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Anemias Definição: a anemia corresponde à redução do número de glóbulos vermelhos. ● Laboratorialmente, ela passa a ser definida quando encontramos a redução do valor normal de algumas das medidas relacionadas aos glóbulos vermelhos (hemoglobina, hematócrito e contagem de hemácias) ● Lembrar que os valores de hemoglobina e hematócrito são concentrações, então são susceptíveis a variações do volume plasmático e da massa de células vermelhas. ○ Ex: grávida (embebição gravídica) → cai a concentração de hemoglobina pelo aumento de volume → pseudoanemia ○ Ex: paciente hipovolêmico pode mascar uma anemia ● OMS valores para anemia ○ Homem, Hb < 13g/dl ○ Mulher, Hb < 12g/dl ○ Criança entre 6 e 14 anos, Hb < 12g/dl ○ Abaixo de 6, Hb < 11g/dl A abordagem das causas de anemia pode ser feita através de 2 mecanismos ● Causas hipoproliferativas → a medula não produz eritrócitos de forma adequada ● Causas hiperproliferativas → apesar do bom funcionamento da medula, está havendo destruição aumentada de eritrócitos na periferia ou uma perda muito acelerada ● OBS: melhor índice para diferenciar: Reticulócitos: ○ Aumentado nas hiperproliferativas ○ Diminuído nas hipoproliferativas Hipoproliferativas → síntese prejudicada de hemácia ● Anemias carenciais (deficiência de ferro, folato, vitamina B12) ● Desordens da medula (anemia aplásica, infiltração por tumores) ● Mielossupressão (drogas) ● Baixos níveis de hormônios (EPO, hormônios tireoidianos) ● Anemia de doença crônica (associada à infecção, inflamação ou malignidades, caracterizada pela diminuição de ferro → redução da absorção pelo TGI, redução relativa de EPO) Hiperproliferativa → diminuição da sobrevida das hemácias ● Anemias hemolíticas congênitas (anemia falciforme, talassemia major, esferocitose hereditária, malária) ● Sangramento agudo evidente ou induzido (obs, sangramento crônico leva a perda de ferro, aí se torna uma anemia hipoproliferativa). Outra forma de classificar as causas de anemia é baseada na morfologia: ● Microcítica e hipocrômica ● Normocítica e normocrômica ● Macrocítica Anemias hipocrômicas e microcíticas ● Principais causas: ferropriva, doença crônica, talassemia minor, sideroblástica Anemias Normocrômicas e Normocíticas ● Principais causas: ferropriva, doença crônica, insuficiência renal, sangramento agudo, hemólise, anemia de doenças endócrinas 1) Anemias microcíticas e hipocrômicas a) Anemia ferropriva i) Definição: anemia secundária à depleção dos estoques de ferro do organismo ii) Mais comum anemia iii) Patogênese: Perda sanguínea, diminuição da absorção de ferro, aumento da demanda iv) Clínica: queilite angular (cantos da boca), glossite atrófica, membrana esofagiana, esclera azul, alteração do hábito alimentar, síndrome das pernas inquietas v) Laboratório: 1) Níveis variados de Hb e Ht segundo a intensidade do déficit de ferro 2) Hemácias normo/normo ou hipo/micro 3) RDW elevado 4) Ferro diminuído 5) Índice de saturação de transferrina (IST) diminuído, Ferritina diminuído, 6) Capacidade total de ligação de ferro (TIBC) aumentado vi) Sangue periférico: Microcitose, hipocromia, anisocitose, poiquilocitose vii) Tto: ferro oral (300 mg 3-4x dia por 6-12 meses), se intolerante/refratário → ferro parenteral viii) Avaliação da resposta terapêutica 1) melhora dos sintomas de fadiga na primeira semana 2) reticulocitose - aumenta com 4-5 dias e faz pico 7-10 dias 3) Hemoglobina - aumenta em 1 semana e normaliza em 6 semanas b) Anemia de doença crônica i) Definição: anemia secundária à ativação imune aguda ou crônica ii) Prevalência: segunda causa mais comum de anemia. Principal causa de anemia em pacientes hospitalizados. Obs: principal diagnóstico diferencial é com a anemia ferropriva. iii) Patogênese: 1) Deficiência relativa de ferro (aumento de hepdicina por ação das citocinas inflamatórias → diminuição da absorção de ferro pelo intestino e diminuição da liberação de ferro dos macrófagos) 2) menor proliferação de precursores eirtroides 3) menor liberação e resposta à EPO (por conta da inibição que as citocinas inflamatórias fazem) iv) Laboratório: 1) níveis moderados de Hb (raro Hb < 8 g/dl) → anemia leve à moderada 2) Normo/normo (80%) ou hipo/micro 3) RDW normal 4) Ferro diminuido, IST diminuido, TIBC diminuído, ferritina aumentada, sTR diminúido ou normal 5) Contagem de reticulócitos baixa → hipoproliferativa v) Clínica: relacionada à anemia e à doença de base vi) Tto: tratar a doença de base, transfusão e EPO. c) Talassemias i) Definição: anemia por defeito quantitativo na produção de uma ou mais cadeias de globina ii) Fisiopatologia 1) Alfatalassemia (Diminuição da produção de cadeia alfa) 2) Betatalssemia (Diminuição da produção de cadeias beta iii) O que ocorre? 1) Diminuição da síntese de hemoglobina, causando microcitose e hipocromia. 2) Acúmulo de cadeias alfa/beta em excesso, que se precipitam e lesam eritroblastos: Eritropoiese ineficaz 3) Hemólise crônica das hemácias com cadeias alfa/beta em excesso iv) Clínica 1) Betatalassemia (a) Inicia após os seis meses de idade, pois até os seis meses ocorre proteção pela quantidade de hemoglobina fetal produzida (b) Major: ausência completa de cadeias beta (i) Anemia grave (ii) Deformidades ósseas por expansão da medula óssea (iii) Litíase biliar pela hemólise crônica (iv) Hepatoesplenomegalia → pela hemólise crônica (v) Comprometimento do desenvolvimento, fertilidade, disfunção endócrina (vi) Icterícia (c) Intermedia: produção intermediária de cadeias beta, clínica mais branda que na major, geralmente se manifesta na adolescência, adultos jovens (i) Crescimento e desenvolvimento preservados. (ii) A maioria tem esplenomegalia (d) Minor: Assintomáticos ou anemia leve 2) Alfatalassemia (a) Manifesta-se desde o nascimento (b) Hidropsia fetal (ausência de cadeia alfa): incompatível com a vida extrauterina (c) Doença da hemoglobina H (pequena quantidade de cadeia alfa): semelhante à talassemia beta intermedia (d) Alfatalassemia minor: assintomáticos, mas com microcitose e hipocromia 3) Laboratório: Microcitose importante, hipocromia, RDW normal, ferro sérico normal a alto, ferritina normal a alta (a) Marcadores de hemólise (b) Hemossiderose (depósitos anormais de Hb, geralmente nos pulmões) (c) Diagnóstico: eletroforese de hemoglobina (d) Beta (i) aumento de A2 e HbF (e) Alfa (i) presença de Hb de Barts (tetrâmetro de cadeias gama) na hidropsia fetal (ii) presença de Hb H (tetrâmeros de cadeias beta) (iii) normal na alfatalassemia minor 4) Tratamento (a) Hiperfusão crônica (b) Esplenectomia (c) Quelação de ferro (d) Suplementação de ácido fólico 5) Obs: (a) Geralmente, leva a formação de homotetrâmeros insolúveis, que se precipitam e formam corpos de inclusão tóxicos, que matam o precursor eritroide em desenvolvimento ainda na medula óssea → Eritropoese ineficaz (b) Estes mesmos homotetrâmeros podem continuar presentes dentro da hemácia circulante, que é então retirada pelo baço → hemólise crônica extravascular (c) A ocorrência de eritropoese ineficaz leva ao aumento de absorção de ferro pelo intestino → pode levar hiperferremia (hemocromatose) (diagnóstico diferencial para sideroblástica?) d) Anemia Sideroblástica i) Definição: anemia por falha na síntese do HEME. Ocorre falha na incorporação do ferro à portopofirina IX. É moderada a grave. ii) Fisiopatologia 1) Diminuição da síntese hemoglobina por falta de heme 2) Acúmulo de ferro no interior das mitocôndrias, o que lesa o eritroblasto, levando à destruição destas células ainda no interior da medula óssea → Eritropoese ineficaz. 3) Aumento na absorção intestinal de ferro, acarretando sobrecarga de ferro nos tecidos → Hemocromatose eritropoética iii) Clínica 1) Sinais e sintomas relacionados à anemia 2) Sinais e sintomas relacionados ao acúmulo de ferro (lesão cardíaca,hepática, pancreática) iv) Causas: 1) Hereditárias (herança ligada ao x, autossômica ou congênita) 2) Adquirida idiopática e secundária (mielodisplasia, álcool, deficiência de cobre, intoxicação por chumbo) v) Laboratório 1) Microcitose e Hipocromia (por diminuição da síntese de hemoglobina) + Hiperferremia 2) Pode haver hemácias normo ou macrocíticas (RDW elevado) 3) Ferro aumentado, Ferritina Normal ou aumentada, TIBC normal, IST elevado 4) Corpúsculos de Pappenheimer na hematoscopia vi) Diagnóstico diferencial: Principalmente com a talassemia por haver hipocromia com ferro sérico e ferritina elevados vii) Diagnóstico: pelo aspirado da medula óssea: > 15% de sideroblastos em anel 1) O ferro acumulado dentro e ao redor da mitocôndria leva à formação do achado que proporciona o diagnóstico → Sideroblasto em anel viii) Tratamento 1) Retirar fator causal 2) Suporte transfusional quando necessário 3) Suplementação com vitamina B6 (Piridoxina) 4) Quelação de ferro 2) Anemias normocíticas e Normocrômicas a) Anemia ferropriva → no seu início, pode sim ser normo/normo b) Anemia de doença crônica → maior parte é normo/normo, apesar de eu ter explicado atrás. i) Vamos lembrar a origem desse problema 1) Inflamação → citocinas → aumento de Hepcidina → diminuição da absorção de ferro pelo intestino e diminuição da liberação de ferro dos macrófagos → pode Ferritina elevada ou normal e Ferro sérico baixo). c) Anemia aplásica i) É uma condição na qual o tecido hematopoiético normal é substituído por gordura, levando ao desenvolvimento de uma pancitopenia. ii) Pode ser idiopática ou secundária a um fator agressor (radiação ionizante, benzeno) iii) Quando atinge apenas a linhagem eritróide, temos a aplasia pura de células vermelhas → pode ser autoimune, infecção viral, drogas. d) Anemias hemolíticas i) São anemias hiperproliferativas → Reticulócitos altos ii) Existe destruição periférica das hemácias, mas a medula óssea responde a este insulto com aumento da produção de eritrócitos, e com isso há maior liberação de formas jovens na circulação. iii) Laboratório 1) Reticulocitose 2) Hiperbilirrubinemia indireta iv) Clínica 1) Anemia 2) Icterícia 3) Esplenomegalia 4) Litíase biliar com cálculos de bilirrubinato de cálcio v) Coombs direto positivo → indica mecanismo imune vi) Anemia Hemolítica Imune 1) Anemia Hemolítica autoimune → autoanticorpos 2) Induzida por drogas 3) Reações transfusionais vii) Anemia Hemolítica não imune 1) Congênitas - defeito na membrana, defeito na hemoglobina (talassemias), defeitos enzimáticos 2) Adquiridas - hiperesplenismo, doença hepática, infecção (malária) e) Anemia falciforme i) Definição: Anemia hemolítica crônica hereditária por defeito qualitativo da hemoglobina ii) Etiologia: uma única mutação na cadeia Beta, gera a produção da Hemoglobina S. 1) Anemia falciforme: homozigose para hemoglobina S 2) Síndrome falciforme: pelo menos um alelo da cadeia beta sendo S. iii) Fisiopatologia: polimerização da hemoglobina S dessaturada, levando à deformação das hemácias 1) Anemia hemolítica 2) Vaso-oclusão → Isquemia iv) Clínica: 1) As manifestações ocorrem basicamente por 2 fenômenos → hemólise e vaso-oclusão. A partir daí, teremos: (a) Complicações agudas: crises vaso-oclusivas, crises anêmicas, infecções (b) Complicações crônicas: hipertensão pulmonar, cardiovasculares, nefropatia, osteonecrose, retinopatia, úlcera de perna v) Diagnóstico: eletroforese de hemoglobina vi) Tratamento: 1) Crônico: ácido fólico, profilaxia infecção, imunização, hidroxiureia 2) Agudo: (a) Crise álgica: suporte (hidratação, analgesia, O2, Atb e transfusão se necessário (b)