Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

7ºAula
Dualismo corpo e alma
Objetivos de aprendizagem
Ao término desta aula, vocês serão capazes de:
• compreender a dualidade corpo e mente;
• verificar os constantes problemas que envolve o tema.
Prezados(as) alunos(as),
O dualismo é uma visão filosófica que afirma que a realidade 
é constituída por duas partes que não podem ser reduzidas uma 
à outra. O ponto crucial do dualismo demonstra-se da seguinte 
maneira: caso compreenda-se ser necessária a justificação do 
universo como algo compreensível, essas duas partes devem 
ser reconciliadas. (SCHMAELTER, 2021). O dualismo é um 
dos elementos fundamentais da metafísica. Na presente aula, o 
objetivo é tratar do dualismo corpo e mente, de modo especial, 
focado em Platão e Descartes.
Bons estudos!
40Problemas Metafísicos: Ontologia
Seções de estudo
1- Dualismo platônico
2- Dualismo mente-corpo de Descartes dualismo mente-
corpo
1- Dualismo platônico
A partir das considerações de Heráclito podemos 
compreender como o tema da alma, presente no cenário do 
pensamento antigo, é desafi ador para os gregos. Dos tempos 
homéricos até o cenário da metafísica grega, permanece a 
alma como um ponto central para a compreensão da estrutura 
da realidade e do conhecimento que se pretende formular a 
partir dela. São diversos conceitos e noções que se formulam 
acerca da natureza da alma e da sua relação com o corpo no 
cenário da Grécia Antiga. (BARROS, 2020).
 Em Platão, tal discussão ganha um tom ainda mais 
acentuado. Sendo o precursor da metafísica, desta ciência 
especulativa surgida na Grécia e que delineará os rumos 
do pensamento ocidental, na sua Teoria das Ideias e na sua 
Teoria da Participação (methéxis) é ele quem tratará da difícil 
questão da alma, ainda que de modo complexo e sem soluções 
assertivas. 
A relação corpo (sôma) - alma (psyché), nos séculos 
posteriores a Platão, é por vezes mal interpretada. (BARROS, 
2020). Tanto os platônicos e neoplatônicos quanto os fi lósofos 
medievos e posteriores nos trazem sempre uma interpretação 
de um Platão tipicamente idealista. 
A leitura do Fédon, diálogo da maturidade platônica, 
quando feita por leitores despreocupados ou que por algumas 
“pinceladas” buscam retratar o pensamento platônico sem 
recorrer a outras obras do citado fi lósofo, acaba por inserir 
características extremamente errôneas a tal fi losofi a quando 
enfatiza a dicotomia entre tais dimensões humanas. 
O caráter da alma é de mediação entre o sensível e o 
inteligível. Pela análise de outros diálogos do fi lósofo ateniense 
é possível perceber sua clara preocupação com a educação 
político-fi losófi ca, pela qual os cidadãos devem ser formados. 
O uso das analogias, dos mitos e das crenças dominantes 
tem então uma pretensão didático-pedagógica, desta maneira 
estamos distantes de um Platão tipicamente preocupado 
com o dualismo corpo-alma e estritamente voltado ao 
conhecimento teórico. Abandonamos então, uma visão 
extremamente dualista para um possível “realismo platônico”. 
(BARROS, 2020).
Fonte: http://library.com.br/home/?p=437. Acesso em: 17 dex. 2020.
1.1 A parcimônia necessária à 
leitura do Fédon e a fundamentação 
do idealismo 
O diálogo Fédon, que compõe os diálogos da maturidade 
de Platão, cujo tema é a alma (psyché), nos apresenta questões 
a serem discutidas de extrema relevância dentro da fi losofi a 
platônica. Ao longo dos séculos, tal obra vem sendo 
considerada a grande expoente que fundamenta o idealismo 
platônico. 
Não é por acaso que o tema da alma é antigo dentro do 
pensamento grego e somente na sua maturidade Platão irá 
lidar com difícil abordagem. Assim afi rma Gazolla no prefácio 
de seu livro, que aborda a questão da alma para Platão: 
Acreditamos que um dos princípios que nos 
nortearam foi a busca do fi lósofo Platão, 
sem o colorido mais forte que lhe impôs 
grande parte da tradição interpretativa, e que 
por vezes o aprisionou como o pensador da 
dicotomia sensível-inteligível, coerente nas 
suas colocações do princípio ao fi m de sua 
obra, inaugurador de um 3 método claro para 
o prosseguimento de seus passos, como se 
fosse um bom cartesiano, em meio à fl oresta a 
ser revelada. (GAZOLLA, 1993). 
No que diz respeito às considerações da alma e da 
fi losofi a platônica como um todo, muito se tem distanciado 
das obras do referido autor e muitas vezes o que se atribui a 
Platão, não contém rigor especifi cado em suas obras. 
Diante da análise dos diálogos percebem-se novas 
oportunidades de interpretação, entretanto, é preciso reportar-
se ao contexto do fi lósofo ateniense e aos períodos nos quais 
seu pensamento se desenvolve. No diálogo Fédon Sócrates 
está a discutir com seus discípulos acerca da imortalidade da 
alma e da sua prisão ao corpo, que é o “lugar do sensível” 
(tópos aistetis), enquanto que a alma se mostra como o “lugar 
do inteligível” (tópos urânus). 
O contexto apresentado são os momentos fi nais da vida 
de Sócrates, condenado a beber cicuta. Na prisão, Sócrates se 
propõe a investigar a morte, não como causa temerosa ou fi m 
último, mas como o simples apartar-se da alma do corpo para 
contemplação do Bem supremo. 
Adentrando ao diálogo percebemos claramente: E 
agora, dize-me: quando se trata de adquirir verdadeiramente 
a sabedoria, é ou não o corpo um entrave se na investigação 
lhe pedimos auxílio? 
Quero dizer com isso, mais ou menos, o seguinte: acaso 
alguma verdade é transmitida aos homens por intermédio da 
vista ou do ouvido, ou quem sabe se, pelo menos em relação 
a estas coisas não se passem como os poetas não se cansam 
de no-lo repetir incessantemente, e que nem vemos nem 
ouvimos com clareza? “[...] Quando é, pois, que a alma atinge 
a verdade? Temos dum lado que, quando ela deseja investigar 
com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo, é 
claro, a engana radicalmente” (PLATÃO, 1972). 
Pela interpretação do Fédon o dualismo corpo-alma 
é instaurado. Na leitura radical desse diálogo, parece ser 
41
fundamental no pensamento platônico tal dicotomia. A 
separação entre corpo e alma parece ser a mais verossímil 
neste momento.
 A visão negativa do corpo é realçada quando 
apressadamente se leva o principiante estudioso da obra em 
questão. Quando a alma se dispõe a buscar a verdade, dirige-se 
ela ao lógos, ou seja, volta-se para si mesma. Platão, no mesmo 
diálogo, faz uma diferenciação ao ressaltar “um filósofo, se 
realmente é filósofo” (PLATÃO, 1972), vai distanciar-se do 
que é próprio do corpo, ou seja, todo tipo de conhecimento 
sensível, dirigindo-se na busca pela verdadeira sabedoria.
 É o que designa por philomatheis (filósofos autênticos). 
Estes não pensam conforme os gnêsíos philosóphous (filósofos 
primeiros) na separação física, natural, entre corpo e alma, 
presos ainda à concepção míticoreligiosa. (GAZOLLA, 1998).
 Os que amam o saber, e isto Platão demonstra com 
toda sutileza que lhe é própria, pensam nesta separação de 
modo “análogo” ao processo natural, nisto consiste a ascese 
proveniente da dialética filosófica. Segundo ele: É uma coisa 
bem conhecida dos amigos do saber, que sua alma, quando 
foi tomada sob os cuidados da filosofia, se encontrava 
completamente acorrentada, a um corpo e como que colada a 
ele; que o corpo constituía para a alma uma espécie de prisão, 
através da qual ela devia forçosamente encarar as realidades, 
ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através de si 
mesma; que, enfim, ela estava submersa numa ignorância 
absoluta [...]
Assim digo, o que os amigos do saber não ignoram é que, 
uma vez tomadas sob seus cuidados as almas cujas condições 
são estas, a filosofia entra com doçura a explicar-lhes as suas 
razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas 
ilusões está inçado o estudo que é feito por intermédio dos 
olhos [...] (PLATÃO, 1972).
 Cabe ao filósofo, pois, educar a sua alma, dirigi-la ao 
encontro do inteligível, e distanciar-se do sensível. Não cabe 
confiar nos sentidos, e nisto a alma filosófica se distingue 
daqueles que creemestar a verdade contida nas aparências. 
O filósofo, aquele que ama o saber, já não confia nos 
conhecimentos que partem do sensorial, daí então, confia 
somente no inteligível e no invisível, aquele que alma consegue 
alcançar (PLATÃO, 1972).
É assim que Sócrates termina sua bela exposição acerca 
da alma propriamente filosófica. Nas refutações a Cebes e a 
Símias, Platão pretende alcançar os filósofos presos à physis que 
acreditam estar a alma ligada somente a esta, ou seja, motor 
vivente que cessa sua atividade com o perecimento do corpo. 
Os princípios defendidos pelos primeiros filósofos, ou físicos, 
é derrotada também por Platão. É o que se convencionou 
chamar “Segunda Navegação”. (PLATÃO, 1972). 
A alma está direcionada agora ao lógos e todo discurso 
construído mediante uma defesa da naturalidade da cisão 
corpo-alma terá de ser desfeito. Afinal, a alma filosófica, não 
teme o apartar provocado pela degeneração do corpo orgânico 
– exemplo vivo é o próprio Sócrates –, mas preocupa-se com 
o aproximar-se a sua própria essência, que é o inteligível 
(PLATÃO, 1972). 
A oposição ao mito feita pelo logos também é realizada. 
Ou seja, num primeiro momento do diálogo, os mitos 
precedentes da tradição órfico-dionisíaca foram postos 
em questão pelo logos. O filósofo ateniense utiliza-se de 
explicações imagéticas ou mesmo mitológicas, como é comum 
em todas as suas obras por meio do seu método dialógico. 
A sua aproximação com o pitagorismo, e o orfismo 
dominante parece conduzir o seu pensamento na defesa de tais 
seitas, e afastá-lo de seu caráter filosófico. Tal interpretação é 
causada justamente, pela filosofia neoplatonista que perdura. 
Platão é visto como cartesiano, espírita, ou até cristão. 
As alegorias que, conforme Brandão, significam “[...] 
etimologicamente dizer outra coisa [...] que são [...] uma 
espécie de máscara aplicada pelo autor à ideia que se propõe 
explicar [...]” (SCHELLING, 1991), são utilizadas por Platão 
e estas também são coerentes com a religiosidade da época, 
no que tange aos aspectos da imortalidade da alma.
 Por meio delas é mais fácil explicar tão difícil abordagem 
que se mostra e isto é um traço típico do método dialético. 
Ao inserir Cebes e Símias, personagens do diálogo, na difícil 
questão do “cárcere” que é o corpo para alma, o uso dos 
mitos e da imaginação lhe é propício ao se tratar de um tema 
tão abstrato. (GAZOLLA, 1998).
 Ainda sobre o Fédon, diz Gazolla: “[...] a linha reflexiva 
é tortuosa, fato que por certo propiciou a visão de um Platão 
radicalmente dualista, que distanciou “geograficamente”, 
corpo e a alma, o sensível e o inteligível, e que afirmou a 
existência de um mundo além deste, onde as almas vêem as 
verdades eternas [...]”. (GAZOLLA, 1998).
 As interpretações do Fédon que chegam até nós podem 
parecer perigosas. A própria caracterização da filosofia que 
está intimamente ligada à pólis grega é um fator que põe 
em dúvida tal dicotomia fundamentada somente em termos 
metafísicos. Na Grécia Antiga, onde educação, metafísica e 
política se confluem, a caracterização de um Platão totalmente 
elevado às excelsas alturas, destinado às elites, dualista e 
defensor de um conhecimento totalmente teórico gera 
estranheza. A noção de alma (psyché) é antiga no pensamento 
Grego. 
Desde Homero a busca de uma definição do que seja 
a alma ainda é desafiador. Convém então, saber distinguir 
o que a tradição interpretativa diz e o que Platão realmente 
pretende dizer com seus escritos acerca da alma. A alma 
pode ser também ligada às ideias, à inteligência (nous), mas, 
antes de tudo, para o Grego antigo ela é princípio de vida, de 
movimento, está também direcionada à physis e, também, ao 
corpo (sôma). Pelo orfismo e o dionisismo a alma é apartada 
do corpo para a purificação (kátharsis), de semelhante exemplo 
vemos Platão utilizar-se em seu diálogo quando trata da alma. 
O Hades, relatado no mito da destinação das almas, é 
outro exemplo que denota tal paradigma utilizado por Sócrates 
ao tratar-se de sua filosofia, destinada ao conhecimento da 
Verdade (alethéia), do Bem supremo. Enfim, as noções de 
alma, pertinentes ao século IV a. C. são todas elas utilizadas, 
para que por meio de algo tão próximo de seus interlocutores 
Sócrates atinja seus objetivos. Há no Fédon um duro debate 
entre as concepções até então dominantes na Grécia Antiga 
do século IV. 
Primeiramente, uma “analogia” próxima ao pensamento 
mítico ainda apegado à imortalidade da alma, à purificação das 
mesmas, da alma com um “fantasma” sem o corpo vagante 
pelo Hades, na busca de reencarnações sucessivas. E uma 
consequente refutação do pensamento de caráter físico, preso 
42Problemas Metafísicos: Ontologia
a um devir das coisas, que não permite nenhum conhecimento 
verdadeiro, que perdure.
 O que há é uma defesa do “lógos” e não de uma 
dissolução corpórea. Como diz Gazolla, Platão não é um 
cientista, nem está à procura do que seja a essência da alma, 
mas está preocupado com o discurso mais verdadeiro possível 
da realidade, de modo que os logóis não se percam, na alma 
fi losófi ca, nem se misturem ao conhecimento aparente, à 
ilusão, ao sensível. (ROBINSON, 1998). 
A complexidade da alma humana está nessa dicotomia 
que a faz expressar-se de modo mortal e imortal; e se dissemos, 
até aqui, que a alma é princípio do movimento, causa da 
vida, da ordenação de todas as coisas quando defi nida na sua 
universalidade, na sua particularidade humana ela é causa dos 
movimentos específi cos que o homem vem a conhecer em si 
mesmo, e fora de si, é causa da vida expressa nas sensações, 
nos sentimentos, vontade e refl exão. (GAZOLLA, 1993).
 Por fi m, podemos inferir que a dicotomia corpo-alma 
pode ser vista de outra maneira. Mesmo percorrendo a 
difícil questão da defi nição da alma nos diálogos platônicos, 
Platão está sempre a relacionar o tema da alma em relação 
ao corpo com o conhecimento, e esta se mostra como uma 
interpretação mais que adequada, ou seja, é uma pretensão 
“epistemológica” a separação entre corpo e alma.
 Parece oportuno ressaltar a história da alma de Tirésias, 
que vive a perambular no Hades, como um fantasma, que 
ganha novamente o sopro vital, quando sua psyché inebria-se 
do sangue de Ulisses. É assim que o adivinho resgata os seus 
poderes, unido o sangue (matéria corpórea) e a alma (psyché). 
2- Dualismo mente-corpo de 
Descartes dualismo mente-corpo
Fonte: http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2017/05/o-acerto-de-
descartes.html. Acesso em 17 dez. 2020.
O fi lósofo do século XVII René Descartes é o defensor 
mais conhecido do dualismo de mente-corpo.
Segundo Descartes, seres humanos são compostos 
de dois tipos diferentes de substâncias que estão de alguma 
forma ligadas entre si. Por um lado, temos corpos e fazemos 
parte do mundo físico. Segundo o fi lósofo, o corpo é uma 
máquina feita de carne e osso. Suas articulações e tendões 
agem como pivôs, polias e cordas. Seu coração é uma bomba 
e seus pulmões são foles. Porque o corpo é uma coisa física, 
está sujeito às leis da física e está localizado no espaço e no 
tempo. Assim como os humanos, os animais também são 
máquinas, e seu comportamento é puramente um produto 
das leis mecânicas. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019).
Os seres humanos, no entanto, são os únicos que, 
além de corpos, também possuem mentes. De acordo com 
Descartes, a mente (que é idêntica à alma) é o seu eu “real”. 
Se você perder um braço ou uma perna, seu mecanismo 
corporal estará comprometido, mas você ainda é uma pessoa 
tão completa quanto antes. Porém, se perder sua mente, não 
será mais você, deixará de existir.
Essa concepção de Descartes pode ser chamada de 
dualismo mente-corpo ou dualismo psicofísico. Como 
Descartes criou uma versão clássica dessa posição, também 
é comumente referida, em sua honra, como dualismo 
cartesiano.
Descartes se opunha, assim, a uma teoria fi losófi ca sobre 
a mente conhecida como fi sicalismo, de acordo com essa 
concepção, a mente é física comoo corpo. (FILOSOFIA NA 
ESCOLA, 2019).
2.1 Por que Descartes defendia o 
dualismo mente-corpo?
Descartes oferece vários argumentos para nos convencer 
de que a mente e o corpo são duas substâncias distintas. O que 
ele faz é examinar aquilo que chamamos de mente e de corpo. 
Através disso, mostra que ambos possuem características 
diferentes e, portanto, são tipos diferentes de realidades. Para 
resumir a história toda, podemos chamar os argumentos de 
Descartes de: argumento da dúvida, da divisibilidade e da 
consciência. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019).
2.2 O argumento da dúvida
Um dos argumentos centrais de Descartes em favor do 
dualismo mente-corpo é baseado no que pode e não pode ser 
posto em dúvida. Num livro chamado Meditações Metafísicas, 
Descartes chega à conclusão de que pode duvidar de tudo – 
inclusive de que possui um corpo e que o mundo exterior 
existe – exceto da própria existência como ser pensante. A 
famosa frase “penso, logo existo” expressa essa conclusão.
O argumento de Descartes poderia ser expresso assim:
Posso duvidar que meu corpo existe.
Não posso duvidar que minha mente existe.
Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas 
não podem ser idênticas.
Portanto, a mente e o corpo não são idênticos (FILOSOFIA NA 
ESCOLA, 2019).
As premissas 1 e 2 identifi cam duas propriedades 
diferentes do corpo e da mente que Descartes descobriu 
quando empregou seu método de dúvida. Ele descobriu que 
podia ter absoluta certeza de sua mente, mas por causa da 
possibilidade de ilusão (sonhos e alucinações), ele poderia 
estar enganado e, portanto, incerto, sobre a existência de seu 
corpo.
Descartes ofereceu esse argumento como uma prova 
lógica de que a mente e o corpo não poderiam ser a mesma 
coisa.
Este argumento tem problemas, no entanto. A 
43
propriedade de estar sujeito a dúvida não é o mesmo tipo de 
propriedade que ter 1,80 metros de altura ou ser careca. O 
fato de eu poder duvidar de algo é tanto uma propriedade 
psicológica minha quanto é o objeto da minha dúvida. 
Para ver as dificuldades com esse argumento, considere o 
seguinte argumento que tem essencialmente a mesma forma:
Estou em dúvida se o café está quente.
Não tenho dúvidas que o café é escuro.
Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas 
não podem ser idênticas.
Portanto, o café que não tenho certeza se está quente não é idêntico 
ao café que é escuro. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019).
Assim, é possível que Descartes tenha mais certeza sobre 
sua mente do que sobre seu corpo, simplesmente porque 
ele não entende a natureza de cada um completamente o 
suficiente para ver que eles são idênticos.
2.3 - O argumento da divisibilidade
O argumento a seguir faz uso da mesma forma 
argumentativa de antes, mas evita a dificuldade de lidar com 
nossas atitudes psicológicas.
O corpo é divisível.
A mente é indivisível.
Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas 
não podem ser idênticas.
Portanto, a mente e o corpo não são idênticos. (FILOSOFIA NA 
ESCOLA, 2019).
Neste argumento a favor do dualismo mente-corpo, a 
primeira premissa de Descartes é baseada na noção de que 
todos os objetos materiais possuem extensão e qualquer 
coisa extensa é divisível. Assim, porque o corpo é um objeto 
material, pode sempre ser dividido em dois e dividido e 
dividido novamente (como numa autópsia).
Parece fácil conceder a Descartes a verdade da primeira 
premissa, mas e a segunda premissa? Certamente, se 
assumirmos que a mente é uma substância espiritual, então, 
como uma coisa espiritual não tem extensão, ela não pode 
ser dividida (ou pelo menos dividida da mesma forma que 
um corpo é). Mas a noção de que a mente é uma entidade 
espiritual é o que Descartes está tentando provar, então 
simplesmente assumir esse ponto parece suscitar a questão.
Sem fazer essa suposição, podemos simplesmente olhar 
para nossa experiência mental e descobrir que, qualquer que 
seja a natureza da mente, não é o tipo de coisa que tem partes 
ou pode ser dividida? Ou a segunda premissa de Descartes é 
questionável? É possível que a mente tenha divisões ou partes 
distinguíveis em algum sentido?
Alguns argumentariam, ao contrário de Descartes, que 
nossa vida mental parece dividida. Por exemplo, podemos 
sentir amor e raiva ao mesmo tempo em relação a alguém. 
Ou frequentemente achamos que nossos princípios morais 
nos puxam em uma direção e nossos sentimentos em outra. 
Os anais da psiquiatria estão cheios de casos de múltiplas 
personalidades, ou casos em que alguém conhece algum 
fato desconfortável em uma parte da psique, enquanto outra 
parte da mente da pessoa trabalha horas extras para negá-la. 
(FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019).
Um tipo de cirurgia cerebral, conhecida como 
comissurotomia cerebral, é comumente usada para tratar a 
epilepsia. O cirurgião corta o feixe de nervos (o corpo caloso) 
que liga os dois hemisférios do cérebro. Pacientes com esses 
cérebros divididos experimentam uma fragmentação dentro 
de sua experiência. A parte do cérebro que processa dados 
visuais não pode se comunicar com a parte que processa as 
coisas linguisticamente. Essas considerações parecem indicar 
que, seja o que for que compõe a mente, é algo que tem 
componentes. 
Essa conclusão, pelo menos, torna plausível a sugestão de 
que diferentes partes de nosso cérebro produzem diferentes 
facetas de nossa vida mental e, portanto, coloca em dúvida a 
nítida distinção que Descartes está tentando estabelecer aqui 
entre a mente e o corpo. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019).
2.4 O argumento da consciência
Ainda outro argumento pode ser encontrado nos 
escritos de Descartes, que é baseado no fato de que sua mente 
é uma coisa pensante enquanto seu corpo não é. Pensar para 
Descartes não significa simplesmente raciocínio. Descartes 
usa a palavra “pensamento” para se referir a toda a gama de 
estados conscientes como conhecer, duvidar, desejar, querer, 
imaginar, sentir e assim por diante.
Portanto, seu ponto é que a mente é diferente de 
qualquer coisa no mundo natural, porque ela é consciente. Em 
contraste, Descartes diz que “quando eu examino a natureza 
do corpo, não encontro absolutamente nada nele que tenha 
sabor de pensamento.”
O esboço do argumento da consciência segue os 
contornos dos argumentos anteriores, exceto que Descartes 
inclui a premissa de que “os objetos materiais não podem ter 
a propriedade da consciência”. Porque o corpo é um objeto 
material, não pode ser consciente, mas sabemos de nossa 
experiência imediata de que nossa mente é consciente. A partir 
dessas premissas, Descartes chega novamente à sua conclusão 
dualista. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 2019).
2.5 Crítica ao dualismo mente-
corpo
O dualismo de mente-corpo de Descartes, por vezes, tem 
sido chamado o compromisso cartesiano. Descartes foi um 
defensor entusiasta da nova ciência mecanicista. Ele também 
era um católico sincero. Uma de suas preocupações, portanto, 
era conciliar as visões científica e religiosa do mundo.
Ao dividir a realidade em territórios completamente 
separados, ele foi capaz de atingir esse objetivo. Uma parte 
da realidade é composta de substâncias físicas que podem 
ser estudadas pela ciência e explicadas por princípios 
mecanicistas. Essa parte do universo é um mecanismo 
gigantesco, um relógio. Todos os eventos neste domínio são 
determinados pelas leis que os físicos descobrem. Assim, 
fazemos observações, formulamos leis físicas e fazemos 
previsões precisas sobre eventos físicos. Na medida em que 
somos corpos, a ciência pode explicar nossos movimentos 
físicos.
A outra parte da realidade consiste em substâncias 
mentais ou espirituais. Nossas mentes são livres para pensar e 
desejar como desejamos, porque as substâncias mentais não 
são governadas pelas leis mecânicas. Desta forma, as pessoas 
(ao contrário de seus corpos) têm genuíno livre-arbítrio. Se 
você pular em uma piscina, por exemplo, a queda do seu 
corpo é regida pelas leis da natureza. Sua decisão de dar 
esse salto, noentanto, é livremente escolhida e não pode ser 
44Problemas Metafísicos: Ontologia
explicada pela física.
No domínio físico, a ciência é a autoridade dominante 
e nos dá a verdade. Nós não consultamos a Igreja ou a 
Bíblia para ver quão rápido o coração bombeia o sangue; a 
ciência nos informa sobre tais fatos. Mas de acordo com o 
compromisso cartesiano, a ciência não pode nos falar sobre o 
destino eterno de nossas almas, pode nos dizer apenas sobre 
nossos corpos. Por isso, no campo espiritual, diz Descartes, a 
religião ainda mantém sua autoridade e verdade.
Descartes tinha um problema remanescente. Embora a 
mente e o corpo estejam separados, ele estava convencido de 
que eles interagem. Assim, a versão específi ca do dualismo 
de Descartes é chamada de interacionismo. Parece fácil 
entender como as entidades mentais interagem (uma ideia 
leva ao pensamento de outra ideia), e parece fácil entender 
como as entidades físicas interagem (uma bola de bilhar 
colide com outra, colocando-a em movimento). O problema 
é, no entanto, como uma substância espiritual (a mente) pode 
interagir causalmente com uma substância física (o corpo)?
Descartes estava bem ciente desse problema; no entanto, 
suas tentativas de responder a essa pergunta foram a parte 
menos satisfatória de sua fi losofi a. Em seus dias, os cientistas 
estavam cientes da existência da glândula pineal, mas não 
sabiam o que a glândula fazia. (FILOSOFIA NA ESCOLA, 
2019).
Então, Descartes tinha um órgão (a glândula pineal) 
cuja função era desconhecida. Ele tinha uma função 
(interação corpo-mente) cuja localização era desconhecida. 
Ele concluiu que poderia resolver ambos os problemas com 
uma hipótese: a glândula pineal é onde a mente e o corpo 
interagem. Descartes achava que a glândula pineal era afetada 
por “espíritos vitais” e, por meio desse intermediário, a alma 
podia alterar os movimentos do cérebro, que então afetavam 
o corpo e vice-versa.
Obviamente, explicar a interação mente-corpo referindo-
se a glândula pineal não resolve o problema, porque essa 
glândula é apenas outro objeto material que faz parte do 
corpo. Se os “espíritos vitais” que medeiam a interação causal 
são algum tipo de força física como o magnetismo, então 
ainda não sabemos como o físico pode afetar o mental e vice-
versa. O mesmo problema existe se “espíritos vitais” são de 
natureza mental.
Nesta sétima aula observamos a relação metafísica 
sobre o dualismo corpo e mente, iniciando com a 
visão platônica e em um segundo momento vimos 
Descartes, que para ele, corpo é formado de matéria 
física e, por isso, tem propriedades comuns a qualquer matéria, como 
tamanho, peso e capacidade motora. Assim, as leis que regem a física, 
também regem o corpo humano.
Retomando a aula
1 – Dualismo platônico
O caráter da alma é de mediação entre o sensível e o 
inteligível. Ou seja, o pensamento sobre corpo e alma em 
Platão está inteiramente ligada com a sua teoria das ideias.
2- Dualismo mente-corpo de Descartes dualismo 
mente-corpo
Os seres humanos, no entanto, são os únicos que, 
além de corpos, também possuem mentes. De acordo com 
Descartes, a mente (que é idêntica à alma) é o seu eu “real”.
Disponível em: https://www.infoescola.com/
psicologia/descartes-e-a-natureza-do-corpo-e-da-mente.
Vale a pena acessar
Ghost - Do Outro Lado da Vida, 1990.
Vale a pena assistir
Descartes, René. Discurso do método. São Paulo: Martins 
Fontes, 2003.
Descartes, René. Meditações metafísicas. São Paulo: 
Editora WMF Martins Fontes, 2016.
Vale a pena ler
Vale a pena
Minhas anotações

Mais conteúdos dessa disciplina