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PSICOLOGIA APLICADA A SAÚDE MODULO 04 PSICOLOGIA DO SÉCULO XX AO SÉCULO XXI A Psicologia se organiza e se desenvolve a partir da evolução do pensamento do ser humano. Para chegarmos até o século XXI, gradualmente evoluímos o nosso jeito de pensar. Por esse motivo, desenvolvemos tecnologias de acordo com a necessidade do ambiente e sempre em um continuum histórico de acúmulo de conhecimento. Dominamos o fogo 800 mil anos atrás; 8 mil anos atrás, a agricultura; atualmente temos smartphones; amanhã, robôs. No século XIX, vimos a Psicologia demarcar a sua área de conhecimento, não apenas utilizando os métodos da Filosofia, mas empregando o método científico. 1. 1879 O objeto de estudo da Psicologia era a consciência, e o método foi a introspecção. 2. 1913 Abandonamos o estudo da consciência e passamos a focar no comportamento, por meio da observação. 3. 1950 Voltamos a estudar a consciência e também o comportamento, mas, então, a Psicologia era cognitiva. Quando surge uma nova escola de Psicologia, uma nova perspectiva teórica, a outra não é abandonada por completo, pois as diversas escolas coexistem ou se transformam. A Psicologia também viu o movimento da Gestalt, a era das testagens psicológicas (que é forte no século XXI), entre outros movimentos que duram até os dias atuais. O movimento da Psicologia Positiva A Psicologia Positiva recebe influências do humanismo, mas é um movimento que ocorre na transição do século XX para o século XXI. Lembre que uma ciência não se desenvolve no vácuo! Um sistema teórico surge em uma área de conhecimento, basicamente, para preencher lacunas abertas, para estabelecer uma crítica (antítese) ou para inovar. De certa maneira, a Psicologia Positiva cumpre esses três papéis. Qual a inovação da Psicologia Positiva? A Psicologia Positiva tenta compreender alguns adjetivos que são muito admirados quando os encontramos nas pessoas e superar as limitações pouco científicas do humanismo. Martin Seligman, psicólogo norte-americano, nascido em 1942, que ficou conhecido por sua teoria do desamparo aprendido, tanto pela qualidade dos achados, mas também pelas críticas ao desenho experimental que resultava em sofrimento para as cobaias, e em conjunto com Christopher Peterson (1950-2012), publicou Character, strengths and virtues (Caráter, forças e virtudes), estabelecendo um contraponto para o DSM (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais norte-americano). Enquanto o DSM é utilizado para compreensão de psicopatologias e tratamento (doenças mentais ou do comportamento), o Character, strengths and virtues é utilizado para a análise das virtudes, potencialidades do indivíduo e para o seu desenvolvimento. A Psicologia Positiva, além de pensar os indivíduos, também pensa em instituições positivas que fomentem espaço para o desenvolvimento das virtudes. Além disso, pessoas positivas geram ambientes positivos. Psicologia Positiva versus Psicologia Cognitiva versus Neurociências Um cérebro emocional se desenvolveu e funciona de modo adaptativo, em respostas psicológicas e ambientais aos estímulos do meio destinados para nos afastar do perigo e nos aproximar de recompensas. De acordo com Bear, Connors e Paradiso (2017), o sistema límbico é descrito como o principal circuito mediador de nossas emoções. A Psicologia Positiva não refuta as Neurociências, pois compreende a importância das redes neurais e da forma como as informações são processadas. A Psicologia Positiva trabalha com parâmetros fenomenológicos da consciência, baseada em teorias da informação. Busca a compreensão dos acontecimentos, dos fenômenos e suas respectivas interpretações, e não apenas por meio do processamento das redes neurais, dos aspectos psicofisiológicos ou não conscientes. Psicologia Positiva: um projeto para Psicologia do século XXI Seligman apresenta uma reflexão do papel da Psicologia para o nosso século: o desenvolvimento de forças de caráter e de valores como uma proposta para saúde mental. Pontos a serem destacados; Sabedoria e conhecimento são pontos que envolvem a aquisição e a utilização do conhecimento, ou seja, criatividade, pensamento crítico, gostar de aprender. Forças emocionais que envolvem o exercício da vontade para alcançar metas e objetivos perante a oposição interna e externa. Ajudar aos outros, amar, ser amado, bondade, habilidade sociais. Liderança, cidadania, integridade, ações cívicas para promoção de uma vida comunitária saudável. Busca pelo equilíbrio, misericórdia, humildade, autorregulação, prudência. A Psicologia Positiva propõe rompermos com os discursos tradicionais e buscar novas práticas em como avaliar e desenvolver as forças de caráter e virtude nas pessoas, nas organizações e nas instituições. Para a Psicologia Positiva, os pontos fortes de uma pessoa são tão importantes quanto as vulnerabilidades. Psicologia Positiva e orientação profissional O trabalho do orientador profissional implica qualquer etapa da vida que esteja associada ao mercado de trabalho. Atualmente, vivenciamos a Quarta Revolução Industrial, também chamada de indústria 4.0. O termo sociedade da informação, em vez de sociedade pós-industrial, demarca essa revolução. Tecnologia, inteligência artificial, robôs, profissões do futuro são discussões do nosso momento histórico, do nosso Zeitgeist. O desafio é compreender o perfil de cada pessoa, levando em consideração o seu desenvolvimento ontogenético. Isso implica compreender em que época essa pessoa se desenvolveu, como ela formou seus valores e suas forças de caráter e como a Psicologia pode auxiliar cada geração a lidar com as demandas da sociedade 4.0. Cada geração apresenta um estilo próprio na maneira de aprender e se desenvolver. Cada geração possui forças de caráter e virtude desenvolvidas, de acordo com a necessidade de seu tempo, com a influência do momento cultural em que viveu, dos acontecimentos políticos e econômicos que vivenciou. No século XXI, a Psicologia como uma profissão do futuro significa o desenvolvimento de forças de caráter e virtudes das pessoas, bem como de suas habilidades emocionais e comportamentais (as chamadas soft skills). AULA 02 – ESTUDO DA PSICOSSOMÁTICA MODULO 01 - Comparar as abordagens monistas e dualistas no problema mente/corpo A DICOTOMIA MENTE/CORPO E SUA REPERCUSSÃO NA PRÁTICA DO PROFISSIONAL DE SAÚDE Dualismo Dualismo é uma oposição ao pensamento monista, ou seja, mente e corpo são entidades separadas, distintas e incompatíveis. Os dualistas, como o filósofo René Descartes, aceitam que há relação entre mente e corpo, mas isso não significa que a mente padeceria após a morte física do nosso corpo. No contexto do problema mente-corpo, dualismo é a posição de que mente e corpo constituem dois reinos ou substâncias separadas. Posições dualistas levantam a questão de como mente e corpo interagem no pensamento e no comportamento [...] Para Descartes, isso significa que a mente continua existindo mesmo que o corpo material não exista mais. Res cogitans Termo de origem no latim, que significa coisa pensante. O ser humano tem uma res cogitans, em circunstâncias naturais, todo ser humano pensa e, como indicado por Descartes em seu método, pode duvidar das ideias que ele tem sobre si e sobre o mundo. Res extensa A gênese da palavra está no latim e significa coisa expandida. Descartes usa o termo para indicar o aspecto físico da matéria. Toda a matéria ocupa espaço físico, ainda que ela seja modificada como a cera derretida, a propriedade da extensão continua existindo na mesma matéria. É neste sentido que o dualismo cartesiano está ancorado nessas duas substâncias incompatíveis. Enquanto a res cogitans está associada à mente, a res extensa está relacionada ao corpo. O próprio cérebro – órgão em que alguns autores da psicologia, principalmente, os de cunho cognitivistas, vão indicar como sinônimo de mente – possui uma extensão, mas, para Descartes, a mente não possui nenhuma extensão no espaço, o que, para ele, significa que ela continua existindo mesmo depois da morte do corpo material. A mente não é sinônimode cérebro para Descartes, porque os animais, assim como os humanos, possuem cérebros, mas eles não possuem capacidade de raciocínio. Os animais, em suma, consistem apenas em corpos, já os seres humanos possuem corpos e mente. Monismo A posição dualista do problema mente e corpo não é uma unanimidade nos dias de hoje. Grande parte da comunidade científica defende uma posição monista, isto é, de que mente e corpo não se constituem em substâncias diferentes. Monismo – Em uma concepção discursiva do problema mente e corpo, os monistas são aqueles que pensam em uma integração entre as duas entidades, ou seja, mente e corpo estão relacionados e intrinsecamente combinados. O dicionário de psicologia da APA descreve: “No contexto do problema mente-corpo, monismo é qualquer posição que evita o dualismo.” Aqui, é importante destacar que existe uma ideia geral de que a vertente dualista do problema mente e corpo se relaciona de uma forma mais próxima a algum tipo de espiritualidade – o que faz sentido, uma vez que a eternidade da mente em Descartes, ou o mundo das ideias de Platão, evoca um mistério desconhecido pelo ser humano. A nossa Psicologia contemporânea do século XXI tende a se aproximar mais do monismo do que do dualismo. A mente é composta pelas propriedades que apenas um ser humano é capaz de expressar, pelo menos até o estado da arte científica atual, como pensamento crítico, raciocínio lógico, linguagem, aspectos relativos à personalidade de cada ser, sentimentos, emoções, memórias, entre outras. Atualmente, a Psicossomática parece estar mais próxima de uma abordagem monista do que de uma visão dualista do problema mente e corpo. O próprio Hipócrates, filósofo que pensa em uma medicina psicossomática mesmo sem dar este nome, era um filósofo monista. Ele considerava que a alma (o que chamaríamos de mente nos dias de hoje) era um componente orgânico do corpo. MODULO 02 - Descrever o conceito de Psicossomática e sua evolução histórica A HISTERIA E A PSICANÁLISE Casos de pessoas, mais especificamente mulheres, que apresentavam sintomas de problemas físicos ou uma desordem com o próprio corpo. Os sintomas eram os mais variados e podiam incluir cegueira, dores nas pernas, desmaios, impossibilidade de andar, câimbras nos membros superiores ou inferiores, amnésia e uma série de outros sintomas. Histeria - A histeria é uma palavra de origem grega (hystera) que significa útero. A origem do termo nos indica o motivo dessa desordem ter sido nomeada de tal forma, pois as observações dos médicos, psicanalistas e neurologistas dos séculos XIX e XX apontavam para uma predominância da histeria nas mulheres. Não era incomum encontrar médicos que se recusavam a tratar as histéricas, pois acreditavam que seus sintomas eram uma espécie de atuação teatral e que elas não estavam doentes de verdade. A falta de uma comprovação concreta expressa em algum tipo de exame e a ausência de lesões orgânicas que justificassem as queixas das pacientes contribuía para a recusa. Essa pequena explicação sobre a histeria nos ajuda a compreender como as doenças foram tratadas de forma isolada pelos profissionais que se incumbiam delas. Somente as manifestações físicas e as lesões orgânicas nos tecidos do corpo humano eram consideradas na hora de ajudar alguém que estava sofrendo. Evoluímos nesse sentido e muitos profissionais compreendem a importância de um diagnóstico e tratamento mais integrado. Médicos encaminham seus pacientes para consultórios de psicologia, educadores solicitam aos familiares da criança uma avaliação junto a um neurologista, psicólogos encaminham seus pacientes ao psiquiatra. Há uma preocupação desses profissionais em saber em que contexto essa queixa é produzida. Todos os seres humanos possuem uma herança genética, características físicas próprias e um corpo biológico composto de órgãos, hormônios, neurônios, tecidos fibrosos, ossos, músculos e afins. Porém, o corpo não se resume apenas a essas características biológicas, também existem nossas variáveis psíquicas: atenção, inteligência, emoções, personalidade, humor etc. Tão importante quanto nossas características biológicas e psíquicas é o contexto social em que vivemos, nossas relações familiares, escolares, religiosas, políticas, laborais e afetivas também formam um ser humano. Essas três dimensões são indissociáveis e, por isso, as escrevemos juntas: biopsicossocial. Psicossomática é uma palavra formada pela junção de duas outras de origem grega: psique = alma e soma = corpo A Psicossomática estuda como a nossa mente se relaciona com o nosso corpo e a produção de doenças. Segundo Julio de Melo Filho (2010), uma pesquisa em Psicossomática se debruça: “[...] sobre a relação mente-corpo, sobre os mecanismos de produção de enfermidades, notadamente sobre os fenômenos do estresse” “Nascida com Hipócrates, a Medicina Psicossomática concerne simultaneamente ao corpo e ao espírito e, mais especificamente, à relação direta entre a soma e a psyché. Descreve a maneira como as doenças orgânicas são provocadas por conflitos psíquicos, em geral inconscientes” O nome psicossomático nasce com Heinroth que, além de nomear esse campo, também cunhou um outro termo importante: o conceito de somatopsíquico. Condições psicossomáticas e somatopsíquicas podem acontecer de forma conjunta, uma não anula a outra, necessariamente. AS TRÊS FASES DA PSICOSSOMÁTICA Em uma perspectiva histórica, podemos afirmar que a Psicossomática passou por três fases (FILHO & BURD, 2010). São elas: a fase psicanalítica, a behaviorista e a multidisciplinar. Examinemos com um pouco mais de detalhes cada uma dessas fases. Fase psicanalítica Freud, o pai da Psicanálise, entendia que ideias reprimidas podiam acarretar conversões sintomáticas no corpo do sujeito. É o que já vimos anteriormente com a histeria e sua conversão em um sintoma físico. Nesse sentido, para a Psicanálise, algumas enfermidades que não podiam ser explicadas por lesões físicas, que, por consequência, eram consideradas psicossomáticas, tinham suas origens no inconsciente. Para enfatizar a diferença entre a histeria e uma doença psicossomática, é importante destacar que, na histeria, não existe um correspondente físico lesionado para os sintomas do sujeito e, na Psicossomática, também pode não existir essa relação. Contudo, diferentemente da histeria, que nunca apresenta um órgão, tecido ou músculo que apresente distúrbios, na Psicossomática, é possível que isto ocorra devido às questões da psique. Fase behaviorista O interesse dos behavioristas era prever e controlar o comportamento. Os behavioristas, ainda que admitam a existência da mente, não estão interessados em seu estudo, uma vez que, para esses teóricos, o que importa é o comportamento e o ambiente em que o sujeito está inserido. Para eles, a mente é uma substância abstrata que não pode ser medida, quantificada e observada de forma direta, neutra e empírica. Alguns behavioristas chegam a afirmar que a psicossomática está mais para a vertente dualista do que para uma concepção monista. Para estudar os processos mentais, era comum que os contemporâneos de Watson utilizassem uma metodologia conhecida como introspecção. Se, para os behavioristas, a mente não deve ser estudada, já que está inacessível aos nossos métodos de pesquisa realmente válidos, como eles entendem a Psicossomática? Para os behavioristas, essas alterações fisiológicas sem causa orgânica aparente podem ser compreendidas olhando para as contingências (Pode ser entendida como a probabilidade de um determinado evento (o estresse, por exemplo) acontecer depois de um outro evento (uma bronca do chefe no trabalho, por exemplo). Assim, o estresse é contingente à bronca do chefe no trabalho. Segundo a definição da APA: “s. relação condicional, probabilística, entre dois eventos.”) Fase multidisciplinar Uma abordagem multidisciplinar pressupõe a contribuição de diversos profissionais para atender um mesmo paciente. Pensar a Psicossomática desta forma implica na aposta de que o psicólogo, o médico, o psiquiatra,o nutricionista, o neurologista ou qualquer outra especialidade, não consegue dar conta da integralidade do sujeito de forma isolada. A multidisciplinaridade está relacionada ao conceito de um ser humano biopsicossocial, o que somos hoje é resultado de nossa interação com o mundo e todas as nossas experiências do passado e de expectativas futuras. É um sistema único, constituído por três subsistemas: mente, corpo e relacionamentos sociais”. A Psicossomática não resume apenas as doenças psicossomáticas. Engloba uma compreensão de ser humano biopsicossocial e a importância de um trabalho multidisciplinar para oferecer a melhor assistência possível para as pessoas que necessitam de cuidados em saúde. O DSM E A PSICOSSOMÁTICA As doenças chamadas psicossomáticas, por serem desencadeadas ou agravadas por questões psicológicas, podem ser manifestadas em dores, alterações gastrointestinais, tremores, manchas na pele, falta de ar e esses sintomas tendem a se intensificar em situações de estresse. Nosso organismo, quando sobrecarregado, possui três vias de descarga das excitações: o pensamento, o comportamento e o organismo. O adoecimento aparece como uma tentativa de equilíbrio para o corpo e, quando é percebido dessa forma, implica não somente em tratar os sintomas da doença, mas também mudar os fatores que propiciaram seu desencadeamento. Essas patologias são tratadas no capítulo de Sintomas Somáticos e outros Transtornos Relacionados, na última revisão do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V). O Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5.ª edição ou DSM-5 é uma referência para psicólogos, médicos e terapeutas ocupacionais, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria para definir diretrizes no diagnóstico de transtornos mentais. O instrumento é atualizado de acordo com o avanço científico que fornece novas evidências que podem retirar, inserir ou alterar critérios para diagnóstico. O DSM-V classifica como portador de Transtorno com Sintomas Somáticos os indivíduos que apresentam qualquer número de sintomas somáticos acompanhados por pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos, relacionados aos sintomas em si ou preocupações associadas com a saúde, caracterizado por: Pensamentos desproporcionais e persistentes sobre a gravidade dos próprios sintomas Nível persistentemente elevado de ansiedade sobre a saúde ou sintomas Excesso de tempo e energia dedicados a estes sintomas ou problemas de saúde O diagnóstico de Transtorno de Ansiedade de Doença é recebido por indivíduos que experimentam um alto nível de ansiedade, com temor de estar doente, mas sem sintomas somáticos. Estes indivíduos eram classificados como hipocondríacos até o DSM-IV e esta categoria foi excluída devido ao caráter pejorativo que o termo adquiriu como “quem tem mania de doença”. O Transtorno Factício foi incluído no capítulo dos Sintomas Somáticos e Outros Transtornos Relacionados com um diagnóstico para indivíduos que apresentam falsificação de sintomas físicos ou psicológicos, sem um incentivo externo evidente, motivado por assumir o papel de enfermo. Nesses casos, não falamos em adoecimento psicossomático. São situações em que os sintomas não existentes são usados como justificativa para determinado comportamento ou mesmo para obter benefícios, sejam eles conscientes ou inconscientes. Outro quadro estudado anteriormente, quando contextualizamos o que ficou conhecido como Histeria de Conversão pela Psicanálise, é o que hoje está classificado como Transtorno Conversivo. Nesse quadro, é necessária a presença de um ou mais sintomas de alterações da função motora e sensorial voluntária, tendo os exames neurológicos descartando outras causas para a sintomatologia apresentada. Nesses casos, o sintoma não é falseado como no Transtorno Factício, nem o organismo apresenta algum tipo de lesão orgânica de fato como no Transtorno de Sintomas Somáticos. A pessoa de fato sente o que está relatando, mas não há alteração no organismo que justifique o que está relatando sentir. MODULO 3 - Relacionar fundamentos da Psicossomática às práticas atuais A PSICOLOGIA DA SAÚDE O conceito de psicossomática engloba três diferentes horizontes. O primeiro diz respeito à dimensão psicológica da doença, toda doença física tem implicações psíquicas para o sujeito que a experimenta. O segundo horizonte vai enfatizar a importância da relação entre médico e paciente, já que uma boa relação pode contribuir para a recuperação do sujeito e até mesmo para a adesão do paciente a uma determinada intervenção. O terceiro horizonte destaca os procedimentos terapêuticos em relação à pessoa que, no momento, está doente. Tais procedimentos, sejam eles realizados por qualquer profissional que esteja envolvido no caso, precisam levar em conta que o ser humano é um ser biopsicossocial. A Psicologia da Saúde tem início, pelo menos no que tange a seu marco oficial, com um grupo de trabalho na APA. Esse grupo se reúne para discutir a crescente demanda pela prática da psicologia da saúde e para conduzir e avaliar pesquisas neste campo. Oito anos depois do início das atividades deste grupo, uma divisão específica para a área foi criada dentro da instituição que congrega inúmeros psicólogos norte-americanos. Essa divisão ficou conhecida como divisão 38. Psicologia da Saúde pode ser definida da seguinte maneira: É o conjunto de contribuições educacionais, científicas e profissionais específicas da Psicologia, utilizadas para a promoção e manutenção da saúde, prevenção e tratamento das doenças, identificação da etiologia e diagnóstico (de problemas) relacionados à saúde, doença e disfunções, para a análise do sistema de atenção à saúde e formação de políticas de saúde. A atenção básica se constitui em uma perspectiva mais ampla do que a atenção primária, pois trabalha com a promoção de saúde, a prevenção de doenças, o diagnóstico de enfermidades, o tratamento de patologias e até mesmo a reabilitação de pessoas que tenham passado por algum tipo de problema físico. A estratégia de saúde da família (ESF) – modelo que vem ganhando cada vez mais espaço como um substituto de um que preconizava a atenção individual, centrada na pessoa – trabalha na perspectiva da atenção básica. O termo atenção básica costuma ser usado no Brasil, enquanto o termo atenção primária é visto com mais frequência na literatura internacional. Atenção primária incorpora temas com relação à saúde coletiva, prevenção e promoção de saúde. A PSICOLOGIA HOSPITALAR É o campo de entendimento e tratamento dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento. Em sua prática diária, é atribuição do psicólogo hospitalar: “Atender a pacientes, familiares e/ou responsáveis pelo paciente; membros da comunidade dentro de sua área de atuação; membros da equipe multiprofissional e eventualmente administrativa, visando o bem-estar físico e emocional do paciente; e, alunos e pesquisadores, quando estes estejam atuando em pesquisa e assistência” A Psicologia Hospitalar não trata apenas das doenças com causas psíquicas, mas sim dos aspectos psicológicos de toda e qualquer doença. Desta forma, toda doença apresenta aspectos psicológicos; toda doença encontra-se repleta de subjetividade, e por isso, pode-se beneficiar do trabalho da Psicologia Hospitalar. Cada doença é entendida de uma determinada forma, conforme o sujeito está adoecido. Psicologia Clínica Atua nos três níveis de atenção: primário, secundário e terciário, no sentido de promover a saúde mental para os usuários destes serviços. Psicologia da Saúde Atua nos três níveis de atenção: primário, secundário e terciário, mas sua atuação está mais voltada para o universo sanitário, com especial atenção para os desdobramentos psicológicos de uma doença ou impossibilidade física que comprometa a saúde do sujeito. Psicologia Hospitalar É uma área que está dentro da Psicologia da Saúde, todavia, sua atuação está limitada ao hospital, enquanto local de trabalho do profissional. Está associada ao nível secundário e terciário. AULA 03– TRANSTORNOS PSICOLOGICOS MODULO 01 - Definir o estresse e suas implicações na saúde Estresse é uma reação natural do corpo diante de situações de perigo ou uma reação que nos tire de contextos a que inicialmente estávamos habituados (BRASIL, 2015). O corpo emite sinais de alerta em caso de estresse: dores musculares, insônia, irritabilidade, entre outros sintomas. Eles nos avisam da necessidade de buscar novas ferramentas que permitam ao nosso corpo retornar ao seu estado de equilíbrio ou adaptar-se a novas situações, podendo ser agudo: quando vivenciado a partir de situações inesperadas e crônico: Relacionado ao cotidiano. O pesquisador Hans Selye, buscando compreender o estresse e suas ações em nosso corpo, criou um Modelo Trifásico, que divide as respostas ao estresse em três fases, conhecidas como: Estado de alerta O corpo se prepara para lidar com os estímulos estressores, cujo objetivo é a autopreservação. Os estímulos estressores não são necessariamente ruins e podem levar o sujeito à ação. O resultado da situação depende de como o sujeito lida com esses estímulos. Porém, se os gatilhos permanecem por muito mais tempo, avançamos para a fase seguinte. Resistência A energia gasta para manter a homeostase do corpo é sentida, chegando ao cansaço físico e mental. Dessa forma, caso o indivíduo não escute os sinais de seu corpo, seguirá para a próxima fase. Exaustão Nesta fase, o corpo tende a paralisar em razão de doenças mais sérias. A partir dos estudos de Hans Syele, a psicóloga Marilda Lipp acrescentou ao Modelo Trifásico um quarto elemento, transformando o modelo em Quadrifásico. Fase da quase exaustão Localizada entre a fase da resistência e da exaustão, as doenças não chegam a ser consideradas graves, dando ao corpo mais uma chance de recuperação e reavaliação das estratégias. Caso não haja esta atenção, o curso do estresse seguirá para a exaustão, levando o indivíduo a grave adoecimento. O estresse prolongado, conhecido como estresse crônico, está relacionado à secreção de altas quantidades de cortisol e de outros hormônios que elevam o nível de açúcar no sangue e as taxas metabólicas do organismo. De certa forma, estas mudanças fisiológicas permitem que o sujeito sustente atividade prolongada para se defender de qualquer ameaça. No entanto, esta condição acarreta diminuição da atividade do sistema imunológico. POSSÍVEIS CAUSAS DO ESTRESSE O estresse pode ter diversas causas, como a ansiedade, o desejo de aprovação social, as dificuldades pessoais e sociais, entre outras tantas. Estudos sobre o estresse têm despertado interesse dos profissionais de saúde, dado que as pessoas estão em processo de adoecimento ao tentar dar conta das demandas advindas do mundo contemporâneo, das mudanças sociais, especialmente as relacionadas ao mundo digital, às redes sociais, aos games, levando muitas delas a confundirem o real com o imaginário. Para finalizar, é claro que as questões relativas à segurança, à economia e à política, ou seja, ligadas ao nosso habitat, são poderosos gatilhos para o estresse. TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO (TEPT) Causado por um evento de grande impacto psicológico e emocional na vida de uma pessoa. Os sintomas aparecem em até seis meses após a ocorrência do fato. Neste caso, estamos nos referindo a situações extremas como: experiências de guerra, violência ligada a tortura, estupro, desastres naturais ou provocados pelo homem. CONSEQUÊNCIAS DO ESTRESSE As alterações de comportamento causadas pelo estresse muitas vezes comprometem relacionamentos pessoais e profissionais, uma vez que as pessoas podem se afastar para evitar discussões como forma de preservar a relação. O estresse também pode causar prejuízo nas funções mentais, alterar a capacidade produtiva da pessoa, já que a atenção não está focada nos objetivos a serem cumpridos e sim nos sintomas produzidos pela doença. FORMAS DE CUIDADO: PREVENÇÃO E TRATAMENTO Para o tratamento do estresse, temos ao nosso dispor médicos, psicólogos e profissionais da área de saúde que atuam através das práticas integrativas e complementares. Atualmente dispomos de um total de 29 práticas reconhecidas e utilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na Atenção Básica, entre elas, a acupuntura, a meditação, a yoga, entre outras. Além dessas práticas citadas, podemos trabalhar utilizando técnicas educativas, cujo objetivo é auxiliar na compreensão do que é estresse. As pessoas precisam ser capazes de reconhecer os sintomas no corpo, na mente e nas relações interpessoais; identificar as fontes externas de estresse e os estressores internos, ou seja, nossa fábrica particular. Outra forma de tratamento implica ensinar a lidar com os agentes estressores situacionais, na busca de eliminar os que podem ser eliminados e fazer uma reinterpretação dos que são considerados inevitáveis. É preciso tentar ressignificar positivamente os agentes estressores essenciais à vida, chegando ao processo de aceitação. Falar sobre o que sentimos também ajuda muito no tratamento, reconhecer que se é humano e que existem pessoas que vivem dores parecidas com as nossas. E mais: pedindo ajuda, o cuidado se torna possível. MÓDULO 02 - Descrever as fobias e o transtorno de ansiedade generalizada Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), os transtornos de ansiedade compartilham características como o medo e a ansiedade excessivos, causando perturbações comportamentais TRANSTORNO DE ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO Durante o desenvolvimento, sabemos que o bebê estabelece vínculos e uma relação de apego com a figura de cuidado. Isto é necessário para o bom desenvolvimento emocional e psicológico da criança. Porém, à medida que cresce, chega a hora de a criança experimentar a angústia da separação, que ocorre quando a figura de apego deixa de estar o tempo todo ali do seu lado. Quando essa superação não ocorre, a criança experimenta um sofrimento excessivo, um medo desproporcional, relutância em sair de casa para não se separar da figura de apego, pensamentos recorrentes relacionados à perda da figura valorosa, entre outros. Ao ser separada das figuras de apego, a criança apresenta comportamento de retraimento social, apatia, tristeza, problemas de rendimento na escola e dificuldade de concentração. MUTISMO SELETIVO No mutismo seletivo, há predominância da ansiedade social. Na maioria das vezes, a pessoa só fica à vontade para se relacionar com sua família nuclear, tem prejuízo nas interações, o que acarreta consequências no seu desenvolvimento social, acadêmico e profissional. A pessoa sente enorme dificuldade para falar em público e participar de trabalhos em grupo, embora mantenha o desejo de estar presente sem a obrigação de participar ativamente. Pessoas com mutismo seletivo preferem optar pela posição de escuta e não de fala, podendo participar em alguns momentos de interação através da comunicação não verbal. FOBIA ESPECÍFICA Um conceito generalista de fobia refere-se a medo e ansiedade desproporcionais diante de um determinado objeto ou situação. Aqui é importante distinguirmos os termos medo e ansiedade: Medo: É uma reação natural do corpo em contato com uma ameaça real; neste caso o objeto está de fato presente. Ansiedade: Também existe uma resposta fisiológica a uma situação ou objeto, só que neste caso o gerador de ansiedade não está presente, a ameaça é considerada como uma possibilidade futura Na literatura, existe uma distinção que nos permite identificar os objetos e as situações que provocam a reação fóbica como estímulos fóbicos e os objetos/situações temidos como especificadores. A pergunta inevitável: “Como identificamos se os sintomas estão relacionados a uma fobia e não a outro tipo de transtorno?”. O DSM-5 considera alguns critérios, entre eles, o de que os sintomas de fobia devem estar presentes durante pelos menos 6 meses e ter pelo menos três especificadores diferentes, sejam eles de: Ordem situacional Fobia em elevadores e ambientes fechados. Ordem animal Fobia de animais, insetos etc. Ordem ambiental Fobia de mar, ventania,altura etc. Sangue-injeção-ferimentos Fobia de procedimentos médicos invasivos. TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL (FOBIA SOCIAL) No caso do transtorno de ansiedade social, conhecido também como fobia social, o medo desproporcional, a ansiedade e a esquiva acontecem em função da crença do sujeito de que o ambiente pode oferecer perigos, como, por exemplo, a avaliação negativa à sua conduta. Essa percepção pode provocar sentimento de humilhação e, desta forma, a pessoa pode se sentir rejeitada ou, em resposta, pode ofender o outro como defesa. Esta condição acarreta prejuízos na funcionalidade geral do sujeito, interferindo no seu desempenho em situações públicas e sociais, especialmente afetando a capacidade de comunicar-se e impedindo a construção de vínculos tanto na vida pessoal como na profissional. Os ambientes e as pessoas passam a ser ameaçadores e, assim, a esquiva (muitas vezes expressa pelo isolamento) acaba comprometendo a qualidade de vida da pessoa. Atualmente, temos acompanhado uma parcela significativa de jovens e adolescentes vivendo nesse isolamento, o que compromete a autoestima e as interações sociais. Para alguns, os jogos representam a interface para interagir com o outro e o mundo; para outros, o uso dos computadores e celulares aumentam o isolamento. AGORAFOBIA Neste tipo de transtorno psicológico, os gatilhos são disparados em várias situações: permanecer em lugares abertos, permanecer em lugares fechados (onde não se tem a certeza de poder sair com facilidade), transporte público, filas e multidões. Em alguns casos, os sintomas de medo e ansiedade podem ser suportados com a presença de outra pessoa. Em alguns casos, a agorafobia tem relação com outros transtornos de ansiedade, como o transtorno de pânico e o ataque de pânico. Na condição mais severa, os sujeitos acabam restritos às suas casas e incapazes de sair — até mesmo dependentes de outras pessoas, especialmente daquelas que os fazem sentir seguros ou as que reconhecidamente ajudarão no caso de uma crise. TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA – TAG O transtorno de ansiedade generalizada está associado a uma preocupação excessiva e não específica. O sujeito experimenta uma apreensão de que, a qualquer momento, coisas ruins possam acontecer, causando irritabilidade e cansaço mental. O sono e outras funções do organismo ficam comprometidos, afetando a qualidade de vida devido também à tensão e à inquietação vivenciadas durante todo o dia. O desempenho nas atividades terá grande chance de ficar comprometido, tanto as de ordem pessoal quanto social ou profissional. TAG é um dos transtornos psicológicos mais desgastantes e se associa a diversas comorbidades como depressão e problemas de saúde física. A preocupação constante e excessiva que o sujeito experimenta prejudica a sua capacidade para fazer as tarefas do dia de forma rápida e eficiente, tanto em casa como no trabalho. Isto toma tempo e energia, causando um importante desgaste físico e emocional associado a cansaço, tensão muscular, irritabilidade, problemas na concentração e no desempenho em atividades corriqueiras. Podemos afirmar que este é um dos mais incapacitantes dos transtornos de ansiedade. TRANSTORNO DE ANSIEDADE INDUZIDO POR SUBSTÂNCIA/MEDICAMENTO Neste caso, os sintomas de ansiedade apresentados pelo sujeito encontram-se associados à ingestão de uma droga lícita ou ilícita. Às vezes a pessoa está utilizando um remédio para uma finalidade, porém, ela vai a outro especialista que lhe indica um segundo medicamento que terá outra função. Ao iniciar a combinação dos dois medicamentos, o sujeito começa a ter sintomas relacionados a ataques de pânico e ansiedade causados pela interação medicamentosa. Na medida em que isso é revisto, os sintomas desaparecem. Por este motivo, é necessário informar aos médicos todos os medicamentos que tomamos num momento determinado. TRANSTORNO DE ANSIEDADE EM RAZÃO DE OUTRA CONDIÇÃO MÉDICA Neste transtorno, existem claras evidências obtidas pelo exame físico, pelo histórico do sujeito ou por exames laboratoriais de que os sintomas de ansiedade apresentados são consequência fisiopatológicas de alguma condição médica preexistente. Para o clínico ter certeza dessa relação, é necessário que ele verifique criteriosamente a relação temporal entre a condição física e os sintomas de ansiedade, entre outros aspectos. Muitas condições médicas podem causar sintomas de ansiedade significativos, como hipertireoidismo, hipoglicemia, distúrbios cardiovasculares, distúrbios metabólicos e doenças respiratórias. Por isso precisamos diferenciar o transtorno de ansiedade causado por outra condição médica dos casos em que a ansiedade surge na medida em que é comunicado ao sujeito seu diagnóstico e prognóstico. MÓDULO 03 - Descrever a síndrome do pânico O QUE É SÍNDROME DO PÂNICO? Doença Significa um desequilíbrio na condição física do sujeito com uma causa conhecida; Síndrome É utilizada para designar um conjunto de sintomas que não necessariamente têm uma causa definida, mas múltiplos fatores. Transtorno É um termo muito utilizado na saúde mental, que indica alterações de ordem psíquica associadas a diversos fatores, desde influências genéticas até socioculturais. A primeira publicação que menciona oficialmente o termo transtorno do pânico é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — 3ª edição (DSM-3), que o definia como desordens causadas pelos ataques recorrentes e intensos de ansiedade, os quais provocam comprometimento severo na funcionalidade da pessoa, assim como sofrimento psíquico profundo. Posteriormente, um novo conceito sobre pânico foi introduzido na publicação da 4ª edição do mesmo manual, ataque de pânico (AP), configurando outra condição: a de episódios isolados que não manifestam a sintomatologia presente no transtorno do pânico Os sintomas, no caso do AP, duram em média de 5 a 30 minutos e são observados picos de ansiedade com sentimentos e fantasias de catástrofes iminentes. Para os profissionais da área de saúde, o conhecimento dessas diferenças é de extrema importância em razão da necessidade de identificação para o diagnóstico e a condução do tratamento. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais é publicada. Nesta 5ª edição (DSM-5), as desordens denominadas de transtorno do pânico (TP) se localizam no capítulo designado aos “transtornos de ansiedade”. A descrição de sua sintomatologia é mantida, considerando o TP como a desordem causada pelos ataques recorrentes e intensos de ansiedade que atingem seu ápice em poucos minutos. Os sintomas precisam estar presentes com início súbito. Dessa forma, os termos transtorno do pânico e síndrome do pânico possuem o mesmo significado, podendo levar a pessoa a ter um comportamento irracional, como abandonar seu carro e correr no meio do trânsito pedindo ajuda, afirmando que está morrendo ou sofrendo um infarto. Nesse caso, precisará de apoio medicamentoso, psicoterápico e de uma boa rede de apoio para se reestabelecer. PREVALÊNCIA E COMORBIDADES A prevalência do transtorno do pânico é duas vezes maior em mulheres, fato que talvez se explique pela diferença sociocultural: as mulheres tendem a assumir diferentes papéis e responsabilidades desde cedo, contrariamente à maioria dos homens. O transtorno do pânico normalmente surge no final da adolescência e início da vida adulta, um momento de escolhas profissionais e ingresso no mercado de trabalho, ou seja, o enfrentamento dos desafios que o mundo adulto exige de todos nós. Chega a quase 100% a probabilidade de quem tem transtorno do pânico desenvolver uma comorbidade psiquiátrica. Em sua maioria, terão o diagnóstico do transtorno do pânico e como comorbidade a agorafobia. Os que não tiverem esta fobia, terão algum outro tipo de transtorno de ansiedade, mais comumente fobia específica, ansiedade social, transtorno de ansiedade generalizada (TAG) ou ansiedade de separação. DESAFIOS DO DIAGNÓSTICO Quando falamos na etiologia do transtorno do pânico, ou seja, sua origem, estamos nos referindo a fatores tanto de ordemgenética quanto ambientais: Fatores de risco relacionados à genética Estariam presentes na família nuclear, considerados de primeiro grau. Fatores ambientais Incluem-se os traumas vivenciados na infância, como também o estresse na vida adulta. TRATAMENTO E INTERDISCIPLINARIDADE O ponto de partida será, sem dúvida, o acompanhamento medicamentoso, para que seu corpo possa retornar ao estado de homeostase, permitindo que outros profissionais consigam acessar a pessoa. O psicólogo fará seu trabalho em conjunto com o paciente na análise das possíveis causas que serviram de gatilho para os sintomas do seu transtorno; também deve-se buscar a rede de apoio da pessoa em tratamento, na medida em que sabemos de fatores de risco que podem complicar o quadro e a recuperação do indivíduo. Outras formas de cuidado podem ser somadas ao tratamento, como a expertise do educador físico, proporcionando através das práticas um melhor condicionamento do corpo e a liberação de hormônios que contribuem para o cuidado físico e mental. O profissional de nutrição também pode ajudar nas escolhas alimentares com o objetivo de potencializar e ativar recursos internos que ajudam no processo de melhoria da qualidade de vida. Outra possibilidade seria o uso das práticas integrativas e complementares (acupuntura, yoga, meditação) reconhecidas pelo Ministério da Saúde através da Política Nacional sancionada em 2006, que permitem criar condições para que as pessoas acometidas desse transtorno possam, através de cuidado e estimulação eficientes, retornar ou desenvolver práticas que proporcionem sentimentos de paz e harmonia. O ATAQUE DE PÂNICO — AP Convém ressaltar aqui que o ataque de pânico (AP) não é considerado um transtorno mental, portanto, ele não aparece codificado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (DSM-5). Sua ocorrência se dá em diversos transtornos (incluindo o transtorno de pânico) e, como vimos, sua manifestação é abrupta, porém de curta duração, variando de 5 até 30 minutos. Como no transtorno do pânico, a pessoa também vivencia uma série de sintomas. Mas, no caso do ataque de pânico, não há comprometimento da sua funcionalidade. Isso não quer dizer, no entanto, que não haverá prejuízos, visto que a pessoa sente que sua capacidade de autocontrole fica comprometida. Viver esse sentimento de impotência pode acarretar problemas na autoestima, dificultando as interações sociais e levando ao isolamento social. Prevalência e fatores de risco do AP Assim como no transtorno do pânico, as mulheres são as mais atingidas pelo AP. A incidência dos casos é observada principalmente a partir da puberdade, raramente no início da infância e menos frequente ainda na velhice. Os fatores de risco, de acordo com o DSM-5, estão relacionados às questões ambientais e temperamentais. Os ataques de pânico podem acontecer também com o uso de drogas lícitas e ilícitas ou com experiências familiares inesperadas, como a morte de algum parente ou o surgimento de uma doença grave. Quando nos referimos ao AP, estamos considerando que sensações corporais de morte eminente colocam a pessoa em uma condição de vulnerabilidade, podendo nesses casos ter uma resposta comportamental que a coloca em uma situação de risco, como uma conduta de autolesão ou até mesmo a tentativa de suicídio. Não que haja o desejo em si de pôr fim a própria vida, mas a necessidade de se libertar dos sintomas pode levar a essa medida desesperada. MÓDULO 04 - Identificar o transtorno obsessivo-compulsivo — TOC TOC: DO CONCEITO AO DIAGNÓSTICO TOC é um transtorno caracterizado pela presença de pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos que causam prejuízo ao funcionamento global do indivíduo, provocando um grande sofrimento psíquico e o comprometimento nas relações pessoais, acadêmicas e profissionais. Sua prevalência varia entre 1,1% a 1,8%, dependendo da população e contexto, com uma incidência maior no público feminino. Os sintomas aparecem de forma gradual em muitos dos casos — um início abrupto é pouco observado. Normalmente, os primeiros sintomas do TOC aparecem no começo da fase adulta, em média aos 20 anos, mas existe uma considerável proporção de casos que já apresentam sintomas antes dos 14 anos de idade. O aparecimento dos primeiros sintomas depois dos 35 anos é incomum. O transtorno obsessivo-compulsivo fazia parte da categoria dos transtornos de ansiedade no DSM-4, mas no DSM-5 ganha uma categoria separada. Foi enquadrado com outros transtornos que apresentam ou compulsões ou obsessões, como por exemplo o transtorno dismórfico corporal, o transtorno de acumulação, tricotilomania, o transtorno de escoriação e outros. As causas do TOC ainda são desconhecidas, mas a literatura apresenta uma complexa rede de fatores envolvidos. Até o momento as informações confirmadas referem-se às questões de ordem neurobiológica, genética e ambiental. Porém, pouco se sabe sobre como ocorrem essas interações ao ponto de definir a condição para o surgimento do transtorno. É possível afirmar que existe uma maior vulnerabilidade por parte de indivíduos que apresentem antecedentes genéticos e biológicos e que, ao entrarem em contato com o meio ambiente, apresentam maior predisposição para o surgimento de sintomas relativos ao transtorno. OBSESSÕES E COMPULSÕES Obsessões são pensamentos, ideias e imagens que invadem a mente do indivíduo de forma constante, causando sofrimento intenso, na medida em que não consegue contê-los, OU SEJA, em outras palavras, as obsessões se manifestam de forma intrusiva e geram angústia para o sujeito. Os comportamentos compulsivos são as ações repetitivas utilizadas como estratégia de controle dos pensamentos. Importante mencionar que as ações de controle nem sempre são visíveis. Lavar as mãos repetidas vezes para controlar os pensamentos relacionados à contaminação é visível, sem dúvida nenhuma; mas em alguns casos o sujeito apresenta ações mentais compulsivas, de forma que todas as vezes que pensar que pode se contaminar, ele reza mentalmente. Uma compulsão muito frequente é o ato de contar. As obsessões podem variar de tipologia. Podemos classificá-las em grupos: Contaminações: aversões a sujeira, vírus, radioatividade. Simetrias: perfeição, alinhamento, excesso na organização. Evitação de danos: impulsos ou pensamentos de ferir alguém através de atos físicos ou verbais ou mesmo ferir-se. Acumulações: necessidade de armazenar, poupar, guardar coisas que não têm utilidade, dificuldade em desapegar-se. Quando nos referimos às obsessões, consideramos também os pensamentos desagradáveis que invadem a mente e ali persistem, causando angústia e ansiedade. Podem ser de conteúdo diverso: sexual, dificuldade de escolhas, pensamentos mágicos e religiosos. Mas o que importa é que, para manter o controle dos pensamentos, é necessária a elaboração de rituais, identificados através dos comportamentos compulsivos que garantem esse controle, mas que comprometem a funcionalidade da vida diária da pessoa. TOC: MANIFESTAÇÕES E CONSEQUÊNCIAS A manifestação do transtorno obsessivo-compulsivo pode ocorrer a partir de fatores ambientais, como traumas vivenciados na infância ou agentes estressores que surgem na fase adulta. O transtorno ocorre a partir da invasão de pensamentos, ideias e imagens mentais, provocando uma imensa ansiedade e sofrimento psíquico, simplesmente porque essas informações nunca são de ordem positiva, e sim negativa, causando angústia e tornando a vida da pessoa insuportável. As estratégias ou os comportamentos compulsivos são ações válidas que outras pessoas sem o transtorno podem realizar ocasionalmente. Mas no caso do TOC, essas ações são evidenciadas em quantidade e intensidade desproporcional. Muitas vezes os sujeitos seguem rituais que incapacitam suas vidas e, em geral, enfrentam grandes desafios com a empregabilidade e as relações interpessoais. TRATAMENTO As indicações de tratamento do TOC consideradas de primeira linha seriam as medicamentosas (inicialmente com o uso de antidepressivos), a psicoterapiacom a indicação da abordagem cognitivo-comportamental e a rede familiar. Através da observação clínica foi constatado que existem casos em que a pessoa prefere conviver com os sintomas a se arriscar com os efeitos causados pelos remédios. Isso é preocupante, na medida em que quanto mais tardiamente o tratamento tiver início pior será a resposta às intervenções, ou seja, um prognóstico ruim para as expectativas de reestabelecimento mínimo da qualidade de vida da pessoa com o transtorno obsessivo-compulsivo. TOC E SEUS DESAFIOS Importante aqui diferenciar um comportamento compulsivo de uma mania: Mania Também ocorre a repetição de comportamentos, por exemplo “só consigo começar a estudar depois que tomar banho”, porém este movimento não traz prejuízo à vida cotidiana da pessoa. Comportamento compulsivo Enquanto a pessoa não cumpre todo o ritual não se autoriza a continuar suas tarefas AULA 04 – RELACIONAMENTO PROFISSIONAL INTERDISCIPLINAR NA AREA DA SAÚDE MÓDULO 01 - Descrever conceitos gerais das habilidades sociais O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO O processo do desenvolvimento humano acontece a partir de três dimensões: FÍSICA: Refere-se ao nosso corpo. COGNITIVA: Associada à nossa capacidade de aprendizagem. PSICOSOCIAL: Relacionada ao nosso comportamento, estado emocional e relacional. Quando nascemos, cada um de nós começa a viver em um contexto de vida diferente e isso influencia o nosso desenvolvimento. O início se dá na infância, momento de grande importância no ciclo de vida. Nossas primeiras experiências possuem uma força que impacta as próximas fases do nosso ciclo vital, ou seja, adolescência, fase adulta e velhice. Essas informações são importantes, porque nos ajudam na compreensão de como construímos nossa realidade psíquica e as habilidades sociais. Primeiramente, vamos compreender por que pensamos diferente dos outros. Nossa visão de mundo se organiza a partir dos estímulos captados através de nossos sentidos: olfato, paladar, tato, visão e audição. Eles conectam nosso mundo interior com o exterior, até este momento do processo senso-perceptivo, estamos falando de algo semelhante para todos nós. Quando as informações captadas são processadas pelas funções cognitivas, cada um cria sua realidade interna, tendo uma percepção de si mesmo, do outro e do mundo. Expressamos nossos pensamentos e nossas emoções de forma única, selecionamos fatos diferentes de uma mesma experiência para memorizar de acordo com aquilo que damos mais atenção; formas de aprendizagem vão se diferenciando, mesmo quando estamos falando de gêmeos idênticos. Nosso desenvolvimento biopsicossocial ocorre a partir do nosso temperamento (biológico), ou seja, características inatas, que são potencializadas, ou não, pelo meio (ambiente) em que estamos inseridos. Fazem parte desse meio: a família, a escola, a cultura, as regras e valores de uma sociedade. HABILIDADES SOCIAIS E A COMPETÊNCIA SOCIAL As informações adquiridas do meio externo têm uma relevância na construção de quem somos. O desenvolvimento ou potencialização de nossas habilidades sociais está diretamente ligado a esses estímulos. A partir de agora, vamos considerar a importância dessa influência nas relações profissionais e no alcance da competência social. As habilidades sociais constituem classes específicas de comportamento presentes no repertório de um indivíduo que lhe permitem lidar de forma competente com as demandas de situações interpessoais, favorecendo um relacionamento saudável e produtivo com outras pessoas. Durante as interações sociais, temos a oportunidade de desenvolver nossas habilidades sociais. A qualidade de nossas primeiras relações com o ambiente que nós desenvolvemos afetará essa construção. Porém, essa não é uma posição determinista, afinal, temos nosso temperamento, que é inato, sendo possível a mudança de percurso apesar de um começo difícil. Duas crianças de uma mesma família são criadas em situações adversas, uma delas consegue ressignificar sua história e construir relações saudáveis e produtivas, enquanto a outra não. Na prática, isso funciona a partir do processo educacional e da qualidade das relações que estabelecemos desde que nascemos. Se somos nutridos psicológica e emocionalmente, conseguimos construir relações produtivas que trazem qualidade de vida e desenvolvimento pessoal. Quantos de nós não ouviu alguém dizer “minha infância foi difícil, mas meus pais souberam nos educar. Faltava comida, mas amor não”. Não são as faltas materiais que causam mais danos, mas, sim, as afetivas. No dia a dia, vivemos a todo instante demandas/situações que exigem de nós escolhas e posicionamentos, porém, a qualidade dessas repostas e seus resultados é o que define nossa competência social. Para responder a uma determinada demanda, o primeiro passo é a compreensão do que está sendo solicitado. Então, antes de tudo, é preciso estar atento e disponível a se auto-observar e observar o que está ao nosso redor. Uma leitura equivocada da demanda pode transformar o indivíduo em um incompetente social. Sendo assim, os pontos que podem atrapalhar uma boa interpretação do ambiente são: a ansiedade e as crenças errôneas, ou seja, aquilo que pensamos de nós mesmos, do outro e do mundo que são desajustadas da realidade, o contexto e o emocional. Com essa clareza e com um bom repertório de habilidades sociais, você terá muito mais possibilidades de responder adequadamente à demanda solicitada, atingindo seus objetivos e estabelecendo relações interpessoais saudáveis e produtivas. Isso o levará, em relação às exigências do mercado, a um patamar diferenciado, uma vez que, atualmente, são cada vez mais requeridas as capacidades de trabalho em grupo, sob pressão, liderança, assertividade e outras tantas habilidades. A boa notícia é que, mesmo se você ao longo do seu desenvolvimento não tenha tido a oportunidade dessa construção, por diversos motivos, isso ainda é possível a qualquer momento. Somos seres dinâmicos e em constante desenvolvimento. Porém, é necessário conhecer suas fragilidades e trabalhar para superá-las. Outro ponto importante é estabelecer contato com suas potencialidades para fazer bom uso delas! Organização é como um sistema de atividades conscientemente coordenadas de dois ou mais indivíduos. A cooperação entre eles é essencial para a existência da organização. Em uma organização, lidaremos com diversas realidades psíquicas, ou seja, várias pessoas que cresceram construindo suas percepções de acordo com seu temperamento somadas ao meio em que viveram. Todos os funcionários de uma instituição chegaram ao mundo adulto e do trabalho com fragilidades e potencialidades, com óbvias diferenças. Isso exige de nós, seres sociais, um conjunto de comportamentos que nos permitem atingir a competência social, que é responder de maneira adequada à demanda que nos foi solicitada. Vamos exemplificar uma situação para fechamento dos conceitos analisando como a dificuldade na leitura do ambiente pode prejudicar a utilização de boas estratégias, nos tornando incompetentes socialmente. CLASSES ESPECÍFICAS DE HABILIDADES SOCIAIS Ao longo de nossas experiências iniciadas na infância, construímos nosso repertório de habilidades sociais, que se organizam em classes específicas de comportamentos, à medida que surgem as demandas ou situações que precisem de uma resposta. Quando essas habilidades são acionadas, o ideal é que tenhamos um repertório rico em possibilidades. Dessa forma, temos à nossa disposição uma quantidade muito maior de estratégias a serem utilizadas para a solução do problema. Diante desse cenário, todos nos perguntamos: como fazer a diferença? A resposta estaria relacionada à busca de potencialidades humanas. Vamos mencionar algumas delas. COMUNICAÇÃO VERBAL: Começamos com a habilidade social da comunicação verbal que se refere à capacidade de expressar seus pensamentos e emoções de forma clara e objetiva, mas também envolve uma escuta disponibilizada a ouvir o que o outro tem a dizer. A nossa comunicação também pode ser não verbal, ouseja, nossos pensamentos e sentimentos são manifestados pela expressão do nosso corpo, principalmente, nossas expressões faciais, o que requer de nós um cuidado na hora de nos comunicarmos. Imagine você diante do cliente vendendo um produto ou realizando atendimento, controlando sua fala, porém, suas expressões faciais dizem tudo que está pensando dele, e isso não é lá coisa boa! A chance dessa relação interpessoal ter êxito começa a ficar comprometida. ASSERTIVIDADE: Outra HS importante refere-se à assertividade. Muitas vezes, temos dificuldade de colocar nossas opiniões e expressar nosso conhecimento no trabalho e assumimos uma atitude passiva. Assim, nos omitimos e perdemos uma oportunidade de venda ou mesmo de uma boa troca de saberes com os nossos pares. Em outros casos, a postura intempestiva e agressiva também não favorece as relações. O ideal é o posicionamento claro, expressando exatamente o que se pretende com foco, de forma calma, objetiva e assertiva. EMPATIA: No contexto capitalista, a tendência é o individualismo, portanto, quando encontramos alguém com uma HS empática, isso normalmente produz um diferencial. Empatia significa ter a disponibilidade para estar com o outro na sua experiência através da escuta. RESILIÊNCIA: A resiliência também é bem-vinda, pois o profissional que tem a capacidade de compreender e se adaptar a situações que saem do controle não desanima frente aos obstáculos. RECEBER CRÍTICAS: Parece fácil, mas, para algumas pessoas que crescem com crenças errôneas, receber uma crítica é muito difícil. Quando falamos em críticas, pensamos em algo que desqualifica, porém, a crítica é importante para o nosso crescimento. Na maioria dos casos, o problema não é o conteúdo, mas a maneira como é passado. RECEBER ELOGIOS: Para outros, o problema está em receber elogio, já que, muitas das vezes, a pessoa considera que isso é desnecessário, afinal, não fez mais que a obrigação. No entanto, dar e receber críticas e elogios não nos fazem melhores, tampouco piores do que ninguém, porque somos únicos, não se esqueça disso! COMPARAÇÃO: A comparação não é saudável, pense em você e nas suas potencialidades, e as use a seu favor. Em relação às habilidades que julgar frágeis e que podem comprometer seus relacionamentos, busque uma maneira de fazer com que elas não atrapalhem sua caminhada profissional MÓDULO 02 - Identificar os paradigmas do trabalho em equipe TRABALHO EM EQUIPE: SURGIMENTO, CONCEITO E ESTRUTURA O trabalho em equipe surge no final da década de 70, em consequência ao irreversível avanço da globalização e do mercado tecnológico, que impõe uma nova forma de gestão. Com isso, as organizações precisam ganhar mais efetividade, tendo mais agilidade e autonomia em seus processos. Vamos realizar uma breve distinção com relação a grupos e equipes de trabalho: GRUPOS DE TRABALHO Os grupos referem-se a pessoas que trabalham juntas, mas com dinâmicas de interações diferentes, que compartilham informações e tomam decisões de forma colaborativa. No entanto, não é preciso engajamento com o todo, apenas com a parte de sua responsabilidade. EQUIPES DE TRABALHO: No trabalho em equipe, a visão é outra. Há uma sinergia onde o olhar é para o coletivo, cada integrante leva sua expertise para a equipe, mas não se limita a essa entrega, seu engajamento é para atingir o objetivo individual e coletivo. Nos grupos, não há uma preocupação prévia na seleção dos participantes com o objetivo de reunir pessoas com habilidades complementares. Já nas equipes de trabalho, esse tema será relevante. A estrutura de uma equipe, normalmente, é composta de 5 a 9 participantes, sendo muito importante o cuidado com a quantidade de pessoas, pois, se ficar reduzida, pode gerar uma sobrecarga, e o contrário leva à dificuldade no gerenciamento. O número adequado dependerá do objetivo a ser alcançado, mas é importante não fugir dos parâmetros recomendados, por isso, o planejamento é essencial! Os integrantes de uma equipe precisam estar engajados, e para isso é fundamental estar motivado a assumir riscos e responsabilidades individuais e coletivas. Lembrando que o trabalho em equipe tem por objetivo agilidade e autonomia frente a um universo organizacional altamente competitivo. Por fim, a pessoa que representa a liderança precisa assumir seu papel dentro da equipe com uma responsabilidade de maestro, se mostrando atento às potencialidades de cada um, fazendo com que produzam harmonicamente e agregando tanto no individual como no coletivo. ESTÁGIO NA FORMAÇÃO DE EQUIPES As pessoas se reúnem para fazer parte de uma equipe e começam a se estruturar a partir de um processo de cinco estágios. O primeiro diz respeito à formação propriamente dita, o momento seguinte, de conflito, está relacionado à tormenta. O terceiro é o momento de normatização, depois de desempenho e, por último, de interrupção. FORMAÇÃO: momento de integração, no qual membros estão se conhecendo. Ainda há insegurança, distanciamento e pouco domínio do projeto. Neste momento, os integrantes estão se reconhecendo dentro do novo espaço, visualizando desafios e analisando as relações interpessoais. A liderança pode ajudar criando atividades de aproximação e apresentando, de forma mais detalhada, o próprio projeto. Outra maneira de contribuir seria criando oportunidade para que cada um possa trazer sua contribuição e ser valorizado por isso. Essa etapa estará concluída quando os indivíduos se reconhecerem como parte da equipe. TORMENTA: momento de conflito. As pessoas já se conhecem, mas ainda há resistência com relação aos limites individuais impostos. A liderança tem um papel extremamente importante à medida que define funções e o que se espera delas, buscando manter as pessoas com foco no projeto. NORMATIZAÇÃO: os papéis já estão definidos e a insegurança dá lugar à autoconfiança que é esperada e desejada. Nessa fase, os membros estão próximos e já possuem uma identidade coletiva. A partir de agora, é a consolidação dessa conquista. Importante que a liderança se mantenha atenta à manutenção das relações profissionais, pois somos humanos, e vários sentimentos podem surgir e precisam ser muito bem administrados. Por isso, é importante abrir espaço para conversas individuais, ou em grupo, sobre o projeto e a necessidade de não se perder o foco, o desempenho, tampouco a saúde mental dos seus membros. DESEMPENHO: relacionado à alta produtividade. É um momento relevante do desenvolvimento da equipe frente ao projeto, porque a estrutura está aceita e seus membros empenhados, compartilhando suas potencialidades para a conquista coletiva. INTERRUPÇÃO: significa fim do projeto, será vivenciado somente por algumas equipes, como por exemplo, uma força tarefa. Para alguns membros, será motivo de comemoração, para outros, pode não ser tão fácil se afastar da rotina, das pessoas e do próprio projeto. Novamente, o gestor deverá estar atento para evitar intercorrências antes da total finalização do projeto. A apresentação da teoria dos cinco estágios tem sido a mais utilizada pelas instituições para a compreensão de como se organiza a equipe. É importante ressaltar que os estágios podem não ocorrer nessa ordem de acordo com o contexto organizacional, e os resultados podem variar. Outro fator que chama a atenção é o papel da liderança, não basta a área de recursos humanos captar no mercado profissionais talentosos, com uma capacidade técnica e humana incontestável. Se esses talentos reunidos não conseguem pensar coletivamente, não há chance de se obter um bom resultado. ESTILOS DE LIDERANÇA AUTORITÁRIA: Utiliza a posição de poder como forma de persuasão, gerando resultados pelo medo, e não pelo comprometimento. DEMOCRÁTICA: Há espaço para o diálogo e troca de saberes. Os papéis estão devidamente definidos, trazendo bons resultados. A laissez-faire apresenta uma liderança passiva que evita a tomada de decisões, transmitindo insegurança para seus colaboradores. LIDERANÇA ORIENTADA PARA A TAREFA: o líder define papéis e tarefas dele e de seus subordinados, estipula prazos,metas e delega. LIDERANÇA ORIENTADA PARA AS PESSOAS: enfatiza relações interpessoais e aceitação das diferenças. A tendência atual para a base das relações entre líderes e subordinados é a confiança, que vem tirando o lugar dos antigos modelos pautados no respeito a uma hierarquia. Hoje, uma liderança vista de forma carismática e autêntica tende a trazer melhores resultados organizacionais. EQUIPES DE TRABALHO E SUAS CARACTERÍSTICAS Classificadas em seis categorias, são elas: multifuncionais, melhoria de processos, solução de problemas, autogerenciada, força tarefa e virtual. Sua estruturação será de acordo com a demanda ou problema a ser resolvido. MULTIFUNCIONAIS: caracterizadas por profissionais de diversas áreas no mesmo nível hierárquico, que se reúnem para atingir um objetivo específico. Uma organização é dinâmica, viva e, como tudo que se movimenta, precisa rever sua forma de funcionar. EQUIPE DE MELHORIA DE PROCESSOS: tem como desafio essa reavaliação de sistemas e modo de funcionar. Para isso acontecer, são reunidos os melhores funcionários de diversas áreas com o objetivo de focar no que atrapalha o crescimento ou perdas da organização. EQUIPE DE SOLUÇÃO DE PROBLEMAS: seus integrantes estarão reunidos com o objetivo de resolver uma situação específica, normalmente, relacionada a algum processo da instituição. A equipe investiga o problema e busca soluções. A partir da apresentação das melhores formas de resolver a demanda solicitada, a função da equipe termina, pois a sua meta foi alcançada. A implementação da intervenção não é de sua responsabilidade. EQUIPE AUTOGERENCIADA: Ao contrário da equipe de solução de problemas que não realiza a implementação da solução, a autogerenciada não só busca a solução, como também realiza a execução da ideia através de planejamento e cronograma de trabalho. Nesse caso, elimina a necessidade de um superior imediato à equipe, o que pode gerar um nível elevado de conflitos entre seus membros. É observado neste tipo de equipe um alta rotatividade e absenteísmo. Por outro lado, há quem se identifique com esse modelo. EQUIPE FORÇA TAREFA: Metaforicamente, poderia ser chamada de uma equipe “bombeiro”, que se reúne para resolver um problema de forma imediata. Com a questão sendo resolvida, a equipe é dissolvida, porque o objetivo de sua integração era resolver aquele problema específico. EQUIPE VIRTUAL: Utilizam as plataformas com o espaço de interação da equipe. As empresas, nos últimos anos, têm investido nesse tipo de tecnologia, oferecendo qualidade com o objetivo de controlar variáveis externas, de maneira que as interações e trocas acontecem naturalmente. O que são equipes eficazes? São equipes que alcançam resultados, que possuem alta produtividade e desempenho, um grupo de pessoas com capacidade de administrar recursos. O trabalho se desenvolve em um espaço onde há confiança entre membros e a gestão. Importante que exista um modelo de avaliação que permita um sistema de recompensa, para que as pessoas possam se sentir valorizadas pela sua produção. Com relação ao perfil estrutural, esse tipo de equipe não pode ser grande, tendo no máximo até 10 pessoas. Normalmente, seus integrantes têm profundo conhecimento, são especialistas em suas áreas com habilidades sociais para solução de problemas, tomada de decisões e facilidade nos relacionamentos interpessoais. A construção de um trabalho em equipe se justifica pela necessidade de reunir pessoas com diferentes especialidades para projetos que envolvam suas áreas, produzindo uma interdependência no diálogo. Portanto, antes de definir entre o coletivo e o individual, é fundamental avaliar o custo-benefício dessa estruturação. É preciso verificar se, de fato, o projeto demanda a formação de uma equipe e se as tarefas envolvem complexidade para esse investimento. MÓDULO 03 - Reconhecer o impacto das diferenças entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade na área de saúde ESTRUTURA DA ÁREA DA SAÚDE A área da saúde se estrutura a partir do Sistema Único de Saúde – SUS, que tem a integralidade, equidade e universalidade como princípios fundamentais. A integralidade busca a compreensão do sujeito em todas as suas dimensões: física, cognitiva e psicossocial. A equidade quer dizer que perante o SUS todo cidadão é igual, e a Universalidade garante que todos os cidadãos têm direito a todos os serviços públicos de saúde. Dentro desse contexto, a rede de saúde se estrutura em três níveis: PRIMÁRIO: Compreende o atendimento de baixa complexidade. É considerado a porta de entrada da população ao serviço de saúde, por exemplo, as Clínicas da Família. Nesse nível, os profissionais estão preparados para realizar procedimentos ambulatoriais. SECUNDÁRIO: Compreende o atendimento de média complexidade. São as clínicas especializadas, locais onde os pacientes são encaminhados para a realização de exames e de consultas mais específicos. TERCIÁRIO: Compreende o atendimento de alta complexidade. Neste contexto, enquadram-se os hospitais. Para produzir um diálogo entre os níveis primário, secundário e terciário, a estratégia de saúde da família implantou o prontuário eletrônico, cujo objetivo era criar uma comunicação entre os níveis. Assim, a história clínica e a rede de apoio do paciente estaria sendo compartilhada, ampliando a visão do atendimento, mas, infelizmente, o projeto ficou parado no nível primário, prejudicando a interlocução entre os profissionais e suas especialidades. A complexidade no adoecer Ao longo da história, foi se construindo uma hierarquia no campo da saúde, onde o médico é o soberano. Só que o adoecer pode ser mais complexo do que parece, pois ele é multifatorial, e cada vez mais os estudos apontam nessa direção. Diante desse cenário, o cuidado da saúde tem sido reavaliado, pois, para que o diagnóstico e tratamento possam de fato atender àquela demanda, precisa-se levar em conta que a pessoa é mais que um corpo físico. Dessa maneira, o interesse amplia-se para as diversas áreas da vida do paciente, no qual o diálogo com diversos saberes e setores serão necessários para o êxito no cuidado. Atualmente, o modelo que norteia as ações é biopsicossocial, que entende o homem nas dimensões física (corpo), psicológica (mente) e social (relações/vínculos/rede). No diagnóstico, esse olhar irá ajudar a compreender a pessoa de cuidado, o que sente, como vive, ou seja, questões que vão muito além de um exame físico e a prescrição de um remédio. CONCEITUANDO A MULTIDISCIPLINARIDADE A multidisciplinaridade é a reunião de saberes em benefício de um objetivo em comum. A questão, neste caso, é que não há comunicação entre eles, todos sabem da importância do trabalho de cada um, porém desenvolvem suas atividades de maneira isolada. O avanço neste caso é o entendimento de que uma única especialidade não daria conta do cuidado. Os encaminhamentos são realizados com mais naturalidade e sem receios de perda de espaço de atuação. Uma questão importante diz respeito aos encaminhamentos. Ao avaliar a necessidade de outros profissionais de se envolverem nos cuidados, converse com a pessoa, explique seu ponto de vista e realize o encaminhamento. Por último, e não menos importante, precisamos de um novo olhar para o poder que se outorga ao médico, já que, para algumas instituições, ainda exerce um lugar de soberania. INTERDISCIPLINARIDADE, O QUE MUDA? O conceito de interdisciplinaridade mantém a ideia do olhar multidisciplinar, ou seja, buscando o entendimento do processo de adoecimento a partir do modelo biopsicossocial, que entende o homem em suas diversas dimensões. Essas dimensões humanas são: física, psíquica e social. Além disso, consideraram as influências advindas de seu habitat. O que muda é o diálogo entre os saberes. Se antes não havia comunicação direta, agora há essa possibilidade. O ganho, inicialmente, parece ser somente do paciente, mas, na verdade, é de todos, à medida que se reúnem para a avaliação de um determinado caso. Nesse momento, cada um coloca seu entendimento acerca daquela história, os profissionaisenvolvidos trazem seu olhar a partir do seu saber. Nesse momento, o paciente é cuidado de modo integral, um dos pressupostos do modelo de saúde do SUS. Teoricamente, esse modelo é possível e lógico, mas sua aplicabilidade requer disponibilidade entre os profissionais, logística e compromisso institucional, para que o modelo possa de fato funcionar. Essa interdisciplinaridade fica mais complexa quando não intermediada por uma instituição, quando o paciente recebe alta e retorna à atenção primária. Identificamos a importância da abordagem interdisciplinar, mas o êxito nesse caso irá depender do preparo dos profissionais no entendimento de que a fronteira de cada saber será respeitada, mas o que ocorrerá é a troca de informações no cuidado com a paciente para que possa se realizar um planejamento integrado que possa beneficiar a paciente. Com isso, chegamos a alguns desafios do preparo da equipe, um deles é o próprio estado psicológico e emocional dos envolvidos. Sentimentos como insegurança, medo, ansiedade, necessidade de poder, falta de humildade podem atrapalhar o processo de integração, à medida que o profissional em questão fica inseguro e com medo de, ao ser questionado, não ter conhecimento suficiente para se posicionar. Muitas das vezes, a forma que encontra de se proteger é manifestando resistência à abordagem interdisciplinar. Também há aqueles que não farão parte porque acreditam que seu saber dará conta do cuidado, mas sempre é bom lembrar que o protagonista de todo esse processo de cuidado é o paciente! Atualmente, o grande desafio é a formação e consolidação da abordagem interdisciplinar entre os profissionais, com o objetivo de que essa prática possa se tornar natural e que seja entendida como parte da nossa formação. MULTIDISCIPLINARIDADE OU INTERDISCIPLINARIDADE O importante é a preparação para atuar na profissão com um olhar que vai além do próprio saber, compreendendo que, com o compartilhamento, o ganho é muito maior. Claro que, para isso, é preciso uma preparação, pois estamos lidando com pessoas, tanto com pacientes quanto com profissionais de saúde. Nossa estrutura de vida apresenta também medos, traumas, dificuldades que emergem nas relações, o que também acontece no nosso trabalho. É necessário o entendimento de que sermos questionados, contrariados em nossas colocações, não implica uma crítica pessoal, tampouco uma desqualificação, ou pelos menos não deveria. O objetivo dessas abordagens é o atendimento integral do paciente e o ganho profissional de quem cuida. Atualmente, já vem sendo considerada também a transdisciplinaridade, que, assim como a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade, reúne diversas áreas do saber para o cuidado. A diferença, neste caso, é que, a partir do encontro entre saberes, as barreiras são rompidas. Esse olhar ainda está incipiente, há muito a ser estudado e discutido, mas vamos exemplificar a ideia. A abordagem transdisciplinar tem uma visão holística, quebra barreiras entre as disciplinas e se torna um todo, construindo um novo saber a partir do que é compartilhado e aprendido entre eles. Imaginem um paciente com transtorno de ansiedade social, que está sendo atendido pelo psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional e educador físico. Todos esses profissionais sabem sobre o diagnóstico do outro, discutem sobre o caso e constroem um saber que não é de nenhuma área específica. Essa descoberta é considerada uma nova disciplina, ou seja, transcende as disciplinas específicas se tornando algo novo. AULA 05 – PERSPECTIVAS E TENDÊNCIAS DA PSICOLOGIA DA SAÚDE MÓDULO 01 - Definir os marcos lógicos e legais que norteiam a Psicologia da Saúde PERSPECTIVA HISTÓRICA Compreender as perspectivas e tendências da Psicologia da Saúde é uma tarefa desafiadora, pois estamos diante de um campo novo que produz modificações sistemáticas devido a sua própria natureza, que é, ao mesmo tempo: Científica Transforma-se com o avanço das pesquisas estando em constante evolução e adequação às situações novas. Política Depende de direções e investimentos realizados pelo Estado. O nascimento da psicologia tem como marco inaugural a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt, em 1879, marcado pela orientação para a compreensão da normalidade do comportamento e suas manifestações em organizações, como fábricas e escolas. Somente a Psicanálise e a Psiquiatria, ambas exercidas por médicos, manifestavam interesse pelas formas psicopatológicas que assumiam o sofrimento humano. A partir da década de 50, observa-se a emergência de diversos questionamentos que colidiriam nas reformas manicomiais pelo mundo na década de 1960, e a Psicologia volta seu interesse para esse campo, produzindo uma área em comum, a Psicologia Clínica. No Brasil, a profissão foi regularizada em 1962, sofrendo influência deste momento marcado por uma guinada em direção à clínica na Psicologia internacional. Esse também foi o período que antecedeu a instalação da ditadura militar no país, que criou um ambiente acadêmico despolitizado, esvaziando o espaço para a discussão crítica. Vários autores apontam esses dois fatores presentes nos primeiros anos da profissão – a guinada internacional em direção à clínica e o golpe militar – como decisivos na estruturação inicial da profissão, onde a prática clínica ocupou lugar central, com maior destaque ao atendimento individual realizado em consultório privado por profissionais autônomos. Na década de 80, com o afrouxamento da ditadura militar, surgiram diversos movimentos sociais reivindicando desde o direito à saúde, moradia, terra, proteção da infância, saneamento básico, condições dignas de trabalho, entre outros, que colidiram na constituinte de 1988 e na criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e na promulgação do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). Surgiram, então, os primeiros trabalhos em Psicologia voltados para a população empobrecida, realizado pioneiramente por projetos de extensão de universidades, ou por trabalhadoras da saúde relacionadas à Reforma Sanitária e por psicólogos militantes ligados a movimentos sociais. Essa nova área de conhecimento recebeu o título de Psicologia Comunitária e sua direção criou espaço para o desenvolvimento de novas práticas, técnicas e fundamentações teóricas que não coincidem com o fazer clínico tradicional. Em 1981, foi criada a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) que passa a promover espaços de discussão, troca e sistematização do conhecimento em Psicologia Social, que acolherá parte das discussões em Psicologia da Saúde, aquela de cunho mais comunitário. Os estudos da época apontam os impasses da inserção do psicólogo em equipes de saúde na esfera pública, tendo em vista seu despreparo nos quadros curriculares marcados por escassez de estágios e discussões em saúde pública, ou mesmo junto às camadas mais empobrecidas da população. Os primeiros trabalhos evidenciam a transposição descontextualizada da prática, que não reconhece as especificidades de outras populações e locais de atuação. Nos últimos anos, o perfil do psicólogo começa a mudar. O SUS, originado em 1990, abre um novo campo de trabalho e, rapidamente, passa a ser o maior empregador de psicólogos do Brasil. Nossa reforma manicomial, ocorrida em 2001, demanda um novo modelo de atuação territorial e ambulatorial, que começa a dar destaque à Psicologia. Podemos citar ainda como fatores de transformação da Psicologia brasileira o incremento de novas políticas públicas a partir dos anos 2000, como a ampliação do SUS – o “Pacto pela Saúde” (2006) que amplia a atenção básica e o institui como padrão o modelo de Clínica da Família – a criação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e a regulamentação da atuação dos psicólogos nas redes públicas escolares (2019), criando um campo de trabalho que emprega cerca de 200 mil psicólogos brasileiros, em torno de 60% da categoria. A IMPORTÂNCIA DA PSICOLOGIA DA SAÚDE Podemos identificar a Psicologia da Saúde como o conjunto de diversas contribuições que a Psicologia aporta em relação à prevenção,promoção e manutenção da saúde, assim como em relação à identificação de etiologia, diagnóstico e terapêuticas do processo saúde-doença, com a possibilidade de propiciar melhorias no sistema e regulamentação da saúde. Esta definição contempla as três perspectivas de atenção à saúde preconizadas pelo SUS: promoção, prevenção terapêutica e reabilitação de saúde, que ocorrem nos diversos níveis de atenção oferecidos. Também pode ser aplicada à rede suplementar, que é formada pelo setor privado de planos de saúde. ATRIBUIÇÕES DO PSICOLOGO DA SAÚDE Atuar em equipes multiprofissionais e interdisciplinares no campo da saúde, utilizando os princípios, as técnicas e os conhecimentos relacionados à produção de subjetividade para a análise, o planejamento e a intervenção nos processos de saúde e doença, em diferentes estabelecimentos e contextos da rede de atenção à saúde. Considerar os contextos sociais e culturais nos quais se insere, estabelece estratégias de intervenção com populações e grupos específicos, contribuindo para a melhoria das condições de vida de indivíduos, famílias e coletividade. Desenvolver ações de promoção da saúde, prevenção de doenças e vigilância em saúde junto a usuários, profissionais de saúde e ambiente institucional, colaborando em processos de negociação e fomento à participação social e de articulação de redes de atenção à saúde. Pode ainda desenvolver ações de gestão dos vários serviços de saúde e de formação de trabalhadores, dominando conhecimento sobre a reforma sanitária brasileira e as políticas de saúde no Brasil, a legislação e o funcionamento do SUS, gestão do trabalho e Educação Permanente em Saúde, financiamento, avaliação e monitoramento de serviços de saúde, podendo exercer funções em instâncias municipais, estaduais ou nacional. COMPETÊNCIAS DO PSICÓLOGO DA SAÚDE DE HOJE E DO FUTURO É importante destacar que houve uma ampliação das competências esperadas do egresso do curso de Psicologia mais adequadas aos contextos institucionais e às coletividades. Características como liderança, aptidão para o trabalho em equipe, habilidades de comunicação, empreendedorismo, saber interagir com outros profissionais e com o público, ter iniciativa, administrar a força de trabalho, recursos físicos ou materiais, entre outras, estão aliadas em igualdade com a aptidão para desenvolver ações de prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde psicológica e psicossocial. Vale lembrar a importância dada à observação dos princípios da ética/bioética, à fundamentação do trabalho em evidências científicas e à responsabilidade pela continuação permanente pelo aprimoramento profissional. CREPOP, RESOLUÇÕES E DOCUMENTOS Todo psicólogo que trabalhe com políticas públicas deve conhecer o CREPOP. Ele é um instrumento produzido pelo Sistema Conselho – Conselho Federal de Psicologia para qualificar e orientar os profissionais que trabalham em política pública, além de sistematizar e difundir o conhecimento. Consideramos relevantes as seguintes edições aos profissionais que atuam no trabalho em instituições de saúde: Mulheres em Situações de Violência; Atenção Básica à Saúde; Serviços Hospitalares do SUS; Saúde do trabalhador; Álcool e Outras Drogas; CAPES; Gestores do SUS; Relações Raciais; Rede de Proteção à Crianças e Adolescentes em Situação de Violência Sexual. Podemos citar outros quatro volumes que estão em fase final de elaboração: Direitos Sexuais e Reprodutivos; Idosos; Diversidade Sexual e de Gênero e Riscos, Emergências e Desastres. MÓDULO 02 - Identificar as relações causais entre condições socioeconômicas, a produção de saúde e doença e seus impactos na prática da Psicologia VULNERABILIDADE SOCIAL E DETERMINANTES SOCIAIS DE SAÚDE: NOVOS CONCEITOS A partir do final dos anos 1990, surgem estudos que abordam as situações de vulnerabilidade, não se restringindo àqueles setores afetados pelo desemprego ou pela ausência de ocupação. Estes estudos propõem a substituição do termo exclusão social pelo termo vulnerabilidade social, pois acreditam que o termo exclusão social, junto às chamadas políticas de inclusão, focava em problematizações que giravam em torno de situações de pobreza e marginalidade, não promovendo a estruturação de políticas públicas para conhecê-las. Hoje, já não se trata mais de incluir, mas de problematizar o sistema econômico como um todo, pois acredita-se que a grande maioria da população está em risco de vulnerabilidade, mas em diferentes graus. A partir de um olhar atento às políticas públicas, são pensadas “zonas de vulnerabilidade”, ou seja, gradações de exposição ao desemprego, à precariedade do trabalho, à pobreza e à falta de proteção social que influenciam nas condições de saúde. Para o aprofundamento dessas questões, existe uma corrente de teóricos que se debruça sobre o conceito de Determinantes Sociais de Saúde (DSS). Eles expressam a ideia de que o modo como vivemos, trabalhamos, habitamos ou nos alimentamos influencia definitivamente em nossa saúde, seja como indivíduos seja como população. Os DSS são “os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população” Os estudos de DSS, hoje, concentram-se em estabelecer hierarquias ou ordenamentos entre os fatores de natureza social, econômica, política e o modo como influenciam a saúde de grupos e pessoas, pretendendo identificar as melhores maneiras de intervir, a fim de potencializar o impacto das ações. Os dois modelos representados nas figuras a seguir são os mais aceitos atualmente. Eles expressam, sob ângulos diferentes, os impactos das questões sociais na saúde dos indivíduos, grupos e comunidades. Os resultados destes estudos apontam diversos níveis eficazes de intervenção, mas, principalmente, políticas de combate às desigualdades sociais, relacionadas com o mercado de trabalho, a educação e a seguridade social, pois acredita-se que elas podem diminuir os diferenciais de exposição a riscos se promoverem habitações, alimentação e trabalhos dignos e seguros. Outro ponto importante a ser abordado é o crescimento das pautas com discussões sobre racismo e as questões relacionadas a gênero, como fatores que geram importantes impactos sobre a saúde dos indivíduos. Embora o investimento nas políticas inclusivas ou reparatórias relacionadas a pautas identitárias varie muito de acordo com a orientação ideológica dos governos, existe uma tendência concreta à permanência deste tema no meio acadêmico. O incremento das pesquisas e publicações que partem desses fatores para investigar processos de adoecimento individual ou coletivo é visível no aumento das jornadas acadêmicas, congressos, disciplinas eletivas ofertadas, linhas de pesquisa, projetos de extensão, ciclos de debates e grupos de estudos sobre o tema. Podemos afirmar que esses estudos, conhecidos como estudos decoloniais, são uma grande tendência dentro da área acadêmica da Psicologia como um todo e da Psicologia da Saúde. DIFERENÇAS ENTRE A PSICOLOGIA DA SAÚDE E A PSICOLOGIA TRADICIONAL Em pesquisa-referência, Magda Dimenstein (2000) aponta os problemas que a transposição das práticas psicológicas da clínica tradicional para o campo da saúde coletiva acarreta ao cotidiano das instituições públicas da saúde e as consequências da hegemonia de uma determinada forma de subjetividade e de uma concepção de Psicologia. CONFLITO: Conflito entre as representações dos conceitos de saúde e de doença entre usuários e os psicólogos EFICÁCIA: Baixa eficácia das terapêuticas ABANDONO: Grande número de abandono dos tratamentos SELEÇÃO: Seleção da clientela RESISTÊNCIA: Resistência aos mecanismos de avaliação necessários para a construção de instrumentos de verificação do funcionamento do trabalho dos psicólogos nas instituições públicas de saúde, bem como sua reformulação Uma das características mais marcantes da Psicologia Moderna é a marca do individualismo. Se observarmos os atributos mais marcantes da cultura da Psicologia, veremos que elastêm origem em um paradigma que é chamado de individualismo. Ele investe na categoria “indivíduo”, não apenas como membro e condição fundamental de qualquer sociedade, mas como configuração abstrata: A ideia de um indivíduo autônomo, senhor de si e independente, ou seja, ausente de vínculos e dos determinismos universalmente definidos pela cultura, que marca a ideologia ocidental moderna. A universalização da ideia de que a existência de cada homem é fruto de suas escolhas individuais, ou seja, tudo o que os homens colhem foi plantado por eles mesmos, é importante para a Psicologia da Saúde quando esta passa a trabalhar com populações em vulnerabilidade social, como na Saúde Pública. A oposição entre determinantes sociais e escolhas individuais, porém, não é totalmente antagônica, pois, em certa medida, as duas perspectivas coexistem, cada uma contribuindo na composição da situação de risco social em que se encontram as famílias e comunidades e em suas condições de saúde. O final do século XIX marca a emergência de um campo que podemos chamar de “campo psi”, formado pela Psicanálise, Psiquiatria e Psicologia. A Psicanálise passa a trabalhar com uma nova concepção de sujeito, que Dimenstein intitula de “sujeito psicológico”, constituído e governado por seus desejos inconscientes, forjando uma concepção de subjetividade guiada pela biografia familiar pessoal e singular. A partir desse momento, passamos a nos explicar pelas nossas histórias familiares, principalmente, as primeiras experiências com o pai e a mãe. Alguns autores acreditam que a Psicanálise atingiu um grau de popularização tão alto que extrapolou as fronteiras dos saberes psi e tomou a forma de uma cultura, a cultura psicanalítica, que passou a funcionar como uma espécie de “visão de mundo”. A Psicanálise provocou impactos em todos os saberes psi, mesmo em outras perspectivas teóricas, sobretudo por se tratar de um discurso cultural. Entre eles, podemos elencar: Ênfase na família nuclear Incremento da responsabilidade individual de cada membro da família Valorização da vida sexual Destaque aos projetos de ascensão social Incentivo à descoberta de si mesmo Procura pela libertação das repressões Promoção de uma certa psicologização do cotidiano e da vida social Esvaziamento do espaço político Lo Bianco (1994), em uma pesquisa de referência, estudou as balizas teóricas e as práticas desse modelo tradicional de Psicologia Clínica e afirma que a Psicologia que vem sendo construída nas universidades brasileiras tem a pretensão de ser apolítica e neutra e, por isso, está atravessada por ideais e valores da classe média que a produz, podendo agir para o controle e a conservação de relações sociais de dominação de uma classe sobre outra, um gênero sobre outro, uma forma de exercer a sexualidade sobre outras, ou ainda, de uma cor de pele sobre outras, tornando-se ingênua e ineficaz em contextos sociais diferentes. A clínica que segue um modelo intitulado tradicional, segundo Lo Bianco, é caracterizada por: · Atividades exercidas em consultórios particulares por profissionais autônomos. · Existência de psicodiagnósticos e aplicação de testes. · Ênfase em processos intrapsíquicos, que privilegiam as marcas da história familiar, centrados em um indivíduo a-histórico e abstrato. · Hegemonia do modelo médico, com aceitação da autoridade do saber na relação médico-paciente. · Construção de categorias de normalidade versus anormalidade, comparando o indivíduo a uma norma classificatória. · Funcionamento dentro de quatro paredes com decoração neutra, com horário marcado e mediante demanda do atendido. · Aderência de responsabilidade do paciente e, em caso de descontinuidade, não há inversão da demanda. A ESCUTA NA SAÚDE E A ESCUTA PSICOLÓGICA Todo ser humano possui a capacidade de ouvir. Mesmo em um ponto de ônibus, podemos ouvir alguém falar sobre seus problemas. Por isso, em Psicologia, fazemos uma diferença entre ouvir e escutar. Todo mundo pode ouvir, mas escutar é algo diferente. Por isso, é preciso conhecer a escuta dentro dos domínios da Psicologia e a escuta nas demais profissões da saúde, apontando as especificidades. Utilizamos o termo escuta psicológica, quando nos referimos aos domínios da Psicologia. Os demais termos podem ser utilizados por todos os profissionais, são eles: escuta clínica; escuta qualificada; escuta transformativa; escuta ativa; escuta integral; escuta atenta; escuta reflexiva; escuta compreensiva; e escuta terapêutica. Diversos pesquisadores demonstram que a escuta é fundamental para a construção de relações produtivas entre a equipe de saúde, os pacientes e seus familiares. Para isso, é preciso desenvolver habilidades de comunicação interpessoais, que promovam o cuidado emocional de quem vivencia o estresse psicológico de um tratamento de saúde. A escuta é a base da comunicação, ela é essencial para a compreensão do outro, envolvendo uma atitude positiva de calor, interesse e respeito. A ESCUTA PSICOLÓGICA NO CONTEXTO DA SAÚDE A escuta psicológica possui especificidades que a diferenciam da escuta de outros profissionais de saúde. Em primeiro lugar, a escuta em Psicologia não é apenas um meio de obter informações sobre a saúde do paciente para aplicar um tratamento médico. A escuta psicológica é o instrumento e a finalidade do tratamento psicológico. Geralmente, em situações de saúde, quando falamos em escuta psicológica, estamos falando de processos mais prolongados e de pacientes mais complexos, ou seja, pacientes com um quadro que demanda uma atenção especializada e duradoura. A principal especificidade desse escutar está em, por meio do diálogo que se desenvolve, possibilitar ao indivíduo ouvir o que está proferindo, induzindo-o a uma autorreflexão e a produzir novos significados que podem transformar modos de sentir, pensar e agir. Na escuta, conhecemos melhor o paciente, o contexto em que se vive, sua história, seus valores e suas influências, para que possamos compreender melhor as suas motivações, efetivando um atendimento mais profundo para, posteriormente, ajudar a promover suas potencialidades. Para os psicólogos, escutar implica em uma compreensão empática que significa deixar de lado, durante o atendimento, nossos mais preciosos valores e pontos de vista, para prestar um acolhimento sem preconceitos ou julgamentos. Escutar implica em se deixar de lado e, por isso, exige, além de disposição, um treinamento para estar suficientemente seguro de que não se perderá no mundo do outro, que, muitas vezes, pode ser estranho e bizarro e de que poderá retornar sem dificuldades ao seu próprio mundo no final do atendimento. No cuidado de saúde, a escuta pode amenizar bastante as angústias do paciente, implicando no reconhecimento do seu sofrimento. ESCUTA E ACOLHIMENTO NA EQUIPE DE SAÚDE A Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde (BRASIL, 2013) instituiu a escuta como parte da assistência em saúde. Essa legislação abriu as portas para muitos psicólogos no SUS, pois reconhece seu principal instrumento de trabalho como essencial no cuidado à saúde, abrindo espaço para que os psicólogos participem como agentes de treinamento dos demais profissionais e intervenham institucionalmente nas equipes para a humanização. O principal dispositivo de implementação da escuta no SUS é a Clínica Ampliada. Para a PNH, escutar significa “acolher toda a queixa ou relato do usuário, mesmo quando possa parecer não interessar para o diagnóstico e ao tratamento” (BRASIL, 2013). A escuta é o instrumento através do qual podemos ajudar os pacientes na difícil tarefa de entender e integrar seu adoecimento a sua história de vida. Implica em escutar não só o sujeito, mas também as famílias, para conhecê-lo sem se restringir aos contornos ditados pelas patologias do corpo ou da mente. Esta prática está alinhada com as diretrizes da PNH, que determinam que as práticas de saúde devem valorizar a subjetividade humana e incentivar a autonomia dos sujeitos nos tratamentos pelo SUS. O TRABALHO EM GRUPO O trabalho em grupo é o mais recomendadono contexto das políticas públicas por muitas razões, como a aproximação entre os participantes e o terapeuta, o fato de a linguagem ficar mais acessível e ainda podermos contar com a colaboração de todos na compreensão dos conteúdos. Como a demanda de assistência é intensa, o grupo também propicia um aumento na capacidade de atendimentos, mas é preciso não perder de vista a perspectiva ética da Psicologia, colocando em primeiro plano, além da sua demanda específica e da singularidade de cada participante, a necessidade da composição do grupo. É fundamental avaliar individualmente a colaboração de cada usuário na dinâmica grupal, respeitando os limites de participações, para que o espaço se torne produtivo. Um número alto de participantes, orientado pela necessidade de produtividade, pode comprometer o trabalho terapêutico. No SUS, existem programas e temáticas já consagradas para o atendimento em grupos, que podemos encontrar em vários equipamentos de saúde, entre eles: PROGAMA NACIONAL DE CONTROLE AO TABAGISMO (PNCT) Presente na atenção básica e ambulatórios especializados, tem como objetivo reduzir a morbimortalidade relacionada ao uso do tabaco e aos seus derivados. Contempla ações educativas, de comunicação e de atenção à saúde. Além do apoio psiquiátrico com medicação, estão previstos grupos sistemáticos de suporte aos sujeitos em processo de extinção do hábito. PROGAMA DE TRATAMENTO AO ABUSO DE SUBSTANCIAS PSICOATIVAS COM BASE NA REDUÇÃO DE DANO Está nos CAPS, principalmente, os CAPSad, mas também na atenção primária e nos Consultórios de Rua. Existem duas formas de se lidar com o chamado fenômeno das drogas. A primeira delas, intitulada de Proibicionismo (modelo norte-americano), direciona seus esforços para reprimir a oferta por substâncias psicoativas consideradas danosas, através da criminalização da produção, do comércio e do uso dessas substâncias. A segunda (modelos europeus, canadense, outros) é chamada de estratégia de redução de danos e concentra seu foco no enfrentamento dos problemas de saúde, sociais e econômicos relacionados ao uso dessas mesmas substâncias, evitando realizar julgamentos morais. Os planos de ação e as metas de tratamento são elaborados junto aos usuários de drogas. Neste contexto, os grupos e as rodas de conversa são espaços imprescindíveis para o enfrentamento dos problemas decorrentes do abuso. GRUPOS DE MANEJO DE ESTRESSE Também presente na rede de saúde (UBS, Clínicas da Família e ambulatórios especializados), o grupo terapêutico tem caráter psicoterapêutico e educativo. Pretende dar suporte informativo e emocional a pessoas que estão experimentando situações de estresse e ansiedade em suas vidas. Sua metodologia específica viabiliza o reconhecimento dos fatores estressores através do incremento da percepção de si, possibilitando aos participantes desenvolver estratégias de enfrentamento do estresse, incentivando outras formas mais saudáveis de lidar com as exigências e tensões do dia a dia. GRUPOS COM PACIENTES CRÔNICOS Mais utilizado nos serviços hospitalares, os grupos de pacientes com quadros de longa permanência no sistema têm por objetivo aumentar a adesão ao tratamento, oferecer acolhimento, suporte e trocas, viabilizando redes de solidariedade entre seus integrantes. Esse tipo de grupo tende a reunir pacientes com o mesmo tipo de enfermidade, com objetivo de informar, refletir e de dar suporte aos seus participantes no trato com a doença. Normalmente, é coordenado por dois ou mais profissionais de saúde que atuam conjuntamente. GRUPOS SOBRE SEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA Mais presentes na atenção básica, objetivam, principalmente, a redução de gravidez e de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) nesta faixa etária. O grupo com adolescentes tem se mostrado um poderoso instrumento de ajuda nos conflitos das transformações tão delicadas nessa etapa do desenvolvimento. Ele auxilia a refletir e elaborar sentimentos, além de compartilhar e trabalhar dúvidas e conhecimentos face à sexualidade, sempre considerando as angústias e inseguranças, dialogando sobre os afetos envolvidos na vivência da sexualidade e pertencimento de gênero. GRUPO DA TERCEIRA IDADE Mais presentes na atenção básica, esses grupos trazem grandes melhorias e mudanças na vida dos idosos, como saúde, autoestima e autovalorização, contribuindo para o desenvolvimento das funções da vida diária, além de proporcionar reconhecimento, tanto pelos familiares como pela sociedade em geral. RODA DE TERAPIA COMUNITÁRIA Modalidade de terapia difundida a partir da PNH no SUS, muito utilizada na atenção básica, a Terapia Comunitária Integrativa é uma roda de conversa em que se procura compartilhar experiências de vida de forma horizontal e circular. Trabalha a escuta das histórias trazidas e escolhidas pelos participantes para, por meio de uma metodologia estruturada (técnica do Baú de Histórias), implicar a todos na busca de soluções para superar os desafios do cotidiano. Abre o espaço para conversações coletivas que nos permitem construir redes solidárias de estímulo de qualidade de vida, mobilizando e promovendo as competências dos indivíduos, das famílias e das comunidades. MÓDULO 03 - Reconhecer o SUS e o trabalho da Psicologia nos diferentes níveis de cuidado à saúde CONCEITOS IMPORTANTES Toda a política de saúde está consolida no SUS. Ele é o maior sistema de saúde gratuito do mundo e ocupa todo território nacional com uma organização complexa. Agora, vamos compreender esta organização e o papel da Psicologia neste sistema. REDE: É um conjunto de instituições e agentes interligados uns aos outros. A saúde se apoia na ideia de rede para definir os papéis de cada agente no plano, onde se fazem necessárias comunicação e trocas constantes, de elementos materiais ou imateriais entre os entes envolvidos, de acordo com regras bem definidas. REGIÃO DE SAÚDE: Uma região de saúde é uma limitação definida no espaço geográfico. Geralmente corresponde a um conjunto de municípios que compartilham fronteiras, apresentam identidades culturais, econômicas e sociais em comum. Necessitam de boas redes de comunicação e infraestrutura de transportes que viabilizem a organização, o planejamento e a execução de ações e serviços de saúde. O conceito de região de saúde é extremamente importante, pois cada Unidade Básica de Saúde (UBS) atende a um território geográfico específico (bairro ou um conjunto de ruas) que corresponde a um pedaço da cidade, dividida e atribuída a uma equipe de referência. Nos territórios, são estabelecidas redes de serviços que devem ser ofertadas pelo Município, Estado ou União segundo o pacto federativo. Universalidade: Todo cidadão tem direito à saúde gratuita. Antes do SUS, somente os trabalhadores com carteira assinada tinham esse direito. Aos pobres, eram ofertados serviços de caridade ligados a ordens religiosas. Integralidade: O SUS, organizado em níveis crescentes de complexidade, será responsável pela promoção, prevenção, terapêutica e reabilitação de todos os agravos de saúde, excluindo apenas tratamentos experimentais. Equidade: O SUS dará prioridade às populações mais vulneráveis e com dificuldades de acesso, trabalhando a demanda de modo diferenciado, com políticas específicas para cada população. O esforço para o acesso de toda população passa a ser responsabilidade do SUS e não somente do usuário. Hierarquização: O SUS se estrutura em 3 níveis. Baixa complexidade: onde fica a atenção primária (UBS, Clínicas da Família, NASF e Consultórios de Rua). É a porta de entrada do sistema e está referenciada no território por microáreas, na proporção de uma equipe para cada 4 mil famílias. Média complexidade: compreende a atenção prestada pelos hospitais gerais e serviços de urgência e emergência. Alta complexidade: são os hospitais altamente especializados, para casos graves e complicados, que exigem tecnologias e profissionais avançados. O paciente deve ser encaminhado a níveis de complexidade maiores na medida que seu caso exigir, por isso é importante o funcionamentoem rede. Controle social: Como é chamada a Participação Popular no SUS. Todo usuário pode ajudar na gestão. Os mecanismos vão desde reuniões comunitárias nas UBS até através dos Conselhos e Conferências de Saúde. Descentralização: Os equipamentos de saúde têm que estar perto da população, nos contextos comunitários, e a gestão deve ser pactuada entre município, estado e União. CLÍNICA AMPLIADA E POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO – PNH A metodologia da PNH é caracterizada pela utilização de ferramentas para fortalecer redes, vínculos e promover a corresponsabilidade entre usuários, trabalhadores e gestores. A instituição da PNH é um marco inicial de intervenções na gestão das equipes, que passam a ser alvo de diversas ações no intuito de reorganizar o sistema que estava precarizado, abrindo espaço para atuações inovadoras, incluindo diversas práticas da Psicologia. Clínica Ampliada A Clínica Ampliada é uma das principais inovações trazidas pela PNH. Partindo do entendimento de que o homem é um ser biopsicossocial, a Clínica Ampliada propõe um espaço maior ao psicológico e ao social no ambiente de saúde, visando um maior equilíbrio entre esses três enfoques (biológico, psicológico e social), embora reconheça que, em dado momento e situação, possa existir uma predominância de um dos enfoques. Esse dispositivo também passa a valorizar a atuação do psicólogo nas equipes de saúde. O diagnóstico de uma doença supõe alguma regularidade nos sintomas, assim como uma igualdade entre os indivíduos. Torna-se necessário um esforço para que se abra espaço para a singularidade de cada usuário. Isso implica na ampliação do objeto de trabalho, ou seja, apesar de trabalharmos com as doenças, as epidemias e os problemas sociais, precisamos sempre lembrar que eles acontecem com pessoas. É preciso tratar não só a doença, mas os doentes e suas famílias. A Clínica Ampliada propõe a construção compartilhada dos diagnósticos e condutas terapêuticas entre os usuários e famílias; a equipe e sua direção; serviços de saúde e ação intersetorial. Para que se torne possível transformar os instrumentos de trabalho, é preciso dar suporte aos profissionais. Aqui, destaca-se a necessidade das reuniões de equipe e o estímulo à comunicação dentro da equipe e entre as equipes, além de técnicas relacionais que permitam o compartilhamento da clínica. Projeto Terapêutico Singular – PTS O PTS é um dos principais instrumentos da Clínica Ampliada. Ele consiste na proposição e negociação de condutas terapêuticas para um sujeito, coletivo ou comunidade. Essas propostas são elaboradas pela equipe interdisciplinar após discussões de caso, contando, às vezes, com o Apoio Matricial. Aqui, é considerada a singularidade de cada usuário, atentando-se às diferenças que transcendem os diagnósticos. Podemos dizer que o PTS é uma ampliação da discussão de caso clínico, que é geralmente dedicado a situações mais complexas. O PTS ganhou importância e amplitude na Saúde Mental, principalmente, nos CAPS, como uma atuação integrada, que valoriza outros aspectos do sujeito, para além do diagnóstico e da medicação psiquiátrica no tratamento dos usuários. ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA – ESF A ESF está associada ao programa de agentes comunitários, que são pessoas da comunidade treinadas e contratadas para trabalhar a interface entre os usuários e a equipe, que trabalha com promoção e prevenção de saúde, além de cuidados básicos. No SUS, podemos usar aquele velho ditado: “é bem melhor prevenir do que remediar”. Estima-se que em um sistema de saúde eficiente, entre 80 e 85% dos pacientes sejam atendidos na atenção primária, mitigando o número de doenças evitáveis. O investimento em prevenção torna um sistema de saúde sustentável, reduzindo o custo nos setores onde o cuidado é mais caro e complexo, que são os níveis interventivos secundário e terciário. NÚCLEO DE APOIO SAÚDE DA FAMÍLIA – NASF Como não existe previsão de psicólogos na equipe mínima da ESF, normalmente, os psicólogos trabalham no Núcleo de Apoio Saúde da Família – NASF. Esses núcleos atuam junto às equipes de saúde das clínicas da família de seu território, prestando atendimento aos casos de maior complexidade. Neste atendimento, devem produzir e compartilhar um saber sobre o caso específico e sobre a situação de saúde, que servirá de subsídio para a equipe da clínica da família em casos semelhantes. Por isso, esses atendimentos são realizados por vários profissionais, em um modelo semelhante ao das residências de medicina. O objetivo é aumentar a abrangência e a resolubilidade da atenção básica, pois diminui a necessidade de encaminhar pacientes ao setor secundário. Visando à integralidade do cuidado, otimiza a capacidade de análise e de intervenção sobre problemas e necessidades de saúde, no âmbito clínico, sanitário e ambiental, aumentando a qualidade de vida nos territórios atendidos. A atuação do NASF, intitulada Apoio Matricial, deve ser integrada ao atendimento já realizado, ou seja, a atendimentos clínicos, a visitas domiciliares, incluindo também as discussões de casos, as ações intersetoriais e de prevenção e promoção da saúde, sempre caminhando na direção da construção conjunta de projetos terapêuticos. A composição da equipe do NASF é definida pelos gestores municipais, seguindo os critérios de prioridade identificados a partir dos dados epidemiológicos. A PSICOLOGIA E O NASF Os psicólogos são profissionais frequentes no NASF, onde ocupam um espaço estratégico. A recomendação é de que os psicólogos não realizem psicoterapia individual, mas priorizem o apoio matricial. É notório o alto índice de demanda de intervenções em saúde mental, realizada tanto pelos próprios pacientes, como pelas equipes, que os encaminham. A presença constante de psicólogos na saúde é uma reinvindicação de diversos movimentos sociais, concretizada nas últimas Conferências Nacionais de Saúde e regionais de Saúde Mental. O papel do psicólogo ainda não está suficientemente estruturado e institucionalizado, o que se expressa no esforço em refletir sobre a atuação, o que tem favorecido a construção de novas práticas eticamente comprometidas com o público-alvo e com as equipes. Esse esforço tem sido realizado tanto no meio acadêmico, através de projetos de pesquisa em campos de estágios, extensões, mestrados e doutorados, como pelas entidades de classe, como CFP, sindicatos e ABEP, que promovem encontros, seminários e jornadas para trocas, que posteriormente são publicadas e compartilhadas. Uma das novidades nesse campo é o trabalho com prevenção e promoção de saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define como promoção da saúde o processo que permite às pessoas melhorar sua condição de saúde pelo conhecimento e aumentar o controle sobre os fatores que intervêm nesta, principalmente os determinantes sociais de saúde. É um processo social e político, onde a participação é essencial para sustentar as ações. Privilegia ações voltadas para o fortalecimento das capacidades e habilidades da população atendida. Preocupa-se também com mudanças nas condições sociais, ambientais e econômicas que impactam na saúde. A prevenção é um trabalho mais focado em resultados. Com base em informações científicas e recomendações normativas, exige uma ação antecipada, subsidiada pelo conhecimento epidemiológico da doença, visando o controle e redução do risco. PROGRAMA DE SAÚDE NA ESCOLA – PSE O PSE é uma política intersetorial entre o Ministério da Saúde e o da Educação, que começou em 2007. Ele oferece atividades voltadas para a saúde e educação para crianças, adolescentes, jovens e adultos da educação pública. É uma estratégia orientada para o desenvolvimento da cidadania e da qualificação dessas duas políticas públicas que são básicas e, por isso, as mais importantes. Essa articulação intersetorial não implica simplesmente em aumento de oferta de serviços em um mesmo território, mas ações a partir da construção de redes de corresponsabilidade, propiciando a sustentabilidade da rede. O psicólogo que trabalha no NASF participa ativamentedas ações do PSE. As ações da Psicologia no PSE têm três componentes: avaliação clínica e psicossocial, promoção e prevenção à saúde e formação profissional. As ações da Psicologia impactam o ambiente escolar, oferecendo matriciamento e capacitações aos professores, orientando-os quanto aos temas pertinentes. Há espaço para rodas de conversa que são um lugar de escuta das aflições produzidas no cotidiano de trabalho dos professores, onde podem compartilhar as angústias decorrentes dos problemas que atingem a profissão, como desmanche político, precarização das condições de trabalho, baixa remuneração etc. São ofertados também encontros temáticos para a população, onde são discutidos temas pertinentes à comunidade. PSICOLOGIA NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL – RAPS Representa uma mudança em relação ao modelo anterior, onde o tratamento psiquiátrico era sinônimo de isolamento e afastamento das pessoas de suas famílias e da comunidade. A partir desta lei, todos os pacientes com transtornos mentais passam a ter direito ao tratamento adequado às suas necessidades. Eles devem ser tratados com humanidade e respeito, tendo como meta alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade. Os pacientes deverão ser protegidos contra qualquer forma de abuso e exploração, tendo garantia de sigilo e respeito de sua doença. A Psicologia na RAPS foi instituída como uma rede intersetorial de serviços e equipamentos. Suas ações podem ser divididas em atenção psicossocial básica, atenção psicossocial estratégica, reabilitação psicossocial e atenção residencial de caráter transitório e definitivo CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL – CAPS O CAPS é um equipamento que pertence à rede de atenção secundária, de média complexidade. Segundo os últimos dados, há 2.465 equipamentos do tipo CAPS presentes distribuídos nos 5.570 municípios brasileiros. Embora não seja obrigatória a contratação de psicólogos nesta modalidade, quase a totalidade das equipes opta pela contratação. No CAPS, a crise é entendida como uma situação que demanda intervenção e produção de cuidado, mas não necessariamente demanda isolamento. Esse momento envolve uma série de fatores, muitos de origem social, que indicam não se tratar apenas de uma situação puramente biológica ou psicológica, por isso, falamos em processo psicossocial. Os CAPS funcionam com sistema de portas abertas, sem exigência de encaminhamento de outros equipamentos de saúde. Devem ter uma estrutura bastante flexível para que não se tornem espaços burocratizados e repetitivos. Por isso, o espaço é permeado pela arte, com oficinas terapêuticas de música, teatro, artesanato, reciclagem, pintura e escultura, tornando-se ambientes alegres, decorados pelas obras dos usuários. CONSULTÓRIO DE RUA É uma estratégia criada pela política nacional de atenção básica, em 2011, e tem por objetivo realizar a ampliação do acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde, ofertando atenção integral aos que se encontram em condições de vulnerabilidade e com os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados. ão equipes multiprofissionais volantes que desenvolvem ações integrais, adequadas às necessidades dessa população, através de uma atuação itinerante, que perambula pelo território indo ao encontro de seu público-alvo. Frequentemente, envolvem ações conjuntas com as equipes das UBS de referência. Os psicólogos integram a equipe compondo o entendimento sobre os usuários com seu saber sobre as dinâmicas psicológicas, realizando abordagens, participando da estruturação e pactuação dos projetos terapêuticos, entre outras. Atuam também junto à equipe, auxiliando na comunicação, aumentando a grupalidade e ouvindo as frustrações, visando elaborá-las. Pode também atuar junto à comunidade, em projetos que visem diminuir o preconceito e contribuam para a integração da população em situação de rua. PSICÓLOGO NO CONTEXTO HOSPITALAR A Psicologia da Saúde contempla ações nos setores primários, secundário e terciário. A Psicologia Hospitalar compreende as ações que se desenvolvem em equipamentos dos hospitais, nos serviços de média e alta complexidade. No Brasil nos anos de 1930, foram fundados os primeiros serviços de Higiene Mental que contaram com participação ativa de psicólogos, que traziam propostas muito diferentes daquelas da Psiquiatria. Em 1950, dá-se a primeira inserção de psicólogos em hospital geral, no Hospital de Clínicas da USP, realizando uma pesquisa sobre o alojamento conjunto em maternidade. Em 1997, é fundada a Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar (SBPH), que dá impulso e legitimidade às práticas efetuadas, além de proporcionar espaços para troca e sistematização dos conhecimentos. Psicologia Hospitalar corresponde ao campo de entendimento e tratamento dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento quando este ocasiona uma internação hospitalar”. Nesse entendimento, evidencia-se a dimensão biopsicossocial das doenças. Essa visão abre espaço para práticas mais focadas no paciente e menos nos sintomas ou na doença; para a Psicologia Hospitalar, o objetivo de sua atuação é “tratar doentes, não doenças” ATRIBUIÇÕES DO PSICOLOGO HOSPITALAR Atua em instituições de saúde, participando da prestação de serviços de nível secundário ou terciário da atenção à saúde. Atua também em instituições de ensino superior e/ou centros de estudo e de pesquisa, visando ao aperfeiçoamento ou à especialização de profissionais em sua área de competência, ou à complementação da formação de outros profissionais de saúde de nível médio ou superior, incluindo pós-graduação lato e stricto sensu. Atende a pacientes, familiares e/ou responsáveis pelo paciente; membros da comunidade dentro de sua área de atuação; membros da equipe multiprofissional e eventualmente administrativa, buscando o bem estar físico e emocional do paciente; e, alunos e pesquisadores, quando estes estejam atuando em pesquisa e assistência. Oferece e desenvolve atividades em diferentes níveis de tratamento, tendo como sua principal tarefa a avaliação e acompanhamento de intercorrências psíquicas dos pacientes que estão ou serão submetidos a procedimentos médicos, visando basicamente à promoção e/ou à recuperação da saúde física e mental. Promove intervenções direcionadas à relação médico/paciente, paciente/família, e paciente/paciente e do paciente em relação ao processo do adoecer, hospitalização e repercussões emocionais que emergem neste processo. No trabalho com a equipe multidisciplinar, preferencialmente interdisciplinar, participa de decisões em relação à conduta a ser adotada pela equipe, objetivando promover apoio e segurança ao paciente e família, aportando informações pertinentes à sua área de atuação, bem como na forma de grupo de reflexão, no qual o suporte e manejo estão voltados para possíveis dificuldades operacionais e/ou subjetivas dos membros da equipe. A PSICOLOGIA E A PANDEMIA POR COVID-19 Devido à pandemia de Covid-19 que se estabeleceu no Brasil a partir de março de 2020, houve uma grande contratação de psicólogos para trabalhar em hospitais gerais e de campanha no enfrentamento deste vírus. Por tratar-se de um evento ainda em andamento, é difícil traçar os limites deste campo, mas é possível apontar algumas tendências no trabalho destes profissionais que se mostraram essenciais nestes espaços. Antes da pandemia, a Psicologia atuava pouco com pacientes com doenças contagiosas, que não constituíam um número significativo. A partir deste ano, a participação do psicólogo na rotina hospitalar tornou-se importantíssima e estes profissionais se viram frente a novos desafios e angústias, como o perigo de contágio, a paramentação de alta segurança e o acolhimento diário e cotidiano, em frequência nunca imaginada, às famílias enlutadas.