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UFF – Língua Portuguesa V Anotações sobre fonemas e fones 1. Fonema: unidade formal capaz de distinguir o significado entre palavras. Observe os pares: “cata” e “gata”; “bata” e “pata”; “data” e “lata” → pares mínimos: pares de palavras em que apenas um elemento sonoro os diferencia. Pelo processo de comutação (basicamente, o processo de substituição de uma unidade formal por outra), identificamos que o que muda, respectivamente, nos pares citados são os fonemas /k/ e /g/, /b/ e /p/ e /d/ e /t/. 2. De acordo com Dubois et al. (2006, p. 280): Fonema é a menor unidade destituída de sentido, passível de delimitação na cadeia da fala. Cada língua apresenta, em seu código, um número limitado e restrito de fonemas (de vinte a cinquenta, conforme a língua) que se combinam sucessivamente, ao longo da cadeia de fala, para constituir os significantes das mensagens, e se opõem, segmentalmente, em diferentes pontos da cadeia da fala para distinguir as mensagens umas das outras. Sendo esta sua função essencial, o fonema é seguidamente definido como a unidade distintiva mínima. O caráter fônico do fonema é acidental [...]; não obstante, isso é importante [...]. O fonema é, pois, definido com referência a uma substância sonora, por certas características que se encontram nos diferentes níveis de transmissão da mensagem (nível motor ou genético, nível acústico, nível perceptivo etc.) a) Fonema é a menor unidade destituída de sentido → Essa descrição remete, de algum modo, ao conceito de dupla articulação da linguagem proposto por André Martinet: • as línguas são duplamente articuladas, o que representa um fator de grande produtividade e economia, uma vez que evita a sobrecarga da memória tanto na emissão quanto na percepção das mensagens. Na primeira articulação, as unidades mínimas são os morfemas (monemas), signos mínimos (têm significante e significado). Na segunda articulação, as unidades mínimas são os fonemas, destituídos de significado. Assim, os morfemas carregam em si algum significado (seja lexical, seja gramatical), ao passo que os fonemas são desprovidos de significado em si mesmos. • Com base na definição de Jakobson (o fonema é definido como um feixe de traços distintivos), o fonema não seria a unidade distintiva mínima, não seria indivisível: trata-se de um conjunto ordenado (o que amplia o sentido de “feixe”) de traços (características/propriedades) acústicos ou articulatórios que o compõem e que distinguem um fonema do outro. /p/ e /b/ → diferenciam-se quanto a um traço distintivo (vozeado / desvozeado - sonoridade). • De acordo com Leonor Scliar Cabral (2003 apud ROBERTO, 2016), os traços distintivos constituem a terceira articulação (nem todos os linguistas consideram esse nível de articulação). b) Os fonemas se combinam sucessivamente, ao longo da cadeia de fala → isso remete à linearidade discutida por Sausurre. Há traços prosódicos ou suprassegmentais (característica fônica que não se organiza linearmente na cadeia de fala e que se sobrepõe a um segmento vocálico e/ou consonantal), como o acento, que também são distintivos (sabia / sabiá / sábia). c) Os fonemas se opõem, segmentalmente, em diferentes pontos da cadeia da fala → isso diz respeito às relações sintagmáticas (em presença), em que se observa um contraste entre os fonemas, e às relações paradigmáticas (em ausência), em que se observa uma oposição entre as unidades que se dá em ausência. • relações paradigmáticas: associa uma unidade da língua num enunciado a outras não presentes, mas que ocupariam o mesmo espaço linear dentro dele. • relações sintagmáticas: realiza-se com outras unidades presentes no enunciado, linearmente dispostas em outro espaço. d) O caráter fônico do fonema é acidental → os órgãos do aparelho fonador não são exclusivamente mobilizados para a fala; a capacidade de comunicação verbal pode se manifestar por meio de gestos, por exemplo. Em Libras, as unidades mínimas que distinguem significado são quiremas (configuração manual mínima distintiva em línguas de sinais). e) O fonema é definido com referência a uma substância sonora, por certas características que se encontram nos diferentes níveis de transmissão da mensagem → o fonema não é som, é uma abstração: trata-se da representação mental (“imagem acústica”) que se tem de uma classe de fones, sua realização concreta (física e material) → em termos saussurianos, o fonema seria a forma; o fone, a substância. 3. Se o fone é a realização de um fonema e se o fonema pode ser realizado de diferentes formas, há variação → alofonia. Compare: “tia” e “dia” → /t/ e /d/ “tia” (dialeto carioca / dialeto potiguar) → [t] e [tS] (alofones diferentes associados a um único fonema) → /t/ 3.1. Há alofones livres e alofones posicionais. a) Observemos os róticos, por exemplo, em “rato”, “mar” e em “carrapato” em algumas variedades do PB. [x, h] → alofones livres (podem aparecer no início ou final de sílaba; sílaba inicial, medial ou final) b) “tia” (dialeto carioca) → [tS] “tato” → [t] A realização de [tS] só se verifica antes de /i/ → condição fonética para a ocorrência da africada: alofonia posicional (distribuição complementar) = [tS] e [t] são variantes posicionais de /t/. Quando dois segmentos estão em distribuição complementar ou em variação posicional, eles ocorrem em ambientes exclusivos, ou seja, onde uma variante ocorre, a outra não ocorrerá (/t/ ocorre como [tS] antes de /i/ e como [t] nos demais ambientes). Segundo Mattoso Câmara Jr. (1994), os alofones são livres “quando dependem dos hábitos articulatórios um tanto diversos dos falantes da língua” e posicionais “quando dependem da posição do fonema na enunciação, onde a contiguidade de certos outros fonemas ou a sua posição na sílaba altere a articulação”. EXERCÍCIOS 1) Como se pode diferenciar fone e fonema? 2) É correto afirmar que os fonemas de uma língua contrastam segmentalmente em relações sintagmáticas e se opõem em relações paradigmáticas? Justifique sua resposta. 3) De forma geral, como se pode depreender os fonemas de uma língua? 4) Considere o dialeto carioca e explique se os alofones [d] e [dʒ] do fonema /d/ estão em distribuição complementar ou em variação livre. dia [dʒ] data [d] adeus [d] padrão [d] dúvida [d] digno [dʒ] adiar [dʒ] dragão [d] 5) Para cada par de som, forneça pares mínimos de modo a provar que são fonemas: S / ʒ l / ʎ ɛ / e ɔ / o REFERÊNCIAS CAVALIERE, Ricardo Stavola. Pontos essenciais em fonética e fonologia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira / Lucerna, 2010. DUBOIS, Jean et al. Dicionário de Linguística. São Paulo: Cultrix, 2006. MATTOSO CÂMARA Jr., Joaquim. Problemas de linguística descritiva. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. ROBERTO, Tania Mikaela Garcia. Fonologia, fonética e ensino: guia introdutório. São Paulo: Parábola, 2016.