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Compêndio de análise institucional e outras 
correntes: teoria e prática
Gregorio F. Baremblitt 
 
5ª.ed. 
Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2) 
Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras 
correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari 
(Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)
Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992
4 
SUMÁRIO 5
INTRODUÇÃO.............. 11 
CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13 
CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 
CAPÍTULO III: As histórias..............37 
CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 
CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 
CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 
CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 
GLOSSÁRIO..............133 
APÊNDICE..............174 
POST-SCRIPTUM..............195 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 
BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207 
AGRADECIMENTOS 
No referente à primeira edição deste livro, o autor dá 
aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo 
Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de 
Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de 
MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi 
uma versão. 
Nesta quinta edição, o autor exprime seu 
agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou 
inúmeras tarefas que possibilitaram sua publicação e 
distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução 
de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com 
a revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor 
também agradece aos membros e funcionários do Instituto 
Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contri-
buições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente. 
O autor é grato a todos os amigos: professores universitários, 
pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da 
autogestão que colaboraram na distribuição das diversas 
edições deste escrito. 
9▲
INTRODUÇÃO 
Este livro corresponde à versão escrita de um curso proferido em Belo Horizonte no 
decorrer de 1990, organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. Curso que, por sua vez, 
foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no 
Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. Os seis primeiros 
capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o curso, enquanto o último foi escrito como 
artigo independente, ainda inédito. 
O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo, heterológico e polimorfo de 
orientações, entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua 
aspiração a deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e autogestivos dos coletivos 
sociais. 
Essa vocação libertária, o estatuto epistemológico e jurídico absolutamente singular e a 
infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tarefa 
de ensiná-lo. Se se deseja ser coerente com os valores do Movimento, sua Pedagogia exige uma 
originalidade da qual já existem muitas tentativas, mas que, ao mesmo tempo, ainda está para ser 
produzida. 
11▲
Este curso, proferido com uma metodologia tradicional, tem apenas o propósito de 
aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do 
Institucionalismo. Mais informativo que formativo, foi inspirado pelo desejo de estender e facilitar 
um saber e um fazer complexo e arriscado, mas, no meu entender, importantíssimo para o povo 
brasileiro. 
Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados, acredito 
que este livro seja estimulante, discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para 
os futuros institucionalistas. Para quem decidir continuar, ou, sejamos realistas, começar 
verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta, a bibliografia final, integrada predo-
minantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil, proverá boa parte da 
diretriz indispensável para tal fim. 
Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória, devo 
destacar as correntes latino-americanas de Pichón-Riéver, Bleger, Ulloa, Malfe, Bauleo, Kaminsky, 
Pavlovsky, De Brasi, Matrajt, Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar, em algum 
momento, um livro especial. 
12 ▲
Capítulo I 
O MOVIMENTO INSTITUINTE, A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO 
No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam, pois se 
procura apresentar uma exposição de nível médio, para ser entendida pelo maior número possível 
de pessoas. 
Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que, como o nome 
aproximativamente indica, é um conjunto de escolas, um leque de tendências. Não existe nenhuma 
escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte. 
Contudo, pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. E é a 
essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora, da maneira mais simples e mais 
didática possível. Em capítulos sucessivos, teremos ocasião de complicar as coisas... Agora, a 
intenção é, predominantemente, simplificá-las. 
Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte, há 
algumas que são relativamente fáceis de se colocar. Eu diria que existe o que se chama de "ideais 
máximos" do Movimento. Podemos chamar a isto também de 
1 3 ▲
propósitos mais importantes, os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. Os mesmos podem 
ser enunciados através de duas palavras aparentemente simples, mas que são, como veremos 
depois, muito complexas. 
As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar, apoiar e 
deflagrar nas comunidades, nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e 
de autogestão. O que significam essas palavras? 
Depois, compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana, 
os processos de funcionamento social, têm sido sempre muito complexos. Mas em nossa 
civilização chamada industrial, capitalista ou tecnológica, a complexidade da vida social 
atingiu seu máximo expoente em toda a história da humanidade. Se compararmos, por 
exemplo, uma organização social dita "primitiva", ou uma organização imperial, despótica, ou 
uma medieval com a nossa sociedade moderna, o grau de complexidade, de diversidade que as 
sociedades modernas atingem é infinitamente superior ao daquelas civilizações, apesar delas 
não serem nada simples. Acontece, então, que nossa época, nossa civilização, além de se 
caracterizar por uma grande diversidade, uma grande complicação interna, caracteriza-se 
também por, de fato, ter produzido uma soma de saberes que propiciou, nesses últimos 
duzentos anos, uma "evolução" maior do que a humanidade havia conseguido em dois mil 
anos; ou seja, houve um processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo 
muito intenso. 
Esse saber, como ninguém ignora, resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram 
o chamado "progresso" em igual proporção. E o progresso trouxe uma grande complexidade. 
Além desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza, ciências formais, 
aplicações tecnológicas, existem disciplinas que versam sobre a organização social em si 
mesma. Ou seja, nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio 
funcionamento como objetode estudo e tem gerado profissionais, intelectuais, experts que são 
os conhecedores dessa estrutura e do processo dessa sociedade em si. Esses conhecedores têm-
se colocado, em geral, a serviço das entidades e das forças que são dominantes em nossa 
sociedade. Por exemplo, a serviço daquela instituição que representa o máximo 
14 ▲
da concentração de poder, o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a 
sociedade, que é o Estado. Além disso, por outro lado, já dentro da sociedade civil, esses 
experts têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza, do poder, do 
saber e do prestígio, que são as organizações corporativas, as empresas nacionais e 
multinacionais etc. Essa situação, em que os "sábios", os conhecedores da estrutura e do 
processo da vida social estão predominantemente a serviço do Estado e das empresas, tem tido 
como conseqüência que os povos – em sentido amplo, a sociedade civil – têm-se visto 
despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos acerca de sua própria 
vida, de seu próprio funcionamento. Esse saber, criado e acumulado pelas comunidades 
sociais durante tantos anos de experiência vital, a partir do surgimento do saber científico e 
tecnológico, fica relegado, colocado em segundo plano, como se fosse rudimentar e 
inadequado. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo de ideologia, num 
sentido vago, geral, visando a qualificá-lo como um falso conhecimento, pobre, infundado ou, 
no melhor dos casos, insuficiente. Então, as comunidades de cidadãos têm visto esse saber 
subordinado ao saber dos experts. Junto com seu saber, elas têm perdido o controle sobre suas 
próprias condições de vida, ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. 
Elas dependem, então, quase incondicionalmente, dos organismos do Estado, empresariais, do 
saber e de serviços dos experts . E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos, 
primários, secundários e terciários, aos especialistas de produção de bens materiais, ou seja, 
comida, vestuário, moradia, transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. 
Toda a produção desses bens está dirigida, gerenciada por "especialistas". Mas noutro plano, 
refiro-me aos problemas de saúde, de educação, aos assuntos familiares, aos psicológicos e 
subjetivos, em geral; às questões relativas ao lazer, às que atingem a comunicação de massa, 
aos assuntos próprios da religião. Cada um desses campos, cada um dos serviços que se 
prestam nessas áreas, os bens que se produzem e administram nesses territórios, ou seja, sua 
quantidade, sua qualidade, sua necessidade, sua conveniência, tudo é decidido pelos experts , é 
arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. O mesmo acontece no plano 
de administração da justiça, nos tribunais, com os 
15 ▲
advogados, despachantes, registros civis, leis: tudo i sso feito por experts e administrado por 
eles. E o que falar do exercício da força, no sentido literal, porque todas essas outras 
entidades também usam da força, senão da força física, da força da persuasão, da força da 
sedução, mas o uso da força física está reservado a organizações como a polícia, as forças 
armadas, que também têm seus especialistas, oficiais, delegados, guardas etc. É claro que os 
experts conhecem e decidem prevalentemente segundo os interesses das classes, níveis 
hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. Mas não se deve 
sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. Acontece, como veremos, 
que seu saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que 
privilegiam os interesses e desejos citados. 
Então, o que acontece? 
Há um conceito básico que vamos ver depois, na Análise Institucional e em outras 
escolas do Institucionalismo, que se chama demanda. É possível afirmar que as comunidades 
ou coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. Essas necessidades são 
colocadas diariamente através de demandas espontâneas, através da exigência de produtos e 
de serviços correspondentes. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo 
Institucionalismo, porque ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história, mas 
particularmente na nossa, não existem necessidades básicas "naturais"; não existem 
demandas "espontâneas", pois em todas e em cada uma dessas organizações que acabamos 
de descrever, a noção das necessidades é produzida, assim como a demanda é modulada; 
isto é, aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma população e todos os 
povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. Esse "mínimo" é gerado em cada 
sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. Mas ainda dentro do 
condicionamento histórico, as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas 
necessidades a perdem, de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o 
que "realmente" aspiram, mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas 
necessitam e acham que pedem o que querem e como querem, mas, na verdade, precisam, 
querem e pedem o que lhes inculcam que devem necessitar, desejar e solicitar. É, então, 
muito evidente que nossos coletivos estão, 
16 ▲
atualmente, nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes 
permite fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts 
dizem que precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. Então, os 
coletivos têm perdido, têm alienado o saber acerca de sua própria vida, a noção de suas reais 
necessidades, de seus desejos, de suas demandas, de suas limitações e das causas que 
determinam essas necessidades e essas limitações. Eles têm perdido um certo grau de 
compreensão e o controle sobre que tipos de recursos e formas de organização devem dispor 
para colocar e resolver seus problemas. Mal podem organizar-se para resolver seus 
problemas se não conseguem saber, com precisão, quais são seus verdadeiros problemas e o 
que se requer para resolvê-los. 
Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo, um deles 
seria a auto-análise e o outro a autogestão. Agora já podemos explicar um pouco melhor em 
que consistiria o primeiro deles. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas, 
como protagonistas de seus problemas, necessidades, interesses, desejos e demandas, 
possam enunciar, compreender, adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário 
próprio que lhes permita saber acerca de sua vida, ou seja: não se trata de que alguém venha 
de fora ou de cima para dizer-lhes quem são, o que podem, o que sabem, o que devem pedir 
e o que podem ou não conseguir. Este processo de auto-análise das comunidades é 
simultâneo ao processo de auto-organização, em que a comunidade se articula, se 
institucionaliza, se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir, ela 
mesma, ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento 
de sua vida sobre a terra. Na medida em que essa organização é conseqüência e, ao mesmo 
tempo, um movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise, ela também não 
é feita de cima para baixo, nem de fora, mas elaborada no próprio seio heterogêneo do 
coletivo interessado. Essa auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que 
os coletivos devam prescindir por completo dos experts porque, sem dúvida, com sua 
disciplina e seus instrumentos, eles têm acumulada uma quantidade de conhecimento 
importante e não inteiramente alienado, não necessariamente distorcido, ou seja: produtivo. 
Mas os experts 
17 ▲
devem submeter seu saber, suas glórias, seus métodos, suas técnicas, suas inserções sociais 
como profissionais a uma profunda crítica queos faça separar, dentr o dessas teorias, métodos e 
técnicas, dentro dos organismos aos quais pertencem, o que é produto de sua origem, de sua 
pertença ao bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise, a uma 
auto gestão, da qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. Para poderem 
efetuar essa autocrítica, os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim, não 
podem fazê-lo nas academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. Eles têm que 
entrar em contato direto com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando 
para incorporar-se a essas comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. Esse 
estatuto deve resultar de uma crítica das posições, postos, hierarquias que eles têm dentro dos 
aparelhos acadêmicos ou jurídico-políticos do Estado, ou ainda das diretivas das grandes 
empresas nacionais e multinacionais. Eles têm de reformular sua condição profissional, seu 
saber específico. E só conseguirão reformulá-los numa gestão, num trabalho feito em conjunto 
com essas comunidades e na mesma relação de horizontalidade com que qualquer membro 
dessa comunidade o faz. Isso permitirá que, eventualmente, os experts, quando a comunidade 
conseguir organizar-se, tenham algum lugar dentro das organizações específicas que a 
comunidade se deu a si mesma para esses fins. Então seu saber, sua capacidade e sua potência 
produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de auto-análise e auto gestão dessa 
comunidade. Eles poderão assim reformular, aprendendo e ensinando seu saber e sua eficiência 
nessa nova e inédita situação. À parte dessa reinvenção de sua disciplina, os experts poderão 
aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos autogestivos e auto-
analíticos quando forem chamados a participar. 
Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento 
Institucionalista que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o 
integram. Ao mesmo tempo em que são os objetivos principais das propostas instituintes, eles 
são também os próprios meios para realizá-las. Por isso, é importante que esses dois objetivos e 
meios sejam não apenas superficial, mas profundamente conhecidos pelos leitores. 
1 8 ▲
É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. Por 
quê? Porque auto-análise, para as comunidades, significa a produção de um saber, do 
conhecimento acerca de seus problemas, de suas condições de vida, suas necessidades, 
demandas etc., e também de seus recursos. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas 
comunidades, elas têm que construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja 
realizável. Elas têm que organizar-se em grupos de discussão, em assembléias; elas têm que 
chamar experts aliados para colaborarem; elas têm que se dar condições para produzir esse 
saber e para desmistificar o saber dominante. Ao mesmo tempo, tudo o que elas descobrirem 
neste processo de auto-conhecimento só terá uma finalidade: a de auto-organizar-se para que 
possam operar as forças destinadas a transformar suas condições de existência, a resolver seus 
problemas. Mas não pode haver uma organização sem um saber; não pode haver um saber sem 
uma organização. São dois processos diferenciados, mas eles são concomitantes, simultâneos, 
articulados. 
Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de 
denominações, hierarquias, quadros, especificidades etc. Na realidade, é difícil pensar qualquer 
processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma 
certa hierarquia de decisão, de deliberação. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer 
processo produtivo. Deverão, então, existir hierarquias, gerências. Mas a existência de 
hierarquia não implica diferença de poder; não equivale a privilégio ou arbitrariedade na 
capacidade de decidir. Implica apenas uma certa especialização em algumas tarefas, porque 
estes dispositivos estão feitos de tal maneira que as decisões de fundo são tomadas 
coletivamente. Em todo caso, os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade 
consensual. São executores. Mas não são executores do mandato das elites mediatizado por 
organismos burocráticos, por correias de transmissão. Na autogestão os coletivos mesmos 
deliberam e decidem. Eles têm maneiras diretas de comunicar as decisões. Existem hierarquias 
moduladas pela potência, peculiaridades e capacidade de produzir; mas não há hierarquias de 
poder, ou seja, a capacidade de impor a vontade de um sobre o outro. 
Contudo, é evidente que o Institucionalismo, tanto quanto os processos auto-analíticos, 
são produtores de conhecimentos, 
1 9 ▲
e que todo saber envolve, necessariamente, um poder, e ambos não são homogeneamente 
distribuídos. Mas este saber é um saber coletivo, produzido, distribuído e exercitado na vida 
coletiva. Na topografia deste saber, existem alguns elementos essenciais que são 
compartilhados por todo mundo. Então, quando esse saber compartilhado é delegado a 
alguns que se especializam nessa questão, já não é um saber produzido fora dos interesses e 
desejos do coletivo, já não é um saber que vai cair de cima para baixo, de fora para dentro. É 
já uma delegação, porque foi produzido dentro, por alguns especialistas no assunto, em 
estreita colaboração com os diretamente interessados nos benefícios que esse saber e suas 
aplicações terão, uma vez realizados. 
Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles 
um saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. O 
coletivo conserva um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o 
especialista está exercitando o seu poder com sentido instituinte-organizante, e então a 
serviço do coletivo, ou, pelo contrário, de ambições de segmentos individualistas etc. Vou 
dar um típico exemplo da medicina, embora haja mil exemplos, muitos dos quais não 
poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e extensos para expor. Quem 
conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país não precisa 
prioritariamente de, digamos, tomógrafos computadorizados, pelo menos a nível de sua 
problemática prevalente atual. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não 
começa nem acaba no campo da medicina. Seus problemas, que têm efeitos médicos, têm 
suas causas diretas nos problemas de habitação, alimentação, vestuário e saneamento básico. 
Disso todos os experts sabem, o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil 
esteja colocada na assistência e não na prevenção, principalmente se por prevenção entende -
se algo que modifique radicalmente as condições de vida da população. Entretanto, há 
muitos centros paulistas e cariocas que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para 
resolver ou diagnosticar uma problemática altamente específica, circunscrita, que afeta 0,5% 
da população. Acontece que o povo, as organizações de base, não podem questionar de 
maneira eficiente as políticas médicas do Brasil porque a primeira coisa 
20 ▲
que lhes seria respondida é que não sabem. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza 
seu saber, revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que preci sa? Os índios têm, 
as comunidades negras têm, as comunidades das montanhas têm, as comunidades da 
planície têm, todo mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos, 
quais são as enfermidades e como devem ser tratadas, pelo menos, basicamente. Assim, 
também eles sabem quais problemas devem ser abordados – mesmo que não se exprimam 
em sofrimento, ou quando o sofrimento ainda não tenha se tornado doença, não devendo ser 
tratado como tal.Desde logo este saber também desconhece muita coisa, mas isso não pode 
afirmar-se a priori. Só que esse saber é permanentemente desqualificado pelo saber 
acadêmico, que atua predominantemente a serviço de interesses estatais, nacionais e 
multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses interesses. 
A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar, revalorizar o saber 
espontâneo que elas têm sobre seus problemas; a segunda operação deve ser feita em 
conjunto com os experts, ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante 
reacionária-que o saber médico (nesse caso) e suas técnicas têm. Sobretudo em termos de 
hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o que vem depois, o que é prioritário e 
o que é secundário. Uma vez que o expert , integrado à comunidade, demonstra a capacidade 
de contribuir, em pé de igualdade, para este trabalho de reformulação, pode-se delegar a ele 
algumas áreas do saber com menos perigo de que ele o transforme em poder, e não numa 
potência de colaboração com o coletivo. Nesse caso, o coletivo já não está desqualificado – 
ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. Isso não descarta que possam 
acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder, porque este processo 
de auto-conhecimento e autogestão é interminável. Provavelmente, haverá necessidade de 
muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se em sua 
plenitude. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está 
colocada num futuro longínquo, senão em cada ato do cotidiano. Como já dissemos, 
existiram e existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam 
o caráter purista que a gente pode imaginar em sentido abstrato. Por exemplo, as 
comunidades 
21 ▲
eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente 
integrado a aspectos libertários do Cristianismo, embora limitados pelos processos 
burocráticos da Igreja Católica. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste 
primeiro capítulo, mas acho que vai complicar um pouco as coisas, porque eu queria 
enfatizar os conceitos essenciais básicos. Mas, enfim, em que consiste o tema aqui 
levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma gênese histórico -social e uma 
gênese conceitual. A primeira é a história de todas as tentativas que houve na história da 
humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo espontâneo. Um desses 
movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em outros países. Mas 
muitas iniciativas autogestivas já existiram, existem e vão existir, e não precisam do 
Institucionalismo para se desenvolverem. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o 
resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. Nós, os 
experts – médicos, engenheiros, advogados, comunicólogos, psicólogos etc –, temos 
aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das 
experiências históricas que já existiram neste sentido e das que estão existindo e se 
desenvolvem perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação. Por outro lado, a 
gênese conceitual refere-se ao campo das idéias, conceitos e funções: todas aquelas teorias, 
conceitos, idéias, categorias que têm sido produzidas pela humanidade no decorrer da 
história do conhecimento e podem contribuir para dar base, para fundamentar a proposta 
institucionalista. 
Agora, gostaria de referir-me à última questão, muito importante. Os leitores 
compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições 
altamente desfavoráveis, severamente contraproducentes. Por quê? Naturalmente porque os 
coletivos em questão não são donos do saber, não são donos da riqueza, não são donos dos 
recursos que são propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e 
grupos dominantes. Então, a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão 
desde a privação de recursos (que são propriedade a serviço do poder dos organismos e 
entidades de classe dominante) até a morte física repressiva. Esses processos autogestivos e 
auto-analíticos são, para a 
22 ▲
organização do sistema, um câncer, uma peste. Não há nada que seja mais temido e mais 
odiado pelo sistema social, porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os 
coletivos presidam a definição de problemas, a invenção de soluções, a colocaçã o dos 
limites do que é possível, do que é impossível e do que é virtual, o que normalmente é feito 
pelas instituições, organizações e saberes de grupos e outros segmentos dominantes. Por isso 
a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em que as iniciativas auto-analíticas e 
autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. Elas têm aparecido muitas vezes na 
história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. E as que hoje insistem em existir 
lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam destruí-las. E 
quando não conseguem eliminá-las, tentam recuperá-las, incorporá-las. Isso faz com que os 
objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos 
nunca de forma definitiva. Eles são atingidos sempre na base da tentativa, do ensaio, da 
procura. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. Mas isso não quer dizer que 
não sejam possíveis ou inventáveis. Então, esta última afirmação que faço refere-se ao 
seguinte: as diferentes escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias, 
pelos métodos, pelas técnicas com que elas tentam introduzir estes objetivos últimos, e pelo 
grau de realização com o qual se conformam. Quer dizer: há correntes, escolas" 
maximalistas", que buscam a instalação plena da autogestão e da auto-análise. Há outras que 
se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos, de alguns espaços, de alguns 
temas de auto-análise e autogestão. Ou seja, no Institucionalismo, como na política, existem 
correntes reformistas e existem correntes ultra-revolucionárias. De qualquer maneira, nada 
disso impede que as agrupemos em torno desses dois objetivos e recursos. Eles as 
diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas, tanto das extremistas 
quanto das propostas social-democráticas. Provavelmente a tendência política tradicional 
que mais se aproxima das propostas institucionalistas, e com a qual o Institucionalismo está 
mais que em dívida, seja a de certas orientações do anarquismo. 
2 3 ▲
PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 
1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência, uma disciplina ou uma 
tecnologia? 
2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos 
e grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 
3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber", e por que se diz que as 
ciências, as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos 
dominantes? 
4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações, 
ou é a oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e 
modula as demandas? 
5) O que significa auto-análise e autogestão? 
24 ▲
Capítulo II 
SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES 
O Institucionalismo, à sua maneira, tem uma concepção própria do que é a Sociedade 
e do que é a História, a Sociedade como forma organizada de associação humana e a 
História como o devir da Sociedade no tempo. O Institucionalismo, sem considerar no 
momento as diferenças doutrinárias de escola para escola, afirma que a sociedade é uma 
rede, um tecido de instituições. E que são as instituições?As instituições são lógicas, são árvores de composições lógicas que, segundo a forma 
e o grau de formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas e, quando não estão 
enunciadas de maneira manifesta, podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. 
Alguns autores sustentam que leis, normas e costumes são objetificações de valores. As leis, 
em geral, estão escritas; as normas e os códigos também. Mas uma instituição não necessita 
de tal formalização por escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos, só que eles são 
transmitidos verbal ou praticamente, não figurando em nenhum documento. 
O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana, 
caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela, 
esclarecendo 
2 5 ▲
o que deve ser, o que está prescrito, e o que não deve ser, isto é, o que está proscrito, assim corno o 
que é indiferente. Essas lógicas, esses corpos discriminativos, são vários, e é curioso que os 
institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. 
Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. Um exemplo de urna instituição: 
a instituição da' linguagem. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em 
termos gramaticais. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis, de normas que regem a 
combinatória de elementos fônicos, de unidades de significação na linguagem. Com a combinação 
desses elementos, conforme indicado por essas leis, pode construir-se um infinito número de 
mensagens, de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte 
dessa língua. Então, corno se pode ver, no final das contas, urna gramática é urna instituição que 
explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens, consideradas gramaticais ou 
agramaticais, os prescritos ou os proscritos. É claro que, no caso da língua, não estarão estipulados 
também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua, que é o que 
acontece em outros tipos de instituição. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é 
óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano, pelo menos dentro desse universo humano 
em particular. 
Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco, as que definem os lugares tais 
corno: pai, mãe, filho, nora, genro etc. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa 
classificação podem se dar uniões, entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo, que 
característica de vínculo. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra. 
Isso também é um código que, formalizado ou não, regula a relação de parentesco e tem prescrições 
– o que é indicado; e também proscrições – o que é proibido; assim como o que é indiferente ou não 
abrangido por essa lógica. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da 
divisão do trabalho humano. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as 
especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). Mas, por outro lado, essa divisão 
vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder, 
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prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm 
esses lugares (divisão social). Por exemplo: trabalho manual e intelectual, do campo e da cidade, 
assalariados e autônomos, feminino e masculino etc. 
Há também as instituições da educação, isto é, aquelas leis, normas e pautas que prescrevem 
corno se deve socializar, instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa 
integrar-se à mesma com suas características efetivas. 
Ternos também a instituição da religião, que é a que regula as relações do homem com a 
divindade, divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros, mas com 
respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de 
comportamentos contra-indicados. 
Ternos também as instituições de justiça, as instituições da administração da força, e assim 
por diante. Em um plano formal, urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que 
se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana 
sobre a terra e a relação entre os homens. Agora, entendidas assim, as instituições são entidades 
abstratas, por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. 
Para vigorar, para cumprir sua função de regulação da vida humana, as instituições têm de 
realizar-se, têm de "materializar-se". E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que 
são as organizações. As organizações, então, são formas materiais muito variadas que 
compreendem desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da 
Educação, Ministério da Justiça, Ministério da Fazenda etc. – até um pequeno estabelecimento. Ou 
seja, as organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as 
opções que as instituições distribuem e enunciam. Isto é, as instituições não teriam vida, não teriam 
realidade social senão através das organizações. Mas as organizações não teriam sentido, não teriam 
objetivo, não teriam direção se não estivessem informadas como estão, pelas instituições. 
Por sua vez, urna organização (que, como insisti, costuma ser um complexo grande, vultoso) 
está composta de unidades menores. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las 
todas. Mas, pelo menos, há algumas que são muito 
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características, como, por exemplo, os estabelecimentos. Estabelecimentos seriam as escolas, 
um convento, uma fábrica, uma loja, um banco, um quartel. Há diversos tipos de 
estabelecimentos, de características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos 
o que integra uma organização. 
Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais 
básicos são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de 
equipamento. O equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o 
estabelecimento, ou seja, as máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade 
muito mais ampla, de maneira que forme um grande sistema de máquinas, um grande 
equipamento. Isso é o que acontece, suponhamos, com os equipamentos das organizações da 
comunicação de massa, que, por sua vez, são organizações que realizam as prescrições de 
uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. 
Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só 
adquire dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão 
através dos agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de 
toda essa parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, 
não-verbais, discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou 
inespecíficas. Mas é nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na 
realidade. Então, estas unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento 
– agente – práticas) não podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso 
ocorre. E não são confundidas apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. 
Então, quando se estuda uma escola institucionalista, esta escola pode chamar de instituição 
às organizações; de organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque 
a primeira coisa a se fazer para se entender este complexo panorama é criar uma 
nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande 
parte dos institucionalistas aceita. 
Isso não é apenas o exercício de um desafio,mas algo importante. Se começamos a 
dizer, por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola 
não é 
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uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização – 
provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a 
instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis. 
Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente 
do instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito 
difíceis de se determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de 
seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo 
dos tempos". Inclusive há muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de 
parentesco, da religião e da divisão do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio 
primeiro e qual veio depois. Mas podemos afirmar que para uma sociedade humana existir é 
preciso haver no mínimo essas quatro instituições humanas, ou seja, humanidade é sinônimo 
de coletivo regido por essas instituições, e essas instituições são sinônimo de existência de 
um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os coletivos antes que aparecessem 
essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem antes de ser homem, pelo 
menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é muito difícil. Só se 
pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é o que 
constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode 
dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma 
potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar 
mutações nas suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir 
historicamente ao nascimento de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que 
acontece. O que se pode presenciar são grandes momentos históricos de revolução de uma 
instituição, de profundas transformações de urna instituição. Então, a esses momentos de 
transformação institucional, a essas forças que tendem a transformar as instituições ou 
também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não existem), a isso se chama o 
instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. 
Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de 
instituições, tem um produto, geram 
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um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês 
prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à 
diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto 
o instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o 
instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído 
cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os 
hábitos, os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da 
sociedade. Mas acontece que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; 
então, para que os instituídos sejam funcionais na vida social, eles têm de estar 
acompanhando a transformação da vida social mesma para produzir cada vez mais novos 
instituídos que sejam apropriados aos novos estados sociais. Tem-se que evitar uma leitura do 
tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o instituído é ruim, embora seja verdade 
que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à resistência, uma disposição que se 
poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando se exacerba, se exagera, se 
conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo. Pelo contrário, o 
instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por excelência. Na 
realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de sentido se 
não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos não 
seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à 
potência instituinte. 
Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o 
organizado. Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das 
organizações – o organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso 
organograma ou fluxograma, que é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a 
cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a ver com o natural), uma tendência histórica a 
esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os quais o mais conhecido é a burocracia, 
embora não seja o único. Então, é importante saber que a vida social – entendida como o 
processo em permanente transformação que deve tender ao aperfeiçoamento e visar a maior 
felicidade, maior realização, 
30 ▲
maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada 
por instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a 
dialética existentes entre o instituinte e o instituído, entre o organizante e o organizado 
(processo de institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis, 
fluidas, elásticas. 
Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições, organizações, 
estabelecimentos, agentes, práticas, pode-se distinguir uma função e um funcionamento. Para 
poder entender essa terminologia, tem-se que compreender que nas civilizações e nos 
conjuntos humanos, e na vida humana tomada num sentido muito amplo, há a tendência a 
adquirir sempre características históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. Essas 
características históricas, muito diferentes de uma sociedade para outra, de uma fase histórica 
para outra, podem ser resumidas em três grandes situações viciosas conhecidas por todo 
mundo: são os processos de exploração, de dominação e de mistificação (desinformação ou 
engano). Essas são as deformações do percurso da vida social e de seus objetivos mais 
nobres, de suas finalidades mais altas, que cada sociedade coloca à sua maneira, e que são 
chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta, deseja, deve chegar a ser. É claro 
que, à exceção de algumas sociedades em particular, desde que existem sociedades, as utopias 
sociais incluem diferentes formas de liberdade, diferentes formas de igualdade, diferentes 
formas de veracidade e fraternidade, apesar de eu estar usando, para referir -me a isso, a 
utopia da Revolução Francesa, chamada de revolução burguesa, que não é nem a única nem a 
melhor das utopias, mas é a mais conhecida por nós. Então, cada sociedade, em seus aspectos 
instituintes e organizantes, sempre tem uma utopia, uma orientação histórica de seus 
objetivos, que é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: 
exploração de alguns homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo 
de uns por parte de outros); 
dominação, ou seja, imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade 
coletiva, compartilhada, de consenso; e mistificação, ou seja, uma administração arbitrária ou 
deformada do que se considera saber e verdade histórica, que é substituída por diversas 
formas de mentira, engano, ilusão, sonegação de informação etc. Assim, se se compreende 
esta oposição entre a 
31 ▲
utopia, o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração, dominação, mistificação-, 
então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre funçãoe 
funcionamento. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas, mas 
em geral elas são mesmo traídas. 
As instituições, organizações, estabelecimentos, agentes e práticas desempenham uma 
função. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração, dominação e 
mistificação que se apresentam nesta sociedade. Toda instituição, toda organização, todo 
estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores, dos domina dores, dos 
mistificadores. Só que esta função raramente se apresenta como ela é, justamente por causa da 
questão da mistificação... A função apresenta-se deformada, disfarça da, mostra-se como o objetivo 
natural, desejado e lógico das instituições e das organizações. Isto é, não se manifesta claramente ao 
nível do instituído e do organizado. Ou seja, os instituídos e os organizados apresentam, 
predominantemente, freqüentemente, funções a serviço da exploração, da dominação, da 
mistificação. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais", desejáveis e eternas, ao 
passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia, estão sempre a serviço 
dos objetivos que, provisoriamente, chamamos de Justiça, de Igualdade e Fraternidade. Podem ser 
chamados de outra maneira. Essas forças, esses processos, recebem o nome de funcionamento. 
Então, o funcionamento é sempre instituinte, é sempre transformador, é justiceiro e tende à utopia': 
A função, ela é predominantemente reacionária, conservadora, a serviço da exploração, da 
dominação e da mistificação, e se apresenta aos olhos não atentos como eterna, natural, desejável e 
invariável. 
Agora, pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. O instituído, o organizado, 
enquanto produtivo, enquanto expressão apropriada, enquanto recurso operante o instituinte, é claro 
que é necessário. Acontece que, rapidamente, tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento 
para adotar a característica da função, coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a 
característica essencial do instituinte, do organizante e dos seus produtos operantes é serem 
propícios à produção, produção que é a geração do novo, daquilo que 
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almeja a utopia; funcionamento e produção são a mesma coisa. Função é sinônimo de reprodução: é 
a tentativa de reiterar o mesmo, de perpetuar o que já existe, aquilo que não é operativo para 
propiciar as transformações sociais. Então: instituinte e instituído, organizante e organizado, 
produção contra reprodução, funcionamento contra função. 
Para concluir, exporemos definições que são um pouco áridas, abstratas, mas necessárias 
para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste, como entender, como 
analisar cada instituição, cada organização, e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do 
organizante. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. Para concluir, os 
instituintes-instituídos, organizantes-organizados que constituem a malha, a rede social, não atuam 
separadamente, mas sim em conjunto. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma 
fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro, pejo outro, para o outro, desde o outro. Essa é 
uma tentativa de enunciar o entrelaçamento, a interpenetração que existe entre todos os instituintes 
e instituídos, entre todos os organizantes e organizados. Esta interpenetração acontece ao nível da 
função e ao nível do funcionamento; ao nível da produção e ao nível da reprodução; ao nível 
daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. Então, essa 
interpenetração ao nível da função, do conservador, do reprodutivo, chama-se atravessamento. Essa 
interpenetração ao nível do instituinte, do produtivo, do revolucionário, do criativo chama-se 
transversalidade. Para dar apenas um exemplo, vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de 
funções a nível organizacional. Nós dizemos, por exemplo, que uma escola é um estabelecimento 
das organizações do ensino, que por sua vez são uma realização da instituição da educação. 
Acontece que uma escola não só alfabetiza, não só instrui, não só educa dentro dos objetivos 
manifestos do organizado e do instituído, mas também prepara força de trabalho (alienado), ou seja, 
uma escola também é uma fábrica. Por outro lado, uma escola, de acordo com a concepção de 
ensino que ela tenha, também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia, e 
além de ensiná-los a ler e escrever, o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer, e o que 
basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições, especialmente 
33 ▲
de punições. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. Mas, além disso, o que a escola 
ensina é uma série de valores do que deve ser construído, do que deve ser destruído, ensina formas 
de exercício da agressividade. Então, de alguma maneira, também se pode dizer que uma escola é 
um quartel ou uma delegacia de polícia. Então, vocês vão vendo como uma escola, ao nível do 
instituído, do organizado, ao nível da função, ao nível da reprodução, está atravessada pelas outras 
organizações. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está, tal como está, e 
dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração, da dominação e da mistificação. Mas 
uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento político-
escolar,um clube estudantil; uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos 
direitos; uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os 
alunos; uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as 
correntes instituintes, produtivas; numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração, 
a dominação, a mistificação. Então, uma escola tem um lado instituinte, um lado organizante. Neste 
sentido, a escola pode ser também, por exemplo, uma frente de luta revolucionária, de luta sindical, 
um lugar de doutrinamento para a revolução, um lugar de exercício da solidariedade. Neste sentido 
é que uma escola tem também um funcionamento articulado, interpenetrado com muitas outras 
organizações, instituições, com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam 
nela, através dela, para ela, por ela, e ela por outras, e ainda entre os diversos· quadros e segmentos 
desse mesmo estabelecimento. Essa interpenetração chama-se transversalidade. A interpenetração 
ao nível da função, da reprodução, como já vimos, chama-se atravessamento. A interpenetração a 
nível instituinte, produtivo, chama-se transversalidade, e esta se define também como uma 
dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade 
nem à ordem informal da horizontalidade. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar 
dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas, 
gerando assim movimentos e montagens alternativos, marginais e até clandestinos às estruturas 
oficiais e consagradas. 
34 ▲
Com isso temos definida, até certo ponto, a concepção institucionalista da sociedade. A sociedade é 
uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas 
funções estão a serviço da exploração, dominação e mistificação (atravessamento), assim como 
também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da 
cooperação, da liberdade, da plena informação, ou seja, da produção e da transformação afirmativa 
e ativa da realidade (transversalidade). 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 
1) O que são, para o Institucionalismo, as sociedades? 
2) O que implica dizer que as instituiçõessão lógicas e que podem estar formalizadas em leis 
ou normas ou que se manifestam em hábitos? 
3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações, os estabelecimentos, 
equipamentos, agentes e práticas? 
4) O que é o instituinte e o instituído, o organizante e o organizado, a função e o 
funcionamento, a produção, a reprodução e a antiprodução? 
5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 
6) De que está composta a rede social? 
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Capítulo III 
AS HISTÓRIAS 
o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos, empiricamente, alguma 
noção aproximada do que é história. Numa primeira instância, é importante diferenciar 
História de Historiografia. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente 
encontra nos arquivos e, geralmente, é uma versão que foi conservada e foi publicada porque 
coincide com os interesses do Estado, das classes dominantes, do instituído e do organizado, 
que têm recursos para resgatar e promover estes documentos. Naturalmente, registram aquilo 
que lhes convém. Então, historiografia é esta versão que, em geral, se apresenta como sendo 
objetiva, neutra, impessoal e que, a rigor, é apenas uma versão tão interesseira, tão 
tendenciosa quanto qualquer outra, mas que aparece como descritiva, como meramente 
narrativa. Agora, História, propriamente, não é isso. 
Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos 
nos tempos, mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma 
perspectiva, que qualquer registro inclui os desejos, os interesses, as tendências de quem faz 
História. Porque a versão que se tem da História é sumamente importante, enquanto justifica 
as ações 
37 ▲
e paixões que se protagonizam no presente e, geralmente, justifica e propicia um projeto 
futuro para a vida social, ou seja, todos os movimentos sociais que se deflagram, que se 
impulsionam para chegar a este porvir. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer 
com respeito à História podem ser resumidas em poucas palavras: 
Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é, apenas, a reconstrução do 
que já aconteceu e que já está, de alguma maneira, morto, obsoleto, definido – "o que foi, já 
foi"-, mas consiste em uma localização daquilo que, de alguma forma, começou, teve início 
em um passado. Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado 
enquanto ele está vivo no presente, enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está 
determinando o futuro. Passado e futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde 
os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. 
Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História, uma História que seja 
como uma espécie de mangueira, de modo que totalize todo o devir da vida social em um 
espaço e em um tempo só; mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas, 
culturais, ideológicas, do desejo, da afetividade, da vontade, histórias raciais, histórias das 
gerações. Cada uma delas transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar, que 
não se pode totalizar, globalizar em um tempo único; de modo que não se pode estudar uma 
época como se essa época fosse um corte transversal, que se faz num único fluxo da História, 
como se faria no fluxo de um rio. Trata-se de tentar articular os diferentes tempos dos 
diferentes processos históricos em alguns momentos, eras ou etapas, que são localizáveis 
como tais, cronológica ou conceitualmente, no século XVI, no século XI, ou na Idade Antiga 
etc. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se transcorreram todos os 
processos. Quer dizer, os processos que constituem a História são processos policronológicos, 
cada um em sua duração, e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se "atrasa" em relação 
aos outros. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que não é o 
passado que engendra o presente, mas o passado está composto de uma série de 
potencialidades que o presente ativa, que o presente ilumina, que o presente deflagra. Não é o 
passado que gera o presente, e sim o presente que explora, que aproveita 
38 ▲
ou atualiza as potencialidades do passado para construir u m porvir. Por outro lado, a História 
não é uma série de etapas fatais, ou mais ou menos determinadas, cada uma das quais origina 
a seguinte, que começam do zero e vão acabar em dez, cem ou qualquer número final. Não 
existe uma progressão predeterminada das etapas históricas e, por conseguinte, não existe um 
apogeu final dos tempos. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica, 
isto é, um final que pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma 
escatologia positiva, ou um final catastrófico ou apocalíptico. Não existe finalidade da 
História. O que pode ocorrer no dia-a-dia não está inteiramente predeterminado no passado e 
nem é certo que vá acontecer no futuro. Segundo alguns institucionalistas, o tempo, sempre 
policronológico, se produz, devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. 
Finalmente, outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria 
da História é que nós, com uma explicação claramente mecânica, baseada em paradigmas de 
ordem que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica 
celeste com suas trajetórias, suas parábolas, suas órbitas, e como correlato à máquina do 
relógio –, com este metamodelo mecanicista, tendemos a pensar a História em função de suas 
leis, sendo que os enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que 
transcorrem na realidade. Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma 
ordem de características mais ou menos maquinais, que tende a repetir-se e que, em todo 
caso, quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença em relação a 
uma provável repetição do idêntico ou do igual. Então, esta concepção da História que faz da 
diferença uma variação análoga ou semelhante do igual, ou do idêntico, não é compartilhada 
pelo Institucionalismo. O Institucionalismo diz que o que, predominantemente, retoma na 
História, não é o igual, não é o idêntico, não é o regular, não é aquilo que se pode captar por 
leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste, do relógio ou do calendário, mas que o 
que se repete na História é a diferença, é o acaso, é o inesperado, o acontecimento, o 
imprevisível, o aleatório. E que são estes grandes ou pequenos momentos de repetição do 
diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 
39 ▲
vão tentar ser capturados pelo instituído, pelo organizado e repetidos como idênticos. 
Bem, esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo, com contribuições de 
diferentes tendências institucionalistas, não é apenas um exercício acadêmico, mas está estritamente 
relacionada com a concepção da práxis, da atividade político-social desejante que o 
Institucionalismo tem, e com a utopia ativa, quer dizer, o propósito, o objetivo, a finalidade e os 
recursos do Institucionalismo. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do 
que tende a repetir-se, ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do 
inesperado, do acontecimento, da inovação absoluta. Então, trata-se de entender como a História é 
não apenas uma atividade ilustrativa, uma investigação erudita, mas uma tentativa de reconstruir os 
grandes momentos de imprevisto, os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da 
humanidade, para a partir desses ensinamentos, produzir estratégias que permitam propiciá-los 
novamente. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação, não de uma 
transformação previsível, não de uma transformação pré-figurada, mas da transformaçãoem direção 
ao radicalmente novo e, portanto, absolutamente desconhecido. Tentemos agora definir outros 
conceitos importantes. 
O termo molar, outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição 
ao termo molecular, é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar 
explicar brevemente. 
Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica, vida política, vida 
do desejo inconsciente, vida biológica e natural. O que existe são imanências – isto é, a inerência, a 
posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros, que só se podem separar de 
uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. A rigor funcionam sempre, por assim dizer, 
um "dentro" do outro, incluindo-se no outro. Então, dentro desta concepção da vida social como 
uma rede, em que os diversos processos são imanentes um ao outro, pode se distinguir o molar, que, 
dito de uma maneira simples, é aquilo que é grande, que é evidente, que tem formas objetais ou 
formas discursivas, visíveis e enunciáveis. Por outra parte temos o molecular, que é o que na física 
se costuma chamar micro, por 
40 ▲
oposição a macro, isto é, o mundo atômico e subatômico, o mundo das partículas, enquanto o 
mundo macro por excelência seria, por oposição, o universo, o cosmos, que é composto de grandes 
corpos. Então, tomando esses ensinamentos da microfísica, da microquímica, da microbiologia, da 
biologia molecular, o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas, as 
macromudanças, são sempre resultado de pequenas micromudanças, e que os grandes poderes em 
vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam 
em espaços microscópicos de uma sociedade. Como até mesmo a física, a biologia e a química 
descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta 
da dinâmica que acontece nas micro. O macro é o lugar da ordem, é o lugar das entidades claras, 
dos limites precisos, é o lugar da estabilidade, da regularidade, da conservação. O micro, dito tanto 
no sentido físico, químico, biológico quanto no sentido social, político, econômico e desejante, é o 
lugar das conexões anárquicas, insólitas, impensáveis. O macro é o lugar da reprodução, e o micro é 
o lugar da produção; o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo 
previsível, e o micro é o lugar da eclosão constante do novo; o macro é o lugar da regularidade e 
das leis, o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. Esta diferenciação também é importante 
porque, em geral, o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais, as 
transformações microscópicas, as conexões circunstanciais, porque espera delas efeitos à distância 
que, ao generalizarem-se, resultam nas grandes metamorfoses, do instituído e do organizado, o 
detectável e consagrado. Dito com outras palavras, o Institucionalismo pensa que as pequenas 
conexões locais são o lugar do instituinte, e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as 
estratégias de intervenção nos âmbitos, nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar 
propiciar. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva, e não 
os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. 
Finalmente, é importante definir o termo antiprodução. Se não me engano, já tentamos 
reiteradamente definir e redefinir o termo produção. Produção é aquilo que processa tudo que 
existe, natural, técnica, subjetiva e socialmente. É a permanente 
41 ▲
geração, enquanto não se cristaliza; é o devir, é a metamorfose, é o que, com uma terminologia 
ainda religiosa, chamaríamos de criação. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas 
de maneira muito ampla, as forças instituintes-organizantes, são capturadas em grandes organismos 
reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista, vigora a antiprodução. Por exemplo, elas são 
voltadas contra si mesmas, de maneira que a produção, as energias não orientadas, as matérias 
produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos, pelos equipamentos, pelos 
organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo, o impedimento ou a 
destruição do novo, elas tornam-se antiprodutivas, elas se destroem a si mesmas. É o que subjaz a 
grandes processos sociais como as guerras; é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de 
destruir os produtos porque o preço caiu no mercado; é o que subjaz à geração de enormes 
contingentes sociais que estão destinados a morrer, e que morrem não apenas por deficiência da 
provisão ou da organização, mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los, como é o caso 
da marginalidade, da mortalidade infantil, dos preconceitos sexuais e raciais, do alcoolismo, da 
tóxico-dependência, dos genocídios coloniais, neocoloniais e planetários contemporâneos etc. Essas 
são potências, são forças singulares, produtivas, que a sociedade não está em condições de 
incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria, seres, bens, valores, serviços – não pode 
assimilá-las à lógica do sistema. Então, ou as deixa morrer, ou as mata por meio de mecanismos 
mais ou menos deliberados, mais ou menos premeditados. Esse processo de autodestruição das 
forças produtivas naturais, sociais, subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se 
antiprodução. Um desses processos característicos é o problema ecológico, que só agora se está" 
descobrindo", enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo 
industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias, de bens de troca e não de bens de uso, que 
vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. Agora, isso 
se torna moda; mas foi sempre assim, e é uma das expressões mais radicais da capacidade 
antiprodutiva do sistema dominante no mundo. 
42 ▲
Para qualquer tendência sociológica, científica-política ou econômica clássica, já é 
completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se 
pode conceber o que acontece em economia, em política ou sociologia – com independência do 
psiquismo dos homens, prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. Ou 
seja, apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina, em última instância, as 
características da vida e da morte social, ou que se possa supor que é o político o tal determinante, 
hoje se sabe, e ninguém pode negá-la, que por mais determinados, por mais submetidos às leis 
econômicas e políticas que estejam os homens, eles só entram nesses processos de dominação, de 
exploração, de mistificação ou, pelo contrário, em processos revolucionários, se estes, de algum 
modo, coincidem com suas crenças, representações, convicções acerca da vida social. E também 
não entram se suas expectativas, suas vontades, seus desejos não se encaminham nessa direção. Isso 
é claríssimo. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que 
outra, isto é, são tão importantes as vontades, os desejos e as representações com que os homens 
entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais", econômicas, políticas ou naturais 
que os determinam. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica, sabe-
se que as vontades, os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens, são 
inconscientes, isto é, não fazem parte de seu saber, de seu querer deliberado. Em última instância, 
os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes, por 
vontades que eles não controlam e não conhecem, mas que têm a ver com o prazer, que têm a ver 
com o sofrimento e têm a ver comvivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. Hoje, 
por exemplo, está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não 
funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população, não 
só seus interesses, para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano; e ainda mais, que o 
"pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. E não se trata apenas 
de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária, mas de mobilizar forças 
inconscientes às quais se apela, ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes 
43 ▲
sociais. Isso também não é novidade. Já a partir de Reich, o grande psicanalista marxista, nós nos 
interrogamos constantemente porque, em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os 
operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus 
superiores, não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve, porque os 
soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. Por que os povos atuam contra 
seus reais interesses e vontades? Então, não se trata apenas de dizer que o fazem por medo, porque 
os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam, quando as forças 
inconscientes se ativam, não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua 
potência. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais, mas eles operam as 
transformações sociais. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes, porque se 
é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados, já se tem 
visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas 
condições de existência que não precisa, passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação, 
nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. Os povos checam seu próprio saber sobre suas 
condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente 
movimentos de imenso poderio, de incalculável potência social, sem apelar para os saberes 
instituídos e estabelecidos. Então, o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças 
inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo, por ressonância ou por uma re-elaboração 
do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. A diferença consiste em que o desejo 
inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de 
Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar, nas relações ou nas fantasias incestuosas ou 
parricidas do inconsciente infantil e que, depois, se translada para a vida social com as mesmas 
características. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados 
perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários, é uma tendência reprodutiva, é um anseio que 
tende a restaurar o narcisismo, que supostamente, em algum momento, foi o estado em que o proto-
sujeito esteve integralmente. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. O desejo 
do 
44 ▲
Institucionalismo é imanente à produção, é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não 
apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. É uma força que tende a criar o novo, 
entendido como o imprevisível, é uma força de conexões insólitas, é uma força de invenção e não é 
uma força restauradora de estados antigos. Mas é inconsciente. Só que este inconsciente não se 
entende exclusivamente como um inconsciente edipiano, familiarista, repetitivo, mas também como 
um inconsciente pré-pessoal, pré-social e pré-cultural, objeto de um saber que toma elementos de 
todos saberes existentes; trata-se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são 
capazes de gerar transformação. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um 
recalque psíquico, mas por um recalque complexo que é simultaneamente político, libidinal, 
semiótico etc. Então, para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal, não 
existe uma estrutura, uma essência-homem. Também não existe uma estrutura, uma essência-
sujeito, um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades, em todos os momentos 
históricos, em todas as classes sociais, em todas as raças etc. O que se passa é que esse sujeito 
psíquico, mesmo que se aceite como sendo universal, teria representações ou teria recursos que 
variariam segundo a sociedade, segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. Para o 
Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal, apenas preenchido com conteúdos 
históricos sociais variáveis. Para o Institucionalismo, o que existe são processos de produção de 
subjetivação ou de subjetividade. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas 
denominações, mas essa produção é absolutamente contingente, é absolutamente própria de cada 
lugar, de cada momento, de cada conjuntura histórica etc. Ou seja, produzem-se sujeitos em cada 
acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir, sujeitos variavelmente protagonistas 
desse acontecimento, ou, se pode dizer, é o acontecimento-devir que os produz. E podem existir 
analogias, podem existir semelhanças entre esses sujeitos. O que importa não é a produção das 
semelhanças ou de analogias entre os sujeitos, mas a produção de diferenças, a singularidade de 
cada sujeito produzido em cada lugar, a cada momento. Então, quando nessa produção predomina o 
instituído, a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes, aos 
45 ▲
interesses exploradores, aos interesses mistificantes, ele adota as características de um sujeito 
mais ou menos universal e eterno. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada, 
subjetividade submetida. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo 
absoluto, de subjetivação absolutamente original, absolutamente singular, absolutamente 
instituinte, absolutamente contingente, circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários, a 
isto se chama produção de subjetivação livre, não assujeitada, primigênia, produtiva, 
revolucionária, em que o desejo se realiza em conexões locais, micro, e se efetua gerando o 
novo, não se concretiza restituindo o antigo, processa-se não reproduzindo o instituído, o 
organizado, o estabelecido, mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. 
Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai 
fazer de cada organização, de cada estabelecimento, movimento ou proposta, ele vai 
privilegiar a intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. E não vai 
privilegiar, a não ser para denunciá-los, a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão 
destinados a produzir a reprodução de subjetividades submetidas. O mesmo vai acontecer nas 
montagens técnicas, organizativas, políticas, com as formas de militância, com a "maquinaria 
de guerra" que o Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções, porque as mesmas 
têm de estar protagonizadas por novas produções de subjetivação, circunstanciais, transitórias, 
capazes de encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar 
seu lugar a outras. Evidentemente, todas essas definições necessitariam de exemplos muito 
precisos que, pela natureza elementar deste livro, não poderemos dar nesta exposição. Mas a 
discriminação que tem de ficar claramente estabelecida é que o Institucionalismo, em geral, 
não .se propõe "pegar" um sujeito reprodutivo que é sempre o mesmo, eterno e universal e 
invariável em todo tempo e lugar, e trabalhá-lo para torná-lo produtivo. O objetivo 
institucionalista é criar campos deleitura, de compreensão, de intervenção para que cada 
processo produtivo desejante, revolucionário, seja capaz de gerar os "homens" (ou sujeitos) de 
que precisa. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que já estão feitos, mas aceitar a idéia 
de que os novos homens se fazem a cada momento, em cada circunstância. 
46 ▲
Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da 
Psicanálise, o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico, positivista, 
culturalista ou estrutural-funcionalista. Em muitas passagens, pode ficar sincrética ou 
imprecisa demais. A intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos 
de origem. Este é o caso, por exemplo, de quando falamos do inconsciente ou do desejo. O 
contexto em que falei dessa questão ainda é um espaço teórico algo clássico, que 
habitualmente se aborda com o nome de ideologia. É verdade que há uma certa definição de 
ideologia que a considera como uma série de representações erradas, de crenças, de 
convicções acerca do mundo, que está animada pela ilusão, pela esperança e pelo medo. 
Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe 
dominante, ou seja, que são ideologias conservadoras, reacionárias. Por outro lado, existem 
ideologias revolucionárias, que são ideologias das classes, dos grupos que procuram uma 
drástica transformação social. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de 
consciência falsa ou distorcida. São crenças, convicções ou expectativas e desejos conscientes. 
Ademais, afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos 
dominantes, é uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção, apesar de ser 
contrária aos interesses da maioria. Então, costuma-se dizer que a maneira de reverter essa 
situação é instruir, é educar, é modificar essas representações, é criar outro tipo de expectativa 
ou vontade, é conscientizar acerca dos limites da potência que tem a classe dominante, 
conscientizar acerca do potencial de prazer, de gozo, de eliminação do sofrimento que teria 
uma transformação social protagonizada pela classe dominada. Mas é importante recordar que 
desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e produções teóricas que mostram que não é 
apenas por medo ou esperança, por ignorância, informações erradas ou manipuladas que as 
classes, os grupos e sujeitos submetem- se aos interesses das classes dominantes. Eu citava o 
célebre psicanalista Reich quando ele, estudando o movimento nazista da Alemanha, afirmava 
que o povo alemão não estava desinformado; talvez estivesse incorretamente informado, mas 
é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse capaz de acreditar nas asneiras que 
estavam sendo ditas; e também 
47 ▲
não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com 
um proletariado muito politizado. E, sem d úvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao 
projeto nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que 
reunira em si todos os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva 
de uma sociedade moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às 
circunstâncias históricas econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas 
também a determinantes, digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este 
líder fosse capaz de mobilizar certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de 
um projeto onipotente e sádico, uma maneira de realizar inconscientemente esses desejos, 
desejos inconscientes de domínio, de exercício da crueldade, desejos inconscientes que, 
segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles o estado utópico narcísico 
perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se consegue dominar os 
povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo de mobilização. 
O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo sua própria 
compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o desejo 
exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise), 
mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um 
desejo que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por 
substância, é revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo 
da análise e mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere 
historicamente segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas 
reprodutivas e antiprodutivas. 
O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma 
peculiaridade do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível 
que seja um tanto confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise 
ou do Materialismo Histórico. 
Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre 
Psicanálise, o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais 
amplo 
48 ▲
do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu rel ato restos da nomenclatura 
psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista 
sobre meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também 
é psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades 
diferentes. Há institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, 
restrições teóricas e técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser 
institucionalista implica uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, 
técnico da atitude profissional e da atitude específica do especialista. Então, nesta função que 
estou cumprindo agora, não me surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas 
foram percebidas. Obviamente não são registradas por mim, que sou interessado e, portanto 
suspeito. Tenho a impressão de que não é tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que 
aparece na mudança do caminho é o seguinte: o Institucionalismo é um saber intersticial, é 
um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega algum elemento de cada campo do 
saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar uma idéia nova. Em 
compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não tem objeto 
específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. 
Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que 
este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa 
(como se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo 
teórico e se sente com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada 
nem específica. Por exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do 
conceito clássico de essência do desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de 
efeitos, como o valor do prazer e do desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas 
objetais". Mas o Institucionalismo vai transformar este conceito. O desejo inconsciente na 
Psicanálise é uma força que insiste em restituir imaginariamente o narcisismo como estado 
inicial em que coincidem investimento e identificação; então, como é que a Psicanálise atua? 
Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade imaginária do ego do sujeito com 
o objeto narcísico por meio da castração 
49 ▲
simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistemasimbólico. O desejo se mobiliza 
para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe 
possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o 
Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado 
no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo, 
revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e 
máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente 
psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e 
simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir 
condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de 
subjetivação que co-protagonizem este processo. 
Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o 
inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da 
qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente 
diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas 
(como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria 
que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de 
tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam 
sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento, 
em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais 
inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar 
modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os 
geraram em sua montagem. 
Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos 
que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se 
realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes, 
organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 
50 ▲
que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em 
suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não 
(ou seja: no trabalho, na educação, na saúde etc.), outras correntes institucionalistas não dizem que 
o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação 
revolucionária. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são 
muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito". 
51 ▲
PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 
1) Que diferença existe entre História e Historiografia? 
2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicos-
subjetivos e naturais? 
3) O que significa Molar e Molecular? 
4) O que se entende por produção, reprodução e antiprodução? 
5) Qual é o papel da repetição e da diferença, do acaso e das regularidades na História? 
6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no 
Institucionalismo? 
52 ▲
Capítulo IV 
O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO 
Eu dizia, em uma passagem do capítulo anterior, que não me estranharia que muitos 
dos conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender, assim como a essência 
mesma do Movimento. 
O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito 
Científico". Na realidade, não se tratava propriamente de Psicanálise e, por outro lado, se 
compreenderá que não se pode falar, em um sentido estrito, de "espírito científico" – só Sé 
pode aceitá-lo como uma metáfora. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais 
hábitos do pensamento corrente que, por estarem muito arraigados, produzem um efeito de 
convicção na "mente" de quem pretende formar-se como cientista. Esses "vícios" do senso 
comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as 
peculiaridades de funcionamento dos diversos métodos científicos, cujas "verdades" 
freqüentemente contrariam as evidências da opinião generalizada. Bachelard tentava um 
trabalho epistemológico que operasse uma espécie de "cura" dessas crenças para conseguir, 
assim, a predisposição dos 
53 ▲
"espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. 
Não ignoro que, devido às deficiências da formação geral e universitária da qual 
padecemos, muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito", ou 
um outro melhor ainda, por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes, neste momento, que 
comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos", entendendo a singular proposta do 
lnstitucionalismo. Cabe aqui lembrar que, a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte 
das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas, tem com elas uma relação 
contraditória, polimorfa e complexa. 
Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em 
particular passa-se devido ao fato de que, semanticamente falando, alguns termos teóricos que as 
ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. No entanto, sabemos que 
essas palavras, quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica, mudam 
radicalmente de sentido, não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa 
lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. Contudo, ainda durante um longo 
período de sua aprendizagem, os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas 
diferentes significações. 
As diversas correntes institucionalistas, por sua parte, podem empregar termos teóricos com 
acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado, ainda que 
invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi 
enunciado e do qual recebe seu valor de origem. 
Em outros casos, o Institucionalismo procede adotando algum termo, mas o faz 
acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais, sem descartá-las. Finalmente, o 
Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria, ou em uma noção, ou 
até em uma alusão vaga, se considera que, em determinada conjuntura, torna-o revelador. 
Para concluir, cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão, algo extremada, de um 
questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas 
especificidades, defendendo a fertilidade de todos os saberes, incluídos, por exemplo, os que 
existem em "estado prático" nas 
54 ▲
atividades leigas, artísticas, religiosas etc. 
Por isso, às vezes é duro, para quem se aproxima deste estudo, aceitar e entender a 
polissemia que adquirem semantemas provenientes, digamos, da Psicanálise (inconsciente, desejo 
etc.), ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e 
mais-valia, por exemplo). 
Agora, peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. Estou tentando dar um 
curso introdutório de um saber que não tem limites. Se os profissionais, especialistas de alguma 
disciplina, queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber, que faz 
com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito 
desenvolvidos, como a Física, chega-sea afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil, tendo se 
tornado descartável como os jogadores de futebol, pois depois de uma década já não consegue 
acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se. 
Imaginem vocês uma coisa como esta, que é um composto de todos os saberes de uma época, 
inclusive os saberes não-científicos, os artísticos, os populares; então a formação de um 
institucionalista realmente é interminável. 
Estou tentando dar uma visão panorâmica geral, muito pouco aprofundada e ambiciosa, de 
certos conceitos, de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. Não nego que 
algumas ampliações sejam essenciais, mas justamente porque o são, desenvolver esses temas, no 
caso de eu estar capacitado para fazê-lo, levaria a outros tantos cursos. Este é um pequeno 
esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões, que terá de ser 
breve, para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto. 
Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista, mas sim muitas, e 
existem diferenças teóricas, metodológicas,. técnicas, políticas entre elas. O que há como 
característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições, assim como por 
um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. É o mínimo denominador comum que 
se consegue encontrar entre as várias tendências. Agora, entre as muitas diferenças existentes de 
uma para a outra, está a definição dada a "desejo". Boa parte delas reconhece a existência do 
psiquismo como um campo 
5 5 ▲
relativamente autônomo da realidade. A maioria delas aceita, dentro desse campo chamado 
psiquismo, a existência de um espaço, de um sistema e de processos de caráter inconsciente que 
considera do campo das causas, da área dos motores do funcionamento psíquico, sendo que o 
comportamento, a conduta, as vivências, as representações e afetos são do campo dos efeitos deste 
psiquismo. No entanto, a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância 
determinante, que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa 
instância, que é o desejo. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria 
predominante à colocada em muitos textos freudianos. Em que consiste esta definição de desejo? 
Seria uma força insistente, persistente, que procura restaurar, reeditar, em último termo, um certo 
estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo, em que o ego e o objeto 
são um, em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de 
Castração. Então, a partir da ruptura desse estado, surge uma força que seria o desejo, que tenta 
reproduzi-lo. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias, outros dispositivos, outras 
maquinarias do psiquismo, particularmente por certa ordem de representações, ela acaba gerando 
todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica, que são rendimentos, resultados dessa 
trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória", ou seja, de sua 
tentativa de restauração desse narcisismo inicial. Isso, como o leitor avaliará, inclui uma definição 
restitutiva do desejo; o desejo tem uma natureza conservadora; ele parte de uma situação 
narcisística e tende a voltar a ela; ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho, nessa 
trajetória, é obrigado a elaborar, e a sublimar, devido à sua subordinação à ordem simbólica, a lei ou 
a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). Muitos institucionalistas 
compartilham plenamente essa definição de . desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos 
psíquicos da vida organizacional, usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade, 
assim definida nas organizações, particularmente em seus aspectos inconscientes. Um exemplo 
característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de 
desejo, embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade, da economia, 
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da política e das organizações, é Gerard Mendel, criador de uma corrente institucionalista chamada 
Sociopsicanálise, à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso 
programa. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau, que recolhe a definição de 
desejo de uma forma menos ortodoxa. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e 
detalhe, percebe setores da mesma em que essa definição de desejo, que explicamos anteriormente, 
mostra-se característica, por exemplo, do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada 
primeira tópica. Entretanto, existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens 
freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos, no qual a 
pulsão de vida funciona segundo o processo primário. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos 
libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos, 
mas propiciar, de forma anárquica, estados permanentemente novos; associar, cada vez mais 
amplamente, unidades vitais; processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do 
desejo que dela emana. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que 
impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo, assim como a exclusividade de um 
modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado 
imaginário perdido, e com ele a imobilidade. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está 
impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). Estamos 
assistindo, mundialmente, a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo, assim 
como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a 
pulsão e o desejo, como por exemplo, os freudo-marxistas. Então, não é estranho que isto se 
apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto, porque este é um problema muito 
atual e de muita disputa teórica. No entanto, outros setores do Institucionalismo, particularmente 
Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise, muito pouco conhecida 
e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –, levam as proposições 
freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas 
baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais, como a filosofia, a macrofísica, 
57 ▲
a microfísica, a biologia molecular e certos campos das ciências formais, por exemplo a matemática 
de Rieman. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança 
de paradigma, uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. Essa 
mudança, em um de seus aspectos, consiste na promoção de certo poder criativo da desordem, na 
reivindicação da neguentropia, ou tendência à autopoiese, na defesa da produção, da vitalidade, 
inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância, que seriam a pulsão e 
o desejo. Então, Deleuze e Guattari, também apoiados na literatura, na arte, e ainda no discurso 
delirante, constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o 
psiquismo, mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que, além de 
tudo, é imanente a outras forças animadoras do social, do histórico, do natural. O desejo não tem 
caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo-revolucionário – e não é uma força 
separada das que animam a vida social e natural. Por isso há uma fórmulana Esquizoanálise, que 
afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. 
Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção, dita no sentido 
amplo, que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário 
inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos 
produtivos, tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. 
Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. Bom, Marx 
afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício, em que há os alicerces e há 
as paredes superiores visíveis. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente 
determinada pela atividade econômica, isto é, por processos de produção de bens materiais 
indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. Dessa maneira, a 
chamada infra-estrutura determina a superestrutura, apesar de que Marx nunca negou que a 
superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. Assim, as resultantes desse processo complexo não 
são causadas, de forma alguma, exclusivamente pelo econômico, não podendo ser entendidas dessa 
maneira. E também não seriam modificáveis 
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exclusivamente a partir do econômico. Um de seus seguidores, Louis Althusser, utilizando outro 
modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos – 
representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente 
intersecionados, de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras 
são superpostas ou imanentes entre si. Mas o conjunto total, o sistema, que Althusser chama "todo 
complexo articulado, diversificado e sobredeterminado", funciona interpenetrado, de maneira tal 
que haverá um determinante em última instância, que em todos os modos de produção é o 
econômico, uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. O determinante em 
última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos 
efeitos econômico-sociais, mas não exclusivamente, e sim mediatizado por aqueles. A instância 
chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção, para que o 
modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. A instância decisória é a fundamental no 
processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. Essa é a determinação complexa 
pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. Althusser a 
denominou sobredeterminação, um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana, 
em que ld, Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no 
psiquismo: atos, formações do inconsciente etc. O lnstitucionalisrno, em alguns de seus ramos, tem 
muito em comum com a proposta althusseriana, à medida que adota essa idéia de 
sobredeterminação. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade 
social. Por exemplo, no caso de Deleuze e Guattari, não é uma teoria da sociedade formada por três 
subconjuntos que, por sua vez, formam o conjunto total, mas uma sociedade reticular formada por 
uma grade aberta, uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente 
psíquicos, tecnológicos, econômicos, políticos, semióticos e naturais e estão ordenados em três 
superfícies: de produção, de registro e de consumo. Existem outras teorias da causalidade social 
próprias de outras tendências institucionalistas, mas todas elas têm em comum a insistência em não 
separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas, políticas, técnicas, naturais etc. 
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Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo, o primeiro a ser abordado será 
o conceito de campo de análise. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que 
se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde 
pequeno até amplíssimo, desde um estabelecimento até, por exemplo, o que Deleuze e Guattari 
chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". Isso significa delimitar um objeto ou um campo e 
aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo, para saber como funciona, 
como estão colocadas e articuladas suas determinações, suas causas, como se geram seus efeitos 
etc. Esse objeto pode estar constituído por materiais. muito heterogêneos – por exemplo, as 
principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –, e isso dará um estudo como aquele no 
qual participou recentemente Guattari, que se chama "Contratempo". Campos de grande porte 
poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau, que se chama "O Estado e o Inconsciente", 
uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de 
produção no curso da história, nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos 
sujeitos a nível inconsciente. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. Mas podem ocorrer 
campos de análise infinitamente menores, como uma análise do significado da festa no Brasil ou 
uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru, ou o funcionamento dos programas 
de estudo no vestibular, ou da múltipla escolha para o processo de seleção. Isso ainda não implica 
necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado; implica um 
processo de compreensão, de inteligência dos determinantes desse campo. Por isso denomina-se 
campo de análise. 
Outra coisa é o campo de intervenção, que é o "recorte", o espaço delimitado para planejar 
estratégias, logísticas, táticas, técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente, 
concretamente. É claro que o campo de intervenção é, em geral, infinitamente menor que o campo 
de análise, porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a 
nível nacional continental ou planetário, O máximo que se consegue delimitar são campos de 
análise organizacionais. E óbvio, também, que em qualquer corrente de Institucionalismo, 
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a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. Só que 
um campo de análise é pensável sem intervenção, mas um campo de intervenção é impensável sem 
um campo de análise. Pode-se compreender e não intervir, mas não se pode intervir sem alguma 
forma de compreensão. Em geral quando os dois campos se constituem, eles estão articulados entre 
si: à medida que se compreende, se intervém; e à medida que se intervém, se compreende. 
O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda, que também temos de tratar 
sinteticamente, particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa, cujos autores 
mais notórios são Lourau, Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de 
Análise Institucional. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a 
compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar, analisar, esmiuçar o 
pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. Para dizê-la provisoriamente: 
quais são os aspectos conscientes, manifestos, deliberados, voluntários deste pedido, e quais são 
seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. A isso chamam análise de demanda, que é um dos 
primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva, em que radica a problemática desta 
organização solicitante. Mas acontece que, para fazê-lo, o Institucionalismo enfatiza a necessidade 
de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea, a demanda não é o primeiro passo de 
um processo: ela é produzida, de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. A 
demanda nãoexiste por si. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a 
expressão do desejo, eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí, que 
essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise, e está marcada, modulada, 
determinada, desde o princípio, por esta oferta. De modo que para compreender a demanda de 
análise institucional de uma organização é necessário, antes, incluir a auto-análise, a compreensão 
de como a organização analítica gerou esta demanda; ou que relação existe entre a publicidade, a 
divulgação científica ou não-científica, a proposição direta ou indireta dos serviços que a 
organização analítica faz e que não pode não ser causante, geradora ou moduladora da demanda de 
serviços que lhe é formulada. 
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Um institucionalista muito respeitável e, no meu modo de ver, injustamente pouco 
conhecido, o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque, tem uma fórmula que não explica 
todas as situações, mas que é muito ilustrativa, e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele 
diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos 
consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações, que consiste 
aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e, além 
disso, você não entende, não sabe em que consiste." Essa mensagem subjaz, está "por trás" de toda 
oferta de prestação de serviços e, provavelmente, também de bens materiais. Então, quando essa 
oferta gera uma demanda, ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. Quem demanda, 
demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. Mas é tão 
complexa, tão sutil, tão técnica, que ele não sabe o que é. Portanto, para poder dar o primeiro passo 
em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-, esta análise deve ser 
articulada com a forma em que foi produzida, ou seja, com a oferta. Isso exige por parte do coletivo 
analisante, o coletivo prestador de serviço, um severo processo de auto-análise de como produzir a 
oferta de seus trabalhos. Entre a organização analisante, interveniente, e a organização analisada, 
intervinda, vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização, que é o verdadeiro 
objeto de análise. Não existe aqui, então, uma posição clássica de objetividade: não somos os 
experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. Mas juntos é que 
vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. 
Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. A Psicanálise já 
classicamente, concebeu o conceito de derivados do inconsciente, formações do inconsciente, 
formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles 
fenômenos, sejam eles pontuais ou mais amplos, como sonhos, atos falhos, lapsus linguae, chistes, 
sintomas, delírios, que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta 
para ser analisado. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da 
personalidade, não são efeitos exclusivamente 
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conscientes, nem exclusivamente pré-conscientes, nem exclusivamente inconscientes. Não são 
dados claramente efetuados pelo superego, nem pelo ego ou o id. São fenômenos resultantes de uma 
combinação, de uma mistura, da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas 
instâncias. Por isso é que se chamam, segundo uma das denominações, efeitos transacionais ou 
formações transacionais. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica, pelo menos 
fenomênica ou técnica, exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito, manifestá-la, 
denunciá-la. O analisador, em análise institucional, é um efeito ou fenômeno formalmente parecido 
com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. Mas as diferenças são as seguintes: 
Primeira: na materialidade fenomênica, na aparência desses fenômenos, não se privilegiam, 
absolutamente, os efeitos verbais. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador, ou 
seja, um analisador não é necessariamente um discurso, mas pode ser um monumento, a forma 
como está elaborada a planta arquitetônica da organização, pode ser uma característica dos modos 
de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma, ou seja, pode ser um costume 
e não uma norma, nem uma lei; pode ser um arquivo, isto é, a maneira como está organizada a 
memória de uma organização; pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. E 
é claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. Por exemplo, 
os estatutos, os regulamentos, a carta de princípios, o organograma, o fluxograma etc. E podem ser 
os relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas, nos 
questionários ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. Os mitos, os rituais, o uso do 
dinheiro, do lazer, da sexualidade, do domínio e o cuidado de si, etc. Então, a materialidade 
expressiva de um analisador é totalmente heterogênea. Não é que em Psicanálise não o seja, porque 
sabemos que em Psicanálise os comportamentos, as atitudes corporais, a couraça caracterológica 
também são considerados formações do inconsciente; só que a Psicanálise tem uma persistente 
predisposição a privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações 
do inconsciente, e a. subordinar os outros à compreensão verbal. Isso é claro. Um analisador não é 
assim. E essa é a primeira diferença. 
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Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir, 
manifestar, declarar, evidenciar, denunciar. Ele mesmo contém os elementos para se auto -
entender, ou seja, para começar o processo de seu próprio esclarecimento. Isto não é fácil de 
ser explicado. Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior 
ou menor intervenção do analista). Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. 
Existem grandes analisa dores e pequenos analisadores. Um grande analisador é a Revolução 
Francesa, por exemplo, revolução burguesa, como todo mundo sabe, produto de determinados 
encontros e fluxos de forças da decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média, 
de certo grau de migração do trabalhador do campo para a cidade, acumulação de capital 
mercantil e usurário etc. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu próprio 
processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro 
de certos limites à plenitude da realização de seu destino histórico, que foi marcar o fim do 
feudalismo e o início ou as preliminares do capitalismo incipiente e do socialismo real. Mas 
podem haver pequenos analisadores, e esses podem ser um conflito dentro da organização, um 
determinado acidente numa usina atômica (geograficamente pequeno, pelo menos) etc. Só que 
esse analisador, colocado em condições propícias, tem a possibilidade de não apenas 
manifestar-se, mas também de se compreender; ele não precisa ser analisado de fora, ele 
predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se, sendo assumido por seus 
protagonistas. E dessa maneira, não apenas é capaz de enunciar, como também de resolver a 
situação da qual ele é emergente. Nesse sentido, existem os chamados analisadores naturais – 
que é uma expressão inadequada, porque analisadores naturais são os terremotos, e, realmente, 
a análise institucional nunca conseguiu compreender, pelo menos nos seus aspectos 
geológicos, este tipo de fenômeno, não está preparada para isso. "Natural" quer dizer 
espontâneo, que também é uma má expressão, porque espontâneos todos são. Então,a 
definição correta é dizer que são analisadores históricos, ou seja, que a própria vida histórico-
social-natural os produz por conta própria como resultado de suas determinações. E existem 
analisadores artificiais ou construídos, que são dispositivos que os analistas institucionais 
inventam, introduzem 
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nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos 
mesmos. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica, ao nível de 
produção de analisa dores construídos, se valem de todo e qualquer recurso, seja de tipo 
artístico, cenográfico, dramático, procedimentos de tipo ativista, político, montagens de tipo 
propriamente científico, experimental, lógico, sociológico, antropológico e manobras do tipo" 
convivência prolongada", em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do 
conjunto que vai estudar, produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana. 
O passo seguinte será falar da análise da implicação. 
Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. A implicação se 
define como o processo que acontece na organização de analistas institucionais, na equipe de 
análise institucional, a raiz de seu contato, de sua interseção com a organização analisada, 
intervinda. Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência 
da Psicanálise. Só que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou 
inconsciente – que o material do paciente produz no analista; e na análise institucional a 
implicação não é apenas um processo nem psíquico nem inconsciente, mas um processo de 
materialidade múltipla, complexa e sobredeterminada, um processo econômico, político, 
psíquico heterogêneo por natureza, que deve ser analisado em todas as dimensões. E não é 
apenas reativo, ou seja, não é a resposta da equipe interventora e analisadora ao contato com 
seu objeto, pois é prévia a este contato; não começa no usuário: é recíproco, é simultâneo e é 
parte indissolúvel do processo de análise da organização, ou seja, é o contrário de uma análise 
"objetiva". É, como está claro nas ciências físicas, a análise da interação, da interpenetração 
destas duas organizações, uma análise variável da relação entre o sujeito e o "objeto". Poder-
se-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que Freud dá de 
contratransferência como transferência recíproca. Em continuação, veremos rapidamente 
alguns termos, sendo que, de alguma forma, os retomaremos na exposição correspondente aos 
itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica, que denominamos 
standard . Insistiremos uma vez mais em que estas definições, cuja finalidade é basicamente 
transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento, 
65 ▲
seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. As mesmas estão armadas com sentidos 
diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores, artificialmente extraídas dos 
contextos teóricos, mais ou menos sistemáticos, em articulação com os quais adquirem seus 
significados prevalecentes. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia 
que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções. 
No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações, 
estabelecimentos, aparatos, maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos, de grande, 
médio ou pequeno porte, cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão, 
do registro ou do controle social. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo 
e grau de violência que empregam para cumprir sua função, enfatizando, além do mais, que sua 
condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade, estrutura, 
forma etc. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista 
chamava de "aparatos". Estes cumprem funções eliminatórias, segregacionistas ou punitivas (como 
por exemplo, as Forças Armadas, a Polícia, a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Outros 
apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião, da 
Educação, da Comunicação de massas ou a Família). 
Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente, ou certa 
modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico, assim também como 
técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. O certo é 
que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades 
civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do 
instituído-organizado. 
De um dispositivo pode, de alguma maneira, dizer-se que é o contrário de um equipamento. 
Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia, teatro ou nas 
artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços" 
sociais, naturais, tecnológicos e até subjetivos. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu 
funcionamento, sempre simultâneo a sua formação e sempre 
66 ▲
a serviço da produção, do desejo, da vida, do novo. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e 
ao mesmo tempo em que funciona, gerando acontecimentos insólitos, revolucionários e 
transformadores. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o 
compõem, têm a peculiaridade de nascer, operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de 
metamorfose e subversão histórica se realizam. Um dispositivo em geral não respeita, para sua 
montagem e funcionamento, os territórios estabelecidos e os meios consagrados; pelo contrário, os 
faz explodirem e os atravessa, conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e 
imprevisível. Gera, assim, o que se denomina linhas de fuga do desejo, da produção e da liberdade, 
acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. Nesse sentido é óbvio que os 
dispositivos, também chamados agenciamentos, têm a ver com a transversalidade (conceito que já 
antecipamos e que definiremos mais adiante) e, num sentido restrito, com o instituinte-organizante. 
Um grupo político sujeito (quer dizer, que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de 
seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário), uma obra artística, 
um descobrimento científico, um pensador original e libertário, um inovador dos costumes sexuais 
ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo, assim como podem sê-lo certa 
arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os 
movimentos ecológicos). Por último, digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou 
sujeitos, ele os inclui, os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações. 
Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção, os 
institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura, 
dinâmica, processos, contradições principais e secundárias, opositivas e antagônicas, conflitos, 
defesas, mecanismos, magnitudes de produção, reprodução e antiprodução, analisa dores, potências, 
poderes, territórios, linhas de fuga, equipamentos, dispositivos da área ou organização intervinda. O 
diagnóstico é importante para justamente instituir, organizar, planejar, antecipar, decidir os passos 
que comentaremos em seguida, tais como contrato, estratégia, logística, táticas, técnicas: Isso sem 
esquecer que boa parte do percurso é imprevisível. 
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Os institucionalistas, para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções, precisam 
fazer acordos, pactos, convênios(ou como se queira chamá-los) com as organizações, 
estabelecimentos ou, simplesmente, com os coletivos de usuários "clientes". A estes acordos 
costuma-se denominar contrato. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se 
explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. Em muitos aspectos o 
contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. Trata 
principalmente de tempo (duração total, freqüência dos trabalhos), honorários ou outro tipo de 
retribuição, delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais de investigação, 
promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. Como veremos, é 
importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a 
totalidade do coletivo intervindo, mas com certos segmentos do mesmo. Por outro lado, tem 
especial significação qual é a relação jurídica (emprego, serviço profissional independente, 
solidariedade militante etc.) que fundamenta o contrato. Mas o essencial a recordar é que o 
contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a 
intervenção como serviço deflagra. Os diversos aspectos do contrato: tempo, dinheiro, 
contratantes, objetivos, expectativas, são analisadores, emergentes da problemática a ser 
pesquisada. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. 
Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças, 
habilidades, elementos, recursos etc. de que se dispõe ao começar uma intervenção; quer dizer, 
com que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de 
possibilidades de realização. 
A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima 
expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo), assim como a progressão das 
manobras, dos espaços e territórios que se colocarão, a previsão de vicissitudes, opções, 
alternativas, avanços, retrocessos etc. 
As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. Para dar um 
exemplo bélico, totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação, de 
fronteiras, punitiva ou de extermínio parcial; se essa guerra se dará por terra, mar ou ar, quais 
serão os aliados, simpatizantes, 
68 ▲
neutros e inimigos etc. As táticas referem-se a batalhas circunscritas, à área onde se 
desenvolvem, à participação da infantaria, cavalaria, o horário, os movimentos de tropas etc. 
As técnicas, prosseguindo com a metáfora, aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis, 
morteiros, granadas etc. 
No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística, a estratégia e as 
técnicas do campo bélico ao campo da intervenção, sem tomá-las ao pé da letra. É interessante 
enfatizar drasticamente que no Institucionalismo, uma vez que se adquira uma base de 
entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos 
para um contrato e diagnóstico provisórios, enquanto já se têm, baseados nisso, esboços de 
uma logística, estratégia geral e primeiras táticas, a eleição de técnicas é consideravelmente 
livre. Quer dizer; será ditada pela inspiração e o treinamento, assim como pelas predisposições 
pessoais da equipe operadora, objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades 
do coletivo em pauta. 
Procedimentos interpretativos, informativos, esclarecedores, de 
sensibilização, de expressão, de discussão, agenciamentos artísticos, desportivos, 
convivenciais, lúdicos, praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as 
circunstâncias. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 
1) Qual é o sentido dos termos sujeito, desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no 
lnstitucionalismo? 
2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 
3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 
4) O que é análise da implicação? 
5) O que são: analisador, equipamento, dispositivo, logística, estratégia, táticas e técnicas? 
70 ▲
Capítulo V 
AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO 
Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas, nem 
necessariamente as mais importantes, mas são as que mais notoriedade têm atingido. São também as 
mais difundidas, particularmente aqui no Brasil. Terei de ser muito esquemático. Tentarei uma 
espécie discutível de classificação, de graduação entre essas três tendências. 
Em termos, digamos, políticos, eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de 
Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –, existe uma graduação à 
medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma 
igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. Produz, assim, uma forma de abordagem das 
organizações e das instituições que, poderíamos dizer, é politicamente moderada, se é que tal termo 
exprime alguma coisa. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de 
Deleuze e Guattari, eu diria, são propostas políticas mais subversivas, mais enérgicas, mais ativas, 
com certos matizes diferenciais entre elas, que podemos tratar de caracterizar nesta exposição. 
Então, contar com certo conhecimento de 
7 1 ▲
Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos 
explicar isto de forma breve, introduzindo-os nesta teoria, metodologia e técnica 
sociopsicanalíticas. 
A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. Ela se ocupa da 
psicopatologia com uma expectativa de cura, mas, no seu percurso e desenvolvimento, Freud 
criou também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". Nesta 
teoria distinguem-se, na constituição do psiquismo, duas séries assim chamadas: a série 
disposicional e a série desencadeante. Essas séries denominam-se complementares. Tudo que 
acontece na vida psíquica, tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do 
psiquismo é determinado pela articulação entre estas duas séries. A série disposicional é 
composta pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados 
por seus progenitores, ou seja, pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Acrescente-se a isso as 
experiências da infância precoce. Então, o hereditário mais as experiências tidas durante a 
gestação, mais as correspondentes ao parto e primeira infância, tudo isso fica registrado e 
organiza o psiquismo segundo uma das séries: a série disposicional. Mas com essa série 
disposicional e a partir de quando começa a chamada latência, isto é, com o fim do complexo 
de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos de idade), o sujeito se incorpora plenamente 
à vida social, adquire contato com os grupos chamados secundários, grupos de jogos, de 
estudo, de educação, grupos sociáveis no sentido amplo. Seu Superego está instalado e com 
ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar seu mundo de 
significações. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas prévias 
adquirem retroativamente sentidos morais. Suas representações são secundariamente 
recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. Em seguida, continuam sucessivas 
incursões nas atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação 
diferente atrás da outra, e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem 
disposicional que traz. Essas eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de 
movimentos e de adaptações, de criação e de transformação. Algumas dessas situações são 
altamente tensionantes,intensamente pressionantes para o 
72 ▲
psiquismo. Quando a série dessas experiências, constituída pelas situações da vida, atua sobre 
a série disposicional que o sujeito traz, pode resultar numa falha do sujeito no processo de 
simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. E isso resultará na 
doença psíquica, em sintomas. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são 
produtos desta articulação entre a série disposicional e a série desencadeante; pode efetuar-se 
em comportamentos ativamente adaptativos, sublimatórios, ou pode ser causante de processos 
patológicos. Outra forma de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau 
em que o sujeito conseguiu, durante sua primeira infância, resolver, elaborar – ou não – o 
chamado Complexo de Édipo, que constitui o núcleo central de sua série disposicional. Se não 
resolver, então esse desenvolvimento vai ficar afetado por "pontos de fixação". Então, quando 
a série desencadeante atua sobre a disposicional, gera no psiquismo um processo de regressão 
a esses pontos de fixação. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária, arcaica, e isto 
é que vai resultar no retorno do recalcado como sintoma. Logicamente, cada sujeito é singular, 
único, irrepetível, e as configurações da série desencadeante – que podem gerar patologia, 
atuando sobre a série disposicional – são totalmente variáveis. É por isso que uma situação 
que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre determinada série 
disposicional), não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série disposicional 
diferente). No entanto, a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar, de 
universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir patologia 
em geral. Essas são experiências de frustração, experiências de privação, e experiências 
daquilo que em Psicanálise se chama castração. Apesar de não podermos desenvolver agora, é 
importante assinalar que entre frustração, privação e castração existem diferenças. Privação 
refere-se à falta de subsídios para necessidades biológicas, concretas; castração refere-se a um 
tipo de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo), ao passo que a frustração é 
um desengano de amor. Ou seja, são exigências diferentes, faltas diferentes cuja elaboração ou 
não gera efeitos diferentes. Elas, em geral, atuam em conjunto. De um ponto de vista mais 
amplo, sociopsicanaliticamente falando, poderíamos resumir esses três 
73 ▲
tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência 
de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menosvalia, 
exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao 
estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua 
impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto 
de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os 
quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as 
únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa. 
Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as 
formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto 
"pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não 
vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a 
castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não 
são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e 
necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações 
psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras 
afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida 
humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar-se, que estabelecer uma aliança entre si 
para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é 
espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele 
precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de 
trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe 
tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco: 
ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no 
momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto 
que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento, 
74 ▲
através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o 
homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de 
associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que 
em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o 
Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por 
sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez 
biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos 
técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça" 
e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos 
poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de 
controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e 
outras formas de comunicação inter-humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de 
pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser 
pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero 
humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o 
ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas 
internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o 
homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele 
tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o 
homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições, 
teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem 
teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta 
união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca 
funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação 
entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos 
esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar 
75 ▲
a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da 
humanidade, que são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um 
setor da humanidade pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um se tor da 
humanidade por outro. Isso faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às 
ameaças da organização social,da injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada 
organização histórica, cada civilização, cada modo de produção da vida humana sobre a terra 
tem suas modalidades de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo de 
produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior grau de extensão e de 
universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta associação 
humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir riqueza e 
elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que 
chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na 
história da humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os 
fenômenos da exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem 
características muito próprias. Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal 
potência é a capacidade de trabalho coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de 
seu trabalho não lhes retorna na medida em que eles deveriam ser seus legítimos 
proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o controle dos fenômenos da vida, 
também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece a mesma coisa. A imensa 
maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de impotência, e não é 
apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu próprio corpo, 
mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e do 
conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a 
formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento 
central da série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer 
que, no sentido coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos 
patológicos, é produto dessa desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do 
poder e do prestígio, que faz com que quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 
76 ▲
humanidade que trabalha, não desfrute dos resultados deste esforço. Então, o que Mendel vai 
afirmar é que, se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja), o lugar onde deve ser 
estudada a experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos 
patológicos é o "lugar natural" em que os homens se associam para exercer sua potência, ou 
seja, nos âmbitos de trabalho. Para Mendel, as vicissitudes individuais dessa experiência de 
impotência não serão nunca compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e 
no lugar pertinente onde elas acontecem, que é no lugar de produção. O que Mendel diz é que 
isso deve ser abordado nas organizações de trabalho, entendendo o trabalho num sentido 
muito amplo, não apenas trabalho industrial, mas também trabalho escolar, médico, 
comercial, ou seja, não apenas produção de bens de consumo, mas também produção de 
serviços; e assim por diante. Mendel diz que quando se abordam os coletivos que formam 
parte dessas organizações, é fácil ver que esses conjuntos vivenciam, de mil maneiras 
diferentes, essa experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado no 
capitalismo. E essa experiência de impotência gera neles, incidindo sobre a série 
disposicional de cada um deles, um processo regressivo. Só que esta regressão não deve ser 
pensada como sendo da ordem individual, mas da ordem coletiva. Por isso, a regressão que se 
produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou 
psico-institucional a um outro, chamado funcionamento psico-familiar. Isso consiste num 
processamento psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de 
retificação com o real, ou seja, recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma 
vida fantasmática – e não uma vida simbólica, adequada às circunstâncias concretas que os 
rodeiam, com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. Esta 
experiência de impotência gera uma regressão do psico-institucional ao psico-familiar, no 
sentido em que os sujeitos vão definir esse campo real em que estão como se fosse uma 
situação familiar arcaica pela qual já passaram, quando se estava construindo sua série 
disposicional. Ou seja, eles vão viver a situação de trabalho, a situação organizacional como 
se essa fosse uma situação familiar arcaica. E as figuras determinantes reais dessa situação 
atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua situação familiar. Em 
77 ▲
conseqüência, reagirão de uma maneira irreal e fantástica, como acontecia na sua infância, em que, 
objetivamente, eles eram pequenos, sós e impotentes, e não tinham outra forma de solucionar essa 
situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. Devido a essa regressão que mencionamos, o 
coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica, familiar, e também se refugia no 
mundo da fantasia. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas, 
imaginárias, como sintomas, atuações, inibições, delírios, somatizações, enfim, como tudo quanto 
constitui a patologia biopsico-social. Então, se isso está mais ou menos entendido, a proposta de 
Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise, feito em 
colaboração com uma equipe interveniente, que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica 
e obter a compreensão da regressão que os afeta, chegando à ressignificação simbólica de sua 
regressão imaginária, para poder ter de novo um acesso ao real atual, que estão negando, 
desconhecendo. Dessa maneira, recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes 
permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional, porque, afinal de contas, eles são 
os produtores da riqueza, eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio. 
Este processo opera teoricamente, como já dissemos, com pontos de vista e postulações 
perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. A metodologia de intervenção 
conserva muitas das características da intervenção psicanalítica, sobretudo o recurso interpretativo. 
É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual, mas coletivo, e não passa 
exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas, mas exige um 
movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível, que se tem perdido 
devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar. 
Agora resumiremos a posição de Lourau, Lapassade e seus companheiros – que são, senão 
os criadores exclusivos, pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise 
Institucional. Tentando outra vez uma síntese, que por tratar de ser clara pode resultar 
empobrecedora, digamos o seguinte: 
Para a Análise Institucional, uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer 
dizer, não totalizável – de 
78 ▲ 
instituições. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de 
comportamentos humanos aos quais classifica e divide, atribuindo-lhes valores e decisões, algumas 
prescritas (indicadas), outras proscritas (proibidas), outras apenas permitidas e algumas, ainda, 
indiferentes. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis, em normas escritas ou 
discursivamente transmitidas, ou podem ainda operar como costumes, quer dizer, como hábitos 
não-explicitados. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas 
materiais ou "corporificadas" que, segundo sua amplitude, podem ser: organizações, 
estabelecimentos, agentes, usuários e práticas. Cada instituição é universal, ou seja, indispensávelpara toda e qualquer sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um 
momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. 
Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si 
mesma), também tem uma relação.de negatividade consigo mesmo, com referência aos outros e em 
relação ao sistema global que as instituições integram e que, ainda que seja de maneira aberta, as 
engloba. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição, como por exemplo, uma 
norma universal (digamos as relações de parentesco), uma modalidade particular do matrimônio 
poligâmico, ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norte-
americanos, a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam, tende-
se a atribuir-lhe funções inteiramente claras, eficientes e em geral consideradas necessárias, 
indispensáveis, úteis etc. Assim consideradas, essas entidades, tanto para o saber espontâneo de 
seus agentes sociais quanto para os experts que as descrevem, ocultam funcionamentos divergentes, 
contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em 
que, como dizíamos, cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. Em palavras diferentes, 
é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais, e essa 
ausência é registrada como um não-saber, que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de 
cada uma delas. 
A Análise Institucional não é, então, um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia 
dar conta de todos estes 
79 ▲
desconhecimentos, positivando de uma vez por todas o tecido social. Pelo contrário: t rata-se 
de uma investigação permanente, sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a 
negatividade operam em cada conjuntura. 
Por exemplo, no caso das organizações do trabalho, a Análise Institucional parte da 
idéia de que, devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho", cada 
coletivo de uma organização está alienado no não-saber, no não conhecer quais são as 
condições reais em que está trabalhando. É vítima, digamos assim, de um desconhecimento 
que, em parte, é um desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas 
de instituições e organizações; é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. 
Mas, em parte, é vítima de um processo de doutrinamento ativo por parte das classes 
dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo, uma noção do processo de trabalho, 
dos objetivos da vida, dos valores, do sentido da existência e uma definição da função das 
organizações que lhe é profundamente desfavorável e que o faz compactuar com o poder, 
com as classes dominantes. É o que o Marxismo chamava, classicamente, de Ideologia. 
Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia, entendida num sentido menos amplo e mais 
restrito às organizações, que o mesmo Marxismo não sabe decifrar. Isto é, esse mesmo 
processo de impotência, ao qual se referia Mendel, existe nas organizações, porque quem é o 
proprietário dos meios de produção, dos meios de decisão, também é proprietário de um 
saber. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do 
poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. Esse poder é entendido como 
a imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores 
dominados, das classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. Isso 
gera, em todas as organizações, o fato, como diria Mendel, da classe institucional 
trabalhadora, tanto nas suas bases como nos estratos que lhe são próximos, desconhecer os 
principais vetores que ordenam a organização na qual está inserida. Ela considera 
indiscutivelmente indispensável o papel do capital como "criador de fontes de trabalho", ela 
considera absolutamente necessária a organização da produção destinada a gerar mercadorias 
(e não a gerar bens de uso), ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia 
de Estado. Ela 
80 ▲
considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de 
maior saber dá, "naturalmente", uma posição de maior poder. E não teria de ser assim, 
forçosamente. E assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz c oincidir com uma 
divisão social. Mas a divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. Então, 
trata-se de criar um dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos 
de mal-estar, de conflito, de impotência, de disfunção que aparece devido a toda esta divisão 
injusta e perversa do trabalho. Isso constitui parte do não-dito institucional. Em um sentido 
amplo, o não-dito compreende a relação de não-saber que cada momento da instituição 
guarda com respeito ao outro e o não-saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. 
Esses analisadores são muitos, como já dissemos anteriormente. Alguns deles são" 
espontâneos", outros são construídos pelos interventores institucionais. Mas os que podem 
delimitar-se com maior freqüência são, por exemplo, o analisa dor "dinheiro", o analisador 
"sexo", o analisador "prestígio", o analisador "poder". São fenômenos conflitivos, são 
vivências sofridas, são acontecimentos mais ou menos explosivos, são lugares de atrito que 
estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que 
produza não apenas um produto cujo resultado não seja planejado e reassumido por aqueles 
que o produzem, mas também uma série de relações humanas distorcidas, monstruosas, que 
geram essa experiência de impotência. Então, essas contradições vão estourar em fenômenos 
como o do absenteísmo, como o da diminuição da produção, incidência do alcoolismo, da 
tóxico-dependência, de acidentes de trabalho, conflitos, brigas, incomunicabilidade, rebeldia 
e revolta estéril, arbitrariedades que as classes dominantes da organização costumavam, e 
ainda costumam, solucionar drasticamente, com medidas disciplinares; tudo isso as classes 
institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de respostas 
individualistas, desordenadas ou autodestrutivas. Então as classes e grupos dominantes, na 
modernidade, descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – 
Recursos Humanos, ou Psicologia Organizacional, ou Relações Públicas, ou Relações 
Humanas –, que se destina a transformar toda essa problemática em uma 
81 ▲
simples questão de negociação ou comunicação. Trata-se de colocar os quadros em contato 
para que solucionem esse assunto conversando, negociando ou vivenciando, relaxando-se, 
mas sem sair da lógica do sistema, sem que se tome consciência de como as determinantes 
básicas da alienação são as causadoras dessa problemática. O que a Análise Institucional 
propõe é a criação de dispositivos para que o coletivo se reúna e discuta, exaustivamente, 
esses fenômenos, e descubra a maneira como esses efeitos antiprodutivos são a expressão, a 
conseqüência, tanto do não-saber das contradições da estrutura e da função do sistema, como 
um desvio das forças críticas, das forças revolucionárias, das forças subversivas. Trata-se de 
criar condições para que possam, dessa maneira, correlacionar esses analisa dores com suas 
causas e dar conta delas – de forma a adquirir consciência de que não vão poder solucionar 
esses fenômenos sem uma ampla reformulação da estrutura e do processo produtivo em si 
mesmo, mas nas formas peculiares que este adquire em seu caso singular. 
O objetivo, pode-se ver, é parecido com o de Mendel. Em todos os dois há certa 
semelhança, mas também diferenças. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a 
autogestão, ou seja, a recuperação do poder de organizaçãoe do autogerenciamento do 
processo produtivo, eliminando as situações de burocracia, de imposição, de dissociação – 
não a diferenciação técnica, que é necessária-, mas a dissociação e hierarquização social do 
trabalho. Mas a Análise Institucional é mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo 
Histórico que a Psico-Socioanálise. 
Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora 
também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e 
social do trabalho. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as 
características gerais do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando; a isso 
se chama "implicação". Então, a equipe interveniente também vai integrar-se com a 
organização intervinda numa organização compartilhada, na qual vão poder analisar os 
fenômenos de alienação de uma e de outra. De modo que esse processo autogestivo e auto-
analítico, que vai tentar deflagrar na organização intervinda, vai ser ocasião de poder analisar 
também os seus próprios conflitos da mesma natureza. Finalmente, cabe 
82 ▲
esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio", quando se pratica sobre uma 
organização circunscrita, com uma conflitiva mais ou menos moderada, ou "a quente", 
quando se opera no seio de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de 
transformação autogestiva generalizada de uma sociedade inteira. 
Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari, tratando de 
caracterizar algumas diferenças essenciais. Creio que elas poderiam passar pela questão de 
que a Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau, 
em última instância – apesar de sua franca inspiração libertária, de sua enérgica vocação 
revolucionária – são prestações de serviço mais ou menos tradicionais. Isto é, a demanda, o 
requerimento de uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico, é 
feita por alguns setores ou pela totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo 
organizado, que oferece seus serviços de uma maneira mais ou menos tradicional, como 
prestação de serviço profissional. Isto é, os sociopsicanalistas e os analistas institucionais, 
apesar da rigorosa autocrítica que exercitam, apesar de uma vocação militante que têm no seu 
trabalho, não deixam de ser experts, não deixam de ser técnicos, científicos; não deixam de 
estar agrupados neste tipo de organização característica dos experts profissionais. Por 
exemplo: o grupo de Mendel, que se chama Degenettes, trabalha em muitos lugares do 
mundo, mas tem uma espécie de central em Paris. Pode-se, então, ir até lá e solicitar seus 
serviços. Isso gera, entre a organização solicitante e a organização solicitada, todo um 
processo de diagnóstico, prognóstico e indicação, e um contrato de trabalho. Então, apesar de 
todas as ressalvas, auto críticas e análise da implicação, trata se de uma prestação profissional 
de serviço, na qual se discutem honorários, tempo e demais coisas. Além disso, é geralmente 
um serviço apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado, dentro de 
um marco mais ou menos convencional, ou seja, a uma escola, a um sindicato, hospital, 
fábrica, convento, quartel etc. Isso, como já dissemos, se denomina" autogestão a frio", 
enquanto a" autogestão a quente" é a gerada numa situação revolucionária mais ou menos 
generalizada. 
Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de 
Deleuze e Guattari, que são muito 
83 ▲
sofisticadas e complicadas, digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o 
Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a 
de Mendel. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes 
monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. Eu diria 
que de Mendel a Deleuze e Guattari existe, politicamente, todo um abandono paulatino do 
Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo, para se aproximar muito mais do 
Anarquismo. Então, uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe, 
necessariamente, essa prestação de serviços convencionais. A Esquizoanálise pode ser feita por 
qualquer pessoa e em qualquer lugar. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina, 
mas basicamente como uma nova forma de pensar, um modo de ser, ou uma maneira de viver. 
Propõe algo assim como um processo de análise permanente, generalizado e ubíquo, presente por 
toda parte, em qualquer momento, e protagonizado por qualquer pessoa que tenha, naturalmente, 
interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a 
precederam. Não implica, necessariamente, uma relação de contratação. Não é, indispensavelmente, 
desempenhada por experts nem por profissionais. Não implica um lugar nem tempo determinado. 
Não é necessariamente uma atividade coletiva, senão que pode ser dual ou individual. Sequer 
implica um trabalho de um agente sobre um usuário, mas que pode ser um trabalho feito por um 
sujeito sobre si mesmo. Mas que tem também um aspecto analítico, ou seja, a compreensão de 
como as determinações alienantes do sistema, responsáveis pela dominação, pela exploração e pela 
mistificação, estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais, as afetivas, as sentimentais, 
as econômicas, as políticas, as artísticas, as relações com os outros e as relações conosco mesmos. 
Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. Além disso, que 
não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. Para ela, 
são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a 
alienação e propiciar, per se , a invenção de uma metodologia e de técnicas, táticas e estratégias 
absolutamente singulares para cada caso, para cada situação, e que não podem ser sistematizadas 
84 ▲
nem transladadas para outra oportunidade. 
Então, poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia, 
é uma doutrina, uma ideologia, uma crença? A rigor, apesar de um de seus produtores ser 
considerado o maior filósofo contemporâneo, na nossa opinião não se trata de filosofia. É alguma 
coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo, da história, da vida, do 
psiquismo, que pretende ser um novo gênero, não enquadrável, nem como uma ciência, nem como 
ideologia, mas, na versão dos autores, como uma proposta radicalmente nova, que não é redutível a 
nenhum dos gêneros de saber anteriores. 
Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari, 
como, por exemplo, aquela das máquinas desejantes, se perguntaram qual é a definição de desejo 
em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta 
pobre: em Mendel, a concepção do desejo, eu poderia dizer, é rigorosamente freudiana: é a que 
Freud dá nas formas que, segundo uma epistemologia clássica, são as mais amadurecidas de sua 
obra. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas, ele não dá muita ênfase a 
essa categoria e a esse conceito. Não lhe interessa, particularmente, a participação do desejo, 
embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional, mas não é um 
inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o 
não-dito e não-sabido, da vida organizacional, por referência não apenas à instituição familiar, 
senão à do dinheiro e outras. Em Deleuze e Guattari, a coisa já muda radicalmente, porque eles 
consideram a definição freudianado desejo; mas para eles a questão se altera por completo. Para 
Freud, o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo, mas é uma força pertencente a 
esse domínio, a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais, 
entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. Inclusive, se aceitamos que na 
civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas, elétricas, eletrônicas etc. já forma como que 
uma terceira natureza, podemos dizer que existe a "natureza ecológica", a "natureza humana", a 
"natureza social", a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica; só que essa 
esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. Para Deleuze e Guattari, não se 
trata de
85 ▲
domínios nem de esferas separadas, isoladas entre si, mas entre suas formas molares; no nível 
molecular, a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. É a mesma natureza com uma diferença 
de regime. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Equivale a 
dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social, do real psíquico, do real 
natural e do real maquínico – é a produção, é o produzir. Não a produtividade, que é a produção já 
deformada pelo capitalismo, mas a produção como processo de geração constante do novo. Então, 
eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção, tal conceito não consegue 
englobar todas as formas de produção possíveis. Ao passo que, se tomamos o conceito freudiano de 
desejo – ele, especificamente psíquico, como dizíamos, é restitutivo, e tenta esterilmente repetir um 
estado anterior –, esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de 
desejo, que são imanentes entre si, vai-se gerar uma nova categoria de produção, que abrange todas 
as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis, e com essa característica de gerar 
sempre o diferente e em todas as atividades possíveis, incluída a psíquica. Ou seja, para eles o 
desejo não é restitutivo, o desejo é produtivo. A produção não é apenas produção mecânica social 
ou natural, mas é também produção desejante, segundo as características do processo primário. 
Mais ou menos essas são as diferenças. Baseando-nos nelas, para concluir, digamos que, por 
exemplo, em Mendel, é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. Para quê? Para 
que, uma vez interpretados, os sujeitos possam controlá-los, dominá-los e utilizá-los no sentido de 
ganhar uma margem de poder possível. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar, porque 
as representações não interessam tanto quanto as forças; o que se tem de fazer é liberar, propiciar, 
deflagrar a potência da produção, do desejo e da diferença. Tudo isso justamente por causa da 
natureza última do desejo que eles supõem; no caso de Mendel, por exemplo, o desejo é, de uma 
natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção, enquanto em 
Deleuze e Guattari, ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária, que só precisa ser 
veiculada, liberada de suas constrições. 
Para Deleuze e Guattari, a realidade está composta por 
86 ▲
três superfícies imanentes entre si: a da Produção, a do RegistroControle_e a do Consumo-
Consumação. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria: 
Superfície de produção = Libido; Superfície de Registro = Númen; Superfície de Consumo = 
Voluptas. A Superfície de Produção está, por sua vez, integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas 
Máquinas Desejantes. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo, ou seja, compõe-se de 
matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. Em si mesmo o Corpo sem 
Órgãos é o grau zero de Intensidades, mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de 
um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário, desejante-produtivo, as Intensidades circulam por 
ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas, geradoras de tudo quanto é 
novo. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. O Corpo sem Órgãos assim povoado se 
transforma numa Nova Terra, enquanto que, em condições desfavoráveis, quando os experimentos 
do Plano de Consistência fracassam, pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e 
levar à morte ou à demência. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é sub-
microscópico ou molecular. 
Na Superfície de Registro, o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes 
são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídos-
órganizados: Estado, Igreja, empresas, bancos, dinheiro, organismos, representações e estruturas 
edipianas). A este nível cristalizam-se em territórios. É o lugar das identidades e dos controles e da 
repressão generalizada. Também a ele pertencem as pessoas, os indivíduos, os sujeitos, os códigos, 
sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. O Corpo sem Órgãos 
torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que, segundo se trate das 
formações primitivas, asiáticas ou capitalistas, será respectivamente o Corpo da Terra, do Déspota 
ou do Capital-Dinheiro, ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. 
Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante-revolucionários gerados por 
encontros ao acaso das intensidades, ou máquinas desejantes, são capazes de desestruturar os 
estratos e territórios da Superfície de Registro, 
87 ▲
propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em 
novidades radicais. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular, um pólo paranóide 
(capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário). 
Como se vê, apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria 
torna impossível defini-los em detalhe. Para tentar enriquecer um pouco essas definições, sugiro 
consultar o glossário deste livro, assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. 
88 ▲
PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 
1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 
2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 
3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 
4) Qual ê a relação entre estas três tendências, a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 
5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das 
tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo? 
89 ▲
Capítulo VI 
ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO 
Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard, isto é, 
a mais habitual, a mais corriqueira, a mais conspícua. Antes de começar, no entanto, eu 
gostaria de fazer uma breve classificação – que, seguramente, será muito incompleta e 
esquemática – de algumas formas diferentes de intervenção, pois me parece que, metodológica 
e tecnicamente, é uma questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso 
destes capítulos. É um assunto importante, porque quando não fica claro, permanece nas 
pessoas uma dúvida enorme no tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. Então 
eu gostaria de, pelo menos, mencionar algumas delas. 
Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a 
configuração de um campo de análise e um campo de intervenção, é evidente que o campo de 
análise consiste apenas num espaço conceitual ou nocional. Em outras palavras, é um tema do 
qual o institucionalista quer se ocupar. Esse tema pode ser abstrato ou concreto; pode ser 
contemporâneo, passado ou futuro. E pode ser muito vasto ou mais restrito. Mas 
90 ▲
é um processo de produção de conhecimento com respeitoa esse campo e não implica 
necessariamen te uma intervenção técnica; envolve apenas o fato de que o institucionalista vai 
tentar entendê-lo . Aliás, isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é 
propriamente histórico-social, no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser 
um texto literário ou uma obra arquitetônica, por exemplo. 
Agora, o campo de intervenção, como já foi dito, pressupõe um campo de análise, 
porque se pode entender sem intervir, mas não se pode intervir sem entender, embora durante 
a intervenção iremos entendendo cada vez mais. O campo de análise pode não coincidir, em 
termos empíricos, com o campo de intervenção. Ou seja, pode-se escolher como campo 
concreto de intervenção uma fábrica, uma indústria. Mas pode-se delimitar um campo de 
análise que não compreenda unicamente o entendimento dessa fábrica, e resolver estudar o 
processo histórico de implantação desse tipo de indústria no Brasil, para poder saber como 
funciona essa organização concreta, fabril, escolhida como campo de intervenção. 
Partindo, pois, dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção, 
digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. Uma modalidade de 
intervenção – aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este 
roteiro standard , tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas, 
convencionais, habituais, dentro do panorama social. É o que se dá como serviço oferecido na 
condição de profissional liberal ou autônomo, na condição de sociedade cientifica – uma 
sociedade científica de Análise Institucional que oferece trabalhos, por exemplo; é o exercício 
oferecido por um estabelecimento de prestação de serviços privados, um instituto de Análise 
Institucional que pode ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma 
microempresa; é o que pode ser oferecido por um departamento especial de uma faculdade, 
um departamento de Análise lnstitucional numa universidade. 
Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma 
equipe que integra, que é interna à organização na qual se vai intervir. É o famoso caso, por 
exemplo, do departamento de Recursos Humanos de uma empresa, que tem de fazer uma 
intervenção dentro de sua empresa mesma, 
91 ▲
ou um departamento de acompan hamento institucional de urna universidade. 
Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida 
com esta anterior, que acabamos de expor, mas menos caracterizada burocrática e 
profissionalmente. Por exemplo, é o caso de um sindicato ou de um partido político que, nos 
seus quadros, tem institucionalistas que são militantes formais. Então, esse sindicato ou esse 
partido político pede a seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor, em um 
segmento, em urna frente, em um espaço da vida e da atividade partidária, trabalho esse que 
pode ser ou não pago, contanto que seja considerado corno parte da vida militante. Mas, em 
todo caso, é um acordo muito definido, pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais, 
em que se reconhece no militante institucionalista um saber" específico", e ele é procurado 
nesta condição. 
Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se 
caracteriza corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização, à 
qual ele pode pertencer organicamente ou não, e o faz sob um rótulo, na condição de qualquer 
outra coisa que faça parte dos papéis formais existentes nessa organização, mas que não seja 
o de institucionalista. É o caso, por exemplo, de um morador numa associação de bairro, em 
que ninguém sabe que seja institucionalista, ninguém está informado de que ele oferece 
serviços institucionalistas, mas que, dentro de seu papel de morador, opera corno 
institucionalista, sem explicitar essa condição. 
Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre, 
limitado, que consiste numa variação dessa última possibilidade. Urna variação que parece a 
menos comprometida e, sem dúvida, é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o 
Institucionalismo na convivência cotidiana. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno 
institucionalista, nem é solicitado corno tal, nem se infiltra sob outra condição não formal, 
mas simplesmente é um "cristão", isto é, é um próximo que, tendo assimilado princípios 
teóricos, formas técnicas de operar, vive dessa maneira, convive dessa forma e, então, pratica 
o Institucionalismo com sua mulher, com os filhos, com os companheiros, com os 
adversários. Em outras 
92 ▲
palavras: é a quele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de 
viver de acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é 
principalmente na coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se 
comporta corno institucionalista. 
Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma 
abordagem muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas 
inserções possíveis, o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não 
foi exaustivamente feita em texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é 
demasiadamente ampla, heterogênea, complexa, inclusive por causa da pretensão 
institucionalista de que cada intervenção tem de ser singular, tem de ter uma característica de 
originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a sistematização dessas diferenças 
eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o importante é reter isso, a 
amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito contraditório nos jovens 
institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma orientação disciplinar: 
querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de saber e de 
prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber quem 
são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição 
profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não 
demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em 
cada conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, 
em muitas ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de 
funcionário ou de burocrata. 
Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, 
apesar de que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude 
gera nos jovens agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode 
levá-los a adotar uma atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito 
complicado, muito impreciso; não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, 
algo tradicional e não demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de 
maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 
93 ▲
complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus, 
há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... " 
O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a 
intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2) 
nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito 
freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, deve-
se ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de 
operar,corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, 
deixaremos esboçados. 
Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São 
passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a 
intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as 
condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não 
existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se 
vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas 
épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos 
diziam: calcanharplanta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas 
acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar 
nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a 
gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e 
bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente 
nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê-lo ... 
O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido 
particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a 
intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma 
como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 
94 ▲
atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada 
separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas 
não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas 
investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que 
existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a 
organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço. 
Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é . 
"naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus 
serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras 
organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são 
anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da 
sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda 
urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à 
qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo. 
Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de 
saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de 
saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela 
falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às 
questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo 
mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção 
de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em 
todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural, 
nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira 
coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como 
produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor 
compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 
95 ▲
análise da implicação. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócio-
econômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora, consciente ou não, tem com 
sua tarefa, ela começa pela análise da implicação existente na oferta, ou sefa, na produção da 
demanda. 
Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar 
aqui porque excede nossos propósitos. Mas há uma que temos de revelar, ter presente, e eu 
gostaria de descrevê-la de maneira pitoresca, para que seja mais lembrada pelos leitores. Há 
uma piada famosa que se passa num forte militar, numa dessas guarnições que ficam lá na 
fronteira. Um oficial pede a um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios 
estão vindo ou não. É um forte americano, em território índio. Então, o vigia sobe, olha e diz: 
"Sim, os índios estão vindo... São muitos; vêm correndo." O oficial pergunta: "Mas esses 
índios são amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe, devem ser amigos, porque 
estão vindo todos juntos... " Se a gente se lembra desta piada, fica mais fácil lembrar que a 
realidade com que trabalhamos vem toda junta. A divisão em especialidades, profissões, só 
existe dentro da classe ou da equipe, mas não nos usuários. A realidade "vem toda junta": as 
divisões que fazemos são totalmente produzidas. Mas a realidade vem junta e nós não estamos 
juntos; o mais que conseguimos, às vezes, é estar próximos, um ao lado do outro. E o que 
acontece é que cada especialidade, cada profissão, acha que os problemas da realidade são 
problemas de seu campo. Isso não é maldade dos agentes; pode ser uma desonestidade, e 
muitas vezes é, mas não freqüentemente. Acontece que o aparelho científico disciplinar e a 
condição profissional estão estruturados para isso, para encarar qualquer problema da realidade 
e estar, em princípio, convencido de que o problema é nosso: de cada um, do especialista, do 
profissional. Então, um senhor ou uma organização vem consultar-nos sobre um problema de 
saúde. Eu sou especialista em saúde. Além disso, sou profissional. Vivo disso. Adquiri uma 
série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se demonstrado eficazes. Cabe 
lembrar que obtenho todo o meu dinheiro, todo o meu poder social e todo o meu prestígio 
através disso que eu faço. Então não tenho culpa de nada. Se alguém me consulta por um 
problema de saúde, certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 
96 ▲
alçada. Então: "Venha que esse problema é comigo ... " Quantos profissionais, quantos 
cientistas vocês conhecem que, após ouvirem cuidadosamente alguma demanda, concluem que 
esse problema não é para eles resolverem, e encaminham a alguma organização ou a outra 
especialidade? Não se conhecem muitos profissionais assim... Existem poucos. Às vezes há 
quem diga: "Sim, o problema é meu, mas seria conveniente fazer uma consulta a um 
especialista em tal ou qual área." Isso já é muito, é difícil de se ouvir. O que é absolutamente 
improvável de se ouvir é uma resposta do tipo: "Permita-me dizer-lhe que esse problema não é 
privativo de nenhuma especialidade. Esse problema tem de ser resolvido com seus amigos, 
seus companheiros, seus colaboradores ou sozinho." Estou tratando de ser simples. O problema 
fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda, a primeira coisa que ocorre é que a 
gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa demanda; se o sujeito está 
demandando em primeira instância, somos levados a aceitar que é porque já sabe o que está 
demandando. E se me procura, estou a seu dispor. Procura-me porque algum lado do problema 
tem a ver com o que faço, eentão o atendo, esquecendo-me de que, se ele me procura, é porque 
me ofereci. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura; pode ser uma oferta 
vasta, ampla, cruzada. Mas se eu não me oferecer, ninguém me procura. Se eu não me 
constituo num lugar científico, profissional, se não vendo o que faço, ninguém" compra". 
Então, o que tenho de fazer é analisar, com cuidado, como foi que vendi isso, para que 
foi que "vendi", que coisas, realmente, posso solucionar, que coisas posso solucionar 
parcialmente e que coisas não devo solucionar, devo encaminhar noutra direção ou devo 
devolver, dar de volta ao usuário o que ele solicita de mim. Essa é a análise da implicação na 
produção da demanda, ou seja, na oferta. Essa análise tem aspectos conscientes e pré-
conscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe, vamos ver como foi que 
convencemos este fulano a nos procurar." Mas tem aspectos inconscientes, ou seja: que fiz eu, 
sem me dar conta, o que foi que fizemos nós sem dar-nos conta, para" capturar este peixe"? 
Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta reflexiva e voluntária. A primeira coisa a 
ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a oferta de nossos serviços é lícita, válida, 
resolutiva etc., porque, pelo contrário, o que 
97 ▲
vivemos fazendo é lutar pela legitimação, pela autorização e pelo reconhecimento s ocial de 
nosso serviço. 
O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento, isto é: quais foram os 
passos intennediá;ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos, mas para 
dar um exemplo simples: qual foi o cliente que, definindo nossos serviços como eficientes, 
chegou à conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são 
as razões válidas e as razões inconfessáveis, ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta 
recomendação? O que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere, isto é, 
não é exatamente um colega, mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a 
concessão de nos encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e 
a demanda. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é 
o melhor"; consulta porque "é caro"; consulta porque" é bara to"; consulta porque ele é "dos 
nossos". É preciso ver o que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu 
tina a quem solicita. Consulta porque" é daqui", ou porque "vem de fora". Tudo isso modula a 
demanda, e o faz com elementos conscientes e inconscientes no usuário, na mesma proporção 
neles e em nós, que ofertamos o serviço. 
O passo seguinte é a análise da gestão parcial. Isto é: qual foi o setor da organização 
que assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor 
administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o 
proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes. 
segmentos da organização. E isto é muito importante, porque nos pode dar toda uma 
antecipação dos motivos desta consulta, os interesses em jogo, os desejos em pauta e, 
sobretudo, o grau de consenso, de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. 
Não é a mesma coisa ser solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas 
bases. Costuma ser, para os institucionalistas, infinitamente melhor serem solicitados pelas 
bases do que pela direção ou pelos proprietários. Isso, sem dúvida, não é nenhuma garantia, 
porque as bases não são homogeneamente revolucionárias, nem homogeneamente 
progressistas, nem homogeneamente sinceras. Coisa que se constata claramente naquela 
célebre frase que diz: “ A ideologia 
98 ▲
dominante é a ideologia das classes dominantes." Então, as bases são, em geral, originais, 
singulares, solidárias etc., mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores 
dominantes. Então, ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. Isso 
também tem de ser analisado. 
O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes, mas 
apenas uma delas. Estamos falando de uma situação ideal em que, geralmente, vem apenas 
um segmento (apenas uma parte faz a demanda). Por outro lado, uma organização numerosa 
nunca virá toda para fazer uma solicitação. Vem um setor, que dá uma visão absolutamente 
parcial da realidade. A compreensão da determinação dessa parcialidade é importante, pois o 
fato de você considerar o parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma 
totalidade complexa, contraditória, desigual, conflitiva. Isso, claro, sabendo que uma 
organização nunca é integralmente totalizável. 
Então, a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu 
consultar e como foi que consultou. O passo' seguinte é a análise do encargo. 
Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que 
ficasse claro para os leitores. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre 
demanda e encargo. Nessa terminologia, demanda é a solicitação formal, consciente, 
deliberada, que nunca coincide com o encargo, que é um pedido que envolve os três níveis da 
discriminação que fizemos entre má-fé, desconhecimento e recalque. A diferença entre 
demanda e encargo pode passar por esses três tipos de determinações. A demanda nunca 
coincide com o encargo. Mas não coincide por quê? Por má-fé? Pode ser. É claro que as 
pessoas estão solicitando uma coisa, mas o que elas querem obter é outra. Pode-se dar um 
exemplo clássico, mas não único, nem exclusivo: à solicitação de intervenção institucional, na 
medida em que a Análise lnstitucional está cada vez mais em moda e que crescentemente 
ocupa lugares formais, é uma solicitação consciente que, em geral, passa pela idéia confusa 
de que um serviço de Análise Institucional forma parte da parafernália de serviços 
característicos do progresso, da tecnologia moderna em relações humanas. Então, a demanda 
é geralmente uma demanda do tipo: "Bom, veja, viemos consultá-lo porque sabemos da 
importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 
99 ▲
dos operários, da direção, ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos, a 
comunicação, o entendimento, a negociação etc." Por quê? Porq ue já se sabe que existe uma 
tecnologia modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. Ora, acontece que o 
encargo pode não ter nada a ver com isso. O encargo pode ter a ver, por exemplo, com algo 
que acontece quando, na organização, está surgindo um grave conflito por problemas de 
condições de trabalho, por problemas de nível de salário, por problemas de autoritarismo na 
liderança, todo tipo de atritos mais ou menos explícitos. Então, há uma demanda, num plano 
manifesto, de uma intervenção profilática, progressista, melhoradora. O encargo, no entanto, 
é: "Olhe, veja se acaba com esta revolta, localiza os líderes, me aconselha como desmontar 
este movimento, como desmobilizar, como fragmentar, como paralisar isto, ou como 
aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário." Isso pode ser feito com plena 
consciência e com má-fé. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma trajetória que 
permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza, porque é um corrupto ou porque é um 
reacionário. Há especialistas em fazer essas coisas. Agora, quem tem fama de institucionalista 
dificilmente será solicitado abertamente para isso, porque já se tem uma vaga idéia de que se 
ele não é revolucionário, pelo menos é democrata ou humanista. Então não se lhe pede isso 
diretamente. Mas pode-se perceber, perfeitamente, que se diz uma coisa e se está pedindo 
outra. 
Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passarpela má-fé. Pode ser 
fruto do desconhecimento, ou seja, você pode perfeitamente ter uma impotência sexual 
psíquica, e procurar um urologista, que não sabe uma palavra sobre isso. O urologista irá 
receitar, então, cloridrato de ioimbina ou viagra, e se isso não funcionar, vai acabar 
implantando uma prótese peniana para ver se opera, quando, simplificando humoristicamente, 
tratase de algum conflito com a "mamãe"... Não é comum isso? Trata- se, pois, de um 
problema de ignorância. O usuário não tem como saber qual é o lugar e o expert adequado (?) 
para a consulta. 
Mas pode ser, finalmente, um problema recalcado, inconsciente, de quem vem 
consultar alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua 
demanda e o encargo recalcado, entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera 
conseguir. 
100 ▲
Agora cabe aclara r uma coisa importante. Quando se simplificou isso, anteriormente, 
no tocante à diferença entre a demanda e o encargo, em termos de má-fé, de desconhecimento 
ou de recalque, falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que 
pedem um serviço. Mas se os quadros são de base, pode acontecer exatamente o mesmo: o 
pedido pode ser fruto de má-fé, de desconhecimento ou de recalque, porque os quadros de 
base podem fazer essa solicitação, por exemplo, porque não querem trabalhar, descartado o 
fato de que todo trabalho é alienado, que sempre existe uma extração de mais valia, e que 
sempre há dominação etc. Mas vocês devem ter ouvido, com freqüência, estes grandes 
"protestos revolucionários", porque não se quer estudar, não se quer trabalhar. Então solicita-
se alguma reivindicação, mas tem-se outro pedido como encargo: "Dê um jeito para que a 
gente não trabalhe." Já tenho recebido demandas dramáticas, heróicas, pelo fato de ter sido 
colocado o cartão de ponto. É claro, numa sociedade onde o trabalho é alienado, o cartão de 
ponto quer dizer muita coisa, e a maioria delas não é boa. Mas também quer dizer que você 
tem um horário de trabalho que odeia cumprir, ou um estudo que não tem vontade de 
'encarar, ou uma autocrítica que não consegue suportar. Sem dúvida este desagrado pelo 
trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim", ou de uma essência "vadia". Os 
determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente 
complexos. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de 
que trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. Mas, em todo caso, é bom que tais 
manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. 
Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. Já sabemos o que é encargo, e 
também análise da demanda parcial. Na realidade, não se podem separar esses dois pontos. 
Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos 
de uma unidade, não se pode entender um sem o outro –, então temos de caracterizar os 
analisadores "naturais". Vocês se lembram do que é analisador .natural: é um fenômeno (dito 
em termos clássicos, incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière 
chama de emergente, que é o que surge como resultante de toda uma 
101 ▲
série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. E são "naturais", porque não foram 
fabricados por um interventor institucional. Então, suponhamos um analisador chamado natural 
(criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto, e 
nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso, 
pelo menos enquanto acontecimento geológico. Então, não existem analisadores naturais 
propriamente ditos. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. Qual seria um 
analisador desse tipo? Grande, pequeno ou médio, poderia ser uma greve, a morte de um operário, o 
aumento das doenças de trabalho, uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais. 
Então, temos de caracterizá-los, delimitar quais são. E quando tivermos feito tudo isso, poderemos 
chegar ao que se chama diagnóstico provisório. Um primeiro entendimento sobre o que está 
acontecendo lá na organização. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam 
chamar de "presuntivo", que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. Mas então, temos de 
fazer, a esta altura, um contrato de diagnóstico. Este contrato já implica a construção de dispositivos 
para ouvir todas as partes. O contrato de diagnóstico é um acerto, é um convênio feito para poder 
construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. Porque só ouvimos uma, aquela 
que fez a demanda parcial. Só que é bom fazer este novo acordo, porque ele implica que o 
diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado, legitimado e, no caso 
de existirem honorários, já devem ser pagos, Senão, o que acontece? Toda a intervenção pode 
acabar aí, no entanto não é valorizada pelos usuários. Por isso, se entre outras coisas o 
institucionalista vive disso, é interessante receber os honorários, e também porque um contrato de 
diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser 
diagnosticados. Senão, se vai lá, entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. Depois 
do contrato de diagnóstico, cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. Então, 
tenta-se analisar, fundamentalmente, as defesas, isto é, quais foram as resistências que se 
levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Com esse contrato, assegura-se o respeito geral 
necessário, pelo fato de que, em primeira instância, o institucionalista foi solicitado por um setor, 
por um segmento qualquer, e não por todo o coletivo. 
102 ▲
O passo seguinte consiste em, a partir desse diagnóstico provisório, poder planejar uma 
política, uma estratégia, uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. Mas não foi concluído 
ainda o diagnóstico provisório. Ainda é um presuntivo já mais elaborado, mas não é sequer o 
diagnóstico provisório. Então vai-se criar analisadores construídos, ou dispositivos para poder 
recolher todos os dados do didgnóstico provisório. Por enquanto, só se ouviu os setores 
distintamente. Ouviu-se passivamente, mas não se criou condições para cutucar o nãodito que 
queremos investigar, 
Mas será que quando crio instrumentos de investigação, de indagação, não estou deixando 
de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr 
este risco? Sim e não. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural"; é "artificial" – já 
fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. Mas talvez isso se possa 
entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. Eles não são 
tão indutivos assim, porque se trata simplesmente de propor. Vamos dar um exemplo fácil. Depois 
que se fez a investigação passiva, resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e 
que vai dar-nos o material mais profundo, mais crítico, mais comprometido, é uma reunião de 
cineclube. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o 
mesmo, e importante, porque é indireto, desloca a problemática da situação espontaneamente 
referida. Por outro lado, não é demasiadamente indutivo, porque o interventor não está baixando 
regras, mas está propondo um dispositivo agitador, um agenciamento ativador. Os usuários podem 
aceitar ou não. Se não aceitam, teremos que pensar em outras alternativas. Uma vez aceito, pode dar 
certo ou não. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. Também se pode propor outra 
coisa bem interessante: um laboratórioprolongado de fim de semana em um espaço diferente do 
habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitir-
nos observar o que acontece nessa convivência. É muito recomendável e não é nada autoritário, 
nada impositivo. 
Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório, reúne-se a equipe 
interventora e parte-se para analisar toda a colheita, fazendo-se a análise da demanda e do encargo 
103 ▲
definitivo. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em 
condições de manifestar-se muito mais livremente, muito mais ricamente, também somo's 
mobilizados, somos igualmente ativados, temos uma vivência de contato diferente. Então, temos de 
voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou, despertou em nós, que 
não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. Por 
exemplo, depois de todo esse novo exame, temos adquirido solidariedade ou cumplicidade 
inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não 
tínhamos e agora percebemos? Por exemplo, quando se mantém uma convivência prolongada, 
pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras intervenções, 
porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe fez uma boa 
intervenção aqui, vai conseguir outras intervenções noutros lados. É possível não se dar conta de 
que essa ambição acordou-se nos interventores. Então, a análise da implicação significa pesquisar, 
exaustivamente, no coletivo interventor, quais foram os inconfessáveis e imperceptíveis ou 
recalcados que foram ativados. Nova análise da implicação. Por que é importante? Porque o passo 
seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção definitiva. Nova política, novas 
estratégias, táticas, técnicas definitivas, analisadores definitivos e um passo seguinte fundamental: 
proposta de intervenção e novo contrato. 
Esse contrato definitivo, que envolve maior compromisso e requer mais retribuição, exige 
ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso. 
despertou na equipe interventora. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser 
dada ao processo, será necessário precisar quais são as estratégias, os movimentos fundamentais 
para conseguir os propósitos políticos; será necessário desenhar as táticas, os espaços onde se vai 
dar essa "guerra", a ordem dos mesmos, a importância dos mesmos e as técnicas, os procedimentos: 
psicodrama, técnicas expressivas, qualquer técnica, mas pensada anteriormente; uma festa, um 
cineclube, uma guerra simulada, um quebra-cabeça coletivo, toda técnica é boa, sempre que a tática, 
a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento 
da implicação. 
104 ▲
Depois temos a autogestão do contrato de intervenção, isto é, vamos fazer uma proposta de 
contrato definitivo, mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo 
proponha se quer pagar quanto quer pagar, por que quer pagar, que tempo pensa destinar ao 
trabalho, que poderes quer nos dar e porque, o que será muito ilustrativo do significado que a 
intervenção tem para cada segmento. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim: 
"Eu quero um contrato por tanto tempo, eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e 
quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças." Primeiro quero saber o que o 
coletivo propõe nesse sentido, e porque. Isso é completamente diferente das prestações de serviço 
profissionais habituais, em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto, o tratamento vai durar 
tanto tempo, e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho. 
Se não for assim, não atendo." Não é esta a idéia. Os temas a investigar são: Como você concebe 
este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago? 
E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são 
os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias? 
Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos 
ver os livros contábeis da organização? É claro que, depois de analisar a proposta, o institucionalista 
pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la, para chegar a um acordo consciente. 
Depois vem a execução da intervenção, tal como foi planejada. Logo vêm as avaliações 
periódicas, que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a 
implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. Consideração dos índices de 
transferência, resistência, produção, antiprodução, atravessamento, transversalidade, todos os 
conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. 
Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico, que poderemos ou não 
comunicar ao coletivo. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise 
coletiva permanente; ou seja, no momento em que saímos da organização, ficará uma disposição e 
uma 
105 ▲
instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo, de forma permanente, o 
processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos, que introduzimos como hetero. 
Nós saímos, e o trabalho continua. Podemos fazer um acordo de acompanhamento, de intervenções 
periódicas de atualização. E, finalmente, já por nossa conta, temos de discutir, profunda e 
exaustivamente, como vamos elaborar todo o material, como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer 
com ele, se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual 
intervimos está alheio, mas a implicação e os problemas éticos, políticos e econômicos continuam 
sendo importantíssimos, sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é 
propriedade do coletivo considerado. Nossa decisão deverá ser submetida a ele. 
A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações, tanto que se pode 
dizer que a regra são as exceções. Mas, em todo caso, é um esquema para se considerar e omitir os 
passos que não sejam possíveis, que não sejam recomendáveis, condensar tantos outros etc. Em 
todo caso, é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generis para cada 
situação. 
106 ▲
PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 
1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 
2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional?
3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. 
4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 
5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 
107 ▲
Capítulo VII 
o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE 
f) O Institucionalismo e suas vicissitudes 
Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista, ou Antiinstitucionalista, ou 
Instituinte, ou simplesmente Institucionalismo, a um conjunto aberto e internamente 
diversificado de correntes que mostram certos valores em comum, bem como marcadas 
diferenças. 
Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas, não só porque este propósito 
excede em muito os limites deste livro, mas também porque supomos que este universo seja 
não totalizável. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais 
que podem diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis 
desta agrupação. 
Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os 
coletivos sociais no que se refere às lógicas que os regem, às formas concretas em que essasse 
"materializam", às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam, assim como aos 
recursos que empregam para obtê-las. Em outras palavras: ocupam-se das instituições, 
organizações, estabelecimentos e equipamentos, assim como dos agentes e práticas que estes 
protagonizam. 
Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral, e não sem ressalvas, uma 
vocação crítica, que tenta conceituar de diferentes maneiras. Podemos eleger uma, insistindo 
que não 
108 ▲
será necessariamente compartilhada. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua 
função ou funcionalidade de seu funcionamento. 
A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto 
"bem comum". O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um 
potencial transformador, a serviço, principalmente, da produção de novas formas libertárias da 
vida. Essa vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos 
diversos "institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições 
relativamente conservadoras, seguindo por outras crescentemente reformistas, até chegar a 
concepções e ações alternativas, marginais, clandestinas, revolucionárias e, até talvez caiba 
dizer, extremistas. 
Muito sumariamente mencionada, a gênese social desse Movimento pode relacionar-se, 
em seus aspectos conservadores ou reformistas, com uma longa série de tentativas históricas 
de regular racionalmente a existência das coletividades. Arbitrária e muito simplificadamente, 
proporíamos as grandes balizas da Revolução Francesa, o Iluminismo e o Enciclopedismo 
como acontecimentos importantes pioneiros deste tipo. Pelo contrário, em suas versões mais 
drásticas, o Institucionalismo tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e 
civilizações tenham pensado ou experimentado, desde a tribalidade primitiva e nômade até as 
tentativas autogestivas modernas da Iugoslávia, Argélia e, sobretudo, da República durante a 
Guerra Civil Espanhola. 
Quanto à gênese conceitual, sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas 
contrastantes, na medida em que estas não são homogêneas. Por um lado, não pode deixar de 
se inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates, Platão, Aristóteles, os 
Escolásticos, Descartes, Kant, Hegel e Heidegger. Por outro, adere com muito mais 
entusiasmo ao espírito dos materialistas pré-socráticos, assim como aos sofistas, megáricos, 
epicuros, estóicos, Espinosa, Nietzsche, Hume, Bergson, Kierkegaard e Sartre. Algo similar 
ocorre com os pensadores políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. 
Basta mencionar a preferência do Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus, 
Campanella, Rabelais, Fourier e, à sua maneira, por Marx, Bakunin e outros. 
109 ▲
Se é permitido falar-se de uma gênese operacional, é sabido que as origens do 
Movimento podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis, a saber: o da Educação, o 
da Saúde Pública (especialmente a mental) e o d a Indústria. Poder-se-ia acrescentar toda 
aquela atividade vinculada aos Serviços Sociais, os problemas da Urbanização e Demografia, 
e assim por diante. Simultânea ou consecutivamente, esses limites se ampliaram a quase todo 
tipo de organizações e estabelecimentos (comerciais, financeiros, partidários, sindicais, 
eclesiásticos e até militares). Essa difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica 
ou não) dos recursos institucionalistas ao "planismo" em grande escala, quer dizer, às grandes 
campanhas estatais para o gerenciamento e a administração das sociedades civis e das 
populações em geral. 
As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são 
surpreendentemente numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas -
Sociologia, Psicologia, História, Economia, Semiótica e Antropologia –, como também de 
disciplinas como a Pedagogia e a Medicina, ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a 
Teoria da Comunicação, dos Sistemas, dos Jogos etc. Cada um desses setores do 
conhecimento, obviamente, não é homogêneo, e nem sua herança institucionalista o é. 
Encontramos, assim, influências predominantes de várias correntes, por exemplo: 
Comportamentalismo, Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia), Funcionalismo, 
Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por 
diante. 
Desde logo, todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas, 
ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes 
institucionalistas, entre os quais encontramos, como mínimo, liberais, marxistas e anarquistas. 
Sem contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do 
mundo em si mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas 
reconhecidas. 
Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis, a 
gama abarca desde as escolas que, aspiram a títulos de cientificidade (de acordo, está claro, 
com a definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente 
subscrevam) até as que se postulam como 
110 ▲
afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja 
uma nova concepção da convivência cotidiana. 
Conseqüentemente, essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma 
quase Torre de Babel, no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a 
produção teórica (coerência, consistência, precisão, convalidação, verificação etc.). Como 
veremos mais adiante, o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de 
uma Ética, Estratégia e Tática do Movimento. Se o instrumental teórico, método e objeto de 
estudo são tão proteiformes e problemáticos, o que esperar acerca do arsenal técnico, o qual se 
desdobra entre as ferramentas clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude, análise 
de conteúdo, entrevistas livres ou dirigidas, assembléias, workshops etc.), passando pelos 
procedimentos informativos, dramáticos, sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até 
chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. 
Em síntese: esta "evolução", "progressão" ou, mais neutramente dizendo, este 
"percurso" de sua gênese social, conceitual e operativa, coloca ao Movimento agudos 
problemas pertinentes a seu estatuto ético, jurídico-político, gnosiológico e profissional. 
Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a 
cientificidade e a profissionalidade. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a 
autorização das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas, títulos, carreiras, 
publicações etc.). Com a profissionalidade o que está e m jogo é a legitimidade, legalidade, ou 
o que quer que se queira chamá-lo, do Institucionalismo, com relação aos códigos jurídicos 
nos quais se enquadra e aos normativos a que se atém... e suas óbvias conseqüências 
econômico-políticas (operações de oferta, demanda e contratação de serviços, possibilidade de 
confissão dos objetivos reais da intervenção, avaliação de eficácia, questões de neutralidade-
abstinência ou imparcialidade-indução). 
Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da 
profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas 
na escala de correntes. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento 
Organizacional" ou a "Cibernética Social" são 
111 ▲
vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras", mercantilistas e 
adaptativas; isso não impede que existam e às vezesalcancem um êxito mercadológico e 
efetivo entre seus usuários. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das 
posições no fazer e saber institucionalista foi se pronunciando: 
a) Quanto à especificidade, sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e 
intervenções científico- tecnológicas com os sistemas e setores dominantes; 
b) Quanto à profissionalidade, sobre uma impugnação extremada do papel de certas 
prestações de serviços, cujos privilégios corporativos e condições mercantis 
contratuais seriam reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da 
alienação-dependência do saber-poder dos coletivos de usuários. 
No extremo, e coerentemente, as formas mais marginais, alternativas ou 
revolucionárias do Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de 
ampliação e generalização da análise e da intervenção em grandes situações em escala 
regional, nacional e até planetária. 
Os setores tradicionais do Movimento, de acordo com os países onde se desenvolvem, 
conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de 
fato que de direito) à tecnologia da human engineering (Psico-Sociologia das Relações 
Humanas, Treinamento em Recursos Humanos etc.). Pelo contrário, a faixa mais subversiva 
do Movimento, impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e 
generalização da auto-análise, da autogestão e da autodeterminação das comunidades, afasta-
se cada vez mais dos parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações 
convencionais das quais partiu no início do Movimento. 
Durante esse trajeto, as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teórico-
técnicos valiosos sob todos os prismas, tais como: implicação, analisador, demanda, encargo, 
efeitos: Mulhman, Lukács, Weber, frio-quente, centro-periferia etc. (ver glossário), que 
atendem à autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista, por 
parte dos coletivos, das potencialidades acima apontadas. Contudo, as expectativas de 
mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente 
satisfeitas, e 
112 ▲
muito menos as de propagação da utopia transformadora a vas tas unidades sociais. Como 
veremos mais adiante, o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos 
brutalmente submetidos, ou persuadidos ao participacionismo, ou totalmente apáticos e 
dispersos. Isso tudo acontecendo em um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria 
mais que nunca uma ação conjunta decidida. 
Parece que o Institucionalismo avançado, e mais ainda o "maximalista", que não 
simpatiza com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais 
como partidos ou vanguardas elitistas), não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos 
processos, pontuais ou amplos, de mudança libertária. A rigor, não é seguro que seja isso o 
que o Institucionalismo avançado pretende. Mais corretamente, a idéia consiste em encontrar 
canais de conexão, formais ou não, com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que 
se encontram já em andamento, para contribuir com as mesmas para a plena vigência das 
modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar-se. 
Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista 
avançado o mais duro desafio, radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. Se 
por um lado os procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão 
dificultados ou impedidos pela peculiaridade de seus ideais, por outro as célebres categorias 
de inserção nos movimentos e lutas, tais como as de integrante, colaborador, aliado ou 
simpatizante lhe são insuficientes. 
Diante dessa perspectiva, o agente institucionalista com inquietações militantes 
encontra dilemas excruciantes, nem sempre realistas, que se em um sentido podem constituir 
fatores de propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos, em outro, ameaçam submergi-lo 
em uma certa paralisia. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos 
memoráveis seu livro "El Estado y el Inconsciente" (Ed. Kairos, Barcelona, 1980). Na 
segunda parte do citado texto, os capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis 
Institucional" e "El Analisis Institucional en el Estado". Resume-se aí o drama 
Institucionalismo: definindo o Estado, soma do instituído, uma maneira vasta e diversificada 
como "o inimigo principal" (a expressão é nossa), o autor tenta sistematizar os obstáculos, 
113 ▲
possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em 
todos os campos de sua provável atuação. Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas 
determinações estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. Remetemos o leitor a essa 
leitura obrigatória porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes, não por 
acreditarmos que não tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos, senão 
no tangente à nossa experiência particular. O primeiro refere-se ao fato de que o 
lnstitucionalismo avançado e até o "maximalista" não são suficientemente conhecidos devido 
à sua pouca difusão, de modo que os pequenos grupos e organizações não sabem de sua 
existência. Por outra parte, a maioria dos grandes experimentos "revolucionários" massivos 
atuais não sustenta integralmente os ideais libertários antes mencionados, sendo pouco 
provável que solicite a colaboração de um institucionalista, mesmo supondo que conheça sua 
proposta. 
Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena 
e média envergaduras, que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com 
qualquer uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas. 
Também devido à pouca divulgação do Movimento, o Institucionalismo se vê forçado a 
recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação 
acadêmica de especialistas e profissionais. 
As duas dificuldades, a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e 
corporativa dos agentes, contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das 
orientações mais adaptacionistas ou reformistas. Contudo, segundo nossa experiência na 
América Latina, algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos, 
proliferam cada vez mais movimentos, espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades 
etárias, sexuais, raciais, religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a 
coletivizações autônomas, senão à autogestão generalizada "a quente". Em cada um desses 
âmbitos ou nos interstícios de outros mais "oficiais", abrem-se para o institucionalista outras 
tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Trata-se, mediante a auto-análise da 
implicação despertada pelo encontro com a singularidade do 
114 ▲
coletivo intervindo, de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se 
levantam como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como 
acontecimento. Fazem-se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e 
particularizados da estrutura e estratégias do Estado (entendido como ubíquo, inconsciente e 
"contínuo") em cada formação social. Essa falência também foi indicada por Lourau e outros; 
enquanto essa não for remediada por um extenso sistema de intercâmbio e acumulação de 
informações (chame-se, por exemplo, "Praxiologia", como sugerem alguns), o 
Institucionalismo estará condenado a uma série de apreensivas apostas, sobre algumas das 
quais voltaremos ulteriormente. 
Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial 
Institucionalista", queremos apenas observar que associedades opulentas (em especial as 
sociais democracias européias), por um lado, parecem propícias ao Institucionalismo devido à 
sua permissividade e tecnologização dos sistemas de controle social, ao elevado nível de 
padrão de vida e de instrução pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a 
deterioração ecológica. No entanto, por outro lado, os Estados gerentes pseudo-exitosos, 
modernos e eficientes administradores de enormes riquezas, persuadiram as populações com 
benefícios concretos ou imaginários, levando-as a uma atitude de "conservadorismo crispado" 
(segundo F. Guattari) ou de indiferença complacente (que alguns entendem como formas de 
resistência passiva). 
Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. As 
massas extremamente depauperadas, as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total 
falta de opções reais de sobrevivência, estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com 
a força de trabalho e o cultivo do mercado interno), não são propensas às propostas 
institucionalistas. Ao mesmo tempo, o brutal contraste entre o discurso, estrutura e recursos 
estatais (essencialmente demagogos, insuficientes, incompetentes e corruptos) e o trágico 
nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja um ostensivo fracasso. Como 
conseqüência, o Estado precisa urgentemente de otimizar sua gestão e as comunidades, 
profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 
115 ▲
providencialismo estatal, começam, penosamente, a dar-se soluções próprias. Esta superfície 
mostra algumas brechas para o Institucionalismo, se tal coisa existe, para certo trabalho "no 
Estado" e "com a sociedade civil". Nesses empreendimentos, contudo, a reformulação das 
características do agente e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de 
remuneração e a violência repressiva – como a cooptativa, sempre pronta a desencadear-se 
sobre o institucionalista e seu cliente – impõem estratégias e táticas infinitamente sutis e 
cautelosas. 
Essas questões não são, de maneira alguma, novas para o Movimento. Deu-se para elas 
respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes 
segmentos do Institucionalismo: empresarização, entrismo, maquiavelismo, infiltracionismo, 
distorção da demanda, marginalismo, clandestinismo, ressingularização das práticas são 
alguns dos termos usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de 
usuários. Consagrados e repudiados, esses modi operandi, como muitos outros referentes a uma 
diversidade de assuntos do Movimento, expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre 
entre a conveniência de associar as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à 
totalização. Em geral, o estado incipiente dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma 
exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". 
Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente, causado basicamente pelo 
poderio, a ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais, acrescentam-se certos 
agravantes que iremos apenas esboçar aqui. Freqüentemente o institucionalista, calouro ou 
experiente, mais ou menos acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica 
exógena ao Movimento, sofre sérias pressões resultantes da crítica endógena, ou seja, da 
crítica que nasce da luta entre as correntes internas (conservadoras, reformistas, alternativas, 
revolucionárias e até "terroristas") da corrente. 
Não é nada estranho que assim seja; em outras palavras: não há nada de inesperado no 
fato de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido, 
em pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática", uma rica e profunda 
autocrítica. Ela afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas, das quais as tendências 
institucionalistas se 
116 ▲
originaram, quanto elas mesmas, independente do grau de desenvolvimento que chegaram a 
alcançar. 
Essa crítica disseca, metaforicamente falando, cada uma das células, vísceras, tecidos, 
sistemas, organismos e funções que as integram. Mas esse trabalho é feito habitualmente em 
abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. Tanto é 
assim que capítulos fundamentais, tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou 
resultados) ou, seguindo com a metáfora, a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e 
mutação), a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda 
não foram escritos. Cabe aqui acrescentar a ressalva de que, segundo certo conjunturalismo ou 
improvisacionismo extremado de alguns institucionalistas, talvez não seja necessário escrevê-
los senão como curiosidades museológicas, na medida em que tais registros só seriam 
reconstrutivos de experiências consumadas. Essas, triunfantes ou falidas, teriam uma 
singularidade tal que careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. 
A problemática que esboçamos tem, como uma de suas áreas mais sensíveis, a da 
sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". Se se admite que o Institucionalismo é, 
em última instância, uma modalidade de viver coletivamente, adquire sentido a afirmação (um 
tanto esnobe) de que "não se ensina". Dito de outra maneira, a proposta é que cada coletivo 
construa as condições para se autoconhecer, autodeliberar e autodecidir a forma sui generis, 
única e irrepetível, que deseje dar-se para existir. Este processo prioriza a crítica e a 
dissolução das formas alienadas das quais padece, incluindo entre elas boa porção dos 
conceitos com os quais as lê e as avalia. Nesta reelaboração, as figuras do profissional e do 
técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e, junto com elas, as dos "que ensinam a 
fazer isso", especialmente se o fazem para formar " experts em fazer isso". 
Mas se não se admite um "especialista em autogestão", deve-se necessariamente 
conceber (pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração 
autogestionária para formar diversos especialistas, fazendo, no possível, uma clara 
discriminação entre especificidade e especificismo. A redistribuição do saber e do fazer nas 
gestões autônomas cria 
117 ▲
condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou 
grupos dos quais "menos se poderia esperar". Mas isso não implica que se tenha 
obrigatoriamente de reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e v ocacional 
do trabalho, assim como tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" 
possa participar de outras nas diversas qualidades que acima confessamos não havermos 
conseguido classificar. Aludimos, é claro, ao que há algumas décadas se denominava 
"acumulação social do saber". 
O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina 
que desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e, mais claro 
ainda, quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do 
Institucionalismo, tais como Sociologia, Psico-Sociologia, Ciências Políticas etc. A nota em 
comum, que configura estas comunidades como tais, é a de associar-se com a finalidade de 
gestionar uma forma coletiva e autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições 
teóricas e operativas dos saberes constitutivos da prática geral do Movimento. Que a 
organização e procedimentos adotados sejam "não-diretivos", "permanentes", "co-gestivos", 
não é tão importante quanto parece. Tampouco o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente 
autogestiva (em âmbito ideológico, pedagógico e político) ou integralmente autogestiva. Oponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado, em cada um de seus 
dispositivos, a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em outros coletivos 
atuantes. Esse objetivo, quando é claramente assumido, exige ou não a autodissolução do 
agenciamento pedagógico, mas pressupõe a firme disposição dos agentes formadores à 
autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se 
insiram. Completando a idéia: impõe a não- reprodução do equipamento e do modelo 
pedagógico que o gerou. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam, e dão 
modestos frutos, enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma 
discreta transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou 
da Grande Política. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados 
"puristas" confundem o que é 
118 ▲
"deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso 
isolado, "a frio", com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. No primeiro caso, 
o máximo que se autodissolverá, e só até certo ponto, será a assimetria educacional entre 
professores e aprendizes. No segundo, ambos deverão dissolver-se em uníssono, assim como 
sua organização mesma, nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para 
quê fazê-lo. Enfim: como dissemos, resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável 
que os processos de auto exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem 
pausa nem concessão alguma. Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as 
formas radicais antecedentes ou pioneiras do Institucionalismo, eles não são tão límpidos 
quando se opera com indiscriminada dureza sobre a infinita variedade de propostas 
institucionalistas contemporâneas. 
Tensionado entre a necessidade de sobrevivência, a de "autorização" e o desejo 
produtivo, de um lado, e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro, o 
institucionalista deve ainda enfrentar a crítica interna. Por isso, não é nada infreqüente 
encontrá-lo decepcionado, culpado, onipotente ou, o que é mais comum, perplexo. Frente a 
esse difícil panorama, três deformações tocaiam o agente institucionalista, como outras tantas 
soluções de compromisso do conflito que o dilacera. 
Um primeiro caminho é o regressivo. O agente retrocede às modalidades mercantis, 
adaptacionistas, burocráticas e corporativas do Movimento. Entre elas destacam-se o 
empresarismo, o funcionalato e o academicismo. Só que essas adoções se realizam" em nome 
do Institucionalismo", e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. Os 
profissionais mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa, administradores, 
comunicólogos e psicanalistas, assim como professores universitários. 
Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o 
agente se lança às formas clássicas da militância política, sejam as reformistas e eleitoreiras, 
os ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. 
Sem que pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias, urge se fazer 
constar que, em sua assunção, todo e qualquer "espírito" 
119 ▲
próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias, sectárias ou facciosas. 
Uma terceira escolha, tão engenhosa quanto discutível, é a que pedimos licença para 
denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". O tero é uma ave da planície 
Argentina que, segundo a tradição gaúcha, "grita em um lugar e põe os ovos em outro", para 
assim protegê-las da voracidade das espécies predadoras. Tentamos ilustrar assim a prática 
dissociada de alguns institucionalistas, que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e 
serviços ostensivos nos quais ensinam, publicam ou intervêm, segundo versões híbridas, 
circunscritas e moderadas do Movimento. Ao mesmo tempo, colaboram ou protagonizam, 
clandestinamente ou não, mas em real condição de implicados nos eventos e 
empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de incorporar-se. Não nos parece que esta 
composição seja das piores, mas sim que é uma saída desgastante, inevitável, às vezes, devido 
às limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. 
Como quer que seja, e em referência a esse terceiro tipo de agente, muito nos importa 
esclarecer que não deve ser confundido com outro, que cremos conhecer muito bem e que é 
urgente desmascarar. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que, sabendo das 
características dispersivas, erráteis e libertárias que definem para alguns setores 
(provavelmente os mais criativos) a essência do Movimento, as usam com os fins mais 
espúrios que se possa imaginar. Inteirados nominalmente de um punhado de noções da 
corrente, as brandem como slogans para empreender um agitacionismo fanático: do 
"antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada), da "desordem produtiva" (que 
inviabiliza qualquer organização e eficácia), da "novidade radical" (que impossibilita qualquer 
regularidade operacional) da provocação-auto- heterodissolvente (que hipostasia a 
negatividade e carece de propostas construtivas), do saber ex-nihilo (que proscreve o estudo e 
prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Como notas secundárias caracterológicas, 
estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um 
sentimentalismo raso), a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e 
obscena), o "hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico, drogadito e parasitário) 
etc. 
120 ▲
Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada, originada da lumpenização das 
faixas médias urbana s universitárias, tais "revoltosos", líderes, acólitos ou franco- atiradores, 
não só "não passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a 
militância ortodoxa qualificava de esquerdosos festivos. Em termos institucionalistas: 
desviantes organizacionais, libidinais ou ideológicos incapazes de produção. Sua triste história 
consiste em que uma vez tenham destruído e saqueado, brandindo "palavras" instituintes, 
qualquer iniciativa que os tirou do anonimato, dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade 
de nada", ou melhor, a reproduzir caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" 
entidade de origem. Nem Eros, nem Teros, nem Ananké; em resumo: ladrões de galinhas. 
II) O Institucionalismo e seus valores 
Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas, cabe concluir, no mínimo, 
que restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. Essa óbvia constatação 
não é proclamada aqui apenas por pruridos éticos, consciência epistemológica ou 
autocomiseração sentimental. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e 
demonstrar a possibilidade e conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo 
Movimento. Política, logística, estratégia, táticas, técnicas, modalidades de divulgação, 
implantação, desenvolvimento, transmissão, autorização, contratação, avaliação de resultados, 
alianças, morfologia organizacional devem ser revistos no Institucionalismo. E isso não 
significa exclusivamente que esses conhecimentos devam ser produzidos, mas que muitos 
deles precisam ser apenas comunicados, intercambiados e elaborados coletivamente. Para tal, 
o Movimento deve dar-se dispositivos formais, amplos e fortes, com respeito aos quais tem 
uma proverbial desconfiança. Será procedente diagnosticar nesta encruzilhada algo assim 
como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"? 
Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagemde conjunto de pelo menos 
parte desta problemática. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes 
colocadas com rigor e vigor. Experientes institucionalistas exortam 
121 ▲
seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido, assim como à subscrição de convenções 
normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do 
Movimento. Dá-nos a impressão, contudo, de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não 
reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos, em alguns casos admiráveis, que a 
crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou, justamente sobre os valores e recursos em 
nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. Por outra parte, e até há pouquíssimo 
tempo, não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do 
Movimento, apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca 
da onda de integração planetária de todos os processos sociais. 
Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência 
elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de 
contrato e enquadre das prestações de serviços. É óbvio que para os institucionalistas mais 
"profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está 
regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos, trabalhistas ou jurídicos externos 
ao Movimento. Já para alguns, se bem que esses requisitos sejam indispensáveis, só se exige que 
suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários, compartilhadas pelas 
equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem 
cuidadosamente analisados. Entretanto, para as correntes puristas, todo setting seria um aparato ou 
equipamento no qual se cristalizariam, como tecnologia falsamente "neutra", as forças mais 
reativas do "especificismo" e "profissionalismo". Afirmam que se toda intervenção está 
encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos, instituir um ponto de partida 
contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos 
permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". Constituir-se-ia assim 
um núcleo cego, e portanto repetitivo, que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do 
mesmo. Em outras palavras: da racionalidade, do poder, do lucro e do prestígio, do saber e fazer 
disciplinar que dessa maneira ritual se funda. Essa limitação, extremada no 
122 ▲
caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social, 
Sociologia das Organizações, Psicanálise Aplicada etc.), existiria ainda nos convênios de serviços 
da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise. 
Via esta questão restrita do contrato e do enquadre, nos introduzimos em uma contradição 
aguda e geral do Institucionalismo. Por uma parte, recordemos a verdade de Perogrullo, de que a 
autogestão não se decreta nem se concede, que não existe uma prescritiva para a invenção e que, 
como dizia Bakunin, "só a liberdade engendra a liberdade". Por outra parte, tenhamos presente que 
em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir, isso ocorre porque os 
coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir 
(inventar), com a autogestão como meio e como fim, aquela liberdade que desejam. 
Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. Se 
a mesma é integral, ou seja, se compreende os aspectos econômicos, políticos, "culturais" e 
libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa), não se vê porque um 
companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. Pode acontecer que já pertença 
"naturalmente" ao coletivo em questão, caso este que parece não criar problema algum, porquanto 
seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente 
utilizados. 
No limite, cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de 
analistas institucionais, o que tornaria difícil, ainda que não impossível, imaginá-lo solicitando os 
serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. 
Por outro lado, uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do 
emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. E claro que ninguém ignora a 
distância que separa as aplicações da física à computação, por exemplo, da human engeneering. 
Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação 
institucional dessas duas disciplinas (além da própria), não se entende por que não apelar a ele em 
caso de necessidade ou ainda de "luxo", e menos ainda porque seu trabalho não haveria 
123 ▲
de ser pago. 
O que está em jogo neste ponto, como em qualquer dos outros, é uma questão político-
epistemológica de fundo no Institucionalismo. Deve-se ter presente que o Movimento afirma, 
como um de seus mais essenciais fundamentos, a convicção de que os coletivos das 
sociedades modernas são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-social-
libidinal do trabalho. O vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos, 
produtor de seus detentores, a casta privilegiada dos tecno burocratas, e reforçador ao infinito 
de seus "padrões" dominantes – o Grande Capital e o Estado administrador-gerente – 
submergiu os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. As 
comunidades, cujas necessidades, demandas, hábitos de consumo e soluções são 
integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder, ficaram 
substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das 
determinações que as constringem, assim como de seu levantamento pelos recursos que 
poderiam gerar por si mesmas. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as 
requisições do participacionismo, quando não do colaboracionismo, que os centros oraculares 
de poder se vêem obrigados a lançar, quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os 
enfrenta com a ineficácia dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. Mas a certeza do 
Institucionalismo, acerca de que toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação 
do saber e fazer dos coletivos sobre seu destino, não consegue especificar os modos e graus 
em que a riqueza científico-tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos 
autogestivos. 
Félix Guattari, a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo 
"Análise Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar, escreveu: "A 
autogestão como consigna pode servir para qualquer coisa. De Lapassade a De Gaulle, da CFDT aos 
anarquistas: Autogestão de quê? Referir-se à autogestão em si, independentemente do contexto, é uma 
mistificação. Converte-se em algo assim como um princípio moral, um solene compromisso de que será em si 
mesmo, por si mesmo, que se administrará o que é de si mesmo, de tal ou qual grupo ou empresa. A eficácia de 
tal consigna depende, sem dúvida, de seu efeito de auto-sedução. A 
124 ▲
determinação, em cada situação, do objeto institucional correspondente é um critério qu e deveria permitir 
esclarecer a questão. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que, em definitivo, 
corre o risco de criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente... 
Se 'impugna', no imaginário, a hierarquia. A autogestão, tomada como consigna política, não é um fim em simesmo. O problema consiste em definir, em cada nível de organização, o tipo de relação, de formas que devem 
estimular-se, e o tipo de poder a instituir. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se 
substitui massivamente as respostas diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua 
complexidade real... Não há uma 'filosofia geral' da autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em 
toda situação... " ("Psicanálise e Transversalidade", Ed. Siglo XXI, México). 
Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a 
evolução posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo 
que parece caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do 
Institucionalismo, quer dizer, a "Esquizoanálise". De qualquer maneira, e considerando a 
complexidade do desenvolvimento dessa concepção, assim como a infinita diversidade de 
suas estratégias, ela não fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das 
iniciativas autogestionárias e o questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. 
Além do mais, não descarta o apoio de tecnologia alguma, pelo contrário. Guattari é um de 
seus mais ardentes defensores. O conceito de autogestão que acabamos de comentar 
sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias o Institucionalismo maneja. 
Nenhuma corrente, mesmo as mais drásticas do Movimento, assume que seus termos teóricos 
não sejam apenas instrumentos formais, mas também, no sentido mais forte do vocábulo, 
valores. 
Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos, assim como em muitas 
outras, os máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução), 
Invenção (oposto à Fabricação), Afirmação da Singularidade, Diferença, Potência, Ser do 
Devir etc. (opostos à Generalidade, Negatividade, Identidade-Repetição, Reatividade, Ser 
como 
125 ▲
Permanência etc.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento, Dispositivo, 
Desejo, Máquina de Guerra, Acontecimento, Simulacro, que têm a ver com o Instituinte e os Bons 
Encontros (opostos às Formações de Soberania, Objetivações das Idéias Puras ou Modelos, como 
sinônimo do Instituído, dos Maus Encontros etc.). Toda a História Universal (a das Formações 
Econômico-Sociais, Civilizações, Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria 
atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades 
(desterritorializados) do Ser e do Existir, pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. 
Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos-valores seria uma tarefa colossal 
e apaixonante, que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. Se os 
repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que 
levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e, não poucas 
vezes, diametralmente contrários a eles. 
Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama 
na "Esquizoanálise") do Capital, do Estado, da Lei, da Igreja, da Família ou da Corporação. Já a 
Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos, equipamentos 
e manobras capitalistas, fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e 
visíveis. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault, Deleuze, Guattari, 
Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede, tornando-a ostensiva. 
Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema 
reincorpora à torrente da reprodução e do consumo, assim como ao tabuleiro do registro e da 
dominação, as invenções dos movimentos produtivo-libertários. Nós os temos muito em conta, pelo 
menos em tese, para precisar invocá-las novamente neste contexto... a não ser que se considere 
recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos, 
organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir. 
No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e 
"pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas 
características contraproducentes. Talvez tenhamos deixado 
126 ▲
a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até 
personalizar. Desde logo, existem casos em que isso é possível, mas aqui nos interessa destacar 
estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade 
dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. Convém precisar com respeito a suas propostas 
teóricas e sua atuação política e técnica, que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma 
"Filosofia Geral da Autogestão", tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata" 
desses desvios. Naturalmente, não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las, mas sim de 
permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim 
conduzida pode causar, como notável independência dos princípios que a guiam e que, 
eventualmente, pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas, ou mais dissolventes ainda. 
Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso 
classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar 
sua atuação e observar seus resultados. Basta compreender que as séries opositivas de valores que 
antes enumeramos, cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista, não 
são nem axiomas, nem evidências. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu, 
desde diversos ângulos, em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis, e mais 
ainda da Teoria baseada em p a r ti p r is formalizados. Pelo contrário, insistiu em uma reivindicação da 
singularidade das práticas, para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa orientação, 
quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto . 
Por outra parte, os valores mencionados não são evidências, pois apesar da predileção do 
Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para 
técnicos e usuários, sem misteriosas avaliações de seita, a amplitude e ambição que caracterizam a 
utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo, empirismo, 
pragmatismo ou "intuicionismo". 
Como quer que seja, compreende-se que em um Movimento, no qual não se pode apelar ao 
veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante, os conflitos 
127 ▲
e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis, processuais e 
conjunturais. Tudo isso se torna particularmente delicado, algo assim como um artesanato 
militante cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes. 
Como já expressamos mais acima, o Institucionalismo tem, hipoteticamente, inúmeros 
aliados nos coletivos subjugados e explorados, mas quem impera atual e universalmente 
(embora não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. Procede 
enfatizar que o Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas 
históricas econômico-político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as 
democracias burguesas), mas também à maioria das tendências e organizações críticas 
contrárias a esses sistemas. Por outro lado, ocupa similar posição de antagonismo relativo em 
referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. 
Frente a um panorama tão desfavorável, o Institucionalismo exigeque suas decisões de 
condução sejam, no possível, exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais, o que 
torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às 
transformações de fundo e a longo prazo. Não obstante, resulta notório que esse principismo 
sui generis, que se nega a separar meios de fins, não facilita as resoluções e execuções táticas 
imediatas, diante de contendedores tão ágeis, fortes e onipresentes. É no campo dessas 
dificuldades (e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos, inerentes a 
todo Movimento, que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. Em 
algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 
1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobre-
exigem o tempo e os esforços destinados à implantação, sobrevivência e crescimento, digamos, 
vegetativo ou infra-estrutural das iniciativas. 
2) Os poderes oficiais, acadêmicos, corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam 
campanhas repressivas, injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. 
Entre essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e 
usurpação de patente". Tudo é "Análise Institucional", logo, "nada o é". 
128 ▲
3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2, exacerba-se , no seio das organizações e dos sujeitos-
agentes institucionalistas, a designação de recursos de todo tipo, para a luta pela obtenção, 
apropriação e "inflação" de "identidade", "legalização", "legitimação", "reconhecimento", 
"autorização", "prestígio", "solvência financeira" etc., valores estes que insensivelmente fazem 
derivar até a luta pelo "poder", o "lucro", a "primazia" etc. Ou mesmo, até um suposto contrário: o 
matiz "beneficente", "caritativo" ou "filantrópico" das prestações de serviços. 
4) Em função de tudo isso, começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis, das 
estratégias e táticas externas, assim como das relações internas, de modo que estas se enrijecem 
estatutariamente , se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. O 
organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. O regime das alianças 
tende a uma regressão filiativa. Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade, "perversifica-se" a 
horizontalidade e "extravia-se " a transversalidade. 
5) Fica preparado, então, o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do 
vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico, em suas modalidades de 
protopaternalismo, fraternidade do terror e, finalmente, a serialidade. No plano da produção de 
subjetividades, isso se registra como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas 
e "psicossomáticas", perversas ou psicóticas. Na terminologia organizacional: amadurecem as 
condições para a eclosão de certas figuras clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a 
burocratização – que às vezes derivam para a empresarização ou para uma morfologia política 
convencional que, não por ser "menos pior", é a mais desejável: o centralismo democrático. No nível 
grupal dessas configurações surgem as tradicionais lideranças "autocráticas" ou la íssez -fa íre e os papéis 
de "bode expiatório", "sabotador" etc. 
6) Em resumo: cedo ou tarde, tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos 
efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem, pelo caminho do famoso 
"individualismo pequeno burguês", à atomização do Movimento. Este foi caracterizado por perfis 
que talvez ainda não seja hora de descartar como obsoletos: o ativismo, o 
129 ▲
voluntarismo, o imediatismo, o oportunismo, o utilitarismo, ou a corrupção franca. Toda uma 
vasta produção biblio gráfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do 
individualismo moderno (L. Rozitchner, D. Riesman, C. Lasch, R. Sennett, L. Dumont) e pós-
moderno (D. Bell, G. Lipovetsky, J . Baudrillard, P. Virilio e outros). Se os primeiros enfatizam a 
fragmentação pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial, os últimos sublinham a 
subjetivação indiferente e abúlica das sociedades pós-industriais. Coincidem, no entanto, em 
constatar a decadência da res publica e de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la 
Weber, Durkheim ou Marx". 
7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão à 
autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução", publicações internas do Ibrapsi, Rio, 1988). 
Seguimos acreditando que se trata de uma força reativa, como diria Nietzsche, a ter muito em 
conta nas vicissitudes do Movimento Institucionalista. A rigor, trata-se de uma curiosa 
exacerbação do que a teoria postula como um requisito dos grupos revolucionários, quer dizer, a 
capacidade deles de prever sua própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser 
estritamente necessários para o processo transformador que lhes dá sentido. 
8) Se se repassa o exposto, especialmente o referente à "compulsão à autodissolução", os 
"desviantes ideológicos, organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado 
da autogestão como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo 
demagógico, teremos uma imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento 
Institucionalista. 
9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que 
fizemos dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são 
com freqüência (como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos 
processos que os segundos infundem e orientam. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do 
Movimento são uma caricatura de suas virtudes. 
10) Para fins de síntese e conclusão, digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas 
virtudes do Movimento 
130 ▲
Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de 
êxito da Utopia Ativa), seria a afirmação de sua positividade. Se se most ou indubitavelmente que 
tanto teórica quanto estratégica, tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal, 
heterogênea, diversificada, intersticial e não – totalizável, qual pode ser sua condição ontológica, 
axiológica e epistemológica? 
Ontologicamente, em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das 
"puras diferenças", quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu 
limite, para cavalgá-las, incrementando seu pólo progressivo, para mimetizá-las, parodizá-las, 
infiltrá-las, recortá-las por linhas clivagem bizarras, dividi-las até o infinito, refluidificá-las, fazê-
las proliferar, "alternativizar", diluir-se, rachar, etc.? 
Axiologicamente, que ética pode reger esta atividade não enquadrável, mais que tudo, um 
"modo de viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas ", tentando 
exclusivamente propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética 
além de exortações como "desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade ", segundo a 
vontade de potência produtiva, em todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias 
leis para que cada vez mais do realvirtual se torne atualizável.
Epistemologicamente, parece indiscutível q ue o Institucionalismo, longe de orientar-se por 
critérios de Verdade, sejam estes revelados, especulativos ou experimentais, dedica-se a 
genealogizar suas formas históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as 
envolvem. Que outro recurso lhe compete além da construção de "verossímeis", "simulações", 
"efeitos especiais", indecidíveis, indemonstráveis, mas realizados? Como pensar o radicalmente 
novo senão com uma "nova maneira de pensar", um pensamento "sem fundamento", ou melho, -
"não-fundamentalista"? 
Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da 
sua positividade, queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de 
código, discurso, organização, estatuto ou prática, incluídas aí as específicas e profissionais, e 
remetê -las a funcionar segundo se produzam, e a produzi-las segundo funcionem. Por conseguinte, 
ao Institucionalismo não deve 
131 ▲
interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos 
próprios c ânones dos mesmos. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo, 
tudo que "abra", "possibilite" e "conecte", agenciá-la de acordo com a lógica de seus 
"princípios" e intensificá-la até gerar um acontecimento. 
Nada impede, pois, ao institucionalista, "devir" (que embora lúdica não deixa de ser 
revolucionariamente) sociólogo, economista, psicanalista, engenheiro de sistemas, 
profissional liberal ou funcionário, sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à 
moda" de um bárbaro, um artista ou uma criança. 
Se isso está correto, boa parte dos pruridos, assim como os purismos e 
desviacionismos internos ao Movimento que mais acima descrevíamos, são passíveis de ser 
analisados, avaliados e resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que 
precisa cada vez mais de dispositivos fortes, amplos e numerosos. 
132 ▲
GLOSSÁRIO 
Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo 
Advertências para a leitura deste Glossário 
Devido ao caráter introdutório deste livro, este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência 
de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo, bem como da diferente acepção que tomam outros, 
advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. Embora este propósito não baste para explicar as 
limitações do texto, nós, os autores, fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente: 
1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente, pois esse requisito 
excederia as aspirações e possibilidades deste livro. 
2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos, mas se responsabilizam por toda e 
qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. 
3) De forma coerente com o exposto anteriormente, e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a 
paternidade ou a precisão dos conceitos, os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade, ou seja, de 
propriedade intelectual dos mesmos. 
4) E desnecessário dizer que este glossário, assim como o volume do qual forma parte, não pretende haver 
dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que, segundo a definição ampla dada do Movimento, deveriam 
estar nele incluídos. 
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5) Em alguns casos, como por exemplo no da Esquizoanálise, os autores estão cientes de haver incluído e definido 
termos que não estão suficientemente esclarecidos. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes 
a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las, o que empobreceria 
demais esta leitura, que pretende ser panorâmica, ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. Esta 
última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los. 
ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório, imprevisível e incontrolável. Freqüentemente se 
equipara este termo ao que é casual, contingente, insólito etc., apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados. 
Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem, o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente 
possível, mas em geral indesejável. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem", este é 
considerado o modo de ser do devir dos processos, e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e 
sua potência produtiva. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *), de modo geral, a" desordem" e o 
acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*, geradores da 
transformação e da novidade nos sistemas. Em um sentido estrito do instituído*, o organizado*, o estabelecido tentam a 
repetição do mesmo (ver Repetição*), são conservadores, enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação 
do instituinte*-organizante*, através da liberação do acaso-radical, deflagrador da diferença, do novo absoluto. 
ACONTECIMENTO: ato, processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. É o momento de aparição do 
novo absoluto, da diferença e da singularidade. Estes atos, processos e resultados, conseqüências de conexões insólitas 
que escapam das constrições do instituído*-organizado*, estabelecido, são o substrato de transformações de pequeno ou 
grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. O acontecimento atualiza as 
virtualidades, cuja essência não coincide com as possibilidades. O virtual não existe, mas faz parte da realidade. 
ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se, tornando-se mais 
apto para sua função. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver, como 
reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. Nas chamadas Ciências Humanas, essa 
noção foi empregada com freqüência, mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente, apesar de que 
freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". No lnstitucionalismo*, o vocábulo adaptação costuma ser 
sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. 
134 ▲
AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera 
acontecimentos* e devires, atualiza virtualidades e inventa o novo radical. Em um dispositivo, a meta a alcançar e o 
processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e 
uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades, singularidades, intensidades) heterogêneos 
que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos, territórios, instituídos* etc.). Os 
dispositivos, geradores da diferença absoluta, produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o 
horizonte considerado do real, do possível e do impossível. 
AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* – 
organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. Entendido como produção de subjetivação*, o agente pode ser peça 
especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. De 
todas as maneiras, o agente, no lnstitucionalismo, funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos, e não 
como causa dos mesmos. 
ALIENAÇÃO: no sentido filosófico, designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos 
essenciais, "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro, ou em um "fora de si". No lnstitucionalismo a significação 
deste termo é próxima à da Sociologia: os homens, ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades, 
atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses), como disse Feuerbach, ou a uma classe social que, por ser a 
proprietária dos meios de produção, se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. Em 
geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. 
ALTERNATIVA: designa-seassim as idéias, pessoas, organizações, movimentos e práticas que supõem uma opção 
para seus simétricos oficiais, reconhecidos e consagrados. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição 
de opositoras, dissidentes e marginais, não chegam a ser consideradas clandestinas, subversivas ou revolucionárias. As 
forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas, mas em ge~al as toleram ou as ignoram. 
Excepcionalmente, as recuperam. 
ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais 
para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. Para tal fim, pode-se valer de qualquer recurso 
(procedimentos artísticos, políticos, dramáticos, científicos etc.), qualquer montagem que torne manifesto o jogo de 
forças, os desejos, interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. 
135 ▲ 
ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato, produzido" espontaneamente" pela própria 
vida histórico-social-libidinal e natural, como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. 
ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma 
organização. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica 
dessa organização. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes, manifestos, deliberados, 
assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e 
problemática da organização solicitante. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo, particularmente a 
de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. 
ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica, em sua 
equipe, como resultado de seu contato com a organização analisada. É um termo que tem certa semelhança com o 
conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz 
no analista), só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico, nem inconsciente, mas de 
uma materialidade múltipla e variada, complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). É ao mesmo tempo, um 
processo político, econômico, social, etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. Por 
outra parte, não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. Ela pode até ser prévia 
a qualquer contato. Não começa no "cliente" e é, isso sim, uma interinfluência recíproca, simultânea, que faz parte 
integrante do processo de análise da organização. Análise de implicação é a compreensão da interação, da 
interpenetração dessas duas organizações, enfatizando a parte que cabe à intervinda. 
ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para 
deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. A publicidade, a divulgação (científica ou não), a proposta 
direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou 
modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a 
duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa, que por sua vez não sabe que 
não tem e não entende o que é porque é complexo, sutil, técnico. A análise da demanda* deve estar necessariamente 
articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja, a análise da oferta, que forma parte da implicação dos 
interventores. 
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ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. Lapassade e R. Lourau, apesar de a 
denominação ter sido criada por F. Guattari. Esta corrente institucionalista, uma das mais coerentes e empenhadas, 
reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia, a Dinâmica de Grupos, a Psicoterapia e a Pedagogia 
lnstitucionais, assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. Contudo, a Análise lnstitucional superou amplamente 
esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias, modos de intervenção e objetivos últimos. 
Impossível resumir aqui suas contribuições, bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver 
Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso), mas tendendo sempre a que se 
expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. 
O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te*instituído", institucionalização, analisadores 
históricos e construídos", demanda-encargo*, efeitos" Mulhman, Lukács etc. A Análise lnstitucional insistiu 
particularmente na análise da implicação*, ou seja, nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais dos 
agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). A 
Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância, e propõe para eles o perfil de um 
intelectual implicado, à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto 
especulativo). Como dispositivo* de intervenção, inclina-se pela Assembléia Geral Permanente, na qual os não-ditos* 
institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras. 
ANSIEDADES: correntes institucionalistas, tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana 
(Elliot Jacques, Pichon Rivière, Bleger e outros), subscrevem, de diversas formas, a tese de que as organizações são" 
sistemas de defesa contra a ansiedade". O conceito de ansiedade deve ser entendido, nessas teorias, como similar ao 
cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica, particularmente para sua descrição do 
"mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. As posições esquizoparanóides e depressivas, que são as 
configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões, objetivos, defesas, fantasias) no 
curso do desenvolvimento, são acompanhadas de vivências características denom.inadas ansiedades. Assim se fala de 
ansiedades paranóides, depressivas, confusionais etc., sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação, 
projeção, idealização, negação etc.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos, 
organograma, regulamentos) como suportes. 
ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau, diversos pedagogos procuraram reformar, 
liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. Métodos como os de Montessori, 
137 ▲
Pestalozzi, Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia 
menos autoritária, dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico. 
Tais tentativas replicam, ao nível da aprendizagem, os exemplos anarquistas, marxistas e liberais de democratizaçiío 
(ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade, surgiram 
as experiências de Makarenko na União Soviética, o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados 
Unidos, assim como a Pedagogia Institucional de F Oury, A. Vasquez, M. Labat, e outros, na França. Generalizando, 
pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino, 
substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co-Gestão*). Entretanto, é possível que seja a proposta de 
G. Lapassade e R. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente, como contra-instituição, e depoisgeneralizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber, na qual os alunos assumem 
integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem. 
ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais, psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –, 
são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado, o Capital etc.) e suas forças 
são voltadas contra si mesmas, levando-as à repetição estéril ou autodestruição. As potências singulares, que o sistema 
dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens, serviços ou valores alienados (mercadorias) e 
incorporá-las à sua lógica, são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que 
não conseguem capturar. 
ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e 
Europa, este Movimento, mais ou me nos radical, de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e 
métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia, impulsionou uma profunda revolução nesse campo. Seus máximos 
representantes – Thomas Szasz e I. Goffman nos Estados Unidos, Michel Foucault, Félix Guattari e R. Castel na 
França, Ronald Laing e D. Cooper na Inglaterra, F. Basaglia na Itália e E. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na 
idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a 
tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política, econômica e cultural da sociedade moderna. A maioria 
desses autores, que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro, em 1978, foram mentores ou participantes 
do Movimento Institucionalista *. 
ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado*estabelecido, cuja função prevalente é a reprodução 
do sistema, atua em 
138 ▲
conjunto. Cada uma dessas entidades opera na outra, pela outra, para a outra, desde a outra. Esse entrelaçamento, 
interpenetração e articulação de orientação conservadora, serve à exploração*, dominação* e mistificação*, 
apresentando-as como necessárias e benéficas. 
AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação, por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*), 
de um saber acerca de si mesmos, suas necessidades, desejos, demandas, problemas, soluções e limites. Esse saber se 
acha em geral apagado, desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários, que não só estão em boa 
medida a serviço das entidades dominantes (Estado, CapitaL Raça ete.), como também operam com critérios de 
Verdade e Eficiência, que são imanentes aos valores de tais entidades. A auto-análise possibilita aos coletivos o 
conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*. 
AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos, organizações* e movimentos instituintes* (em 
outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais, 
subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*, protagonista de 
um processo transformador, deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". Tal consciência é precondição 
para seu bom funcionamento, que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. Quando um conjunto 
instituinte cumpriu todos os seus objetivos, ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade" 
que se deu, deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. 
AUTOGESTÃO: é, ao mesmo tempo, o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão 
pora gerenciar sua vida. As comunidades instituem-se, organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais, 
dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. Todo processo instituinte*-
organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho, assim como alguma especialização nas operações de 
planejamento, decisão e execução. Essas diferenças podem implicar hierarquias, mas as mesmas não envolvem escalas 
de poder. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. As 
hierarquias correspondem a diferenças de potência, peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser 
funcionais para a vontade comunitária. 
CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a 
entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona, a articulação de 
139 ▲
suas determinações, a forma como são gerados seus efeitos etc. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais 
teóricos muito heterogêneos, dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. O campo 
de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e 
organizada) de um segmento social. Quanto mais amplo o campo de análise, mais possibilidades existem de 
entendimento do campo de intervenção, por mais aparentemente pequeno que este seja. 
CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão 
estratégias *, logísticas *, táticas * e técnicas * que, por sua vez, deverão operar neste âmbito específico para 
transformá-lo de acordo com as metas propostas. Está em estreita dependência do campo de análise*, desde o qual será 
compreendido, pensado. Só se intervém quando se compreende, sendo que posteriormente se compreende à medida 
que se intervém. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização 
(escola, sindicato, empresa etc.). 
CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido, em especial o Estado, o grande Capital, as 
classes e grupos dominantes, procuram detectar, classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força 
produ tiva. Quando o conseguem, as incorporam à lógica acumulativa do Sistema, fundamentalmente transformando as 
linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. Quando o aparato de captura e 
recuperação falha, as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva, inibindo ou destruindo as 
forças produtivas, em especial as instituintes*. 
CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos, ocultos ou 
secretos. As idéias, pessoas, organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores, 
dissidentes ou marginais, mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial, subversiva ou 
revolucionária com a ordem dominante os torna indesejáveis, ameaçadores ou francamente perigosos para o instituído-
organizado. Reciprocamente, a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou 
segmentos sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar 
contra eles. 
CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são 
igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. Tal 
participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho, interrompendo o curso do processo 
produtivo em um 
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ponto determinado. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes 
corresponde pela classe suprajacente e despossuem, por sua vez, à classe subjacente. A classe institucional é o 
segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se devemisturar seus 
integrantes com os menlbros de outros segmentos. 
CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo, de um 
estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e, portanto, relações de 
subordinação em última instância, elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar 
uma tarefa, sem mnunciar às categorias antes mencionadas. 
COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos, 
explorados e mistificados que prestam subserviência, apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam 
ou submetem. 
COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. Em geral 
refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno, médio ou grande) que está vinculado por algum traço, característica ou 
atividade compartilhada. Esta peculiaridade pode ser de espécie, gênero, classe, categoria, sexo, idade, raça, lugar, 
tempo, valores etc. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade, assumida ou não pelos integrantes 
que, de uma forma ou de outra, lhes confere uma certa coesão e solidariedade. Para a Sociologia Clássica, é 
fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada, diversifica da, hierarquizada e articulada), e não apenas 
mecânica. J. P. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror, e esta 
de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. Para o lnstitucionalismo, é essencial que as 
unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes, subordinadas às forças 
instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização. 
CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo), para algumas 
tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e, ao mesmo tempo, o único motor da 
mudança nos sujeitos, organizações*, movimentos, sociedades* e civilizações. Todas as forças, estruturas, instâncias e 
mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva, e da cristalização ou da 
resolução de sua dialética * depende o destino produtivo, reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*, 
141 ▲
Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. 
Essa formulação recolhe, entre tantas outras origens teóricas, Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do 
Materialismo Histórico e Dialético, até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento 
institucionalista. Os conflitos entre instituinte* – instituído*, centro-periferia, exploradores-explorados, dominadores-
dominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. Contudo, para outras correntes, os 
conflitos, sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real, porque a 
substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante. 
CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo, as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que, 
havendo tido, nos tempos míticos, uma proximidade, imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos, 
perderam a semelhança e só conservaram a imagem, esquecendose dessa "queda". A maiêutica socrática consistiria em 
um procedimento pelo qual, mediante o raciocínio, se conseguiria que as almas recuperassem a memória, e com ela o 
acesso às Idéias Puras. O método platônico da clivisão em gêneros, espécies (etec.) seria uma forma de seleção para 
cliferenciar as "boas" das "más" cópias, sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as 
Idéias Puras. As cópias são sinônimos de "representações". Para a interpretação institucionalista desse pensamento, ver 
Idéias puras*. 
-CRACIAS: ARISTOCRACIA, BUROCRACIA, LOGOCRAClA, SEXOCRACIA, TEOCRACIA, TECNOCRACIA: 
optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque, com a finalidade de explicitar seu interesse para o 
Institucionalismo, esta abordagem permitirá resumir a exposição. O sufixo cra c ia significa governo de ou poder de: a ris to 
(elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade, cuja condição de superioridade está dada por 
uma linhagem hereditária); buro (categoria ou classe que se ocupa da administração, com freqüência supostamente 
"científica" das organizações); tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de cunho 
científico); p luto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos); logo (alude aos possuidores da razão como 
saber discursivo); sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras);e te o (alude aos supostos representantes 
da clivindade ou à divindade mesma, "encarnada" em um indivíduo ou grupo). Aqui vale acrescentar a palavra 
"nepotismo", em que nepo, em sentido restrito, alude aos filhos naturais dos Papas, eufemisticamente denominados 
"sobrinhos". Em sua acepção ampla, refere-se à designação de parentes de um governante para cargos oficiais. 
Para o Institucionalismo, que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias 
baseadas no afeto, prestígio e 
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exemplaridade), nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis, configurando vícios de 
condução que são, por sua vez, causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. 
CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada, a palavra kr is is significava: 
interpretação (por exemplo, dos sonhos), seleção (por exemplo, das vítimas de um sacrifício), juízo (por exemplo, 
procedimento para chegar a um veredicto), momento crucial das vicissitudes ou do metabolé (por exemplo, cena de 
apogeu numa tragédia), fase de definição, no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade. 
Provavelmente por extensão da noção médica, o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza, nos quais, 
dentro de um andamento relativamente regular, chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização, desordem) mais 
ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. Esse estado de crise ocorre, segundo alguns, por caducidade 
dos mecanismos e recursos vigentes, devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou 
negativos acidentais, contingentes, circunstanciais, extraordinários ete. As crises são etapas de mudanças para o bem ou 
para o mal, mas em geral aceleradas e radicais. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema 
ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. Outros sustentam que 
são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos, enquanto há os que pensam que se 
trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. 
Para certos autores (por exemplo, Marx), o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente, posto 
que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. Para o Institucionalismo, tanto enquanto campo de 
análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*), os estados de crise são considerados fecundos, na medida 
em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da 
"desordem criadora". Alguns institucionalistas, como Lapassade, tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou 
organizacional (provocação institucional), e a maioria prefere intervir nos momentos críticos, melhor ainda se 
generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. 
DEFESAS: para as correntes institucionalistastais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana 
(Elliot Jacques, Pichon Rivière, Bleger e outros), as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações 
adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões, objetos, fantasmas) no curso do desenvolvimento-, 
vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . Assim 
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se fala de ansiedades paranóides, depressivas, confusionais etc. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação, 
projeção, idealização, negação etc.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e 
organizacionais (contratos, organograma, regulamentos etc.). Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa 
contra a ansiedade*". Descritivamente falando, isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem 
quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. 
DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a 
qual não têm conhecimento nem controle voluntário. Essa força se origina, por sua vez, das pulsões, e tende à busca do 
prazer e à evitação do desprazer. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo, que 
procura restituir um estado arcaico perdido, prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. Durante esses incessantes 
ensaios, o desejo, que carece do objeto real, se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de 
representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). Em última instância, o desejo persegue o 
gozo absoluto, quer dizer, sua própria extinção definitiva, na qual se encontra com a pulsão de morte. O Complexo de 
Castração, que instaura a lei no psiquismo, constitui o desejo, ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e 
servir aos objetivos de vida. O desejo, para a Psicanálise, gesta-se no seio do Complexo de Édipo; no início do 
desenvolvimento, atua exclusivamente na dramática da vida familiar, e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a 
entrarem nos processos sociais amplos. 
Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Para 
outras (por exemplo, a Esquizoanálise), o desejo é essencial e imanentemente produtivo, gera e é gerado no processo 
mesmo de invenção, metamorfose ou "criação" do novo. Sua essência não é exclusivamente psíquica, pois participa de 
todo o real. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência", ao que Espinoza 
chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal", que resulta do encontro entre os corpos (devir). 
Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano, com as "quantidades intensivas" em 
Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real, não carece do 
objeto, ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. Não tende à morte 
porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". Assim entendido, o desejo 
também está parcialmente submetido a entidades repressivas, mas estas não são exclusivamente psíquicas, e sim um 
complexo conjunto ao mesmo tempo político, econômico, comunicacional etc. Na Esquizoanálise de Deleuze e 
Guattari, o desejo é imanente à produção, daí o conceito de produção desejante. 
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DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos, grupos ou tendências que questionam o 
instituído* – organizado, através de diversos discursos, atitudes e comportamentos. Protagonizam, assim, um desvio ou 
afastamento da linha condutora hegemônica da organização. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos 
enérgica, mas em geral é predominantemente reativa, quer dizer, se bem impugna e denuncia os defeitos do instituído-
organizado, não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou 
uma mudança profunda.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica 
ou dou trinária), organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal 
(quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer, da 
moral etc.). A proposta e ação desviante podem, eventualmente, tornar-se o gérmen de um processo produtivo-
desejante-revolucionário. 
DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão 
presentes em todo saber ocidental, desde a Antiguidade até a época contemporânea. É um pensamento que concebe a 
realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação, devido a sua essência intrinsecamente 
contraditória. Opõese a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável, sendo as mudanças que se 
apresentam apenas superficiais, ilusórias ou aparentes. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel, que a 
postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto", essência de todo o real. Karl Marx, o fundador 
do Materialismo Dialético e Histórico, de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético, mas 
o atribui à matéria em suas várias qualidades, e não ao espírito. 
A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação; 2) Passagem da quantidade à 
qualidade; e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal 
Clássica, pois os princípios de identidade, contradição e terceiro excluído perdem vigência. Outro aspecto importante 
da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade, que pode ser examinada como "universal", 
"geral, particular" e "singular". Como nas leis do devir, cada momento nega o anterior, o supera e ao mesmo tempo o 
conserva. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do 
negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. 
Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*), outras 
entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera, 
mas também conserva o superado), postulando, em troca, uma idéia do ser como puro devir no qual retornam 
exclusivamente as 
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diferenças (Esquizoanálise*). 
DISPOSITIVO: ver Agenciamento. 
DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de 
uma organização ou movimento, sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. As 
tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização-movimento ou separar-se dele. 
DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise, no Grupalismo e no Institucionalismo a 
operação pela qual o analista, a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente 
protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e 
compreendê-los (ver Análise da Implicação*). 
DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção, que 
expressam claramente uma falta de vontade instituinte*, ou mais ainda, um apreciável encargo repressivo ou 
ligeiramente reformista, podem ser atendidas. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases, confiando 
em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à 
autogestão* e à auto-análise * . 
DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção,particularmente de bens materiais e serviços, exige 
um trabalho, e este, por sua vez, consome força de trabalho. Os processos de trabalho complexos, em todas as 
sociedades da História e especialmente na modernidade industrial, estão diversificados em diferentes tarefas 
articuladas entre si. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. Contudo, devido à 
propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas 
(extração de mais-valia), à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. Determinadas tarefas são 
consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza, poder e prestígio. Coisa similar Ocorre em 
outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). Para o 
Institucionalismo, a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem 
analisados e intervindos. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção 
manualintelectual, do campo-cidade, masculina-feminina etc. 
DOMINAÇÃO: imposição, por diversos meios (dentro de um espectro de
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violência que vai desde a sedução até a destruição física), da vontade de indivíduos, grupos ou classes sobre outros. Os 
instituídos* – organizados* estabelecidos, em especial o Estado e o grande Capital, mantêm seus privilégios 
dominando a vontade coletiva ou majoritária. A dominação é simultaneamente política, econômica, jurídica, semiótica, 
Iibidinal ete., e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados 
(servidão voluntária). 
ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo". 
Refere-se, em primeira instância, às teorias, logísticas, estratégias, táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou 
um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Contudo, o ECRO é muito mais 
que o até aqui mencionado, porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências, experiências, afetos e outros 
elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. Por outra parte, a idéia do esquema denota o caráter 
provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado. 
EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável 
de sua gênese social. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais 
está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. Se bem esta afirmação 
não refute o caráter universal e om niva len te das grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo, a Lei do 
Valor, no Materialismo Histórico), o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento, 
ressaltando suas características singulares devido à condição única, irrepetível e contingente do fato em questão. Por 
isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos", seguindo uma orientação das ciências físicas, enquanto 
esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. A lista de 
efeitos que podem ser propostos é, por definição, interminável, mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: 
Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e 
complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma, mais ela se torna 
opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. 
Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade 
acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. Quanto mais formalizada, rigorosa 
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e quantificada aparece uma ciência, e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e 
desenvolvimento (ou seja, quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"), mais satisfaz as exigências 
cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. 
Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a 
nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos, como, por exemplo, precisar 
simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. Nos experimentos da mecânica quântica, sujeito e objeto 
constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Essa constatação pode conduzir a um 
irracionalismo (ou seja, a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos), ou, pelo 
contrário, à concepção de outras modalidades da causalidade. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a 
problemática da implicação, quer dizer, do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a 
organização intervinda, mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção 
e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos, cada um dos elementos mencionados é um 
"resultante" do campo que assim se configura. 
Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem 
constituída, assim como outros de agitação, mobilização e grandes transformações. Alguns antropólogos pretenderam, 
erroneamente, que as sociedades chamadas primitivas, por oposição às modernas, seriam "estáticas", quer dizer, que 
careceriam de história. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção 
do conhecimento social científico, e, portanto, o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a 
"naturalização" de seus instituídos*. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber 
científico". Nessas fases, a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. Já nas 
etapas "quentes", em que todo o saber social está em ebulição, ocorre o contrário: as experiências sociais se 
multiplicam, as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por 
parte dos coletivos do saber acadêmico. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de 
imediato todo o apreendido na ação instituinte. Quer dizer: geram-se processos de autoanálise* e autogestão* 
espontâneos e generalizados. 
Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos, 
inspirados por uma profecia libertária, 
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chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados". 
Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes. 
Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem 
em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. O lnstitucionalismo constata que desfechos 
similares acontecem em todos os movimentos, especialmente nos políticos. 
Outros Efeitos: Lefevre, Einstein, Reich, Artaud, centro-contra-periferia etc. 
EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado 
em materialidades diversas: "mentais"," corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos 
presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. Um emergente pode manifestar-se através de um 
indivíduo, um grupo ouuma organização, sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa, por 
sua vez, as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. Em nosso entender, a idéia de emergente tem 
uma similaridade com a de analisador*, mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença" 
ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo. 
ENCARGO: no Institucionalismo*, a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil 
precisar seu significado. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos, não-manifestos, 
dissimulados, ignorados ou reprimidos, e que comporta uma demanda de bens ou serviços. Em uma acepção ampla, 
refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída 
quando a mesma está ameaçada. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela, sendo 
que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. De acordo com o contexto discursivo de que 
se trate, o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente, pedido, encomenda etc. 
ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e 
de suas aplicações tecnológicas, que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. A modalidade do saber 
dominante durante este processo é a do conhecimento científico, cujo procedimento é, por definição, analítico. Cada 
ciência, que num sentido acadêmico denomina-se disciplina, tem seu próprio objeto, teoria, método e técnicas, sendo 
que freqüentemente se subdivide, por sua vez, em um número crescente de especialidades. Essa 
149 ▲
fragmentação do saber, articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*, consagrou a especificidade – a 
delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente – 
como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. 
O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da 
especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. Sobretudo se interessa 
sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e, em todas 
elas, a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico, popular, da loucura etc.). 
ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE, OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo, é o que 
corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. Em termos sociais e epistemológicos, tem a ver com a 
divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. Essas diferenciações, à medida que 
reduzem o campo de atuação de cadél agente social, possibilitam o incremento de sua competência e eficiência, 
resultando no aumento espetacular de sua produtividade. Por outra parte, redundam na fragmentação, dispersão e perda 
da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação", ou seja, à incapacidade de julgar 
e conduzir seu andamento. 
No caso das ciências e disciplinas, sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de 
nossa civilização, erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. Isso levou a 
deformações tais como o operacionalismo, pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo 
incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. As diversas 
modalidades do Movimento Inslitucionalista, além de insistirem na crítica global desses efeitos, pretendem resgatar os 
valores instituintes* e organizantes*, em resumo, revolucionários, das contribuições científicas. Mas, por outra parte, 
também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão 
ausentes nela), assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer 
(particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). 
EQUIPAMENTO: conglomerados complexos, montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos 
técnicos), prevalentemente a serviço da exploração, dominação e mistificação. Os equipamentos podem pertencer ao 
Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas, corporações). Podem ser de grande porte (por 
exemplo, os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo, arquivos, impressoras, 
relógios de ponto etc.). 
150 ▲
ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente, em qualquer tempo ou 
lugar. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente sistemática 
no livro "O Anti-Edipo" (1972), essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até agora 
conhecidos. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e 
tecnológica seria estéril. Mencionaremos apenas que, para essa concepção, tais materialidades são imanentes (quer 
dizer, consubstanciais ou inseparáveis uma da outra), e mais ainda, estão" precedidas" por um campo de materialidades 
"puras", puras diferenças intensivas. 
A essência do real é a "produção desejante", ou seja, a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que 
se originam ao acaso*. Nesse sentido, o real é constante e integralmente produzido, podendo-se distinguir nele uma 
produção de produção, uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". O processo produtivo de 
produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia, 
mas como ser do devir), a microfísica e a biologia molecular. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre, 
infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas 
"máquinas desejantes", cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. As máquinas desejantes dispõem-se 
e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". Mas a produção de produção 
de novidades é capturada pelos estratos, territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à 
repetição do mesmo, colocada a serviço de uma entidade centralizadora, totalizante, concentradora e acumulativa, que 
varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra", "do Déspota" ou 
do "Capital-Dinheiro"). Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. Uma dessas 
formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. 
Segundo a entendemos, a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura 
liberar o processo produtivo-desejante-revolucionário, demolindo as constrições da parafernália de controle-registro. 
Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica", em cujo âmbito as inúmeras revoluções 
são feitas não apenas por necessidade ou dever, mas pelo desejo. Entendida como procedimento para pensar e 
compreender o real, a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e 
outras positivas, destinadas a propiciar o livre fluir da .produção e do desejo na vida biológica, psíquica, 
comunicacional, política, ecológica etc. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações, tais como 
"Pragmática Universal", "Análise Nômade" etc. 
151 ▲
ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos,agente e instrumento de persuasão, 
repressão, coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes, grupos e idiossincrasias dominantes. 
Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza, 
reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. Seu principal instrumento é o Direito, corpo estabelecido de 
leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados, apresentando-se aparentemente como expressão 
da vontade majoritária. Existem muitos diferentes tipos de Estado, mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e 
legitimação, que obtém por meio de sua concordância com a Lei. O Estado não se compõe apenas de grandes 
organismos, mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo; 
micropoderes do Estado). Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintes-
organizantes dentro do Estado, mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. 
ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. É uma sistematização das metas a serem 
alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*), e o planejamento da progressão das 
manobras, a previsão de curso, as alternativas viáveis, os avanços esperados, os possíveis retrocessos ete. 
EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças, meios e resultados dos processos produtivos de toda índole, 
efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de 
dominação* e mistificação*. 
FANTASMA: para a Psicanálise, o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do 
discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". Os 
psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente 
grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam 
esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e 
confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho, para que a classe recupere a margem 
real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma 
que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito, do estado de coisas às quais este se relaciona, 
e ainda do significado do que diz. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis em si mesma. 
152 ▲
FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos, procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*- 
estabelecidos, seus agentes* e práticas*. A função está sempre, prevalentemente, a serviço das diversas formas 
históricas da exploração*, dominação* e mistificação*. A função apresenta-se às representações e crenças das 
sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural", eterna, invariável, universal, lógica e 
necessária. A rigor, opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. 
FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer 
materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). É o gerador da diferença, da novidade, da invenção e 
da metamorfose. Entre seus produtos estão os instituídos*-organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a 
perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo, a burocracia, a tecnocracia, a 
belicracia etc.). 
GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e 
doutriné1s, sejam elas científicas, ideológicas, filosóficas ou estéticas, têm apenas uma autonomia relativa com respeito 
aos acontecimentos*, conjunturas, organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram. 
Em conseqüência, não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua 
independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. Do mesmo modo, não se entende 
nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. Em todo caso, a afirmação de que a 
gênese social e teórica são inseparáveis entre si, opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias, 
assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos", prescindindo de alguma leitura que os 
torne inteligíveis. 
GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver 
Esquizoanálise*). Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e 
de construir a si mesmo durante o processo, tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte, 
então é um grupo sujeito (protagônico). Pelo contrário, um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos, 
procedimentos, estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social, que se 
empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade, é um grupo sujeitado. Para Guattari, 
a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo", e não 
"individuais" ou "coletivos". 
153 ▲
HISTÓRIA: para o Institucionalismo, é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado, assumindo que 
o fará a partir dos desejos, interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. Assim entendida, a História não é a 
investigação acerca do que já está definido, obsoleto e morto, mas o conhecimento de processos vigentes no presente, 
que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). Não existe um 
processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. Existem variados processos, cada um 
transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. Assim, existem 
histórias econômicas, políticas, culturais, biológicas, geológicas, raciais, geracionais, sexuais. Pode-se tentar articular os 
diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras, etapas, períodos ou épocas 
localizáveis geográfica ou cronologicamente, mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem 
determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. A História, para o Institucionalismo, 
não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. Trata-se da reconstrução 
dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. Por outra 
parte, não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro, mas como o presente ativa e 
deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. 
HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos, aparentenlente claro e acessível. Em geral, é uma 
versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*, das classes dominantes e 
do instituído*-organizado*-estabelecido, que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes 
convêm. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais, quando 
não exclusivas. A rigor, consistem apenas numa versão a mais, tão tendenciosa como qualquer outra, mais importante 
pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma. 
HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, a horizontalidade designa a dimensão grupalatual, 
ou seja, o conjunto de elementos que coexistem e operam, configurando-se no aqui e agora do campo grupal. Na 
Psico-Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo, a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional 
que corresponde às relações e aos processos informais, ou seja: rumores, intrigas de corredor, vínculos sexuais etc. 
IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo, as Idéias Puras, segundo Platão as concebeu, são seres 
idênticos a si mesmos, eternos e invariáveis, modelos de tudo que existe. Delas só se pode predicar sua 
154 ▲
própria essência (por exemplo: a brancura é branca). O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser 
encaminhado como amor ao saber, à procura da Verdade, que é a visão das Idéias Puras, e essa é também uma proposta 
ética, enquanto implica a virtude e o bem supremo. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa 
concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um 
ideal ou modelo, e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. As Idéias Puras são 
sinônimos de "ídolos" para alguns autores. 
IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações 
(crenças, convicções, valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. Essas representações estão 
animadas por vontades e desejos. Quando configuram sistemas amplos, denominam-se cosmovisões ou visões do 
mundo. Enquanto sistemas de representações, constituem as ideologias teóricas, mas podem ser também disposições 
para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). 
A ideologia, definida como oposta à ciência, é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento, ou 
seja, apenas um saber aproximativo e viciado por erros. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos 
ocupam nos sistemas que se representam erroneamente, ou por forças ativas (por exemplo, as das classes dominantes) 
que produzem, distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. 
Em outra direção, a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com 
suas condições reais de existência. Segundo esse sentido, à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que 
são "realizações" de desejos inconscientes. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. 
Segundo seu matiz político ou ético, as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou 
revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). Em geral, em uma sociedade"', a ideologia 
dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. Para algumas correntes do 
Institucionalismo, a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*, Análise Institucional *); para 
outras, carece de interesse, por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). 
IMANÊNCIA: para alguns filósofos, este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. Opõe-se à 
transcendência. Para o Institucionalismo, expressa a não-separação entre os processos econômicos, políticos, culturais 
(sociais em sentido amplo), os naturais e os desejantes. Todos eles são 
155▲
 inerentes, intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. 
INCONSCIENTE: em um sentido amplo, refere-se a realidades e processos que não são conscientes. O significado 
psicanalítico designa instâncias, processos, mecanismos, forças e representações, em especial o Complexo de Édipo e o 
desejo, que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento, especialmente o 
recalcamento primário. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo, a 
Sociopsicanálise). Para outras, o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas 
essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. É um campo histórico que sofre uma repressão 
político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. 
INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico, ciência da História, da Sociologia e da Economia Política marxistas, 
denomina-se infraestrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção, distribuição, 
apropriação, troca, consumo e desfrute de bens materiais. Esse processo é considerado a base material e condição de 
existência de toda e qualquer sociedade, operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. Na versão 
clássica do Materialismo Histórico, a infra-estrutura determina a superestrutura*. 
INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico, particularmente na versão de Althusser, denomina-se instância a cada região 
que compõe o território ou domínio do modo de produção, dito em sentido amplo, de uma sociedade humana. Essa 
terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção, quer 
dizer, a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego, Superego e ld, e também das instâncias 
do aparelho jurídico. 
INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas, indicando o que é proibido, o que 
é permitido e o que é indiferente. Segundo seu grau de objetivação e formalização, podem estar expressas em leis* 
(princípios-fundamentos), normas ou hábitos. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*; 
um resultado: o instituído*; e um processo: da institucionalização. Exemplos de instituições são:a linguagem, as 
relações de parentesco, a divisão social do trabalho*, a religião, a justiça, o dinheiro, as forças armadas etc. Um 
conglomerado importante de instituições é, por exemplo, o Estado*. Para realizar concretamente sua função 
regulamentadora, as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. As 
156 ▲
origens das instituições são difíceis de determinar. Pode-se falar de quatro instituições "fundantes" 
das sociedades humanas (ver sociedade*). 
INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. Quando esse efeito foi produzido pela primeira 
vez, diz-se que se fundou uma instituição. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para 
ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. Para que os instituídos sejam eficientes, devem permanecer 
abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. Contudo, o instituído tem uma tendência a 
permanecer estático e imutável, conservando d e ju r i estados já transformados de fa c to e tornando-se assim resistente e 
conservador. 
INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante-revolucionárias que tende a fundar instituições 
ou a transformá-las, como parte do devir das potências e materialidades sociais. No transcurso do funcionamento do 
processo de institucionalização, o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela, de acordo com as 
exigências do devir social. Para operar concretamente, o processo de institucionalização deve ser acompanhado de 
outros organizantes* que se materializam em organizações*. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados 
pelas Utopias Ativas*. 
INTERESSE: denomina-se assim às motivações, desejos, aspirações, expectativas e demandas pré-conscientes e 
conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes, grupos ou classes na atividade social. Os interesses 
caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. Em 
geral, os interesses divergem ou se opõem aos desejos efantasmas inconscientes, e freqüentemente se descobre que sua 
suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. 
INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada 
em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. Todo esse procedimento 
parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em 
táticas. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte*organizante* e, no seu limite, a 
implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*. 
LEIS: consistem na formalização e explicitação, em textos e/ou discursos, das árvores de valores e decisões que 
constituem as instituições*. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se 
apresentam como universais e mais ou menos invariáveis, sendo 
157 ▲
referendadas, por exemplo, pelo Estado ou a Igreja, são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação. 
Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias 
leis", são instrumentos formais produtivo-desejante-revolucionários. O Institucionalismo conhece e aplica as leis 
científicas que lhe são úteis, mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. 
LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de 
condução. Os mais característicos são: o autoritário, o laíssez-faire e o democrático. Quando o líder é um autêntico 
recurso para o funcionamento instituinte, denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. Seu estatuto não é o de um 
modelo, mas o de um exemplo singular. 
LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. Avalia-se o que está disponível 
para contribuir ou para dificultar o trabalho, que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. A 
logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. 
MARGINALIDADE: por referência a teorias, doutrinas, ideologias, organizações, movimentos, espaços físicos, 
geográficos ou abstratos, idiossincrasias (sexuais, raciais, etárias, nacionais, econômicas, jurídicas) etc., considera-se 
marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central, legítimo, consagrado ou autêntico nos 
campos correspondentes. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está 
desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. Obviamente, o termo marginalidade está 
muito relacionado com a oposição centro-periferia. 
MASSAS: noção de difícil definição, que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. Num sentido, designa 
grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar. 
Em outra significação, refere-se a conjuntos humanos amorfos, cujos integrantes carecem de "identidade" própria. 
Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros; e não intradirigidos. Freud utilizou o conceito de 
massa como sinônimo de grande agrupação. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem 
espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. As massas 
"estáveis" são, de modo plausível, sinônimo de organizações; Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. Chama-se 
"Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo, a de classes) se apagam em função de outros 
parâmetros (por exemplo, o acesso 
158▲
ao consumo de certos produtos). 
MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção, difusão e assimilação de representações, crenças, 
convicções e valores que deformam, encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar 
as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos, e com 
eles, as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. Pode-se considerar os processos de mistificação 
como sinônimos de produção, difusão e assimilação de ideologias regressivas ou, segundo outra terminologia 
institucionalista, de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . 
MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades 
"naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". Uma sociedade* tem 
necessidades que não conhece e não consegue definir como tais, assim como supõe ter necessidades cuja existência foi 
produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. A produção de objetos suntuosos, bens de 
luxo e desperdício dos setores dominantes, tem sido sempre prioritária. O que resta da produção é o que se oferece às 
comunidades, categorizado como "objetos das necessidades básicas". Dessa maneira, definem-se tais necessidades e se 
convoca e modula sua demanda. Nas sociedades industriais modernas, a construção de um "Estado beneficente, 
previdenciário, administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de 
necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*, os experts. São eles os 
que decidem o que, como, quanto, onde, porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam", no que se refere a 
bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental), educação, transporte etc. Essas decisões e as 
ações que elas orientam são, segundo dizem os experts, "cientificamente" fundadas, e de acordo com a "vontade 
popular", sempre visando "o bem comum". 
A partir da Psicanálise, costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. Ou seja, 
entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo, que a Psicanálise define como 
essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. A necessidade não satisfeita origina uma 
privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. Já a demanda, do ponto de vista 
psicanalítico, não é um pedido do que manifestamente se solicita, mas de "amor" e "reconhecimento", sendo 
compensável com as respostas que a complementem. O desejo, em troca, pede uma impossível restauração narcisística, 
o gozo absoluto. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória, e a simbolização, um 
destino
159 ▲
socializável, enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. Algumas correntes institucionalistas questionam 
radicalmente essa concepção do desejo*. 
MOLAR: para a Esquizoanálise*, este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de 
registro e controle e a de consumo-consumação. Nessa ordem, as entidades características são os estratos e os grandes 
blocos representativos dos territórios constituídos. É o lugar dos códigos, sobrecódigos e axiomáticas, das formas 
sujeitos e objetos definidos, dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*, Igreja 
etc. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. Nesse espaço 
constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númenvoluptas). É o campo da regularidade, da 
estabilidade, da conservação e da reprodução*, onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*. 
Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro". 
MOLECULAR: para a Esquizoanálise, este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção 
desejante. Essa superfície está integrada pelo "corpo semórgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em 
gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de 
maneira binária – máquina-fonte-m.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções, segundo o acaso* ou uma 
lógica aleatória). Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que, em suas 
ligações anárquicas locais ou à distância, resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades 
molares,que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga. É o lugar das matérias não-formadas e 
das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. Os 
dispositivos* e máquinas de guerra nômades, agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o 
desejo* e a produção*, estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente 
libertários. Em outra terminologia, o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. 
MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências 
subscrevem alguns objetivos comuns, entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos 
processos de auto-análise* e autogestão*. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias, métodos, técnicas, 
estratégias e táticas de leitura e de intervenção, assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. Assim 
configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. 
160 ▲
MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) ou à transformação valores 
diferentes. Para algumas comunidades primitivas, o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se 
mantivesse exatamente idêntico em organização, costumes etc., para imitar o mundo e o tempo divinos, eternos e 
invariáveis. No outro extremo da História, a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e 
acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. Em todo caso, a oposição, em todos e cada 
um dos aspectos da vida, entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas", ou, em um sentido mais amplo, 
"transformacionistas"; permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais. 
A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural-funcionalista insistiram muito na problemática da 
mudança e da "resistência à mudança", tal como ela se apresenta nos grupos, organizações e comunidades diante das 
situações desconhecidas e novas. A Psicanálise, por sua parte, também tem, entre seus temas mais importantes, a 
questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da 
compulsão à repetição, que resulta da natureza conservadora das pulsões, da insistência do desejo e dos princípios de 
constância e inércia. Para as diversas correntes do Institucionalismo, a problemática da mudança, ligada a categorias de 
diferença-repetição, transferência-resistência, reação-reformismo-revolução etc., é tratada segundo as inspirações 
teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. Em geral, pode-se dizer que, dentro de um espectro de radicalidade 
crescente, que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias, ou até extremistas, 
o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como 
reações em cadeia; b) sustenta que as mudanças, para seren1 sólidas, devem ser integrais, ou seja, simultaneamente bio-
sociolibidinais, e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas; c) afirma que a substância do real é a 
diferença pura e a produção desejante, sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são 
produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais 
e pré-sociais. 
NÃO-DITO: no Institucionalismo, o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu 
nas ciências humanas e na cultura ocidental. Basicamente, refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou 
distorcidas nos discursos, textos, atitudes, comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. Essa 
omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária, consciente ou não, assumida ou não, mas é considerada 
invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência, ou então causas ou efeitos de um 
desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. 
161 ▲
Contudo, no Institucionalismo, o não-dito remete predominantemente à ignorância, à má-fé ou à repressão no seio dos 
discursos, textos, atitudes, comportamentos, estrutura e dinâmica dos agentes, grupos, organizações e movimentos. Esse 
omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*, que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante 
o processo de institucionalização. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva, ao desejo e à vida, 
como aos manejos do poder, da antiprodução* e da morte. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos 
analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). 
OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada, vai-se produzir uma 
nova organização que é o verdadeiro objeto de análise, pois para o Institucionalismo não é possível uma posição 
clássica de "neutralidade" ou "objetividade". É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz 
no encontro. 
OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos, chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha 
de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). A oposição pode ser mais ou menos 
acirrada, mas em geral é reconhecida, autorizada, legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que 
a integra. 
ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". De acordo com sua 
dimensão, vão desde um grau complexo organizacional, como um ministério, até um pequeno estabelecimento escolar. 
Na terminologia da Esquizoanálise, correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. 
ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos, técnicos, 
espaciais, cronológicos (etc.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. O organizado é ilustrado no 
esquema do organograma e do fluxograma da organização. E necessário para orientar o funcionamento da entidade, mas 
tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se, perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. Assim, 
exagera-se em torno de sua função, adquirindo uma série de vícios; o mais conhecido é a burocracia. 
ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica, inventiva e transformadora que tende à otimização das 
organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. Esse processo exige das organizações a abertura para 
efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. Uma organização* só 
cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 
162 ▲
organizado*, a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver 
Produção*, Desejo* Instituinte*). 
PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e 
grupais em particular, come caracteres de personagens teatrais. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os 
outros ecarece de sentido fora desse vínculo, consciente ou não. Os papéis são emergentes de configurações estruturais 
que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes 
indivíduos-sujeitos-agentes* sociais, segundo as circunstâncias. Quando um agente social abandona o papel este se 
expressa ou manifesta através de outro participante. Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente 
emergentes, como o de "bode expiatório", "seguidor", "sabotador". Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados, como 
"masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). 
PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente 
dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na 
planificação, decisão, execução e benefícios da atividade. Isso não significa maiores modificações de fundo na 
propriedade, na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. 
PARTICULARIDADE: ver Universalidade, Particularidade e Singularidade. 
PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas, em geral ele se 
aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente, destinados a impor a vontade de um segmento 
social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se 
possui ou se detém, mas que se exercita, e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição), mas também 
em um sentido positivo de orientação: o poder incita, provoca, convoca, ativa etc. 
POTÊNCIA: no Institucionalismo, emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de 
produzir, inventar, transformar etc. Em geral, a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente 
novo, criador de vida. 
POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes 
teóricas e técnicas, algumas cujas 
163 ▲
características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal, expressivo e dramático nos tratamentos 
clínicos, coordenação de grupos e intervenções organizacionais. Entre as tendências que o integram, pode-se mencionar 
a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich), a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da 
Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. No 
Institucionalismo, a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por 
Georges Lapassade, com sua proposta de Transe-Análise. 
PRÁTICAS: em um sentido epistemológico, designa todo processo pelo qual um agente, dotado de força de trabalho 
qualificada, a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima, gerando um produto específico. 
Em um sentido descritivo, diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*, organizações* e 
estabelecimentos*, tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. Em geral utiliza-se o 
termo "prática" para as ações específicas e qualificadas, enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às 
inespecíficas e não-qualificadas. Para o Institucionalismo, com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à 
especificidade*, é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas 
determinações que para seus próprios agentes." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas. 
PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico 
esclarecedor e a ação transformadora do real. 
PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. É equivalente ao funcionamento*. É aquilo que 
processa tudo que existenatural, técnica, subjetiva e socialmente. É a permanente geração de tudo que pode logo tender 
a cristalizar-se. É o devir, a metamorfose. 
PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional, as profissões compreendiam o Sacerdócio, a Advocacia, a 
Medicina e a Carreira Milita,: 
Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio. 
A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação 
"vocare": chamado de Deus). Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de 
militância, e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento, assim como de 
autonomia e independência relativa. Apesar do já dito, a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e 
academias universitárias teve, desde o início, uma dupla natureza – de 
164 ▲
controle de qualidade dos serviços, mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. Com a modernidade, 
produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. Esse título ampliou-se a outros ofícios, antes considerados 
de segunda categoria. As práticas profissionais, por um lado, mercantilizaram-se, visando o lucro; por outro, ligaram-se 
ao poder do Estado e ao das empresas, formando as cúpulas tecno-burocráticoacadêmicas – mas também se degradaram 
como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. O Institucionalismo insiste no estudo e no 
desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro, poder e prestígio do corporativismo e do 
academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista, da "modernidade" hiperespecialista e da suposta 
independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. 
PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que 
as classes institucionais regredidas fazem, inconscientemente, de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder 
de que dispõem para mudá-as. (ver Psico-Socioanálise *.) 
PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que, de 
uma maneira ou de outra, toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos 
sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). Existem várias correntes de Psicologia Social, 
distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica, Comportamentalista, Gestaltista) ou à 
Sociologia (por exemplo, Interacionismo Simbólico). De maneiras muito variadas (por exemplo, consciente ou 
inconsciente), todas afirmam a constituição, gratificação, frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado 
individual ou coletivamente. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais, mas se 
diferencia delas, entre outras coisas, por não reivindicar o caráter científico (ou seja, "neutro", instrumental ou 
operacional) que elas se atribuem. 
RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70, começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos" 
para referir-se, no campo da Administração, à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao 
elemento humano nas organizações, regiões, nações etc .. Falase de Recursos Humanos como um dos componentes de 
um espectro de recursos: físicos, tecnológicos, econômicos e outros. 
REPETIÇÃO: em um sentido etimológico, significa voltar a pedir. No filosófico, refere-se à reiteração ou 
reapresentação de idéias ou de realidades. 
165 ▲
Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o 
idêntico ou igual; 2) o diferente, entendido por relação de negação, analogia ousemelhança com o idêntico ou o mesmo; 
3) o diferente absoluto, ou seja, o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. O Institucionalismo sustenta que o que 
retoma na História não é o idêntico, o igualou o mesmo, mas o diferencial, ou ainda, a diferença absoluta, que é 
radicalmente transformadora ou motor da História. Em conseqüência, não interessa tanto estudar as leis que dão conta 
das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas 
astronômicos do cosmos ordenado. Trata-se, melhor, de entender o retorno do diferente, produto do acaso, do aleatório 
e imprevisível, tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. Se bem 
seja certo que a superfície de registro, o instituído*-organizado*-estabelecido, tenda a capturar o retorno do diferente 
para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema, capturando-o e recuperando-o (ver Captura e 
Recuperação), nunca o consegue por completo. 
REPRODUÇÃO: num sentido etimológico, significa cópia ou imitação. Na Filosofia, na Sociologia e para o 
Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *), designa as tentativas de reiterar algo idêntico, igualou similar ao 
que já existe, cumprindo sua função conservadora. Dessa maneira, procura-se deter os devires, acontecimentos e 
transformações naturais, sociais, culturais e subjetivas. 
ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico", o romance 
institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização, grupo ou 
movimento. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. Trata-se de comportamentos, 
atitudes, mitos, documentos, tradições, grafitos ete. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões 
simbólicas, realísticas, a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de 
matizes imaginários e fantasmáticos. 
SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo, os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que 
não conservam nem a imagem, nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e, obviamente, carecem por 
completo de identidade. Platão os considera falsos, demoníacos e inclassificáveis. Não são seres, mas puro devir, e 
podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. Sua "encarnação" mais prototipica estaria 
nos sofistas, pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e 
convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 
166 ▲
como a essência do real, que se compõe de diferenças puras, fluxos, singularidades* intensivas, que são o ser do devir 
ou processo produtivodesejante-revolucionário. 
SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. 
SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da 
participação causal, desloca da e condensada de todas as forças, instâncias e representações que, sinérgica ou 
contraditoriamente, compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*, respectivamente. 
Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo, não apenas econômico) reconhece-se uma instância" 
determinante última" (condição de existência), uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição 
de transformação). A ação causal conjunta, complexa, articulada, hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se 
denomina sobredetermi nação. 
SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. Define-a como uma rede, um 
tecido de instituições*, organizações*, estabelecimentos*, agentes* e práticas*. Alguns institucionalistas afirmam que 
as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua, as relações de parentesco, a 
religião e a divisão técnica e social do trabalho. As instituições interpenetramse e articulam-se para regular a produção e 
a reprodução* da vida humana. Como se vê, essa definição está bastante centrada no instituído*, organizado*, 
estabelecido. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius, que pertence às formas definidas da superfície de 
registro. É possível, contudo, ampliar essa definição, incluindo o instituinte*, o organizante* e a superfície de produção. 
SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como 
Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*, assim como a passagem da solidariedade mecânica à 
orgânica. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). No entanto, é a 
partir da década de 20, Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a 
indústria, que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a 
empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. Os objetivos desse enfoque são a racionalização 
e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações, sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades. 
Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas, como o de T Parsons e outros, 
francamente críticos, 
167 ▲
como os de W Mills e W H. Whyte, a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um 
enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). Segundo a denúncia 
institucionalista, a Sociologia das Organizações, particularmente uma de suas modalidades, denominada 
Desenvolvimento Organizacional, visa facilitar os mecanismos culturais, comunicacionais e motivacionais (do conjunto 
empresarial e dos grupos que o integram.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera", conseguindo, assim, 
diminuir os insumos, aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. 
SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise, denomina-se assim à percepção, avaliação e comportamentos 
transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em 
relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. 
SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. Foi fundada e desenvolvida 
por Gérard Mendel. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra, bastante ortodoxa, do 
Materialismo Histórico. O resultado é uma abordagem politicamente moderada, cuja viabilidade é considerável. Mendel 
articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência 
fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce, necessitando dos cuidados de um outro 
para ter sua sobrevivência garantida). Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de 
que, num sentido coletivo, a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza, do 
resultado do trabalho, do poder e prestígio, que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. Segundo Mendel, 
o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos 
patológicos é o local de trabalho, onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor 
compreendidas, sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. A 
Sociopsicanálise sustenta que, quando se abordam os coletivos, pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta 
experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado(ver Alienação*) no Capitalismo. Essa experiência 
de limitação gera neles, trabalhadores, devido à sua série disposicional pessoal, um processo regressivo de ordem 
coletiva. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento 
psicofamiliar, no qual os sujeitos viven. uma vida preferencialmente imaginária, em vez de principalmente simbólica 
(correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). A 
168 ▲
situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram, o que os levará a 
vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia, povoada por 
figuras fantasmáticas de sua vida familiar. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os 
levava a se refugiar num mundo de fantasias. Com isso, o coletivo institucional também passará a funcionar nesse 
registro, buscando soluções mágicas, contraproducentes, que vão res ultar em sintomas (atuações, inibições, delírios, 
somatizações, toxicodependências), enfim, em todo tipo de patologia biopsico-social. No plano da militância, esses 
quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar, com Lênin, como "enfermidades infantis do 
trabalho": voluntarismo, populismo, autoritarismo, messianismo, clie,ntelismo, fisiologismo ete. A metodologia de 
intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica, principalmente a 
interpretação. Mas a cura não é definida em termos individuais, e sim coletivos, e pressupõe um movimento de cada 
classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de 
trabalho alienado. 
STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de 
uma sistematização hierarquizada dos mesmos. 
SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*, para algumas 
orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável, ubíqua e universal do sujeito 
filosófico, social ou psíquico. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer 
sociedade, momento histórico, classe social, raça ete. Inclusive, o modelo científico que temos no Ocidente como 
universal, invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que 
certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". 
Há, sim, por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme, sujeitada e submetida, infinitos e 
heterogêneos processos de produção de subjetivação livre, produtiva, desejante, revolucionária. Esses são 
absolutamente contingentes, próprios de cada momento, lugar e conjuntura, e geram sujeitos singulares nas margens de 
cada acontecimento*. O lnstitucionalismo pretende propiciar, através da análise e da intervenção, a montagem de 
dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e, junto com eles, os modos de subjetivação que os mesmos precisam. 
SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 
169 ▲
psicológicas (entre elas, a Psicanálise), sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição, 
composição, transformação, reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do 
psiquismo). O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos 
fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. Algumas correntes 
institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise, por exemplo). Para outros Institucionalistas, não 
existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento, conteúdo ou estilo. O que 
existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou 
similares, segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*- 
organizado*-estabelecido. 
SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico, ciência da História, da Sociologia e da Economia Política Marxistas, 
denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídico-
políticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos, assim como de produção, difusão e 
assimilação de representações e valores ideológicos. Por ou tra parte, na instância jurídicopolítica é onde se processam 
os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. Os processos superestruturais 
operam a reprodução ampliada do modo de produção. Na versão clássica do Materialismo Histórico, a superestrutura 
reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura. 
TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. É o momento de seleção de recursos a serem 
empregados na etapa imediata, remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. 
TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. Sua escolha é consideravelmente livre e 
dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora, do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento 
e peculiaridades do coletivo em questão. Trata-se de procedimentos (interpretativos, informativos, sensibiliza dores, 
expressivos, discursivos, artísticos, desportivos, lúdicos, interrelacionais, grupais, coletivos etc.) a serem adotados de 
acordo com as circunstâncias, com propósitos diagnósticos e elaborativos. 
TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges 
Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros, tais como: Umbanda, Quimbanda e Candomblé. 
Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe. 
Posteriormente, 
170 ▲
as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. 
TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da 
Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein, Lacan, Reich e outros). No Institucionalismo, a 
idéia de transferência pode ter, segundo a corrente de que se trate, uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras 
bastante modificadas, tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. 
Em geral, entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes, pré-conscientes e 
inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". O que se repete são pulsões, desejos, demandas, 
fantasmas, papéis, hábitos comunicacionais, estereótipos gestionários, estruturas e até complexos destinos 
organizacionais. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional, que propõe a autogestão* ou a 
gestão participativa dentro de cada estabelecimento, considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e 
os variados aspectos da vida institucional como um todo. 
Certas correntes do lnstitucionalismo, como por exemplo a Esquizoanálise, elaboraram uma profunda reflexão filosófica 
sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. Para essa 
orientação, o que se repete substancialmente é o diferente, e, em conseqüência, existiria uma transferência que não 
funciona como resistência ou obstáculo, mas como motor das transformações. 
TRANSVERSALIDADE: interpenetração, entrelaçamento, no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem 
membranas celulares nem limites externos precisos),que é imanente à rede social das forças produtivo-desejantes-
instituintes-organizantes. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão 
do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas 
organizações*. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis, gerando efeitos 
à distância sem transmissores detectáveis, a partir de conexões locais. É uma travessia molecular dos estratos molares. 
Como montagens, os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos, 
territórios, códigos, sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais, deflagram efeitos 
transversais inventivos e libertários. 
UNIVERSALIDADE, GENERALIDADE, PARTICULARIDADE, SINGULARIDADE: no que interessa ao 
Institucionalismo, o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos 
particulares e singulares de seu objeto. Contudo, é importante 
171 ▲
diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. Um juízo ou um conceito universal abstrato é, em certa 
medida, vazio, um puro produto do pensamento. O momento da generalidade compreende a caracterização de um 
atributo abstrato da universalidade. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da 
generalidade. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já 
estava compreendido no conceito universal, mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o 
conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. O momento da 
singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. Pode-se sustentar que nega de uma só vez 
a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade, na medida em que se refere a um objeto único, máximo 
nível de determinação atingível. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais 
do particular e do singular, é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). 
Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica, cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro 
momentos: a universalidade abs trata (por exemplo, a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas), a 
particularidade (por exemplo, as línguas indo-européias), a singularidade (por exemplo, tal dialeto napolitano e seu uso 
concreto, por um falante/ouvinte desse dialeto). Segundo entendemos a proposta de R. Lourau, a Análise Institucional 
estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos, enquanto cada um deles se define por sua 
afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. Supõe-se que a intervenção no caso 
singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e 
no saber dos coletivos institucionais; dessa maneira possibilitaria sua desalienação, assim como contribuiria para a 
reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. 
USUÁRIO: no lnstitucionalismo, entende-se por usuário quem demanda, adquire, se apropria, possui, consome, usufrui 
de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo, 
personalizado ou anônimo. No caso de uma intervenção institucional standard, freqüentemente designa-se o conjunto 
dos usuários como "staff-cliente". 
UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por 
Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais 
em seus aspectos instituintes*-organizantes*. Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal, do 
tipo dos que são 
172 ▲
enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins 
e meios; o processo produtivodesejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. 
VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que 
cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo 
grupal. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo, a verticalidade define a dimensão da vida 
organizacional que corresponde ao organograma formal, quer dizer: cargos, hierarquias, funções etc. 
173 ▲
APÊNDICE 
O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO 
O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro, em outubro de 1995. Optei por 
reproduzi-lo quase sem alterações, para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a 
quinta edição. Parece-me interessante que o leitor possa, desta forma, avaliar acertos e desacertos do primeiro texto, 
relacionado-o com o segundo, obviamente a partir de suas próprias convicções. 
Primeira Parte 
O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados. 
Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná-lo com a 
biografia do autor, e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica", mas também à importância de 
marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento, ou seja, a individuação de um 
real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. 
Obviamente, este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência, contudo me parece que tem o direito 
de tentar. Neste final de milênio vivemos, sem dúvida alguma, umepos peculiar, composto dos seus próprios ethos, cronos, 
pathos, topos, lagos e telos, expressando isso de uma forma clássica. Desde já, a existência de uma composição sui generis 
não é exclusiva da nossa fase, sendo que cada período histórico tem, como se 
174 ▲
sabe, a sua. Também cada" civilização", porém, detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por 
"passado", "presente", "cultura", "espaço", "movimento", "permanência", "troca", "todo", "partes", "valores", 
"pensamento". 
Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado", como aplicação teórica de 
um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento, integrado por uma função 
axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. Nessa 
designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do 
Capitalismo", sendo que, tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari, cabem – devidamente redefinidos – 
termos mais ou menos "na moda", tais como "Globalização", "Transnacionalização", "Sociedades Pós-Industriais", 
"Pós-Classes" e "Pós-Massas", ou "Hipermodernas", ou "Pós-Modernas", ou "lnformatizadas", ou 'A.utomatizadas", 
"Multitudinárias" e assim por diante. 
Uma análise detalhada dessas categorias seria, evidentemente, excessiva neste escrito. Conformarei-me apenas 
em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. 
Costuma-se declarar, e porque não, constatar, de certa forma, que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda 
Guerra Mundial e a atualidade tem havido, em setores localizados do mundo, um crescimento enorme da "Riqueza" – 
entendida como meios de produção, de distribuição, de comunicação, de circulação, de troca e de consumo. 
 – Esse incremento inclui bens materiais, incorporais, serviços, e que esse aumento qualitativo e quantitativo 
resultou em uma melhora considerável de "qualidade devida" dos setores por ele beneficiados. 
 – Nesse mesmo lapso, gerou-se uma tendência ao desmoronamento de regimes políticos totalitários, 
ditatoriais, autoritários e outros, e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos 
indiretos, representativos e eleitorais, onde vige, pelo menos formalmente, o Estado de Direito, os Direitos Civis e os 
Direitos Humanos, possibilitando, assim, tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de 
idiossincrasias minoritárias, regionais, nacionais, raciais, sexuais, de culto, de idade, de situação econômica, política, 
cultural, geográficas. 
 – Como causa e efeito dessas transformações, tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições 
democráticas, judiciais, legislativas e executivas, tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil, o mesmo 
tendo se realizado em todos os campos e níveis, desde o local até o mundial. Isso propiciou uma inclinação ao 
predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos, no lugar da predisposição ao 
uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. 175 ▲
– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes 
variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção, economia de 
mercado, empresas livres e outros-, incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo, os Socialismos 
Reformistas, as Sociais-Democracias e ou tros similares. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente 
fracasso de todos os ensaio de "Comunismo", "Socialismo Real", "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista", diversos 
"estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas, e ainda hoje continuam 
trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. 
 – As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização – 
diminuição, limitação, compactuação, eficientização, baratização, democratização, modernização das estruturas, 
funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde, educação, 
justiça e ordem pública, assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. Isso significou a 
vigilância e ingerência sobre tais poderes, exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. 
 – Obviamente, toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência, em todos e em cada um dos 
processos, estruturas, agentes, usuários, consumidores,lógicas e âmbitos, de formas arcaicas, todavia não superadas," 
em vias de desenvolvimento e de crítica". 
 – Desde já, esses processos não são universais nem suficien temente implantados, e nem aperfeiçoados. Por 
isso, persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo, assim como 
determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que, por diversas razões, resistem em adotar os 
princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados. 
Esses setores a dificultam devido a vocação, desejos, interesses e açôes contrários a esses desígnios. 
Todos esses indicadores de "evolução", que tendem a realizar-se de forma gradual, crescente e incessante, não 
somente em quantidade como também em amplitude, podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas" 
adversas, transitórias e circunstanciais. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis, tais como 
fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação, planejamento e execução, que são oportunamente 
subsanáveis. 
No campo do social, cultural e subjetivo, essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduos-
sujeitos-agentes-produtoresconsumidores-usuários conscientes, imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí 
generís, porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei, assim como pelo culto à liberdade, à 
justiça e à competição sadia. 
176 ▲
Esse andamento, apesar de não ser a culminância, é a sólida confirmação de que os modos de produção, os 
regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado, 
mesmo frágeis e freqüentemente precários, demonstram ser a "menos pior", senão a única alternativa possível para a 
consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. 
Segunda Parte 
O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor, de forma esquemática e prototípica – e faço 
votos para que não tenha sido irônica –, uma maneira de descrever, entender e avaliar o panorama munclial 
contemporâneo. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que, apesar de muito mais sofisticadas e matizadas, 
não deixam de conduzir a conclusões parecidas. 
Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostumase a experimentar, frente ao quadro que 
acabamos de delinear, uma série de impressões que, a meu ver, vale a pena repassar. 
Em primeiro lugar, vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto, 
pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato" 
que se pinta dela. 
Em segundo lugar, não se pode evitar a sensação de que, de acordo com esta leitura do panorama mundial, 
uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em 
diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade, ou 
é repetida, de forma parcial ou distorcida, como se fosse uma "novidade recémdescoberta". 
O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos, ou os cita apenas nas 
passagens em que supõe poder refutá-las, ou bem os despreza, comportando-se como se acreditasse que "na prática 
todas essas teorias são outra coisa", isto é, não servem para nada, ou funcionam somente dependendo do uso peculiar 
que se decide fazer delas. 
Em terceiro lugar, isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos. 
Estes, incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante, são tratados como se 
fossem inexistentes ou irrelevantes, à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo 
agora, os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos 
triunfadores. 
O mais grave desta "realidade", da qual estas "impressões" são um 
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registro, é que a versão que relatamos anteriormente – que, por outro lado, os conhecedores dos processos de construção 
e difusão "ideológica", de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos 
beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. A colossal, heterogênea e onipresente maquinária que 
gera esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possívele os "estilos de vida" e 
"de morte" que lhe são conseqüentes, sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade. 
Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –, mesmo se 
empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições, falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial, 
acabam por compartilhar, desavisadamente, muitas das suas categorias, conceitos, procedimentos e resultados. Boa 
parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumidaresulta não só da estupidez e de 
necessidades, desejos e interesses do pensamento

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