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LE MONDE diplomatique BRASIL R$ 14,90ANO 11 / NÚMERO 128 UM EXÉRCITO SINGULAR CUBA, O PAÍS DO VERDE-OLIVA POR RENAUD LAMBERT MEDICALIZAÇÃO DA VIDA A EXPLOSÃO DOS REMÉDIOS TARJA PRETA POR GÉRARD POMMIER 26 34 14 THE POST QUEM ESCOLHE OS HERÓIS? POR PIERRE RIMBERT 9 771981 752004 00128 TRIBUNAIS DE EXCEÇÃO 2 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 NUNCA SE VAI DEPRESSA O BASTANTE POR SERGE HALIMI* A ofensiva geral © S a n ti a g o U m ex-ministro da Economia so- cialista que, mais tarde, fundou um partido liberal à sua ima- gem e semelhança explicou certa vez a arte e o modo de criar uma sociedade de mercado: “Não tentem avançar passo a passo. Definam clara- mente seus objetivos e se aproximem deles em saltos qualitativos, para que os interesses de classe não tenham tempo de se mobilizar e atrapalhar vo- cês. A rapidez é essencial e nunca se vai depressa o bastante. Iniciado o programa de reformas, não parem até vê-lo concluído: o fogo do inimigo per- de em precisão quando tem de atingir um adversário sempre em movimen- to”. Emmanuel Macron? Não, Roger Douglas, ministro das Finanças da Nova Zelândia entre 1984 e 1988, um ano após deixar o cargo. Ele dava en- tão as receitas da contrarrevolução que seu país acabava de viver.1 Cerca de trinta anos depois, o pre- sidente francês manipula todos os ve- lhos cordões dessa “doutrina de cho- que”. Empresa Nacional das Ferrovias Francesas (SNCF, na sigla em francês), serviço público, hospital, escola, direi- to trabalhista, fiscalização do capital, imigração, TV pública: para onde olhar e como resistir quando, sob o pretexto de uma catástrofe que se aproxima, uma dívida prestes a explo- dir e a “vergonha da República”, a en- grenagem das “reformas” gira a todo vapor? As ferrovias? Um relatório con- fiado a um compadre retomou o in- ventário das preces liberais até então não atendidas (fim do estatuto dos fer- roviários, transformação da empresa em sociedade anônima, fechamento das linhas deficitárias). Cinco dias após sua publicação, uma “negocia- ção” teve início para disfarçar a medi- da ditatorial que se queria impingir aos sindicatos. É necessário se apro- veitar sem demora do clima de desmo- bilização política, de divisão sindical, de exasperação dos usuários diante dos atrasos, acidentes, péssimo estado de conservação das linhas, preço exor- bitante das passagens..., pois o minis- tro dos Transportes quer “rapidez na ação”. Quando surge a oportunidade, “nunca se vai depressa o bastante”, co- mo insistia Douglas. O governo francês conta igual- mente com as notícias falsas das gran- des mídias para disseminar “elemen- tos de linguagem” favoráveis a seus projetos. A ideia – aceita imediata- mente depois de divulgada – de que “a SNCF custa mil euros a cada francês, mesmo àqueles que não tomam trem”, lembra o famoso “cada francês pagará 735 euros para liquidar a dívida grega” que, em 2015, contribuiu para o sufo- camento financeiro de Atenas pela União Europeia. Às vezes, a verdade vem à tona, mas tarde demais. Inúmeras “reformas” da previdência foram justificadas pelo aumento geral da expectativa de vida. No entanto, um estudo oficial acaba de concluir que, “para as gerações de 1951 e seguintes”, isto é, 80% da população francesa, “o tempo de vida como apo- sentado deverá cair um pouco em comparação com o da geração de 1950”.2 Ou seja, um progresso histórico acaba de se inverter. Esse tipo de infor- mação não feriu nossos tímpanos. E Macron não nos avisou que era “ur- gente agir” nessa frente... *Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique. 1 Ver Le grand bond en arrière. Comment l’ordre li- béral s’est imposé au monde [O grande salto para trás. Como a ordem liberal se impôs ao mundo], Agone, Marselha, 2012 (1. ed.: 2004). 2 “L’âge moyen de départ à la retraite a augmenté de 1 an et 4 mois depuis 2010” [A idade média de aposentadoria aumentou em 1 ano e 4 meses a partir de 2010], Études et Résultats, n.1052, Direc- tion de la Recherche, des Études, de l’Évaluation et des Statistiques (Drees), Ministério da Saúde, Pa- ris, fev. 2018. 3MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil EDITORIAL POR SILVIO CACCIA BAVA De mal a pior © C la u d iu s C hega a ser desesperador. O Exe- cutivo, o Legislativo e o Judiciário se alinharam com a oligarquia fi- nanceira e estão destruindo o Brasil e nossa democracia. No plano econômico estão des- truindo os instrumentos para uma po- lítica econômica soberana e, em suas próprias palavras, essa verdadeira quadrilha, sem plano algum de gover- no, declara: “Vamos privatizar tudo que é público e seja privatizável”. Es- quartejaram a Petrobras, entregaram o pré-sal para as multinacionais a pre- ço de banana, apequenaram o BNDES, querem privatizar a Caixa, o Banco do Brasil, a Eletrobras... Como se isso não bastasse, continuam distribuindo isenções tributárias para quem não precisa, como no caso das multinacio- nais estrangeiras que compraram o pré-sal (isenções estimadas em R$ 40 bilhões/ano, apenas neste caso). No plano social, a “PEC do fim do mundo”, aquela que congela os gastos sociais por vinte anos, o fim da CLT, o aumento do desemprego, o ataque à Previdência, os cortes em saúde e edu- cação, o estrangulamento das finanças dos municípios e estados, tudo leva ao colapso do sistema público (policiais e professores sem receber salários, por exemplo) e a uma crescente precariza- ção das condições de vida em geral. É bom que se diga com todas as letras que essas ações foram decisões políti- cas, não são inevitáveis nem decorren- tes de uma crise herdada. A crise foi fa- bricada para que pudessem fazer o que estão fazendo, transferindo para em- presas privadas o patrimônio público e a exploração de serviços e equipamen- tos de interesse comum, rebaixando as condições de vida e trabalho. O au- mento nos preços dos serviços públi- cos, numa lógica de mercado, faz cres- cer a espoliação das maiorias. No plano político, o governo gol- pista endurece e elege, com oportunis- mo eleitoral, o combate à violência co- mo prioridade. Sua resposta para a insatisfação social, para as manifesta- ções coletivas e para a violência gerada pelo desamparo é mobilizar o Exército e cercar as favelas, isto é, cercar os po- bres e impor aí um estado de sítio. Na questão social, nem se fala – ignoram por completo as causas da violência. Os mandatos coletivos de busca e apreensão, a licença para matar ao transferir para a justiça militar o julga- mento dos “excessos” praticados pelo Exército nas favelas ocupadas, o con- trole militar do espaço público nas ci- dades, tudo isso mostra uma guinada mais do que brutal desse governo. As palavras de ordem para tratar as ques- tões sociais são controle e repressão. Os direitos de cidadania hoje só são de- fendidos pelos movimentos sociais, re- presentações coletivas dos mais po- bres e dos trabalhadores, e por algumas entidades de profissionais de classe média. A Fiesp, a CNI e as representa- ções patronais, de maneira geral, dão suporte ao golpe e a este começo de uma nova ditadura. A TV, liderada pela Globo, cria o medo e a insegurança na população para que ela se submeta ao arbítrio e aceite a violência institucio- nal, os assassinatos da polícia, como única maneira de manter a ordem. Os brasileiros estão sendo ataca- dos por um governo e uma classe pa- tronal que não medem a violência e a exclusão que suas políticas públicas provocam nas maiorias. Na verdade, não se importam com isso. Porém, em ano eleitoral, essa é uma receita para perder as eleições. Mesmo os partidos de direita buscam se afastar desse go- verno, rejeitado por mais de 70% da população.Mas nem no grupo do go- verno nem nos partidos de direita sur- ge um candidato com possibilidades de vencer as eleições. Bolsonaro é o único com apoio popular, em segun- do lugar nas preferências eleitorais, mas com tamanha fragilidade em sua candidatura e projeto de governo que não deve aguentar os primeiros deba- tes eleitorais. Ora, se as pesquisas dão 37% de vo- tos para Lula e dizem que, mesmo que ele seja impedido de se candidatar, seu poder de transferência de votos levará para o segundo turno o candidato do PT, o cenário se complica para os gol- pistas. Se houver eleições, eles podem perder. E isso é inadmissível para os governantes, até porque, caso se resta- beleça a democracia, quando deixa- rem o cargo estarão seriamente amea- çados de ir para a cadeia. Isso vale para a maioria dos integrantes tanto do Executivo quanto do Legislativo. O ensaio de ocupação militar das áreas urbanas pobres, que após a fa- se das UPPs recrudesce agora no Rio de Janeiro, pode se estender para ou- tras cidades com os mesmos proble- mas. Os militares adquiriram expe- riência no Haiti sobre o controle de áreas urbanas. Há indícios ainda de que no inte- rior das Forças Armadas há uma dis- puta e uma ala que defende a interven- ção militar em razão da falência das instituições. Esse cenário nos leva a questionar se teremos mesmo eleições este ano. É necessário abrir a discussão sobre essa possibilidade para debatermos os ca- minhos da resistência política demo- crática, agora e também no caso de não termos eleições. A conjuntura nos mostra uma dis- puta de visões e valores na sociedade civil como nunca houve antes. A direita se organizou com apoio internacional e hoje, segundo empresários brasilei- ros, já conta com mais de cem entida- des e think tanks no Brasil que cotidia- namente propagandeiam sua visão, seus valores e suas políticas em espa- ços mais especializados de discussão e para a população de maneira geral. Quando Lula foi condenado, os dis- cursos em protesto à decisão falavam de organizar a resistência, com comi- tês populares em defesa da democra- cia nos lugares de trabalho e moradia. Essa discussão precisa ser levada a sé- rio, e precisamos olhar com atenção o movimento organizado nos Estados Unidos pelos defensores da candida- tura de Bernie Sanders. O Our Revolu- tion (https://ourrevolution.com) foi criado para manter mobilizados os jo- vens que aderiram à sua plataforma política, que previa, entre outras coi- sas, dobrar o salário mínimo. Eles fun- daram um movimento político, mas não partidário, que em seu primeiro ano já conta com mais de seiscentos comitês locais, presentes em todos os estados dos Estados Unidos. 1 Eduardo Militão, “Estudos apontam perda de R$ 1 tri em renúncia fiscal após leilão do pré-sal”, UOL, 31 out. 2017. 2 Pesquisa do Instituto Ipsos, dez. 2017. 4 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 CAPA Poder Judiciário: a ponta de lança da luta de classes © Alv e s O papel do Judiciário na canalização das disputas e a crença disseminada de que os tribunais são capazes, em algum grau, de aplicar a lei tal como ela está formulada fazem nascer uma sensação de abandono quando deparamos com uma situação de arbitrariedade judicial indisfarçada. A quem vamos recorrer, quando até a Justiça é injusta? POR LUIS FELIPE MIGUEL* O golpe de 2016 representou um duríssimo revés na percepção até então dominante de que a democracia brasileira, mesmo com todos os seus problemas e aos trancos e barrancos, caminhava para sua “consolidação”. Não foi apenas porque as classes dominantes aban- donaram o respeito às regras do jogo e decidiram virar a mesa quando perce- beram que, novamente, eram incapa- zes de impor seus preferidos por meio da eleição popular. O impeachment ilegal da presidenta Dilma Rousseff e o acelerado retrocesso em direitos e li- berdades que se segue a ele mostram que as instituições não só não cumpri- ram seu papel de proteger a ordem constitucional e a democracia, como também participaram ativamente de sua subversão. O que a onda global de desdemo- cratização e os golpes brandos ocorri- dos principalmente na América Latina vêm revelando é que o ordenamento político da democracia liberal pode ser usado para impedir o progresso social, bloquear as demandas por igualdade e, embora mantendo uma aparência de normalidade, despir os mecanis- mos democráticos de qualquer efetivi- dade a que possam aspirar. No Brasil, chama atenção o protagonismo assu- mido pelo Poder Judiciário. O papel do Judiciário na deflagra- ção e convalidação do golpe político é perceptível para qualquer observador. Mas a ação cotidiana de juízes de todas as instâncias também corrobora o viés favorável aos grupos dominantes, co- mo mostram as sentenças diferencia- das conforme a posição social dos acu- sados – por exemplo, a posse de uma pequena quantidade de droga ilegal pode levar a desenlaces completamen- te diferentes de acordo com a cor da pele e a classe social do portador. Em seu conjunto, o Poder Judiciário atua como avalista da desigualdade e das relações vigentes de dominação – o que corresponde, aliás, à posição do direito como “código da violência pública or- ganizada”, como escreveu Poulantzas. O que chama atenção do Brasil é que o Judiciário ocupa a posição de ponta de lança da luta de classes, cum- prindo papel crucial na produção, aplicação e, em particular, legitima- ção das medidas que implicam retro- cessos para a classe trabalhadora e ou- tros grupos em posição subalterna. O que permitiu isso foram mudanças ocorridas nas últimas décadas e sau- dadas em geral como “avanços”. Desde a promulgação da Constitui- ção de 1988, observadores da política brasileira têm falado do crescente pro- tagonismo do Poder Judiciário. A Carta constitucional garantiu prerrogativas estendidas e propiciou mudanças de comportamento dos agentes, levando aos fenômenos paralelos da “judiciali- zação da política”, que faz as disputas passarem a ser resolvidas nos tribu- nais, e do “ativismo judiciário”, pelo qual o poder relativiza sua caracteriza- ção tradicional como “inerte”, avoca a si a iniciativa da ação e toma decisões que seriam do Legislativo ou do Execu- tivo. Outra inovação da Constituição foi a enorme ampliação do âmbito de atuação do Ministério Público, órgão vinculado ao Poder Executivo, mas que cumpre funções judiciárias. No período de ascensão democrá- tica que se seguiu à promulgação da nova Constituição, esse alargamento dos poderes de juízes e procuradores foi, em geral, visto de forma positiva pelas correntes mais progressistas. A defesa de interesses coletivos e difu- sos, atribuída ao MP, prometia uma ampliação – necessária e urgente – da proteção a grupos oprimidos ou ao meio ambiente. As decisões tomadas no âmbito das cortes superiores po- diam representar, por vezes, uma usurpação do poder de legislar, mas se mostravam mais avançadas do que aquelas advindas de um parlamento notoriamente corrompido e no qual era crescente a capacidade de chanta- gem de grupos fundamentalistas. O Tribunal Superior Eleitoral intro- duziu regulações na disputa partidá- ria (a chamada “verticalização” das coligações, depois revogada em 2002), no exercício parlamentar (a perda de mandato parlamentar por desfiliação, em 2007) e no funcionamento das co- tas eleitorais para mulheres (com o en- tendimento de que o descumprimento da regra levaria à impugnação da lista partidária, em 2010) que se alinhavam ao ideal normativo da competição de- mocrática compartilhado por liberais esclarecidos e por grande parte da es- querda brasileira. O Supremo Tribunal Federal estabeleceu direitos de mino- rias sexuais (reconhecimento da uniãocivil homoafetiva, em 2011) e ampliou direitos reprodutivos (extensão do di- reito de aborto no caso de anencefalia fetal, em 2012), em sintonia com ban- 5MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil deiras progressistas. Sem discutir o mérito das decisões, elas com certeza extrapolam o que era a intenção origi- nal do legislador. Nenhuma delas teria passado no Poder Legislativo. O desenvolvimento talvez mais surpreendente foi a aprovação em 2010, pelo próprio Congresso, de legis- lação que confere ao Judiciário um poder de veto na seleção de candida- tos às eleições. A chamada Lei da Fi- cha Limpa, apresentada como inicia- tiva popular, apoiada pela quase unanimidade dos parlamentares e sancionada entusiasticamente pela Presidência da República, em meio a um verdadeiro clamor midiático, de- terminou a tutela do Judiciário sobre a soberania popular. Ainda assim, pou- cas vozes se ergueram contra ela. Diante das dificuldades para ele- var a educação política média dos bra- sileiros, a Ficha Limpa parecia um atalho seguro para a “moralização” do Estado. Trata-se de um elemento constante: o elogio da ação política do Poder Judiciário, no momento em que ela alavancava causas progressistas, é tingindo por uma percepção elitista (juristas capacitados podem decidir com mais competência) e pelo desâ- nimo quanto à possibilidade de pro- duzir uma opinião popular mais en- gajada e esclarecida. Outra característica do Brasil é que o ativismo judiciário não é privilégio das cortes superiores. Até mesmo juí- zes de primeira instância podem to- mar decisões de enorme repercussão coletiva – os casos de bloqueio de apli- cativos de smartphones com milhões de usuários servem de exemplo. Na cri- se política brasileira, o juiz paranaense Sérgio Moro ocupou posição central ao liderar a Operação Lava Jato. Embora a justificativa para o impeachment nada tivesse a ver com a operação, apoian- do-se em operações de crédito junto a bancos estatais (as chamadas “pedala- das fiscais”), ela foi instrumental para criar o clima de opinião que sustentou a derrubada do governo. Declarada- mente inspirado na operação italiana Mãos Limpas, Moro julga que é impor- tante dar grande visibilidade midiática e obter o “apoio da opinião pública” ao combate à corrupção. A Lava Jato revelou parte da cor- rupção sistêmica da política brasileira por meio de operações espetaculares que, no entanto, atingiram de forma muito desproporcional o PT e seus aliados. Seu modus operandi privile- giado, a “delação premiada”, dá gran- de margem a que o agente da lei orien- te o curso da investigação. Muitas vezes, seus resultados dependem da desobediência ao devido processo le- gal e de formas de intimidação contra testemunhas e suspeitos. Não custa lembrar que Moro é o tra- dutor do artigo de um juiz norte-ameri- cano que ensina como coagir acusados para que denunciem seus cúmplices.1 Em vários momentos, sua atuação se mostrou claramente casada com o cro- nograma da derrubada da presidenta Dilma, culminando na divulgação do áudio de uma escuta telefônica ilegal, com uma conversa entre ela e Lula. Em- bora o juiz tenha sido obrigado a um envergonhado pedido de desculpas e ao reconhecimento de que a divulga- ção da conversa fora “equivocada”, ele continuou chefiando a operação. Atualmente, como se sabe, Moro e o tribunal de recursos ao qual sua vara está vinculada, o TRF-4, são instru- mentais no impedimento à candidatu- ra presidencial do ex-presidente Lula, que é outro importante passo no esva- ziamento do que restava de esperança de respeito ao princípio básico da de- mocracia liberal – a consulta ao povo para a escolha dos governantes. Como um juiz de primeira instân- cia foi capaz de acumular tamanho poder? A resposta se vincula tanto às peculiaridades da organização do Po- der Judiciário no Brasil a partir da Constituição de 1988 quanto à bem- -sucedida ofensiva do juiz Sérgio Moro junto à opinião pública, orquestrada com os meios de comunicação hege- mônicos. Moro se tornou o emblema vivo do combate à corrupção e, por- tanto, intocável. As muitas arbitrarie- dades que cometeu ao longo do pro- cesso foram quase sempre abafadas após exposição mínima, e denúncias de graves irregularidades que o cha- muscavam, como aquelas que trans- parecem no depoimento do advogado Rodrigo Tacla Duran, foram simples- mente deixadas de lado. A pergunta mais importante, po- rém, é outra: por que as instâncias su- periores do Judiciário não intervieram diante de abusos tão patentes nas in- vestigações? Questão intrigante, sobre- tudo quando se lembra que, dos onze ministros do Supremo Tribunal Fede- ral no período da derrubada de Dilma, oito tinham sido nomeados por ela ou por Lula. Qualquer explicação deve le- var em conta que o STF não ficou imu- ne ao clima de opinião formado a partir da Lava Jato – e a vulnerabilidade au- mentada à pressão da “opinião públi- ca” e da mídia é uma das características do Judiciário ativista. E também que os governos petistas não foram capazes de apresentar indicações para o Supre- mo que estivessem à margem do esta- blishment jurídico e político. Pelo con- trário, optaram quase sempre por demonstrar moderação, preferindo ju- ristas conservadores e com trânsito nos partidos de direita. Também aqui a po- lítica de conciliação cobrou seu preço. É preciso ponderar, porém, que se trata de uma situação difícil, não algo que se pudesse resolver por um mero ato de vontade do ocupante da Presi- dência da República. Por um lado, a in- dicação de juristas abertamente com- prometidos com as causas populares seria encarada como rompimento do pacto que permitia a permanência do PT no poder e a implantação de políti- cas tímidas (mas mesmo assim impor- tantes) de resgate da dívida social. A atuação do Supremo como avalista dos retrocessos é um indício, entre muitos outros, de que as condições de manutenção desse pacto foram erodi- das. Essa é a ficha que falta cair para uma parcela da esquerda brasileira. Por outro lado, o campo jurídico possui seus próprios filtros e mecanis- mos internos para forçar a adaptação às posições mais conformistas, mor- mente quando se alcançam funções de mais prestígio, poder e visibilidade. Como em outros campos (o jornalismo serve de exemplo), o conservadorismo transita como “imparcialidade”, mas visões críticas e comprometidas com a justiça social aparecem como sectá- rias, dificultando, portanto, a ascensão na carreira. Certamente há juízes pro- gressistas, mas estão em situação pare- cida à de oficiais militares progressis- tas nos anos 1960. As iniciativas do Conselho Nacional de Justiça com vis- tas à perseguição de dissidentes ainda têm encontrado resistência, mas mos- tram que, na conjuntura aberta com o golpe, é possível que o Poder Judiciário se torne ainda menos arejado. No início deste ano, dois eventos dissimilares apontaram para mudan- ças no cenário. Um deles foi a exposi- ção, pela mídia hegemônica, de vanta- gens imorais auferidas por grande parte dos juízes, incluído aí o próprio Sérgio Moro, em particular um “auxílio-mora- dia” dado a quem evidentemente não precisa dele. Ao que parece, setores da coalizão golpista decidiram indicar ao Judiciário que ele não é intocável. O ou- tro foi o anúncio, pelo ocupante da Pre- sidência, da intervenção federal no Rio de Janeiro, que concede peso e visibili- dade a um ator que, até agora, era man- tido à sombra: as Forças Armadas. Quaisquer que sejam as mudanças a que levem as disputas internas entre os grupos que deram o golpe em 2016, é ilusório pensar que o Judiciário pode ser um agente do retorno à democra- cia. Recursos ao STF, como ocorreram 1 Ver Stephen S. Trott, “O uso de um criminoso como testemunha”,Revista CEJ, n.37, 2007. quando da deposição de Dilma e ocor- rem agora com a condenação de Lula, cumprem muito mais um papel de de- núncia, já que a corte demonstrou mais de uma vez seu desprezo pela le- galidade fraturada. É uma situação dramática porque, se a lei é um código da violência do Es- tado, como diz a citação de Poulant- zas referida antes, ela também organi- za, inibe e torna predizível essa violência. Sua imparcialidade ostensi- va e os valores civilizatórios que ela tem de aparentar encarnar são con- cessões arrancadas pela luta dos gru- pos dominados. Também podem ser usados contra os dominantes e cons- trangem o exercício arbitrário do po- der. O império da lei não é a garantia de uma sociedade justa, já que a lei re- flete a correlação de forças dentro des- sa sociedade. Mas a ruptura do siste- ma legal, que permite à dominação social se exibir em toda a sua nudez, retira dos mais frágeis as garantias que eles foram capazes de obter. Quando a discricionariedade ex- tralegal do sistema judicial, que nunca deixou de operar em prejuízo das po- pulações mais pobres e periféricas, atinge o coração do sistema político, a democracia liberal entra em colapso. Significa que a ordem instituída não permite mais sequer que suas próprias promessas sejam mobilizadas para conter sua violência. Significa que a pressão dos dominados, que era acei- ta, desde que controlada, como parte do jogo, agora deve ser extirpada. O papel do Judiciário na canaliza- ção das disputas e a crença dissemina- da de que os tribunais são capazes, em algum grau, de aplicar a lei tal como ela está formulada fazem nascer uma sensação de abandono quando depa- ramos com uma situação de arbitra- riedade judicial indisfarçada. A quem vamos recorrer, quando até a Justiça é injusta? É a realidade de um país que passou de uma democracia formal, li- mitada, para uma democracia menos que formal, cujas instituições não se preocupam mais em disfarçar sua ten- denciosidade em favor dos poderosos. Como instituição política que é, o Poder Judiciário é sensível à correlação de forças na sociedade. É a resistência contra os retrocessos, o aumento na mobilização social, o protesto contra as arbitrariedades e a desobediência civil que podem restaurar o funciona- mento mínimo de uma justiça bur- guesa que, ainda que sem perder o qualificativo “burguesa”, possa aspi- rar ao nome de “justiça”. *Luis Felipe Miguel é professor do Institu- to de Ciência Política da Universidade de Brasília. Em seu conjunto, o Poder Judiciário atua como avalista da desigualdade e das relações vigentes de dominação 6 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 O PREÇO DE SE TORNAR UM ATOR POLÍTICO A Justiça no centro da crise política Mesmo composto por grupos distintos, instâncias e atribuições específicas, o Judiciário hoje é um ator tão conhecido como completamente envolvido nas decisões políticas do Brasil. E, sim, isso muda o jogo. Sejam quais forem os rumos que o país vai tomar nos próximos anos, essa conta também recairá sobre a Justiça POR GRAZIELLE ALBUQUERQUE* © D an ie l K on do H oje, praticamente todos os te- mas políticos debatidos no país passam pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Efeito, entre ou- tras questões, do que a academia cha- ma de “judicialização da política”.1 O fato é que a Constituição Federal de 1988 desenhou um modelo de sistema de justiça com um protagonismo ím- par. De todos os integrantes desse sis- tema, que engloba, entre outros, Mi- nistério Público e Defensoria Pública, o Judiciário é sem dúvida um poder que deixou de orbitar à margem da to- mada de decisões para se instalar no centro da crise política brasileira. Só nos primeiros meses do ano, o julgamento do ex-presidente Lula no Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF4) e as pautas sobre o auxílio-mo- radia demonstram como o antes “ilus- tre desconhecido” Judiciário não pode mais ganhar essa denominação. Vol- tando um pouco no calendário, na vi- rada de dezembro de 2017, foi o indulto de Natal que bateu à porta do Supre- mo. As pautas são diversas e podemos enumerá-las à exaustão. O foco atual quase sempre recai sobre o STF e a Operação Lava Jato, mas seria uma in- verdade dizer que os holofotes se limi- tam a ambos. Em 2018, certamente a Justiça Elei- toral ganhará destaque e, para com- pletar a exposição, a cobertura sobre a intervenção federal/militar no Rio de Janeiro dá conta de uma nota de apoio às Forças Armadas assinada por mem- bros da magistratura e do Ministério Público integrantes do Movimento de Combate à Impunidade (MCI). A nota não é um fato extraordinário ou isola- do de um movimento desconhecido. Embora alguns ministros do Supremo tenham dado declarações questio- nando a ação, o Judiciário está imbri- cado nela, como se pode ver pela ad- missão de dispositivos jurídicos como os “mandados coletivos” de busca e apreensão, do ponto de vista jurispru- dencial, e pelo apoio institucional da- do à intervenção, verificado em reu- niões como a ocorrida no Palácio da Guanabara, no dia 17 de fevereiro. Na ocasião, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o desembar- gador Milton Fernandes de Souza, co- locou o Judiciário estadual à disposi- ção do interventor. Muitos pontos de análise podem ser levantados com base nesse quadro, em especial a velha tensão relativa ao pacto entre os três poderes e o papel do Judiciário como árbitro. Em outros ter- mos: como recorrer a uma instituição que já se posicionou? De todas as ques- tões, aqui me concentro em uma: mes- mo composto por grupos distintos, instâncias e atribuições específicas, o Judiciário hoje é um ator tão conhecido como completamente envolvido nas decisões políticas do Brasil. E, sim, isso muda o jogo. Sejam quais forem os ru- mos que o país vai tomar nos próximos anos, essa conta também recairá sobre a Justiça. VISIBILIDADE TARDIA Talvez seja difícil perceber a im- portância dessa observação em pri- meiro plano, mas um breve panorama histórico ajudará nesse exercício. Grande parte dessa “descoberta” pú- blica só ocorreu no final da década de 1990 (vide CPI do Judiciário, em 1999) e ao longo dos anos 2000 (vide Refor- ma do Judiciário, em 2004), não ape- nas pela demora em sentir os efeitos da Constituição de 1988, mas também porque, sem ser um poder eletivo e es- tando distante dos questionamentos relativos à democratização do país e dele próprio – enquanto instituição –, o Judiciário passou ileso às faturas co- bradas no período de abertura. Ao contrário de outros países da América Latina, como a Argentina, que teve uma Justiça de transição atuante, o Brasil até hoje se esquiva de prestar contas sobre a ditadura militar. Com o Ato Institucional n. 2, o AI-2, o general Castelo Branco transferiu os processos políticos da Justiça comum para a Justiça militar. O AI-2, baixado em outubro de 1965, dava início à mu- dança que seria solidificada em 1967, com a entrada em vigor da nova Cons- tituição e, sobretudo, com a emissão do Ato Institucional n. 5, o AI-5, que em dezembro de 1968 suspendeu até mesmo a apreciação de habeas corpus de crimes políticos, crimes contra a se- gurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular. É claro que o Judiciário era parte da estrutura do Estado e do próprio regime ditato- rial, e isso merece um olhar acurado, mas, do ponto de vista de uma exposi- ção mais ampla, a Justiça comum fica- va fora da “jogada”. Estava à margem e não tinha a visibilidade de agora. Esse e outros fantasmas pareceram ressuscitar diante da aprovação pelo Congresso Nacional, em outubro de 2017, da Lei n. 13.491, que transfere da Justiça comum para a militar o julga- mento de homicídioscometidos por militares durante operações especiais 7MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil Também do ponto de vista midiático, os recados que o Supremo dá são diversos e denotam, sim, um comportamento político de segurança pública em território na- cional, e também com declarações co- mo a do comandante do Exército, ge- neral Eduardo Villas Bôas, sobre a preocupação de que se instale uma no- va “Comissão da Verdade” após o fim da intervenção. Voltando ao ponto da exposição e do jogo de poder, nos anos 1960, 1970 e 1980, qualquer análise midiática e política certamente in- cluiria os militares numa relação dire- ta com Executivo e Legislativo. Agora, além da caserna, o Judiciário e Minis- tério Público fazem, literalmente, par- te da rede. Essa não é uma ironia, é mesmo uma avaliação técnica. O pesquisador Fábio Malini2 fala que, se procurado- res e juízes já brilharam no Twitter, chegou o momento em que militares entraram no palco. Fazendo análise de cartografia de redes políticas brasi- leiras desde 2012, Malini afirma que nunca generais e o Exército aparece- ram como atores relevantes em seus mapas. Agora, temos Executivo, Legis- lativo, Judiciário e militares todos no mesmo “balaio”. Ainda que caibam diversas distin- ções, ratifico meu ponto: não impor- tam as pautas, se das questões mais classistas aos bastidores palacianos, passando pela agenda de governo (que agora sai da Reforma da Previdência e se concentra na segurança pública), a Justiça brasileira está presente. Nesse sentido, grosso modo, mesmo saben- do de todas as tensões internas, pode- -se falar de uma imagem de Justiça que aparece na ponta como “una”. Lá no final da linha, pode-se supor que a opinião pública enxergue “uma Justi- ça” e só depois passe a lhe distinguir os segmentos. Indo além, no centro dessa hipótese, por tudo já elencado aqui, é pertinente admitir que o que surge dessa exposição é mesmo uma Justiça que se comporta como ator político. E isso tem um preço. RECADOS PÚBLICOS Se fizermos um recorte sobre a atuação política da Justiça, talvez o fo- co no STF nos dê a amostra mais ade- quada. Muitas críticas públicas se vol- tam para o comportamento díspar do Tribunal, julgando casos semelhantes de forma diversa. Em um artigo na Fo- lha de S.Paulo (28 jan. 2018), Conrado Hübner Mendes, professor de Direito Constitucional da Universidade de São Paulo (USP), fala que o Supremo pas- sou de poder moderador a poder ten- sionador, agredindo a democracia bra- sileira. Seleciono algumas indagações: “Se Delcídio [do] Amaral (PT-MS), Eduardo Cunha (MDB-RJ), Renan Ca- lheiros (MDB-AL) e Aécio Neves (PS- DB-MG) detinham as mesmas prerro- gativas parlamentares, por que, diante das evidências de crime, receberam tratamento diverso? Se houve desvio de finalidade no ato da presidente Dil- ma Rousseff (PT) em nomear Lula (PT) como ministro, por que não teria havi- do na conversão, pelo presidente Mi- chel Temer (MDB), de Moreira Franco (MDB) em ministro?”. Deixo as perguntas no ar e desloco o raciocínio do plano normativo e de- cisório para o da comunicação. Tam- bém do ponto de vista midiático, os re- cados que o Supremo dá são diversos e denotam, sim, um comportamento político. Vejamos alguns exemplos: 1. Em novembro de 2015, após a di- vulgação da gravação do ex-senador Delcídio do Amaral (PT-MS), revelan- do que era preciso “centrar fogo” no STF (o áudio citava os ministros Teori Zavascki, Dias Toffoli, Edson Fachin e Gilmar Mendes), o Supremo reagiu de forma imediata, determinando a pri- são de Delcídio. Na sessão que homo- logou a prisão, a ministra Cármen Lú- cia foi enfática ao dizer que os corruptos não passarão sobre os juí- zes. Além disso, tanto Toffoli como Mendes se pronunciaram negando qualquer interferência. 2. Em março de 2016, a escuta libe- rada pelo juiz Sérgio Moro, em que o ex-presidente Lula chamava o Supre- mo de acovardado, teve seu conteúdo criticado no dia seguinte pelo ministro Celso de Mello. O decano do STF se re- feriu às declarações de Lula como uma ofensa grave à dignidade institucional do Judiciário, um insulto inaceitável e passível de repulsa. No dia seguinte, em um evento em Manaus, o presiden- te do Tribunal, Ricardo Lewandowski, também criticou as declarações, afir- mando que o Supremo jamais esteve acovardado. Contudo, em outro episó- dio de natureza semelhante, ocorrido na sequência, pode-se ver uma postura distinta por parte dos ministros. 3. Em maio de 2016 houve a divul- gação dos áudios de Romero Jucá (PM- DB-RR), Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-MA), todos fazen- do menções diretas ao Supremo em uma atitude de cumplicidade com o impeachment que se combinaria com o arrefecimento da Lava Jato (a fala de Jucá foi repetida à exaustão na impren- sa e nas redes sociais, referindo-se a uma “mudança” no governo federal que resultaria em um pacto para “es- tancar a sangria”, um acordo “com o Supremo, com tudo”). Mesmo diante da repercussão das gravações, houve apenas uma nota oficial do STF e uma declaração de Luís Roberto Barroso publicada no El País3 negando qual- quer interferência. Nenhuma fala em plenário ou reação mais contundente. Os três episódios tiveram similari- dades, mas receberam respostas dis- tintas e, como o debate não se restringe ao campo jurídico, o STF vê-se diante do aprendizado de que a cobrança se dará também em outra ordem. Ao lar- go de toda a discussão sobre a legalida- de dos vazamentos, quando se cruza a fronteira do campo político, a questão da opinião pública entra em cena. E os vazamentos são um exemplo bem re- presentativo dos diversos momentos em que a Justiça passou a ter um papel político na crise, tendo de se posicionar publicamente sobre ela, ingressando em uma disputa midiática. Quem não se lembra das discus- sões entre os ministros Cezar Peluso e Eliana Calmon sobre os poderes de in- vestigação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)? Ou de quando o CNJ le- vantou a bandeira de combate ao ne- potismo? Cito esses exemplos por seu conteúdo ligado à atuação da própria Justiça e para destacar que, ainda as- sim, nem de longe esses casos estavam restritos aos aspectos jurídicos. Aliás, nenhum dos exemplos levantados aqui está. No fim das contas, é a ima- gem da Justiça que aparece. POSIÇÃO E COBRANÇA A gama de exemplos levantados é, sem dúvida, extensa, mas sua ampli- tude é proposital. O que ela demonstra é que em diversos planos o Judiciário (e não apenas ele, o Ministério Público também entra nessa conta, embora com suas peculiaridades) passa a ser observado. Tecnicamente, ele foi agen- dado. É parte da agenda midiática e pública. Mas não é apenas isso. Ele também está ligado a um enquadra- mento, a um framing. Ou seja, mostra- -se e o faz de determinada forma. Essa forma é política e seletiva. Por que com uns e não com outros? Por que dessa forma e não daquela? Por que veloz nesse processo e devagar naquele? Es- sas são perguntas que começam a ser feitas por uma opinião pública que passa não só a reconhecer a Justiça, mas também perceber sua maneira de agir, seu comportamento. Com isso, questões históricas sobre a falta de democratização da Justiça aparecem. Contudo, deve-se ressaltar que elas não surgem como algo passa- do, mas estão na conta do dia de quem segue os ministros do Supremo no Twitter, de quem vê a cobertura políti- ca (sim, o Judiciário hoje está comple- tamente inserido nas editorias de polí- tica), de quem assiste às sessões do Supremo na TV Justiça ou as vê no You- 1 Segundo C. Neal Tate e Torbjörn Vallinder, a ex- pressão pode ser vista como uma maneira de en- tender as causas e consequências da expansão do poder judiciário no processo decisóriodas demo- cracias contemporâneas. Mais detalhes podem ser vistos no trabalho de Koerner e Maciel, que fa- zem um balanço teórico da discussão sobre o tema. Andrei Koerner e Débora Alves Maciel. Sen- tidos da judicialização da política: duas análises. Lua Nova, n.57, p.113-134, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ln/n57/a06n57.pdf>. 2 “No Twitter, vampiro cola mais em Temer do que intervenção”, Piauí, 24 fev. 2018. 3 Ver “Barroso: ‘Modelo do Brasil não é capitalismo, é socialismo para os ricos’”, El País, 24 maio 2016. 4 “Entre o espetáculo e o controle: a Justiça e seus holofotes”, Le Monde Diplomatique Brasil, dez. 2015. Tube e, agora também, de quem vai acompanhar de perto as pautas da se- gurança pública (do sistema carcerá- rio carcomido ao desenrolar da inter- venção no Rio de Janeiro). A Justiça brasileira está nas manchetes. Todo esse emaranhado talvez leve as instituições do sistema de justiça a perceber que essa não é uma função acessória. Ao embarcar na agenda do Executivo e do Legislativo, ou mesmo de determinados grupos de interesse e pressão, o Judiciário se acopla a eles. Is- so acontece nos debates da cúpula, mas é bem provável que, com a questão da segurança nacional em pauta, as co- branças explodam também nas ques- tões mais cotidianas da sociedade. Em dezembro de 2015, em um arti- go aqui para o Le Monde Diplomatique Brasil,4 arrematei meu raciocínio afir- mando que “quem se expõe acaba sempre tendo de responder”. É fato. O que digo agora é que não se trata de mera exposição; ao assumir determi- nada posição, a Justiça será cobrada por ela. Na América Latina como um todo, o empoderamento do Judiciário foi uma aposta num sistema de garan- tias e direitos que se antagonizasse ao horror dos truculentos regimes mili- tares. Agora, a Justiça está diante de um duplo impasse: lidar com ques- tões que traz de seu próprio passado e com uma necessidade urgente de de- mocratização interna, e lidar com po- sicionamento político em relação aos outros poderes e com a missão de atuar nessa nova democracia. Há um imenso risco de a Justiça, que tanto tentou se colocar como heroica e apo- lítica, tomar o lugar inverso. A relação com a opinião pública pode ser vista à parte, mas o que ela talvez faça de mais potente seja expor esse dilema e sua devida fatura. Um Judiciário polí- tico que escolhe um lado arcará com as consequências dessa escolha. *Grazielle Albuquerque é jornalista e dou- toranda em Ciência Política pela Universida- de Estadual de Campinas (Unicamp), e foi visiting doctoral research no German Institute of Global and Area Studies (Giga), em Ham- burgo. Seu trabalho se volta para a atuação do sistema de justiça, em especial para sua interface com a mídia. 8 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 O que mudou na história recente do Brasil, quando a gestão dife- rencial de ilegalismos que transformou favelas e periferias em espaços de indeterminação,1 onde os direitos da população são sistemati- camente violados, desborda as frontei- ras dos espaços populares e atinge a “cidade” formal e outros segmentos populacionais? O que mudou quando os jogos de poder passaram a usar os ilegalismos não apenas em relação aos “de baixo”? Muitos de nós só então co- meçaram a questionar nossa demo- cracia e a alertar sobre estarmos vi- vendo um estado de exceção. As “fronteiras das leis como campo de disputa”2 parecem não mais se referir estritamente aos espaços populares e, por isso mesmo, despertam atenção e interesse dos que não se importavam muito quando os ilegalismos estavam restritos às favelas e periferias das grandes cidades. E o que há de comum entre Rafael Braga (negro e catador de materiais re- cicláveis) e Luiz Inácio Lula da Silva (lí- der metalúrgico, fundador do Partido dos Trabalhadores, deputado federal e presidente do Brasil por dois manda- tos)? É enorme a distância que separa essas pessoas, personagens recentes da história de nosso país. Nada os aproxima em sua trajetória de vida nem nas escolhas cotidianas que fize- ram. Talvez então o que os ligue sejam os tempos em que vivemos, de exce- ção. Refletir sobre isso é a proposta deste artigo. Há alguns anos, cientistas sociais, militantes de movimentos e defenso- res de direitos humanos discutem co- mo, mesmo quando se pensava estar em uma normalidade democrática, favelas e periferias se transformaram em espaços de exceção. Se é certo que os grupos de traficantes de drogas ilí- citas são um de seus operadores, pelo despotismo que impõem aos que ali habitam,3 também é certo que, nesses espaços, a administração da exceção se faz por agentes do Estado, não por WELFARE, WARFARE E LAWFARE Quando os ilegalismos ultrapassam as fronteiras dos espaços populares O que há de comum entre Rafael Braga e Luiz Inácio Lula da Silva? É enorme a distância que separa essas pessoas, personagens recentes da história de nosso país. Nada os aproxima em sua trajetória de vida nem nas escolhas cotidianas que fizeram. Talvez então o que os ligue sejam os tempos em que vivemos, de exceção POR MÁRCIA PEREIRA LEITE E JULIANA FARIAS* despreparo ou desvio de conduta, mas como um modo – pensado, deliberado – de governar os pobres. A face mais visível da administração da exceção é posta em prática pelas forças policiais que ali operam, ora pelo uso da força desmedida4 (para além da norma constitucional) contra criminosos e moradores (incluindo a prática de ho- micídios), ora pela permissividade com o crime, administrando “merca- dorias políticas”5 em seu benefício privado. Mas peritos, gestores de polí- ticas públicas, outros funcionários do Estado e políticos também se situam nesse campo, tratando os moradores não como cidadãos com direitos, mas como populações a controlar: ora os reprimindo em seu cotidiano e suas ações coletivas, ora autorizando im- plicitamente seu extermínio por meio do dispositivo do auto de resistência, e sempre rebaixando suas reivindica- ções por políticas públicas e bens de cidadania.6 Foucault, pensando no exercício do poder, forjou a noção de “gestão di- ferencial de ilegalismos” como uma forma de “organizar a transgressão das leis numa tática geral de sujei- ções”. Pondo em relevo as positivida- des dos ilegalismos, compreendeu o Estado e as formas de governo não por suas imperfeições ou lacunas na apli- cação da lei, mas pelos agenciamentos realizados como ações possíveis na composição dos jogos de poder que negociam os parâmetros da lei e da or- dem: “A penalidade seria então uma maneira de gerir as ilegalidades, de dar terreno a alguns, de fazer pressão sobre outros, de excluir uma parte, de tornar útil a outra, de neutralizar es- tes, de tirar proveito daqueles. [...] a pe- nalidade não ‘reprimiria’ pura e sim- plesmente as ilegalidades; ela as ‘diferenciaria’, faria sua ‘economia ge- ral’. E se podemos falar de uma justiça não é só porque a própria lei ou a ma- neira de aplicá-la servem aos interes- ses de uma classe, é porque toda a ges- tão diferencial das ilegalidades por intermédio da penalidade faz parte desses mecanismos de dominação”.7 É dessa perspectiva que lemos a en- trevista de Eduardo Farias, professor da USP e da FGV, que sustenta “uma mudança no conceito de prova, de processo e de delito” ao analisar as tensões entre duas “arquiteturas jurí- dicas” em choque no Brasil da Lava Ja- to.8 Nela, muitas argumentações refe- rentes às novas tecnologias de poder, mas nenhuma referência aos nossos preceitos constitucionais: “[...] há aqui uma questão importante para verifi- carmos a mudança das gerações prin- cipalmente no campo do Direito Penal e no campo do Direito Econômico, mudança decorrente de uma atuação cadavez mais sofisticada do crime or- ganizado e das organizações terroris- tas na Europa. Os países europeus que vinham estudando nos anos 1980 a possibilidade de formar uma União Europeia, saindo da mera zona econô- mica e constituindo uma comunidade integrada, perceberam que seria ne- cessário dar um passo semelhante na área do Direito Penal, o qual deveria ser globalizado. Esse processo foi pen- sado a partir da premissa de que em vez de reprimir o crime organizado nas suas consequências seria melhor asfixiá-lo financeiramente, – o mesmo valeu para o terrorismo”. Farias nos esclarece o sentido desse agenciamento: “Com esse propósito, em 1989 foi constituído em Paris um grupo chamado Gafi [Grupo de Ação Financeira] para operar na Organiza- ção para a Cooperação e o Desenvolvi- mento Econômico (OCDE) e que for- mará uma minuta de uma legislação penal econômica para todos os países- -membros da OCDE. A ideia seria tra- balhar com o princípio da globalização econômica, o que exigiria, com o tem- po, também a globalização de partes do Direito – não de todo ele, evidente- mente. [...] A minuta foi adotada pelos países-membros da OCDE e [...] alguns [outros países], como é o caso do Bra- sil, foram convidados a adotar essa le- gislação em troca de uma série de van- tagens, como acesso a mercados, novas tecnologias, linhas de financiamento com juros favorecidos...”.9 Afinal, quem (ou o que) nos gover- na – nós, que acreditamos (ou acredi- távamos) na democracia, nos procedi- mentos, na Justiça, na lei? A entrevista revela como estamos desajustados aos tempos em que vivemos. A Constitui- ção de 1988 não conta mais nestes tempos em que o ajuste ao novo capi- talismo selvagem se sobrepõe à pri- mazia da lei e das garantias procedu- rais? Pode-se mudar o conceito de prova porque assim o determina o Ga- fi? O ônus da prova não cabe mais ao acusador? Bastam convicções, mesmo sem provas, como na condenação de Lula no caso Petrobras-Guarujá?10 In- quéritos podem dispensar a oitiva de testemunhas e acatar somente pala- vras de policiais, como no caso Rafael Braga?11 Mesmo sem amparo constitu- cional, delação premiada torna-se pro- va substantiva? A condução coercitiva e a prisão provisória visando acordos de delação podem ser acatadas pelos tribunais superiores graças a essa lógi- ca da repressão ao crime financeiro e do ajustamento às necessidades da globalização? A brecha legal para tudo isso parece estar, entre outros instru- mentos jurídicos, na Lei n. 13.260, que regulamenta o disposto no artigo 5o da Constituição Federal, reformulando o conceito de terrorismo, disposições investigatórias e processuais.12 Afinal, quem (ou o que) nos governa – nós, que acreditamos (ou acreditávamos) na democracia, nos procedimentos, na Justiça, na lei? 9MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil Para compreender essa mudança, vale examinar os argumentos de Hu- berman, em seu excelente artigo so- bre o lawfare.13 O autor considera law- fare “uma forma de conflito na qual a lei é usada como arma de guerra [...]: o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de força armada, vi- sando alcançar determinados objeti- vos de políticos”. No caso da condena- ção de Lula, como no dos petistas do caso Mensalão e no impeachment de Dilma Rousseff, usou-se a teoria do domínio de fato,14 cuja aplicação em casos de corrupção passiva, ele sus- tenta, é questionável. “Segundo Alaor Leite [aluno de Ro- xin], ‘a teoria do domínio do fato não serve para fundamentar responsabili- dade penal pela mera posição de desta- que no interior de uma estrutura hie- rárquica’. Ou seja, os juízes precisam provar a relação, não apenas deduzi-la. [Entretanto,] todos tiveram, em co- mum, entre as justificativas de suas condenações, não exatamente provas legais, mas o ‘conjunto da obra’.”15 Acompanhando Huberman, mas retornando a Foucault, considera- mos que o que se atualiza aqui é uma nova tecnologia de poder, que opera pela “gestão diferencial dos ilegalis- mos”, exercendo a dominação por meio do uso da lei e de sua aplicação diferenciada em relação aos defini- dos como amigos ou inimigos do blo- co no poder.16 Stephen Graham sustenta que vi- vemos em tempos em que a possibili- dade de integração social dos cidadãos a um Estado de bem-estar (welfare) foi substituída, perante as exigências do capitalismo financeiro, por uma for- ma de gestão de territórios e popula- ções que envolve a militarização da vi- da (warfare), apoiada na doutrina do novo urbanismo militar: “[...] mani- festa no uso da guerra como metáfora dominante para descrever a condição constante e irrestrita das sociedades urbanas – em guerra contra as drogas, o crime, o terror, contra a própria inse- gurança urbana”.17 No Brasil dos últimos anos, transi- tamos do welfare (ao menos como pro- messa) para o warfare (sobretudo nos espaços populares, mas também em relação a movimentos sociais e políti- cos tidos como ameaçadores da ordem e da segurança interna).18 Nos dias que correm, o caminho para o lawfare pa- rece bem pavimentado. Vivemos no Rio de Janeiro mais um agenciamento que aprofunda a exceção: a interven- ção militar decretada por Temer.19 Não podemos nos deter no tema, mas assinalamos a existência de diver- sos debates sobre o sentido, a eficácia e a constitucionalidade da intervenção federal. E destacamos um dos elemen- tos que embasam nosso argumento da vigência do lawfare, atualizado por meio de uma “gestão diferencial de ile- galismos”: a entrevista do ministro da Justiça, Torquato Jardim, qualificando a intervenção como guerra assimétri- ca: “Na guerra assimétrica, você não tem território, qualquer um pode ser inimigo, não tem uniforme, não sabe qual é a arma. Você está preparado contra tudo e contra todos, todo o tem- po. [...] se passar um guri de 15 anos de idade, você vê a foto dele, já matou quatro, entrou e saiu do centro de re- cuperação, uma dúzia de vezes, e está ali com um fuzil exclusivo das Forças Armadas, você vai fazer o quê? Prende. O guri vai lá e sai, na quarta ou quinta vez que você vê o fulano, vai fazer o quê? Você tem uma reação humana aí que deve ser muito bem trabalhada psicologicamente, emocionalmente, no PM ou no soldado. Você está no posto, mirando a distância, na alça da mira aquele guri que já saiu quatro, cinco vezes, está com a arma e já ma- tou uns quatro. E agora? Tem que espe- rar ele pegar a arma para prender em flagrante ou elimino a distância? Ele é um cidadão sob suspeita porque não está praticando o ato naquele momen- to ou é um combatente inimigo? Os EUA enfrentaram esse tema como um inimigo combatente. É a noção de guerra assimétrica, estamos vivendo uma guerra simétrica”.20 O ministro ainda defendeu altera- ções jurídicas de proteção àqueles que cometerem crimes intencionais,21 considerando insuficiente a Lei n. 13.491/2017, sancionada por Temer,22 a qual transfere para a Justiça Militar o julgamento de militares que comete- rem crimes contra civis nas “missões de garantia da lei e da ordem”, como no recente caso do cerco à Rocinha. Para concluir, voltamos aos casos de Rafael Braga e de Lula. O que eles nos ensinam? O primeiro desvenda que o Judiciário é peça fundamental da engrenagem racista de Estado que vemos funcionar a pleno vapor no Brasil de 2018. O segundo, a condena- ção de Lula, evidentemente não inau- gura a seletividade penal no Brasil, mas adiciona elementos importantes para o debate. Entre eles, que hoje os jogos de poder podem e usam dos ile- galismos também em relação aos “de cima”, dispondo de um extenso e crescentemente atualizado repertó- rio no campo do lawfare. Os conflitos sociais são geridos e a guerra aos “inimigos” é realizada por meio deuma negociação dos parâmetros da lei e da ordem e de sua aplicação dife- renciada em relação a territórios e segmentos específicos para permitir a realização dos interesses excluden- tes do bloco no poder. Se não enten- dermos isso e se não considerarmos e agirmos pela democracia não só para os “de cima”, pouca esperança nos restará como nação. 1 Giorgio Agamben, Estado de exceção, Boitempo, São Paulo, 2004. 2 Vera Telles, “Fronteiras da lei como campo de dis- puta: notas inconclusas a partir de um percurso de pesquisa”. In: Patricia Birman et al. (orgs.), Disposi- tivos urbanos e trama dos viventes: ordens e resis- tências, FGV, Rio de Janeiro, 2015. 3 Luiz Antonio Machado da Silva (org.), Vida sob cer- co: violência e rotinas nas favelas do Rio de Janei- ro, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2008. 4 Jean-Paul Brodeur, “Por uma sociologia da força pública: considerações sobre a força policial e mi- litar”, Caderno CRH, v.XVII, n.42, 2004. 5 Michel Misse, Crime e violência no Brasil contem- porâneo, Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2006. 6 Juliana Farias, Governo de mortes: uma etnografia da gestão de populações de favelas no Rio de Ja- neiro, tese de doutorado (Sociologia), UFRJ, 2014; e Marcia P. Leite, “State, market and administration of territories in the city of Rio de Janeiro” [Estado, mercado e administração de territórios na cidade do Rio de Janeiro], Vibrant, a sair. 7 Michel Foucault, Vigiar e punir, Vozes, Petrópolis, 2004, p.226-227. 8 “‘Há uma mudança no conceito de prova, de pro- cesso e de delito’: Entrevista com José Eduardo Faria”, O Estado de S. Paulo, 6 fev. 2018. 9 Idem. 10 “Afinal, procurador da Lava Jato disse ‘não temos prova, temos convicção’?”, G1, 15 set. 2016. 11 “Por que o caso de Rafael Braga não choca o Bra- sil?”, Justificando, 26 abr. 2017. 12 Aprovada pelo Congresso Nacional, a lei antiterro- rismo foi sancionada pela presidenta Dilma, sob pressão do Gafi, em 16 de março de 2016. 13 “Estudiosos do direito já inventaram um nome para isso: ‘lawfare’. Formada pela conjunção das pala- vras inglesas ‘law’ (‘lei’), e ‘warfare’ (guerra), o ter- mo pode ser traduzido para algo como ‘guerra jurí- dica’”. Bruno Huberman, “De Gaza a Porto Alegre, a lei como arma de guerra”, Outras Palavras, 28 jan. 2018. 14 “Criada pelo jurista alemão Claus Roxin nos anos 1960 [para] lidar com os mandantes dos crimes cometidos durante o período [nazista] [...], [susten- ta que] quem ocupa posição dentro de um chama- do aparato organizado de poder e dá o comando para que se execute um delito, tem de responder como autor e não só como partícipe”. Idem. 15 Idem. 16 Ver o não indiciamento do senador Perrella pela Polícia Federal no caso do contrabando de co- caína em helicóptero de sua propriedade, como seria de esperar em termos dos procedimentos legais usuais (https://veja.abril.com.br/brasil/o- -helicoptero-de-perrella-e-as-acoes-controla- das/) e os casos de corrupção tornados públicos e também não averiguados pela Lava Jato. 17 Stephen Graham, Cidades sitiadas: o novo urba- nismo militar, Boitempo, São Paulo, 2016, p.26. 18 Ver os casos de aplicação da Lei de Garantia da Lei e Ordem (prevista no art. 142 da Constituição Federal, disciplinada pela Lei Complementar n. 97/1999 e regulamentada pelo Decreto n. 3.897/2001) nos governos Dilma e Temer. “Dilma também acionou militares contra protestos, em 2013”, Valor, 24 maio 2017. 19 Decreto n. 9.288, de 6 de fevereiro de 2018. 20 “‘Não há guerra que não seja letal’, diz Torquato Jar- dim ao Correio”, Correio Braziliense, 20 fev. 2018. 21 “Não temos legislação totalmente adequada. [...] Nesse pacote que está sendo discutido pelo depu- tado Rodrigo Maia e pelo senador Eunício de Oli- veira, é provável que esses temas sejam enfrenta- dos”. Idem. O mesmo sentido tem a reivindicação de “anistia prévia” do general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, que se queixa da “inse- gurança jurídica” para agir no âmbito da interven- ção sem o risco de uma nova Comissão da Verda- de. “Autoanistia prévia na intervenção civil-militar do Rio”, Filhos e Netos, 20 fev. 2018. 22 “Lei que autoriza Justiça Militar julgar morte de civil é sancionada”, Consultor Jurídico, 16 out. 2017. *Márcia Pereira Leite é professora associa- da do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciên- cias Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPCIS/Uerj); Juliana Farias é do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Unicamp. © D an ie l K on do 10 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 © O dy r CONJUNTURA A contrarrevolução no Brasil E stá em curso no Brasil um movi- mento contrarrevolucionário, contra a sociedade democrática. Não é um movimento contra uma “revolução”, mas um movimento em moldes “revolucionários” – revolu- ção não é necessariamente de esquer- da! – que recorre à ruptura e não exclui o uso da violência. A contrarrevolução é preventiva: volta-se contra mudanças democráti- cas, pacíficas e ordeiras, representadas pelos governos eleitos do PT, que colo- caram em xeque os interesses oligár- quicos. É mais perene e danosa do que um golpe, por deixar em seu rastro a for- mação de hábitos, de práticas consoli- dadas na cultura do país. E como sem- pre lembra o ex-presidente do Uruguai José Mujica, muito mais difícil do que mudar a realidade é mudar a cultura. Ao contrário de um discurso pro- pagado com frequência pela grande imprensa, mas também por institui- ções, entre as quais alguns setores do Judiciário e da polícia, as classes peri- gosas e promotoras da desordem não são as dos contingentes populares e de trabalhadores, seus partidos e organi- zações, mas justamente aquelas clas- ses presentes na oligarquia. A violência da luta de classes no Brasil instala-se por meio da classe do- minante. A oligarquia do capitalismo brasileiro é muito perigosa, haja vista que, por suas práticas, demonstradas agora sobejamente, faz mal à saúde, à educação, às eleições, ao emprego, à justiça, à soberania nacional, à nossa integridade física, às nossas reservas naturais, ao nosso futuro... A classe ca- pitalista brasileira não vacila no recur- so à violência quando julga que seu poder oligárquico é ameaçado por práticas democráticas e pacíficas. Há pouco mais de uma década hou- ve uma disputa eleitoral democrática no Brasil. A eleição conduziu ao poder novas práticas sociais que operaram uma transformação na sociedade bra- sileira e facultaram um progressivo despertar da consciência nacional acerca da desigualdade em largas ca- madas da população, e assim possibili- taram um deslocamento das condições de reprodução do poder oligárquico. Pela visão oligárquica, colocaram- -se em risco os interesses do capitalis- mo no país. Sob o manto de aparente estabilidade nas práticas sociopolíti- cas, econômicas e, sobretudo, culturais da coligação de forças nacional e inter- nacional que a sustenta, as oligarquias têm muita resiliência, derivada de cos- tumes erguidos em raízes firmes desde os primórdios deste país com o nome de commodities, estabelecido como colônia de exploração comercial e que evoluiu com base na mais longeva or- dem social escravocrata do planeta. O resultado é uma socialização capi- talista que se pode denominar “semisso- ciedade”: um ordenamento econômico válido para todos, chamado “mercado”, que faz as vezes de uma sociedade dota- da de direitos e participação, mas só pa- ra uma restrita faixa da população. Ou seja, uma situação de enorme desigual- dade econômica, social e política, apoia- da em intolerância cultural e violência institucional repressiva, tudo junto e misturado com um minguado senso pú- blico e de solidariedade a conviver num extremado individualismo.Essa situação, muito favorável à consolidação do neoliberalismo, evi- dencia que o que se apresenta como ca- pitalismo no Brasil é incompatível com práticas democráticas, participativas e públicas. Justamente essas práticas de- mocráticas constituem o alvo da con- trarrevolução para estancar comporta- mentos sociais que questionam as barreiras que mantêm o poder restrito à “panela” dos sócios oligárquicos. Pela primeira e única vez em nossa história, nos governos do PT, houve uma – imperdoável, donde o ódio des- pertado e o golpe realizado – disputa de poder real, em que se enfrentou o olhar oligárquico. As novas práticas não são ideias ou projetos, conflitos ou manifestações isoladas, mas práticas que, por serem sociais, são também políticas, econômicas, culturais, com consequências no ethos, nos hábitos que moldam o processo de reprodução da sociedade brasileira. Essas práticas implicam a configuração de novos ne- xos de coesão social, contraditórios em relação aos laços tradicionais, que pareciam estabilizados sob o poder A oligarquia amedrontada associou-se com interesses internacionais contrários à nossa soberania que lhe permitiram somar forças para uma contrarrevolução antidemocrática de natureza preventiva. Seu objetivo é evitar que as contradições da desigualdade e da exclusão que ela própria gera continuem a se converter em força política adversa à sua continuidade POR WOLFGANG LEO MAAR* 11MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil dos interesses capitalistas, isto é, no seio da oligarquia nacional e suas ra- mificações internacionais. Não são, de um lado, as práticas utó- picas de uma esquerda revoltada, des- provida de base para ameaçar o poder, nem, de outro, as práticas de uma es- querda adaptada, que aceita o poder em vigor ao reivindicar a participação em sua gestão. Ambas dispensariam a oli- garquia do recurso à contrarrevolução. O que se tornou intolerável são práticas de esquerda que atingem o âmbito macropolítico nacional, por meio de sua articulação com micro- políticas. Estas são de inclusão pela educação, de combate à miséria, de cotas raciais e de gênero, de tolerância à diversidade, de ampliação da cober- tura da saúde, de cobertura de servi- ços públicos, de inserção habitacio- nal, de consultas com participação popular na elaboração de políticas, de valorização do salário mínimo, de re- forço da formalização das relações no mundo do trabalho etc. Essas novas práticas, ao ampliarem a concepção pública dos bens comuns para contemplar a totalidade da popu- lação, colocam em xeque os interesses representados no Estado oligárquico. Os beneficiários deste, mediante suas práticas sociais seculares, formularam sua própria concepção privada dos bens comuns nacionais, isto é, dos di- reitos que os brasileiros mereceriam usufruir. Agora se encontram atemori- zados diante da existência, ainda que não consolidada e em construção, de práticas inclusivas e universalizáveis de bens comuns, apreendidos como públicos por parcela majoritária da po- pulação pobre e trabalhadora. Essas novas práticas, de natureza democrática, denunciam que a parce- la excluída por sua desigualdade de condições não nasce desigual, mas é construída em sua desigualdade na or- dem do “mercado”, usurpador da so- ciedade dos iguais por ação do direito oligárquico. Agora esse controle oli- gárquico é ameaçado em sua conti- nuidade pelas contradições sociais ge- radas pela produção da desigualdade. A contrarrevolução, posta em mo- vimento para realizar os interesses da oligarquia capitalista, precisa contrariar essas práticas democráti- cas. Foi assim que a oligarquia parla- mentar impôs e a oligarquia jurídica chancelou o golpe, a contrarreforma trabalhista, a destruição das verbas públicas para saúde, educação, ciên- cia, habitação etc. No entanto, a contrarrevolução, mediante o exercício cotidiano de con- trapráticas antidemocráticas, propõe- -se a converter estas últimas em hábitos geradores de coesão social dirigida à sustentação da oligarquia – contraprá- ticas que não excluem o recurso à vio- lência, seja ela material, simbólica ou de perda da equidade na justiça. É um cal- do de cultura política protofascista. Essas práticas antidemocráticas, porém, não conseguem se impor dire- tamente; exigem mediações. O melhor exemplo é a equivocada condenação do ex-presidente Lula. Ela se insere em uma semidemocracia que, erigida co- mo “sociedade do espetáculo”, leva ao proscênio da opinião pública a “justi- ça” de uma pretensa política de probi- dade anticorrupção, enquanto, longe das vistas, a ordem do mercado conti- nua em operação, com sua parcialida- de capitalista. A oligarquia, apesar de sua consoli- dada estrutura de dominação nas rela- ções capital-trabalho, atentou ao risco de deixar de ser classe dirigente na so- ciedade, até porque nem sequer con- segue dirigir a produção nacional. Sua condução da política nacional seria questionada pelas novas práticas de uma “revolução pacífica”, democráti- ca e antioligárquica, inclusiva e parti- cipativa, dotada do efeito de reanimar a economia do país. Transformações sociais envolven- do grandes contingentes populares – entre um quarto e um quinto da popu- lação – geraram novos nexos de reconhecimento mútuo e novos vín- culos com as instituições e os proces- sos sociais. Aqui se inclui a crescente consciência de direitos sociais em re- lação aos efeitos decorrentes da desi- gualdade causada pela privatização de políticas ligadas à economia especula- tiva e predatória dominante. A democracia já não constitui só um ideal a ser conquistado, mas é construí- da por práticas realizadas em políticas públicas diversificadas e abrangentes. Não foi somente a democracia que se apresentou em sua idealidade à socie- dade. Foi também a sociedade, em grandes contingentes, que se moveu em direção aos direitos, à ideia de de- mocracia. A democracia já não é só uma ideia fora do lugar, alheia e deslo- cada da vida real, como eram as ideias liberais na ordem escravista, conforme expos Roberto Schwarz. Novas ligas de brasileiros, de natureza diversa e plu- ral, misturados nas universidades, nas redes sociais, nas manifestações cultu- rais, em ambientes de trabalho etc. vie- ram para ficar, porque, graças a esses contextos, os direitos – e com eles a ideia de democracia – conseguem ser praticados concretamente. No entan- to, como lembrava Antonio Candido, a democracia é muito trabalhosa. Além de ser uma prática constante, deman- da uma perseverante formação cultu- ral para firmar sua própria concepção de sociedade. A perda de terreno pode ser rápida... A oligarquia amedrontada asso- ciou-se com interesses internacionais contrários à nossa soberania, que lhe permitiram somar forças para uma contrarrevolução antidemocrática de natureza preventiva. Seu objetivo é evitar que as contradições da desi- gualdade e da exclusão que ela própria gera continuem a se converter em for- ça política adversa à sua continuida- de. Para tanto necessita garantir a continuidade da cultura social e institucional. Se até há pouco o Brasil se caracte- rizou como um Estado de direito aber- to à democracia, hoje se volta a passos largos rumo a um Estado de direito oli- gárquico. Não se trata de um jogo de palavras; há uma mudança profunda acerca do que é Estado, sociedade e ra- cionalidade social. No plano oligárquico, o centro do poder soberano e público, o Estado, li- mita-se a ser detentor do monopólio da violência. A sociedade é “o merca- do”, bastando para essa constatação acompanhar o zelo com que a grande mídia tradicional reconstrói diaria- mente essa pretensa identidade entre ordem econômica e sociedade. Práti- cas sociais, como eleições, inclusão social,direitos humanos, debates pú- blicos, são fatores de perturbação da lógica social mercantil. “Social” signi- fica aqui apenas um coletivo de indiví- duos privados, e não uma concepção de totalidade pública. Não seria outro o motivo da famosa proclamação de Margaret Thatcher, recentemente lembrada por Geraldo Alckmin: “Isso que chamamos sociedade não existe; há somente famílias e indivíduos”. Te- mem uma sociedade em que a direção do todo pode ser outra, diversa e con- trária àquela consolidada na socializa- ção capitalista em vigor. Se à mídia compete a construção de uma noção de sociedade oligárqui- ca e de seus agentes, à justiça oligár- quica cabe um papel decisivo na pro- dução do poder de direção social. Cabe a ela evitar que os direitos uni- versais, praticados na sociedade igua- litária, contaminem o adequado fun- cionamento dos agentes do mercado na produção da desigualdade. Está em causa garantir a operacionalidade da socialização conforme a racionalidade imposta no sentido oligárquico. A lei e a jurisprudência são, por si mesmas, uma concretização prática da direção legal universal a que deve se submeter a totalidade do contexto social. A rigor, ao “judicializar” o pla- no político, o Estado é adequado à di- reção necessária para a continuidade do poder nos moldes oligárquicos existentes. A não política resultante da “judicialização” é a política conge- lada na situação em que se encontra e desfalcada de sua própria identidade. É muito nítido o trânsito de um “Estado de direito” democrático, em- bora com uma oligarquia dominante, para um semidemocrático Estado de “direito oligárquico”. Nessa recons- trução, a própria natureza do “social” é submetida a uma mudança estrutu- ral. Os “bens comuns públicos”, que a rigor incluem participação e decisão do público, passam a ser bens comuns dotados de “publicidade”. Em substi- tuição ao caráter público do social na sociedade, que reincide praticamente sobre esta, convertendo-a em forma- ção viva, instala-se mediante a “publi- cidade” um sucedâneo dessa dimen- são do que é público, agora reduzido à exposição pública do existente parti- lhado passivamente. É o que ocorre nas redes sociais, que parecem substi- tuir o social, embora apenas o confir- mem em seu formato vigente. Mas o “horror thatcheriano”, a so- ciedade, existe e é uma realidade práti- ca, efetiva. Nela a diferença em relação aos comportamentos derivados da ló- gica de mercado está na ordem do dia por incluir a democracia. A diversidade, por exemplo, impõe- -se por cima dos critérios mercantis; de outra parte, a intolerância reinante no individualismo do mercado neoli- beral precisa ocultar permanente- mente sua afinidade com os privilé- gios econômicos. As interações no “mundo digital”, que pareciam res- tringir-se inteiramente às relações no plano de indivíduos e famílias, apenas reforçando certas posições tomadas de antemão e obstruindo seu debate real na sociedade, mais e mais conver- tem-se em meios a serem usados nas interações efetivamente sociais. Apenas em sociedade os seres hu- manos conseguem se individualizar. Em uma ordem mercantil capitalista, quando muito, são alçados à condição de vendedores, compradores ou mer- cadorias. Aprofundar a exposição e as práticas públicas democráticas na so- ciedade, em suas instituições e organi- zações, constitui o único antídoto à contrarrevolução antidemocrática e aos seus agentes no mercado, no par- lamento, na grande imprensa e na jus- tiça oligárquicos. Assim será possível resistir às suas imposições e ampliar as contradições que elas geram. *Wolfgang Leo Maar é professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade Fe- deral de São Carlos e pesquisador do Cene- dic da FFLCH-USP. Não se trata de um jogo de palavras; há uma mudança profunda acerca do que é Estado, sociedade e racionalidade social 12 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 ELEIÇÕES © T ia g o L ac er da D e todos os presidenciáveis para as eleições de 2018, Jair Bolso- naro é aquele que busca, de ma- neira mais enfática, se apresen- tar como o candidato capacitado a solucionar o problema da violência que assola o país. Na ausência de um programa, é possível recorrer ao farto material dis- ponível na internet, de modo a anteci- par aquilo que provavelmente será sua proposta para a segurança pública. As declarações presentes em vídeos, re- portagens e entrevistas ajudam a fazer uma leitura interessante desse perso- nagem que, mesmo sem nunca ter concorrido à Presidência, consegue ter mais seguidores no Facebook do que qualquer outro político brasileiro.1 Nas entrevistas, a retórica de Jair Bolsonaro caracteriza-se pelo uso de frases feitas, pela repetição de respos- tas prontas que supostamente dão cer- to e pela impostação imperativa da voz. Quando não concorda com os pressupostos de uma pergunta, uma de suas estratégias recorrentes é des- qualificá-la como algo procedente de um campo político que ele considera ilegítimo em si mesmo. Nesse caso, é suficiente enquadrar uma questão co- mo “esquerdismo”, “direitos huma- nos” ou “ideologia de gênero” para não precisar levá-la a sério. Esse ponto é importante. Se antes de ganhar a visibilidade que tem hoje Bolsonaro se recusava a debater com a “pauta da esquerda” porque seu posi- cionamento ideológico era de con- frontação total e irreconciliável com esse grupo – como o da esquerda mais radical em relação a ele –, agora essa recusa implica a deslegitimação da es- querda como interlocutora política em qualquer sentido. Essa posição tem si- do incorporada ao discurso dos jovens que se politizam à direita e idealizam o clã Bolsonaro. Sobre a segurança pública, as falas do candidato caracterizam-se pela ne- gação reiterada de qualquer aspecto social da criminalidade. Seu refrão preferido, nesse caso, é dizer que, para a esquerda, o “bandido é vítima da so- ciedade”, como se ali residisse uma tentativa ingênua de isentá-lo de res- ponsabilidade. Com efeito, trata-se de uma distorção reducionista e desones- ta de uma perspectiva segundo a qual a violência tem causas mais comple- xas do que a redução analítica aos atos do agente que a comete. Toda abordagem que isole o indiví- duo de seu meio econômico, social e cultural se mostrará incapaz de revelar fenômenos cujas origens se encontram em dimensões mais amplas. Edgar Morin diz que “um pensamento muti- lado leva a decisões erradas ou ilusó- rias”. É exatamente o que acontece quando se atomiza a conduta do crimi- noso, separando-o do campo de forças das estruturas socioeconômicas. A consequência previsível e inevitável é a elaboração de argumentos frágeis, le- vando a conclusões como a da suposta essência degenerada do agente. Pouco importa, por exemplo, que indicadores de criminalidade citados em estudos de segurança pública rea- firmem padrões e tendências estatisti- camente correlacionados a variáveis econômicas e sociais. Segundo Bolso- naro, a atitude delinquente é sempre redutível ao infrator, sendo explicada por meio de sua índole ou caráter. De fato, ao recusar qualquer consideração das condições sociais da violência, o que resta é uma concepção biológica e moral da figura do delinquente. O humanista católico inglês Tomás Morus, em sua magnum opus A utopia (1516), já repreendia – com cinco sécu- los de antecedência – a visão estreita do senso comum sobre a essência per- versa do criminoso. Seu comentário era eloquente: “Vocês deixam desviar- -se e deteriorar-se aos poucos o caráter das pessoas desde a primeira infância, e punem adultos por crimes cuja pro- messa garantida eles carregam desde os primeiros anos”.2 Ao carecer de uma abordagem de viésholístico, que busque retotalizar o indivíduo ao inseri-lo num campo de forças que vai agir na formação de sua personalidade e em sua relação com o meio onde vive, torna-se fácil acreditar em falsas conclusões. No âmbito da delinquência, sempre será mais simples lidar com a individuali- zação da culpa do que entender a complexidade das causas profundas dos processos sociais. Não causa espanto, portanto, que o (não) programa de Bolsonaro seja tão bem recebido pelo eleitorado médio. Em um país com vocação conservado- ra e de longa tradição autoritária, uma plataforma política comprometida em instituir, na prática, um regime de ex- ceção que permitiria aos agentes do aparato repressivo combater a violên- cia com mais violência3 e atuar como grupos de extermínio4 parece atrair um eleitorado que já está cansado de lidar com o crime em seu cotidiano. Se, por um lado, a violência é um fenôme- no complexo que se explica por um conjunto de condicionantes socioeco- nômicos – e justamente por isso é pos- sível identificar seus padrões de ocor- rência e definir contextos em que esses atos são mais ou menos frequentes –, seus efeitos são, por outro lado, perce- bidos como perdas e sofrimentos indi- viduais ou familiares, capazes de atin- gir qualquer um em qualquer lugar. Vale lembrar que 90% dos brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal – cujo apoio é maior entre os es- tratos mais pobres,5 embora seja tam- bém expressivo entre a classe média. O discurso da guerra incondicional à criminalidade tem forte apelo junto à classe média não só porque ela julga que seus filhos jamais serão vítimas da violência policial, mas também por- que, como minoria relativamente fa- vorecida numa sociedade desigual, ela tem sempre presente a fragilidade de sua posição, cuja sensação contínua de insegurança é um epifenômeno. De outra parte, a exposição direta e coti- diana das classes pobres à violência – estatisticamente, os estratos sociais mais baixos são as maiores vítimas de crimes como roubo e assassinato –, agravada pelas condições adversas de moradia em bairros sem infraestrutu- ra e em uma dura luta pela sobrevivên- cia em jornadas exaustivas de traba- lho, torna-as sensíveis ao discurso da repressão policial. Jair Bolsonaro: o candidato da (in)segurança pública Em seu horizonte mental não há lugar para uma sociedade menos violenta. Sua definição do trabalhador policial como um “matador” profissional e sua proposta de dobrar o número de mortos pela polícia como forma de combater o crime denotam que, de sua perspectiva, a violência não pode ser reduzida, apenas canalizada para o extermínio de pessoas vistas como ameaça POR LEANDRO GAVIÃO E ALEXANDRE VALADARES* 13MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil A rigor, se a violência se apresenta como uma dinâmica geral de estrutu- ração das relações sociais, ela é, toda- via, seletiva em seus efeitos. De acordo com dados do Ministério da Justiça,6 três em cada quatro vítimas de homi- cídio no país são negras. Ademais, a taxa de jovens negros de 15 a 29 anos assassinados é três vezes superior à dos brancos (79,4 contra 26,6 a cada 100 mil habitantes). Essas proporções encontram correspondência nos da- dos do sistema prisional: em 2014, dois terços da população carcerária do país eram compostos por negros. Diante de uma política de seguran- ça pública que, entre 2000 e 2014, fez crescer 119% o índice de encarcera- mento no país7 – variação bem acima, por exemplo, da taxa de homicídios por 100 mil habitantes, que subiu 10,6% en- tre 2005 e 20158 –, Bolsonaro se exime de demonstrar qualquer preocupação com as condições dos presídios do país. Seu ponto de vista corrobora a realida- de: as prisões têm servido menos para ressocializar os detentos que para reti- rar da vida social indivíduos identifica- dos como “potencialmente perigosos”. Ao comemorar, por exemplo, os massa- cres ocorridos em presídios – como em Pedrinhas, no Maranhão, em 20149 –, Bolsonaro dá a entender que, para ele, a superlotação, as chacinas e as práticas cotidianas de maus-tratos e tortura que ocorrem no interior dos cárceres não são problemas de segurança públi- ca, e sim soluções. Ao se recusar a reconhecer os con- denados como sujeitos de direitos e ao manifestar sua disposição a dar “carta branca” para a polícia matar, Bolsona- ro se coloca como o candidato que cumpriria uma espécie de mandato tácito outorgado pela maioria da so- ciedade, que se declara a favor do acir- ramento da repressão policial. Mais ainda, ele se faz porta-voz da ideologia punitivista que ataca os princípios bá- sicos dos direitos humanos. De seu ponto de vista, esses direitos consti- tuem um problema porque “prote- gem” os bandidos. Sendo assim, nada mais são do que obstáculos legais ao exercício irrestrito da autoridade. Os projetos de lei mais recentes da atuação parlamentar de Bolsonaro re- fletem sua visão sobre a criminalida- de. São iniciativas que pautam o au- mento das penas de crimes contra a propriedade (PL 7.700/2017 e 7.701/2017), a ampliação do direito de porte de armas (PL 7.282/2014) e o alargamento das ressalvas legais aos atos praticados em legítima defesa e em defesa de terceiros (PL 7.105/2014). O endurecimento penal e a tendência a priorizar estratégias de combate ao crime que isolam e individualizam a conduta criminal reiteram a negação do caráter social – ou socialmente es- truturado – da violência no país. Esses elementos permitem supor que, na hipótese de um governo Bolso- naro, as questões de fundo que geram a violência permaneceriam intocadas. Se para ele a criminalidade é o resulta- do agregado de milhares de decisões particulares de sujeitos propensos a de- linquir, Bolsonaro não verá, em princí- pio, qualquer razão para propor uma política preventiva à violência – exceto, talvez, uma política que identifique in- divíduos “suscetíveis” a cometer cri- mes e os persiga “preventivamente”. Em seu horizonte mental não há lugar para uma sociedade menos vio- lenta. Sua definição do trabalhador policial como um “matador” profis- sional e sua proposta de dobrar o nú- mero de mortos pela polícia como for- ma de combater o crime10 denotam que, de sua perspectiva, a violência não pode ser reduzida, apenas canali- zada para o extermínio de pessoas vistas como ameaça. Por outro lado, a especial insistên- cia com que Bolsonaro apregoa sua pretensão de garantir que todo cida- dão tenha uma arma11 demonstra que, em síntese, ele não tem um projeto de segurança pública. Em primeiro lugar, porque seu foco se restringe à repres- são dos crimes cometidos e, em segun- do lugar, porque uma política de segu- rança cuja proposta mais emblemática é armar cidadãos particulares não po- de ser dita pública. Afora os riscos im- previsíveis que acarreta – discussões no trânsito, desavenças domésticas, brigas em locais públicos e outros ti- pos de conflitos que podem fazer víti- mas fatais –, essa “coparticipação” de cidadãos comuns na prerrogativa do Estado de combater a violência pode significar, numa sociedade dramati- camente desigual como a nossa, a pri- vatização da segurança individual num cenário de guerra hobbesiana. CONSEQUÊNCIAS DA INTERVENÇÃO FEDERAL Para além dos resultados sociais que a militarização da segurança pú- blica pode desencadear, o decreto de intervenção federal no estado do Rio de Janeiro coloca de vez o tema da vio- lência e do enfrentamento à criminali- dade no centro dos debates políticos pré-eleitorais. À primeira vista, essa mudança no cenário favoreceria can- didaturas cujo discurso tem reivindi- cado a necessidade de intensificar a repressão policial, de endurecer as pe- nalidades e de sacrificar direitos e ga- rantias individuaisem nome da “paci- ficação” das ruas. Em tempos de crise econômica e desemprego, com au- mento dos indicadores de violência e da sensação de insegurança, o popu- lismo penal tem, de fato, se mostrado uma estratégia retórica eficaz. Insistindo em qualificar os confli- tos sociais como situações de “guerra”, essa doutrina da intolerância difunde a crença de que é preciso adotar, com urgência e sem concessões humanitá- rias, soluções de força para derrotar os “inimigos internos” da ordem. Bolso- naro, encarnação mais celebrada do gênero, teria, a princípio, razões para 1 Até o fechamento desta edição, sua página conta- va com mais de 5 milhões de seguidores, contra 3 milhões de Lula. 2 Tomás Morus, A utopia, L&PM, Porto Alegre, 2010. 3 “Para Bolsonaro, ‘violência, se for o caso, se com- bate com violência’”, O Popular, 30 maio 2017. 4 “Bolsonaro: Vou combater a corrupção e a violên- cia com radicalismo”, Valor, 14 dez. 2017. 5 “Nove em cada dez apoiam redução da maioridade penal, diz Datafolha”, Jornal do Brasil, 22 jun. 2015. 6 Ver em: <www.justica.gov.br/sua-seguranca/se- guranca-publica/analise-e-pesquisa/download/ estudos_diversos/1diagnostico-homicidios.pdf>. 7 Ministério da Justiça, “MJ divulga novo relatório so- bre população carcerária brasileira”, 24 jun. 2016. 8 “Taxa de homicídios no Brasil aumenta mais de 10% de 2005 a 2015”, G1, 5 jun. 2017. 9 “A única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas, diz Bolsonaro”, UOL, 11 fev. 2014. 10 “Policial que não mata não é policial”, HuffPostBra- sil, 27 nov. 2017. 11 Ver, por exemplo, os vídeos da palestra que o de- putado realizou no Clube Hebraica do Rio de Janei- ro, em 3 de abril de 2017. 12 Ver, por exemplo: “Apesar de crítica, Bolsonaro vota a favor de intervenção federal no Rio”, UOL, 20 fev. 2018. comemorar uma intervenção federal militarizada no estado em que se ree- legeu como o deputado federal mais votado em 2014. Contudo, o tom crítico e distanciado de seu posicionamento público a respeito do decreto12 denota que ele já percebeu a fumaça suspeita que se adensa sob o foguetório midiá- tico: enunciada por um presidente im- popular que busca melhorar os índi- ces de aprovação de seu governo e não descarta se lançar como candidato nas próximas eleições, a intervenção federal no Rio de Janeiro parece ter motivações mais políticas que admi- nistrativas ou técnicas. Além de proje- tar os militares na cena política, ela desarma o deputado federal de seu principal recurso ideológico: o discur- so de guerra contra o crime. *Leandro Gavião é doutor em História Polí- tica (Uerj) e professor da Universidade Cató- lica de Petrópolis (UCP-RJ); Alexandre Va- ladares é doutor em Filosofia (UFRJ). A fábula das abelhas Esta obra-prima britânica do século XVIII desencadeou uma grande controvérsia ao rejeitar uma visão positiva da natureza humana e argumentar pela necessidade do vício como fundamento de uma economia capitalista emergente. Clássico de Bernard de Mandeville considera que a insensibilidade geral é condizente com o interesse supremo do Estado e, consequentemente, da ordem pública. Conversando com Gaspare Spatuzza Autobiogra�a de Norberto Bobbio Um dos maiores intelectuais italianos conta sua vida e dá seu testemunho, em primeira pessoa, sobre os temas e angústias, as contradições e os sentidos que perpassam o século XX. Organizado e comentado pelo jornalista Alberto Papuzzi, traz documentos do acervo pessoal do pensador ao lado de escritos originais. Produzir conteúdo Compartilhar conhecimento. Desde 1987. www.editoraunesp.com.br Em seu testemunho direto e pulsante, coletado pela jurista Alessandra Dino em local secreto, Spatuzza conta a história do jovem de Palermo atraído e cooptado pelo crime, e permite um mergulho nas complexidades envolvidas em seu percurso. O retrato resultante mostra Máfia e mafioso em cores ao mesmo tempo esclarecedoras, esmerizantes, trágicas e brutais. 14 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 CONFUSÃO ENTRE PATOLÓGICO E EXISTENCIAL Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo, a psiquiatria europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução POR GÉRARD POMMIER* A medicalização da experiência humana D iante da realidade do “sofri- mento psíquico” – uma das mais importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme mer- cado potencial. Para isso, foi neces- sário primeiro substituir a grande psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coe- rentes, reunidas durante os dois últi- mos séculos, havia repertoriado os sintomas, classificando-os em gran- des categorias: neuroses, psicoses e perversões. Munido desses conheci- mentos, o especialista podia dar um diagnóstico e distinguir os casos gra- ves dos causados por circunstâncias passageiras. Ele separava, então, o que exigia o uso de medicamentos da- quilo que poderia ser solucionado me- lhor com a conversa. A psiquiatria clássica e a psicanálise haviam chegado às mesmas conclu- sões. Essas duas abordagens tão distin- tas se auxiliavam e se enriqueciam mu- tuamente. O mercado de medicamentos ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios farma- cêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às mais altas instâncias do Estado e dos servi- ços de saúde, com os quais sabem se mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos jovens psiquiatras). A jornada de conquista desse gran- de mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquia- tras Americanos (APA) e seu primeiro manual de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disor- ders (Manual de Diagnóstico e Estatís- tica dos Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organiza- ção Mundial da Saúde (OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classifica- ção Internacional das Doenças as no- menclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu- -se uma inflação de patologias reper- toriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV. EXTINGUIR O VULCÃO Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se cogita bus- car a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles corres- pondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento visí- vel do paciente. Essa prática esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos” superficiais: “transtor- nos” do comportamento, da alimenta- ção, do sono... enfim, “transtornos” de todos os tipos, até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas águas perturbadas que naufragaram os an- tigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também as facul- dades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios laboratórios transmitem os ensinamentos – nume- rosos conflitos de interesses foram de- nunciados. A grande cultura psiquiá- trica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo clínico made in DSM não sabe mais se está li- dando com uma psicose, uma neuro- se ou uma perversão. Ele não distin- gue um problema grave de um estadocircunstancial. E, na dúvida, receita psicotrópicos... “Depressão”, por exemplo, é pala- vra que faz parte do vocabulário cor- rente. O blues (tristeza) pode domi- nar qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depres- são”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à parte. Contudo, a tris- teza pode ser um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco eleva- do de suicídio – quanto de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua triste de- pois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto, co- mo não convém interromper o trata- mento de repente, a prescrição dura às vezes a vida inteira. O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a pa- tologia e o existencial. Isso é muito fá- cil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à beira de um vulcão: extingui-lo com medica- mentos que não passam de drogas é extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patoló- gico só tem sentido para o improduti- vo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O nome de alguns medicamentos pare- ce corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são imprescindíveis pa- ra acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabrican- te, essas moléculas estariam então destinadas a acabar de vez com a pes- soa que sofre de psicose? O fabricante esquece uma coisa: o “paciente” é sem- pre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam chamar-se de prefe- rência “pró-psicóticos” ou “filopsicóti- cos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande filósofo (Jean- -Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa. Ela prefe- re o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações efetivas do sofrimento psíquico. Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos” cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática, em- bora apenas patologize a doença uni- versal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quan- do o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágri- mas. Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipo- lares”, hoje alegres, amanhã tristes. Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria morte ou a explosão de um sur- to maníaco. O diagnóstico de “bipola- ridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo manía- co-depressivo das psicoses – com o ris- co de passagem ao ato grave justifican- do a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.3 O “transtorno” mais comum e in- quietante, pois diz respeito às crian- ças, que sofrem sem saber o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de proble- mas peculiares a cada criança, eles não ousaram rotulá-los sob um “trans- torno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de não propor medidas, Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes 15MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil © A lp in o principalmente pelas associações de pais, algumas delas subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos labo- ratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e NLS Pharma). A imprecisão desse pretenso diag- nóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de Nan- terre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do presidente francês, Emmanuel Ma- cron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simples- mente impedidos de entrar pelos por- teiros. O TDAH não existe nas classifi- cações francesas, seja a Classificação Francesa dos Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psi- quiatria francesa, ou mesmo a Classi- ficação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as opções do DSM. Elas descrevem apenas os pro- blemas de agitação. E agitação não é doença. Pode ter várias causas (pro- blemas familiares, dificuldades na es- cola etc.); exige primeiro que as crian- ças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda, atri- buem-lhe causas “neurodesenvolvi- mentistas”. Essa afirmação não repou- sa sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das difi- culdades causadas por problemas no seio da família ou na escola... Jerome Kagan, professor de Har- vard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. [...] Oitenta por cento dos 5,4 milhões de crianças tra- tadas com Ritalina nos Estados Uni- dos não apresentam nenhuma anor- malidade metabólica”.4 Na França, Patrick Landman mostrou em seu li- vro Tous hiperactifs? [Todos hiperati- vos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam indica- dores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon Ei- senberg, inventor da sigla “TDAH”, de- clarou em 2009, sete meses antes de falecer: “O TDAH é o exemplo típico de uma doença inventada. A predisposi- ção genética para o TDAH é totalmen- te superestimada”.5 Todavia, com a ajuda do lobby, cerca de 11% das crian- ças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 milhões) receberam o diagnóstico de TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle das Doenças norte-america- nos. Segue-se quase sempre uma pres- crição de Ritalina (metilfenidato), que contém moléculas consideradas estu- pefacientes nas classificações france- sas. A prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em discussão – uma correlação entre as crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam. As crianças não são poupadas pe- los transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido, da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua ida- de. As recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto, inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Na- cional da França uma mensagem en- dereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma “doen- ça neurológica” e fornecendo uma re- ceita detalhada para o estabelecimen- to de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar a quase todas as crianças. Sem- pre a mesma misturade problemas normais e patologia... A INFÂNCIA NA LINHA DE FRENTE Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notada- mente pelos Estados e as religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização. Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo “sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farma- cêutica é que pretende tomar as ré- deas da ciência. A mensagem é clara: “Não vos inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo, excitação exagerada, ideias suicidas! A culpa não é vossa, é de vossos ge- nes, de vossos hormônios; sofreis de um déficit neurodesenvolvimentista, e nossa farmacopeia vai consertar tu- 1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde mental], Le Monde Di- plomatique, dez. 2011. 2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925). 3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um pacien- te melancólico a que um psiquiatra, ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suici- dou. Vi inúmeros casos semelhantes. 4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal mo- nitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>. 5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergo- nha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012. 6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Pa- pai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994. 7 Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inver- no, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e bus- cou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças. do”. Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas de neurotrans- missores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais resol- vidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a hierar- quia e o poder deitam raízes nas pro- fundezas da infância. Por todos os lados, a infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais “perturbador” que os outros. Em todos os tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada. Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agita- do, isso era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um diagnóstico de defi- ciência. Preservava-se uma relação pessoal, que a pseudociência elimi- na. Pela primeira vez na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”. To- dos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem mostrou o etnólogo Claude Lévi-S- trauss),6 traz para as crianças presen- tes a fim de consolá-las. Hoje, a Big Pharma pretende vestir o capuz do Papai Noel. Mas não nos esquecere- mos de que, sob a roupa vermelha, esconde-se uma sombra muito pare- cida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.7 *Gérard Pommier é médico psiquiatra, psi- canalista, professor universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor, principalmente, de Comment les neu- rosciences démontrent la psychanalyse [Co- mo as neurociências dão suporte à psicanáli- se], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim], Pauvert, Paris, 2016. 16 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 UM BENEFÍCIO AO MESMO TEMPO COLETIVO E INDIVIDUAL A associação francesa Gerações Futuras divulgou, no dia 20 de fevereiro, um relatório sobre a presença de pesticidas nos produtos agrícolas: 73% das frutas e 41% dos legumes analisados nos últimos cinco anos estavam contaminados. Motivo para reforçar o interesse na agroecologia. Mas o que dizem os estudos sobre os benefícios desta para o meio ambiente? POR CLAIRE LECOEUVRE* Por que consumir orgânicos? A exposição direta a diversos produtos fitossanitários causa inúmeros problemas de saúde (câncer, malformações etc.) A agricultura orgânica remete às práticas que procuram favorecer a preservação dos ecossistemas e a equidade na classe dos agri- cultores. É sobretudo a ausência de pesticidas sintéticos que reduz consi- deravelmente seu impacto no ambiente e na saúde. Fabricadas em laboratório, as moléculas que compõem os produ- tos fitossanitários acompanharam o aumento da produção agrícola em todo o planeta. Mas, após algumas décadas, aprofundou-se a consciência dos efei- tos do emprego intensivo dos produtos químicos cada vez mais numerosos. Exemplo: depois de vinte anos, re- gistrou-se uma poluição generalizada das águas superficiais e subterrâneas por nitratos e substâncias fitossanitá- rias. Segundo os últimos dados das agências responsáveis pelo controle das águas, em 2014 87% dos rios visto- riados continham pelo menos um pes- ticida.1 As duas substâncias mais fre- quentemente encontradas são o Ampa, um metabólito do glifosato, e o próprio glifosato, o famoso herbicida classificado como provável canceríge- no pela Organização Mundial da Saú- de. De 1994 a 2013, 39% das interrup- ções de captações de água potável se deveram à poluição por nitratos e pes- ticidas.2 Essa poluição e seu tratamen- to custariam entre 640 milhões e 1,140 bilhão de euros por ano.3 “Sabemos que mais vale prevenir que remediar”, diz Patricia Blanc, diretora-geral da agência de controle de águas Seine- -Normandie. “Há vinte anos, nossas agências começaram a financiar pro- jetos de mudança das práticas agríco- las, pois temos um verdadeiro proble- ma de poluição das águas.” A agricultura convencional tam- bém produz efeitos sobre a biodiversi- dade. “Todas as atividades caminham no mesmo sentido: a diminuição do número de espécies de insetos”, resu- me Axel Decourtye, diretor científico do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra, na sigla em fran- cês). Em outubro de 2017, um novo es- tudo revelou uma perda de 76% a 82% da biomassa dos insetos em vinte anos, em diversas regiões da Alema- nha.4 Quanto aos pássaros, a quanti- dade de espécies no ambiente agrícola caiu pela metade de 1989 a 2013.5 Não é fácil, é claro, determinar as causas exatas da diminuição da biodiversida- de. A difusão de doenças, o desapare- cimento de hábitats e o emprego de produtos fitossanitários são os princi- pais motivos aventados. Todavia, se- gundo um artigo solidamente funda- mentado, os pesticidas desempenham um papel decisivo no declínio dos in- setos polinizadores.6 Em se tratando de hábitats, os agri- cultores orgânicos favorecem as pra- darias com a rotação de culturas, a plantação de cercas-vivas e ainda as associações de plantas. “A diversifica- ção é um elemento-chave da agroeco- logia”, confirma Natacha Sautereau, engenheira agrônoma e economista do Instituto Técnico de Agricultura Orgânica (Itab, na sigla em francês). Essas práticas aumentam o número de plantas, aracnídeos, minhocas, co- leópteros, pássaros e até mamíferos. O aumento dos recursos alimentares disponíveis favorece também algu- mas espécies ditas auxiliares – morce- gos, ouriços, répteis, certos insetos e ácaros –, que minimizam a pressão dos depredadores. IDENTIFICAR OS EFEITOS DOS PESTICIDAS Os solos são, com frequência, os grandes esquecidos quando observa- mos o impacto das atividadeshuma- nas. No entanto, o emprego excessivo de pesticidas, de nitrogênio e de fósfo- ro não os poupa. Muito adubo os acidi- fica e provoca fenômenos de prolifera- ção de algas, como as “marés verdes” da Bretanha. Os pesticidas sintéticos contaminam os solos e destroem a vi- da microbiana que ali se encontra. Já a agricultura orgânica favorece a cober- tura dos solos, evitando a erosão. De maneira geral, os solos das fazendas agroecológicas têm quantidades maiores de matéria orgânica, estima- das em 37,4 toneladas de carbono or- gânico por hectare, contra 26,7 na agricultura convencional.7 As grandes culturas orgânicas integram 64% de pradarias, contra 16% na agricultura convencional, mas também mais le- guminosas nas rotações e uma melhor cobertura dos solos no inverno.8 O conjunto dessas práticas favorece o se- questro do carbono, o que pode con- tribuir para a contenção do aqueci- mento climático. Avaliar sistemas agrícolas implica levar em conta seus efeitos sociais. Por exemplo, a diversificação dos produtos e dos métodos de venda na agricultura orgânica, com mais circuitos curtos, exige mais assalariados. Um relatório sobre os elementos secundários da agricultura orgânica revela que, em dois terços das plantações, ela gera muito mais empregos.9 Além disso, em diversas atividades que apresentam dificuldades financeiras aos agriculto- res, a passagem para a agricultura or- gânica se torna uma alternativa viável, explicando por que, de 2005 a 2016, a superfície agrícola orgânica passou de 2% para 5,7% do total. Observamos is- so na produção de leite, frutas e legu- mes. “De início, são as vicissitudes eco- nômicas que provocam a mudança”, explica Marc Benoît, economista e di- retor adjunto do Comitê Interno de Agricultura Orgânica do Inra. “Está em jogo aí a famosa compressão dos pre- ços: o dos gêneros diminui, enquanto aumenta o da energia, dos adubos e dos fitossanitários. No caso do leite, os criadores percebem que o sistema or- gânico é melhor, mais rentável.” Estranhamente, esses elementos são raramente destacados. Fala-se mais nos que estão ligados à saúde. A agricultura orgânica produz efeitos nessa área? Para verificar, é necessário levar em conta as exposições diretas e indiretas aos produtos fitossanitários. Diferentemente dos agricultores e ri- beirinhos, os consumidores não ficam em contato direto com esses produtos. No entanto, o efeito global do sistema de agricultura orgânica vai além do in- divíduo, sendo interessante conside- rar o benefício para o conjunto da po- pulação. Notemos, num primeiro momento, que certos produtos da agricultura orgânica contêm, parado- xalmente, traços de pesticidas sintéti- cos: segundo um relatório de 2016, 45% dos produtos convencionais con- têm pesticidas, mas também 12% dos provenientes da agricultura orgâni- ca.10 Isso se deve, sobretudo, à conta- minação pelas glebas vizinhas e du- rante o beneficiamento. A exposição direta a diversos produ- tos fitossanitários causa inúmeros pro- blemas de saúde (câncer, malforma- ções etc.). Em 2013, num relatório produzido por diversos especialistas do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm, na sigla em francês), passou-se em revista a literatura cientí- fica referente aos efeitos dos pesticidas na saúde.11 “Observamos, em primeiro lugar, que os agricultores são menos su- jeitos que o resto da população aos cân- ceres digestivos, do cólon e do reto, bem como aos ligados ao tabagismo, como o do pâncreas, da bexiga e das vias supe- riores. Isso depende, contudo, da idade e do tipo de trabalhador”, afirma Pierre Lebailly, professor da Universidade Caen-Normandia e pesquisador do Centro François Baclesse. Em contrapartida, foram detecta- das ligações entre o emprego de agen- tes sintéticos e o aumento do risco de desenvolver mal de Parkinson, linfo- mas não Hodgkin (LNH, cânceres do sistema linfático), mielomas múltiplos (cânceres do sangue) ou mal de Al- zheimer. As pessoas que aplicam os pesticidas e os empregados que os pro- duzem teriam de 12% a 28% de riscos suplementares de ter câncer de prósta- ta, sem que seja possível associá-lo mais precisamente a determinada substância. No caso de mulheres ex- postas durante a gravidez, os estudos mostram a possibilidade de associa- ção na presença, em crianças, de mal- formações congênitas ou leucemia. Entre as substâncias pesquisadas, o lindano, o DDT e a malationa são fre- quentemente associados ao desenvol- vimento de linfomas não Hodgkin. Ao término de uma longa batalha, o mal 17MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil de Parkinson e os linfomas não Hodg- kin passaram a ser reconhecidos tam- bém como doenças profissionais. Em seguida, outros estudos trouxe- ram novos elementos probatórios. O grupo Agrican, que atua desde 2006, tem por objetivo avaliar a incidência de câncer entre os agricultores num perío- do de pelo menos dez anos. “Por en- quanto, observamos um excesso de 5% a 30%, com relação ao resto da popula- ção, de linfomas não Hodgkin, de cân- cer de próstata e de câncer de pele, co- mo o melanoma”, revela Pierre Lebailly. Vários estudos apontam para o insetici- da clorpirifós, que, em caso de exposi- ção durante o período pré-natal, pode acarretar problemas de desenvolvi- mento cerebral. “O que é certo hoje é que o DDT e o clorpirifós são perigosos para o desenvolvimento do cérebro. En- tretanto, mais de uma centena de pesti- cidas poderiam afetar esse órgão. Preci- samos de mais provas para afirmá-lo. Existem já várias pesquisas, mas regis- tramos com frequência exposições mistas que complicam o isolamento de um pesticida”, insiste Philippe Grand- jean, epidemiologista da Universidade do Sul da Dinamarca. Nathalie Jas, his- toriadora do Inra, sustenta que a reali- dade dos problemas de saúde ligados aos produtos fitossanitários está mas- carada pela penúria de dados e por cau- sa da má visibilidade das afecções e da dificuldade de associá-las a exposições a doses fracas. Ela nota também, na França, um desinteresse de mais de trinta anos por esses problemas, consi- derados “o preço a pagar pelos progres- sos técnicos da agricultura”.12 Desde os anos 1980, estudos vêm avaliando a qualidade dos alimentos produzidos pela agricultura orgânica. “Eles mostram que os orgânicos con- têm uma quantidade maior de carote- noides, ácidos graxos e vitamina E”, diz Denis Lairon, diretor emérito de pesquisas do Inserm, especializado em nutrição. Em outubro de 2017, um deles sintetizou o conjunto dos pro- gressos obtidos nessa área.13 “Nos re- sultados mais seguros, notamos uma diferença com relação aos polifenóis, existentes em maior quantidade nas frutas e nos legumes orgânicos, que além disso revelaram uma presença menor de cádmio [um metal tóxico]. Entretanto, os resultados não apre- sentam uma diferença muito grande”, contemporiza Axel Mie, um dos auto- res do artigo e pesquisador do Institu- to Karolinska, na Suécia. MENOS RISCO DE OBESIDADE Um ambicioso estudo epidemioló- gico foi publicado na França em 2011 pelo grupo NutriNet-Santé. Segundo os primeiros resultados, comer alimentos orgânicos reduziria em 23% o risco de excesso de peso e em 30% o de obesida- de.14 “Notamos uma obesidade menor quando conseguimos separar os fatores ligados ao modo de vida. Chegamos mesmo a notar certa diferença entre pessoas que consomem uma alimenta- ção equilibrada”, declara Emmanuelle Kesse-Guyot, epidemiologista do Inra encarregada desse estudo. Duas hipóte- ses são aventadas para explicar o fenô- meno. Por um lado, a quantidade maior de ácidos graxos do tipo ômega 3 e de 1 “Surveillance des pesticides dans les eaux françai- ses” [Supervisão dos pesticidas em águas france- sas], Ministère de la Transition Écologiqueet Soli- daire, Paris, 19 jun. 2017. 2 “L’eau et les milieux aquatiques, chiffres-clés” [A água e os meios aquáticos, números-chave], Com- missariat Général au Développement Durable, Pa- ris, fev. 2016. 3 “Coûts des principales pollutions agricoles de l’eau” [Custo das principais poluições agrícolas da água], Commissariat Général au Développement Durable, set. 2011. 4 Vários autores, “More than 75 percent decline over 27 years in total flying insect biomass in protected areas” [Mais de 75% de declínio, em 27 anos, no total da biomassa de insetos voadores, em áreas protegidas], PLOS One, 18 out. 2017. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosone>. 5 “Évolution de l’abondance des oiseaux communs” [Evolução da abundância dos pássaros comuns], Ministère de la Transition Écologique et Solidaire, 24 out. 2014. 6 Ben A. Woodcock, “Impacts of neonicotinoid use on long-term population changes in wild bees in England” [Impactos do uso de neonicotinoide em mudanças de longo prazo na população de abe- lhas selvagens na Inglaterra], Nature Communica- tions, Londres, n.7, 16 ago. 2016. 7 Andreas Gattinger, “Enhanced top soil carbon stocks under organic farming” [Mais carbono na superfície do solo em agricultura orgânica], PNAS, Washington, 30 out. 2012. 8 “Enquêtes pratiques culturales 2011” [Pesquisas práticas de culturas 2011], Agreste Les Dossiers, Ministère de l’Agriculture et de l’Alimentation, Pa- ris, n.21, jul. 2014. 9 Natacha Sautereau, Marc Benoît e Isabelle Savini, “Quantifier et chiffrer économiquement les externa- lités de l’agriculture biologique?” [Quantificar e avaliar economicamente os elementos secundá- rios da agricultura orgânica?], Institut Technique de l’Agriculture Biologique, Paris, nov. 2016. 10 “The 2013 European Union report on pesticide re- sidues in food” [Relatório de 2013 da União Euro- peia sobre resíduos de pesticidas nos alimentos], EFSA Journal, Autorité Européenne de Sécurité des Aliments, Parma, 12 mar. 2012. 11 “Pesticides: effects sur la santé. Synthèse et re- commandations” [Pesticidas: efeitos sobre a saú- de. Resumo e recomendações], Inserm, Paris, jun. 2013. 12 Nathalie Jas, “Pesticides et santé des travailleurs agricoles en France. Questions anciennes, nou- veaux enjeux” [Pesticidas e saúde dos trabalhado- res agrícolas na França. Questões antigas, desa- fios novos], Courier de l’Environnement de l’INRA, Paris, n.59, out. 2010. 13 Vários autores, “Human health implications of or- ganic food and organic agriculture: a comprehen- sive review” [Implicações para a saúde humana de alimentos orgânicos e agricultura orgânica: uma análise abrangente], Environmental Health, 27 out. 2017. 14 Vários autores, “Contribution of organic food to the diet in a large sample of French adults (the NutriNe- t-Santé Cohort Study)” [Contribuição dos alimen- tos orgânicos para a dieta em uma ampla amostra de adultos franceses (o NutriNet-Santé Cohort Study)], Nutrients, Basileia, 21 out. 2015. antioxidantes nos produtos orgânicos amenizaria a síndrome metabólica. Por outro, as pessoas consideradas adeptas de uma alimentação equilibrada con- somem mais frutas e legumes; todavia, quando estes não são da agricultura orgânica, contêm numerosos produtos fitossanitários. Ora, muitos estudos constataram um vínculo entre a expo- sição aos pesticidas e um aumento de obesidade e diabetes de tipo 2. Os problemas de saúde ligados aos produtos fitofarmacêuticos já têm uma longa história. “As primeiras substân- cias químicas utilizadas na agricultura que suscitaram uma barulhenta con- trovérsia foram os arsenicais, lá pelo fim do século XX”, relata Nathalie Jas. O arsênico só foi suprimido definitiva- mente em 2001, após inúmeras restri- ções de uso. Do mesmo modo, com o tempo, várias substâncias foram elimi- nadas. Entre as mais conhecidas, temos a família dos organoclorados e alguns organofosforados. Para muita gente, es- sas supressões provam o bom funcio- namento do sistema de regulação dos produtos sintéticos. Acontece, no en- tanto, que isso às vezes vem tarde de- mais e os produtos continuam produ- zindo efeitos bem depois de sua interdição: por exemplo, a clordecona nas Antilhas e a atrazina, proibida pela União Europeia em 2003, mas que ain- da é encontrada na maior parte dos rios. Longe de ensejar a descoberta de outras soluções além dos pesticidas, cada proibição abre caminho para o surgimento de novas substâncias apresentadas como menos perigosas. A toxicidade pode mudar, mas nem por isso é menor. “Proibiram-se as que se mantinham por muito tempo nos tecidos animais; as novas, porém, têm afinidade com a água e se acumulam ainda mais nos solos”, explica Axel Decourtye. Sob pressão dos interesses finan- ceiros, a máquina administrativa e sa- nitária que gerencia os riscos associa- dos aos pesticidas parece um pouco enferrujada, ainda que o acúmulo de dados científicos devesse conduzir a uma adoção bem mais rápida de mo- dos de produção mais sustentáveis. *Claire Lecoeuvre é jornalista. © D a n ie l K o n d o 18 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 Com o fim do apartheid, em 1991, o CNA, aureolado dos anos de luta e gozando do prestígio de Mandela, se tornou hegemônico NA ÁFRICA DO SUL, HERDEIRO DE MANDELA TEM SUA REVANCHE Depois de longos meses de negociações e nove pedidos de impeachment pelo Parlamento, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, implicado em diversos escândalos de corrupção, acabou renunciando no dia 14 de fevereiro. O Congresso Nacional Africano, verdadeiro partido-Estado, enfrenta graves tensões internas que fragilizam a hegemonia conquistada com o fim do apartheid, em 1991 POR SABINE CESSOU* Congresso Nacional Africano, nas origens de um partido-Estado F amoso por ter se tornado o pri- meiro bilionário negro da África do Sul, Cyril Ramaphosa foi elei- to, em 18 de dezembro de 2017, presidente do Congresso Nacional Africano (CNA). Provavelmente, ele será o próximo presidente da Repúbli- ca em 2019, depois do mandato interi- no que ocupa desde a demissão força- da de Jacob Zuma por corrupção, em 14 de fevereiro de 2018. O percurso tu- multuoso desse veterano da luta con- tra o apartheid se explica amplamente pelas engrenagens e cultura políticas particulares do mais antigo partido político da África. De tendência social- -democrata e membro da Internacio- nal Socialista, o CNA é, como a Frente de Libertação Nacional (FLN) na Argé- lia e a União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu- -PF, na sigla em inglês), um desses an- tigos movimentos de libertação nacio- nal que passaram pela luta armada antes de chegar ao poder. Apesar de suas tensões internas, os escândalos dos últimos anos e o desmoronamento de seus resultados eleitorais desde 2014, essa máquina sofisticada, ligada às suas regras de funcionamento de- mocráticas, continua provocando chuva e sol na África do Sul.1 Fundado em 1912, sob a coloniza- ção britânica, para contestar a espolia- ção das terras ocupadas pela maioria negra, o CNA atravessou o século XX se renovando constantemente. Ele deu ao mundo não ocidental seu primeiro Prêmio Nobel da Paz bem antes de Desmond Tutu (1984) e Nelson Mande- la (1993): em 1960, o presidente Albert Lutuli, reverendo zulu pacifista, tinha sido coroado após o gigantesco massa- cre de Sharpeville. Sessenta e nove pessoas que faziam uma manifestação contra o pass (direito de passar) impos- to aos negros para circular na cidade foram então assassinadas pela polícia. RECUSA EM JOGAR A CARTA RACIAL Proibido em consequência do mas- sacre, ao mesmo tempo que o Con- gresso Pan-Africano (PAC) e o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), o CNA, legalista e não violento em seu início,só passou à luta armada em 1961. Para muitos, isso resultou na clandestinidade e no exílio. Sob a dire- ção de Oliver Tambo, os exilados se or- ganizaram em Lusaka, na Zâmbia, on- de o partido estabeleceu sua sede. Outros militaram de dentro contra o regime racista, como Ramaphosa e to- da a “geração perdida”. Esta se lançou na luta contra o apartheid sob a ban- deira do CNA e de seu braço armado junto às revoltas escolares de 16 de ju- nho de 1976 em Soweto, reprimidas com sangue. Esses militantes se reuni- ram em 1983 sob o estandarte da Fren- te Democrática Unificada (UDF), a fa- ce legal do CNA no interior do país, agregando as associações, as Igrejas e os sindicatos não proibidos. As rela- ções entre a UDF e os exilados do CNA eram constantes e orgânicas, mas marcadas por uma suspeita: os segun- dos queriam manter o controle e che- gavam até a se perguntar se o próprio Mandela não traíra a causa quando começou a negociar, sozinho, da pri- são, a partir de 1986, com os naciona- listas africâneres. Com o fim do apartheid, em 1991, o CNA, aureolado dos anos de luta e go- zando do prestígio de Mandela, pri- meiro presidente negro eleito da nova África do Sul, se tornou hegemônico. Ele ganhou eleição atrás de eleição. O “camarada” Mandela tinha confiado a íntimos sem nunca dizer abertamen- te: mais do que Thabo Mbeki, ele teria preferido que fosse Ramaphosa que lhe sucedesse ao final de seu primeiro e único mandato presidencial em 1999. Entre 1982 e 1992, esse jurista de formação, filho de policial, que cres- ceu em Soweto, transformou o Sindi- cato dos Mineradores (NUM) em uma organização de massa de mais de 200 mil filiados. Negociador sem par, ele provou seu valor nas difíceis discus- sões com o Partido Nacional de Frede- rik de Klerk em torno da transição pós- -apartheid. Aos olhos de Mandela, ele apresentava também a vantagem de pertencer a uma etnia minoritária do norte da África do Sul, os Venda. Essa escolha teria assim regulado, resol- vendo-a, a questão do equilíbrio entre zulus e xhosas, os dois grupos domi- nantes (cerca de 20% da população ca- da um) – questão política delicada, le- vando-se em conta a recusa do CNA de jogar com a carta racial, manipulada amplamente pelo regime do apar- theid: para dividir a maioria negra, os dirigentes exageravam as violências entre os nacionalistas zulus do Partido Inkatha da Liberdade (IFP) e os mili- tantes do CNA, que marcaram toda a transição (1990-1994). Ramaphosa ameaçava o que estava descrito nas entrelinhas, por detrás das cortinas do CNA, como “Xhosa Nostra” – ou seja, o controle dos xhosas, a etnia de Mandela, de Tambo e de Walter Si- sulu, sobre o aparelho do partido. His- tórica, essa dominação se deve à pre- sença da Universidade de Fort Hare no país Xhosa, antigo Transkei e atual pro- víncia do Cabo Oriental. A instituição britânica, que queria formar executivos negros, produziu, contra seu desejo, os heróis da independência da África aus- tral, como Mandela, Kenneth Kaunda (Zâmbia) e Robert Mugabe (Zimbá- bue). Enquanto inzile, militante do in- terior que ficou na África do Sul para lutar frontalmente contra o regime ra- cista, Ramaphosa desafiava também o campo com menos “exilados”. Preservando-se de qualquer tipo de autocracia, Mandela se contentou em observar os jogos aos quais se entrega- vam os candidatos à sua sucessão. Rompido com os arcanos do partido e hábil manobrista, Mbeki se impôs em 1994 na vice-presidência do CNA – e do país. Ramaphosa tinha então se dis- tanciado da política e reciclado seu ta- lento nos negócios, ao mesmo tempo que se mantinha como um dos mem- bros menos ruidosos, mas mais popu- lares do Comitê Executivo Nacional – a mais alta instância de decisão do CNA, que conta com 86 membros, dos quais uma metade estatutária de mulheres. Uma regra não escrita exige que um candidato à presidência suba os degraus sucessivos: eleição pela base à vice-presidência do CNA, seguida de uma nomeação automática à vice-pre- sidência da República, depois uma confirmação à presidência do partido quando de seu congresso quinquenal, que, desde 1997, acontece dois anos antes das eleições legislativas. O presi- dente é em seguida eleito pelo Parla- mento, no qual o CNA goza de uma maioria esmagadora desde 1994. Esse dispositivo inaugurado por Mandela oferece ao mesmo tempo visibilidade e experiência ao candidato designado.2 Em sua luta pelo poder, porém, Mbeki fez uma escolha com grandes consequências. Ele legitimou Jacob Zuma, antigo chefe de informações do braço armado do CNA, como seu vice- -presidente, em 1997, para afastar os perfis de presidenciáveis de maior cre- dibilidade. Mais que isso, depois de sua própria reeleição em 2004, para um segundo mandato presidencial, e três anos antes de um congresso do partido previsto para o fim de 2007, ele abriu os “arquivos”. Um processo por corrupção foi tentado em 2005 contra Zuma pelos subornos que ele teria re- cebido quando da negociação de con- sideráveis contratos de armamento em 1998. Um processo por estupro, so- bre uma queixa feita em 2006 por uma moça, “amiga da família” Zuma, foi classificado pelo acusado como outra manobra política. Bastante tensa, a conferência do CNA em Polokwane, em 2007, viu os campos Zuma e Mbeki se alfinetarem sobre questões ao mesmo tempo pes- soais e políticas. Com seus cantos de luta contra o apartheid, Zuma apre- 19MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil © G C IS /c c Presidente Cyril Ramaphosa presta homenagem ao ex-presidente Jacob Zuma por sua contribuição ao desenvolvimento durante os nove anos em que ficou no comando da África do Sul sentou um registro populista para se diferenciar de um Mbeki julgado poli- ciado demais e distante das massas. Ele também apostou nas frustrações da ala esquerda do partido diante da eclosão de uma burguesia negra ligada ao poder e à gestão neoliberal do país – sob fundo de crescimento econômi- co, mas de desemprego (27% dos ati- vos) e de pobreza (42% da população) persistentes. A queda de braço se resol- veu pela vitória de Zuma, levada por um vasto movimento denominado “Os amigos de JZ”. Este reunia todos os de- cepcionados com a “Thabocracia”, a ala esquerda do CNA, vinculada a um ideal socialista de redistribuição das riquezas, e dos eleitores seduzidos por promessas firmes de criação de 500 mil empregos. Esse compromisso não foi mantido por causa da crise financeira internacional, ao final de 2008, mas também em função da gestão centrali- zadora de Zuma e de uma corrupção que se tornou endêmica. O único mer- cado emergente do continente africa- no foi desclassificado a partir de 2015 pelas agências de classificação de risco internacionais em razão de suas pers- pectivas “negativas”. À depreciação contínua do rand, moeda local, se acrescentou uma recessão em 2017. Em dezembro de 2017, o futuro da África do Sul esteve novamente em jo- go no congresso do CNA – e em ne- nhum outro lugar. Uma diferença de 179 votos entre 4.708 se manifestou a favor de Ramaphosa, contra Nkosaza- na Dlamini Zuma, ex-mulher ainda próxima de Zuma, ex-ministra das Re- lações Internacionais e ex-presidente da Comissão da União Africana. Ra- maphosa, cujo programa se resume em algumas palavras (“o retorno aos valores originais dos fundadores do CNA”), longe da corrupção, do clanis- mo e do populismo do regime Zuma, colocou fim às angústias dos sul-afri- canos sobre a impunidade previsível do presidente que deixaria o cargo ca- so sua ex-mulher ganhasse. Esses valo- res irrigam a Carta da Liberdade, ado- tada em 1955 por todos aqueles que o país contava então como oponentes: 3 mil delegados, dos quais trezentos in- dianos, duzentos mestiços e uma cen- tena debrancos. O CNA era então ape- nas um de seus signatários, antes de fazer dela seu programa político. Esse texto fundador carrega um ideal claro: o sufrágio universal, a igualdade de oportunidades e a “democracia multir- racial”, pela qual diversas gerações de sul-africanos fizeram sacrifícios de- mais para esquecê-la tão rápido. Tendo se tornado um partido de massa ao final do apartheid em 1991, hoje contando com 70 mil membros, o CNA continua sendo o caldeirão das dinâmicas políticas mais importantes da África do Sul. Fortalecido por sua legitimidade histórica, ele representa ao mesmo tempo uma garantia de es- tabilidade para uma das mais jovens democracias da África e sua principal fraqueza, em razão de sua hegemonia. Seus dirigentes, que também são mi- nistros e governadores de província, têm o controle sobre a nomeação de todos os cargos importantes – até no setor privado – e sobre os contratos pú- blicos. Seus desvios, portanto, são ca- pazes de afetar todo o país. Apesar dos escândalos e das muitas reuniões ruidosas do comitê nacional executivo, o chefe de Estado continua apoiado pelo aparelho do partido, que ele controla por dentro, principalmen- te em seu local de origem, o Kwazulu- -Natal. Na cultura política do CNA, a “organização”, como dizem seus mili- tantes, importa mais que os indiví- duos. O que era uma necessidade vital sob o apartheid, para resistir à repres- são, permitiu ao partido sobreviver quaisquer que fossem seus chefes, pro- duzindo sem cessar novos dirigentes através de seus “ramos” (o equivalente aos núcleos dos partidos de esquerda). A cada congresso, as cartas são redis- tribuídas. A eleição justa de Ramapho- sa à presidência do CNA pelos repre- sentantes de seus “ramos” pode ser interpretada, como explica o cientista político sul-africano William Gumede, como um “sobressalto da base para salvar o que ainda pode ser salvo”. CONCORRÊNCIA E DIVISÕES O partido saiu danificado das eras Mbeki e Zuma. A demissão deste últi- mo só foi obtida após oito moções de desconfiança pelo Parlamento desde 2015. Sua preferência começou a decli- nar, passando de 65,9% em 2009 para 62,15% em 2014, depois a menos de 54% nas municipais de agosto de 2016. Assim o CNA perdeu três grandes cida- des: Johannesburgo, Pretória e Port Elizabeth. A concorrência da oposição se tornou cada vez mais rude. No cen- tro-direita, a Aliança Democrática (22,23% dos votos em 2014 e 26,9% em 2016), formação majoritariamente branca e mestiça em via de desraciali- zação, é dirigida por um jovem negro, Mmusi Maimane. Ela agrega prome- tendo fazer o que o CNA não conse- guiu: “lutar contra as desigualdades e redistribuir as riquezas”, já que os la- res negros ganham seis vezes menos (6,6 mil euros por ano em média se- gundo a Statistics SA) que os brancos (36,5 mil euros). À esquerda, os Com- batentes pela Liberdade Econômica (EFF), um partido fundado em 2013 pelo dissidente do CNA Julius Malema (6,35% dos votos em 2014 e 8,19% em 2016), reivindica a nacionalização das minas – 9% do PIB – e a expropriação de cerca de 50 mil fazendeiros brancos (a agricultura representa 2,5% do PIB), com base no modelo do Zimbábue de Mugabe. O CNA está sendo, além dis- so, atravessado por fortes tensões in- ternas. O grande sindicato negro dos metalúrgicos (Numsa), excluído em 2014 do Congresso dos Sindicatos Sul- -Africanos (Cosatu, aliado histórico do CNA) por suas críticas virulentas ao poder, ameaça fundar um partido de trabalhadores independente. Impulsionado a presidente interi- no após a demissão de Zuma, em 14 de fevereiro de 2018, Ramaphosa, antigo líder sindical e principal acionista do McDonald’s na África do Sul, deve orga- nizar-se em torno de um antigo slogan “Uma vida melhor para todos”, que soa um pouco falso. Ele não promete nada menos que escola gratuita para as fa- mílias que recebem menos de 22,8 mil euros por ano, redistribuição efetiva das terras, criação de uma comissão de investigação sobre a corrupção, as- sim como uma política econômica li- beral concebida para atrair os investi- dores e renovar com o crescimento. Na medida em que o CNA não marcou uma ruptura clara com a década Zu- ma, o futuro permanece incerto. Ele elegeu para sua vice-presidência o con- troverso David Mabuza, de 57 anos, nomeado em 2009 governador da pro- víncia de Mpumalanga como recom- pensa por seu apoio a Zuma – um per- curso a ser acompanhado, já que ele também é acusado de corrupção e, in- clusive, suspeito de ter se envolvido com assassinatos políticos. *Sabine Cessou é jornalista. 1 Ler “L’Afrique du Sud lassée de ses libérateurs” [A África do Sul cansada de seus libertadores], Le Monde Diplomatique, jun. 2017. 2 Cf. Raphaël Porteilla, Judith Hayem, Marianne Sé- verin e Pierre-Paul Dika (orgs.), Afrique du Sud. 20 ans de démocratie contrastée [África do Sul. 20 anos de democracia em contraste], L’Harmattan, Paris, 2016. 20 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 PODER EGÍPCIO ESTÁ MAIS REPRESSOR DO QUE NUNCA Os egípcios vão eleger seu presidente no dia 26 de março. A oposição denuncia um jogo de cartas marcadas, com todos os candidatos de envergadura impedidos de enfrentar o atual presidente, Abdel Fattah al-Sissi. As esperanças que surgiram em janeiro de 2011 evaporaram, enquanto a população enfrenta a degradação econômica e a mão de ferro do regime POR PIERRE DAUM* Praça Tahrir, sete anos depois P raça Tahrir, uma noite de de- zembro. No piso lustrado do edifício Mogamma, um enor- me prédio administrativo da década de 1950 construído pela ex- -URSS em um pesado estilo soviético, um grupo de jovens anda de skate lan- çando desafios, sob o olhar de dois po- liciais indulgentes. Casais de todas as idades, sentados nas muretas de pe- dra dispostas aqui e ali, assistem ao espetáculo. Todos parecem indiferen- tes ao ruído ensurdecedor dos carros e à poeira, dois flagelos de Cairo que ne- nhuma revolução foi capaz de vencer. Parece distante o tempo em que cen- tenas de milhares de egípcios, lado a lado nesta enorme praça, derrubavam um regime moribundo aos gritos de “Mubarak, vá embora!” e “‘Aïch, Ho- ria, ‘Adala Edjtéma’ïa!” (“Pão, liberda- de e justiça social!”). Dois anos e meio após a “revolução de janeiro”, como os egípcios a cha- mam hoje – sem mencionar o dia de seu início (25) nem o ano em que ocor- reu (2011) –, nesta Praça Tahrir que se tornou o lugar obrigatório da expres- são popular, um número tão grande de egípcios quanto em janeiro de 2011, se não maior, exigia a saída do presi- dente democraticamente eleito em ju- nho de 2012, Mohamed Morsi, mem- bro da Irmandade Muçulmana. Após um golpe de Estado desejado por par- te da população, o Exército assumiu o poder em 30 de junho de 2013.1 A resis- tência pró-Morsi tentou se organizar, e foi reprimida com um banho de san- gue algumas semanas depois: foram mil mortos no dia 14 de agosto de 2013 na Praça Rabaa, no Cairo. Milhares de pessoas foram presas. Um ano depois, em junho de 2014, o marechal Abdel Fattah al-Sissi foi eleito para a presi- dência da República, com 97% dos vo- tos. Desde então, o que se passa? Co- mo se vive no Cairo? TVs NAS MÃOS DO GOVERNO À primeira vista, não pior do que antes. Os cafés populares, onde as pes- soas fumam narguilé por horas en- quanto assistem ao futebol ou discu- tem qualquer coisa com os amigos, estão sempre cheios. Os que preferem beber uma cerveja, moças e rapazes misturados, se reúnem nos bares que ocupam os terraços dos edifícios ao redor. Pode-se ir ao cinema, assistir a shows ou admirar o trabalho de artis- tas contemporâneos, por exemplo, na Galeria Townhouse, soberbo local de exposição instalado em uma antiga fá- brica de papel, a algumas centenas de metrosda Praça Tahrir. Com um mag- nífico estacionamento subterrâneo e uma imensa bandeira egípcia planta- da na superfície, a própria praça pare- ce esforçar-se para esquecer que um dia a população esteve ali pedindo a cabeça de dois presidentes.2 As aveni- das à sua volta exalam ordem e limpe- za, e o Ministério do Interior, alvo da fúria revolucionária, foi prudente- mente deslocado para um bairro dis- tante. Salvo alguns agentes de trânsito com uniformes azuis e talão de multa em mãos, a presença policial parece inexistente. Apesar de tudo isso, em outubro passado a Anistia Internacio- nal publicou um relatório denuncian- do o clima político perigoso no Egito. “Advogados, jornalistas, adversários políticos, ativistas, defensores dos di- reitos humanos, nenhuma voz crítica escapa à repressão maciça das autori- dades egípcias, que continuam deten- do, perseguindo ou encarcerando pes- soas pelo simples exercício pacífico de seu direito à liberdade de expressão”, denuncia a organização.3 Miran F., uma jovem que conhece- mos com seus amigos perto da Praça Tahrir, não concorda. “Se eu me sinto vivendo sob uma ditadura? Não, na verdade não!” Nascida há trinta anos em uma família da pequena burguesia do Cairo – pai engenheiro, mãe dona de casa –, ela “obviamente” participou da revolução de 2011 e depois das ma- nifestações populares de 2013. “Minha mãe é Sissi roxa! Ela o adora! Meu pai é mais crítico, acha que ele não sabe conduzir a economia, que desde que chegou tudo está muito caro. Eu fico entre os dois. Não morro de amor por Sissi, mas acho que ele herdou uma si- tuação econômica catastrófica e faz o que pode.” E a repressão, as pessoas presas, isso não a assusta? “Sim, um pouco. Mas entre eles há terroristas também. Além disso, Sissi deve saber o que está fazendo. Quando as coisas melhorarem, ele vai soltá-los.” De qualquer forma, Miran e seus amigos não têm medo de falar de política nos cafés abertos para a rua, onde, apesar do constante barulho dos carros, qual- quer estranho na mesa ao lado pode ouvir a conversa. “Até no Facebook eu não tenho medo de criticar o governo, nem mesmo o presidente! Nunca me preocupei com isso.” Seu amigo Ah- med T. intervém: “De todo modo, o que realmente interessa não é a liber- dade, é o dinheiro. E hoje todo mundo está sofrendo com a crise econômica!” (ver boxe). Para além das reflexões dispersas coletadas ao acaso nas conversas – cheias de opiniões tão divididas como as da família de Miran –, é difícil saber o que os egípcios pensam do regime, o qual se empenha em desencorajar qualquer atitude contestatória. “Gen- te que não sabe nada sobre o que é um Estado quer intervir e fazer declara- ções. Isso é inaceitável”, declarou em janeiro um ameaçador Sissi, lançando um aviso a personalidades e partidos de oposição que pediam boicote à eleição presidencial, prevista para o fim de março. Esses opositores argu- mentam que a eleição é um “teatro do absurdo”, por causa da prisão, da reti- rada mais ou menos forçada ou do im- pedimento de inúmeros adversários do presidente. “Garantimos estabili- dade e segurança, senão é o caos”, continuou Sissi. “Eu não ameaço nin- guém. O que aconteceu no Egito há se- te anos não se repetirá.” O clima político também se carac- teriza por um forte retorno dos milita- res a todos os lugares de poder, espe- cialmente na economia. “O Exército há muito tempo goza de uma imagem positiva”, lembra Tewfik Aclimandos, professor da Universidade do Cairo. “Com razão ou não, ele é considerado menos corrupto que a polícia, mais © D an ie l K on do 21MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil eficaz que as administrações civis, e parece uma emanação do povo. No Egito, todo mundo tem um parente ou conhecido no Exército.” Quanto a sa- ber o que as pessoas acham do presi- dente, “é proibido, de qualquer forma, fazer verdadeiras pesquisas de opi- nião sobre ele”, diz o acadêmico. “Te- mos de nos contentar com sinais de otimismo. A partir daí, parece quase certo que o entusiasmo que levou o presidente Sissi ao poder em 2013-2014 caiu muito, especialmente após o ata- que ao avião russo, em 2015.4 Mas ele ainda tem uma base sólida.” Para manter uma taxa suficiente de opiniões favoráveis, o regime conta com uma ferramenta muito poderosa: o controle da mídia, principalmente a mais consumida delas, a televisão.5 Sob a presidência de Hosni Mubarak e de- pois nos anos após a revolução, surgi- ram canais privados, com programas de entrevistas muito populares, que traziam verdadeiros debates. Tudo isso desapareceu. Hoje, todos os canais es- tão nas mãos do regime e de seus ami- gos. O mesmo ocorre com a mídia im- pressa, com exceção do jornal Al-Masri Al-Youm, um diário com tiragem de 120 mil exemplares – para uma população de quase 100 milhões. “Somos indepen- dentes”, comenta Doaa Eladl, famosa cartunista do jornal. “Mas existem li- nhas vermelhas – mal definidas, por si- nal, o que complica ainda mais meu tra- balho. Qualquer assunto pode irritar o regime. Eu tento não me autocensurar, mas sei o que faço.” É inimaginável, por exemplo, desenhar o presidente. Em compensação, em novembro de 2017 ela conseguiu publicar um cartum mos- trando jovens egípcios presos, no mo- mento em que o presidente Sissi abria o Fórum Mundial da Juventude em Sharm el Sheikh. “Tenho um problema mais sério”, continua. “Se o assunto for muito delicado, nenhum jornal, nem o nosso, fala sobre ele.” Essa censura permitiu ao governo incutir em muitos espíritos o fantasma paranoico da espionagem estrangeira. “Nos programas de TV, nos jornais, sempre há um capanga do regime pronto a explicar que os Estados Uni- dos e seus aliados europeus apoiaram a sociedade civil egípcia para derrubar Mubarak”, diz o escritor Khaled al- -Khamissi, autor de uma famosa cole- ção de contos, Taxi (2007), e do roman- ce A arca de Noé (2009).6 “Ou que um complô norte-americano-sionista quer dar parte do Sinai para os palestinos. Mas que, felizmente, o presidente Sissi conseguiu frustrar essas conspirações e salvar o Egito!” E funciona. Basta co- meçar a tirar fotos pela janela de um ônibus para que, em alguns instantes, um passageiro mande parar “imedia- tamente!”. Por quê? “É uma questão de segurança nacional!” IRMANDADE MUÇULMANA APAGADA Nesse contexto, os espaços de dis- sidência reduzem-se ao extremo. As organizações egípcias de direitos hu- manos falam em “60 mil presos políti- cos”, esclarecendo que é impossível obter números confiáveis. Muitas pes- soas são presas e depois liberadas sob fiança. A maioria está ligada à Irman- dade Muçulmana ou simplesmente é suspeita de simpatia a Morsi. A elas se somam militantes do campo revolu- cionário. A Comissão Egípcia por Di- reitos e Liberdades (ECRF, na sigla em inglês) fala em quarenta desapareci- mentos forçados por mês. A Irmanda- de Muçulmana, que durante décadas foi a única força de oposição, foi lite- ralmente eliminada da paisagem polí- tica, tanto pela repressão quanto por causa dos profundos conflitos inter- nos. Milhares de membros se refugia- ram na Turquia. “E os que ficaram no Egito, se não estão presos, vivem como fantasmas”, diz a pesquisadora Fatiha Amal Abbassi, autora de uma tese em fase de conclusão sobre a Irmandade. “Mudaram suas roupas, sua maneira de falar, e a usra, reunião semanal da qual os membros tinham de partici- par, foi suspensa. Também há muitos que, em completo desacordo com seus líderes, se distanciaram da organiza- ção.” Alguns provavelmente se uniram a organizações terroristas, mas não é possível investigar esse fenômeno, descaradamente instrumentalizado pelas autoridades, para as quais qual- quer oponente é “terrorista”. Quanto aos militantes de 2011,aqueles que foram o motor da revolu- ção – “um grupo de alguns milhares de pessoas, no início”, de acordo com o cientista político franco-egípcio Yous- sef el Chazli, “em torno do qual se so- maram dezenas de milhares de sim- patizantes, sem jamais, no entanto, chegarem a constituir uma organiza- ção ou um partido” –, a maioria deles cessou toda a atividade política. Al- guns estão presos; outros decidiram morar no exterior; muitos passaram por um período de depressão.7 “É mui- to doloroso ter participado de algo tão grande como a revolução, ter realmen- te sonhado em mudar a cara de seu país e virar testemunha da própria derrota”, lamenta Mansoura Ez-Eldin, jornalista literária da revista semanal Akhbar Al-Adab e autora de um delica- do romance sobre a necessidade de es- crever, Jabal al-zomorrod [O monte es- meralda] (2014).8 Sentada no Chesa, “café suíço” (está escrito na frente) da Rua Adly, não muito longe da Praça Tahrir e de seu jornal, ela continua: “Eu sobrevivi lendo, escrevendo e me concentrando nas pequenas coisas da vida. Com meu marido e meus filhos, mudamos para New Cairo, um bairro longe daqui. Lá, tenho a impressão de viver em outro lugar, longe de Tahrir”. REUNIÕES IMPORTANTES PROIBIDAS Alguns ex-revolucionários prolon- gam seu engajamento em ONGs de de- fesa dos direitos humanos. É o caso de Malek Adly, chefe da rede de advoga- dos Egyptian Center for Economic and Social Rights (ECESR), que passou quatro meses na prisão em 2016: “So- mos assediados pela polícia, a maioria de nós está proibida de sair do país, te- mos julgamentos suspensos por rece- ber fundos estrangeiros ou por ‘atentar contra a segurança do Estado’, corre- mos o risco de passar décadas na pri- são, mas continuamos! E continuare- mos até a morte, se for preciso!”. A proibição de receber financiamento externo, que as autoridades justificam pela necessidade de lutar contra a “mão estrangeira”, é uma verdadeira máquina de destruir organizações mi- litantes. E também afeta muitos espa- ços culturais. Uma vez que o Ministé- rio da Cultura não oferece nenhum tipo de subsídio, essas estruturas pas- saram, há anos, a funcionar graças à ajuda ocidental. Agora precisam en- contrar outras formas de financiamen- to, ou fechar as portas. Em maio de 2017, foi promulgada uma nova lei so- bre as ONGs, que deve eliminar as últi- mas que ainda estão em atividade: além da proibição de receber fundos estrangeiros, todas terão de apresentar um pedido de renovação do registro a uma comissão formada por militares. Esraa Abdel Fattah, conhecida na época da revolução como “The Face- book Girl”, exibe o mesmo desencanto: “Eu vivi os dezoito dias de 2011 [de 25 de janeiro a 11 de fevereiro, dia da re- núncia de Mubarak] como uma mag- nífica utopia. Mas fomos idiotas. Idio- tas em acreditar nas promessas de democracia de Morsi, depois de Sissi. E hoje a situação é pior do que era com Mubarak. Às vezes eu acho que não há esperança, que Sissi ficará para sem- pre. Mas, se eu parar de militar, me sentirei traindo todos os que estão mortos ou na prisão”. Apesar de sua aparente onipotên- cia – com a mídia sob controle e uma oposição aniquilada –, o regime en- carnado por Sissi parece ter um medo profundo do povo. “Como que pressio- nado pelo medo obsessivo de uma ‘no- va Tahrir’, o regime faz de tudo para conter eventuais impulsos da socieda- de”, analisa Karima H., cientista políti- co francês residente de longa data no Cairo, que prefere ficar anônimo, “pois, nos dias de hoje, é melhor ter cuidado”. Qualquer manifestação ou reunião um pouco maior é estrita- mente proibida. Sob o pretexto do “pe- rigo terrorista”, foram construídas pa- redes de concreto curvas de 4 metros de altura em torno de cada ministério, bem como do Banco Central, e solda- dos armados protegem suas entradas. Toda sexta-feira, dia de descanso em que normalmente acontecem as gran- des manifestações, policiais de capa- cete e bota posicionam-se nas sete ar- térias que levam à Praça Tahrir, enquanto caminhões antimotim se organizam ao seu redor, prontos para intervir. Nos últimos dois anos, ocor- reram apenas duas manifestações, em outras partes da cidade: uma contra a transferência para a Arábia Saudita de duas pequenas ilhas desabitadas do Mar Vermelho, Tiran e Sanafir, em abril de 2016;9 e outra contra a decisão de Donald Trump de reconhecer Jeru- salém como capital de Israel, no início de dezembro de 2017 – decisão critica- da por todos os egípcios, ainda muito sensíveis à Questão Palestina. No final da manifestação, alguns gritaram: “Pão! Liberdade! Abaixo o regime!”. Os instigadores foram imediatamente jo- gados na prisão. No início de fevereiro, dezessete pessoas foram condenadas à prisão perpétua por terem se mani- festado, em 2014, contra a candidatura de Sissi à presidência. MUITOS TABUS FORAM QUEBRADOS Em locais públicos, é possível dis- cutir política com os amigos, como faz Miran F. Para esta reportagem, muitas entrevistas foram realizadas sem ne- nhum problema. Mas há um limite que não pode ser cruzado: abordar es- tranhos e levá-los a criticar o regime. Conversamos com Mahmoud S. perto de sua casa, em Ain Shams, um dos tantos bairros arrasados pela miséria na tentacular Cairo de 20 milhões de habitantes, a mais de uma hora de táxi da Praça Tahrir. “Não consigo deixar de falar, de discutir nos cafés do meu bairro”, explica o desempregado de 30 anos, que esteve nas manifestações de A Irmandade Muçulmana, que durante décadas foi a única força de oposição, foi literalmente eliminada da paisagem política Conseguimos conversar livremente, mas muitos dos entrevistados disseram: “Não escreva isso, senão eu vou preso!” 22 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 2011. “A situação é verdadeiramente terrível. Todo mundo está morrendo de fome, não há liberdade. Mas, há três dias, uns amigos me disseram que po- liciais à paisana vieram fazer pergun- tas sobre mim. Isso aconteceu com um amigo meu, e ele está preso. É um avi- so, não falo mais com ninguém.” Manter a população em liberdade vigiada com avisos desse tipo é a tática para conter qualquer indício de rebe- lião. Conseguimos conversar livremen- te, mas muitos dos entrevistados disse- ram: “Não escreva isso, senão eu vou preso!”. No meio universitário, o aviso foi a morte, em condições obscuras, em janeiro de 2016, do pesquisador italiano Giulio Regeni, após seu rapto em plena rua. Segundo a Reuters, o jovem teria si- do detido por policiais à paisana e transferido para uma delegacia da ca- pital, antes de desaparecer e ser encon- trado morto, com o corpo torturado e mutilado.10 As autoridades egípcias apresentaram diversas vias de investi- gação, inclusive a de sequestro malsu- cedido e a de crime sexual, que não convenceram ninguém.11 “Se foi um er- ro ou um crime encomendado, o fato é que todos estamos muito cautelosos”, confessa um pesquisador francês, obri- gado a realizar “clandestinamente” suas pesquisas junto à população. Seja um vendedor de rua em um bairro informal do Cairo,1 um funcionário em uma repartição pública ou um escritor famoso em um belo apartamento em Wust el-Balad (nome árabe do centro da cidade, em torno da Praça Tahrir), em resposta à pergunta “O que mudou de- pois de 2011?”, todos os nossos interlocutores exclamam imediatamente: “A vida está muito cara, está terrível!”. Es- sa alta dos preços começou a ser sentida em 2014, logo após as eleições presidenciais, quando o governo do ma- rechal Abdel Fattah al-Sissi iniciou “reformas estruturais” impostas pelo FMI, em troca de uma ajuda anual de US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões. “Trata-se de passar gra- dualmente de um sistema de subvenção generalizado dos bens de consumopara uma ajuda financeira especí- fica voltada às pessoas com rendimentos muito baixos”, explica Marie Vannetzel, pesquisadora do Centro Nacio- nal de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês), atualmente no Cairo para estudar o tema. No antigo sistema, produtos essenciais, como pão, açúcar, óleo, feijão etc., além de gasolina, gás e eletrici- dade, eram fortemente subsidiados. Antes da reforma, por exemplo, o pãozinho redondo e oco, item fundamen- tal da dieta egípcia, custava 5 libras (R$ 0,90) em uma padaria subsidiada, contra 36 libras no mercado livre. To- dos tinham direito a ele, e em quantidade ilimitada. Bas- tava se dispor a enfrentar as filas às vezes intermináveis das padarias. Para outros produtos alimentícios, era ne- cessário ter um carnê, no qual o vendedor anotava a compra, limitada a uma cota mensal. Esses carnês, teori- camente atribuídos por critérios sociais, eram na verdade detidos por 85% da população. Hoje, o número de pães é limitado a vinte por família por dia. Esses vinte custam 1 libra egípcia (R$ 0,18). Mas raramente eles são sufi- cientes para as famílias, frequentemente grandes. Ainda mais quando, em tempos de pobreza crescente, o pão torna-se o alimento básico. Então ele precisa ser com- prado a um preço alto: 20 libras (R$ 3,65) a cada vinte pães. Para os outros alimentos básicos, um cartão com chip substituiu o carnê, recebendo uma provisão mensal de 200 libras (R$ 36,50) para uma família de quatro pessoas. Embora o número de titulares de cartões seja aproximadamente o mesmo de detentores do antigo car- nê, o preço dos produtos subsidiados aumentou muito. Entre 2014 e 2017, “o quilo de açúcar passou de 4,5 para 10 libras [R$ 0,82 para R$ 1,83]; o litro de óleo, de 6,5 para 14 libras [R$ 1,19 para R$ 2,56] etc.”, detalha Marie Vannetzel – isso em um país onde um médico de um hos- pital ganha 1.300 libras por mês (R$ 238); um diretor da administração pública, 4.500 libras (R$ 822); e um tra- balhador é considerado “bem pago” quando recebe 1.200 libras (R$ 219). Para as pessoas mais pobres – 9 milhões, de acordo com os critérios em vigor –, concede- -se um benefício mensal extra de cerca de 700 libras (R$ 128) por família. O governo também reduziu bruscamente o subsídio da energia, que beneficiava todos os egípcios. Em três anos, o preço da gasolina e do gás triplicou, e o da eletricidade ficou quatro ou cinco vezes mais caro. Não é de admirar, então, que a taxa da população abaixo da linha de pobre- za nacional tenha aumentado, de acordo com o Banco Mundial, de 25% em 2010 para quase 28% em 2015 – hoje provavelmente já ultrapassou a marca de 30%. Ain- da mais porque, com a queda brutal da libra em novem- bro de 2016, todos os preços aumentaram, enquanto os salários evoluíram muito pouco. Esse sofrimento econômico sentido pelos egípcios, em todas as classes sociais, provocou, principalmente no in- terior, alguns movimentos sociais rapidamente reprimi- dos.2 Muitos ainda acreditam que, “quando chegou ao po- der, Sissi encontrou os cofres do Estado em uma situação terrível” e que ele “faz o que pode”. O Exército, já presente em muitos setores (turismo, construção, indústria) e que, desde a queda de Hosni Mubarak, tem se inserido maci- çamente em todos os setores da economia, sob o pretex- to de que “sem [ele] nada funciona”, parece querer servir de amortecedor, ao mesmo tempo que cultiva sua ima- gem de instituição próxima do povo. “Em uma manhã qualquer, podemos ver caminhões do Exército chegando a um bairro pobre cheios de carne para ser vendida a um preço muito inferior ao do mercado”, conta Vannetzel. Nesses mesmos bairros, mães de família obrigadas a ali- mentar seus dez filhos e netos, todos os dias, com “ape- nas pão e batata”, dizem com a voz embargada: “Se isso continuar, as pessoas vão para a rua! O Exército pode atirar na gente, não vamos ligar!”. Como explica o cientista político Karima H., o presidente Sissi “parece determinado a realizar as reformas que seus predecessores Sadat e Mubarak tentaram e foram obrigados a desistir por causa da ira popular”. Há risco de grandes manifestações, com- paráveis às que foram realizadas em 1977, sob o governo de Anwar el-Sadat? O acadêmico não acredita nisso. “Motins esporádicos, talvez, mas não mais que isso.” Em março de 2017, os egípcios protestaram contra o aumen- to do preço do pão, mas o movimento não chegou à esfe- ra política. Entre uma mídia submissa, uma oposição des- truída e um contexto regional usado como elemento de contraste – guerras civis na Líbia, Síria e Iraque –, o regi- me parece manter o povo sob controle. (P.D.) 1 Megalópole caótica de 20 milhões de habitantes, o Cairo é forma- do por uma miríade de bairros, a maioria deles construída sem a intervenção das autoridades públicas. Mesmo quando é de alvena- ria, a habitação nesses “bairros informais” é quase sempre muito precária. 2 Ler Mustafa Bassiouni, “Nada detém os operários egípcios”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2014. UMA VIDA MUITO CARA 1 Ler Alain Gresh, “A revolução egípcia à sombra dos militares”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2013. 2 Após vários julgamentos, Mubarak foi libertado em março de 2017. Morsi, que chegou a ser ameaça- do com a pena capital, cumpre sentença de 45 anos de prisão. 3 “Égypte: les voix critiques réduites au silence” [Egi- to: vozes críticas reduzidas ao silêncio], Anistia In- ternacional, Paris, 21 out. 2017. 4 Em 31 de outubro de 2015, a explosão de um avião russo no Sinai, pouco depois de decolar da cidade balneária de Sharm el Sheikh, fez 224 vítimas. Pri- meiro de uma longa série, o atentado foi reivindica- do por um grupo islâmico afiliado à Organização do Estado Islâmico. 5 Ler Aziz El Massassi, “La presse égyptienne mise au pas” [Imprensa egípcia sob controle], Le Mon- de Diplomatique, nov. 2015. 6 Ambos em francês pela Actes Sud, Arles, res- pectivamente 2009 e 2012. Sem tradução para o português. 7 Ver o filme de Pauline Beugnies Rester vivants [Continuar vivendo] (2017, 110 min), documentário que faz o retrato de quatro manifestantes da Praça Tahrir, com percursos muito diferentes. 8 Em francês pela Actes Sud, 2017. Sem versão em português. 9 “Le pouvoir égyptien dans l’imbroglio de l’affaire des îles Tiran et Sanafir” [Governo egípcio no im- bróglio do caso das ilhas Tiran e Sanafir], Orien- tXXI.info, 25 jan. 2017 (tradução de um artigo em árabe do Mada Masr, Cairo, 17 jan. 2017). 10 “Exclusive: Egyptian police detained Italian stu- dent before his murder” [Exclusivo: polícia egípcia deteve estudante italiano antes de ele ser assassi- nado], Reuters, 21 abr. 2016. 11 Hélène Sallon e Philippe Ridet, “L’Italie doute de la version égyptienne de la mort de l’étudiant Giu- lio Regeni” [Itália duvida da versão egípcia da morte do estudante Giulio Regeni], Le Monde, 26 mar. 2016. 12 La ronde des prétendants, Éditions de l’Aube, Avig- non, 2013. Sem tradução para o português. Apesar de seu profundo desânimo diante de uma situação de opressão que consideram por unanimidade “pior do que era com Mubarak”, todos os vetera- nos da “revolução de janeiro” admitem, contudo, que ela “deixou marcas positi- vas indeléveis” na sociedade. “AS PESSOAS SE SENTEM MENOS SUBMETIDAS” Para Ghada Abdel Aal, de 38 anos, que em 2008 publicou o famoso livro A ronda dos pretendentes,12 “a revolução permitiu quebrar muitos tabus no de- bate público e nas conversas nas redes sociais. Hoje, podemos falar de rela- ções sexuais antes do casamento, de homossexualidade, de agressão se- xual, e questionar alguns princípios religiosos, até a própria crença em Deus. O governo, que permanece mui- to conservador nessas questões, conti- nua punindo. Mas, na sociedade, o de- bate existe”. Há três anos, ela mesma se permitiu uma ação que tornou pú-blica em sua página do Facebook, com 180 mil seguidores: tirou o hijab que era forçada a usar desde a infância, “por mero código social”. Segundo Georges Seif, médico vo- luntário na Praça Tahrir em 2011, “as pessoas se sentem menos submeti- das ao olhar alheio. Mesmo o bawab, uma espécie de porteiro-espião que aterroriza todos os edifícios, perdeu um pouco de seu poder”. Antes de 2011, acrescenta Sarah Mohamed, militante da primeira hora, “quando as pessoas viam uma mulher fuman- do em um café, automaticamente a consideravam uma vagabunda. Hoje já não é assim”. Na rua, ou em uma repartição pública, pessoas vítimas da arbitrariedade de um funcionário ou de um policial hoje se atrevem a dizer “não” e exigir que seus direitos sejam respeitados. “Antes, isso era impensável!” Para além da política e das discus- sões sobre o bloqueio da eleição presi- dencial, os egípcios estão empolgados com um assunto muito mais mobiliza- dor: após 28 anos fora da competição, o Egito se classificou para a Copa do Mundo de Futebol, que acontecerá em junho, na Rússia. Se o regime sabe que isso desviará a atenção da população durante algumas semanas, ele tam- bém não ignora que uma classificação para a segunda fase ou, ao contrário, uma derrota humilhante bastariam para encher a Praça Tahrir novamen- te. Com tudo que isso implica em ter- mos de possíveis transbordamentos e protestos de caráter político. *Pierre Daum é jornalista. 23MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil INTERVENÇÃO NA SÍRIA, PRESSÃO NO LÍBANO, GUERRA NO IÊMEN A Arábia Saudita tenta impedir a eclosão de um movimento democrático na região e conter a influência de seu rival iraniano. O novo poder multiplica as iniciativas, mas a maioria fracassa. Incapaz de favorecer a derrota do regime de Bashar al-Assad, Riad afunda-se no conflito no Iêmen e não consegue enquadrar o Catar POR GILBERT ACHCAR* O impasse saudita no Oriente Médio A chave para a especificidade do Oriente Médio não é o islã, mas o petróleo. A riqueza da região do Golfo Pérsico levou o Impé- rio Britânico a criar ou consolidar no flanco árabe entidades artificiais em diferentes graus. Os Estados-membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) apresentam a particularidade de ter estrangeiros constituindo a maior parte da força de trabalho. Na maioria desses Estados (Arábia Saudi- ta, Omã, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Catar), eles represen- tam a maior parte da população. Che- gam a 90% dela, no Catar e nos Emira- dos Árabes Unidos! A riqueza petrolífera da região do Golfo levou o Império Britânico a con- solidar ou instaurar os sistemas mo- nárquicos mais arcaicos do mundo contemporâneo. Explorando e revi- vendo sucessões tribais, transformou grupos de clãs em “famílias reinan- tes”, estabelecendo poderes absolutis- tas de tipo patrimonial, com a espe- rança de que elas se mantivessem como poder tutelar até seus recursos de hidrocarbonetos estarem esgota- dos. Essa riqueza levou os Estados Unidos a agir da mesma forma com seu mais antigo protetorado de fato na região: o reino saudita. O líder do “mundo livre” apoia o Estado mais an- tidemocrático, misógino e fundamen- talista do planeta, o único em que o Corão e a Sunnah (tradição) assumem o lugar da Constituição. A autonomia extrema do Estado, possibilitada pela renda obtida com o petróleo e o gás, permitiu que se perpe- tuassem esses sistemas arcaicos, en- cravados em instituições estatais e eco- nomias capitalistas contemporâneas. Ali, o poder obedece tanto menos à ra- cionalidade socioeconômica habitual – a dos sistemas políticos em que os inte- resses de uma classe capitalista ou de uma camada burocrática delimitam as escolhas possíveis – quanto mais con- centrado ele é: quanto mais restrito é o círculo dirigente, ao mesmo tempo dis- pondo de um tesouro natural para fi- nanciar um Estado que ele trata como sua propriedade privada, menos esse círculo obedece a restrições estruturais e mais sua margem de manobra se alar- ga. Em tais circunstâncias, suas deci- sões podem sofrer mudanças bruscas, que parecem erráticas e caprichosas. Lá onde as grandes máquinas estatais, como os navios, movem-se lentamente, os poderes estatais ultraconcentrados estão sujeitos a viradas abruptas, como um bote a motor. Dois Estados da zona do Golfo es- caparam da configuração sociopolíti- ca compartilhada pelos outros, por- que abrigavam civilizações urbanas muito antigas e herdaram populações mais numerosas e sociedades mais de- senvolvidas: o Irã e o Iraque. Eles são os dois únicos países da região onde a monarquia foi derrubada. No Iraque, isso acabou levando à constituição de um regime patrimonial “republicano”, mantido com mão de ferro por uma fa- mília reinante que reproduzia os ví- cios das monarquias absolutistas – até sua derrubada, em 2003, após a inva- são liderada pelos Estados Unidos. No Irã, isso levou ao surgimento do único Estado estritamente teocrático (com exceção do Vaticano). Ao contrá- rio de seus vizinhos do Golfo, o Irã é governado por instituições e leis, e não por uma família, embora o Líder Su- premo goze de um poder exorbitante.1 Consequentemente, é o único Estado da região que atua com base em uma estratégia coerente, facilmente identi- ficável: o expansionismo da Guarda Revolucionária e a exacerbação da tensão regional que o país produz re- forçam a legitimidade de seu poder.2 O quadro da atual dinâmica geopo- lítica do Golfo foi determinado pelo ad- vento da República Islâmica do Irã, em 1979. A revolução iraniana apavorou as monarquias árabes vizinhas, ainda mais com os Estados Unidos no ponto mais baixo de seu declínio pós-vietna- mita e paralisados diante dos muitos desafios daquele ano: revolução na Ni- carágua, invasão soviética no Afeganis- tão. A ofensiva do Iraque contra o Irã em 1980 permitiu que os Estados Uni- dos e seus aliados regionais se restabe- lecessem: eles facilitaram a destruição mútua dos dois Estados em luta. A guerra terminou “empatada”, após oito anos de um massacre absur- do (quase 1 milhão de mortos, segun- do a estimativa mais comum). Sem conseguir livrar-se das dívidas contraí- das junto a seus financiadores monár- quicos, Saddam Hussein decidiu resol- ver a situação invadindo e anexando o Kuwait, em agosto de 1990. Assim, pro- porcionou aos Estados Unidos uma ex- Mulheres participam de manifestação para apoiar o movimento houthi em Sanaa, no Iêmen © R eu te rs / K ha le d A b du lla h 24 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 celente oportunidade de matar dois coelhos com uma cajadada só: retor- nar com força ao Golfo pela primeira vez desde 1962 – data da evacuação da base norte-americana em Dhahran, na região petrolífera do reino saudita, sob a pressão do Egito de Nasser – e confir- mar para seus aliados, rivais e inimi- gos planetários a supremacia (“indis- pensável” ou inevitável) dos Estados Unidos na era pós-Guerra Fria, quando o bloco soviético desabava. Ao destruir o Iraque baathista, seu grande inimigo, a intervenção de 1991 suscitou sentimentos mais dóceis en- tre os líderes iranianos. Mas esse golpe de força fortaleceu a família real saudi- ta, que passou a sentir-se ao abrigo de uma ação iraniana em seu território. Riad fez da atitude em relação à guerra entre Estados Unidos e Iraque a pedra de toque de suas relações regionais. Ele puniu todos aqueles que saudaram a invasão do Kuwait e se declararam hostis à intervenção norte-americana: o Iêmen, expulsando quase 1 milhão de trabalhadores migrantes dali oriun- dos; a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat, cor- tando o abastecimento de suprimen- tos; e a Irmandade Muçulmana, rom- pendo os laçoscom o grupo. Até aquele momento, o reino saudi- ta era o principal apoio da Irmandade, desde sua fundação, no Egito, em 1928. Com os Estados Unidos, ela havia combatido o regime nacionalista de Gamal Abdel Nasser (1954-1970), apoiado pela Rússia, que a reprimiu duramente. Mas a organização não poderia alinhar-se com a Arábia Sau- dita durante a Guerra do Golfo sem perder muitos de seus membros. Pri- vando-a de apoio logístico e financei- ro, a Arábia Saudita queria que a Ir- mandade, assim como a OLP, fosse obrigada a se dobrar. A situação não demorou a mudar, com a tomada de poder, no Catar, de Hamad bin Khalifa al-Thani, que de- pôs seu próprio pai em 1995. O novo emir provavelmente não havia lido a fábula de La Fontaine “A rã que queria ser maior que o boi”. Querendo brincar junto com os grandes da política regio- nal, ele decidiu financiar a Irmandade Muçulmana mais ou menos da mesma forma que outros magnatas compram equipes de futebol. E também adqui- riu, pagando caro, um canal de televi- são por satélite, a Al Jazeera, que tinha a Irmandade como base de sustenta- ção e logo conseguiu uma audiência excepcional, dando voz às oposições do mundo árabe – com exceção daque- las do vizinho saudita e do próprio Ca- tar, onde o crime de lesa-majestade po- de ser punido com a prisão perpétua. DUAS OPÇÕES CONTRARREVOLUCIONÁRIAS Armado com esses dois instru- mentos políticos e confrontado com a ira do grande irmão saudita, o emir in- troduziu uma política rentista de “co- bertura de risco”, “diversificando seus ativos”, ou seja, tecendo vínculos com toda a gama de forças importantes na região. Assim, realizou a façanha de construir, à sua própria custa, em se- gredo, uma base aérea para os Estados Unidos (Al Udeid, perto de Doha) e es- tabelecer relações comerciais com Is- rael, ao mesmo tempo exibindo boas relações com o Irã e apoiando o Hez- bollah libanês e o Hamas palestino! No entanto, a invasão do Iraque em 2003 mudou o jogo em toda a região. Do ponto de vista estratégico, ela foi certamente o fracasso mais grave na história da política imperialista dos Estados Unidos: eles tiveram de sair do Iraque em 2011, sem conseguir ne- nhum de seus objetivos centrais. Pior: deixaram o país já dominado por seu grande inimigo regional iraniano. No mesmo ano, os Estados Unidos testemunharam a explosão de muitos dos Estados nos quais se baseava sua hegemonia regional. Diante da Prima- vera Árabe, surgiram duas opções con- trarrevolucionárias concorrentes, am- bas ancoradas no bastião reacionário do CCG:3 uma apoiada pelo reino sau- dita e a outra, pelo emirado do Catar. Tradicionalmente ultraconserva- dores, os sauditas eram partidários da defesa dos regimes em vigor, fosse es- magando as revoltas – como ajudaram a fazer, em março de 2011, em Mana- ma, capital do Bahrein –, fosse nego- ciando acordos nos países onde man- tinham boas relações com a oposição oficial, como no Iêmen. O Catar, por sua vez, erigiu-se em principal apoia- dor do levante regional, fazendo valer sua capacidade de influenciá-lo graças à sua ascendência decisiva sobre a Ir- mandade Muçulmana. Esta aprovei- tou as circunstâncias para assumir um papel de liderança, com o apoio fi- nanceiro e televisivo de seu patrocina- dor. A melhor ilustração do contraste entre as duas opções pode ser buscada no país onde tudo começou: a Tunísia. O emirado acompanhou o levante po- pular apoiando o parceiro tunisiano da Irmandade Muçulmana, o Ennah- da, enquanto o reino wahabita ofere- ceu asilo ao ditador deposto, Zine al-A- bidine ben Ali. O governo de Barack Obama osci- lou entre as duas opções. Ele concor- dou com a repressão do levante no Bahrein, mas apoiou o acordo no Iê- men. Nos países onde a revolta foi muito impetuosa, ele jogou a carta da recuperação, confiando na coopera- ção da Irmandade Muçulmana – como foi o caso no Egito, antes mesmo de es- ta vencer as eleições presidenciais de maio-junho de 2012.4 Na Líbia, os Esta- dos Unidos se deixaram levar por seus aliados europeus – principalmente franceses e britânicos – para bombar- dear as forças de Muamar Kadafi. O Catar participou ativamente da inter- venção, enquanto os sauditas se recu- saram a se unir a ela. Sabemos o resul- tado: o caos líbio dissuadiu Obama de voltar a colaborar com a derrubada de um Estado na região. Na Síria, portan- to, o presidente dos Estados Unidos negou à oposição os meios para neu- tralizar a grande vantagem militar do regime, que é a posse exclusiva de meios aéreos: ele não apenas se recu- sou a reiterar a “zona de exclusão aé- rea” imposta acima da Líbia, mas, so- bretudo, impediu qualquer entrega de armas antiaéreas à oposição. Desse modo, o regime de Bashar al-Assad ga- rantiu o controle do espaço aéreo, in- clusive para o lançamento, com heli- cópteros, das mortais bombas de barril. Ao mesmo tempo, Obama dele- gou a seus aliados do Golfo e à Turquia a tarefa de patrocinar a oposição síria. Os sauditas não podiam defender Al-Assad por causa de sua aliança com o Irã. Mas, como o Catar, não saberiam conviver com uma revolução democrá- tica e laica em sua vizinhança. Então decidiram remodelar a oposição síria para torná-la compatível com a natu- reza reacionária de seu próprio regime. Assim, iniciaram uma feroz concor- rência com o eixo Catar-Turquia para financiar grupos armados sírios com perfil fundamentalista islâmico (sala- fista-jihadista) e sunita. A revolução sí- ria de 2011 virou pó, pega entre o mar- telo e a bigorna: de um lado, o regime, as milícias fundamentalistas xiitas controladas pelo Irã e, depois, a partir de 2015, a aviação e os mísseis da Rús- sia; do outro, grupos armados funda- mentalistas apoiados pela Turquia, pe- lo Catar e pela Arábia Saudita. Nem o surgimento da Organização do Estado Islâmico, a tomada de Mos- sul, no Iraque, e a proclamação do ca- lifado bastaram para levar Obama a apoiar-se em forças armadas árabes sunitas confiáveis nos dois países, co- mo muitos o incitavam a fazer. O ar- gumento era de que isso permitiria sufocar de maneira durável a Organi- zação do Estado Islâmico, da mesma forma que a ocupação dos Estados Unidos só conseguiu vencer sua ver- são anterior, o Estado Islâmico no Ira- que, armando e financiando milícias tribais árabes sunitas. Em vez disso, os Estados Unidos apoiaram-se, em sua intervenção no Iraque, nas forças armadas regulares e irregulares do- minadas pelos xiitas e infiltradas no Irã, em graus diversos, para grande desgosto da Arábia Saudita. E na Síria, nas forças nacionalistas curdas, para grande desgosto da Turquia. A atitude de Obama era coerente com sua política de apaziguamento em relação ao Irã, apostando na fração moderada, chamada de reformista, do regime iraniano – política da qual o acordo sobre a questão nuclear consti- tuía uma pedra angular. O presidente dos Estados Unidos fez desse acordo sua prioridade, conseguindo fechá-lo em julho de 2015, após longas negocia- ções envolvendo a Rússia, a China, a Alemanha e a França. Ele tomou essa via apesar da expansão regional do Irã, que, depois de se estabelecer fir- memente no comando do Estado ira- quiano, passou a intervir de maneira crescente na Síria, com seus contin- gentes regionais, a partir de 2013. A in- diferença dos Estados Unidos irritou os dois principais inimigos do Irã na região: Israel e o reino saudita. A apreensão dos sauditas atingiu seu clímax quando, em setembro de 2014, a capital iemenita, Sanaa, foi to- mada pelos houthis, amigos do Irã, de cujas orientações ideológicas eles compartilham, e aliados do ex-presi- dente Ali Abdullah Saleh.5 Foi nesse contexto muito alarmante para os lí- deres sauditas que Salman bin Abdu- laziz al-Saud sucedeu a seu meio-ir- mão, morto em23 de janeiro de 2015. Com 80 anos de idade no momento em que subiu ao trono, o rei Salman estabeleceu como objetivo prioritário preparar a sucessão de seu filho favori- to, Mohammed, que ainda não tinha 30 anos. Começou confiando-lhe o Ministério da Defesa; dois anos de- pois, em junho de 2017, Mohammed bin Salman (MBS, como costumam designá-lo) tornou-se o príncipe her- deiro.6 O novo rei e seu jovem filho op- taram por uma reação enérgica à ameaça iraniana: decidiram realizar uma intervenção direta no Iêmen, bem como adotar uma política de frente sunita regional única, que pas- sava por melhorar as relações com o Catar e flexibilizar a atitude em rela- ção à Irmandade Muçulmana. A intervenção militar no Iêmen li- derada pela Arábia Saudita em março de 2015, sob a supervisão de MBS, mo- bilizou uma coalizão que incluía o Ca- tar. Ela apoiou um governo iemenita “legítimo”, que representava uma coa- lizão da qual participava a Irmandade Muçulmana local. Esta é um compo- nente fundamental do partido Al-Is- lah, com o qual o novo reinado saudita restabeleceu relações, após o reinado anterior tê-lo excomungado. No en- Embora afirme o contrário, o governo Trump poderia conviver com a manutenção de Al-Assad no poder sob a tutela da Rússia 25MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil tanto, a nova linha da Arábia Saudita criou tensões com o Egito do marechal Abdel Fatah al-Sissi, partidário da li- nha dura contra a Irmandade, que ele destruiu em seu país. Nessa posição inflexível, o Egito voltou-se para os Emirados Árabes Unidos, onde o prín- cipe herdeiro de Abu Dhabi e homem forte da federação, Mohammed bin Zayed (conhecido como MBZ), profes- sa uma veemente hostilidade contra a Irmandade Muçulmana.7 A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos veio bagunçar tudo outra vez. O novo pre- sidente logo se cercou de conselheiros islamofóbicos que defendiam uma ati- tude dura contra a Irmandade Muçul- mana, recomendando até classificá-la como organização “terrorista”. Eles fo- ram encorajados nisso pelos Emirados e seu ativo embaixador em Washing- ton, pedindo que se obrigasse o Catar a tirar o apoio à Irmandade. Recebido com grande pompa pelo reino saudita em maio de 2017, em sua primeira visita presidencial no exte- rior, Trump pressionou seus anfitriões a forçar o Catar a romper com a Irman- dade e não mais deixar a Al Jazeera à sua disposição. Menos de quinze dias após a visita, o reino saudita, os Emira- dos e o Bahrein, seguidos pelo Egito e alguns governos vassalos, romperam as relações diplomáticas com o Catar. Os três membros do CCG chegaram a interromper o transporte e o comércio com o colega. O caso, que fez muito barulho, foi um fiasco. Expulso da coalizão que intervinha no Iêmen, o Catar recusou-se a seguir as ordens. Ele usou seus enormes recursos finan- ceiros para se adaptar à situação, com a ajuda comercial e militar da Turquia, aliada e copatrocinadora da Irmanda- de Muçulmana desde o início da Pri- mavera Árabe. Embora afirme o contrário, o go- verno Trump poderia conviver com a manutenção de Al-Assad no poder sob a tutela da Rússia, desde que esta ajude a expulsar as forças iranianas e suas aliadas do país. As duas orientações foram seguidas pela Arábia Saudita desde a visita do presidente norte-a- mericano. No início de outubro de 2017, o rei Salman realizou a primeira visita de um soberano saudita à capital russa. A operação de sedução – a julgar pela delegação de alto escalão que acompanhou o monarca e pelos con- tratos negociados – tinha o objetivo de convencer o presidente Vladimir Putin a mudar sua atitude em relação ao Irã. Um mês depois, Trump e Putin, pre- sentes na cúpula da Cooperação Eco- nômica Ásia-Pacífico (Apec) em Da Nang, no Vietnã, assinaram uma de- claração conjunta sobre a Síria: apoio ao processo internacional da Confe- rência de Genebra e aval implícito pa- ra a manutenção de Al-Assad no poder até a adoção de uma nova Constitui- ção e a organização de eleições. Nesse meio-tempo, a Arábia Saudi- ta convocou o primeiro-ministro liba- nês, Saad Hariri, de família estreita- mente dependente dos sauditas,8 para obrigá-lo a fazer uma declaração de renúncia que, de maneira bastante absurda, ele foi forçado a ler no pró- prio reino saudita, em 4 de novembro de 2017. Atacando ferozmente o Irã e seu auxiliar libanês, o Hezbollah, com o qual Hariri havia, no entanto, for- mado um governo de unidade nacio- nal em dezembro de 2016, a declara- ção pôs fim a qualquer cooperação com o partido xiita. A operação fez tanto sentido quanto as observações de Trump no gramado da Casa Bran- ca, com Hariri a seu lado durante visi- ta a Washington, em julho: o presi- dente dos Estados Unidos atacou longamente o Hezbollah, chamando- -o de “ameaça para o Estado libanês, o povo libanês e toda a região” e colo- cando-o no mesmo saco que a Orga- nização do Estado Islâmico e a Al- -Qaeda, sem se importar com o fato de que o “partido de Deus” fazia parte do governo presidido por Hariri... Toda essa operação foi novamente um fiasco: retirado da Arábia Saudita pelo presidente francês Emmanuel Macron, Hariri voltou atrás em sua re- núncia. A coalizão do governo liba- nês, no entanto, continua muito frágil e exposta a crises recorrentes. Aliás, há sinais de tensão entre a Rússia e a Arábia Saudita sobre a Síria: depois de parecer apoiar os movimentos russos para promover um diálogo entre o re- gime e a oposição, a Arábia Saudita parece ter endurecido sua posição, a ponto de encorajar a oposição síria a recusar-se a jogar o jogo da Rússia. No fim das contas, o destino da Síria de- penderá da evolução das relações en- tre norte-americanos e russos. Por en- quanto, a atitude dos Estados Unidos em relação à Rússia endureceu consi- deravelmente: campanha contra o “Russiagate”, novas sanções, entrega de armas à Ucrânia etc. Tudo contra a vontade de um Donald Trump visivel- mente irritado. Diante do inédito caos da política norte-americana, os sauditas se veem em uma bela confusão, especialmente porque sua ofensiva no Iêmen atolou, provocando um dos piores desastres humanitários contemporâneos, até mais grave que a tragédia síria. Sua es- perança de reverter a situação trazen- do de volta Saleh – que já não estava mais ao alcance da mão – evaporou-se em dezembro, com seu assassinato pelos aliados que ele havia traído. A is- so se soma, desde então, um conflito aberto entre as forças iemenitas da coalizão liderada pela Arábia Saudita, ainda mais incômodo pelo fato de que algumas facções passaram a ser apoia- das pelos Emirados Árabes Unidos e outras pela Arábia Saudita. Catar, Lí- bano, Síria, Rússia: todas as manobras empreendidas pelos líderes sauditas instigados por Trump falharam. Para piorar as coisas, o reconhecimento, por parte deste último, de Jerusalém como capital do Estado de Israel os en- vergonhou, especialmente porque, de acordo com seu desejo, eles haviam começado a pressionar a Autoridade Palestina de Mahmoud Abbas para aceitar os termos israelenses – eles ti- veram de voltar atrás. E o isolamento do presidente dos Estados Unidos na cena internacional sobre a questão iraniana só pode agravar sua amargu- ra. A dança do sabre de Trump com seus convidados sauditas em maio passado já parece bem longe... *Gilbert Achcar é professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos (Soas) da Uni- versidade de Londres. Autor do livro Les Ara- bes et la Shoah. La guerre israélo-arabe des récits [Os árabes e o Holocausto. A guerra de narrativas entre árabes e israelenses], Sin- dbad-Actes Sud, 2009. 1 Ver Philippe Descamps e Cécile Marin, “Une mol- lahrchie constitutionnelle” [Uma mularquia consti- tucional],Le Monde Diplomatique, maio 2016. 2 Ler Bernard Hourcade, “O Irã se reinventa como potência regional”, Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2018. 3 Fundado em 1980, o CCG reúne o reino da Arábia Saudita, o reino do Bahrein, a federação dos Emi- rados Árabes Unidos, o emirado do Kuwait, o sulta- nato de Omã e o emirado do Catar. Desde a ruptu- ra das relações diplomáticas entre o Catar e os vizinhos Arábia Saudita e Bahrein, o funcionamen- to do CCG está paralisado de fato. 4 Ler “Tudo dentro da ordem”, Le Monde Diplomati- que Brasil, mar. 2011. 5 Ler Laurent Bonnefoy, “Enlisement saoudien au Yémen” [Sauditas atolam no Iêmen], Le Monde Diplomatique, dez. 2017. 6 Ler Nabil Mouline, “Petits arrangements avec le wahhabisme” [Pequenos arranjos com o wahabis- mo], Le Monde Diplomatique, jan. 2018. 7 Nascido em 1961, MBZ, que se tornou chefe dos serviços de segurança dos Emirados Árabes Uni- dos na década de 1990, teria sido treinado por oficiais egípcios expatriados, cujo principal alvo em seu país de origem tinha sido a Irmandade Muçul- mana. Acusando a organização de conspirar pela tomada do poder, MBZ liderou a repressão de seus membros e simpatizantes nos Emirados. 8 O pai de Saad Hariri, o ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, assassinado em fevereiro de 2005, fez fortuna na Arábia Saudita, sob a proteção do rei Fahd bin Abdulaziz al-Saud. 26 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 EXÉRCITO, UMA INSTITUIÇÃO SINGULAR O presidente cubano Raúl Castro deixará o cargo em abril. Pela primeira vez em sua história, a ilha será provavelmente governada por uma pessoa nascida após a queda do ditador Fulgencio Batista, em 1959. Essa reviravolta suscita numerosas perguntas. Mas uma coisa é certa: o Exército desempenhará um papel decisivo na fase que se avizinha POR RENAUD LAMBERT* Cuba, o país do verde-oliva © C a u G o m e z A lguns meses depois de assumir a presidência, Donald Trump decidiu anular o “acordo total- mente desigual assinado com Cuba” por seu predecessor Barack Obama, em 16 de junho de 2016. O pre- sidente democrata havia considerado ineficaz a estratégia norte-americana de estrangulamento – agressão mili- tar, embargo, rompimento das rela- ções diplomáticas. Melhor seria, se- gundo ele, normalizar as relações entre Washington e Havana, de modo a acelerar a “abertura” do país caribe- nho.1 Nada disso, replicou o republica- no: o fluxo de turistas norte-america- nos, que a mansuetude de Obama contribuiu para estimular, “agravaria a repressão” ao consolidar a posição das Forças Armadas. Depois da “dita- dura comunista”, Cuba iria cair sob o jugo de uma junta militar! Não havia oito generais na cúpula do poder, entre os dezessete membros do gabinete po- lítico do Partido Comunista cubano? As tramas latino-americanas des- pertam reações desencontradas em Washington. Satisfação quando der- rubaram o presidente Manuel Zelaya, em Honduras (2009); entusiasmo quando bombardearam o Palácio de la Moneda, no Chile (1973); indignação quando ostentam uma boina verme- lha na Venezuela ou um charuto em Cuba. Nesses últimos cenários, a Casa Branca lembra com gosto que a espada nem sempre se entende com a cédula eleitoral e que canhões destinados a manter o adversário em respeito se voltam, às vezes, contra as popula- ções. E em Cuba? Aqui, o Exército tem a imagem de um homem discreto, mas rígido, pragmático e determinado: Raúl Castro, presidente desde 2008 e... general de Exército. Indestrutível mi- nistro da Defesa entre 1959 e sua as- censão ao poder supremo, ele moldou a instituição à própria imagem e seme- lhança, tomando por base a experiên- cia que viveu na Sierra Maestra. Após o desembarque dos “barbu- dos” na ilha, em 1956, Fidel Castro pediu a seu irmão que comandasse uma coluna de rebeldes armados em uma zona afastada, a leste do país. A região, posta sob as ordens do irmão mais novo, seria batizada de “segun- da frente oriental Frank País”, do no- me de um líder estudantil revolucio- nário. “Enquanto, em sua zona, Fidel falava muito – de suas ambições, de suas grandes ideias –, Raúl organiza- va a dele”, explica o jornalista Fer- nando Ravsberg. “Criou, por exem- plo, um serviço de sapataria para que seus homens dispusessem de calça- dos dignos desse nome.” Percorrendo o território oriental para orquestrar o recrutamento e o aprovisionamento de suas tropas, Raúl Castro decretou uma reforma agrária, abriu escolas e hospitais – financiados com a criação de um imposto. O FEIJÃO É MAIS IMPORTANTE QUE O CANHÃO Em setembro de 1958, o jovem (en- tão com 27 anos) convocou um con- gresso camponês durante o qual os ha- bitantes de sua região foram convidados a apresentar queixas. “No fim do ano”, resume o pesquisador Hal Klepak, “Raúl havia lançado as bases de uma forma de governo não apenas para suas tropas, mas também para a população: com uma espécie de ministérios da Guerra, da Justiça, da Propaganda, da Saúde, da Economia, das Obras Públi- cas, das Comunicações, da Educação, além de departamentos encarregados dos problemas agrários e trabalhistas”.2 A instituição militar que hoje os cubanos conhecem, oficialmente inaugurada em 2 de dezembro de 1961, emergiu, portanto, do caldeirão da guerrilha, daí seu nome: Forças Ar- madas Revolucionárias (FAR). Não foi concebida para defender o país, mas para libertar o povo da ditadura – uma vocação política que não a deixou mais, mesmo quando o projeto inicial mudou, passando do nacionalismo à construção de um socialismo “à cuba- na”. As FAR gozam, pois, de uma aura considerável junto àqueles que vive- ram a queda do ditador Fulgencio Ba- tista. Para eles, os militares são os an- tigos guerrilheiros, aos quais devem com muita frequência seus primeiros sapatos, seus primeiros livros, sua pri- meira vitória. O internacionalismo das FAR contribui para seu prestígio no seio de uma população mais politi- zada que em qualquer outra parte e que vivenciou as tribulações da resis- tência aos ataques de Washington: elas participaram de guerrilhas lati- no-americanas, de ações na Argélia, na Etiópia e sobretudo em Angola, on- de dezenas de milhares de soldados cubanos lutaram contra as tropas do regime de apartheid sul-africano. Além disso, a lei exige que pelo menos metade dos jovens recrutas da acade- mia militar sejam filhos de operários ou camponeses, mais pobres (e, por- tanto, quase sempre negros) que o res- to da população.3 No entanto, a imagem das FAR jun- to ao povo se construiu também por ocasião de um outro episódio mais re- cente da história cubana: o chamado período “especial”, que começou logo depois do esfacelamento do bloco so- viético. De 1991 a 1994, o PIB caiu cerca de 35%. A violência do choque ine- briou os anticastristas. Andrés Oppe- nheimer, um dos editorialistas preferi- dos da imprensa sediada em Miami, publicou um livro intitulado A hora fi- nal de Castro.4 27MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil “De repente, Fidel disse a Raúl: ‘Não tenho mais dinheiro para você. É preci- so que o Exército se vire sozinho’”, con- ta Ravsberg. Em menos de um ano, o irmão mais novo “amputou as Forças Armadas pela metade, enquanto seu orçamento se derretia como neve ao sol (de 1.149 milhões a 736 milhões de pe- sos cubanos, moeda cujo próprio valor já desabara)”, lembra Klepak. Num contexto em que o Estado cubano pare- cia petrificado pela crise econômica – com Fidel Castro teimando em prome- ter dignidade, orgulho e honra às barrigas vazias que o escutavam –, as FAR se destacaram por sua capacidade de adaptação. Em uma reportagem a elas consagrada em 1995, o New York Times apresentou-as como “a única coisa que ainda funciona” na ilha.5 Os militares não tinham mais di- nheiro,combustível e peças de repo- sição – que antes vinham de Moscou. “Nossa missão é a defesa do país, mas a defesa em sentido lato”, declarou, ainda assim, Raúl Castro. “Por ora, is- so implica fornecer alimento ao nos- so povo. [...] O feijão é mais impor- tante que o canhão.”6 Os militares trocaram então seus fuzis por enxa- das... e coqueteleiras. A partir de 1980, as FAR começaram a trabalhar no setor de turismo, por in- termédio da empresa Gaviota, que ge- renciava os centros de lazer destinados aos soviéticos. Abriram então uma ca- deia de lojas para visitantes estrangei- ros, a fim de recolher os dólares em cir- culação no país. Muitos militares deixaram a farda no guarda-roupa e vestiram a guayabera, um tipo de ca- misa transformado em traje formal em Cuba. Alguns foram ao estrangeiro pa- ra fazer cursos de administração; ou- tros assumiram a gerência de hotéis. Pilotos de caça tornaram-se pilotos de linhas aéreas, e almirantes da Marinha de Guerra passaram a comandar iates. Estima-se que, em meados dos anos 1990, as FAR produziram entre um ter- ço e metade dos alimentos consumidos pela população. Os orçamentos desti- nados à saúde e à educação aumenta- ram, enquanto os da defesa continua- ram a diminuir, obrigando os militares à autonomia financeira. “Durante todo esse tempo, as escolas de balé mantive- ram suas portas abertas”, recorda Ravs- berg, que então já morava na ilha.7 Num contexto em que os Estados Unidos de- cidiram agravar as sanções contra o país, as FAR mostraram mesmo – à sua maneira – que continuavam garantin- do a proteção do território. Quatro anos depois da publicação do livro de Oppe- nheimer, Raúl Castro presidiu um des- file militar em que seus soldados exi- biam mísseis terra-ar sofisticados, puxados por bicicletas... As FAR consti- tuem, pois, o laboratório das reformas que Fidel tentou colocar em prática desde sua chegada ao poder, como a in- trodução de remuneração com base na produtividade.8 A ruptura parece às ve- zes considerável: Fidel Castro preferia que nenhum cubano gozasse das in- fraestruturas hoteleiras caso só os ricos pudessem ter acesso a elas? Pois seu ir- mão, que denuncia os desvios do “igua- litarismo”, decidiu, ao contrário, abri- -las a todos e deixar o mercado operar. Descobriu-se então que alguns cuba- nos guardavam somas consideráveis debaixo do colchão. Gastando-as nos hotéis (das FAR...), liberam os quartos nas pensões familiares com que até en- tão tinham de se contentar e cujos pre- ços caem a olhos vistos. Abandono do projeto socialista? Ainda que cada discurso do irmão mais moço prometa a continuidade da “visão” do mais velho, ele se afasta da concepção utópica segundo a qual apenas as ideias podem mover as mas- sas. Numerosos observadores julga- ram paradoxal uma situação em que Raúl, membro das juventudes comu- nistas, enquanto seu irmão não o era, tornou-se o “coveiro” sóbrio do projeto havia muito acariciado por Fidel. O atual presidente se mostra talvez mais sensível ao fato de que uma análise do ambiente concreto é proveitosa aos combates políticos. Ora, os contextos econômico e geopolítico não são de modo algum propícios à emergência do socialismo “em uma única ilha”.9 Ao que tudo indica, o capitalismo e suas receitas causam menos preocu- pação nas casernas que na sede do Partido Comunista Cubano (PCC). Embora nenhum número oficial es- teja disponível, calcula-se que os efeti- vos das FAR se estabilizaram em torno de 80 mil homens e mulheres, contra 200 mil nos anos 1980. As empresas que elas controlam – como Gaviota, Ci- mex e TRD – se uniram na holding Gru- po de Administración Empresarial (GAE SA), dirigida pelo ex-genro de Raúl Castro, Luis Alberto Rodríguez López-Callejas. A primeira controla 40% dos quartos do setor hoteleiro. Em um artigo pormenorizado, escrito para rebater os números fantasiosos forne- cidos pela imprensa de Miami, o uni- versitário norte-americano William LeoGrande – pouco suspeito de simpa- tias castristas – estima as receitas da Gaviota em US$ 1,7 bilhão em 2016.10 A 1 Ver Patrick Howlett-Martin, “EUA-Cuba, degelo sob os trópicos?”, Le Monde Diplomatique Brasil, nov. 2014. 2 Hal Klepak, Raúl Castro and Cuba. A Military Story [Raúl Castro e Cuba. Uma história militar], Palgrave Macmillan, Nova York, 2012. 3 O serviço militar de dois anos é obrigatório para os homens. As mulheres também podem fazê-lo como voluntárias. 4 Andrés Oppenheimer, Castro’s Final Hour [A hora final de Castro], Touchstone, Nova York, 1992. 5 Larry Rother, “In Cuba, army takes on party jobs, and may be only thing that works” [Em Cuba, o Exército faz bicos e pode ser a única coisa que funciona], The New York Times, 8 jun. 1995. 6 Citado por Larry Rother, op. cit. 7 “Quién paga la salud y la educación en Cuba?” [Quem paga a saúde e a educação em Cuba?], Cartasdecuba.com, 30 mar. 2017. 8 Ver “Cuba quer o mercado, mas sem capitalismo”, Le Monde Diplomatique Brasil, out. 2017. 9 Ver “Les enfants ont vieilli” [As crianças envelhece- ram], “Cuba, ouragan sur le siècle” [Cuba, furacão do século], Manière de Voir, n.155, out.-nov. 2017. 10 “Cuánto de la economía cubana controlan las em- presas militares?” [Quanto da economia cubana as empresas militares controlam?], Resumen Lati- noamericano, Buenos Aires, 30 jun. 2017. Na luta pela construção de uma sociedade mais justa, solidária e sustentável. Rádio USP (São Paulo: 93,7 FM Ribeirão Preto: 107,9 FM) TV Aberta SP, canais 9 da NET, 8 da Vivo Fibra e 186 da Vivo. Quartas, às 17h, Quartas, à meia-noite O olhar da cidadania observatorio3setor observatorio3setor www. observatorio3setor.org.br Cimex – cadeia de lojas, aluguel de car- ros... – teria, por sua vez, obtido um lu- cro de US$ 1,3 bilhão no mesmo ano. Especializada no comércio popular (de sabão a eletrodomésticos, passando por produtos destinados aos turistas), a TRD parece ter alcançado, em 2016, um volume de negócios em torno de US$ 440 milhões. Isso dá um total de cerca de US$ 3,4 bilhões para a GAE SA, o equivalente a 20% das entradas de di- visas no país e a 4% do PIB de 2015. Com um detalhe que não escapou a Trump: as receitas das empresas diri- gidas pelas FAR flutuam de acordo com as rendas do setor turístico. Nessas condições, não é nada ab- surdo sugerir que normalizar as rela- ções com Havana equivale a facilitar a vida dos militares. Mas daí a sugerir que a operação “agrava a repressão”... Cada passagem de um furacão pelo Caribe leva os observadores interna- cionais a perguntar: por que Cuba se sai melhor nisso que os outros países? Para os habitantes da ilha, a resposta é dupla: devido à solidariedade, que in- duz os mais preservados a abrir as por- tas para os mais expostos, mas tam- bém graças à organização logística das FAR, que comandam a defesa civil. Estas, contudo, ignoram o fenôme- no da corrupção, que gangrena parte das instituições da ilha? De modo al- gum – embora o prestígio das FAR no seio da população seja até maior que o da polícia. O maná recolhido pela GAE SA poderia espicaçar a tentação de re- correr às mil e uma acrobacias que faci- litam o enriquecimento pessoal: outros países (como o Vietnã) conheceram es- se tipo de evolução. Mas, por enquanto, não é raro ver um coronel pedindo ca- rona à beira da estrada. Em outras par- tes do mundo, ele passaria voando em um sedã com ar-condicionado. *Renaud Lambert é jornalista do Le Monde Diplomatique. O capitalismo e suas receitas causam menos preocupação nas casernas que na sede do Partido Comunista Cubano 28 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 AMÉRICA LATINA Muitas organizações procuram consolar os ocidentais inquietos com a crise ecológica.Longe de suas frenéticas metrópoles, na América Latina, os indígenas teriam conservado sua proximidade com a natureza, erigida à categoria de divindade: a Mãe Terra, ou Pachamama. No trabalho de campo, procurar por essas comunidades protegidas pode trazer algumas decepções POR MAËLLE MARIETTE* Em busca da Pachamama © C a rl o s R o d rí g u e z / A g e n ci a A n d e s cc N os últimos meses de 2017, atra- vessamos o Atlântico para che- gar ao Equador, em busca da Pachamama.1 Em nome dessa divindade ameríndia, indígenas, ati- vistas ambientais, dirigentes políticos e intelectuais empenham-se em “frear as agressões do capitalismo”,2 princi- palmente as que envolvem a extração de matérias-primas. “A Pachamama é uma realidade no mundo indígena”, explica Alberto Acosta, com quem falamos logo que chegamos a Quito. Ele foi ministro de Energia e Minas em 2007 e presidente da Assembleia Constituinte que, em 2008, sob a liderança do presidente Ra- fael Correa, reconheceu a Pachamama como um sujeito de direito – algo iné- dito no mundo. Agora hostil ao ex-che- fe de Estado, a quem acusa de traição e perpetuamento da exploração dos re- cursos naturais do país, Acosta encar- na uma corrente ambientalista que conta com grande atenção no exterior. “Para os povos autóctones, a Pacha- mama não é uma simples metáfora, ao contrário do que ocorre no mundo oci- dental. Os indígenas identificam a Ter- ra como uma mãe. Eles têm um rela- cionamento muito estreito com ela. Claro que nem todos os indígenas veem as coisas dessa maneira, afinal de contas, eles foram submetidos a quinhentos anos de colonização, e ela ainda não acabou. O mundo indígena não é poupado pelas lógicas do capita- lismo, do individualismo, do consu- mismo e do produtivismo. Mas ainda há comunidades que organizam sua vida social, política, econômica e cul- tural em torno de noções como Pacha- mama e Sumak Kawsay [bem viver].” No Equador, mais que em qualquer outro lugar, a influência do conceito de Mãe Terra ultrapassou o círculo das comunidades indígenas “protegidas”. “Eu não coloco botas em meus filhos quando vão ao quintal, para que sin- tam a terra, para que sintam o contato com a Pachamama”, explica Rocío G., diretora e produtora de programas re- lacionados ao mundo indígena, que mora em um bairro residencial da ca- pital. Antes de lamentar: “Mas minha irmã, para quem nada disso tem im- portância, calça os filhos sempre que eles saem”. Estranha aos olhos da cineasta, a decisão de sua irmã é a mesma dos in- dígenas quíchuas dos altos platôs com quem falamos alguns dias depois: para que seus filhos não peguem friagem ou se machuquem, eles também calçam as crianças quando saem de casa... De- vemos concluir que os Quíchua esque- ceram sua cultura? Não em Otavalo, onde funciona, o ano inteiro, um dos maiores mercados artesanais da Amé- rica Latina. Aqui, tudo é feito para pro- mover a identidade quíchua. Essa ati- tude acabou levando à “indigenização” de algumas festas que antes não fa- ziam nenhuma referência à cultura quíchua. É o caso da festa do equinócio de verão, que se tornou o Inti Raymi, e do Carnaval, celebrado em todo o país, mas aqui rebatizado como Pawkar Raymi. As festividades ocorrem na co- munidade de Peguche, a poucos quilô- metros do centro de Otavalo, em uma curiosa mistura: uma procissão em torno de um xamã é acompanhada por um show de reggae, um torneio espor- tivo, uma missa católica, a eleição de uma rainha da beleza quíchua e uma gigantesca batalha de água, farinha, ovos e tinta. Edwin T., filho de artesãos e músicos da comunidade vizinha, que atualmente estuda em Paris, explica sorrindo que a maioria dos líderes lo- cais não fala quíchua. A seu ver, essa reindigenização “baseia-se essencial- mente em uma reinterpretação incerta de tradições relatadas em livros de an- tropólogos ou intelectuais brancos”.3 – O que é Pachamama, Luis? – a questão traz uma lembrança dolorosa para Luis Tuytuy, um dos líderes da nação Sápara, no coração da Amazô- nia equatoriana. – Pachamama? Bem, é uma funda- ção equatoriana que apoiava as comu- nidades indígenas na luta em defesa da natureza. Ela não existe mais. – Ah, claro. Mas eu estava falando sobre a divindade, sabe, a Mãe Terra? Aliás, como se diz Mãe Terra na língua sápara? – Ah... Espera um pouco... Sinto muito, na verdade eu não sei. “TAMBÉM TEMOS MENUS VEGETARIANOS” Quando fizemos essa pergunta, a maioria das reações foi semelhante à de Tuytuy. Nos (raros) casos em que o termo evocava algo, era uma terra que precisa ser defendida como território ancestral: um espaço vital constituti- vo de uma identidade. Conversamos com os Achuar das comunidades de Wisui, Chumpi e Cotapaza, localiza- das às margens do Rio Pastaza – às quais se chega somente depois de ho- ras de ônibus, canoa e trilhas na flo- resta partindo da cidade de Puyo, ao pé da Amazônia –, e com os Quíchua das comunidades da região de Cura- ray – separadas de Puyo por três horas de ônibus em estrada de terra e mais de oito horas de canoa no Rio Curaray, quando seu nível permite. As aspira- ções dos moradores locais estão me- nos relacionadas ao meio ambiente do que à melhoria das condições de vida: acesso aos centros de saúde – as pica- das de cobras, por exemplo, represen- tam quase 10% das causas de morte na Amazônia equatoriana –, à educação, às redes rodoviárias, especialmente para vender sua produção na cidade, e aos meios de comunicação a distância (rádios de onda curta e internet) “para entrar em contato com o exterior em caso de emergência”, explica o ancião da comunidade Cotapaza. E depois acrescenta: “Diesel para o barco é bom. Antes, só com o remo, era muito mais difícil vencer a corrente”. No entanto, eles também se inquie- tam com o impacto da modernidade sobre as práticas culturais. Alguns se preocupam com a educação; outros, com o acesso à rede rodoviária, mas todos temem que os jovens esqueçam Festa do Inti Raymi, que marca o equinócio de verão, em Otavalo 29MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil suas raízes. Assim, uma tensão estru- tura a forma como a população local vê os projetos de mineração ou extra- ção de petróleo colocados em prática pelo governo: por um lado, a ameaça do desaparecimento da cultura dos antepassados e do modo de vida a eles associada, com o sentimento de aban- dono por parte de um governo que só se interessa pela terra por causa da “ri- queza do [seu] solo”; por outro lado, o fato de que esses projetos, embora po- luidores, poderiam melhorar condi- ções de vida hoje miseráveis. Essa ambivalência nem sempre é expressa por aqueles que falam em no- me dos povos indígenas no Equador, a exemplo de um dos líderes da forma- ção indígena Pachakutik, Salvador Quishpe, atual governador da provín- cia de Zamora-Chinchipe, que apoiou o riquíssimo banqueiro Guillermo Las- so, candidato da direita às eleições pre- sidenciais de 2017. Equipado com dois smartphones, o tempo todo atraves- sando o país de avião, Quishpe expõe seu credo: quando os povos indígenas usam sua pobreza como argumento em defesa da mineração, ele os convida a rejeitar o “estilo de vida ocidental”. Lembra-lhes que a “floresta magnífica” que os cerca, com suas cascatas, é a única “riqueza verdadeira” e explica que o desenvolvimento econômico provocado pelas grandes operações de mineração ameaça “corrompê-los” e “destruir sua cultura”. A consciência ambiental dos indí- genas não tem muito impacto. Quan- do viajamos pela região andina e amazônica, onde essas populações estão particularmente representadas, vemos estradas cheias de painéis ins- talados pelo Estado com recomenda- ções: “Cuide do meio ambiente”,“Cui- de da natureza, você depende dela”, “Natureza é vida”, “A Terra merece res- peito, cuide dela”. Para Carlos Freire, no entanto, a Pachamama é bem real: “Ela é sagrada, é nossa mãe. Devemos respeitá-la”. Mestiço e habitante de Puyo, ele dirige a agência Hayawaska Tour, que oferece passeios turísticos na Amazônia. “Organizamos o pro- grama de nossos passeios de acordo com o que os turistas querem ver e em seguida os apresentamos às comuni- dades. Em nosso Full Day Tour [pas- seio de um dia], oferecemos oficinas com essas populações. Mas o mais pe- dido é o Ayahuaska Tour. Trabalha- mos com xamãs que sabem fazer o bom uso da ayahuasca [bebida aluci- nógena].4 É um momento especial em que as pessoas podem viver coisas profundas em perfeita conexão com a natureza. No dia seguinte, elas se le- vantam e comem um caldo de frango puro, sem produtos químicos. Tam- bém temos menus vegetarianos.” A promoção de circuitos neo-New Age de Freire passa por uma oposição militante aos projetos petrolíferos, em nome da defesa da Pachamama – uma luta à qual se dedica totalmente o Toxi Tour da associação dirigida por Dio- cles Zambrano, nas proximidades de Coca, cidade amazônica localizada perto de poços petrolíferos. A visita tem o objetivo de ilustrar “o horror da exploração petrolífera”, em parceria com a ONG Acción Ecológica. Com se- de em Quito, a organização tem Acosta entre seus mais eminentes apoiado- res. Resultado? Ela se tornou obrigató- ria para os jornalistas que queiram in- vestigar a questão ambiental no Equador. Bastante profissional, a Ac- ción Ecológica dá tudo mastigado, for- necendo todos os contatos úteis. Para Acosta, bem como para movi- mentos ambientais próximos à Acción Ecológica, como os Yasunido,5 e mui- tos dos atuais líderes da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equa- dor (Conaie), ecologia, antiextrativis- mo e indigenismo se tornaram insepa- ráveis. Assim, as reivindicações sociais, territoriais e culturais tradicionais são feitas em nome da Pachamama. É a mesma lógica para alguns líderes polí- ticos, indígenas ou não, para os quais a divindade seria um vetor da luta contra o aquecimento global e o capitalismo. A situação não é exclusiva do Equa- dor. A antropóloga Sarah Quilleré pes- quisa as lutas do povo Wayuu na Co- lômbia. Segundo ela, “a retórica indigenista e a ecologização do dis- curso dos líderes wayuus são certa- mente o elemento mais marcante” em seu movimento “contra a destruição e a espoliação do território”. O fenôme- no responderia “à crescente preocu- pação ecológica nos países mais in- dustrializados”. A tendência dos pensadores “nos quais se inspiram amplamente as organizações indíge- nas e as ONGs é dizer que devemos procurar nas tradições pré-coloniais as lógicas alternativas ao modelo ra- cional europeu. Essas novas correntes de pensamento propõem reabilitar os valores tradicionais como único meio de emancipação e sobrevivência autô- noma das populações”.6 MARX E FREUD, PONCHO E IOGA No Equador, ninguém encarna melhor o fenômeno da “pachamami- zação” da política – uma forma de eco- logização indigenizante, ou de indige- nização ecologizante – do que Carlos Pérez, presidente da Ecuarunari, que representa os indígenas da região montanhosa. Muito respeitado pela esquerda ambientalista internacional e radicalmente oposto ao ex-presiden- te Correa, Pérez explica que, não ten- do sido contaminados pelo Ocidente, os indígenas detêm uma “verdade an- cestral” sobre o mundo “que pode sal- var a humanidade”. A internet daria os meios de “globalizar a resistência” aos projetos de mineração e extração de petróleo e, de maneira mais geral, à política “capitalista, ‘ecocida’ e ‘etno- cida’”. Como globalizar a resistência? “Globalizando a Pachamama, as cos- movisões, as cosmoexperiências”, ex- plica Pérez. Ou melhor, “Yaku” Pérez, já que ele recentemente decidiu indi- genizar seu nome. Aqueles que, como os Sápara, esco- lhem outra via para satisfazer suas ne- cessidades básicas observam que não apenas as ONGs frequentemente desis- tem de ajudar as comunidades que op- taram por “colaborar” com o Estado, mas que a própria Conaie os marginali- za. Essa situação não surpreende Anto- nio Vargas, ex-presidente da confedera- ção: à medida que a organização se envolveu no jogo das alianças políticas, ela “se separou de sua base”, avalia.7 Se alguns dos atuais líderes da Co- naie aprovaram a decisão de apoiar o banqueiro Guillermo Lasso em 2017, talvez seja porque os militantes histó- ricos de orientação marxista – como Humberto Cholango, Ricardo Ulcuan- go, Pedro de la Cruz e Miguel Lluco –, para os quais a luta indígena é entendi- da em termos de luta de classes, decidi- ram apoiar Correa durante toda a sua presidência. O fenômeno deixou o campo aberto para outros líderes, co- mo Quishpe e Pérez, partidários de uma forma de essencialismo indígena. “As questões dos direitos da natu- reza ou do Sumak Kawsay não faziam parte das reivindicações indígenas na década de 1990”, explica o cientista po- lítico Franklin Ramírez. “Foi no início da Revolução Cidadã [após a eleição de Correa] e principalmente com a As- sembleia Constituinte de 2008 – sob a liderança de Acosta – que esses temas realmente entraram no cenário políti- co e ganharam grande visibilidade. Muita gente pensa que o movimento indígena sempre usou a retórica ecolo- gista, mas não é o caso.” Depois de mergulhar nos docu- mentos programáticos da Conaie dos anos 1990, Ramírez observa que as rei- vindicações indígenas da época gira- vam em torno da plurinacionalidade, da terra, da representação no Estado e da promoção de uma forma de autoges- tão, de democracia comunitária. “Nes- se quadro entrava, de maneira colateral e periférica, a questão da natureza e dos recursos naturais. Para os movimentos indígenas dessa época, a resposta para o problema da proteção do meio am- biente, da natureza, era a autonomia in- dígena e a aquisição do poder territorial sobre os recursos.” Ramírez concorda com Floresmilo Simbaña, líder e inte- lectual da Conaie, em dizer que a deci- são de levantar a bandeira do Sumak Kawsay e da Pachamama foi uma for- ma de Correa neutralizar a delicada questão da plurinacionalidade, colo- cando-a em segundo plano. A despolitização da Pachamama – que possibilitou sua repolitização con- servadora – teve início, segundo Ramí- rez, quando as lutas políticas indígenas ganharam grande visibilidade, na dé- cada de 1990: “Na época, eu tinha cole- gas na universidade que eram marxis- tas ou freudianos e se indigenizaram. Começaram a usar trança, chapéu, poncho. Iam falar sobre a Pachamama na TV. Houve um processo impressio- nante de reindigenização, acompanha- do do surgimento de serviços espiri- tuais étnicos: xamãs, rituais de ayahuasca, igrejas etc. Muita gente do meu círculo, gente urbana de Quito, mergulhou nessa onda, sobretudo a pequena e a grande burguesia. Agora é a ioga. Aliás, essa visão pachama- mista do mundo lembra um pouco al- gumas formas de ioga: os problemas estão no interior. É uma forma de per- sonalizar a questão da transformação das coisas e de abandonar as lutas po- líticas fundamentais”. A redução da Pachamama à sua di- mensão espiritualizante e ecologizante assegura a Acosta certo sucesso no exte- rior. “Estou sempre viajando para a Eu- ropa, especialmente para a Alemanha, a Áustria, a Espanha e a Itália”, explica por Skype, por causa de suas viagens constantes. “Mas também para muitos países da América Latina. Sou convida- do pelas universidades e pelos movi- mentos sociais. Por exemplo, hoje vou para a Alemanha – onde vou receber um prêmio – para falar sobre direitos da natureza e sobre todas as transforma- ções civilizacionais que permitem sairde um mundo antropocêntrico para um mundo biocêntrico.” *Maëlle Mariette é jornalista. 1 Nossa reportagem incluiu 39 horas de entrevistas com 74 pessoas em trinta comunidades, sendo 21 delas indígenas, percorrendo mais de 4 mil quilô- metros em todo o Equador. 2 Roberto Ojeda, “Pachamama contra el capitalis- mo” [Pachamama contra o capitalismo], Erosión. Revista de Pensamiento Anarquista, Santiago do Chile, n.2, 2013. 3 Ler Renaud Lambert, “Le spectre du pachamamis- me” [O fantasma do pachamamismo], Le Monde Diplomatique, fev. 2011. 4 Ler Jean-Loup Amselle, “Febre xamânica na Ama- zônia peruana”, Le Monde Diplomatique Brasil, jan. 2014. 5 Grupo militante que se opõe à decisão do governo de explorar parte do parque natural Yasuní, consti- tuído após o fracasso da iniciativa Yasuní-ITT. Ler Aurélien Bernier, “A biodiversidade do Equador nas mãos da solidariedade internacional”, Le Mon- de Diplomatique Brasil, jun. 2012. 6 Sarah Quilleré, “Écologisation et standardisation des mythes traditionnels, reconfiguration des con- naissances locales et nouveaux concepts. Les Wayuu en lutte pour la sauvegarde du territoire” [Ecologização e padronização dos mitos tradicio- nais, reconfiguração dos conhecimentos locais e novos conceitos. Os Wayuu lutam em defesa do território], Revue d’Anthropologie des Connais- sances, Paris, v.10, n.4, 2016. 7 “Bases indígenas desde Santo Domingo exigen ‘diálogo directo con el gobierno’ sin Conaie” [Ba- ses indígenas em Santo Domingo exigem “diálogo direto com o governo” sem a Conaie], El Telégrafo, Guayaquil, 23 fev. 2015. 30 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 QUANDO NEM TODAS AS VÍTIMAS DE ATENTADO TÊM O MESMO VALOR Como custa caro e gera menos audiência que as fofocas sobre a vida dos famosos, a informação internacional não é prioridade para as direções editoriais. Alguns países geográfica e culturalmente próximos beneficiam-se, contudo, de uma cobertura melhor. O tratamento dado aos atentados ilustra essa dinâmica de forma bastante clara POR TÉO CAZENAVES* Longe dos olhos, longe do coração N o dia 2 de novembro de 2017, os ouvintes da programação ma- tutina da France Inter puderam viver um momento radiofônico singular. Em sua crônica semanal, Ni- cole Ferroni queixou-se que tinha sido convidada a modificar sua interven- ção – destinada originalmente ao as- sédio sexual – em vista dos eventos ocorridos no dia 31 de outubro em No- va York: o motorista de um veículo atropelou intencionalmente vários pe- destres, causando a morte de oito e deixando doze feridos. Visivelmente incomodado, Nicolas Demorand rea- giu: “Você descobriu, minha cara Ni- cole, que o real às vezes nos atinge”. Deu-se um silêncio atordoante. “É me- lhor não falar sobre isso...; é essa, se entendi bem, a moral da crônica?”, ele continuou. A cronista explicou que questionava “a importância do fato de se falar disso com tanta frequência”. O apresentador do segundo programa matutino mais escutado da França concluiu com estas palavras: “Obriga- do. Infelizmente há atentados com tanta frequência, e falamos deles ten- tando refletir também”. Naquela semana, os jornais das 8 horas da France Inter dedicaram 6 mi- nutos e 26 segundos ao atentado em Manhattan. Duas semanas antes, o de Mogadíscio, o ataque terrorista mais mortífero da história africana, com 512 mortos,1 não teve direito a mais que breves 21 segundos no jornal das 8 da principal emissora de rádio públi- ca, ou seja, dezoito vezes menos. Entre 18 e 24 de agosto de 2017, os ataques de Barcelona e de Cambrils – reivindica- dos pela organização Estado Islâmico, com dezesseis mortos, tinham sido noticiados nos mesmos jornais duran- te 24 minutos e 50 segundos, ou seja, 71 vezes mais que o de Mogadíscio. Es- ses três atentados, que ocorreram em um curto lapso de tempo em pontos diversos do mundo, fornecem um bom exemplo da importância muito variá- vel atribuída pelos jornalistas a esse ti- po de acontecimento. Com notável exceção da Radio France Internationale (RFI), todos os meios de comunicação analisados re- servaram aos atentados catalães um tratamento quantitativo visivelmente superior ao que deram ao massacre de Mogadíscio. Assim, a Télévision Fran- çaise 1 (TF1) abriu seis vezes seu jornal das 20 horas com chamadas sobre es- ses acontecimentos, aos quais o canal de TV consagrou 1 hora, 1 minuto e 17 segundos entre os dias 17 e 23 de agos- to. Mas, entre 14 e 20 de outubro, ela dedicou apenas 1 minuto e 40 segun- dos ao ataque de Mogadíscio, ou seja, uma relação de 1 para 44. Será que é preciso aceitar como ex- plicação a curta distância que separa Barcelona da sede das redações pari- sienses, o que se chama em algumas escolas de jornalismo de “jornalismo de proximidade” ou de “morte quilo- métrica”? O simples critério da proxi- midade geográfica cai quando se com- para o tratamento dado pela TF1 aos atentados de Nova York e de Mogadís- cio, cidades situadas, respectivamente, a 5.845 km e a 6.625 km de Paris. Entre 1º e 7 de novembro, os acontecimentos de Nova York foram lembrados três ve- zes, ao todo durante 21 minutos e 15 segundos, ou seja, quinze vezes mais que o tempo de difusão reservado aos mortos na Somália. Entre os fatores que determinam a intensidade da cobertura dada à Áfri- ca, poderiam figurar o envolvimento do Exército francês ou a presença de franceses entre as vítimas. A presença de jornalistas na área também parece crucial: nenhuma das três rádios – France Inter, RTL, Europe 1 –, que con- tam com as maiores audiências mati- nais, dispõem de correspondentes permanentes na África. A France 2 mantém um em Dacar, apesar do fe- chamento de sua agência especializa- da em 2014,2 enquanto a TF1 só traba- lha desde então com jornalistas freelancers no continente. Na impren- 1 “Le bilan de l’attentat en Somalie en octobre bondit à 512 morts” [O balanço do atentado na Somália em outubro subiu para 512 mortos], LeMonde.fr, 2 dez. 2017. 2 Léa Ticlette, “AITV victime de l’évolution des objec- tifs de France TV” [AITV, vítima da evolução dos objetivos da France TV], RFI.fr, 9 dez. 2014. sa diária, o Le Monde conta com dois correspondentes permanentes, que enviam notícias respectivamente de Johannesburgo e Túnis; o Le Figaro não dispõe mais de nenhum jornalista mensalista na África. Somente a RFI se distingue, uma vez que a rede pública – que tem como slogan “As vozes do mundo” – conta com quatro corres- pondentes a postos em Dacar, Abidjan, Kinshasa e Nairóbi. O tratamento que deu aos três atentados é muito menos desequilibrado do que todos os outros meios de comunicação juntos. “Evitemos a overdose midiática após os atentados” foi o título de um artigo publicado pelo Le Monde em 25 de agosto de 2017. No que diz respeito aos mortos em Mogadíscio, aos quais o diário vespertino consagrou oito vezes menos caracteres que aos de Barcelo- na e de Cambrils, a overdose sem dúvi- da foi evitada. *Téo Cazenaves é jornalista. 31MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil REINÍCIO DA GUERRA FRIA A anexação da Crimeia, a guerra na Ucrânia e a difusão de notícias falsas transformaram Moscou em alvo regular, por vezes obsessivo, da mídia ocidental. Uma emissora pública voltada ao conhecimento e à cultura poderia ter resistido a isso. Porém, por meio de séries e documentários, o canal francês Arte parece obstinado a fazer a escolha inversa POR SERGE HALIMI* Quando a TV quer sangrar a Rússia V inte episódios da série noruegue- sa Occupied já foram exibidos pe- lo canal público franco-alemão Arte. Ficção ou advertência? Mos- cou ocupa a Noruega (com a anuência da União Europeia) para garantir a en- trega de gás e petróleo desse país. A União Europeia não tem um bom pa- pel na série,mas é a Rússia que inva- de, manipula, ameaça, mata. Não se trata, no entanto, nos dizem, de “designar um vilão”. A embaixada russa em Oslo inclusive foi informa- da do projeto. É duvidoso que o resultado lhe agrade. A série é angustiante, o parale- lo entre russos e nazistas (que, eles sim, ocuparam a Noruega) é forte- mente sugerido, já que o primeiro-mi- nistro norueguês, que colabora com Moscou, é comparado a Vidkun Quis- ling e a Philippe Pétain (que governa- ram noruegueses e franceses sob ocu- pação nazista). Quando a segunda temporada, que acabou de ser difun- dida, foi concebida, a anexação da Cri- meia tinha acabado de acontecer. “Es- távamos em paralelo com a realidade”, triunfavam as produtoras. A Arte também poderia ter desen- volvido um “paralelo com a realidade” colocando em cena a China e uma ilha do Pacífico, os Estados Unidos e Cuba, a França e a República Centro-Africa- na, Israel e a Palestina. Mas os tempos que correm, de uma nova guerra fria entre Washington e Moscou, sugerem que isso seria menos cômodo e que a Rússia constitui o culpado ideal para esse tipo de divertimento. Uma suspeita confirmada pela edi- ção do programa Thema de 16 de janei- ro de 2018. E não na ficção, mas na his- tória recente e flamejante. Um ano depois da eleição de Donald Trump, a Arte exibiu um documentário norte-a- mericano intitulado, em francês, Pou- tine contre les USA [Putin contra os EUA] (nos Estados Unidos, ele se cha- mava A vingança de Putin). Ele daria “pela primeira vez a palavra a antigos membros da equipe de Barack Obama, a membros da CIA”, conforme anun- ciado triunfalmente pela apresentado- ra da Arte, encantada com tal esforço de equilíbrio e exaustividade. A trama se resumia a uma ideia. Em 2016, no momento da eleição norte-americana, “Putin teve finalmente sua vingança, que deve apagar os enfrentamentos de toda uma vida”. Uma “luta épica” acon- teceu então “entre o dirigente russo e a democracia norte-americana”. O canal público russo RT foi reprovado por seu maniqueísmo e sua tendência à mani- pulação. Mas nessa noite, sobre esses dois planos, a Arte ganhou da RT... “Nossa história começa em 31 de dezembro de 1999”, dia em que Boris Iéltsin transmitiu seus poderes a Pu- tin, “seu obscuro primeiro-ministro, um antigo oficial da KGB”. As coisas se degeneraram bem rápido entre o “an- tigo espião” e o “homem político pro- gressista que tenta instaurar a demo- cracia na Rússia”: a imprensa ficou de fora; os oponentes, na prisão; o Oci- dente voltou a ser o inimigo. “Pouco antes de sua morte, Iéltsin disse a seus próximos que cometera um grave erro ao escolher Putin como sucessor.” OMISSÕES CHOCANTES Ousemos aqui alguns pequenos re- toques. O essencial do desmantela- mento da economia soviética foi im- posto por decreto presidencial, não pelos deputados eleitos pelo povo rus- so. Quando eles se opuseram à “tera- pia de choque” de Iéltsin, este dispa- rou um canhão sobre o Parlamento. Ele modificou em seguida a Constitui- ção por meio de um plebiscito (mani- pulado) e foi reeleito depois de ter mo- nopolizado a mídia, fraudado as urnas e apelado para conselheiros norte-a- mericanos. Todas essas façanhas de- mocráticas o tornaram muito popular em Washington, Berlim e Paris, mas um pouco menos em seu próprio país. Foi então que Putin se impôs, sobre quem o documentário estampa um re- trato sem nuances: “Um oficial de con- traespionagem [da KGB] é alguém que se banha nas teorias do complô, para quem o inimigo está em toda parte e deve ser eliminado”. Desde junho de 2000, quando recebeu o presidente Bill Clinton em Moscou, “Putin quis mos- trar que era o macho dominante na sa- la, sentado com as pernas abertas, bem afundado na sua poltrona”. A imagem de arquivo confirma que Pu- tin está de fato com as pernas abertas, mas somente um pouco mais que Clinton, que por sua vez tem a reputa- ção de não controlar sua libido... PUTIN, UM VALENTÃO DE ESCOLA “Revoluções de cor” na Geórgia e na Ucrânia, revoltas árabes: “Putin entende que, de um momento para o outro, vai chegar sua vez. Virão para tirá-lo do poder também. Esta angús- tia se torna a força motriz de seu regi- me”. O presidente russo, inclusive, não deixaria de rever as imagens do linchamento de seu “aliado” Muamar Kadafi. As mesmas que provocaram gargalhadas de Hillary Clinton, então secretária de Estado, pontuadas por um famoso “Viemos, vimos, está mor- to”. Putin, cujas meditações não com- portam nenhum mistério para a Arte, se pergunta sem cessar desde então: “Será que isso poderia acontecer co- migo? Não somente perder um cargo que eu aprecio, mas também minha liberdade, minha vida?”. Daí vem seu desejo de vingança... A ocasião apareceu na eleição em 2016 nos Estados Unidos, quando “a Rússia de Putin vai atingir a democracia nor- te-americana em pleno coração”. Pe- na, Moscou só enfrentou então ma- chos dominados que, assim como Obama, temiam a Rússia a ponto de recusarem entregar armas para a Ucrânia. Ficou a cargo de John Bren- nan, antigo diretor da CIA, tirar lições de toda essa história: “Eu repensei meus anos de juventude nos cursos da escola em New Jersey. Sempre havia os pequenos valentões que queriam nos intimidar, e eles não paravam en- quanto a gente não fizesse o nariz de- les sangrar. Eu me disse que uma pe- quena hemorragia das fossas nasais faria bem a Putin. Ele recuaria, pois, como a maioria dos brutamontes, ele teria entendido que não poderia mais bancar o fortão”. Em 18 de abril de 1985, cinco sema- nas depois da chegada ao poder de Mikhail Gorbachev, a rede pública francesa FR3 exibiu um documento de ficção política, La guerre en face [A guerra em frente], que anunciava a in- vasão da Europa ocidental pelo Exérci- to Vermelho.1 Na época, a Noruega não teria sido o suficiente. Trinta e três anos se passaram; a maioria dos anti- gos Estados do Pacto de Varsóvia pen- deu para o campo norte-americano; a União Soviética se deslocou; a renda nacional anual da Rússia caiu para menos que a da Itália. O orçamento militar russo representa um décimo daquele dos Estados Unidos. Mas, co- mo a Arte nos lembra, quando temos um inimigo, é para a vida inteira. *Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique. 1 Ler Paul-Marie de la Gorce, “‘La guerre en face’: fantasmes et manipulations” [“A guerra em frente”: fantasias e manipulações], Le Monde Diplomati- que, maio 1985. Vladimir Putin durante celebração do Dia de Reis © P re si d e n t R u ss ia 32 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 © T u lip a R u iz BASTAM IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO? Nos anos 1980 e 1990, a ideia de que não existia alternativa às democracias de mercado resultou em uma forma de fatalismo. No entanto, a reascensão dos protestos nos últimos vinte anos recolocou os enfrentamentos ideológicos em primeiro plano, a ponto, muitas vezes, de se atribuir à batalha das ideias um papel e um poder que ela não possui POR RAZMIG KEUCHEYAN* O que as “batalhas culturais” não são E m um artigo publicado em ja- neiro de 2018, Najat Vallaud- -Belkacem, ex-ministra da Edu- cação da França, repetiu, depois de muitos outros, que o Partido Socia- lista perdeu a “batalha cultural” – ex- pressão que aparece quatro vezes no texto.1 Quando François Hollande ven- ceu a eleição presidencial de 2012, o Partido Socialista detinha, no entanto, todas as rédeas do poder: o Palácio do Eliseu, Matignon (residência do pri- meiro-ministro), a Assembleia Nacio- nal, o Senado e 21 regiões em 22. Nada parecia impedir a aplicação da política de esquerda que Vallaud-Belkacem, no governo durante toda a duração do quinquênio (2012-2017), defendeu re- trospectivamente. O motivo? Ventos contráriossopravam, ao que parece com muita força. A batalha cultural, esse gênio misterioso que refreia o ar- dor de sucessivos governos de esquer- da, estava perdida. No seio da esquerda – de todos os matizes –, circulam agora ideias que parecem politicamente adequadas, mas se revelam perigosas. Uma delas é o argumento dos “99%”.2 Apoiando-se em estatísticas estabelecidas pelos economistas Emmanuel Saez e Tho- mas Piketty, o movimento Occupy Wall Street disseminou em 2011 a no- ção de que a humanidade se divide em dois grupos: um, o 1%, são os mais ri- cos, que açambarcam quase todos os benefícios do crescimento; o outro, os 99%, sofre de desigualdades cada vez mais gritantes. O argumento se mos- trou eficaz por algum tempo, suscitan- do mobilizações em diversos países. Mas um problema logo surgiu: os 99% formam um conjunto extremamente díspar. Essa categoria inclui tanto os habitantes das favelas de Nova Déli e do Rio de Janeiro quanto os prósperos residentes de Neuilly-sur-Seine e de Manhattan que não são ricos o sufi- ciente para integrar o 1%. É difícil ima- ginar que os interesses dessas popula- ções sejam os mesmos ou que elas venham a constituir, no futuro, um grupo político coerente. O argumento da batalha cultural sofre de um defeito análogo. Não é a bem dizer falso, mas aponta para uma estratégia política problemática. En- contramo-lo frequentemente na es- querda, do Partido Socialista à França Insubmissa [France Insoumise], mas também na direita, sobretudo nas cor- rentes que se dizem herdeiras da “no- va direita”. O argumento vem de uma leitura apressada de Antonio Gramsci e seu conceito de hegemonia. A ideia é simples: a política repousa, em última instância, na cultura. Aplicar uma po- lítica supõe, primeiro, que o vocabulá- rio e a “visão de mundo” sobre as quais ela se apoia sejam impostos ao maior número de pessoas. Não é que os go- vernos não apliquem seu programa porque lhes falta coragem e ambição ou porque se recusam a defender os in- teresses daqueles que os elegeram: eles não o fazem porque o “clima” po- lítico se opõe à sua aplicação. Seria, as- sim, necessário modificar a atmosfera para tornar concebível essa política. Na era do Facebook e do Twitter, é fácil entender o apelo desse argumen- to. Subscrevendo-o, podemos fazer política confortavelmente em casa, diante da tela do computador. Deixar um comentário num site ou escrever um tuíte odiento são agora atos políti- cos por excelência. É o mesmo que pu- blicar petições ou libelos vingativos nas colunas dos jornais já quase sem leitores, alimentando a esperança de que “caiam na net”. IDENTIFICAR OS VETORES DA MUDANÇA A batalha cultural tem, sem dúvi- da, sua importância. A China, por exemplo, leva hoje muito a sério o de- safio de seu soft power. Trata-se de um conceito elaborado pelo cientista polí- tico norte-americano Joseph Nye, que foi consultor de várias administrações democratas desde Jimmy Carter. Se- gundo Nye, no século XXI o poder de um país se mede menos por seu hard power, isto é, seu poderio militar, do que por sua capacidade de influenciar a esfera pública global, dando uma imagem positiva de si mesmo. O governo chinês organiza assim a atuação dos netizens (contração de net e citizens, “internet” e “cidadãos”), pes- soas que entram na rede para defender os interesses de seu país.3 Como suge- riu o presidente Xi Jinping em discurso ao 19º Congresso do Partido Comunis- ta Chinês em outubro de 2017, o impor- tante é “contar a história da China e construir seu soft power” difundindo na rede uma “energia positiva”. Sim, mas... por trás dos batalhões de neti- zens chineses está uma das grandes potências mundiais. A China não ocu- pa seu posto nas relações internacio- nais por causa do soft power ou de uma batalha cultural, e sim em razão da for- ça econômica, que o dirigente preten- de transformar em força militar. A expressão “batalha cultural” deve parte de seu sucesso à hipótese segun- do a qual, no curso das últimas déca- das, a direita teria imposto suas ideias, dando nascença à mistura de neolibe- ralismo econômico e conservadorismo moral em que estamos desde então. No entanto, para começar, a direita não precisou realmente vencer a bata- lha cultural, pois suas categorias fun- 33MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil dadoras, como a propriedade privada dos meios de produção e a economia de mercado, não são seriamente con- testadas desde meados dos anos 1970. Mesmo a impressão de que 1968 repre- sentou uma “idade de ouro” para a es- querda, isto é, de que suas ideias eram então hegemônicas, não passa, em grande parte, de uma ilusão retros- pectiva: na França, a direita ocupou o poder sem descontinuidade durante todo o período. As políticas redistribu- tivas e de reconhecimento dos direitos das mulheres que ela concedeu foram introduzidas menos em consequência de uma “batalha de ideias” do que da pressão do Bloco do Leste e de vigoro- sos movimentos sociais. Nem mesmo se pode dizer que o ra- cismo, cuja recrudescência é às vezes apresentada como sintoma de uma “di- reitização” da sociedade atual, se agra- vou, embora tenha mudado de forma. A sociedade francesa dos anos 1960 e 1970 não era decerto menos racista que a atual.4 A partir da década de 1970, o capitalismo sofreu profundas transfor- mações: financeirização, desmorona- mento do Bloco do Leste e sua integra- ção à economia mundial, virada capitalista da China, desindustrializa- ção dos antigos centros, crise do movi- mento operário, construção neoliberal da Europa... No contexto de crise e rees- truturação do sistema, a direita se man- tinha alerta para aproveitar todas as oportunidades. E ela o fez, enviando ao debate público ideias coerentes na esfe- ra política e econômica. Entretanto, a nova hegemonia neoliberal só emergiu após abalos estruturais que enfraque- ceram objetivamente as forças progres- sistas. Esperar que vencer a “batalha das ideias” basta para modificar o siste- ma é se expor a desilusões. O argumento dos 99% e o da bata- lha cultural provêm de uma mesma concepção do mundo social: a que considera a sociedade um corpo ho- mogêneo, um espaço “fluido” capaz de ser influenciado num sentido ou em outro por meio de discursos. As teorias de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, fontes de inspiração do Podemos5 e da França Insubmissa, são exemplos des- sa concepção. Os adeptos do movimento dirigido por Jean-Luc Mélenchon criaram no início do ano um canal de TV batizado de Le Média e fundaram uma escola de formação. No dizer de seus apresenta- dores, esses dispositivos visam travar a batalha cultural, preparando o terreno para outras políticas.6 Desse modo, a França Insubmissa se inspira, atuali- zando-as, em instituições social-de- mocratas e comunistas: o jornal operá- rio e a escola de formação de quadros, que permitiriam a difusão, entre os militantes e no seio de sua base social, de uma visão coerente do mundo. Falta, porém, um elemento essen- cial: quais classes sociais ou coalizões de classes serão os vetores da mudan- ça? A quem se dirigem prioritariamente o Le Média e a escola de formação? Os comunistas tinham por ponto de apoio a classe operária e as classes aliadas (o campesinato e frações dominadas das classes médias, principalmente). O “bloco social” visado pelo jornal operá- rio e a escola de quadros era esse. Mas e no caso da França Insubmissa? Uma “visão de mundo” só se torna politica- mente eficaz quando é a de uma coali- zão de classes que se opõem a outras classes. Resta, pois, imaginar os contor- nos de um “bloco social” futuro. Contrariamente ao que alguns in- térpretes lhe atribuem, Gramsci ja- mais pretendeu fazer da batalha cul- tural o cerne da luta de classes. Citandoa evolução do marxismo em sua épo- ca, ele afirma que “a fase mais recente de seu desenvolvimento consiste jus- tamente na reivindicação do momen- to da hegemonia como dado essencial de sua concepção de Estado e na ‘valo- rização’ do fato cultural, da atividade cultural, da necessidade de uma frente cultural ao lado das frentes puramente econômicas e políticas”.7 Articular uma “frente cultural” com as frentes econômica e política já existentes: eis sua grande ideia. Isso não supõe, em nenhum caso, uma preeminência da “frente cultural” sobre as outras. Nem que essa frente se torne apanágio de militantes que operam na esfera das ideias. Para Gramsci, o sindicalismo quase sempre se antepõe à “frente cul- tural”. Nas lutas que ele organiza, per- mite que evoluam as relações de forças e deixa entrever, assim, a possibilidade de um outro mundo. “Cultura”, para Gramsci, é coisa bem diferente daquilo que em geral designamos com esse ter- mo. A noção de “hegemonia cultural” não designa a peroração sem fim de in- telectuais ou dirigentes contestadores nas mídias dominantes, mas a capaci- dade de um partido de forjar e condu- zir um bloco social amplificado, para despertar a consciência de classe. Exemplos não faltam, nem em sua épo- ca nem hoje. Em dezembro de 2017, os emprega- dos da firma de limpeza Onet, na área de Paris, obtiveram uma vitória im- portante.8 Esses terceirizados da So- ciété Nationale des Chemins de Fer (SNCF) [Empresa Nacional das Ferro- vias] encarregados da faxina das esta- ções reivindicavam sua entrada para a convenção coletiva da manutenção ferroviária da SNCF, a retirada de uma cláusula de mobilidade que os obriga- va a fazer longos deslocamentos, o au- mento do auxílio-alimentação e a re- gularização dos colegas sem carteira assinada. Ao fim de uma greve de 45 dias, tiveram suas principais reivindi- cações atendidas. Essa luta parecia improvável pelo fato de ser dirigida por imigrantes recentes, no seio de uma empresa subcontratada e num setor em que a interrupção do traba- lho não tem grande impacto sobre o andamento da vida social. Paralisar uma refinaria é paralisar o país; mas 1 Najat Vallaud-Belkacem, “Éloge de l’imperfection en politique” [Elogio da imperfeição em política], Le Nouveau Magazine Littéraire, Paris, jan. 2018. 2 Ver Serge Halimi, “A falácia dos 99%”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2017. 3 Cf. Yuan Yang, “China’s Communist party raises army of nationalist trolls” [Partido Comunista da China mobiliza um exército de trolls nacionalistas], Financial Times, Londres, 29 dez. 2017. 4 Cf., por exemplo, Yvan Gastaut, “La flambée racis- te de 1973 en France” [A escalada racista de 1973 na França], Revue Européenne des Migrations In- ternationales, Poitiers, v.9, n.2, 1993. Ver igualmen- te Benoît Bréville, “Integração, a grande obses- são”, Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2018. 5 Ver Razmig Keucheyan e Renaud Lambert, “Ernes- to Laclau, inspirador do Podemos”, Le Monde Di- plomatique Brasil, set. 2015. 6 Cf. Laure Beaudonnet, “Aude Lancelin, auteure de ‘La Pensée en otage’: ‘Tout le circuit de l’informa- tion est pollué’” [Aude Lancelin, autora de O pen- samento refém: “O circuito inteiro da informação está poluído”], 20 Minutes, Paris, 10 jan. 2018. 7 Cf. Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et guerre de position [Guerra de movimento e guerra de posição], textos escolhidos e apresentados por Razmig Keucheyan, La Fabrique, Paris, 2012. 8 Cf. Cécile Manchette, “Onet. Victoire éclatante des grévistes du nettoyage des gares francilien- nes” [Onet. Vitória estrondosa dos grevistas da limpeza das estações de trem da região de Paris], Révolution Permanente, 15 dez. 2017. deixar de limpar uma estação periféri- ca em Seine-Saint-Denis...? Contudo, à força de perseverança, os grevistas e seus delegados sindicais levaram a melhor. As transformações estruturais do capitalismo, desde os anos 1970, mudaram a classe operária. Ela não desapareceu, é claro, mas se tornou mais diversificada social, étni- ca e espacialmente. Travar a “batalha das ideias” consiste em politizar essas novas classes populares por meio de lutas semelhantes à empreendida pe- los empregados da Onet. Sua vitória mostra que o improvável continua possível. A “frente cultural”, articulada às frentes econômica e política, é exa- tamente isso. Talvez sem saber, os gre- vistas da Onet sejam os legítimos her- deiros de Gramsci. *Razmig Keucheyan é professor de Socio- logia da Universidade de Bordeaux, França. 34 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 THE POST, UM FILME DE STEVEN SPIELBERG POR PIERRE RIMBERT* A escolha dos heróis © P a tr ic io B is so E m 22 de janeiro de 2018, os Re- pórteres sem Fronteiras e a Uni- versal Pictures International le- varam convidados ao cinema Publicis Drugstore, na Avenida Champ- s-Élysées, em Paris. Iam assistir ao lan- çamento de um filme que “ausculta as noções de verdade e investigação, colo- cando o jornalismo no centro da intri- ga”: The Post, de Steven Spielberg, pro- jetado nas salas francesas com o título de Pentagon Papers (no Brasil, o título é The Post: a guerra secreta). A intriga, inspirada em fatos reais, se desenrola nos Estados Unidos, em 1971. Daniel Ellsberg, analista de think tank do Pentágono, assume todos os riscos para fotocopiar um documento, rotulado como “confidencial”, que prova que John Kennedy e Lyndon Johnson tinham mentido ao Congres- so e ao público sobre a Guerra do Viet- nã, que eles sabiam ser impossível de vencer. O New York Times publica um resumo, mas uma decisão judicial o proíbe de continuar. Modesto cotidia- no regional, o Washington Post substi- tuirá seu prestigioso colega? Naquela segunda-feira à noite em Paris, os jornalistas apareceram em grande número para admirar a inter- pretação de Meryl Streep no papel de Katharine Graham, a dona do Post, e a de Tom Hanks, que faz o redator- -chefe. Sensível às batalhas feminis- tas atuais, o diretor concentrou seu relato em uma mulher, e não nos pro- tagonistas que, de fato, assumiram os maiores riscos e desempenharam os principais papéis: Ellsberg, o denun- ciante, processado por “espionagem” em virtude de uma lei de 1917 e passí- vel de prisão perpétua; e a equipe do New York Times, que começou tudo. Essa escolha cinematograficamente correta irritou o redator-chefe inter- nacional do Times, encarregado de supervisionar a publicação dos docu- mentos em junho de 1971. “É inteira- mente falso!”, fulminou ao ler o rotei- ro. “Esse filme é uma fraude.”1 Sim, mas também um sucesso: perto de 1 milhão de ingressos vendidos em três semanas de exibição na França. Na sala cheia do Publicis Drugsto- re, anunciou-se a presença de Françoi- se Nyssen, ministra da Cultura, e de Harlem Désir, representante da liber- dade dos meios de comunicação no seio da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Por uma questão de delicadeza, ninguém mencionou que em 2013, quando Dé- sir era primeiro-secretário do Partido Socialista, então no poder na França, Paris, como várias outras capitais eu- ropeias, havia recusado o asilo político pedido por Edward Snowden, respon- sável pelos vazamentos sobre a vigi- lância em massa exercida na internet pelos Estados Unidos. Como naquela noite se tratava de celebrar Katharine Graham, e não Daniel Ellsberg, a che- fona da imprensa, e não o rebelde, se- ria inútil estragar o prazer dos espec- tadores com ruminações morosas sobre o destino dos denunciantes atuais. Um deles, Julian Assange, fun- dador do WikiLeaks, está enclausura- do há mais de cinco anos na embaixa- da do Equador em Londres; o outro, Snowden, continua refugiado na Rús- sia... sem que Nyssen, a Europa ou o PartidoSocialista se preocupem mui- to com isso. Do outro lado do Atlântico, os de- mocratas também não brilham pela defesa de uma liberdade de expressão que, no entanto, julgam sagrada quan- do Donald Trump a desafia. “A atitude do atual governo incitou você a fazer esse filme”, disse a Steven Spielberg um jornalista da BBC. “Mas, se anali- sar os números, você verá que o gover- no de Barack Obama intentou mais processos em virtude da lei de espio- nagem do que qualquer outro. Ainda assim, em Hollywood ninguém se apressou a dizer ou fazer qualquer coi- sa” (17 dez. 2017). “A meu ver, são coi- sas diferentes”, balbuciou Spielberg, ardoroso defensor dos democratas. Já Ellsberg reconhece seus herdeiros: “Chelsea Manning2 e Edward Snow- den são meus heróis. Identifico-me mais com eles do que com quaisquer outras pessoas” (Democracy Now!, 6 dez. 2017). Mais do que com Katharine Graham, sem dúvida, cuja decisão de publicar os Pentagon Papers, malgra- do a proibição, em 18 de junho de 1971, encantou os profissionais da informa- ção reunidos para o lançamento pari- siense. Certa de seu heroísmo cotidia- no, a sala aplaudiu calorosamente e depois se dispersou para jantar. Pouco depois, a mídia saudou uma “obra-prima” com a qual “Spielberg ancora a democracia nas impressoras” (Le Monde, 24 jan. 2018); “um apelo 35MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil bem contemporâneo em favor de um contrapoder independente e forte, mais necessário que nunca em nossos dias” (Télérama, 23 jan. 2018); “uma magnífica lição de coragem e demo- cracia” (Le Journal du Dimanche, 21 jan. 2018)... Compreendemos a felicidade pro- porcionada por uma profissão pintada pelo menos uma vez com uma luz fa- vorável, mas essa recepção barulhenta repousa sobre um imenso mal-enten- dido. A heroína de Spielberg não é re- pórter, mas proprietária do Washing- ton Post, o qual herdou do marido. Na primavera de 1971, a vimos exprimir todo o seu amor pela independência editorial... colocando seu jornal na Bolsa de Valores. Íntima de Robert Mc- Namara, ministro da Defesa dos go- vernos Kennedy e Johnson, tinha ami- zade também com Henry Kissinger, consultor de Richard Nixon. O suspen- se todo do filme – e a sorte da liberdade de imprensa – repousa, pois, na deci- são econômica de uma dona de em- presa: irá ela censurar ou não a publi- cação de um artigo que põe em perigo o valor em Bolsa de sua sociedade e de seus amigos mundanos? Aqui, a magia do cinema e a miséria de uma profis- são convergem para erigir em ato de resistência épica aquilo que deveria constituir uma norma: a ausência de pressão econômica ou política nas de- cisões editoriais. A regra teve de virar exceção para que se fizesse, do respei- to a ela, um acontecimento histórico... No entanto, não foi dos industriais, dos publicitários ou da Bolsa que veio uma das reações mais entusiastas ao filme de Spielberg. No dia de seu lan- çamento (23 de janeiro de 2018), o site Mediapart consagrou-lhe toda a sua página inicial. “Em The Post”, escreveu seu diretor, Edwy Plenel, “a questão da independência é que está no âmago da história: saber resistir às pressões, ou- sar publicar o que os poderes gosta- riam de esconder, emancipar-se da tu- tela dos donos, defender o poder soberano da redação.” A superprodu- ção hollywoodiana comoveu Plenel por dois motivos. Primeiro, porque “quase não se encontra um grande fil- me francês que entronize o jornalismo como cavaleiro da democracia”, um escândalo tanto mais revoltante quan- to – acompanhem o raciocínio – “a curta história do Mediapart, que feste- jará seus dez anos em março próximo” e aguarda apenas um diretor intrépido para pôr em cena sua epopeia. Mais fundamentalmente, Plenel atribui a ausência, na França, de um “imaginário democrático” tal qual cultivado por Spielberg ao “iliberalis- mo francês, esse privilégio concedido ao poder, notadamente sob sua forma estatal, e não ao indivíduo e suas audá- cias solitárias”. Vigiado pelos serviços de François Mitterrand nos anos 1980, ele conhece bem os limites à liberdade de informar impostos pelo Estado. To- davia, sua queixa omite que ele mes- mo, em outras circunstâncias, mante- ve relações de maior cumplicidade com o poder. Desestabilizados pela pesquisa de Pierre Péan e Philippe Cohen, La Face cachée du monde [A face oculta do mundo] (Fayard), surgida em 2003, Plenel, então diretor de redação do Le Monde, e Jean-Marie Colombani, dire- tor de publicação, foram num dia de março à Praça Beauvau para discutir o 1 Citado por Thomas Vinciguerra, “Hell hath no fury like The New York Times scorned by Hollywood” [Nem no inferno há tanta fúria quanto no The New York Times humilhado por Hollywood], Columbia Journalism Review, 1º maio 2017. Disponível em: <www.cjr.org>. 2 Chelsea Manning (nascida Bradley Manning) é uma analista do Exército norte-americano condena- da em 2013 por passar ao WikiLeaks documentos militares sigilosos. Foi libertada em maio de 2017. 3 Norman Solomon, “The real story behind Katharine Graham and ‘The Post’” [A verdadeira história por trás de Katharine Graham e The Post], HuffPost, 20 dez. 2017. caso com o ministro do Interior na época, Nicolas Sarkozy. O encontro en- tre os pretensos pilares do contrapoder e o ministro da Polícia, cujo objetivo era contrabalançar as “audácias solitá- rias” de uma dupla de repórteres inde- pendentes, forneceria uma boa trama a um filme realista sobre a imprensa francesa. Um elemento do roteiro foi, de resto, confirmado pelo próprio Ple- nel em uma carta ao semanário Ma- rianne (18 mar. 2006): “Num dia de 2003, Jean-Marie Colombani me levou a um encontro que ele havia marcado com Nicolas Sarkozy. [...] Convencido de que os ataques ao Le Monde eram em parte inspirados pelo grupo de Jac- ques Chirac, Jean-Marie Colombani buscava junto a Sarkozy informações capazes de amparar essa hipótese”. Organizar o esquecimento e refor- matar a memória coletiva valorizando a conduta corajosa que esconde cem pequenas fraquezas e compromissos, tal é a operação de absolvição coletiva realizada por The Post. Quem dizia Washington Post pensava na investiga- ção sobre o escândalo Watergate (1972- 1974), levado à tela por Alan Pakula em 1976 no filme Todos os homens do pre- sidente; agora, nos lembraremos tam- bém de outro momento de coragem de Katharine Graham. E resmungaremos de impaciência quando um desman- cha-prazeres lembrar que, em 1987, uma investigação de Robert Parry so- bre o financiamento, pela CIA, da guerrilha de extrema direita na Nica- rágua foi amenizada para agradar à proprietária, que no fim de semana se- guinte recebeu em sua casa Henry Kis- singer;3 ou que o jornal apoiou com to- da a sua força o desencadeamento da Guerra do Iraque, em 2003; ou que ele preferia a Fidel Castro ditadores de di- reita como Augusto Pinochet, “afinal de contas menos nocivos que os diri- gentes comunistas, sobretudo porque seus regimes eram mais suscetíveis de abrir caminho a democracias liberais” (The Washington Post, 12 dez. 2006); ou que presenteou patrocinadores priva- dos, por US$ 25 mil o couvert, com o acesso a jantares que reuniam jorna- listas da casa e personalidades in- fluentes, antes de reconhecer um “va- cilo ético de proporções monumentais” (The Washington Post, 12 jul. 2009); ou que se vendeu em 2013 por US$ 250 milhões ao fundador da Amazon, Jef- frey Bezos; ou que proibiu seus jorna- listas, a partir de maio de 2017, de “pre- judicar clientes, anunciantes, assinantes, vendedores, fornecedores ou sócios” nas redes sociais (Washing- tonian, 27 jun. 2017); ou que conclama a uma intervenção norte-americana maior na Síria e a uma guerra no Irã (The Washington Post, 22 jan. 2018); ou que sua obsessão anti-Rússiao levou a publicar histórias falsas em série (The Intercept, 4 jan. 2017). Certo, mas isso não daria um bom filme. Recordando suas aventuras em uma longa entrevista à revista Rolling Stone, Daniel Ellsberg concluiu, há 35 anos: “Isso confirma o que sei dos pro- fissionais de mídia; muitos deles aspi- ram a fazer parte do poder, em vez de encarnar um quarto poder indepen- dente” (8 nov. 1973). Depois, como to- dos sabem, tudo mudou... *Pierre Rimbert é jornalista do Le Monde Diplomatique. CHICAGO 2017 MELHOR FILME SAN SEBASTIÁN 2017 MELHOR ROTEIRO ATÉ ONDE VOCÊ CHEGARIA PARA CONSEGUIR O QUE MAIS DESEJA? 8 DE MARÇO NOS CINEMAS Verifique a classificação indicativa do filme “Esse filme é uma fraude.” Sim, mas também um sucesso: perto de 1 milhão de ingressos vendidos em três semanas de exibição na França 36 Le Monde Diplomatique Brasil MARÇO 2018 GRANDES REPORTAGENS, FORMATOS INOVADORES A forma de apresentar grandes histórias tem se modificado nos últimos anos, especialmente no ambiente digital, incluindo aí a web. MULHERES NO JORNALISMO “Você vai falar com fulano? Coloca uma saia curta, um decote. Aproveita que você tem isso e usa a seu favor”, disse uma chefe mulher para uma jornalista. Um estudo produzido pela As- sociação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela agência de conteúdo Gênero e Número, com o apoio do Google News Lab, mostra que 86% das jornalistas entrevistadas já passaram por discriminação no trabalho por se- rem mulheres. Assédio, piadas machistas, salá- rios baixos e demissões são casos contados no estudo, em formato multimídia, recheado de da- dos e recomendações. Uma delas, bem simples e que praticamente metade das empresas ainda não tem: um canal de comunicação interno para que vítimas possam fazer a denúncia formal. <www.mulheresnojornalismo.org.br> DESMATAMENTO NA VENEZUELA Nos limites da Amazônia venezuelana, um me- gaprojeto de mineração de Nicolás Maduro se apresenta como a saída para a crise econômi- ca do país, depois que a queda dos preços do petróleo agravou a inflação e o desemprego. O “Arco Mineiro do Orinoco” pode destruir até 110 mil quilômetros quadrados de florestas, que são ocupados por diversos povos indígenas e estão sendo desmatados para dar espaço à minera- ção ilegal que abastece de ouro os cofres do Banco Central do país. No meio disso tudo, a maior epidemia de malária das últimas décadas e a invasão de ex-guerrilheiros das Farc e do ELN deixam centenas de vítimas. <https://arcominero.infoamazonia.org> HIPER-REALIDADE O designer e diretor de filmes Keiichi Matsuda produziu uma série de vídeos sobre uma distopia em que a realidade aumentada é tomada pela publicidade e torna a vida praticamente inviável nas cidades. O vídeo é um exercício de futurolo- gia, em que as realidades física e virtual conver- gem por meio da mídia – e do livre-mercado. Em 2017 ele foi convidado a apresentar seu filme em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Ficou tão perturbado com o discurso sobre ética que ouviu das corporações que abandonou o evento destruindo um televisor em que seu próprio tra- balho era exibido. <http://hyper-reality.co> [Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e dou- torando em Design na FAU-USP. livro filme internet MISCELÂNEA O livro mostra a existência de vida coletiva pulsante em diferentes sentidos, em espaços e circunstân- cias comumente associados ao vazio e/ou “ansiosos” por revitalização. De um lado, essa impressão se confir- ma pela qualidade da equipe de pesquisadores univer- sitários integrada e organizada, realizando um trabalho colaborativo muito articulado internamente. De outro, pelos textos, que evidenciam distintos mundos e modos de abordar a ideia de periferia, investigando diferentes temporalidades, distintas produções culturais (música, cinema, artes de maneira geral), espaços de sociabili- dade (casas de prostituição, bairros periféricos, disputas pelos centros urbanos, cidades interioranas e suas peri- ferias, o mundo digital) e a reconstrução memorialística, tanto pela fala de quem vivenciou esses mundos perifé- ricos na própria experiência quanto pela reconstrução metodológica da memória coletiva. As periferias, no livro, ultrapassam a dimensão da questão política (relações com “centro” e os poderes instituídos nele) e econômica (debate importante so- bre precariedade, pobreza, vulnerabilidade). Vão além do discurso da “ausência”, da “falta”, do sofrimento e do precário ou da condenação sobre os “pobres periféri- cos” em razão de sua pobreza e condição periférica, que pode redundar na igualmente pouco proveitosa conde- nação, em função disso, de suas visões de mundo e op- ções políticas. Chama atenção o esforço dos pesquisa- dores em tornar concreto esse movimento de rotação de perspectivas, de tentar complexificar a percepção periférica no centro da observação e da narrativa. Há dois aspectos ainda para mencionar: primeiro, a disputa pela ideia de cidade é um grande personagem do livro. Mirada por ângulos que se encontram nas fran- jas, ela é enfocada pelo princípio de que de suas perife- rias se entendem melhor suas centralidades. O segundo aspecto que se ressalta no livro é o apreço pela me- mória, individual e coletiva, como recurso analítico e de investigação da realidade, sempre como reconstrução da realidade social, condicionada por sujeitos inscritos em grupos e classes sociais, clivados por gênero, etnias, relações com o mundo do trabalho, posição no ambien- te familiar etc. Nos dias correntes, de tanto descrédito em termos de potência das ideias e prática de povo, coletivida- de, universidade, a publicação de um volume como esse é absolutamente encorajador e fresco, tanto no terreno das ideias como no do interesse pelas práti- cas do vasto mundo social, investigado no âmbito da universidade pública. [Mário Augusto Medeiros da Silva] Professor do Ins- tituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. VOZES À MARGEM: PERIFERIAS, ESTÉTICA E POLÍTICA Giordano Barbin Bertelli e Gabriel Feltran (orgs.), EdUFSCar NO INTENSO AGORA João Moreira Salles Embora de produção rarefeita, o cine-ma documentário de João Moreira Salles é de relevância inquestionável no cenário nacional. Destaca-se inicialmen- te pelos temas abordados: o crime orga- nizado no Rio de Janeiro em Notícias de uma guerra particular (1999); a ascen- são de Lula à Presidência da República, apreendida na passagem entre os dois turnos eleitorais em Entreatos (2004). Em seguida, pela reflexão formal, como em Santiago (2006), retomada autocrí- tica de um projeto documental abortado, no qual a autoridade do realizador sobre o objeto se entrecruza com o poder de classe do patrão sobre o mordomo. Seu novo filme, No intenso agora (2017), segue nessa linha que almeja lançar mão de uma reflexão política não ape- nas pela eleição do conteúdo, mas tam- bém pela problematização constante da forma. Procura filiar-se a uma tradição de cineastas que se serviram do docu- mentário como instrumento de análise das imagens, buscando perscrutar seus sentidos segundos, perceptíveis à re- velia das intenções que as produziram. Nessa linhagem, ganha proeminência a retomada de material de arquivo. O filme de João Moreira Salles tenta entrelaçar duas ordens de arquivos – históricos e pessoais. Sai em busca de imagens das convulsões sociais do ano de 1968, no- tadamente em Paris e Praga, ao mes- mo tempo que revisita antigos registros de família, com grande destaque para aqueles feitos pela mãe em viagem à China, em 1966. A empreitada é digna de nota, mas seu sucesso é incerto. A dificuldade de entrelaçar essas duas ordens de mate- riais,que não guardam de saída uma re- lação objetiva, fica patente na imposição de um discurso subjetivo oscilante, cujo modo de construção de relações resulta problemático. A força mestra do filme não é outra que não o trabalho de luto do autor sobre a perda da mãe. A busca pessoal acaba, porém, sobredetermi- nando a leitura do material histórico, em claro prejuízo para as insurreições de 1968. Resta, ao fim, um esvaziamento da potência política, a força da revolta se dobrando sob o peso do luto. [Gabriel Ferreira Zacarias] Professor do Departamento de História da Univer- sidade Estadual de Campinas. Confira em nosso site versão ampliada dessa resenha. 37MARÇO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil SUMÁRIO 2 3 4 10 12 14 16 18 20 23 26 28 30 31 32 34 36 DIRETORIA Diretor da edição brasileira e editor-chefe Silvio Caccia Bava Diretores Anna Luiza Salles Souto, Maria Elizabeth Grimberg e Rubens Naves Editor Luís Brasilino Editor-web Cristiano Navarro Editores de Arte Adriana Fernandes e Daniel Kondo Revisão Lara Milani e Maitê Ribeiro Gestão Administrativa e Financeira Arlete Martins Assinaturas Viviane Alves Tradutores desta edição Carolina M. de Paula, Frank de Oliveira, Lívia Chede Almendary, Rita Grillo e Wanda Brant Conselho Editorial Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S. Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki, Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles. Apoiadores da campanha de financiamento coletivo Henrique Botelho Frota, Pedro Luiz Gonçalves Fuschino, Rita Claudia Jacintho e Vinícius D. Cantarelli Fogliarini Assessoria Jurídica Rubens Naves, Santos Jr. Advogados Escritório Comercial Brasília Marketing 10:José Hevaldo Rabello Mendes Junior Tel.: 61. 3326-0110 / 3964-2110 – jh@marketing10.com.br Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação da associação Palavra Livre, em parceria com o Instituto Pólis. Rua Araújo, 124 2º andar – Vila Buarque São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil Tel.: 55 11 2174-2005 diplomatique@diplomatique.org.br www.diplomatique.org.br Assinaturas assinaturas@diplomatique.org.br Tel.: 55 11 2174-2015 Impressão Plural Indústria Gráfica Ltda. Av. 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LE MONDE diplomatique BRASIL Ano 11 – Número 128 – Março 2018 www.diplomatique.org.br ISSN: 1981-7525 Participe de Le Monde Diplomatique Brasil: envie suas críticas e sugestões para diplomatique@diplomatique.org.br As cartas são publicadas por ordem de recebimento e, se necessário, resumidas para a publicação. Os artigos assinados refletem o ponto de vista de seus autores. E não, necessariamente, a opinião da coordenação do periódico. Capa: © Vitor Flynn CANAL DIRETO Universidades públicas abandonadas Sou professor da Estadual da Bahia (Uneb) e reite- ro que as estaduais também têm sofrido muito! Thadeu Borges Souza Santos Adoramos a edição e nos parece que os atuais re- trocessos no financiamento educacional da nossa região se apresentam como um tema fundamental para abordar e discutir! Muito obrigado ao Le Monde Diplomatique Brasil por informar a esse respeito e impulsionar esse diálogo e reflexão! Campaña Latinoamericana por el Derecho a la Educación (Clade) O dramático panorama do financiamento do ensino Muito esclarecedor. Obrigado, José Marcelino. Fi- co preocupado com tantas exigências no sistema público, como adentrar as atividades de extensão universitária se a política pública no Brasil engessa o desenvolvimento educacional e a gestão de pes- quisa. 2018 pode ser a morte desse tripé? Jose Ricardo Miras Mermudes Sobre o caráter da burguesia brasileira O cosmopolitismo da nossa burguesia limita-se a Miami e Orlando. Ana Claudia Cruz Burguesia cosmopolita, não. É uma burguesia que se acredita cosmopolita, mas que na verdade é jeca até a medula. São vira-latas associados à burgue- sia, esta sim cosmopolita, dos países de capitalis- mo central. Mário Salerno Fevereiro Neste momento estou lendo a última edição de vo- cês e senti a necessidade de vir aqui e dizer que está simplesmente espetacular! Vocês são impecáveis. Juliana Roza E agora? O gigante não acordou, ainda dorme, mesmo não sendo em berço esplêndido! Antonio Teixeira de Araujo Precisamos falar da fé de Leonardo O acolhimento social dos evangélicos é muito impor- tante para aqueles que são excluídos socialmente. Regina Maria Libonati de Albuquerque NUNCA SE VAI DEPRESSA O BASTANTE A ofensiva geral Por Serge Halimi EDITORIAL De mal a pior Por Silvio Caccia Bava CAPA Poder Judiciário: a ponta de lança da luta de classes Por Luis Felipe Miguel A Justiça no centro da crise política Por Grazielle Albuquerque Quando os ilegalismos ultrapassam as fronteiras dos espaços populares Por Márcia Pereira Leite e Juliana Farias CONJUNTURA A contrarrevolução no Brasil Por Wolfgang Leo Maar ELEIÇÕES Jair Bolsonaro: o candidato da (in)segurança pública Por Leandro Gavião e Alexandre Valadares CONFUSÃO ENTRE PATOLÓGICO E EXISTENCIAL A medicalização da experiência humana Por Gérard Pommier UM BENEFÍCIO AO MESMO TEMPO COLETIVO E INDIVIDUAL Por que consumir orgânicos? Por Claire Lecoeuvre NA ÁFRICA DO SUL, HERDEIRO DE MANDELA TEM SUA REVANCHE Congresso Nacional Africano, nas origens de um partido-Estado Por Sabine Cessou PODER EGÍPCIO ESTÁ MAIS REPRESSOR DO QUE NUNCA Praça Tahrir, sete anos depois Por Pierre Daum INTERVENÇÃO NA SÍRIA, PRESSÃO NO LÍBANO, GUERRA NO IÊMEN O impasse saudita no Oriente Médio Por Gilbert Achcar EXÉRCITO, UMA INSTITUIÇÃO SINGULAR Cuba, o país do verde-oliva Por Renaud Lambert AMÉRICA LATINA Em busca da Pachamama Por Maëlle Mariette QUANDO NEM TODAS AS VÍTIMAS DE ATENTADO TÊM O MESMO VALOR Longe dos olhos, longe do coração Por Téo Cazenaves REINÍCIO DA GUERRA FRIA Quando a TV quer sangrar a Rússia Por Serge Halimi BASTAM IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO? O que as “batalhas culturais” não são Por Razmig Keucheyan THE POST, UM FILME DE STEVEN SPIELBERG A escolha dos heróis Por Pierre Rimbert MISCELÂNEA SEU APOIO FOI FUNDAMENTAL PARA MANTER UMA IMPRENSA LIVRE, INDEPENDENTE E CRÍTICA. LE MONDE diplomatique BRASIL ARONY MARTINS, GRAZIELLE, LUIS CARLOS DA SILVA, DANIELA ARCANJO RODRIGUES, RAFAEL DE OLIVEIRA PAIVA, RENATO LIMA, RICARDO DEL GUERCIO BUENO, LUCAS DUARTE, FILIPE DE FIGUEIREDO OLIVEIRA, RODRIGO MACHADO MAIA, RICARDO DEL GUERCIO BUENO, PAMELA CARLA PEREIRA DE ASSIS, EDUARDO ARMOND CORTES DE ARAUJO, PEDRO FRANCISCO CAMPOS NETO, VICTORIA FRANCO, JORGE LIMA LOPES LÔBO, ANA CAROLINA DUTRA, ADOLFO CIFUENTES, FERNANDO BRITO RUFINO, NILVA LÚCIA LOMBARDI SALES, SEBASTIÃO PEREIRA DE FARIA JR., PALOMA ASSIS DA MATTA MACHADO, GABRIEL MARTINEZ GISBERT, RODRIGO CAMPANELLA, CALISTRATO LOPES DE MUROS, HUGOANSELMO, LUIZA DINIZ LARAIA, BRUNO PAVAN ALMEIDA, BRUNO CARDOSO SILVA, ANA PAULA PIERINI, LUCAS MEDEIROS, NATALIA SALAN MARPICA, DIEGO BORIN REEBERG, LUIZ EDUARDO DE CARVALHO SILVA, EDUARDO KLEIN FICHTNER, VICO MELO, GABRIEL GUERRA CÂMARA, LUCIANO GUEDES LE, AGEU ANTUNES FILHO, FLÁVIO NASCIMENTO, SURYARA BERNARDI, EDUARDO OLIVEIRA, CLAYTON RODRIGO DA FONSÊCA MARINHO, VIRGILIO CARLO DE MENEZES VASCONCELOS, FERNANDA SALVADOR ALVES, NIVALDO LÚCIOP SPEZIALI, MARIA CAROLINA ACCIOLY, ALEXANDRE APARECIDO DE SOUZA OLIVEIRA, LOURENÇO PIUMA SOARES, PAULA RETTL, PEDRO TELLES, WAGNER GUIMARÃES DA SILVA, MATHEUS MAGALHÃES DA SILVA, RAFA AGENA, RODRIGO OLIVEIRA, FRANCISCO BELMIRO WERNECK MAGALHÃES, MANOEL CARLOS GUIMARÃES MORAES, VITORIO MASAAKI URASHIMA, TIAGO FELIPE VIEGAS CARNEIEO, NATASHA MINCOFF MENEGON, JOAO CARLOS DE CAMPOS LEME, LUIZ CEZAR DOS SANTOS MIRANDA, GUILHERME ROSA DE ALMEIDA, DIEGO FREITAS FURTADO, ANDRÉ DA COSTA, MAURÍCIO LACERDA MACCARINI, INSTITUTO PÓLIS, JESSICA SIVIERO VICENTE, BRUNO ABNNER LOURENZATTO SILVEIRA, CAROLINA MASSUIA DE PAULA, ASW E.V., DAISY, KYOKO TAMASHIRO, FERNANDA PINTO MIRANDA, ROSANA MIGUEL, PEDRO CARDOSO, MATEUS SILVA, JOSÉ CARLOS BIZINOTTO DE MIRANDA, BÁRBARA NOVAQ, FERNANDO CESAR ROSA DE ARAUJO, GENECI COUTO DA SILVA FILHO, RAFAEL SALDANHA, DAYSON ROBERTO WALDSCHMIDT, FLAVIA AUGUSTA DE CATRO E CASTRO, ANTONIO MANSUR NETO, IVÃ GURGEL, MÔNICA FAGUNDES DANTAS, PEDRO MELONI DE OLIVEIRA, MATHEUS CHRISTIANO MARTINS, THIAGO MAIA, CAROLINE MARTINS DOS SANTOS, DANI KLINTOWITZ, LIGIA APARECIDA FORTUNA MARRACH, VÉRONIQUE MARIE BRAUN DAHELT, TOBIAS TÖPFER, ELVIS DA SILVA ALMEIDA, FRANCISCO DONIZETTI VENTURA, FRANCISCO JOSÉ SANTAELLA GALVÃO, TADEU ANTUNES CATINI, FLORENCE POZNANSKI, ANDRÉ PASTORE SOLNIK, MÁRCIA HELENA CARVALHO LOPES, ISADORA GARCIA, PEDRO BENJAMIM CARVALHO E SILVA GARCIA, ROSSANA TAVARES, MARCELO SOARES DE CARVALHO, LIGIA SCARPA BENSADON, FATIMA PORTILHO, ANA MARIA TRAVASSOS TELLES, FELIPE PRAGMACIO TRAVASSOS TELLES, HAROLDO DE GODOY BUENO, ADRIANO GUEDES, MARINA CALÇAVARA, MARIA CASSIA JACITNHO MENDES OBRIGADO A TODAS E TODOS QUE APOIARAM. CORREA, DAVID RAMOS DA SILVA, CAROLINA MANABE PASETTI, FELIPPE TRAVAGLIA MAGNAGO, FERNANDA CUNHA PINHEIRO DA SILVA, MARCELO ARTUR RAUBER, JEFERSON BOLDRINI DA SILVA, DANTE PAGNONCELLI, MAURICIO GUIMARÃES BERGERMAN, ARTHUR MARTINS ALVES, ESTELA HIRATA, ROBERTA TRASPADINI, MARIA DE FÁTIMA NEVES DA SILVA, FELIPE SCHORN, FELIPE CAMARA GONÇALVES BRANDES DE AZEVEDO, BRUNO MATTOS, FERNANDO OBERDIEK, WALDELI PATRICIA MELLEIRO, PALOMA NERY CORONEL, ITAMAR TATUHY SARDINHA PINTO, JOÃO LIGUORI SERRÃO, GERMANO WEIRICH, STEFANIE MAZZA RIBEIRO, GUILHERME SCHAU- RICH DA SILVA, ALVARO BANDUCCI JUNIOR, JOSÉ HELINTON, MARWAN GLOCK MALTACA, BRUNA STEPHANIE MIRANDA DOS SANTOS, DIONISIO SCHMIDT, HUMBERTO PEREIRA FIGUEIRA, LUIZ CARLOS JAFELICE, MARIA AUXILIADORA ALVES DA SILVA, ADRIANO SAMPAIO, SERGIO KLAR VELAZQUEZ, PATRICK ANJOS, ELINES SANTOS, RAPHAEL DA SILVA SANTOS, GEOVANA ZOCCAL GOMES, THAÍS GAUDENCIO, PATRÍCIA ARAÚJO BELLONI NOGUEI- RA, EDUARDO A. JUNQUEIRA REIS, MARIA ARINDELITA NEVES DE ARRUDA, MARCELUS DIAS PERES, JOÃO B. M. PEREIRA, NAZARENO STANIS- LAU AFFONSO, JOICE BARBARESCO, DIOGO LUÍS CAMPANHÃ, RAUL DALANEZE, WALFRIDO NUNES, LIZANDRA SERAFIM, CARLOS RODRIGO COSTA, LUCAS PRETTI, PAULO EDUARDO BERNI, JULIO CESAR MENDONÇA, JOSÉ JULIANO D E CARVALHO-FIHO, ELIANA OLIVEIRA TEIXEIRA, TERCIO ZENATTI DE BARROS, REMI GOTARDO CASAGRANDE, SÉRGIO OKI, IVANA DEL GUERCIO BUENO, ANTONIO TEIXEIRA DE ARAUJO, RICARDO DEL GUERCIO BUENO, ALACIR FERREIRA COSTA, GIOVANNI PELÁGIO, PAULA MONTAGNER, MARGARETH MATIKO UEMURA, CLAUDIA REJANE DE LIMA, NELSON DE LUCA PRETTO, LETICIA DE FARIA FERREIRA, LUCIANA ARDENGHI FUSINATTO, THAYSE ZAMBON BARBOSA ARAGÃO, ANDRÉ LUCAS SALVADOR, CLAUDIO VALDIVINO E SILVA, ELIANA MARIA DE ALMEIDA MONTEIRO DA SILVA, BRENO DE SOUZA JUZ, GABRIELA VIEIRA CAPOBIANGO, CARLOS ANTONIO MORALES, MARITA BEATRIZ KONZEN, ISADORA FLORES, BERNADETE DE LOURDES SILVA, OSMAR BARBALHO FERREIRA, LUIZ SÉRGIO PIRES GUIMARÃES, ALAN PIRES FERREIRA, MARTA COSTA, CARLOS LOPES, CÁSSIA DAIANE MACEDO DA SILVEIRA, FLÁVIO JOACHIM WYRWA GUILHERME, EDUARDO AGUIAR SORICE, EVELINA DAGNINO, FRANCISCO ALVES SOARES, BRUNO BRANCO, ANUAR CORRÊA DE MELLO, MICHELLY, ALONSO COELHO LUZ, CAMILA FERREIRA GUIMARÃES, ANA MONIQUE MOURA, PHILLIP CAPALBO SVERCL, DELFINO VIEIRA COELHO, LIANE DE SOUZA WEBER, ALINE TITON, THALITA FONSECA ALVES, MARIA BEATRIZ MONTEIRO, DANIELLA HICHE, LILIAN FERREIRA DE SOUSA, SANDRO BRUNO DA CONCEIÇÃO, LAURICIO DINIZ VAZ, EMMERSON KRAN, THIAGO CONSIGLIO CRUZ, MARINA COIMBRA, EDIPO FERREIRA RIBEIRO, KIANE VALAU JAHN BRUNO DA SILVA BORGES, ERICO FADEL, ADRIAN MENGAY, ELIO ALENCAR, MARCELO MAIA, MARINA CAIAFFA BARDI, THALITA TOMAZI, JONNATHAN DA SILVA OLIVEIRA, FREDERICO MA, NILSANA ROCHA MICHILES, IVO PAULEK JUNIOR, TOMÁS NEVES, TAINARA CAROZZI DE CARVALHO, AMADEU DE CARVALHO JÚNIOR, AYRTON LUNGUINHO, DANIEL CÉSAR MAIOCHI, DANIELA SALOMÉ DE ANDRADE , GABRIEL MAGALHÃES BELTRÃO, CAROLI- NA GUERRA, GREICE KLEM, ANTONIO JOAQUIM SCHELLENBERGER FERNANDES, TACIANA NETTO RIBEIRO, MÁRIO MARTINS, NADJA MARA BARBOSA, ANDERSON LUIZ DE MOURA FREIRE, AMANDA NACHARD, GUIDYON AUGUSTO, VINICIUS MARQUES PIMENTA, GRACIELLA WATANABE, DANIEL CALAZANS PIERRI, FERNANDA ZAMBONINI, ANA, ANTONIO CARLOS FILGUEIRA GALVÃO, JORGE MÁXIMO DE SOUZA, DAPHNE RATTNER - REHUNA - REDE PELA HUMANIZAÇÃO DO PARTO E NASCIMENTO, ISABEL ALBUQUERQUE DE ALMEIDA LINS, TARSE CABELLO, DEIVIDY WILIAN PINTO CORREA, MATHEUS FIORI, DIMITRI SANTANA MARIN- HO, THOMAS BELTRAME, KARLA NAYRA, TALES JOSÉ DA SILVA, RICARDO SOUSA DINIZ, MATEUS AUGUSTO COSTA NOGUEIRA, MAITÊ ALEGRE GONZALEZ, LEONARDO HALSZUK LUIZ DE MOURA, ADRIANA RICCI, ALBERTO IACOMUCCI, BEATRIZ DE PAULA MACHADONADIR NADIR, WILLY ROCHA JÚLIO, ADRIANA RIBEIRO DE MACEDO, ISAK GONZAGA, GUSTAVO FONSECA MORITA, RAFAEL TADASHI MIYASHIRO, FELIP BARBOSA, DANIELA BLANCO, CARLOS EDUARDO NICOLETTE, EMILIANA RIBEIRO, IREMA RIBEIRO DO NASCIMENTO , MIRIAM GOES SHIBATA, ELAINE APARECIDA, VITOR MASSATO YAMAMOTO, MARCELO DE OLIVEIRA SOUZA, MARCOS LINS, PAULA MARTIN SENTIS, SIDNEIA MIATO, LUCIA MARIA FELIPE ALVES, ADRIANE SHIBATA SANTOS, GIOVANNI ORSO, MONALIZA DE SOUZA FERREIRA, LUCIUS DE OLIVEIRA, LEONARDO GONÇALVES DA COSTA, RENATO MAURO VIEIRA SOUZA, RODRIGO FEYTH DE NEGREIROS, CIDNEY DE OLIVEIRA INACIO, FELIPE GUSTAVO MATEOS SILVA, VITOR GOMES DA SILVA, DIOGO FERRAZ, DANIEL IZIDORO CAETANO, AUGUSTO GOMES, VINICIUS REIS GALDINO XAVIER, RAFAEL DE VASCONCELLOS, FRANCISCO BICUDO, ADRIANO JOSÉ MELLO COSTA, LUIZ MAURICIO BENTIM DA ROCHA MENEZES, VERA LUCIA BAZZO, JULIANA BERGMANN, EDUARDO KLEIN FICHTNER, EDUARDO ARMOND CORTES DE ARAUJO, RODRIGO RABELO CARNEIRO DA, ANDRÉ LUIZ DE CARVALHO, WHANER ENDO, RAFAEL PRADO DE OLIVEIRA, ANTONIO DE LA PENA GARCIA, DENIZIO DANTAS DE ALMEIDA, GIOVANI HOBOLD, MARCELO RAMOS DUARTE , DENIS COSTA, SÉRGIO MIGUEL DO N. BUARQUE, JORGE LUIZ LORDÊLO DE SALES RIBEIRO, TEOFILO JOAQUIM DA SILVA JR, VINÍCIUS D. CANTARELLI FOGLIARINI, CLEMENTE GANZ LUCIO, JOSE PEREIRA LOPES LEAL, ANDREA FREITAS DE VASCONCELOS, BRUNO OGATA, ANA MARIA D. DE OLIVEIRA, JANAINA PARDI MOREIRA, LINCOLN SECCO, HUMBER- TO PEREIRA FIGUEIRA, PAULO SERGIO ROCHA NONATO, MARIA LUIZA COSTA NERY, ROLF RAINER, JULIANNA BRANDÃO, VALMIR DE SOUZA, WELLINGTON TISCHER, CÉLIA MARIA CASTEX ALY, JORGE LUIZ GOUVEIA AMARAL, DIEGO MENDONÇA, RAPHAEL CALDEIRA, EVERSON PEREIRA, LUISA IZUNO DINIZ, MARIA CAROLINA ACCIOLY, THALES AMORIM, INTERVOZES, IMOVISION, TOMAS RIGOLETTO PERNIAS, AMANDA SZARGIKI, RAFAEL FONSECA, PAULA MONTAGNER, JOSÉ CARLOS DE SOUZA, NEIRIMAR K CORADINI, GONÇALO MARQUES, WAGNER BASTOS FERREIRA, JACQUE OLIVEIRA, CARMEM HOFSTETTER, MARIA INÊS SUGAI, SELVA RIBAS BEJARANO, DANIEL SENOS, ANDRÉ RICARDO SOUZA, ANNY RODRIGUES FIGUEIREDO, LEA PINHEIRO PAIXAO, DIOGO MATHIAS BRUM, MARCELO ILIESCU, DÁLETE FERNANDES,MAICON DOURADO BRAVO, RENATO SERGIO JAMIL MALUF, MARIANY OLIVEIRA, LUIZ ARMANDO CAPRA FILHO, LUIZ BATISTA G S PEREIRA, MARIA LUCIA BARBOSA, LEO PINHEIRO, BRENO AYRES CHAVES RODRIGUES, RAUL ALBINO PACHECO FILHO, JOÃO LEAL MEDEIROS HAKME, PABLO BORGES, DORIVAL DA COSTA DOS SANTOS, VIVIANE RIBEIRO, MÜLLER MAIA, JULIO CESAR CALDAS ALVIM DE OLIVEIRA, LUIS AUGUSTO GONÇALVES GOMES DA SILVA, MATHEUS MENDES, ROBERTA MOURAO, INÁCIO PEREIRA, FELIPE CARUSO, MARCOS FRANCISCO SILVEIRA DE SOUSA, PAULA SANTORO, PATRÍCIA MARQUES, ANDRÉ PEREIRA DE CARVALHOGABRIEL RATTO DOMICIANO, PAULO AUGUSTO ANDRÉ BALTHAZAR, BRUNA LOPES ÁVILA, PRISCILA FREIRE, FERNANDO PEREIRA BRETAS, EDUARDO ARCOVERDE DE MATTOS, VERA TELLES, GUSTAVO COUTINHO BACELLAR, PAULO SÉRGIO DE ANDRADE CONCEIÇÃO, ANA PAULA BORTOLETTO MARTINS, LUCIANA VALE, PHILIPP ANDRAE, BRUNO DANIEL SEQUEIRA DE ALMEIDA E CASTRO, OSWALDO MALATESTA, MARCEL FANTIN, JUHEINA LACER- DA, RIBEIRO VIANA, AMANDA CUNHA, MÔNICA SODRÉ, AMANDA CARDOZO, MATHEUS PINTO SOUZA, JOSIMAR GOMES SANTOS, REGIANE LIMA, HECLAIR RODRIGUES PIMENTEL FILHO, BONFILM PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO AUDIOVISUAL LTDA., ADRIANO BORGES COSTA, MAICCO FERREIRA, FRANK OLIVEIRA, JOSÉ DE CASSIA LOPES, FRANCISCO CARDOZO OLIVEIRA, MAURI CRUZ, RUBENS CAVALCANTI FREIRE DA SILVA, RICARDO ROLIM XAVIER, RUBENS KON, YURI LIMA, RITA CLAUDIA JACINTHO, LEOVI CARISIO, MANOEL CARLOS GUIMARÃES MORAES, BRUNO LAZARINI DA SILVA, JORGE PANTOJA, TAMARA ZÁZERA REZENDE, NATHAN GARCIA, MÔNICA PAULO DE SOUZA, LEO BALTHAR, SANDRO ÂNGELO DE A. O. E V. VILA NOVA, LEONARDO CRUZ, PEDRO PORTELA, IVANA DEL GUERCIO BUENO, EDSON WILLIAN FERREIRA ALVES, RAFAEL HIME FUNARI, PEDRO LUIZ GONÇALVES FUSCHINO, RAFAEL PELEGRINI, PAULA KAPP AMORIM, SORAYA FERNANDES MARTINS, ANITA SIMIS, JULIANA FEITOSA, LUCAS CONDÉ, HENRIQUE BOTELHO FROTA, MARIANA RODRIGUES, PAULO FERNANDO SCHWARZ, MARIAMA MORENA, DANIEL VINÍCIUS COLETTI, LUIZ CARLOS CICALA, HENRIQUE DE OLIVERIA REZENDE, PAULA CAMARGO, BRUNO CHAVES COSTA, MÁRIO PIZZI, BRUNO TENAN, MARCO AURÉLIO BANIONIS, BERNARD LOURENÇO COSTA, LUCIANA MACHADO DA COSTA, JOÃO BENTES COROA, MARIANE STER CORGOZINHO MEDEIROS, GUILHERME BOTELHO DINIZ JUNQUEIRA, JEFERSON SILVA BARBOSA, BRUNO GRISOTTO VELLO, CELSO VICENZI, DIVINO ALVES CAETANO NETO, ALAN RAMOS COMEÇANHA, BRUNO MARANGONI MARTINELLI, MARTHA PABLOS, TAIS RAMOS, LEANDRO GAVIÃO, LUCIENE LESZCZYNSKI NUNES, AUDISIO DE ALENCAR JUNIOR, AÉCIO ALVES DE OLIVEIRA, RUBENS NAVES SANTOS JÚNIOR ADVOGADOS, EDEGAR F OLIVEIRA, ANDRÉ PASTI, VICTOR FLUSSER.