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O pensamento do corpo – da Grécia Antiga à Idade Média DISCIPLINA: CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA PROF. TATYANE PERNA Na Grécia Antiga... Não existia a dicotomia entre corpo e mente (alma) O ser era único e indivisível PLATÃO – dá início a oposição entre corpo e alma Fundamentou-se em uma divisão de mundo CORPO Porção de matéria Habita o mundo real Corrupto Pecaminoso Prevalecem as aparências Mortal Desprovido de inteligência ALMA Habita o mundo ideal Quase divindade Onde reside a verdade Perfeita Imortal Capacidade de pensar MUNDO MUNDO REAL IDEAL (Sensível) (Inteligível) A alma comandava todas as ações do corpo – ela era o princípio do movimento O homem era composto por três tipos de almas: Alma racional Ligada a racionalidade Responsável pelos pensamentos Localizada na cabeça Alma irascível Responsável pelas emoções e paixões Localizada no peito Alma concupiscente Ligada aos bens materiais e luxúria Responsável pelos desejos Localizada abaixo do abdome Três tipos de temperamento/caráter Caráter concupiscível Alma concupiscente é predominante Decisões tomadas com base nos desejos Trabalhos manuais, como artesãos Caráter irascível Alma irascível é predominante Decisões tomadas com base nas emoções Guerreiros e guardiões Caráter racional Alma racional predominante Decisões tomadas com o uso da razão Filósofos, governantes e magistrados Nesta ótica, o corpo causa guerras, é corrupto; A inteligência (alma) é a única esfera onde se deve investir para ter conhecimento total do mundo em que se vive; Esta visão, principalmente sobre o aspecto da imortalidade da alma, tem uma forte relação do homem com o divino; Esse dualismo foi desenvolvido tendo a concepção de que corpo e alma possuem realidades diferentes, porém estão relacionadas; ARISTÓTELES Sustenta um pensamento diferente do platonismo; Coloca a alma como uma forma de vida interior, mas que está totalmente ligada ao corpo; Teoria do Hilemorfismo (hilé – matéria)(morphé – forma) Considera que a matéria (alma) não poderia ser separado da forma (corpo), pois um fazia parte do outro. Corpo e alma são dois aspectos distintos, porém inseparáveis, de uma mesma realidade. Na Idade Média (V – XV)... O corpo acaba sofrendo um processo de descorporalização, em que se tem uma evolução contínua da racionalização - ideia muito semelhante à de Platão; O corpo era um instrumento de trabalho, sustento e comunicação com a sociedade; Essa descorporalização se dá principalmente por questões religiosas impostas na Idade Média, uma vez que a Igreja Católica tinha grande influência no sistema social, comercial e político; SANTO AGOSTINHO Um dos responsáveis pela concepção de corpo na Igreja, definido como um cárcere da alma; Essas ideias vão de encontro ao pensamento platônico e acabaram sendo um dos fundamentos da Igreja; Aplicando esse dualismo em tudo: Bem e mal Graça e pecado Corpo e matéria Deus e homem Luz divina e trevas eternas A alma deveria governar e manter vigilância constante sobre o corpo e seus sentidos para que estes não impedissem que se conhecesse a verdade divina. O corpo – do Renascimento a uma nova concepção com o capitalismo A partir do Renascimento, foi favorecida a racionalidade, apoiada em uma série de avanços científicos e técnicos; No campo do pensamento do local ou lugar que o corpo e a alma ocupam, o filósofo francês René Descartes (1596-1650) tem na base de seu pensamento a importância do método como ponto principal para a construção do saber; Método: instrumento que ajuda a controlar cada um dos passos dados e a deduzir algo desconhecido de algo conhecido. Descartes estabelece a subjetividade entre o que ele chama de coisa-pensamento – o sujeito –, em oposição radical ao corpo – objeto, separando assim o sujeito do objeto, o espírito da matéria, estabelecendo a oposição entre o homem e a natureza e todo o pensamento posterior sobre corpo e corporeidade com uma concepção separatista e redutora; O ser humano é composto por duas substâncias: o corpo é a substância, ou a coisa extensa, e a alma é a substância pensante, ou a coisa pensante; Assim, Descartes (2009) confere ao corpo e à alma uma autonomia completa e independente; apesar de a alma estar inserida no corpo, o pensamento (alma) e a extensão (corpo) não estão ligados. É o pensamento que controla a extensão, ou seja, o corpo não é capaz de se movimentar, sentir e pensar, mas é movido por algo que lhe é tocado, no caso, o que move o corpo é a alma; Logo, o corpo é movido, porém não por si, trazendo a ideia de corpo-máquina, que é manipulado e dominado tendo em vista um modelo mecanicista; A filosofia cartesiana proposta por Descartes toma como verdade a alma em detrimento do corpo, por causa da busca do conhecimento verdadeiro, e a única forma de obter e produzir esse conhecimento é pela razão, que é uma faculdade da alma, enquanto o corpo, por meio dos sentidos e das sensações, como sede, é capaz de enganar o ser humano. O pensamento científico acelerou o surgimento de diversas áreas da ciência, de como o trabalho era executado, principalmente em virtude da Revolução Industrial na Inglaterra, onde ocorreu a mecanização do trabalho e da mão de obra, sendo o corpo reduzido a um mero instrumento da alma. Porém deveria ser exercitado para cumprir as ordens da alma; A crescente ideia do capitalismo mudou como o corpo é visto e encarado, pois ele perde a ideia de proibição que era proposta pela Igreja, na Idade Média. O corpo passa a ser um objeto de estudo em diversas áreas, principalmente pela medicina, nos estudos da anatomia, chegando-se ao ponto de submeter pessoas, ainda vivas, a estudos anatômicos para tentar compreender como o comportamento do corpo junto à alma acontecia, uma vez que a vida estava ligada à presença de uma alma. Em oposição a como o corpo era tratado e encarado, e principalmente contrário aos pensamentos cartesianos propostos por Descartes, o filósofo alemão Nietzsche descarta a ideia de que o corpo é mera extensão controlável da alma; Nietzsche trata o corpo vivo como uma perspectiva ambiente, ou seja, o corpo em um contexto social no qual é inserido; O filósofo investiga os estados de saúde e doença, bem como a vida afetiva e fisiológica que dominam as experiências de um homem vivo; Nietzsche inverte as concepções anteriores segundo as quais alma se sobrepõe ao corpo e o substitui; Nietzsche reconhece que é necessário interpretar o que o corpo faz, decifrando a linguagem que ele transmite, pois é por meio do corpo que se conhece a alma, e não o inverso; As ideias de um corpo único promovem uma nova visão sobre o entendimento do corpo e de suas relações internas e externas. Na mesma concepção de um corpo interagir com o meio em que vive, Karl Marx observa que o trabalho é a ideia central para se entender o homem e sua corporeidade, pois no trabalho o homem exerce movimentos que pertencem à sua corporalidade – braços e pernas, entre outras partes – com o objetivo de alterar e utilizar a matéria natural para sua utilidade. Porém, com a concepção capitalista – produção em massa e linhas de produção –, o processo de criação e produção por esse corpo foi alienado, sendo somente um mero reprodutor de movimentos produtivos, tratando o trabalhador como uma mercadoria; No livro ManifestoComunista (MARX; ENGELS, 1998, p. 15), os autores condenam com veemência a exploração do corpo do trabalhador, de sua força de trabalho, em que as características corporais do ser humano, como idade e sexo, não possuem valor ou significado; O corpo do trabalhador não é somente alienado, mas é um corpo deformado pela mecanização e pelas condições precárias de realização de movimentos. Enquanto o trabalho com máquinas agride o sistema nervoso ao máximo, ele reprime o jogo polivalente dos músculos e confisca toda a livre atividade corpórea e espiritual. TEMPOS modernos. Direção: Charles Chaplin. Estados Unidos: 1936. 89 minutos.