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1ª Unidade O ser humano: um ser em desenvolvimento Introdução No estudo da Psicologia, há algumas áreas com conteúdos próximos uns dos outros, mas com abordagens diferentes. Assim, é possível distinguir Psicologia Infantil, Psicologia Genética e Psicologia do Desenvolvimento, dentre outras. Estas áreas correspondem também a realidades relacionadas, mas diferentes, como os conceitos de crescimento (mudança física), maturação (mudanças nas estruturas neurológicas e glandulares), aprendizagem (mudança relativamente estável no potencial de comportamento, atribuível a uma experiência), desenvolvimento (mudanças não só nas estruturas físicas, neurológicas e glandulares, mas também no comportamento, nas estruturas psicológicas e nos traços de personalidade), evolução ontogenética (mudanças acontecidas ao longo da história pessoal de determinado indivíduo) e filogenética (mudanças operadas ao longo da história e da evolução das espécies). Esta primeira unidade ajudará a você não só a entender o conceito de Psicologia do Desenvolvimento, mas também o auxiliará na contextualização da família e da criança contemporânea. Abordará também a aplicação da Psicologia do Desenvolvimento à prática educacional. Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: Conceituar Psicologia do Desenvolvimento. Identificar as mudanças ocorridas na instituição familiar e seus efeitos no desenvolvimento da criança. Destacar as contribuições da Psicologia do Desenvolvimento para a prática educativa. Esta unidade está dividida em: Aula 1 - Origem da Psicologia do Desenvolvimento: Conceituação e caracterização Aula 2 - A família e a criança contemporâneas: as práticas educativas familiares e o desenvolvimento Aula 3 - A Psicologia do Desenvolvimento e sua aplicação na prática educacional A história de Pelé, grande atleta brasileiro, ajudará você a entender a importância da família, do contexto do desenvolvimento e de nosso calendário maturacional como elementos norteadores do processo de desenvolvimento humano. E então? O que você achou dessa história? Interessante? A história de Pelé, que tanto nos orgulha, nos ajuda a entender o processo de desenvolvimento do ser humano. Vejamos: trata-se de um menino pobre que, com o estímulo familiar, um contexto propício de desenvolvimento e habilidades físicas, supera suas dificuldades. Isso nos faz pensar que o conhecimento produzido pela Psicologia do Desenvolvimento nos possibilita, enquanto educadores, compreender o nosso aluno e mediar seus processos de desenvolvimento. Aula 1 Origem da Psicologia do Desenvolvimento: Conceituação e Caracterização Estudar o desenvolvimento humano envolve conhecer as variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo o ciclo da vida, fazendo interface com diversas áreas do conhecimento. Existe hoje um consenso de que a Psicologia do Desenvolvimento Humano deve focar os indivíduos ao longo de todo o ciclo vital. Os psicólogos do desenvolvimento são sempre confrontados com novos desafios que envolvem, sobretudo, o caráter multidisciplinar dessa disciplina. Isto faz com que esses psicólogos precisem encontrar uma linguagem que facilite a comunicação entre profissionais de diferentes áreas de atuação. Você deve estar se perguntando: "Mas, afinal, o que é o desenvolvimento?". Tradicionalmente o estudo do desenvolvimento humano focou o estudo da criança e do adolescente. O interesse pelos anos iniciais de vida dos indivíduos tem sua origem na história do estudo científico do desenvolvimento humano. Ele se iniciou com a preocupação com os cuidados e a educação das crianças e com o próprio conceito de infância como um período particular do desenvolvimento. Entende-se hoje que o desenvolvimento é um conjunto de processos dinâmicos que ocorrem no ser humano, desde sua concepção até sua morte. Esses processos derivam da interação entre os sistemas nervoso, neuromuscular, endócrino e o meio que rodeia o indivíduo ao longo de sua vida. Sendo assim, desenvolvimento é a interação entre a hereditariedade e o meio ao longo do tempo. Esse processo ocorre ao longo de toda a vida do indivíduo. O objetivo da Psicologia do Desenvolvimento é a descrição e a explicação de mudanças nos comportamentos e nos processos mentais do indivíduo, ao longo do tempo e através de seu ciclo vital. Essas mudanças ocorrem não apenas em nossa forma de pensar, mas também na organização social e familiar. Devido a uma constante interação entre estas partes podemos afirmar que o desenvolvimento humano ocorre por um processo de interação entre o indivíduo e seu meio. Para saber mais sobre o que a Psicologia do Desenvolvimento estuda: o indivíduo a partir do período gestacional, dando uma ideia geral de como o desenvolvimento se processa, assista agora ao vídeo Psicologia do Desenvolvimento. Sugerimos a leitura do artigo “Psicologia do Desenvolvimento: uma perspectiva histórica” em Tema da Psicologia, Vol. 13.n°. 2, Ribeirão Preto, dezembro de 2005. O artigo discute o conceito de estudo do desenvolvimento humano, apresentando um breve histórico da Psicologia do Desenvolvimento. Quando temos um mundo no qual a criança e o adulto compartilham da mesma realidade física e virtual tem-se, então, um mundo de iguais. Sendo assim, podemos afirmar que ser criança não significa ter infância. Para saber mais sobre como surgiu o conceito de infância , assista agora ao vídeo A invenção da infância . A criança que você conhece e compreende como um ser que possui uma especificidade nem sempre foi entendida desta forma. Hoje ela é entendida como um ser historicamente construído e constituído simbolicamente pela sociedade. Ela pensa, sente, compreende e intui o mundo dentro de um campo de visão bem diferente do nosso. Do latim infante, o termo denota “aquele que ainda não pode falar”. Na Idade Média, a palavra “infância” passou a ser aplicada para as crianças de até sete anos de idade, quando se considerava que elas começavam a entender o que os adultos diziam. Ainda hoje, é nessa idade que ela começa a ser alfabetizada. Porém, esse conceito de criança, que não é um adulto em miniatura e que não deve trabalhar, é ainda recente em nossa literatura. O panorama descrito acima começa a mudar muito vagarosamente até se pensar a criança como um sujeito de direitos. A infância, então, é um conceito que começará a se desenvolver a partir do século XVIII. Ela trouxe, como consequência, o conceito de infância moderna: uma fase da vida na qual os indivíduos precisariam de cuidados especiais e deveriam estar resguardados de algumas informações que lhes pudessem ser nocivas, para que se desenvolvessem e se constituíssem, no futuro, como indivíduos plenos, adultos. Segundo Ariès, nem sempre existiu uma preocupação com o desenvolvimento da criança. Ela não era a figura central da família. (História Social da criança e da família. RJ: Guanabara, 1973) Ampliando o Foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a psicologia do desenvolvimento, leia as páginas 11 - 15 do livro da disciplina Santos, Penélope Duarte dos. Nassar, Sérgio Pessôa. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: UVA, 2013. Aula 2 A família e a criança contemporâneas: as práticas educativas familiares e o desenvolvimento E, falando em família, como é a família que você conhece? Será que você está preso a um único modelo de família composta por pai, mãe e filho? Este é o único modelo possível na atualidade ou podem existir outras composições? A família contemporânea tem se afastado cada vez mais do modelo familiar idealizado: pai, mãe e filhos. A família hierárquica, organizada em torno de um poder patriarcal, foi dando lugar a um modelo de família no qual o poder é distribuído de forma mais igualitáriaentre homem e mulher e, também, entre pais e filhos. O número de separações e divórcios também tem aumentado, assim como a idade em que as mulheres decidem se casar. As relações conjugais entre jovens também vêm aumentando. Em contrapartida, hoje, o número de mulheres que se encontram sozinhas com filhos para criar também aumentou, assim como a gravidez não programada entre as adolescentes. A família deixou de ser uma sólida instituição para se transformar em um agrupamento circunstancial e precário, regido pela lei menos confiável entre os humanos: a lei dos afetos e dos impulsos sexuais. Atualmente, podemos falar em família tentacular que, conforme Maria Rita Kehl (2003), é um tipo de família na qual a organização é formada por novos encontros, com adultos, adolescentes e crianças vindas de outras famílias. Independentemente do modelo familiar, é neste espaço de convivência que a criança irá se desenvolver e aprender. Esta bagagem inicial fará parte de seu currículo informal e será muito importante na história de seu desenvolvimento. “Sugerimos a leitura do artigo Práticas educativas familiares: a família como foco de atenção psicoeducacional, pois ele reflete sobre a necessidade de se considerar a família como objeto de atenção psicoeducacional a partir da desconstrução de sua visão estereotipada. Ampliando o Foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a família e a criança contemporânea, leia as páginas 25 - 37 do livro da disciplina Santos, Penélope Duarte dos. Nassar, Sergio Pessôa. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: UVA, 2013. Aula 3 A Psicologia do Desenvolvimento e sua aplicação na prática educacional Como vimos na aula anterior, atualmente a organização familiar pode ser formada também por novos encontros, com adultos, adolescentes e crianças vindos de outras famílias, além da tradicional composição de pai, mãe e filhos. A formação familiar, como entendemos, atua sobre o desenvolvimento das crianças. E a escola, como se posiciona diante de tantas transformações? Para saber mais sobre a diferença entre os três tipos de educação, assista agora ao vídeo Educação formal, educação não formal e educação informal. A escola é o lugar privilegiado da educação formal da criança. É no espaço escolar que ela irá se apropriar da leitura e da escrita. É neste espaço preparado de uma forma muito especial para recebê-la, que ela irá assimilar os conhecimentos selecionados pelo currículo escolar e considerados fundamentais para sua formação e desenvolvimento. Assim, percebemos que escola e família são contextos fundamentais no desenvolvimento da criança. E que cabe à escola e a seus educadores entenderem a importância desta parceria, acolhendo o aluno independentemente de sua idade, história ou contexto social. A Psicologia do Desenvolvimento vai, então, promover, através de sua produção teórica, ferramentas que possam auxiliar o professor na busca de novas metodologias, promovendo a discussão sobre os conteúdos a serem ensinados ao aluno. Para ela, a escola deve proporcionar ao aluno a capacidade de: ● adquirir e enriquecer seus hábitos de leitura; ● descobrir novos conhecimentos; ● interagir com outros alunos; ● alcançar a autonomia da ação e do pensar; ● estabelecer relações de significado e sentido entre os conteúdos apreendidos e sua realidade socioafetiva. Sugerimos a leitura do artigo " A prática pedagógica da educação atual ", que faz uma reflexão sobre o processo educativo, oferecendo à escola a alternativa de rever suas ações. Ampliando o Foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a aplicação da psicologia do desenvolvimento na prática educacional, leia as páginas 37 - 45 do livro da disciplina Santos, Penélope Duarte dos. Nassar, Sergio Pessôa. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: UVA, 2013. Encerramento Como você conceituaria Psicologia do Desenvolvimento? Psicologia do Desenvolvimento é a compreensão e pesquisa dos processos de mudanças psicológicas nos seres humanos, que ocorrem ao longo de toda a existência, influenciados pelos fatores externos e por nossa herança filogenética. Que mudanças você identifica na instituição familiar e como seus efeitos podem implicar no desenvolvimento da criança? A organização familiar passou a ser formada por novos encontros, com adultos, adolescentes e crianças vindos de outras famílias. Independente do modelo familiar é neste espaço de convivência que a criança irá se desenvolver e aprender. Esta bagagem inicial fará parte de seu currículo informal, mas será muito importante na história de seu desenvolvimento. De que forma a Psicologia do Desenvolvimento pode contribuir para a prática educativa? A Psicologia do Desenvolvimento, através de sua produção teórica, auxilia o professor na busca de novas metodologias, promovendo a discussão sobre os conteúdos a serem ensinados ao aluno e na compreensão de seu comportamento. Resumo da Unidade Você estudou, nesta unidade, que o desenvolvimento envolve as variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo o ciclo da vida. Aprendeu que o desenvolvimento é um conjunto de processos ativos e contínuos que ocorrem no ser humano, desde sua concepção até sua morte. Com o vídeo “A invenção da infância” você pode ver que esse conceito só começa a se desenvolver entre os séculos XVI e XVIII. Você aprendeu também que não existe só um tipo de família e que, atualmente, podemos falar em família tentacular que, conforme Maria Rita Kehl é um tipo de família na qual a organização é formada por novos encontros, com adultos, adolescentes e crianças vindos de outras famílias. 2ª UNIDADE Principais Correntes Teóricas do Desenvolvimento: Inatismo, Ambientalismo, Interacionismo no Contexto Escolar A importância desta unidade reside da aprendizagem das grandes correntes teóricas do desenvolvimento cognitivo. Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: ● Identificar as características de cada corrente teórica do desenvolvimento e como a apreensão do desenvolvimento infantil pode ser fundamental para algumas áreas do trabalho pedagógico. Esta unidade está dividida em: Aula 1 - Desenvolvimento e aprendizagem Aula 2 - Principais correntes teóricas do desenvolvimento humano: inatismo, comportamentalismo e interacionismo Aula 3 - As teorias do desenvolvimento humano e a dinâmica escolar A tirinha nos leva a refletir o porquê de uma criança, que é curiosa e gosta de aprender, não se interessar pelos conteúdos trabalhados na escola. Certamente, muitos fatores podem contribuir para isso, no entanto, conhecer um pouco sobre as teorias do desenvolvimento e da aprendizagem pode ajudar a compreender melhor o que se passa na escola e contribuir para uma prática mais adequada. AULA 1 Desenvolvimento e aprendizagem O tema do desenvolvimento e aprendizagem na escola sempre gerou muita discussão. Afinal, o que é o desenvolvimento e a aprendizagem? A resposta não é simples e há muita divergência entre os teóricos. Atualmente, há consenso de que crianças diferem dos adultos em seu modo de pensar e que, portanto, o pensamento se modifica ao longo da vida, desenvolvendo-se. Assim, é possível afirmar que o desenvolvimento implica mudanças qualitativas e quantitativas no pensamento, e a maioria dos pesquisadores concorda que essas mudanças são consequência da interação dos processos de maturação e de aprendizagem. No entanto, alguns atribuem um peso maior aos fatores hereditários, enquanto outros, aos fatores ambientais. A aprendizagem, por sua vez, geralmente é vista como uma mudança relativamenteestável no pensamento. Vale ressaltar que, embora diferentes, desenvolvimento e aprendizagem são processos complementares: um influencia o outro. Por isso, trataremos de teorias do desenvolvimento e da aprendizagem aqui. A aprendizagem é muito importante para os seres humanos. A cultura de uma sociedade é a expressão da aprendizagem de muitas gerações. O homem fala, tem consciência do tempo e do espaço e é um ser cultural, construindo seu passado de forma seletiva. Além disso, o homem interage com os seus semelhantes e é capaz de ir além da concretude do mundo, operando com o mundo simbólico em nível imaginativo. Desde a Antiguidade, o homem quis saber como se aprende, mas é a partir do século XVII que as teorias do desenvolvimento e da aprendizagem passaram a surgir sistematicamente. Curiosidade Desde a Antiguidade que os filósofos gregos se perguntavam sobre a origem do conhecimento. Platão, que era um racionalista (ratio = razão), postulava que o conhecimento estava dentro do homem e, para descobri-lo, era necessário o uso da razão e da reflexão. Diferentemente, Aristóteles defendia que o conhecimento é alcançado por meio da experiência, pelo contato com o mundo externo. Geralmente, uma teoria demora em torno de 25 a 75 anos após o seu aparecimento para ser incorporada à prática escolar. Além disso, ela não substitui simplesmente a anterior, as duas vão passando a conviver, criando um amálgama (Mistura de elementos diversos que, embora diferentes, contribuem para formar um todo) cada vez mais confuso, pois muitas vezes reúnem teorias do desenvolvimento e da aprendizagem contraditórias. Aprendizagem: Cotidiano x Escola As práticas escolares, explícita ou implicitamente, contém uma teoria sobre o desenvolvimento e a aprendizagem, ou seja, um corpo teórico que se apoia em um conjunto de ações determinadas por um objetivo, consciente ou não. É importante poder analisar as práticas escolares sob o aspecto das teorias do desenvolvimento e da aprendizagem, pois essa análise poderá fornecer dados para reorientar todo o processo, especialmente quando se pergunta: Quais os fins que se deseja atingir? Que tipo de sujeito queremos formar? Quando o educador se faz essas perguntas, nota-se que adotar uma ou outra teoria do desenvolvimento vai fazer diferença. Por que desenvolvimento e aprendizagem podem ser entendidos como processos complementares? Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre desenvolvimento e aprendizagem, leia as páginas 9 - 14 do livro da disciplina Mendes, Leila de Carvalho. Psicologia da aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: UVA, 2016. AULA 2 Principais correntes teóricas do desenvolvimento e da aprendizagem: inatismo, comportamentalismo, interacionismo As teorias do desenvolvimento e da aprendizagem são de várias ordens e podem ser classificadas de diferentes maneiras. Optamos por apresentar as correntes que mais influenciam as práticas escolares: ● o inatismo; ● o comportamentalismo; ● o interacionismo. O que o provérbio sugere? Pense um pouco antes de continuar. Inatismo Podemos relacionar o provérbio citado à teoria inatista, pois o inatismo, como o nome indica, postula que as ideias são inatas, isto é, determinadas por fatores biológicos e hereditários, anteriores à experiência. Assim, nessa corrente, também conhecida como Apriorista ou Nativista, as capacidades (comportamento, personalidade, potencial, formas de pensar e conhecer) são herdadas de pai para filho e o conhecimento é pré- formado. Logo, desconsidera as interações socioculturais na formação do sujeito, sendo o desenvolvimento pré-requisito para o desenvolvimento mental e cognitivo desde o nascimento. Dessa forma, o ensino consiste em assegurar as condições para que a criança se desenvolva naturalmente, pois cada pessoa já nasce com um determinado potencial de inteligência, servindo o ambiente apenas para possibilitar o desenvolvimento dessa capacidade. Essa tese fundamenta a teoria do déficit cognitivo, que tenta explicar a dificuldade que algumas pessoas apresentam para aprender como sendo uma falta de capacidade inata. Na mesma linha, o conceito de “dom” também refere-se a capacidades inatas para desenvolver determinada atividade. Ainda é comum ouvirmos os seguintes comentários: "Fulano tem dom para desenhar!" "Beltrano não tem dom para jogar bola..." RENÉ DESCARTES: Filósofo, matemático e fisiologista, o francês René nasceu em La Haye (em 1802, a cidade passou a ser chamada de La Haye-Descartes), província de Touraine, no dia 31 de março de 1596. Para ele, que era um racionalista (corrente filosófica que priorizava a razão e contribuiu para fundamentar as ideias INATISTAS), a mente era vista como um dom de Deus; as ideias, inatas; e o conhecimento verdadeiro era alcançado pela introspecção. E esse provérbio, o que sugere? Uma ação insistente ao longo do tempo? Comportamentalismo Se na primeira corrente os teóricos colocavam toda a carga do desenvolvimento nos fatores hereditários, nessa outra extremidade temos os que acreditam que a única fonte de conhecimento é a experiência. Nessa linha podemos agrupar os chamados Comportamentalistas e os Ambientalistas. Para essa corrente, fundamentada no Empirismo, de empeiria = conhecimento empírico, experiência, não há nada na mente que não tenha passado pela experiência. Daí a expressão tábula rasa (quadro em branco) para se referir à mente humana. Os pesquisadores atribuem um peso exclusivo ao ambiente e consideram, por sua vez, um sujeito da aprendizagem passivo, que deve apreender o conhecimento que, desde sempre, está no ambiente externo. Assim, aprender é apresentar uma mudança no comportamento, e ensinar é modificar o ambiente, desenvolver estratégias para operar as mudanças desejadas. Comumente, os estudiosos dessa corrente tentaram explicar as dificuldades para aprender com a teoria do déficit social e também da linguagem. Também, ainda hoje, é comum ouvirmos dizer: "Ciclano não consegue aprender porque foi criado desta ou daquela maneira." "Ciclano não consegue aprender porque os pais não sabem falar direito." Interacionismo A terceira corrente abordada é a interacionista. Como o provérbio sugere, há uma troca, uma interação, pois nela são levados em conta tanto os fatores hereditários (inatos) quanto os fatores externos (ambientais), sendo o desenvolvimento visto como uma evolução. A aprendizagem, portanto, é uma construção realizada pelo sujeito ao longo da vida. Nessa linha, podemos citar tanto Piaget quanto Vygotsky, já que os dois consideraram o conhecimento como fruto da interação do sujeito com o meio que o circunda, não desconsiderando, contudo, os fatores hereditários, como dissemos. No entanto, cada qual vai entender de uma forma o desenvolvimento e a aprendizagem, pois enquanto Piaget fundamenta sua teoria em um modelo “biológico”, Vygotsky vai atribuir o desenvolvimento à cultura e as relações sociais. Jean Piaget nasceu no ano de 1896, em Neuchâtel, na Suíça. Piaget interessou-se pelas Ciências Naturais, trabalhando como malacólogo e formando-se em Biologia. Posteriormente, Piaget começa a voltar-se para a problemática da evolução da vida, chegando ao seu grande projeto que era elaborar uma Epistemologia Genética (teoria do conhecimento). Piaget faleceu em 1980, aos 84 anos, deixando uma vasta obra sobre o pensamento humano. Vygotsky também nasceu no ano de 1896, em Orcha, na Bielo-Rússia, e formou-se em Direito, História e Filosofia. Inicialmente Vygotsky foi um crítico da literatura, interessando-se pela Psicologia da Arte, daí passando para o estudo da psicologia geral. Vygotsky trabalhou como psicólogo, defectologistae pedólogo. Sua busca maior era entender o desenvolvimento dos processos psicológicos. Veja também 1) Skinner, o mais radical dos behavioristas: no site da Revista Nova Escola. 2) O filme “O garoto selvagem” oferece uma ótima oportunidade para se discutir as grandes correntes teóricas do desenvolvimento cognitivo Ampliando o foco > Para aprofundar seus conhecimentos sobre o inatismo, comportamentalismo e interacionismo, leia as páginas 14 - 25 do livro da disciplina Mendes, Leila de Carvalho. Psicologia da aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: UVA, 2016. Aula 3 As teorias do desenvolvimento e da aprendizagem e a dinâmica escolar As teorias do desenvolvimento e da aprendizagem relacionam-se diretamente às práticas escolares. É possível que o professor não saiba qual a teoria que orienta sua prática, ainda assim, há uma teoria fundamentando-a. Tomar consciência da teoria da aprendizagem adotada é de fundamental importância, especialmente para que o professor possa comparar suas ações às suas propostas teóricas, pois algumas teorias da aprendizagem não se prestam a determinados fins e objetivos, como, por exemplo, a formar um cidadão crítico, lançando mão de uma teoria comportamentalista. A criticidade só pode ser construída por um processo reflexivo. O Inatismo na escola O Inatismo, como vimos, acredita que cada pessoa herda uma determinada capacidade, um dom. Assim, basta que se propicie um ambiente favorável que o desenvolvimento seguirá seu curso normal, sendo inibido, apenas, quando houver nutrientes insuficientes, a não inserção no meio cultural ou forte pressão emocional. Baseados nas premissas inatistas de que os indivíduos nascem dotados de determinadas capacidades, os pesquisadores resolveram medir a inteligência, surgindo, então, os primeiros testes de inteligência (Qi) elaborados por Alfred Binet e Simon. Saiba Mais Alfred Binet ( 1857-1911) Pedagogo e psicólogo francês, Binet ficou conhecido por sua contribuição no campo da psicometria, sendo considerado o inventor do primeiro teste de inteligência, a base dos atuais testes de QI. Théodore Simon (1873-1961) Psicólogo francês, formado em Medicina, desenvolveu estudos sobre indivíduos com deficiência mental. Ao conhecer o trabalho de Alfred Binet, inicia uma colaboração que se manterá até a morte dele. É com Binet que constrói a Escala Métrica de Inteligência destinada a "medir a inteligência". Consagrou toda a sua vida a continuar a obra de Binet. Esses testes terminaram por dar origem às pesquisas que tentavam explicar o porquê do baixo desempenho principalmente das crianças das camadas menos favorecidas. Daí surgiu a tese do déficit cognitivo e da privação cultural. A tese do déficit cognitivo explicava o baixo desempenho pela falta de nutrientes necessários ao desenvolvimento. Já a tese da privação cultural, como diz o nome, sugeria uma carência de estímulos ambientais diversos, entre eles, a linguagem. Além dessas teses, não podemos esquecer o conceito de prontidão, que tem como fundamento que a maturação é um pré-requisito para a aprendizagem, tendo influenciado, principalmente a aprendizagem da leitura e da escrita. A partir dessas considerações, não é difícil estabelecer relações da teoria Inatista e a prática pedagógica. A educação quase nada pode alterar as determinações inatas, na medida em que as aptidões já estão lá desde o nascimento. Dessa forma, o desenvolvimento é pré-requisito para o aprendizado, e o desenvolvimento cognitivo é alcançado de forma introspectiva. As práticas espontaneístas, pouco desafiadoras, que subestimam tanto a capacidade intelectual do indivíduo quanto a força da educação, podem ser explicadas por essa corrente, pois, como dissemos, as características do sujeito estão lá desde sempre e, portanto, poucas chances de se modificarem. O Comportamentalismo na escola Também conhecido como Ambientalismo ou Behaviorismo, o Comportamentalismo é a crença de que a aprendizagem se centra apenas nos comportamentos objetivamente observáveis, negligenciando as atividades mentais. O comportamento pode ser modificado através da seleção prévia de experiência e da manipulação do meio. Os procedimentos didáticos e os conteúdos não precisam ter nenhuma relação com o cotidiano do aluno e, muito menos, com as realidades sociais. Na postura pedagógica, que supervaloriza a “cultura geral” (a que se estabeleceu e que deve ser transmitida hegemonicamente), cabe ao educando apenas ouvir passivamente e executar prescrições que lhes são fixadas por autoridades externas. A prática pedagógica comportamentalista, para garantir a apreensão do conhecimento, valoriza o trabalho individual, a concentração, o esforço pessoal e a disciplina. A comunicação entre os alunos e as dúvidas são vistas como falta de respeito, bagunça, dispersão, indisciplina e “conversas paralelas”. Portanto, privilegia-se a interação unilateral adulto-criança, sendo aquele visto como modelo perfeito que deve ensinar e moldar o caráter, o comportamento e o conhecimento. Para alcançar a eficiência no ensino e na aprendizagem, o ensino, centrado no professor, deverá ser rigoroso e exigente na tarefa de direcionar, punir, treinar, vigiar, organizar conteúdos e recursos de ensino. O professor (elemento central e único detentor do conhecimento) é quem corrige, avalia e julga os resultados e comportamentos dos alunos. Ele prioriza seus “erros e dificuldades” para que ambos sejam eliminados. A aprendizagem se confunde com a memorização de um conjunto de conteúdos desarticulados, através da repetição de exercícios de fixação e cópia, estimulados por elogios e recompensas (reforço positivo) ou notas baixas, castigos etc. (reforço negativo). O método se baseia na exposição verbal, análise e conclusão do conteúdo, por parte do professor, e a verificação da aprendizagem se dá através de avaliações periódicas, que são utilizadas como instrumentos de controle. Assim, nesta concepção, é exclusivamente através das relações que os alunos estabelecem de forma controlada com os objetos de seu meio físico que a construção de conhecimento se dá. Dessa forma, compreende-se que um ambiente rico de estímulos proporcionará por isso desafios e aprendizagens. Determinismos inatos ou sociais… Tanto a concepção inatista como a comportamentalista reforçam a ideia de um determinismo prévio, por razões inatas ou adquiridas, causando um grande impacto sobre as práticas pedagógicas. Por outro lado, provocam, também, uma espécie de perplexidade e imobilismo no sistema educacional, pois desvaloriza as práticas escolares, na medida que a aprendizagem já está determinada ou por fatores inatos ou adquiridos. O Interacionismo na escola Tanto para Piaget quanto para Vygotsky, o desenvolvimento das estruturas mentais não é inato e nem está no meio. Ele faz parte de uma construção a ser feita pelo sujeito na interação com o meio. No entanto, apesar dos dois autores serem interacionistas, eles divergem quanto à forma como se opera esse processo. Para ambos, é importante destacar que: ● o desenvolvimento não está desde sempre no sujeito, nem é dado somente por fatores ambientais. ● os dois pesquisadores reconhecem fatores hereditários e fatores ambientais, mas acreditam que o desenvolvimento não se dá apenas por eles. É preciso que haja uma atividade do sujeito. É essa atividade que vai torná-lo o protagonista do processo de aprendizagem. ● com os dois teóricos é possível atribuir um peso maior ao processo pedagógico. Diferentemente do inatismo e do comportamentalismo, onde estavam pré-determinadas as condições do desenvolvimento e da aprendizagem, no Interacionismo, os fatores do meio e as características do sujeito se mesclam à atividade do sujeito. Assim, é possívelentender a prática pedagógica como fator preponderante ao desenvolvimento e a aprendizagem, embora esses processos sejam entendidos de forma distinta para os autores. Nas próximas aulas, estudaremos detalhadamente cada um. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a teoria do desenvolvimento e as práticas escolares, leia as páginas 25 - 30 do livro da disciplina Mendes, Leila de Carvalho. Psicologia da aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: UVA, 2016. Encerramento Por que estudar teorias do desenvolvimento e da aprendizagem? Devemos estudar as teorias do desenvolvimento humano para tomarmos consciência de qual teoria norteia nossa prática. Conscientes da teoria adotada, podemos reorientá-la, de acordo com nossas escolhas e propósitos educativos Quais as principais correntes teóricas do desenvolvimento humano? As principais correntes teóricas do desenvolvimento humano são o Inatismo, o Comportamentalismo e o Interacionismo. No Inatismo, há a crença de que o conhecimento é inato e que o desenvolvimento ocorrerá desde que sejam possibilitadas as condições propícias. No Comportamentalismo, temos o extremo oposto: o conhecimento provém do meio. Por fim, no Interacionismo, o conhecimento é fruto das interações. Qual a relação entre as teorias do desenvolvimento humano e a dinâmica escolar? A relação entre as TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM E A DINÂMICA ESCOLAR refere-se à possibilidade do reconhecimento de que a teoria da aprendizagem adotada, consciente ou não, implicará em uma prática pedagógica, e que cada teoria do desenvolvimento se presta a determinados objetivos educacionais. Por isso, é de fundamental importância que o professor se pergunte que teoria está seguindo, e se sua prática é condizente com o seu discurso, de forma que atenda aos fins propostos. Resumo da Unidade Nesta unidade, você estudou as Teorias do desenvolvimento e da aprendizagem: inatismo, comportamentalismo e interacionismo. Vimos que no Inatismo os fatores inatos são determinantes para o desenvolvimento e a aprendizagem e que, portanto, nada resta à escola, a não ser oferecer um ambiente propício para que o sujeito se desenvolva. Já no Comportamentalismo, ao contrário, é o meio que determina o desenvolvimento e a aprendizagem. Se, no Inatismo, o determinismo se deve a fatores hereditários, no Comportamentalismo o determinismo é social. Por fim, estudamos o interacionismo de Piaget e Vygotsky. Para os autores, o conhecimento é uma construção que se deve tanto a fatores inatos quanto a fatores do meio. Assim, a escola assume um papel importante para o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, pois, não havendo determinação, há muito a se fazer. 3ª UNIDADE Abordagens contemporâneas da Aprendizagem e Desenvolvimento (Parte I) Nesta unidade, conheceremos as Abordagens contemporâneas da Aprendizagem e Desenvolvimento (Parte I), de tal forma que você consiga diferenciar, entre as teorias apresentadas, como cada teórico pensa o desenvolvimento e a aprendizagem infantil. ✔Na aula 1, abordaremos a teoria psicossexual de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, vislumbrando compreender de que forma as contribuições freudianas e as etapas do desenvolvimento psicossexual descritas por ele são importantes para a prática educativa. ✔Na aula 2, trataremos do construcionismo de Jean Piaget, objetivando identificar quais as contribuições da teoria psicogenética para a prática docente. ✔E, por fim, na aula 3, a teoria do sociointeracionismo em Vigotsky, intencionando, igualmente, identificar as contribuições da teoria sociocultural para a prática docente. Bons estudos! Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: Diferenciar, entre as teorias, a forma como cada teórico pensa o desenvolvimento e a aprendizagem infantil. Conteúdo Programático Esta unidade está dividida em: Aula 1 - Freud e a Teoria Psicossexual do desenvolvimento Aula 2 - O construcionismo de Piaget Aula 3 - Vigotsky e o sociointeracionismo Na tirinha, a criança resolve não ir mais à escola, argumentando que não precisa aprender coisas nem desenvolver habilidades, deixando implícito que aprende-se e desenvolve-se na escola. Será que todos os teóricos concordam com isso? Ao final deste módulo você poderá responder a essa pergunta! Aula 1 Freud e a Teoria Psicossexual do desenvolvimento O desenvolvimento Psicossexual e suas implicações para o Processo Educacional Nesta aula, esperamos que você aprenda a reconhecer a importância das contribuições freudianas à compreensão do desenvolvimento humano. Joseph Breuer, Ana O. e Freud Para saber mais sobre Freud e entender o contexto em que ele criou a psicanálise, assista agora ao vídeo Sigmund Freud - biografia. Freud sofreu influência de Charcot (médico e cientista francês que utilizava a técnica da hipnose no tratamento das perturbações psíquicas, particularmente, a histeria), Liebaut e Berheim (médicos franceses que utilizavam a técnica da sugestão pós-hipnótica construindo a ideia de processos inconscientes subjacentes a consciência) passando a utilizar, também, no seu atendimento clínico a técnica da hipnose como recurso terapêutico no tratamento da histeria. Apesar de utilizar a técnica da hipnose, Freud, em muitas situações verificava a sua ineficácia e se questionava: não haveria outra maneira? Para saber mais sobre o funcionamento do Ego, um intermediador entre os desejos do Id, a satisfação do desejo e as proibições do Superego, assista agora ao vídeo Id, Ego e Superego. Então, ocorreu-lhe que, se o paciente comunicasse tudo o que se passasse com ele, mesmo algo que ele considerasse insignificante, vergonhoso ou até mesmo doloroso, isso seria mais frutífero para o tratamento. Então, ele sugeriu a associação livre como técnica. Através dos estudos realizados sobre o tratamento realizado por Breuer na paciente Ana O., ele propõe um modelo para o aparelho psíquico composto por três níveis: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Mas considera o inconsciente como sendo a chave para se chegar à cura. Em 1923, Freud apresenta a sua estrutura dinâmica da personalidade: o Id, o Ego e o Superego, bem como as fases de desenvolvimento da libido. Ao longo do desenvolvimento do ser humano, a libido passa por progressivas organizações em busca da obtenção do prazer. Freud propõe, então, alguns estágios do desenvolvimento psicossexual: Fase oral – a boca é a fonte primária de prazer para o recém-nascido. Fase anal - a libido se desloca para a região anal, onde se instala a fonte dominante de prazer. Fase fálica - a libido se localiza nos genitais e apresenta a fantasia de todos, meninos e meninas, de possuírem um pênis. Ocorre o Complexo de Édipo. Fase de latência - a libido encontra-se provisoriamente deslocada dos seus objetivos sexuais. Fase genital - pleno desenvolvimento do adulto. 📢Sugerimos a leitura dos artigos Complexo de Édipo, segundo Freud e Édipo Rei, de Sófocles. 📢Para saber mais, assista a animação Complexo de Édipo, de Sigmund Freud. Ao entrar na escola, a importância especial dada pelo aluno ao professor coincide com o período de latência vivido pelo aluno. Esse professor assume um lugar que, até então, era ocupado pelos pais, podendo surgir a transferência e a utilizaçãodos mecanismos de defesa. Sendo assim, a psicanálise tem muito a contribuir para o exercício docente, auxiliando o professor na construção de um relacionamento afetivo com o seu aluno, promovendo o desenvolvimento e os processos de aprendizagem. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre psicanálise e os estágios de desenvolvimento psicossexual, leia as páginas 47 - 98 do livro da disciplina Santos, Penélope Duarte dos. Nassar, Sergio Pessôa. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: UVA, 2013. Aula 2 O construcionismo de Piaget A teoria psicogenética de Jean Piaget Quase todas as pessoas que trabalham com educação já ouviram falar de Piaget, mas poucos conhecem sua obra, exceto a que ele acredita que as crianças passam por estágios de desenvolvimento mental e que elas têm habilidades diferentes nesses estágios. O pensamento do mestre genebrino é muito mais vasto e complexo. Piaget procurou compreender as relações entre a biologia e o conhecimento, desenvolvendo uma psicologia genética, ou seja, uma psicologia geral que buscou explicar as funções mentais por seu modo de formação, integrando fatores hereditários, fatores ambientais e uma ação do indivíduo sobre o meio. Assim, Piaget vai buscar explicar, através de um conjunto de investigações, a gênese das condutas inteligentes, elaborando um protótipo apoiado na biologia para explicar o desenvolvimento. Para Piaget, o desenvolvimento é contínuo, e dá-se por uma constante busca de equilíbrio, implicando sempre uma passagem de um estado de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior, o que significa a adaptação dos esquemas existentes ao mundo exterior. Esse processo é denominado de EQUILIBRAÇÃO. Assim, uma criança que já construiu o esquema de sugar, assimila a mamadeira, mas terá que modificar o esquema para sugar a chupeta, comer com colher etc. O processo de equilibração inicia um novo ciclo quando o interesse do sujeito é despertado, desequilibrando-o e gerando uma necessidade. Essa necessidade vai impulsionar uma ação que visa a busca de novo equilíbrio, de uma satisfação. O processo de equilibração envolve dois mecanismos complementares: as estruturas variáveis (estágios) e o funcionamento constante. O funcionamento constante Frente a um objeto desconhecido o indivíduo: Desequilibra-se → Assimila e acomoda→ Adapta-se Quando há equilíbrio entre a Assimilação e a Acomodação, há Adaptação, o que garante o desenvolvimento progressivo para formas mais equilibradas. Por exemplo, quando uma criança começa a contar, precisa de objetos contáveis para orientar a progressão. Com o tempo, vai desenvolvendo os esquemas de quantidade e vai podendo se desprender dos objetos, fazendo a operação mentalmente. Ambiente → Desequilíbrio → Adaptação → Equilibração ↙ ↘ Assimilação Acomodação Fatores que promovem o desenvolvimento Além da Equilibração, Piaget destacou outros três fatores responsáveis pelo desenvolvimento: 1. Maturação do organismo (basicamente do sistema nervoso central): A maturação é uma condição necessária, mas que não explica todo o desenvolvimento, desempenhando apenas o papel de abrir possibilidades para novas condutas que precisam ser atualizadas. 2. Exercício e as experiências adquiridas (adquirida na ação efetuada sobre os objetos): Piaget estabelece dois tipos distintos de experiências: a experiência física e a experiência lógico-matemática. Mesmo a experiência física não é um simples registro de dados, mas uma estruturação ativa e assimiladora. 3. As interações e as transmissões sociais (jogo, conversa, trabalho com outras crianças): Não são suficientes para explicar o desenvolvimento, pois a criança só assimilaraá as informações que estiverem de acordo com o conjunto de estruturas relativas ao seu nível de pensamento. Para Piaget, um dos equívocos da escola é imaginar que a criança tenha apenas de incorporar as informações já "digeridas", como se a transmissão não exigisse uma atividade interna de assimilação-acomodação do indivíduo, no sentido de haver uma reestruturação, e daí uma correta compreensão do que foi transmitido. Assim, para Piaget, com o fator de equilibração, quatro fatores promovem o desenvolvimento. 4. A equilibração é o mecanismo interno que reúne todos os fatores precedentes de modo a construir e a reconstruir todas as estruturas mentais. Para Piaget, é o fator fundamental, na medida em que completa e evidencia o caráter não-apriorístico do desenvolvimento das estruturas mentais do indivíduo. A evolução ocorre sempre na direção de um equilíbrio, mas sem um plano preestabelecido, isto é, como o equilíbrio depende da ação do sujeito ativo sobre os distúrbios externos e, ao mesmo tempo, da ação desses sobre aquele. O que se pode observar é um ponto de equilíbrio e não o ponto de equilíbrio. A aprendizagem Para Piaget, a aprendizagem aparece como um processo que depende do desenvolvimento. Mas como o desenvolvimento não procede nem do meio nem é inato, é, principalmente, fruto da interação entre esses dois fatores, regida pela equilibração, a explicação interacionista coloca ênfase na atividade do sujeito. Assim, o DESENVOLVIMENTO é o processo que dá suporte para cada nova experiência de aprendizagem, A noção de aprendizagem está restrita à aquisicão de um conhecimento novo e específico derivado do meio, diferenciando-a do desenvolvimento da inteligência, que corresponderia à totalidade das estruturas de conhecimento construídas. Na imagem abaixo, as escadas representam o desenvolvimento, e o “x”, as aprendizagens realizadas em um determinado estágio. No entanto, Piaget também denomina de aprendizagem (sentido amplo) o próprio processo de desenvolvimento. Nesse sentido, aprender seria desenvolver-se. As formas mais equilibradas, que a inteligência assume ao longo do desenvolvimento, são as estruturas variáveis, isto é, um fator estrutural que comporta certos níveis de inteligência, uma evolução. A criança nasce equipada com um sistema reflexo que logo é sucedido pelos primeiros hábitos adquiridos que, por sua vez, precedem a inteligência prática que serve de apoio à inteligência verbal. O funcionamento é constante, mas mudam os conteúdos, os esquemas, as estruturas. Essas estruturas não foram inventadas por Piaget, mas observadas e descritas minuciosamente. Baseado nessas estruturas, Piaget dividiu o desenvolvimento cognitivo em estágios: As Estruturas Variáveis Estágios Idades médias Inteligência senso-motora 0 a 1 ½ , 2 anos Inteligência pré-operatória 1 ½, 2 a 7 anos Operações intelectuais concretas 7 a 11 anos Operações intelectuais abstratas 11 a 15 anos Esses estágios são caracterizados por uma estrutura de conjunto, uma lógica, e, embora as idades variem em função do meio social, das experiências pessoais, do processo de maturação e, principalmente, do fator de equilibração, a ordem de sucessão é constante. Então, o desenvolvimento para Piaget é a passagem contínua de um estado de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior, estando subordinado a dois grupos de fatores: os fatores da hereditariedade e adaptação biológicas, dos quais depende a adaptação do sistema nervoso e dos mecanismos psíquicos elementares, e os fatores de transmissão ou de interações sociais. Características dos estágios do desenvolvimento ESTAGIOS IDADES MEDIAS CARACTERISTICASInteligência senso-motora 0 a 1 ½ , 2 anos O aparecimento da função semiótica (representação mental do mundo) que permite o surgimento da linguagem etc, marca a passagem da inteligência senso-motora para a inteligência pré-operatória. O nível de linguagem é o monólogo coletivo, isto é, todos falam ao mesmo tempo sem que respondam as argumentações dos outros. A socialização é vivida de forma isolada, dentro do coletivo. Não há liderança e os pares são constantemente trocados. Inteligência pré-operatória 1 ½, 2 a 7 anos Desejo de explicação dos fenômenos. É a “idade dos porquês”, pois a criança pergunta o tempo todo. Distingue a fantasia do real, podendo dramatizar a fantasia sem que acredite nela. O pensamento continua centrado no seu próprio ponto de vista. Já é capaz de organizar coleções e conjuntos sem, no entanto, incluir conjuntos menores em conjuntos maiores (rosas no conjunto de flores, por exemplo). Linguagem - não mantém uma conversação longa, mas já é capaz de adaptar sua resposta às palavras do companheiro. Operações intelectuais concretas 7 a 11 anos O indivíduo consolida as conservações de número, substância, volume e peso. Ordena elementos por seu tamanho (grandeza), incluindo conjuntos, organizando então o mundo de forma lógica ou operatória. A organização social é a de bando, podendo participar de grupos maiores, chefiando e admitindo a chefia. Compreende as regras, sendo fiéis a ela, e estabelecendo compromissos. A conversação torna-se possível (já é uma linguagem socializada), sem que, no entanto, possam discutir diferentes pontos de vista para que cheguem a uma conclusão comum. Operações intelectuais abstratas 11 a 15 anos Ápice do desenvolvimento da inteligência. Nível de pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático. É quando o indivíduo está apto para calcular uma probabilidade, libertando-se do concreto em proveito de interesses orientados para o futuro. É, finalmente, a “abertura para todos os possíveis”. A partir desta estrutura de pensamento é possível a dialética, que permite que a linguagem dê-se em nível de discussão para se chegar a uma conclusão. A organização grupal pode estabelecer relações de cooperação e reciprocidade. Contribuições à dinâmica escolar Na teoria interacionista de Piaget, o conhecimento não está nem no indivíduo, nem no meio. Ele é construído na interação, na troca do sujeito com o meio, sendo o desenvolvimento explicado por um mecanismo interno: o processo de equilibração. Então, se o que a escola quer é promover o desenvolvimento, formando alunos críticos, autônomos e criativos, o importante é que haja a apropriação da informação pelo aluno, transformando-a em conhecimento. Segundo Piaget, nesse processo, cada aluno terá uma compreensão da questão proposta, bem como uma solução, visto que a percepção é orientada por uma atividade assimiladora, que incorpora os dados novos a esquemas antigos: “...toda percepção se estende em interpretações por assimilação a esquemas, ou sensório-motores (esquemas de ações), ou conceituais e representativos, pré-operatórios ou operatórios…” Piaget, Memória e Inteligência, p. 2. A escola, então, deve promover um ambiente que possibilite a interação (aluno x aluno, professor x aluno, grupo x grupo) para que a informação possa ser transformada pelo sujeito e pelo grupo, visando a construção de um conhecimento legitimado socialmente. Não podemos esquecer que, quando o sujeito incorpora os dados novos aos antigos, pode ser que a assimilação seja por demais deformante, com uma assimilação maior do que a acomodação. O que significa uma dificuldade de modificar-se (acomodar), de ajustar-se às regras, só modificando o meio (assimilando). Nesse caso, é necessário um trabalho que vise equilibrar as funções. Os jogos são excelentes instrumentos para desenvolver esse trabalho. No caso de uma interferência muito diretiva por parte do professor, pode haver uma acomodação maior do que a assimilação, resultando em imitação. Nesse caso, o aluno tem dificuldade de modificar o meio, só se modificando. O desafio do professor aqui é possibilitar que o aluno permita arriscar, errar, criar. Já nas atividades em que as trocas entre iguais são oportunizadas com mais frequência, cada elemento poderá, sob a supervisão do professor, expressar sua opinião sobre cada conteúdo, escutar o ponto de vista do grupo, comparando-o com o seu, garantido, assim, condições maiores para um equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, reconstruindo o conteúdo. A função do professor seria a de um mediador entre o conteúdo do sujeito e o conteúdo da matéria, favorecendo a ação do aluno sobre o objeto do conhecimento, questionando o grupo nas suas afirmações, ora desequilibrando, quando estiverem “cheios de certezas”, ora favorecendo a equilibração, quando estiverem muito desequilibrados. Para que isto aconteça, também é necessário que seja considerado o que o aluno já sabe, permitindo-se que ele elabore suas hipóteses sobre o conhecimento, e que o erro seja visto como um caminho para o acerto. Vídeo da Aula Assista agora ao vídeo da unidade Desenvolvimento e aprendizagem em Jean Piaget. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre o construcionismo de Piaget, leia as páginas 31 - 43 do livro da disciplina Mendes, Leila de Carvalho. Psicologia da aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: UVA, 2016 Aula 3 Vigotsky e o sociointeracionismo A Escola Soviética de Psicologia, cujo principal representante é o russo Lev Semenovich Vygotsky (1896-1932), desenvolveu uma outra linha dos estudos da inteligência, criada na tentativa de construção de uma nova psicologia, que fizesse uma síntese das ciências do corpo e da mente (REGO, 2001, p. 28-29). Para Vygotsky, a inteligência ou as funções psicológicas superiores(As funções psicológicas superiores seriam aqueles processos de caráter voluntário, como as ações conscientes, a atenção voluntária, a memorização ativa, o pensamento abstrato e o comportamento intencional e, por isso mesmo, difeririam dos processos psicológicos inferiores, como os reflexos, as reações automáticas e as associações simples.) têm um suporte biológico, fruto da atividade cerebral, sendo o cérebro: Vygotsky explica que, ao nascer, a relação do sujeito com o mundo é uma relação direta (S-R), que aos poucos vai sendo substituída por um ato complexo, mediado. Os elementos mediadores da relação homem-mundo são: Os instrumentos – que são elementos externos ao indivíduo; são objetos mediadores da relação homem-mundo, que carregam consigo uma função, na medida em que são feitos ou buscados pelo homem para atingir um objetivo, dominar a natureza, como um machado, um lápis ou mesmo um pente. Os signos – que são instrumentos internos, psicológicos, como a linguagem; na sua forma mais elementar, o signo é marca externa que auxilia o homem em tarefas que exigem memória ou atenção. As pessoas. Vygotsky dividiu este processo em estágios. Assim, primeiro o indivíduo realiza as ações externamente e, a partir do significado que suas ações têm para o grupo, ele poderá atribuir significados a elas e desenvolver processos psicológicos internos. Podemos concluir então que, para Vygotsky, é o aprendizado que possibilita o desenvolvimento dosprocessos superiores de pensamento, que são relacionamentos sociais internalizados. Dessa forma, é a necessidade de interação que possibilita o conhecimento, uma vez que os indivíduos buscam não só compreender o mundo, mas também saber como os outros o compreendem. Nessa perspectiva, o social tem um papel fundamental. (SENNA, 1999). 1º estágio 2º estágio 3º estágio 4º estágio Equipamento e atividade Natural ou primitivo Psicologia ingênua Uso externo de meios culturais Uso interno de meios culturais Mecanismos inatos Mecanismos inatos + Alguma mediação X = sinais externos Mediação consciente dos sinais auxiliares externos X = sinais externos auxiliares conscientes Interiorizarão de relações externas entre estímulo, sinais e comportamento X = sinais internos Respostas Naturais e primitivas. Apenas as conexões externas, concretas e reais podem afetar o comportamento da criança. Criação e manipulação de sinais a fim de alcançar a resposta desejada. Alcance da atividade desejada sem ajuda de sinais auxiliares externos. Moll, Luis C. Vygotsky e a educação, p.128 e Valsiner e Van Der Veer, Vygotsky uma Síntese, p. 260. Mas o que é aprender para Vygotsky? Vygotsky usa OBUCHENIE, um termo russo para referir-se ao “processo de ensino-aprendizagem”, esse processo compreende sempre aquele que aprende, aquele que ensina, e a relação entre essas pessoas, havendo uma síntese, ou seja, a criação de algo novo, e não uma aquisição exógena. Implantar algo na criança é impossível. Só é possível treiná-la para alguma atividade exterior, como digitar um texto. Para criar uma ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL, isto é, para engendrar uma série de processos de desenvolvimento interior, precisamos dos processos corretamente construídos de aprendizagem escolar. A ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL é, pois, um domínio psicológico em constante transformação. É como se o processo de desenvolvimento progredisse mais lentamente do que o processo de aprendizado. O aprendizado desperta processos de desenvolvimento que, aos poucos, vão tornar-se parte das funções psicológicas consolidadas do indivíduo. “Para Vygotsky, a aprendizagem está relacionada ao desenvolvimento desde o início da vida humana, sendo ‘um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas’ (Vygotsky, 1984, p.101). O percurso de desenvolvimento do ser humano é, em parte, definido pelos processos de maturação do organismo individual, pertencendo à espécie humana, mas é a aprendizagem que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, se não fosse o contato do indivíduo com um determinado ambiente cultural, não ocorreriam. Em outras palavras, o homem nasce equipado com certas características próprias da espécie (por exemplo, a capacidade de enxergar por dois olhos, que permite a percepção tridimensional, ou a capacidade de receber e processar informação auditiva), mas as chamadas funções psicológicas superiores, aquelas que envolvem consciência, intenção, planejamento, ações voluntárias e deliberadas, dependem de processos de aprendizado. O homem é membro de uma espécie para cujo desenvolvimento a aprendizagem tem um papel central, especialmente no que diz respeito a essas funções superiores, tipicamente humanas.” Castorina et al, Piaget e Vygotsky: Novas contribuições para o debate, p. 55,56. Nível de desenvolvimento real Nível de desenvolvimento potencial ↓ ↓ Capacidade de realizar tarefas de forma independente Capacidade de desempenhar tarefas com ajuda de adultos ou de companheiros ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL A linguagem sempre foi uma preocupação central na obra de Vygotsky, ocupando um lugar de destaque. Vygotsky abordou-a não como um sistema linguístico, mas em seu aspecto funcional e psicológico, pois interessava-lhe a linguagem como constituidora do sujeito, enfocando seus estudos na relação PENSAMENTO–LINGUAGEM. As principais ideias sobre o tema estão no livro PENSAMENTO E LINGUAGEM. O primeiro e último capítulos encerram o núcleo central de seu pensamento. Infelizmente, a abordagem permanece apenas anunciada, pois Vygotsky morre logo após tê-lo escrito. Uma das principais bases do pensamento de Vygotsky é a de que as funções psicológicas superiores são construídas ao longo da história social do homem, na sua relação com o meio físico e social. Essa relação é sempre mediada por instrumentos e símbolos. Como a linguagem é o sistema simbólico básico de todos os grupos humanos, a questão do desenvolvimento da linguagem ocupa lugar central. A linguagem possui duas funções básicas: INTERCAMBIO SOCIAL: Gera necessidade de comunicação e impulsiona o desenvolvimento da linguagem. PENSAMENTO GENERALIZANTE: Responsável por tornar a linguagem um instrumento do pensamento. O pensamento e a linguagem desenvolvem-se da mesma forma que as outras funções psicológicas superiores. Vai da atividade social interpsíquica para a atividade individualizada, intrapsíquica. Isto é, primeiro a criança observa e atribui os sentidos que o grupo ao qual pertence atribui. Aos poucos ela vai internalizando e a atividade que era INTERPSÍQUICA torna-se INTRAPSÍQUICA. Nas crianças pequenas, o pensamento se desenvolve sem a linguagem, e as “palavras” se formam sem o pensamento; seu objetivo é chamar a atenção do adulto. Essa é a função social da fala nesta fase. Leia, em ‘A Formação Social da Mente’, mais detalhes sobre esta teoria de Vygotsky. Pode-se, então, estabelecer uma linguagem pré-intelectual e um pensamento pré-linguístico. Quando as duas linhas se encontram, o pensamento se torna verbal e a linguagem racional. A partir de então, a criança percebe o propósito da fala, que começa a servir ao intelecto e o pensamento começa a ser verbalizado. Daí por diante a criança passa a sentir a necessidade das palavras, tentando aprendê-las – é a descoberta da função simbólica da palavra. Leia este interessante artigo da revista Nova Escola: Vygotsky e o conceito de pensamento verbal. Para Vygotsky, o conhecimento é construído na interação do sujeito com o meio, mediado por instrumentos. Essa construção se dá pelo processo de aprendizagem, sendo esta que impulsiona o desenvolvimento. Como vimos nessa teoria, o significado atribuído à aprendizagem inclui não só aquele que aprende, mas também aquele que ensina e a relação entre eles, havendo uma síntese, ou seja a criação de algo novo. Logo, a aprendizagem, para Vygotsky, significa a criação de algo novo. Então, se o que a escola quer é promover o desenvolvimento, formando alunos críticos, autônomos e criativos, o importante é que haja efetivamente aprendizagem – a criação de algo novo por parte do aluno. A aprendizagem se compara, então, a uma invenção ou a uma reinvenção do conhecimento pelo aluno. Assim, a escola deve promover um ambiente que possibilite a interação (aluno x aluno, professor x aluno, grupo x grupo), uma vez que aprendemos com os pares,para que a informação possa ser transformada pelo sujeito e pelo grupo, visando à aprendizagem. É na interação com o outro que vamos elaborando e reelaborando a informação e transformando-a em conhecimento. Para isso, a escola deverá planejar atividades que envolvam observação, pesquisa, resoluções de questões específicas, ou mesmo propostas de estudos e preparação de seminários, palestras ou outras apresentações. No entanto, para que isso ocorra e o professor possa planejar estratégias que permitam avanços, reestruturações e ampliação do conhecimento do aluno, deverá conhecer o seu nível efetivo de informação, ou seja, suas hipóteses, crenças, opiniões; suas ideias acerca do mundo onde está inserido. Para que isso aconteça, também é necessário que seja considerado o que o aluno já sabe, permitindo-se que ele elabore suas hipóteses sobre o conhecimento, e que o erro seja visto como um caminho para o acerto. Da mesma forma, essas diversas interações sugeridas serão elementos mediadores entre o aluno e mundo, auxiliando-o na internalização deste meio. “Isto é, primeiramente o indivíduo realiza as ações externas, que serão interpretadas pelas pessoas a seu redor, de acordo com os significados culturalmente estabelecidos. A partir dessa interpretação é que será possível para o indivíduo atribuir significados a suas próprias ações e desenvolver processos psicológicos internos que podem ser interpretados por ele próprio a partir dos mecanismos estabelecidos pelo grupo cultural e compreendidos por meio dos códigos compartilhados pelos membros desse grupo.” (Oliveira, 1993, p. 39, in Kohl de Oliveira, M., Piaget e Vygotsky: Novas contribuições para o debate, p. 61.) Vídeo da Aula Para saber mais sobre A teoria sociocultural de Vygotsky, assista agora ao vídeo da unidade Desenvolvimento e aprendizagem em VYGOTSKY. Se preferir, faça o download do áudio (mp3 compactado) deste vídeo clicando aqui. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre Vygotsky e o sociointeracionismo, leia as páginas 45 – 57 do livro da disciplina Mendes, Leila de Carvalho. Psicologia da aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: UVA, 2016. Encerramento Quais as contribuições das etapas do desenvolvimento psicossexual para a prática educativa? A Psicologia do Desenvolvimento, através de sua produção teórica, auxilia o professor na busca de novas metodologias, promovendo a discussão sobre os conteúdos a serem ensinados ao aluno e na compreensão de seu comportamento. Quais as contribuições das teorias psicogeneticas de Jean Piaget para a prática escolar? A principal contribuição da teoria piagetiana para a prática escolar diz respeito à função do professor que deve favorecer a ação do aluno sobre o objeto do conhecimento, funcionando como um mediador entre o conteúdo do sujeito e o conteúdo da matéria, questionando o grupo nas suas afirmações, ora desequilibrando, quando estiverem “cheios de certezas”, ora favorecendo a equilibração, quando estiverem muito desequilibrados. Quais as contribuições da teoria sociocultural para a prática docente? Dentre as diversas contribuições, podemos destacar principalmente a valorização do papel do professor e da aprendizagem com os pares e do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal. Resumo da Unidade Nesta unidade, você estudou a Teoria de Freud e sua contribuição para a Psicologia do Desenvolvimento. Foram abordados temas interessantes, como: a descoberta do inconsciente, o desenvolvimento da sexualidade infantil, o Id, o Ego e o Superego e os mecanismos de defesa do Ego. Da mesma forma, estudamos a contribuição da psicanálise para o exercício docente, no auxílio do professor para a construção de um relacionamento afetivo com o seu aluno, promovendo o desenvolvimento e os processos de aprendizagem. Tivemos a oportunidade também, de estudar um pouco da obra de Piaget. Iniciamos com uma apresentação da Epistemologia de Piaget, aprofundando os estudos sobre o mecanismo de Equilibração, que envolve as estruturas variáveis e as invariantes funcionais. Vimos as relações entre a equilibração e o desenvolvimento, e a aprendizagem e as características de cada estágio do desenvolvimento. Por último, estudamos as contribuições do autor para a prática pedagógica. Finalmente, estudamos sobre o desenvolvimento e a aprendizagem em Vygotsky e pudemos aprender que, para o pesquisador, é a aprendizagem que impulsiona processos de desenvolvimento. Vimos que a teoria histórico-cultural contribui sobremaneira para a educação formal, na medida em que valoriza o papel do professor e da aprendizagem nos processos de desenvolvimento. 4ª UNIDADE Abordagens contemporâneas da Aprendizagem e Desenvolvimento (Parte II) INTRODUÇÃO Nesta unidade, daremos continuidade ao estudo das Abordagens contemporâneas da Aprendizagem e Desenvolvimento (Parte II), de tal forma que você consiga diferenciar, entre as teorias, a forma como cada teórico apresentado pensa o desenvolvimento e a aprendizagem infantil. Além disso, compreender o desenvolvimento e a aprendizagem do adolescente e do adulto. Na aula 1, abordaremos a A teoria das Inteligências múltiplas de H. Gardner, objetivando que você identifique a diversidade de formas pelas quais a inteligência se manifesta e os vários tipos de inteligência múltipla para aplicar na prática escolar. Na aula 2, o teórico Wallon e a sua teoria das emoções, para que você consiga reconhecer a importância da afetividade à dinâmica escolar. E, por fim, na aula 3, o desenvolvimento e aprendizagem do adolescente e do adulto, para que, assim, você relacione as transições da adolescência para o mundo adulto e as exigências da prática docente. Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: Diferenciar, entre as teorias, a forma como cada teórico pensa o desenvolvimento e a aprendizagem infantil, do adolescente e do adulto. Esta unidade está dividida em: Aula 1 - A teoria das Inteligências múltiplas de H. Gardner Aula 2 - Wallon e a teoria das emoções Aula 3 - Desenvolvimento e Aprendizagem do adolescente e do adulto Você sabia que alguns escritores escreveram sobre a adolescência e a sua problemática? América do Sul > José de Alencar - “Senhora” de José de Alencar mostra a revolta de uma adolescente que foi abandonada por seu pretendente por ser pobre. Ao tornar-se rica ela se vinga, demonstrando a inconstância e as ações movidas pelas emoções, típicas da adolescência. Alemanha > Göethe - “Werther” de Göethe se mata por ter sido recusado por seu amor. Uma existência repleta de busca de si mesmo. Tão atual quanto Shakespeare, vocês não acham? Inglaterra > Shakespeare - “Romeu e Julieta” de Shakespeare fala sobre um casal de adolescentes que vivenciam seu primeiro amor. Esse amor é proibido, pois seus pais são inimigos, o que deixa o amor deles mais forte ainda. Que tal embarcarmos juntos nesta jornada pela busca do entendimento sobre o que significa ser adolescente? Vamos lá? Aula 1 A teoria das Inteligências múltiplas de H. Gardner Howard Gardner é professor de cognição e educação na HarvardGraduate School of Education. Ele também ocupa o cargo de professor adjunto de psicologia na Universidade de Harvard. Gardner recebeu inúmeros prêmios pela sua obra e foi eleito um dos intelectuais públicos mais influentes do mundo em 2011. Autor de vinte e nove livros traduzidos em trinta e duas línguas e uma centena de artigos, Gardner é muito conhecido nos círculos educacionais pela sua teoria das INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS. Veja o site de Gardner. Gardner apresenta uma visão pluralista da mente, uma visão multifacetada da inteligência, que se afasta das visões unitárias de inteligência e dos testes de QI. Baseado principalmente em duas fontes, uma referente ao desenvolvimento de diferentes tipos de capacidades nas crianças normais e na informação de como essas capacidades falham sob condições de dano cerebral, Gardner e seu grupo realizaram uma análise e estudaram os resultados, organizando, inicialmente, os sete grupos de inteligência. Veja o artigo e o vídeo sobre Gardner em “Howard Gardner, o pai da Teoria das Inteligências Múltiplas”. O pesquisador enfatiza que o importante é deixar clara a pluralidade do intelecto e que a lista pode ser reorganizada, como o fez, mais tarde, incluindo a inteligência NATURALÍSTICA (reconhecer e classificar espécies da natureza) e a EXISTENCIAL (refletir sobre questões fundamentais da vida humana) e sugerindo o agrupamento das inteligências inter e intrapessoal. INTELIGENCIA LINGUISTICA: É a habilidade para usar a linguagem para convencer, agradar, estimular ou transmitir ideias, como a habilidade exibida pelos poetas.Em crianças, esta habilidade se manifesta por meio da capacidade para contar histórias originais ou para relatar, com precisão, experiências vividas. Assista ao documentário Línguas – Vidas em português. INTELIGENCIA LOGICO-MATEMATICA: Como o nome indica, é a capacidade lógica e matemática. É a habilidade para lidar com séries de raciocínios, para reconhecer problemas e resolvê-los. É a inteligência de matemáticos e cientistas. Mas, enquanto os matemáticos desejam criar um mundo abstrato, os cientistas pretendem explicar a natureza. A criança com especial aptidão nesta inteligência demonstra facilidade para contar e fazer cálculos matemáticos e para criar notações práticas de seu raciocínio. O filme Uma mente brilhante retrata bem esta inteligência. INTELIGENCIA ESPACIAL: Capacidade de formar uma representação mental de um mundo espacial de forma precisa, operacionalizando formas ou objetos mentalmente e, a partir das percepções iniciais, criar tensão, equilíbrio e composição, numa representação visual ou espacial. É a inteligência dos marinheiros, dos engenheiros, dos arquitetos, dos cirurgiões, escultores e pintores. Em crianças pequenas, o potencial especial nessa inteligência é percebido por meio da habilidade com quebra-cabeças e outros jogos espaciais e pela atenção a detalhes visuais. INTELIGENCIA MUSICAL: Quarta categoria de capacidade identificada. Se manifesta pela habilidade para apreciar, compor ou reproduzir uma música ou peça musical. Inclui habilidade para discriminar sons e perceber temas musicais, sensibilidade para ritmos, texturas e timbre. Mozart a possuía em alto grau. A criança pequena com habilidade musical especial percebe desde cedo diferentes sons no seu ambiente e, frequentemente, canta para si mesma. Veja o filme A vida de Mozart . INTELIGENCIA CORPORAL-CINESTESICA: Refere-se à habilidade para resolver problemas ou criar produtos utilizando o corpo inteiro ou parte do corpo. Apresentam essa inteligência altamente desenvolvida os dançarinos, os atletas, os cirurgiões e os artistas. A criança que apresenta inteligência cinestésica se move com graça e expressão a partir de estímulos musicais ou verbais e demonstra uma grande habilidade atlética ou uma coordenação fina apurada. INTELIGENCIA INTERPESSOAL: É a habilidade para entender outras pessoas. Psicoterapeutas, professores, políticos e vendedores bem-sucedidos possuem alto grau de inteligência interpessoal. Crianças dotadas com essa inteligência apresentam uma habilidade para liderar outras crianças, uma vez que são extremamente sensíveis às necessidades e sentimentos de outros. INTELIGENCIA INTRAPESSOAL: Sétimo tipo de inteligência, é o correlativo da inteligência interpessoal, é voltada para dentro. É a habilidade para ter acesso aos próprios sentimentos, sonhos e ideias, para discriminá-los e lançar mão deles na solução de problemas pessoais. Estude mais sobre inteligências múltiplas em ‘Howard Gardner, o cientista das inteligências múltiplas’. Vídeo da Unidade Para saber mais sobre esta teoria, assista agora ao vídeo da unidade Teorias das Inteligências Múltiplas. Se preferir, faça o download do áudio (mp3 compactado) deste vídeo clicando aqui. Gardner diz que nunca pensou para sua teoria um conjunto de procedimentos que todos devessem seguir, mas que aconteceu algo interessante e que já está sendo reunido em um livro. Educadores em todo o mundo estão adotando as múltiplas inteligências. Para ele, no entanto, há duas implicações importantes da Teoria das Inteligências Múltiplas na prática escolar. Veja o vídeo “O que meu filho deve aprender?”. A primeira diz respeito à individualização do ensino. Hoje podemos ensinar a mesma coisa de várias maneiras, e isso é possível graças aos computadores. As pessoas aprendem de diferentes maneiras e isso precisa ser respeitado. Por outro lado, tudo o que é importante deve ser ensinado de várias formas. Quando ensinamos algum conteúdo de várias formas, duas coisas acontecem: você alcança um maior número de pessoas e, dessa forma, mostra o que é realmente saber algo. Quando sabemos algo, podemos pensá-lo de várias formas. Veja o vídeo ‘Para cada pessoa, um tipo de educação’. Mas a grande contribuição de Gardner foi ter tirado o foco das inteligências canônicas (linguística e lógico-matemática) e ter mostrado que a inteligência se expressa de várias formas. Sua teoria contribuiu para que as escolas começassem a valorizar mais as outras expressões da inteligência. Embora ainda haja muito a se avançar, já é possível vermos escolas apresentando uma grade curricular mais abrangente, incluindo em seus currículos atividades não acadêmicas. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a teoria das inteligências múltiplas, leia as páginas 59 - 74 do livro da disciplina Mendes, Leila de Carvalho. Psicologia da aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: UVA, 2016. Aula 2 Wallon e a teoria das emoções O ser humano, na perspectiva walloniana, é um ser que se desenvolve em uma realidade dialética (Pensada a partir das suas contradições em uma perspectiva de superação.). Wallon observa atentamente as relações estabelecidas entre a criança e os meios – seus contextos de desenvolvimento (espaço físico, família, ambiente familiar, linguagem, cultura), assinalando o que ele denominou de campos funcionais, ou seja, os domínios funcionais que atuam tanto na relação com as realidades presentes, quanto com as realidadesimaginadas. São eles: o da afetividade, do ato motor, do conhecimento e o da formação do eu como pessoa. O que será que Wallon está querendo nos dizer com isto? A realidade, a vida concreta, apresenta uma complexidade que não pode ser compreendida em uma perspectiva determinista e linear. Wallon considera a dinâmica da realidade em uma visão dialética, ou seja, os obstáculos e as possibilidades são entendidos como propulsores do desenvolvimento. Daí, cada indivíduo apresentar um ritmo e um processo particulares que se estabelecem através das interações da criança com o meio. O meio a que estamos nos referindo é plural e multifacetado. Wallon pesquisou a gênese do psiquismo humano e utilizou como metodologia a observação do comportamento infantil e suas várias formas de expressão. Para ele, o gesto involuntário observado no bebê tem uma importância fundamental na elaboração da atividade mental da criança. Vamos pensar em um bebê, em seu berço, movimentando os seus braços. Sua mãe atenta percebe os movimentos e considera que a criança está solicitando o seu colo. Acolhido afetuosamente, o bebê inicia a descoberta dos efeitos dos seus gestos ou atos no outro e, gradativamente, irá descobrindo outros gestos, aprendendo e percebendo o movimento e limites do seu corpo, e os modificando de acordo com a resposta encontrada. Estamos, portanto, nos referindo a um dos campos funcionais, o ato motor, que se enuncia através de outro campo funcional, a emoção. Esta, por sua vez, é percebida como a expressão da afetividade. Na teoria walloniana, as emoções ocupam um lugar privilegiado, são responsáveis pela junção do orgânico com o social, propiciando, portanto, a gênese da consciência humana. A presença da mãe ou de seu substituto (a) permite que, em um processo lento, instável, através desta junção entre um fator de ordem biológica e um fator de ordem social, o bebê organize as suas formas de manifestação que irão, mais tarde, consolidar aprendizagens que lhe permitirão o controle das reações espontâneas substituídas por comportamentos voluntários. Assim, o choro irá aparecer nas situações afetivas mais variadas: medo, alívio, sofrimento, gozo, alegria e outras, permitindo ao bebê a satisfação das suas necessidades. Para saber mais, leia o artigo Contribuições de Henri Wallon à relação cognição e afetividade na educação. Como você pode observar, o desenvolvimento apresenta uma perspectiva multidimensional em que se destaca o papel do organismo e do meio no qual o indivíduo está inserido como elementos propulsores da sua elaboração psíquica. Se você já conseguiu entender o papel das emoções e do ato motor, podemos, agora, nos referir a outro campo funcional – o do conhecimento. Voltemos a uma informação dada em um parágrafo anterior: “a presença da mãe traduzindo um gesto, permite ao bebê organizar as suas formas de manifestação que serão, mais tarde, substituídas por comportamentos voluntários”. Ao gesto do bebê, corresponde um gesto da mãe imerso em uma cultura que constrói as regras de convivência e, neste caso específico, um saber: o cuidar do bebê. Este gesto se expressa por um olhar, um ato e uma palavra. Paulatinamente, “o nosso bebê” será introduzido em um mundo simbólico que utiliza uma determinada linguagem – instrumento indispensável para a estruturação do seu pensamento. Vejamos agora o quarto e último campo funcional proposto por Wallon, a formação do eu como pessoa. Para isso, voltemos ao nosso bebê. Este, ao nascer, não se percebe enquanto ser diferenciado, não tem consciência dos limites do seu próprio corpo. Será através de um processo progressivo de interação com o meio, neste primeiro momento representado pela figura de sua mãe e/ou substituto (a), que a diferenciação, ou seja, a individuação ocorre. O bebê, através das suas sensações e da relação com sua mãe, vai delineando e conhecendo o seu próprio corpo e os objetos do seu meio social. A atividade exploratória guiada pelas sensações, pelo corpo e pelas emoções, e que ganham significado através da interação com o outro, vão permitindo ao bebê um conhecimento sobre si mesmo e o mundo à sua volta. Assim, em um processo dinâmico, diferenciado e que envolve retrocessos e reviravoltas, ele irá construir em um primeiro momento, a sua consciência corporal, ou seja, o seu eu corporal vai se estabelecendo. Portanto, a diferenciação entre o espaço subjetivo e o objetivo, em outras palavras, o que é o meu corpo e o que não é o meu corpo, a qual se seguirá, nas etapas seguintes do seu desenvolvimento, e na interação com o seu meio social e cultural a construção do eu psíquico, complementando a construção da consciência de si. Desta forma, Wallon entende que observando a criança, analisando suas atividades, que funcionam como molas propulsoras do desenvolvimento, poderemos compreender a sua evolução mental. Verifica-se, portanto, que o processo de desenvolvimento humano é determinado pelas condições biológicas e sociais. Variáveis complementares que envolvem o homem na sua permanente busca por mudança e transformação. Veja a seguir. FATORES ORGANICOS: Responsáveis pela sequência do movimento. Com suas características determinantes, têm os seus efeitos controlados através do meio social e pelo próprio indivíduo. FATORES SOCIAIS: Têm um papel preponderante na aquisição dos processos mentais superiores responsáveis pela apropriação da linguagem e do pensamento. Wallon, além de verificar a influência do social no desenvolvimento e aprendizagem humana, considera a escola um lugar privilegiado para orientação e acompanhamento da criança em seu processo de desenvolvimento. Severo crítico dos métodos tradicionais da escola, afirmava que a educação não pode desconsiderar as condições de desenvolvimento no planejamento das suas ações e na compreensão das necessidades e interesses apresentados pela criança. Para Wallon, o desenvolvimento humano se apresenta em etapas diferenciadas que compreendem um conjunto de necessidades e interesses que se modificam ao longo do processo e permitem à criança, em um determinado contexto de desenvolvimento, utilizar os recursos de que dispõe imprimindo a esta relação um caráter particular e único, que apresenta um ritmo e uma dinâmica própria. Desta forma, outro aspecto a ser considerado refere-se ao ritmo do desenvolvimento. Wallon irá afirmar que as etapas do desenvolvimento se apresentam “descontínuas, marcadas por rupturas, retrocessos e reviravoltas.” (GALVÃO, 2000). A passagem de um estágio de desenvolvimento para o seguinte é marcado por uma crise ou um conflito que irá propiciar a mudança e/ou a transformação de um campo de atividade funcional para o outro. Os conflitos tanto atuam no nível orgânico como no psíquico, mas não, necessariamente, anulando a etapa anterior. Procure se lembrar de situações vividas por você que, de alguma maneira, promoveram uma crise ou um conflito e de como conseguiu resolvê-las. Os conflitos, para Wallon, funcionamcomo elementos dinamogênicos. Dinamogenia: Segundo o Dicionário Aulete Digital, dinamogenia é um termo da fisiologia e se refere à exaltação funcional de um órgão sob a influência de uma excitação. Cada etapa do desenvolvimento apresenta as seguintes características: descontinuidade; rupturas; retrocessos; reviravoltas. E são marcadas por uma crise ou um conflito, que funciona como um fator propulsor do desenvolvimento, ou seja, um elemento dinamogênico. Este, por sua vez, pode ter origem: EXOGENA: Ocorre por uma inadaptação ou estranhamento da ação da criança na relação com o mundo externo provocado pelo adulto e/ou pela cultura. Exemplos: mudança de escola, chegada de um novo irmão, separação dos pais etc. ENDOGENA: Ocorre por um desconforto ou desequilíbrio da maturação nervosa. Exemplos: uma doença, síndromes genéticas, transtornos metabólicos etc. A integração desses fatores, tanto de origem endógena quanto exógena, requer um período e um ritmo particulares que irão propiciar uma nova estabilidade. Para Wallon, uma das atividades da criança que permite a elaboração deste momento de crise ocorre através do brincar. O ato de brincar permite à criança exercitar as possibilidades das funções adquiridas sem o controle do meio externo. Assim, como pontua Wallon, a criança, brincando, explora todas as possibilidades da função presente, chegando ao seu limite e, exercendo o seu domínio, integra-a a uma forma superior de atividade, promovendo uma progressão funcional. Ou seja, brincar permite à criança uma maior elaboração do conflito, permitindo, aos poucos, a sua integração à etapa do desenvolvimento em que ela se encontra. Esta elaboração do conflito através do brincar envolve outra variável apontada por Wallon, que se refere à possibilidade de comunicação com o mundo através da expressão de uma linguagem corporal que utiliza a motricidade e a expressão emocional. Sugerimos a leitura do artigo, Henri Wallon na Intervenção Pedagógica em crianças com múltiplas deficiências. in: Revista SOBAMA. V. 6, n. 1, dez, 2001. Os autores destacam as contribuições da teoria walloniana na intervenção pedagógica com alunos que apresentam necessidades especiais (DM/DV) privilegiando os aspectos do desenvolvimento social, emocional e psicomotor. O ser humano, entendido em seu desenvolvimento global, na sua relação com o mundo, depara-se com um corpo que deseja e com um meio que estabelece limites e possibilidades. Esta relação envolve interesse, curiosidade, mobilidade, sentimentos, e permite que, nesta interação, criança/meio, ela possa ir adquirindo uma consciência de si, do seu corpo e das suas emoções. A escola, nesta perspectiva, desempenha um papel fundamental, dizem Boato e Oliveira (2013): “O saber escolar não pode dissociar-se do meio físico e social onde a atividade infantil encontra alternativas de realização e sim nutrir-se das possibilidades que ele oferece.” Dessa forma, é importante para o professor entender: °A dinâmica e plasticidade do desenvolvimento humano. °O papel das crises e dos conflitos como elementos dinamogênicos. °O lugar ocupado pela escola na construção de estratégias que permitam à criança conhecer seus limites e suas possibilidades. °A expressão motora e emocional da criança como elementos essenciais na resolução dos seus conflitos e consciência de si. Você já aprendeu que o desenvolvimento humano apresenta, como característica, os campos funcionais, lembra? Pois bem, nos estágios do desenvolvimento, os campos afetivos e cognitivos apresentam uma alternância funcional, ou seja, cada etapa do desenvolvimento se caracteriza por atividades onde uma determinada função se destaca. Assim, as etapas do desenvolvimento apresentam, segundo Wallon, “um movimento pendular”, ou seja, ora se apresenta a função afetiva, que imprime uma marca centrípeta (movimento circular de fora para dentro) e permite uma elaboração íntima, particular, ora se apresenta a função cognitiva que imprime uma marca centrífuga (movimento circular de dentro para fora), direcionado para a elaboração de relações com o mundo externo. Os estágios do desenvolvimento apresentam como características: Os estágios do desenvolvimento formulados por Wallon apresentam, a cada etapa, uma evolução mental qualitativa caracterizada por um tipo diferenciado de comportamento, uma atividade predominante que se direciona, ora para a construção do próprio sujeito, ora para a construção da realidade exterior. As contribuições wallonianas podem orientar o professor no planejamento das suas estratégias de ensino. O conhecimento dos estágios de desenvolvimento favorece a identificação dos comportamentos apresentados pelos alunos, que devem, portanto, abarcar as atividades propostas pelo professor. Assim, em função do estágio, pode-se pensar em atividades que promovam a livre expressão corporal; a exploração dos espaços e objetos; desenvolvimento de pesquisas e projetos, não esquecendo a importância da relação professor-aluno que devem ser orientadas pelo afeto, respeito, ritmo e interesse do aluno. Utilizando as contribuições de Sayeg (2013) e Galvão (2000), com relação às práticas educativas, destacam-se: ● planejar atividades que permitam ao aluno desenvolver a capacidade de observação, a livre expressão e posicionamento diante dos conteúdos trabalhados; ● explicitar a natureza e a significação das atividades escolares; ● propor atividades diversificadas; ● selecionar conteúdos que favoreçam o desenvolvimento das funções motoras, afetivas e cognitivas; ● utilizar recursos pedagógicos que estimulem o aluno à aprendizagem dos conteúdos de ensino. Por fim, como assinala Galvão (2000), a educação não se refere, apenas, a uma discussão sobre métodos pedagógicos. Ela enseja uma reflexão política sobre o papel da escola na sociedade. A crítica walloniana à seletividade do sistema educacional francês permanece atualíssima, não só no seu país de origem, como também na realidade educacional brasileira. Desta maneira, cabe a você, professor, contribuir com a sua atuação competente e compromissada para a mudança dessa realidade. Como propõe Wallon, procure observar, analisar e se posicionar diante dos conteúdos que vem assimilando. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre Wallon e a teoria das emoções, leia as páginas 101 - 134 do livro da disciplina Santos, Penélope Duarte dos. Nassar, Sergio Pessôa. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: UVA, 2013. Aula 3 Desenvolvimento e Aprendizagem do adolescente e do adulto Adolescência é o período de transição entre a infância e a vida adulta, caracterizado pelos impulsos do desenvolvimento físico, mental, emocional, sexual e social. É um processo com características próprias e dinâmicas. Para saber mais sobre o quanto pode ser difícil lidar com o adolescente, assista agora ao vídeo Super Nanny - O que é a adolescência? No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei 8.069, de 1990, define a adolescência como a faixa etária de 12 a 18 anos de idade(artigo 2°), e, em casos excepcionais e quando disposto na lei, o estatuto é aplicável até os 21 anos de idade (artigos 121 e 142). O adolescente pode ter o voto opcional como eleitor e cidadão a partir dos 16 anos. Adolescentes Durante a adolescência há tarefas a cumprir e metas a conquistar que são estabelecidas pela cultura e pelo grupo social. Além disso o adolescente se depara com as transformações corporais que dão lugar a novas formas e sensações deixando para trás o corpo familiar da infância. Intimamente ligada às modificações do corpo, emerge uma sexualidade descoberta e ativa, afastando o jovem do corpo protetor e seguro dos pais para ele próprio se tornar potencial gerador de vida. Para efeitos didáticos, divide-se a adolescência em três fases: PUBESCENCIA (10-12 ANOS): Ocorrem melhorias nos níveis de força, rápida maturação morfológica e funcional, maturação labiríntica. A união destes elementos dá condições ao pleno desenvolvimento motor. PUBERDADE (12-15 ANOS): Grande variação no comportamento psicológico com uma grande instabilidade emocional e INCORDENAÇÃO MOTORA (recebe o nome de ataxia. Ataxia é um sintoma, e não uma doença específica, onde há uma alteração dos movimentos voluntários, do equilíbrio e da marcha. Essas alterações modificam a percepção corporal do indivíduo, tornando as atividades desajeitadas e laboriosas.) ; grande necessidade de vivência e de autorrealização no grupo; aumento brusco dos níveis de testosterona e irrupção da sexualidade. PÓS-PUBERDADE(15-19): Harmonia das proporções corporais e melhoria da coordenação motora; pleno equilíbrio psíquico; modelagem da personalidade; estabilidade e regularização hormonal e psíquica. Sugerimos a leitura do artigo “Subvertendo o conceito de adolescência”, que analisa o conceito de adolescência, situando-o como uma construção histórica, a partir da sociedade contemporânea. Gravidez A gravidez precoce é uma das ocorrências mais preocupantes relacionadas à sexualidade da adolescência, com sérias consequências para a vida dos adolescentes envolvidos, de seus filhos que nascerão e de suas famílias. Quando a atividade sexual tem como resultante a gravidez, gera consequências tardias e, em longo prazo, tanto para a adolescente quanto para o recém-nascido. A adolescente poderá apresentar problemas de crescimento e desenvolvimento, emocionais e comportamentais, educacionais e de aprendizado, além de complicações da gravidez e problemas de parto. As adolescentes que iniciam vida sexual precocemente ou engravidam nesse período, geralmente, vêm de famílias cujas mães também iniciaram vida sexual precoce ou engravidaram durante a adolescência. Para saber mais sobre as dificuldades enfrentadas pelas jovens durante e depois da gravidez, assista, agora, ao vídeo Gravidez na adolescência. Adolescência e gravidez, quando ocorrem juntas, acarretam consequências para todos os familiares, principalmente para os adolescentes envolvidos. Esses jovens não estão preparados emocionalmente e nem mesmo financeiramente para assumir tamanha responsabilidade. Muitos deles saem de casa, cometem abortos, deixam os estudos ou abandonam as crianças sem saber o que fazer ou fugindo da própria realidade. Para muitos destes jovens, não há perspectiva de futuro. Somado a isso, a falta de orientação sexual e de informações, a mídia, e os comportamentos de risco aumentam e contribuem para uma maior incidência de gestação juvenil. As mudanças comportamentais influenciadas pela mídia encaminham o adolescente para um mundo “dourado” onde a felicidade está ao alcance da marca da roupa que você comprou, do lugar que você frequentou e dos comportamentos que você assumiu e/ou experimentou. Outra questão, igualmente crítica, relaciona-se ao uso de drogas. Não é um fenômeno único e isolado o fato do grande aumento do uso de drogas entre os adolescentes. Hoje em dia, eles estão mais sujeitos ao contato com as drogas. Ambiente, a necessidade de pertencimento a um determinado grupo, a busca pela identidade, tudo favorece o contato e as primeiras experiências. A isso, acrescenta-se a necessidade de buscar/viver novas sensações, práticas educacionais inconsistentes, conflitos familiares, fracasso escolar, baixa auto estima, iniciação prematura e histórico familiar de uso abusivo de drogas, que criam condições favoráveis para que os adolescentes se sintam livres para aventuras deste tipo, sem pensar muito nas consequências. A dependência pode ser tratada desde que o adolescente tome consciência de sua situação, deixe de justificar seu comportamento, se preocupe com o seu bem-estar e comece a agir positivamente. A recuperação é uma tarefa difícil e o tratamento médico é apenas uma parte desta recuperação. A participação dos pais e a união da família são os maiores fatores de combate, assim como a degradação da família é uma das causas do aumento do número de usuários. Para saber mais sobre o que são as drogas, seus efeitos, sua utilização e, principalmente, os motivos que levam o adolescente a procurá-las, assista agora ao vídeo Drogas na adolescência - trabalho de sociologia. A adolescência é um período de transformações físicas e mentais que podem gerar maior ou menor sofrimento psíquico, de acordo com o contexto e com a história de desenvolvimento do jovem. À procura de sua identidade, o adolescente se torna uma presa de fácil manipulação. A mídia, por exemplo, estimula o uso do álcool e do tabaco, apresentando-os como sinônimos de status e sucesso. Mas o incentivo às drogas pode ocorrer dentro da própria família, seja pelo uso compulsivo de medicamentos pelos pais, seja pela cultura alcoólatra ou tabagista pregada dentro do próprio lar. E a violência? Atualmente, a violência está de tal forma disseminada, que se tornou quase impossível precisar suas causas e propor medidas eficazes para sua extinção. A revista “Science” aponta algumas das causas sociais da violência mais relevantes: A violência vem se tornando um dos problemas que mais angustia a nossa sociedade. Quanto aos adolescentes, envolvendo-se com a violência, tanto quanto as vítimas, como os agressores, também, acabam sofrendo alguma forma de exclusão. Quando vitimados, ocorre a exclusão da própria vida. Quando agressor, o adolescente é excluído da possibilidade de viver em exercício a cidadania, por meio da qual pode se reconhecer e ser reconhecido como sujeito de direitos e deveres. A maioria dos jovens infratores testemunhou e/ou foi vítima de violência doméstica. Essa experiência pode afetar sua forma de interpretar a realidade, encarando como provocação pessoal situações banais, tendendo a limitar o seu repertório de reações a comportamentos violentos. Sugerimos a leitura do artigo “Adolescência e violência: mais uma forma de exclusão”. Stress e solidão O estresse e a solidão predispõem os adolescentes a comportamentos agressivos nas escolas. Esse estresse é consequência de se viver em um lar destruído ou de pertencer a uma famíliaem que, de fato, não existe vida familiar. Muitos pais proporcionam aos filhos tudo aquilo que eles lhes pedem no campo material, mas não lhes dão tempo, critérios morais, apoio emocional ou bons exemplos. Os adolescentes, para construírem a personalidade, têm necessidade de modelos com os quais se identifiquem, mas nem sempre os encontram na família. Outra frustração que pode estar na escola é a de que os adolescentes receberam em casa uma educação permissiva, sem nenhum tipo de exigência. Uma saída seria conscientizar a população adulta a ocupar, com mais propriedade, este lugar de modelo com o qual o adolescente deveria se identificar. Toda sociedade é responsável pela tarefa de reagir contra o avanço da violência e do descaso com os direitos humanos. Não podemos nos esquecer que o Estatuto da Criança e do Adolescente considera, desde 1990, a criança e o adolescente como cidadãos, com direitos. Para saber mais sobre a violência na adolescência, desigualdade social, violência na TV, dificuldade nos laços familiares etc., assista agora, ao vídeo Violência na Adolescência. Sugerimos a leitura do artigo “Uso de drogas e violência na adolescência”. A transição para a vida adulta também é conturbada, pois ela implica a tomada de decisões muito importantes para o resto de nossas vidas. Porém, todas elas estão relacionadas a uma única fonte: formação escolar. É ela que poderá determinar, de alguma forma, a saída da casa dos pais, a escolha da profissão, a escolha do parceiro, a construção de uma família, a manutenção da saúde física e mental. Para saber mais sobre essa fase de transição para vida adulta, assista, agora, ao vídeo Vida adulta, casamento + família (quem eu sou). É comum, nos estudos que tratam da juventude, a defesa da ideia de que os jovens se acham tão segmentados quanto à sociedade como um todo. A questão é colocada mais ou menos nos seguintes termos: é tal a heterogeneidade das situações que vivenciam os jovens no Brasil de hoje, que é difícil pensá-los como uma categoria única. Se a escola não for sensível ao que definitivamente significa ser jovem hoje, será uma escola incapaz de manter os jovens no sistema. Se ela considerar o jovem trabalhador um adulto, gerando tal expectativa de comportamento em relação a ele, certamente terá com este jovem uma relação tensa. Os jovens pobres e ricos desejam uma escola onde consigam aprender, mas que também seja um espaço agradável, onde possam encontrar amigos, ouvir música. É preciso, cada vez mais, que a equipe escolar procure conhecer sua clientela, construindo um ambiente adequado às suas características e aos seus interesses. Pesquisas realizadas, em áreas violentas, favelas e regiões periféricas do Rio de Janeiro, mostram que o que os jovens querem é uma escola limpa, que ensine, cuja biblioteca funcione, que existam referências, como uniforme, horário, hino escolar, times de futebol, enfim uma escola que os permita desfrutar deste curto período de juventude. Os anseios de manifestar na escola a sua marca de viver a juventude não podem ser ignorados, nem vistos como obstáculo aos estudos. Investir em atividades artísticas, culturais e esportivas, com a contribuição de diferentes áreas do conhecimento é uma forma criativa de combinar a aprendizagem e o prazer. É essencial, ainda, que a escola possua uma identidade e que os jovens possam sentir orgulho de fazer parte dela. Eles têm necessidade de símbolos que os inspirem. Em uma escola que tem cara própria, esses símbolos estão e devem estar em toda a parte, na camiseta com o logotipo próprio, no hino, nos “gritos de guerra” entoados em competições esportivas. Esse sentimento aumenta quando a escola os convida a participar da resolução de problemas, através do grêmio, ou os envolve em projetos interdisciplinares, como aqueles voltados para a difusão de mensagens de proteção à saúde, em que os estudantes colocam os conhecimentos aprendidos a serviço da comunidade. Lidar com adolescentes não é tarefa fácil, sobretudo quando estão próximos das fronteiras da transgressão e da violência. Entretanto, considerá-los como essencialmente diferentes pode parecer que se está trabalhando em seu favor, mas, na questão escolar, pode-se estar mesmo é levando-os para a transgressão. Uma das condições essenciais para que a escola, principalmente a pública, seja menos preconceituosa e mais tolerante com os jovens é que os professores recebam apoio e tenham acesso a informações básicas sobre a juventude e adolescência, de preferência junto com os pais destes alunos, o que contribuirá para que se aproximem de seus alunos e aprendam com o desafio que esses seres em constante mutação representam. Sugerimos a leitura do artigo “Transição para a vida adulta. Das condições sociais às implicações psicológicas”. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre o desenvolvimento e aprendizagem do adolescente e do adulto, leia as páginas 135 - 171 do livro da disciplina Santos, Penélope Duarte dos. Nassar, Sergio Pessôa. Psicologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: UVA, 2013. ENCERRAMENTO Qual a contribuição da teoria das inteligências múltiplas de H. Gardner para a educação? A grande contribuição de Gardner foi ter tirado o foco das inteligências canônicas (linguística e lógico-matemática) e ter mostrado que a inteligência se expressa de várias formas. Sua teoria contribuiu para que as escolas começassem a valorizar mais as outras expressões da inteligência. Embora ainda haja muito a se avançar, já é possível vermos escolas apresentando uma grade curricular mais abrangente, incluindo em seus currículos atividades não acadêmicas. Quais as contribuições da teoria das emoções para a prática educativa? As contribuições wallonianas podem orientar o professor no planejamento das suas estratégias de ensino. O conhecimento dos estágios de desenvolvimento favorece a identificação dos comportamentos apresentados pelos alunos, que devem, portanto, abarcar as atividades propostas pelo professor. Assim, em função do estágio, pode-se pensar em atividades que promovam a livre expressão corporal; a exploração dos espaços e objetos; desenvolvimento de pesquisas e projetos, não esquecendo a importância da relação professor-aluno que devem ser orientadas pelo afeto, respeito, ritmo e interesse do aluno. Quais são os aspectos presentes no processo de transição da adolescência para a idade adulta para pensarmos as práticas docentes? A transição para a vida adulta é conturbada, pois ela implica a tomada de decisões muito importantes para o resto de nossas vidas. Porém, todas elas estão relacionadas a uma única fonte: formação escolar. É ela que poderá determinar, de alguma forma, a saída da casa dos pais, a escolha da profissão, a escolha do parceiro, a construção de uma família, a manutenção da saúde física e mental. Se a escola não for sensível ao que definitivamente significa ser jovem hoje, será uma escola incapaz de manter os jovens no sistema. Se ela considerar o jovem trabalhador um adulto, gerando tal expectativa de comportamento em relação a ele, certamente terá com este jovem uma relação tensa. Osjovens pobres e ricos desejam uma escola onde consigam aprender, mas que também seja um espaço agradável, onde possam encontrar amigos, ouvir música. É preciso, cada vez mais, que a equipe escolar procure conhecer sua clientela, construindo um ambiente adequado às suas características e aos seus interesses. Resumo da Unidade Nesta unidade, estudamos a Teoria das Inteligências Múltiplas, que mostra que a inteligência se expressa de diferentes formas, e não apenas naquelas valorizadas pela cultura acadêmica, como a inteligência linguística e lógico-matemática. Essa teoria trouxe para a prática escolar importantes contribuições na medida em que focou seus estudos em aspectos pouco valorizados pela cultura acadêmica. Já segundo a Teoria de Henri Wallon para a Psicologia do Desenvolvimento, para entendermos as atitudes das crianças, devemos entender o meio onde ela está inserida. A escola ocupa um lugar fundamental no processo de desenvolvimento humano, na medida em que se apresenta como um contexto favorável de desenvolvimento e que compreende as etapas de desenvolvimento humano como um processo dinâmico, particular e multifacetado. Para fecharmos os nossos estudos abordamos o tema “adolescência”. Sabemos agora que para termos uma identidade é preciso que passemos por várias etapas: desde a despedida da infância, descoberta das mudanças do corpo e da personalidade até a escolha do caminho para a vida adulta, tudo isso ao mesmo tempo. Para alguns de nós, essas mudanças são traumáticas e acabamos nos refugiando nas drogas. Já algumas adolescentes engravidam, na tentativa de chegarem à vida adulta mais rápido. Há, também, aqueles que sofrem violências e aqueles que a praticam. Trata-se de um período de muitas turbulências, muitas transformações e, também, de muitas desilusões. Uma das condições essenciais para que a escola seja menos preconceituosa e mais tolerante com os jovens é que os professores recebam apoio e tenham acesso a informações básicas sobre a juventude e adolescência, se aproximando dos alunos e aprendendo com o desafio que eles representam. Lidar com adolescentes não é tarefa fácil. Se a escola não for sensível ao que definitivamente significa ser jovem hoje, será uma escola incapaz de manter os jovens no sistema.