico do indivíduo). Gazzaninga e Heatherton (2005) acrescentam que, dentre as diferentes teorias da personalidade existentes, atribuem-se como fatores determinantes da personalidade fatores biológicos e genéticos, cultura, padrões de reforço ou processos mentais e inconscientes. Falamos em traços de personalidade ao nos referirmos a características das pessoas, como, por exemplo, extrovertidas e introvertidas. Esses traços de personalidade podem ser definidos como uma tendência para a pessoa agir de determinada maneira, ao longo dos anos, em diferentes situações (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). A seguir, tentaremos expor diferentes teorias que realizaram o estudo da personalidade, porém vale a pena ressaltar que todas são teorias bastante complexas e muito embasadas. Para fins didáticos, selecionamos apenas aspectos de cada teoria que irão se relacionar com os temas abordados ao longo do curso, 8 portanto, muitos pontos também importantes de cada uma não serão abordados aqui. 2.1 Teorias Psicodinâmicas A principal teoria psicodinâmica é a teoria de Freud, a qual será explicitada a seguir. Entende-se por psicodinâmicas, teorias que enfatizam os processos inconscientes e dinâmicos. O principal pressuposto da teoria da personalidade de Freud é que as forças inconscientes (instintos – pulsões), como os desejos e motivos, influenciam o comportamento humano. Para Freud, o corpo é a fonte básica de toda experiência mental. Ele apregoa a ideia do determinismo psíquico, ou seja, cada evento mental decorre de intenções conscientes ou inconscientes (a grande maioria), em outras palavras, do ponto de vista psíquico nada ocorre como obra do acaso (FADIMAN; FRAGER, 1986). No estudo sobre a personalidade, numa perspectiva psicodinâmica, partiremos do ponto em que Freud propôs a divisão da mente em três partes: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Na primeira tópica da personalidade, Freud propôs o modelo topográfico da mente, em que comparou a mente com um iceberg: Figura 2: Modelo topográfico da mente 9 Em síntese, pode-se compreender sobre cada uma dessas instâncias que compõem a primeira tópica do aparelho psíquico (LAPLANCHE; PONTALIS, 1988; FADIMAN; FRAGER, 1986): Consciente – contém pensamentos dos quais as pessoas estão cientes. Recebe informações do mundo exterior e interior (percepção, atenção, raciocínio – processos cognitivos); pré-consciente – zona intermediária que abriga conteúdos que não estão corretamente no inconsciente, mas podem ser trazidos à consciência com um certo esforço. “O pré-consciente é como uma vasta área de posse das lembranças de que a consciência precisa para desempenhar suas funções” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.8); inconsciente – parte maior, mais importante e mais profunda do iceberg. O inconsciente contém desejos e motivos que estão associados a conflitos, ansiedade, sofrimento e o mecanismo de recalque (ou repressão) os deixam inacessíveis, protegendo a pessoa da angústia. Os conteúdos inconscientes são impossíveis de serem lembradosde forma voluntária. Gazzaninga e Heatherton (2005) complementam que, para Freud, na mente inconsciente há desejos e motivos carregados de conflitos, ansiedade e sofrimento – por isso esses conteúdos não se localizam a nível consciente, protegendo, assim, a pessoa da angústia. Em algumas situações, esses conteúdos inconscientes escapam para o consciente de maneira involuntária, através dos sonhos, chistes, atos falhos (chistes e atos falhos são lapsos da linguagem), sintoma (quando os conflitos extrapolam o nível da linguagem e aparecem no corpo, na forma de dor ou doença), associação livre (o método do tratamento analítico). No inconsciente estão elementos instintivos, que nunca foram conscientes e que não são acessíveis à consciência. Além disso, há material que foi excluído da consciência, censurado ou reprimido. Esse material não é esquecido ou perdido, mas não é permitido de ser lembrado. O pensamento e a memória ainda afetam a consciência, mas apenas indiretamente (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.7). O mecanismo de recalque (ou repressão) é compreendido como um mecanismo de defesa do ego. Opera inconscientemente, de modo que a pessoa não tem consciência do que está acontecendo. Ao reprimir (recalcar) um conteúdo, a 10 pessoa está enviando para o inconsciente algum tipo de conteúdo que causa dor, sofrimento, vergonha, repulsa ou medo muito grandes a ela, de forma que o sofrimento de lidar com esses sentimentos iria trazer prejuízos muito grandes ao seu ego. Hall e Lindzey (1984, p.39) ilustram sobre o processo de reclaque (repressão): As repressões, uma vez formadas, são difíceis de desfazer. A pessoa procura assegurar-se de que o perigo não existe mais, o que só consegue quando a repressão é suspensa e a realidade pode ser encarada de frente. É como um círculo vicioso. Essa é a razão por que o adulto conserva medos infantis. Nunca tem a possibilidade de descobrir que esses medos têm base na realidade. Para compreendermos melhor a dinâmica da personalidade, faz-se necessário aprofundar o estudo sobre um conceito que já foi abordado: os instintos (ou pulsões). A denominação pode variar de acordo com a tradução da obra original de Freud para outras línguas primeiramente até chegar ao português. “Os instintos são pressões que dirigem um organismo para fins particulares” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.8). Os instintos são fatores propulsores da personalidade, já que impulsionam o comportamento e determinam a direção do mesmo. Diferente dos instintos animais, nos seres humanos, os instintos exercem controle seletivo sobre a conduta. Os estímulos podem ser internos quanto externos e o desejo age como motivação para o comportamento. Alguns estímulos, como por exemplo, a fome, relacionam-se ao instinto de sobrevivência desde o nascimento e contribuem para a perpetuação das espécies (HALL; LINDZEY, 1984). Todo instinto tem quatro componentes: uma fonte, uma finalidade, uma pressão e um objeto. A fonte, quando emerge a necessidade, pode ser uma parte do corpo ou todo ele. A finalidade é reduzir a necessidade até que mais nenhuma ação seja necessária, e dar ao organismo a satisfação que ele no momento deseja. A pressão é a quantidade de energia ou força que é usada para satisfazer ou gratificar o instinto; ela é determinada pela intensidade ou urgência da necessidade subjacente. O objeto de um instinto é qualquer coisa, ação ou expressão que permite a satisfação da finalidade original (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.8). O funcionamento mental saudável consiste na redução da tensão para níveis aceitáveis, o que faz o organismo voltar ao estado de equilíbrio que era atingido antes do surgimento da tensão. Entretanto, alguns pensamentos e comportamentos não reduzem a tensão, pelo contrário, criam tensão, pressão ou ansiedade (FADIMAN; FRAGER, 1986). 11 Para Freud, a personalidade é composta por três sistemas: id, ego e superego, os quais estão envolvidos em constantes conflitos e acordos psíquicos. “A um instinto opunha-se outro; proibições sociais bloqueavam pulsões biológicas e os modos de enfrentar situações frequentemente chocavam-se uns com os outros” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.10). Segundo Hall e Lindzey (1984): o id é formado pelos aspectos psicológicos inatos, herdados, inclusive os instintos. Funciona de forma a descarregar a tensão interna do organismo e ocasionar prazer – o que ele denominou princípio do prazer; o ego seleciona a quais aspectos do meio reagirá, além de decidir quais instintos devem ser satisfeitos e de que modo. “A diferença básica entre o id e o ego reside em que o primeiro conhece somente a realidade subjetiva da mente, enquanto que o segundo faz a distinção entre as coisas da mente e as do mundo exterior” (HALL; LINDZEY, 1984, p.27); o superego é o representante interno dos valores da sociedade, os quais são transmitidos pelos pais e reforçados pelos castigos e recompensas que foram impostos à criança “De modo geral, podemos considerar o id como o componente biológico da personalidade, o ego como o componente psicológico e o superego como o componente social” (HALL; LINDZEY, 1984, p.28). A meta fundamental da psique é manter – e recuperar, quando perdido – um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximiza o prazer e minimiza o desprazer. A energia que é usada para acionar o sistema nasce no id, que é de natureza primitiva, instintiva. O ego, emergindo do id, existe para lidar realisticamente com as pulsões básicas do id e também age como mediador entre as forças que operam no id e no superego e as exigências da realidade externa. O superego, emergindo do ego, atua como um freio moral ou força contrária aos interesses práticos do ego. Ele fixa uma série de normas que definem e limitam a flexibilidade deste último (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.12). Os constantes conflitos entre o id e o superego podem levar à ansiedade e, em resposta a esta, o ego utiliza alguns mecanismos de defesa, que consistem em estratégias mentais inconscientes que a mente utiliza para proteger o indivíduo da angústia (GAZZANINGA HEATHERTON, 2005). Os principais mecanismos de defesa são a sublimação (não patológico), repressão, projeção, formação reativa e regressão – os quais são muito presentes no paciente doente e/ou hospitalizado. Os mecanismos de defesa (exceto a 12 sublimação) negam, falsificam ou distorcem a realidade e operam inconscientemente (FADIMAN; FRAGER, 1986; HALL, LINDZEY, 1984). A tabela a seguir sintetiza os principais mecanismos de defesa: Tabela 01: Principais Mecanismos de Defesa Mecanismo de defesa Definição Exemplo Sublimação Energia destinada para fins agressivos ou sexuais é canalizada para outras finalidades, como artísticas, culturais e acadêmicas. Pessoa com instinto sádico sublima os impulsos e transforma-se em cirurgião. Formação reativa Atitude oposta ao do desejo, pois o ego procura afastar o desejo recalcado. Aquilo que aparece (atitude) visa esconder do próprio indivíduo suas motivações e desejos, para preservá-lo de uma descoberta sobre si mesmo que poderia ser dolorosa. Pessoa com desejos homossexuais não reconhecidos faz frequentes comentários homofóbicos. Regressão Retorno a etapas anteriores de seu desenvolvimento. Forma de expressão mais primitiva. Adulto que pede colo em situação de doença. Projeção O indivíduo projeta ao mundo externo alguma característica sua e não percebe aquilo que foi projetado como algo seu que ele mesmo considera como indesejável. Pessoa que sempre chama as outras de fofoqueira, quando, na verdade, é ela própria quem ocupa grande parte do dia falando da vida alheia. Repressão Excluir da consciência a fonte da ansiedade. Este aspecto que não é percebido pelo indivíduo, faz parte de um todo e, ao ficar invisível, altera e deforma o sentido doNão ouvir o “não” na frase “não fume”. 13 todo. Racionalização O indivíduo cria uma argumentação intelectualmente convincente para justificar estados “deformados” de sua própria consciência. Justificativa dos nazistas para o extermínio. Identificação O indivíduo assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desta pessoa. Mecanismo inconsciente. Identificação da vítima com o agressor. Fonte: adaptado de Gazaninga e Heatherton (2005); Hall e Lindzey (1984) e Fadiman e Frager (1986). Como foi possível observar na tabela anterior, compreender os mecanismos de defesa é de suma importância para o profissional da psicologia que irá atuar na área hospitalar e da saúde. Como poderemos aprofundar em momentos posteriores, a doença não afeta o indivíduo apenas em seu corpo físico, mas é uma ameaça ao estado biopsicossocial e espiritual do mesmo. Da mesma forma que vemos facilmente os sintomas da doença no corpo – como um possível emagrecimento, palidez, queda dos cabelos, dentre outros sinais visíveis que as doenças podem acarretar – o estado psicológico do paciente fica muito abalado e também sofre alterações, igualmente perceptíveis. Corpo e mente são uma entidade única e indissociável. Os mecanismos de defesa ilustram como o psiquismo reage diante de situações adversas, portanto, certas reações do paciente tornam-se mais previsíveis e inteligíveis para o profissional da saúde. Importante destacar que os mecanismos de defesa não aparecem apenas em caso de doença, lançamos mão dos mesmos em nosso dia a dia frente às pequenas ameaças às quais estamos expostos. Entretanto, no caso de doença a ameaça torna-se real e o psiquismo, de forma inconsciente, tenta se adaptar às situações adversas de forma a evitar o sofrimento. 2.2 Teorias Comportamentalistas Na década de 1950, a maioria das teorias psicológicas da personalidade era fortemente determinista, isto é, a personalidade e suas características 14 comportamentais associadas eram consideradas resultado de forças que estavam além do controle da pessoa. Como vimos, Freud acreditava que a personalidade era determinada por conflitos inconscientes. Em uma linha diferente, behavioristas como B. F. Skinner argumentaram que padrões de reforço determinavam tendências de resposta, que eram a base da personalidade (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.474). Para Skinner, não há ego, eu ou personalidade, como a maioria dos teóricos costumam afirmar. Ao contrário das teorias psicodinâmica e humanista, por exemplo, no behaviorismo, os estudos são experimentais, científicos, o que inviabiliza o estudo da personalidade. “Se não podemos mostrar o que é responsável pelo comportamento do homem dizemos que ele mesmo é responsável pelo comportamento”. (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.208). Os comportamentalistas falam que, se formos pensar numa definição de personalidade, devemos entendê-la como uma coleção de comportamentos. Situações diferentes evocam diferentes padrões de resposta, sendo cada uma delas individual e baseada apenas em experiências prévias e na história de vida do indivíduo. “Skinner argumenta que, se você basear a definição do eu em comportamento observável, não é necessário discutir o eu ou a personalidade” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.195). “Ao contrário dos que vêm a personalidade como o resultado de processos internos, behavoristas como B. F. Skinner viam a personalidade como pouco mais que respostas aprendidas e padrões de personalidade” (GAZZANINGA; HEARTHETON, 2005, p.477). Por isso, para compreender a personalidade nessa perspectiva, faz-se necessário entender alguns conceitos básicos do behaviorismo. Para o behaviorismo há dois tipos de comportamento que merecem destaque para nós: o respondente e o operante. Segundo Schultz e Schultz (1992), no comportamento respondente “a resposta comportamental é suscitada por um estímulo observável específico” (p.281), enquanto que no condicionamento operante “a resposta do organismo é aparentemente espontânea – no sentido de não estar relacionada com nenhum estímulo observável” (p.281). Segundo Maia (2008), relacionam-se ao comportamento respondente (reflexo) as interações estímulo-resposta entre ambiente-sujeito incondicionadas, ou seja, aqueles comportamentos provocados por estímulos antecedentes ao ambiente (exemplo: arreio de frio). Por outro lado, o comportamento operante é intencional, são aqueles relacionados diariamente de forma desejada (exemplo: ler um livro). 15 Papalia, Olds e Feldman (2006) sintetizam a definição de comportamento operante ao afirmar que nesse tipo de aprendizagem a pessoa repete o comportamento que foi reforçado e cessa o comportamento que foi punido. Conforme Schultz; Schultz (1992, p.281), “Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que o comportamento operante opera no organismo, ao passo que o respondente não o faz”. Entende-se como reforço qualquer estímulo que possibilite o aumento da probabilidade de resposta, podendo os reforços ser positivos ou negativos. (MAIA, 2008). Os reforços são mais eficazes quando seguem um comportamento imediatamente. O reforço positivo consiste em dar uma recompensa, como comida, troféu, dinheiro, elogio – ou brincar com um bebê. O reforço negativo consiste em tirar alguma coisa que o indivíduo não gosta (conhecido como evento aversivo), como, por exemplo, um ruído intenso (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.73). Importante não confundir os conceitos de reforço negativo e punição. Enquanto o reforço negativo consiste em retirar do indivíduo algo que ele não goste (o que faz com que ele se sinta beneficiado com isso), a punição é definida como um estímulo experimentado após um comportamento (bater numa criança ou aplicar um choque elétrico num animal) ou retirar um evento positivo (não permitir assistir televisão ou ir ao recreio). Skinner e seus seguidores fizeram muitas pesquisas sobre problemas de aprendizagem, tais como o papel da punição na aquisição de respostas, o efeito de diferentes problemas de reforços, a extinção da resposta operante, o reforço secundário e a generalização. [...] No caso dos seres humanos, o comportamento operante envolve a resolução de problemas, reforçada pela aprovação verbal ou pelo conhecimento de ter dado a resposta correta (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.281). A punição é um exemplo de obstáculo ao crescimento do indivíduo, visto que apenas informa sobre o que não fazer, ao invés de tentar ensinar o que se deve fazer (FADIMAN; FRAGER, 1986). O comportamento verbal é, segundo Skinner, a única área em que há diferenças no condicionamento entre o homem e o rato. O comportamento verbal exige a interação de duas pessoas: um falante e um ouvinte. No caso da criança que está aprendendo as primeiras palavras, o adulto – o ouvinte – pode, através do seu 16 comportamento, reforçar, não reforçar ou punir a criança pelo que disse ou não disser, assim controlando seu comportamento subsequente. “Para Skinner, a fala é comportamento, estando, pois, sujeita, como qualquer outro comportamento, sujeita a contingências de reforço, de previsão e de controle” (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.284). Essa abordagem da personalidade enquanto pouco mais que respostas aprendidas e padrões de reforço foi alvo de crítica de outros teóricos cognitivistas, como Kelly e Bandura, os quais defenderam pontos de vista de que a personalidade vai além disso. Kelly defendeu a existência dos construtos pessoais, os quais se desenvolvem a partir da experiência e representam sua interpretação e explicação dos eventos no meio social no qual o indivíduo está inserido. Já Bandura propôs uma teoria cognitivo-social da personalidade que enfatiza como as crenças, expectativas e interpretações pessoais das situações sociaismoldam o comportamento e a personalidade. Albert Bandura aceita muitos dos princípios da teoria da aprendizagem, mas argumenta que os humanos possuem capacidades mentais, como crenças, pensamentos e expectativas, que interagem com o ambiente para influenciar o comportamento (GAZZANINGA; HEATERTHON, 2005, p.478). 2.3 Teorias Humanistas Como foi visto nas teorias psicodinâmica e behaviorista, os teóricos dessas abordagens postulavam que a personalidade era determinada por forças superiores ao controle do indivíduo. Frente a esse panorama surgiram outras correntes, as quais enfatizavam a singularidade da condição humana. As abordagens humanistas apregoam a importância da experiência pessoal e seus sistemas de crenças na estruturação da personalidade. Além disso, postulavam que as pessoas buscam atingir seu potencial humano “as pessoas são vistas como seres holísticos e que se esforçam para chegar à realização pessoal” (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.283). Seu principal representante é Rogers, com sua abordagem centrada na pessoa. Maslow também é uma figura de grande importância, muito citado dentre os profissionais de saúde, o qual estuda a teoria da motivação (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). Em seu âmago, o humanismo enfatizava a experiência pessoal subjetiva, ou fenomenologia, e vê cada pessoa como inerentemente boa. A abordagens 17 humanistas à personalidade encorajam a pessoa a atingir o seu potencial individual de crescimento pessoal por meio de um maior autoentendimento; esse processo é referido como autorrealização (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.474). Um conceito muito utilizado em várias teorias da personalidade – o self – apresenta uma conotação bastante diferenciada na visão de Rogers, a qual se difere do determinismo psíquico das teorias psicodinâmicas quando falam que a personalidade é relativamente estável ou imutável. Fadiman e Frager (1986) explicitam que Roger usa o termo self para se referir ao contínuo processo de reconhecimento, ou seja, as pessoas são capazes de mudança, de crescimento e desenvolvimento pessoal. “O self ou autoconceito é a visão que uma pessoa tem de si própria, baseada em experiências passadas, estimulações presentes e expectativas futuras” (p.227). Além do self, há também o self ideal que consiste na idealização que o indivíduo possui de si mesmo, sendo também passível de mudanças. A diferença entre o self e o self ideal é um indicador de desconforto, insatisfação e dificuldades neuróticas. A saúde mental reside na autoaceitação, o que não é sinônimo de resignação, mas sim o fato de estar mais próximo da realidade (FADIMAN; FRAGER, 1986). Rogers sugere que em cada um de nós há um impulso inerente em direção a sermos competentes e capazes quanto o que estamos aptos a ser biologicamente. Assim como uma planta tenta tornar-se saudável, como uma semente contém dentro de si impulso para se tornar uma árvore, também uma pessoa é e impelida a se tornar uma pessoa total, completa e auto-atualizada (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.229). Rogers enfatizava a necessidade do terapeuta, durante o processo terapêutico, criar um ambiente amistoso, apoiador e aceitador, além de lidar com os problemas do seu cliente da forma que este os entende. A psicologia humanista enfatiza a experiência pessoal subjetiva (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). A situação realimenta-se a si mesma. Cada experiência de incongruência entre o self e a realidade aumenta a vulnerabilidade, a qual, por sua vez, ocasiona o aumento de defesas, interceptando experiências e criando novas ocasiões de incongruência. (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.231). 18 Segundo Rogers, a forma como os pais demonstram sua afeição pelos filhos e seu tratamento para com eles afeta o desenvolvimento da personalidade. Ele defende a ideia de que os pais devem amar seus filhos incondicionalmente, ou seja, aceitar e amar as crianças, independente de como elas se comportam. (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). Os pais devem expressar sua desaprovação com relação a maus comportamentos, mas em um contexto em que garanta que as crianças sintam-se amadas [...] os filhos criados com consideração positiva incondicional desenvolverão um saudável sentimento de autoestima e serão capazes de se tornar, nos termos de Rogers, uma pessoa com funcionamento pleno (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.475). Assim, observa-se que os relacionamentos interpessoais, os quais acontecem desde tenra idade, inicialmente com os pais, ocupam local de destaque nessa teoria. Fadiman e Frager (1986) demonstram que, para Rogers, a experiência com o outro capacita o indivíduo a descobrir, experienciar e encontrar o seu self de maneira direta. A personalidade torna-se visível para o indivíduo através do relacionamento com o outro. Ao mesmo tempo, as emoções também são de grande importância, pois um indivíduo saudável é aquele que toma consciência de suas emoções, sejam elas expressas ou não. “Sentimentos negados à consciência distorcem a percepção e a reação às experiências que os desencadearam” (p.234). Já Maslow propôs a teoria de necessidades da motivação, a qual é expressa através da pirâmide da hierarquia das necessidades. Os seres humanos tentam melhorar-se continuamente e quando atingem o ápice, a autorrealização, tornam-se verdadeiramente felizes e realizados (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). Maslow acreditava que os humanos são impulsionados por muitas necessidades, que ele organizou numa hierarquia de necessidades, em que as necessidades de sobrevivência (como fome e sede) são inferiores e as necessidades de crescimento pessoal são superiores em termos de prioridade. Maslow acreditava que a satisfação das necessidades inferiores da hierarquia permitia que os humanos funcionassem num nível superior. As pessoas precisam ter suas necessidades biológicas satisfeitas, precisam sentir-se seguras, amadas e ter uma boa opinião de si mesmas para experienciar crescimento pessoal e atingir a autorrealização (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.283). As necessidades fisiológicas são de vital importância, pois relacionam-se à sobrevivência, como alimentação, sono, abrigo, desejo sexual. Dentre as de segurança se incluem a busca de proteção e estabilidade. Satisfeitos esses dois 19 primeiros degraus da hierarquia surgem as necessidades sociais, que consistem na aceitação por parte dos companheiros e a busca de afeto e amor. “Quando estas necessidades não estão suficientemente satisfeitas, a pessoa torna-se resistente, antagônica e hostil com relação às pessoas que a cercam. A falta de amor e de afeição conduz à falta de adaptação social e à solidão” (LEONARDO, 2002, p.50). As necessidades de estima relacionam-se à aprovação pessoal, autoconfiança, necessidade de status e prestígio. E, finalmente, as necessidades de autorrealização caracterizam-se pela motivação da pessoa em tornar-se sempre mais do que é. Maslow define a neurose e o desajustamento psicológico como “doenças de carência”, isto é, são causadas pela privação de certas necessidades básicas, assim como a falta de certas vitaminas causa doenças. Os melhores exemplos de necessidades básicas são necessidades fisiológicas, tais como a fome, a sede e o sono. A privação leva de modo claro a uma consequente doença, e a satisfação dessas necessidades é a única cura para a doença. Em todos os indivíduos encontram-se necessidades básicas (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.267-268). A figura a seguir ilustra cada uma dessas necessidades, sendo que as necessidades de sobrevivência encontram-se na base e as necessidades de autorrealização localizam-se no ápice. Figura 03: Pirâmide da Hierarquia das Necessidades de Maslow Fonte: Leonardo (2002, p.51). 20 Convém destacar que a teoria de Maslow serve de embasamento teórico para a educação, a administração, assim também como na área da saúde.Os profissionais da enfermagem estudam o teórico a partir da teoria de Wanda Horta, a qual estudou os pressupostos de Maslow e criou sua Teoria das Necessidades Básicas, a qual apregoa que: Baseado nas necessidades psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais, propõe uma metodologia para o processo de enfermagem focando o ser humano integral, na busca do equilíbrio bio-psico-sócio-espiritual (ALCANTARA et al., 2011, s.p.). É importante que o psicólogo hospitalar conheça a teoria da hierarquia das necessidades de Maslow e, mais do que isso, saiba que a mesma serviu de embasamento para outros teóricos, em especial a teoria de Horta, recém-citada. Como os profissionais da enfermagem estudam essa teoria e os mesmos fazem parte da equipe multiprofissional do hospital, é importante saber que a dinâmica de cuidados também é hierarquizada, partindo das necessidades de sobrevivência em direção ao ápice da pirâmide, onde estão as necessidades relacionadas às dinâmicas psicológicas, sociais e espirituais do paciente. Excetuando-se as necessidades básicas, relacionadas ao nível biológico, que são da práxis dos cuidados de enfermagem, cabe ao psicólogo hospitalar auxiliar para promover a satisfação das demais necessidades, sempre que possível. 2.4 Teorias Culturalistas Ao contrário das teorias psicodinâmicas, as quais apregoam ser o homem um complexo sistema energético que realiza trocas com o mundo exterior em busca da sobrevivência, da propagação das espécies e do prosseguimento do processo evolutivo, foram se despontando outras teorias, as quais discordavam da concepção puramente biofísica do homem. Os sociólogos estudaram o homem altamente civilizado e descobriram que ele é o produto de sua classe e sua casta, das instituições e dos costumes; os antropólogos fizeram incursões em áreas remotas da civilização, onde foram encontrar provas de que os seres humanos são extremamente maleáveis. Segundo essas novas ciências sociais, o homem é, fundamentalmente, um produto da sociedade em que vive. Sua personalidade é mais social do que biológica (HALL; LINDZEY, 1984, p.177). 21 Dentre os teóricos, destacam-se Adler, Fromm, Horney e Sullivan, os quais, inicialmente psicanalistas, realizaram críticas à teoria psicanalítica e então desenvolveram seus próprios referenciais teóricos a partir de uma perspectiva culturalista (HALL; LINDZEY, 1984). Alfred Adler foi o fundador do sistema holístico da psicologia individual, que enfatiza uma abordagem a qual compreende cada pessoa como uma totalidade integrada dentro de um sistema social. [...] Adler argumentava que os objetivos e expectativas têm maior influência no comportamento que as experiências passadas, e acreditava que todo mundo é motivado principalmente pelo objetivo de superioridade ou conquista do meio. Ele também enfatizava o efeito das influências sociais em cada indivíduo e a importância do interesse social: um senso de comunidade, cooperação e preocupação com os outros. (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.72) Para Adler, o homem é um ser social motivado pelas solicitações sociais, o interesse social se sobrepõe ao interesse individual. Esse interesse social é inerente e dá forma à personalidade. O centro da personalidade é a consciência. “O homem é um ser consciente; em geral ele tem consciência das razões do seu comportamento, de suas inferioridades e dos objetivos pelos quais luta” (HALL; LINDZEY, 1984, p.120). Adler inicialmente elaborou a sua teoria a partir de fundamentos da ordem do orgânico, por isso compreender alguns aspectos de sua teoria da personalidade se faz relevante para o psicólogo hospitalar e da saúde. Ele sugeriu que, em cada indivíduo, certos órgãos são de algum modo mais fracos que outros, o que torna a pessoa mais suscetível a doenças e enfermidades envolvendo estes órgãos mais frágeis. Adler também observou que pessoas com fraquezas orgânicas graves tentarão, com frequência, compensá-las, e um órgão antes fraco pode tornar-se fortemente desenvolvido por meio de treino e exercícios, via de regra resultando muito maior habilidade ou força do indivíduo (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.74). A partir desses estudos sobre a inferioridade orgânica, Adler desenvolveu seus postulados sobre o complexo de inferioridade. Segundo ele, a criança, devido à sua condição inerente de fragilidade e dependência, carrega consigo um sentimento de inferioridade. Quando esse sentimento não é excessivo ele atua como agente motivacional para realizações construtivas. Associado a esse sentimento de inferioridade há um sentimento, relacionado à agressividade, de superioridade, o qual pode ser compreendido como a motivação para que o ser humano alcance o melhor de si. Essa luta pela superioridade não é patológica quando inclui 22 preocupações sociais e a busca pelo bem-estar do outro, não se restringindo à busca de realizar apenas coisas de interesses pessoais (FADIMAN; FRAGER, 1986). O caminho pelo qual o homem percorre para atingir os seus objetivos é denominado estilo de vida “Adler considerava cada pessoa como uma configuração singular de motivos, traços, interesses e valores. Todos os atos realizados pela pessoa trazem o selo do seu próprio estilo de vida” (HALL; LINDZEY, 1994, p.120). O estilo de vida é uma compensação para uma determinada inferioridade. Uma criança de constituição franzina terá um estilo que a levará a fazer aquilo que produza força física. A criança deficiente procurará alcançar superioridade intelectual (HALL; LINDZEY, 1994, p.124). A inferioridade orgânica, a rejeição e a superproteção são obstáculos ao crescimento. Diretamente relacionada à práxis do psicólogo hospitalar está a questão da inferioridade orgânica. Segundo Adler, a criança que sofre de doenças tende a tornar-se autocentrada. É uma criança que, devido ao sentimento de inferioridade, evita interações sociais. Caso a criança consiga superar suas dificuldades, ela tende a compensar sua fraqueza original e desenvolver suas habilidades (FADIMAN; FRAGER, 1986). A partir do conceito de self criador, Adler postula que o homem forma sua própria personalidade a partir da hereditariedade e de sua própria experiência. O self criador é o fermento que age sobre os fatos e os transformam em uma personalidade que é subjetiva, dinâmica, pessoal e única em seu estilo. [...] A concepção da natureza da personalidade, segundo Adler, coincide com a ideia popular de que o homem pode ser o dono, e não uma vítima, do seu destino (HALL; LINDZEY, 1994, p.125). 2.5 Bases biológicas da personalidade Ao contrário dos postulados das teorias apresentadas até aqui, as quais enfatizam a importância das experiências pessoais para a estruturação da personalidade, há linhas de pesquisa interessadas em investigar a base biológica da personalidade, as quais não desconsideram a importância do ambiente. Compreendem-se como processos biológicos os genes, as estruturas cerebrais e a neuroquímica. Nas últimas décadas, surgiram evidências indicando que os processos biológicos – como genes, estruturas cerebrais e neuroquímica – realmente desempenham um papel importante na determinação da personalidade. 23 Isso não significa que esses processos são insensíveis às experiências, e sim que servem como um projeto para os processos psicológicos que interagem com o ambiente, tal como a maneira pela qual as pessoas são socializadas ou as forças situacionais que enfrentam (GAZZANINGA, HEATHERTON, 2005, p.483-484). Alguns estudos tentam ilustrar as bases biológicas da personalidade, especialmente quando investigam a questão da genética em si, como é possível observar nos exemplos abaixo: Estudos com gêmeos (LOEHLIN; NICHOLS, 1976 apud GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005): gêmeos monozigóticos apresentam mais semelhanças de personalidade que os dizigóticos, independente de quem faz a avaliação.Os gêmeos criados separados são mais semelhantes que os criados juntos, provavelmente porque os estilos parentais incentivam que cada um se sinta único e individual. Estudos de adoção (PLOMIN; CASPI, 1999 apud GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005): irmãos adotados criados numa mesma família não são mais semelhantes em personalidade que desconhecidos comparados aleatoriamente. As personalidades dos filhos adotivos não têm nenhum relacionamento significativo com as personalidades dos pais adotivos, ou seja, estilos parentais podem ter relativamente pouco impacto sobre a personalidade. Os genes influenciam na personalidade, como se pode observar também em pesquisas sobre o temperamento, que pode ser compreendido como caráter individual da constituição de uma pessoa que afeta, de forma relativamente permanente, sua maneira de agir, sentir e pensar. Estudos com bebês mostram que diferenças de personalidade existentes desde muito cedo indicam ação de mecanismos biológicos. As experiências podem alterar traços de personalidade, porém os temperamentos representam a estrutura inata da personalidade. Os genes agem para produzir temperamentos, que influenciam a maneira pela qual as crianças respondem ao seu ambiente e lhe dão forma, o que, por sua vez, interage com o temperamento para moldar a personalidade (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.487). 24 UNIDADE 3 – QUEIXA EM SAÚDE E ESCUTA CLÍNICA Iniciaremos esta seção com uma citação que fala sobre a consulta médica. Pode parecer estranho, visto que a apostila é sobre psicologia hospitalar, porém aqui mostramos que, independente da causa ser de ordem física e/ou psicológica, a abordagem dos profissionais da saúde, sejam de qual área de atuação, deve ser de acolhimento e com objetivos terapêuticos. A consulta médica é um momento de encontro entre duas pessoas, na intimidade de um consultório: de um lado, o paciente que está doente; de outro lado, o médico que, numa posição mais confortável, deverá cuidar do paciente e da sua doença. Um buscando ajuda e outro apto a ajudar a buscar seu bem-estar. Este encontro inicia-se quando o paciente adentra a sala do médico. A partir daí, duas pessoas, médico e paciente, passam a interagir, ligados por uma queixa, por uma doença, apresentadas pelo segundo (LEANDRO, 1998, p.77). Em consonância com o que foi elucidado, Cordioli (2008) aborda a questão da psicoterapia e sua evolução no decorrer do percurso histórico. Segundo o autor, no decorrer do século XX, a psicoterapia deixou de ser exercida apenas pelos psiquiatras e passou a ser utilizada por diversos profissionais da saúde como médicos clínicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, demonstrando, assim, que a mesma ultrapassou o modelo médico. Entretanto, mesmo com essa ampliação na diversidade de profissionais que recorrem à “cura pela fala”, termos como paciente, diagnóstico, doença, etiologia, plano de tratamento, indicações e contraindicações mostram que a psicoterapia continua diretamente relacionada à sua origem médica. Independente de estar se referindo à consulta médica ou à psicoterapia em particular, a relação profissional-paciente deve ser marcada por algumas características. Leandro (1998) elucida que na consulta cabe ao médico receber seu paciente cordialmente e instigá-lo a fornecer dados sobre sua queixa principal (o motivo que o levou até ali). Normalmente, se o profissional ficar preso a roteiros preestabelecidos e perguntas prontas nesse momento ele pode ter dificuldades em compreender a queixa de seu paciente, que, em muitas vezes, é confusa, demorada e repetitiva. Além de ouvir o relato do paciente, torna-se essencial compreender o que foi dito, usando essa compreensão como ação terapêutica, ou seja, mostrando ao paciente tudo o que foi compreendido. Três pontos são importantes para o 25 desenrolar favorável de uma consulta: o tempo, o espaço e a execução da função médica. O autor aponta a importância do tempo e do espaço para a consulta médica, o que também é extremamente relevante na psicoterapia. Entretanto, na psicologia hospitalar, esse tempo e esse espaço não possuem a mesma conotação. Diferente do que acontece no contexto da psicoterapia, não é o cliente que vai até o psicoterapeuta, mas, na maioria das vezes, é o psicólogo hospitalar quem vai até o seu paciente, o qual pode estar impossibilitado de se locomover. Não há um ambiente específico para que a escuta e a intervenção psicológica aconteçam; não há um tempo determinado e nem de periodicidade definida. Tudo depende das possibilidades, em especial as possibilidades do paciente, do local. O paciente busca uma relação profissional de ajuda – psicoterapia – porém, ele poderia procurar o alívio para a sua queixa, por exemplo, através de métodos baseados em crenças religiosas. Através da fé, ele também pode conseguir alcançar resultados satisfatórios, entretanto esse tipo de relação não é uma psicoterapia (CORDIOLI, 2008). O paciente / cliente possui uma queixa principal, ou seja, o motivo que o levou a buscar ajuda. Ao contrário dos outros profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, as intervenções do psicólogo não são direcionadas ao corpo do paciente, mas visam trabalhar com sua dimensão psicológica. Como veremos num outro momento desse curso, corpo e mente encontram-se interligados, então podemos afirmar que as intervenções psicológicas visam abordar o homem em sua totalidade biopsicossocial e espiritual. Existem várias teorias que embasam a atuação do psicólogo, mas, no geral, sua atuação se dá através da escuta clínica e da fala – meio pelo qual as intervenções psicológicas são realizadas. Saber ouvir a queixa do paciente é essencial. Assim, para prosseguirmos nos nossos estudos, faz-se necessário compreender algumas diferenças entre a psicoterapia e a psicologia hospitalar. 3.1 Relações interpessoais e o papel do psicólogo Os reacionamentos interpessoais – ou relações humanas – dependendo da denominação do autor são, como afirma Weil (2002), especialidades do psiquiatra, psicólogo, sociólogo, assistente social e educador especializado, porém esses relacionamentos se encontram presentes onde se encontram pessoas reunidas, 26 sejam nas famílias, no trabalho, na educação, nas organizações em geral, enfim, em todos os locais. O psicólogo que atua em organizações deve estudar as relações humanas em busca de promover uma melhoria na comunicação entre as pessoas, o que pode ser um grande diferencial para o paciente e seu tratamento. O estudo das relações humanas constitui, hoje, verdadeira ciência complementada por uma arte – a de obter e conservar a cooperação e a confiança dos membros do grupo […] Problemas de relações humanas se encontram nas relações do indivíduo com o grupo, dos indivíduos entre si, do grupo com outros grupos, do líder com o grupo, do indivíduo com o líder. Onde se encontram dois indivíduos há problema de relações humanas. (WEIL, 2002, p. 15). Lazzaretti et al. (2007) ressaltam que o psicólogo hospitalar lida diretamente com o paciente, com a família e a equipe e é importante que atue de forma a promover uma comunicação satisfatória entre todos estes. Essa é a chamada função de intercâmbio entre a equipe e o paciente: Melhor seria que o psicólogo não assumisse este lugar de intercâmbio – tal como dar diagnóstico ao paciente – pois, se existem dificuldades de comunicação, existe indisponibilidade de algum dos lados. Ao assumir esta tarefa, estará passando por cima da possibilidade de trabalhar os verdadeiros motivos que impedem a equipe ou o paciente de falar sobre esta dificuldade, normalmente ligada à angústia de ambos (LAZZARETTI et al., 2007, p.29). Os autores supracitados afirmam que o trabalho do psicólogo na instituição de saúde é multidisciplinar, porém a inserção do psicólogo na equipe podedenotar uma dificuldade. [...] se de um lado pode haver incredulidade dos demais profissionais, por outro lado pode haver insegurança e talvez falta de definição do próprio psicólogo, que fantasia que seu lugar está pronto, bastando ocupá-lo sem se dar ao trabalho de construí-lo. Sem dúvida não é um trabalho fácil, pois o psicólogo não tem o mesmo paciente que o médico (LAZZARETTI et al., 2007, p.29). Para falarmos sobre a queixa em saúde e a importância da escuta clínica neste contexto, fez-se relevante contextualizar sobre a psicoterapia. Agora iremos detalhar mais sobre a psicoterapia, a psicologia hospitalar e, mais especificamente, sobre a modalidade terapêutica denominada psicoterapia breve, a qual é de grande aplicabilidade no contexto hospitalar. 27 3.2 Psicoterapia A psicoterapia já está presente na área da saúde há muitos anos e inicialmente foi denominada cura pela fala. Ao final do século XIX passou a ser utilizada pelos psiquiatras no tratamento das doenças “nervosas e mentais” – termo utilizado para se referir aos problemas relacionados ao cérebro e à mente (WAMPOLD 2001 apud CORDIOLI, 2008). [...] A psicoterapia é um método de tratamento mediante o qual um profissional treinado, valendo-se de meios psicológicos, especificamente, a comunicação verbal e a relação terapêutica, realiza, deliberadamente, uma variedade de intervenções, com o intuito de influenciar um cliente ou paciente, auxiliando-o a modificar problemas de natureza emocional, cognitiva e comportamental, já que ele o procurou com essa finalidade (STRUPP, 1978 apud CORDIOLI, 2008, p.21) Essa outra definição também explica o que é psicoterapia: A psicoterapia, independentemente de sua orientação teórica, tem como seus principais objetivos levar o paciente ao autoconhecimento, ao autocrescimento e à cura de determinados sintomas (ANGERAMI- CAMON,1995, p.19). Segundo o mesmo autor, a demanda de ajuda parte do próprio paciente que, antes mesmo de chegar até o psicólogo, já avaliou a necessidade do tratamento e suas possíveis implicações. A relação é exclusiva entre terapeuta-paciente, sem a mediação de nenhuma instituição. Ao chegar até o psicólogo, o paciente será enquadrado no setting terapêutico e as normas do processo serão explicitadas pelo terapeuta, tais como duração das sessões, horários, dentre outros detalhes. As sessões normalmente não são interrompidas, o que aumenta a privacidade. “O setting terapêutico assim resguarda a sessão para que todo o material catalizado naqueles momentos seja apreendido e elaborado de maneira absoluta” (ANGERAMI-CAMON,1995, p.21). A psicoterapia é uma relação face a face, uma atividade colaborativa entre o paciente e o terapeuta, “ao invés de uma predominantemente unilateral, exercida por alguém sobre outra pessoa, como ocorre em outros tratamentos médicos (exemplo cirurgia)” (CORDIOLI, 2008, p.21). As psicoterapias, independente da linha abordada, apresentam algumas características básicas, as quais serão elucidadas de forma a concluir esse raciocínio: 28 É um método de tratamento realizado por um profissional treinado, com o objetivo de reduzir ou remover um problema, queixa ou transtorno definido de um paciente ou cliente que deliberadamente busca ajuda. O terapeuta utiliza meios psicológicos como forma de influenciar o cliente ou paciente. É realizada em um contexto primariamente interpessoal (a relação terapêutica). Utiliza a comunicação verbal como principal recurso. É uma atividade eminentemente colaborativa entre paciente e terapeuta (CORDIOLI, 2008, p.21). 3.3 Psicologia hospitalar A finalidade geral da psicologia hospitalar difere-se daquela proposta pela psicoterapia, pois essa visa minimizar, no paciente, os sofrimentos causados pela hospitalização. Entende-se como sofrimento aqueles decorrentes da doença que culminou com a internação hospitalar, como as sequelas emocionais acarretadas pelo processo de hospitalização em si. Possui algumas diferenças em relação àquelas apontadas na psicoterapia: A Psicologia Hospitalar, por outra parte, contrariamente ao processo psicoterápico não possui setting terapêutico tão definido e preciso. Nos casos de atendimentos realizados em enfermarias, o atendimento do psicólogo, muitas vezes, é interrompido pelo pessoal de base do hospital, seja para aplicação de injeções, prescrição medicamentosa numa determinada faixa horária, seja ainda para processo de limpeza e assepsia hospitalar. O atendimento dessa forma terá que ser efetuado levando-se em conta todas essas variáveis além de outros aspectos mais delicados [...] (ANGERAMI-CAMON,1995, p.25) No âmbito hospitalar, ao contrário do que acontece na psicoterapia, é o psicólogo quem normalmente chega até o paciente em seu leito. Para que o psicólogo chegue até o paciente normalmente se faz necessário um encaminhamento por parte de outros profissionais de saúde, os quais percebem que há, por parte dele, uma demanda de ajuda e, mais do que isso, o paciente também está em concordância com essa ajuda profissional. Caso ocorra de outra forma, ou seja, com a chegada do psicólogo antes da anuência do paciente, a intervenção psicológica pode não ter o papel desejado e, mais do que isso, há desrespeito à condição humana do paciente. O psicólogo que não respeita os limites do paciente, mesmo que detecte que há necessidade de intervenção, acaba se tornando mais um dos elementos invasivos que agridem o paciente em sua condição humana na instituição hospitalar (ANGERAMI-CAMON,1995). 29 E como ocorrem as intervenções do psicólogo hospitalar? Na maioria das vezes as intervenções são realizadas na forma de psicoterapia breve. 3.4 Psicoterapia breve As psicoterapias breves ou intervenções de crise servem para auxiliar o paciente a superar dificuldades momentâneas (CORDIOLI, 2008) e é um tipo de intervenção muito utilizada na psicologia hospitalar. Lemgruber (2008) elucida que a psicoterapia breve possui tempo limitado (7 a 40 sessões em média), com periodicidade de uma a duas sessões por dia. Terapeuta e paciente ficam dispostos frente a frente e as técnicas utilizadas são elaboradas e modificadas a partir de princípios gerais (de origem psicodinâmica ou cognitivo-comportamental). Segundo a mesma autora, as psicoterapias breves surgiram como uma tentativa de se minimizar o tempo de tratamento que normalmente era demandado pela psicanálise. Atualmente, torna-se uma alternativa viável visto que, no âmbito da comunidade, a maioria das pessoas procura acompanhamento psicoterápico a partir de seu plano de saúde, o qual limita o número de sessões disponibilizadas por ano. Assim, o atendimento psicoterápico passa a ser voltado a situações de crise e problemas emergenciais. As psicoterapias breves ou terapias focais (TF) são indicadas para os seguintes casos: A TF tem indicação específica para as situações de crise que, em sua maioria, estão enquadradas no eixo IV da avaliação multiaxial do DSM-IV, classificados como problemas interpessoais e/ou conflitos emocionais, e também no eixo I, classificados entre os transtornos de ansiedade, de depressão e de ajustamento (LEMGRUBER, 2008, p.183). Por outro lado, a autora aponta alguns fatores de exclusão para esse tipo de psicoterapia. Dentre eles podemos destacar a falta de motivação, falta de controle dos impulsos agressivos, doenças clínicas, transtornos orgânicos, psicóticos e dependência química. Além de ser uma linha bastante versátil para atuação clínica na comunidade (ambulatório / consultório), a psicoterapia breve é uma importante aliada do psicólogo hospitalar. 30 UNIDADE 4 – ABORDAGENS TEÓRICO/CLÍNICAS QUE FUNDAMENTAM O TRABALHO DO PSICÓLOGO HOSPITALAR E DA SAÚDE Optamos iniciar esse material com a definição de personalidade e alguns referenciais teóricos acerca do tema, poisé sabido que se faz indispensável ao psicólogo, independente de sua área de atuação, compreender o ser humano em sua totalidade. O estudo da personalidade mostra como o ser humano se estrutura enquanto indivíduo único e singular, com traços estáveis e marcantes que o caracterizam enquanto ser ímpar, porém sabemos que em alguns momentos observam-se algumas alterações na personalidade. Essa instabilidade dos traços ocorre, por exemplo, em situação de doença, já que se quebra a harmonia da ordem do biológico, psicológico, social e espiritual. Para lidar com esses eventos adversos, o profissional da psicologia merece destaque por atuar numa equipe multiprofissional, onde juntos os diferentes saberes visam ao cuidado integral do ser humano em situação de fragilidade. São muitas as abordagens teórico-clínicas que fundamentam a Psicologia Hospitalar. Lazzareti et al. (2007) apontam que já foram registradas atuações desse profissional nas seguintes linhas: Behaviorismo; Gestalt; Neuropsicologia; Psicanálise; Psicodrama; Psicologia Analítica; Terapia Sistêmica; Psicoterapia de grupo. Todas essas abordagens utilizam a comunicação verbal no contexto de uma relação interpessoal, entretanto, as mesmas se diferem quanto ao racional ou quanto à explicação que oferecem para as mudanças que desejam alcançar com seus clientes. Cordioli (2008) aponta explicações utilizadas por algumas das linhas que serão discutidas a seguir, dentre elas: 31 Para as teorias psicodinâmicas, o insight é considerado o principal ingrediente terapêutico; para as terapias comportamentais, são as novas aprendizagens; para as teorias cognitivas, é a correção de pensamentos ou as crenças disfuncionais; para as terapias familiares, é a mudança de fatores ambientais ou sistêmicos; e, para as terapias de grupo, é o uso de fatores grupais (p.21). Não está no escopo deste material descrever as técnicas utilizadas, visto que as técnicas psicológicas são exclusivas do profissional da psicologia e esse curso visa oferecer subsídios não apenas para a formação do psicólogo hospitalar, mas para todos os profissionais da equipe multiprofissional de saúde que visam uma atuação interdisciplinar no contexto hospitalar. Essa seção pretende demonstrar as teorias e práticas psicoterápicas que embasam o trabalho do psicólogo hospitalar e suas intervenções, já as técnicas utilizadas para desenvolver o trabalho são o “instrumento de trabalho” que o psicólogo utiliza dentro de sua linha de atuação e fica subentendido que o mesmo já as carrega consigo. 4.1 Behaviorismo / Terapia comportamental / Terapia Cognitivo- comportamental Desde os seus primórdios, o behaviorismo carrega consigo a marca de uma psicologia científica, nascida em laboratórios e fundamentada em pesquisas realizadas com animais e seres humanos. No âmbito hospitalar isso não é diferente, o psicólogo comportamental (ou analista do comportamento) deve embasar sua atuação na cientificidade, portanto, estudos científicos e epidemiológicos servem como embasamento teórico para as intervenções. “A terapia comportamental (TC) baseia-se nas teorias e nos princípios da aprendizagem para explicar o surgimento, a manutenção e a eliminação dos sintomas.” (CORDIOLI, 2008, p.31) Na área da saúde, a atuação do analista de comportamento acontece em hospitais, ambulatórios e unidades de atenção primária à saúde. Há uma preocupação não apenas com os problemas já instalados, como também para a prevenção dos mesmos (LAZZARETTI et al., 2007). Ao inserir-se em ambientes de saúde, o analista do comportamento deve levar em consideração que o paciente não foi em busca de atendimento, tal como em uma clínica privada, e em grande parte das vezes este não apresenta quadros psicopatológicos graves, mas sim, uma doença orgânica, que gera uma demanda psicológica específica. Esta demanda pode ser compreendida como necessidade de comunicação adequada com a equipe de saúde, necessidade de suporte emocional e/ou social e surgimento de quadros psicológicos transitórios em função de 32 características psicológicas anteriores. Estes fatores sugerem intervenções pontuais, focando o problema no contexto específico em que ocorrem, através da análise das contingências em atuação no momento e local em que ocorrem. Aqui, o foco da análise é a variável de controle imediato (LAZZARETTI et al., 2007, p.35). Inicialmente ocorre a análise comportamental, momento em que o terapeuta investiga detalhadamente a situação do paciente (sintomas, condições que determinam o seu aparecimento, antecedentes, consequências, eventos desencadeantes, cognições e mecanismos desenvolvidos pelo paciente para diminuir sua ansiedade). Após esta etapa, inicia-se o tratamento, que é compreendido como uma nova aprendizagem. Para o tratamento em si, o terapeuta lança mão de uma série de técnicas, as quais não serão explicitadas aqui. Convém destacar que, dentre as indicações para esse tipo de abordagem, encontram-se problemas como obesidade, hipertensão, asma, insônia, dor crônica, cefaleia e câncer – condições diretamente relacionadas à área de atuação do psicólogo hospitalar (CORDIOLI, 2008). Além da terapia comportamental (a qual foi descrita no parágrafo anterior), a terapia cognitivo-comportamental (TCC) aparece uma integração entre a comportamental e a cognitiva, a qual se caracteriza como “uma modalidade de terapia que utiliza esses dois tipos de abordagens” (CORDIOLI, 2008, p.32). A TCC possui duração breve, entre 10 e 20 sessões. O terapeuta ajuda o paciente a utilizar seus próprios recursos para identificar crenças disfuncionais, as quais serão corrigidas por meio do exame das evidências e da geração de pensamentos alternativos. As sessões são estruturadas e o paciente conta também com tarefas para casa. A relação terapêutica entre terapeuta e paciente é essencial (CORDIOLI, 2008). 4.2 Gestalt A abordagem da gestalt apregoa que a relação terapêutica é responsável por mudanças no terapeuta e no cliente. É uma abordagem focada no aqui e agora. A gestalt-terapia visa levar o indivíduo ao desenvolvimento, pois o homem é percebido como agente de mudanças. (LAZZARETTI et al., 2007) O principal objetivo é o terapeuta levar o cliente a tomar consciência de sua situação atual de vida, bloqueios, assim como ansiedade pela vida futura e dificuldades que afetam consideravelmente a vida presente, acarretando 33 dificuldades de ajustamento e de relacionamento. Ao entrar em contato com suas dificuldades, a pessoa se depara com frustrações e isto favorece o crescimento, pois é através delas que o indivíduo dirige sua energia, a fim de mudar. Sendo assim, na maioria das vezes, as mudanças vão ocorrer, depois de um grande sofrimento e dedicação (LAZZARETTI et al., 2007, p.36). Segundo os mesmos autores, o indivíduo é considerado como um todo, ou seja, possui corpo, mente e vive em interação com seu meio social. O papel do terapeuta é auxiliar o paciente a se ver no mundo, como um ser que possui potencialidades e, em algumas situações cabe a ele mudar ou aceitar-se como ele é. O sintoma se solidifica quando o indivíduo não consegue descobrir novas soluções para seus problemas ou um efeito que lhe dê satisfação. Atitudes compensatórias do organismo podem ser tanto físicas quanto mentais e, em geral, ocorrem de maneira inconsciente. [...] O psicólogo hospitalar deve trabalhar o sintoma, que significa trabalhar o real e o irreal da pessoa. O sintoma como resistência múltipla (físico-mental) se coloca entre o desejo e a proibição, porque ele surge como solução provisória de uma ansiedade maior. O psicólogo deve saber respeitar a resistência, pois ela pode indicar que o paciente ainda não tem suporte suficiente para entrar em determinados conteúdos. Não é necessariamente uma patologia, mas uma forma de relacionar-secom o mundo (LAZZARETTI et al., 2007, p.36). 4.3 Neuropsicologia A neuropsicologia é uma área em expansão, a qual recebeu influências acadêmicas da Neurologia, Biologia, Psiquiatria, Fonoaudiologia e Psicologia. Possui grande relevância tanto na área da avaliação, quanto na área da reabilitação (LAZZARETTI et al., 2007). A Neuropsicologia Clínica se inseriu definitivamente nos centros de pesquisa e clínica neurológica/neuropediátrica, atuando na investigação das funções cognitivas superiores de pacientes com doenças que envolvem o sistema nervoso central e seus dados são correlacionados com os exames neurológicos, neurofisiológicos e de imagem. O mesmo ocorreu nos campos da psiquiatria e da geriatria. Ao psicólogo hospitalar cabe conhecer os fundamentos da Neuropsicologia, princípios básicos de avaliação neuropsicológica e métodos breves de exame para corretamente indicar. A Neuropsicologia Clínica se inseriu definitivamente nos centros de pesquisa e clínica neurológica/neuropediátrica, atuando na investigação das funções cognitivas superiores de pacientes com doenças que envolvem o sistema nervoso central e seus dados são correlacionados com os exames neurológicos, neurofisiológicos e de imagem. O mesmo ocorreu nos campos da psiquiatria e da geriatria. Ao psicólogo hospitalar cabe conhecer os fundamentos da Neuropsicologia, princípios básicos de avaliação neuropsicológica e métodos breves de exame para corretamente indicar avaliações mais aprofundadas. Ao neuropsicólogo que atua em ambiente 34 hospitalar cabe conhecer Psicologia Clínica e Hospitalar, para melhor integrar a equipe multidisciplinar (LAZZARETTI et al., 2007, p.38-39). No Brasil merece destaque a Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp, s.d.), entidade que apoia e divulga o estudo das funções cognitivas humanas e seus respectivos distúrbios em pacientes que sofreram lesões cerebrais. Dentre os profissionais especializados na neuropsicologia, além dos psicólogos, merecem destaque os médicos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, pedagogos, dentre outros, o que a caracteriza como uma ciência multi, inter e transdisciplinar. Merecem destaque as áreas da saúde e da educação e, dentre os temas pesquisados pela neuropsicologia, podem-se destacar o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), as demências, dentre outras condições que podem ser de interesse do psicólogo hospitalar. 4.4 Psicanálise Segundo Cordioli (2008), na psicanálise, as sessões podem acontecer de 3 a 5 vezes por semana e duram de 45 a 50 minutos. O tratamento pode durar por vários anos. O analista adota uma postura neutra, senta-se atrás do paciente, o qual expõe livremente suas ideias pelo método da associação livre (o qual será elucidado a seguir). O analista interrompe algumas associações do paciente de forma que se estabeleçam conexões entre suas emoções, fantasias e a pessoa do terapeuta (transferência). O saber da medicina e o saber do psicanalista são de ordens heterogêneas, trafegam na contramão um do outro e seus objetos são completamente distintos. Por esta razão – e sobretudo por esta – o médico e o psicanalista podem trabalhar juntos se não tiverem – um ou outro – a ilusão da reciprocidade, da linguagem comum e da complementaridade. Podem se auxiliar mutuamente, mas a manutenção da diferença entre as duas ordens de saber é que pode derivar em eficácia de trabalho. (LAZZARETTI et al., 2007, p.40). A psicanálise é uma linha de ação bastante difundida nos hospitais. Tendo o inconsciente como objeto de estudo, possibilita a atuação do psicanalista no hospital, já que considera o tempo lógico do sujeito (o inconsciente é atemporal). A partir desse pressuposto, o tempo atinge uma conotação simbólica, diferenciada da concepção de tempo e das formas de medir esse que dispomos em nossa realidade. 35 Assim, uma intervenção, em determinados pacientes, pode ser eficaz mesmo se for única, pois obedece a este tempo lógico do paciente (LAZARETTI et al., 2007). É necessário enfatizar que houve uma série de mudanças relacionadas à psicanálise desde a época de Freud. Nos primórdios, o paciente era o sofredor de sintomas clássicos, como a histeria, já atualmente, a psicanálise não se vê restrita à eliminação de sintomas histéricos, fóbicos e obsessivos. A busca da psicanálise se dá em função de diversos sintomas, tais como transtornos do sentimento de identidade, quadros depressivos, estresse, angústia leve, baixa autoestima, patologias regressivas, somatizadores, transtornos alimentares, “patologia do vazio”, dentre outros (ZIMERMAN, 2004). A associação livre é a regra do método psicanalítico e é pressuposto essencial ao trabalho do psicanalista, mesmo na instituição hospitalar. A transferência estabelecida entre analista e paciente muitas vezes acontece em divergência do saber do médico (LAZARETTI et al., 2007). Cordioli (2008) define a associação livre, a regra fundamental da psicanálise. “O paciente é orientado a expressar livremente e sem censura os seus pensamentos, sentimentos, fantasias, sonhos, imagens, assim como as associações que lhe ocorrem, sem prejulgar sua relevância ou significado” (p.24). 4.5 Psicodrama O psicodrama visa abordar as relações interpessoais, por isso sua aplicabilidade ocorre também na instituição hospitalar, espaço marcado por várias interações. Pode ser realizado individualmente ou em grupo e consiste, basicamente, na representação dramática como centro dos conflitos humanos, buscando trabalhar no aqui e agora, passado, presente e futuro (LAZZARETTI et al., 2007). Neste sentido, a Teoria Psicodramática pode fundamentar e facilitar as tarefas de diagnóstico, acompanhamento e planejamento do psicólogo, bem como a sensibilização e transformação dos profissionais e a incorporação em seu trabalho do "entendimento das dinâmicas institucionais". [...] Na Clínica Hospitalar, encontramos o indivíduo vivenciando uma experiência antagônica, muitas vezes ao seu cotidiano. O momento pode se constituir de expectativa, dor, medo, abandono, trauma psicológico e físico, entre outros. Esse momento pode ser utilizado como campo de trabalho para o Psicodrama. Um acidente de trânsito, uma patologia incapacitante ou de longo tratamento pode desencadear ou mobilizar vivências internas anteriores, mal adaptadas, influenciando negativamente na relação do 36 paciente com a equipe hospitalar e com o processo do adoecer (LAZZARETTI et al., 2007, p.42). O psicólogo pode realizar, dentro do hospital, tarefas assistenciais, docentes e organizacionais. Sua atuação será destinada a atender o paciente em seu processo com a enfermidade, realizar diagnósticos e atuar a nível de prevenção, humanizando a realidade hospitalar (LAZZARETTI et al., 2007). Através da utilização de algumas das técnicas do psicodrama, podemos observar o aumento da autoestima, diminuição da ansiedade, elaboração do sentido de perda, elaboração da imagem e esquema corporal, esclarecimento de concepções errôneas, liberação e conscientização dos sentimentos e sensações. (LAZZARETTI et al., 2007, p.42). 4.6 Psicologia Analítica A psicologia analítica, ou Junguiana, é marcada pelo estudo dos símbolos, do inconsciente, inconsciente coletivo e consciente. Nesse processo terapêutico, evita-se o uso de técnicas, “porque se pretende elucidar as circunstâncias conscientes e inconscientes que tornam a doença possível e que a sustentam no presente.” (LAZZARETTI et al., 2007, p.45). No hospital, é indispensável compreender a subjetividade, isto é, como a enfermidade incide e o sentido que tem para aquele que adoece. Lembrando que existe uma justaposição de conteúdos peculiares, universais do ser humano e valores do coletivo social. A doença tem para a Psicologia Analítica uma função: possibilitar uma revisão do que se fez na própria existência. Sendo assim,experimentar o adoecimento e o processo do tratamento é uma oportunidade para tornar-se o que de fato é e o que sempre foi, quiçá, sem saber. Para tal, por vezes, faz-se necessário o sacrifício da mutação e algumas renúncias, até mesmo, da própria vida para que ocorra a “cura”, compreendendo cura como transformação, a qual ocorre no percurso sucessivo do caminho da individuação. (LAZZARETTI et al., 2007, p.45). As sessões ocorrem de uma a três vezes por semana e o terapeuta senta-se de frente ao paciente. O tratamento, assim como na psicanálise, é de longa duração. As associações não são tão livres como na psicanálise e a transferência também é menos intensa (CORDIOLI, 2008). 4.7 Teoria Sistêmica A teoria sistêmica inicialmente era voltada apenas para a compreensão e o entendimento da família, porém, com o passar dos anos, deixou de ser exclusiva da 37 terapia familiar e passou a ser utilizada também como recurso terapêutico para psicoterapia individual (LAZZARETTI et al., 2007). Os terapeutas sistêmicos passam a levar em conta os efeitos que suas intervenções podem ter sobre seus clientes, sobre os outros sistemas significantes relacionados com a família e sobre eles próprios. À medida que o terapeuta sistêmico vai sendo capaz ou mais habilidoso para compartilhar os padrões de comunicação das redes nas quais está envolvido, ele se torna capaz de evitar alguns problemas que originalmente o frustravam e desapontavam; começando a detectar os efeitos de suas ações sobre os outros e avaliando com maior eficácia a retroalimentação vinda dos sistemas aos quais está ligado (LAZZARETTI et al., 2007, p.46). A experiência de adoecimento impacta não só a vida do paciente, mas de toda a sua família, que sofre desajustes emocionais, financeiros, dentre outros. A doença acaba por fazer emergir uma série de questões e conflitos latentes, por isso trabalhar com a família num momento de grande fragilidade pode ser muito válido. 4.8 Psicoterapia de grupo Além dessas modalidades apresentadas pelo Conselho Regional de Psicologia (LAZZARETTI et al., 2007) num manual como as diferentes linhas de atuação dos psicólogos que atuam em instituições hospitalares, cabe acrescentar que a Psicoterapia de Grupo também possui grande aplicabilidade no contexto institucional. As terapias de grupo visam atender a um maior número de pessoas, o que aparece como uma forma de redução de custos e ampliação dos pacientes beneficiados pela intervenção em determinado período de tempo (se comparado com a psicoterapia individual). Além disso, os denominados fatores grupais estão presentes apenas nesse tipo de interação, os quais podem ser bastante favoráveis (CORDIOLI, 2006). Os grupos podem ser montados em instituições (como hospitais e clínicas) ou fora delas e podem ser especializados em transtornos (pânico, dor fobias, entre outros) ou doenças orgânicas (diabéticos, paraplégicos, vigilantes do peso, entre outros). As técnicas são variadas, dependendo da orientação do terapeuta que irá conduzir o grupo (CORDIOLI, 2006). Um tipo especial de grupo muito utilizado pelo psicólogo hospitalar e da saúde é o grupo de ajuda mútua. Esses grupos visam prestar assistência psicológica a pacientes ou familiares de pacientes que possuem uma determinada situação em 38 comum. Além disso, oferecem apoio mútuo para lidar com os sentimentos negativos relacionados à doença e disponibilizam informações relacionadas à doença para que pacientes e familiares possam lidar melhor com a mesma (CORDIOLI, 2006). No Brasil, uma instituição que oferece grupos de ajuda mútua coordenados por equipe multidisciplinar em saúde, cuidadores e familiares voluntários é a Associação Brasileira de Alzheimer – ABRAZ. As reuniões são voltadas para familiares de portadores da doença de Alzheimer e cuidadores profissionais e, normalmente, possuem periodicidade mensal. Os grupos podem ser de cunho informativo, de apoio social e emocional ou mesmo recreativos. Em alguns locais há também grupos voltados também para o portador da doença, os quais são voltados para a estimulação cognitiva (ABRAZ, s.d.). Dentre os benefícios dos grupos para cuidadores da ABRAZ (s.d., s.p.) destacam-se: Acesso a informações atualizadas sobre a doença e os tratamentos, aumentando a segurança de cuidado e a tomada de decisões. Favorecimento da aceitação da nova situação, que envolve mudanças significativas na vida e na qualidade de vida dos envolvidos. Investimento na qualidade de vida de todos os que participam do cuidado com o idoso com Doença de Alzheimer. Desenvolvimento de um enfrentamento mais positivo e saudável da situação de adoecimento e perdas associadas. Favorecimento da interação com o idoso a partir de melhor compreensão das necessidades da pessoa com demência, seus sintomas e estratégias de manejo. Cordioli (2006) aponta algumas indicações dos grupos de ajuda mútua: Pacientes agudos internados em hospitais psiquiátricos: na preparação da alta, no uso de medicações psiquiátricas (manejo dos efeitos colaterais, doses), no acompanhamento de egressos. Em situações de crise ou estresse agudo (vítimas de desastres naturais) ou em eventos vitais (luto, divórcio, aposentadoria, entre outros). Manejo de condições médicas: diabetes, obesidade, hipertensão, tabagismo, transplante, preparação para cirurgia cardíaca, pós-infarto, colostomia, mastectomia, próteses, uso de aparelhos médicos de reabilitação e outras amputações, transtornos alimentares, entre outros. Condições psiquiátricas: controle do peso e reeducação alimentar nos transtornos alimentares, auxílio para cessar o tabagismo, prevenção de recaídas em drogaditos, entre outros (p.40). 4.9 Reflexão final sobre as linhas de abordagem psicológica Independente da linha seguida pelo profissional, sabe-se que o papel do psicólogo hospitalar é de grande utilidade em termos de prevenção ou recuperação da saúde. Como se preconiza a abordagem do ser humano em suas dimensões 39 biopsicossocial e espiritual, o profissional da psicologia é de suma importância, já que o mesmo atua diretamente na dimensão psicológica do ser humano. Como mente e corpo não podem ser separados, essa atuação se faz importante não só a nível dos processos relacionados à mente, como também ao próprio corpo do paciente – que, mesmo com a tendência de se abordar o homem como um todo, continua sendo a dimensão mais visada pelos profissionais da saúde (até mesmo em função da sua relação com as necessidades de sobrevivência). Optamos por não expor aqui as críticas relacionadas a esta ou àquela teoria psicoterápica de forma a não parecermos tendenciosos em relação a esta ou àquela teoria, porém, ao finalizarmos essa seção, algumas reflexões nesse sentido podem se fazer relevantes. A partir da década de 1950 emergiu uma maior preocupação com a avaliação da efetividade de suas teorias, suas respectivas técnicas, alcances e limites. Houve uma série de críticas acerca da validade das psicoterapias e, dentre elas, ressaltam-se as posições expostas por Eysenck e Rogers. Eysenck argumentou que os efeitos da psicoterapia não eram devidos às técnicas utilizadas, porém à passagem do tempo em si. Por outro lado Rogers defendeu a ideia de que os efeitos da terapia não ocorriam em decorrência da técnica utilizada, mas sim da relação humana estabelecida entre terapeuta e paciente, independente da linha escolhida (CORDIOLI, 2008). Assim, cabe ao profissional fazer suas próprias críticas acerca das diferentes teorias apresentadas. Lembre-se de que uma crítica construtiva e bem embasada só ocorre após o conhecimento mais aprofundado daquilo que se pretende avaliar. Independente de qual seja o real fator responsável pelo sucesso das terapias defendemos o ponto de vista de que, independente da área escolhida pelo profissional, as psicoterapias sãobenéficas ao paciente como um todo. De qualquer forma, existe, na atualidade, um relativo consenso de que as terapias são efetivas. Há uma concordância, também, de que boa parte dos seus efeitos devem-se a um conjunto de fatores que envolvem as técnicas específicas utilizadas, próprias de cada modelo, e, ainda, um complexo conjunto de elementos que inclui, além das referidas técnicas, os chamados fatores não específicos comuns a todas as psicoterapias. Tais fatores abrangem o próprio contexto interpessoal da terapia: a pessoa do terapeuta e, em particular, algumas qualidades, como empatia, calor humano e interesse genuíno; a qualidade da relação terapêutica (a aliança terapêutica e o vínculo); além de fatores pessoais do próprio paciente, como a capacidade de vincular-se ao terapeuta, seu nível educacional, sua cultura, suas crenças, suas expectativas, sua motivação para realizar mudanças em 40 sua vida, e a maior ou menor flexibilidade para adaptar-se a cada método específico (CORDIOLI, 2008, p.20). 41 UNIDADE 5 – PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E SUA RELAÇÃO COM A SAÚDE E O ADOECIMENTO 5.1 O processo de desenvolvimento humano Compreender o desenvolvimento humano se faz essencial para todos os profissionais que lidam com pessoas de diferentes faixas etárias. Nesse sentido, é importante para o psicólogo hospitalar e da saúde compreender o processo de desenvolvimento humano e algumas questões relacionadas com as mudanças e continuidades que acontecem com o ser humano desde o nascimento (ou mesmo antes dele) até a sua morte. Inicialmente, faz-se necessário conceituar desenvolvimento humano. Compreende-se que: O desenvolvimento humano envolve o estudo de variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo ciclo da vida. Desta forma faz interface com diversas áreas do conhecimento como: a biologia, antropologia, sociologia, educação, medicina entre outras. (MOTA, 2005, p.106) Em síntese, o desenvolvimento humano é o estudo científico das mudanças e das continuidades que ocorrem durante todo o ciclo vital do indivíduo. Essas mudanças são adaptativas e organizadas e refletem o processo de adaptação do homem num mundo repleto de constantes transformações (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Pensando nessas variáveis, a definição de Mota (2005) é mais abrangente: O estudo, através de metodologia específica e levando em consideração o contexto sócio-histórico, das múltiplas variáveis, sejam elas cognitivas, afetivas, biológicas ou sociais, internas ou externas ao indivíduo que afetam o desenvolvimento humano ao longo da vida (p.107). Assim como na área da saúde, o estudo do desenvolvimento humano preconiza a importância de se voltar para a prevenção e a promoção da saúde, ao contrário de intervir apenas naqueles indivíduos que já apresentam os problemas instalados. Ao se identificar fatores que influenciam no desenvolvimento humano, torna-se possível pensar em trabalhos de intervenção mais eficazes com o intuito de promover um desenvolvimento mais harmônico e saudável (MOTA, 2005). Segundo a autora supracitada: 42 As novas concepções de atuação profissional que enfatizam a prevenção e a promoção de saúde fazem com que profissionais de várias áreas busquem na psicologia do desenvolvimento subsídios teóricos e metodológicos para sua prática profissional. O que está em questão é o desenvolvimento harmônico do indivíduo, que integra não apenas um aspecto, mas todas as dimensões do desenvolvimento humano sejam elas: biológicas, cognitivas, afetivas ou sociais (p.105). Inicialmente, acreditava-se que o desenvolvimento ocorria apenas na infância, visto que até o início do século XX, a adolescência não era compreendida como um período separado da infância. Alguns manuais de psicologia do desenvolvimento ainda enfocam apenas o estudo da infância e da adolescência (MOTA, 2007; COLE; COLE, 2005). Isto se justifica pela preocupação da população com os cuidados e a educação da criança (MOTA, 2007), que nasce em condição de total vulnerabilidade e dependência do outro para sobreviver. Atualmente, fala-se em desenvolvimento no ciclo vital, ou seja, o desenvolvimento acontece por toda a vida, do nascimento à morte (MOTA, 2007; PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Para estudarmos o desenvolvimento humano, algumas questões devem ser levadas em consideração, as quais aparecem sintetizadas na tabela a seguir: Tabela 01: Questões relativas ao estudo do desenvolvimento humano QUESTÃO DESCRIÇÃO Os domínios do desenvolvimento são inter- relacionados Por questões didáticas, costumamos separar as instâncias desenvolvimento físico-motor, afetivo-sexual, psicossocial, cognitivo (intelectual). Processo contínuo X por etapas Desenvolvimento contínuo: processo pelo qual o homem é passivo. O desenvolvimento é governado sempre pelos mesmos processos, permitindo a predição de comportamentos posteriores a partir da observação dos comportamentos anteriores. Ex.: teoria do Curso da Vida (Baltes). Desenvolvimento por etapas: em cada etapa, as pessoas lidam com diferentes tipos de problemas e desenvolvem diferentes tipos de capacidades. Cada etapa fundamenta-se nas anteriores e prepara o caminho para a seguinte. Ex.: Teoria Psicodinâmica (Freud), Teoria Psicossocial (Erikson), Teoria do Desenvolvimento Cognitivo (Piaget). Processo vitalício Desenvolvimento envolve ganhos e perdas. Cada período da vida é influenciado pelo que aconteceu antes e afetará o que estará por vir. É um processo pelo qual o indivíduo adapta-se ao 43 ambiente e à sua realidade. Ênfase nas diferenças individuais Cada pessoa é única e as influências no desenvolvimento são responsáveis pela individualidade. As pessoas ajudam a moldar seu próprio desenvolvimento e influenciam as reações do outros em relação a elas. Conhecer o normal e o patológico A partir do estudo das características normais do desenvolvimento humano. torna-se possível observar atrasos, síndromes, doenças e limitações. Influências no desenvolvimento História. Contexto. Hereditariedade (influências inatas). Ambiente (influências externas à pessoa). Família. Condição socioeconômica. Cultura. Influências normativas: eventos que ocorrem de modo semelhante pela maioria das pessoas (puberdade, aposentadoria). Influências não-normativas: eventos incomuns que têm grande impacto sobre vidas individuais (gravidez na adolescência, acidente que gera incapacidade). Fonte: Papalia, Olds, Feldman, 2006. A partir dessas observações presentes na tabela anterior, podemos fazer algumas considerações importantes para o psicólogo hospitalar e da saúde. Partimos do pressuposto de que o homem é um ser holístico, ou seja, sempre deve ser abordado em suas dimensões biopsicossocial e espiritual. Essa consideração é indispensável a todos os profissionais que atuam em hospital, onde é comum se privilegiar o orgânico, o corpo, em detrimento das outras dimensões. Compreender que todas essas dimensões estão inter-relacionadas ao longo do processo de desenvolvimento leva o profissional a refletir que realmente é impossível separar um domínio do outro. O desenvolvimento ocorre do nascimento (ou da concepção) à morte, porém não há consenso entre os autores em como se dá esse processo, se é contínuo ou em etapas. O desenvolvimento segue basicamente o mesmo padrão em todas as pessoas, por exemplo, sabe-se que por volta do primeiro ano de vida o bebê aprenderá a falar e a andar, entretanto não podemos deixar de lado as diferenças individuais, as quais explicam, por exemplo, porque se compararmos quatro bebês saudáveis em seu primeiro aniversário constataremos que o bebê A já anda sozinho 44 e fala, enquanto o bebê B já fala, porém apenas engatinha, o bebê C locomove-se com precisão, porém não balbucia nenhuma palavra e obebê D não se locomove sem o auxílio dos pais e não fala nenhuma palavra. Esse mesmo exemplo servirá para desenvolvermos o outro raciocínio. Conhecer o processo de desenvolvimento humano é essencial para sabermos o que está dentro dos padrões de normalidade e o que foge a esses padrões. Inferimos que os bebês A, B, C e D, cada um com suas características individuais, estão se desenvolvendo dentro dos padrões esperados. Porém, na mesma festa há a criança F, de 4 anos, que se locomove normalmente, mas não diz nenhuma palavra. Percebe-se que a aquisição da fala não ocorreu na época normal nessa criança, o que pode sugerir algum tipo de problema (nos órgãos fonadores, audição, neurológico, psicológico, transtorno [como o autismo], ou social [como a falta de estimulação]) responsável por esse atraso. Verifica-se também que as influências no desenvolvimento podem ser internas ou externas ao indivíduo. Saber quais variáveis influenciam no curso do desenvolvimento do sujeito pode auxiliar no sentido de promover um desenvolvimento mais saudável, buscando reduzir ao máximo as influências maléficas ao desenvolvimento. Também se faz importante saber que alguns desses fatores não podem ser mudados (como a hereditariedade e certas influências não normativas). Não está no escopo desse material detalhar todo o processo de desenvolvimento, iremos expor na tabela a seguir como normalmente os estudiosos dividem o processo de desenvolvimento e os principais desenvolvimentos ocorridos nos aspectos físico, cognitivo e psicossocial em cada uma dessas etapas. Após isso, iremos refletir sobre os processos de saúde e adoecimento e sua influência em cada período do ciclo vital, o que gerará importantes subsídios para a prática do psicólogo hospitalar e da saúde. Tabela 02: Principais desenvolvimentos típicos em oito períodos do ciclo vital: Faixa Etária Desenvolvimentos Físicos Desenvolvimentos Cognitivos Desenvolvimentos Psicossociais Período Pré-natal (concepção ao nascimento) Ocorre a concepção. A dotação genética interage com as As capacidades de aprender e lembrar estão presentes durante a etapa fetal. O feto responde à voz da mãe e desenvolve uma preferência por ela. 45 influências ambientais desde o início. Formam-se as estruturas e os órgãos corporais básicos. Inicia-se o crescimento cerebral. O crescimento físico é o mais rápido de todo o ciclo vital. O feto ouve e responde a estímulos sensórios. A vulnerabilidade a influências ambientais é grande. Primeira Infância (nascimento aos 3 anos) Todos os sentidos funcionam no nascimento em graus variados. O cérebro aumenta de complexidade e é altamente sensível à influência ambiental. O crescimento e o desenvolvimento físico das habilidades motoras são rápidos. As capacidades de aprender e lembrar estão presentes, mesmo nas primeiras semanas. O uso de símbolos e a capacidade de resolver problemas desenvolvem-se ao final do segundo ano de vida. A compreensão e o uso da linguagem desenvolvem-se rapidamente. Desenvolve-se um apego a pais e outras pessoas. Desenvolve-se a autoconsciência. Ocorre uma mudança da dependência para a autonomia. Aumenta o interesse por outras crianças. Segunda Infância (3 aos 6 anos) O crescimento é constante; o corpo fica mais delgado e as proporções mais semelhantes às de um adulto. O pensamento é um pouco egocêntrico, mas a compreensão do ponto de vista das outras pessoas O autoconceito e a compreensão das emoções tornam-se mais complexos; a autoestima é global. 46 O apetite diminui e os problemas de sono são comuns. A preferência pelo uso de uma das mãos aparece; as habilidades motoras finas e gerais e a força aumentam. aumenta. A imaturidade cognitiva leva a algumas ideias ilógicas sobre o mundo. A memória e a linguagem se aperfeiçoam. A inteligência torna-se mais previsível. Aumentam a independência, a iniciativa, o autocontrole e os cuidados consigo mesmo. Desenvolve-se a identidade de gênero. O brincar torna-se mais imaginativo, mais complexo e mais social. Altruísmo, agressão e os temores são comuns. A família ainda é o foco da vida social, mas as outras crianças tornam-se importantes. Frequentar a pré- escola é comum. Terceira Infância (6 aos 11 anos) O crescimento diminui. Forças e habilidades atléticas aumentam. Doenças respiratórias são comuns, mas a saúde geralmente é melhor do que em qualquer outro período do ciclo vital. O egocentrismo diminui. As crianças começam a pensar com lógica, mas de maneira concreta. As habilidades de memória e linguagem aumentam. O autoconceito torna-se mais complexo, influenciando a autoestima. A corregulação reflete a transferência gradual de controle dos pais para a criança. Os amigos assumem importância central. Adolescência (11 aos aproximadamente 20 anos) O crescimento físico e outras mudanças são rápidas e profundas. Ocorre maturidade reprodutiva. Questões comportamentais, Desenvolve-se a capacidade de pensar em termos abstratos e utilizar o raciocínio lógico. O pensamento imaturo persiste em algumas atitudes e em Busca de identidade, incluindo a identidade sexual, torna-se central. Relacionamento com os pais são, em geral, bons. Os grupos de amigos ajudam a 47 como transtornos alimentares e abuso de drogas, trazem importantes riscos à saúde. alguns comportamentos. A educação se concentra na preparação para a faculdade ou para a vida profissional. desenvolver e testar o autoconceito, mas também podem exercer uma influência antissocial. Jovem adulto (20 aos 40 anos) A condição física atinge o máximo, depois diminui ligeiramente. As escolhas de estilo de vida influenciam a saúde. As capacidades cognitivas e os julgamentos morais assumem maior complexidade. Escolhas educacionais e profissionais são feitas. Os traços e estilos de personalidade tornam-se relativamente estáveis, mas as mudanças na personalidade podem ser influenciadas pelas etapas e pelos eventos de vida. Tomam-se decisões sobre os relacionamentos íntimos e os estilos de vida pessoais. A maioria das pessoas casa-se e tem filhos. Meia-idade (40 aos 65 anos) Pode ocorrer alguma deterioração das capacidades sensórias, da saúde do vigor e da destreza. Para as mulheres, chega a menopausa. A maioria das capacidades mentais atinge o máximo; a perícia e as capacidades de resolução de problemas práticos são acentuadas. O rendimento criativo pode diminuir, mas melhorar em qualidade. Para alguns, o êxito na carreira e o sucesso financeiro alcançam o máximo; para O senso de identidade continua se desenvolvendo; pode ocorrer uma transição de meia-idade estressante. A dupla responsabilidade de cuidar dos filhos e dos pais idosos pode causar estresse. A saída dos filhos deixa o ninho vazio. 48 outros, podem ocorrer esgotamento total ou mudança profissional. Terceira Idade (65 anos em diante) A maioria das pessoas é saudável e ativa, embora a saúde e as capacidades físicas diminuam um pouco. O tempo de reação mais lento afeta alguns aspectos do funcionamento. A maioria das pessoas é mentalmente alerta. Embora a inteligência e a memória possam se deteriorar em algumas áreas, a maioria das pessoas encontra formas de compensação. A aposentadoria pode oferecer novas opções para a utilização do tempo. As pessoas precisam enfrentar as perdas pessoais e a morte iminente. Os relacionamentos com a família e com os amigos íntimos pode oferecer apoio importante. A busca de significado na vida assume importância central. Fonte: Papalia, Olds e Feldman (2006, p.52-53). 5.2 Desenvolvimento humano, saúde e adoecimento Comojá foi afirmado no início dessa seção, tendemos a promover a saúde e prevenir a ocorrência de doenças em todas as fases do ciclo vital. Entretanto, sabe- se que nem sempre isso é possível. Algumas doenças ainda não podem ser prevenidas e surgem em qualquer momento da vida, gerando prejuízos biopsicossociais para aquele que adoece e seus familiares. Assim como a doença, a morte também pode aparecer em qualquer etapa do ciclo vital e acarreta consigo uma série de desajustes àqueles próximos da pessoa que se foi. É importante para o psicólogo hospitalar e da saúde refletir não apenas do ponto de vista da prevenção, mas sobre o sentido do adoecer nas diferentes etapas da vida. Será que ficar doente para a criança tem o mesmo sentido que para o idoso? Pretendemos levantar alguns questionamentos acerca dessa indagação. 49 a) Saúde e complicações no período pré-natal Na fase pré-natal, o feto é muito suscetível a estímulos ambientais, por isso ressalta-se a importância aos cuidados pré-natais que a gestante deve ter. Condições genéticas e ambientais podem influenciar nos padrões de saúde e adoecimento do bebê que irá nascer. As influências genéticas são transmitidas pelos pais desde o momento da fecundação. O ambiente, nesse caso, é compreendido como o corpo da mãe, por isso o cuidado com sua saúde é essencial para o bem-estar do feto. Dentre as potenciais ameaças para o bebê merecem destaque o consumo de drogas (medicamentos, álcool, fumo e drogas ilícitas), a nutrição inadequada da mãe, a exposição a vírus e outras doenças maternas, a idade da mãe. A exposição do pai a substâncias como metais pesados e drogas, e sua idade também são citadas como condições desfavoráveis à saúde do bebê. As complicações às quais o bebê pode estar exposto podem ser relacionadas à saúde física, mental e cognitiva, sendo os efeitos temporários ou permanentes (PAPALIA; OLDS: FELDMAN, 2006). A atuação do psicólogo pode ser relevante durante o período pré-natal, de forma a prestar assistência frente às ansiedades e temores da gestante, inferindo também que o estado emocional da mesma pode influir negativa ou positivamente na saúde do feto. b) Saúde e adoecimento na infância Na tabela anterior foi possível perceber que a infância aparece dividida, por questões didáticas, em três fases distintas: a primeira infância, a segunda infância e a terceira infância. Essa divisão se dá porque, diferentemente das outras fases da vida, a infância é o período onde acontecem mais mudanças do ponto de vista físico, cognitivo e psicossocial, portanto comparar, por exemplo, o desenvolvimento físico de um bebê de três meses com a mesma criança aos seus três anos torna-se impossível. Em muitos casos são seria possível nem inferir que se trata da mesma criança ao examinarmos uma fotografia. Neste momento não é nossa intenção caracterizar as diferenças que ocorrem em cada fase em particular, mas mostrar que a experiência de adoecimento possui diferentes significados para o bebê e a criança de diferentes faixas etárias. Enquanto para um bebê recém-nascido a experiência de hospitalização pode não acarretar prejuízos psicossociais, a mesma experiência pode ser bastante 50 traumática para uma criança de dois anos. Iremos aprofundar mais sobre isso, mas, de maneira geral, é fácil compreender que o recém-nascido ainda não desenvolveu apego aos seus pais e cuidadores próximos, portanto o afastamento pode nem ser percebido por ele. Já para a criança de dois anos, a qual já desenvolveu vínculos com seus pais e pessoas próximas, o afastamento dos pais em determinadas situações pode ser grande gerador de estresse e sofrimento. Ao mesmo tempo, enquanto o bebê é totalmente passivo à situação, a criança de dois anos já tem condições de compreender o que está acontecendo. Se ela já vivenciou situações parecidas anteriormente e sofreu de alguma forma é comum manifestar reações de medo e pavor frente a determinados procedimentos ou pessoas (por exemplo, se afastar e chorar quando próxima de alguém de jaleco branco). O bebê ainda não utiliza objetos para fazer suas brincadeiras, enquanto que para a criança de dois anos os brinquedos são grandes companheiros. Por outro lado, para os pais de ambas as crianças a experiência de ter um filho hospitalizado costuma ser bastante dolorosa. Esses são apenas alguns exemplos de como o processo de adoecimento e consequente hospitalização podem oferecer diferentes impactos em crianças de diversas faixas etárias. O processo de hospitalização, normalmente, vem junto a um clima de tensão e medo, fato que acarreta outras situações desagradáveis: novos horários, exames dolorosos, distanciamento do ambiente familiar, abandono da escola e outras alterações na rotina da criança e, consequentemente, dos familiares. Para que se possam construir novas referências, toda a família e, principalmente, a criança precisam fazer um enorme esforço na busca de mecanismos que permitam compreender esse mundo. A mudança abrupta de ambiente pode ocasionar vários distúrbios na criança como agitação, atraso no desenvolvimento, depressão, entre outros. Assim, para minimizar os traumas da hospitalização, o ambiente não pode se limitar ao leito (ABRÃO, 2012, p.169). Antes de refletirmos sobre algumas situações em particular, vale a pena ressaltar que a criança hospitalizada tem direito a ter um acompanhante (pai, mãe ou cuidador principal) durante o seu processo de hospitalização. Isso ocorre de forma a diminuir a sensação de insegurança da criança frente a pessoas e situações desconhecidas, além de impedir que os vínculos sejam quebrados, o que poderia aumentar ainda mais a sensação de ansiedade em relação a estranhos e medo. Salvo em situações especiais, por exemplo, em quadros que requerem isolamento 51 ou quando a criança necessita permanecer na UTI, a presença do acompanhante é garantida segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990): “Os estabelecimentos de atendimento à saúde deverão proporcionar condições para a permanência em tempo integral de um dos pais ou responsável, nos casos de internação de criança ou adolescente” (art. 12). O documento supracitado também deixa claro que o profissional de saúde deve atentar-se para possíveis casos de violência contra a criança e, nesses casos, deve tomar as providências cabíveis: “Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais” (art 13). Para compreendermos a influência do processo de hospitalização da criança, é importante conhecer de forma mais aprofundada algumas características do desenvolvimento infantil. Segundo Erikson, o desenvolvimento psicossocial ocorre por estágios. No primeiro ano de vida, o bebê vive a primeira crise de desenvolvimento, a qual dura até aproximadamente os 18 meses. Nesses primeiros meses, os bebês desenvolvem um sentimento do quão confiável são as pessoas e os objetos de seu ambiente. Eles precisam desenvolver um equilíbrio entre confiança (que lhes permite formar relacionamentos íntimos) e a desconfiança (que lhes permite se proteger). Quando predomina a confiança, como deve acontecer, as crianças desenvolvem a virtude da esperança: a crença de que elas podem satisfazer suas necessidades e seus desejos. Quando predomina a desconfiança, as crianças verão o mundo como hostil e imprevisível e terão problemas para formar relacionamentos (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.245). A confiança é importante, pois é ela que permitirá que o bebê fique longe da mãe, já que o mesmo confia que ela irá voltar. Além da confiança, uma outra característica essencial no início da vida é o apego “um vínculo emocional recíproco e duradouro entre um bebê e o cuidador, cada um deles contribuindopara a qualidade do relacionamento” (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.245). O apego é essencial no início da vida e interferirá no padrão posterior de relações que a criança estabelece com outras pessoas. A hospitalização no primeiro ano de vida pode comprometer o apego entre o bebê e a mãe, diminuindo a responsabilidade da mãe em relação à criança e 52 interferindo negativamente na relação que deverá se estabelecer entre ambos (SCHIMITZ, 2000 apud CRUZ; COSTA; NOBREGA, 2006). Spitz (1980) realizou importantes estudos acerca do primeiro ano de vida da criança. Dentre suas conclusões, merece destaque nesse momento citar a definição de ansiedade do oitavo mês. Segundo o teórico, antes do oitavo mês, a criança reconhece o rosto humano e estabelece reações de sorriso, porém ainda não demonstra nenhum tipo de reação significativa ao afastamento dos pais ou cuidadores mais próximos. Por volta do oitavo mês, a criança mostra que já reconhece os pais, ou seja, que possui uma relação de apego com seus cuidadores e passa a reagir com agressividade quando o estranho chega, o que popularmente é denominado de reação de “estranhar”. Papalia, Olds e Feldman (2006) definem ansiedade ante estranhos como: “[...] cautela com uma pessoa que não conhece” e a ansiedade de separação como “[...] angústia quando um cuidados familiar a deixa” (p.249). Após a ocorrência desse marco emocional e cognitivo – a ansiedade do oitavo mês –, a ocorrência de hospitalização na criança pode trazer consequências mais graves. Spitz (1980) realizou um estudo com crianças hospitalizadas e observou nelas um quadro que ele denominou como hospitalismo. Segundo ele, a separação da criança com a mãe, após já ter ocorrido um vínculo com a mesma, por um longo período de tempo, pode ocasionar em alterações em sua personalidade, dentre outros sintomas depressivos, os quais interferem negativamente no processo de desenvolvimento da criança. A hospitalização na fase pré-escolar (segunda infância) traz diferentes percepções para a criança. Nessa fase, por ela ainda não dominar as noções de tempo, espaço, distância, o afastamento da mãe pode ser interpretado como algo definitivo. Nessa faixa etária, é quando a hospitalização pode ser encarada como mais agressiva à criança, pois além da separação da mãe acarretar num grande sofrimento para ela, o ambiente hospitalar impede a criança de realizar as atividades próprias de sua idade (SCHIMITZ, 2000, apud CRUZ, COSTA; NOBREGA, 2006). Na fase escolar, a hospitalização representa uma ameaça à integridade física, à capacidade intelectual e à independência da criança, por impedir- lhe o controle do seu corpo e afastá-la dos familiares, dos amigos e da escola (SIGAUD; VERÍSSIMO, 1996 apud CRUZ; COSTA; NOBREGA, 2006, p.101). 53 Compreender o impacto da doença e da consequente hospitalização na criança de diferentes faixas etárias é essencial não apenas para o psicólogo hospitalar, mas para todos os profissionais que compõem a equipe multidisciplinar de saúde que precisa lidar com crianças. Proporcionar o contato com os pais e oferecer um ambiente marcado pela ludicidade, faz-se essencial nesse contexto: Na recreação hospitalar, o brincar é visto como uma atividade essencial para a saúde física, emocional e intelectual da criança. A partir Lei Nº 11.104 de 2005, instituiu-se a todas as unidades que ofereçam atendimento pediátrico, em regime de internação, por obrigatoriedade, instalar brinquedotecas nos hospitais. Através dos direitos adquiridos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Resolução Nº 41 do Ministério da Justiça e do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, de Outubro de 1995, prevê que toda criança e adolescente hospitalizado tem o direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento de currículo escolar durante a permanência hospitalar. Desta forma, o brincar e o brinquedo no ambiente hospitalar passam a ganhar destaque na literatura e nos hospitais brasileiros (ABRÃO, 2012, p.170). A questão do atendimento humanizado à criança hospitalizada será abordada num outro momento no decorrer do curso, porém não mais serão enfatizadas as diferenças relacionadas ao período desenvolvimental pelo qual a mesma está passando. c) Saúde e adoecimento na adolescência A fase da adolescência é marcada por uma grande transformação imposta pelo processo de puberdade, o que implica transformações não somente na esfera física, mas também do ponto de vista psicossocial. Como foi mencionado na tabela, é uma época onde a prevenção ao abuso de drogas e aos transtornos da imagem corporal se mostra de suma importância. Nos casos em que não houve condições de trabalhar a prevenção, o psicólogo hospitalar e da saúde também pode atuar para minimizar os dados frente a problemas já instalados. Definem-se como transtornos alimentares, os transtornos psiquiátricos que se caracterizam por alterações graves no comportamento alimentar. Esse problema acomete, em sua maioria, adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, entretanto, não se deve utilizar esse padrão como regra, já que os transtornos acometem também pessoas do sexo masculino, mais maduras, de diferentes 54 classes socioeconômicas. As consequências são graves, não apenas do aspecto físico, mas do ponto de vista biopsicossocial, podendo inclusive culminar com a morte. Assim como a doença afeta a qualidade de vida como um todo há de se compreender que fatores biológicos, genéticos, psicológicos, familiares e sociais contribuem para o desenvolvimento e a manutenção do transtorno (BORGES et al., 2006). Dentre os fatores psicológicos um que merece destaque é a autoestima. Ter uma boa autoestima é fator protetor, não apenas para os transtornos alimentares, mas, sem sombra de dúvidas, uma pessoa com boa autoestima é uma pessoa mais saudável, que lida melhor com as adversidades impostas pela vida. Mas, o que é autoestima? Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), autoestima significa gostar de si mesmo de modo genuíno e altruísta; não se trata de excesso de valorização de si mesmo ou de arrogância e egocentrismo. Gostamos do que realmente somos, aceitando nossas próprias habilidades e limitações. O papel do outro é importante no desenvolvimento da autoestima, sejam eles familiares, amigos, ou mesmo desconhecidos. Afirmar que um sujeito possui uma autoestima elevada é o mesmo que dizer que ele tem um julgamento positivo de si mesmo. A partir dessa definição, é possível perceber que a autoestima de uma pessoa com transtorno alimentar (ou às vias de desenvolver um desses transtornos) não é positiva, por isso, é necessária uma atenção especial no que diz respeito à atenção a este público-alvo. Em relação ao abuso de substâncias entre os adolescentes, um dado merece a atenção. Nessa etapa do desenvolvimento, a influência dos pares (colegas, grupos de iguais) parece ser crucial, então muitos adolescentes acabam experimentando e tornando-se dependentes químicos porque os colegas o fazem também. Além disso, pesquisas mostram que há uma relação entre as habilidades sociais e o abuso de substâncias, como pode ser observado na citação a seguir: As pesquisas têm trazido dados preocupantes sobre o aumento do uso de substâncias psicoativas entre os adolescentes e reforça a necessidade de aprofundar a investigação nessa área. Inúmeros estudos vão ao encontro do que já se observa na prática clínica, em que muitas vezes, os adolescentes abusadores e dependentes de drogas podem apresentar déficits em habilidades sociais, não conseguindo recusar a oferta de drogas para serem aceitos no grupo de iguais. Os achados de Barkin, Smith & Durant (2002) comprovam a existência de tais déficits, principalmente quanto à dificuldade em resistir às drogas e dizer não, além de reconhecer que o desenvolvimentode habilidades de resistência ao oferecimento de 55 drogas, autoeficácia e tomada de decisões pode auxiliar na redução do comportamento de uso de substâncias psicoativas (WAGNER; OLIVEIRA, 2007, p.111). Em relação aos adolescentes portadores de doenças crônicas, a atuação de equipe multidisciplinar (que inclui o psicólogo) se faz de grande importância, pois além das características biopsicossociais impostas pelo processo normal de adolescência, somam-se as implicações acarretadas pela doença em si. A simultaneidade da adolescência e da doença crônica caracteriza uma crise existencial, sobrepondo-se à outra crise, representada pela enfermidade incurável e respectiva necessidade de tratamento continuado. Neste contexto, o tratamento é mediado pelos médicos e pelos pais, regulando-se pela qualidade da comunicação entre médicos, pais e pacientes (OLIVEIRA; GOMES, 2004, p.460). A questão da adesão ao tratamento (colaboração entre médico e paciente para o sucesso do tratamento) merece ser destacada e a base para isso é uma boa comunicação médico-paciente (OLIVEIRA; GOMES, 2004). Ressalta destacar que nesse contexto, o papel do psicólogo hospitalar e da saúde encontra um diferencial por ser um profissional também empenhado no estudo das relações humanas e, por isso, da comunicação. Oliveira e Gomes (2004) também ressaltam outros fatores relacionados à adesão do tratamento de adolescentes portadores de doenças crônicas, tais como o contexto no qual os pacientes estão inseridos, a forma como os mesmos foram informados ou perceberam a doença, o que pensam e o que fazem do tratamento e, finalmente, como percebem a comunicação com os pais e os profissionais de saúde. Nesse sentido, observa-se que a educação em saúde também pode ser um fator que visa a auxiliar a adesão do jovem ao tratamento. Em relação à conscientização da doença e de seu tratamento por parte do paciente adolescente, pode-se notar as implicações da mesma em sua rotina e em seu estado biopsicossocial, como fica evidente na citação a seguir: A ampliação da capacidade de compreensão que ocorreu na adolescência trouxe as seguintes implicações: conscientização de ser doente, maior conhecimento da doença, descoberta de preconceito, vergonha de ser diferente, hospitalização rotineira, e falta à escola. Ao mesmo tempo, os jovens iam percebendo que não podiam fazer tudo que os outros da mesma idade faziam. Por outro lado, movimentos em favor da autonomia começavam a se manifestar. As falas indicavam duas modalidades relacionais com a autonomia: assumir algumas responsabilidades em relação ao tratamento, por exemplo, fazer os exercícios de fisioterapia sem 56 ajuda; ou não assumir responsabilidade pelo tratamento, ficando na dependência do cuidado de outro, em geral, a mãe (OLIVEIRA; GOMES, 2004, p.462). O profissional da saúde deve se conscientizar de que o adolescente não é mais criança, porém ainda não é um adulto. Isso implica numa postura diferenciada, a qual inclui comunicação clara, de forma que ele possa entender, respeitando à autonomia, característica da faixa etária. d) Saúde e adoecimento na idade adulta Em relação à saúde do adulto, dois pontos de vista merecem ser considerados. Por um lado, como expresso na tabela, o estilo de vida adotado nessa faixa etária influencia nas condições de saúde futuras. Por outro lado, também será exposta a questão da diferença de gêneros e o cuidado da saúde, o que é bastante relevante. Atualmente, é visível a preocupação das pessoas em adotarem um estilo de vida mais saudável e ativo como forma de prevenir doenças e, naqueles que já possuem problemas instalados, para garantir uma melhora em seu estado geral: Para alguns estudiosos, os indivíduos sedentários procuram fazer exercícios para que estes lhe proporcionem bem-estar físico, social e mental, ou seja, aumentar o limiar da saúde e evitar doenças físicas e psicossomáticas (LEITE, 2000, p.4). A prática de atividade física, aliada a uma alimentação saudável e a abstinência de drogas, tabaco e álcool aparece em diversas literaturas (LEITE, 2000; PITANGA, 2002) como relevantes formas de se promover uma vida mais saudável no presente e no futuro. Isso se faz ainda mais importante se levarmos em consideração alguns dados epidemiológicos, os quais serão elucidados a seguir. Segundo Powers e Howley (2000), nos EUA, nos últimos 100 anos, a principal causa de morte deixou de ser as doenças infecciosas, como a tuberculose e a pneumonia, passando a ser as doenças degenerativas, como o câncer e as doenças cardiovasculares. Essas últimas são multicausais, podendo-se destacar fatores genéticos (não podem ser modificados, são inatos), ambientais e comportamentais (esses dois últimos podem ser modificados pelo indivíduo). Os autores costumam falar em uma rede de causas, já que os denominados fatores de risco interagem entre si, além disso, vale a pena destacar que é de extrema 57 importância o desenvolvimento de programas de prevenção voltados à saúde pública para que a população se eduque e se torne responsável pela sua própria saúde. Importante destacar que algumas dessas doenças degenerativas podem ter seu início retardado ou impedido se alguns fatores ambientais ou comportamentais forem modificados. Pitanga (2002) aponta que o sedentarismo se destaca, nesse paradigma, como um dos fatores de risco para os agravos à saúde, daí a íntima relação entre epidemiologia, saúde e atividade física. Podemos inferir que a prevenção e a cura das doenças que anteriormente dizimava a população não dependiam muito dos próprios indivíduos (apesar de que antes da descoberta dos antibióticos e das vacinas, por exemplo, algumas matavam em um curto intervalo de tempo). Atualmente, a situação é diferente. Como já foi abordado, as doenças que dizimam grande parte da população são as doenças degenerativas (ou doenças crônicas não transmissíveis – DCNT). Para essas doenças não há vacina, as medidas de saneamento não trazem o controle das mesmas, há necessidade de grande participação do indivíduo em seu tratamento: mudança de hábitos alimentares, adoção de atividade física regular, remédios de uso contínuo, visitas regulares a uma equipe multiprofissional de saúde. Em síntese, o paciente passa a ser responsável pelo sucesso de seu tratamento, a doença não leva ao óbito num curto prazo de tempo, mas suas complicações oneram todo o sistema de saúde (RAMOS, 2002). Pensando na possibilidade de um presente e um futuro mais saudáveis e com menos complicações, que podem gerar a dependência, o adulto deve abrir mão de hábitos nocivos e adotar um estilo de vida mais saudável. Entretanto, algumas literaturas indicam que há diferenças nas formas em que homens e mulheres cuidam de sua própria saúde. Segundo Costa-Júnior e Maia (2010): As diferenças sociais que em nossa cultura caracterizam os sexos irão delimitar determinados percursos para o desenvolvimento social e psicológico de homens e mulheres. Isso pode ter relação quanto aos cuidados com o corpo e a saúde (p.24). Meninos e meninas recebem uma educação diferenciada, já que cada cultura transmite os padrões de agir como homem e como mulher. A família, a 58 escola, a sociedade em geral acabam por reproduzir esses ensinamentos. A forma de lidar com o corpo e cuidar do mesmo também parecem refletir a diferença entre os sexos. Segundo Costa-Júnior e Maia (2010), a forma da mulher perceber e cuidar do seu corpo reflete um padrão cultural de que o feminino é mais frágil e suscetível às doenças. Já os homens percebem seus corpos como saudáveis, ativos e resistentes. Em entrevistas a profissionais de saúde, os mesmos pesquisadores perceberam, através dos relatos, que as mulheres estariam mais vulneráveis às doenças em virtude de um desgaste físico maior ou mesmo de sua condição de fragilidade.Essa percepção é reforçada pelo uso de remédios por parte das mulheres. Em relação à prevenção, um ponto de vista merece ser elucidado: Embora tenham medo e receio, as mulheres procuram mais os serviços de saúde, são mais dedicadas e interessadas no diagnóstico e no tratamento, aceitam mais os exames que possam ser invasivos, pois estão acostumadas com isso, e, principalmente, têm mais atitudes preventivas (COSTA-JÚNIOR; MAIA, 2010, p.24). Em relação à saúde da mulher o SUS (2013), preconiza ações de assistência ao pré-natal, incentivo ao parto normal (e consequente redução do número de cesarianas desnecessárias), redução da mortalidade materna, planejamento familiar, assistência ao climatério, prevenção e tratamento ao câncer de mama e de colo de útero. Essas ações são mais específicas à saúde no que diz respeito ao corpo, ao biológico. Entretanto, há outras ações que visam à saúde da mulher num contexto mais amplo, voltado a uma abordagem biopsicossocial, tais como enfrentamento à violência contra a mulher, assistência à mulher negra e população GLBTT. A atuação do psicólogo hospitalar e da saúde pode ocorrer em todas essas ações, seja em nível ambulatorial, seja em nível hospitalar. Como mencionado por Costa-Júnior e Maia (2010), o cuidado ao corpo e a prevenção já fazem parte da cultura feminina. Observa-se que a mulher já inclui em seu cotidiano atitudes como visitar o ginecologista regularmente, realizar exames preventivos e aderir ao tratamento quando necessário. As políticas de saúde pública deixam bastante evidente essa preocupação com a saúde feminina, porém a questão da atenção à saúde do homem já são mais recentes. Assim como ocorre com a saúde da mulher, sabe-se que partir da prevenção minimizam-se danos ao paciente (além de maiores chances de cura caso o problema seja detectado no 59 início) e custos ao tratamento. Além das doenças outra causa de mortalidade entre os homens brasileiros que merece ser destacada é aquela ocorrida por causas violentas. A Política de Atenção à Saúde do Homem (SUS, s.d., s.p.) deixa isso em evidência: A COORDENAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE DOS HOMENS (CNSH/DAET/SAS/MS) é responsável pela implementação da Política Nacional de Atenção Integral da Saúde do Homem/PNAISH, que foi instituída pela Portaria nº 1.944/GM, do Ministério da Saúde, de 27 de agosto de 2009. Sua atuação é desenvolvida a partir de cinco (05) eixos temáticos: Acesso e Acolhimento, Saúde Sexual e Reprodutiva, Paternidade e Cuidado, Doenças prevalentes na população masculina e Prevenção de Violências e Acidentes. Assim, observa-se que, em relação ao adulto, tanto no que diz respeito à prevenção quanto na cura e tratamento de problemas já instalados em homens e mulheres, o papel do psicólogo hospitalar e da saúde merece destaque dentro da equipe multidisciplinar. Sua atuação, assim como a dos demais profissionais que compõem a equipe, pode ser realizada em ambulatórios e hospitais e visam uma melhor qualidade de vida de homens e mulheres. e) Saúde e adoecimento na meia idade Conforme expresso na tabela, a meia idade é a etapa do ciclo vital no qual, normalmente ocorrem os primeiros declínios na capacidade sensorial, na saúde geral e, na mulher, corresponde com o climatério e seu ápice, a menopausa. Assim como a adolescência, essa é uma etapa de transição entre a idade adulta e a terceira idade. A autoestima merece destaque também nessa fase, pois atualmente é comum observar pessoas preocupadas em manter uma aparência eternamente jovem, já que a sociedade ocidental privilegia o jovem, o bonito e tudo o que foge a este padrão é considerado feio. Mais uma vez enfatizam-se diferenças entre homens e mulheres: para eles a idade pode ser sinal de experiência e domínio, enquanto que elas costumam enxergar o avanço da idade como sinal de decadência. A autoaceitação é uma importante estratégia para se promover uma boa autoestima, porém o papel do outro também é um diferencial nesse sentido, pois a opinião dos outros influencia na percepção que a pessoa possui de si mesmo (PAPALIA; OLDS; FEDMAN, 2006). Numa pesquisa com pessoas de 40 a 60 anos alunas de academias de ginástica ou que praticavam caminhada em Pelotas, foi possível observar como a 60 questão da percepção da imagem corporal é presente nas pessoas dessa faixa etária (DUARTE; SANTOS; GONÇALVES, 2002). Entretanto, a prática de atividade física parece ser positiva: A percepção de envelhecimento foi associada ao desgaste, com ênfase no aspecto físico em todas as respostas relacionadas aos motivos de adesão, de continuidade e dos benefícios obtidos com a atividade física, assim como nas questões diretamente relacionadas ao envelhecimento. As pessoas acreditam na dissociação do corpo e da mente, afirmando a necessidade de valorizar e manter a mente jovem porque dessa forma se anula o aspecto negativo comumente associado ao ato de envelhecer. Embora o aumento dos anos de vida seja entendido por algumas pessoas como um processo natural, a discriminação social relacionada ao envelhecimento ainda é o aspecto mais evidenciado. A maioria das pessoas de meia-idade não se imagina idosa; as poucas que se imaginam veem-se com rugas e dificuldades físicas, reforçando a ideia do envelhecimento como desgaste físico em oposição às experiências de vida (sabedoria) (DUARTE; SANTOS; GONÇALVES, 2002, p.37). Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), outro fenômeno psicossocial comum nessa fase é a síndrome do ninho vazio – a sensação de vazio que ocorre após a saída dos filhos de casa. A “geração sanduíche” é o nome que se dá às pessoas de meia idade que vivem constantes relações intergeracionais: com os filhos adolescentes e com os pais idosos. Tornar-se cuidador dos pais idosos é uma tarefa muito desgastante do ponto de vista biopsicossocial. A fase da meia-idade está associada no senso comum com um estilo de vida marcado pelas atividades familiares (casamento e filhos) e pelas atividades de trabalho remunerado. Contudo, um fator bastante prevalecente nesse período relaciona-se à crise. A “crise da meia-idade” é vivida de modo introspectivo com reflexos em todas as esferas da vida. O fato elementar presente nessa situação é a chegada ao ponto médio da vida, o qual não se apresenta como algo simples do ponto de vista psicológico. A infância e a juventude são tempos passados e a concretização de uma vida madura e independente apresenta-se como a principal tarefa psicológica (DUARTE; SANTOS; GONÇALVES, 2002, p.37). Um evento que marca o desenvolvimento da mulher é o climatério, período em que a mulher vivencia mudanças fisiológicas que provocam a menopausa (última menstruação). Por ser a menopausa o evento que marca o fim da capacidade de procriação da mulher, este pode desencadear na mesma uma série de sentimentos negativos, porém pode ser também um período vivenciado com naturalidade (PAPALIA; OLDS, FELDMAN, 2006). 61 Tabela 02: Mudanças nos Aparelhos Reprodutivos Humanos Durante a Meia-idade Feminino Masculino Mudança hormonal Diminuição de estrogênio e de progesterona. Diminuição da testosterona. Sintomas Calorões, secura vaginal e disfunção urinária. Indeterminados. Mudanças sexuais Excitação menos intensa, orgasmos menos frequentes e mais rápidos. Perda de excitação psicológica, ereções menos frequentes, organismos mais lentos, recuperação mais lenta entre as ejaculações, maior risco de disfunção erétil. Capacidade Reprodutiva Término. Continua; pode ocorrer certo decréscimo na fertilidade. Fonte: Papalia, Olds e Feldman (2006, p.594). Como nosso foco não se restringe às condições relativas ao processo de doença (do ponto de vista biopsicossocial), pode-se inferir também fatores que visam promover um maior bem-estar nas pessoas dessa faixa etária. Assim como enfatizamos na idade adulta, a atividade física éum importante aliado para a saúde em pessoas dessa faixa etária, não apenas devido à promoção da saúde física, mas também pelas interações psicossociais que podem ocorrer em virtude dessa. A citação a seguir ilustra claramente essa proposição: Na história de vida de pessoas com idade superior aos 50 anos evidencia- se que a atividade física é associada à prevenção de doenças, manutenção de corpo forte e resistente, além da melhoria nas relações sociais por causa da convivência em grupo, propiciadas pelo contato com outras pessoas de mesma idade durante o envolvimento com a prática. Este contexto ou conjunto de fatos pode refletir-se na atividade física como uma possível forma de preparação para o envelhecimento (DUARTE; SANTOS; GONÇALVES, 2002, p.36). Em síntese, na pesquisa de Duarte, Santos e Gonçalves (2002) foi possível perceber que na amostra pesquisada a prática de atividade física na meia-idade contribui para a manutenção de um estilo de vida saudável, pois, assim como nas outras faixas etárias, pela atividade física, é possível melhorar a condição física, a comunicação, a independência e a autonomia na resolução das tarefas do dia a dia. 62 Assim como nas demais fases do envelhecimento, cabe a atuação do psicólogo hospitalar e da saúde junto à população de meia idade, de forma a promover a saúde biopsicossocial. Atuar em nível de prevenção, buscando minimizar os possíveis sentimentos de menos valia e depressão provocados pelo processo físico de envelhecimento, o climatério e pelas condições de vida comuns nessa faixa etária (como a saída dos filhos de casa e o envelhecimento dos pais) é uma importante estratégia a ser desenvolvida pelo psicólogo. Importante também estimular as relações interpessoais, que podem ser naturalmente minimizadas nesse momento devido à simultânea adoção de diversos papéis, como de pais, avós, filhos, profissionais, dentre outros. Nos casos em que os problemas já se instalaram, a atuação do psicólogo é uma importante estratégia para melhorar a qualidade de vida da população que enxerga que já passou da metade do seu ciclo vital e muitas vezes tem dificuldade para lidar com essa realidade. f) Saúde e adoecimento na terceira idade O envelhecimento é uma etapa do desenvolvimento humano que ainda carrega consigo uma série de tabus e estigmas. Na sociedade ocidental, envelhecer é visto como um processo negativo, muitas vezes até patológico, marcado pela dependência e inatividade econômica. Faz-se necessário quebrar esse paradigma de velhice como sinônimo de dependência. Rowe e Khan (1998) propõem que o processo de envelhecimento pode se dar a partir de três modelos: envelhecimento normal, envelhecimento bem-sucedido e envelhecimento patológico. O envelhecimento normal é aquele marcado pelos eventos cognitivos e normativos já esperados para ocorrerem nessa faixa etária. Desta forma, aumento da pressão arterial, diminuição da acuidade sensorial, dentre outros eventos, são compreendidos como normais, porém os mesmos são passíveis de serem compensados, por exemplo, com tratamento adequado e uso de “complementos” como óculos e aparelhos auditivos. O envelhecimento patológico é aquele marcado por acontecimentos negativos, como a presença de síndromes e condições de saúde incapacitantes. Observa-se que esse é o estereótipo que as pessoas costumam atribuir à velhice, como se todas as pessoas que envelhecessem fossem, necessariamente, ficar doentes e dependentes. O envelhecimento bem-sucedido ou 63 saudável é aquele em que os padrões físicos, cognitivos e psicológicos do idoso é superior ao das demais pessoas da mesma faixa etária (ROWE; KHAN, 1998). Uma teoria bastante utilizada no estudo do envelhecimento é a Teoria do Curso de Vida, proposta por Baltes. A sociedade, os avanços científicos e as políticas públicas podem auxiliar o envelhecimento saudável focalizando a longevidade, a saúde física e a adequação do ambiente para a pessoa idosa, além de promover a compensação das perdas causadas pelo envelhecimento e promover a melhora do potencial dos mesmos. Em qualquer etapa do curso de vida, o desenvolvimento envolve equilíbrio constante entre ganhos e perdas, o que resulta numa necessidade de mudança adaptativa constante. Ao longo de suas vidas, os indivíduos acumulam ganhos e perdas. O processo de envelhecimento acarreta uma série de perdas, mas um envelhecimento normal ou bem sucedido podem proporcionar ganhos. Existem perdas no desenvolvimento, no envelhecimento elas são acentuadas, porém cada um possui uma capacidade de reserva variável, que pode auxiliar na adaptação do organismo. Como existem diferenças individuais, alguns se adaptarão com mais facilidade (envelhecimento normal e bem-sucedido), enquanto que outros apresentarão maiores dificuldades de adaptação (envelhecimento patológico) (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Nesta última etapa do processo de desenvolvimento, assim como nas anteriores, tentaremos abordar a importância da atuação do psicólogo hospitalar e da saúde tanto na prevenção quanto na reabilitação. A partir da perspectiva de Rowe e Khan (1998), é possível inferir que no envelhecimento bem-sucedido, a atuação do psicólogo ocorre mais em nível de prevenção; no envelhecimento normal, é possível atuar tanto na prevenção, como nos problemas já instalados, enquanto que no envelhecimento patológico a atuação ocorre mais na reabilitação. O SUS, através da Política Nacional da Saúde da Pessoa Idosa (2006) implementa as seguintes diretrizes: [...] envelhecimento ativo e saudável, atenção integral e integrada à saúde da pessoa idosa, estímulo às ações intersetoriais, além do fortalecimento do controle social, garantia de orçamento, incentivo a estudos e pesquisas dentre outras. [...] O desafio consiste em incluir a discussão sobre o envelhecimento da população brasileira nas agendas estratégicas das Políticas Publicas. No âmbito da Saúde, o desafio é ampliar o acesso, incluir e/ou potencializar o cuidado integral, concretizar ações intersetoriais nos territórios com foco nas especificidades e demandas de cuidado da 64 população idosa. Cabe destacar que o cuidado à Saúde da Pessoa Idosa apresenta características peculiares quanto à apresentação, instalação e desfechos dos agravos em saúde, traduzidas pela maior vulnerabilidade a eventos adversos, necessitando de intervenções multidimensionais e multissetoriais com foco no cuidado. (SUS, 2014, s.p.) O envelhecimento é um período marcado por perdas: da saúde, do corpo jovem, de entes queridos, do emprego (aposentadoria), de papeis sociais outrora desempenhados, iminência da própria morte, portanto, faz-se essencial trabalhar com o idoso o enfrentamento dessas situações de perdas. O desempenho de diversas atividades pode ser uma interessante estratégia de prevenção, já que o idoso que abre mão de seus papéis outrora desempenhado pode ficar inativo e depressivo. Nesse sentido: A atividade é um meio de contrabalançar as perdas comuns a esse estágio, ao mesmo tempo o de proporcionar um espaço para que outras características sejam desenvolvidas e até potencializadas, proporcionando ao idoso uma forma de crescimento pessoal, além de ser uma aliada na superação do estresse (MIRANDA; BANHATO, 2008, p.71). Já quando as condições patológicas já estão instaladas, sejam de ordem orgânica ou cognitiva, a atuação do psicólogo enquanto membro de uma equipe multidisciplinar também é relevante. Como já foi mencionado na parte do desenvolvimento do adulto, a epidemiologia aponta a prevalência das doenças crônico-degenerativas, tais como hipertensão arterial e diabetes – doenças muito comuns dentre idosos. O grande desafio da saúde pública frente a essas doenças é ainda maior se levarmos em conta o contingente numeroso de idosos no Brasil e no mundo (RAMOS, 2002). Além dessas também destacam-seas demências, em especial a Doença de Alzheimer (condição que será trabalhada num outro momento desse curso). Definem-se demências como uma condição patológica marcada por declínios cognitivos e comportamentais de origem fisiológica suficientes para afetar a vida diária. A maioria dos casos são irreversíveis. (PAPALIA; OLDS: FELDMAN, 2006). No caso do idoso que passa por um processo de envelhecimento patológico, a psicologia pode auxiliar através de diversos tipos de atuação, tais como: psicoterapia em momentos de crise; avaliação e estimulação cognitiva; grupos de ajuda mútua; cursos de formação; orientação para o cuidador frente ao idoso e à família. Os objetivos gerais das intervenções são a manutenção do vínculo familiar e 65 ajuda aos cuidadores que apresentam sintomas de risco ou que querem prevenir problemas. A partir da exposição anterior, torna-se possível compreender que o processo de desenvolvimento humano ocorre desde antes do nascimento até o momento da morte. É importante para o psicólogo hospitalar e da saúde conhecer esse processo e pensar nas possíveis intervenções em cada etapa do ciclo vital. O psicólogo compõe a equipe multiprofissional de saúde que irá atuar com pessoas de diferentes faixas etárias, tanto na prevenção, quanto na reabilitação. 66 REFERÊNCIAS ABRÃO, Kelber Ruhena. Brinquedos de plantão: a recreação hospitalar na Universidade Federal de Pelotas. Revista Didática Sistêmica, v. especial, n. 1, (2012) página 168 – 183. ABRAZ. Grupos de apoio ao familiar-cuidador. S.d. Disponível em: http://abraz.org.br//assistencia-abraz/grupos-de-apoio-ao-familiar-cuidador Acesso em 26 mar 2015. 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