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LE MONDE
diplomatique
BRASIL
R$ 14,90ANO 11 / NÚMERO 128
UM EXÉRCITO SINGULAR
CUBA, O PAÍS 
DO VERDE-OLIVA
POR RENAUD LAMBERT
MEDICALIZAÇÃO DA VIDA
A EXPLOSÃO DOS 
REMÉDIOS TARJA PRETA
POR GÉRARD POMMIER 26 34 14
THE POST
QUEM ESCOLHE 
OS HERÓIS?
POR PIERRE RIMBERT
9 771981 752004
00128
TRIBUNAIS DE EXCEÇÃO
2 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
NUNCA SE VAI DEPRESSA O BASTANTE
POR SERGE HALIMI*
A ofensiva geral
©
 S
a
n
ti
a
g
o
U
m ex-ministro da Economia so-
cialista que, mais tarde, fundou 
um partido liberal à sua ima-
gem e semelhança explicou 
certa vez a arte e o modo de criar uma 
sociedade de mercado: “Não tentem 
avançar passo a passo. Definam clara-
mente seus objetivos e se aproximem 
deles em saltos qualitativos, para que 
os interesses de classe não tenham 
tempo de se mobilizar e atrapalhar vo-
cês. A rapidez é essencial e nunca se 
vai depressa o bastante. Iniciado o 
programa de reformas, não parem até 
vê-lo concluído: o fogo do inimigo per-
de em precisão quando tem de atingir 
um adversário sempre em movimen-
to”. Emmanuel Macron? Não, Roger 
Douglas, ministro das Finanças da 
Nova Zelândia entre 1984 e 1988, um 
ano após deixar o cargo. Ele dava en-
tão as receitas da contrarrevolução 
que seu país acabava de viver.1
Cerca de trinta anos depois, o pre-
sidente francês manipula todos os ve-
lhos cordões dessa “doutrina de cho-
que”. Empresa Nacional das Ferrovias 
Francesas (SNCF, na sigla em francês), 
serviço público, hospital, escola, direi-
to trabalhista, fiscalização do capital, 
imigração, TV pública: para onde 
olhar e como resistir quando, sob o 
pretexto de uma catástrofe que se 
aproxima, uma dívida prestes a explo-
dir e a “vergonha da República”, a en-
grenagem das “reformas” gira a todo 
vapor? As ferrovias? Um relatório con-
fiado a um compadre retomou o in-
ventário das preces liberais até então 
não atendidas (fim do estatuto dos fer-
roviários, transformação da empresa 
em sociedade anônima, fechamento 
das linhas deficitárias). Cinco dias 
após sua publicação, uma “negocia-
ção” teve início para disfarçar a medi-
da ditatorial que se queria impingir 
aos sindicatos. É necessário se apro-
veitar sem demora do clima de desmo-
bilização política, de divisão sindical, 
de exasperação dos usuários diante 
dos atrasos, acidentes, péssimo estado 
de conservação das linhas, preço exor-
bitante das passagens..., pois o minis-
tro dos Transportes quer “rapidez na 
ação”. Quando surge a oportunidade, 
“nunca se vai depressa o bastante”, co-
mo insistia Douglas.
O governo francês conta igual-
mente com as notícias falsas das gran-
des mídias para disseminar “elemen-
tos de linguagem” favoráveis a seus 
projetos. A ideia – aceita imediata-
mente depois de divulgada – de que “a 
SNCF custa mil euros a cada francês, 
mesmo àqueles que não tomam trem”, 
lembra o famoso “cada francês pagará 
735 euros para liquidar a dívida grega” 
que, em 2015, contribuiu para o sufo-
camento financeiro de Atenas pela 
União Europeia.
Às vezes, a verdade vem à tona, mas 
tarde demais. Inúmeras “reformas” da 
previdência foram justificadas pelo 
aumento geral da expectativa de vida. 
No entanto, um estudo oficial acaba de 
concluir que, “para as gerações de 1951 
e seguintes”, isto é, 80% da população 
francesa, “o tempo de vida como apo-
sentado deverá cair um pouco em 
comparação com o da geração de 
1950”.2 Ou seja, um progresso histórico 
acaba de se inverter. Esse tipo de infor-
mação não feriu nossos tímpanos. E 
Macron não nos avisou que era “ur-
gente agir” nessa frente... 
*Serge Halimi é diretor do Le Monde 
Diplomatique.
1 Ver Le grand bond en arrière. Comment l’ordre li-
béral s’est imposé au monde [O grande salto para 
trás. Como a ordem liberal se impôs ao mundo], 
Agone, Marselha, 2012 (1. ed.: 2004).
2 “L’âge moyen de départ à la retraite a augmenté de 
1 an et 4 mois depuis 2010” [A idade média de 
aposentadoria aumentou em 1 ano e 4 meses a 
partir de 2010], Études et Résultats, n.1052, Direc-
tion de la Recherche, des Études, de l’Évaluation et 
des Statistiques (Drees), Ministério da Saúde, Pa-
ris, fev. 2018.
3MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
EDITORIAL
POR SILVIO CACCIA BAVA
De mal a pior
©
 C
la
u
d
iu
s
C
hega a ser desesperador. O Exe-
cutivo, o Legislativo e o Judiciário 
se alinharam com a oligarquia fi-
nanceira e estão destruindo o 
Brasil e nossa democracia.
No plano econômico estão des-
truindo os instrumentos para uma po-
lítica econômica soberana e, em suas 
próprias palavras, essa verdadeira 
quadrilha, sem plano algum de gover-
no, declara: “Vamos privatizar tudo 
que é público e seja privatizável”. Es-
quartejaram a Petrobras, entregaram 
o pré-sal para as multinacionais a pre-
ço de banana, apequenaram o BNDES, 
querem privatizar a Caixa, o Banco do 
Brasil, a Eletrobras... Como se isso não 
bastasse, continuam distribuindo 
isenções tributárias para quem não 
precisa, como no caso das multinacio-
nais estrangeiras que compraram o 
pré-sal (isenções estimadas em R$ 40 
bilhões/ano, apenas neste caso). 
No plano social, a “PEC do fim do 
mundo”, aquela que congela os gastos 
sociais por vinte anos, o fim da CLT, o 
aumento do desemprego, o ataque à 
Previdência, os cortes em saúde e edu-
cação, o estrangulamento das finanças 
dos municípios e estados, tudo leva ao 
colapso do sistema público (policiais e 
professores sem receber salários, por 
exemplo) e a uma crescente precariza-
ção das condições de vida em geral. É 
bom que se diga com todas as letras 
que essas ações foram decisões políti-
cas, não são inevitáveis nem decorren-
tes de uma crise herdada. A crise foi fa-
bricada para que pudessem fazer o que 
estão fazendo, transferindo para em-
presas privadas o patrimônio público e 
a exploração de serviços e equipamen-
tos de interesse comum, rebaixando as 
condições de vida e trabalho. O au-
mento nos preços dos serviços públi-
cos, numa lógica de mercado, faz cres-
cer a espoliação das maiorias. 
No plano político, o governo gol-
pista endurece e elege, com oportunis-
mo eleitoral, o combate à violência co-
mo prioridade. Sua resposta para a 
insatisfação social, para as manifesta-
ções coletivas e para a violência gerada 
pelo desamparo é mobilizar o Exército 
e cercar as favelas, isto é, cercar os po-
bres e impor aí um estado de sítio. Na 
questão social, nem se fala – ignoram 
por completo as causas da violência. 
Os mandatos coletivos de busca e 
apreensão, a licença para matar ao 
transferir para a justiça militar o julga-
mento dos “excessos” praticados pelo 
Exército nas favelas ocupadas, o con-
trole militar do espaço público nas ci-
dades, tudo isso mostra uma guinada 
mais do que brutal desse governo. As 
palavras de ordem para tratar as ques-
tões sociais são controle e repressão. 
Os direitos de cidadania hoje só são de-
fendidos pelos movimentos sociais, re-
presentações coletivas dos mais po-
bres e dos trabalhadores, e por algumas 
entidades de profissionais de classe 
média. A Fiesp, a CNI e as representa-
ções patronais, de maneira geral, dão 
suporte ao golpe e a este começo de 
uma nova ditadura. A TV, liderada pela 
Globo, cria o medo e a insegurança na 
população para que ela se submeta ao 
arbítrio e aceite a violência institucio-
nal, os assassinatos da polícia, como 
única maneira de manter a ordem.
Os brasileiros estão sendo ataca-
dos por um governo e uma classe pa-
tronal que não medem a violência e a 
exclusão que suas políticas públicas 
provocam nas maiorias. Na verdade, 
não se importam com isso. Porém, em 
ano eleitoral, essa é uma receita para 
perder as eleições. Mesmo os partidos 
de direita buscam se afastar desse go-
verno, rejeitado por mais de 70% da 
população.Mas nem no grupo do go-
verno nem nos partidos de direita sur-
ge um candidato com possibilidades 
de vencer as eleições. Bolsonaro é o 
único com apoio popular, em segun-
do lugar nas preferências eleitorais, 
mas com tamanha fragilidade em sua 
candidatura e projeto de governo que 
não deve aguentar os primeiros deba-
tes eleitorais.
Ora, se as pesquisas dão 37% de vo-
tos para Lula e dizem que, mesmo que 
ele seja impedido de se candidatar, seu 
poder de transferência de votos levará 
para o segundo turno o candidato do 
PT, o cenário se complica para os gol-
pistas. Se houver eleições, eles podem 
perder. E isso é inadmissível para os 
governantes, até porque, caso se resta-
beleça a democracia, quando deixa-
rem o cargo estarão seriamente amea-
çados de ir para a cadeia. Isso vale para 
a maioria dos integrantes tanto do 
Executivo quanto do Legislativo.
O ensaio de ocupação militar das 
áreas urbanas pobres, que após a fa-
se das UPPs recrudesce agora no Rio 
de Janeiro, pode se estender para ou-
tras cidades com os mesmos proble-
mas. Os militares adquiriram expe-
riência no Haiti sobre o controle de 
áreas urbanas. 
Há indícios ainda de que no inte-
rior das Forças Armadas há uma dis-
puta e uma ala que defende a interven-
ção militar em razão da falência das 
instituições. 
Esse cenário nos leva a questionar 
se teremos mesmo eleições este ano. É 
necessário abrir a discussão sobre essa 
possibilidade para debatermos os ca-
minhos da resistência política demo-
crática, agora e também no caso de 
não termos eleições. 
A conjuntura nos mostra uma dis-
puta de visões e valores na sociedade 
civil como nunca houve antes. A direita 
se organizou com apoio internacional 
e hoje, segundo empresários brasilei-
ros, já conta com mais de cem entida-
des e think tanks no Brasil que cotidia-
namente propagandeiam sua visão, 
seus valores e suas políticas em espa-
ços mais especializados de discussão e 
para a população de maneira geral. 
Quando Lula foi condenado, os dis-
cursos em protesto à decisão falavam 
de organizar a resistência, com comi-
tês populares em defesa da democra-
cia nos lugares de trabalho e moradia. 
Essa discussão precisa ser levada a sé-
rio, e precisamos olhar com atenção o 
movimento organizado nos Estados 
Unidos pelos defensores da candida-
tura de Bernie Sanders. O Our Revolu-
tion (https://ourrevolution.com) foi 
criado para manter mobilizados os jo-
vens que aderiram à sua plataforma 
política, que previa, entre outras coi-
sas, dobrar o salário mínimo. Eles fun-
daram um movimento político, mas 
não partidário, que em seu primeiro 
ano já conta com mais de seiscentos 
comitês locais, presentes em todos os 
estados dos Estados Unidos. 
1 Eduardo Militão, “Estudos apontam perda de R$ 1 
tri em renúncia fiscal após leilão do pré-sal”, UOL, 
31 out. 2017.
2 Pesquisa do Instituto Ipsos, dez. 2017.
4 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
CAPA
Poder Judiciário: 
a ponta de 
lança da luta 
de classes © Alv
e
s
O papel do Judiciário na canalização 
das disputas e a crença disseminada 
de que os tribunais são capazes, 
em algum grau, de aplicar a lei tal 
como ela está formulada fazem nascer 
uma sensação de abandono quando 
deparamos com uma situação 
de arbitrariedade judicial indisfarçada. 
A quem vamos recorrer, quando até 
a Justiça é injusta?
POR LUIS FELIPE MIGUEL*
O 
golpe de 2016 representou um 
duríssimo revés na percepção 
até então dominante de que a 
democracia brasileira, mesmo 
com todos os seus problemas e aos 
trancos e barrancos, caminhava para 
sua “consolidação”. Não foi apenas 
porque as classes dominantes aban-
donaram o respeito às regras do jogo e 
decidiram virar a mesa quando perce-
beram que, novamente, eram incapa-
zes de impor seus preferidos por meio 
da eleição popular. O impeachment 
ilegal da presidenta Dilma Rousseff e o 
acelerado retrocesso em direitos e li-
berdades que se segue a ele mostram 
que as instituições não só não cumpri-
ram seu papel de proteger a ordem 
constitucional e a democracia, como 
também participaram ativamente de 
sua subversão.
O que a onda global de desdemo-
cratização e os golpes brandos ocorri-
dos principalmente na América Latina 
vêm revelando é que o ordenamento 
político da democracia liberal pode ser 
usado para impedir o progresso social, 
bloquear as demandas por igualdade 
e, embora mantendo uma aparência 
de normalidade, despir os mecanis-
mos democráticos de qualquer efetivi-
dade a que possam aspirar. No Brasil, 
chama atenção o protagonismo assu-
mido pelo Poder Judiciário.
O papel do Judiciário na deflagra-
ção e convalidação do golpe político é 
perceptível para qualquer observador. 
Mas a ação cotidiana de juízes de todas 
as instâncias também corrobora o viés 
favorável aos grupos dominantes, co-
mo mostram as sentenças diferencia-
das conforme a posição social dos acu-
sados – por exemplo, a posse de uma 
pequena quantidade de droga ilegal 
pode levar a desenlaces completamen-
te diferentes de acordo com a cor da 
pele e a classe social do portador. Em 
seu conjunto, o Poder Judiciário atua 
como avalista da desigualdade e das 
relações vigentes de dominação – o que 
corresponde, aliás, à posição do direito 
como “código da violência pública or-
ganizada”, como escreveu Poulantzas.
O que chama atenção do Brasil é 
que o Judiciário ocupa a posição de 
ponta de lança da luta de classes, cum-
prindo papel crucial na produção, 
aplicação e, em particular, legitima-
ção das medidas que implicam retro-
cessos para a classe trabalhadora e ou-
tros grupos em posição subalterna. O 
que permitiu isso foram mudanças 
ocorridas nas últimas décadas e sau-
dadas em geral como “avanços”.
Desde a promulgação da Constitui-
ção de 1988, observadores da política 
brasileira têm falado do crescente pro-
tagonismo do Poder Judiciário. A Carta 
constitucional garantiu prerrogativas 
estendidas e propiciou mudanças de 
comportamento dos agentes, levando 
aos fenômenos paralelos da “judiciali-
zação da política”, que faz as disputas 
passarem a ser resolvidas nos tribu-
nais, e do “ativismo judiciário”, pelo 
qual o poder relativiza sua caracteriza-
ção tradicional como “inerte”, avoca a 
si a iniciativa da ação e toma decisões 
que seriam do Legislativo ou do Execu-
tivo. Outra inovação da Constituição 
foi a enorme ampliação do âmbito de 
atuação do Ministério Público, órgão 
vinculado ao Poder Executivo, mas que 
cumpre funções judiciárias.
No período de ascensão democrá-
tica que se seguiu à promulgação da 
nova Constituição, esse alargamento 
dos poderes de juízes e procuradores 
foi, em geral, visto de forma positiva 
pelas correntes mais progressistas. A 
defesa de interesses coletivos e difu-
sos, atribuída ao MP, prometia uma 
ampliação – necessária e urgente – da 
proteção a grupos oprimidos ou ao 
meio ambiente. As decisões tomadas 
no âmbito das cortes superiores po-
diam representar, por vezes, uma 
usurpação do poder de legislar, mas se 
mostravam mais avançadas do que 
aquelas advindas de um parlamento 
notoriamente corrompido e no qual 
era crescente a capacidade de chanta-
gem de grupos fundamentalistas.
O Tribunal Superior Eleitoral intro-
duziu regulações na disputa partidá-
ria (a chamada “verticalização” das 
coligações, depois revogada em 2002), 
no exercício parlamentar (a perda de 
mandato parlamentar por desfiliação, 
em 2007) e no funcionamento das co-
tas eleitorais para mulheres (com o en-
tendimento de que o descumprimento 
da regra levaria à impugnação da lista 
partidária, em 2010) que se alinhavam 
ao ideal normativo da competição de-
mocrática compartilhado por liberais 
esclarecidos e por grande parte da es-
querda brasileira. O Supremo Tribunal 
Federal estabeleceu direitos de mino-
rias sexuais (reconhecimento da uniãocivil homoafetiva, em 2011) e ampliou 
direitos reprodutivos (extensão do di-
reito de aborto no caso de anencefalia 
fetal, em 2012), em sintonia com ban-
5MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
deiras progressistas. Sem discutir o 
mérito das decisões, elas com certeza 
extrapolam o que era a intenção origi-
nal do legislador. Nenhuma delas teria 
passado no Poder Legislativo.
O desenvolvimento talvez mais 
surpreendente foi a aprovação em 
2010, pelo próprio Congresso, de legis-
lação que confere ao Judiciário um 
poder de veto na seleção de candida-
tos às eleições. A chamada Lei da Fi-
cha Limpa, apresentada como inicia-
tiva popular, apoiada pela quase 
unanimidade dos parlamentares e 
sancionada entusiasticamente pela 
Presidência da República, em meio a 
um verdadeiro clamor midiático, de-
terminou a tutela do Judiciário sobre a 
soberania popular. Ainda assim, pou-
cas vozes se ergueram contra ela.
Diante das dificuldades para ele-
var a educação política média dos bra-
sileiros, a Ficha Limpa parecia um 
atalho seguro para a “moralização” 
do Estado. Trata-se de um elemento 
constante: o elogio da ação política do 
Poder Judiciário, no momento em que 
ela alavancava causas progressistas, é 
tingindo por uma percepção elitista 
(juristas capacitados podem decidir 
com mais competência) e pelo desâ-
nimo quanto à possibilidade de pro-
duzir uma opinião popular mais en-
gajada e esclarecida.
Outra característica do Brasil é que 
o ativismo judiciário não é privilégio 
das cortes superiores. Até mesmo juí-
zes de primeira instância podem to-
mar decisões de enorme repercussão 
coletiva – os casos de bloqueio de apli-
cativos de smartphones com milhões 
de usuários servem de exemplo. Na cri-
se política brasileira, o juiz paranaense 
Sérgio Moro ocupou posição central ao 
liderar a Operação Lava Jato. Embora a 
justificativa para o impeachment nada 
tivesse a ver com a operação, apoian-
do-se em operações de crédito junto a 
bancos estatais (as chamadas “pedala-
das fiscais”), ela foi instrumental para 
criar o clima de opinião que sustentou 
a derrubada do governo. Declarada-
mente inspirado na operação italiana 
Mãos Limpas, Moro julga que é impor-
tante dar grande visibilidade midiática 
e obter o “apoio da opinião pública” ao 
combate à corrupção.
A Lava Jato revelou parte da cor-
rupção sistêmica da política brasileira 
por meio de operações espetaculares 
que, no entanto, atingiram de forma 
muito desproporcional o PT e seus 
aliados. Seu modus operandi privile-
giado, a “delação premiada”, dá gran-
de margem a que o agente da lei orien-
te o curso da investigação. Muitas 
vezes, seus resultados dependem da 
desobediência ao devido processo le-
gal e de formas de intimidação contra 
testemunhas e suspeitos.
Não custa lembrar que Moro é o tra-
dutor do artigo de um juiz norte-ameri-
cano que ensina como coagir acusados 
para que denunciem seus cúmplices.1 
Em vários momentos, sua atuação se 
mostrou claramente casada com o cro-
nograma da derrubada da presidenta 
Dilma, culminando na divulgação do 
áudio de uma escuta telefônica ilegal, 
com uma conversa entre ela e Lula. Em-
bora o juiz tenha sido obrigado a um 
envergonhado pedido de desculpas e 
ao reconhecimento de que a divulga-
ção da conversa fora “equivocada”, ele 
continuou chefiando a operação. 
Atualmente, como se sabe, Moro e o 
tribunal de recursos ao qual sua vara 
está vinculada, o TRF-4, são instru-
mentais no impedimento à candidatu-
ra presidencial do ex-presidente Lula, 
que é outro importante passo no esva-
ziamento do que restava de esperança 
de respeito ao princípio básico da de-
mocracia liberal – a consulta ao povo 
para a escolha dos governantes.
Como um juiz de primeira instân-
cia foi capaz de acumular tamanho 
poder? A resposta se vincula tanto às 
peculiaridades da organização do Po-
der Judiciário no Brasil a partir da 
Constituição de 1988 quanto à bem-
-sucedida ofensiva do juiz Sérgio Moro 
junto à opinião pública, orquestrada 
com os meios de comunicação hege-
mônicos. Moro se tornou o emblema 
vivo do combate à corrupção e, por-
tanto, intocável. As muitas arbitrarie-
dades que cometeu ao longo do pro-
cesso foram quase sempre abafadas 
após exposição mínima, e denúncias 
de graves irregularidades que o cha-
muscavam, como aquelas que trans-
parecem no depoimento do advogado 
Rodrigo Tacla Duran, foram simples-
mente deixadas de lado.
A pergunta mais importante, po-
rém, é outra: por que as instâncias su-
periores do Judiciário não intervieram 
diante de abusos tão patentes nas in-
vestigações? Questão intrigante, sobre-
tudo quando se lembra que, dos onze 
ministros do Supremo Tribunal Fede-
ral no período da derrubada de Dilma, 
oito tinham sido nomeados por ela ou 
por Lula. Qualquer explicação deve le-
var em conta que o STF não ficou imu-
ne ao clima de opinião formado a partir 
da Lava Jato – e a vulnerabilidade au-
mentada à pressão da “opinião públi-
ca” e da mídia é uma das características 
do Judiciário ativista. E também que os 
governos petistas não foram capazes 
de apresentar indicações para o Supre-
mo que estivessem à margem do esta-
blishment jurídico e político. Pelo con-
trário, optaram quase sempre por 
demonstrar moderação, preferindo ju-
ristas conservadores e com trânsito nos 
partidos de direita. Também aqui a po-
lítica de conciliação cobrou seu preço.
É preciso ponderar, porém, que se 
trata de uma situação difícil, não algo 
que se pudesse resolver por um mero 
ato de vontade do ocupante da Presi-
dência da República. Por um lado, a in-
dicação de juristas abertamente com-
prometidos com as causas populares 
seria encarada como rompimento do 
pacto que permitia a permanência do 
PT no poder e a implantação de políti-
cas tímidas (mas mesmo assim impor-
tantes) de resgate da dívida social. A 
atuação do Supremo como avalista 
dos retrocessos é um indício, entre 
muitos outros, de que as condições de 
manutenção desse pacto foram erodi-
das. Essa é a ficha que falta cair para 
uma parcela da esquerda brasileira.
Por outro lado, o campo jurídico 
possui seus próprios filtros e mecanis-
mos internos para forçar a adaptação 
às posições mais conformistas, mor-
mente quando se alcançam funções de 
mais prestígio, poder e visibilidade. 
Como em outros campos (o jornalismo 
serve de exemplo), o conservadorismo 
transita como “imparcialidade”, mas 
visões críticas e comprometidas com a 
justiça social aparecem como sectá-
rias, dificultando, portanto, a ascensão 
na carreira. Certamente há juízes pro-
gressistas, mas estão em situação pare-
cida à de oficiais militares progressis-
tas nos anos 1960. As iniciativas do 
Conselho Nacional de Justiça com vis-
tas à perseguição de dissidentes ainda 
têm encontrado resistência, mas mos-
tram que, na conjuntura aberta com o 
golpe, é possível que o Poder Judiciário 
se torne ainda menos arejado.
No início deste ano, dois eventos 
dissimilares apontaram para mudan-
ças no cenário. Um deles foi a exposi-
ção, pela mídia hegemônica, de vanta-
gens imorais auferidas por grande parte 
dos juízes, incluído aí o próprio Sérgio 
Moro, em particular um “auxílio-mora-
dia” dado a quem evidentemente não 
precisa dele. Ao que parece, setores da 
coalizão golpista decidiram indicar ao 
Judiciário que ele não é intocável. O ou-
tro foi o anúncio, pelo ocupante da Pre-
sidência, da intervenção federal no Rio 
de Janeiro, que concede peso e visibili-
dade a um ator que, até agora, era man-
tido à sombra: as Forças Armadas.
Quaisquer que sejam as mudanças 
a que levem as disputas internas entre 
os grupos que deram o golpe em 2016, 
é ilusório pensar que o Judiciário pode 
ser um agente do retorno à democra-
cia. Recursos ao STF, como ocorreram 
1 Ver Stephen S. Trott, “O uso de um criminoso 
como testemunha”,Revista CEJ, n.37, 2007.
quando da deposição de Dilma e ocor-
rem agora com a condenação de Lula, 
cumprem muito mais um papel de de-
núncia, já que a corte demonstrou 
mais de uma vez seu desprezo pela le-
galidade fraturada.
É uma situação dramática porque, 
se a lei é um código da violência do Es-
tado, como diz a citação de Poulant-
zas referida antes, ela também organi-
za, inibe e torna predizível essa 
violência. Sua imparcialidade ostensi-
va e os valores civilizatórios que ela 
tem de aparentar encarnar são con-
cessões arrancadas pela luta dos gru-
pos dominados. Também podem ser 
usados contra os dominantes e cons-
trangem o exercício arbitrário do po-
der. O império da lei não é a garantia 
de uma sociedade justa, já que a lei re-
flete a correlação de forças dentro des-
sa sociedade. Mas a ruptura do siste-
ma legal, que permite à dominação 
social se exibir em toda a sua nudez, 
retira dos mais frágeis as garantias 
que eles foram capazes de obter.
Quando a discricionariedade ex-
tralegal do sistema judicial, que nunca 
deixou de operar em prejuízo das po-
pulações mais pobres e periféricas, 
atinge o coração do sistema político, a 
democracia liberal entra em colapso. 
Significa que a ordem instituída não 
permite mais sequer que suas próprias 
promessas sejam mobilizadas para 
conter sua violência. Significa que a 
pressão dos dominados, que era acei-
ta, desde que controlada, como parte 
do jogo, agora deve ser extirpada.
O papel do Judiciário na canaliza-
ção das disputas e a crença dissemina-
da de que os tribunais são capazes, em 
algum grau, de aplicar a lei tal como 
ela está formulada fazem nascer uma 
sensação de abandono quando depa-
ramos com uma situação de arbitra-
riedade judicial indisfarçada. A quem 
vamos recorrer, quando até a Justiça é 
injusta? É a realidade de um país que 
passou de uma democracia formal, li-
mitada, para uma democracia menos 
que formal, cujas instituições não se 
preocupam mais em disfarçar sua ten-
denciosidade em favor dos poderosos.
Como instituição política que é, o 
Poder Judiciário é sensível à correlação 
de forças na sociedade. É a resistência 
contra os retrocessos, o aumento na 
mobilização social, o protesto contra 
as arbitrariedades e a desobediência 
civil que podem restaurar o funciona-
mento mínimo de uma justiça bur-
guesa que, ainda que sem perder o 
qualificativo “burguesa”, possa aspi-
rar ao nome de “justiça”. 
*Luis Felipe Miguel é professor do Institu-
to de Ciência Política da Universidade de 
Brasília.
Em seu conjunto, 
o Poder Judiciário 
atua como avalista 
da desigualdade 
e das relações 
vigentes de 
dominação
6 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
O PREÇO DE SE TORNAR UM ATOR POLÍTICO
A Justiça no centro da crise política
Mesmo composto por grupos distintos, instâncias e atribuições específicas, o Judiciário hoje é um ator tão conhecido 
como completamente envolvido nas decisões políticas do Brasil. E, sim, isso muda o jogo. Sejam quais forem os rumos 
que o país vai tomar nos próximos anos, essa conta também recairá sobre a Justiça
POR GRAZIELLE ALBUQUERQUE*
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oje, praticamente todos os te-
mas políticos debatidos no país 
passam pelo Supremo Tribunal 
Federal (STF). Efeito, entre ou-
tras questões, do que a academia cha-
ma de “judicialização da política”.1 O 
fato é que a Constituição Federal de 
1988 desenhou um modelo de sistema 
de justiça com um protagonismo ím-
par. De todos os integrantes desse sis-
tema, que engloba, entre outros, Mi-
nistério Público e Defensoria Pública, 
o Judiciário é sem dúvida um poder 
que deixou de orbitar à margem da to-
mada de decisões para se instalar no 
centro da crise política brasileira.
Só nos primeiros meses do ano, o 
julgamento do ex-presidente Lula no 
Tribunal Regional Federal da 4a Região 
(TRF4) e as pautas sobre o auxílio-mo-
radia demonstram como o antes “ilus-
tre desconhecido” Judiciário não pode 
mais ganhar essa denominação. Vol-
tando um pouco no calendário, na vi-
rada de dezembro de 2017, foi o indulto 
de Natal que bateu à porta do Supre-
mo. As pautas são diversas e podemos 
enumerá-las à exaustão. O foco atual 
quase sempre recai sobre o STF e a 
Operação Lava Jato, mas seria uma in-
verdade dizer que os holofotes se limi-
tam a ambos.
Em 2018, certamente a Justiça Elei-
toral ganhará destaque e, para com-
pletar a exposição, a cobertura sobre a 
intervenção federal/militar no Rio de 
Janeiro dá conta de uma nota de apoio 
às Forças Armadas assinada por mem-
bros da magistratura e do Ministério 
Público integrantes do Movimento de 
Combate à Impunidade (MCI). A nota 
não é um fato extraordinário ou isola-
do de um movimento desconhecido. 
Embora alguns ministros do Supremo 
tenham dado declarações questio-
nando a ação, o Judiciário está imbri-
cado nela, como se pode ver pela ad-
missão de dispositivos jurídicos como 
os “mandados coletivos” de busca e 
apreensão, do ponto de vista jurispru-
dencial, e pelo apoio institucional da-
do à intervenção, verificado em reu-
niões como a ocorrida no Palácio da 
Guanabara, no dia 17 de fevereiro. Na 
ocasião, o presidente do Tribunal de 
Justiça do Rio de Janeiro, o desembar-
gador Milton Fernandes de Souza, co-
locou o Judiciário estadual à disposi-
ção do interventor.
Muitos pontos de análise podem 
ser levantados com base nesse quadro, 
em especial a velha tensão relativa ao 
pacto entre os três poderes e o papel do 
Judiciário como árbitro. Em outros ter-
mos: como recorrer a uma instituição 
que já se posicionou? De todas as ques-
tões, aqui me concentro em uma: mes-
mo composto por grupos distintos, 
instâncias e atribuições específicas, o 
Judiciário hoje é um ator tão conhecido 
como completamente envolvido nas 
decisões políticas do Brasil. E, sim, isso 
muda o jogo. Sejam quais forem os ru-
mos que o país vai tomar nos próximos 
anos, essa conta também recairá sobre 
a Justiça.
VISIBILIDADE TARDIA
Talvez seja difícil perceber a im-
portância dessa observação em pri-
meiro plano, mas um breve panorama 
histórico ajudará nesse exercício. 
Grande parte dessa “descoberta” pú-
blica só ocorreu no final da década de 
1990 (vide CPI do Judiciário, em 1999) 
e ao longo dos anos 2000 (vide Refor-
ma do Judiciário, em 2004), não ape-
nas pela demora em sentir os efeitos da 
Constituição de 1988, mas também 
porque, sem ser um poder eletivo e es-
tando distante dos questionamentos 
relativos à democratização do país e 
dele próprio – enquanto instituição –, 
o Judiciário passou ileso às faturas co-
bradas no período de abertura. Ao 
contrário de outros países da América 
Latina, como a Argentina, que teve 
uma Justiça de transição atuante, o 
Brasil até hoje se esquiva de prestar 
contas sobre a ditadura militar. 
Com o Ato Institucional n. 2, o AI-2, 
o general Castelo Branco transferiu os 
processos políticos da Justiça comum 
para a Justiça militar. O AI-2, baixado 
em outubro de 1965, dava início à mu-
dança que seria solidificada em 1967, 
com a entrada em vigor da nova Cons-
tituição e, sobretudo, com a emissão 
do Ato Institucional n. 5, o AI-5, que 
em dezembro de 1968 suspendeu até 
mesmo a apreciação de habeas corpus 
de crimes políticos, crimes contra a se-
gurança nacional, a ordem econômica 
e social e a economia popular. É claro 
que o Judiciário era parte da estrutura 
do Estado e do próprio regime ditato-
rial, e isso merece um olhar acurado, 
mas, do ponto de vista de uma exposi-
ção mais ampla, a Justiça comum fica-
va fora da “jogada”. Estava à margem e 
não tinha a visibilidade de agora. 
Esse e outros fantasmas pareceram 
ressuscitar diante da aprovação pelo 
Congresso Nacional, em outubro de 
2017, da Lei n. 13.491, que transfere da 
Justiça comum para a militar o julga-
mento de homicídioscometidos por 
militares durante operações especiais 
7MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
Também do ponto 
de vista midiático, os 
recados que o Supremo 
dá são diversos e
denotam, sim, um 
comportamento 
político
de segurança pública em território na-
cional, e também com declarações co-
mo a do comandante do Exército, ge-
neral Eduardo Villas Bôas, sobre a 
preocupação de que se instale uma no-
va “Comissão da Verdade” após o fim 
da intervenção. Voltando ao ponto da 
exposição e do jogo de poder, nos anos 
1960, 1970 e 1980, qualquer análise 
midiática e política certamente in-
cluiria os militares numa relação dire-
ta com Executivo e Legislativo. Agora, 
além da caserna, o Judiciário e Minis-
tério Público fazem, literalmente, par-
te da rede. 
Essa não é uma ironia, é mesmo 
uma avaliação técnica. O pesquisador 
Fábio Malini2 fala que, se procurado-
res e juízes já brilharam no Twitter, 
chegou o momento em que militares 
entraram no palco. Fazendo análise 
de cartografia de redes políticas brasi-
leiras desde 2012, Malini afirma que 
nunca generais e o Exército aparece-
ram como atores relevantes em seus 
mapas. Agora, temos Executivo, Legis-
lativo, Judiciário e militares todos no 
mesmo “balaio”.
Ainda que caibam diversas distin-
ções, ratifico meu ponto: não impor-
tam as pautas, se das questões mais 
classistas aos bastidores palacianos, 
passando pela agenda de governo (que 
agora sai da Reforma da Previdência e 
se concentra na segurança pública), a 
Justiça brasileira está presente. Nesse 
sentido, grosso modo, mesmo saben-
do de todas as tensões internas, pode-
-se falar de uma imagem de Justiça 
que aparece na ponta como “una”. Lá 
no final da linha, pode-se supor que a 
opinião pública enxergue “uma Justi-
ça” e só depois passe a lhe distinguir os 
segmentos. Indo além, no centro dessa 
hipótese, por tudo já elencado aqui, é 
pertinente admitir que o que surge 
dessa exposição é mesmo uma Justiça 
que se comporta como ator político. E 
isso tem um preço.
RECADOS PÚBLICOS
Se fizermos um recorte sobre a 
atuação política da Justiça, talvez o fo-
co no STF nos dê a amostra mais ade-
quada. Muitas críticas públicas se vol-
tam para o comportamento díspar do 
Tribunal, julgando casos semelhantes 
de forma diversa. Em um artigo na Fo-
lha de S.Paulo (28 jan. 2018), Conrado 
Hübner Mendes, professor de Direito 
Constitucional da Universidade de São 
Paulo (USP), fala que o Supremo pas-
sou de poder moderador a poder ten-
sionador, agredindo a democracia bra-
sileira. Seleciono algumas indagações: 
“Se Delcídio [do] Amaral (PT-MS), 
Eduardo Cunha (MDB-RJ), Renan Ca-
lheiros (MDB-AL) e Aécio Neves (PS-
DB-MG) detinham as mesmas prerro-
gativas parlamentares, por que, diante 
das evidências de crime, receberam 
tratamento diverso? Se houve desvio 
de finalidade no ato da presidente Dil-
ma Rousseff (PT) em nomear Lula (PT) 
como ministro, por que não teria havi-
do na conversão, pelo presidente Mi-
chel Temer (MDB), de Moreira Franco 
(MDB) em ministro?”.
Deixo as perguntas no ar e desloco 
o raciocínio do plano normativo e de-
cisório para o da comunicação. Tam-
bém do ponto de vista midiático, os re-
cados que o Supremo dá são diversos e 
denotam, sim, um comportamento 
político. Vejamos alguns exemplos:
1. Em novembro de 2015, após a di-
vulgação da gravação do ex-senador 
Delcídio do Amaral (PT-MS), revelan-
do que era preciso “centrar fogo” no 
STF (o áudio citava os ministros Teori 
Zavascki, Dias Toffoli, Edson Fachin e 
Gilmar Mendes), o Supremo reagiu de 
forma imediata, determinando a pri-
são de Delcídio. Na sessão que homo-
logou a prisão, a ministra Cármen Lú-
cia foi enfática ao dizer que os 
corruptos não passarão sobre os juí-
zes. Além disso, tanto Toffoli como 
Mendes se pronunciaram negando 
qualquer interferência. 
2. Em março de 2016, a escuta libe-
rada pelo juiz Sérgio Moro, em que o 
ex-presidente Lula chamava o Supre-
mo de acovardado, teve seu conteúdo 
criticado no dia seguinte pelo ministro 
Celso de Mello. O decano do STF se re-
feriu às declarações de Lula como uma 
ofensa grave à dignidade institucional 
do Judiciário, um insulto inaceitável e 
passível de repulsa. No dia seguinte, 
em um evento em Manaus, o presiden-
te do Tribunal, Ricardo Lewandowski, 
também criticou as declarações, afir-
mando que o Supremo jamais esteve 
acovardado. Contudo, em outro episó-
dio de natureza semelhante, ocorrido 
na sequência, pode-se ver uma postura 
distinta por parte dos ministros.
3. Em maio de 2016 houve a divul-
gação dos áudios de Romero Jucá (PM-
DB-RR), Renan Calheiros (PMDB-AL) e 
José Sarney (PMDB-MA), todos fazen-
do menções diretas ao Supremo em 
uma atitude de cumplicidade com o 
impeachment que se combinaria com 
o arrefecimento da Lava Jato (a fala de 
Jucá foi repetida à exaustão na impren-
sa e nas redes sociais, referindo-se a 
uma “mudança” no governo federal 
que resultaria em um pacto para “es-
tancar a sangria”, um acordo “com o 
Supremo, com tudo”). Mesmo diante 
da repercussão das gravações, houve 
apenas uma nota oficial do STF e uma 
declaração de Luís Roberto Barroso 
publicada no El País3 negando qual-
quer interferência. Nenhuma fala em 
plenário ou reação mais contundente.
Os três episódios tiveram similari-
dades, mas receberam respostas dis-
tintas e, como o debate não se restringe 
ao campo jurídico, o STF vê-se diante 
do aprendizado de que a cobrança se 
dará também em outra ordem. Ao lar-
go de toda a discussão sobre a legalida-
de dos vazamentos, quando se cruza a 
fronteira do campo político, a questão 
da opinião pública entra em cena. E os 
vazamentos são um exemplo bem re-
presentativo dos diversos momentos 
em que a Justiça passou a ter um papel 
político na crise, tendo de se posicionar 
publicamente sobre ela, ingressando 
em uma disputa midiática.
Quem não se lembra das discus-
sões entre os ministros Cezar Peluso e 
Eliana Calmon sobre os poderes de in-
vestigação do Conselho Nacional de 
Justiça (CNJ)? Ou de quando o CNJ le-
vantou a bandeira de combate ao ne-
potismo? Cito esses exemplos por seu 
conteúdo ligado à atuação da própria 
Justiça e para destacar que, ainda as-
sim, nem de longe esses casos estavam 
restritos aos aspectos jurídicos. Aliás, 
nenhum dos exemplos levantados 
aqui está. No fim das contas, é a ima-
gem da Justiça que aparece.
POSIÇÃO E COBRANÇA
A gama de exemplos levantados é, 
sem dúvida, extensa, mas sua ampli-
tude é proposital. O que ela demonstra 
é que em diversos planos o Judiciário 
(e não apenas ele, o Ministério Público 
também entra nessa conta, embora 
com suas peculiaridades) passa a ser 
observado. Tecnicamente, ele foi agen-
dado. É parte da agenda midiática e 
pública. Mas não é apenas isso. Ele 
também está ligado a um enquadra-
mento, a um framing. Ou seja, mostra-
-se e o faz de determinada forma. Essa 
forma é política e seletiva. Por que com 
uns e não com outros? Por que dessa 
forma e não daquela? Por que veloz 
nesse processo e devagar naquele? Es-
sas são perguntas que começam a ser 
feitas por uma opinião pública que 
passa não só a reconhecer a Justiça, 
mas também perceber sua maneira de 
agir, seu comportamento. 
Com isso, questões históricas sobre 
a falta de democratização da Justiça 
aparecem. Contudo, deve-se ressaltar 
que elas não surgem como algo passa-
do, mas estão na conta do dia de quem 
segue os ministros do Supremo no 
Twitter, de quem vê a cobertura políti-
ca (sim, o Judiciário hoje está comple-
tamente inserido nas editorias de polí-
tica), de quem assiste às sessões do 
Supremo na TV Justiça ou as vê no You-
1 Segundo C. Neal Tate e Torbjörn Vallinder, a ex-
pressão pode ser vista como uma maneira de en-
tender as causas e consequências da expansão do 
poder judiciário no processo decisóriodas demo-
cracias contemporâneas. Mais detalhes podem 
ser vistos no trabalho de Koerner e Maciel, que fa-
zem um balanço teórico da discussão sobre o 
tema. Andrei Koerner e Débora Alves Maciel. Sen-
tidos da judicialização da política: duas análises. 
Lua Nova, n.57, p.113-134, 2002. Disponível em: 
<http://www.scielo.br/pdf/ln/n57/a06n57.pdf>.
2 “No Twitter, vampiro cola mais em Temer do que 
intervenção”, Piauí, 24 fev. 2018.
3 Ver “Barroso: ‘Modelo do Brasil não é capitalismo, 
é socialismo para os ricos’”, El País, 24 maio 2016.
4 “Entre o espetáculo e o controle: a Justiça e 
seus holofotes”, Le Monde Diplomatique Brasil, 
dez. 2015.
Tube e, agora também, de quem vai 
acompanhar de perto as pautas da se-
gurança pública (do sistema carcerá-
rio carcomido ao desenrolar da inter-
venção no Rio de Janeiro). A Justiça 
brasileira está nas manchetes.
Todo esse emaranhado talvez leve 
as instituições do sistema de justiça a 
perceber que essa não é uma função 
acessória. Ao embarcar na agenda do 
Executivo e do Legislativo, ou mesmo 
de determinados grupos de interesse e 
pressão, o Judiciário se acopla a eles. Is-
so acontece nos debates da cúpula, mas 
é bem provável que, com a questão da 
segurança nacional em pauta, as co-
branças explodam também nas ques-
tões mais cotidianas da sociedade.
Em dezembro de 2015, em um arti-
go aqui para o Le Monde Diplomatique 
Brasil,4 arrematei meu raciocínio afir-
mando que “quem se expõe acaba 
sempre tendo de responder”. É fato. O 
que digo agora é que não se trata de 
mera exposição; ao assumir determi-
nada posição, a Justiça será cobrada 
por ela. Na América Latina como um 
todo, o empoderamento do Judiciário 
foi uma aposta num sistema de garan-
tias e direitos que se antagonizasse ao 
horror dos truculentos regimes mili-
tares. Agora, a Justiça está diante de 
um duplo impasse: lidar com ques-
tões que traz de seu próprio passado e 
com uma necessidade urgente de de-
mocratização interna, e lidar com po-
sicionamento político em relação aos 
outros poderes e com a missão de 
atuar nessa nova democracia. Há um 
imenso risco de a Justiça, que tanto 
tentou se colocar como heroica e apo-
lítica, tomar o lugar inverso. A relação 
com a opinião pública pode ser vista à 
parte, mas o que ela talvez faça de 
mais potente seja expor esse dilema e 
sua devida fatura. Um Judiciário polí-
tico que escolhe um lado arcará com 
as consequências dessa escolha. 
*Grazielle Albuquerque é jornalista e dou-
toranda em Ciência Política pela Universida-
de Estadual de Campinas (Unicamp), e foi 
visiting doctoral research no German Institute 
of Global and Area Studies (Giga), em Ham-
burgo. Seu trabalho se volta para a atuação 
do sistema de justiça, em especial para sua 
interface com a mídia.
8 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
O 
que mudou na história recente 
do Brasil, quando a gestão dife-
rencial de ilegalismos que 
transformou favelas e periferias 
em espaços de indeterminação,1 onde 
os direitos da população são sistemati-
camente violados, desborda as frontei-
ras dos espaços populares e atinge a 
“cidade” formal e outros segmentos 
populacionais? O que mudou quando 
os jogos de poder passaram a usar os 
ilegalismos não apenas em relação aos 
“de baixo”? Muitos de nós só então co-
meçaram a questionar nossa demo-
cracia e a alertar sobre estarmos vi-
vendo um estado de exceção. As 
“fronteiras das leis como campo de 
disputa”2 parecem não mais se referir 
estritamente aos espaços populares e, 
por isso mesmo, despertam atenção e 
interesse dos que não se importavam 
muito quando os ilegalismos estavam 
restritos às favelas e periferias das 
grandes cidades. 
E o que há de comum entre Rafael 
Braga (negro e catador de materiais re-
cicláveis) e Luiz Inácio Lula da Silva (lí-
der metalúrgico, fundador do Partido 
dos Trabalhadores, deputado federal e 
presidente do Brasil por dois manda-
tos)? É enorme a distância que separa 
essas pessoas, personagens recentes 
da história de nosso país. Nada os 
aproxima em sua trajetória de vida 
nem nas escolhas cotidianas que fize-
ram. Talvez então o que os ligue sejam 
os tempos em que vivemos, de exce-
ção. Refletir sobre isso é a proposta 
deste artigo.
Há alguns anos, cientistas sociais, 
militantes de movimentos e defenso-
res de direitos humanos discutem co-
mo, mesmo quando se pensava estar 
em uma normalidade democrática, 
favelas e periferias se transformaram 
em espaços de exceção. Se é certo que 
os grupos de traficantes de drogas ilí-
citas são um de seus operadores, pelo 
despotismo que impõem aos que ali 
habitam,3 também é certo que, nesses 
espaços, a administração da exceção 
se faz por agentes do Estado, não por 
WELFARE, WARFARE E LAWFARE
Quando os ilegalismos ultrapassam 
as fronteiras dos espaços populares
O que há de comum entre Rafael Braga e Luiz Inácio Lula da Silva? É enorme a distância que separa essas pessoas, 
personagens recentes da história de nosso país. Nada os aproxima em sua trajetória de vida nem nas escolhas cotidianas 
que fizeram. Talvez então o que os ligue sejam os tempos em que vivemos, de exceção
POR MÁRCIA PEREIRA LEITE E JULIANA FARIAS*
despreparo ou desvio de conduta, mas 
como um modo – pensado, deliberado 
– de governar os pobres. A face mais 
visível da administração da exceção é 
posta em prática pelas forças policiais 
que ali operam, ora pelo uso da força 
desmedida4 (para além da norma 
constitucional) contra criminosos e 
moradores (incluindo a prática de ho-
micídios), ora pela permissividade 
com o crime, administrando “merca-
dorias políticas”5 em seu benefício 
privado. Mas peritos, gestores de polí-
ticas públicas, outros funcionários do 
Estado e políticos também se situam 
nesse campo, tratando os moradores 
não como cidadãos com direitos, mas 
como populações a controlar: ora os 
reprimindo em seu cotidiano e suas 
ações coletivas, ora autorizando im-
plicitamente seu extermínio por meio 
do dispositivo do auto de resistência, e 
sempre rebaixando suas reivindica-
ções por políticas públicas e bens de 
cidadania.6
Foucault, pensando no exercício 
do poder, forjou a noção de “gestão di-
ferencial de ilegalismos” como uma 
forma de “organizar a transgressão 
das leis numa tática geral de sujei-
ções”. Pondo em relevo as positivida-
des dos ilegalismos, compreendeu o 
Estado e as formas de governo não por 
suas imperfeições ou lacunas na apli-
cação da lei, mas pelos agenciamentos 
realizados como ações possíveis na 
composição dos jogos de poder que 
negociam os parâmetros da lei e da or-
dem: “A penalidade seria então uma 
maneira de gerir as ilegalidades, de 
dar terreno a alguns, de fazer pressão 
sobre outros, de excluir uma parte, de 
tornar útil a outra, de neutralizar es-
tes, de tirar proveito daqueles. [...] a pe-
nalidade não ‘reprimiria’ pura e sim-
plesmente as ilegalidades; ela as 
‘diferenciaria’, faria sua ‘economia ge-
ral’. E se podemos falar de uma justiça 
não é só porque a própria lei ou a ma-
neira de aplicá-la servem aos interes-
ses de uma classe, é porque toda a ges-
tão diferencial das ilegalidades por 
intermédio da penalidade faz parte 
desses mecanismos de dominação”.7
É dessa perspectiva que lemos a en-
trevista de Eduardo Farias, professor 
da USP e da FGV, que sustenta “uma 
mudança no conceito de prova, de 
processo e de delito” ao analisar as 
tensões entre duas “arquiteturas jurí-
dicas” em choque no Brasil da Lava Ja-
to.8 Nela, muitas argumentações refe-
rentes às novas tecnologias de poder, 
mas nenhuma referência aos nossos 
preceitos constitucionais: “[...] há aqui 
uma questão importante para verifi-
carmos a mudança das gerações prin-
cipalmente no campo do Direito Penal 
e no campo do Direito Econômico, 
mudança decorrente de uma atuação 
cadavez mais sofisticada do crime or-
ganizado e das organizações terroris-
tas na Europa. Os países europeus que 
vinham estudando nos anos 1980 a 
possibilidade de formar uma União 
Europeia, saindo da mera zona econô-
mica e constituindo uma comunidade 
integrada, perceberam que seria ne-
cessário dar um passo semelhante na 
área do Direito Penal, o qual deveria 
ser globalizado. Esse processo foi pen-
sado a partir da premissa de que em 
vez de reprimir o crime organizado 
nas suas consequências seria melhor 
asfixiá-lo financeiramente, – o mesmo 
valeu para o terrorismo”.
Farias nos esclarece o sentido desse 
agenciamento: “Com esse propósito, 
em 1989 foi constituído em Paris um 
grupo chamado Gafi [Grupo de Ação 
Financeira] para operar na Organiza-
ção para a Cooperação e o Desenvolvi-
mento Econômico (OCDE) e que for-
mará uma minuta de uma legislação 
penal econômica para todos os países-
-membros da OCDE. A ideia seria tra-
balhar com o princípio da globalização 
econômica, o que exigiria, com o tem-
po, também a globalização de partes 
do Direito – não de todo ele, evidente-
mente. [...] A minuta foi adotada pelos 
países-membros da OCDE e [...] alguns 
[outros países], como é o caso do Bra-
sil, foram convidados a adotar essa le-
gislação em troca de uma série de van-
tagens, como acesso a mercados, novas 
tecnologias, linhas de financiamento 
com juros favorecidos...”.9
Afinal, quem (ou o que) nos gover-
na – nós, que acreditamos (ou acredi-
távamos) na democracia, nos procedi-
mentos, na Justiça, na lei? A entrevista 
revela como estamos desajustados aos 
tempos em que vivemos. A Constitui-
ção de 1988 não conta mais nestes 
tempos em que o ajuste ao novo capi-
talismo selvagem se sobrepõe à pri-
mazia da lei e das garantias procedu-
rais? Pode-se mudar o conceito de 
prova porque assim o determina o Ga-
fi? O ônus da prova não cabe mais ao 
acusador? Bastam convicções, mesmo 
sem provas, como na condenação de 
Lula no caso Petrobras-Guarujá?10 In-
quéritos podem dispensar a oitiva de 
testemunhas e acatar somente pala-
vras de policiais, como no caso Rafael 
Braga?11 Mesmo sem amparo constitu-
cional, delação premiada torna-se pro-
va substantiva? A condução coercitiva 
e a prisão provisória visando acordos 
de delação podem ser acatadas pelos 
tribunais superiores graças a essa lógi-
ca da repressão ao crime financeiro e 
do ajustamento às necessidades da 
globalização? A brecha legal para tudo 
isso parece estar, entre outros instru-
mentos jurídicos, na Lei n. 13.260, que 
regulamenta o disposto no artigo 5o da 
Constituição Federal, reformulando o 
conceito de terrorismo, disposições 
investigatórias e processuais.12
Afinal, quem (ou o que) 
nos governa – nós, 
que acreditamos 
(ou acreditávamos) 
na democracia, nos 
procedimentos, 
na Justiça, na lei?
9MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
Para compreender essa mudança, 
vale examinar os argumentos de Hu-
berman, em seu excelente artigo so-
bre o lawfare.13 O autor considera law-
fare “uma forma de conflito na qual a 
lei é usada como arma de guerra [...]: o 
emprego de manobras jurídico-legais 
como substituto de força armada, vi-
sando alcançar determinados objeti-
vos de políticos”. No caso da condena-
ção de Lula, como no dos petistas do 
caso Mensalão e no impeachment de 
Dilma Rousseff, usou-se a teoria do 
domínio de fato,14 cuja aplicação em 
casos de corrupção passiva, ele sus-
tenta, é questionável. 
“Segundo Alaor Leite [aluno de Ro-
xin], ‘a teoria do domínio do fato não 
serve para fundamentar responsabili-
dade penal pela mera posição de desta-
que no interior de uma estrutura hie-
rárquica’. Ou seja, os juízes precisam 
provar a relação, não apenas deduzi-la. 
[Entretanto,] todos tiveram, em co-
mum, entre as justificativas de suas 
condenações, não exatamente provas 
legais, mas o ‘conjunto da obra’.”15
Acompanhando Huberman, mas 
retornando a Foucault, considera-
mos que o que se atualiza aqui é uma 
nova tecnologia de poder, que opera 
pela “gestão diferencial dos ilegalis-
mos”, exercendo a dominação por 
meio do uso da lei e de sua aplicação 
diferenciada em relação aos defini-
dos como amigos ou inimigos do blo-
co no poder.16
Stephen Graham sustenta que vi-
vemos em tempos em que a possibili-
dade de integração social dos cidadãos 
a um Estado de bem-estar (welfare) foi 
substituída, perante as exigências do 
capitalismo financeiro, por uma for-
ma de gestão de territórios e popula-
ções que envolve a militarização da vi-
da (warfare), apoiada na doutrina do 
novo urbanismo militar: “[...] mani-
festa no uso da guerra como metáfora 
dominante para descrever a condição 
constante e irrestrita das sociedades 
urbanas – em guerra contra as drogas, 
o crime, o terror, contra a própria inse-
gurança urbana”.17
No Brasil dos últimos anos, transi-
tamos do welfare (ao menos como pro-
messa) para o warfare (sobretudo nos 
espaços populares, mas também em 
relação a movimentos sociais e políti-
cos tidos como ameaçadores da ordem 
e da segurança interna).18 Nos dias que 
correm, o caminho para o lawfare pa-
rece bem pavimentado. Vivemos no 
Rio de Janeiro mais um agenciamento 
que aprofunda a exceção: a interven-
ção militar decretada por Temer.19
Não podemos nos deter no tema, 
mas assinalamos a existência de diver-
sos debates sobre o sentido, a eficácia e 
a constitucionalidade da intervenção 
federal. E destacamos um dos elemen-
tos que embasam nosso argumento da 
vigência do lawfare, atualizado por 
meio de uma “gestão diferencial de ile-
galismos”: a entrevista do ministro da 
Justiça, Torquato Jardim, qualificando 
a intervenção como guerra assimétri-
ca: “Na guerra assimétrica, você não 
tem território, qualquer um pode ser 
inimigo, não tem uniforme, não sabe 
qual é a arma. Você está preparado 
contra tudo e contra todos, todo o tem-
po. [...] se passar um guri de 15 anos de 
idade, você vê a foto dele, já matou 
quatro, entrou e saiu do centro de re-
cuperação, uma dúzia de vezes, e está 
ali com um fuzil exclusivo das Forças 
Armadas, você vai fazer o quê? Prende. 
O guri vai lá e sai, na quarta ou quinta 
vez que você vê o fulano, vai fazer o 
quê? Você tem uma reação humana aí 
que deve ser muito bem trabalhada 
psicologicamente, emocionalmente, 
no PM ou no soldado. Você está no 
posto, mirando a distância, na alça da 
mira aquele guri que já saiu quatro, 
cinco vezes, está com a arma e já ma-
tou uns quatro. E agora? Tem que espe-
rar ele pegar a arma para prender em 
flagrante ou elimino a distância? Ele é 
um cidadão sob suspeita porque não 
está praticando o ato naquele momen-
to ou é um combatente inimigo? Os 
EUA enfrentaram esse tema como um 
inimigo combatente. É a noção de 
guerra assimétrica, estamos vivendo 
uma guerra simétrica”.20
O ministro ainda defendeu altera-
ções jurídicas de proteção àqueles que 
cometerem crimes intencionais,21 
considerando insuficiente a Lei n. 
13.491/2017, sancionada por Temer,22 a 
qual transfere para a Justiça Militar o 
julgamento de militares que comete-
rem crimes contra civis nas “missões 
de garantia da lei e da ordem”, como 
no recente caso do cerco à Rocinha.
Para concluir, voltamos aos casos 
de Rafael Braga e de Lula. O que eles 
nos ensinam? O primeiro desvenda 
que o Judiciário é peça fundamental 
da engrenagem racista de Estado que 
vemos funcionar a pleno vapor no 
Brasil de 2018. O segundo, a condena-
ção de Lula, evidentemente não inau-
gura a seletividade penal no Brasil, 
mas adiciona elementos importantes 
para o debate. Entre eles, que hoje os 
jogos de poder podem e usam dos ile-
galismos também em relação aos “de 
cima”, dispondo de um extenso e 
crescentemente atualizado repertó-
rio no campo do lawfare. Os conflitos 
sociais são geridos e a guerra aos 
“inimigos” é realizada por meio deuma negociação dos parâmetros da 
lei e da ordem e de sua aplicação dife-
renciada em relação a territórios e 
segmentos específicos para permitir 
a realização dos interesses excluden-
tes do bloco no poder. Se não enten-
dermos isso e se não considerarmos e 
agirmos pela democracia não só para 
os “de cima”, pouca esperança nos 
restará como nação. 
1 Giorgio Agamben, Estado de exceção, Boitempo, 
São Paulo, 2004. 
2 Vera Telles, “Fronteiras da lei como campo de dis-
puta: notas inconclusas a partir de um percurso de 
pesquisa”. In: Patricia Birman et al. (orgs.), Disposi-
tivos urbanos e trama dos viventes: ordens e resis-
tências, FGV, Rio de Janeiro, 2015. 
3 Luiz Antonio Machado da Silva (org.), Vida sob cer-
co: violência e rotinas nas favelas do Rio de Janei-
ro, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2008.
4 Jean-Paul Brodeur, “Por uma sociologia da força 
pública: considerações sobre a força policial e mi-
litar”, Caderno CRH, v.XVII, n.42, 2004.
5 Michel Misse, Crime e violência no Brasil contem-
porâneo, Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2006.
6 Juliana Farias, Governo de mortes: uma etnografia 
da gestão de populações de favelas no Rio de Ja-
neiro, tese de doutorado (Sociologia), UFRJ, 2014; 
e Marcia P. Leite, “State, market and administration 
of territories in the city of Rio de Janeiro” [Estado, 
mercado e administração de territórios na cidade 
do Rio de Janeiro], Vibrant, a sair. 
7 Michel Foucault, Vigiar e punir, Vozes, Petrópolis, 
2004, p.226-227.
8 “‘Há uma mudança no conceito de prova, de pro-
cesso e de delito’: Entrevista com José Eduardo 
Faria”, O Estado de S. Paulo, 6 fev. 2018.
9 Idem.
10 “Afinal, procurador da Lava Jato disse ‘não temos 
prova, temos convicção’?”, G1, 15 set. 2016.
11 “Por que o caso de Rafael Braga não choca o Bra-
sil?”, Justificando, 26 abr. 2017.
12 Aprovada pelo Congresso Nacional, a lei antiterro-
rismo foi sancionada pela presidenta Dilma, sob 
pressão do Gafi, em 16 de março de 2016.
13 “Estudiosos do direito já inventaram um nome para 
isso: ‘lawfare’. Formada pela conjunção das pala-
vras inglesas ‘law’ (‘lei’), e ‘warfare’ (guerra), o ter-
mo pode ser traduzido para algo como ‘guerra jurí-
dica’”. Bruno Huberman, “De Gaza a Porto Alegre, 
a lei como arma de guerra”, Outras Palavras, 28 
jan. 2018.
14 “Criada pelo jurista alemão Claus Roxin nos anos 
1960 [para] lidar com os mandantes dos crimes 
cometidos durante o período [nazista] [...], [susten-
ta que] quem ocupa posição dentro de um chama-
do aparato organizado de poder e dá o comando 
para que se execute um delito, tem de responder 
como autor e não só como partícipe”. Idem.
15 Idem.
16 Ver o não indiciamento do senador Perrella pela 
Polícia Federal no caso do contrabando de co-
caína em helicóptero de sua propriedade, como 
seria de esperar em termos dos procedimentos 
legais usuais (https://veja.abril.com.br/brasil/o-
-helicoptero-de-perrella-e-as-acoes-controla-
das/) e os casos de corrupção tornados públicos 
e também não averiguados pela Lava Jato. 
17 Stephen Graham, Cidades sitiadas: o novo urba-
nismo militar, Boitempo, São Paulo, 2016, p.26.
18 Ver os casos de aplicação da Lei de Garantia da 
Lei e Ordem (prevista no art. 142 da Constituição 
Federal, disciplinada pela Lei Complementar n. 
97/1999 e regulamentada pelo Decreto n. 
3.897/2001) nos governos Dilma e Temer. “Dilma 
também acionou militares contra protestos, em 
2013”, Valor, 24 maio 2017.
19 Decreto n. 9.288, de 6 de fevereiro de 2018.
20 “‘Não há guerra que não seja letal’, diz Torquato Jar-
dim ao Correio”, Correio Braziliense, 20 fev. 2018.
21 “Não temos legislação totalmente adequada. [...] 
Nesse pacote que está sendo discutido pelo depu-
tado Rodrigo Maia e pelo senador Eunício de Oli-
veira, é provável que esses temas sejam enfrenta-
dos”. Idem. O mesmo sentido tem a reivindicação 
de “anistia prévia” do general Eduardo Villas Boas, 
comandante do Exército, que se queixa da “inse-
gurança jurídica” para agir no âmbito da interven-
ção sem o risco de uma nova Comissão da Verda-
de. “Autoanistia prévia na intervenção civil-militar 
do Rio”, Filhos e Netos, 20 fev. 2018.
22 “Lei que autoriza Justiça Militar julgar morte de civil 
é sancionada”, Consultor Jurídico, 16 out. 2017.
*Márcia Pereira Leite é professora associa-
da do Departamento de Ciências Sociais e 
do Programa de Pós-Graduação em Ciên-
cias Sociais da Universidade do Estado do 
Rio de Janeiro (PPCIS/Uerj); Juliana Farias 
é do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da 
Unicamp.
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10 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
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CONJUNTURA
A contrarrevolução no Brasil
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stá em curso no Brasil um movi-
mento contrarrevolucionário, 
contra a sociedade democrática. 
Não é um movimento contra 
uma “revolução”, mas um movimento 
em moldes “revolucionários” – revolu-
ção não é necessariamente de esquer-
da! – que recorre à ruptura e não exclui 
o uso da violência. 
A contrarrevolução é preventiva: 
volta-se contra mudanças democráti-
cas, pacíficas e ordeiras, representadas 
pelos governos eleitos do PT, que colo-
caram em xeque os interesses oligár-
quicos. É mais perene e danosa do que 
um golpe, por deixar em seu rastro a for-
mação de hábitos, de práticas consoli-
dadas na cultura do país. E como sem-
pre lembra o ex-presidente do Uruguai 
José Mujica, muito mais difícil do que 
mudar a realidade é mudar a cultura.
Ao contrário de um discurso pro-
pagado com frequência pela grande 
imprensa, mas também por institui-
ções, entre as quais alguns setores do 
Judiciário e da polícia, as classes peri-
gosas e promotoras da desordem não 
são as dos contingentes populares e de 
trabalhadores, seus partidos e organi-
zações, mas justamente aquelas clas-
ses presentes na oligarquia.
A violência da luta de classes no 
Brasil instala-se por meio da classe do-
minante. A oligarquia do capitalismo 
brasileiro é muito perigosa, haja vista 
que, por suas práticas, demonstradas 
agora sobejamente, faz mal à saúde, à 
educação, às eleições, ao emprego, à 
justiça, à soberania nacional, à nossa 
integridade física, às nossas reservas 
naturais, ao nosso futuro... A classe ca-
pitalista brasileira não vacila no recur-
so à violência quando julga que seu 
poder oligárquico é ameaçado por 
práticas democráticas e pacíficas.
Há pouco mais de uma década hou-
ve uma disputa eleitoral democrática 
no Brasil. A eleição conduziu ao poder 
novas práticas sociais que operaram 
uma transformação na sociedade bra-
sileira e facultaram um progressivo 
despertar da consciência nacional 
acerca da desigualdade em largas ca-
madas da população, e assim possibili-
taram um deslocamento das condições 
de reprodução do poder oligárquico.
Pela visão oligárquica, colocaram-
-se em risco os interesses do capitalis-
mo no país. Sob o manto de aparente 
estabilidade nas práticas sociopolíti-
cas, econômicas e, sobretudo, culturais 
da coligação de forças nacional e inter-
nacional que a sustenta, as oligarquias 
têm muita resiliência, derivada de cos-
tumes erguidos em raízes firmes desde 
os primórdios deste país com o nome 
de commodities, estabelecido como 
colônia de exploração comercial e que 
evoluiu com base na mais longeva or-
dem social escravocrata do planeta.
O resultado é uma socialização capi-
talista que se pode denominar “semisso-
ciedade”: um ordenamento econômico 
válido para todos, chamado “mercado”, 
que faz as vezes de uma sociedade dota-
da de direitos e participação, mas só pa-
ra uma restrita faixa da população. Ou 
seja, uma situação de enorme desigual-
dade econômica, social e política, apoia-
da em intolerância cultural e violência 
institucional repressiva, tudo junto e 
misturado com um minguado senso pú-
blico e de solidariedade a conviver num 
extremado individualismo.Essa situação, muito favorável à 
consolidação do neoliberalismo, evi-
dencia que o que se apresenta como ca-
pitalismo no Brasil é incompatível com 
práticas democráticas, participativas e 
públicas. Justamente essas práticas de-
mocráticas constituem o alvo da con-
trarrevolução para estancar comporta-
mentos sociais que questionam as 
barreiras que mantêm o poder restrito 
à “panela” dos sócios oligárquicos.
Pela primeira e única vez em nossa 
história, nos governos do PT, houve 
uma – imperdoável, donde o ódio des-
pertado e o golpe realizado – disputa 
de poder real, em que se enfrentou o 
olhar oligárquico. As novas práticas 
não são ideias ou projetos, conflitos ou 
manifestações isoladas, mas práticas 
que, por serem sociais, são também 
políticas, econômicas, culturais, com 
consequências no ethos, nos hábitos 
que moldam o processo de reprodução 
da sociedade brasileira. Essas práticas 
implicam a configuração de novos ne-
xos de coesão social, contraditórios 
em relação aos laços tradicionais, que 
pareciam estabilizados sob o poder 
A oligarquia amedrontada associou-se com interesses internacionais contrários à nossa soberania que lhe permitiram 
somar forças para uma contrarrevolução antidemocrática de natureza preventiva. Seu objetivo é evitar que as contradições 
da desigualdade e da exclusão que ela própria gera continuem a se converter em força política adversa à sua continuidade
POR WOLFGANG LEO MAAR*
11MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
dos interesses capitalistas, isto é, no 
seio da oligarquia nacional e suas ra-
mificações internacionais.
Não são, de um lado, as práticas utó-
picas de uma esquerda revoltada, des-
provida de base para ameaçar o poder, 
nem, de outro, as práticas de uma es-
querda adaptada, que aceita o poder em 
vigor ao reivindicar a participação em 
sua gestão. Ambas dispensariam a oli-
garquia do recurso à contrarrevolução.
O que se tornou intolerável são 
práticas de esquerda que atingem o 
âmbito macropolítico nacional, por 
meio de sua articulação com micro-
políticas. Estas são de inclusão pela 
educação, de combate à miséria, de 
cotas raciais e de gênero, de tolerância 
à diversidade, de ampliação da cober-
tura da saúde, de cobertura de servi-
ços públicos, de inserção habitacio-
nal, de consultas com participação 
popular na elaboração de políticas, de 
valorização do salário mínimo, de re-
forço da formalização das relações no 
mundo do trabalho etc.
Essas novas práticas, ao ampliarem 
a concepção pública dos bens comuns 
para contemplar a totalidade da popu-
lação, colocam em xeque os interesses 
representados no Estado oligárquico. 
Os beneficiários deste, mediante suas 
práticas sociais seculares, formularam 
sua própria concepção privada dos 
bens comuns nacionais, isto é, dos di-
reitos que os brasileiros mereceriam 
usufruir. Agora se encontram atemori-
zados diante da existência, ainda que 
não consolidada e em construção, de 
práticas inclusivas e universalizáveis 
de bens comuns, apreendidos como 
públicos por parcela majoritária da po-
pulação pobre e trabalhadora. 
Essas novas práticas, de natureza 
democrática, denunciam que a parce-
la excluída por sua desigualdade de 
condições não nasce desigual, mas é 
construída em sua desigualdade na or-
dem do “mercado”, usurpador da so-
ciedade dos iguais por ação do direito 
oligárquico. Agora esse controle oli-
gárquico é ameaçado em sua conti-
nuidade pelas contradições sociais ge-
radas pela produção da desigualdade.
A contrarrevolução, posta em mo-
vimento para realizar os interesses 
da oligarquia capitalista, precisa 
contrariar essas práticas democráti-
cas. Foi assim que a oligarquia parla-
mentar impôs e a oligarquia jurídica 
chancelou o golpe, a contrarreforma 
trabalhista, a destruição das verbas 
públicas para saúde, educação, ciên-
cia, habitação etc.
No entanto, a contrarrevolução, 
mediante o exercício cotidiano de con-
trapráticas antidemocráticas, propõe-
-se a converter estas últimas em hábitos 
geradores de coesão social dirigida à 
sustentação da oligarquia – contraprá-
ticas que não excluem o recurso à vio-
lência, seja ela material, simbólica ou de 
perda da equidade na justiça. É um cal-
do de cultura política protofascista.
Essas práticas antidemocráticas, 
porém, não conseguem se impor dire-
tamente; exigem mediações. O melhor 
exemplo é a equivocada condenação 
do ex-presidente Lula. Ela se insere em 
uma semidemocracia que, erigida co-
mo “sociedade do espetáculo”, leva ao 
proscênio da opinião pública a “justi-
ça” de uma pretensa política de probi-
dade anticorrupção, enquanto, longe 
das vistas, a ordem do mercado conti-
nua em operação, com sua parcialida-
de capitalista.
A oligarquia, apesar de sua consoli-
dada estrutura de dominação nas rela-
ções capital-trabalho, atentou ao risco 
de deixar de ser classe dirigente na so-
ciedade, até porque nem sequer con-
segue dirigir a produção nacional. Sua 
condução da política nacional seria 
questionada pelas novas práticas de 
uma “revolução pacífica”, democráti-
ca e antioligárquica, inclusiva e parti-
cipativa, dotada do efeito de reanimar 
a economia do país. 
Transformações sociais envolven-
do grandes contingentes populares – 
entre um quarto e um quinto da popu-
lação – geraram novos nexos de 
reconhecimento mútuo e novos vín-
culos com as instituições e os proces-
sos sociais. Aqui se inclui a crescente 
consciência de direitos sociais em re-
lação aos efeitos decorrentes da desi-
gualdade causada pela privatização de 
políticas ligadas à economia especula-
tiva e predatória dominante.
A democracia já não constitui só um 
ideal a ser conquistado, mas é construí-
da por práticas realizadas em políticas 
públicas diversificadas e abrangentes. 
Não foi somente a democracia que se 
apresentou em sua idealidade à socie-
dade. Foi também a sociedade, em 
grandes contingentes, que se moveu 
em direção aos direitos, à ideia de de-
mocracia. A democracia já não é só 
uma ideia fora do lugar, alheia e deslo-
cada da vida real, como eram as ideias 
liberais na ordem escravista, conforme 
expos Roberto Schwarz. Novas ligas de 
brasileiros, de natureza diversa e plu-
ral, misturados nas universidades, nas 
redes sociais, nas manifestações cultu-
rais, em ambientes de trabalho etc. vie-
ram para ficar, porque, graças a esses 
contextos, os direitos – e com eles a 
ideia de democracia – conseguem ser 
praticados concretamente. No entan-
to, como lembrava Antonio Candido, a 
democracia é muito trabalhosa. Além 
de ser uma prática constante, deman-
da uma perseverante formação cultu-
ral para firmar sua própria concepção 
de sociedade. A perda de terreno pode 
ser rápida...
A oligarquia amedrontada asso-
ciou-se com interesses internacionais 
contrários à nossa soberania, que lhe 
permitiram somar forças para uma 
contrarrevolução antidemocrática de 
natureza preventiva. Seu objetivo é 
evitar que as contradições da desi-
gualdade e da exclusão que ela própria 
gera continuem a se converter em for-
ça política adversa à sua continuida-
de. Para tanto necessita garantir a 
continuidade da cultura social e 
institucional.
Se até há pouco o Brasil se caracte-
rizou como um Estado de direito aber-
to à democracia, hoje se volta a passos 
largos rumo a um Estado de direito oli-
gárquico. Não se trata de um jogo de 
palavras; há uma mudança profunda 
acerca do que é Estado, sociedade e ra-
cionalidade social. 
No plano oligárquico, o centro do 
poder soberano e público, o Estado, li-
mita-se a ser detentor do monopólio 
da violência. A sociedade é “o merca-
do”, bastando para essa constatação 
acompanhar o zelo com que a grande 
mídia tradicional reconstrói diaria-
mente essa pretensa identidade entre 
ordem econômica e sociedade. Práti-
cas sociais, como eleições, inclusão 
social,direitos humanos, debates pú-
blicos, são fatores de perturbação da 
lógica social mercantil. “Social” signi-
fica aqui apenas um coletivo de indiví-
duos privados, e não uma concepção 
de totalidade pública. Não seria outro 
o motivo da famosa proclamação de 
Margaret Thatcher, recentemente 
lembrada por Geraldo Alckmin: “Isso 
que chamamos sociedade não existe; 
há somente famílias e indivíduos”. Te-
mem uma sociedade em que a direção 
do todo pode ser outra, diversa e con-
trária àquela consolidada na socializa-
ção capitalista em vigor.
Se à mídia compete a construção 
de uma noção de sociedade oligárqui-
ca e de seus agentes, à justiça oligár-
quica cabe um papel decisivo na pro-
dução do poder de direção social. 
Cabe a ela evitar que os direitos uni-
versais, praticados na sociedade igua-
litária, contaminem o adequado fun-
cionamento dos agentes do mercado 
na produção da desigualdade. Está em 
causa garantir a operacionalidade da 
socialização conforme a racionalidade 
imposta no sentido oligárquico. 
A lei e a jurisprudência são, por si 
mesmas, uma concretização prática 
da direção legal universal a que deve 
se submeter a totalidade do contexto 
social. A rigor, ao “judicializar” o pla-
no político, o Estado é adequado à di-
reção necessária para a continuidade 
do poder nos moldes oligárquicos 
existentes. A não política resultante 
da “judicialização” é a política conge-
lada na situação em que se encontra e 
desfalcada de sua própria identidade.
É muito nítido o trânsito de um 
“Estado de direito” democrático, em-
bora com uma oligarquia dominante, 
para um semidemocrático Estado de 
“direito oligárquico”. Nessa recons-
trução, a própria natureza do “social” 
é submetida a uma mudança estrutu-
ral. Os “bens comuns públicos”, que a 
rigor incluem participação e decisão 
do público, passam a ser bens comuns 
dotados de “publicidade”. Em substi-
tuição ao caráter público do social na 
sociedade, que reincide praticamente 
sobre esta, convertendo-a em forma-
ção viva, instala-se mediante a “publi-
cidade” um sucedâneo dessa dimen-
são do que é público, agora reduzido à 
exposição pública do existente parti-
lhado passivamente. É o que ocorre 
nas redes sociais, que parecem substi-
tuir o social, embora apenas o confir-
mem em seu formato vigente. 
Mas o “horror thatcheriano”, a so-
ciedade, existe e é uma realidade práti-
ca, efetiva. Nela a diferença em relação 
aos comportamentos derivados da ló-
gica de mercado está na ordem do dia 
por incluir a democracia. 
A diversidade, por exemplo, impõe-
-se por cima dos critérios mercantis; 
de outra parte, a intolerância reinante 
no individualismo do mercado neoli-
beral precisa ocultar permanente-
mente sua afinidade com os privilé-
gios econômicos. As interações no 
“mundo digital”, que pareciam res-
tringir-se inteiramente às relações no 
plano de indivíduos e famílias, apenas 
reforçando certas posições tomadas 
de antemão e obstruindo seu debate 
real na sociedade, mais e mais conver-
tem-se em meios a serem usados nas 
interações efetivamente sociais.
Apenas em sociedade os seres hu-
manos conseguem se individualizar. 
Em uma ordem mercantil capitalista, 
quando muito, são alçados à condição 
de vendedores, compradores ou mer-
cadorias. Aprofundar a exposição e as 
práticas públicas democráticas na so-
ciedade, em suas instituições e organi-
zações, constitui o único antídoto à 
contrarrevolução antidemocrática e 
aos seus agentes no mercado, no par-
lamento, na grande imprensa e na jus-
tiça oligárquicos. Assim será possível 
resistir às suas imposições e ampliar 
as contradições que elas geram. 
*Wolfgang Leo Maar é professor titular de 
Ética e Filosofia Política da Universidade Fe-
deral de São Carlos e pesquisador do Cene-
dic da FFLCH-USP.
Não se trata de um 
jogo de palavras; 
há uma mudança 
profunda 
acerca do que é 
Estado, sociedade e 
racionalidade social
12 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
ELEIÇÕES
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L
ac
er
da
D
e todos os presidenciáveis para 
as eleições de 2018, Jair Bolso-
naro é aquele que busca, de ma-
neira mais enfática, se apresen-
tar como o candidato capacitado a 
solucionar o problema da violência 
que assola o país. 
Na ausência de um programa, é 
possível recorrer ao farto material dis-
ponível na internet, de modo a anteci-
par aquilo que provavelmente será sua 
proposta para a segurança pública. As 
declarações presentes em vídeos, re-
portagens e entrevistas ajudam a fazer 
uma leitura interessante desse perso-
nagem que, mesmo sem nunca ter 
concorrido à Presidência, consegue ter 
mais seguidores no Facebook do que 
qualquer outro político brasileiro.1
Nas entrevistas, a retórica de Jair 
Bolsonaro caracteriza-se pelo uso de 
frases feitas, pela repetição de respos-
tas prontas que supostamente dão cer-
to e pela impostação imperativa da 
voz. Quando não concorda com os 
pressupostos de uma pergunta, uma 
de suas estratégias recorrentes é des-
qualificá-la como algo procedente de 
um campo político que ele considera 
ilegítimo em si mesmo. Nesse caso, é 
suficiente enquadrar uma questão co-
mo “esquerdismo”, “direitos huma-
nos” ou “ideologia de gênero” para não 
precisar levá-la a sério. 
Esse ponto é importante. Se antes 
de ganhar a visibilidade que tem hoje 
Bolsonaro se recusava a debater com a 
“pauta da esquerda” porque seu posi-
cionamento ideológico era de con-
frontação total e irreconciliável com 
esse grupo – como o da esquerda mais 
radical em relação a ele –, agora essa 
recusa implica a deslegitimação da es-
querda como interlocutora política em 
qualquer sentido. Essa posição tem si-
do incorporada ao discurso dos jovens 
que se politizam à direita e idealizam 
o clã Bolsonaro. 
Sobre a segurança pública, as falas 
do candidato caracterizam-se pela ne-
gação reiterada de qualquer aspecto 
social da criminalidade. Seu refrão 
preferido, nesse caso, é dizer que, para 
a esquerda, o “bandido é vítima da so-
ciedade”, como se ali residisse uma 
tentativa ingênua de isentá-lo de res-
ponsabilidade. Com efeito, trata-se de 
uma distorção reducionista e desones-
ta de uma perspectiva segundo a qual 
a violência tem causas mais comple-
xas do que a redução analítica aos atos 
do agente que a comete. 
Toda abordagem que isole o indiví-
duo de seu meio econômico, social e 
cultural se mostrará incapaz de revelar 
fenômenos cujas origens se encontram 
em dimensões mais amplas. Edgar 
Morin diz que “um pensamento muti-
lado leva a decisões erradas ou ilusó-
rias”. É exatamente o que acontece 
quando se atomiza a conduta do crimi-
noso, separando-o do campo de forças 
das estruturas socioeconômicas. A 
consequência previsível e inevitável é a 
elaboração de argumentos frágeis, le-
vando a conclusões como a da suposta 
essência degenerada do agente.
Pouco importa, por exemplo, que 
indicadores de criminalidade citados 
em estudos de segurança pública rea-
firmem padrões e tendências estatisti-
camente correlacionados a variáveis 
econômicas e sociais. Segundo Bolso-
naro, a atitude delinquente é sempre 
redutível ao infrator, sendo explicada 
por meio de sua índole ou caráter. De 
fato, ao recusar qualquer consideração 
das condições sociais da violência, o 
que resta é uma concepção biológica e 
moral da figura do delinquente. 
O humanista católico inglês Tomás 
Morus, em sua magnum opus A utopia 
(1516), já repreendia – com cinco sécu-
los de antecedência – a visão estreita 
do senso comum sobre a essência per-
versa do criminoso. Seu comentário 
era eloquente: “Vocês deixam desviar-
-se e deteriorar-se aos poucos o caráter 
das pessoas desde a primeira infância, 
e punem adultos por crimes cuja pro-
messa garantida eles carregam desde 
os primeiros anos”.2
Ao carecer de uma abordagem de 
viésholístico, que busque retotalizar 
o indivíduo ao inseri-lo num campo 
de forças que vai agir na formação de 
sua personalidade e em sua relação 
com o meio onde vive, torna-se fácil 
acreditar em falsas conclusões. No 
âmbito da delinquência, sempre será 
mais simples lidar com a individuali-
zação da culpa do que entender a 
complexidade das causas profundas 
dos processos sociais. 
Não causa espanto, portanto, que o 
(não) programa de Bolsonaro seja tão 
bem recebido pelo eleitorado médio. 
Em um país com vocação conservado-
ra e de longa tradição autoritária, uma 
plataforma política comprometida em 
instituir, na prática, um regime de ex-
ceção que permitiria aos agentes do 
aparato repressivo combater a violên-
cia com mais violência3 e atuar como 
grupos de extermínio4 parece atrair 
um eleitorado que já está cansado de 
lidar com o crime em seu cotidiano. Se, 
por um lado, a violência é um fenôme-
no complexo que se explica por um 
conjunto de condicionantes socioeco-
nômicos – e justamente por isso é pos-
sível identificar seus padrões de ocor-
rência e definir contextos em que esses 
atos são mais ou menos frequentes –, 
seus efeitos são, por outro lado, perce-
bidos como perdas e sofrimentos indi-
viduais ou familiares, capazes de atin-
gir qualquer um em qualquer lugar. 
Vale lembrar que 90% dos brasileiros 
são favoráveis à redução da maioridade 
penal – cujo apoio é maior entre os es-
tratos mais pobres,5 embora seja tam-
bém expressivo entre a classe média. 
O discurso da guerra incondicional 
à criminalidade tem forte apelo junto 
à classe média não só porque ela julga 
que seus filhos jamais serão vítimas da 
violência policial, mas também por-
que, como minoria relativamente fa-
vorecida numa sociedade desigual, ela 
tem sempre presente a fragilidade de 
sua posição, cuja sensação contínua 
de insegurança é um epifenômeno. De 
outra parte, a exposição direta e coti-
diana das classes pobres à violência – 
estatisticamente, os estratos sociais 
mais baixos são as maiores vítimas de 
crimes como roubo e assassinato –, 
agravada pelas condições adversas de 
moradia em bairros sem infraestrutu-
ra e em uma dura luta pela sobrevivên-
cia em jornadas exaustivas de traba-
lho, torna-as sensíveis ao discurso da 
repressão policial. 
Jair Bolsonaro: 
o candidato da 
(in)segurança pública
Em seu horizonte mental não há lugar para 
uma sociedade menos violenta. Sua definição do 
trabalhador policial como um “matador” profissional 
e sua proposta de dobrar o número de mortos pela 
polícia como forma de combater o crime denotam 
que, de sua perspectiva, a violência não pode ser 
reduzida, apenas canalizada para o extermínio 
de pessoas vistas como ameaça
POR LEANDRO GAVIÃO E ALEXANDRE VALADARES*
13MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
A rigor, se a violência se apresenta 
como uma dinâmica geral de estrutu-
ração das relações sociais, ela é, toda-
via, seletiva em seus efeitos. De acordo 
com dados do Ministério da Justiça,6 
três em cada quatro vítimas de homi-
cídio no país são negras. Ademais, a 
taxa de jovens negros de 15 a 29 anos 
assassinados é três vezes superior à 
dos brancos (79,4 contra 26,6 a cada 
100 mil habitantes). Essas proporções 
encontram correspondência nos da-
dos do sistema prisional: em 2014, dois 
terços da população carcerária do país 
eram compostos por negros.
Diante de uma política de seguran-
ça pública que, entre 2000 e 2014, fez 
crescer 119% o índice de encarcera-
mento no país7 – variação bem acima, 
por exemplo, da taxa de homicídios por 
100 mil habitantes, que subiu 10,6% en-
tre 2005 e 20158 –, Bolsonaro se exime 
de demonstrar qualquer preocupação 
com as condições dos presídios do país. 
Seu ponto de vista corrobora a realida-
de: as prisões têm servido menos para 
ressocializar os detentos que para reti-
rar da vida social indivíduos identifica-
dos como “potencialmente perigosos”. 
Ao comemorar, por exemplo, os massa-
cres ocorridos em presídios – como em 
Pedrinhas, no Maranhão, em 20149 –, 
Bolsonaro dá a entender que, para ele, a 
superlotação, as chacinas e as práticas 
cotidianas de maus-tratos e tortura 
que ocorrem no interior dos cárceres 
não são problemas de segurança públi-
ca, e sim soluções.
Ao se recusar a reconhecer os con-
denados como sujeitos de direitos e ao 
manifestar sua disposição a dar “carta 
branca” para a polícia matar, Bolsona-
ro se coloca como o candidato que 
cumpriria uma espécie de mandato 
tácito outorgado pela maioria da so-
ciedade, que se declara a favor do acir-
ramento da repressão policial. Mais 
ainda, ele se faz porta-voz da ideologia 
punitivista que ataca os princípios bá-
sicos dos direitos humanos. De seu 
ponto de vista, esses direitos consti-
tuem um problema porque “prote-
gem” os bandidos. Sendo assim, nada 
mais são do que obstáculos legais ao 
exercício irrestrito da autoridade. 
Os projetos de lei mais recentes da 
atuação parlamentar de Bolsonaro re-
fletem sua visão sobre a criminalida-
de. São iniciativas que pautam o au-
mento das penas de crimes contra a 
propriedade (PL 7.700/2017 e 
7.701/2017), a ampliação do direito de 
porte de armas (PL 7.282/2014) e o 
alargamento das ressalvas legais aos 
atos praticados em legítima defesa e 
em defesa de terceiros (PL 7.105/2014). 
O endurecimento penal e a tendência 
a priorizar estratégias de combate ao 
crime que isolam e individualizam a 
conduta criminal reiteram a negação 
do caráter social – ou socialmente es-
truturado – da violência no país.
Esses elementos permitem supor 
que, na hipótese de um governo Bolso-
naro, as questões de fundo que geram a 
violência permaneceriam intocadas. 
Se para ele a criminalidade é o resulta-
do agregado de milhares de decisões 
particulares de sujeitos propensos a de-
linquir, Bolsonaro não verá, em princí-
pio, qualquer razão para propor uma 
política preventiva à violência – exceto, 
talvez, uma política que identifique in-
divíduos “suscetíveis” a cometer cri-
mes e os persiga “preventivamente”. 
Em seu horizonte mental não há 
lugar para uma sociedade menos vio-
lenta. Sua definição do trabalhador 
policial como um “matador” profis-
sional e sua proposta de dobrar o nú-
mero de mortos pela polícia como for-
ma de combater o crime10 denotam 
que, de sua perspectiva, a violência 
não pode ser reduzida, apenas canali-
zada para o extermínio de pessoas 
vistas como ameaça.
Por outro lado, a especial insistên-
cia com que Bolsonaro apregoa sua 
pretensão de garantir que todo cida-
dão tenha uma arma11 demonstra que, 
em síntese, ele não tem um projeto de 
segurança pública. Em primeiro lugar, 
porque seu foco se restringe à repres-
são dos crimes cometidos e, em segun-
do lugar, porque uma política de segu-
rança cuja proposta mais emblemática 
é armar cidadãos particulares não po-
de ser dita pública. Afora os riscos im-
previsíveis que acarreta – discussões 
no trânsito, desavenças domésticas, 
brigas em locais públicos e outros ti-
pos de conflitos que podem fazer víti-
mas fatais –, essa “coparticipação” de 
cidadãos comuns na prerrogativa do 
Estado de combater a violência pode 
significar, numa sociedade dramati-
camente desigual como a nossa, a pri-
vatização da segurança individual 
num cenário de guerra hobbesiana.
CONSEQUÊNCIAS DA INTERVENÇÃO FEDERAL
Para além dos resultados sociais 
que a militarização da segurança pú-
blica pode desencadear, o decreto de 
intervenção federal no estado do Rio 
de Janeiro coloca de vez o tema da vio-
lência e do enfrentamento à criminali-
dade no centro dos debates políticos 
pré-eleitorais. À primeira vista, essa 
mudança no cenário favoreceria can-
didaturas cujo discurso tem reivindi-
cado a necessidade de intensificar a 
repressão policial, de endurecer as pe-
nalidades e de sacrificar direitos e ga-
rantias individuaisem nome da “paci-
ficação” das ruas. Em tempos de crise 
econômica e desemprego, com au-
mento dos indicadores de violência e 
da sensação de insegurança, o popu-
lismo penal tem, de fato, se mostrado 
uma estratégia retórica eficaz. 
Insistindo em qualificar os confli-
tos sociais como situações de “guerra”, 
essa doutrina da intolerância difunde 
a crença de que é preciso adotar, com 
urgência e sem concessões humanitá-
rias, soluções de força para derrotar os 
“inimigos internos” da ordem. Bolso-
naro, encarnação mais celebrada do 
gênero, teria, a princípio, razões para 
1 Até o fechamento desta edição, sua página conta-
va com mais de 5 milhões de seguidores, contra 3 
milhões de Lula.
2 Tomás Morus, A utopia, L&PM, Porto Alegre, 
2010.
3 “Para Bolsonaro, ‘violência, se for o caso, se com-
bate com violência’”, O Popular, 30 maio 2017.
4 “Bolsonaro: Vou combater a corrupção e a violên-
cia com radicalismo”, Valor, 14 dez. 2017.
5 “Nove em cada dez apoiam redução da maioridade 
penal, diz Datafolha”, Jornal do Brasil, 22 jun. 2015.
6 Ver em: <www.justica.gov.br/sua-seguranca/se-
guranca-publica/analise-e-pesquisa/download/
estudos_diversos/1diagnostico-homicidios.pdf>.
7 Ministério da Justiça, “MJ divulga novo relatório so-
bre população carcerária brasileira”, 24 jun. 2016.
8 “Taxa de homicídios no Brasil aumenta mais de 
10% de 2005 a 2015”, G1, 5 jun. 2017.
9 “A única coisa boa do Maranhão é o presídio de 
Pedrinhas, diz Bolsonaro”, UOL, 11 fev. 2014.
10 “Policial que não mata não é policial”, HuffPostBra-
sil, 27 nov. 2017.
11 Ver, por exemplo, os vídeos da palestra que o de-
putado realizou no Clube Hebraica do Rio de Janei-
ro, em 3 de abril de 2017. 
12 Ver, por exemplo: “Apesar de crítica, Bolsonaro 
vota a favor de intervenção federal no Rio”, UOL, 
20 fev. 2018.
comemorar uma intervenção federal 
militarizada no estado em que se ree-
legeu como o deputado federal mais 
votado em 2014. Contudo, o tom crítico 
e distanciado de seu posicionamento 
público a respeito do decreto12 denota 
que ele já percebeu a fumaça suspeita 
que se adensa sob o foguetório midiá-
tico: enunciada por um presidente im-
popular que busca melhorar os índi-
ces de aprovação de seu governo e não 
descarta se lançar como candidato 
nas próximas eleições, a intervenção 
federal no Rio de Janeiro parece ter 
motivações mais políticas que admi-
nistrativas ou técnicas. Além de proje-
tar os militares na cena política, ela 
desarma o deputado federal de seu 
principal recurso ideológico: o discur-
so de guerra contra o crime. 
*Leandro Gavião é doutor em História Polí-
tica (Uerj) e professor da Universidade Cató-
lica de Petrópolis (UCP-RJ); Alexandre Va-
ladares é doutor em Filosofia (UFRJ).
A fábula das abelhas 
Esta obra-prima britânica do século XVIII 
desencadeou uma grande controvérsia ao rejeitar 
uma visão positiva da 
natureza humana e 
argumentar pela 
necessidade do vício 
como fundamento de 
uma economia 
capitalista emergente. 
Clássico de Bernard de 
Mandeville considera 
que a insensibilidade 
geral é condizente com 
o interesse supremo do 
Estado e, 
consequentemente, da 
ordem pública.
Conversando com 
Gaspare Spatuzza 
Autobiogra�a de 
Norberto Bobbio 
Um dos maiores intelectuais italianos conta 
sua vida e dá seu testemunho, em primeira 
pessoa, sobre os 
temas e angústias, as 
contradições e os 
sentidos que 
perpassam o século 
XX. Organizado e 
comentado pelo 
jornalista Alberto 
Papuzzi, traz 
documentos do 
acervo pessoal do 
pensador ao lado de 
escritos originais.
Produzir conteúdo
Compartilhar conhecimento.
Desde 1987.
www.editoraunesp.com.br
Em seu testemunho direto e 
pulsante, coletado pela jurista 
Alessandra Dino em local secreto, 
Spatuzza conta a história do jovem 
de Palermo atraído e cooptado pelo 
crime, e permite um mergulho nas 
complexidades envolvidas em seu 
percurso. O retrato resultante mostra 
Máfia e mafioso em cores ao mesmo 
tempo esclarecedoras, esmerizantes, 
trágicas e brutais.
14 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
CONFUSÃO ENTRE PATOLÓGICO E EXISTENCIAL
Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo, a psiquiatria 
europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria 
farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução
POR GÉRARD POMMIER*
A medicalização da 
experiência humana
D
iante da realidade do “sofri-
mento psíquico” – uma das 
mais importantes patologias 
modernas –, entrou em ação, há 
algumas décadas, uma maquinaria 
diagnóstica nunca antes vista, cujo 
objetivo é explorar esse enorme mer-
cado potencial. Para isso, foi neces-
sário primeiro substituir a grande 
psiquiatria europeia, que, graças a 
observações clínicas múltiplas e coe-
rentes, reunidas durante os dois últi-
mos séculos, havia repertoriado os 
sintomas, classificando-os em gran-
des categorias: neuroses, psicoses e 
perversões. Munido desses conheci-
mentos, o especialista podia dar um 
diagnóstico e distinguir os casos gra-
ves dos causados por circunstâncias 
passageiras. Ele separava, então, o 
que exigia o uso de medicamentos da-
quilo que poderia ser solucionado me-
lhor com a conversa. 
A psiquiatria clássica e a psicanálise 
haviam chegado às mesmas conclu-
sões. Essas duas abordagens tão distin-
tas se auxiliavam e se enriqueciam mu-
tuamente. O mercado de medicamentos 
ainda guardava proporções razoáveis, 
o que deve ter dado o que pensar à “Big 
Pharma” – apelido conveniente para o 
enorme poder dos laboratórios farma-
cêuticos, que fazem uma corte assídua 
tanto aos clínicos gerais quanto às mais 
altas instâncias do Estado e dos servi-
ços de saúde, com os quais sabem se 
mostrar bem generosos (oferecendo, 
por exemplo, cruzeiros de “formação” 
aos jovens psiquiatras).
A jornada de conquista desse gran-
de mercado começou nos Estados 
Unidos, com a Associação dos Psiquia-
tras Americanos (APA) e seu primeiro 
manual de diagnóstico e estatística 
dos problemas mentais, o Diagnostic 
and Statistical Manual of Mental Disor-
ders (Manual de Diagnóstico e Estatís-
tica dos Transtornos Mentais, ou 
DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organiza-
ção Mundial da Saúde (OMS) adotou 
no capítulo “Psiquiatria” da Classifica-
ção Internacional das Doenças as no-
menclaturas do DSM-IV, o que levou 
vários países a fazer o mesmo. Seguiu-
-se uma inflação de patologias reper-
toriadas. Havia sessenta em 1952, mas 
410 em 1994, no DSM-IV.
EXTINGUIR O VULCÃO
Negócio é negócio. O método DSM 
tem de ser simples: não se cogita bus-
car a causa dos sintomas nem saber a 
que estrutura psíquica eles corres-
pondem. Basta encontrar o caso que 
se conforme ao comportamento visí-
vel do paciente. Essa prática esquece 
que um sintoma não é jamais uma 
causa. A conversa com o psiquiatra 
mal pode ser considerada necessária, 
pois serve apenas para repertoriar os 
“transtornos” superficiais: “transtor-
nos” do comportamento, da alimenta-
ção, do sono... enfim, “transtornos” de 
todos os tipos, até a recente invenção 
dos “transtornos” pós-atentados. A 
cada um corresponde – maravilha! – 
um medicamento. Foi nessas águas 
perturbadas que naufragaram os an-
tigos diagnósticos. O lobby da Big 
Pharma conquistou também as facul-
dades de Medicina, onde só se ensina 
o DSM. Mais: os próprios laboratórios 
transmitem os ensinamentos – nume-
rosos conflitos de interesses foram de-
nunciados. A grande cultura psiquiá-
trica acabou esquecida, de sorte que, 
diante de um paciente, o novo clínico 
made in DSM não sabe mais se está li-
dando com uma psicose, uma neuro-
se ou uma perversão. Ele não distin-
gue um problema grave de um estadocircunstancial. E, na dúvida, receita 
psicotrópicos...
“Depressão”, por exemplo, é pala-
vra que faz parte do vocabulário cor-
rente. O blues (tristeza) pode domi-
nar qualquer pessoa, a qualquer 
momento da vida. Mas por que dar 
esse sentido ao conceito de “depres-
são”? Ela foi elevada à dignidade de 
uma doença à parte. Contudo, a tris-
teza pode ser um sintoma tanto de 
melancolia – acarretando risco eleva-
do de suicídio – quanto de um estado 
passageiro e mesmo normal, como o 
luto. Confúcio recomendava ao filho 
um luto de três anos após a morte do 
pai; hoje, se você continua triste de-
pois de quinze dias, está doente. Vão 
lhe dar antidepressivos, que podem 
temporariamente aliviar o problema, 
mas não o resolverão. Entretanto, co-
mo não convém interromper o trata-
mento de repente, a prescrição dura 
às vezes a vida inteira.
O marketing do DSM é simples: 
basta inventar, a intervalos regulares, 
novos transtornos que misturem a pa-
tologia e o existencial. Isso é muito fá-
cil, já que a existência se apoia naquilo 
que nos faz ir em frente. Aquilo que 
não funciona – em nossa vida – nos dá 
energia para evitá-lo. É necessário 
chorar antes de rir. Estamos à beira de 
um vulcão: extingui-lo com medica-
mentos que não passam de drogas é 
extinguir uma vida, porquanto viver é 
correr riscos o tempo todo. “O patoló-
gico só tem sentido para o improduti-
vo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O 
nome de alguns medicamentos pare-
ce corroborar essa ideia, mas em uma 
acepção no mínimo discutível: em 
certas formas agudas de psicose, os 
psicotrópicos são imprescindíveis pa-
ra acalmar as alucinações e os delírios. 
Tais medicamentos são chamados de 
antipsicóticos. Na cabeça do fabrican-
te, essas moléculas estariam então 
destinadas a acabar de vez com a pes-
soa que sofre de psicose? O fabricante 
esquece uma coisa: o “paciente” é sem-
pre maior que seu padecimento. Esses 
remédios deviam chamar-se de prefe-
rência “pró-psicóticos” ou “filopsicóti-
cos”, pois um psicótico libertado de 
seus delírios é frequentemente um 
grande inventor (o matemático Georg 
Cantor), um grande poeta (Friedrich 
Hölderlin), um grande pintor (Vincent 
van Gogh) ou um grande filósofo (Jean-
-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma 
pouco se importa com a liberdade 
reencontrada pelo paciente, que no fim 
poria em causa sua empresa. Ela prefe-
re o ópio. E seus vapores se instalam 
com facilidade, porque o “transtorno” 
é associado às manifestações efetivas 
do sofrimento psíquico.
Não bastasse isso, mais vale que o 
número de “transtornos” cresça e se 
multiplique. Entre os mais recentes, o 
“transtorno bipolar” se beneficiou de 
uma ampla promoção midiática, em-
bora apenas patologize a doença uni-
versal do desejo: este se atira, rindo, 
para o objeto de seu sonho, mas, quan-
do o apanha, o sonho está mais longe 
ainda e o riso se transforma em lágri-
mas. Enquanto a vida segue seu curso, 
nós todos somos normalmente “bipo-
lares”, hoje alegres, amanhã tristes. 
Acontece, porém, que nas psicoses 
melancólicas o objeto de desejo é a 
própria morte ou a explosão de um sur-
to maníaco. O diagnóstico de “bipola-
ridade” se torna então criminoso, pois 
não faz distinção entre o ciclo manía-
co-depressivo das psicoses – com o ris-
co de passagem ao ato grave justifican-
do a prescrição de neurolépticos – e a 
euforia-depressão das neuroses. Essa 
distinção, riscada dos DSMs, provoca 
inúmeras situações dramáticas.3
O “transtorno” mais comum e in-
quietante, pois diz respeito às crian-
ças, que sofrem sem saber o motivo e 
não podem se queixar, é sem dúvida o 
“transtorno do déficit de atenção com 
ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas 
dificuldades da infância vêm sendo 
enfrentadas há tempos por psiquiatras 
infantis e psicanalistas, pioneiros na 
matéria. Mas, como se trata de proble-
mas peculiares a cada criança, eles 
não ousaram rotulá-los sob um “trans-
torno” geral. Graças a isso, são hoje 
acusados de não propor medidas, 
Enquanto a vida 
segue seu curso, 
nós todos somos 
normalmente 
“bipolares”, 
hoje alegres, 
amanhã tristes
15MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
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principalmente pelas associações de 
pais, algumas delas subvencionadas 
por laboratórios farmacêuticos (por 
exemplo, a associação Hypersupers 
TODA/H France, apoiada pelos labo-
ratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e 
NLS Pharma).
A imprecisão desse pretenso diag-
nóstico equivale a dizer, por exemplo, 
que a tosse é uma doença. E o exemplo 
vem de cima: em 29 de setembro de 
2017, houve na Universidade de Nan-
terre uma conferência em favor do 
diagnóstico de TDAH sob o patrocínio 
do presidente francês, Emmanuel Ma-
cron, e da ministra da Saúde, Agnès 
Buzyn. Os psicanalistas inscritos para 
o colóquio se viram pura e simples-
mente impedidos de entrar pelos por-
teiros. O TDAH não existe nas classifi-
cações francesas, seja a Classificação 
Francesa dos Transtornos da Criança e 
do Adolescente (CFTMEA), fiel à psi-
quiatria francesa, ou mesmo a Classi-
ficação Internacional das Moléstias 
(CIM-10), que acolhe as opções do 
DSM. Elas descrevem apenas os pro-
blemas de agitação. E agitação não é 
doença. Pode ter várias causas (pro-
blemas familiares, dificuldades na es-
cola etc.); exige primeiro que as crian-
ças e a família sejam ouvidas, e isso 
muitas vezes basta para resolver tudo. 
Com o TDAH, o sintoma se transforma 
em doença e, mais grave ainda, atri-
buem-lhe causas “neurodesenvolvi-
mentistas”. Essa afirmação não repou-
sa sobre nenhuma base científica, ao 
passo que provas não faltam das difi-
culdades causadas por problemas no 
seio da família ou na escola...
Jerome Kagan, professor de Har-
vard, declarou em uma entrevista de 
2012: “O TDAH não é uma patologia, 
mas uma invenção. [...] Oitenta por 
cento dos 5,4 milhões de crianças tra-
tadas com Ritalina nos Estados Uni-
dos não apresentam nenhuma anor-
malidade metabólica”.4 Na França, 
Patrick Landman mostrou em seu li-
vro Tous hiperactifs? [Todos hiperati-
vos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH 
não tem nenhuma causa biológica 
identificável: seus sintomas não são 
específicos e não apresentam indica-
dores biológicos. Nenhuma hipótese 
neurobiológica foi validada. Leon Ei-
senberg, inventor da sigla “TDAH”, de-
clarou em 2009, sete meses antes de 
falecer: “O TDAH é o exemplo típico de 
uma doença inventada. A predisposi-
ção genética para o TDAH é totalmen-
te superestimada”.5 Todavia, com a 
ajuda do lobby, cerca de 11% das crian-
ças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 
milhões) receberam o diagnóstico de 
TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, 
segundo os Centros de Prevenção e 
Controle das Doenças norte-america-
nos. Segue-se quase sempre uma pres-
crição de Ritalina (metilfenidato), que 
contém moléculas consideradas estu-
pefacientes nas classificações france-
sas. A prescrição dessa anfetamina em 
grande escala poderia provocar um 
escândalo sanitário semelhante aos 
do Mediator e do Levothyrox. Essas 
substâncias viciam, e não se exclui – 
possibilidade ainda em discussão – 
uma correlação entre as crianças que 
tomaram Ritalina e os adolescentes 
que se drogam.
As crianças não são poupadas pe-
los transtornos da sociedade, que lhes 
impõe o imperativo do sucesso rápido, 
da competitividade, da obediência a 
normas que não se aplicam à sua ida-
de. As recalcitrantes são facilmente 
consideradas hoje “deficitárias”. É, 
portanto, inquietante ver surgir em 
um site do Ministério da Educação Na-
cional da França uma mensagem en-
dereçada aos professores afirmando, 
sem provas, que o TDAH é uma “doen-
ça neurológica” e fornecendo uma re-
ceita detalhada para o estabelecimen-
to de diagnósticos prévios. Os “sinais 
indicativos” propostos poderiam se 
aplicar a quase todas as crianças. Sem-
pre a mesma misturade problemas 
normais e patologia...
A INFÂNCIA NA LINHA DE FRENTE
Há tempos, Michel Foucault pôs 
em evidência a repressão, notada-
mente pelos Estados e as religiões, 
desse “mal-estar na cultura” que é a 
sexualidade. Hoje, a camisa de força 
de um patriarcado de direito divino 
está em via de marginalização. Como 
a repressão vai se organizar daqui 
por diante, supondo-se que o termo 
“sexualidade” deva ser entendido em 
sentido amplo? A indústria farma-
cêutica é que pretende tomar as ré-
deas da ciência. A mensagem é clara: 
“Não vos inquieteis, ó vós que tendes 
insônias, momentos de desconsolo, 
excitação exagerada, ideias suicidas! 
A culpa não é vossa, é de vossos ge-
nes, de vossos hormônios; sofreis de 
um déficit neurodesenvolvimentista, 
e nossa farmacopeia vai consertar tu-
1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A 
bíblia americana da saúde mental], Le Monde Di-
plomatique, dez. 2011.
2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, 
Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, 
Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 
2004 (1. ed.: 1925).
3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um pacien-
te melancólico a que um psiquiatra, ignorante de 
tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suici-
dou. Vi inúmeros casos semelhantes.
4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal mo-
nitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 
ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.
5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergo-
nha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012.
6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Pa-
pai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.
7 Na França, é bastante difundida a lenda de São 
Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inver-
no, três crianças bateram à porta do açougueiro 
Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. 
Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em 
outra noite, São Nicolau passava pela região e bus-
cou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele 
sonhou com o assassinato das crianças e rezou 
até que elas ressuscitassem, tornando-se assim 
protetor das crianças.
do”. Trata-se de fazer crer que tudo se 
resume a problemas de neurotrans-
missores e de mecânica, nos quais o 
humano não entra. Seria necessário 
esquecer que as mazelas deliciosas e 
cotidianas das relações entre homens 
e mulheres, as questões jamais resol-
vidas de filhos com pais, as relações 
de forças angustiantes com a hierar-
quia e o poder deitam raízes nas pro-
fundezas da infância.
Por todos os lados, a infância está 
na linha de frente, o que torna o caso 
do TDAH ainda mais “perturbador” 
que os outros. Em todos os tempos e 
lugares, a criança é a primeira a ser 
reprimida, espancada, formatada. 
Quando um professor da velha escola 
puxava as orelhas de um aluno agita-
do, isso era – por mais chocante que 
pareça – quase mais humano do que 
exigir-lhe um diagnóstico de defi-
ciência. Preservava-se uma relação 
pessoal, que a pseudociência elimi-
na. Pela primeira vez na história, é 
em nome de uma pretensa ciência 
que as crianças são “espancadas”. To-
dos os anos o Papai Noel, esse mito de 
múltiplas estratificações (como bem 
mostrou o etnólogo Claude Lévi-S-
trauss),6 traz para as crianças presen-
tes a fim de consolá-las. Hoje, a Big 
Pharma pretende vestir o capuz do 
Papai Noel. Mas não nos esquecere-
mos de que, sob a roupa vermelha, 
esconde-se uma sombra muito pare-
cida com o Açougueiro da Festa de 
São Nicolau.7 
*Gérard Pommier é médico psiquiatra, psi-
canalista, professor universitário emérito e 
diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. 
Autor, principalmente, de Comment les neu-
rosciences démontrent la psychanalyse [Co-
mo as neurociências dão suporte à psicanáli-
se], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, 
révolution sans fin [Feminino, revolução sem 
fim], Pauvert, Paris, 2016.
16 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
UM BENEFÍCIO AO MESMO TEMPO COLETIVO E INDIVIDUAL
A associação francesa Gerações Futuras divulgou, no dia 20 de fevereiro, um relatório sobre a presença de pesticidas nos 
produtos agrícolas: 73% das frutas e 41% dos legumes analisados nos últimos cinco anos estavam contaminados. Motivo 
para reforçar o interesse na agroecologia. Mas o que dizem os estudos sobre os benefícios desta para o meio ambiente?
POR CLAIRE LECOEUVRE*
Por que consumir orgânicos?
A exposição direta 
a diversos produtos 
fitossanitários 
causa inúmeros 
problemas de 
saúde (câncer, 
malformações etc.)
A 
agricultura orgânica remete às 
práticas que procuram favorecer 
a preservação dos ecossistemas 
e a equidade na classe dos agri-
cultores. É sobretudo a ausência de 
pesticidas sintéticos que reduz consi-
deravelmente seu impacto no ambiente 
e na saúde. Fabricadas em laboratório, 
as moléculas que compõem os produ-
tos fitossanitários acompanharam o 
aumento da produção agrícola em todo 
o planeta. Mas, após algumas décadas, 
aprofundou-se a consciência dos efei-
tos do emprego intensivo dos produtos 
químicos cada vez mais numerosos.
Exemplo: depois de vinte anos, re-
gistrou-se uma poluição generalizada 
das águas superficiais e subterrâneas 
por nitratos e substâncias fitossanitá-
rias. Segundo os últimos dados das 
agências responsáveis pelo controle 
das águas, em 2014 87% dos rios visto-
riados continham pelo menos um pes-
ticida.1 As duas substâncias mais fre-
quentemente encontradas são o 
Ampa, um metabólito do glifosato, e o 
próprio glifosato, o famoso herbicida 
classificado como provável canceríge-
no pela Organização Mundial da Saú-
de. De 1994 a 2013, 39% das interrup-
ções de captações de água potável se 
deveram à poluição por nitratos e pes-
ticidas.2 Essa poluição e seu tratamen-
to custariam entre 640 milhões e 1,140 
bilhão de euros por ano.3 “Sabemos 
que mais vale prevenir que remediar”, 
diz Patricia Blanc, diretora-geral da 
agência de controle de águas Seine-
-Normandie. “Há vinte anos, nossas 
agências começaram a financiar pro-
jetos de mudança das práticas agríco-
las, pois temos um verdadeiro proble-
ma de poluição das águas.”
A agricultura convencional tam-
bém produz efeitos sobre a biodiversi-
dade. “Todas as atividades caminham 
no mesmo sentido: a diminuição do 
número de espécies de insetos”, resu-
me Axel Decourtye, diretor científico 
do Instituto Nacional de Pesquisa 
Agronômica (Inra, na sigla em fran-
cês). Em outubro de 2017, um novo es-
tudo revelou uma perda de 76% a 82% 
da biomassa dos insetos em vinte 
anos, em diversas regiões da Alema-
nha.4 Quanto aos pássaros, a quanti-
dade de espécies no ambiente agrícola 
caiu pela metade de 1989 a 2013.5 Não é 
fácil, é claro, determinar as causas 
exatas da diminuição da biodiversida-
de. A difusão de doenças, o desapare-
cimento de hábitats e o emprego de 
produtos fitossanitários são os princi-
pais motivos aventados. Todavia, se-
gundo um artigo solidamente funda-
mentado, os pesticidas desempenham 
um papel decisivo no declínio dos in-
setos polinizadores.6
Em se tratando de hábitats, os agri-
cultores orgânicos favorecem as pra-
darias com a rotação de culturas, a 
plantação de cercas-vivas e ainda as 
associações de plantas. “A diversifica-
ção é um elemento-chave da agroeco-
logia”, confirma Natacha Sautereau, 
engenheira agrônoma e economista 
do Instituto Técnico de Agricultura 
Orgânica (Itab, na sigla em francês). 
Essas práticas aumentam o número de 
plantas, aracnídeos, minhocas, co-
leópteros, pássaros e até mamíferos. O 
aumento dos recursos alimentares 
disponíveis favorece também algu-
mas espécies ditas auxiliares – morce-
gos, ouriços, répteis, certos insetos e 
ácaros –, que minimizam a pressão 
dos depredadores.
IDENTIFICAR OS EFEITOS DOS PESTICIDAS
Os solos são, com frequência, os 
grandes esquecidos quando observa-
mos o impacto das atividadeshuma-
nas. No entanto, o emprego excessivo 
de pesticidas, de nitrogênio e de fósfo-
ro não os poupa. Muito adubo os acidi-
fica e provoca fenômenos de prolifera-
ção de algas, como as “marés verdes” 
da Bretanha. Os pesticidas sintéticos 
contaminam os solos e destroem a vi-
da microbiana que ali se encontra. Já a 
agricultura orgânica favorece a cober-
tura dos solos, evitando a erosão. De 
maneira geral, os solos das fazendas 
agroecológicas têm quantidades 
maiores de matéria orgânica, estima-
das em 37,4 toneladas de carbono or-
gânico por hectare, contra 26,7 na 
agricultura convencional.7 As grandes 
culturas orgânicas integram 64% de 
pradarias, contra 16% na agricultura 
convencional, mas também mais le-
guminosas nas rotações e uma melhor 
cobertura dos solos no inverno.8 O 
conjunto dessas práticas favorece o se-
questro do carbono, o que pode con-
tribuir para a contenção do aqueci-
mento climático.
Avaliar sistemas agrícolas implica 
levar em conta seus efeitos sociais. Por 
exemplo, a diversificação dos produtos 
e dos métodos de venda na agricultura 
orgânica, com mais circuitos curtos, 
exige mais assalariados. Um relatório 
sobre os elementos secundários da 
agricultura orgânica revela que, em 
dois terços das plantações, ela gera 
muito mais empregos.9 Além disso, em 
diversas atividades que apresentam 
dificuldades financeiras aos agriculto-
res, a passagem para a agricultura or-
gânica se torna uma alternativa viável, 
explicando por que, de 2005 a 2016, a 
superfície agrícola orgânica passou de 
2% para 5,7% do total. Observamos is-
so na produção de leite, frutas e legu-
mes. “De início, são as vicissitudes eco-
nômicas que provocam a mudança”, 
explica Marc Benoît, economista e di-
retor adjunto do Comitê Interno de 
Agricultura Orgânica do Inra. “Está em 
jogo aí a famosa compressão dos pre-
ços: o dos gêneros diminui, enquanto 
aumenta o da energia, dos adubos e 
dos fitossanitários. No caso do leite, os 
criadores percebem que o sistema or-
gânico é melhor, mais rentável.”
Estranhamente, esses elementos 
são raramente destacados. Fala-se 
mais nos que estão ligados à saúde. A 
agricultura orgânica produz efeitos 
nessa área? Para verificar, é necessário 
levar em conta as exposições diretas e 
indiretas aos produtos fitossanitários. 
Diferentemente dos agricultores e ri-
beirinhos, os consumidores não ficam 
em contato direto com esses produtos. 
No entanto, o efeito global do sistema 
de agricultura orgânica vai além do in-
divíduo, sendo interessante conside-
rar o benefício para o conjunto da po-
pulação. Notemos, num primeiro 
momento, que certos produtos da 
agricultura orgânica contêm, parado-
xalmente, traços de pesticidas sintéti-
cos: segundo um relatório de 2016, 
45% dos produtos convencionais con-
têm pesticidas, mas também 12% dos 
provenientes da agricultura orgâni-
ca.10 Isso se deve, sobretudo, à conta-
minação pelas glebas vizinhas e du-
rante o beneficiamento.
A exposição direta a diversos produ-
tos fitossanitários causa inúmeros pro-
blemas de saúde (câncer, malforma-
ções etc.). Em 2013, num relatório 
produzido por diversos especialistas do 
Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa 
Médica (Inserm, na sigla em francês), 
passou-se em revista a literatura cientí-
fica referente aos efeitos dos pesticidas 
na saúde.11 “Observamos, em primeiro 
lugar, que os agricultores são menos su-
jeitos que o resto da população aos cân-
ceres digestivos, do cólon e do reto, bem 
como aos ligados ao tabagismo, como o 
do pâncreas, da bexiga e das vias supe-
riores. Isso depende, contudo, da idade 
e do tipo de trabalhador”, afirma Pierre 
Lebailly, professor da Universidade 
Caen-Normandia e pesquisador do 
Centro François Baclesse.
Em contrapartida, foram detecta-
das ligações entre o emprego de agen-
tes sintéticos e o aumento do risco de 
desenvolver mal de Parkinson, linfo-
mas não Hodgkin (LNH, cânceres do 
sistema linfático), mielomas múltiplos 
(cânceres do sangue) ou mal de Al-
zheimer. As pessoas que aplicam os 
pesticidas e os empregados que os pro-
duzem teriam de 12% a 28% de riscos 
suplementares de ter câncer de prósta-
ta, sem que seja possível associá-lo 
mais precisamente a determinada 
substância. No caso de mulheres ex-
postas durante a gravidez, os estudos 
mostram a possibilidade de associa-
ção na presença, em crianças, de mal-
formações congênitas ou leucemia. 
Entre as substâncias pesquisadas, o 
lindano, o DDT e a malationa são fre-
quentemente associados ao desenvol-
vimento de linfomas não Hodgkin. Ao 
término de uma longa batalha, o mal 
17MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
de Parkinson e os linfomas não Hodg-
kin passaram a ser reconhecidos tam-
bém como doenças profissionais.
Em seguida, outros estudos trouxe-
ram novos elementos probatórios. O 
grupo Agrican, que atua desde 2006, 
tem por objetivo avaliar a incidência de 
câncer entre os agricultores num perío-
do de pelo menos dez anos. “Por en-
quanto, observamos um excesso de 5% 
a 30%, com relação ao resto da popula-
ção, de linfomas não Hodgkin, de cân-
cer de próstata e de câncer de pele, co-
mo o melanoma”, revela Pierre Lebailly. 
Vários estudos apontam para o insetici-
da clorpirifós, que, em caso de exposi-
ção durante o período pré-natal, pode 
acarretar problemas de desenvolvi-
mento cerebral. “O que é certo hoje é 
que o DDT e o clorpirifós são perigosos 
para o desenvolvimento do cérebro. En-
tretanto, mais de uma centena de pesti-
cidas poderiam afetar esse órgão. Preci-
samos de mais provas para afirmá-lo. 
Existem já várias pesquisas, mas regis-
tramos com frequência exposições 
mistas que complicam o isolamento de 
um pesticida”, insiste Philippe Grand-
jean, epidemiologista da Universidade 
do Sul da Dinamarca. Nathalie Jas, his-
toriadora do Inra, sustenta que a reali-
dade dos problemas de saúde ligados 
aos produtos fitossanitários está mas-
carada pela penúria de dados e por cau-
sa da má visibilidade das afecções e da 
dificuldade de associá-las a exposições 
a doses fracas. Ela nota também, na 
França, um desinteresse de mais de 
trinta anos por esses problemas, consi-
derados “o preço a pagar pelos progres-
sos técnicos da agricultura”.12
Desde os anos 1980, estudos vêm 
avaliando a qualidade dos alimentos 
produzidos pela agricultura orgânica. 
“Eles mostram que os orgânicos con-
têm uma quantidade maior de carote-
noides, ácidos graxos e vitamina E”, 
diz Denis Lairon, diretor emérito de 
pesquisas do Inserm, especializado 
em nutrição. Em outubro de 2017, um 
deles sintetizou o conjunto dos pro-
gressos obtidos nessa área.13 “Nos re-
sultados mais seguros, notamos uma 
diferença com relação aos polifenóis, 
existentes em maior quantidade nas 
frutas e nos legumes orgânicos, que 
além disso revelaram uma presença 
menor de cádmio [um metal tóxico]. 
Entretanto, os resultados não apre-
sentam uma diferença muito grande”, 
contemporiza Axel Mie, um dos auto-
res do artigo e pesquisador do Institu-
to Karolinska, na Suécia.
MENOS RISCO DE OBESIDADE
Um ambicioso estudo epidemioló-
gico foi publicado na França em 2011 
pelo grupo NutriNet-Santé. Segundo os 
primeiros resultados, comer alimentos 
orgânicos reduziria em 23% o risco de 
excesso de peso e em 30% o de obesida-
de.14 “Notamos uma obesidade menor 
quando conseguimos separar os fatores 
ligados ao modo de vida. Chegamos 
mesmo a notar certa diferença entre 
pessoas que consomem uma alimenta-
ção equilibrada”, declara Emmanuelle 
Kesse-Guyot, epidemiologista do Inra 
encarregada desse estudo. Duas hipóte-
ses são aventadas para explicar o fenô-
meno. Por um lado, a quantidade maior 
de ácidos graxos do tipo ômega 3 e de 
1 “Surveillance des pesticides dans les eaux françai-
ses” [Supervisão dos pesticidas em águas france-
sas], Ministère de la Transition Écologiqueet Soli-
daire, Paris, 19 jun. 2017.
2 “L’eau et les milieux aquatiques, chiffres-clés” [A 
água e os meios aquáticos, números-chave], Com-
missariat Général au Développement Durable, Pa-
ris, fev. 2016.
3 “Coûts des principales pollutions agricoles de 
l’eau” [Custo das principais poluições agrícolas da 
água], Commissariat Général au Développement 
Durable, set. 2011.
4 Vários autores, “More than 75 percent decline over 
27 years in total flying insect biomass in protected 
areas” [Mais de 75% de declínio, em 27 anos, no 
total da biomassa de insetos voadores, em áreas 
protegidas], PLOS One, 18 out. 2017. Disponível 
em: <http://journals.plos.org/plosone>.
5 “Évolution de l’abondance des oiseaux communs” 
[Evolução da abundância dos pássaros comuns], 
Ministère de la Transition Écologique et Solidaire, 
24 out. 2014.
6 Ben A. Woodcock, “Impacts of neonicotinoid use 
on long-term population changes in wild bees in 
England” [Impactos do uso de neonicotinoide em 
mudanças de longo prazo na população de abe-
lhas selvagens na Inglaterra], Nature Communica-
tions, Londres, n.7, 16 ago. 2016.
7 Andreas Gattinger, “Enhanced top soil carbon 
stocks under organic farming” [Mais carbono na 
superfície do solo em agricultura orgânica], PNAS, 
Washington, 30 out. 2012.
8 “Enquêtes pratiques culturales 2011” [Pesquisas 
práticas de culturas 2011], Agreste Les Dossiers, 
Ministère de l’Agriculture et de l’Alimentation, Pa-
ris, n.21, jul. 2014.
9 Natacha Sautereau, Marc Benoît e Isabelle Savini, 
“Quantifier et chiffrer économiquement les externa-
lités de l’agriculture biologique?” [Quantificar e 
avaliar economicamente os elementos secundá-
rios da agricultura orgânica?], Institut Technique de 
l’Agriculture Biologique, Paris, nov. 2016.
10 “The 2013 European Union report on pesticide re-
sidues in food” [Relatório de 2013 da União Euro-
peia sobre resíduos de pesticidas nos alimentos], 
EFSA Journal, Autorité Européenne de Sécurité 
des Aliments, Parma, 12 mar. 2012.
11 “Pesticides: effects sur la santé. Synthèse et re-
commandations” [Pesticidas: efeitos sobre a saú-
de. Resumo e recomendações], Inserm, Paris, jun. 
2013.
12 Nathalie Jas, “Pesticides et santé des travailleurs 
agricoles en France. Questions anciennes, nou-
veaux enjeux” [Pesticidas e saúde dos trabalhado-
res agrícolas na França. Questões antigas, desa-
fios novos], Courier de l’Environnement de l’INRA, 
Paris, n.59, out. 2010.
13 Vários autores, “Human health implications of or-
ganic food and organic agriculture: a comprehen-
sive review” [Implicações para a saúde humana de 
alimentos orgânicos e agricultura orgânica: uma 
análise abrangente], Environmental Health, 27 
out. 2017.
14 Vários autores, “Contribution of organic food to the 
diet in a large sample of French adults (the NutriNe-
t-Santé Cohort Study)” [Contribuição dos alimen-
tos orgânicos para a dieta em uma ampla amostra 
de adultos franceses (o NutriNet-Santé Cohort 
Study)], Nutrients, Basileia, 21 out. 2015. 
antioxidantes nos produtos orgânicos 
amenizaria a síndrome metabólica. Por 
outro, as pessoas consideradas adeptas 
de uma alimentação equilibrada con-
somem mais frutas e legumes; todavia, 
quando estes não são da agricultura 
orgânica, contêm numerosos produtos 
fitossanitários. Ora, muitos estudos 
constataram um vínculo entre a expo-
sição aos pesticidas e um aumento de 
obesidade e diabetes de tipo 2.
Os problemas de saúde ligados aos 
produtos fitofarmacêuticos já têm uma 
longa história. “As primeiras substân-
cias químicas utilizadas na agricultura 
que suscitaram uma barulhenta con-
trovérsia foram os arsenicais, lá pelo 
fim do século XX”, relata Nathalie Jas. O 
arsênico só foi suprimido definitiva-
mente em 2001, após inúmeras restri-
ções de uso. Do mesmo modo, com o 
tempo, várias substâncias foram elimi-
nadas. Entre as mais conhecidas, temos 
a família dos organoclorados e alguns 
organofosforados. Para muita gente, es-
sas supressões provam o bom funcio-
namento do sistema de regulação dos 
produtos sintéticos. Acontece, no en-
tanto, que isso às vezes vem tarde de-
mais e os produtos continuam produ-
zindo efeitos bem depois de sua 
interdição: por exemplo, a clordecona 
nas Antilhas e a atrazina, proibida pela 
União Europeia em 2003, mas que ain-
da é encontrada na maior parte dos rios.
Longe de ensejar a descoberta de 
outras soluções além dos pesticidas, 
cada proibição abre caminho para o 
surgimento de novas substâncias 
apresentadas como menos perigosas. 
A toxicidade pode mudar, mas nem 
por isso é menor. “Proibiram-se as que 
se mantinham por muito tempo nos 
tecidos animais; as novas, porém, têm 
afinidade com a água e se acumulam 
ainda mais nos solos”, explica Axel 
Decourtye.
Sob pressão dos interesses finan-
ceiros, a máquina administrativa e sa-
nitária que gerencia os riscos associa-
dos aos pesticidas parece um pouco 
enferrujada, ainda que o acúmulo de 
dados científicos devesse conduzir a 
uma adoção bem mais rápida de mo-
dos de produção mais sustentáveis. 
*Claire Lecoeuvre é jornalista.
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18 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
Com o fim do 
apartheid, em 1991, 
o CNA, aureolado dos 
anos de luta e gozando 
do prestígio de 
Mandela, se tornou 
hegemônico
NA ÁFRICA DO SUL, HERDEIRO DE MANDELA TEM SUA REVANCHE
Depois de longos meses de negociações e nove pedidos de impeachment pelo Parlamento, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, 
implicado em diversos escândalos de corrupção, acabou renunciando no dia 14 de fevereiro. O Congresso Nacional Africano, 
verdadeiro partido-Estado, enfrenta graves tensões internas que fragilizam a hegemonia conquistada com o fim do apartheid, em 1991
POR SABINE CESSOU*
Congresso Nacional Africano, 
nas origens de um partido-Estado
F
amoso por ter se tornado o pri-
meiro bilionário negro da África 
do Sul, Cyril Ramaphosa foi elei-
to, em 18 de dezembro de 2017, 
presidente do Congresso Nacional 
Africano (CNA). Provavelmente, ele 
será o próximo presidente da Repúbli-
ca em 2019, depois do mandato interi-
no que ocupa desde a demissão força-
da de Jacob Zuma por corrupção, em 
14 de fevereiro de 2018. O percurso tu-
multuoso desse veterano da luta con-
tra o apartheid se explica amplamente 
pelas engrenagens e cultura políticas 
particulares do mais antigo partido 
político da África. De tendência social-
-democrata e membro da Internacio-
nal Socialista, o CNA é, como a Frente 
de Libertação Nacional (FLN) na Argé-
lia e a União Nacional Africana do 
Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu-
-PF, na sigla em inglês), um desses an-
tigos movimentos de libertação nacio-
nal que passaram pela luta armada 
antes de chegar ao poder. Apesar de 
suas tensões internas, os escândalos 
dos últimos anos e o desmoronamento 
de seus resultados eleitorais desde 
2014, essa máquina sofisticada, ligada 
às suas regras de funcionamento de-
mocráticas, continua provocando 
chuva e sol na África do Sul.1
Fundado em 1912, sob a coloniza-
ção britânica, para contestar a espolia-
ção das terras ocupadas pela maioria 
negra, o CNA atravessou o século XX se 
renovando constantemente. Ele deu ao 
mundo não ocidental seu primeiro 
Prêmio Nobel da Paz bem antes de 
Desmond Tutu (1984) e Nelson Mande-
la (1993): em 1960, o presidente Albert 
Lutuli, reverendo zulu pacifista, tinha 
sido coroado após o gigantesco massa-
cre de Sharpeville. Sessenta e nove 
pessoas que faziam uma manifestação 
contra o pass (direito de passar) impos-
to aos negros para circular na cidade 
foram então assassinadas pela polícia.
RECUSA EM JOGAR A CARTA RACIAL
Proibido em consequência do mas-
sacre, ao mesmo tempo que o Con-
gresso Pan-Africano (PAC) e o Partido 
Comunista Sul-Africano (SACP), o 
CNA, legalista e não violento em seu 
início,só passou à luta armada em 
1961. Para muitos, isso resultou na 
clandestinidade e no exílio. Sob a dire-
ção de Oliver Tambo, os exilados se or-
ganizaram em Lusaka, na Zâmbia, on-
de o partido estabeleceu sua sede. 
Outros militaram de dentro contra o 
regime racista, como Ramaphosa e to-
da a “geração perdida”. Esta se lançou 
na luta contra o apartheid sob a ban-
deira do CNA e de seu braço armado 
junto às revoltas escolares de 16 de ju-
nho de 1976 em Soweto, reprimidas 
com sangue. Esses militantes se reuni-
ram em 1983 sob o estandarte da Fren-
te Democrática Unificada (UDF), a fa-
ce legal do CNA no interior do país, 
agregando as associações, as Igrejas e 
os sindicatos não proibidos. As rela-
ções entre a UDF e os exilados do CNA 
eram constantes e orgânicas, mas 
marcadas por uma suspeita: os segun-
dos queriam manter o controle e che-
gavam até a se perguntar se o próprio 
Mandela não traíra a causa quando 
começou a negociar, sozinho, da pri-
são, a partir de 1986, com os naciona-
listas africâneres.
Com o fim do apartheid, em 1991, o 
CNA, aureolado dos anos de luta e go-
zando do prestígio de Mandela, pri-
meiro presidente negro eleito da nova 
África do Sul, se tornou hegemônico. 
Ele ganhou eleição atrás de eleição. O 
“camarada” Mandela tinha confiado a 
íntimos sem nunca dizer abertamen-
te: mais do que Thabo Mbeki, ele teria 
preferido que fosse Ramaphosa que 
lhe sucedesse ao final de seu primeiro 
e único mandato presidencial em 
1999. Entre 1982 e 1992, esse jurista de 
formação, filho de policial, que cres-
ceu em Soweto, transformou o Sindi-
cato dos Mineradores (NUM) em uma 
organização de massa de mais de 200 
mil filiados. Negociador sem par, ele 
provou seu valor nas difíceis discus-
sões com o Partido Nacional de Frede-
rik de Klerk em torno da transição pós-
-apartheid. Aos olhos de Mandela, ele 
apresentava também a vantagem de 
pertencer a uma etnia minoritária do 
norte da África do Sul, os Venda. Essa 
escolha teria assim regulado, resol-
vendo-a, a questão do equilíbrio entre 
zulus e xhosas, os dois grupos domi-
nantes (cerca de 20% da população ca-
da um) – questão política delicada, le-
vando-se em conta a recusa do CNA de 
jogar com a carta racial, manipulada 
amplamente pelo regime do apar-
theid: para dividir a maioria negra, os 
dirigentes exageravam as violências 
entre os nacionalistas zulus do Partido 
Inkatha da Liberdade (IFP) e os mili-
tantes do CNA, que marcaram toda a 
transição (1990-1994). 
Ramaphosa ameaçava o que estava 
descrito nas entrelinhas, por detrás das 
cortinas do CNA, como “Xhosa Nostra” 
– ou seja, o controle dos xhosas, a etnia 
de Mandela, de Tambo e de Walter Si-
sulu, sobre o aparelho do partido. His-
tórica, essa dominação se deve à pre-
sença da Universidade de Fort Hare no 
país Xhosa, antigo Transkei e atual pro-
víncia do Cabo Oriental. A instituição 
britânica, que queria formar executivos 
negros, produziu, contra seu desejo, os 
heróis da independência da África aus-
tral, como Mandela, Kenneth Kaunda 
(Zâmbia) e Robert Mugabe (Zimbá-
bue). Enquanto inzile, militante do in-
terior que ficou na África do Sul para 
lutar frontalmente contra o regime ra-
cista, Ramaphosa desafiava também o 
campo com menos “exilados”. 
Preservando-se de qualquer tipo de 
autocracia, Mandela se contentou em 
observar os jogos aos quais se entrega-
vam os candidatos à sua sucessão. 
Rompido com os arcanos do partido e 
hábil manobrista, Mbeki se impôs em 
1994 na vice-presidência do CNA – e do 
país. Ramaphosa tinha então se dis-
tanciado da política e reciclado seu ta-
lento nos negócios, ao mesmo tempo 
que se mantinha como um dos mem-
bros menos ruidosos, mas mais popu-
lares do Comitê Executivo Nacional – a 
mais alta instância de decisão do CNA, 
que conta com 86 membros, dos quais 
uma metade estatutária de mulheres. 
Uma regra não escrita exige que 
um candidato à presidência suba os 
degraus sucessivos: eleição pela base à 
vice-presidência do CNA, seguida de 
uma nomeação automática à vice-pre-
sidência da República, depois uma 
confirmação à presidência do partido 
quando de seu congresso quinquenal, 
que, desde 1997, acontece dois anos 
antes das eleições legislativas. O presi-
dente é em seguida eleito pelo Parla-
mento, no qual o CNA goza de uma 
maioria esmagadora desde 1994. Esse 
dispositivo inaugurado por Mandela 
oferece ao mesmo tempo visibilidade e 
experiência ao candidato designado.2
Em sua luta pelo poder, porém, 
Mbeki fez uma escolha com grandes 
consequências. Ele legitimou Jacob 
Zuma, antigo chefe de informações do 
braço armado do CNA, como seu vice-
-presidente, em 1997, para afastar os 
perfis de presidenciáveis de maior cre-
dibilidade. Mais que isso, depois de 
sua própria reeleição em 2004, para 
um segundo mandato presidencial, e 
três anos antes de um congresso do 
partido previsto para o fim de 2007, ele 
abriu os “arquivos”. Um processo por 
corrupção foi tentado em 2005 contra 
Zuma pelos subornos que ele teria re-
cebido quando da negociação de con-
sideráveis contratos de armamento 
em 1998. Um processo por estupro, so-
bre uma queixa feita em 2006 por uma 
moça, “amiga da família” Zuma, foi 
classificado pelo acusado como outra 
manobra política.
Bastante tensa, a conferência do 
CNA em Polokwane, em 2007, viu os 
campos Zuma e Mbeki se alfinetarem 
sobre questões ao mesmo tempo pes-
soais e políticas. Com seus cantos de 
luta contra o apartheid, Zuma apre-
19MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
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Presidente Cyril Ramaphosa presta homenagem ao ex-presidente Jacob Zuma por sua contribuição ao desenvolvimento durante os nove 
anos em que ficou no comando da África do Sul
sentou um registro populista para se 
diferenciar de um Mbeki julgado poli-
ciado demais e distante das massas. 
Ele também apostou nas frustrações 
da ala esquerda do partido diante da 
eclosão de uma burguesia negra ligada 
ao poder e à gestão neoliberal do país 
– sob fundo de crescimento econômi-
co, mas de desemprego (27% dos ati-
vos) e de pobreza (42% da população) 
persistentes. A queda de braço se resol-
veu pela vitória de Zuma, levada por 
um vasto movimento denominado “Os 
amigos de JZ”. Este reunia todos os de-
cepcionados com a “Thabocracia”, a 
ala esquerda do CNA, vinculada a um 
ideal socialista de redistribuição das 
riquezas, e dos eleitores seduzidos por 
promessas firmes de criação de 500 mil 
empregos. Esse compromisso não foi 
mantido por causa da crise financeira 
internacional, ao final de 2008, mas 
também em função da gestão centrali-
zadora de Zuma e de uma corrupção 
que se tornou endêmica. O único mer-
cado emergente do continente africa-
no foi desclassificado a partir de 2015 
pelas agências de classificação de risco 
internacionais em razão de suas pers-
pectivas “negativas”. À depreciação 
contínua do rand, moeda local, se 
acrescentou uma recessão em 2017. 
Em dezembro de 2017, o futuro da 
África do Sul esteve novamente em jo-
go no congresso do CNA – e em ne-
nhum outro lugar. Uma diferença de 
179 votos entre 4.708 se manifestou a 
favor de Ramaphosa, contra Nkosaza-
na Dlamini Zuma, ex-mulher ainda 
próxima de Zuma, ex-ministra das Re-
lações Internacionais e ex-presidente 
da Comissão da União Africana. Ra-
maphosa, cujo programa se resume 
em algumas palavras (“o retorno aos 
valores originais dos fundadores do 
CNA”), longe da corrupção, do clanis-
mo e do populismo do regime Zuma, 
colocou fim às angústias dos sul-afri-
canos sobre a impunidade previsível 
do presidente que deixaria o cargo ca-
so sua ex-mulher ganhasse. Esses valo-
res irrigam a Carta da Liberdade, ado-
tada em 1955 por todos aqueles que o 
país contava então como oponentes: 3 
mil delegados, dos quais trezentos in-
dianos, duzentos mestiços e uma cen-
tena debrancos. O CNA era então ape-
nas um de seus signatários, antes de 
fazer dela seu programa político. Esse 
texto fundador carrega um ideal claro: 
o sufrágio universal, a igualdade de 
oportunidades e a “democracia multir-
racial”, pela qual diversas gerações de 
sul-africanos fizeram sacrifícios de-
mais para esquecê-la tão rápido. 
Tendo se tornado um partido de 
massa ao final do apartheid em 1991, 
hoje contando com 70 mil membros, o 
CNA continua sendo o caldeirão das 
dinâmicas políticas mais importantes 
da África do Sul. Fortalecido por sua 
legitimidade histórica, ele representa 
ao mesmo tempo uma garantia de es-
tabilidade para uma das mais jovens 
democracias da África e sua principal 
fraqueza, em razão de sua hegemonia. 
Seus dirigentes, que também são mi-
nistros e governadores de província, 
têm o controle sobre a nomeação de 
todos os cargos importantes – até no 
setor privado – e sobre os contratos pú-
blicos. Seus desvios, portanto, são ca-
pazes de afetar todo o país.
Apesar dos escândalos e das muitas 
reuniões ruidosas do comitê nacional 
executivo, o chefe de Estado continua 
apoiado pelo aparelho do partido, que 
ele controla por dentro, principalmen-
te em seu local de origem, o Kwazulu-
-Natal. Na cultura política do CNA, a 
“organização”, como dizem seus mili-
tantes, importa mais que os indiví-
duos. O que era uma necessidade vital 
sob o apartheid, para resistir à repres-
são, permitiu ao partido sobreviver 
quaisquer que fossem seus chefes, pro-
duzindo sem cessar novos dirigentes 
através de seus “ramos” (o equivalente 
aos núcleos dos partidos de esquerda). 
A cada congresso, as cartas são redis-
tribuídas. A eleição justa de Ramapho-
sa à presidência do CNA pelos repre-
sentantes de seus “ramos” pode ser 
interpretada, como explica o cientista 
político sul-africano William Gumede, 
como um “sobressalto da base para 
salvar o que ainda pode ser salvo”. 
CONCORRÊNCIA E DIVISÕES
O partido saiu danificado das eras 
Mbeki e Zuma. A demissão deste últi-
mo só foi obtida após oito moções de 
desconfiança pelo Parlamento desde 
2015. Sua preferência começou a decli-
nar, passando de 65,9% em 2009 para 
62,15% em 2014, depois a menos de 
54% nas municipais de agosto de 2016. 
Assim o CNA perdeu três grandes cida-
des: Johannesburgo, Pretória e Port 
Elizabeth. A concorrência da oposição 
se tornou cada vez mais rude. No cen-
tro-direita, a Aliança Democrática 
(22,23% dos votos em 2014 e 26,9% em 
2016), formação majoritariamente 
branca e mestiça em via de desraciali-
zação, é dirigida por um jovem negro, 
Mmusi Maimane. Ela agrega prome-
tendo fazer o que o CNA não conse-
guiu: “lutar contra as desigualdades e 
redistribuir as riquezas”, já que os la-
res negros ganham seis vezes menos 
(6,6 mil euros por ano em média se-
gundo a Statistics SA) que os brancos 
(36,5 mil euros). À esquerda, os Com-
batentes pela Liberdade Econômica 
(EFF), um partido fundado em 2013 
pelo dissidente do CNA Julius Malema 
(6,35% dos votos em 2014 e 8,19% em 
2016), reivindica a nacionalização das 
minas – 9% do PIB – e a expropriação 
de cerca de 50 mil fazendeiros brancos 
(a agricultura representa 2,5% do PIB), 
com base no modelo do Zimbábue de 
Mugabe. O CNA está sendo, além dis-
so, atravessado por fortes tensões in-
ternas. O grande sindicato negro dos 
metalúrgicos (Numsa), excluído em 
2014 do Congresso dos Sindicatos Sul-
-Africanos (Cosatu, aliado histórico do 
CNA) por suas críticas virulentas ao 
poder, ameaça fundar um partido de 
trabalhadores independente. 
Impulsionado a presidente interi-
no após a demissão de Zuma, em 14 de 
fevereiro de 2018, Ramaphosa, antigo 
líder sindical e principal acionista do 
McDonald’s na África do Sul, deve orga-
nizar-se em torno de um antigo slogan 
“Uma vida melhor para todos”, que soa 
um pouco falso. Ele não promete nada 
menos que escola gratuita para as fa-
mílias que recebem menos de 22,8 mil 
euros por ano, redistribuição efetiva 
das terras, criação de uma comissão 
de investigação sobre a corrupção, as-
sim como uma política econômica li-
beral concebida para atrair os investi-
dores e renovar com o crescimento. Na 
medida em que o CNA não marcou 
uma ruptura clara com a década Zu-
ma, o futuro permanece incerto. Ele 
elegeu para sua vice-presidência o con-
troverso David Mabuza, de 57 anos, 
nomeado em 2009 governador da pro-
víncia de Mpumalanga como recom-
pensa por seu apoio a Zuma – um per-
curso a ser acompanhado, já que ele 
também é acusado de corrupção e, in-
clusive, suspeito de ter se envolvido 
com assassinatos políticos. 
 
*Sabine Cessou é jornalista.
1 Ler “L’Afrique du Sud lassée de ses libérateurs” [A 
África do Sul cansada de seus libertadores], Le 
Monde Diplomatique, jun. 2017.
2 Cf. Raphaël Porteilla, Judith Hayem, Marianne Sé-
verin e Pierre-Paul Dika (orgs.), Afrique du Sud. 20 
ans de démocratie contrastée [África do Sul. 20 
anos de democracia em contraste], L’Harmattan, 
Paris, 2016.
20 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
PODER EGÍPCIO ESTÁ MAIS REPRESSOR DO QUE NUNCA
Os egípcios vão eleger seu presidente no dia 26 de março. A oposição denuncia um jogo de cartas marcadas, com todos os 
candidatos de envergadura impedidos de enfrentar o atual presidente, Abdel Fattah al-Sissi. As esperanças que surgiram em 
janeiro de 2011 evaporaram, enquanto a população enfrenta a degradação econômica e a mão de ferro do regime
POR PIERRE DAUM*
Praça Tahrir, sete anos depois 
P
raça Tahrir, uma noite de de-
zembro. No piso lustrado do 
edifício Mogamma, um enor-
me prédio administrativo da 
década de 1950 construído pela ex-
-URSS em um pesado estilo soviético, 
um grupo de jovens anda de skate lan-
çando desafios, sob o olhar de dois po-
liciais indulgentes. Casais de todas as 
idades, sentados nas muretas de pe-
dra dispostas aqui e ali, assistem ao 
espetáculo. Todos parecem indiferen-
tes ao ruído ensurdecedor dos carros e 
à poeira, dois flagelos de Cairo que ne-
nhuma revolução foi capaz de vencer. 
Parece distante o tempo em que cen-
tenas de milhares de egípcios, lado a 
lado nesta enorme praça, derrubavam 
um regime moribundo aos gritos de 
“Mubarak, vá embora!” e “‘Aïch, Ho-
ria, ‘Adala Edjtéma’ïa!” (“Pão, liberda-
de e justiça social!”).
Dois anos e meio após a “revolução 
de janeiro”, como os egípcios a cha-
mam hoje – sem mencionar o dia de 
seu início (25) nem o ano em que ocor-
reu (2011) –, nesta Praça Tahrir que se 
tornou o lugar obrigatório da expres-
são popular, um número tão grande 
de egípcios quanto em janeiro de 2011, 
se não maior, exigia a saída do presi-
dente democraticamente eleito em ju-
nho de 2012, Mohamed Morsi, mem-
bro da Irmandade Muçulmana. Após 
um golpe de Estado desejado por par-
te da população, o Exército assumiu o 
poder em 30 de junho de 2013.1 A resis-
tência pró-Morsi tentou se organizar, 
e foi reprimida com um banho de san-
gue algumas semanas depois: foram 
mil mortos no dia 14 de agosto de 2013 
na Praça Rabaa, no Cairo. Milhares de 
pessoas foram presas. Um ano depois, 
em junho de 2014, o marechal Abdel 
Fattah al-Sissi foi eleito para a presi-
dência da República, com 97% dos vo-
tos. Desde então, o que se passa? Co-
mo se vive no Cairo?
TVs NAS MÃOS DO GOVERNO
À primeira vista, não pior do que 
antes. Os cafés populares, onde as pes-
soas fumam narguilé por horas en-
quanto assistem ao futebol ou discu-
tem qualquer coisa com os amigos, 
estão sempre cheios. Os que preferem 
beber uma cerveja, moças e rapazes 
misturados, se reúnem nos bares que 
ocupam os terraços dos edifícios ao 
redor. Pode-se ir ao cinema, assistir a 
shows ou admirar o trabalho de artis-
tas contemporâneos, por exemplo, na 
Galeria Townhouse, soberbo local de 
exposição instalado em uma antiga fá-
brica de papel, a algumas centenas de 
metrosda Praça Tahrir. Com um mag-
nífico estacionamento subterrâneo e 
uma imensa bandeira egípcia planta-
da na superfície, a própria praça pare-
ce esforçar-se para esquecer que um 
dia a população esteve ali pedindo a 
cabeça de dois presidentes.2 As aveni-
das à sua volta exalam ordem e limpe-
za, e o Ministério do Interior, alvo da 
fúria revolucionária, foi prudente-
mente deslocado para um bairro dis-
tante. Salvo alguns agentes de trânsito 
com uniformes azuis e talão de multa 
em mãos, a presença policial parece 
inexistente. Apesar de tudo isso, em 
outubro passado a Anistia Internacio-
nal publicou um relatório denuncian-
do o clima político perigoso no Egito. 
“Advogados, jornalistas, adversários 
políticos, ativistas, defensores dos di-
reitos humanos, nenhuma voz crítica 
escapa à repressão maciça das autori-
dades egípcias, que continuam deten-
do, perseguindo ou encarcerando pes-
soas pelo simples exercício pacífico de 
seu direito à liberdade de expressão”, 
denuncia a organização.3
Miran F., uma jovem que conhece-
mos com seus amigos perto da Praça 
Tahrir, não concorda. “Se eu me sinto 
vivendo sob uma ditadura? Não, na 
verdade não!” Nascida há trinta anos 
em uma família da pequena burguesia 
do Cairo – pai engenheiro, mãe dona 
de casa –, ela “obviamente” participou 
da revolução de 2011 e depois das ma-
nifestações populares de 2013. “Minha 
mãe é Sissi roxa! Ela o adora! Meu pai é 
mais crítico, acha que ele não sabe 
conduzir a economia, que desde que 
chegou tudo está muito caro. Eu fico 
entre os dois. Não morro de amor por 
Sissi, mas acho que ele herdou uma si-
tuação econômica catastrófica e faz o 
que pode.” E a repressão, as pessoas 
presas, isso não a assusta? “Sim, um 
pouco. Mas entre eles há terroristas 
também. Além disso, Sissi deve saber o 
que está fazendo. Quando as coisas 
melhorarem, ele vai soltá-los.” De 
qualquer forma, Miran e seus amigos 
não têm medo de falar de política nos 
cafés abertos para a rua, onde, apesar 
do constante barulho dos carros, qual-
quer estranho na mesa ao lado pode 
ouvir a conversa. “Até no Facebook eu 
não tenho medo de criticar o governo, 
nem mesmo o presidente! Nunca me 
preocupei com isso.” Seu amigo Ah-
med T. intervém: “De todo modo, o 
que realmente interessa não é a liber-
dade, é o dinheiro. E hoje todo mundo 
está sofrendo com a crise econômica!” 
(ver boxe).
Para além das reflexões dispersas 
coletadas ao acaso nas conversas – 
cheias de opiniões tão divididas como 
as da família de Miran –, é difícil saber 
o que os egípcios pensam do regime, o 
qual se empenha em desencorajar 
qualquer atitude contestatória. “Gen-
te que não sabe nada sobre o que é um 
Estado quer intervir e fazer declara-
ções. Isso é inaceitável”, declarou em 
janeiro um ameaçador Sissi, lançando 
um aviso a personalidades e partidos 
de oposição que pediam boicote à 
eleição presidencial, prevista para o 
fim de março. Esses opositores argu-
mentam que a eleição é um “teatro do 
absurdo”, por causa da prisão, da reti-
rada mais ou menos forçada ou do im-
pedimento de inúmeros adversários 
do presidente. “Garantimos estabili-
dade e segurança, senão é o caos”, 
continuou Sissi. “Eu não ameaço nin-
guém. O que aconteceu no Egito há se-
te anos não se repetirá.”
O clima político também se carac-
teriza por um forte retorno dos milita-
res a todos os lugares de poder, espe-
cialmente na economia. “O Exército 
há muito tempo goza de uma imagem 
positiva”, lembra Tewfik Aclimandos, 
professor da Universidade do Cairo. 
“Com razão ou não, ele é considerado 
menos corrupto que a polícia, mais 
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21MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
eficaz que as administrações civis, e 
parece uma emanação do povo. No 
Egito, todo mundo tem um parente ou 
conhecido no Exército.” Quanto a sa-
ber o que as pessoas acham do presi-
dente, “é proibido, de qualquer forma, 
fazer verdadeiras pesquisas de opi-
nião sobre ele”, diz o acadêmico. “Te-
mos de nos contentar com sinais de 
otimismo. A partir daí, parece quase 
certo que o entusiasmo que levou o 
presidente Sissi ao poder em 2013-2014 
caiu muito, especialmente após o ata-
que ao avião russo, em 2015.4 Mas ele 
ainda tem uma base sólida.”
Para manter uma taxa suficiente de 
opiniões favoráveis, o regime conta com 
uma ferramenta muito poderosa: o 
controle da mídia, principalmente a 
mais consumida delas, a televisão.5 Sob 
a presidência de Hosni Mubarak e de-
pois nos anos após a revolução, surgi-
ram canais privados, com programas 
de entrevistas muito populares, que 
traziam verdadeiros debates. Tudo isso 
desapareceu. Hoje, todos os canais es-
tão nas mãos do regime e de seus ami-
gos. O mesmo ocorre com a mídia im-
pressa, com exceção do jornal Al-Masri 
Al-Youm, um diário com tiragem de 120 
mil exemplares – para uma população 
de quase 100 milhões. “Somos indepen-
dentes”, comenta Doaa Eladl, famosa 
cartunista do jornal. “Mas existem li-
nhas vermelhas – mal definidas, por si-
nal, o que complica ainda mais meu tra-
balho. Qualquer assunto pode irritar o 
regime. Eu tento não me autocensurar, 
mas sei o que faço.” É inimaginável, por 
exemplo, desenhar o presidente. Em 
compensação, em novembro de 2017 ela 
conseguiu publicar um cartum mos-
trando jovens egípcios presos, no mo-
mento em que o presidente Sissi abria o 
Fórum Mundial da Juventude em 
Sharm el Sheikh. “Tenho um problema 
mais sério”, continua. “Se o assunto for 
muito delicado, nenhum jornal, nem o 
nosso, fala sobre ele.”
Essa censura permitiu ao governo 
incutir em muitos espíritos o fantasma 
paranoico da espionagem estrangeira. 
“Nos programas de TV, nos jornais, 
sempre há um capanga do regime 
pronto a explicar que os Estados Uni-
dos e seus aliados europeus apoiaram 
a sociedade civil egípcia para derrubar 
Mubarak”, diz o escritor Khaled al-
-Khamissi, autor de uma famosa cole-
ção de contos, Taxi (2007), e do roman-
ce A arca de Noé (2009).6 “Ou que um 
complô norte-americano-sionista quer 
dar parte do Sinai para os palestinos. 
Mas que, felizmente, o presidente Sissi 
conseguiu frustrar essas conspirações 
e salvar o Egito!” E funciona. Basta co-
meçar a tirar fotos pela janela de um 
ônibus para que, em alguns instantes, 
um passageiro mande parar “imedia-
tamente!”. Por quê? “É uma questão de 
segurança nacional!”
IRMANDADE MUÇULMANA APAGADA
Nesse contexto, os espaços de dis-
sidência reduzem-se ao extremo. As 
organizações egípcias de direitos hu-
manos falam em “60 mil presos políti-
cos”, esclarecendo que é impossível 
obter números confiáveis. Muitas pes-
soas são presas e depois liberadas sob 
fiança. A maioria está ligada à Irman-
dade Muçulmana ou simplesmente é 
suspeita de simpatia a Morsi. A elas se 
somam militantes do campo revolu-
cionário. A Comissão Egípcia por Di-
reitos e Liberdades (ECRF, na sigla em 
inglês) fala em quarenta desapareci-
mentos forçados por mês. A Irmanda-
de Muçulmana, que durante décadas 
foi a única força de oposição, foi lite-
ralmente eliminada da paisagem polí-
tica, tanto pela repressão quanto por 
causa dos profundos conflitos inter-
nos. Milhares de membros se refugia-
ram na Turquia. “E os que ficaram no 
Egito, se não estão presos, vivem como 
fantasmas”, diz a pesquisadora Fatiha 
Amal Abbassi, autora de uma tese em 
fase de conclusão sobre a Irmandade. 
“Mudaram suas roupas, sua maneira 
de falar, e a usra, reunião semanal da 
qual os membros tinham de partici-
par, foi suspensa. Também há muitos 
que, em completo desacordo com seus 
líderes, se distanciaram da organiza-
ção.” Alguns provavelmente se uniram 
a organizações terroristas, mas não é 
possível investigar esse fenômeno, 
descaradamente instrumentalizado 
pelas autoridades, para as quais qual-
quer oponente é “terrorista”.
Quanto aos militantes de 2011,aqueles que foram o motor da revolu-
ção – “um grupo de alguns milhares 
de pessoas, no início”, de acordo com o 
cientista político franco-egípcio Yous-
sef el Chazli, “em torno do qual se so-
maram dezenas de milhares de sim-
patizantes, sem jamais, no entanto, 
chegarem a constituir uma organiza-
ção ou um partido” –, a maioria deles 
cessou toda a atividade política. Al-
guns estão presos; outros decidiram 
morar no exterior; muitos passaram 
por um período de depressão.7 “É mui-
to doloroso ter participado de algo tão 
grande como a revolução, ter realmen-
te sonhado em mudar a cara de seu 
país e virar testemunha da própria 
derrota”, lamenta Mansoura Ez-Eldin, 
jornalista literária da revista semanal 
Akhbar Al-Adab e autora de um delica-
do romance sobre a necessidade de es-
crever, Jabal al-zomorrod [O monte es-
meralda] (2014).8 Sentada no Chesa, 
“café suíço” (está escrito na frente) da 
Rua Adly, não muito longe da Praça 
Tahrir e de seu jornal, ela continua: 
“Eu sobrevivi lendo, escrevendo e me 
concentrando nas pequenas coisas da 
vida. Com meu marido e meus filhos, 
mudamos para New Cairo, um bairro 
longe daqui. Lá, tenho a impressão de 
viver em outro lugar, longe de Tahrir”.
REUNIÕES IMPORTANTES PROIBIDAS
Alguns ex-revolucionários prolon-
gam seu engajamento em ONGs de de-
fesa dos direitos humanos. É o caso de 
Malek Adly, chefe da rede de advoga-
dos Egyptian Center for Economic and 
Social Rights (ECESR), que passou 
quatro meses na prisão em 2016: “So-
mos assediados pela polícia, a maioria 
de nós está proibida de sair do país, te-
mos julgamentos suspensos por rece-
ber fundos estrangeiros ou por ‘atentar 
contra a segurança do Estado’, corre-
mos o risco de passar décadas na pri-
são, mas continuamos! E continuare-
mos até a morte, se for preciso!”. A 
proibição de receber financiamento 
externo, que as autoridades justificam 
pela necessidade de lutar contra a 
“mão estrangeira”, é uma verdadeira 
máquina de destruir organizações mi-
litantes. E também afeta muitos espa-
ços culturais. Uma vez que o Ministé-
rio da Cultura não oferece nenhum 
tipo de subsídio, essas estruturas pas-
saram, há anos, a funcionar graças à 
ajuda ocidental. Agora precisam en-
contrar outras formas de financiamen-
to, ou fechar as portas. Em maio de 
2017, foi promulgada uma nova lei so-
bre as ONGs, que deve eliminar as últi-
mas que ainda estão em atividade: 
além da proibição de receber fundos 
estrangeiros, todas terão de apresentar 
um pedido de renovação do registro a 
uma comissão formada por militares.
Esraa Abdel Fattah, conhecida na 
época da revolução como “The Face-
book Girl”, exibe o mesmo desencanto: 
“Eu vivi os dezoito dias de 2011 [de 25 
de janeiro a 11 de fevereiro, dia da re-
núncia de Mubarak] como uma mag-
nífica utopia. Mas fomos idiotas. Idio-
tas em acreditar nas promessas de 
democracia de Morsi, depois de Sissi. E 
hoje a situação é pior do que era com 
Mubarak. Às vezes eu acho que não há 
esperança, que Sissi ficará para sem-
pre. Mas, se eu parar de militar, me 
sentirei traindo todos os que estão 
mortos ou na prisão”.
Apesar de sua aparente onipotên-
cia – com a mídia sob controle e uma 
oposição aniquilada –, o regime en-
carnado por Sissi parece ter um medo 
profundo do povo. “Como que pressio-
nado pelo medo obsessivo de uma ‘no-
va Tahrir’, o regime faz de tudo para 
conter eventuais impulsos da socieda-
de”, analisa Karima H., cientista políti-
co francês residente de longa data no 
Cairo, que prefere ficar anônimo, 
“pois, nos dias de hoje, é melhor ter 
cuidado”. Qualquer manifestação ou 
reunião um pouco maior é estrita-
mente proibida. Sob o pretexto do “pe-
rigo terrorista”, foram construídas pa-
redes de concreto curvas de 4 metros 
de altura em torno de cada ministério, 
bem como do Banco Central, e solda-
dos armados protegem suas entradas. 
Toda sexta-feira, dia de descanso em 
que normalmente acontecem as gran-
des manifestações, policiais de capa-
cete e bota posicionam-se nas sete ar-
térias que levam à Praça Tahrir, 
enquanto caminhões antimotim se 
organizam ao seu redor, prontos para 
intervir. Nos últimos dois anos, ocor-
reram apenas duas manifestações, em 
outras partes da cidade: uma contra a 
transferência para a Arábia Saudita de 
duas pequenas ilhas desabitadas do 
Mar Vermelho, Tiran e Sanafir, em 
abril de 2016;9 e outra contra a decisão 
de Donald Trump de reconhecer Jeru-
salém como capital de Israel, no início 
de dezembro de 2017 – decisão critica-
da por todos os egípcios, ainda muito 
sensíveis à Questão Palestina. No final 
da manifestação, alguns gritaram: 
“Pão! Liberdade! Abaixo o regime!”. Os 
instigadores foram imediatamente jo-
gados na prisão. No início de fevereiro, 
dezessete pessoas foram condenadas 
à prisão perpétua por terem se mani-
festado, em 2014, contra a candidatura 
de Sissi à presidência.
MUITOS TABUS FORAM QUEBRADOS
Em locais públicos, é possível dis-
cutir política com os amigos, como faz 
Miran F. Para esta reportagem, muitas 
entrevistas foram realizadas sem ne-
nhum problema. Mas há um limite 
que não pode ser cruzado: abordar es-
tranhos e levá-los a criticar o regime. 
Conversamos com Mahmoud S. perto 
de sua casa, em Ain Shams, um dos 
tantos bairros arrasados pela miséria 
na tentacular Cairo de 20 milhões de 
habitantes, a mais de uma hora de táxi 
da Praça Tahrir. “Não consigo deixar 
de falar, de discutir nos cafés do meu 
bairro”, explica o desempregado de 30 
anos, que esteve nas manifestações de 
A Irmandade 
Muçulmana, 
que durante décadas 
foi a única força de 
oposição, foi literalmente 
eliminada da 
paisagem política
Conseguimos 
conversar livremente, 
mas muitos dos 
entrevistados disseram: 
“Não escreva 
isso, senão eu 
vou preso!”
22 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
2011. “A situação é verdadeiramente 
terrível. Todo mundo está morrendo 
de fome, não há liberdade. Mas, há três 
dias, uns amigos me disseram que po-
liciais à paisana vieram fazer pergun-
tas sobre mim. Isso aconteceu com um 
amigo meu, e ele está preso. É um avi-
so, não falo mais com ninguém.”
Manter a população em liberdade 
vigiada com avisos desse tipo é a tática 
para conter qualquer indício de rebe-
lião. Conseguimos conversar livremen-
te, mas muitos dos entrevistados disse-
ram: “Não escreva isso, senão eu vou 
preso!”. No meio universitário, o aviso 
foi a morte, em condições obscuras, em 
janeiro de 2016, do pesquisador italiano 
Giulio Regeni, após seu rapto em plena 
rua. Segundo a Reuters, o jovem teria si-
do detido por policiais à paisana e 
transferido para uma delegacia da ca-
pital, antes de desaparecer e ser encon-
trado morto, com o corpo torturado e 
mutilado.10 As autoridades egípcias 
apresentaram diversas vias de investi-
gação, inclusive a de sequestro malsu-
cedido e a de crime sexual, que não 
convenceram ninguém.11 “Se foi um er-
ro ou um crime encomendado, o fato é 
que todos estamos muito cautelosos”, 
confessa um pesquisador francês, obri-
gado a realizar “clandestinamente” 
suas pesquisas junto à população.
Seja um vendedor de rua em um bairro informal do Cairo,1 um funcionário em uma repartição pública ou 
um escritor famoso em um belo apartamento em Wust 
el-Balad (nome árabe do centro da cidade, em torno da 
Praça Tahrir), em resposta à pergunta “O que mudou de-
pois de 2011?”, todos os nossos interlocutores exclamam 
imediatamente: “A vida está muito cara, está terrível!”. Es-
sa alta dos preços começou a ser sentida em 2014, logo 
após as eleições presidenciais, quando o governo do ma-
rechal Abdel Fattah al-Sissi iniciou “reformas estruturais” 
impostas pelo FMI, em troca de uma ajuda anual de US$ 
12 bilhões a US$ 15 bilhões. “Trata-se de passar gra-
dualmente de um sistema de subvenção generalizado 
dos bens de consumopara uma ajuda financeira especí-
fica voltada às pessoas com rendimentos muito baixos”, 
explica Marie Vannetzel, pesquisadora do Centro Nacio-
nal de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês), 
atualmente no Cairo para estudar o tema.
No antigo sistema, produtos essenciais, como pão, 
açúcar, óleo, feijão etc., além de gasolina, gás e eletrici-
dade, eram fortemente subsidiados. Antes da reforma, 
por exemplo, o pãozinho redondo e oco, item fundamen-
tal da dieta egípcia, custava 5 libras (R$ 0,90) em uma 
padaria subsidiada, contra 36 libras no mercado livre. To-
dos tinham direito a ele, e em quantidade ilimitada. Bas-
tava se dispor a enfrentar as filas às vezes intermináveis 
das padarias. Para outros produtos alimentícios, era ne-
cessário ter um carnê, no qual o vendedor anotava a 
compra, limitada a uma cota mensal. Esses carnês, teori-
camente atribuídos por critérios sociais, eram na verdade 
detidos por 85% da população. Hoje, o número de pães 
é limitado a vinte por família por dia. Esses vinte custam 
1 libra egípcia (R$ 0,18). Mas raramente eles são sufi-
cientes para as famílias, frequentemente grandes. Ainda 
mais quando, em tempos de pobreza crescente, o pão 
torna-se o alimento básico. Então ele precisa ser com-
prado a um preço alto: 20 libras (R$ 3,65) a cada vinte 
pães. Para os outros alimentos básicos, um cartão com 
chip substituiu o carnê, recebendo uma provisão mensal 
de 200 libras (R$ 36,50) para uma família de quatro 
pessoas. Embora o número de titulares de cartões seja 
aproximadamente o mesmo de detentores do antigo car-
nê, o preço dos produtos subsidiados aumentou muito. 
Entre 2014 e 2017, “o quilo de açúcar passou de 4,5 para 
10 libras [R$ 0,82 para R$ 1,83]; o litro de óleo, de 6,5 
para 14 libras [R$ 1,19 para R$ 2,56] etc.”, detalha Marie 
Vannetzel – isso em um país onde um médico de um hos-
pital ganha 1.300 libras por mês (R$ 238); um diretor da 
administração pública, 4.500 libras (R$ 822); e um tra-
balhador é considerado “bem pago” quando recebe 
1.200 libras (R$ 219). Para as pessoas mais pobres – 9 
milhões, de acordo com os critérios em vigor –, concede-
-se um benefício mensal extra de cerca de 700 libras 
(R$ 128) por família.
O governo também reduziu bruscamente o subsídio da 
energia, que beneficiava todos os egípcios. Em três anos, 
o preço da gasolina e do gás triplicou, e o da eletricidade 
ficou quatro ou cinco vezes mais caro. Não é de admirar, 
então, que a taxa da população abaixo da linha de pobre-
za nacional tenha aumentado, de acordo com o Banco 
Mundial, de 25% em 2010 para quase 28% em 2015 – 
hoje provavelmente já ultrapassou a marca de 30%. Ain-
da mais porque, com a queda brutal da libra em novem-
bro de 2016, todos os preços aumentaram, enquanto os 
salários evoluíram muito pouco.
Esse sofrimento econômico sentido pelos egípcios, em 
todas as classes sociais, provocou, principalmente no in-
terior, alguns movimentos sociais rapidamente reprimi-
dos.2 Muitos ainda acreditam que, “quando chegou ao po-
der, Sissi encontrou os cofres do Estado em uma situação 
terrível” e que ele “faz o que pode”. O Exército, já presente 
em muitos setores (turismo, construção, indústria) e que, 
desde a queda de Hosni Mubarak, tem se inserido maci-
çamente em todos os setores da economia, sob o pretex-
to de que “sem [ele] nada funciona”, parece querer servir 
de amortecedor, ao mesmo tempo que cultiva sua ima-
gem de instituição próxima do povo. “Em uma manhã 
qualquer, podemos ver caminhões do Exército chegando 
a um bairro pobre cheios de carne para ser vendida a um 
preço muito inferior ao do mercado”, conta Vannetzel. 
Nesses mesmos bairros, mães de família obrigadas a ali-
mentar seus dez filhos e netos, todos os dias, com “ape-
nas pão e batata”, dizem com a voz embargada: “Se isso 
continuar, as pessoas vão para a rua! O Exército pode 
atirar na gente, não vamos ligar!”. Como explica o cientista 
político Karima H., o presidente Sissi “parece determinado 
a realizar as reformas que seus predecessores Sadat e 
Mubarak tentaram e foram obrigados a desistir por causa 
da ira popular”. Há risco de grandes manifestações, com-
paráveis às que foram realizadas em 1977, sob o governo 
de Anwar el-Sadat? O acadêmico não acredita nisso. 
“Motins esporádicos, talvez, mas não mais que isso.” Em 
março de 2017, os egípcios protestaram contra o aumen-
to do preço do pão, mas o movimento não chegou à esfe-
ra política. Entre uma mídia submissa, uma oposição des-
truída e um contexto regional usado como elemento de 
contraste – guerras civis na Líbia, Síria e Iraque –, o regi-
me parece manter o povo sob controle. (P.D.)
1 Megalópole caótica de 20 milhões de habitantes, o Cairo é forma-
do por uma miríade de bairros, a maioria deles construída sem a 
intervenção das autoridades públicas. Mesmo quando é de alvena-
ria, a habitação nesses “bairros informais” é quase sempre muito 
precária.
2 Ler Mustafa Bassiouni, “Nada detém os operários egípcios”, Le 
Monde Diplomatique Brasil, ago. 2014.
UMA VIDA MUITO CARA
1 Ler Alain Gresh, “A revolução egípcia à sombra 
dos militares”, Le Monde Diplomatique Brasil, 
ago. 2013.
2 Após vários julgamentos, Mubarak foi libertado em 
março de 2017. Morsi, que chegou a ser ameaça-
do com a pena capital, cumpre sentença de 45 
anos de prisão.
3 “Égypte: les voix critiques réduites au silence” [Egi-
to: vozes críticas reduzidas ao silêncio], Anistia In-
ternacional, Paris, 21 out. 2017.
4 Em 31 de outubro de 2015, a explosão de um avião 
russo no Sinai, pouco depois de decolar da cidade 
balneária de Sharm el Sheikh, fez 224 vítimas. Pri-
meiro de uma longa série, o atentado foi reivindica-
do por um grupo islâmico afiliado à Organização 
do Estado Islâmico.
5 Ler Aziz El Massassi, “La presse égyptienne mise 
au pas” [Imprensa egípcia sob controle], Le Mon-
de Diplomatique, nov. 2015.
6 Ambos em francês pela Actes Sud, Arles, res-
pectivamente 2009 e 2012. Sem tradução para o 
português.
7 Ver o filme de Pauline Beugnies Rester vivants 
[Continuar vivendo] (2017, 110 min), documentário 
que faz o retrato de quatro manifestantes da Praça 
Tahrir, com percursos muito diferentes.
8 Em francês pela Actes Sud, 2017. Sem versão em 
português.
9 “Le pouvoir égyptien dans l’imbroglio de l’affaire 
des îles Tiran et Sanafir” [Governo egípcio no im-
bróglio do caso das ilhas Tiran e Sanafir], Orien-
tXXI.info, 25 jan. 2017 (tradução de um artigo em 
árabe do Mada Masr, Cairo, 17 jan. 2017).
10 “Exclusive: Egyptian police detained Italian stu-
dent before his murder” [Exclusivo: polícia egípcia 
deteve estudante italiano antes de ele ser assassi-
nado], Reuters, 21 abr. 2016.
11 Hélène Sallon e Philippe Ridet, “L’Italie doute de 
la version égyptienne de la mort de l’étudiant Giu-
lio Regeni” [Itália duvida da versão egípcia da 
morte do estudante Giulio Regeni], Le Monde, 
26 mar. 2016.
12 La ronde des prétendants, Éditions de l’Aube, Avig-
non, 2013. Sem tradução para o português.
Apesar de seu profundo desânimo 
diante de uma situação de opressão que 
consideram por unanimidade “pior do 
que era com Mubarak”, todos os vetera-
nos da “revolução de janeiro” admitem, 
contudo, que ela “deixou marcas positi-
vas indeléveis” na sociedade. 
“AS PESSOAS SE SENTEM MENOS SUBMETIDAS”
Para Ghada Abdel Aal, de 38 anos, 
que em 2008 publicou o famoso livro A 
ronda dos pretendentes,12 “a revolução 
permitiu quebrar muitos tabus no de-
bate público e nas conversas nas redes 
sociais. Hoje, podemos falar de rela-
ções sexuais antes do casamento, de 
homossexualidade, de agressão se-
xual, e questionar alguns princípios 
religiosos, até a própria crença em 
Deus. O governo, que permanece mui-
to conservador nessas questões, conti-
nua punindo. Mas, na sociedade, o de-
bate existe”. Há três anos, ela mesma 
se permitiu uma ação que tornou pú-blica em sua página do Facebook, com 
180 mil seguidores: tirou o hijab que 
era forçada a usar desde a infância, 
“por mero código social”. 
Segundo Georges Seif, médico vo-
luntário na Praça Tahrir em 2011, “as 
pessoas se sentem menos submeti-
das ao olhar alheio. Mesmo o bawab, 
uma espécie de porteiro-espião que 
aterroriza todos os edifícios, perdeu 
um pouco de seu poder”. Antes de 
2011, acrescenta Sarah Mohamed, 
militante da primeira hora, “quando 
as pessoas viam uma mulher fuman-
do em um café, automaticamente a 
consideravam uma vagabunda. Hoje 
já não é assim”. Na rua, ou em uma 
repartição pública, pessoas vítimas 
da arbitrariedade de um funcionário 
ou de um policial hoje se atrevem a 
dizer “não” e exigir que seus direitos 
sejam respeitados. “Antes, isso era 
impensável!”
Para além da política e das discus-
sões sobre o bloqueio da eleição presi-
dencial, os egípcios estão empolgados 
com um assunto muito mais mobiliza-
dor: após 28 anos fora da competição, 
o Egito se classificou para a Copa do 
Mundo de Futebol, que acontecerá em 
junho, na Rússia. Se o regime sabe que 
isso desviará a atenção da população 
durante algumas semanas, ele tam-
bém não ignora que uma classificação 
para a segunda fase ou, ao contrário, 
uma derrota humilhante bastariam 
para encher a Praça Tahrir novamen-
te. Com tudo que isso implica em ter-
mos de possíveis transbordamentos e 
protestos de caráter político. 
*Pierre Daum é jornalista.
23MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
INTERVENÇÃO NA SÍRIA, PRESSÃO NO LÍBANO, GUERRA NO IÊMEN
A Arábia Saudita tenta impedir a eclosão de um movimento democrático na região e conter a influência de seu 
rival iraniano. O novo poder multiplica as iniciativas, mas a maioria fracassa. Incapaz de favorecer a derrota do regime 
de Bashar al-Assad, Riad afunda-se no conflito no Iêmen e não consegue enquadrar o Catar
POR GILBERT ACHCAR*
O impasse saudita 
no Oriente Médio
A 
chave para a especificidade do 
Oriente Médio não é o islã, mas 
o petróleo. A riqueza da região 
do Golfo Pérsico levou o Impé-
rio Britânico a criar ou consolidar no 
flanco árabe entidades artificiais em 
diferentes graus. Os Estados-membros 
do Conselho de Cooperação do Golfo 
(CCG) apresentam a particularidade 
de ter estrangeiros constituindo a 
maior parte da força de trabalho. Na 
maioria desses Estados (Arábia Saudi-
ta, Omã, Kuwait, Bahrein, Emirados 
Árabes Unidos e Catar), eles represen-
tam a maior parte da população. Che-
gam a 90% dela, no Catar e nos Emira-
dos Árabes Unidos!
A riqueza petrolífera da região do 
Golfo levou o Império Britânico a con-
solidar ou instaurar os sistemas mo-
nárquicos mais arcaicos do mundo 
contemporâneo. Explorando e revi-
vendo sucessões tribais, transformou 
grupos de clãs em “famílias reinan-
tes”, estabelecendo poderes absolutis-
tas de tipo patrimonial, com a espe-
rança de que elas se mantivessem 
como poder tutelar até seus recursos 
de hidrocarbonetos estarem esgota-
dos. Essa riqueza levou os Estados 
Unidos a agir da mesma forma com 
seu mais antigo protetorado de fato na 
região: o reino saudita. O líder do 
“mundo livre” apoia o Estado mais an-
tidemocrático, misógino e fundamen-
talista do planeta, o único em que o 
Corão e a Sunnah (tradição) assumem 
o lugar da Constituição.
A autonomia extrema do Estado, 
possibilitada pela renda obtida com o 
petróleo e o gás, permitiu que se perpe-
tuassem esses sistemas arcaicos, en-
cravados em instituições estatais e eco-
nomias capitalistas contemporâneas. 
Ali, o poder obedece tanto menos à ra-
cionalidade socioeconômica habitual – 
a dos sistemas políticos em que os inte-
resses de uma classe capitalista ou de 
uma camada burocrática delimitam as 
escolhas possíveis – quanto mais con-
centrado ele é: quanto mais restrito é o 
círculo dirigente, ao mesmo tempo dis-
pondo de um tesouro natural para fi-
nanciar um Estado que ele trata como 
sua propriedade privada, menos esse 
círculo obedece a restrições estruturais 
e mais sua margem de manobra se alar-
ga. Em tais circunstâncias, suas deci-
sões podem sofrer mudanças bruscas, 
que parecem erráticas e caprichosas. 
Lá onde as grandes máquinas estatais, 
como os navios, movem-se lentamente, 
os poderes estatais ultraconcentrados 
estão sujeitos a viradas abruptas, como 
um bote a motor.
Dois Estados da zona do Golfo es-
caparam da configuração sociopolíti-
ca compartilhada pelos outros, por-
que abrigavam civilizações urbanas 
muito antigas e herdaram populações 
mais numerosas e sociedades mais de-
senvolvidas: o Irã e o Iraque. Eles são 
os dois únicos países da região onde a 
monarquia foi derrubada. No Iraque, 
isso acabou levando à constituição de 
um regime patrimonial “republicano”, 
mantido com mão de ferro por uma fa-
mília reinante que reproduzia os ví-
cios das monarquias absolutistas – até 
sua derrubada, em 2003, após a inva-
são liderada pelos Estados Unidos.
No Irã, isso levou ao surgimento do 
único Estado estritamente teocrático 
(com exceção do Vaticano). Ao contrá-
rio de seus vizinhos do Golfo, o Irã é 
governado por instituições e leis, e não 
por uma família, embora o Líder Su-
premo goze de um poder exorbitante.1 
Consequentemente, é o único Estado 
da região que atua com base em uma 
estratégia coerente, facilmente identi-
ficável: o expansionismo da Guarda 
Revolucionária e a exacerbação da 
tensão regional que o país produz re-
forçam a legitimidade de seu poder.2
O quadro da atual dinâmica geopo-
lítica do Golfo foi determinado pelo ad-
vento da República Islâmica do Irã, em 
1979. A revolução iraniana apavorou as 
monarquias árabes vizinhas, ainda 
mais com os Estados Unidos no ponto 
mais baixo de seu declínio pós-vietna-
mita e paralisados diante dos muitos 
desafios daquele ano: revolução na Ni-
carágua, invasão soviética no Afeganis-
tão. A ofensiva do Iraque contra o Irã 
em 1980 permitiu que os Estados Uni-
dos e seus aliados regionais se restabe-
lecessem: eles facilitaram a destruição 
mútua dos dois Estados em luta.
A guerra terminou “empatada”, 
após oito anos de um massacre absur-
do (quase 1 milhão de mortos, segun-
do a estimativa mais comum). Sem 
conseguir livrar-se das dívidas contraí-
das junto a seus financiadores monár-
quicos, Saddam Hussein decidiu resol-
ver a situação invadindo e anexando o 
Kuwait, em agosto de 1990. Assim, pro-
porcionou aos Estados Unidos uma ex-
Mulheres participam de manifestação para apoiar o movimento houthi em Sanaa, no Iêmen
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24 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
celente oportunidade de matar dois 
coelhos com uma cajadada só: retor-
nar com força ao Golfo pela primeira 
vez desde 1962 – data da evacuação da 
base norte-americana em Dhahran, na 
região petrolífera do reino saudita, sob 
a pressão do Egito de Nasser – e confir-
mar para seus aliados, rivais e inimi-
gos planetários a supremacia (“indis-
pensável” ou inevitável) dos Estados 
Unidos na era pós-Guerra Fria, quando 
o bloco soviético desabava.
Ao destruir o Iraque baathista, seu 
grande inimigo, a intervenção de 1991 
suscitou sentimentos mais dóceis en-
tre os líderes iranianos. Mas esse golpe 
de força fortaleceu a família real saudi-
ta, que passou a sentir-se ao abrigo de 
uma ação iraniana em seu território. 
Riad fez da atitude em relação à guerra 
entre Estados Unidos e Iraque a pedra 
de toque de suas relações regionais. Ele 
puniu todos aqueles que saudaram a 
invasão do Kuwait e se declararam 
hostis à intervenção norte-americana: 
o Iêmen, expulsando quase 1 milhão 
de trabalhadores migrantes dali oriun-
dos; a Organização pela Libertação da 
Palestina (OLP) de Yasser Arafat, cor-
tando o abastecimento de suprimen-
tos; e a Irmandade Muçulmana, rom-
pendo os laçoscom o grupo.
Até aquele momento, o reino saudi-
ta era o principal apoio da Irmandade, 
desde sua fundação, no Egito, em 1928. 
Com os Estados Unidos, ela havia 
combatido o regime nacionalista de 
Gamal Abdel Nasser (1954-1970), 
apoiado pela Rússia, que a reprimiu 
duramente. Mas a organização não 
poderia alinhar-se com a Arábia Sau-
dita durante a Guerra do Golfo sem 
perder muitos de seus membros. Pri-
vando-a de apoio logístico e financei-
ro, a Arábia Saudita queria que a Ir-
mandade, assim como a OLP, fosse 
obrigada a se dobrar.
A situação não demorou a mudar, 
com a tomada de poder, no Catar, de 
Hamad bin Khalifa al-Thani, que de-
pôs seu próprio pai em 1995. O novo 
emir provavelmente não havia lido a 
fábula de La Fontaine “A rã que queria 
ser maior que o boi”. Querendo brincar 
junto com os grandes da política regio-
nal, ele decidiu financiar a Irmandade 
Muçulmana mais ou menos da mesma 
forma que outros magnatas compram 
equipes de futebol. E também adqui-
riu, pagando caro, um canal de televi-
são por satélite, a Al Jazeera, que tinha 
a Irmandade como base de sustenta-
ção e logo conseguiu uma audiência 
excepcional, dando voz às oposições 
do mundo árabe – com exceção daque-
las do vizinho saudita e do próprio Ca-
tar, onde o crime de lesa-majestade po-
de ser punido com a prisão perpétua.
DUAS OPÇÕES CONTRARREVOLUCIONÁRIAS
Armado com esses dois instru-
mentos políticos e confrontado com a 
ira do grande irmão saudita, o emir in-
troduziu uma política rentista de “co-
bertura de risco”, “diversificando seus 
ativos”, ou seja, tecendo vínculos com 
toda a gama de forças importantes na 
região. Assim, realizou a façanha de 
construir, à sua própria custa, em se-
gredo, uma base aérea para os Estados 
Unidos (Al Udeid, perto de Doha) e es-
tabelecer relações comerciais com Is-
rael, ao mesmo tempo exibindo boas 
relações com o Irã e apoiando o Hez-
bollah libanês e o Hamas palestino!
No entanto, a invasão do Iraque em 
2003 mudou o jogo em toda a região. 
Do ponto de vista estratégico, ela foi 
certamente o fracasso mais grave na 
história da política imperialista dos 
Estados Unidos: eles tiveram de sair 
do Iraque em 2011, sem conseguir ne-
nhum de seus objetivos centrais. Pior: 
deixaram o país já dominado por seu 
grande inimigo regional iraniano.
No mesmo ano, os Estados Unidos 
testemunharam a explosão de muitos 
dos Estados nos quais se baseava sua 
hegemonia regional. Diante da Prima-
vera Árabe, surgiram duas opções con-
trarrevolucionárias concorrentes, am-
bas ancoradas no bastião reacionário 
do CCG:3 uma apoiada pelo reino sau-
dita e a outra, pelo emirado do Catar.
Tradicionalmente ultraconserva-
dores, os sauditas eram partidários da 
defesa dos regimes em vigor, fosse es-
magando as revoltas – como ajudaram 
a fazer, em março de 2011, em Mana-
ma, capital do Bahrein –, fosse nego-
ciando acordos nos países onde man-
tinham boas relações com a oposição 
oficial, como no Iêmen. O Catar, por 
sua vez, erigiu-se em principal apoia-
dor do levante regional, fazendo valer 
sua capacidade de influenciá-lo graças 
à sua ascendência decisiva sobre a Ir-
mandade Muçulmana. Esta aprovei-
tou as circunstâncias para assumir 
um papel de liderança, com o apoio fi-
nanceiro e televisivo de seu patrocina-
dor. A melhor ilustração do contraste 
entre as duas opções pode ser buscada 
no país onde tudo começou: a Tunísia. 
O emirado acompanhou o levante po-
pular apoiando o parceiro tunisiano 
da Irmandade Muçulmana, o Ennah-
da, enquanto o reino wahabita ofere-
ceu asilo ao ditador deposto, Zine al-A-
bidine ben Ali.
O governo de Barack Obama osci-
lou entre as duas opções. Ele concor-
dou com a repressão do levante no 
Bahrein, mas apoiou o acordo no Iê-
men. Nos países onde a revolta foi 
muito impetuosa, ele jogou a carta da 
recuperação, confiando na coopera-
ção da Irmandade Muçulmana – como 
foi o caso no Egito, antes mesmo de es-
ta vencer as eleições presidenciais de 
maio-junho de 2012.4 Na Líbia, os Esta-
dos Unidos se deixaram levar por seus 
aliados europeus – principalmente 
franceses e britânicos – para bombar-
dear as forças de Muamar Kadafi. O 
Catar participou ativamente da inter-
venção, enquanto os sauditas se recu-
saram a se unir a ela. Sabemos o resul-
tado: o caos líbio dissuadiu Obama de 
voltar a colaborar com a derrubada de 
um Estado na região. Na Síria, portan-
to, o presidente dos Estados Unidos 
negou à oposição os meios para neu-
tralizar a grande vantagem militar do 
regime, que é a posse exclusiva de 
meios aéreos: ele não apenas se recu-
sou a reiterar a “zona de exclusão aé-
rea” imposta acima da Líbia, mas, so-
bretudo, impediu qualquer entrega de 
armas antiaéreas à oposição. Desse 
modo, o regime de Bashar al-Assad ga-
rantiu o controle do espaço aéreo, in-
clusive para o lançamento, com heli-
cópteros, das mortais bombas de 
barril. Ao mesmo tempo, Obama dele-
gou a seus aliados do Golfo e à Turquia 
a tarefa de patrocinar a oposição síria.
Os sauditas não podiam defender 
Al-Assad por causa de sua aliança com 
o Irã. Mas, como o Catar, não saberiam 
conviver com uma revolução democrá-
tica e laica em sua vizinhança. Então 
decidiram remodelar a oposição síria 
para torná-la compatível com a natu-
reza reacionária de seu próprio regime. 
Assim, iniciaram uma feroz concor-
rência com o eixo Catar-Turquia para 
financiar grupos armados sírios com 
perfil fundamentalista islâmico (sala-
fista-jihadista) e sunita. A revolução sí-
ria de 2011 virou pó, pega entre o mar-
telo e a bigorna: de um lado, o regime, 
as milícias fundamentalistas xiitas 
controladas pelo Irã e, depois, a partir 
de 2015, a aviação e os mísseis da Rús-
sia; do outro, grupos armados funda-
mentalistas apoiados pela Turquia, pe-
lo Catar e pela Arábia Saudita.
Nem o surgimento da Organização 
do Estado Islâmico, a tomada de Mos-
sul, no Iraque, e a proclamação do ca-
lifado bastaram para levar Obama a 
apoiar-se em forças armadas árabes 
sunitas confiáveis nos dois países, co-
mo muitos o incitavam a fazer. O ar-
gumento era de que isso permitiria 
sufocar de maneira durável a Organi-
zação do Estado Islâmico, da mesma 
forma que a ocupação dos Estados 
Unidos só conseguiu vencer sua ver-
são anterior, o Estado Islâmico no Ira-
que, armando e financiando milícias 
tribais árabes sunitas. Em vez disso, 
os Estados Unidos apoiaram-se, em 
sua intervenção no Iraque, nas forças 
armadas regulares e irregulares do-
minadas pelos xiitas e infiltradas no 
Irã, em graus diversos, para grande 
desgosto da Arábia Saudita. E na Síria, 
nas forças nacionalistas curdas, para 
grande desgosto da Turquia.
A atitude de Obama era coerente 
com sua política de apaziguamento 
em relação ao Irã, apostando na fração 
moderada, chamada de reformista, do 
regime iraniano – política da qual o 
acordo sobre a questão nuclear consti-
tuía uma pedra angular. O presidente 
dos Estados Unidos fez desse acordo 
sua prioridade, conseguindo fechá-lo 
em julho de 2015, após longas negocia-
ções envolvendo a Rússia, a China, a 
Alemanha e a França. Ele tomou essa 
via apesar da expansão regional do 
Irã, que, depois de se estabelecer fir-
memente no comando do Estado ira-
quiano, passou a intervir de maneira 
crescente na Síria, com seus contin-
gentes regionais, a partir de 2013. A in-
diferença dos Estados Unidos irritou 
os dois principais inimigos do Irã na 
região: Israel e o reino saudita.
A apreensão dos sauditas atingiu 
seu clímax quando, em setembro de 
2014, a capital iemenita, Sanaa, foi to-
mada pelos houthis, amigos do Irã, de 
cujas orientações ideológicas eles 
compartilham, e aliados do ex-presi-
dente Ali Abdullah Saleh.5 Foi nesse 
contexto muito alarmante para os lí-
deres sauditas que Salman bin Abdu-
laziz al-Saud sucedeu a seu meio-ir-
mão, morto em23 de janeiro de 2015.
Com 80 anos de idade no momento 
em que subiu ao trono, o rei Salman 
estabeleceu como objetivo prioritário 
preparar a sucessão de seu filho favori-
to, Mohammed, que ainda não tinha 
30 anos. Começou confiando-lhe o 
Ministério da Defesa; dois anos de-
pois, em junho de 2017, Mohammed 
bin Salman (MBS, como costumam 
designá-lo) tornou-se o príncipe her-
deiro.6 O novo rei e seu jovem filho op-
taram por uma reação enérgica à 
ameaça iraniana: decidiram realizar 
uma intervenção direta no Iêmen, 
bem como adotar uma política de 
frente sunita regional única, que pas-
sava por melhorar as relações com o 
Catar e flexibilizar a atitude em rela-
ção à Irmandade Muçulmana.
A intervenção militar no Iêmen li-
derada pela Arábia Saudita em março 
de 2015, sob a supervisão de MBS, mo-
bilizou uma coalizão que incluía o Ca-
tar. Ela apoiou um governo iemenita 
“legítimo”, que representava uma coa-
lizão da qual participava a Irmandade 
Muçulmana local. Esta é um compo-
nente fundamental do partido Al-Is-
lah, com o qual o novo reinado saudita 
restabeleceu relações, após o reinado 
anterior tê-lo excomungado. No en-
Embora afirme o 
contrário, o governo 
Trump poderia 
conviver com a 
manutenção de
Al-Assad no poder sob 
a tutela da Rússia
25MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
tanto, a nova linha da Arábia Saudita 
criou tensões com o Egito do marechal 
Abdel Fatah al-Sissi, partidário da li-
nha dura contra a Irmandade, que ele 
destruiu em seu país. Nessa posição 
inflexível, o Egito voltou-se para os 
Emirados Árabes Unidos, onde o prín-
cipe herdeiro de Abu Dhabi e homem 
forte da federação, Mohammed bin 
Zayed (conhecido como MBZ), profes-
sa uma veemente hostilidade contra a 
Irmandade Muçulmana.7
A eleição de Donald Trump para a 
presidência dos Estados Unidos veio 
bagunçar tudo outra vez. O novo pre-
sidente logo se cercou de conselheiros 
islamofóbicos que defendiam uma ati-
tude dura contra a Irmandade Muçul-
mana, recomendando até classificá-la 
como organização “terrorista”. Eles fo-
ram encorajados nisso pelos Emirados 
e seu ativo embaixador em Washing-
ton, pedindo que se obrigasse o Catar a 
tirar o apoio à Irmandade.
Recebido com grande pompa pelo 
reino saudita em maio de 2017, em sua 
primeira visita presidencial no exte-
rior, Trump pressionou seus anfitriões 
a forçar o Catar a romper com a Irman-
dade e não mais deixar a Al Jazeera à 
sua disposição. Menos de quinze dias 
após a visita, o reino saudita, os Emira-
dos e o Bahrein, seguidos pelo Egito e 
alguns governos vassalos, romperam 
as relações diplomáticas com o Catar. 
Os três membros do CCG chegaram a 
interromper o transporte e o comércio 
com o colega. O caso, que fez muito 
barulho, foi um fiasco. Expulso da 
coalizão que intervinha no Iêmen, o 
Catar recusou-se a seguir as ordens. 
Ele usou seus enormes recursos finan-
ceiros para se adaptar à situação, com 
a ajuda comercial e militar da Turquia, 
aliada e copatrocinadora da Irmanda-
de Muçulmana desde o início da Pri-
mavera Árabe.
Embora afirme o contrário, o go-
verno Trump poderia conviver com a 
manutenção de Al-Assad no poder sob 
a tutela da Rússia, desde que esta ajude 
a expulsar as forças iranianas e suas 
aliadas do país. As duas orientações 
foram seguidas pela Arábia Saudita 
desde a visita do presidente norte-a-
mericano. No início de outubro de 
2017, o rei Salman realizou a primeira 
visita de um soberano saudita à capital 
russa. A operação de sedução – a julgar 
pela delegação de alto escalão que 
acompanhou o monarca e pelos con-
tratos negociados – tinha o objetivo de 
convencer o presidente Vladimir Putin 
a mudar sua atitude em relação ao Irã. 
Um mês depois, Trump e Putin, pre-
sentes na cúpula da Cooperação Eco-
nômica Ásia-Pacífico (Apec) em Da 
Nang, no Vietnã, assinaram uma de-
claração conjunta sobre a Síria: apoio 
ao processo internacional da Confe-
rência de Genebra e aval implícito pa-
ra a manutenção de Al-Assad no poder 
até a adoção de uma nova Constitui-
ção e a organização de eleições.
Nesse meio-tempo, a Arábia Saudi-
ta convocou o primeiro-ministro liba-
nês, Saad Hariri, de família estreita-
mente dependente dos sauditas,8 para 
obrigá-lo a fazer uma declaração de 
renúncia que, de maneira bastante 
absurda, ele foi forçado a ler no pró-
prio reino saudita, em 4 de novembro 
de 2017. Atacando ferozmente o Irã e 
seu auxiliar libanês, o Hezbollah, com 
o qual Hariri havia, no entanto, for-
mado um governo de unidade nacio-
nal em dezembro de 2016, a declara-
ção pôs fim a qualquer cooperação 
com o partido xiita. A operação fez 
tanto sentido quanto as observações 
de Trump no gramado da Casa Bran-
ca, com Hariri a seu lado durante visi-
ta a Washington, em julho: o presi-
dente dos Estados Unidos atacou 
longamente o Hezbollah, chamando-
-o de “ameaça para o Estado libanês, o 
povo libanês e toda a região” e colo-
cando-o no mesmo saco que a Orga-
nização do Estado Islâmico e a Al-
-Qaeda, sem se importar com o fato de 
que o “partido de Deus” fazia parte do 
governo presidido por Hariri...
Toda essa operação foi novamente 
um fiasco: retirado da Arábia Saudita 
pelo presidente francês Emmanuel 
Macron, Hariri voltou atrás em sua re-
núncia. A coalizão do governo liba-
nês, no entanto, continua muito frágil 
e exposta a crises recorrentes. Aliás, 
há sinais de tensão entre a Rússia e a 
Arábia Saudita sobre a Síria: depois de 
parecer apoiar os movimentos russos 
para promover um diálogo entre o re-
gime e a oposição, a Arábia Saudita 
parece ter endurecido sua posição, a 
ponto de encorajar a oposição síria a 
recusar-se a jogar o jogo da Rússia. No 
fim das contas, o destino da Síria de-
penderá da evolução das relações en-
tre norte-americanos e russos. Por en-
quanto, a atitude dos Estados Unidos 
em relação à Rússia endureceu consi-
deravelmente: campanha contra o 
“Russiagate”, novas sanções, entrega 
de armas à Ucrânia etc. Tudo contra a 
vontade de um Donald Trump visivel-
mente irritado.
Diante do inédito caos da política 
norte-americana, os sauditas se veem 
em uma bela confusão, especialmente 
porque sua ofensiva no Iêmen atolou, 
provocando um dos piores desastres 
humanitários contemporâneos, até 
mais grave que a tragédia síria. Sua es-
perança de reverter a situação trazen-
do de volta Saleh – que já não estava 
mais ao alcance da mão – evaporou-se 
em dezembro, com seu assassinato 
pelos aliados que ele havia traído. A is-
so se soma, desde então, um conflito 
aberto entre as forças iemenitas da 
coalizão liderada pela Arábia Saudita, 
ainda mais incômodo pelo fato de que 
algumas facções passaram a ser apoia-
das pelos Emirados Árabes Unidos e 
outras pela Arábia Saudita. Catar, Lí-
bano, Síria, Rússia: todas as manobras 
empreendidas pelos líderes sauditas 
instigados por Trump falharam. Para 
piorar as coisas, o reconhecimento, 
por parte deste último, de Jerusalém 
como capital do Estado de Israel os en-
vergonhou, especialmente porque, de 
acordo com seu desejo, eles haviam 
começado a pressionar a Autoridade 
Palestina de Mahmoud Abbas para 
aceitar os termos israelenses – eles ti-
veram de voltar atrás. E o isolamento 
do presidente dos Estados Unidos na 
cena internacional sobre a questão 
iraniana só pode agravar sua amargu-
ra. A dança do sabre de Trump com 
seus convidados sauditas em maio 
passado já parece bem longe... 
*Gilbert Achcar é professor da Escola de 
Estudos Orientais e Africanos (Soas) da Uni-
versidade de Londres. Autor do livro Les Ara-
bes et la Shoah. La guerre israélo-arabe des 
récits [Os árabes e o Holocausto. A guerra de 
narrativas entre árabes e israelenses], Sin-
dbad-Actes Sud, 2009.
1 Ver Philippe Descamps e Cécile Marin, “Une mol-
lahrchie constitutionnelle” [Uma mularquia consti-
tucional],Le Monde Diplomatique, maio 2016.
2 Ler Bernard Hourcade, “O Irã se reinventa como 
potência regional”, Le Monde Diplomatique Brasil, 
fev. 2018.
3 Fundado em 1980, o CCG reúne o reino da Arábia 
Saudita, o reino do Bahrein, a federação dos Emi-
rados Árabes Unidos, o emirado do Kuwait, o sulta-
nato de Omã e o emirado do Catar. Desde a ruptu-
ra das relações diplomáticas entre o Catar e os 
vizinhos Arábia Saudita e Bahrein, o funcionamen-
to do CCG está paralisado de fato.
4 Ler “Tudo dentro da ordem”, Le Monde Diplomati-
que Brasil, mar. 2011.
5 Ler Laurent Bonnefoy, “Enlisement saoudien au 
Yémen” [Sauditas atolam no Iêmen], Le Monde 
Diplomatique, dez. 2017.
6 Ler Nabil Mouline, “Petits arrangements avec le 
wahhabisme” [Pequenos arranjos com o wahabis-
mo], Le Monde Diplomatique, jan. 2018.
7 Nascido em 1961, MBZ, que se tornou chefe dos 
serviços de segurança dos Emirados Árabes Uni-
dos na década de 1990, teria sido treinado por 
oficiais egípcios expatriados, cujo principal alvo em 
seu país de origem tinha sido a Irmandade Muçul-
mana. Acusando a organização de conspirar pela 
tomada do poder, MBZ liderou a repressão de 
seus membros e simpatizantes nos Emirados.
8 O pai de Saad Hariri, o ex-primeiro-ministro libanês 
Rafik Hariri, assassinado em fevereiro de 2005, fez 
fortuna na Arábia Saudita, sob a proteção do rei 
Fahd bin Abdulaziz al-Saud.
26 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
EXÉRCITO, UMA INSTITUIÇÃO SINGULAR
O presidente cubano Raúl Castro deixará o cargo em abril. Pela primeira vez em sua história, a ilha será provavelmente 
governada por uma pessoa nascida após a queda do ditador Fulgencio Batista, em 1959. Essa reviravolta suscita numerosas 
perguntas. Mas uma coisa é certa: o Exército desempenhará um papel decisivo na fase que se avizinha
POR RENAUD LAMBERT*
Cuba, o país do verde-oliva
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z
A
lguns meses depois de assumir 
a presidência, Donald Trump 
decidiu anular o “acordo total-
mente desigual assinado com 
Cuba” por seu predecessor Barack 
Obama, em 16 de junho de 2016. O pre-
sidente democrata havia considerado 
ineficaz a estratégia norte-americana 
de estrangulamento – agressão mili-
tar, embargo, rompimento das rela-
ções diplomáticas. Melhor seria, se-
gundo ele, normalizar as relações 
entre Washington e Havana, de modo 
a acelerar a “abertura” do país caribe-
nho.1 Nada disso, replicou o republica-
no: o fluxo de turistas norte-america-
nos, que a mansuetude de Obama 
contribuiu para estimular, “agravaria 
a repressão” ao consolidar a posição 
das Forças Armadas. Depois da “dita-
dura comunista”, Cuba iria cair sob o 
jugo de uma junta militar! Não havia 
oito generais na cúpula do poder, entre 
os dezessete membros do gabinete po-
lítico do Partido Comunista cubano?
As tramas latino-americanas des-
pertam reações desencontradas em 
Washington. Satisfação quando der-
rubaram o presidente Manuel Zelaya, 
em Honduras (2009); entusiasmo 
quando bombardearam o Palácio de la 
Moneda, no Chile (1973); indignação 
quando ostentam uma boina verme-
lha na Venezuela ou um charuto em 
Cuba. Nesses últimos cenários, a Casa 
Branca lembra com gosto que a espada 
nem sempre se entende com a cédula 
eleitoral e que canhões destinados a 
manter o adversário em respeito se 
voltam, às vezes, contra as popula-
ções. E em Cuba? Aqui, o Exército tem 
a imagem de um homem discreto, mas 
rígido, pragmático e determinado: 
Raúl Castro, presidente desde 2008 e... 
general de Exército. Indestrutível mi-
nistro da Defesa entre 1959 e sua as-
censão ao poder supremo, ele moldou 
a instituição à própria imagem e seme-
lhança, tomando por base a experiên-
cia que viveu na Sierra Maestra.
Após o desembarque dos “barbu-
dos” na ilha, em 1956, Fidel Castro 
pediu a seu irmão que comandasse 
uma coluna de rebeldes armados em 
uma zona afastada, a leste do país. A 
região, posta sob as ordens do irmão 
mais novo, seria batizada de “segun-
da frente oriental Frank País”, do no-
me de um líder estudantil revolucio-
nário. “Enquanto, em sua zona, Fidel 
falava muito – de suas ambições, de 
suas grandes ideias –, Raúl organiza-
va a dele”, explica o jornalista Fer-
nando Ravsberg. “Criou, por exem-
plo, um serviço de sapataria para que 
seus homens dispusessem de calça-
dos dignos desse nome.” Percorrendo 
o território oriental para orquestrar o 
recrutamento e o aprovisionamento 
de suas tropas, Raúl Castro decretou 
uma reforma agrária, abriu escolas e 
hospitais – financiados com a criação 
de um imposto.
O FEIJÃO É MAIS IMPORTANTE QUE O CANHÃO
Em setembro de 1958, o jovem (en-
tão com 27 anos) convocou um con-
gresso camponês durante o qual os ha-
bitantes de sua região foram convidados 
a apresentar queixas. “No fim do ano”, 
resume o pesquisador Hal Klepak, 
“Raúl havia lançado as bases de uma 
forma de governo não apenas para suas 
tropas, mas também para a população: 
com uma espécie de ministérios da 
Guerra, da Justiça, da Propaganda, da 
Saúde, da Economia, das Obras Públi-
cas, das Comunicações, da Educação, 
além de departamentos encarregados 
dos problemas agrários e trabalhistas”.2
A instituição militar que hoje os 
cubanos conhecem, oficialmente 
inaugurada em 2 de dezembro de 
1961, emergiu, portanto, do caldeirão 
da guerrilha, daí seu nome: Forças Ar-
madas Revolucionárias (FAR). Não foi 
concebida para defender o país, mas 
para libertar o povo da ditadura – uma 
vocação política que não a deixou 
mais, mesmo quando o projeto inicial 
mudou, passando do nacionalismo à 
construção de um socialismo “à cuba-
na”. As FAR gozam, pois, de uma aura 
considerável junto àqueles que vive-
ram a queda do ditador Fulgencio Ba-
tista. Para eles, os militares são os an-
tigos guerrilheiros, aos quais devem 
com muita frequência seus primeiros 
sapatos, seus primeiros livros, sua pri-
meira vitória. O internacionalismo 
das FAR contribui para seu prestígio 
no seio de uma população mais politi-
zada que em qualquer outra parte e 
que vivenciou as tribulações da resis-
tência aos ataques de Washington: 
elas participaram de guerrilhas lati-
no-americanas, de ações na Argélia, 
na Etiópia e sobretudo em Angola, on-
de dezenas de milhares de soldados 
cubanos lutaram contra as tropas do 
regime de apartheid sul-africano. 
Além disso, a lei exige que pelo menos 
metade dos jovens recrutas da acade-
mia militar sejam filhos de operários 
ou camponeses, mais pobres (e, por-
tanto, quase sempre negros) que o res-
to da população.3
No entanto, a imagem das FAR jun-
to ao povo se construiu também por 
ocasião de um outro episódio mais re-
cente da história cubana: o chamado 
período “especial”, que começou logo 
depois do esfacelamento do bloco so-
viético. De 1991 a 1994, o PIB caiu cerca 
de 35%. A violência do choque ine-
briou os anticastristas. Andrés Oppe-
nheimer, um dos editorialistas preferi-
dos da imprensa sediada em Miami, 
publicou um livro intitulado A hora fi-
nal de Castro.4
27MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
“De repente, Fidel disse a Raúl: ‘Não 
tenho mais dinheiro para você. É preci-
so que o Exército se vire sozinho’”, con-
ta Ravsberg. Em menos de um ano, o 
irmão mais novo “amputou as Forças 
Armadas pela metade, enquanto seu 
orçamento se derretia como neve ao sol 
(de 1.149 milhões a 736 milhões de pe-
sos cubanos, moeda cujo próprio valor 
já desabara)”, lembra Klepak. Num 
contexto em que o Estado cubano pare-
cia petrificado pela crise econômica – 
com Fidel Castro teimando em prome-
ter dignidade, orgulho e honra às 
barrigas vazias que o escutavam –, as 
FAR se destacaram por sua capacidade 
de adaptação. Em uma reportagem a 
elas consagrada em 1995, o New York 
Times apresentou-as como “a única 
coisa que ainda funciona” na ilha.5
Os militares não tinham mais di-
nheiro,combustível e peças de repo-
sição – que antes vinham de Moscou. 
“Nossa missão é a defesa do país, mas 
a defesa em sentido lato”, declarou, 
ainda assim, Raúl Castro. “Por ora, is-
so implica fornecer alimento ao nos-
so povo. [...] O feijão é mais impor-
tante que o canhão.”6 Os militares 
trocaram então seus fuzis por enxa-
das... e coqueteleiras.
A partir de 1980, as FAR começaram 
a trabalhar no setor de turismo, por in-
termédio da empresa Gaviota, que ge-
renciava os centros de lazer destinados 
aos soviéticos. Abriram então uma ca-
deia de lojas para visitantes estrangei-
ros, a fim de recolher os dólares em cir-
culação no país. Muitos militares 
deixaram a farda no guarda-roupa e 
vestiram a guayabera, um tipo de ca-
misa transformado em traje formal em 
Cuba. Alguns foram ao estrangeiro pa-
ra fazer cursos de administração; ou-
tros assumiram a gerência de hotéis. 
Pilotos de caça tornaram-se pilotos de 
linhas aéreas, e almirantes da Marinha 
de Guerra passaram a comandar iates.
Estima-se que, em meados dos anos 
1990, as FAR produziram entre um ter-
ço e metade dos alimentos consumidos 
pela população. Os orçamentos desti-
nados à saúde e à educação aumenta-
ram, enquanto os da defesa continua-
ram a diminuir, obrigando os militares 
à autonomia financeira. “Durante todo 
esse tempo, as escolas de balé mantive-
ram suas portas abertas”, recorda Ravs-
berg, que então já morava na ilha.7 Num 
contexto em que os Estados Unidos de-
cidiram agravar as sanções contra o 
país, as FAR mostraram mesmo – à sua 
maneira – que continuavam garantin-
do a proteção do território. Quatro anos 
depois da publicação do livro de Oppe-
nheimer, Raúl Castro presidiu um des-
file militar em que seus soldados exi-
biam mísseis terra-ar sofisticados, 
puxados por bicicletas... As FAR consti-
tuem, pois, o laboratório das reformas 
que Fidel tentou colocar em prática 
desde sua chegada ao poder, como a in-
trodução de remuneração com base na 
produtividade.8 A ruptura parece às ve-
zes considerável: Fidel Castro preferia 
que nenhum cubano gozasse das in-
fraestruturas hoteleiras caso só os ricos 
pudessem ter acesso a elas? Pois seu ir-
mão, que denuncia os desvios do “igua-
litarismo”, decidiu, ao contrário, abri-
-las a todos e deixar o mercado operar. 
Descobriu-se então que alguns cuba-
nos guardavam somas consideráveis 
debaixo do colchão. Gastando-as nos 
hotéis (das FAR...), liberam os quartos 
nas pensões familiares com que até en-
tão tinham de se contentar e cujos pre-
ços caem a olhos vistos.
Abandono do projeto socialista? 
Ainda que cada discurso do irmão 
mais moço prometa a continuidade da 
“visão” do mais velho, ele se afasta da 
concepção utópica segundo a qual 
apenas as ideias podem mover as mas-
sas. Numerosos observadores julga-
ram paradoxal uma situação em que 
Raúl, membro das juventudes comu-
nistas, enquanto seu irmão não o era, 
tornou-se o “coveiro” sóbrio do projeto 
havia muito acariciado por Fidel. O 
atual presidente se mostra talvez mais 
sensível ao fato de que uma análise do 
ambiente concreto é proveitosa aos 
combates políticos. Ora, os contextos 
econômico e geopolítico não são de 
modo algum propícios à emergência 
do socialismo “em uma única ilha”.9 
Ao que tudo indica, o capitalismo e 
suas receitas causam menos preocu-
pação nas casernas que na sede do 
Partido Comunista Cubano (PCC).
Embora nenhum número oficial es-
teja disponível, calcula-se que os efeti-
vos das FAR se estabilizaram em torno 
de 80 mil homens e mulheres, contra 
200 mil nos anos 1980. As empresas 
que elas controlam – como Gaviota, Ci-
mex e TRD – se uniram na holding Gru-
po de Administración Empresarial 
(GAE SA), dirigida pelo ex-genro de 
Raúl Castro, Luis Alberto Rodríguez 
López-Callejas. A primeira controla 
40% dos quartos do setor hoteleiro. Em 
um artigo pormenorizado, escrito para 
rebater os números fantasiosos forne-
cidos pela imprensa de Miami, o uni-
versitário norte-americano William 
LeoGrande – pouco suspeito de simpa-
tias castristas – estima as receitas da 
Gaviota em US$ 1,7 bilhão em 2016.10 A 
1 Ver Patrick Howlett-Martin, “EUA-Cuba, degelo 
sob os trópicos?”, Le Monde Diplomatique Brasil, 
nov. 2014.
2 Hal Klepak, Raúl Castro and Cuba. A Military 
Story [Raúl Castro e Cuba. Uma história militar], 
Palgrave Macmillan, Nova York, 2012.
3 O serviço militar de dois anos é obrigatório para os 
homens. As mulheres também podem fazê-lo 
como voluntárias.
4 Andrés Oppenheimer, Castro’s Final Hour [A hora 
final de Castro], Touchstone, Nova York, 1992.
5 Larry Rother, “In Cuba, army takes on party jobs, 
and may be only thing that works” [Em Cuba, o 
Exército faz bicos e pode ser a única coisa que 
funciona], The New York Times, 8 jun. 1995.
6 Citado por Larry Rother, op. cit.
7 “Quién paga la salud y la educación en Cuba?” 
[Quem paga a saúde e a educação em Cuba?], 
Cartasdecuba.com, 30 mar. 2017.
8 Ver “Cuba quer o mercado, mas sem capitalismo”, 
Le Monde Diplomatique Brasil, out. 2017.
9 Ver “Les enfants ont vieilli” [As crianças envelhece-
ram], “Cuba, ouragan sur le siècle” [Cuba, furacão 
do século], Manière de Voir, n.155, out.-nov. 2017.
10 “Cuánto de la economía cubana controlan las em-
presas militares?” [Quanto da economia cubana 
as empresas militares controlam?], Resumen Lati-
noamericano, Buenos Aires, 30 jun. 2017.
Na luta 
pela 
construção 
de uma 
sociedade 
mais justa, 
solidária e 
sustentável.
Rádio USP (São Paulo: 93,7 FM
Ribeirão Preto: 107,9 FM)
TV Aberta SP, canais 9 da NET, 8 da 
Vivo Fibra e 186 da Vivo.
Quartas, às 17h,
Quartas, à meia-noite
O olhar da cidadania
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Cimex – cadeia de lojas, aluguel de car-
ros... – teria, por sua vez, obtido um lu-
cro de US$ 1,3 bilhão no mesmo ano. 
Especializada no comércio popular (de 
sabão a eletrodomésticos, passando 
por produtos destinados aos turistas), 
a TRD parece ter alcançado, em 2016, 
um volume de negócios em torno de 
US$ 440 milhões. Isso dá um total de 
cerca de US$ 3,4 bilhões para a GAE SA, 
o equivalente a 20% das entradas de di-
visas no país e a 4% do PIB de 2015. 
Com um detalhe que não escapou a 
Trump: as receitas das empresas diri-
gidas pelas FAR flutuam de acordo com 
as rendas do setor turístico.
Nessas condições, não é nada ab-
surdo sugerir que normalizar as rela-
ções com Havana equivale a facilitar a 
vida dos militares. Mas daí a sugerir 
que a operação “agrava a repressão”... 
Cada passagem de um furacão pelo 
Caribe leva os observadores interna-
cionais a perguntar: por que Cuba se 
sai melhor nisso que os outros países? 
Para os habitantes da ilha, a resposta é 
dupla: devido à solidariedade, que in-
duz os mais preservados a abrir as por-
tas para os mais expostos, mas tam-
bém graças à organização logística das 
FAR, que comandam a defesa civil.
Estas, contudo, ignoram o fenôme-
no da corrupção, que gangrena parte 
das instituições da ilha? De modo al-
gum – embora o prestígio das FAR no 
seio da população seja até maior que o 
da polícia. O maná recolhido pela GAE 
SA poderia espicaçar a tentação de re-
correr às mil e uma acrobacias que faci-
litam o enriquecimento pessoal: outros 
países (como o Vietnã) conheceram es-
se tipo de evolução. Mas, por enquanto, 
não é raro ver um coronel pedindo ca-
rona à beira da estrada. Em outras par-
tes do mundo, ele passaria voando em 
um sedã com ar-condicionado. 
*Renaud Lambert é jornalista do Le Monde 
Diplomatique.
O capitalismo 
e suas receitas causam 
menos preocupação 
nas casernas que 
na sede do
Partido Comunista 
Cubano
28 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
AMÉRICA LATINA
Muitas organizações procuram consolar os ocidentais inquietos com a crise ecológica.Longe de suas frenéticas metrópoles, na 
América Latina, os indígenas teriam conservado sua proximidade com a natureza, erigida à categoria de divindade: a Mãe Terra, 
ou Pachamama. No trabalho de campo, procurar por essas comunidades protegidas pode trazer algumas decepções
POR MAËLLE MARIETTE*
Em busca da Pachamama
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os últimos meses de 2017, atra-
vessamos o Atlântico para che-
gar ao Equador, em busca da 
Pachamama.1 Em nome dessa 
divindade ameríndia, indígenas, ati-
vistas ambientais, dirigentes políticos 
e intelectuais empenham-se em “frear 
as agressões do capitalismo”,2 princi-
palmente as que envolvem a extração 
de matérias-primas.
“A Pachamama é uma realidade no 
mundo indígena”, explica Alberto 
Acosta, com quem falamos logo que 
chegamos a Quito. Ele foi ministro de 
Energia e Minas em 2007 e presidente 
da Assembleia Constituinte que, em 
2008, sob a liderança do presidente Ra-
fael Correa, reconheceu a Pachamama 
como um sujeito de direito – algo iné-
dito no mundo. Agora hostil ao ex-che-
fe de Estado, a quem acusa de traição e 
perpetuamento da exploração dos re-
cursos naturais do país, Acosta encar-
na uma corrente ambientalista que 
conta com grande atenção no exterior. 
“Para os povos autóctones, a Pacha-
mama não é uma simples metáfora, ao 
contrário do que ocorre no mundo oci-
dental. Os indígenas identificam a Ter-
ra como uma mãe. Eles têm um rela-
cionamento muito estreito com ela. 
Claro que nem todos os indígenas 
veem as coisas dessa maneira, afinal 
de contas, eles foram submetidos a 
quinhentos anos de colonização, e ela 
ainda não acabou. O mundo indígena 
não é poupado pelas lógicas do capita-
lismo, do individualismo, do consu-
mismo e do produtivismo. Mas ainda 
há comunidades que organizam sua 
vida social, política, econômica e cul-
tural em torno de noções como Pacha-
mama e Sumak Kawsay [bem viver].”
No Equador, mais que em qualquer 
outro lugar, a influência do conceito de 
Mãe Terra ultrapassou o círculo das 
comunidades indígenas “protegidas”. 
“Eu não coloco botas em meus filhos 
quando vão ao quintal, para que sin-
tam a terra, para que sintam o contato 
com a Pachamama”, explica Rocío G., 
diretora e produtora de programas re-
lacionados ao mundo indígena, que 
mora em um bairro residencial da ca-
pital. Antes de lamentar: “Mas minha 
irmã, para quem nada disso tem im-
portância, calça os filhos sempre que 
eles saem”.
Estranha aos olhos da cineasta, a 
decisão de sua irmã é a mesma dos in-
dígenas quíchuas dos altos platôs com 
quem falamos alguns dias depois: para 
que seus filhos não peguem friagem ou 
se machuquem, eles também calçam 
as crianças quando saem de casa... De-
vemos concluir que os Quíchua esque-
ceram sua cultura? Não em Otavalo, 
onde funciona, o ano inteiro, um dos 
maiores mercados artesanais da Amé-
rica Latina. Aqui, tudo é feito para pro-
mover a identidade quíchua. Essa ati-
tude acabou levando à “indigenização” 
de algumas festas que antes não fa-
ziam nenhuma referência à cultura 
quíchua. É o caso da festa do equinócio 
de verão, que se tornou o Inti Raymi, e 
do Carnaval, celebrado em todo o país, 
mas aqui rebatizado como Pawkar 
Raymi. As festividades ocorrem na co-
munidade de Peguche, a poucos quilô-
metros do centro de Otavalo, em uma 
curiosa mistura: uma procissão em 
torno de um xamã é acompanhada por 
um show de reggae, um torneio espor-
tivo, uma missa católica, a eleição de 
uma rainha da beleza quíchua e uma 
gigantesca batalha de água, farinha, 
ovos e tinta. Edwin T., filho de artesãos 
e músicos da comunidade vizinha, que 
atualmente estuda em Paris, explica 
sorrindo que a maioria dos líderes lo-
cais não fala quíchua. A seu ver, essa 
reindigenização “baseia-se essencial-
mente em uma reinterpretação incerta 
de tradições relatadas em livros de an-
tropólogos ou intelectuais brancos”.3
– O que é Pachamama, Luis? – a 
questão traz uma lembrança dolorosa 
para Luis Tuytuy, um dos líderes da 
nação Sápara, no coração da Amazô-
nia equatoriana.
– Pachamama? Bem, é uma funda-
ção equatoriana que apoiava as comu-
nidades indígenas na luta em defesa 
da natureza. Ela não existe mais.
– Ah, claro. Mas eu estava falando 
sobre a divindade, sabe, a Mãe Terra? 
Aliás, como se diz Mãe Terra na língua 
sápara?
– Ah... Espera um pouco... Sinto 
muito, na verdade eu não sei.
“TAMBÉM TEMOS MENUS VEGETARIANOS”
Quando fizemos essa pergunta, a 
maioria das reações foi semelhante à 
de Tuytuy. Nos (raros) casos em que o 
termo evocava algo, era uma terra que 
precisa ser defendida como território 
ancestral: um espaço vital constituti-
vo de uma identidade. Conversamos 
com os Achuar das comunidades de 
Wisui, Chumpi e Cotapaza, localiza-
das às margens do Rio Pastaza – às 
quais se chega somente depois de ho-
ras de ônibus, canoa e trilhas na flo-
resta partindo da cidade de Puyo, ao 
pé da Amazônia –, e com os Quíchua 
das comunidades da região de Cura-
ray – separadas de Puyo por três horas 
de ônibus em estrada de terra e mais 
de oito horas de canoa no Rio Curaray, 
quando seu nível permite. As aspira-
ções dos moradores locais estão me-
nos relacionadas ao meio ambiente do 
que à melhoria das condições de vida: 
acesso aos centros de saúde – as pica-
das de cobras, por exemplo, represen-
tam quase 10% das causas de morte na 
Amazônia equatoriana –, à educação, 
às redes rodoviárias, especialmente 
para vender sua produção na cidade, e 
aos meios de comunicação a distância 
(rádios de onda curta e internet) “para 
entrar em contato com o exterior em 
caso de emergência”, explica o ancião 
da comunidade Cotapaza. E depois 
acrescenta: “Diesel para o barco é 
bom. Antes, só com o remo, era muito 
mais difícil vencer a corrente”.
No entanto, eles também se inquie-
tam com o impacto da modernidade 
sobre as práticas culturais. Alguns se 
preocupam com a educação; outros, 
com o acesso à rede rodoviária, mas 
todos temem que os jovens esqueçam 
Festa do Inti Raymi, que marca o equinócio de verão, em Otavalo
29MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
suas raízes. Assim, uma tensão estru-
tura a forma como a população local 
vê os projetos de mineração ou extra-
ção de petróleo colocados em prática 
pelo governo: por um lado, a ameaça 
do desaparecimento da cultura dos 
antepassados e do modo de vida a eles 
associada, com o sentimento de aban-
dono por parte de um governo que só 
se interessa pela terra por causa da “ri-
queza do [seu] solo”; por outro lado, o 
fato de que esses projetos, embora po-
luidores, poderiam melhorar condi-
ções de vida hoje miseráveis.
Essa ambivalência nem sempre é 
expressa por aqueles que falam em no-
me dos povos indígenas no Equador, a 
exemplo de um dos líderes da forma-
ção indígena Pachakutik, Salvador 
Quishpe, atual governador da provín-
cia de Zamora-Chinchipe, que apoiou 
o riquíssimo banqueiro Guillermo Las-
so, candidato da direita às eleições pre-
sidenciais de 2017. Equipado com dois 
smartphones, o tempo todo atraves-
sando o país de avião, Quishpe expõe 
seu credo: quando os povos indígenas 
usam sua pobreza como argumento 
em defesa da mineração, ele os convida 
a rejeitar o “estilo de vida ocidental”. 
Lembra-lhes que a “floresta magnífica” 
que os cerca, com suas cascatas, é a 
única “riqueza verdadeira” e explica 
que o desenvolvimento econômico 
provocado pelas grandes operações de 
mineração ameaça “corrompê-los” e 
“destruir sua cultura”.
A consciência ambiental dos indí-
genas não tem muito impacto. Quan-
do viajamos pela região andina e 
amazônica, onde essas populações 
estão particularmente representadas, 
vemos estradas cheias de painéis ins-
talados pelo Estado com recomenda-
ções: “Cuide do meio ambiente”,“Cui-
de da natureza, você depende dela”, 
“Natureza é vida”, “A Terra merece res-
peito, cuide dela”. Para Carlos Freire, 
no entanto, a Pachamama é bem real: 
“Ela é sagrada, é nossa mãe. Devemos 
respeitá-la”. Mestiço e habitante de 
Puyo, ele dirige a agência Hayawaska 
Tour, que oferece passeios turísticos 
na Amazônia. “Organizamos o pro-
grama de nossos passeios de acordo 
com o que os turistas querem ver e em 
seguida os apresentamos às comuni-
dades. Em nosso Full Day Tour [pas-
seio de um dia], oferecemos oficinas 
com essas populações. Mas o mais pe-
dido é o Ayahuaska Tour. Trabalha-
mos com xamãs que sabem fazer o 
bom uso da ayahuasca [bebida aluci-
nógena].4 É um momento especial em 
que as pessoas podem viver coisas 
profundas em perfeita conexão com a 
natureza. No dia seguinte, elas se le-
vantam e comem um caldo de frango 
puro, sem produtos químicos. Tam-
bém temos menus vegetarianos.”
A promoção de circuitos neo-New 
Age de Freire passa por uma oposição 
militante aos projetos petrolíferos, em 
nome da defesa da Pachamama – uma 
luta à qual se dedica totalmente o Toxi 
Tour da associação dirigida por Dio-
cles Zambrano, nas proximidades de 
Coca, cidade amazônica localizada 
perto de poços petrolíferos. A visita 
tem o objetivo de ilustrar “o horror da 
exploração petrolífera”, em parceria 
com a ONG Acción Ecológica. Com se-
de em Quito, a organização tem Acosta 
entre seus mais eminentes apoiado-
res. Resultado? Ela se tornou obrigató-
ria para os jornalistas que queiram in-
vestigar a questão ambiental no 
Equador. Bastante profissional, a Ac-
ción Ecológica dá tudo mastigado, for-
necendo todos os contatos úteis.
Para Acosta, bem como para movi-
mentos ambientais próximos à Acción 
Ecológica, como os Yasunido,5 e mui-
tos dos atuais líderes da Confederação 
de Nacionalidades Indígenas do Equa-
dor (Conaie), ecologia, antiextrativis-
mo e indigenismo se tornaram insepa-
ráveis. Assim, as reivindicações sociais, 
territoriais e culturais tradicionais são 
feitas em nome da Pachamama. É a 
mesma lógica para alguns líderes polí-
ticos, indígenas ou não, para os quais a 
divindade seria um vetor da luta contra 
o aquecimento global e o capitalismo.
A situação não é exclusiva do Equa-
dor. A antropóloga Sarah Quilleré pes-
quisa as lutas do povo Wayuu na Co-
lômbia. Segundo ela, “a retórica 
indigenista e a ecologização do dis-
curso dos líderes wayuus são certa-
mente o elemento mais marcante” em 
seu movimento “contra a destruição e 
a espoliação do território”. O fenôme-
no responderia “à crescente preocu-
pação ecológica nos países mais in-
dustrializados”. A tendência dos 
pensadores “nos quais se inspiram 
amplamente as organizações indíge-
nas e as ONGs é dizer que devemos 
procurar nas tradições pré-coloniais 
as lógicas alternativas ao modelo ra-
cional europeu. Essas novas correntes 
de pensamento propõem reabilitar os 
valores tradicionais como único meio 
de emancipação e sobrevivência autô-
noma das populações”.6
MARX E FREUD, PONCHO E IOGA
No Equador, ninguém encarna 
melhor o fenômeno da “pachamami-
zação” da política – uma forma de eco-
logização indigenizante, ou de indige-
nização ecologizante – do que Carlos 
Pérez, presidente da Ecuarunari, que 
representa os indígenas da região 
montanhosa. Muito respeitado pela 
esquerda ambientalista internacional 
e radicalmente oposto ao ex-presiden-
te Correa, Pérez explica que, não ten-
do sido contaminados pelo Ocidente, 
os indígenas detêm uma “verdade an-
cestral” sobre o mundo “que pode sal-
var a humanidade”. A internet daria os 
meios de “globalizar a resistência” aos 
projetos de mineração e extração de 
petróleo e, de maneira mais geral, à 
política “capitalista, ‘ecocida’ e ‘etno-
cida’”. Como globalizar a resistência? 
“Globalizando a Pachamama, as cos-
movisões, as cosmoexperiências”, ex-
plica Pérez. Ou melhor, “Yaku” Pérez, 
já que ele recentemente decidiu indi-
genizar seu nome.
Aqueles que, como os Sápara, esco-
lhem outra via para satisfazer suas ne-
cessidades básicas observam que não 
apenas as ONGs frequentemente desis-
tem de ajudar as comunidades que op-
taram por “colaborar” com o Estado, 
mas que a própria Conaie os marginali-
za. Essa situação não surpreende Anto-
nio Vargas, ex-presidente da confedera-
ção: à medida que a organização se 
envolveu no jogo das alianças políticas, 
ela “se separou de sua base”, avalia.7
Se alguns dos atuais líderes da Co-
naie aprovaram a decisão de apoiar o 
banqueiro Guillermo Lasso em 2017, 
talvez seja porque os militantes histó-
ricos de orientação marxista – como 
Humberto Cholango, Ricardo Ulcuan-
go, Pedro de la Cruz e Miguel Lluco –, 
para os quais a luta indígena é entendi-
da em termos de luta de classes, decidi-
ram apoiar Correa durante toda a sua 
presidência. O fenômeno deixou o 
campo aberto para outros líderes, co-
mo Quishpe e Pérez, partidários de 
uma forma de essencialismo indígena.
“As questões dos direitos da natu-
reza ou do Sumak Kawsay não faziam 
parte das reivindicações indígenas na 
década de 1990”, explica o cientista po-
lítico Franklin Ramírez. “Foi no início 
da Revolução Cidadã [após a eleição de 
Correa] e principalmente com a As-
sembleia Constituinte de 2008 – sob a 
liderança de Acosta – que esses temas 
realmente entraram no cenário políti-
co e ganharam grande visibilidade. 
Muita gente pensa que o movimento 
indígena sempre usou a retórica ecolo-
gista, mas não é o caso.”
Depois de mergulhar nos docu-
mentos programáticos da Conaie dos 
anos 1990, Ramírez observa que as rei-
vindicações indígenas da época gira-
vam em torno da plurinacionalidade, 
da terra, da representação no Estado e 
da promoção de uma forma de autoges-
tão, de democracia comunitária. “Nes-
se quadro entrava, de maneira colateral 
e periférica, a questão da natureza e dos 
recursos naturais. Para os movimentos 
indígenas dessa época, a resposta para 
o problema da proteção do meio am-
biente, da natureza, era a autonomia in-
dígena e a aquisição do poder territorial 
sobre os recursos.” Ramírez concorda 
com Floresmilo Simbaña, líder e inte-
lectual da Conaie, em dizer que a deci-
são de levantar a bandeira do Sumak 
Kawsay e da Pachamama foi uma for-
ma de Correa neutralizar a delicada 
questão da plurinacionalidade, colo-
cando-a em segundo plano.
A despolitização da Pachamama – 
que possibilitou sua repolitização con-
servadora – teve início, segundo Ramí-
rez, quando as lutas políticas indígenas 
ganharam grande visibilidade, na dé-
cada de 1990: “Na época, eu tinha cole-
gas na universidade que eram marxis-
tas ou freudianos e se indigenizaram. 
Começaram a usar trança, chapéu, 
poncho. Iam falar sobre a Pachamama 
na TV. Houve um processo impressio-
nante de reindigenização, acompanha-
do do surgimento de serviços espiri-
tuais étnicos: xamãs, rituais de 
ayahuasca, igrejas etc. Muita gente do 
meu círculo, gente urbana de Quito, 
mergulhou nessa onda, sobretudo a 
pequena e a grande burguesia. Agora 
é a ioga. Aliás, essa visão pachama-
mista do mundo lembra um pouco al-
gumas formas de ioga: os problemas 
estão no interior. É uma forma de per-
sonalizar a questão da transformação 
das coisas e de abandonar as lutas po-
líticas fundamentais”.
A redução da Pachamama à sua di-
mensão espiritualizante e ecologizante 
assegura a Acosta certo sucesso no exte-
rior. “Estou sempre viajando para a Eu-
ropa, especialmente para a Alemanha, 
a Áustria, a Espanha e a Itália”, explica 
por Skype, por causa de suas viagens 
constantes. “Mas também para muitos 
países da América Latina. Sou convida-
do pelas universidades e pelos movi-
mentos sociais. Por exemplo, hoje vou 
para a Alemanha – onde vou receber 
um prêmio – para falar sobre direitos da 
natureza e sobre todas as transforma-
ções civilizacionais que permitem sairde um mundo antropocêntrico para 
um mundo biocêntrico.” 
*Maëlle Mariette é jornalista.
1 Nossa reportagem incluiu 39 horas de entrevistas 
com 74 pessoas em trinta comunidades, sendo 21 
delas indígenas, percorrendo mais de 4 mil quilô-
metros em todo o Equador.
2 Roberto Ojeda, “Pachamama contra el capitalis-
mo” [Pachamama contra o capitalismo], Erosión. 
Revista de Pensamiento Anarquista, Santiago do 
Chile, n.2, 2013.
3 Ler Renaud Lambert, “Le spectre du pachamamis-
me” [O fantasma do pachamamismo], Le Monde 
Diplomatique, fev. 2011.
4 Ler Jean-Loup Amselle, “Febre xamânica na Ama-
zônia peruana”, Le Monde Diplomatique Brasil, 
jan. 2014.
5 Grupo militante que se opõe à decisão do governo 
de explorar parte do parque natural Yasuní, consti-
tuído após o fracasso da iniciativa Yasuní-ITT. Ler 
Aurélien Bernier, “A biodiversidade do Equador 
nas mãos da solidariedade internacional”, Le Mon-
de Diplomatique Brasil, jun. 2012.
6 Sarah Quilleré, “Écologisation et standardisation 
des mythes traditionnels, reconfiguration des con-
naissances locales et nouveaux concepts. Les 
Wayuu en lutte pour la sauvegarde du territoire” 
[Ecologização e padronização dos mitos tradicio-
nais, reconfiguração dos conhecimentos locais e 
novos conceitos. Os Wayuu lutam em defesa do 
território], Revue d’Anthropologie des Connais-
sances, Paris, v.10, n.4, 2016.
7 “Bases indígenas desde Santo Domingo exigen 
‘diálogo directo con el gobierno’ sin Conaie” [Ba-
ses indígenas em Santo Domingo exigem “diálogo 
direto com o governo” sem a Conaie], El Telégrafo, 
Guayaquil, 23 fev. 2015.
30 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
QUANDO NEM TODAS AS VÍTIMAS DE ATENTADO TÊM O MESMO VALOR
Como custa caro e gera menos audiência que as fofocas 
sobre a vida dos famosos, a informação internacional não é 
prioridade para as direções editoriais. Alguns países geográfica 
e culturalmente próximos beneficiam-se, contudo, de uma 
cobertura melhor. O tratamento dado aos atentados ilustra 
essa dinâmica de forma bastante clara
POR TÉO CAZENAVES*
Longe dos olhos, 
longe do coração
N
o dia 2 de novembro de 2017, os 
ouvintes da programação ma-
tutina da France Inter puderam 
viver um momento radiofônico 
singular. Em sua crônica semanal, Ni-
cole Ferroni queixou-se que tinha sido 
convidada a modificar sua interven-
ção – destinada originalmente ao as-
sédio sexual – em vista dos eventos 
ocorridos no dia 31 de outubro em No-
va York: o motorista de um veículo 
atropelou intencionalmente vários pe-
destres, causando a morte de oito e 
deixando doze feridos. Visivelmente 
incomodado, Nicolas Demorand rea-
giu: “Você descobriu, minha cara Ni-
cole, que o real às vezes nos atinge”. 
Deu-se um silêncio atordoante. “É me-
lhor não falar sobre isso...; é essa, se 
entendi bem, a moral da crônica?”, ele 
continuou. A cronista explicou que 
questionava “a importância do fato de 
se falar disso com tanta frequência”. O 
apresentador do segundo programa 
matutino mais escutado da França 
concluiu com estas palavras: “Obriga-
do. Infelizmente há atentados com 
tanta frequência, e falamos deles ten-
tando refletir também”.
Naquela semana, os jornais das 8 
horas da France Inter dedicaram 6 mi-
nutos e 26 segundos ao atentado em 
Manhattan. Duas semanas antes, o de 
Mogadíscio, o ataque terrorista mais 
mortífero da história africana, com 
512 mortos,1 não teve direito a mais 
que breves 21 segundos no jornal das 8 
da principal emissora de rádio públi-
ca, ou seja, dezoito vezes menos. Entre 
18 e 24 de agosto de 2017, os ataques de 
Barcelona e de Cambrils – reivindica-
dos pela organização Estado Islâmico, 
com dezesseis mortos, tinham sido 
noticiados nos mesmos jornais duran-
te 24 minutos e 50 segundos, ou seja, 
71 vezes mais que o de Mogadíscio. Es-
ses três atentados, que ocorreram em 
um curto lapso de tempo em pontos 
diversos do mundo, fornecem um bom 
exemplo da importância muito variá-
vel atribuída pelos jornalistas a esse ti-
po de acontecimento.
Com notável exceção da Radio 
France Internationale (RFI), todos os 
meios de comunicação analisados re-
servaram aos atentados catalães um 
tratamento quantitativo visivelmente 
superior ao que deram ao massacre de 
Mogadíscio. Assim, a Télévision Fran-
çaise 1 (TF1) abriu seis vezes seu jornal 
das 20 horas com chamadas sobre es-
ses acontecimentos, aos quais o canal 
de TV consagrou 1 hora, 1 minuto e 17 
segundos entre os dias 17 e 23 de agos-
to. Mas, entre 14 e 20 de outubro, ela 
dedicou apenas 1 minuto e 40 segun-
dos ao ataque de Mogadíscio, ou seja, 
uma relação de 1 para 44.
Será que é preciso aceitar como ex-
plicação a curta distância que separa 
Barcelona da sede das redações pari-
sienses, o que se chama em algumas 
escolas de jornalismo de “jornalismo 
de proximidade” ou de “morte quilo-
métrica”? O simples critério da proxi-
midade geográfica cai quando se com-
para o tratamento dado pela TF1 aos 
atentados de Nova York e de Mogadís-
cio, cidades situadas, respectivamente, 
a 5.845 km e a 6.625 km de Paris. Entre 
1º e 7 de novembro, os acontecimentos 
de Nova York foram lembrados três ve-
zes, ao todo durante 21 minutos e 15 
segundos, ou seja, quinze vezes mais 
que o tempo de difusão reservado aos 
mortos na Somália.
Entre os fatores que determinam a 
intensidade da cobertura dada à Áfri-
ca, poderiam figurar o envolvimento 
do Exército francês ou a presença de 
franceses entre as vítimas. A presença 
de jornalistas na área também parece 
crucial: nenhuma das três rádios – 
France Inter, RTL, Europe 1 –, que con-
tam com as maiores audiências mati-
nais, dispõem de correspondentes 
permanentes na África. A France 2 
mantém um em Dacar, apesar do fe-
chamento de sua agência especializa-
da em 2014,2 enquanto a TF1 só traba-
lha desde então com jornalistas 
freelancers no continente. Na impren-
1 “Le bilan de l’attentat en Somalie en octobre bondit 
à 512 morts” [O balanço do atentado na Somália 
em outubro subiu para 512 mortos], LeMonde.fr, 2 
dez. 2017. 
2 Léa Ticlette, “AITV victime de l’évolution des objec-
tifs de France TV” [AITV, vítima da evolução dos 
objetivos da France TV], RFI.fr, 9 dez. 2014.
sa diária, o Le Monde conta com dois 
correspondentes permanentes, que 
enviam notícias respectivamente de 
Johannesburgo e Túnis; o Le Figaro 
não dispõe mais de nenhum jornalista 
mensalista na África. Somente a RFI se 
distingue, uma vez que a rede pública 
– que tem como slogan “As vozes do 
mundo” – conta com quatro corres-
pondentes a postos em Dacar, Abidjan, 
Kinshasa e Nairóbi. O tratamento que 
deu aos três atentados é muito menos 
desequilibrado do que todos os outros 
meios de comunicação juntos.
“Evitemos a overdose midiática 
após os atentados” foi o título de um 
artigo publicado pelo Le Monde em 25 
de agosto de 2017. No que diz respeito 
aos mortos em Mogadíscio, aos quais o 
diário vespertino consagrou oito vezes 
menos caracteres que aos de Barcelo-
na e de Cambrils, a overdose sem dúvi-
da foi evitada. 
*Téo Cazenaves é jornalista.
31MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
REINÍCIO DA GUERRA FRIA
A anexação da Crimeia, a guerra na Ucrânia e a difusão de notícias falsas transformaram Moscou em alvo regular, 
por vezes obsessivo, da mídia ocidental. Uma emissora pública voltada ao conhecimento e à cultura poderia ter resistido 
a isso. Porém, por meio de séries e documentários, o canal francês Arte parece obstinado a fazer a escolha inversa
POR SERGE HALIMI*
Quando a TV quer sangrar a Rússia
V
inte episódios da série noruegue-
sa Occupied já foram exibidos pe-
lo canal público franco-alemão 
Arte. Ficção ou advertência? Mos-
cou ocupa a Noruega (com a anuência 
da União Europeia) para garantir a en-
trega de gás e petróleo desse país. A 
União Europeia não tem um bom pa-
pel na série,mas é a Rússia que inva-
de, manipula, ameaça, mata. Não se 
trata, no entanto, nos dizem, de 
“designar um vilão”. A embaixada 
russa em Oslo inclusive foi informa-
da do projeto.
É duvidoso que o resultado lhe 
agrade. A série é angustiante, o parale-
lo entre russos e nazistas (que, eles 
sim, ocuparam a Noruega) é forte-
mente sugerido, já que o primeiro-mi-
nistro norueguês, que colabora com 
Moscou, é comparado a Vidkun Quis-
ling e a Philippe Pétain (que governa-
ram noruegueses e franceses sob ocu-
pação nazista). Quando a segunda 
temporada, que acabou de ser difun-
dida, foi concebida, a anexação da Cri-
meia tinha acabado de acontecer. “Es-
távamos em paralelo com a realidade”, 
triunfavam as produtoras. 
A Arte também poderia ter desen-
volvido um “paralelo com a realidade” 
colocando em cena a China e uma ilha 
do Pacífico, os Estados Unidos e Cuba, 
a França e a República Centro-Africa-
na, Israel e a Palestina. Mas os tempos 
que correm, de uma nova guerra fria 
entre Washington e Moscou, sugerem 
que isso seria menos cômodo e que a 
Rússia constitui o culpado ideal para 
esse tipo de divertimento.
Uma suspeita confirmada pela edi-
ção do programa Thema de 16 de janei-
ro de 2018. E não na ficção, mas na his-
tória recente e flamejante. Um ano 
depois da eleição de Donald Trump, a 
Arte exibiu um documentário norte-a-
mericano intitulado, em francês, Pou-
tine contre les USA [Putin contra os 
EUA] (nos Estados Unidos, ele se cha-
mava A vingança de Putin). Ele daria 
“pela primeira vez a palavra a antigos 
membros da equipe de Barack Obama, 
a membros da CIA”, conforme anun-
ciado triunfalmente pela apresentado-
ra da Arte, encantada com tal esforço 
de equilíbrio e exaustividade. A trama 
se resumia a uma ideia. Em 2016, no 
momento da eleição norte-americana, 
“Putin teve finalmente sua vingança, 
que deve apagar os enfrentamentos de 
toda uma vida”. Uma “luta épica” acon-
teceu então “entre o dirigente russo e a 
democracia norte-americana”. O canal 
público russo RT foi reprovado por seu 
maniqueísmo e sua tendência à mani-
pulação. Mas nessa noite, sobre esses 
dois planos, a Arte ganhou da RT...
“Nossa história começa em 31 de 
dezembro de 1999”, dia em que Boris 
Iéltsin transmitiu seus poderes a Pu-
tin, “seu obscuro primeiro-ministro, 
um antigo oficial da KGB”. As coisas se 
degeneraram bem rápido entre o “an-
tigo espião” e o “homem político pro-
gressista que tenta instaurar a demo-
cracia na Rússia”: a imprensa ficou de 
fora; os oponentes, na prisão; o Oci-
dente voltou a ser o inimigo. “Pouco 
antes de sua morte, Iéltsin disse a seus 
próximos que cometera um grave erro 
ao escolher Putin como sucessor.”
OMISSÕES CHOCANTES
Ousemos aqui alguns pequenos re-
toques. O essencial do desmantela-
mento da economia soviética foi im-
posto por decreto presidencial, não 
pelos deputados eleitos pelo povo rus-
so. Quando eles se opuseram à “tera-
pia de choque” de Iéltsin, este dispa-
rou um canhão sobre o Parlamento. 
Ele modificou em seguida a Constitui-
ção por meio de um plebiscito (mani-
pulado) e foi reeleito depois de ter mo-
nopolizado a mídia, fraudado as urnas 
e apelado para conselheiros norte-a-
mericanos. Todas essas façanhas de-
mocráticas o tornaram muito popular 
em Washington, Berlim e Paris, mas 
um pouco menos em seu próprio país.
Foi então que Putin se impôs, sobre 
quem o documentário estampa um re-
trato sem nuances: “Um oficial de con-
traespionagem [da KGB] é alguém que 
se banha nas teorias do complô, para 
quem o inimigo está em toda parte e 
deve ser eliminado”. Desde junho de 
2000, quando recebeu o presidente Bill 
Clinton em Moscou, “Putin quis mos-
trar que era o macho dominante na sa-
la, sentado com as pernas abertas, 
bem afundado na sua poltrona”. A 
imagem de arquivo confirma que Pu-
tin está de fato com as pernas abertas, 
mas somente um pouco mais que 
Clinton, que por sua vez tem a reputa-
ção de não controlar sua libido...
PUTIN, UM VALENTÃO DE ESCOLA
“Revoluções de cor” na Geórgia e 
na Ucrânia, revoltas árabes: “Putin 
entende que, de um momento para o 
outro, vai chegar sua vez. Virão para 
tirá-lo do poder também. Esta angús-
tia se torna a força motriz de seu regi-
me”. O presidente russo, inclusive, 
não deixaria de rever as imagens do 
linchamento de seu “aliado” Muamar 
Kadafi. As mesmas que provocaram 
gargalhadas de Hillary Clinton, então 
secretária de Estado, pontuadas por 
um famoso “Viemos, vimos, está mor-
to”. Putin, cujas meditações não com-
portam nenhum mistério para a Arte, 
se pergunta sem cessar desde então: 
“Será que isso poderia acontecer co-
migo? Não somente perder um cargo 
que eu aprecio, mas também minha 
liberdade, minha vida?”.
Daí vem seu desejo de vingança... 
A ocasião apareceu na eleição em 2016 
nos Estados Unidos, quando “a Rússia 
de Putin vai atingir a democracia nor-
te-americana em pleno coração”. Pe-
na, Moscou só enfrentou então ma-
chos dominados que, assim como 
Obama, temiam a Rússia a ponto de 
recusarem entregar armas para a 
Ucrânia. Ficou a cargo de John Bren-
nan, antigo diretor da CIA, tirar lições 
de toda essa história: “Eu repensei 
meus anos de juventude nos cursos da 
escola em New Jersey. Sempre havia 
os pequenos valentões que queriam 
nos intimidar, e eles não paravam en-
quanto a gente não fizesse o nariz de-
les sangrar. Eu me disse que uma pe-
quena hemorragia das fossas nasais 
faria bem a Putin. Ele recuaria, pois, 
como a maioria dos brutamontes, ele 
teria entendido que não poderia mais 
bancar o fortão”.
Em 18 de abril de 1985, cinco sema-
nas depois da chegada ao poder de 
Mikhail Gorbachev, a rede pública 
francesa FR3 exibiu um documento de 
ficção política, La guerre en face [A 
guerra em frente], que anunciava a in-
vasão da Europa ocidental pelo Exérci-
to Vermelho.1 Na época, a Noruega não 
teria sido o suficiente. Trinta e três 
anos se passaram; a maioria dos anti-
gos Estados do Pacto de Varsóvia pen-
deu para o campo norte-americano; a 
União Soviética se deslocou; a renda 
nacional anual da Rússia caiu para 
menos que a da Itália. O orçamento 
militar russo representa um décimo 
daquele dos Estados Unidos. Mas, co-
mo a Arte nos lembra, quando temos 
um inimigo, é para a vida inteira. 
*Serge Halimi é diretor do Le Monde 
Diplomatique.
1 Ler Paul-Marie de la Gorce, “‘La guerre en face’: 
fantasmes et manipulations” [“A guerra em frente”: 
fantasias e manipulações], Le Monde Diplomati-
que, maio 1985.
Vladimir Putin durante celebração do Dia de Reis
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32 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
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BASTAM IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO?
Nos anos 1980 e 1990, a ideia de que não existia alternativa às democracias de mercado resultou em uma forma 
de fatalismo. No entanto, a reascensão dos protestos nos últimos vinte anos recolocou os enfrentamentos ideológicos 
em primeiro plano, a ponto, muitas vezes, de se atribuir à batalha das ideias um papel e um poder que ela não possui
POR RAZMIG KEUCHEYAN*
O que as “batalhas culturais” não são
E
m um artigo publicado em ja-
neiro de 2018, Najat Vallaud-
-Belkacem, ex-ministra da Edu-
cação da França, repetiu, depois 
de muitos outros, que o Partido Socia-
lista perdeu a “batalha cultural” – ex-
pressão que aparece quatro vezes no 
texto.1 Quando François Hollande ven-
ceu a eleição presidencial de 2012, o 
Partido Socialista detinha, no entanto, 
todas as rédeas do poder: o Palácio do 
Eliseu, Matignon (residência do pri-
meiro-ministro), a Assembleia Nacio-
nal, o Senado e 21 regiões em 22. Nada 
parecia impedir a aplicação da política 
de esquerda que Vallaud-Belkacem, no 
governo durante toda a duração do 
quinquênio (2012-2017), defendeu re-
trospectivamente. O motivo? Ventos 
contráriossopravam, ao que parece 
com muita força. A batalha cultural, 
esse gênio misterioso que refreia o ar-
dor de sucessivos governos de esquer-
da, estava perdida.
No seio da esquerda – de todos os 
matizes –, circulam agora ideias que 
parecem politicamente adequadas, 
mas se revelam perigosas. Uma delas é 
o argumento dos “99%”.2 Apoiando-se 
em estatísticas estabelecidas pelos 
economistas Emmanuel Saez e Tho-
mas Piketty, o movimento Occupy 
Wall Street disseminou em 2011 a no-
ção de que a humanidade se divide em 
dois grupos: um, o 1%, são os mais ri-
cos, que açambarcam quase todos os 
benefícios do crescimento; o outro, os 
99%, sofre de desigualdades cada vez 
mais gritantes. O argumento se mos-
trou eficaz por algum tempo, suscitan-
do mobilizações em diversos países. 
Mas um problema logo surgiu: os 99% 
formam um conjunto extremamente 
díspar. Essa categoria inclui tanto os 
habitantes das favelas de Nova Déli e 
do Rio de Janeiro quanto os prósperos 
residentes de Neuilly-sur-Seine e de 
Manhattan que não são ricos o sufi-
ciente para integrar o 1%. É difícil ima-
ginar que os interesses dessas popula-
ções sejam os mesmos ou que elas 
venham a constituir, no futuro, um 
grupo político coerente.
O argumento da batalha cultural 
sofre de um defeito análogo. Não é a 
bem dizer falso, mas aponta para uma 
estratégia política problemática. En-
contramo-lo frequentemente na es-
querda, do Partido Socialista à França 
Insubmissa [France Insoumise], mas 
também na direita, sobretudo nas cor-
rentes que se dizem herdeiras da “no-
va direita”. O argumento vem de uma 
leitura apressada de Antonio Gramsci 
e seu conceito de hegemonia. A ideia é 
simples: a política repousa, em última 
instância, na cultura. Aplicar uma po-
lítica supõe, primeiro, que o vocabulá-
rio e a “visão de mundo” sobre as quais 
ela se apoia sejam impostos ao maior 
número de pessoas. Não é que os go-
vernos não apliquem seu programa 
porque lhes falta coragem e ambição 
ou porque se recusam a defender os in-
teresses daqueles que os elegeram: 
eles não o fazem porque o “clima” po-
lítico se opõe à sua aplicação. Seria, as-
sim, necessário modificar a atmosfera 
para tornar concebível essa política.
Na era do Facebook e do Twitter, é 
fácil entender o apelo desse argumen-
to. Subscrevendo-o, podemos fazer 
política confortavelmente em casa, 
diante da tela do computador. Deixar 
um comentário num site ou escrever 
um tuíte odiento são agora atos políti-
cos por excelência. É o mesmo que pu-
blicar petições ou libelos vingativos 
nas colunas dos jornais já quase sem 
leitores, alimentando a esperança de 
que “caiam na net”.
IDENTIFICAR OS VETORES DA MUDANÇA
A batalha cultural tem, sem dúvi-
da, sua importância. A China, por 
exemplo, leva hoje muito a sério o de-
safio de seu soft power. Trata-se de um 
conceito elaborado pelo cientista polí-
tico norte-americano Joseph Nye, que 
foi consultor de várias administrações 
democratas desde Jimmy Carter. Se-
gundo Nye, no século XXI o poder de 
um país se mede menos por seu hard 
power, isto é, seu poderio militar, do 
que por sua capacidade de influenciar 
a esfera pública global, dando uma 
imagem positiva de si mesmo.
O governo chinês organiza assim a 
atuação dos netizens (contração de net 
e citizens, “internet” e “cidadãos”), pes-
soas que entram na rede para defender 
os interesses de seu país.3 Como suge-
riu o presidente Xi Jinping em discurso 
ao 19º Congresso do Partido Comunis-
ta Chinês em outubro de 2017, o impor-
tante é “contar a história da China e 
construir seu soft power” difundindo 
na rede uma “energia positiva”. Sim, 
mas... por trás dos batalhões de neti-
zens chineses está uma das grandes 
potências mundiais. A China não ocu-
pa seu posto nas relações internacio-
nais por causa do soft power ou de uma 
batalha cultural, e sim em razão da for-
ça econômica, que o dirigente preten-
de transformar em força militar.
A expressão “batalha cultural” deve 
parte de seu sucesso à hipótese segun-
do a qual, no curso das últimas déca-
das, a direita teria imposto suas ideias, 
dando nascença à mistura de neolibe-
ralismo econômico e conservadorismo 
moral em que estamos desde então.
No entanto, para começar, a direita 
não precisou realmente vencer a bata-
lha cultural, pois suas categorias fun-
33MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
dadoras, como a propriedade privada 
dos meios de produção e a economia 
de mercado, não são seriamente con-
testadas desde meados dos anos 1970. 
Mesmo a impressão de que 1968 repre-
sentou uma “idade de ouro” para a es-
querda, isto é, de que suas ideias eram 
então hegemônicas, não passa, em 
grande parte, de uma ilusão retros-
pectiva: na França, a direita ocupou o 
poder sem descontinuidade durante 
todo o período. As políticas redistribu-
tivas e de reconhecimento dos direitos 
das mulheres que ela concedeu foram 
introduzidas menos em consequência 
de uma “batalha de ideias” do que da 
pressão do Bloco do Leste e de vigoro-
sos movimentos sociais.
Nem mesmo se pode dizer que o ra-
cismo, cuja recrudescência é às vezes 
apresentada como sintoma de uma “di-
reitização” da sociedade atual, se agra-
vou, embora tenha mudado de forma. A 
sociedade francesa dos anos 1960 e 
1970 não era decerto menos racista que 
a atual.4 A partir da década de 1970, o 
capitalismo sofreu profundas transfor-
mações: financeirização, desmorona-
mento do Bloco do Leste e sua integra-
ção à economia mundial, virada 
capitalista da China, desindustrializa-
ção dos antigos centros, crise do movi-
mento operário, construção neoliberal 
da Europa... No contexto de crise e rees-
truturação do sistema, a direita se man-
tinha alerta para aproveitar todas as 
oportunidades. E ela o fez, enviando ao 
debate público ideias coerentes na esfe-
ra política e econômica. Entretanto, a 
nova hegemonia neoliberal só emergiu 
após abalos estruturais que enfraque-
ceram objetivamente as forças progres-
sistas. Esperar que vencer a “batalha 
das ideias” basta para modificar o siste-
ma é se expor a desilusões.
O argumento dos 99% e o da bata-
lha cultural provêm de uma mesma 
concepção do mundo social: a que 
considera a sociedade um corpo ho-
mogêneo, um espaço “fluido” capaz de 
ser influenciado num sentido ou em 
outro por meio de discursos. As teorias 
de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, 
fontes de inspiração do Podemos5 e da 
França Insubmissa, são exemplos des-
sa concepção.
Os adeptos do movimento dirigido 
por Jean-Luc Mélenchon criaram no 
início do ano um canal de TV batizado 
de Le Média e fundaram uma escola de 
formação. No dizer de seus apresenta-
dores, esses dispositivos visam travar a 
batalha cultural, preparando o terreno 
para outras políticas.6 Desse modo, a 
França Insubmissa se inspira, atuali-
zando-as, em instituições social-de-
mocratas e comunistas: o jornal operá-
rio e a escola de formação de quadros, 
que permitiriam a difusão, entre os 
militantes e no seio de sua base social, 
de uma visão coerente do mundo.
Falta, porém, um elemento essen-
cial: quais classes sociais ou coalizões 
de classes serão os vetores da mudan-
ça? A quem se dirigem prioritariamente 
o Le Média e a escola de formação? Os 
comunistas tinham por ponto de apoio 
a classe operária e as classes aliadas (o 
campesinato e frações dominadas das 
classes médias, principalmente). O 
“bloco social” visado pelo jornal operá-
rio e a escola de quadros era esse. Mas e 
no caso da França Insubmissa? Uma 
“visão de mundo” só se torna politica-
mente eficaz quando é a de uma coali-
zão de classes que se opõem a outras 
classes. Resta, pois, imaginar os contor-
nos de um “bloco social” futuro.
Contrariamente ao que alguns in-
térpretes lhe atribuem, Gramsci ja-
mais pretendeu fazer da batalha cul-
tural o cerne da luta de classes. Citandoa evolução do marxismo em sua épo-
ca, ele afirma que “a fase mais recente 
de seu desenvolvimento consiste jus-
tamente na reivindicação do momen-
to da hegemonia como dado essencial 
de sua concepção de Estado e na ‘valo-
rização’ do fato cultural, da atividade 
cultural, da necessidade de uma frente 
cultural ao lado das frentes puramente 
econômicas e políticas”.7 Articular 
uma “frente cultural” com as frentes 
econômica e política já existentes: eis 
sua grande ideia. Isso não supõe, em 
nenhum caso, uma preeminência da 
“frente cultural” sobre as outras. Nem 
que essa frente se torne apanágio de 
militantes que operam na esfera das 
ideias. Para Gramsci, o sindicalismo 
quase sempre se antepõe à “frente cul-
tural”. Nas lutas que ele organiza, per-
mite que evoluam as relações de forças 
e deixa entrever, assim, a possibilidade 
de um outro mundo. “Cultura”, para 
Gramsci, é coisa bem diferente daquilo 
que em geral designamos com esse ter-
mo. A noção de “hegemonia cultural” 
não designa a peroração sem fim de in-
telectuais ou dirigentes contestadores 
nas mídias dominantes, mas a capaci-
dade de um partido de forjar e condu-
zir um bloco social amplificado, para 
despertar a consciência de classe. 
Exemplos não faltam, nem em sua épo-
ca nem hoje. 
Em dezembro de 2017, os emprega-
dos da firma de limpeza Onet, na área 
de Paris, obtiveram uma vitória im-
portante.8 Esses terceirizados da So-
ciété Nationale des Chemins de Fer 
(SNCF) [Empresa Nacional das Ferro-
vias] encarregados da faxina das esta-
ções reivindicavam sua entrada para a 
convenção coletiva da manutenção 
ferroviária da SNCF, a retirada de uma 
cláusula de mobilidade que os obriga-
va a fazer longos deslocamentos, o au-
mento do auxílio-alimentação e a re-
gularização dos colegas sem carteira 
assinada. Ao fim de uma greve de 45 
dias, tiveram suas principais reivindi-
cações atendidas. Essa luta parecia 
improvável pelo fato de ser dirigida 
por imigrantes recentes, no seio de 
uma empresa subcontratada e num 
setor em que a interrupção do traba-
lho não tem grande impacto sobre o 
andamento da vida social. Paralisar 
uma refinaria é paralisar o país; mas 
1 Najat Vallaud-Belkacem, “Éloge de l’imperfection 
en politique” [Elogio da imperfeição em política], 
Le Nouveau Magazine Littéraire, Paris, jan. 2018.
2 Ver Serge Halimi, “A falácia dos 99%”, Le Monde 
Diplomatique Brasil, ago. 2017.
3 Cf. Yuan Yang, “China’s Communist party raises 
army of nationalist trolls” [Partido Comunista da 
China mobiliza um exército de trolls nacionalistas], 
Financial Times, Londres, 29 dez. 2017.
4 Cf., por exemplo, Yvan Gastaut, “La flambée racis-
te de 1973 en France” [A escalada racista de 1973 
na França], Revue Européenne des Migrations In-
ternationales, Poitiers, v.9, n.2, 1993. Ver igualmen-
te Benoît Bréville, “Integração, a grande obses-
são”, Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2018.
5 Ver Razmig Keucheyan e Renaud Lambert, “Ernes-
to Laclau, inspirador do Podemos”, Le Monde Di-
plomatique Brasil, set. 2015.
6 Cf. Laure Beaudonnet, “Aude Lancelin, auteure de 
‘La Pensée en otage’: ‘Tout le circuit de l’informa-
tion est pollué’” [Aude Lancelin, autora de O pen-
samento refém: “O circuito inteiro da informação 
está poluído”], 20 Minutes, Paris, 10 jan. 2018.
7 Cf. Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et 
guerre de position [Guerra de movimento e guerra 
de posição], textos escolhidos e apresentados por 
Razmig Keucheyan, La Fabrique, Paris, 2012.
8 Cf. Cécile Manchette, “Onet. Victoire éclatante 
des grévistes du nettoyage des gares francilien-
nes” [Onet. Vitória estrondosa dos grevistas da 
limpeza das estações de trem da região de Paris], 
Révolution Permanente, 15 dez. 2017. 
deixar de limpar uma estação periféri-
ca em Seine-Saint-Denis...?
Contudo, à força de perseverança, 
os grevistas e seus delegados sindicais 
levaram a melhor. As transformações 
estruturais do capitalismo, desde os 
anos 1970, mudaram a classe operária. 
Ela não desapareceu, é claro, mas se 
tornou mais diversificada social, étni-
ca e espacialmente. Travar a “batalha 
das ideias” consiste em politizar essas 
novas classes populares por meio de 
lutas semelhantes à empreendida pe-
los empregados da Onet. Sua vitória 
mostra que o improvável continua 
possível. A “frente cultural”, articulada 
às frentes econômica e política, é exa-
tamente isso. Talvez sem saber, os gre-
vistas da Onet sejam os legítimos her-
deiros de Gramsci. 
*Razmig Keucheyan é professor de Socio-
logia da Universidade de Bordeaux, França.
34 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
THE POST, UM FILME DE STEVEN SPIELBERG
POR PIERRE RIMBERT*
A escolha 
dos heróis
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m 22 de janeiro de 2018, os Re-
pórteres sem Fronteiras e a Uni-
versal Pictures International le-
varam convidados ao cinema 
Publicis Drugstore, na Avenida Champ-
s-Élysées, em Paris. Iam assistir ao lan-
çamento de um filme que “ausculta as 
noções de verdade e investigação, colo-
cando o jornalismo no centro da intri-
ga”: The Post, de Steven Spielberg, pro-
jetado nas salas francesas com o título 
de Pentagon Papers (no Brasil, o título é 
The Post: a guerra secreta).
A intriga, inspirada em fatos reais, 
se desenrola nos Estados Unidos, em 
1971. Daniel Ellsberg, analista de think 
tank do Pentágono, assume todos os 
riscos para fotocopiar um documento, 
rotulado como “confidencial”, que 
prova que John Kennedy e Lyndon 
Johnson tinham mentido ao Congres-
so e ao público sobre a Guerra do Viet-
nã, que eles sabiam ser impossível de 
vencer. O New York Times publica um 
resumo, mas uma decisão judicial o 
proíbe de continuar. Modesto cotidia-
no regional, o Washington Post substi-
tuirá seu prestigioso colega? 
Naquela segunda-feira à noite em 
Paris, os jornalistas apareceram em 
grande número para admirar a inter-
pretação de Meryl Streep no papel de 
Katharine Graham, a dona do Post, e 
a de Tom Hanks, que faz o redator-
-chefe. Sensível às batalhas feminis-
tas atuais, o diretor concentrou seu 
relato em uma mulher, e não nos pro-
tagonistas que, de fato, assumiram os 
maiores riscos e desempenharam os 
principais papéis: Ellsberg, o denun-
ciante, processado por “espionagem” 
em virtude de uma lei de 1917 e passí-
vel de prisão perpétua; e a equipe do 
New York Times, que começou tudo. 
Essa escolha cinematograficamente 
correta irritou o redator-chefe inter-
nacional do Times, encarregado de 
supervisionar a publicação dos docu-
mentos em junho de 1971. “É inteira-
mente falso!”, fulminou ao ler o rotei-
ro. “Esse filme é uma fraude.”1 Sim, 
mas também um sucesso: perto de 1 
milhão de ingressos vendidos em três 
semanas de exibição na França.
Na sala cheia do Publicis Drugsto-
re, anunciou-se a presença de Françoi-
se Nyssen, ministra da Cultura, e de 
Harlem Désir, representante da liber-
dade dos meios de comunicação no 
seio da Organização para a Segurança 
e Cooperação na Europa (OSCE). Por 
uma questão de delicadeza, ninguém 
mencionou que em 2013, quando Dé-
sir era primeiro-secretário do Partido 
Socialista, então no poder na França, 
Paris, como várias outras capitais eu-
ropeias, havia recusado o asilo político 
pedido por Edward Snowden, respon-
sável pelos vazamentos sobre a vigi-
lância em massa exercida na internet 
pelos Estados Unidos. Como naquela 
noite se tratava de celebrar Katharine 
Graham, e não Daniel Ellsberg, a che-
fona da imprensa, e não o rebelde, se-
ria inútil estragar o prazer dos espec-
tadores com ruminações morosas 
sobre o destino dos denunciantes 
atuais. Um deles, Julian Assange, fun-
dador do WikiLeaks, está enclausura-
do há mais de cinco anos na embaixa-
da do Equador em Londres; o outro, 
Snowden, continua refugiado na Rús-
sia... sem que Nyssen, a Europa ou o 
PartidoSocialista se preocupem mui-
to com isso.
Do outro lado do Atlântico, os de-
mocratas também não brilham pela 
defesa de uma liberdade de expressão 
que, no entanto, julgam sagrada quan-
do Donald Trump a desafia. “A atitude 
do atual governo incitou você a fazer 
esse filme”, disse a Steven Spielberg 
um jornalista da BBC. “Mas, se anali-
sar os números, você verá que o gover-
no de Barack Obama intentou mais 
processos em virtude da lei de espio-
nagem do que qualquer outro. Ainda 
assim, em Hollywood ninguém se 
apressou a dizer ou fazer qualquer coi-
sa” (17 dez. 2017). “A meu ver, são coi-
sas diferentes”, balbuciou Spielberg, 
ardoroso defensor dos democratas. Já 
Ellsberg reconhece seus herdeiros: 
“Chelsea Manning2 e Edward Snow-
den são meus heróis. Identifico-me 
mais com eles do que com quaisquer 
outras pessoas” (Democracy Now!, 6 
dez. 2017). Mais do que com Katharine 
Graham, sem dúvida, cuja decisão de 
publicar os Pentagon Papers, malgra-
do a proibição, em 18 de junho de 1971, 
encantou os profissionais da informa-
ção reunidos para o lançamento pari-
siense. Certa de seu heroísmo cotidia-
no, a sala aplaudiu calorosamente e 
depois se dispersou para jantar.
Pouco depois, a mídia saudou uma 
“obra-prima” com a qual “Spielberg 
ancora a democracia nas impressoras” 
(Le Monde, 24 jan. 2018); “um apelo 
35MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
bem contemporâneo em favor de um 
contrapoder independente e forte, 
mais necessário que nunca em nossos 
dias” (Télérama, 23 jan. 2018); “uma 
magnífica lição de coragem e demo-
cracia” (Le Journal du Dimanche, 21 
jan. 2018)...
Compreendemos a felicidade pro-
porcionada por uma profissão pintada 
pelo menos uma vez com uma luz fa-
vorável, mas essa recepção barulhenta 
repousa sobre um imenso mal-enten-
dido. A heroína de Spielberg não é re-
pórter, mas proprietária do Washing-
ton Post, o qual herdou do marido. Na 
primavera de 1971, a vimos exprimir 
todo o seu amor pela independência 
editorial... colocando seu jornal na 
Bolsa de Valores. Íntima de Robert Mc-
Namara, ministro da Defesa dos go-
vernos Kennedy e Johnson, tinha ami-
zade também com Henry Kissinger, 
consultor de Richard Nixon. O suspen-
se todo do filme – e a sorte da liberdade 
de imprensa – repousa, pois, na deci-
são econômica de uma dona de em-
presa: irá ela censurar ou não a publi-
cação de um artigo que põe em perigo 
o valor em Bolsa de sua sociedade e de 
seus amigos mundanos? Aqui, a magia 
do cinema e a miséria de uma profis-
são convergem para erigir em ato de 
resistência épica aquilo que deveria 
constituir uma norma: a ausência de 
pressão econômica ou política nas de-
cisões editoriais. A regra teve de virar 
exceção para que se fizesse, do respei-
to a ela, um acontecimento histórico... 
No entanto, não foi dos industriais, 
dos publicitários ou da Bolsa que veio 
uma das reações mais entusiastas ao 
filme de Spielberg. No dia de seu lan-
çamento (23 de janeiro de 2018), o site 
Mediapart consagrou-lhe toda a sua 
página inicial. “Em The Post”, escreveu 
seu diretor, Edwy Plenel, “a questão da 
independência é que está no âmago da 
história: saber resistir às pressões, ou-
sar publicar o que os poderes gosta-
riam de esconder, emancipar-se da tu-
tela dos donos, defender o poder 
soberano da redação.” A superprodu-
ção hollywoodiana comoveu Plenel 
por dois motivos. Primeiro, porque 
“quase não se encontra um grande fil-
me francês que entronize o jornalismo 
como cavaleiro da democracia”, um 
escândalo tanto mais revoltante quan-
to – acompanhem o raciocínio – “a 
curta história do Mediapart, que feste-
jará seus dez anos em março próximo” 
e aguarda apenas um diretor intrépido 
para pôr em cena sua epopeia.
Mais fundamentalmente, Plenel 
atribui a ausência, na França, de um 
“imaginário democrático” tal qual 
cultivado por Spielberg ao “iliberalis-
mo francês, esse privilégio concedido 
ao poder, notadamente sob sua forma 
estatal, e não ao indivíduo e suas audá-
cias solitárias”. Vigiado pelos serviços 
de François Mitterrand nos anos 1980, 
ele conhece bem os limites à liberdade 
de informar impostos pelo Estado. To-
davia, sua queixa omite que ele mes-
mo, em outras circunstâncias, mante-
ve relações de maior cumplicidade 
com o poder.
Desestabilizados pela pesquisa de 
Pierre Péan e Philippe Cohen, La Face 
cachée du monde [A face oculta do 
mundo] (Fayard), surgida em 2003, 
Plenel, então diretor de redação do Le 
Monde, e Jean-Marie Colombani, dire-
tor de publicação, foram num dia de 
março à Praça Beauvau para discutir o 
1 Citado por Thomas Vinciguerra, “Hell hath no fury 
like The New York Times scorned by Hollywood” 
[Nem no inferno há tanta fúria quanto no The New 
York Times humilhado por Hollywood], Columbia 
Journalism Review, 1º maio 2017. Disponível em: 
<www.cjr.org>.
2 Chelsea Manning (nascida Bradley Manning) é 
uma analista do Exército norte-americano condena-
da em 2013 por passar ao WikiLeaks documentos 
militares sigilosos. Foi libertada em maio de 2017.
3 Norman Solomon, “The real story behind Katharine 
Graham and ‘The Post’” [A verdadeira história por 
trás de Katharine Graham e The Post], HuffPost, 
20 dez. 2017.
caso com o ministro do Interior na 
época, Nicolas Sarkozy. O encontro en-
tre os pretensos pilares do contrapoder 
e o ministro da Polícia, cujo objetivo 
era contrabalançar as “audácias solitá-
rias” de uma dupla de repórteres inde-
pendentes, forneceria uma boa trama 
a um filme realista sobre a imprensa 
francesa. Um elemento do roteiro foi, 
de resto, confirmado pelo próprio Ple-
nel em uma carta ao semanário Ma-
rianne (18 mar. 2006): “Num dia de 
2003, Jean-Marie Colombani me levou 
a um encontro que ele havia marcado 
com Nicolas Sarkozy. [...] Convencido 
de que os ataques ao Le Monde eram 
em parte inspirados pelo grupo de Jac-
ques Chirac, Jean-Marie Colombani 
buscava junto a Sarkozy informações 
capazes de amparar essa hipótese”.
Organizar o esquecimento e refor-
matar a memória coletiva valorizando 
a conduta corajosa que esconde cem 
pequenas fraquezas e compromissos, 
tal é a operação de absolvição coletiva 
realizada por The Post. Quem dizia 
Washington Post pensava na investiga-
ção sobre o escândalo Watergate (1972-
1974), levado à tela por Alan Pakula em 
1976 no filme Todos os homens do pre-
sidente; agora, nos lembraremos tam-
bém de outro momento de coragem de 
Katharine Graham. E resmungaremos 
de impaciência quando um desman-
cha-prazeres lembrar que, em 1987, 
uma investigação de Robert Parry so-
bre o financiamento, pela CIA, da 
guerrilha de extrema direita na Nica-
rágua foi amenizada para agradar à 
proprietária, que no fim de semana se-
guinte recebeu em sua casa Henry Kis-
singer;3 ou que o jornal apoiou com to-
da a sua força o desencadeamento da 
Guerra do Iraque, em 2003; ou que ele 
preferia a Fidel Castro ditadores de di-
reita como Augusto Pinochet, “afinal 
de contas menos nocivos que os diri-
gentes comunistas, sobretudo porque 
seus regimes eram mais suscetíveis de 
abrir caminho a democracias liberais” 
(The Washington Post, 12 dez. 2006); ou 
que presenteou patrocinadores priva-
dos, por US$ 25 mil o couvert, com o 
acesso a jantares que reuniam jorna-
listas da casa e personalidades in-
fluentes, antes de reconhecer um “va-
cilo ético de proporções monumentais” 
(The Washington Post, 12 jul. 2009); ou 
que se vendeu em 2013 por US$ 250 
milhões ao fundador da Amazon, Jef-
frey Bezos; ou que proibiu seus jorna-
listas, a partir de maio de 2017, de “pre-
judicar clientes, anunciantes, 
assinantes, vendedores, fornecedores 
ou sócios” nas redes sociais (Washing-
tonian, 27 jun. 2017); ou que conclama 
a uma intervenção norte-americana 
maior na Síria e a uma guerra no Irã 
(The Washington Post, 22 jan. 2018); ou 
que sua obsessão anti-Rússiao levou a 
publicar histórias falsas em série (The 
Intercept, 4 jan. 2017). Certo, mas isso 
não daria um bom filme.
Recordando suas aventuras em 
uma longa entrevista à revista Rolling 
Stone, Daniel Ellsberg concluiu, há 35 
anos: “Isso confirma o que sei dos pro-
fissionais de mídia; muitos deles aspi-
ram a fazer parte do poder, em vez de 
encarnar um quarto poder indepen-
dente” (8 nov. 1973). Depois, como to-
dos sabem, tudo mudou... 
*Pierre Rimbert é jornalista do Le Monde 
Diplomatique.
CHICAGO
2017
MELHOR FILME
SAN SEBASTIÁN
2017
MELHOR ROTEIRO
ATÉ ONDE VOCÊ CHEGARIA 
PARA CONSEGUIR O QUE 
MAIS DESEJA? 
8 DE MARÇO 
NOS CINEMAS
Verifique a classificação 
indicativa do filme
“Esse filme é uma 
fraude.” Sim, mas 
também um sucesso: 
perto de 1 milhão de 
ingressos vendidos em 
três semanas de exibição 
na França
36 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018
GRANDES REPORTAGENS, 
FORMATOS INOVADORES
A forma de apresentar grandes histórias tem se 
modificado nos últimos anos, especialmente no 
ambiente digital, incluindo aí a web.
MULHERES NO JORNALISMO
“Você vai falar com fulano? Coloca uma saia 
curta, um decote. Aproveita que você tem isso 
e usa a seu favor”, disse uma chefe mulher para 
uma jornalista. Um estudo produzido pela As-
sociação Brasileira de Jornalismo Investigativo 
(Abraji) e pela agência de conteúdo Gênero e 
Número, com o apoio do Google News Lab, 
mostra que 86% das jornalistas entrevistadas já 
passaram por discriminação no trabalho por se-
rem mulheres. Assédio, piadas machistas, salá-
rios baixos e demissões são casos contados no 
estudo, em formato multimídia, recheado de da-
dos e recomendações. Uma delas, bem simples 
e que praticamente metade das empresas ainda 
não tem: um canal de comunicação interno para 
que vítimas possam fazer a denúncia formal.
<www.mulheresnojornalismo.org.br>
DESMATAMENTO NA VENEZUELA
Nos limites da Amazônia venezuelana, um me-
gaprojeto de mineração de Nicolás Maduro se 
apresenta como a saída para a crise econômi-
ca do país, depois que a queda dos preços do 
petróleo agravou a inflação e o desemprego. O 
“Arco Mineiro do Orinoco” pode destruir até 110 
mil quilômetros quadrados de florestas, que são 
ocupados por diversos povos indígenas e estão 
sendo desmatados para dar espaço à minera-
ção ilegal que abastece de ouro os cofres do 
Banco Central do país. No meio disso tudo, a 
maior epidemia de malária das últimas décadas 
e a invasão de ex-guerrilheiros das Farc e do 
ELN deixam centenas de vítimas.
<https://arcominero.infoamazonia.org>
HIPER-REALIDADE
O designer e diretor de filmes Keiichi Matsuda 
produziu uma série de vídeos sobre uma distopia 
em que a realidade aumentada é tomada pela 
publicidade e torna a vida praticamente inviável 
nas cidades. O vídeo é um exercício de futurolo-
gia, em que as realidades física e virtual conver-
gem por meio da mídia – e do livre-mercado. Em 
2017 ele foi convidado a apresentar seu filme 
em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Ficou 
tão perturbado com o discurso sobre ética que 
ouviu das corporações que abandonou o evento 
destruindo um televisor em que seu próprio tra-
balho era exibido.
<http://hyper-reality.co>
[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, 
professor de Jornalismo da ESPM, mestre em 
Teoria da Comunicação pela ECA-USP e dou-
torando em Design na FAU-USP.
livro filme internet
MISCELÂNEA
O livro mostra a existência de vida coletiva pulsante em diferentes sentidos, em espaços e circunstân-
cias comumente associados ao vazio e/ou “ansiosos” 
por revitalização. De um lado, essa impressão se confir-
ma pela qualidade da equipe de pesquisadores univer-
sitários integrada e organizada, realizando um trabalho 
colaborativo muito articulado internamente. De outro, 
pelos textos, que evidenciam distintos mundos e modos 
de abordar a ideia de periferia, investigando diferentes 
temporalidades, distintas produções culturais (música, 
cinema, artes de maneira geral), espaços de sociabili-
dade (casas de prostituição, bairros periféricos, disputas 
pelos centros urbanos, cidades interioranas e suas peri-
ferias, o mundo digital) e a reconstrução memorialística, 
tanto pela fala de quem vivenciou esses mundos perifé-
ricos na própria experiência quanto pela reconstrução 
metodológica da memória coletiva.
As periferias, no livro, ultrapassam a dimensão da 
questão política (relações com “centro” e os poderes 
instituídos nele) e econômica (debate importante so-
bre precariedade, pobreza, vulnerabilidade). Vão além 
do discurso da “ausência”, da “falta”, do sofrimento e do 
precário ou da condenação sobre os “pobres periféri-
cos” em razão de sua pobreza e condição periférica, que 
pode redundar na igualmente pouco proveitosa conde-
nação, em função disso, de suas visões de mundo e op-
ções políticas. Chama atenção o esforço dos pesquisa-
dores em tornar concreto esse movimento de rotação 
de perspectivas, de tentar complexificar a percepção 
periférica no centro da observação e da narrativa. 
Há dois aspectos ainda para mencionar: primeiro, a 
disputa pela ideia de cidade é um grande personagem 
do livro. Mirada por ângulos que se encontram nas fran-
jas, ela é enfocada pelo princípio de que de suas perife-
rias se entendem melhor suas centralidades. O segundo 
aspecto que se ressalta no livro é o apreço pela me-
mória, individual e coletiva, como recurso analítico e de 
investigação da realidade, sempre como reconstrução 
da realidade social, condicionada por sujeitos inscritos 
em grupos e classes sociais, clivados por gênero, etnias, 
relações com o mundo do trabalho, posição no ambien-
te familiar etc. 
Nos dias correntes, de tanto descrédito em termos 
de potência das ideias e prática de povo, coletivida-
de, universidade, a publicação de um volume como 
esse é absolutamente encorajador e fresco, tanto no 
terreno das ideias como no do interesse pelas práti-
cas do vasto mundo social, investigado no âmbito da 
universidade pública.
[Mário Augusto Medeiros da Silva] Professor do Ins-
tituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
VOZES À MARGEM: 
PERIFERIAS, ESTÉTICA 
E POLÍTICA
Giordano Barbin Bertelli 
e Gabriel Feltran (orgs.), 
EdUFSCar
NO INTENSO AGORA
João Moreira Salles
Embora de produção rarefeita, o cine-ma documentário de João Moreira 
Salles é de relevância inquestionável no 
cenário nacional. Destaca-se inicialmen-
te pelos temas abordados: o crime orga-
nizado no Rio de Janeiro em Notícias de 
uma guerra particular (1999); a ascen-
são de Lula à Presidência da República, 
apreendida na passagem entre os dois 
turnos eleitorais em Entreatos (2004). 
Em seguida, pela reflexão formal, como 
em Santiago (2006), retomada autocrí-
tica de um projeto documental abortado, 
no qual a autoridade do realizador sobre 
o objeto se entrecruza com o poder de 
classe do patrão sobre o mordomo. Seu 
novo filme, No intenso agora (2017), 
segue nessa linha que almeja lançar 
mão de uma reflexão política não ape-
nas pela eleição do conteúdo, mas tam-
bém pela problematização constante da 
forma. Procura filiar-se a uma tradição 
de cineastas que se serviram do docu-
mentário como instrumento de análise 
das imagens, buscando perscrutar seus 
sentidos segundos, perceptíveis à re-
velia das intenções que as produziram. 
Nessa linhagem, ganha proeminência a 
retomada de material de arquivo. O filme 
de João Moreira Salles tenta entrelaçar 
duas ordens de arquivos – históricos e 
pessoais. Sai em busca de imagens das 
convulsões sociais do ano de 1968, no-
tadamente em Paris e Praga, ao mes-
mo tempo que revisita antigos registros 
de família, com grande destaque para 
aqueles feitos pela mãe em viagem à 
China, em 1966.
A empreitada é digna de nota, mas 
seu sucesso é incerto. A dificuldade de 
entrelaçar essas duas ordens de mate-
riais,que não guardam de saída uma re-
lação objetiva, fica patente na imposição 
de um discurso subjetivo oscilante, cujo 
modo de construção de relações resulta 
problemático. A força mestra do filme 
não é outra que não o trabalho de luto 
do autor sobre a perda da mãe. A busca 
pessoal acaba, porém, sobredetermi-
nando a leitura do material histórico, em 
claro prejuízo para as insurreições de 
1968. Resta, ao fim, um esvaziamento 
da potência política, a força da revolta se 
dobrando sob o peso do luto. 
[Gabriel Ferreira Zacarias] Professor 
do Departamento de História da Univer-
sidade Estadual de Campinas. Confira 
em nosso site versão ampliada dessa 
resenha.
37MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil
SUMÁRIO
2
3
4
10
12
14
16
18
20
23
26
28
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31
32
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36
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Diretor da edição brasileira e editor-chefe
Silvio Caccia Bava 
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Universidades públicas abandonadas
Sou professor da Estadual da Bahia (Uneb) e reite-
ro que as estaduais também têm sofrido muito!
Thadeu Borges Souza Santos 
Adoramos a edição e nos parece que os atuais re-
trocessos no financiamento educacional da nossa 
região se apresentam como um tema fundamental 
para abordar e discutir! Muito obrigado ao Le 
Monde Diplomatique Brasil por informar a esse 
respeito e impulsionar esse diálogo e reflexão!
Campaña Latinoamericana por el Derecho a la 
Educación (Clade)
O dramático panorama do
financiamento do ensino 
Muito esclarecedor. Obrigado, José Marcelino. Fi-
co preocupado com tantas exigências no sistema 
público, como adentrar as atividades de extensão 
universitária se a política pública no Brasil engessa 
o desenvolvimento educacional e a gestão de pes-
quisa. 2018 pode ser a morte desse tripé?
Jose Ricardo Miras Mermudes
Sobre o caráter da burguesia brasileira
O cosmopolitismo da nossa burguesia limita-se a 
Miami e Orlando.
Ana Claudia Cruz
Burguesia cosmopolita, não. É uma burguesia que 
se acredita cosmopolita, mas que na verdade é jeca 
até a medula. São vira-latas associados à burgue-
sia, esta sim cosmopolita, dos países de capitalis-
mo central.
Mário Salerno
Fevereiro
Neste momento estou lendo a última edição de vo-
cês e senti a necessidade de vir aqui e dizer que está 
simplesmente espetacular! Vocês são impecáveis.
Juliana Roza
E agora?
O gigante não acordou, ainda dorme, mesmo não 
sendo em berço esplêndido!
Antonio Teixeira de Araujo 
Precisamos falar da fé de Leonardo
O acolhimento social dos evangélicos é muito impor-
tante para aqueles que são excluídos socialmente.
Regina Maria Libonati de Albuquerque
NUNCA SE VAI DEPRESSA O BASTANTE
A ofensiva geral
Por Serge Halimi
EDITORIAL
De mal a pior
Por Silvio Caccia Bava
CAPA
Poder Judiciário: a ponta de lança da luta de classes
Por Luis Felipe Miguel
A Justiça no centro da crise política
Por Grazielle Albuquerque
Quando os ilegalismos ultrapassam as fronteiras dos 
espaços populares
Por Márcia Pereira Leite e Juliana Farias
CONJUNTURA
A contrarrevolução no Brasil
Por Wolfgang Leo Maar
ELEIÇÕES
Jair Bolsonaro: o candidato da (in)segurança pública
Por Leandro Gavião e Alexandre Valadares
CONFUSÃO ENTRE PATOLÓGICO E EXISTENCIAL
A medicalização da experiência humana
Por Gérard Pommier
UM BENEFÍCIO AO MESMO TEMPO 
COLETIVO E INDIVIDUAL
Por que consumir orgânicos?
Por Claire Lecoeuvre
NA ÁFRICA DO SUL, HERDEIRO DE MANDELA 
TEM SUA REVANCHE
Congresso Nacional Africano, 
nas origens de um partido-Estado
Por Sabine Cessou
PODER EGÍPCIO ESTÁ MAIS REPRESSOR 
DO QUE NUNCA
Praça Tahrir, sete anos depois
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INTERVENÇÃO NA SÍRIA, PRESSÃO NO LÍBANO, 
GUERRA NO IÊMEN
O impasse saudita no Oriente Médio
Por Gilbert Achcar
EXÉRCITO, UMA INSTITUIÇÃO SINGULAR
Cuba, o país do verde-oliva
Por Renaud Lambert
AMÉRICA LATINA
Em busca da Pachamama
Por Maëlle Mariette
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TÊM O MESMO VALOR
Longe dos olhos, longe do coração
Por Téo Cazenaves
REINÍCIO DA GUERRA FRIA
Quando a TV quer sangrar a Rússia
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O que as “batalhas culturais” não são
Por Razmig Keucheyan
THE POST, UM FILME DE STEVEN SPIELBERG
A escolha dos heróis
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RODRIGO MACHADO MAIA, RICARDO DEL GUERCIO BUENO, PAMELA CARLA PEREIRA DE ASSIS, EDUARDO ARMOND CORTES DE ARAUJO, PEDRO FRANCISCO CAMPOS NETO, VICTORIA FRANCO, JORGE LIMA LOPES 
LÔBO, ANA CAROLINA DUTRA, ADOLFO CIFUENTES, FERNANDO BRITO RUFINO, NILVA LÚCIA LOMBARDI SALES, SEBASTIÃO PEREIRA DE FARIA JR., PALOMA ASSIS DA MATTA MACHADO, GABRIEL MARTINEZ GISBERT, 
RODRIGO CAMPANELLA, CALISTRATO LOPES DE MUROS, HUGOANSELMO, LUIZA DINIZ LARAIA, BRUNO PAVAN ALMEIDA, BRUNO CARDOSO SILVA, ANA PAULA PIERINI, LUCAS MEDEIROS, NATALIA SALAN MARPICA, 
DIEGO BORIN REEBERG, LUIZ EDUARDO DE CARVALHO SILVA, EDUARDO KLEIN FICHTNER, VICO MELO, GABRIEL GUERRA CÂMARA, LUCIANO GUEDES LE, AGEU ANTUNES FILHO, FLÁVIO NASCIMENTO, SURYARA 
BERNARDI, EDUARDO OLIVEIRA, CLAYTON RODRIGO DA FONSÊCA MARINHO, VIRGILIO CARLO DE MENEZES VASCONCELOS, FERNANDA SALVADOR ALVES, NIVALDO LÚCIOP SPEZIALI, MARIA CAROLINA ACCIOLY, 
ALEXANDRE APARECIDO DE SOUZA OLIVEIRA, LOURENÇO PIUMA SOARES, PAULA RETTL, PEDRO TELLES, WAGNER GUIMARÃES DA SILVA, MATHEUS MAGALHÃES DA SILVA, RAFA AGENA, RODRIGO OLIVEIRA, 
FRANCISCO BELMIRO WERNECK MAGALHÃES, MANOEL CARLOS GUIMARÃES MORAES, VITORIO MASAAKI URASHIMA, TIAGO FELIPE VIEGAS CARNEIEO, NATASHA MINCOFF MENEGON, JOAO CARLOS DE CAMPOS 
LEME, LUIZ CEZAR DOS SANTOS MIRANDA, GUILHERME ROSA DE ALMEIDA, DIEGO FREITAS FURTADO, ANDRÉ DA COSTA, MAURÍCIO LACERDA MACCARINI, INSTITUTO PÓLIS, JESSICA SIVIERO VICENTE, BRUNO 
ABNNER LOURENZATTO SILVEIRA, CAROLINA MASSUIA DE PAULA, ASW E.V., DAISY, KYOKO TAMASHIRO, FERNANDA PINTO MIRANDA, ROSANA MIGUEL, PEDRO CARDOSO, MATEUS SILVA, JOSÉ CARLOS BIZINOTTO 
DE MIRANDA, BÁRBARA NOVAQ, FERNANDO CESAR ROSA DE ARAUJO, GENECI COUTO DA SILVA FILHO, RAFAEL SALDANHA, DAYSON ROBERTO WALDSCHMIDT, FLAVIA AUGUSTA DE CATRO E CASTRO, ANTONIO 
MANSUR NETO, IVÃ GURGEL, MÔNICA FAGUNDES DANTAS, PEDRO MELONI DE OLIVEIRA, MATHEUS CHRISTIANO MARTINS, THIAGO MAIA, CAROLINE MARTINS DOS SANTOS, DANI KLINTOWITZ, LIGIA APARECIDA 
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POZNANSKI, ANDRÉ PASTORE SOLNIK, MÁRCIA HELENA CARVALHO LOPES, ISADORA GARCIA, PEDRO BENJAMIM CARVALHO E SILVA GARCIA, ROSSANA TAVARES, MARCELO SOARES DE CARVALHO, LIGIA SCARPA 
BENSADON, FATIMA PORTILHO, ANA MARIA TRAVASSOS TELLES, FELIPE PRAGMACIO TRAVASSOS TELLES, HAROLDO DE GODOY BUENO, ADRIANO GUEDES, MARINA CALÇAVARA, MARIA CASSIA JACITNHO MENDES 
OBRIGADO A TODAS E TODOS QUE APOIARAM.
CORREA, DAVID RAMOS DA SILVA, CAROLINA 
MANABE PASETTI, FELIPPE TRAVAGLIA 
MAGNAGO, FERNANDA CUNHA PINHEIRO DA 
SILVA, MARCELO ARTUR RAUBER, JEFERSON 
BOLDRINI DA SILVA, DANTE PAGNONCELLI, 
MAURICIO GUIMARÃES BERGERMAN, ARTHUR 
MARTINS ALVES, ESTELA HIRATA, ROBERTA 
TRASPADINI, MARIA DE FÁTIMA NEVES DA 
SILVA, FELIPE SCHORN, FELIPE CAMARA 
GONÇALVES BRANDES DE AZEVEDO, BRUNO 
MATTOS, FERNANDO OBERDIEK, WALDELI 
PATRICIA MELLEIRO, PALOMA NERY CORONEL, 
ITAMAR TATUHY SARDINHA PINTO, JOÃO 
LIGUORI SERRÃO, GERMANO WEIRICH, 
STEFANIE MAZZA RIBEIRO, GUILHERME SCHAU-
RICH DA SILVA, ALVARO BANDUCCI JUNIOR, 
JOSÉ HELINTON, MARWAN GLOCK MALTACA, 
BRUNA STEPHANIE MIRANDA DOS SANTOS, 
DIONISIO SCHMIDT, HUMBERTO PEREIRA 
FIGUEIRA, LUIZ CARLOS JAFELICE, MARIA 
AUXILIADORA ALVES DA SILVA, ADRIANO 
SAMPAIO, SERGIO KLAR VELAZQUEZ, PATRICK 
ANJOS, ELINES SANTOS, RAPHAEL DA SILVA 
SANTOS, GEOVANA ZOCCAL GOMES, THAÍS 
GAUDENCIO, PATRÍCIA ARAÚJO BELLONI NOGUEI-
RA, EDUARDO A. JUNQUEIRA REIS, MARIA 
ARINDELITA NEVES DE ARRUDA, MARCELUS DIAS 
PERES, JOÃO B. M. PEREIRA, NAZARENO STANIS-
LAU AFFONSO, JOICE BARBARESCO, DIOGO LUÍS 
CAMPANHÃ, RAUL DALANEZE, WALFRIDO 
NUNES, LIZANDRA SERAFIM, CARLOS RODRIGO 
COSTA, LUCAS PRETTI, PAULO EDUARDO BERNI, 
JULIO CESAR MENDONÇA, JOSÉ JULIANO D E 
CARVALHO-FIHO, ELIANA OLIVEIRA TEIXEIRA, 
TERCIO ZENATTI DE BARROS, REMI GOTARDO 
CASAGRANDE, SÉRGIO OKI, IVANA DEL GUERCIO 
BUENO, ANTONIO TEIXEIRA DE ARAUJO, RICARDO 
DEL GUERCIO BUENO, ALACIR FERREIRA COSTA, 
GIOVANNI PELÁGIO, PAULA MONTAGNER, 
MARGARETH MATIKO UEMURA, CLAUDIA 
REJANE DE LIMA, NELSON DE LUCA PRETTO, 
LETICIA DE FARIA FERREIRA, LUCIANA ARDENGHI 
FUSINATTO, THAYSE ZAMBON BARBOSA 
ARAGÃO, ANDRÉ LUCAS SALVADOR, CLAUDIO 
VALDIVINO E SILVA, ELIANA MARIA DE ALMEIDA 
MONTEIRO DA SILVA, BRENO DE SOUZA JUZ, 
GABRIELA VIEIRA CAPOBIANGO, CARLOS 
ANTONIO MORALES, MARITA BEATRIZ KONZEN, 
ISADORA FLORES, BERNADETE DE LOURDES SILVA, OSMAR BARBALHO FERREIRA, LUIZ SÉRGIO PIRES GUIMARÃES, ALAN PIRES FERREIRA, MARTA COSTA, CARLOS LOPES, CÁSSIA DAIANE MACEDO DA SILVEIRA, 
FLÁVIO JOACHIM WYRWA GUILHERME, EDUARDO AGUIAR SORICE, EVELINA DAGNINO, FRANCISCO ALVES SOARES, BRUNO BRANCO, ANUAR CORRÊA DE MELLO, MICHELLY, ALONSO COELHO LUZ, CAMILA FERREIRA 
GUIMARÃES, ANA MONIQUE MOURA, PHILLIP CAPALBO SVERCL, DELFINO VIEIRA COELHO, LIANE DE SOUZA WEBER, ALINE TITON, THALITA FONSECA ALVES, MARIA BEATRIZ MONTEIRO, DANIELLA HICHE, LILIAN 
FERREIRA DE SOUSA, SANDRO BRUNO DA CONCEIÇÃO, LAURICIO DINIZ VAZ, EMMERSON KRAN, THIAGO CONSIGLIO CRUZ, MARINA COIMBRA, EDIPO FERREIRA RIBEIRO, KIANE VALAU JAHN BRUNO DA SILVA 
BORGES, ERICO FADEL, ADRIAN MENGAY, ELIO ALENCAR, MARCELO MAIA, MARINA CAIAFFA BARDI, THALITA TOMAZI, JONNATHAN DA SILVA OLIVEIRA, FREDERICO MA, NILSANA ROCHA MICHILES, IVO PAULEK 
JUNIOR, TOMÁS NEVES, TAINARA CAROZZI DE CARVALHO, AMADEU DE CARVALHO JÚNIOR, AYRTON LUNGUINHO, DANIEL CÉSAR MAIOCHI, DANIELA SALOMÉ DE ANDRADE , GABRIEL MAGALHÃES BELTRÃO, CAROLI-
NA GUERRA, GREICE KLEM, ANTONIO JOAQUIM SCHELLENBERGER FERNANDES, TACIANA NETTO RIBEIRO, MÁRIO MARTINS, NADJA MARA BARBOSA, ANDERSON LUIZ DE MOURA FREIRE, AMANDA NACHARD, 
GUIDYON AUGUSTO, VINICIUS MARQUES PIMENTA, GRACIELLA WATANABE, DANIEL CALAZANS PIERRI, FERNANDA ZAMBONINI, ANA, ANTONIO CARLOS FILGUEIRA GALVÃO, JORGE MÁXIMO DE SOUZA, DAPHNE 
RATTNER - REHUNA - REDE PELA HUMANIZAÇÃO DO PARTO E NASCIMENTO, ISABEL ALBUQUERQUE DE ALMEIDA LINS, TARSE CABELLO, DEIVIDY WILIAN PINTO CORREA, MATHEUS FIORI, DIMITRI SANTANA MARIN-
HO, THOMAS BELTRAME, KARLA NAYRA, TALES JOSÉ DA SILVA, RICARDO SOUSA DINIZ, MATEUS AUGUSTO COSTA NOGUEIRA, MAITÊ ALEGRE GONZALEZ, LEONARDO HALSZUK LUIZ DE MOURA, ADRIANA RICCI, 
ALBERTO IACOMUCCI, BEATRIZ DE PAULA MACHADONADIR NADIR, WILLY ROCHA JÚLIO, ADRIANA RIBEIRO DE MACEDO, ISAK GONZAGA, GUSTAVO FONSECA MORITA, RAFAEL TADASHI MIYASHIRO, FELIP BARBOSA, 
DANIELA BLANCO, CARLOS EDUARDO NICOLETTE, EMILIANA RIBEIRO, IREMA RIBEIRO DO NASCIMENTO , MIRIAM GOES SHIBATA, ELAINE APARECIDA, VITOR MASSATO YAMAMOTO, MARCELO DE OLIVEIRA SOUZA, 
MARCOS LINS, PAULA MARTIN SENTIS, SIDNEIA MIATO, LUCIA MARIA FELIPE ALVES, ADRIANE SHIBATA SANTOS, GIOVANNI ORSO, MONALIZA DE SOUZA FERREIRA, LUCIUS DE OLIVEIRA, LEONARDO GONÇALVES DA 
COSTA, RENATO MAURO VIEIRA SOUZA, RODRIGO FEYTH DE NEGREIROS, CIDNEY DE OLIVEIRA INACIO, FELIPE GUSTAVO MATEOS SILVA, VITOR GOMES DA SILVA, DIOGO FERRAZ, DANIEL IZIDORO CAETANO, AUGUSTO 
GOMES, VINICIUS REIS GALDINO XAVIER, RAFAEL DE VASCONCELLOS, FRANCISCO BICUDO, ADRIANO JOSÉ MELLO COSTA, LUIZ MAURICIO BENTIM DA ROCHA MENEZES, VERA LUCIA BAZZO, JULIANA BERGMANN, 
EDUARDO KLEIN FICHTNER, EDUARDO ARMOND CORTES DE ARAUJO, RODRIGO RABELO CARNEIRO DA, ANDRÉ LUIZ DE CARVALHO, WHANER ENDO, RAFAEL PRADO DE OLIVEIRA, ANTONIO DE LA PENA GARCIA, 
DENIZIO DANTAS DE ALMEIDA, GIOVANI HOBOLD, MARCELO RAMOS DUARTE , DENIS COSTA, SÉRGIO MIGUEL DO N. BUARQUE, JORGE LUIZ LORDÊLO DE SALES RIBEIRO, TEOFILO JOAQUIM DA SILVA JR, VINÍCIUS D. 
CANTARELLI FOGLIARINI, CLEMENTE GANZ LUCIO, JOSE PEREIRA LOPES LEAL, ANDREA FREITAS DE VASCONCELOS, BRUNO OGATA, ANA MARIA D. DE OLIVEIRA, JANAINA PARDI MOREIRA, LINCOLN SECCO, HUMBER-
TO PEREIRA FIGUEIRA, PAULO SERGIO ROCHA NONATO, MARIA LUIZA COSTA NERY, ROLF RAINER, JULIANNA BRANDÃO, VALMIR DE SOUZA, WELLINGTON TISCHER, CÉLIA MARIA CASTEX ALY, JORGE LUIZ GOUVEIA 
AMARAL, DIEGO MENDONÇA, RAPHAEL CALDEIRA, EVERSON PEREIRA, LUISA IZUNO DINIZ, MARIA CAROLINA ACCIOLY, THALES AMORIM, INTERVOZES, IMOVISION, TOMAS RIGOLETTO PERNIAS, AMANDA SZARGIKI, 
RAFAEL FONSECA, PAULA MONTAGNER, JOSÉ CARLOS DE SOUZA, NEIRIMAR K CORADINI, GONÇALO MARQUES, WAGNER BASTOS FERREIRA, JACQUE OLIVEIRA, CARMEM HOFSTETTER, MARIA INÊS SUGAI, SELVA 
RIBAS BEJARANO, DANIEL SENOS, ANDRÉ RICARDO SOUZA, ANNY RODRIGUES FIGUEIREDO, LEA PINHEIRO PAIXAO, DIOGO MATHIAS BRUM, MARCELO ILIESCU, DÁLETE FERNANDES,MAICON DOURADO BRAVO, 
RENATO SERGIO JAMIL MALUF, MARIANY OLIVEIRA, LUIZ ARMANDO CAPRA FILHO, LUIZ BATISTA G S PEREIRA, MARIA LUCIA BARBOSA, LEO PINHEIRO, BRENO AYRES CHAVES RODRIGUES, RAUL ALBINO PACHECO 
FILHO, JOÃO LEAL MEDEIROS HAKME, PABLO BORGES, DORIVAL DA COSTA DOS SANTOS, VIVIANE RIBEIRO, MÜLLER MAIA, JULIO CESAR CALDAS ALVIM DE OLIVEIRA, LUIS AUGUSTO GONÇALVES GOMES DA SILVA, 
MATHEUS MENDES, ROBERTA MOURAO, INÁCIO PEREIRA, FELIPE CARUSO, MARCOS FRANCISCO SILVEIRA DE SOUSA, PAULA SANTORO, PATRÍCIA MARQUES, ANDRÉ PEREIRA DE CARVALHOGABRIEL RATTO 
DOMICIANO, PAULO AUGUSTO ANDRÉ BALTHAZAR, BRUNA LOPES ÁVILA, PRISCILA FREIRE, FERNANDO PEREIRA BRETAS, EDUARDO ARCOVERDE DE MATTOS, VERA TELLES, GUSTAVO COUTINHO BACELLAR, PAULO 
SÉRGIO DE ANDRADE CONCEIÇÃO, ANA PAULA BORTOLETTO MARTINS, LUCIANA VALE, PHILIPP ANDRAE, BRUNO DANIEL SEQUEIRA DE ALMEIDA E CASTRO, OSWALDO MALATESTA, MARCEL FANTIN, JUHEINA LACER-
DA, RIBEIRO VIANA, AMANDA CUNHA, MÔNICA SODRÉ, AMANDA CARDOZO, MATHEUS PINTO SOUZA, JOSIMAR GOMES SANTOS, REGIANE LIMA, HECLAIR RODRIGUES PIMENTEL FILHO, BONFILM PRODUÇÃO E 
DISTRIBUIÇÃO AUDIOVISUAL LTDA., ADRIANO BORGES COSTA, MAICCO FERREIRA, FRANK OLIVEIRA, JOSÉ DE CASSIA LOPES, FRANCISCO CARDOZO OLIVEIRA, MAURI CRUZ, RUBENS CAVALCANTI FREIRE DA SILVA, 
RICARDO ROLIM XAVIER, RUBENS KON, YURI LIMA, RITA CLAUDIA JACINTHO, LEOVI CARISIO, MANOEL CARLOS GUIMARÃES MORAES, BRUNO LAZARINI DA SILVA, JORGE PANTOJA, TAMARA ZÁZERA REZENDE, 
NATHAN GARCIA, MÔNICA PAULO DE SOUZA, LEO BALTHAR, SANDRO ÂNGELO DE A. O. E V. VILA NOVA, LEONARDO CRUZ, PEDRO PORTELA, IVANA DEL GUERCIO BUENO, EDSON WILLIAN FERREIRA ALVES, RAFAEL 
HIME FUNARI, PEDRO LUIZ GONÇALVES FUSCHINO, RAFAEL PELEGRINI, PAULA KAPP AMORIM, SORAYA FERNANDES MARTINS, ANITA SIMIS, JULIANA FEITOSA, LUCAS CONDÉ, HENRIQUE BOTELHO FROTA, MARIANA 
RODRIGUES, PAULO FERNANDO SCHWARZ, MARIAMA MORENA, DANIEL VINÍCIUS COLETTI, LUIZ CARLOS CICALA, HENRIQUE DE OLIVERIA REZENDE, PAULA CAMARGO, BRUNO CHAVES COSTA, MÁRIO PIZZI, BRUNO 
TENAN, MARCO AURÉLIO BANIONIS, BERNARD LOURENÇO COSTA, LUCIANA MACHADO DA COSTA, JOÃO BENTES COROA, MARIANE STER CORGOZINHO MEDEIROS, GUILHERME BOTELHO DINIZ JUNQUEIRA, JEFERSON 
SILVA BARBOSA, BRUNO GRISOTTO VELLO, CELSO VICENZI, DIVINO ALVES CAETANO NETO, ALAN RAMOS COMEÇANHA, BRUNO MARANGONI MARTINELLI, MARTHA PABLOS, TAIS RAMOS, LEANDRO GAVIÃO, LUCIENE 
LESZCZYNSKI NUNES, AUDISIO DE ALENCAR JUNIOR, AÉCIO ALVES DE OLIVEIRA, RUBENS NAVES SANTOS JÚNIOR ADVOGADOS, EDEGAR F OLIVEIRA, ANDRÉ PASTI, VICTOR FLUSSER.

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