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1.ª edição Psicomotricidade Autor Daniel Vieira da Silva © 2008 – IESDE BRASIL S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Silva, Daniel Viera da. Psicomotricidade/Daniel Vieira da Silva. — Curitiba: IESDE, 2006. 56 p. ISBN: 85-8900-866-5 1. Psicomotricidade. 2. Corpo, Ciência e Educação. 3. Educação Infantil. 4. Séries iniciais. I. Título. CDD 792.028 S586 1.ª reimpressão Todos os direitos reservados IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1482 • Batel 80730-200 • Curitiba • PR www.iesde.com.br Sumário Introdução ........................................................................................................................... 5 Referências .............................................................................................................................................6 Educação Psicomotora e Sociedade: um estudo preliminar ............................................... 7 Do Corpo Total ao Corpo Parcial: a disciplina é a norma ......................................................................9 Referências ...........................................................................................................................................10 Psicomotricidade: uma abordagem preliminar de suas categorias ....................................11 Texto Complementar ............................................................................................................................13 Referências ...........................................................................................................................................17 O Corpo Hábil ................................................................................................................... 19 Referências ...........................................................................................................................................22 Corpo Consciente: uma análise das contribuições da psicologia do desenvolvimento para a “ciência” do esquema corporal ....................... 23 Referências ...........................................................................................................................................28 Corpo Significante: o corpo que “fala” ............................................................................. 29 Referências ...........................................................................................................................................32 Psicomotricidade Relacional: uma contribuição integradora para o olhar educacional ... 33 Psicomotricidade Relacional ................................................................................................................33 Contribuições da Psicomotricidade Relacional para o Ambiente Educacional....................................34 Considerações Finais ............................................................................................................................35 Referências ...........................................................................................................................................37 Contribuições da Psicomotricidade para os Processos de Inclusão na Educação ............. 39 Psicomotricidade e Educação Inclusiva ...............................................................................................39 O Jogo Livre – uma ferramenta para o educador inclusivo .................................................................42 A Atividade Lúdica Espontânea ...........................................................................................................43 O Educador Joga e Deixa Jogar ...........................................................................................................44 O Conteúdo do Jogo Invade a Sala de Aula .........................................................................................45 Considerações Finais ............................................................................................................................46 Referências ...........................................................................................................................................46 Anexo A ............................................................................................................................ 47 Tabela de Desenvolvimento de Arnold Gesel ......................................................................................47 Referências ...........................................................................................................................................49 Anexo B ............................................................................................................................ 51 Introdução mbora saibamos que as técnicas disciplinares que focalizam a ação sobre o corpo remontam aos tempos da educação jesuítica, no Brasil, a Psicomotricidade tem sido objeto de estudos e intervenções por parte de profissionais das áreas da Educação, da Psicologia e da Reabilitação (Fonoaudiólogos, Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais), marcadamente, a partir final dos anos de 1950. Sob influência da Psicologia Comportamental (tendência americana) e das abordagens psicomotoras sistematizadas na França, sobretudo pelos estudos no campo da neuropsiquiatria infantil, este período inaugura a presença da Psicomotricidade na escola e na clínica, seguindo um modelo biologicista e reabilitador que denominou-se reeducação psicomotora. A partir de então, a Psicomotricidade, como vamos acompanhar ao longo das unidades desta disciplina, vem se configurando como uma área do conhecimento que busca superar as concepções biológicas e normativas da motricidade humana. Confirmando essas tendência, encontramos nos estatutos e publicações da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (fundada em 1980), a partir de meados dos anos 90, a seguinte conceituação: “Psicomotricidade é uma ciência que tem por objeto o estudo do Homem, através do seu corpo em movimento, nas relações com o seu mundo interno e externo” (SBP, 1995). Segundo esta definição, falar de Psicomotricidade é falar de globalidade, na medida em que este termo indica uma intenção biunívoca: integrar os aspectos da atividade psíquica, com seus componentes afetivos e cognitivos, aos da motricidade. Unificar estas duas dimensões da existência humana (psíquica e motora) supõe entender o sujeito como uma unidade psicossomática indissociável; significa fazer um esforço para reencontrar a dimensão psíquica do corpo e a dimensão corporal do psiquismo. Assim, os estudos sistematizados pela Psicomotricidade, historicamente, respondem às necessida- des apresentadas pela área da Educação, sobretudo da Educação Infantil e Séries Iniciais, de encontrar caminhos que viabilizem a integração entre motricidade – afetividade – inteligência, seguindo as perspectivas apresentadas, particularmente, pela Psicologia do Desenvolvimento. Para além deste sentido de globalidade, ao concebermos a Psicomotricidade como área do conhecimento que tem se ocupado da sistematização de técnicas e métodos de abordagem do corpo, sobretudo no campo educacional, temos que outorgar-lhe, também, uma visão de totalidade. Isto quer dizer, possibilitar a compreensão da Psicomotricidade enquanto prática social, instrumento de formação das habilidades e atitudes necessárias ao mundo do trabalho, ou seja, enquanto “[área] do conhecimento que tem por objeto o corpo e o movimento humano em suas relações sociais e de produção” (SILVA, 2000, p.139). Dentro deste propósito, além do objetivo de promover o conhecimento dos princípios teóri- cos e práticos que orientam as abordagenspsicomotoras na Educação, vamos procurar, ao longo desta disciplina, apreender os processos históricos que fundamentam os marcos teóricos dessas diversas linhas e a sua utilização no âmbito da Educação Infantil e das Séries Iniciais. Neste sentido, pretendemos proporcionar aos alunos a capacidade de analisar criticamente as práticas corporais presentes no cotidiano das creches e das escolas, bem como suas implicações para o desenvolvimento psicomotor das crianças. E Psicomotricidade 6 Dessa maneira, pretendemos com este trabalho viabilizar nossos objetivos a partir de uma perspectiva histórica e crítica, apoiados na sistematização de Jean Le Camus1. Seguindo esta metodologia, o presente texto abordará a história da Psicomotricidade, seus conteúdos e mediações, dividindo-a em três períodos fun- damentais – Corpo Hábil, Corpo Consciente e Corpo Significante. Vale ressaltar que, para efeito de estudo, vamos procurar seguir em texto uma ordenação próxima da apresentação das aulas em vídeo, com a adição de alguns artigos, tabelas ilustrativas e sugestões para leituras complementares, em anexo. 1 L E C A M U S , J e a n . O corpo em discussão: da reeducação psicomoto- ra às terapias de mediação c o r p o r a l . P o r t o A l e g r e , RS: Artes Médicas, 1986. Educação Psicomotora e Sociedade: um estudo preliminar omo pedagogo e psicomotricista, há mais de 10 anos, atuante no âmbito da Educação Infantil e Séries Iniciais, desenvolvendo sessões de psicomotricidade, orientando e supervisionando o trabalho de profissionais da rede pública e particular de ensino, pude entender que para compreendermos a inserção das práticas psicomotoras no setor da Educação é necessário analisarmos como estas estão articuladas aos valores, hábitos e comportamentos que permeiam a nossa sociedade, ou seja, aos princípios que regem a organização capitalista de produção. Sabemos que tal organização está respaldada em práticas e valores normativos e mecanicistas que concebem o homem e o seu corpo de forma funcional e, portanto, alienados da realidade e de seu potencial criativo e revolucionário. Com base numa análise histórica e crítica dos processos de produção, acompanhamos como o homem, na organização capitalista, passa a ser concebido como homem-máquina e seu corpo, reduzi- do a um corpo funcional. Deste modo, o corpo torna-se corpo produtivo e, nessa dimensão, deve ser concebido e abordado. As cisões estabelecidas entre corpo-mente, corpo-emoção, corpo-cognição, constituem-se como princípios fundadores do processo de produção capitalista, no qual a mecanização das formas de produção, condição para o desenvolvimento e modernização, incluiu não só os meios materiais de produção, como a mecanização do próprio trabalhador e, conseqüentemente, de seu corpo. Assim, o corpo, sobretudo daqueles destinados ao trabalho material, passa a ser abordado como corpo-objeto, como um sistema constituído de partes, distanciado de suas singularidades, significações e complexidades. Essa forma mecanicista de conceber o corpo encontra-se presente em nossa sociedade, influen- ciando a maneira compartimentalizada pela qual o mesmo é, em geral, tratado no campo educacional. Cabe ressaltar que, tradicionalmente, a Educação prioriza os conhecimentos formais secundarizando ou, até mesmo, desconsiderando as experiências corporais como elemento de formação. Quando consideradas, as práticas corporais tendem a ser tratadas como experiências motoras, visando o de- senvolvimento de habilidades perceptuais e noções básicas tais como: coordenação motora, noção de espaço e tempo, e coordenação óculo-manual. Enfim, neste contexto, as práticas corporais tendem a ser consideradas como instrumentos de desenvolvimento de pré-requisitos para o aprendizado da leitura/escrita e dos conteúdos escolares básicos. Mediante tal constatação, consideramos importante estudos que analisem historicamente como a Educação Psicomotora vem sendo abordada na rede pública e privada de ensino, entendendo que as mesmas têm representado, sobretudo na educação da primeira e segunda infâncias, a área de conheci- mento que tem se ocupado das questões e propostas educacionais voltadas ao trabalho corporal. Segundo autores da Educação, da Psicomotricidade, da Psicologia do Desenvolvimento e da Psicanálise, tais como Wallon, Kramer, Lapierre, Fonceca, Ajuriaguerra, Freud, Klein e Spitz, a pri- meira e segunda infâncias representam períodos determinantes para o processo formativo da criança, no qual organiza estruturas emocionais, cognitivas e motoras (psicomotoras), determinantes dos modos de relação que estabelecerá com sua realidade externa e interna. C Psicomotricidade 8 Tal visão, defendida pelos autores acima citados, passou a ter influência mais decisiva na educação brasileira a partir dos anos 50. No Paraná, esta tendência encontra maior repercussão por volta dos anos 80. A idéia de que a criança, além de cognitivo, também é um sujeito afetivo, influenciou a elaboração de projetos pedagógicos que acolheram a importância das relações primárias estabelecidas pela criança para a for- mação de sua personalidade e do seu desenvolvimento cognitivo. Em 1986, por exemplo, a então Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social elabora um documento para sistematização do funcionamento das creches – Manual de Orientação Técnico Administrativa do Programa Creche – no qual afirma que “[é] nos primeiros anos de vida que o indivíduo forma, na sua relação com os adultos, os sentimentos básicos que vão caracterizar sua personalidade futura”. (PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, 1986, p. 1). Influenciados pelas novas tendências da psicomotricidade, sobretudo pela obra de André Lapierre1, que prioriza os aspectos da relação corporal afetiva, em detrimento de uma ação condutiva e racional sobre o corpo, a Secretaria Municipal da Criança de Curitiba, paulatinamente, absorveu essa concepção de trabalho, culminando, na primeira metade dos anos 90, dentre outras ações, num projeto denominado “Projeto de capacitação de recursos humanos com bases na Psicomotricidade Relacional”2. Tal projeto, além de oportunizar um espaço diferenciado de expressão e relação para as crianças, por meio das sessões de Psicomotricidade Relacional3, também proporcionava aos educadores4 uma leitura sobre o processo de desenvolvimento das crianças, a partir da ótica das relações. Isso foi possível pelo fato de que tais educadores participavam, ativamente ou como observadores, das sessões implementadas pelo psicomotricista com as crianças e, posteriormente, discutiam sobre bases materiais, concretas, as questões envolvidas nas sessões e no seu cotidiano de trabalho. Se, por um lado, esta experiência evidenciou a possibilidade de utilização da Psicomotri- cidade como elemento constitutivo de uma educação emancipatória do sujeito, por outro, também acompanhamos o modo como as práticas corporais normatizadoras, higienistas e moralizadoras continuam exercendo, tanto no contexto da Educação Infantil e, sobretudo, das Séries Iniciais, um papel disciplinarizador e normatizador dos indivíduos a um modo reducionista e alienante de vida. (BERNARD, 1985; FOUCAULT, 1988; KRAMER, 1993) Neste sentido, o conhecimento de diversas linhas e práticas psicomotoras voltadas à Educação, principalmente da primeira e segunda infâncias, parecem ser insuficientes para a superação da precariedade das propostas de formação e intervenção relativas à área da Educação Psicomotora, bem como, da significativa banalização do corpo, que encontramos na rede pública e privada de ensino. Conscientes dessa realidade, para tratarmos a Psicomotricidade de forma madura e crítica, sentimos a necessidade da proliferação de estudos que permitam, não só compreender, mas apreender o papel da Educação Psicomotora em suas múltiplasrelações. É isso o que pretendemos com esta comunicação preliminar, mas, sobretudo, com esta disciplina. Para aprofundarmos o entendimento a respeito da Educação e da Psicomo- tricidade enquanto práticas sociais, vamos nos apoiar nos estudos de Karl Marx, Gilberto Luiz Alves, Dermeval Saviani, Michel Foucault, dentre outros. Já para o entendimento da psicomotricidade e da sua historicidade na Educação, vamos recorrer às obras de André Lapierre, Jean Le Camus, Suzana Veloso Cabral. 1 A principal influência des te au tor sobre os modos de pensar e agir na Educação Infantil em Curi- tiba deu-se por meio de seu l ivro O adul to f ren te à criança , escr i to em par- ceria com sua filha Anne L a p i e r r e , e d i t a d o p e l a Editora Manole, em 1987. 2 O r e f e r i d o p r o j e t o e s t á p u b l i c a d o n a forma do artigo, de minha autoria, intitulado Contri- buições da Psicomo-trici- dade Relacional na Edu- cação Infanti l : um relato de experiência, publicado na Revista Mosaico – v.2, pela Socie-dade Brasileira de Ps icomotr ic idade , no ano de 2000. 3 V e r a u l a C o r p o Significante. 4 Util izamos a expres- são genér ica educa- dores, para nos referirmos aos adu l tos d i r e t amen te implicados no fazer edu- c a t i v o d a c r e c h e , t a i s como: pedagogos, psicó- logos, assistentes sociais, diretores e atendentes. Educação Psicomotora e Sociedade: um estudo preliminar 9 Do Corpo Total ao Corpo Parcial: a disciplina é a norma Da sociedade feudal para o capitalismo industrial, os modos de produção sofreram profundas modificações, acompanhadas de transformações nas formas de organização social, envolvendo as suas diferentes dimensões, ou seja, cultural, política, educacional e econômica. Sabemos que a prática do artesão, trabalhador do período feudal, era caracterizada como própria de um trabalhador total, que: ... dispunha do domínio teórico-prático do processo de trabalho como um todo. Isto é, dominava um projeto teórico, intencional, necessário à realização de um certo produto, e, para produzi-lo, contava com formação anterior que lhe assegurava destreza especial, a força necessária e habilidades específicas para operar certos instrumentos sobre a matéria-prima adequada, ao longo de todas as etapas do processo de trabalho. (ALVES, 1998, p. 37) A transformação da produção artesanal para a manufatureira e, posteriormen- te, para a industrial, com vistas à obtenção de maior produtividade e maior lucro, só foi possível com a divisão do trabalho e a transformação do trabalhador total em trabalhador parcial (Alves, 1998, p. 38). Neste percurso, o trabalhador foi sendo alienado do processo de produção como um todo e, com os avanços da mecanização industrial, também ficou alheio ao produto em si, transformando-se num “acessório consciente de uma máquina parcial”. Expropriado, inclusive, do conhecimento produzido pelo seu próprio ofício, “o operário fabril passou a realizar operações rotineiras que não exigiam qualquer destreza especial. Com isso, a produção capitalista, enquanto domínio do trabalho simples, se realizou em sua plenitude” (Alves, 1998, p. 39). As idéias de Alves encontram apoio na análise realizada por Marx e Engels (1987, p. 68), na qual “[a] indústria e o comércio, a produção das necessidades de vida, condicionam, por seu lado, a distribuição, a estrutura das diferentes classes sociais, para serem, por sua vez, condicionadas por estas em seu modo de funcionamento”. Nesta conjuntura, a Educação, embora se proponha a ser igualitária, na rea- lidade, tem se revelado um processo organizado a partir de modos diferenciados de formação, no qual a classe trabalhadora é submetida a uma educação reducionista e simplificada, entendida como suficiente à adequação das necessidades do sistema de produção capitalista. Desta maneira, não somente o conhecimento fica restrito às necessidades técnicas das linhas de produção como, também, a complexidade do corpo do trabalhador, foi adequada/reduzida às funções mecânicas e à rotina do tempo fabril. (FOUCAULT, 1988; MARX, 1984) Neste contexto, as práticas corporais foram e são de inestimável valor para que a normatização da vida privada e institucional se concretize. Sobre este fato, esclarece Foucault (1988, p. 126) que “[esses] métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as ‘disciplinas”. Psicomotricidade 10 Desta conceituação, tira-se que a Psicomotricidade é uma das áreas que mais tem produzido em termos de conhecimento disciplinar e que suas técnicas têm sido amplamente utilizadas pelas instituições educacionais, para sustentar sua organicidade com o modo de produção de nossa sociedade. Esperamos que, com estas breves considerações, possamos provocar o desejo de buscar/evidenciar o modo pelo qual a Educação, a Psicomotricidade e os pro- cessos produtivos formam uma malha indissociável. Este será o rumo de nossos estudos. Como se pode antever, apreender o papel das práticas psicomotoras e sua inserção na Educação Infantil e Séries Iniciais implicará uma revisão de conceitos messiânicos, higienistas e cognitivistas, há muito arraigados em nossa educação e que impregnam boa parte, pelo menos as mais divulgadas, das publicações sobre ambas as áreas. Psicomotricidade: uma abordagem preliminar de suas categorias ara iniciarmos nossos estudos, temos que abordar algumas categorias que são fundamentais para a reflexão sobre as produções teóricas e técnicas no campo da Psicomotricidade. São elas: Esquema Corporal e Imagem Corporal. Referente ao esquema corporal, Ledoux (1991, p. 85), psicanalista francês, colaborador de Françoise Dolto, nos oferece a seguinte formulação: O esquema corporal especifica o indivíduo como representante da espécie. Mais ou menos idêntico em todas as crianças da mesma idade, ele é uma realidade de fato, esteio e intér- prete da imagem do corpo. Graças a ele, o corpo atual fica referido no espaço à experiência imediata. Ele é inconsciente, pré-consciente e consciente. Seguindo esta posição, podemos considerar que o esquema corporal é defini- do pela área da Psicomotricidade como a organização de estruturas cerebrais que outorga ao indivíduo a capacidade funcional, ou seja, o conhecimento progressivo das partes e funções do corpo, a partir de etapas sucessivas, determinadas pela ma- turação neurocortical e pela relação da pessoa com o meio físico e humano. Esta organização, segundo a Psicomotricidade, tem como função propiciar ao indivíduo noções de globalidade de si, equilíbrio postural, afirmação da lateralidade, dentre outras habilidades. Se visto sob uma perspectiva de totalidade, podemos dizer que a maneira pela qual os saberes técnicos produzidos por esta área do conhecimento, relativos ao esquema corporal, justificaram o surgimento de uma verdadeira economia do movi- mento. Determinada pela necessidade do capital de extração de lucro, por meio do aumento da produção. Sem o respectivo aumento de investimento em mão-de-obra, tais saberes influenciaram vários setores da sociedade, incluindo a Educação. Nesse setor, tal visão colocou em marcha, dentre outros, um processo de intervenção psi- comotora, o qual se justificou uma formação precoce da futura classe trabalhadora, pela necessidade de um programa compensatório voltado ao desenvolvimento de pré-requisitos que garantissem um bom desempenho nas etapas posteriores de escolarização, frente à precariedade cultural e social da população pobre.1 A imagem corporal, por sua vez, radicada nas impressões resultantes das relações de prazer e desprazer estabelecidas entre a pessoa, sobretudo na primeirainfância, e seus pares humanos que lhe dispensam cuidados básicos cotidianamente. Segundo Ledoux (1991, p. 84-85), [a] imagem inconsciente do corpo não é o corpo fantasiado, mas um lugar inconsciente de emissão e recepção das emoções, inicialmente focalizado nas zonas erógenas de prazer. Ela se tece em torno do prazer e do desprazer de algumas zonas erógenas. (...) trata-se de uma memória inconsciente da vivência relacional, de uma encarnação do Eu em crescimento. [...] a imagem do corpo, individual, está ligada à história pessoal, a uma relação libidinal marcada por sensações erógenas eletivas. Como vestígio estrutural da história emocional, e não como prolongamento psíquico do esquema corporal, ela se molda como elaboração das emoções precoces com os pais tutelares. P 1 Estas questões serão aprofundadas ao longo das discussões teóricas e metodológicas referentes ao corpo hábil e consciente. Psicomotricidade 12 Essencialmente relacional e inconsciente, a estruturação da imagem do corpo se apóia na dialética entre o próprio desejo do sujeito e o desejo do outro influen- ciando, diretamente, os modos de relação que o indivíduo vai empreender com os outros, consigo mesmo2 e com as coisas. Neste sentido, Ledoux (1991, p. 89) explicita que: [a] comunicação sensorial (emocional) e a fala do outro aparecem como dois substratos dessa imagem do corpo. A simples experiência sensorial (corpo a corpo), sem um mediador humano, só instrui o esquema corporal e não estrutura a imagem do corpo. (...) viver num esquema corporal, sem imagem do corpo, equivale ao ‘viver mudo’, solitário. A citação acima evidencia a estreita relação entre esquema e imagem corporal, bem como, concebe estas categorias determinadas pelas relações humanas nas quais o corpo e a linguagem constituem-se como elementos fundantes das relações e da estruturação do sujeito. Segundo estudos recentes, estas formulações no campo da Psicomotricidade vêm justificando uma diferenciação no modo de apropriação da força produtiva do trabalhador, na medida em que a economia do movimento, relativa ao esquema corporal, adiciona-se, pelas sistematizações a respeito da imagem corporal, um novo elemento – a economia do desejo. 2 Por exemplo: uma cri- ança de três ou quatro anos, de modo geral, tem um aparato motor e neu- rológico suficientemente de-senvolvido para subir a l g u n s d e g r a u s d e u m a escada e saltar. Em relação à organização do esquema corporal, ela está apta para empreender a tarefa. Po- rém, nossa prática clínica e inst i tucional evidencia q u e a l g u m a s c r i a n ç a s o farão com cer ta t ranqüi- l idade , enquanto out ras , h e s i t a r ã o e a t é m e s m o , p o r m e d o , n ã o o f a r ã o . D e n t r e a s c r i a n ç a s q u e não o fazem e/ou hesitam, podemos en-contrar uma p a r c e l a d e l a s q u e é s u - perprotegida pelas figuras parentais. Nestes casos, a dificuldade da criança em pular não é uma questão de maturação ou falta de conhecimento do próprio c o r p o , m a s p o d e e s t a r r e f e r i d a à a u s ê n c i a d e imagem corporal positiva. Na medida em que a crian- ç a é t r a t a d a p e l o s s e u s pais e /ou tutelares como f r ág i l , nece s s i t ando s e r super-protegida, a mesma tem dificuldade em reco- nhecer-se potente o sufi- c iente para u t i l izar suas competências e ar r i scar, como em nosso exemplo, um salto. Psicomotricidade: uma abordagem preliminar de suas categorias 13 Dados sobre a organização psicomotora: abordagem da regulação sensório-motora e dos fatores psicotrônicos.3 Vítor da Fonseca Inúmeros autores estão de acordo ao aceitarem que o estado tônico é uma for- ma de relação com o meio que depende de cada situação e de cada indivíduo. O estado tônico, ligado aos fatores relativos da história biológica do indi- víduo, traduz a multiplicidade de fenômenos neurofisiológicos que permitem ao movimento emergir do fundo que o suporta, o que o torna implicado, portanto, com os outros aspectos da iniciativa motora. Por outro lado, encontra-se ligado aos fatores hereditários e aos da maturação a partir dos quais se desenvolvem diferentes estados tônicos relacionados com a vigilância e com os diferentes episódios da vida emocional. A hipotonia aparece, assim, como um fator relacionado com a satisfação das necessidades no período de imaturidade corporal; a hipertonia, ao contrário, revela-se como o meio de defesa mais eficaz e mais freqüente, fator de luta contra os conflitos e contra as ansiedades criadas por estes. Foi sob a designação de “armadura caracterial” que W. Reich descreveu as formas ativas de resistência. Os aspectos tônicos encontram-se ligados a toda uma cronologia de atitudes, tomadas pelo sujeito no decurso da sua evolução temporal. A função tônica está ligada à totalidade da personalidade do indivíduo, como provam vários aspectos do domínio psicopatológico que nos permitem perceber melhor as implicações da tonicidade. Segundo Wintrebert, os conflitos psíquicos inconscientes podem-se trans- plantar para a periferia do corpo sob a forma aparente de uma doença orgânica. A esfera psíquica, quando não tolera os conflitos, projeta-os na esfera motora sob a forma de uma perturbação orgânica (psicossomática). O estado tônico traduz um equilíbrio entre a periferia e os centros nervosos que tocam níveis profundos da personalidade. As experiências de Baruk mostraram que a alteração do estado tônico não afeta a perda de execução, mas a iniciativa e o plano do movimento. Por causa daquela alteração, os terrenos cerebrais encarregados das funções psicomotoras encontram-se perturbados, resultando a perda de contato com o mundo exterior, o isolamento, a indiferença emocional, as alucinações etc. A catatonia, por exemplo, é um problema tônico que se encontra nos es- quizofrênicos: nestes indivíduos, verifica-se a persistência de atitudes durante bastante tempo, sem fadiga aparente. Nestes casos, tudo indica que o indivíduo reduz as suas possibilidades de relação com o mundo exterior e que ao mesmo tempo se perdem os meios de reconhecimento da imagem do seu corpo. Dá-se 3 Texto complementar ao d a s c a t e g o r i a s d a Psico-motricidade: FON- SECA, Vítor. Dados sobre a organização psicomotora: abordagem da regulação s e n s ó - r i o m o t o r a e d o s fatores psicotrônicos. In: FONSECA, Vítor. Psico- motricidade . São Paulo: Mart ins Fontes , 1993. p. 49-56. Psicomotricidade 14 uma patologia relacional e uma perda de adaptabilidade com as correspondentes dissociações do “eu psíquico” com o “eu corporal”, que se desintegram progressivamente. A evolução tônica está ligada à historicidade das relações do indivíduo com o seu meio am- biente, segundo um equilíbrio que progressivamente se vai estabelecendo. Pela vivência de crises e conflitos emocionais, o tônus vai-se constituindo e moldando às diferentes situações, adquirindo-se, assim, reações mais ajustadas às situações do meio. A vivência corporal não é senão o fator gerador das respostas adequadas, onde se inscrevem todas as tensões e as emoções que caracterizam a evolução psicoafetiva da criança. Segundo as vi- vências motoras, o tônus adquire uma expressão representativa, demonstrada ao longo da evolução da tonicidade e na dialética dos seus estados hipotônicos e hipertônicos. O estudo do tônus põe em prática a relação entre a extensibilidade e a passividade, e os estudos da evolução das sincinesias. No primeiro aspecto, considera-se o grau de estiramento dos pontos de inserção muscular; no segundo aspecto, o movimento produzido à volta de uma articulação, ou seja, a sua resistência passiva; e no último, os movimentos associados e indiferenciados.Estas propriedades funcionais, ao distribuírem-se quantitativa e qualitativamente, originam os diferentes tipos tônicos. Os hipertônicos (hipoextensos) mais precoces na aquisição da marcha e mais ativos, os hipotônicos (hiperextensos) mais avançados na preensão e na exploração do próprio corpo. A criança hipotônica tem movimentos mais soltos, mais leves e mais coordenados e acusa um menor desgaste muscular. No aspecto social, uma criança com estas características revela um comportamento estável, que Ihe garante uma maior receptividade. As pessoas que a cercam dedi- cam-lhe um “amor sem censura” e são normalmente “calmas” e “sossegadas”. Este clima afetivo, como é evidente, intervém na formação do caráter da criança, como expressou Wallon. A criança hipertônica apresenta uma multiplicidade de reações que traduzem uma certa ca- rência afetiva, na medida em que, pela sua exagerada produção motora, provocam, por parte das pessoas, reações de ansiedade e atitudes de rejeição. Graças à sua excessiva motricidade, a criança acusa, por outro lado, maior poder de tentativa, adquirindo por esse fato, pelos seus próprios meios, as aquisições motoras fundamentais ao seu desenvolvimento. A precocidade da aquisição motora da marcha, por exemplo, pode originar obliterações afetivas, tendo em consideração os primeiros desgastes materiais. A partir daqui, determinados espaços estão interditados e instala-se a privação de movimento. Esta simples situação é suficiente para alterar as relações afetivas mãe-filho que irão repercutir no desenvolvimento posterior da criança. Por outro lado, a criança hipotônica não só encontra envolvimento afetivo conveniente e per- missivo, como também inicia mais rapidamente as relações cérebro-mão, provocadas pela preensão. A preensão como estrutura de realização depende da corticalização e favorece a coordenação óculo- manual, elemento essencial de maturação mental. Stambak e Lezine realizaram um estudo experimental entre os tipos motores e a correspondente adaptação caracterial, chegando à conclusão de que as crianças hipotônicas são mais tímidas, mais afetivas e mais dependentes que as crianças hipertônicas. Estas, ao contrário, são mais raivosas e menos apegadas aos pais. Constataram, ainda, que os comportamentos das crianças do mesmo tipo motor variam em função do regime socioeducativo a que estão sujeitas. Apresentando manifestações motoras e caracteriais semelhantes, as crianças podem ser fáceis ou difíceis, segundo o ambiente cultural e o nível de tolerância que as cerca. Psicomotricidade: uma abordagem preliminar de suas categorias 15 Nesta simples amostragem, somos levados a compreender que a função tônica está ligada a todas as manifestações de ordem afetiva, emotiva, cognitiva e motora. Para muitos autores, como André – Thomas, Ajuriaguerra, Chailley-Bert, Mamo, Laget e Paillard, a função tônica é a mais complexa e aperfeiçoada do ser humano; encontra-se organizada hierarquicamente no sistema integrativo e toma parte em todos os comportamentos do ser humano. É à função tônica que se deve a inter-relação recíproca entre motricidade e o psiquismo. A descoberta da sua função pelo aparecimento do fuso por e do sistema gama constitui uma virada científica no estudo do homem, verdadeiramente significativa. Em todas as formas de conduta do ser humano há uma interconexão a musculatura estriada, a musculatura lisa e o sistema hormonal, interconexão estabelecida pela função tônica que intervém na regulação do sistema muscular voluntário (de re- lação), do sistema neurovegetativo e do sistema hormonal, como argumenta Paillard. Wallon sublinhou que a função tônica intervém, na dialética da atividade de relação e no campo da psicogênese. Entre o indivíduo e o seu meio estabelece um diálogo corporal, no qual a função tônica integra a história das informações exteriores e inter-relacionais para dar origem à fenomeno- logia do comportamento humano. O estudo da função tônica, iniciado no princípio do século por Sherrington, põe em destaque a necessidade de integrar o estudo do tônus na atividade organizada pelo sistema nervoso. Desde os estudos da atitude, deste mesmo autor e também de Rademaker, Liddel, Granit, Eccles, Kaada e tantos outros, a função tônica situa-se no campo da atividade cinética e também, como defendem Mamo e Laget, na vastidão e complexidade da neurofisiologia. Vasto, porque não é de formação nervosa exclusiva; complexo, porque forma o fundo das atividades motoras e posturais, preparadoras do movimento, fixadoras da atitude, projetando o gesto e mantendo a estática e a equilibração. A função tônica constitui uma função específica e organizada que prepara a musculatura para as diferentes formas de atividades motoras. A posição antigravítica dos segmentos do corpo é uma ilustração elementar de sua função motora. A aquisição da atitude bípede, grande responsável pela Hominização, confere ao ser humano uma aptidão para qualquer forma de ação motora suscetível de satisfazer a sua natureza investigadora e as suas necessidades de ajustamento ao meio ambiente. A função tônica é a vigilância do ser humano, elemento essencial da vida orgânica emancipada, provocando a relação estreita do somático aos contornos do psiquismo. A vigilância, suportada pela função tônica, é o alicerce dos múltiplos aspectos da função motora. São inúmeras as variedades de tônus que lhe conferem o grau de função mais plástica de todas as que constituem a formação e a organização motora. Deste modo, temos: tônus de repouso, tônus de postura, tônus de suporte, tônus motor etc. Paillard defende que o tônus se encontra na base das manifestações organizadas, harmoniosamente repartidas na musculatura, a serviço de uma função específica – equilibração ou movimento bem definido – e de expressões mais difusas, específicas e de caráter geral. Como resposta a um estímulo que se exerce permanentemente (a gravidade), o orga- nismo reage por meio de uma atividade nervosa constante auto-regulada e, portanto, inconsciente. O que é importante assinalar é a dupla atividade do músculo, que é suscetível de atividade clônica (fásica, de movimento) rápida e altamente energética, e de atividade tônica, lenta, pouco energética, de suporte, responsável pela postura. Cabe aqui dizer que a análise cuidada do tônus requer métodos de estudo, como a eletrofisiologia, a eletromiografia, a eletrofonia, a cinematografia etc., que testemunham com precisão a atividade elétrica desenvolvida pelas miofibrilas e pelos motoneurônios. Psicomotricidade 16 Não vamos aqui entrar num estudo detalhado do fuso neuromuscular, nem nas implicações do sistema gama na organização motora do ser humano; apenas apontamos novos campos experimentais que nos possam auxiliar na observação e na compreensão dos fenômenos da motricidade humana. O tônus, por se encontrar ligado com as funções da equilibração e com as regulações mais complexas do ato motor, assegura a repartição harmoniosa das influências facilitadoras ou inibidoras do movimento. A neurofisiologia e a neuropatologia fornecem-nos grande quantidade de elementos de estudo sobre a regulação inter e supra-segmentar da motricidade, auxiliando-nos na compreensão dos cen- tros e das vias que ela põe em jogo. Resumindo, o tônus tem uma função informática fundamental na medida em que, ao unificar as estimulações, as integra nos centros responsáveis pela elaboração, controle e execução do movimen- to. O tônus não é mais do que a expressão de uma dinamogenia que, inicialmente imatura e difusa, vai se organizando em formações mais adaptáveis e plásticas. Por meio de centros bulbomesence- fálicos e sistemas graviceptivos (a receptividade de gravidade), o tônus integra o bombardeamento incessante dos estímulos exteriores que estão na base da aquisição da postura e da conseqüente disponibilidade práxico-construtiva.Toda a evolução humana se desenrola numa aparente oposição tônica, verificada pela progressiva hipertonicidade do eixo corporal e pela progressiva hipotonia das extremidades. Todos os movi- mentos, como argumenta Bergès, partem e terminam no tronco. O movimento da cabeça e ombros é função do tônus da coluna vertebral. As atividades de exploração e de orientação desenvolvem-se com o suporte do tônus axial. É através da manutenção da cabeça que se desencadeiam as estruturas visuais, auditivas e labirínticas que vão permitir o acesso à exploração do espaço bucal e do espaço contíguo, de que fala W. Stern. Toda essa sucessiva maturação, tendo em vista uma autonomia, não é mais do que uma progressiva organização tônica das vértebras. Há como que uma dialética de desenvolvimento entre o tônus axial e o tônus periférico, que encontra relação nos inúmeros casos patológicos. A exploração do mundo e a descoberta do corpo realizam-se pelas atividades de orientação e preparação e, posteriormente, pela direção e experiência corporal. O tônus axial constitui, portanto, o ponto de partida do movimento no tempo e no espaço, interdependente da lateralidade, ou seja, da motricidade não-diferenciada. Não vamos neste campo ampliar o conceito de lateralidade, por constituir matéria suficiente para novo trabalho; apenas desejamos esclarecer que toda a organização motora se encontra relacionada com o problema da dominância hemisférico-cerebral. É, portanto, a motricidade espontânea que se encontra na base dos fatores da decisão e iniciativa motora. O tônus, em função da utilização do corpo, adquire uma especialização unilateral em conexão com a estruturação progressiva do cérebro. Além destas relações, devemos equacionar o movimento como estrutura que supõe uma integração de mecanismos neurofisiológicos dependentes da evolução dos sistemas piramidal e extrapiramidal. O primeiro é responsável pela motricidade fina, voluntária e ideomotora; o segundo constitui o fundo tônico-motor automático, que se opõe primeiro, servindo de guia às impulsões piramidais. Devemos igualmente mencionar o sistema cerebelo, responsável pela harmonia espacial do movimento. Se em qualquer destes sistemas não se observar um equilíbrio de funcionamento e um poten- cial relacional com os outros, observam-se algumas síndromes de debilidade motora, de desordem psicomotora, da patogenia dos hábitos motores, de instabilidade psicomotora e de desorganização Psicomotricidade: uma abordagem preliminar de suas categorias 17 práxica, de onde se destacam as sincinesias e as paratonias. Nas sincinesias, verifica-se uma incapa- cidade de individualização motora, observada quando pedimos à criança para fazer um movimento com uma mão e ela tem tendência a fazê-lo com a outra (movimento de imitação contralateral). Nas paratonias, verifica-se uma incapacidade de descontração voluntária, não se observando o jogo de oposição básica da organização motora: músculos agonistas como os antagonistas, músculos flexores com os extensores e os efeitos dialético-motores da contração e da descontração. Tanto as paratonias de fundo como as paratonias de ação encontram-se em relação com a função tônica e representam a expressão de seu funcionamento. Quer dizer, é o regulamento e a modulação do tônus que faz do músculo uma unidade dispo- nível, de alerta, em permanente tensão de fundo, de onde emerge o movimento. FONSECA, Vítor. Psicomotricidade. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 49-56. O Corpo Hábil mbora estudos sobre as práticas corporais considerem os primórdios da Psicomotricidade datados dos séculos XVII – XVIII, momento em que as técnicas corporais passam a ser utilizadas, deliberadamente, para um investi- mento político e econômico do corpo, Le Camus (1986) situa o “nascimento” da Psicomotricidade no final do século XIX. Este marco deve-se ao fato do autor considerar a Psicomotricidade como saber derivado das ciências médicas e não das ciências humanas. Sendo assim, ao invés de concebida enquanto produto e produtora das ne- cessidades materiais e de organização social do capitalismo moderno, segundo aquele autor (id.), são as descobertas na área da neurologia as principais respon- sáveis pelo batismo desta nova área do conhecimento. Segundo Vigarello1, [o] adjetivo “psicomotor” teria nascido pouco após 1870, quando foi preciso dar um nome às regiões do córtex cerebral situadas além das áreas propriamente motoras (...) onde podia operar-se a junção ainda bem misteriosa, entre imagem mental e movimento. Segundo estudos sistematizados por Le Camus, o marco inaugural da Psicomotricidade se deve às experiências de Broca (1861), que descobre a liga- ção entre uma lesão cerebral localizada e os sintomas da afasia. Isso outorga ao conhecimento médico da época a idéia de que havia uma estreita relação entre movimento e processos cerebrais, estabelecendo-se o que se denominou parale- lismo psicomotor. Numa época de grandes transformações no modo de produção industrial, os estudos de Broca e de tantos outros cientistas que buscaram entender os processos pelos quais se estabeleciam as relações entre mente e movimento, receberam grandes investimentos. Isto se deu, pelo fato de que tais estudos respondiam, diretamente, às necessidades da modernidade capitalista de resolver a difícil tarefa de adequar os movimentos, hábitos e costumes dos trabalhadores aos imperativos do crescente processo de industrialização2. Neste sentido, o treinamento da classe trabalhadora deveria se dar de modo a abarcar um número cada vez maior de pessoas e, em idades cada vez mais precoces. A educação escolar, neste contexto, ocupou lugar importantíssimo, dentre outros, como modo de controle e adequação do corpo e do espírito aos novos ditames do trabalho. Sobre o papel de tal modalidade educacional no processo de organização produtiva, Margareth Rago (1987, p. 122) explicita que: [na] representação imaginária que os dominantes se fazem da infância, esta é percebida como superfície chata e plana, facilmente “moldável”, mas ao mesmo tempo como ser dotado de características e vícios latentes, que deveriam ser corrigidos por técnicas pedagógicas para constituir-se em sujeito produtivo da nação. E 1 V I G A R E L L O G. Le corps redressé. Paris: JP Delarge , 1978. p . 29. Apud LE CAMUS, Jean. O corpo em discussão. Por- to Alegre: Artes Médicas, 1986. p.16. 2 A respeito das trans- f o r m a ç õ e s n o s m o - dos de produção daquela é p o c a , v e r : G O U N E T, T h o - m a s . F o i r d i s m o e tyo-tismo na civil ização do automóvel. São Paulo: Boitempo, 1999. Psicomotricidade 20 Rago (1987, p. 118) acrescenta ainda que neste processo: ...o poder médico defendeu a higienização da cultura popular, isto é, a transformação dos hábitos cotidianos do trabalhador e de sua família e a supressão de crenças e práticas quali- ficadas como primitivas, irracionais e nocivas. (...) Assim, a criança foi percebida pelo olhar disciplinar, atento e intransigente, como elemento de integração, de socialização e de fixação indireta das famílias pobres, e isto antes mesmo de afirmar-se como necessidade econômica e produtiva da nação. Constituindo a infância em objeto privilegiado da convergência de suas práticas, o poder médico procurou legitimar-se como tal, demonstrando para toda a sociedade a necessidade insubstituível de sua intervenção como orientadores das famílias e como conselheiros da ação governamental. O recorte e a circunscrição daquilo que se configurou como o tempo da infância e sua objetivação pela medicina atenderam, então, ao objetivo maior de legitimação das práticas de regulamentação e controle da vida cotidiana. Os médicos procuraram apresentar-se como autoridade mais competente para prescrever normas racionais de conduta e medidas preventivas, pessoaise coletivas, visando produzir a nova família e o futuro cidadão. É nesta perspectiva que as práticas corporais do primeiro período, legitimadas pela tese da privação cultural, no Brasil, se travestem de um cunho cientificista, higie- nista e salvacionista dos processos de desenvolvimento infantil, organizadas, dentre outras formas, sobre a égide da disciplina Educação Física. Em 1901 (França), o Doutor Philipe Tissié (p. IX), que se opunha ao militarismo imperante na área da educação do corpo, defendendo as bases científicas desta disciplina, declara que: [por] Educação Física não se deve entender apenas o exercício muscular do corpo, mas tam- bém e, principalmente, o treinamento dos centros psicomotores pelas associações múltiplas e repetidas entre movimento e pensamento e entre pensamento e movimento (Apud LE CAMUS, 1986, p. 16) Sob estas bases, surge uma técnica de abordagem corporal que, auxiliada pelos conhecimentos das áreas médicas, paramédicas e das ciências humanas, foi denominada ginástica educativa, posteriormente, se dividindo em dois grandes ramos: “ginástica pedagógica, destinada a todas as crianças”, e “ginástica médica, reservada à reabili- tação das crianças retardadas”. (Apud LE CAMUS, 1986, p. 24). Estava, em embrião, lançada a idéia daquilo que posteriormente denominou- se Educação Psicomotora e Reeducação Psicomotora. No contexto nacional, este processo de cientificização do corpo encontrará sua aplicabilidade em escalas maiores a partir dos anos de 1930. Neste período, enquanto para a primeira infância as intervenções se aproximavam daquelas tidas como cuidados ideais que a maternidade deveria suprir (noções alimentares, de higiene, de saúde etc.), a segunda infância e a adolescência eram submetidas a pro- cessos de exercícios físicos que garantiam a afirmação do ideário liberal – “ordem e progresso”, por meio da máxima grega – “mente sã em corpo são”. Acompanhando o processo de verticalização dos saberes-poderes sobre o corpo, Foucault (1988, p. 126) explicita que: [muitas] coisas são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle: não se trata de cuidar do corpo, em massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indisso- ciável, mas de trabalhá-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica – movimentos, gestos, atitude, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou não mais, os O Corpo Hábil 21 elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que realmente importa é a do exercício. A modalidade enfim: implica uma coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos de atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. Ao mesmo tempo que estas formulações científicas possibilitavam uma maior propriedade sobre o detalhamento do corpo e das práticas que dele se ocupam, concomitantemente, também apresentavam suas limitações. Conforme Marx relatou: [a] principal dificuldade na fábrica automática consistia em sua disciplina necessária, em fazer seres humanos renunciar a seus hábitos irregulares no trabalho e se identificar com a invariável regularidade do grande autômato. Divisar um código de disciplina fabril ade- quado às necessidades e à velocidade do sistema automático e realizá-lo com êxito foi um empreendimento digno de Hércules. (The Masters Spinners and Manufactures Defence Fund. Report of the committee. Manchester, 1854, p. 15 Apud MARX, 1984, p. 44). A verdade é que este êxito não foi total, o capital jamais conseguiu controlar totalmente a força de trabalho humano. Se por um lado isso constituiu-se um pro- blema para o capital, também implementou uma busca incessante neste sentido, fato que resultou em processo cada vez mais requintado de diagnóstico e encami- nhamento das questões relativas à relação corpo-mente. Um exemplo disto são os estudos de Edouard Guilmain (1901–1983), o qual empenhou-se em “[encontrar] um método de exame direto que [descobrisse] o próprio fundo do qual os atos são a conseqüência.” Sua ambição era conseguir iden- tificar quais estruturas psicomotoras, solidariedades interfuncionais, concomitâncias de sintomas (síndromes) ou de disposições (tipo) que incidiam sobre as esferas motora e afetiva da criança. Deste modo, ao estabelecer um protótipo do Exame Psicomotor (1935), Guilmain procurou desenvolver um instrumento de medida, meio diagnóstico, indicador terapêutico e de prognóstico das disfunções psicomo- toras. Além da identificação e classificação dos “desviantes” de modo precoce e a sistematização de um modo de tratá-los ou, melhor, adaptá-los aos imperativos sociais ainda quando crianças, este tipo de instrumento permitia averiguar as causas de sintomas das desordens psicomotoras que acometiam a população trabalhadora ativa e organizar medidas para saná-las (Reeducação Psicomotora). Com o avanço dos processos de produção, o aumento da população, os problemas da automação, as necessidades da sociedade burguesa tornam-se mais complexas. O conhecimento de que psiquismo e dinamismo constituem-se numa díade inseparável já não eram mais suficientes para garantir a disciplinarização do corpo e da mente frente às novas necessidades sociais e de produção que se apre- sentam. O tratamento mecanizado, autômato, infringido ao corpo, tão eficaz para o encaminhamento das necessidades em tempos anteriores, começava a apresentar sinais de falência. Neste sentido, tornou-se premente uma superação dos modos vigentes de forjar, utilizar e controlar a classe trabalhadora bem como, o seu potencial produ- tivo. Mais uma vez, ao corpo e às ciências que dele se ocupam, caberia um lugar central neste processo. Além de recuperar os “anormais” que, pelo seu volume Psicomotricidade 22 de incidência, já se tornavam um problema socioeconômico, era preciso também criar artifícios compensatórios que pudessem suprir a precariedade das condições necessárias para um satisfatório desenvolvimento a que estavam sujeitas as crian- ças, garantindo assim a continuidade do sistema produtivo e a sobrevivência das classes dominadas. Passamos a um segundo período da história da Psicomotricidade ao qual Jean Le Camus denominou corpo consciente. Corpo Consciente: uma análise das contribuições da psicologia do desenvolvimento para a “ciência” do esquema corporal O corpo sutil é agora o corpo capaz de acolher, pôr em ordem e conservar a informação emanada do seu próprio funcionamento e do meio (físico e humano) no qual se insere (...) Se o corpo sutil do primeiro período [O corpo hábil] tinha por matriz uma psicologia ainda muito enfeudada à neurologia, agora uma psicologia mais autônoma irá constituir a principal referência teórica dos investigadores e técnicos da psicomotricidade. (LE CAMUS, 1986, p. 31) onforme a epígrafe acima, a qual sintetiza o pensamento de Le Camus com relação aos referenciais teóricos que nortearam a psicomotricidade do corpo consciente, acompanharemos que os processos colocados em marcha, a partir dos estudos da psicologia do desenvolvimento, causaram uma verda- deira revisão nos modos de conceber e intervir nos processos de aprendizagem. Organizando saberes cada vez mais elaborados, que justificaram, em nosso país, inúmeros programas compensatórios voltados à infância, utilizados como barganha pelo Governo com a classe trabalhadora, foi adotado pelos profissionais brasileiros, a partir de meados dos anos de 1950, um conhecimento alusivo à existência de uma íntima relação entre inteligência, motricidade e psiquismo o qual influenciou, diretamente,as técnicas de abordagem corporal na creche, na escola e nos consultórios. Paulatinamente, passou-se da era do corpo neurológico, isolado e do mo- vimento condicionado, para a era do movimento consciente, no qual o próprio indivíduo, pelo ato voluntário é levado a colaborar para o assujeitamento de seu corpo. Nesta perspectiva, a Psicomotricidade do segundo período1, descrito por Le Camus constituiu-se como a ciência do Esquema Corporal ou, como prefere este autor, do Corpo Consciente. Segundo nossos estudos, o Esquema Corporal foi concebido enquanto dimensão do corpo, organizadora das experiências dos seres humanos no tempo e no espaço presente. As técnicas que dele se ocupam, procuraram priorizar o desenvolvimento da percepção e do controle do próprio corpo, ou seja, a interio- rização das sensações relativas a uma ou outra parte do corpo, e da globalidade de si mesmo; a apropriação de um equilíbrio postural econômico; de uma lateralidade bem definida e afirmada; de uma independência dos diferentes segmentos do corpo em relação ao tronco e entre eles; um domínio das pulsões e inibições estreitamente ligadas aos elementos precedentes e ao domínio da respiração (PICQ & VAYER, 1969, p. 13). Dentre os autores que influenciaram os profissionais e estudiosos deste se- gundo período da história da Psicomotricidade, enfatizamos as contribuições de Wallon (1879-1962) e Piaget (1896-1980). C 1 Segundo Le C a m u s , este período, na Fran- ç a , e s t á c o m p r e e n d i d o en t re os anos de 1945 e 1973 (LE CAMUS, 1988, p.48). No Brasil, podemos con-cebê- lo a par t i r dos anos 1950 até, aproxima- damente, 1980. Psicomotricidade 24 Não pretendemos aqui fazer um estudo aprofundado da obra desses autores, porém, reconhecemos indispensável para nossas análises apontar os conceitos básicos que nortearam os seus estudos, no sentido de situar a contribuição de cada um deles para a sistematização da Psicomotricidade enquanto ciência do Esquema Corporal. O pressuposto comum levado a cabo por esses autores refere-se à importância fundante das experiências vividas na primeira infância como base do desenvolvimento social, emocional, intelectual e físico das crianças. Destas experiências, ambos ressal- tam a importância das percepções táteis, visuais e motoras, para tal desenvolvimento, embora apresentem particularidades em suas formulações. Wallon, por exemplo, coloca o diálogo tônico, ou seja, a relação corporal afetiva no centro do processo de desenvolvimento do caráter e da inteligência da criança. Propondo uma estreita relação entre tono postural e tono emocional, e con- siderando a emoção elemento de ligação entre o orgânico e o social, Wallon elabora uma teoria do desenvolvimento que concebe a criança, desde o seu nascimento, como um ser em sociedade. Sendo assim, para este autor, a estruturação do caráter e da inteligência depende, fundamentalmente, das relações estabelecidas entre a criança e seus pares humanos. Ajuriaguerra (1962), neurologista francês, citado por Le Camus (1986, p.39), ao comentar as idéias de Wallon, a respeito da importância das relações corporais afetivas para o desenvolvimento infantil, diz que: ...a constante preocupação de Wallon foi a de destacar a importância da função afetiva primitiva em todos os desenvolvimentos ulteriores do sujeito, fusão expressa através dos fenômenos motores num diálogo que é o prelúdio ao diálogo verbal ulterior e a que chamamos de diálogo tônico. [...] todos sabem da importância que Wallon concedeu ao fenômeno tônico por excelência que é a função postural de comunicação, essencial para a criança pequena, função de troca por meio da qual a criança dá e recebe. É principalmente aí, em nossa opinião, que a obra de Wallon abre uma perspectiva original e fecunda na psicologia e na psicopatologia. A função postural está essencialmente vinculada à emoção, isto é, à exteriorização da afetividade. Concebendo o processo de desenvolvimento como descontínuo, Wallon se con- trapõe às teorias elaboradas segundo regras de maturação unívoca e de encadeamento de operações sucessivas do pensamento. Em suas formulações, o desenvolvimento advém de um processo de superação, por incorporação de antigas atitudes e formas de pensamento, motivadas pelas contradições presentes nas novas relações que se estabe- lecem entre a criança e o meio humano. À moda de Gramsci, podemos dizer que para Wallon “o homem é um processo [histórico], precisamente o processo de seus atos [de suas relações]”. (GRAMSCI, 1995, p. 38). (Colchetes nossos). Conforme podemos acompanhar, Wallon pressupõe a articulação entre o orgânico e o ser psíquico, afirmando não serem estas dimensões isoladas: Não são duas entidades que se deva estudar separadamente e, depois, colocar em concor- dância.(...) Um e outro se exprimem simultaneamente em todos os níveis da evolução, pelas ações e reações do sujeito sobre o meio, diante do outro. O meio mais importante para a formação da personalidade não é o meio físico, é o meio social. Pouco a pouco, ela que se confundia com o meio vai se dissociar dele. Sua evolução não é uniforme, mas feita de oposições e identificações. É dialética. (WALLON, 1951, Apud CABRAL, 2000, p. 271) Corpo Consciente 25 Portanto, para Wallon: [o] esquema corporal não é “um dado inicial, nem uma entidade biológica ou psíquica”, mas uma construção. [...] Estudar a gênese do esquema corporal na criança, é indagar-se como a criança chega “à representação mais ou menos global, específica e diferenciada de seu corpo próprio”. [...] Esta aquisição é importante. “ É um elemento básico indispensável à construção da personalidade da criança (...) É o resultado e a condição de legítimas relações entre o indivíduo e seu meio”. (WALLON. Apud LE CAMUS, 1986, p. 37) Piaget, por sua vez, fundamentou sua teoria numa visão evolutiva. Diferen- temente de Wallon, para o qual o sujeito é antes de tudo um ser social, Piaget parte de um sujeito biológico, uma espécie de organismo rudimentar que, por meio da experiência, se desenvolve rumo à socialização. Pulaski (1983, p. 32), com base nos estudos de Piaget, afirma que o bebê “... vem ao mundo equipado com uns poucos reflexos neonatais, como sugar e agarrar, que fazem parte de sua herança biológica. Além desses, seu comportamento consiste em movimentos motores grosseiros, a princípio sem coordenação e sem objetivo”.2 Deste modo, concebe o desenvolvimento como um processo de equilibração progressiva, que parte de um estado inferior até atingir um estado mais elevado. Processo auto-regulador, dinâmico e contínuo, a equilibração tem o papel de promover um balanço entre as funções de assimilação e acomodação que, funcio- nando simultaneamente em todos os níveis biológicos e intelectuais, possibilitam o desenvolvimento tanto físico quanto cognitivo da criança. Esta conceituação se baseia nos processos adaptativos referidos pela biologia que, segundo Piaget, constituem o elo comum entre todos os seres vivos. Quatro fatores são apresentados por Pulaski (p. 24-27) como fundamentais para o processo de desenvolvimento biopsicosocial, são eles: maturação ou crescimento fisiológico das estruturas orgânicas hereditárias; experiências física e empírica, em que a criança vai fazer suas próprias aprendizagens; transmissão social referente às informações aprendidas com seus pares humanos, por via direta ou indireta; equilibração que coordena e regula os outros três fatores, fazendo surgir estados progressivos de equilíbrio. Embora Piaget não tenha definido um conceito de Esquema Corporal, na me- dida em que seus estudos não se propunham a tal tarefa, suas formulações nos levam a considerar tal esquema como o conhecimento progressivo das partes e funções do corpo, constituído a partir de etapas sucessivas, semelhantesem crianças da mesma idade, determinado pelos processos de auto-regulação e adaptação ao meio exterior. A partir desta breve contextualização, podemos considerar que enquanto Wallon concebe o Esquema Corporal como resultante das múltiplas relações que o indivíduo estabelece com seus pares humanos; Piaget define esta categoria a partir de uma visão cognitivista, na qual a consciência do corpo resulta do amadurecimento das interações entre as estruturas cerebrais, como processo natural de adaptação ao meio ambiente. Segundo a primeira concepção, o indivíduo toma consciência de si a partir de sua inserção com o meio social, já, na segunda, esta consciência é determinada por uma auto-equilibração, comum a todos os seres vivos. 2 Optamos por utilizar P u l a s k i a o i n v é s d e Piaget , no or iginal , pelo fato de encontrarmos na- quele autor uma abordagem mais didática e direta dos concei tos p iaget ianos , o que entendemos suficiente para o estudo proposto. Psicomotricidade 26 Ao analisarmos a tendência das produções teórico-práticas da Psicomotrici- dade, no período considerado por Le Camus do Corpo Consciente, evidenciamos que, de Wallon foram incorporados os fundamentos, elaborados na segunda década do século XX, que tratam da influência direta do tono postural sobre o tono emo- cional e vice-versa, relegando a segundo plano a importância das relações sociais e afetivas; de Piaget, foram incorporados, pela Psicomotricidade, os processos advindos da tendência natural à auto-regulação e adaptação. Como resultante destas influências, encontramos, nesse período da Psicomo- tricidade, a formulação de um grande número de manuais e práticas psicomotoras, elaborados de acordo com normas de desenvolvimento predeterminadas, que visam o desenvolvimento do Esquema Corporal e proporcionar, sobretudo, às crianças pequenas, condições “favoráveis” de adaptação e auto-equilibração volun- tária. Se os fundamentos piagetianos foram adotados para educar os movimentos e legitimar a capacidade universal de adaptação dos seres humanos, da mesma forma, foram os fundamentos de Wallon, relativos à mútua influência entre tono postural e tono emocional, que atribuíram um caráter científico à maneira pela qual o poder passou a ser incorporado aos comportamentos. Deste modo, podemos dizer que os saberes-poderes sobre o corpo, formulados no segundo período da Psicomotricidade, restituem ao ser humano a propriedade, a consciência de seu corpo, ao mesmo tempo que consideram voluntária a sua participação no encaminhamento das necessidades da sociedade capitalista, de produção e de controle social. Automatismo e consciência do movimento se tornaram o mote da busca de superação das dificuldades explicitadas pelos modelos disciplinares autômatos dos séculos XVIII, XIX e início do XX: (...) para crear los automatismos indispensables la consciencia debe pasar a um segundo término, habitualmente la participación voluntaria del sujeto es la condición de la educación o reeduca- ción psicomotriz, estando presente em todos los instantes y dándole caráter. El movimiento “en si” no es educativo. Para que el ejercicio pueda intervenir em la vida psíquica y contribuir a su desarrollo, es necesario que sea voluntario, pensado, preciso y controlado. (PICQ & VAYER, 1969, p. 253) Deste modo, o conhecimento da área psicomotora, neste período, oportuni- zou uma adequação voluntária dos movimentos humanos ao tempo e espaço de produção, a partir do desenvolvimento de programas de educação e reeducação psicomotoras, incorporadas ao cotidiano das creches e pré-escolas. É deste modo que, de maneira precoce: (...) disciplinando las contracciones musculares, aumentando em cuanto sea posible la acción de los centros superiores sobre los inferiores, se mejorará, disicplinará y educará la voluntad y la atención. En fin, nada se opone, ya que se trata siempre de la misma funcción, a que se pueda pasar progresivamente de la inibición muscular impuesta al dominio de la totalidad del cuerpo e incluso al refrenamiento de los deseos y a la obediencia de los imperativos sociales. (PICQ & VAYER, 1969, p. 234) Assim, podemos apreender que as técnicas especializadas no desenvolvimento do esquema corporal, destinavam-se, de fato, a dar suporte para um processo de apropriação do corpo, com vistas à exploração da força de trabalho das classes menos favorecidas. 3 ( . . . ) p a r a c r i a r o s au tomat i smos ind is - pensáveis , a consciência deve passar a um segundo t e r m o ; h a b i t u a l m e n t e a participação voluntária do sujeito é condição para a Educação ou Reeducação Psicomotora, estando pre- sente em todos os instantes, o u t o r g a n d o - l h e c a r á t e r . O movimento em s i não é educa t ivo . Pa ra que o exercício possa intervir na vida psíquica e contribuir para seu desenvolvimento, é necessário que seja vo- luntário, pensado, preciso e controlado. (tradução do autor). 4 ( . . . ) disciplinando as c o n t r a ç õ e s m u s c u - l a r e s , a u m e n t a n d o a o máximo a ação dos cen- t ros super iores sobre os inferiores, se melhorará, d i sc ip l inará e educará a vontade e a a tenção . Ao f ina l , nada se oporá , na m e d i d a e m q u e s e t r a t a s empre do mesmo ob je - t i v o , d a m e s m a f u n ç ã o , a de passar progressi-va- mente da inibição muscu- lar imposta ao domínio da totalidade do corpo inclu- sive, ao recal-camento dos desejos e à obediência aos impe-rativos sociais. (tradução do autor). Corpo Consciente 27 Outro aspecto a ser analisado, refere-se ao caráter universal atribuído às for- mulações do segundo período da Psicomotricidade (LE CAMUS, 1987), no tocante à legitimação da ideologia liberal e dos princípios do Estado burguês. Sabemos, com base nos estudos de Marx, que uma das necessidades da classe dominante, para sustentar-se no poder, é tornar universal suas idéias e necessidades. Assim, cabe recuperar que uma das estratégias principais do sistema liberal para a legitimação e manutenção de seu poder é a meritocracia. Uma vez que a base ideológica deste sistema funda-se na idéia de igualdade de condições para todos, fica subentendido, a partir dessa concepção, que o que falta aos indivíduos não é fruto de desigualdades sociais, mas resultante de uma incompetência pessoal pelo não-aproveitamento das oportunidades oferecidas a todos. O Estado, então, se coloca na condição de redentor dessas faltas, operando por meio de programas compensatórios formulados nas áreas educacionais, mé- dicas e paramédicas, como dispositivos remediadores das desigualdades sociais. Deslocando-se, desta maneira, o ponto fulcral da problemática social para o sujei- to, para a família e para os profissionais ligados ao fazer educativo, os programas compensatórios tendem, por um lado, a culpabilizar e desqualificar o potencial profissional e as condições de vida das pessoas e instituições, por outro, enaltecer as ações paliativas do sistema, configurando-se como instrumento de controle das pressões sociais. Neste contexto, a Psicomotricidade apresenta-se como um saber-poder que respalda e viabiliza a idéia de devolver no indivíduo um EU, no caso, corporal, reparador do vazio provocado pela expropriação do capital, acenando com a possibilidade de um lugar de cidadania às gerações futuras. Com isto, gera um duplo controle social: exacerba a apropriação da força de trabalho que, pela via da consciência do movimento, torna-se ainda mais efetiva e, ao mesmo tempo, promove o reconhecimento e engajamento voluntário das famílias e profissionais em programas sociais compensatórios, como solução para suas necessidades de manutenção da vida. Se, por um lado, as práticas psicomotoras, pautadas em medidasque buscam normatizar o corpo aos imperativos sociais, às custas de um processo segregacionis- ta, trouxeram benefícios para o Estado burguês, por outro, oportunizaram à classe trabalhadora a possibilidade de colocar em marcha novas contradições sociais e políticas, a partir das quais foram formulados saberes-poderes que constituíram o terceiro período da Psicomotricidade, denominado por Le Camus, Corpo Sig- nificante5. 5 L e C a m u s , a o c o n s i d e r a r s o b r e e s t e p e r í o d o , s e p r o p õ e a ana l i s a r a s p roduções d a á r e a d a P s i c o m o t r i - c idade en t r e o s anos de 1 9 7 4 a 1 9 8 0 . S a b e m o s que e s t a pe r iod i zação é um recurso didático, que intenciona circunscrever a s p r o p o s t a s d e e s t u d o d a q u e l e a u t o r . S e n d o ass im, vamos considerar o p e r í o d o , d e n o m i n a d o p e l o a u t o r c o m o C o r p o S i g n i f i c a n t e , e x t e n s i v o a o s d i a s d e h o j e , n a me-dida em que os para- digmas que o fundamen- t am a inda se encon t r am presentes na Psicomo-tri- cidade atual. Corpo Significante: o corpo que “fala” om a abertura política, em resposta às pressões sociais e aos movimentos que defendiam os direitos humanos, as técnicas de abordagem corporal que propunham a inibição muscular (Corpo hábil) ou o domínio da totalidade do corpo, incluindo o refreamento do desejo e a obediência aos imperativos sociais (Corpo consciente), perderam sua força. Tornou-se urgente a produção de um outro conhecimento, que se apresentasse em sintonia com as novas tendências e movimentos que emergiam após 20 anos de subjugação em todos os setores da sociedade. Sob clima de anistia política, liberdade de expressão e enaltecimento dos direitos humanos, psi- comotricistas brasileiros passam a ser motivados pela idéia de emancipação do sujeito, inaugurando, em nosso país, o terceiro período da Psicomotricidade, denominado por Le Camus de Corpo Signifi- cante. Além de um corpo que ouve e apreende, o foco passou a ser o corpo que fala, que se expressa. Anistia do sujeito pela anistia do corpo, as formulações levadas a cabo neste período, encontraram um campo fértil de proliferação, principalmente na América Latina, sobretudo, no Brasil e Argentina, a partir de meados do ano de 1980. A terceira fase da evolução nos parece marcada pela dispersão e também pelo questionamento das referências teóricas, pela ampliação da metodologia para as técnicas semi-motoras; pela intensificação e descentralização do recrutamento dos terapeutas da psicomotricidade, oficialmente chamados doravante “psico-reeducadores”; enfim, pelo declínio ou, pelo menos, a marginalização daquilo que denominamos de práticas psicomotoras com objetivo educativo. (...) Teoria e prática parecem ordenar-se em torno de um novo organizador que chamaremos de expressionismo. O “corpo sutil” é agora o corpo capaz de emitir informação (...) um corpo portador de significa- ções (...) A função informacional está, mais do que nunca, à frente da cena, mas o interesse deslocou-se da vertente centrípeta à vertente centrífuga, do input ao output. (LE CAMUS, 1986, p. 49) Com base em princípios advindos da psicanálise, da psicologia das comunicações não-verbais, para a qual a expressão corporal se apresenta como um veículo de libertação, e da etologia infantil, área do conhecimento que concebe que parte importante das mensagens humanas se dá pelas mímicas, pelas posturas, pelos gestos, encontramos neste período um movimento de psicotropismo das técnicas do corpo, pautado na relação entre sujeitos e, um somatotropismo das técnicas verbais que se utilizam da experiência sensorial e motora do corpo como trampolim da verbalização. Frente ao dualismo platônico, augustiniano e cartesiano, eles replicaram com o paralelismo científico de T. Ribot, de P. Janet e P. Tissié, de H. Wallon e de E. Guilmain: é o corpo hábil (“adroit”; o corpo tem direito: ‘ a droit’); frente ao intelectualismo dos racionalistas dos séculos XVIII e XIX, replicaram com o impressionismo de M. Merleau- Ponty, de J. Piaget, de S. Freud, de J. de Ajuriaguerra: é o corpo consciente, o pensamento feito corpo; frente ao verbalismo dos lacanianos, replicaram com o expressionismo dos cientistas da comunicação e dos etologistas: é o corpo significante, o corpo que fala. (LE CAMUS, 1986, p. 67) Na área da Psicomotricidade, segundo esse autor (1986, p. 61), “[evidentemente], foi como meio de linguagem que o corpo interessou aos psicomotricistas: um corpo que sabe falar utilizando a linguagem anterior à linguagem, uma linguagem constituída de significantes mudos.” C Psicomotricidade 30 Para Le Camus, o terceiro período da Psicomotricidade foi marcado por uma tendência dos profissionais da área em adotar uma atitude de aceitação e reconhe- cimento do sujeito, bem como a importância da dinâmica de seus desejos em seu processo de formação. Neste sentido, comenta: [a] ruptura parece-nos operar-se em três eixos: o eixo opõe o cibernético ao termodinâ- mico; o eixo que opõe o pulsional ao funcional; o eixo que opõe o materno ao paterno. Os psicomotricistas da terceira geração acabam de afirmar sua originalidade acentuando o primeiro pólo destes pares. Ser psicomotricista, em 1980, significava, em termos bio- lógicos, dar primazia à máquina informacional; em termos psicanalíticos, dar primazia ao papel materno. Os psicomotricistas da terceira geração acreditaram que minimizando ou, até mesmo, abolindo do processo formativo das crianças o formalismo e o autori- tarismo, até então presentes nas técnicas de educação e reeducação psicomotora, aspectos ligados à função paterna (lei e ordem), seria possível a superação das dificuldades encontradas por esta área no equacionamento dos desvios escolares e, conseqüentemente, dos desvios sociais. Pautados nestas crenças, profissionais da área, atuantes nas sistematizações do segundo período da Psicomotricidade, paulatinamente foram reformulando seus pressupostos e práticas. Dentre eles, ressaltamos as contribuições oferecidas por André Lapierre e seus colaboradores que implementaram um método de abor- dagem corporal (França, final dos anos de 1970), denominado Psicomotricidade Relacional. Para este autor: [toda] reeducação normativa é evidenciada como uma agressão geradora de insegurança, culpa e ansiedade. Consegue-se assim um reforço das resistências. Todavia, chega-se al- gumas vezes a mostrar mecanismos de adaptação às “situações psicomotoras”, mas esses mecanismos permanecem específicos e, se permitem bons resultados no “teste de controle”, esses resultados não se transferem ao nível das atividades escolares. [...] Existem, entretanto, reeducações bem-sucedidas, sem contrapartida danosa. Percebe-se ao analisá-las, que o determinante foi a qualidade da relação e da comunicação afetiva que pôde se desenvolver entre o reeducador e a criança... e que as técnicas empregadas tiveram, neste caso, pouco espaço. É de alguma maneira o efeito placebo... (LAPIERRE, 1988, p. 13) Podemos analisar a mudança de eixo proposta por Lapierre que coloca a quali- dade da relação Educador – Educando, como elemento relevante no processo forma- tivo das crianças. Ao contrário das tendências que priorizavam o aparato técnico nos processos educativos e reeducativos, Lapierre procura trazer para o centro do fazer educativo a valorização da relação sujeito (educador) – sujeito (educando). Neste sentido, propõe um trabalho que prioriza as relações humanas e as potencialidades do indivíduo. A esse respeito, declara Lapierre (1988, p. 13-14) que, [queremos] trabalhar com o que há de positivo na criança; interessa-nos pelo que ela sabe fazer e não pelo que não sabe fazer. É a partir daí que a relação pedagógica pode descontrair-se,a situação deixar de ser dramatizada e a criança reencontrar a confiança e a segurança.[...] Neste ponto abandonamos o modelo médico: diagnóstico, prescrição, tratamento, modelo sobre o qual funcionam os estabeleci- mentos de reeducação. [...] Isto marcou uma etapa decisiva na nossa evolução. A partir daí, com efeito, não existe mais “reeducação”. Tudo se torna educação, tal como nós a concebemos, ou seja, desenvolvimento das potencialidades próprias de cada criança. Corpo Significante: o corpo que “fala” 31 Apesar de influenciado pelo modelo científico e uma ciência positiva, paradigma que justifica o ideal capitalista liberal, Lapierre representa para a Psicomotricidade a possibilidade de quebra com o modelo científico médico higienista, vigente na Europa e no Brasil. À semelhança da postura inaugurada pela Escola Nova, Lapierre, na Psico- motricidade, recupera para a criança um lugar de reconhecimento e poder. Ao mesmo tempo, enfatiza a importância da formação profissional e pessoal do psicomotricista que pretende trabalhar no campo relacional, ressaltando seu papel estruturante nas vi- vências grupais e individuais. Colocando em discussão as relações de poder presentes no fazer educativo, organizou um método de educação psicomotora para a idade pré- escolar, procurando integrar as relações afetivas, a estruturação da personalidade e a sistematização do conhecimento, numa proposta lúdica, emancipatória e democrática. Neste sentido, Lapierre (1988, p. 20) ressalta que: [podemos] então retornar ao grupo, cada vez mais numeroso: não se trata mais do mesmo grupo-refúgio, mas de um grupo composto por indivíduos autônomos, capazes de cooperar, de levar coisas aos outros e de receber, mas sem se diluir na massa. A experiência nos prova que em tal grupo o líder, questionado, se dilui e mesmo desaparece em proveito de uma organização democrática, o que nem sempre ocorre sem choques nem conflitos. [...]Nesta ótica, o trabalho individual aparece como um fechar-se em si mesmo, não num espírito nar- cisista, mas como uma regeneração da pessoa de modo a permitir sua reinserção no grupo, que ela beneficiará com sua busca pessoal. [...] É uma seqüência de rupturas (ruptura consigo mesmo, ruptura com os outros), um balanço dialético do qual renasce, cada vez, o desejo inverso com a segurança constante de reencontrar o outro ou a si mesmo. Como Lapierre, os psicomotricistas da terceira geração se organizaram em torno da necessidade de construção de uma Imagem Corporal positiva, como forma de emancipação afetiva e intelectual do sujeito. Embora esses profissionais tivessem na base de suas formulações o mesmo referencial teórico, a Psicanálise, na prática, constituíram métodos e técnicas diversas. A concepção de Imagem Corporal como uma organização psíquica inconsciente, fruto das relações de prazer e desprazer que o sujeito estabelece com seus pares humanos cuidantes, nem sempre resultou em práticas de abordagem psicomotora que privilegiassem o corpo, o processo grupal, o lúdico, as relações afetivas imediatas, como meio facilitador de suas práticas. Mesmo alguns que pretenderam, como Lapierre, propor uma educação de base psicomotora, integradora, inclusiva, pautada nas relações afetivas, ao aliena- rem-se de uma atitude crítica e histórica de suas práticas, continuaram adotando uma perspectiva positivista de ciência, não levando às últimas conseqüências o potencial revolucionário de suas propostas. Ao longo desse capítulo, refletimos sobre como as técnicas corporais foram sistematizadas a partir das necessidades e contradições determinadas pelo modo de produção da sociedade capitalista, resultando na elaboração de saberes-poderes sobre o corpo cada vez mais sutis e especializados. Da disciplina do corpo pas- samos à automação do movimento e, posteriormente, à economia consciente do movimento. Com a política dos direitos humanos e de valorização da expressão, entramos na era do corpo anistiado, culminando, como a última etapa desse mo- vimento, na era da economia do desejo. Psicomotricidade Relacional: uma contribuição integradora para o olhar educacional ste relato tem como base as experiências de campo desenvolvidas por mim ao longo dos últimos cinco anos nas creches municipais de Curitiba, como parte de um projeto de capacitação de pessoal fundamentado na Psicomotricidade Relacional. Tomando como referência a teoria e o método sistematizados por André Lapierre, o projeto e as reflexões elaborados nesse período são frutos dos resultados obtidos com as crianças e das vivências compartilhadas entre os profissionais, suscitados durante as sessões de Psicomotricidade Relacional (PR). Consideramos importante apontar, mesmo que brevemente, as mudanças de papel assumidas pelas creches, desde o seu surgimento em Curitiba, em meados da década de 70, até o momento atual, com o intuito de evidenciar como a Psicomotricidade Relacional participou deste processo. No Brasil, como em outros países, a instituição creche tem sua origem na necessidade das famílias em terem um local de guarda para seus filhos, mediante o ingresso da mulher no mercado de trabalho. Em Curitiba, as creches municipais foram implantadas em 1975, por ocasião do plano de desfavela- mento que consistia na relocação das famílias em conjuntos habitacionais na periferia da cidade. Inicialmente, estes equipamentos tinham um caráter assistencialista, uma vez que ao priorizar os cuidados com a alimentação e higiene das crianças, restringiam sua ação aos aspectos orgânicos. Paulatinamente, as creches passaram a valorizar o aspecto cognitivo das crianças e, conseqüentemente, a incluir propostas pedagógicas em sua rotina. Em meados de 1980, as creches tornam-se de fato um espaço de educação, aqui entendida como processo de desenvolvimento global do indivíduo, que inclui além dos aspectos orgânico e cognitivo, questões relacionais-afetivas. Nesta mudança de paradigma, a Psicomotricidade Relacional deu sua contribuição na medida que concretizava no espaço pedagógico a importância das relações interpessoais no desenvolvimento infantil. Psicomotricidade Relacional Sistematizada por André Lapierre e seus colaboradores no final dos anos 1970, a PR, método de abordagem corporal, tem por objetivo recuperar a história corporal-afetiva do indivíduo. Em seus estudos, Lapierre perseguiu a origem da formação dos sintomas, ditos psicomotores, concluindo que os mesmos são influenciados pelas relações tônico-afetivas, estabelecidas pelo indivíduo em suas experiências primárias. Como relações tônico-afetivas, compreendem-se os encontros corporais vividos originalmente entre as figuras parentais e/ou substitutos e seus filhos. Carregados de uma carga emocional, esses encontros marcam a totalidade psicossomática do indivíduo, formando a âncora emocional fundamental que influenciará suas possibilidades de afirmar-se diante dos processos de individualização e socialização. Desta forma, a Psicomotricidade Relacional está vinculada às abordagens de Wallon e Ajuriaguerra em que estes conceituam a organização tônica do sujeito como resultante de sua história relacional, E Psicomotricidade 34 atribuindo a ela um conteúdo simbólico. Adicionada a esta idéia, Lapierre acres- centa a noção de que tal organização tônica também é condicionada, em parte, pela vivência imaginária do indivíduo em suas relações corporais com o outro.1 Segundo o esquema abaixo representado, podemos acompanhar o fluxo do processo evolutivo das sessões de Psicomotricidade Relacional. Todos temos uma história pessoal determinada pelo inter-relacionamento com o meio e que fica perpetuada em nossa unidade psicossomática por meio de con- trações tônicas que com o passar do tempo tornam-se crônicas e involuntárias. Por meio do jogo espontâneo, o psicomotricista relacional faz uma decodi-ficação simbólica dos conteúdos jogados pelo sujeito e traça suas intervenções no sentido de auxiliá-lo a evoluir em suas questões relacionais, a flexibilizar seu padrão tônico-relacional, possibilitando ao indivíduo expressar seus desejos e necessidades e, portanto, reencontrar e refazer a relação com seus pares e o meio circundante, fato que vai repercutir diretamente na sua história pessoal. Contribuições da Psicomotricidade Relacional para o Ambiente Educacional Através da atividade lúdica espontânea, como já dissemos, a Psicomotrici- dade Relacional oferece ao indivíduo espaço e tempo adequados, nos quais pode expressar suas dificuldades relacionais, objetivando oferecer-lhe a possibilidade de reencontrar e reconstruir a relação com o “outro”. 1 FRANCH, N. Ps ico- m o t r i c i d a d e r e l a - c ional : una h ie r rementa e d u c a t i v a . B a r c e l o n a , 1992. (Inédito). 2 – permissivo – desculpabilizador – acolhedor Psicomotricidade Relacional: uma contribuição integrada para o olhar educacional 35 Quando nos referimos aos encontros corporais afetivos e citamos pais e/ou substitutos como parte essencial dessas vivências, incluímos a figura do educador como substitutivo dos vínculos afetivos familiares e co-participantes na estruturação da unidade psicossomática infantil. Como exemplo, podemos citar o caso de uma menina que trazia em sua história pessoal a marca de maus tratos o que lhe gerou bastante dificuldade em confiar nos educadores da creche. Sua maneira de expressar essa desconfiança era não se comunicando, mantendo-se sempre isolada e calada, olhos baixos e ao me- nor sinal de aproximação dos adultos, ficava paralisada, tono corporal enrijecido, olhos arregalados e expressava um sorriso cristalizado na face, ou seja, ficava em pânico. Dentro do trabalho regular de sala, não era possível trabalhar a questão de sua desconfiança, pois o processo parte, na maioria das vezes, do adulto para a criança e ela apresentava-se com bastante dificuldade em aceitar o educador e o que quer que viesse dele. Gerava, portanto, um movimento contratransferencial por parte dele, traduzido em irritabilidade e pouca disponibilidade, fato que acentuava ainda mais os padrões relacionais da educanda. Nesse caso, a Psicomotricidade Relacional auxiliou por sua abordagem não-dire- tiva. O psicomotricista, reconhecendo a desconfiança e medo dessa criança em relação ao meio, generalizadamente hostil, traçou suas intervenções utilizando-se de todos os mediadores de relação (gestos, sons, objetos etc.) no sentido de, paulatinamente, à medida que a criança abria uma chance de proximidade, ele respondia a essa abertu- ra com uma atitude de escuta, respeito e afetividade, postura que pouco a pouco foi ressignificando a presença desse adulto não somente como possibilidade de agressão, mas de troca e reconhecimento, proporcionando para a educanda uma nova maneira de ver essa figura de poder, e estar dentro do ambiente institucional. Com essa sucinta apresentação, procuramos lançar luz sobre a maneira como a Psicomotricidade Relacional pode auxiliar na compreensão dos processos comu- nicacionais infraverbais e enfatizar a necessidade de se resgatar para o ambiente educacional a linguagem tônico-afetiva. Sua ação não se restringe aos casos de introversão, pois dada a concepção unificadora do indivíduo e por apoiar-se no discurso corporal, infraverbal, incidindo diretamente na história tônico-afetiva das pessoas, abre-se uma gama de possibilidades de manutenção da saúde psicoafetiva dos implicados. Considerações Finais Em nossa trajetória com a Psicomotricidade Relacional, nos ambientes educa- cionais anteriormente citados, notamos que a maioria dos educadores, em sua prática cotidiana e mesmo durante a participação nas sessões de Psicomotricidade Relacional, guarda em sua natureza uma disponibilidade inerente para estabelecer vínculos afetivos e opera esse fato de uma maneira empírica com bastante eficiência. Infelizmente, grande parte desse potencial vincular transforma-se numa espécie de “lixo relacional” dada a impossibilidade dos educadores, por motivos Psicomotricidade 36 diversos, agirem conscientemente sobre os conteúdos comunicacionais não-ver- bais. Essa situação ocorre devido à dinâmica acelerada da rotina da instituição, pela supervalorização do cumprimento dos conteúdos programáticos, pela falta de reconhecimento da importância das comunicações tônico-afetivas, pela impos- sibilidade de entender o sintoma como manifestação de uma necessidade e, por último, pelo desconhecimento do papel fundamental que os educadores operam na estabilidade emocional e cognitiva das crianças. Trabalhar um ponto de vista relacional certamente implicou em uma revisão, não somente da proposta pedagógica das creches, mas também uma revisão das atitudes das atendentes e de toda a equipe de funcionários envolvidos no processo de desenvolvimento infantil, sobre a postura adotada diante das crianças. Nossos resultados, embora todas as dificuldades inerentes de um processo como esse, numa instituição desse tamanho, foram bastante animadores. A partir desse projeto, ainda que não contemos com dados estatísticos, constatamos, por meio do acompanhamento linear comparativo, os seguintes benefícios atribuídos à intervenção pela Psicomotricidade Relacional: além de colaborar diretamente na adaptação e socialização das crianças, na estruturação de sua dimensão agressiva, na possibilidade de expressão de suas idéias, necessidades e desejos, apresentou-se uma maior participação no desenvolvimento das propostas pedagógicas; baixa de ansiedade e acréscimo da espontaneidade das educadoras a partir de uma melhor compreensão dos aspectos comunicados pelas crianças por meio de suas múltiplas manifestações; essa atitude dos educadores foi incorporada aos procedimentos cotidianos das educadoras, extrapolando o contexto das sessões de Psicomotricidade Relacional; pela linguagem comum gerada pela co-vivência, supervisores, atendentes e diretoras adquirem ação mais integrada no trato com as crianças, tornando as supervisões mais proveitosas, suposto que partia de uma experiência compartilhada por todos; os encontros de reflexão e os seminários de desenvolvimento infantil adqui- rem uma possibilidade concreta de aplicação, redirecionando a ótica sobre os processos de desenvolvimento infantil. Concluindo, podemos apontar a Psicomotricidade Relacional como um pro- cesso de humanização com repercussões bastante profundas não somente no que tange ao crescimento das crianças, mas também como alavanca explicitadora dos processos relacionais/comunicacionais de toda a instituição. Sabendo que o ser humano é um ser eminentemente relacional e que, todas as construções advindas das interrelações do sujeito com o meio passam neces- sariamente pelo corpo, intencionamos com essa explanação explicitar a partir de nossa experiência, as contribuições que a Psicomotricidade Relacional pode oferecer à formação de um processo educacional que leve em conta não somente Psicomotricidade Relacional: uma contribuição integrada para o olhar educacional 37 os aspectos cognitivos, mas também a diversidade de componentes que integram o sujeito e lhe possibilitam uma utilização criativa desse conhecimento para seu desenvolvimento e de sua sociedade. Contribuições da Psicomotricidade para os Processos de Inclusão na Educação o prepararmos a estrutura deste trabalho, preliminarmente pensávamos em fazer um deta- lhamento das contribuições que a Psicomotricidade poderia oferecer à instituição escolar, no processo de inclusão de crianças com necessidades educativas especiais em salas regulares de ensino. Dadas as nossas limitações e a variedade infinita de possibilidades que tal empreitadanos colocaria, logo se apresentou como impossível nosso ideal. Frente a estes fatos, optamos por proceder um recorte, tanto técnico, quanto epistemológico, que pudesse promover uma reflexão sobre alguns elementos da Educação Psicomotora que conside- ramos fundamentais para subsidiar o encaminhamento das questões relativas ao corpo e à inclusão no ambiente educacional. Neste sentido, recorremos às contribuições de nosso principal referencial teórico, a Psicomo- tricidade Relacional, e deste, elegemos a atividade lúdica espontânea e a atitude do educador frente à mesma, para traçarmos algumas reflexões. Essa opção se justifica pelo fato de acreditarmos no jogo, sobretudo no jogo livre e grupal, como um dos principais meios pelo qual o ser humano experimenta, lúdica e descontraidamente, a diversidade das relações inerentes à nossa espécie. Além disso, sabemos que não é simples levar a cabo tal tarefa, na medida em que o que vamos propor não é, simplesmente, um espaço para “deixar fazer” (laisse faire), mas a utilização cons- ciente do jogo livre como instrumento de aprendizagem social e cognitiva. Assim, é necessário explicitar e estimular reflexões a respeito daquilo que consideramos seus marcos primordiais. Para tal, inicialmente, retomaremos alguns conceitos da Psicomotricidade, situando a Educação e a Psicomotricidade numa perspectiva de inclusão. Num segundo e terceiro momentos, vamos expli- citar os principais elementos que oferecem sustentação ao jogo livre, no âmbito da Psicomotricidade Relacional, bem como traçaremos algumas considerações sobre a atitude do educador frente à pro- dução lúdica das crianças. Por último, faremos algumas considerações a respeito do modo pelo qual a atividade lúdica espontânea e compartilhada pode servir como base para aprendizagens escolares, inserindo-a, concretamente, como produção coletiva. Psicomotricidade e Educação Inclusiva Segundo análises anteriores, podemos sintetizar os principais elementos constitutivos da Psi- comotricidade da seguinte maneira: o psiquismo tem dois níveis – consciente e inconsciente; o corpo tem dois níveis estruturado e fantasmático; a atividade motora tem dois níveis – racional e projetivo. A própria Psicomotricidade, portanto, tem dois níveis – racional e relacional. A Psicomotricidade 40 Buscando uma delimitação didática para as dimensões que compõem os dois pólos da Psicomotricidade e de seus elementos, encontramos, em Cabral (2000, p. 17), que, para os primeiros níveis (consciente, estruturado, racional), esta área do conheci- mento vai priorizar o corpo da seguinte maneira: Corpo como instrumento funcional Corpo do tônus Corpo das atitudes e posturas Corpo da motricidade Corpo das sensações Corpo das percepções Corpo da lateralidade Corpo das emoções primárias (a nível icônico) Corpo como instrumento de conhecimento Corpo do conhecimento sobre si mesmo, corpo do Esquema Corporal Corpo que conhece o objeto e o outro Corpo que conhece o mundo: o espaço, o tempo, e a causalidade Corpo que vai permitir o percurso da ação ao pensamento Corpo base primária da possibilidade de abstração, da operatividade no sentido piagetiano e do raciocínio lógico Fazendo uma analogia com nossos estudos anteriores, os elementos presentes nesta primeira esquematização de Cabral recuperam as considerações feitas a res- peito das técnicas do primeiro e segundo períodos da Psicomotricidade, descritos por Le Camus: Corpo Hábil e Corpo Consciente. Com relação ao segundo nível dos elementos constitutivos da Psi- comotricidade (inconsciente, fantasmático, projetivo e relacional), Cabral (2000, p. 17) nos possibilita o entendimento do corpo nas seguintes dimensões: Corpo fantasmático e relacional Corpo da imagem corporal e dos fantasmas primitivos Corpo do contato afetivo nas relações objetais Corpo da comunicação com o outro Corpo social Corpo marcado pela lei na situação edipiana Corpo diferenciado sexualmente de acordo com papéis sociais Corpo influenciado por papéis culturalmente definidos Corpo manipulado, reprimido, ou valorizado, de acordo com a ideologia da sociedade Contribuições da Psicomotricidade para os Processos de Inclusão na Educação 41 Estas duas últimas dimensões do corpo, apontadas pela autora, estão diretamen- te ligadas aos estudos do período Corpo Significante, descrito por Le Camus (1986), dos quais fazem parte temas como: a comunicação e a relação corporal, a imagem corporal, a afetividade, a sexualidade, a agressividade, os limites, dentre outros. A educação, de modo geral, tende a conceber o corpo e a intervir sobre ele, considerando somente ao que denominamos acima de corpo funcional e corpo ins- trumento de conhecimento. Dentro desta perspectiva, observamos uma abordagem diretamente ligada à pedagogia de base taylorista-fordista, na qual consideram-se as habilidades psicomotoras como parte dos pré-requisitos mínimos para a execução do trabalho material capitalista. Para este tipo de trabalho, frente à sua extrema simplificação, prioriza-se um treinamento que não transcenda os modos de fazer, específicos do posto a ser ocupado pelo trabalhador, além do disciplinamento do corpo e da mente. Repetições e memorizações de seqüências de movimentos, rigida- mente encadeados, procuram estabelecer uma uniformidade de respostas e controle do corpo e da tarefa, ponto central do modo pelo qual o conhecimento gerado na área da Psicomotricidade contribui para viabilizar uma verdadeira economia do movimento. Vale ressaltar que este tipo de utilização das técnicas de abordagem psicomotoras, além de restringir o alcance de seu potencial formador, tem servido para sustentar uma ideologia classificatória, excludente e compensatória, na qual só aqueles que se encontram dentro da norma é que serão incluídos. A biologização, racionalização e a tentativa de homogeneização do corpo e do movimento humano a que se dedicou a Psicomotricidade dos primeiro e segundo períodos, descritos pelo citado autor francês, acabaram por colaborar para a expansão de uma lógica formal, linear e excludente, não permitindo que a dialeticidade inerente à realidade das relações humanas pudesse cumprir o seu papel inclusivo. No sentido de encontrar o lugar da Psicomotricidade enquanto instrumento de uma educação inclusiva, voltada para as diferenças, necessitamos compreender o corpo em sua dimensão relacional, na qual os múltiplos níveis de abordagem daquela área do conhecimento possam ser analisados de modo a explicitar suas inter-relações. Neste sentido, optamos por refletir sobre um espaço escolar que permita a manifestação do objetivo e do subjetivo, do consciente e do inconsciente, da falta e da potência, que auxilie os educandos na difícil tarefa de apreender as mediações que cada uma dessas dimensões da existência e das relações humanas estabelece umas com as outras. Para tal, entendemos como um caminho profícuo ampliar as reflexões nas quais o corpo, a experiência lúdica compartilhada e a emoção cum- prem papel central nesse processo. No campo psicomotor, uma das propostas mais significativas nesta direção foi sistematizada por André Lapierre e seus colaboradores, ao longo dos anos 70 e 80 do século passado1. Nela, Lapierre (2002, p. 34) propôs o abandono das práticas estritamente técnico-normativas, “colocando a ênfase (da prática psico- motora) sobre a primazia da relação com o outro, com seus conteúdos projetivos, simbólicos e fantasmáticos”. 1 Este método de traba-lho psicomotor deno- mina-se Psicomo-tricidade R e l a c i o n a l . P a r a u m a aproximação informativa a respeito deste método, ver o texto Psico-motricidade Relacional. Psicomotricidade 42 Optando por uma abordagem pautada na atividade lúdica espontânea e compartilhada, La- pierre defende a idéia de que “[é] preciso oferecer àcriança um meio pedagógico coerente, sem o que arriscamos acentuar sua inadaptação a uma escola que é, ela mesma, inadaptada. [...] Apareceu-nos, então, uma dimensão essencial que é a vida em grupo. A criança não vive sozinha suas dificuldades; ela as vive no “grupo classe”, e é não somente do professor, mas também de seus colegas que ela recebe a sua imagem.” (LAPIERRE, 1988, p. 14-15). Além disso, o autor, aprofundando as reflexões sobre sua prática no âmbito da reeducação psicomotora, enfatiza a necessidade de rever as técnicas e posicio- namentos da área, explicitando o seguinte ponto de vista: [optamos] trabalhar com o que há de positivo na criança; interessa-nos pelo que ela sabe fazer e não pelo que não sabe fazer. É a partir daí que a relação pedagógica pode descontrair-se, a situação deixar de ser dramatizada e a criança reencontrar a confiança e a segurança.[...] Neste ponto abandonamos o modelo médico [higienista]: diagnóstico, prescrição, tratamento, modelo sobre o qual funcionam os estabelecimentos de reeducação. [...] A partir daí, com efeito, não existe mais “reeducação”. Tudo se torna educação, tal como nós a concebemos, ou seja, desenvolvimento das potencialidades próprias de cada criança. (LAPIERRE, 1988, p. 13-14) Partindo das citações acima, fica implícito que a escola, e não só a escola brasileira, vem, historicamente, cumprindo um papel pasteurizador e formalizado, que precisa ser rompido para que uma ação educativa inclusiva se faça. Ao pretender simplificar e homogeneizar os processos de aprendizagem, as políticas públicas de educação, por meio da instituição escolar, reforçam situações de exclusão. Pela ótica da falta, aqueles que apresentam necessidades educativas especiais (e quem não o é?) estão automaticamente marginalizados. A linearidade do processo educacional, respaldado por práticas psicomoto- ras normativas e higienistas, ao romper com a dialeticidade das relações, da ação do sujeito com seus conteúdos emocionais, destes conteúdos com os conteúdos das disciplinas escolares, separa o sujeito de si, de seus pares humanos e, tam- bém, da consciência de que aquilo que se aprende na escola é produção humana, na qual ele está incluído. Ao oportunizarmos que a dialética se estabeleça no meio escolar, por exemplo, por meio de práticas psicomotoras que priorizem a relação corporal afetiva, a livre expressão, o reconhecimento das produções das crianças, a potência de cada sujeito encontra maiores possibilidades de se manifestar, de ser acolhida e incluída. Além disto, ao enfatizar, posteriormente, o produto da atividade lúdica espontânea do grupo como base geradora dos demais conhecimentos escolares, não só se inclui o sujeito no grupo, mas sua história como parte do conhecimento produzido pela humanidade. O Jogo Livre – uma ferramenta para o educador inclusivo Seguindo a perspectiva enunciada na parte introdutória deste trabalho, temos que os pontos fundamentais de uma prática psicomotora voltada para a inter-relação se pautam nas seguintes premissas: atividade lúdica espontânea grupal; Contribuições da Psicomotricidade para os Processos de Inclusão na Educação 43 foco nas pontecialidades de cada participante; corpo como meio de relação e de expressão das possibilidades, necessi- dades e desejos do sujeito; integração entre os níveis consciente e inconsciente; entre o lógico e o analógico; posterior utilização dos conteúdos do trabalho psicomotor com os conhe- cimentos científicos a serem desenvolvidos em sala. Winnicott, referindo-se ao processo analítico com crianças, diz o seguinte: A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é. [...] Em outros termos, é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, por- tanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. (apud CABRAL, 2000, p. 40) Sabemos que o processo terapêutico refere-se a um refinado processo de apren- dizagem, no qual o paciente pode confrontar-se com as sistematizações relacionais que organizou intrapsiquicamente e ter a oportunidade de apreender suas mediações. Neste sentido, aquilo que Winnicott afirma acima, referente à psicoterapia, serve como uma luva para as reflexões que procuramos explicitar com este trabalho. Neste sentido, nós nos ocuparemos, a partir daqui, a explicitar os pressupostos básicos daquilo que é uma das contribuições fundamentais da Psicomotricidade para a educação – a atividade lúdica espontânea. A Atividade Lúdica Espontânea O jogo, como facilitador do processo educacional, tanto para a estruturação da personalidade como para os processos cognitivos, vem sendo largamente estudado por profissionais das áreas ligadas à saúde e educação, portanto: como já vimos, não é um atributo só dos autores da Psicomotricidade. Em que pesem as várias classificações de jogo que podemos encontrar na literatura, particularmente neste trabalho, abordaremos alguns aspectos do que chamou-se atividade lúdica espontânea ou jogo livre, meio utilizado, sobretudo, para facilitar a dinâmica relacional e comunicacional no método de André Lapierre. A idéia de trabalhar, em Psicomotricidade Relacional, com a atividade lúdica espontânea se deu pela influência do papel que cumpre o livre discurso na Psica- nálise. Com a possibilidade do corpo brincar livremente, a partir de um mínimo de regras (sem machucar-se, sem machucar os colegas e preservando o que dever ser preservado no ambiente) e utilizando-se materiais com qualidades potencializado- ras da criatividade2, oportuniza-se que cada membro do grupo possa se colocar em relação a seus pares com o que sabe fazer – brincar, divertir-se, compartilhar emoções, criar etc. 2 S o b r e o s m a t e r i a i s utilizados na atividade lúdica espontânea em Psi- comotricidade Rela-cional, s u g e r i m o s a l e i t u r a d o l i v r o : L A P I E R R E , A . e LAPIERRE A. O Adulto diante da criança de 0 a 3 anos . Curitiba: Editora UFPR, 2002. Psicomotricidade 44 Deste modo, a possibilidade de compartilhar com o outro experiências lú- dicas significantes outorga à pessoa um senso de pertencimento, de acolhimento e aceitação. Esta marca, pouco a pouco, produz no sujeito a tendência de ele próprio acolher e aceitar os outros. Tal condição inicial de contar com e dispor-se ao outro constitui elemento fundamental para que o indivíduo estruture suas fantasias de confiança. Do pequeno grupo, uma vez confiante, ele se abre à possibilidade de lançar-se em novas situações lúdicas, ampliando quantitativamente e qualitativa- mente seus modos de relação e de comunicação. Para que haja um referencial de segurança no qual o jogo, a relação e a expres- são corporal sejam de fato construtivas, a atividade lúdica espontânea deve guardar as seguintes características: ser permissiva, desculpabilizante e estruturante. Ao falarmos de jogo livre, pressupomos a possibilidade da criança para fazer, jogar, sem que seja julgada positiva ou negativamente. Se estamos nos propondo a abrir um espaço para o compartilhar das emoções e dos sentimentos, é necessário que o educador adote uma atitude que considere esses aspectos da existência humana como não-passíveis de julgamento. Desde que guardados os limites mínimos (já cita- dos anteriormente) de segurança física e psíquica, deve-sepreservar a possibilidade de expressão de tais aspectos, fundantes das relações humanas, como se preserva a possibilidade de expressão a qualquer produção mais intelectualizada do sujeito. Uma atitude desculpabilizante frente às produções das crianças é comple- mento essencial para a dimensão permissiva do jogo livre. De que vale deixar expressar se vamos, posteriormente, colocar uma carga de culpa e julgamento sobre o sujeito? O trabalho do educador, neste sentido, consiste em distinguir quais as expres- sões que são ou não possíveis para o contexto, permitir ou restringi-las, sem, no entanto, colocar um juízo de valor sobre tais expressões. No caso da necessidade de restrições à emancipação de determinado conteúdo, o educador tem o compro- misso de ajudar o indivíduo a elaborar a frustração; além disso, deve auxiliá-lo a encontrar novas formas, cada vez mais simbólicas, de manifestar seu desejo ou necessidade. Neste ponto, introduz-se o último dos atributos fundamentais do jogo livre: o seu caráter estruturante. Refere-se à possibilidade do adulto, enquanto principal referencial de segurança, recolher as produções das crianças e auxiliar na sua ressignificação. O Educador Joga e Deixa Jogar Uma vez que o papel do educador é o de participar dinamicamente de modo corporal, utilizar a verbalização nos momentos oportunos e estar de corpo e alma animando a atividade lúdica espontânea, duas posturas básicas são importantes para que ele possa compreender melhor a atitude e situar-se como companheiro de jogo das crianças: a observação e a espera. Em primeiro lugar, a atitude do educador deve ser de espera. Uma espera atenta e ativa, pautada na observação das condutas e manifestações, no respeito e Contribuições da Psicomotricidade para os Processos de Inclusão na Educação 45 na aceitação da forma de ser do sujeito. Qualquer projeto de trabalho, para além do conhecimento teórico das diferentes etapas de desenvolvimento que o sujeito deverá superar e dos recursos que se dispõe para colocar em marcha uma ação fa- cilitadora deste desenvolvimento, há que se partir sempre desta atitude de respeito e aceitação do outro, de sua forma de ser e estar, de seus modos de explicitar seus desejos e necessidades. A espera é a primeira ferramenta da qual dispomos para que possamos ob- servar e compreender as condutas do sujeito, as relações que ele estabelece com os demais, com os objetos e com o espaço. Não se deve intervir precipitadamente. É necessário observar, “escutar”, esperar que ele se manifeste para que se possa entrar em seu jogo, estimulando, assim, um ambiente seguro no qual o sujeito seja encorajado a colocar-se mais. Ser parceiro de jogo das crianças supõe, portanto, uma mudança radical na atitude condutivista, donatária do supremo saber sobre o outro, muito presente no âmbito da educação, recolocando o educador no lugar daquele que sabe muito pouco sobre o outro que está diante de si e que, portanto, necessita escutá-lo antes de agir. Nesta perspectiva nos deparamos com um dos planos mais difíceis, impostos por um trabalho que considere a diferença, a criatividade, a relação, os afetos, a ética e a emancipação do sujeito como eixo: assumir a insegurança do não saber.3 O Conteúdo do Jogo Invade a Sala de Aula Finalizando nossas reflexões, temos que considerar o fato de que, para que a produção lúdica e afetiva do sujeito possa encontrar um lugar junto ao conheci- mento científico produzido pela humanidade, é necessário explicitar as mediações existentes entre estas duas produções. Seguindo este propósito, sugerimos que a atividade lúdica compartilhada possa, posteriormente, tornar-se um desenho, no qual a criança vai expressar o que viveu. Este procedimento auxilia uma primeira “visualização” e expressão pelo educando daquilo que viveu e compartilhou no jogo. Deste desenho, pode-se propor, por exemplo, uma atividade de expressão oral na qual o sujeito conta sua vivência e, ao mesmo tempo, pode trabalhar os diversos elementos constitutivos do processo de comunicação verbal. Na seqüência, esta atividade preliminar pode transformar-se num texto escrito, a partir do qual pode-se trabalhar inúmeras questões relativas ao ato da escrita e, também, impulsionar elaborações relativas a outras áreas do conhecimento. Enfim, propomos aqui que, a partir da produção compartilhada pelo grupo-classe, o educador possa dinamizar um processo de me- diação entre as produções do sujeito no grupo-classe, com o que é conhecimento científico, socialmente produzido. Deste modo, não somente incluímos a subjetividade no coletivo, mas, tam- bém, impulsionamos um processo de mediação entre o particular e o social, sem o que toda a preparação do sujeito não encontrará possibilidades de tornar-se, verdadeiramente, revolucionária, transformadora. 3 P a r a a p l a c a r a s a n -siedades e colocar os educadores mais confor- t áve i s na t a re fa , en fa t i - zamos a impor t ânc ia de opor- tunizar, também ao educador, um espaço no qual ele possa colocar suas d ú v i d a s , d i f i c u l d a d e s e suas conquistas, que possa o p o r t u n i z a r - l h e , j u n t a - m e n t e c o m s e u s p a r e s , um debate franco e aberto re la t ivo às s i tuações en- frentadas no processo de c o m p a r t i l h a r d o s j o g o s com as crianças. Psicomotricidade 46 Considerações Finais Sabemos que este texto não tem alcance para suprir as lacunas de formação relativas à Psicomotricidade. Coube-nos aqui, tão-somente, encaminhar algumas reflexões e sugestões para que aquilo que é conhecimento gerado no seio dos es- tudos desta área do conhecimento possa ser aproveitado pelos educadores como portal para a pluralidade das relações. Facilitar um espaço de desafios, que ofereça às crianças a oportunidade para desenvolver suas capacidades e conquistar autonomia social e intelectual, tendo como eixo fundamental a ética, a justiça e os direitos humanos, não é tarefa fácil, sobretudo frente aos percalços que as políticas educacionais e a organização pro- dutiva nos impõem. Esperamos, com este breve trabalho, ter oferecido alguns instrumentos, práticos e reflexivos, para dar suporte ou, fazendo um jogo de palavras, ajudar a suportar a tarefa de promover um processo educacional verdadeiramente socioa- fetivo, solidário, participativo, colaborativo e emancipatório. Anexo A Tabela de Desenvolvimento de Arnold Gesel 1 ano Conhecimento do próprio corpo. Distinção entre figuras familiares e estranhas. Início do andar. Início do jogo manipulativo. “Idade desarrumadora” – desabrochar da mobilidade. 2 a 3 anos Noção de sua identidade (nome, imagem no espelho, fotos). Fase de oposição. Desenvolvimento considerável da linguagem. Início da socialização. Disciplina esfincteriana. 4 anos Fase contraditrória e de interesse pelos outros. 5 a 6 anos Cooperação e disciplinas sociais. 7 a 8 anos Plena integração do corpo. Aperfeiçoamento das habilidades adquiridas anteriormente. Reconhecimento da lateralização no outro. Instalação forte da conduta ética e da importância de valores e normas. Procura de contatos fora de casa. 9 a 10 anos Automatização dos movimentos habituais até se tornarem ágeis. Mais relaxados na postura. Psicomotricidade 48 Levanta alternativas para solucionar problemas. Relaciona-se cooperativamente com a comunidade. Explica conceitos abstratos. Valoriza grupo de amigos. 11 a 12 anos Combina movimentos e equilibra habilidades e força muscular. Reflexivo e espontâneo. Movimentos expressivos tanto faciais quanto corporais. Início da adolescência. Anexo A 49 BUENO, Jocian Machado. Psicomotricidade: teoria & prática: estimulação,educação e reeducação psicomotora com atividades aquáticas. São Paulo: Lovise, 1998. GESSELL, A. et al. El niño de 5 a 10 años. Buenos Aires: Paidós, 1960. _____. El niño de 1 a 5 años. Buenos Aires: Paidós, 1979. Anexo B Ficha de observação em psicomotricidade relacional (Adaptação da tabela proposta por FRANCH, Nuria, 1990). C om pa nh ei ro s Ps ic om ot ri ci st a R el aç ão c om o s o bj et os Ti po s d e re la çã o R el aç ão c om o e sp aç o F ic ha d e ob se rv aç ão e m P si co m ot ri ci da de R el ac io na l N om e: _ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ __ N as c. : __ __ /_ __ _/ __ __ Fo nt e: F R A N C H , N ur ia . D os ie r de p si co m ot ri ci da de r el ac io na l. B ar ce lo na : A ss oc ia ci on E sp an ho la d e Ps ic om ot ric id ad R el ac io na l, ju nh o, 1 99 0. 1. Ig no ra 2. R ec us a 3. Ev ita 4. Fi xa -s e em a lg ué m 5. B us ca c om pl em en to 6. Pa rti ci pa p ar al el am en te 7. Pa rti ci pa a tra vé s d e ou tro s 8. Pa rti ci pa a tiv am en te 9. É pa ss iv a 10 . É ag re ss iv a 11 . É do m in ad or a 12 . É po ss es si va 13 . D e su bm is sã o 14 . D e im ita çã o 15 . D e in te rc âm bi o 16 . R el aç ão b as ic am en te d ua l 17 . R el aç õe s t ria ng ul ar es 18 . Pl ur al id ad e de re la çõ es 1. Ig no ra 2. R ej ei ta 3. Pr es ci nd e 4. Fi xa çã o em a lg um o bj et o 5. Jo go e st er eo tip ad o 6. O bj et o su bs tit ut o 7. D es tru iç ão d e ob je to s 8. M on op ol iz a ob je to s 9. O rd en a ob je to s s em o bj et iv o ap ar en te 10 . D is pe rs a ob je to s 11 . Jo go s d e im ita çã o 12 . O bj et o in te rm ed iá rio 13 . O bj et o de in te rc âm bi o 14 . A tiv id ad es e xp lo ra tó ria s 15 . Jo go c on st ru tiv o 1. O cu pa d e há bi to o m es m o lu ga r 2. Lu ga re s a fa st ad os 3. Es pa ço s f ec ha do s 4. Es pa ço s a be rto s 5. Li m ita se u es pa ço 6. N ec es si ta a m pl ia r s eu e sp aç o 7. O cu pa q ua lq ue r l ug ar 8. A ce ita o o ut ro e m se u es pa ço 9. C ap az d e co m pa rti lh ar se u es pa ço 10 . D es lo ca -s e se gu in do a s p ar ed es 11 . D es lo ca -s e de fo rm a es te re ot ip ad a 12 . D es lo ca -s e se m o bj et iv o ap ar en te Psicomotricidade 52 R el aç ão c on si go m es m o A gr es si vi da de Se ns ua lid ad e L eg en da : (1 ) N un ca (2 ) R ar am en te (3 ) A lg um as (4 ) F re qü en te m en te (5 ) S em pr e A fi rm aç ão Si m bo liz aç ão C ul pa bi lid ad e A ut o- es tim ul aç ão A fe tiv id ad e Pe rm an ên ci a Se xu al id ad e R es po st a à fr us tra çã o 1. A ut o- ag re ss ão 2. Is ol am en to 3. A ut o- es tim ul aç ão 4. N eg a a fr us tra çã o 5. B irr as 6. A gr id e os o ut ro s 7. D es tró i o bj et os 1. A ut o- cu lp ab ili za çã o ha bi tu al 2. A ng us tia -s e fr en te à c ul pa 3. A us ên ci a de se nt id o de c ul pa 4. N eg a a cu lp a 5. C ul pa h ab itu al m en te o s o ut ro s 6. A ss um e a cu lp a 1. D ifi cu ld ad e em a fi rm ar -s e 2. A fi rm aç ão p or o po si çã o 3. A fi rm aç ão p or im po si çã o de s i 4. P or m ei o da a gr es si vi da de 5. C ap ac id ad e de d ef en de r-s e 6. C ap ac id ad e de re sp ei ta r o s o ut ro s 7. C ap ac id ad e de d iá lo go 1. E xt ro ve rs ão 2. In tro ve rs ão 3. A ut o- ag re ss ão 4. C on st ru tiv a 5. D es tru tiv a 1. H ip er at iv id ad e im pr od ut iv a 2. P er m an ên ci a m ín im a 3. D ifi cu ld ad e em s it ua çõ es d e ca lm a 4. D ifi cu ld ad e em s it ua çõ es d in â- m ic as 5. D ifi cu ld ad e em s it ua çõ es d ua is 6. D ifi cu ld ad e em s it ua çõ es tr ia n- gu la re s 7. D ifi cu ld ad e em s it ua çõ es d e gr up o 1. O ra lid ad e 2. E st er eo tip ia s c or po ra is 3. E st er eo tip ia s c om o bj et os 4. M as tu rb aç ão 5. A ut o- ag re ss ão 6. F re qü en te , s em m ot iv o ap ar en te 7. P or fa lta d e at en çã o 8. D ia nt e da fr us tra çã o 9. D ia nt e de in se gu ra nç a 10 . E m si tu aç õe s d e an si ed ad e 1. Q ua nt o ao m at er ia l 2. Q ua nt o às p es so as 3. Q ua nt o ao te m po 1. A ss um id a 2. B lo qu ea da 3. C ul pa bi liz ad a 1. R ec on he ce se u pr óp rio 2. A ss um e o po de r 3. R ec on he ce o p od er /o ut ro 1. A ss um id a 2. B lo qu ea da 3. C ul pa bi liz ad a 1. A ss um id a 2. B lo qu ea da 3. C ul pa bi liz ad a Referências AJURIAGUERRA, J. Manual de Psiquiatria Infantil. São Paulo: Manson, 1983. ALVES, G. L. A Produção da Escola Pública Contemporânea. Campinas: Unicamp, 1998. BERNARD, M. El Cuerpo. Barcelona: Paidós, 1985. BUENO, J. M. Psicomotricidade: teoria e prática. Rio de Janeiro: Lovise, 2000. CABRAL, S. Psicomotricidade Relacional: prática clínica e escolar. Rio de Janeiro: Revinter, 2000. 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Psicomotricidade 54 Anotações Parte I Ouviram do Ipiranga as margens plácidas De um povo heróico o brado retumbante, E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, Brilhou no céu da pátria nesse instante. Se o penhor dessa igualdade Conseguimos conquistar com braço forte, Em teu seio, ó liberdade, Desafia o nosso peito a própria morte! Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Brasil, um sonho intenso, um raio vívido De amor e de esperança à terra desce, Se em teu formoso céu, risonho e límpido, A imagem do Cruzeiro resplandece. Gigante pela própria natureza, És belo, és forte, impávido colosso, E o teu futuro espelha essa grandeza. Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! Parte II Deitado eternamente em berço esplêndido, Ao som do mar e à luz do céu profundo, Fulguras, ó Brasil, florão da América, Iluminado ao sol do Novo Mundo! Do que a terra, mais garrida, Teus risonhos, lindos campos têm mais flores; “Nossos bosques têm mais vida”, “Nossa vida” no teu seio “mais amores.” Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Brasil, de amor eterno seja símbolo O lábaro que ostentas estrelado, E diga o verde-louro dessa flâmula - “Paz no futuro e glória no passado.” Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta, Nem teme, quem te adora, a própria morte. Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! Atualizado ortograficamente em conformidade com a Lei 5.765 de 1971, e com o artigo 3.º da Convenção Ortográfica celebrada entre Brasil e Portugal em 29/12/1943. Hino Nacional Poema de Joaquim Osório Duque Estrada Música de Francisco Manoel da Silva Psicomotricidade 56