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operação cesariana

Descrição técnica de cesariana (método de Rezende). Aborda escolha anestésica (raquianestesia, peridural), posição em Trendelenburg, indicações absolutas e relativas, incisões arciformes de pele e útero, anatomia do monte púbico e dissecção da aponeurose.

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2019 
THAÍS BARRETTO ALEIXO 
HOSPITAL E MATERNIDADE TEREZINHA 
DE JESUS – HMTJ 
27/7/2019 
OPERAÇÃO CESARIANA 
DESCRIÇÃO DA TÉCNICA PREFERENTE (DE REZENDE) 
Na execução da cesárea, como ensinada e praticada por Rezende, é preciso ter atenção especial 
a 2 pormenores: a incisão arciforme do útero e a da pele, também curvilínea, em pleno monte 
púbico. 
Atualmente, a anestesia de escolha é a raquianestesia. A anestesia peridural também é apropriada 
nos casos em que durante o trabalho de parto houve indicação da cesárea. 
Em ambiente cirúrgico, após a antissepsia e a fixação dos campos, a grávida é colocada em 
posição de Trendelenburg moderada, inclinando-se o seu tronco e as pernas de 35-45 graus, o que 
deve ser rigorosamente observado. Essa postura possibilita a incisão dentro do monte púbico, 
facilita o descolamento aponeurótico e a retirada do feto. 
PRINCIPAIS INDICAÇÕES DE CESARIANA 
ABSOLUTAS 
Placenta prévia total e parcial 
Placenta acreta 
Malformações genitais (ex.: atresias e septos vaginais) 
Tumorações prévias (ex.; miomas prévios, câncer cervical invasivo) 
Desproporção cefalopélvica com feto vivo 
RELATIVAS 
Maternas Fetais Materno-Fetais 
Cardiopatias específicas 
(ex.: síndrome de Marfan 
com dilatação da aorta, 
doença coronariana 
instável) 
Sofrimento fetal Malformações fetais 
específicas (ex.: 
mielomeningocele, 
hidrocefalia com 
macrocrania etc.) 
Cesárea prévia 
Pneumopatias específicas 
(ex.: hipertensão pulmonar 
grave, síndrome de 
Guillain-Barré) 
Prolapso de 
cordão 
Herpes genital ativo Descolamento 
prematuro da 
placenta com 
feto vivo 
Dissecção aórtica Apresentação 
pélvica ou córmica 
HIV com carga viral > 
1.000 cópias 
Placenta prévia 
marginal e 
placenta baixa 
distando < 2 cm 
do orifício 
interno do colo 
Condições associadas à 
elevação da pressão 
intracraniana 
Gemelidade com 
1° feto não cefálico 
- - 
História de fístula 
retovaginal 
Gemelidade 
monoamniótica 
- - 
- Macrossomia - 
 
O obstetra, colocado à esquerda, procede à abertura transversal da pele e do tecido conectivo 
frouxo, subcutâneo, incisão ligeiramente encurvada formando arco (cujo raio tem de 10 a 12 cm), 
de cavo superior, pouco acima do púbis, em plena região guarnecida de pelos, no nível das 
espinhas ilíacas. Os limites laterais correspondem, em geral, às bordas superoexternas do pênil 
(Figura 1). Esse, situado por diante da sínfise pubiana, é triangular, de base superior, e confinase 
lateralmente com a prega inguinal, não tendo limites precisos superiores e inferiores. Acima, 
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confunde-se com o hipogástrio e, abaixo, com os grandes lábios. A espessura do monte púbico 
também é muito variável, podendo ultrapassar 8 a 10 cm em mulheres obesas. Estruturalmente, 
trata-se de uma camada célulo-adiposa, limitada entre 2 folhetos conectivos – fascia superficialis – 
revestida de tegumento e de pelos, contendo, no seu interior, um sistema de fibras elásticas, 
responsáveis tanto pela constituição do ligamento suspensor do clitóris como pela retração cutânea 
observada após a incisão da pele. A nutrição vascular é assegurada pelas artérias que provêm das 
pudendas internas, ramos da femoral; as veias orientam-se para o triângulo de Scarpa e deságuam 
na safena interna e, por intermédio dela, na femoral, ou diretamente na própria femoral; os nervos 
procedem dos ramos genitais do plexo lombar, que transitam pelo orifício externo do canal inguinal. 
 
Figura 1. Indicam-se a incisão da pele e a do tecido conectivo frouxo, subcutâneo, arciformes, de cavo superior, 
passando 2 cm acima do púbis; as extremidades do corte, e consequentemente todo ele, devem ficar, sempre que 
possível, dentro dos limites do monte de Vênus, e a serem recobertas, posteriormente, com o crescimento dos pelos 
pubianos 
Quando a incisão progride, observa-se que a ferida se abre espontaneamente, graças à distensão 
da parede abdominal, obtida pela postura da paciente. Após o pinçamento e a cauterização dos 
vasos sanguíneos, deve-se realizar secção, a bisturi, da aponeurose, bainha anterior do reto, pouco 
acima da incisão cutânea e também em ligeiro arco, de cavo superior, prolongando-se lateralmente, 
de 1 a 2 cm por baixo da pele. Sobre a borda lateral do reto, sua bainha anterior tem 2 camadas: 
uma superficial, de cada lado, formada pelas aponeuroses do grande e do pequeno oblíquo; e 
outra, profunda, vinculada à aponeurose do músculo transverso (Figura 2). A aponeurose deve ser 
bem descolada para cima, em seu retalho superior, usando-se a tesoura na linha branca e a 
dissecção romba lateralmente (Figura 3). Cada um dos retos pode ser libertado da parede anterior 
de sua bainha, para cima, na direção do umbigo, em uma extensão de 8 a 10 cm. As aderências 
costumam ser frouxas, em decorrência da embebição gravídica. Os dedos indicadores esquerdos 
do operador e de seu assistente levantam a parede anterior das bainhas dos retos de cada lado da 
linha branca, pondo-a sob tensão. Ela surge formando septo mediano tendinoso, muito curto, que 
divide o invólucro aponeurótico dos retos em 2 partes. 
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Figura 2. Abertura da aponeurose, no mesmo sentido da cutânea, mas em nível ligeiramente superior, e prolongada 
1 a 2 cm por debaixo da pele em ambos os lados 
 
Figura 3. Descolamento da aponeurose. No retalho superior, extensão de 8 a 10 cm; os dedos indicadores do 
cirurgião e do assistente levantam a parede das bainhas dos retos, de cada lado da linha branca, pondo-a sob 
tensão; surge, assim, septo mediano tendinoso, curto, a ser seccionado com a tesoura 
Procede-se da mesma maneira com o retalho aponeurótico inferior; os dedos indicador e o médio 
do cirurgião são mergulhados nos 2 lados da linha branca (Figura 4), e pinças de Kocher ou de 
Pauchet podem servir para suspender a parede anterior da bainha dos retos. A linha branca, 
esticada e tensa, também é incisada, para baixo, até a sínfise. Os retos são afastados por divulsão. 
 
Figura 4. Descolamento do retalho aponeurótico inferior, com o septo mediano incisado até a sínfise. Tempo 
atualmente dispensável pela elevada incidência de hematoma 
Abre-se o peritônio parietal com incisão longitudinal (Figura 56.5). A celiotomia transversa, 
preconizada por alguns, apresenta vantagens em certos casos (Figura 6). Coloca-se a valva de 
Doyen supravesical. Realizam-se incisão transversa do peritônio visceral, à altura da prega 
vesicuterina (Figura 7), e desnudamento pequeno do segmento inferior, com gaze montada em 
pinça (Figura 8), ou envolvendo o dedo. Por ter ocasionado muitas lesões fetais quando praticada 
por cirurgiões inexperientes, a via de acesso ao útero – histerotomia –, anteriormente feita em golpe 
único e vigoroso, hoje pode ser 
praticada de 2 maneiras: 
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1) Punção do segmento inferior, na linha média, com pinça fechada (Kelly curva), aberta na 
sequência. A brecha possibilitará a penetração de um dos dedos indicadores, que a 
ampliará, para a passagem do outro. Em movimento centrífugo, a abertura é aumentada, 
tomando, naturalmente, a direção curvilínea, imposta pela textura regional (Figura 9). A 
incisão é romba; não secciona, apenas separa as fibras, obedecendo à sua disposição 
histológica. Em decorrência da agressividade dessa dissociação, que não se detém sempre 
nos limites desejados, esse procedimento é desaconselhado. A literatura registra lesões daartéria uterina e dos ureteres, quando os dedos, traídos pela resistência inicial, avançam 
demais, chegando a degolar o útero em alguns casos. Além disso, as bordas da 
histerotomia, irregulares e denteadas, constituem uma ferida contusa, que dificulta uma 
sutura bem feita. 
 
Figura 5. Incisão do peritônio parietal, no sentido longitudinal, segundo Pfannenstiel 
 
Figura 6. A incisão transversal do peritônio parietal, no mesmo sentido da diérese dos demais planos, e pouco acima 
da bexiga, é a escolha de alguns cirurgiões 
2) Marcação de toda a incisão a bisturi, delineando a forma desejada, arciforme, elevada nos 
ângulos para impedir o extravio na direção dos vasos grossos. O instrumento corta apenas 
a camada superficial do segmento, aprofundando-se, no centro, até atingir a câmara ovular 
(Figura 10). Pela abertura penetram os dedos que divulsionam as fibras e seguem o traço 
sinalado pelo escalpelo. Nas cesáreas iterativas e eletivas, os menos experientes devem 
ter cautela com a espessura do segmento e sua vascularização aberrante, anômala. A 
precaução de delimitar o rumo da incisão pelo bisturi impede as irregularidades de suas 
bordas, possibilitando melhor colocação dos pontos. 
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Figura 7. Abertura do peritônio visceral. Coloca-se a valva suprapúbica e incisa-se, no sentido transverso, o peritônio 
visceral, à altura da prega vesicuterina 
 
Figura 8. Descolamento do peritônio visceral. Ele é separado do útero em uma extensão de 2 a 3 cm, para baixo e 
para cima, com gaze montada em pinça ou envolvendo o dedo 
Ao se extrair o concepto, retira-se a valva de Doyen, preferentemente, pela manobra de Geppert: 
após a orientação da cabeça do feto com o occipital voltado para a incisão, coloca-se a mão 
esquerda entre o púbis e a apresentação (Figura 11), enquanto o auxiliar faz ligeira pressão no 
fundo do útero. Esse ato cirúrgico, obstétrico por excelência, jamais deve ser realizado com 
instrumentos, o que demanda presteza e combinação harmoniosa de movimentos entre o operador 
e seus auxiliares. 
A conduta expectante é aconselhada no secundamento. Após a retirada do feto, deve-se aguardar 
por 1 a 2 min a resposta uterina à injeção ocitócica intravenosa, auxiliando-se a dequitadura com a 
manobra de Credé associada à tração controlada do cordão. Caso haja demora na resposta da 
víscera ao ecbólico e a manobra não completar imediatamente o secundamento, deve-se recorrer 
à extração manual da placenta. Efetuada metodicamente, essa extração não ocasiona problemas 
e é preferível às demais manipulações. Como deve ser sempre a regra na cesárea, é indispensável 
rigorosa revisão cavitária com chumaço de gaze ou compressa pequena, montados em pinça longa, 
evitando-se a retenção de fragmentos cotiledonários, de membranas ovulares e remanescentes da 
decídua, que causa hemorragias imediatas e tardias como as de infecções. 
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Figura 9. Histerotomia no segmento inferior por punção prévia do órgão com pinça de Kelly curva ou bisturi, e 
subsequente divulsão bidigital 
Deve-se mudar a postura da paciente, que se encontrava em moderada posição de Trendelenburg, 
tornando-a muito discreta. Levantam-se os lábios da histerotomia com pinças não traumatizantes 
do tipo Allis. 
 
Figura 10. direção da abertura do útero é traçada a bisturi, que delineia a forma desejada, curvilínea, elevada nos 
ângulos para impedir o extravio na direção dos vasos grossos 
Enquanto o 1º auxiliar traciona as pinças colocadas nas bordas do útero, em direção à sínfise, 
realiza-se a sutura, em plano único, com categute cromado número 0, em pontos separados 
extradeciduais (Figura 12). Deve-se evitar atingir a mucosa, tendo cuidado para que a agulha 
penetre e saia das paredes do segmento inferior sem transfixar a camada interna, que fica, então, 
revirada para dentro e completamente fechada, à medida que se aperta a sutura. 
 
Figura 11. A extração do concepto é feita manualmente, de preferência pela manobra de Geppert: a cabeça fetal 
deve ser orientada, trazendo-se o occipital à incisão; coloca-se a mão esquerda entre o púbis e a apresentação, 
enquanto o auxiliar faz pressão no fundo do útero 
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A histerorrafia, em pontos separados extradeciduais, tem sido abandonada, e muitos tocólogos 
preconizam o fechamento do útero em chuleio (Figura 13), abreviando-se, também, essa fase da 
operação. 
O fechamento do peritônio visceral (prega vesicuterina) é realizado com categute simples de 
número 2-0 em chuleio interrompido. Esse tempo da intervenção e a sutura do peritônio parietal 
vêm sendo omitidos por muitos cirurgiões, e considerados inúteis. 
 
Figura 12. Histerorrafia. É feita em plano singular, sendo desaconselhada a sutura dupla. São feitos pontos 
separados, extradeciduais, que não atingem a mucosa, com categute cromado número 0 
 
Figura 13. Histerorrafia em chuleio 
Deve-se mudar novamente a posição da paciente movimentando-se da mesa, que lhe eleva 
moderadamente os membros inferiores e o tronco. Deve ser feita a limpeza da cavidade abdominal. 
Sutura do peritônio parietal com categute número 2-0, simples, deve ter o chuleio cruzado 
interrompido a cada 3 pontos. Atingido o plano muscular, aproximam-se as bordas internas dos 
retos com 3 pontos em U, de categute simples número 2-0 (Figura 14). 
Fecha-se cuidadosamente a aponeurose com pontos separados, de Vicryl número 0 (Figura 15). 
O tecido subcutâneo é aproximado com categute simples número 3-0, pontos isolados (Figura 16). 
A sutura da pele em condições ideais deve ser intradérmica, mais estática, com mononáilon número 
3-0 ou com o fio absorvível monocril número 3-0. 
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Figura 14. Aproximação dos músculos retos com pontos separados e não muito apertados, em “U”, com fio de 
categute cromado número 0 
 
Figura 15. Sutura das aponeuroses, em plano singular, com pontos separados de Vicryl número 0 
 
Figura 16. Síntese do subcutâneo: pontos separados de categute simples número 3-0 
MODIFICAÇÕES DA TÉCNICA 
• Retalho vesical: sua realização está associada a maior tempo até a extração fetal e total de 
cirurgia, além de redução do nível de hemoglobina. Também está relacionada com maior 
incidência de micro-hematúria e maior necessidade de analgesia no pós-operatório. 
Atualmente se recomenda a incisão direta do útero, cerca de 1 cm acima da prega 
vesicuterina, sem que se realize o retalho vesical, sendo sua prática reservada aos casos em 
que a bexiga ocupa o segmento inferior. 
• Extração da placenta: na cesárea, a placenta pode ser extraída espontaneamente por tração 
funicular ou manualmente. Acerca desse tema, foram incluídos estudos randomizados na 
revisão da Cochrane, que evidenciou maior incidência de endometrite e perda sanguínea, 
além de maior tempo de internação hospitalar das pacientes que tiveram extração manual da 
placenta, favorecendo a práticade extração espontânea por tração controlada do cordão. 
• Histerorrafia: o National Institute for Health and Care Excellence (NICE, 2004) recomenda a 
sutura em 2 camadas. Essa prática tem respaldo, em especial, quando as mulheres planejam 
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novas gestações, apoiando-se em estudos que verificaram ser maior o risco de ruptura uterina 
em mulheres cujo útero foi suturado em camada única. 
• Fechamento peritoneal: tema que já foi alvo dos mais acalorados debates, hoje parece não 
suscitar polêmica diante das evidências que consagram o não fechamento peritoneal. A 
omissão da celiorrafia reduz o tempo operatório, a ocorrência de febre puerperal, a 
necessidade de analgesia e o tempo de internação hospitalar. A infecção da parede abdominal 
também tende a estar reduzida quando os peritônios não foram fechados. Contudo, registra-
se na prática maior incidência de aderência à parede uterina. 
• Aproximação do subcutâneo: o fechamento do tecido subcutâneo com mais de 2 cm de 
espessura esteve associado à redução de deiscência de cicatriz e de seroma. Contudo, 
parece não haver benefício na aproximação do subcutâneo quando este é menor que 2 cm, 
não havendo recomendação para tal. 
ANTIBIOTICOTERAPIA PROFILÁTICA 
A antibioticoterapia profilática na cesárea é útil na prevenção da endometrite pós-parto e da 
infecção de parede. O esquema de escolha é a cefazolina, 2 g por via intravenosa antes da abertura 
da pele. 
DIFICULDADES, ACIDENTES E COMPLICAÇÕES 
Hemorragia, extração fetal difícil e aderências (vesicais, epiploicas, intestinais) são as principais 
dificuldades encontradas durante a realização da cesariana. 
• Hemorragia: a operação cesariana costuma ocorrer sem grande perda sanguínea. Contudo, 
quando esta é considerável, deve-se buscar sua proveniência. 
 Hemorragias por lesão dos grandes pedículos vasculares. É um acidente 
raramente visto. A incisão arciforme, de cavo superior, pode evitá-lo; na hipótese de 
prolongar-se inesperadamente, ela o fará para cima e nunca para os lados, na direção 
dos grandes pedículos (Figura 17). 
 Hemorragias provindas dos próprios lábios da histerotomia: tendem a ser 
detidas ao se efetuar a sutura do miométrio. 
 Hemorragias originárias de anomalias vasculares regionais: é comum, nas 
mulheres anteriormente cesareadas e nas parturientes idosas, a existência de vasos 
dispostos de forma anômala, no segmento inferior, ou emergindo debaixo da bexiga, 
ao se fazer o descolamento do retalho inferior da prega vesicuterina (Figura 18). 
Verdadeiramente preocupantes são as hemorragias por placenta prévia-cesárea, 
quando parte da inserção ocorreu na face ventral do segmento, zona da histerotomia, 
e em multíparas de miométrio degenerado pela repetição continuada da função 
parturiente. A melhor conduta é evitar a incisão da placenta, ganhando acesso à borda 
mais próxima e manualmente descolando a placenta, enquanto o feto será extraído, 
frequentemente por extração pélvica (Figura 19). 
 Hemorragias por atonia uterina: geralmente respondem à injeção intravenosa ou 
nos cornos uterinos de ocitócicos (ocitocina ou derivado do esporão do centeio) e à 
massagem da víscera. Atualmente recomenda-se o uso de misoprostol retal (800 µg). 
 
Figura 17. Descaminho da incisão, lesando os grandes pedículos vasculares laterais 
 
Figura 18. A. Varicocele uterina. Hemorragia temível, a ser evitada, incisando-se o peritônio acima da prega 
vesicuterina, ou desviando-se a direção da histerotomia. B. Veias retrovesicais, que podem ser lesadas ao se 
proceder ao descolamento da bexiga e do peritônio visceral 
 
Figura 19. Placenta prévia-cesárea. Representação esquemática da histerotomia quando coincidente com a inserção 
placentária (A). A incisão do útero determina hemorragia de monta que deve ser combatida com rapidez e precisão 
técnica: (B) seccionando a placenta, atravessando-a, ou descolando-a (C) e indo em busca do feto cuja extração 
demanda urgência 
Em casos extremos, está indicada a ligadura da artéria uterina ou a histerectomia (Figura 20). 
• Extração fetal difícil: há diferentes procedimentos adequados para a rara oportunidade de 
não se conseguir extrair o concepto pela manobra de Geppert modificada: 
 A manobra clássica, que consiste em se fazer voltar a face do feto para a incisão do 
útero, introduzindo-lhe o indicador na boca para executar a rotação (Figuras 21 a 23), 
aplicando, então, o fórceps (Figura 24), que completa o desprendimento cefálico. 
 Utilização de alavancas (Figura 25) 
 Embriotomias, indicadas nas cesáreas com feto morto, macrossômico, de libertação 
impossível sem prolongamento irregular da histerotomia. 
• Não se detalha aqui a retirada do concepto em apresentação pélvica, pois a extração podal 
não apresenta particularidades relevantes. 
• Aderências: à medida que as iterativas aumentam de número surgem, cada vez mais, em 
todas as estatísticas, pacientes operadas muitas vezes, reduzindo-se as ocorrências de 
complicações que dificultam o ato cirúrgico. As aderências vesicais são bem comuns, mas 
não menos que as do intestino, tanto à parede do ventre como à do útero, à bexiga e a órgãos 
vizinhos. 
• O rompimento dessas aderências é uma tarefa delicada, que requer destreza e experiência 
cirúrgica e nem sempre se cumpre sem lesões acidentais daquelas vísceras. O reparo do 
dano deve ser feito imediatamente, consoante os procedimentos cirúrgicos aconselhados em 
cada caso. 
 
Figura 20. A. Ligadura do ramo ascendente da artéria uterina, incluindo porção substancial do miométrio. (Adaptada 
de O’Leary et al., op. cit.) B. Ligadura dupla, aconselhada por Clark: um dos pontos de sutura, baixo, é colocado 
como indicado para impedir o fluxo sanguíneo ascendente pela artéria uterina; o outro, mais alto, fica onde ela se 
anastomosa com a artéria ovariana 
 
Figura 21. A mão do operador começa a voltear a face do feto para a incisão. O pormenor apresenta o que se passa 
fora das vistas do observador 
 
Figura 22. Extração do concepto pela manobra clássica. Nesse 1o momento, procura-se trazer a face do feto à 
incisão, introduzindo-lhe o indicador na boca 
 
Figura 23. Após volteio da face, que se iniciou como representado na figura anterior, a extração cefálica deve ser 
realizada manualmente, forçando a flexão da cabeça, ou com o fórceps (Figura 24) 
 
Figura 24. Aplicação do fórceps para desprendimento cefálico; a manobra completa é representada nas Figuras 21 
a 23 
 
Figura 25. Alavanca de Torpin 
PÓS-OPERATÓRIO 
Após a cesariana, a paciente só deve ser retirada do centro cirúrgico com sinais vitais satisfatórios, 
útero contraído, lóquios e diurese compatíveis com o pós-operatório. Ela deve ser mantida em 
observação rigorosa na 1a hora, especialmente pelo obstetra e anestesista. Passado o período 
crítico, ela deve ser acompanhada por uma equipe de enfermagem treinada, sendo indispensável 
um enfermeiro para o correto monitoramento dos sinais vitais, dos lóquios e da contração uterina. 
Um médico plantonista também é indispensável. 
Durante as 4 primeiras horas pós-cesariana, os sinais vitais devem ser observados e registrados a 
cada 30 min, a seguir, a cada hora até 8 h pós-cirurgia, quando então a avaliação passa a ser feita 
de 4/4 h, principalmente nas pacientes submetidas à administração de morfina no bloqueio 
anestésico, pelo maior risco de insuficiência respiratória. 
• Terapia intravenosa. Durante as primeiras 12 h pós-cesariana deve-se manter hidratação 
venosa generosa, mínimo de 2.000 ml. Esta, além de necessária para repor as perdas 
hidreletrolíticas, é uma medida profilática da cefaleia pós-raque, conjuntamente com a 
utilização deagulhas finas para o bloqueio anestésico. Deve-se manter infusão venosa de 
ocitocina junto com a hidratação, 5 a 10 UI em cada soro, a fim de assegurar contração uterina 
eficaz e, consequentemente, diminuir o sangramento uterino. Caso seja utilizada morfina no 
bloqueio anestésico, analgésicos como dipirona, administrados por via intravenosa a cada 6 
h, geralmente são suficientes. Em casos que não seja utilizada morfina no bloqueio 
anestésico, opioides devem ser administrados no pós-operatório, com o intuito de aliviar a 
dor. 
• A utilização de anti-inflamatórios é desaconselhável, por ser prejudicial ao fenômeno da 
resposta metabólica ao trauma cirúrgico, assim como à evolução do processo cicatricial. 
• É frequente a incidência de enjoos, que costumam ser controlados com bromoprida ou 
ondansetrona administrada por via venosa. 
• A diurese é um ponto importante de observação, e tanto o volume quanto a característica da 
urina (coloração) devem ser rigorosamente observados. Com essa avaliação é possível fazer 
o balanço hídrico da paciente, e hematúria maciça pode indicar lesão vesical. 
• Dieta e função intestinal: a paciente deve permanecer em dieta zero por 6 h após a 
cesariana, quando se deve introduzir dieta líquida/pastosa. Após 12 h da cirurgia já se pode 
liberar dieta sólida. 
• Deve-se estimular a ingesta de líquidos em abundância, e de alimentos naturalmente laxativos 
com o objetivo de estimular a diurese e o retorno da função intestinal, que se encontra 
diminuída nessa fase. A ausculta do peristaltismo intestinal deve fazer parte do exame físico 
pós-operatório para que haja controle rígido do retorno aos parâmetros fisiológicos. 
• É comum alguma distensão abdominal, normalmente por flatulência e pelo reduzido 
peristaltismo. Por esse motivo é recomendável a prescrição de dimeticona 40 mg a cada 8 h. 
Em alguns casos, principalmente em constipadas crônicas, pode ser necessária 
administração de laxativos como o bisacodil por via oral ou sorbitol por via retal, e geralmente 
dose única é suficiente. 
• Em casos sem retorno da função intestinal, deve-se considerar a possibilidade de íleo 
metabólico. 
• Função vesical: a sonda vesical deve ser retirada 12 h pós-cirurgia, antes de se levantar a 
paciente do leito e encaminhá-la ao banho de aspersão assistido por enfermagem treinada. A 
micção espontânea deve ser observada com rigor, principalmente nas pacientes às quais se 
administrou morfina no bloqueio anestésico. Nessas pacientes, é comum a retenção urinária, 
sendo necessária a utilização de sonda vesical de alívio até o retorno da micção espontânea. 
Edemas traumáticos causados pelo cateterismo vesical peroperatório também são frequentes 
e dificultam as micções, por isso se recomendam a utilização de sonda de Foley no 14 e a 
técnica rigorosa para o cateterismo vesical, que também requer cuidados rígidos de assepsia 
e antissepsia para evitar infecções do sistema urinário, muito frequentes quando essas não 
são respeitadas. 
• Deambulação: a deambulação assistida deve ser estimulada logo após a retirada da sonda 
vesical assim como o banho de aspersão. O caminhar precoce, em geral, após 12 h do 
procedimento cirúrgico, acelera a retomada das funções intestinais e diminui a distensão 
abdominal, além de prevenir tromboembolismo. 
• A utilização de cinta elástica compressiva traz sensação de segurança e conforto para a 
paciente na deambulação. Deve-se ficar atento às lipotimias comuns desse período, o que 
justifica a recomendação de acompanhamento da deambulação e ingesta alimentar anterior 
ao levantar, a fim de diminuir o risco de hipoglicemia. 
• Cuidados com a ferida operatória: o curativo deve ser retirado 24 h após a cirurgia. A ferida 
cirúrgica deve ser limpa com álcool a 70% ou clorexidina. A tendência atual é não cobrir a 
cicatriz após esse período. Contudo, deve haver inspeção diária durante a internação 
hospitalar e a paciente deve ser orientada a fazê-la em casa. Roupas confortáveis devem ser 
utilizadas, e em geral os pontos são retirados, caso realizados com fio inabsorvível, em média 
após 7 a 10 dias da cesariana, quando a 1a consulta puerperal deve ser agendada. 
• Cuidados com as mamas e o aleitamento: o aleitamento deve ser estimulado 
precocemente, mesmo antes de se levantar a paciente do leito; em média, pode-se iniciar o 
aleitamento 4 h após a cirurgia. Nos casos em que o estado geral da paciente não possibilite 
o aleitamento, deve-se retardá-lo um pouco até que ela consiga fazê-lo com conforto. Os 
cuidados com as mamas devem ser respeitados. 
• Alta hospitalar: em geral recomenda-se a alta hospitalar com 72 h, porém, em função da 
melhora das técnicas operatórias e anestésicas, e da evolução da indústria farmacêutica com 
a produção de analgésicos cada vez mais eficientes, esse tempo tem sido abreviado em 
alguns casos para 48 h de internação hospitalar, mas não antes do retorno das funções 
intestinais. Na alta hospitalar a paciente deve ser orientada sobre a dieta, sobre cuidados com 
a cicatriz e com as mamas além de ser alertada sobre as medidas de higiene pessoal e da 
necessidade de deambular. 
• A 1ª consulta puerperal deve ser agendada após 7 a 10 dias. Analgésicos como dipirona ou 
paracetamol e, caso necessário, dimeticona, devem ser prescritos para a utilização domiciliar.

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