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RESUMÃO DIDÁTICA Elisangela Ganança Honório SEMANA 1 DIDÁTICA GERAL Alda Junqueira Marin Didática significa técnica de ensinar. É composta de conhecimentos adquirido, são saberes adquiridos por diversos meios, inclusive por meio da formação escolar como estudante, assim como aprendendo conhecimentos em disciplinas do currículo de formação de professores. Quando se diz que tem didática significa que o professor sabe ensinar bem, de modo que os alunos aprendam. Alguns professores tem conhecimentos, mas não são suficientes para exercer bem a função, de modo que os alunos aprendam. E a didática pode então fornecer esses conhecimentos. Segundo as pesquisas de Hamilton (2001a e 2001b), já por volta de 1500 a 1600, encontrou dados que marcaram a escolarização moderna na Europa, ligando currículo, livro-texto, disciplina e didática com modificações relacionadas à existência da imprensa e o aparecimento dessa palavra simultaneamente ao aparecimento da instrução relacionada a aprendizagem (que vigorava sem a preocupação com o ensinar). Com o passar do tempo começaram a surgir textos especificamente denominados com o termo didática, escritos por Elias Bodin (COMÉNIO, 1976), RATKE (2008) e posteriormente o próprio Coménio ficou conhecido como o “pai da didática”. Durante o século XVIII Rousseau já propunha (1762), que seria necessário estudarmos os alunos para que os conhecêssemos. A didática possui três faces: 1. Núcleo do trabalho docente: conjunto de ações para articular muitos conhecimentos que o professor possui para poder atender tarefas fundamentais de mediação entre tais conhecimentos e a escolarização de crianças, jovens e adultos; 2. Formação: dissemina o conhecimento existente para auxiliar novos professores a se prepararem para o desempenho de sua função nas salas de aula, pois, para ser bons professores é preciso que saibam ensinar que seus alunos aprendam; 3. Investigação: desenvolvimento de novos conhecimentos sobre o ensino. Tais conhecimentos produzidos vão compor os conteúdos da disciplina curricular para formar professores que aprendam a trabalhar e ensinar seus alunos. Outros autores denominam como dimensões: epistemológica – busca de novos conhecimentos com procedimentos investigativos; prática – enquanto saberes para a ação pedagógica e a dimensão disciplinar – caracterizando conhecimentos pedagógicos como curso (PIMENTA, FRANCO; LIBÂNEO, 2010). Até o século XVIII havia preocupação em ter escola para todas as crianças, mas não havia preocupação com o aprendizado. Desde o final do século XIX, os estudos e pesquisas trouxeram novos conhecimentos por meio do trabalho de grupos de pesquisadores em várias partes do mundo. A partir de então houve grande incentivo aos estudos sobre a criança em idade escolar com ênfase sobre desenvolvimento e aprendizagem. Esses resultados de pesquisa impulsionaram a criação e disseminação de novos meios de realização do trabalho em sala de aula, com novos procedimentos didáticos, com a preocupação de levar o alunado a realizar esforços para aprender de acordo com as condições intelectuais e características individuais, o professor passou a ser concebido como orientador da aprendizagem do alunado e não mero transmissor das noções. 1. Estudo do meio – atividade em que o aluno é levado a conhecer lugares da sociedade que antes era apenas livro – texto; 2. Estudo dirigido – o aluno recebe estímulos do professor mas tem condições de continuar os estudos individualmente; 3. Método de projetos – professores e alunos planejam uma atividade e organizam várias ações para atingir um objetivo que se refere a algum problema; 4. Fichas didáticas – permite que o aluno trabalhe suas condições e ritmos, pois há uma ficha com as noções, outra com os exercícios e uma terceira com a correção em que cada criança recebe seu conjunto de acordo com as condições que apresenta naquele momento. A partir de 1960, vários países inclusive o Brasil começaram a ampliar a oferta de escolas para a população que antes não estava sendo escolarizada. Como decorrência, duas características começaram a aparecer nas escolas: a evasão e a repetência. As escolas e os professores não estavam preparados para isso. Na década de 1970, apontava-se que não bastava a didática ter boas técnicas, mas precisava estabelecer relações com entre as áreas de conhecimento para auxiliar a suprir novas necessidades. O professor precisa desempenhar muitas ações para ensinar e tentar assegurar ao máximo a aprendizagem dos alunos. O professor passou a ser o responsável pela didática de suas aulas, é ele que constrói sua estrutura a partir de tudo o que sabe, deve respeitar a legislação, a escola, a colaboração das famílias e mesmo dos alunos. Bourdieu (2004) nos leva a pensar que os sistemas de ensino carregam com eles sistemas de pensamentos, percepções e ações no mundo, ou seja, muito mais do que só o conhecimento. GUARNIERI (1996) afirma que os professores não tem familiaridade com os conteúdos a serem ensinados, nem com os tipos de dificuldades dos alunos; eles têm dificuldade de transformar os conhecimentos adquiridos anteriormente em conteúdos ensináveis; têm dificuldades de organizar a sequência de ensino e organizar atividades escolares para os alunos. Já se sabe que precisamos trabalhar com todas as crianças e precisamos ensiná-las. Há que se entender que parte das concepções é sabermos se nossos alunos querem fazer parte da modernidade brasileira, mas para muitos, inclui elementos tradicionais como a fome, a pobreza, as origens sociais do campo, da periferia, com adversidades culturais que precisam ser enfrentadas e superadas. No movimento dialético de ir e vir diário, exige que o professor também aprenda nessa mediação de saberes constantes. A didática não se restringe a uma prática de ensino, mas se propõe a compreender a relação que se estabelece entre os três elementos principais: professor, aluno e a matéria a ser ensinada. Privilegia-se a análise das condições de ensino e suas relações com os objetivos, conteúdos, métodos e procedimentos de ensino. A didática não deve ser reduzida a meramente como uma visão tecnicista, a produção de conhecimento sobre as técnicas de ensino tem por objetivo tornar a prática docente reflexiva, para que a ação do professor não seja uma mera reprodução de estratégias presentes em livros didáticos ou manuais de ensino. A formação do educador exige uma interligação entre a teoria e a prática como forma de desenvolvimento da capacidade crítica do profissional. SEMANA 2 A DIDÁTICA, A ESCOLA E O ALUNO Didática: a prática de construção do aluno Um professor estava certo de seus métodos, não conseguia lecionar aos seus alunos, a didática usada pelo professor não resultou de nenhum ensinamento aos seus alunos pássaros. O professor não construía educação. Então deixou seus alunos livres e entendeu o que eles desejavam: o bater asas e voar era essencial para esses alunos, o professor aprendeu com seus alunos. O ensinar aprendendo faz a diferença. A didática da pedagogia é a prática de ensino. A construção do aprendizado é a interação do aluno com o professor. Ensinar não deve ser meramente uma profissão, mas sim uma vocação, do qual o professor se orgulhe do que faz. A didática parte do espírito do professor. O método utilizado na didática define o aprendizado do aluno. Deste modo, o professor deixa uma marca ao aluno “um bom professor é lembrado nos tempos de escola” (CURY, 2003). O importante é que o professor crie um vínculo com o aluno, deixando-aa vontade, criando condições para que o professor a conheça e o educador venha a respeitá-la, amá-la e compreendê-la (NICOLAU; MAURO. 1986 p. 25). Interação professor-aluno Cada aluno não é um número, mas um ser humano abrangente, com necessidades particulares. Ensinar é transmitir o que se sabe a quem quer saber, é dividir sabedoria. A relação entre professor e aluno depende da relação empática com seus alunos, da capacidade de ouvir, refletir e discutir o nível de compreensão dos alunos e da criação das pontes entre o seu conhecimento e o deles. Com o objetivo de desalienar a população, Freire criou a “pedagogia do diálogo” orientando que a relação educando-educador deve ser de forma horizontal, os temas geradores ou palavras geradoras devem ser aprofundadas na perspectiva da problematização, mostrando ao aluno que o professor não sabe tudo e também aprende com o aluno, desenvolvendo no educando ‘uma visão crítica’ da sua realidade (BIZERRA, 2001 p. 267). Os vínculos estabelecidos entre professor e aluno são muito fortes para o desenvolvimento pessoal e intelectual do aluno. A sala de aula é uma grande rede de interações sociais, a educação deve ser participativa. O professor deve aprender rapidamente o nome dos alunos, pesquisas indicam que as crianças desenvolvem atitudes mais positivas quando a relação com os professores é mais calorosa; se for ao contrário, marcado pela frieza, distância, os alunos vão reagir através da oposição aberta a aula ou educador. A interação na sala de aula é um dos aspectos que contam para o bom desenvolvimento da aprendizagem. O aluno pensador O aluno aprende a ser crítico a partir da interação entre este e o professor. Não se pode ficar nas respostas dos livros, é preciso que o aluno tenha auto- conhecimento, auto-crítica, replicar suas questões e dúvidas. É preciso adquirir ideias próprias, ser racionalista aos estudos. Quando o professor começa uma aula contando uma notícia relacionada ao conteúdo da aula e pede o comentário dos alunos, está dissimulando a capacidade de compreensão dos alunos, bem como a curiosidade. Piaget afirma que não se pode ter aprendido sem algum pensamento, nem se pode desenvolver o pensamento sem algum aprendizado. Os alunos: agentes ou pacientes? Jaime Cordeiro Páginas 71-94 A escola e a mídia Alguns estudiosos estão levantando a hipótese que a grande força da cultura da mídia como instância da socialização da juventude, aliada às transformações na produção e cultura contemporânea faz surgir um novo modelo de estudante, se preocupam apenas com o presente, com isso o diálogo com as gerações anteriores torna-se tenso. O apelo constantemente repetido pelos alunos é de que os professores precisam despertar o interesse dos alunos, mas há várias complicações envolvidas, chegar ao aluno pode ser algo concreto como um assunto, tema, problema ou ainda a cultura contemporânea que é de interesse aliada a rapidez, fugacidade e inconstância, associado a um fenômeno de moda, sendo rapidamente substituído por outro que acabou de surgir. A escola constituída num momento anterior ao contemporâneo opera com outras perspectivas e outra temporalidade, foi constituído a médio e longo prazo, como Herbart propôs para a escola no início da escolarização moderna, racionalizou as matérias, estipulou um tempo de em média 50 minutos para cada aula e tornou mais eficiente o trabalho do professor. As crianças atuais são acostumadas desde muito cedo a um ritmo mais acelerado, não há espaços vazios ou silenciosos para o raciocínio, os 50 minutos de uma aula podem parecer monótonos a quem está acostumado a viver num outro ritmo, em outra percepção de tempo. Deste modo, a escola procura cativar os jovens apelando para técnicas ligadas ao vídeo e ao computador em sala de aula, mesmo tipo de interesse que prevalece na mídia. A criança na pedagogia Ao tentar concorrer com a cultura da mídia, a escola corre o risco de tornar-se supérflua para crianças e jovens. Para tentar sanar esse problema, convém examinar como a pedagogia tem pensado e construído suas representações da criança e do aluno. A pedagogia nunca pensou na criança a partir da infância, sempre a partir da educação, como um ser contraditório. Em si, a criança não seria nem fraca, nem inocente e nem má, além de não ser comparada a um adulto, porém, como os adultos e a sociedade se comportam com relação a infância, acabam fazendo parte da própria definição de criança. Segundo Charlot, a ideia de infância é utilizada de maneira ideológica, por meio da naturalização da autoridade do adulto sobre a criança, dependência natural, já que representaria a condição de liberdade futura da criança. Apesar de todas as evidências de que a criança começa a aprender muito antes de entrar na escola, tanto a instituição, quanto pais e professores ainda acreditam que a escola é um lugar à parte da sociedade, que não deve sofrer influências danosas do mundo exterior. Mas essa utopia nunca pôde existir, as crianças nunca foram puras ou totalmente inocentes, já do ponto de vista das crianças pobres, as dificuldades materiais e do mundo do trabalho sempre foram inevitavelmente misturadas ao mundo dos adultos. Já as crianças de elite e classes médias, o mundo adulto também está inserido seja por satélites, por rastreadores, superproteção ao vivo, com as agruras da vida e da violência urbana. A cultura contemporânea vem reconstruindo a infância e idealizando a juventude, todos querem ser jovens, mas a juventude continua sendo uma etapa transitória e fugaz, ao tentar reorganizar a infância e a juventude, diminui proporcionalmente o peso, a autoridade e o poder simbólico dos adultos sobre elas. Escola e socialização: A produção da criança e do aluno A passagem pela escola foi, durante muito tempo para a grande maioria das crianças a principal e mais importante experiência e socialização, porém outras instâncias sociais contribuem com grande força para a socialização das crianças na sociedade atual. As famílias ainda mantêm papel relevante, ainda que não exista mais um padrão familiar que se imponha por todos os setores da sociedade (tendência a casamentos com duração menores, circulação da criança entre o lar materno e paterno, convivência de irmãos provenientes de distintos casamentos dos pais), a sociedade contemporânea passa por sensíveis mudanças nos modelos de socialização produzidos pelas famílias. Essas mudanças devem ser levadas em conta principalmente pelos professores, que não podem continuar reproduzindo modelos idealizados de famílias. Se em casa ou fora da escola as crianças estão subordinadas por um adulto, dentro da escola a maioria se encontra com seus iguais, da mesma idade, condições físicas, intelectuais ou emocionais muito próximas, e só há uma relação de mediação (professores) nessas relações. É nessa socialização que se constituem e afirmam a construção da personalidade de cada uma das crianças. E durante a puberdade, é na escola que os primeiros sentimentos fora da relação familiar começam a surgir, objetos de desejo sexual, sentimentos amorosos correspondidos ou não, amizades sinceras ou não, experiências sentimentais que ajudam a definir e formar identidades e personalidades. Do ponto de vista da escola e dos professores, a escola é apenas considerada como local pedagógico, com regras e proibições, talvez se esse ímpeto de relacionamentos fossem levados em conta, para além das cobranças pedagógicas, não que seja uma solução pronta, mas compreender alguns aspectos pode ser um ponto de partida mais satisfatóriopara encontrar respostas do simplesmente aceitar as receitas impostas e usualmente empregadas. A escola sempre vai ser uma instância obrigatória de socialização das novas gerações, os professores são autorizados pela sociedade a exercer o seu trabalho e na imposição da violência simbólica, tal como é chamado na sociologia, os alunos são pacientes, aqueles que recebem a ação da violência simbólica, a qual é percebida pela sociedade como legítima e necessária. Entre o indivíduo e grupo: a quem se ensina? Em estudos recentes, tanto a abordagem tradicional, quanto as atuais propostas pelas didáticas mais renovadas, as atitudes e estratégias de trabalhos são mais ou menos as mesmas de acordo com Phellippe Perrenound: 1. Diante da impossibilidade de resistir ou escapar, fazer sem reclamar; 2. Procuram fazer rapidamente para sobrar tempo para outras coisas mais relevantes, na opinião deles; 3. Realizar a tarefa muito lentamente, o que permite ganhar mais um tempo ou fugir da tarefa; 4. Admitem não compreender ou declaram incompetência para realizar a tarefa, com isso ganham mais explicações e mais facilidade na elaboração do trabalho; 5. Por fim, ainda há a contestação aberta, negam-se a fazer. Muitas vezes os professores deduzem o aprendizado e classificam hierarquizam as diferentes atitudes dos alunos como bons alunos por concordarem com tudo e maus alunos por questionarem ou não entenderem o que é proposto. Com isso nem sempre observam o principal, se realmente o aluno que fez tudo compreendeu o que fez ou o que não fez ou pediu mais instruções na verdade são termômetros de ensino. É preciso admitir que ensinar exige do docente tanto atenções coletivas, quanto individuais, mesmo que os professores reclamem da quantidade de alunos, o que dificulta a atenção particular. No entanto, é possível desenvolver procedimentos didáticos que propiciem uma partilha de conhecimento e técnicas envolvidas na sua aquisição, de modo a envolver dinâmicas e técnicas de cooperação de trabalho mais coletivo durante as aulas. Classificação dos alunos e fracasso escolar No início não havia a preocupação com didáticas ou qualquer tipo de classificação, visto que eram poucos alunos e a maioria da mesma classe social. No entanto, com a obrigatoriedade e uma quantidade cada vez maior de alunos em sala de aula, era preciso encontrar maneiras mais eficientes de organizar o ensino e controlar a entrada e a saída de indivíduos na escola. Noëlle Bisseret traz a noção de que cada indivíduo traz em si algumas aptidões naturais na sociedade capitalista, o uso dessa tese chega até o século XX por meio da psicologia diferencial e dos testes, de acordo com essa compreensão, alguns alunos nasceriam mais bem dotados do que outros para a realização desta ou daquela atividade. Com isso, a psicologia diferencial da metade do século XIX iria resolver conflitos pessoais e gerais da sociedade, a qual passaria a funcionar com harmonia e eficiência, apesar do racismo e preconceitos presentes e cada pessoa poderia se dedicar às suas verdadeiras vocações. As ideias de Mendel nos primeiros anos do século XX viria acrescentar um suporte teórico à ideia de que as aptidões eram transmitidas hereditariamente. Os psicólogos iriam se encarregar de fazer testes de aptidões aos alunos, com testes de inteligências, como o que foi mais bem sucedido pelo psicólogo francês Alfred Binet, ao qual se transformaria no teste de QI (quociente de inteligência). Para Binet os testes eram apenas racional e eficiente de promover uma primeira seleção e classificação das crianças, para que todas pudessem ser atendidas na escola de forma mais adequada possível. Com os testes de QI, os Estados Unidos passaram a utilizar para classificar estudantes, com o passar dos tempos, também passaram a identificar e recusar imigrantes, bem como a população negra, estes foram classificados como perigosos futuros ladrões e delinquentes. Com isso, os testes passaram a exercer um papel de exclusão, a eles se somaram outros instrumentos de classificação e julgamento dos alunos que resultaram na construção do fracasso escolar. Ao buscarem explicação para o fracasso escolar, Maria Helena Patto afirma que foi uma construção teórica e prática dentro e fora do ambiente escolar, já no Brasil, atribuíram o fracasso a carência de material, emocional e linguístico, demonstraram que a maioria das crianças de camadas mais populares não são bem sucedidas devido a situações vividas fora dela. As explicações são bem variadas: As famílias não forneciam carinho suficiente; As crianças seriam mal alimentadas ou desnutridas; O ambiente em que vivem seriam marcados por falta de estímulos e interações linguísticas muito precárias. As explicações propostas para o fracasso escolar (quase) nunca põe em questão a parcela de responsabilidade que a esfera escolar e as práticas pedagógicas ali desenvolvidas devem ter na produção e reprodução do problema. Mais recentemente tem havido reações contra essa situação com a invenção e prática de soluções implementadas por professores da rede pública. As principais mudanças são relacionadas a avaliação e classificação dos alunos, além da integração entre professores e alunos, com isso admite-se que há necessidade de a escola levar em conta a opinião e aspiração dos alunos e de suas famílias em todas as decisões que lhes digam respeito. O aluno transforma-se de paciente em agente, dotado de autonomia, ser aluno, portanto, só pode ser compreendido através da noção de transitoriedade. Relativizar os juízos sobre os alunos também pode induzir os professores a serem mais flexíveis nas cobranças que eles acabam impondo a si próprios. Aprofundando o tema FRACASSO ESCOLAR: UMA QUESTÃO ANTIGA, MAS ATUAL Roseli Fernandes Lins Caldas O texto refere-se a uma criança norte-americana, em idade escolar, no ano de 1944. Há algumas características divergentes como nacionalidade, processos sócio-histórico-político, conscientização sobre seu próprio processo educacional e as perspectivas de vida futura, entre tantas outras. Assim como características semelhantes como ansiedades, angústias, expectativas, relações de afetos e desafetos, questionamentos sobre suas competências, queixas e organização da escola. As queixas escolares dos professores são voltadas principalmente para duas características: rendimento acadêmico e comportamento na escola. O comportamento deste aluno repetente citado é calado (por medo de expor sua dúvida e não ser compreendido), para alguns professores isso seria um bom sinal, já que conversar seria um sinal de indisciplina. Analisando a narrativa do aluno que diz que cada ano uma professora exige algo diferente e que nunca conseguirá guardar nomes ou coisas que ele não vê tanta importância, se sente atraído por coisas reais e o pai dele falou que aos 15 anos ele poderia sair da escola, e segundo o aluno, era o que mais queria pelo fato de estar ficando velho para algumas curiosidades. Muitos de nossos alunos matriculados em escolas da rede pública têm se defrontado com o fracasso escolar e, tantas vezes, isto tem sido feito sob a aprovação de procedimentos psicológicos como testes e laudos que corroboram com o fracasso. O cotidiano escolar é invadido por processos discriminatórios em suas práticas e discursos, estigmatizando crianças que, em geral, pertencem a uma classe social de baixa renda, o que torna o quadro ainda mais grave. A escola, que deveria ser lugar de perspectivas e possibilidades, passa a ser lugar de depreciação e humilhação, justificando desigualdades.A barbárie torna-se familiar e natural, sem sequer ser percebida como tal, muitas vezes. Escolarização, queixa escolar e inteligência O aluno em que se refere o texto se compara aos outros alunos e sempre sai perdendo, para Moysés e Collares (1997), as comparações são perigosas nesse sentido, este aluno nos mostra o cuidado para não generalizar o que é historicamente determinado, a repetência e a impossibilidade de acompanhar a série relativa a idade é exemplo disso. A escola e, lamentavelmente, muitos psicólogos, insistem em atribuir a causa do fracasso escolar da criança a questões intelectuais ou emocionais “individuais”. O “problema emocional” passa a ser a explicação para a dificuldade de aprender, não sendo levado em conta o que a escola produz, em termos emocionais, na criança que tem constantes insucessos acadêmicos. Muitos conceitos que vamos incorporando durante a vida a nosso respeito constituem-se a partir de nossas experiências escolares, tanto nas atividades acadêmicas em termos de leitura e escrita, como nas atividades sociais, lúdicas ou esportivas. A autocrítica e o medo de errar podem explicar a produção da inibição, em muitos casos. Afinal, expressar-se é comprometer-se. É como se a escola estivesse ensinando os alunos a escrever pouco, a produzir menos para errar menos e ser menos criticados. Lamentavelmente, as crianças aprendem isto rapidamente. O aluno Repetente de nosso relato produzia mais na garagem do tio do que na escola. Como consequência, a escola torna-se um lugar de mal-estar, do qual a grande maioria dos alunos quer livrar-se. A desumanização está presente nas histórias escolares de muitos alunos como o repetente. Entretanto, a escola pode tornar-se um lugar que garanta o desenvolvimento do processo de humanização. Afinal, o indivíduo se torna indivíduo via educação na sociedade (TANAMACHI, 2000). É preciso possibilitar que se olhe através de uma fresta pela qual se contemple um lugar mais amplo, maior do que a criança ou, no máximo, sua família, como responsáveis pelas dificuldades para aprender. Olhar que pressupõe problematização, investigação sobre os elementos produtores da criança que não aprende. Olhar que não se detém na aparência. Que se propõe a desnudar o currículo oculto presente na escola, aguçando a percepção para notar valores e crenças que fazem a mediação das relações sociais do cotidiano escolar, na promoção de sucesso ou fracasso. Assim, há muito que se fazer hoje em Educação tendo a perspectiva de transformar o impossível de hoje em possível amanhã. Afinal, comprometer-se com a desumanização é assumí-la e, assim, desumanizar-se também. Por outro lado, comprometer-se com a humanização é tornar-se mais humano (FREIRE,1987). A RELAÇÃO COM O SABER, COM O APRENDER E COM A ESCOLA: UMA ABORDAGEM EM TERMOS DE PROCESSOS EPISTÊMICOS Maria José Braga Viana Charlot e sua equipe desenvolveram pesquisas centradas sobre a temática geral da relação com o saber (com o aprender e com a escola). Os instrumentos de pesquisa utilizados foram os inventários de saber, acompanhados de entrevistas semidirigidas aprofundadas. Esses inventários, apresentados de forma escrita, constituíram uma espécie de balanço dos saberes que, segundo os autores, no contexto geral daquilo que os jovens aprenderam na vida, fazia mais sentido para eles. A questão-modelo que orientou a produção desses inventários foi: "Tenho ... anos. Aprendi coisas em casa, na cidade, na escola e em outros lugares. O que para mim é importante em tudo isso? E agora, o que espero?" O que fazia sentido para os jovens naquilo que aprenderam e suas escolhas constituem o que interessou aos pesquisadores investigar. Esses inventários assumiram as mais variadas formas de textos escritos: de algumas linhas a uma página, relatos longos, acompanhados de argumentações gerais sobre o saber que chegaram a três ou quatro páginas (Charlot, 1996, p. 51). Charlot afirma: "O conhecimento é o resultado de uma experiência pessoal, ligada à atividade de um sujeito provido de qualidades afetivo- cognitivas; como tal é intransmissível, está sob a primazia da subjetividade" (p. 61). Hoje, são adotadas as seguintes definições: "A relação com o saber é a relação com o mundo, com o outro e com ele mesmo, de um sujeito confrontado com a necessidade de aprender. (...) é o conjunto (organizado) das relações que um sujeito mantém com tudo quanto estiver relacionado com 'o aprender' e o saber" (Charlot, 2000, p. 80). Rochex defende a necessidade de se colocar no centro das situações de aprendizagem a atividade do aluno, ao invés dos discursos do professor (do instrucionismo). No contexto de uma relação reflexiva com os saberes, com o conhecimento e com a aprendizagem, pressupondo que "a aprendizagem jamais é linear" (p. 286), o autor defende que o ensino deve se fundar sobre a pesquisa. Se o saber é relação, o processo que leva a adotar uma relação de saber com o mundo deve ser objeto de uma educação intelectual, e não a acumulação de conteúdos; se esse não é puramente cognitivo ou didático, mas também identitário, deve considerar que a escolarização, sobretudo a prolongada e para as camadas populares, implica em emancipação social e cultural, em distanciamento das origens, com ou sem rupturas no plano simbólico; "implica sempre a renúncia, provisória ou profunda, de outras formas de relação com o mundo, consigo e com os outros" (p. 64). Esses estudos apontam, em suma, para a possibilidade de se pensar uma pedagogia que permita descobrir outra forma de relação com o mundo distinta da construída no dia-a-dia pelas famílias populares, que considere as dificuldades específicas enfrentadas para terem sucesso na escola (Charlot, 2000). SEMANA 3 A RELAÇÃO PEDAGÓGICA Jaime Cordeiro O trabalho pedagógico é uma atividade interacional ou relacional entre professor e aluno. Gerente do conjunto das relações humanas que se efetivam na sala de aula. O ensino é uma prática social complexa onde existem conflitos de valor e que exige posturas éticas e políticas. A sala de aula é um espaço de relações interpessoais, no qual ocorre uma ampla gama de fenômenos psicológicos. Do ponto de vista da didática a relação pedagógica está ligada a transmissão ou aquisição de conhecimento que engloba as relações entre professor, aluno e conhecimento. Do ponto de vista do aluno, a escola é percebida como um espaço de relações sociais e humanas (etapa obrigatória da vida). Porém, a escola é local de encontro com seus iguais, relações mais ou menos duradouras e intensas com pessoas da mesma faixa etária, separadas somente numa parcela de tempo escolar em que o professor está presente em sala de aula. Judith Harris (1999): a parte decisiva da definição da personalidade de sujeitos se dá justamente no âmbito do grupo de iguais, mais do que por meio da influência dos pais ou de outros adultos. A dimensão de socialização entre iguais e diferentes (experimentar amizades, desafetos, afinidades, repulsas, exercitar liderança, autoridade e reações contra liderança e autoridades). Do ponto de vista do professor, é um tipo de ofício que, para ser efetivado, depende dos alunos no conjunto de interações pessoais. O objetivo principal é a transmissão ou aquisição do conhecimento contínuo. Ser professor requer saberes e conhecimentos científicos, pedagógicos, educacionais, ter sensibilidade, indagação teórica e criatividade para encarar as situações ambíguas, incertas e conflituosas. A relação pedagógica entre professor e aluno é uma espécie de acordo temporário, ao qualse esgota na realização do seu objetivo. A relação pedagógica espacial envolve a sala de aula. Para que potencialmente todos tivessem ao mesmo tempo, os mesmos conteúdos, criaram-se dispositivos didáticos como a pedagogia frontal, aula expositiva, ordenamento quadriculado das carteiras escolares viradas para frente, onde se instalam o professor e a lousa. A pedagogia renovada não há lugares fixos determinados, mobiliário adequado para trabalhos em equipes, vários materiais para pesquisa, nas paredes há cartazes coloridos, trabalhos realizados pelos alunos, fotografias, mapas, etc. O espaço não é fator determinante para o aprendizado. A relação temporal é regulada pelo tempo escolar, regrado e determinado fora da sala de aula, nas instâncias jurídicas, administrativas e curriculares mais amplas. As matérias, cargas didáticas e peso de cada disciplina são prescritos pelos currículos escolares. O professor deve gerenciar o tempo de permanência na sala de aula com a matéria a ser lecionada (duração da matérias, atividades e provas). As relações linguísticas devem conter linguagem clara e objetiva, não pode ser chula ou muito rebuscada. Aprender as regras e os comportamentos linguísticos que vigoram na sala de aula. As relações pessoais e interpessoais assimétricas, na medida em que está em jogo a autoridade pedagógica, proximidade com os saberes a serem aprendidos e torná-los acessíveis aos alunos. Aprendizagem coletiva e individual (rotinas escolares). As rotinas cognitivas são elementos que interagem entre si: professor, alunos e conhecimento, definem o caráter e a função primordial da escola, saberes sociais. Segundo Libâneo é o processo ou movimento que transcorre no ato de ensinar e aprender, tendo em vista a transmissão e assimilação dos conhecimentos. Os aspectos sócio-emocionais estão vinculados ao afeto, normas e exigências que regem a conduta dos alunos na aula (disciplina). O ato pedagógico não pode deixar de considerar as mudanças ocorridas na sociedade no que diz respeito ao plano das relações interpessoais. Bernard Charlot (2001) afirma que importa dar conta de explicar porque as crianças e jovens vão para a escola (fatores de valores e desigualdade). A relação pedagógica é um aspecto vital da didática, um tema que tem que ser examinado com muito cuidado por todos aqueles que exercem ou pretendem exercer o oficio docente. Autoridade profissional: domínio de conteúdo, métodos e procedimentos; tato em lidar com a turma e com as diferenças individuais; capacidade de controlar e avaliar o trabalho dos alunos e do docente. Autoridade moral: qualidades do professor, dedicação, sensibilidade, sensos de justiça, traços de caráter. Autoridade técnica: capacidades, habilidades e hábitos pedagógicos – didáticos necessários para dirigir com eficácia o processo ensino-aprendizagem. Tendência Liberal Tradicional Relação Professor/ Aluno Autoridade do professor que exige atitude receptiva do aluno; Impede qualquer canal de comunicação; O professor transmite o conteúdo em forma de verdade; A disciplina é imposta pela coação. Aprendizagem A aprendizagem é receptiva e mecânica, sem se considerar as características próprias de cada idade; Os programas devem ser organizados em sequência lógica, sem se considerar as características próprias de cada idade; O aluno responde as situações novas de forma semelhante às respostas dadas em situações anteriores. Tendência Liberal Renovada Progressista Relação Professor/ Aluno O professor é auxiliador no desenvolvimento livre da criança. Aprendizagem É baseada na motivação e na estimulação de problemas. Tendência Liberal Renovada Não Diretiva Relação Professor/ Aluno Educação centralizada no aluno e o professor é quem garantirá um relacionamento de respeito (facilitador da aprendizagem; Aprender é modificar; o aluno necessita de aceitação plena. Aprendizagem Aprender é modificar as percepções da realidade. Tendência Liberal tecnicista Relação Professor/ Aluno Professor Administra as condições de transmissão da matéria; É um elo entre verdade científica e alunos; Não há comunicação pessoal com o aluno e vice- versa; As relações afetivas pessoais pouco importam para o desenvolvimento do processo aluno- aprendizagem; Aluno Indivíduo responsivo; Não participa da elaboração do programa. Aprendizagem Aprendizagem baseada no desempenho, o aluno sai da situação de aprendizagem diferente de quando entrou. Condicionamento operante (Skinner). Tendência Liberal Progressista Libertadora (Paulo Freire) Relação Professor/ Aluno Relação de igual para igual, horizontalmente; Não autoritário; Não diretivo. Aprendizagem Educação problematizadora como força motivacional de aprendizagem; Aprender é um ato de tomar conhecimento da realidade concreta e só tem um sentido se resulta de uma análise crítica dessa realidade. Tendência Progressista Libertária Relação Professor/ Aluno Não diretiva, sem obrigações e ameaças; O professor é um orientador e catalizador (dinamizador) e os alunos são livres; O professor se mistura ao grupo para reflexão comum, não impõe suas concepções e ideias, não transforma o aluno em objeto. Aprendizagem A motivação está no interesse de crescer dentro da vivência grupal; Aprendizagem informal, via grupo e a negação de toda forma de repressão; Somente o experimentado é usado em situações novas. Tendência Progressista Crítico-social dos Conteúdos ou Histórico-crítica Relação Professor/ Aluno Papel do aluno como partícipe e do professor como mediador entre o saber e o aluno; Abrir perspectivas a partir dos conteúdos relacionados com o estilo de vida dos alunos, tendo consciência inclusive dos contrastes entre sua própria cultura e a do aluno. Aprendizagem Aprender é desenvolver a capacidade de processar informações e lidar com os estímulos do ambiente, organizando os dados disponíveis da experiência; Aprendizagem significativa. A relação pedagógica é um aspecto vital da didática, um tema que tem que ser examinado com muito cuidado por todos aqueles que exercem ou pretendem exercer o ofício docente. É no âmbito da relação pedagógica, compreendida em sentido bastante amplo que o trabalho do professor e as atividades centrais da escola e dos estudantes se efetivam. Aprofundando o tema Poder e desvelo em sala da aula Belmira Oliveira Bueno George W. Noblit É importante considerar todas as visões a respeito do poder e do desvelo. O poder está ligado com a opressão, há o poder como traço do indivíduo, poder concebido através da relação entre as pessoas, o poder institucionalizado em ideologias e estruturas e o poder informal das redes sociais, o poder de patrões sobre empregados e os jogos de poder de facções ou grupos. A concepção de Michel Foucault está relacionada com o conhecimento, não é possível exercer algum tipo de poder sem conhecimento, é quase impossível o conhecimento não engendrar o poder, classificado por Foucault como mecanismos de repressão que pode envolver gênero, raça e questões organizacionais. Desvelo é uma interação de reciprocidade desigual, construída pelo afeto, pelo amor, pela responsabilidade e acima de tudo pelo uso ético do poder, que se converte na autoridade moral do professor em sala de aula. É nesse conjunto de conceitos que o autor vê o poder (autoridade moral) que uma professora tem para estabelecer e manter a ordem na sala deaula (estilo centrado no ensino de PAM, que é a professora). A metodologia utilizada pela professora PAM explora uma ética baseada no desvelo e poder, usado a serviço da moral dos outros. Assim o poder é usado para confirmar e não para negar os outros, sustenta e promove o outro como sujeito. A mediação entre relacionamento de professor e aluno é chamado de relacionamento de desvelo, por ser caracterizado recíproco e desigual, mas beneficia ambos os lados de forma diferente, controla o que não é bom e os comportamentos desajustados. A professora age com autoridade moral para impor comportamentos socialmente aceitáveis, com base num poder socialmente construído e legitimado, poder e autoridade para fazer com que sua classe funcionasse. George W. Noblit torna o trabalho da professora PAM como paradigma de autoridade moral, autoridade e desvelo, desconstruindo toda sua visão anterior de relação de poder em sala de aula baseado na relação de opressor e oprimido, na dominância de sobreposição de valores, do mais forte sobre o mais fraco e por fim, o desvelo é uma relação recíproca e desigual que beneficia cada parte de forma diferente e o poder (autoridade moral) é utilizado para construir o desvelo. Simplificando As relações devem ser fundamentadas em seu espaço e tempo e que elas devem ter um objetivo que é a Aprendizagem do aluno e ao atingir o objetivo essas relações se extinguirão. Que o espaço da escola não irá se caracterizar de maneira igual para alunos e professores, os alunos por sua vez irão estabelecer vínculos e descobrir sentimentos, formar parte da sua personalidade no convívio com os seus iguais longe da autoridade dos pais e professores, que para os mesmos muitas vezes o espaço da escola terá significado diferente do que para os adultos que ali estão com a finalidade do conhecimento. E para finalizar ficou muito marcada nessa semana que a relação pedagógica é composta de maneira tríade entre o professor, o aluno e o conhecimento, que para que sejamos bons professores vamos precisar trabalhar de maneira muito artesanal para que os alunos possam interagir com o planejamento do aula para que possamos, professor e aluno, atingirem um único objetivo o conhecimento. Elisangela Moreira dos Santos SEMANA 4 SALA DE AULA: ESPAÇO E TEMPO DE INTERAÇÕES COM O SABER A ESCOLA E O ENSINO: NÚCLEO DA DIDÁTICA A ORGANIZAÇÃO EM SALA DE AULA: A GRAMÁTICA ESCOLAR Jaime Cordeiro A escola como conhecemos hoje começou a ser criada na Europa Ocidental, entre os séculos XV e XVII. Nesta época a infância passou a ser entendida como uma era particular e específica na vida do ser humano, distinto da fase adulta. Algumas pessoas começaram a pensar que seria melhor que as crianças ficassem separadas dos adultos, a forma que as elites encontraram foi mandá-las para a escola, uma instituição própria, criada para melhor prepará-las para a vida. Nesses últimos 500 anos, a escola vem sendo estruturada aos poucos. Primeiro para um grupo pequeno da elite, desde a metade do século XIX começou a se abrir a quase todas as pessoas, de acordo com processos de vários governos. O ritmo de expansão da escola de massa foi muito variável de país para país, mas os processos e resultados acabaram sendo muito parecidos. No Brasil, por exemplo, só a pouco tempo foram atingidos níveis de escolarização e de acesso à escola próximos a totalidade da população em idade escolar. Na Europa Ocidental isso já acontecia há mais 50 anos. Alguns autores dão nome de gramática escolar a profunda semelhança de funcionamento do ensino e da escola no mundo, a ideia desses autores é que mesmo que haja algumas variações, a sintaxe da escola é a mesma, a gramática é praticamente invariável tanto no tempo quanto no espaço. Pode-se afirmar que há uma lógica de globalização dos modelos pedagógicos e dos sistemas escolares que caminha na constituição de ensinos nacionais bem parecidos, mas com diferenças sensíveis, já que as diversas situações locais tem suas peculiaridades, que contribuem para dar um entorno específico para cada caso. Qualquer lugar pode ser sala de aula, já foi comprovado que aprender em sala de aula e passar a ver a experiência na prática é muito mais proveitoso, sair fora é sempre um ganho, o professor e o aluno aprendem juntos, o professor deve falar que também não sabe e está aprendendo junto. Trabalhos em grupo ajudam a estabelecer relações de amizade, da importância de todos participarem, trazer a realidade aos alunos. A proposta principal de Comênius é que os professores ensinem menos os alunos e aprendam mais. No ensino todas as atividades são concebidas e planejadas de modo a produzir aprendizagem, porém nem todo ato de aprendizagem se caracteriza, ao passo que os estudantes aprendem diversas coisas que não estavam planejadas inicialmente. Amélia de castro: o ideal de toda didática sempre foi que o ensino produzisse uma transformação no aprendiz, através do que foi aprendido, se tornasse diferente, melhor, mais capaz, mais sábio. Passmore insiste que os meios que permitem saber se é bom professor não consistem em verificar se escreve com clareza no quadro, se mantém a disciplina ou se sabe utilizar os mais recentes apoios visuais, mas se os alunos aprendem o que lhes tenta ensinar. Aprendizagem das crianças segundo Bruner: As crianças aprendem por imitação (know-how): observação e repetição dos procedimentos demonstrados pelo adulto. As crianças aprendem pela absorção de ideias: saber é proposicional parte de um conhecimento prévio que deve ser completado com o aprofundamento do ensino em questão. As crianças são seres pensantes: a criança é vista como um ser pensante, o conhecimento se desenvolve a partir de intercâmbios entre os diversos sujeitos pensantes. O professor participa de intercâmbios entre os diversos sujeitos pensantes. O professor participa no sentido de auxiliar as crianças a reconhecer e instaurar o processo coletivo de reflexão. As crianças como detentoras de conhecimento: dimensão pessoal de aprendizagem, mas que não esgota todo o problema, todo o conhecimento pessoal tem que se acumular com o coletivo. Esses 4 modelos são ideias, já que na prática ocorrem diferentes combinações de ensino-aprendizagem. A aula é lugar de concretização do Ensino. Tríade: professor ensina algo a alguém. Os significados do currículo escolar Uma das mudanças mais significativas dentro do processo histórico da escola, é referente a organização dos conteúdos escolares predominantemente por disciplinas e à sua distribuição de duração durante todo o período de estudos. Trata- se da estruturação e produção do currículo escolar. Consiste num modo padronizado de aprender e se relacionar com o conhecimento. Isso quer dizer que as pessoas letradas, escolarizadas, partilham entre si de um conjunto comum de referências culturais, de saberes e de conhecimentos. A passagem das pessoas pela escola e pelo mesmo currículo instaura condições para a consolidação de uma esfera pública, de um espaço comum de troca de ideias em que se pode desenvolver a política e em particular a democracia. É possível intervir nos conteúdos a ensinar, é possível propor alternativas e incluir visões que foram quase sempre excluídas da escola. Mas também é importante e urgente interferir nos modos de ensinar e aprender esses conteúdos, os modos de ensinar devem ir além das proposições e métodos alternativos. Ensinar implica adotar procedimentos diferentes, dependendo do tipo de conteúdo com que se lida. Isso leva alguns críticos a dizerem que não pode existir uma didática geral,pois seria uma disciplina inútil ou impossível. Só existiriam didáticas particulares, ligadas a cada matéria do currículo, portanto, podemos deixar para as metodologias do ensino das diversas disciplinas e reflexão a respeito dos melhores meios de ensinar os conteúdos. E podemos, assim, voltar nosso olhar para outras dimensões do ensino que, do nosso ponto de vista, só podem ser abordadas convenientemente com base numa reflexão didática mais ampla. Acontece que a crítica muito radical aos procedimentos didáticos tradicionais não tem fundamentos, pois muitos de nós fomos formados por um tipo de escola que se encaixa perfeitamente no perfil de ensino tradicional. Não se pode deixar de apontar que alguns dos procedimentos mais costumeiros da escola valorizava o padrão cultural elitista, no entanto, o dilema entre o novo e o tradicional na educação, como é proposto na maioria dos casos, é um falso problema. Aprofundando o tema Professores e Professauros Celso Antunes A aula excelente segundo John Dewey A escola que John Dewey sonhou (e se tornou realidade por um tempo) propunha uma educação na qual as ideias e democracia não vinha prontas, mas que se construía e se discutia através de processos experimentais continuados. A escola deve propiciar um espaço no qual possam ser realizadas experiências exemplares da vida social mas também deve oportunizar o confronto permanente do anseio de liberdade do indivíduo com conteúdos específicos que mostrem sua dimensão social. Para isso é importante que a sua vida social na escola tenha como base a troca de experiências mediante a comunicação entre os alunos, uma vez descoberta da compreensão da vida no mundo adquire significado através da linguagem. A educação deve compreender as seguintes etapas: As matérias ensinadas já se manifestara na familiaridade e nas experiências que os alunos trazem consigo, o papel da escola é sistematizar e ampliar esses saberes de uma dimensão pessoal para a social; O papel do professor é essencial, quando descobre que sua finalidade é ajudar o aluno a organizar, ampliar e aprofundar os saberes que traz consigo; A finalidade do ensino é também integrar o que se descobriu de maneira lógica e racional. Para Dewey, reflexão e ação devem estar sempre unidas e apenas em um sistema democrático o homem deve desenvolver plenamente suas potencialidades criadoras e deixar emergir todas as formas de inteligência. A indisciplina do aluno não deve ser vista apenas como um mal a ser evitado, mas como uma energia em desenvolvimento que o trabalho docente pode transformar em processos de crescimento. Das experiências feitas por Dewey, as que mais poderiam ser utilizadas são: Substituir o espaço físico da escola por um ambiente que proporcionasse experiências de vida e de trabalho; Substituir o conceito de distribuição de tempo na atividade escolar, em seu lugar, uma racionalização de aproveitamento do tempo para que os alunos possam praticar experiências e as confrontar com seus saberes; Substituir os conceitos de currículo e matéria, Dewey que a escola deveria existir para que os alunos assumissem alguma ocupação doméstica, extraindo todos os aspectos que poderiam gerar em torno dela, até alcançar um grau que pudesse associar essa aprendizagem às relações humanas, sociais e econômicas; Substituir a ideia de programa imposto pelo hábito, os professores se organizariam de acordo com os objetivos sociais da educação e as condições de seu local de trabalho. Ao invés de coordenadores e supervisores, que acompanhariam o desempenho docente seria de responsabilidade da própria associação cooperativa dos professores empenhados na finalidade educativa; Substituir a ideia de aula como determinado espaço de tempo, em que um professor transmite informações por uma ação docente diretiva, que deveria dispor os alunos a partir de suas próprias possibilidades e dirijam suas capacidades para um uso social; Substituir as séries determinadas por faixas etárias e pela progressão intelectual por alunos organizados em grupos segundo suas idades; Substituir repetição de temas ensinados em seriações diferentes por uma ideia de sequência. O eixo das propostas de ensino incluía um conceito de uma atividade interdisciplinar. Substituir notas, boletins, pontuações por registros somativos em que alunos e professores se autoavaliriam. Os alunos não apenas participariam do planejamento e da avaliação desses projetos como todo o desenvolvimento é acompanhado por uma divisão cooperativa de funções, de maneira que os papéis diretivos são atribuídos a todos em seu devido tempo, como aspiração de um modelo de cooperação autêntica e democrática. Aula excelente segundo Maria Montessori Celso Antunes Os métodos de Maria Montessori são resultados de estudos e observações o qual considera: Que a criança aprende por si mesma, segundo o seu processo natural de desenvolvimento e períodos sensíveis; Cada um possui um ritmo; O ambiente deve ser propício ao aprendizado e também deve atender às necessidades específicas das crianças; Errar faz parte do processo de aprendizagem. Segundo Maria Montessori, dos 0 aos 6 anos a criança aprende naturalmente tudo que a envolve. É chamado “espírito absorvente”, acompanhado pelos períodos sensíveis da criança. Defensores: concordam com a certeza de que não pode existir aprendizagem eficiente sem a criação de um ambiente apropriado para cultivar a atenção, a vontade, as inteligências, a imaginação e o desenvolvimento em todos os alunos de sua compreensão sobre o “eu” e seu desenvolvimento musical, sua habilidade para o desenho, o estudo da língua, da aritmética e da geometria e a consciência sobre as regas sociais. Opositores: o material do qual se utiliza não se apoia a materiais concretos do mundo real; o trabalho do professor é norteado por metodismos e pelo esforço em se adaptar às ideias e aos recursos materiais. Critica-se o individualismo de seu método e a subordinação do que é essencial que se aprenda pelo interesse espontâneo do aluno aprender o que deseja. Aula excelente segundo Paulo Freire Celso Antunes No começo do ano de 1960, Paulo Freire já formado em advocacia, ficou extremamente atormentado pelo analfabetismo que ainda marginalizava o povo nordestino e criou um método de alfabetização para adultos, simples e revolucionário para seu tempo, que em menos de dois meses poderia transformar em leitores trabalhadores adultos e mais ainda, em leitores conscientes de seu tempo, da exploração que sofriam e dos sonhos que seria legítimo cultivar. A prova de força de suas ideias se manifestou em Angicos, Rio Grande do Norte, onde me apenas 45 dias alfabetizou cerca de 300 camponeses. Paulo Freire mostrou que grande parte dos problemas da educação não são de natureza pedagógica, mas também de essência política, e que toda aula precisa de instrumento de reflexão e de crítica e que sua consciência não pode existir fora da prática. A educação bancária (aquela em que o professor deposita conhecimento na mente dos alunos) necessitava transformar-se em uma educação libertadora, que levando a reflexão, desperta a crítica e esta a ação. A escola pública e popular busca pensar educação em três objetivos: Ampliar o acesso e a permanência da população na escola; Democratização do poder pedagógico (a escola não é favor do governo, mas sim obrigação e que deve ser de boa qualidade); Alcance da qualidade na educação (formação de professores contínua e currículo interdisciplinar). Muitos dos círculos de pais e mestres evoluírampara círculos de cultura, como espaço de formação aberto ao público da cidade e a figura de coordenação passou a ser expositor e o diálogo substituía a aula convencional. A aula excelente segundo Antón S. Makarenko Celso Antunes Makarenko é um pedagogo soviético e comunista mais representativo de todos os tempos, nas coletividades infantis e juvenis que dirigiu, exercitou uma nova pedagogia baseada em três pilares: a importância da coletividade, o trabalho socialmente produzido e o papel essencial do educador. Sua pedagogia era totalmente diferente das pedagogias de Dewey, Montessori e Freinet, firme e disciplinador, opunha-se a tolerância, permissividade e aos ilimitados direitos dos alunos. Criou um internato misto, abrigava cerca de 100 alunos e 10 professores que tinham a incumbência de não apenas ministrar aulas, mas inventar um currículo jamais estático, e sem qualquer estrutura similar às escolas comuns, não existem provas e nem exames obrigatórios, por se acreditar que o sucesso acadêmico nada tem a ver com a felicidade. O mais importante era como aprender e não o que aprender, aprender sobre como argumentar e não que tema argumentar. A liberdade era a palavra de ordem e o autogoverno era definido através de assembleias semanais ou por tribunais comunitários que decidiam por casos e procedimentos do cotidiano, com poderes para aplicar ou isentar sanções. Até 1976, a escola da Ponte, em Portugal era uma escola quase falida, alunos e professores tinham que usar manuais com repetições maciças para alunos diferentes, inclusive para inclusões. Nessa oportunidade, o educador José Pacheco resolveu empreender um caminho recheado de novas ideias, sentiu que precisa promover a autonomia e a liberdade, em pouco tempo as coisas mudaram. Na Ponte, os caminhos são enfrentados pelos próprios alunos, eles mesmo propõem, discutem e aprovam seus documentos, uma espécie de Carta Magna que lhes permite liberdade de tutela dos professores. É uma escola em que os alunos escolhem os próprios caminhos, no qual os alunos escolhem o que desejam estudar, não existem divisões por série, idade ou aprendizado, nem mesmo ciclos ou disciplinas. Não existe sala do diretor e não é por arquitetura, muito mais por solidariedade e menos autoridade. Em 2005 conquistou um contrato de autonomia e não recebe imposições do estado, cria suas próprias questões curriculares. Aula excelente segundo Celestin Freinet Celso Antunes Em algumas circunstâncias, educadores apresentam ideias revolucionárias e inovadoras que partiram de seus estudos profundos em intensivas experiências laboratoriais e uma vida dedicada a pesquisa. Em outros casos, há experimentos pedagógicos desenvolvidos em lugares distantes, por professores sem muito preparo, apenas por intuição, capazes de criar projetos arrojados, dinâmicos, que nascem da criatividade, dos desafios do dia a dia, da necessidade de fugir da rotina e buscar soluções em caminhos nunca percorridos. Considerado um dos mais importantes inovadores da educação do século XX, Freinet não possuía títulos universitários e também não criou estratégias a partir de pesquisas acadêmicas. Seu título de professor surgiu com a guerra, durante o período do curso, foi intitulado professor e um ano depois foi para a guerra e voltou gravemente ferido em um pulmão. Começa uma difícil e demorada recuperação e ele aproveitou esse tempo para ler, renuncia a pensão vitalícia que tinha direito como ferido de guerra e ingressa na educação. Seu trabalho revela forte influência sobre autores como: Montaigne, Rabelais, Pestalozzi, mas principalmente Rousseau e Karl Marx. Em 1925 foi para a União Soviética e começou a experimentar um novo método de ensino chamado de “método natural”. Fazendo do meio ambiente e seu conhecimento um grande aliado e de onde extrai recursos para seu ensino. Não de deteve a carteiras e cadeiras, saía com os alunos e incentivava a descoberta por meio a experimentação, sugerindo a escrita de textos pelas crianças, suas aulas insistiam na interdisciplinaridade, estímulo a descobertas e à criação de textos. Entre 1928 e 1929 idealiza com seus alunos o “fichário escolar cooperativo” e substitui os livros de textos dos manuais escolares, e em 1931 juntamente com seus alunos publica o “Periódico do Trabalho”, que mais tarde foi alterado para “L’Educateur Prolétariens”. As obras de Freinet são muito extensas, embora a grande parte tenha sido produzida em forma de fascículos ou opúsculos e mais tarde organizada em livros. Calcula-se que deve ter deixado cerca de dois mil trabalhos, totalizando cerca de 50 mil páginas. É acusado de fascista e comunista, suas aulas não se detinham em salas, eram abertas, embaixo de árvores ou ao ar livre (com isso, alguns o denunciavam por acharem que ele fazia política a seus alunos) sua visão de ensino sempre foi incompatível com qualquer forma de autoritarismo ou qualquer forma de tecnicismo estimulando a psicologia do adestramento. As ideias de Freinet sempre se voltaram contra o adestramento, a favor da libertação; contra a seleção, a favor da acolhida; contra o modelo de aluno perfeito, a favor da humanização, respeito pelas diferenças e acolhida às muitas inteligências. Não ensinava a “programação oficial”, não gostava de provas, mas anotava todas as ações de seus alunos nos caderninhos, estimulava desenhos livres e também a mexer com argila, a criação tanto de textos a partir de das palavras dos alunos até mini esculturas com argilas. A excelente aula segundo Jean Piaget Celso Antunes Piaget não era pedagogo, jamais se preocupou em orientar professores ou discutir métodos de ensino. Sua área de pesquisa é a psicologia, dedicou-se a investigar os processos de inteligência humana, baseados em suas descobertas, educadores estabeleceram propostas pedagógicas. Os conceitos de Piaget inspiraram muitos seguidores como Emília Ferreiro. Mesmo o autor nunca ter mencionado sobre construtivismo, não é difícil associar, visto que em inúmeros pontos se identificam. O construtivismo é uma corrente educacional que parte do princípio de que o conhecimento que conquistamos não é algo que venha de fora, ou seja passado de pessoa para pessoa ou ainda adquirido de uma leitura, mas estimulado a partir de experiências quando das mesmas participamos ativamente, buscando conhecer, pesquisando respostas e refletindo. Para o construtivismo, um aluno que ouve uma informação não a aprende, guarda na memória e a reproduz de forma robotizada, como um papagaio ou um gravador, desse modo, quando a aprendizagem é mecânica é mais fácil de esquecer, pois o cérebro não assimilou por completo, enquanto que o construtivismo, o cérebro leva um tempo maior para aprender e com isso é mais difícil de esquecer. Em síntese a concepção construtivista da aprendizagem sugere: O conhecimento escolar não constitui propriedade do professor que, em suas aulas ministra-o a seus alunos, que ouvindo, apreendem-no. O conhecimento que é necessário para abrir novos conhecimentos é recebido de forma ativa, pois necessita interação do indivíduo, com os símbolos e com o ambiente. O conhecimento se constrói progressivamente, por força de uma ação e interação e não por dotação prévia que exista na carga hereditária do aluno ou no ambiente que este aluno frequenta. As experiências de Piaget, mostraram por exemplo, que uma criança na fase pré-operacional tem dificuldade para pensar simultaneamente em diversos aspectos de uma mesma situação: dois copos de água, um mais largo e outro mais alto tem a mesma quantidade de água, ou ainda que se pegar chuva,pode ficar gripada. Destacou que a criança não é um adulto pequeno, mas que o cérebro está em constante transformação, que sua educação necessita de respeito de limites a sua forma de pensamento. Piaget demonstrou a importância de se rejeitar uma exposição de conhecimentos prontos, destacando que somente se aprende de maneira significativa quando existe uma ação direta e construção pessoal no conhecimento em que se adquire. SEMANA 5 PLANEJAR, PROJETAR E CONSTRUIR O planejamento do trabalho pedagógico: algumas indagações e tentativas de respostas José Cerchi Fusari Na medida que se concebe o planejamento como meio para facilitar e viabilizar a democratização do ensino, o seu conceito necessita ser revisto, redirecionado e reconsiderado. Em muitos casos, os professores copiam ou fazem cópias do plano de aula do ano anterior e o entregam à secretaria da escola, com a sensação de mais uma atividade burocrática cumprida. Planejamento não é isso. Deve ser concebido, assumido e vivenciado no cotidiano da prática social docente, como um processo de reflexão, de retomar e reconsiderar os dados disponíveis, estar em busca constante de significados. Segundo Saviani, para a reflexão ser considerada filosófica, deve preencher os seguintes requisitos: Radical – buscar a raiz do problema; rigorosa – na medida em que faz uso do método científico e de conjunto – pois exige visão da totalidade na qual o fenômeno aparece. O planejamento nesta perspectiva, é acima de tudo, uma atitude crítica do educador diante de seu trabalho docente. É um processo que envolve a atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho pedagógico envolvendo todas as suas ações e interações entre os educandos. O plano de ensino é uma documentação do processo educacional escolar como um todo, é um documento elaborado pelos docentes, contendo suas propostas de trabalho numa área e/ou disciplina específica. A ação consciente, competente e crítica do educador é que transforma a realidade a partir das reflexões vivenciadas no planejamento e consequentemente do que foi proposto no plano de ensino. O fundamental não é decidir se o plano vai ser redigido no formulário X ou Y, mas assumir que a ação pedagógica necessita de no mínimo um bom preparo, mesmo tendo o livro didático como um dos instrumentos comunicacionais no trabalho escolar em sala de aula. A ausência de um processo de planejamento de ensino nas escolas tem levado a uma contínua improvisação pedagógica nas aulas. O preparo das aulas é uma das atividades mais importantes do trabalho do profissional da educação escolar. Cada aula é um encontro curricular, no qual, aos poucos vai tecendo a rede escolar proposto para a determinada faixa etária, modalidade ou grau de ensino. A aula, no contexto da educação escolar, é uma síntese curricular que concretiza, efetiva, constrói o processo de ensinar e aprender. O aluno precisa ir recebendo, sentindo e compreendendo cada aula como um processo vivido por ele, para que avance do “senso comum à consciência filosófica”. Um ponto que necessita ficar bastante claro é que os livros didáticos é apenas um dos meios de comunicação do processo de ensinar e aprender. Como tal, ele faz parte do método de ensino do trabalho do professor, os quais estão ligados ao conteúdo que está sendo trabalhado, tendo em vista o atingimento de determinados objetivos educacionais (pontos de chegada). É preocupante a situação dos professores: eles tem de entregar planos gerais, plano do curso e plano de ensino, e no entanto, não possuem condições para o preparo das aulas, o que é fundamental. Na atual conjuntura, vamos estimular os professores a prepararem suas aulas, garantindo um trabalho mais competente e produtivo no processo ensino- aprendizagem, no qual o professor seja um bom mediador entre os alunos e os conteúdos ensinados. No início dos anos 70, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo iniciou um processo de treinamento de professores com o tema planejamento de ensino, mas o Golpe Militar já implantava repressão, impedindo rapidamente o trabalho crítico e reflexivo, propiciando um avanço da “tendência tecnicista” da educação escolar. Segundo a documentação da época, vejamos alguns conceitos difundidos na área específica do planejamento de ensino: Plano: “processo de tomada de decisões que estimula a aprendizagem; processo hierárquico capaz de controlar a ordem na qual a sequência de operações deve ser realizada; Objetivo educacional: proposição sobre mudança comportamental desejada, devem prever mudanças nos domínios “cognitivo, afetivo e psicomotor”. Os objetivos comportamentais devem descrever o que o aluno precisa fazer ou realizar para mostrar que está atingindo o objetivo. Além do aspecto técnico da definição do objetivo, esse exemplo traz uma escolha de valor a favor do capitalismo e contra o comunismo, propício ao momento histórico da época. Conteúdo: constitui o conjunto de conhecimentos acumulados, envolve fatos, conceitos, princípios, podendo abranger aspectos específicos de aquisição de conhecimentos em cada área de estudo; Estratégia instrucional: uma vez definidos os objetivos, cumpre o professor e supervisor o planejamento de procedimentos, métodos e técnicas que visam engajar o aluno em situações capazes de produzirem aprendizado (fase de orientação de resposta e feedback); Avaliação: é a forma através da qual o professor procura determinar a natureza e a quantidade de mudanças efetuadas no comportamento, em função dos objetivos definidos e as estratégias planejadas (...) as situações de avaliação são mais facilmente escolhidas quando os objetivos instrucionais são bem definidos. Foi dessa forma que teve início a tendência tecnicista em São Paulo, influenciando a elaboração de planos de ensino, o que de certa forma, explica a situação atual do planejamento do ensino na maioria das escolas públicas, desenvolvido de forma mecânica e burocrática. Três aspectos precisam ser levados em conta quando se fala da transformação da realidade do planejamento do ensino nas escolas: Transformações nas condições objetivas do trabalho do professor na escola, garantindo espaços nos quais os docentes possam-se reunir e discutir o próprio trabalho, problematizando-o como meio para seu próprio aperfeiçoamento, reduzir as horas de trabalho, para favorecer um bom planejamento; Transformações sérias nos cursos que formam educadores: procurando garantir uma formação profissional competente e crítica, visando formar um educador comprometido com a democratização da escola e da sociedade brasileira; A categoria dos profissionais da educação deve conquistar e propor uma política para a formação dos educadores em serviço, de acordo com as necessidades da prática docente, como um processo efetivo de permanente aperfeiçoamento profissional. Elaborar, executar e avaliar os planos de ensino exige que o professor tenha clareza (crítica): da função da escola na sociedade brasileira; da função político- pedagógica dos educadores escolares (diretores, professores, funcionários, conselho da escola...); dos objetivos gerais da educação escolar (em termos de pais, estado, município, escola, áreas de estudo e disciplinas); do valor dos conteúdos como meios para a formação do cidadão consciente, competente e crítico; das articulações entre os conteúdos, métodos, técnicas e meios de comunicação; e da avaliação no processo de ensino-aprendizagem. O trabalho de planejamento e a tarefa de preparar (pensar e redigir), vivenciar, acompanhar e avaliar planos de ensino sãoações e reflexões que devem ser vivenciadas pelo grupo de professores e não apenas por alguns deles. Outro aspecto refere-se à necessidade de o grupo de educadores ter uma clara percepção dos problemas básicos da sua escola, curso, disciplina e principalmente de suas aulas. Diante de manifestações de problemas escolares como evasão, retenção, indisciplina, desinteresse, faltas, atrasos e tantos outros, os educadores necessitam identificar suas causas, tendo em vista a sua superação. É bastante comum os educadores escolares apresentarem soluções para superar as situações-problemas, pautados apenas em sua manifestação, sem devida clareza de quais são as suas origens. Este engano termina por frustrá-los, pois eles selecionaram e aplicaram o “remédio” sem o diagnóstico correto da doença, causando profundos danos ao “doente”, no caso, o aluno. As respostas às indagações podem servir de pretexto para maior aprofundamento, na medida em que o objetivo não foi o de esgotar as respostas, muito menos transformar cada uma delas num pequeno texto. SEMANA 6 AVALIAR PARA ENSINAR A NECESSIDADE E OS BONS USOS DA AVALIAÇÃO Telma Weisz A necessidade e os bons usos da avaliação Weisz traz a ideia de que a aprendizagem é a reconstrução que o aprendiz tem de fazer a partir dos seus esquemas interpretativos. O aluno já possui um conhecimento prévio (um conjunto de ideias, representações e informações que servem de sustentação para a nova aprendizagem), ainda que não tenha uma relação direta com o conteúdo que se quer ensinar. Essa necessidade de avaliar antes do processo de ensinar é uma característica da relação de ensino-aprendizagem construtivista. Tendo mapeado todo o ensino prévio, e pondo em prática as situações planejadas para leva-los a avançar, o professor passa precisar de um outro instrumento para verificar como eles estão progredindo, já que o conhecimento não é construído igualmente. Esse instrumento é a avaliação de percurso, formativa ou processual, como muito chamam, feita durante o processo de aprendizagem, serve para verificar se o trabalho do professor está sendo bem produtivo, e se os alunos estão de fato aprendendo com as situações didáticas propostas. Ao montar uma situação de avaliação, o professor precisa ter clareza sobre as diferenças que existem entre situações de aprendizagem e situações de avaliação. Um ditado, por exemplo, pode ser uma situação de aprendizagem para alunos que ainda não escrevem convencionalmente e também situação de avaliação do seu conhecimento sobre a escrita. Se o ditado for para verificar o que cada um sabe com relação a palavras especificas, então deve ser feito de forma individual, no entanto, se o objetivo for de aprendizagem, até a auto avaliação é aceita, como escrever um poema com as próprias palavras, parlendas ou canções que sabem de cor. Avaliar a aprendizagem do aluno é também avaliar a intervenção do professor, já que o ensino deve ser planejado e replanejado em função das aprendizagens conquistadas. Quando a maioria dos alunos vai mal numa avaliação, é certo que o professor precisa rever alguns conceitos e o modo que está explicando o assunto, se a maioria da sala vai bem e somente alguns não, estes devem ser atendidos imediatamente através de outras atividades que possibilitem a superação de suas dificuldades. As dificuldades precisam ser detectadas o mais rápido possível, para que sejam apoiados, continuem progredindo e não desenvolvam bloqueios. Portanto antes que o aluno desista de aprender, a escola precisa criar formas de apoio à aprendizagem. As escolas podem ainda, organizar projetos que garantam horários de atendimentos desses alunos antes ou depois das aulas, permitindo que os alunos não se percam no caminho e que entrem ou saiam dessas atividades na medida de suas necessidades e que não sejam estigmatizados por participar dela. Assim, é importante a organização de espaços coletivos de discussão, do trabalho pedagógico na escola, valorizando-se a prática de observação em sala de aula por um coordenador, orientador ou mesmo um colega que ajude a olhar de fora. O professor está sempre tão envolvido que, às vezes, não é possível enxergar o que lhe salta aos olhos de um observador externo. Isso deve ser visto como parte integrante da escolaridade de qualquer um. O mau desempenho escolar pode ser fruto de diferentes circunstancias ou razões, que precisam ser consideradas quando se pensa a intervenção pedagógica. Há diferentes situações: Por não ter compreendido conceitualmente um determinado conteúdo, o prosseguimento das aprendizagens do aluno fica comprometido. Nesse caso, avaliando onde está a dificuldade que impede o aluno de avançar em seus conhecimentos, o professor pode ajudá-lo com atividades e intervenções especificamente planejadas para a superação do que está sendo obstáculo; O aluno não avança porque tem procedimentos inadequados, mesmo tendo conseguido aprender os principais conceitos relacionados ao que não sabe fazer. Nessa situação, a ajuda do professor depende fundamentalmente de saber localizar a real dificuldade do aluno; um mau desempenho pode ser resultado de baixa autoestima ou de uma atitude desfavorável em relação à própria aprendizagem. E papel do professor encorajar o aluno, fazendo-o sentir-se apoiado diante dos desafios. A escola costuma esquecer que as crianças desenvolvem uma vida social com sua turma tão importante em termos formativos quanto a aprendizagem de conteúdos escolares. Dessa forma, as crianças devem ser mantidas juntas por idade para progredir juntas, evitando-se o absurdo de se manter meninos de 12/13 anos em classe de meninos de 8 anos. Não se pode avaliar apenas os conteúdos das áreas de conhecimento na hora de decidir a vida escolar do aluno. Se o aluno não alcançou o nível de desempenho exigido pela escola (no ano ou ciclo), a equipe responsável pelo trabalho pode garantir que no ano seguinte receba ajuda adequada, tendo condições mais favoráveis para continuar aprendendo com a sua própria turma. Frequentemente a retenção tem um caráter punitivo. Há situações - raras - em que é um alívio para o aluno repetir o ano porque ele está verdadeiramente defasado em relação à sua turma, e às vezes mal adaptado por causa disso. Nesse sentido, a reprovação pode ser um bem para ele, pois lhe possibilita uma vida escolar mais tranquila. Aprofundando o tema Avaliação: instrumento de desenvolvimento pedagógico Robson Alves dos Santos Quando iniciamos uma discussão acerca da avaliação educacional e seu papel no desenvolvimento dos alunos, ela normalmente é desvirtuada da sua função de aprendizado para assumir uma importância que, analisando-se com acuidade, a torna legitimadora da exclusão ou da classificação indevida dos alunos, sancionando as desigualdades que a sociedade exibe fartamente. O professor que, ao final do bimestre ou do ano letivo, apenas constata que o aluno não sabia isso ou aquilo e nada faz para reverter a situação está selando o fracasso do aluno. A avaliação dever servir como elemento para que tanto professores, quanto alunos possam rever caminhos, metodologias, para que estes possam melhorar e aqueles, ao fazer uso da avaliação para si, melhorem suas relações com o alunado. A avaliação deve ser um elemento de grande auxílio para o desenvolvimento dos alunos, tornando-se sua aliada, ajudando-os a superar obstáculos, fazendo-os crescer e não apenas quantificar, dando notas ou conceitos, medindo os supostos saberes ou as supostas ignorâncias acerca do que deveriam saber. Fazendo um retrospecto de algumas concepções deavaliação, sem a preocupação com cronologias, mas sim com reflexões, podemos citar o seguinte: a avaliação foi utilizada como sinônimo de medir, limitando-a a momentos estanques, buscando mensurar algo que não o poderia ser – o aprendizado do aluno. O uso de testes, padrões esperados ou planejados, não levava em conta a diversidade do alunado. O que é errar? Poderíamos dizer que erra aquele que não responde aos padrões determinados para considerarmos acertos. Sendo assim, quem concebeu os tais padrões e não levou em conta os erros do caminho? Ao observarmos a trajetória de grandes gênios da humanidade, percebemos que eles obtiveram muitos fracassos antes de chegar ao sucesso. Para exemplo, citaremos Thomas Alva Edson, inventor da lâmpada incandescente que, através de várias tentativas e erros entendeu que, para que o filamento pudesse incandescer, era preciso criar um vácuo no bulbo de vidro. Quantos bulbos e filamentos foram perdidos até que ele conseguisse chegar ao resultado esperado? Se tivesse desistido ou ainda sido severamente punido, reprovado, por seus erros, talvez ainda estaríamos lendo este texto à luz de velas ou lampiões a gás. Em seu livro “Avaliação: Mito & Desafio”, Jussara Hoffmann (2001) narra uma experiência com a definição dada ao termo “desmatar” por sua filha. Esta disse que desmatar era tornar vivo novamente. Pois bem, a resposta não era aquela constante nos dicionários, mas a lógica utilizada por uma criança precisa ser levada em conta antes de darmos o sonoro e poderoso “está errado!”. Ao construir novo significado para a palavra, a criança utilizou-se de seu repertório e de uma lógica, demonstrando um conhecimento acerca do prefixo “des” para a construção de antônimos. Errou a definição, mas construiu outra significação que poderia ser utilizada em um contexto poético, por exemplo. O que podemos afirmar aqui é que apesar do erro, a criança demonstrou outros saberes, outros conhecimentos que, ainda que não compusessem a referida resposta, não podem ser descartados enquanto elemento de desenvolvimento de aprendizagem. Ao contrário do ensino tradicional, em que o erro era algo a ser punido, as atuais tendências encontram nele elementos para auxiliar o desenvolvimento dos alunos. Para repensarmos o papel do erro devemos reforçar que o papel da educação está atrelado à aprendizagem e que, ao aprender, é comum errar. Isso pode parecer óbvio, mas não vemos tal prática na maioria das salas de aula de uma escola. Repensar a avaliação, portanto, exige que o papel do erro seja repensado e concebido como ocorrências perfeitamente normais para o aprendizado do aluno. Além disso, é necessário que o professor estabeleça momentos de diálogo acerca dos erros cometidos com vistas a repensar a sua própria prática e para que o aluno possa repensar seus caminhos e formas de pensar. Avaliar de forma mediadora é utilizar os instrumentos de avaliação como elementos de mediação na construção do conhecimento, na relação professor- aluno, na cumplicidade dos envolvidos neste processo. Quando consideramos a avaliação como processo e mediadora, estabelecemos novos vínculos, pois tanto quem educa, quanto quem é educado constroem caminhos e posturas reflexivas de suas práticas e saberes para a consecução de objetivos. Estes objetivos são traçados conjuntamente, na cumplicidade de quem busca vencer obstáculos, renovar saberes, forças, e seguir em frente, aprendendo na continuidade de sua vida e não apenas no ambiente escolar. A avaliação mediadora oferece maior proximidade entre os envolvidos, pois, ao invés de tolher, castrar ou amedrontar se torna instrumento pedagógico que contribui para o desenvolvimento e valorização do processo ensino-aprendizagem. Portanto, avaliação e educação são elementos indissociáveis, pois andam juntas, entrelaçadas para a construção de conhecimento e de uma educação democrática com alunos autônomos, reflexivos e que aprendem, e não apenas para a hierarquização de notas e valores atribuídos ao sucesso e insucesso dos alunos. Desenvolver um processo de avaliação é acima de tudo desenvolver uma educação honesta, que prioriza o desenvolvimento do ser humano e não apenas busca vencer objetivos, etapas e metas, traçados na elaboração de planos e currículos oficiais, sem levar em conta o elemento primordial para todo o processo – o aluno. O portfólio pode ser definido com um conjunto das produções ou ainda de documentos, atividades que demonstram o progresso da aprendizagem, permitindo ao produtor o acompanhamento de suas produções. Dentro dessa visão e pensando em avaliação enquanto instrumento de formação do aprendizado, o portfólio viria ao encontro da necessidade de repensarmos o processo de avaliação, pois [...] o portfólio proporciona um contexto em que a criança pode pensar sobre ideias e conhecimento que adquiriu fora da sala de aula, enriquecendo, assim, as atividades de aulas tradicionais, como as de relatar suas experiências próprias. (...) As avaliações com portfólio integralmente implementadas encorajam a acriança a refletir sobre seu próprio trabalho, realizando assim, as conexões tão marcantes entre os tópicos (como animais) e experiências (como observar o ciclo de vida de um sapo) que são as bases da atividade intelectual e criativa. (SHORES, 2001, p. 21). A função principal da avaliação por portfólios é a de permitir o acompanhamento da trajetória, dos erros e acertos do aluno, e também das suas necessidades específicas para a aprendizagem. Segundo SHORES (2001), existem três tipos de portfólio: particular, de aprendizagem e demonstrativo. O portfólio particular é formado pelos registros confidenciais e particulares de cada criança, além da documentação, relatório de reuniões de pai, registros que devem fazer parte deste tipo de portfólio. Embora não estejam ligados diretamente ao desenvolvimento dos alunos são importantes para o acompanhamento da evolução dos mesmos; O portfólio de aprendizagem, por ser o maior deles, deve ser utilizado com maior frequência. Neste portfólio, estão contidos os rascunhos, esboços, as anotações, as amostras de trabalhos e o diário de aprendizagem do aluno – registro individual feito pelo aluno acerca de seu desempenho –, no qual deverão ser registradas as descobertas de aprendizagens dos mesmos. Sua organização deve ser feita em conjunto com o aluno para o desenvolvimento dos processos de avaliação e autoavaliação; O portfólio demonstrativo é formado por amostras representativas de trabalho dos alunos, demonstrando seus avanços ou dificuldades persistentes que precisem ser observadas com maior cuidado. Enquanto instrumento, este portfólio serve de ponto de partida para a continuidade dos estudos no ano posterior, servindo de diagnóstico para o próximo professor. Montar um portfólio requer rigor e senso de continuidade para o trabalho, uma vez que sua montagem não se completa e sim se complementa à medida que o aluno avança em sua aprendizagem. Importante para esta montagem é que o professor tenha em mente “o que” quer coletar e “para quê”, a fim de que utilize o processo de avaliação com vistas à formação de seus alunos, dando-lhes, justamente por isso, condições para prosseguirem rumo à consecução dos objetivos. SEMANA 7 DESAFIOS DA PROFISSÃO DOCENTE QUANDO O SOCIÓLOGO QUER SABER O QUE É SER PROFESSOR Entrevista com François Dubet Eu quis ensinar por duas razões diferentes: a primeira é que nos encontros individuais ou coletivos com os professores tinha a impressão que eles exageravam nas descrições de relações pedagógicas, a segunda se refere a duas professoras que nãoacreditaram no que eu propunha, desse modo, me chamando de intelectual, então foi um desafio dar aulas. Assumi uma classe de cinquième, 2º ginasial (que começa após os cinco anos de escola elementar), com crianças de 13/14 anos, em um colégio popular, bastante difícil em que o nível dos alunos é baixo e dei aulas durante um ano. Portanto, da volta às aulas em setembro até o mês de junho, quatro horas por semana, ao lado de minhas atividades de acadêmico, de chefe de departamento, me esforcei para ser um professor razoável. A minha primeira surpresa, e que é fundamental, corresponde ao que os professores dizem nas suas entrevistas. Os alunos não estão “naturalmente” dispostos a fazer o papel de aluno. Dito de outra forma, para começar, a situação escolar é definida pelos alunos como uma situação, não de hostilidade, mas de resistência ao professor. Isto significa que eles não escutam e nem trabalham espontaneamente, eles se aborrecem ou fazem outra coisa. Lá, na primeira aula, os alunos me testaram, eles queriam saber o que eu valia. Começaram então a conversar, a rir (...). A minha segunda surpresa: é preciso ocupar constantemente os alunos. Não são alunos capazes de fingir que estão ouvindo, sonhando com outra coisa e não fazer barulho. Se você não os ocupa com alguma coisa, eles falam. É extremamente cansativo dar a aula já que é necessário a toda hora dar tarefas, seduzir, ameaçar, falar (...) Aprendi que para uma aula que dura uma hora, só se aproveitam uns vinte minutos, o resto do tempo serve para “botar ordem”, para dar orientações. Tive muitas dificuldades. Por exemplo, não sabia como contar histórias e fazer com que os alunos escrevessem ao mesmo tempo. Foi somente a partir de regras e punições que consegui acalmar a sala e dar aulas. Quando olho para os meus colegas, havia muitos deles que eram muito fortes, que davam boas aulas. Havia outros que visivelmente, não conseguiam. O que mais me chamou a atenção, foi o clima de receio para com os alunos na sala dos professores. Isto quer dizer que alguns professores tinham medo antes de entrar na sala. Não era um colégio violento. Não havia agressões, não havia insultos mas era obviamente uma provação; como fazê-los trabalhar, como fazer com que ouçam, como fazer com que não façam barulho? Esta é a dificuldade, não é a violência. O que é que você achou dos programas escolares? É uma das coisas mais espantosas. O programa é feito para um aluno que não existe. Digamos mais simplesmente que é feito para um aluno extremamente inteligente. É feito para um aluno cujo pai e cuja mãe são pelo menos professores de filosofia e de história. É feito para uma turma que trabalha incessantemente. O programa é de uma ambição considerável e não se pode realizá-lo materialmente. O problema é que não se sabe o que determina o efeito professor. O método pedagógico escolhido não faz a diferença. Os homens não são mais eficientes que as mulheres, os antigos não mais que os novos. Há velhos professores totalmente ineficientes e pessoas que começam eficientes logo na primeira semana. A ideologia do professor também não tem nenhum efeito. O único elemento que parece desempenhar um papel é o efeito pigmaleão, isto é, os professores mais eficientes são em geral aqueles que acreditam que os alunos podem progredir, aqueles que têm confiança nos alunos. Os mais eficientes são também os professores que vêem os alunos como eles são e não como eles deveriam ser. Ou seja são os que partem do nível em que os alunos estão e não aqueles que não param de medir a diferença entre o aluno ideal e o aluno de sua sala. Mas evidentemente, nas atitudes particulares, entram também orientações culturais gerais, interesses sociais, tipos de recrutamento e de formação. Não são apenas problemas psicológicos. Aprofundando o tema Qualidade do ensino: uma nova dimensão da luta pelo direito à educação Romualdo Portela de Oliveira Gilda Cardoso de Araujo Manhê! Tirei um dez na prova. Me dei bem, tirei um cem e eu quero ver quem me reprova. Decorei toda a lição. Não errei nenhuma questão. Não aprendi nada de bom. Mas tirei dez (Boa, filhão!!!). Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci. Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi. Gabriel, O Pensador. Estudo Errado A partir da Constituição Federal de 1988, alterada pela emenda constitucional n. 14, de 1996, o ensino fundamental de oito anos, obrigatório, dos 7 aos 14 anos, e gratuito para todos, foi considerado explicitamente direito público subjetivo, podendo os governantes ser responsabilizados juridicamente pelo seu não oferecimento ou por sua oferta irregular. A Carta de 1988 e sua alteração pela emenda determinam que o direito à educação abrange a garantia não só do acesso e da permanência no ensino fundamental, mas também a garantia de padrão de qualidade como um dos princípios segundo o qual se estruturará o ensino (inciso VII do artigo 206). O objetivo deste artigo é analisar o direito à educação à luz das modificações pelas quais passou a educação brasileira nos últimos anos. A análise aqui apresentada está fundamentada na percepção de que, no Brasil, a qualidade de ensino foi percebida de três formas distintas. Na primeira, a qualidade determinada pela oferta insuficiente; na segunda, a qualidade percebida pelas disfunções no fluxo ao longo do ensino fundamental; e na terceira, por meio da generalização de sistemas de avaliação baseados em testes padronizados. Neste artigo, busca-se refletir sobre a formulação de um padrão de qualidade que seja a um tempo compreensível à população e exigível judicialmente. Se até a década de 1980 podemos perceber certa identidade entre a ideia de qualidade e a ampliação das oportunidades de acesso aos serviços educacionais, a partir do princípio de justiça redistributiva dos bens sociais e econômicos, na década seguinte, esses princípios serão preteridos por aqueles ligados a uma lógica eminentemente empresarial, que enfatizam as ideias de maior produtividade, com menor custo e controle do produto. A demanda pela ampliação de vagas era muito mais forte do que a reflexão sobre a forma que deveria assumir o processo educativo e as condições necessárias para a oferta de um ensino de qualidade. De um ponto de vista histórico, na educação brasileira, três significados distintos de qualidade foram construídos e circularam simbólica e concretamente na sociedade: um primeiro, condicionado pela oferta limitada de oportunidades de escolarização; um segundo, relacionado à idéia de fluxo, definido como número de alunos que progridem ou não dentro de determinado sistema de ensino; e, finalmente, a ideia de qualidade associada à aferição de desempenho mediante testes em larga escala. Foram incorporadas parcelas da população que antes não tinham acesso à educação e cujas experiências culturais eram diferentes daqueles que antes constituíam o grupo de usuários da escola, ou seja, com o processo de expansão das oportunidades a escola incorporou as tensões, as contradições e as diferenças presentes na sociedade. Dessa forma, não é difícil detectar onde faltam vagas para o ensino fundamental no Brasil: no Nordeste rural, incluindo o Vale do Jequitinhonha (MG), e na periferia das grandes cidades. No que se refere a essas últimas, devido ao fato de se caracterizarem por uma ocupação mais recente, não houve ainda a criação de infra-estrutura de serviços urbanos necessários para atender a esse aumento populacional. Sendo assim, as vagas para a etapa obrigatória de escolarização estão concentradas naquelas regiões de ocupação urbana mais antiga e que dispõem deinfra-estrutura. Com isso, nunca houve, de fato, um debate público consistente sobre a melhoria da qualidade do ensino oferecido pela escola pública brasileira. A década de 1990 é marcada pela tendência de regularização do fluxo no ensino fundamental por meio da adoção de ciclos de escolarização, da promoção continuada e dos programas de aceleração da aprendizagem que foram difundidos a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) (lei n. 9.394/96), mas que já vinham sendo adotados em vários estados e municípios desde a década de 1980. Na Tabela 2 ficam evidentes os efeitos dessas medidas na década de 1990. Levando em conta o percentual ideal de 12,5% de matrícula distribuído em cada série do ensino fundamental (100% de matrícula dividido pelas oito séries), há um perceptível declínio nos altos percentuais de matrícula na 1ª série e uma distribuição mais eqüitativa pelas outras, cada vez mais próxima do percentual de um fluxo homogêneo. Se o combate à reprovação com políticas de aprovação automática, ciclos e progressão continuada incide sobre os índices de “produtividade” dos sistemas, gera-se um novo problema, uma vez que esses mesmos índices deixam de ser uma medida adequada para aferir a qualidade. Apesar da resistência dos profissionais da edu- cação à aferição da qualidade mediante os testes pa- dronizados, em relação ao ensino fundamental, etapa obrigatória de escolarização, os resultados permitem a constatação de que a ampliação do acesso não eliminou as fortes desigualdades regionais e internas dos próprios sistemas. Exemplo disso é que a educação brasileira tem superado gradativamente o problema do fluxo no ensino fundamental, mas de forma bastante desigual, pois enquanto os estados das regiões Sul e Sudeste diminuíram a taxa de distorção idade-série (DIS) para patamares em torno de 30%, nos estados do Nordeste brasileiro essa taxa permanece em torno de 60%. O PISA é uma avaliação internacional cuja finalidade é subsidiar o aperfeiçoamento das reformas educacionais em curso nos países participantes, analisando em que medida os alunos chegam ao final da etapa obrigatória de escolarização possuindo os conhecimentos e as habilidades requeridas para desempenhar diferentes papéis na sociedade, consubstanciadas na capacidade de análise, raciocínio e comunicação de ideias. O teste abrange as áreas de leitura, matemática e ciências, e pretende obter informações sobre o desempenho e as condições de aprendizagem dos estudantes, bem como identificar a preparação dos alunos para a aprendizagem como um processo contínuo. Nesse primeiro teste, a ênfase, tanto na organização quanto na divulgação dos resultados, foi na área de leitura. Em 2003, na segunda edição do PISA, a ênfase foi na área de matemática. Os estudantes com os melhores desempenhos no PISA frequentemente vêm de escolas compostas pelos grupos em vantagem socioeconômica. Como enfatizou o ministro, os alunos brasileiros mantiveram o pior desempenho, o que comprova que nem mesmo a escola das elites é de qualidade, comparativamente à boa escola de outros países. Assim, avaliações mediante testes padronizados como o SAEB ou o PISA têm contribuído para destacar no cenário educacional brasileiro a questão da qualidade do ensino, bem como a questão correlata dos meios e recursos necessários para provê-la com igualdade para todos aqueles que acessam a etapa obrigatória de escolarização. Enfim, as políticas de avaliação mediante testes padronizados como o SAEB, constituindo indicadores de sucesso/fracasso escolar, se, por um lado, aferem competências e habilidades requeridas para um ensino de qualidade, por outro não possuem efetividade, visto que pouca ou nenhuma medida política ou administrativa é tomada a partir dos seus resultados, ou seja, não possuem validade consequencial. Dessa forma, os testes padronizados são instrumentos necessários, mas insuficientes para a melhoria da qualidade de ensino. Ademais, há questões de ordem metodológica que dificultam a análise dos impactos que os insumos educacionais, o contexto socioeconômico e cultural e as práticas escolares têm sobre a aprendizagem dos alunos. Soares (2002) destaca que o modelo analítico do SAEB não se propõe a acompanhar os alunos de um ano para o outro, de modo que inexistem medidas de valor agregado, o que impossibilita não só a análise dos fatores descritos acima, mas até mesmo discernir se o que o aluno demonstra ter aprendido em determinado ano foi resultado do trabalho desenvolvido pela escola em que está efetivamente matriculado, ou de sua trajetória educacional pregressa. Contudo, as fórmulas de financiamento baseadas nas necessidades de aprendizagem dos alunos não levam em conta apenas os insumos necessários para o provimento de serviços educacionais mais equânimes, mas, sobretudo, os custos por aluno por resultado de aprendizagem, mediante mecanismos não só de prestação de contas dos recursos, mas também dos resultados dos programas financiados. Pensar numa política de financiamento articulada à negociação de indicadores de qualidade configura-se numa espécie de contrato em que se define o que se espera das escolas e a forma de alcançar esses objetivos, a partir das variáveis sociopolíticas de cada sistema escolar e de cada escola, a fim de amenizar os históricos padrões de iniqüidade e de ineficiência e, ao mesmo tempo, estabelecer padrões de qualidade de ensino que sirvam de medida de igualdade para a efetivação do direito à educação, tornando-o passível de demanda jurídica caso a oferta irregular seja considerada como uma oferta que se distancia desses padrões de qualidade pactuados. O reconhecimento dessa necessidade não nos exime, pesquisadores da área de educação, do desafio e da responsabilidade de traduzir o “padrão de qualidade” num conjunto de indicadores passível de exigência judicial.