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7ºAula Dualismo corpo e alma Objetivos de aprendizagem Ao término desta aula, vocês serão capazes de: • compreender a dualidade corpo e mente; • verificar os constantes problemas que envolve o tema. Prezados(as) alunos(as), O dualismo é uma visão filosófica que afirma que a realidade é constituída por duas partes que não podem ser reduzidas uma à outra. O ponto crucial do dualismo demonstra-se da seguinte maneira: caso compreenda-se ser necessária a justificação do universo como algo compreensível, essas duas partes devem ser reconciliadas. (SCHMAELTER, 2021). O dualismo é um dos elementos fundamentais da metafísica. Na presente aula, o objetivo é tratar do dualismo corpo e mente, de modo especial, focado em Platão e Descartes. Bons estudos! 40Problemas Metafísicos: Ontologia Seções de estudo 1- Dualismo platônico 2- Dualismo mente-corpo de Descartes dualismo mente- corpo 1- Dualismo platônico A partir das considerações de Heráclito podemos compreender como o tema da alma, presente no cenário do pensamento antigo, é desafi ador para os gregos. Dos tempos homéricos até o cenário da metafísica grega, permanece a alma como um ponto central para a compreensão da estrutura da realidade e do conhecimento que se pretende formular a partir dela. São diversos conceitos e noções que se formulam acerca da natureza da alma e da sua relação com o corpo no cenário da Grécia Antiga. (BARROS, 2020). Em Platão, tal discussão ganha um tom ainda mais acentuado. Sendo o precursor da metafísica, desta ciência especulativa surgida na Grécia e que delineará os rumos do pensamento ocidental, na sua Teoria das Ideias e na sua Teoria da Participação (methéxis) é ele quem tratará da difícil questão da alma, ainda que de modo complexo e sem soluções assertivas. A relação corpo (sôma) - alma (psyché), nos séculos posteriores a Platão, é por vezes mal interpretada. (BARROS, 2020). Tanto os platônicos e neoplatônicos quanto os fi lósofos medievos e posteriores nos trazem sempre uma interpretação de um Platão tipicamente idealista. A leitura do Fédon, diálogo da maturidade platônica, quando feita por leitores despreocupados ou que por algumas “pinceladas” buscam retratar o pensamento platônico sem recorrer a outras obras do citado fi lósofo, acaba por inserir características extremamente errôneas a tal fi losofi a quando enfatiza a dicotomia entre tais dimensões humanas. O caráter da alma é de mediação entre o sensível e o inteligível. Pela análise de outros diálogos do fi lósofo ateniense é possível perceber sua clara preocupação com a educação político-fi losófi ca, pela qual os cidadãos devem ser formados. O uso das analogias, dos mitos e das crenças dominantes tem então uma pretensão didático-pedagógica, desta maneira estamos distantes de um Platão tipicamente preocupado com o dualismo corpo-alma e estritamente voltado ao conhecimento teórico. Abandonamos então, uma visão extremamente dualista para um possível “realismo platônico”. (BARROS, 2020). Fonte: http://library.com.br/home/?p=437. Acesso em: 17 dex. 2020. 1.1 A parcimônia necessária à leitura do Fédon e a fundamentação do idealismo O diálogo Fédon, que compõe os diálogos da maturidade de Platão, cujo tema é a alma (psyché), nos apresenta questões a serem discutidas de extrema relevância dentro da fi losofi a platônica. Ao longo dos séculos, tal obra vem sendo considerada a grande expoente que fundamenta o idealismo platônico. Não é por acaso que o tema da alma é antigo dentro do pensamento grego e somente na sua maturidade Platão irá lidar com difícil abordagem. Assim afi rma Gazolla no prefácio de seu livro, que aborda a questão da alma para Platão: Acreditamos que um dos princípios que nos nortearam foi a busca do fi lósofo Platão, sem o colorido mais forte que lhe impôs grande parte da tradição interpretativa, e que por vezes o aprisionou como o pensador da dicotomia sensível-inteligível, coerente nas suas colocações do princípio ao fi m de sua obra, inaugurador de um 3 método claro para o prosseguimento de seus passos, como se fosse um bom cartesiano, em meio à fl oresta a ser revelada. (GAZOLLA, 1993). No que diz respeito às considerações da alma e da fi losofi a platônica como um todo, muito se tem distanciado das obras do referido autor e muitas vezes o que se atribui a Platão, não contém rigor especifi cado em suas obras. Diante da análise dos diálogos percebem-se novas oportunidades de interpretação, entretanto, é preciso reportar- se ao contexto do fi lósofo ateniense e aos períodos nos quais seu pensamento se desenvolve. No diálogo Fédon Sócrates está a discutir com seus discípulos acerca da imortalidade da alma e da sua prisão ao corpo, que é o “lugar do sensível” (tópos aistetis), enquanto que a alma se mostra como o “lugar do inteligível” (tópos urânus). O contexto apresentado são os momentos fi nais da vida de Sócrates, condenado a beber cicuta. Na prisão, Sócrates se propõe a investigar a morte, não como causa temerosa ou fi m último, mas como o simples apartar-se da alma do corpo para contemplação do Bem supremo. Adentrando ao diálogo percebemos claramente: E agora, dize-me: quando se trata de adquirir verdadeiramente a sabedoria, é ou não o corpo um entrave se na investigação lhe pedimos auxílio? Quero dizer com isso, mais ou menos, o seguinte: acaso alguma verdade é transmitida aos homens por intermédio da vista ou do ouvido, ou quem sabe se, pelo menos em relação a estas coisas não se passem como os poetas não se cansam de no-lo repetir incessantemente, e que nem vemos nem ouvimos com clareza? “[...] Quando é, pois, que a alma atinge a verdade? Temos dum lado que, quando ela deseja investigar com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo, é claro, a engana radicalmente” (PLATÃO, 1972). Pela interpretação do Fédon o dualismo corpo-alma é instaurado. Na leitura radical desse diálogo, parece ser 41 fundamental no pensamento platônico tal dicotomia. A separação entre corpo e alma parece ser a mais verossímil neste momento. A visão negativa do corpo é realçada quando apressadamente se leva o principiante estudioso da obra em questão. Quando a alma se dispõe a buscar a verdade, dirige-se ela ao lógos, ou seja, volta-se para si mesma. Platão, no mesmo diálogo, faz uma diferenciação ao ressaltar “um filósofo, se realmente é filósofo” (PLATÃO, 1972), vai distanciar-se do que é próprio do corpo, ou seja, todo tipo de conhecimento sensível, dirigindo-se na busca pela verdadeira sabedoria. É o que designa por philomatheis (filósofos autênticos). Estes não pensam conforme os gnêsíos philosóphous (filósofos primeiros) na separação física, natural, entre corpo e alma, presos ainda à concepção míticoreligiosa. (GAZOLLA, 1998). Os que amam o saber, e isto Platão demonstra com toda sutileza que lhe é própria, pensam nesta separação de modo “análogo” ao processo natural, nisto consiste a ascese proveniente da dialética filosófica. Segundo ele: É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que sua alma, quando foi tomada sob os cuidados da filosofia, se encontrava completamente acorrentada, a um corpo e como que colada a ele; que o corpo constituía para a alma uma espécie de prisão, através da qual ela devia forçosamente encarar as realidades, ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através de si mesma; que, enfim, ela estava submersa numa ignorância absoluta [...] Assim digo, o que os amigos do saber não ignoram é que, uma vez tomadas sob seus cuidados as almas cujas condições são estas, a filosofia entra com doçura a explicar-lhes as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito por intermédio dos olhos [...] (PLATÃO, 1972). Cabe ao filósofo, pois, educar a sua alma, dirigi-la ao encontro do inteligível, e distanciar-se do sensível. Não cabe confiar nos sentidos, e nisto a alma filosófica se distingue daqueles que creemestar a verdade contida nas aparências. O filósofo, aquele que ama o saber, já não confia nos conhecimentos que partem do sensorial, daí então, confia somente no inteligível e no invisível, aquele que alma consegue alcançar (PLATÃO, 1972). É assim que Sócrates termina sua bela exposição acerca da alma propriamente filosófica. Nas refutações a Cebes e a Símias, Platão pretende alcançar os filósofos presos à physis que acreditam estar a alma ligada somente a esta, ou seja, motor vivente que cessa sua atividade com o perecimento do corpo. Os princípios defendidos pelos primeiros filósofos, ou físicos, é derrotada também por Platão. É o que se convencionou chamar “Segunda Navegação”. (PLATÃO, 1972). A alma está direcionada agora ao lógos e todo discurso construído mediante uma defesa da naturalidade da cisão corpo-alma terá de ser desfeito. Afinal, a alma filosófica, não teme o apartar provocado pela degeneração do corpo orgânico – exemplo vivo é o próprio Sócrates –, mas preocupa-se com o aproximar-se a sua própria essência, que é o inteligível (PLATÃO, 1972). A oposição ao mito feita pelo logos também é realizada. Ou seja, num primeiro momento do diálogo, os mitos precedentes da tradição órfico-dionisíaca foram postos em questão pelo logos. O filósofo ateniense utiliza-se de explicações imagéticas ou mesmo mitológicas, como é comum em todas as suas obras por meio do seu método dialógico. A sua aproximação com o pitagorismo, e o orfismo dominante parece conduzir o seu pensamento na defesa de tais seitas, e afastá-lo de seu caráter filosófico. Tal interpretação é causada justamente, pela filosofia neoplatonista que perdura. Platão é visto como cartesiano, espírita, ou até cristão. As alegorias que, conforme Brandão, significam “[...] etimologicamente dizer outra coisa [...] que são [...] uma espécie de máscara aplicada pelo autor à ideia que se propõe explicar [...]” (SCHELLING, 1991), são utilizadas por Platão e estas também são coerentes com a religiosidade da época, no que tange aos aspectos da imortalidade da alma. Por meio delas é mais fácil explicar tão difícil abordagem que se mostra e isto é um traço típico do método dialético. Ao inserir Cebes e Símias, personagens do diálogo, na difícil questão do “cárcere” que é o corpo para alma, o uso dos mitos e da imaginação lhe é propício ao se tratar de um tema tão abstrato. (GAZOLLA, 1998). Ainda sobre o Fédon, diz Gazolla: “[...] a linha reflexiva é tortuosa, fato que por certo propiciou a visão de um Platão radicalmente dualista, que distanciou “geograficamente”, corpo e a alma, o sensível e o inteligível, e que afirmou a existência de um mundo além deste, onde as almas vêem as verdades eternas [...]”. (GAZOLLA, 1998). As interpretações do Fédon que chegam até nós podem parecer perigosas. A própria caracterização da filosofia que está intimamente ligada à pólis grega é um fator que põe em dúvida tal dicotomia fundamentada somente em termos metafísicos. Na Grécia Antiga, onde educação, metafísica e política se confluem, a caracterização de um Platão totalmente elevado às excelsas alturas, destinado às elites, dualista e defensor de um conhecimento totalmente teórico gera estranheza. A noção de alma (psyché) é antiga no pensamento Grego. Desde Homero a busca de uma definição do que seja a alma ainda é desafiador. Convém então, saber distinguir o que a tradição interpretativa diz e o que Platão realmente pretende dizer com seus escritos acerca da alma. A alma pode ser também ligada às ideias, à inteligência (nous), mas, antes de tudo, para o Grego antigo ela é princípio de vida, de movimento, está também direcionada à physis e, também, ao corpo (sôma). Pelo orfismo e o dionisismo a alma é apartada do corpo para a purificação (kátharsis), de semelhante exemplo vemos Platão utilizar-se em seu diálogo quando trata da alma. O Hades, relatado no mito da destinação das almas, é outro exemplo que denota tal paradigma utilizado por Sócrates ao tratar-se de sua filosofia, destinada ao conhecimento da Verdade (alethéia), do Bem supremo. Enfim, as noções de alma, pertinentes ao século IV a. C. são todas elas utilizadas, para que por meio de algo tão próximo de seus interlocutores Sócrates atinja seus objetivos. Há no Fédon um duro debate entre as concepções até então dominantes na Grécia Antiga do século IV. Primeiramente, uma “analogia” próxima ao pensamento mítico ainda apegado à imortalidade da alma, à purificação das mesmas, da alma com um “fantasma” sem o corpo vagante pelo Hades, na busca de reencarnações sucessivas. E uma consequente refutação do pensamento de caráter físico, preso 42Problemas Metafísicos: Ontologia a um devir das coisas, que não permite nenhum conhecimento verdadeiro, que perdure. O que há é uma defesa do “lógos” e não de uma dissolução corpórea. Como diz Gazolla, Platão não é um cientista, nem está à procura do que seja a essência da alma, mas está preocupado com o discurso mais verdadeiro possível da realidade, de modo que os logóis não se percam, na alma fi losófi ca, nem se misturem ao conhecimento aparente, à ilusão, ao sensível. (ROBINSON, 1998). A complexidade da alma humana está nessa dicotomia que a faz expressar-se de modo mortal e imortal; e se dissemos, até aqui, que a alma é princípio do movimento, causa da vida, da ordenação de todas as coisas quando defi nida na sua universalidade, na sua particularidade humana ela é causa dos movimentos específi cos que o homem vem a conhecer em si mesmo, e fora de si, é causa da vida expressa nas sensações, nos sentimentos, vontade e refl exão. (GAZOLLA, 1993). Por fi m, podemos inferir que a dicotomia corpo-alma pode ser vista de outra maneira. Mesmo percorrendo a difícil questão da defi nição da alma nos diálogos platônicos, Platão está sempre a relacionar o tema da alma em relação ao corpo com o conhecimento, e esta se mostra como uma interpretação mais que adequada, ou seja, é uma pretensão “epistemológica” a separação entre corpo e alma. Parece oportuno ressaltar a história da alma de Tirésias, que vive a perambular no Hades, como um fantasma, que ganha novamente o sopro vital, quando sua psyché inebria-se do sangue de Ulisses. É assim que o adivinho resgata os seus poderes, unido o sangue (matéria corpórea) e a alma (psyché). 2- Dualismo mente-corpo de Descartes dualismo mente-corpo Fonte: http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2017/05/o-acerto-de- descartes.html. Acesso em 17 dez. 2020. O fi lósofo do século XVII René Descartes é o defensor mais conhecido do dualismo de mente-corpo. Segundo Descartes, seres humanos são compostos de dois tipos diferentes de substâncias que estão de alguma forma ligadas entre si. Por um lado, temos corpos e fazemos parte do mundo físico. Segundo o fi lósofo, o corpo é uma máquina feita de carne e osso. Suas articulações e tendões agem como pivôs, polias e cordas. Seu coração é uma bomba e seus pulmões são foles. Porque o corpo é uma coisa física, está sujeito às leis da física e está localizado no espaço e no tempo. Assim como os humanos, os animais também são máquinas, e seu comportamento é puramente um produto das leis mecânicas. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). Os seres humanos, no entanto, são os únicos que, além de corpos, também possuem mentes. De acordo com Descartes, a mente (que é idêntica à alma) é o seu eu “real”. Se você perder um braço ou uma perna, seu mecanismo corporal estará comprometido, mas você ainda é uma pessoa tão completa quanto antes. Porém, se perder sua mente, não será mais você, deixará de existir. Essa concepção de Descartes pode ser chamada de dualismo mente-corpo ou dualismo psicofísico. Como Descartes criou uma versão clássica dessa posição, também é comumente referida, em sua honra, como dualismo cartesiano. Descartes se opunha, assim, a uma teoria fi losófi ca sobre a mente conhecida como fi sicalismo, de acordo com essa concepção, a mente é física comoo corpo. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). 2.1 Por que Descartes defendia o dualismo mente-corpo? Descartes oferece vários argumentos para nos convencer de que a mente e o corpo são duas substâncias distintas. O que ele faz é examinar aquilo que chamamos de mente e de corpo. Através disso, mostra que ambos possuem características diferentes e, portanto, são tipos diferentes de realidades. Para resumir a história toda, podemos chamar os argumentos de Descartes de: argumento da dúvida, da divisibilidade e da consciência. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). 2.2 O argumento da dúvida Um dos argumentos centrais de Descartes em favor do dualismo mente-corpo é baseado no que pode e não pode ser posto em dúvida. Num livro chamado Meditações Metafísicas, Descartes chega à conclusão de que pode duvidar de tudo – inclusive de que possui um corpo e que o mundo exterior existe – exceto da própria existência como ser pensante. A famosa frase “penso, logo existo” expressa essa conclusão. O argumento de Descartes poderia ser expresso assim: Posso duvidar que meu corpo existe. Não posso duvidar que minha mente existe. Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas não podem ser idênticas. Portanto, a mente e o corpo não são idênticos (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). As premissas 1 e 2 identifi cam duas propriedades diferentes do corpo e da mente que Descartes descobriu quando empregou seu método de dúvida. Ele descobriu que podia ter absoluta certeza de sua mente, mas por causa da possibilidade de ilusão (sonhos e alucinações), ele poderia estar enganado e, portanto, incerto, sobre a existência de seu corpo. Descartes ofereceu esse argumento como uma prova lógica de que a mente e o corpo não poderiam ser a mesma coisa. Este argumento tem problemas, no entanto. A 43 propriedade de estar sujeito a dúvida não é o mesmo tipo de propriedade que ter 1,80 metros de altura ou ser careca. O fato de eu poder duvidar de algo é tanto uma propriedade psicológica minha quanto é o objeto da minha dúvida. Para ver as dificuldades com esse argumento, considere o seguinte argumento que tem essencialmente a mesma forma: Estou em dúvida se o café está quente. Não tenho dúvidas que o café é escuro. Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas não podem ser idênticas. Portanto, o café que não tenho certeza se está quente não é idêntico ao café que é escuro. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). Assim, é possível que Descartes tenha mais certeza sobre sua mente do que sobre seu corpo, simplesmente porque ele não entende a natureza de cada um completamente o suficiente para ver que eles são idênticos. 2.3 - O argumento da divisibilidade O argumento a seguir faz uso da mesma forma argumentativa de antes, mas evita a dificuldade de lidar com nossas atitudes psicológicas. O corpo é divisível. A mente é indivisível. Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas não podem ser idênticas. Portanto, a mente e o corpo não são idênticos. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). Neste argumento a favor do dualismo mente-corpo, a primeira premissa de Descartes é baseada na noção de que todos os objetos materiais possuem extensão e qualquer coisa extensa é divisível. Assim, porque o corpo é um objeto material, pode sempre ser dividido em dois e dividido e dividido novamente (como numa autópsia). Parece fácil conceder a Descartes a verdade da primeira premissa, mas e a segunda premissa? Certamente, se assumirmos que a mente é uma substância espiritual, então, como uma coisa espiritual não tem extensão, ela não pode ser dividida (ou pelo menos dividida da mesma forma que um corpo é). Mas a noção de que a mente é uma entidade espiritual é o que Descartes está tentando provar, então simplesmente assumir esse ponto parece suscitar a questão. Sem fazer essa suposição, podemos simplesmente olhar para nossa experiência mental e descobrir que, qualquer que seja a natureza da mente, não é o tipo de coisa que tem partes ou pode ser dividida? Ou a segunda premissa de Descartes é questionável? É possível que a mente tenha divisões ou partes distinguíveis em algum sentido? Alguns argumentariam, ao contrário de Descartes, que nossa vida mental parece dividida. Por exemplo, podemos sentir amor e raiva ao mesmo tempo em relação a alguém. Ou frequentemente achamos que nossos princípios morais nos puxam em uma direção e nossos sentimentos em outra. Os anais da psiquiatria estão cheios de casos de múltiplas personalidades, ou casos em que alguém conhece algum fato desconfortável em uma parte da psique, enquanto outra parte da mente da pessoa trabalha horas extras para negá-la. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). Um tipo de cirurgia cerebral, conhecida como comissurotomia cerebral, é comumente usada para tratar a epilepsia. O cirurgião corta o feixe de nervos (o corpo caloso) que liga os dois hemisférios do cérebro. Pacientes com esses cérebros divididos experimentam uma fragmentação dentro de sua experiência. A parte do cérebro que processa dados visuais não pode se comunicar com a parte que processa as coisas linguisticamente. Essas considerações parecem indicar que, seja o que for que compõe a mente, é algo que tem componentes. Essa conclusão, pelo menos, torna plausível a sugestão de que diferentes partes de nosso cérebro produzem diferentes facetas de nossa vida mental e, portanto, coloca em dúvida a nítida distinção que Descartes está tentando estabelecer aqui entre a mente e o corpo. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). 2.4 O argumento da consciência Ainda outro argumento pode ser encontrado nos escritos de Descartes, que é baseado no fato de que sua mente é uma coisa pensante enquanto seu corpo não é. Pensar para Descartes não significa simplesmente raciocínio. Descartes usa a palavra “pensamento” para se referir a toda a gama de estados conscientes como conhecer, duvidar, desejar, querer, imaginar, sentir e assim por diante. Portanto, seu ponto é que a mente é diferente de qualquer coisa no mundo natural, porque ela é consciente. Em contraste, Descartes diz que “quando eu examino a natureza do corpo, não encontro absolutamente nada nele que tenha sabor de pensamento.” O esboço do argumento da consciência segue os contornos dos argumentos anteriores, exceto que Descartes inclui a premissa de que “os objetos materiais não podem ter a propriedade da consciência”. Porque o corpo é um objeto material, não pode ser consciente, mas sabemos de nossa experiência imediata de que nossa mente é consciente. A partir dessas premissas, Descartes chega novamente à sua conclusão dualista. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). 2.5 Crítica ao dualismo mente- corpo O dualismo de mente-corpo de Descartes, por vezes, tem sido chamado o compromisso cartesiano. Descartes foi um defensor entusiasta da nova ciência mecanicista. Ele também era um católico sincero. Uma de suas preocupações, portanto, era conciliar as visões científica e religiosa do mundo. Ao dividir a realidade em territórios completamente separados, ele foi capaz de atingir esse objetivo. Uma parte da realidade é composta de substâncias físicas que podem ser estudadas pela ciência e explicadas por princípios mecanicistas. Essa parte do universo é um mecanismo gigantesco, um relógio. Todos os eventos neste domínio são determinados pelas leis que os físicos descobrem. Assim, fazemos observações, formulamos leis físicas e fazemos previsões precisas sobre eventos físicos. Na medida em que somos corpos, a ciência pode explicar nossos movimentos físicos. A outra parte da realidade consiste em substâncias mentais ou espirituais. Nossas mentes são livres para pensar e desejar como desejamos, porque as substâncias mentais não são governadas pelas leis mecânicas. Desta forma, as pessoas (ao contrário de seus corpos) têm genuíno livre-arbítrio. Se você pular em uma piscina, por exemplo, a queda do seu corpo é regida pelas leis da natureza. Sua decisão de dar esse salto, noentanto, é livremente escolhida e não pode ser 44Problemas Metafísicos: Ontologia explicada pela física. No domínio físico, a ciência é a autoridade dominante e nos dá a verdade. Nós não consultamos a Igreja ou a Bíblia para ver quão rápido o coração bombeia o sangue; a ciência nos informa sobre tais fatos. Mas de acordo com o compromisso cartesiano, a ciência não pode nos falar sobre o destino eterno de nossas almas, pode nos dizer apenas sobre nossos corpos. Por isso, no campo espiritual, diz Descartes, a religião ainda mantém sua autoridade e verdade. Descartes tinha um problema remanescente. Embora a mente e o corpo estejam separados, ele estava convencido de que eles interagem. Assim, a versão específi ca do dualismo de Descartes é chamada de interacionismo. Parece fácil entender como as entidades mentais interagem (uma ideia leva ao pensamento de outra ideia), e parece fácil entender como as entidades físicas interagem (uma bola de bilhar colide com outra, colocando-a em movimento). O problema é, no entanto, como uma substância espiritual (a mente) pode interagir causalmente com uma substância física (o corpo)? Descartes estava bem ciente desse problema; no entanto, suas tentativas de responder a essa pergunta foram a parte menos satisfatória de sua fi losofi a. Em seus dias, os cientistas estavam cientes da existência da glândula pineal, mas não sabiam o que a glândula fazia. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019). Então, Descartes tinha um órgão (a glândula pineal) cuja função era desconhecida. Ele tinha uma função (interação corpo-mente) cuja localização era desconhecida. Ele concluiu que poderia resolver ambos os problemas com uma hipótese: a glândula pineal é onde a mente e o corpo interagem. Descartes achava que a glândula pineal era afetada por “espíritos vitais” e, por meio desse intermediário, a alma podia alterar os movimentos do cérebro, que então afetavam o corpo e vice-versa. Obviamente, explicar a interação mente-corpo referindo- se a glândula pineal não resolve o problema, porque essa glândula é apenas outro objeto material que faz parte do corpo. Se os “espíritos vitais” que medeiam a interação causal são algum tipo de força física como o magnetismo, então ainda não sabemos como o físico pode afetar o mental e vice- versa. O mesmo problema existe se “espíritos vitais” são de natureza mental. Nesta sétima aula observamos a relação metafísica sobre o dualismo corpo e mente, iniciando com a visão platônica e em um segundo momento vimos Descartes, que para ele, corpo é formado de matéria física e, por isso, tem propriedades comuns a qualquer matéria, como tamanho, peso e capacidade motora. Assim, as leis que regem a física, também regem o corpo humano. Retomando a aula 1 – Dualismo platônico O caráter da alma é de mediação entre o sensível e o inteligível. Ou seja, o pensamento sobre corpo e alma em Platão está inteiramente ligada com a sua teoria das ideias. 2- Dualismo mente-corpo de Descartes dualismo mente-corpo Os seres humanos, no entanto, são os únicos que, além de corpos, também possuem mentes. De acordo com Descartes, a mente (que é idêntica à alma) é o seu eu “real”. Disponível em: https://www.infoescola.com/ psicologia/descartes-e-a-natureza-do-corpo-e-da-mente. Vale a pena acessar Ghost - Do Outro Lado da Vida, 1990. Vale a pena assistir Descartes, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Descartes, René. Meditações metafísicas. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2016. Vale a pena ler Vale a pena Minhas anotações