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TÍTULO III DOS EMBARGOS À EXECUÇÃO CPC/2015 CPC/1973 Art. 914. O executado, independentemente de penhora, depósito ou caução, poderá se opor à execução por meio de embargos. Art. 736. O executado, independentemente de penhora, depósito ou caução, poderá opor-se à execução por meio de embargos. § 1º Os embargos à execução serão distribuídos por dependência, autuados em apartado e instruídos com cópias das peças processuais relevantes, que poderão ser declaradas autênticas pelo próprio advogado, sob sua responsabilidade pessoal. Parágrafo único. Os embargos à execução serão distribuídos por dependência, autuados em apartado e instruídos com cópias das peças processuais relevantes, que poderão ser declaradas autênticas pelo advogado, sob sua responsabilidade pessoal. § 1º Na execução por carta, os embargos serão oferecidos no juízo deprecante ou no juízo deprecado, mas a competência para julgá-los é do juízo deprecante, salvo se versarem unicamente sobre vícios ou defeitos da penhora, da avaliação ou da alienação dos bens efetuadas no juízo deprecado. Art. 747. Na execução por carta, os embargos serão oferecidos no juízo deprecante ou no juízo deprecado, mas a competência para julgá-los é do juízo deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou defeitos da penhora, avaliação ou alienação dos bens. Comentários de Andre Vasconcelos Roque: 1. Meios de defesa do executado na execução fundada em título extrajudicial. O executado possui duas principais formas de se defender na execução amparada em título executivo extrajudicial. A principal forma são os embargos do executado, disciplinados nos arts. 914, 915 e 917 a 920 e objeto de discussão nos próximos itens. O outro meio de defesa é a chamada exceção de pré-executividade, resultado de construção doutrinária e jurisprudencial que restou, ao final, contemplada no art. 803, parágrafo único (sobre sua origem histórica, momento em que pode ser apresentada, matérias que podem ser suscitadas, hipóteses em que terá efeito suspensivo, recurso cabível contra a decisão que a julga e cabimento de honorários de advogado, v. comentários ao art. 803, itens 5 e seguintes). Além dos embargos e da exceção de pré-executividade, o executado ainda pode se valer da ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica). 2. Ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica). Mesmo após encerrado o prazo para os embargos (art. 915), o executado poderá questionar a dívida e o título executivo extrajudicial (não os aspectos formais da execução) por meio de ação autônoma de impugnação, também chamada de defesa heterotópica, porque é processada fora do ambiente próprio do procedimento executivo. Referida ação é disciplinada pelas seguintes regras: (i) pode ser proposta antes ou depois da execução; (ii) os dois processos (ação autônoma e execução) devem ser reunidos perante o mesmo juízo (ressalvada a existência de competências absolutas distintas, o que depende de cada organização judiciária – por exemplo, no caso em que houver uma vara privativa de execuções), ante a nítida relação de prejudicialidade entre a ação autônoma e a execução (art. 55, § 2º, I); (iii) o mero ajuizamento da ação autônoma não impede o prosseguimento da execução (art. 784, § 1º) e esta não possui efeito suspensivo automático, sendo possível, contudo, a concessão de tutela provisória na ação autônoma determinando a suspensão da execução (efeito suspensivo ope judicis), desde que observados os mesmos requisitos para o efeito suspensivo dos embargos (art. 919, § 1º); (iv) se o ajuizamento da ação autônoma foi anterior à execução ou, pelo menos, do prazo para os embargos, não há necessidade de que sejam oferecidos os embargos, pois se ambos (ação autônoma e embargos) versassem sobre as mesmas matérias, haveria litispendência, sendo admissíveis os embargos, contudo, que tratem de questões distintas da ação autônoma. 2.1. Que espécies de matérias podem ser tratadas na ação autônoma? Como já se apontou, tal forma de oposição do executado pode ter por finalidade questionar tanto a obrigação executada quanto o próprio título executivo extrajudicial. Mesmo que esgotado o prazo para os embargos, qualquer matéria não apreciada com cognição exauriente no procedimento executivo (incluindo eventuais embargos) poderá ser suscitada pelo executado mediante ação autônoma. Isso porque a estabilidade das questões na execução é menos intensa, tendo em vista a inversão da iniciativa do contraditório exauriente, o qual somente será deflagrado pela apresentação dos embargos do executado e, ainda assim, de forma restrita às matérias suscitadas (nesse sentido, SICA, Heitor. Ċognição do juiz na execução civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017, p. 265). Não se pode impedir a discussão (ainda que em um novo processo) de questões que não foram submetidas à cognição exauriente, conforme aponta a doutrina, relacionando cognição exauriente à coisa julgada (GRECO, Leonardo. Cognição sumária e coisa julgada. Revista Eletrônica de Direito Processual, v. 10, 2012, p. 279-282, disponível em: <http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/redp/article/view/20351>, acesso em: 21 fev. 2017; BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Cognição e decisões do juiz no processo executivo. In: FUX, Luiz; NERY JR., Nelson; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim (coord.). Processo e Constituição: estudos em homenagem ao Professor José Carlos Barbosa Moreira. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p. 371). 3. Terminologia: embargos do executado, do devedor ou à execução? O CPC/1973 denominava a principal defesa do executado de “embargos do devedor”, terminologia inadequada, pois devedor é nomenclatura própria do direito material. Perfeitamente possível, nesse sentido, que o executado apresente embargos e demonstre que nada deve ao exequente, não sendo seu devedor. O CPC/2015 fez referência ao termo “embargos à execução”, o qual é melhor que a terminologia do código anterior, mas ainda é impreciso, pois há outras espécies de embargos que podem ser apresentados incidentalmente à execução, como os embargos de terceiro. Mais apurado, portanto, seria denominar tal defesa de embargos do executado – obviamente, quando apresentados pelo executado, o que nem sempre será o caso, como apontado no item 5, infra. 4. Natureza jurídica: ação incidental autônoma deflagrada por petição inicial. A natureza jurídica dos embargos é de uma ação incidental autônoma, de conhecimento, com cognição plena (podendo versar sobre qualquer matéria que o executado poderia deduzir como defesa em processo de conhecimento – art. 917, VI) e exauriente, e que veicula pretensão constitutiva negativa (por exemplo, no caso em que se invalida o título executivo extrajudicial) ou declaratória (a título de ilustração, na hipótese em que se reconhece ter havido o pagamento), conforme a matériaalegada. Devem ser distribuídos por dependência ao juízo da execução e têm por finalidade questionar os aspectos formais da execução ou a obrigação amparada no título executivo extrajudicial. A natureza jurídica como uma ação autônoma consiste em entendimento corroborado pela disciplina legislativa dos embargos (os quais são julgados por sentença, considerada esta um ato decisório que põe fim a um processo ou, pelo menos, à sua fase cognitiva – art. 203, § 1º) e pelo fato de que a execução está toda estruturada para a satisfação do exequente, não sendo lógico que fosse possível no meio dessa relação jurídica processual executiva o oferecimento de defesa que deflagrasse contraditório pleno e exauriente acerca do direito material, tumultuando a sequência dos atos executivos. 4.1. Uma das consequências da natureza jurídica de ação autônoma dos embargos é que estes devem ser apresentados por meio de uma petição inicial, a qual deve observar, no que couber, os requisitos do art. 319 (o único requisito que não se aplica é o que se encontra disposto no inciso VII, pois não há previsão no procedimento dos embargos de designação obrigatória de audiência de conciliação ou de mediação). Havendo qualquer defeito ou irregularidade sanável, o juiz deverá conceder o prazo de quinze dias ao embargante para correção (art. 321), indicando com precisão o que deve ser corrigido ou complementado. Tratando-se de vício insanável ou no caso de inércia do embargante em atender à determinação de correção ou complementação, será o caso de indeferimento da petição inicial (art. 330), que consiste em um dos casos de rejeição liminar dos embargos (art. 918, II). 5. Legitimados para os embargos. Ċomo visto, o principal meio de defesa do executado na execução amparada em título extrajudicial são os embargos. O executado é, portanto, o principal legitimado ativo para os embargos, sendo nesta condição denominado de embargante. 5.1. Além do executado, seu cônjuge ou companheiro também pode se valer dos embargos. No caso em que pretenda apenas afastar sua meação ou bens próprios de eventual penhora indevida, deve lançar mão dos embargos de terceiro (art. 674, § 2º, I, e Súmula 134 do STJ). Entretanto, o cônjuge ou companheiro do executado pode pretender discutir a própria execução, com vistas a afastar a execução do patrimônio familiar, situação em que o manejo dos embargos será adequado. Na prática do foro, contudo, tem sido reconhecida a fungibilidade entre os embargos à execução e os embargos de terceiro apresentados pelo cônjuge ou companheiro do executado, desde que respeitado o prazo para oposição (STJ, REsp 1.522.093, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 17.11.2015). 5.2. Se o executado foi citado por hora certa ou por edital, deverá ser nomeado curador especial (art. 72, II), com legitimidade para oferecer os embargos, nos termos da Súmula 196 do STJ. A rigor, nesse caso, o embargante será o próprio executado, representado em juízo pelo curador especial. 5.3. Nada impede, por óbvio, o litisconsórcio ativo nos embargos, oferecidos simultaneamente por mais de um executado ou pelo executado e por seu cônjuge ou companheiro. 5.4. Quanto à legitimação passiva, não há discussão: esta incumbirá ao exequente, que figurará no polo passivo dos embargos e é denominado, nesta condição, de embargado. No caso de litisconsórcio ativo na execução, os embargos normalmente serão apresentados contra todos os exequentes, mas é possível que nem todos figurem no polo passivo dos embargos se for alegada, por exemplo, apenas a ilegitimidade de um dos exequentes. 6. Desnecessidade de garantia do juízo. Ocorrido qualquer dos eventos do art. 231, inicia-se o prazo para os embargos (art. 915, caput), independentemente de penhora, depósito ou caução. Desde a reforma promovida pela Lei 11.382/2006 no CPC/1973, os embargos já não exigiam a prévia garantia do juízo da execução. Tal solução é acertada, pois embora pareça facilitar a defesa do executado (o que não deixa de ser verdadeiro), também permite um ganho de tempo considerável para o exequente. No regime anterior à reforma da Lei 11.382/2006, caso o executado não garantisse de forma espontânea a execução, o exequente precisava primeiro buscar bens em seu patrimônio para serem penhorados – por vezes, tarefa bastante demorada – e só depois disso iniciar o debate processual a respeito das matérias trazidas dos embargos. A disciplina atual permite ao exequente desde logo adiantar toda a discussão com o executado relativamente às matérias suscitadas dos embargos e, paralelamente, buscar bens do patrimônio do executado para que sejam penhorados. Não por acaso, exige-se, para que seja atribuído excepcional efeito suspensivo aos embargos, que o juízo esteja garantido por penhora, depósito ou caução (art. 919, § 1º). 6.1. Na execução fiscal, no entanto, a situação é diferente. O art. 16, § 1º, da Lei 6.830/1980 exige, de forma explícita, que o juízo esteja garantido para que possam ser processados os embargos do executado e, conforme decidiu o STJ sob o regime dos recursos repetitivos, tal disposição se mantém mesmo após a alteração do CPC/1973 pela Lei 11.382/2006, que suprimiu o requisito da garantia do juízo para os embargos na execução civil (STJ, REsp 1.272.827, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, j. 22.05.2013). Ainda que se possa criticar tal entendimento, sob o fundamento de que a Lei 6.830/1980 foi editada em época na qual também se exigia a garantia do juízo para os embargos do executado disciplinados no CPC, não parece haver perspectiva de modificação do entendimento consolidado pelo STJ sobre a matéria. 7. Distribuição e autuação dos embargos. Apresentados os embargos, de acordo com o § 1º, estes serão distribuídos por dependência ao juízo da execução. Nada mais natural, ante a nítida relação de prejudicialidade entre os embargos (que podem concluir pela inexistência da obrigação ou invalidade do título executivo, por exemplo) e a execução. 7.1. O mesmo dispositivo dispõe, ainda, que os embargos serão autuados em apartado. A razão para isso não é, como se poderia supor, porque os embargos possuem natureza de processo incidental autônomo. O motivo é de ordem prática e consiste em não tumultuar os autos da execução (a qual, em princípio, deverá prosseguir, mesmo na pendência dos embargos, que não possuem efeito suspensivo automático – art. 919, caput) com petições e documentos relativos aos embargos do executado. 8. Cópias das peças processuais relevantes. Por fim, o § 1º determina que os embargos serão instruídos com cópias das peças processuais relevantes (que só podem ser da execução), as quais poderão ser declaradas autênticas pelo advogado, sob sua responsabilidade pessoal. Tal previsão foi obviamente pensada para os processos que tramitamem autos físicos, não havendo necessidade de apresentação de cópia nenhuma no caso de autos eletrônicos (providência dispensada até mesmo para o agravo de instrumento eletrônico – art. 1.017, § 5º). A razão de se exigir a apresentação de cópias da execução que tramita em autos físicos é porque, no caso de interposição de recurso contra a sentença que extinguir os embargos sem resolução de mérito ou julgá-los improcedentes, em princípio, a execução prosseguirá na pendência da apelação, já que esta não é dotado de efeito suspensivo automático (art. 1.012, § 1º, III). Para que isso ocorra, é importante que os autos da execução fiquem em 1º grau, remetendo-se apenas os autos dos embargos para o tribunal. Note-se que o § 1º do dispositivo em destaque estipula tão somente a autuação em apartado dos embargos (ou seja, em autos próprios), mas não necessariamente que esses sejam apensados (ou seja, anexados) aos autos da execução. 8.1. O legislador não estabeleceu a obrigatoriedade de nenhuma cópia de peça processual em específico, devendo ser trazidas todas as necessárias à compreensão das questões que forem suscitadas nos embargos. Em geral, será preciso trazer cópias das procurações das partes, da petição inicial da execução e do título executivo extrajudicial. 8.2. O advogado não está obrigado a assumir responsabilidade pessoal pela autenticidade das cópias. Contudo, se não o fizer, deverá autenticar as peças que juntar com os embargos em cartório. 8.3. Se, eventualmente, o juiz constatar a ausência de peça indispensável à apreciação da controvérsia, não deve rejeitar liminarmente os embargos. O caso se assemelha à ausência de documento indispensável à propositura da ação (art. 320), devendo o executado/embargante ser intimado para apresentar as cópias faltantes, sob pena de extinção dos embargos, sem resolução do mérito. Observe-se que, por força do art. 321, parágrafo único, aplicável subsidiariamente, o juiz tem o dever de indicar precisamente os documentos que devem ser apresentados. 8.4. Mesmo que, por eventualidade, os autos dos embargos sejam remetidos ao tribunal por ocasião da apelação sem que tenham sido apresentadas as cópias necessárias à compreensão da controvérsia, não se poderá prontamente deixar de conhecer do recurso. O relator deverá, na forma dos arts. 932, parágrafo único, e 938, § 1º, conceder ao apelante prazo para que seja complementada a documentação. Somente em caso de desatendimento à determinação é que será caso, aí sim, de não se conhecer do recurso. 9. Competência para os embargos. Execução por carta. A regra geral é que os embargos sejam oferecidos e apreciados no próprio juízo da execução, sendo por esta razão que o § 1º determina que estes sejam distribuídos por dependência. Trata-se de regra de competência funcional e, portanto, absoluta, a qual pode ser conhecida de ofício e a qualquer tempo e grau de jurisdição. Nos termos do art. 61, a ação acessória deverá ser proposta no juízo competente para a ação principal, regra aplicável aos embargos do executado. 9.1. Entretanto, situação peculiar ocorre na execução por carta (art. 845, § 2º), que se caracteriza pela prática de atos processuais executivos (como a penhora e a avaliação) fora da comarca ou seção judiciária em que ajuizada a execução. Os embargos poderão ser protocolados em qualquer um dos juízos, o deprecante (onde proposta a ação de execução) ou o deprecado (no qual são praticados os atos executivos). É recomendável que o executado/embargante indique o juízo competente, mas eventual equívoco não prejudicará o conhecimento dos embargos, os quais serão encaminhados a quem de direito (art. 64, § 3º). 9.2. Na execução por carta, o juízo competente dependerá das questões veiculadas nos embargos. Se estes questionam exclusivamente atos praticados pelo juízo deprecado (por exemplo, alegação de penhora incorreta ou avaliação errônea – art. 917, II), a competência será desse juízo. Nos demais casos, competirá ao juízo deprecante o julgamento dos embargos. Trata-se, uma vez mais, de regra de competência funcional e, portanto, absoluta, podendo eventual incompetência ser reconhecida de ofício. 9.3. Observe-se que, no caso específico da penhora realizada fora da comarca ou subseção judiciária, pode haver dúvida. Se a ordem do juízo deprecante foi genérica e a individualização do bem a ser penhorado foi realizada pelo juízo deprecado, é este que deverá apreciar embargos fundados na alegação de impenhorabilidade. Por outro lado, se a ordem partiu do juízo deprecante para que determinado bem, já individualizado, fosse penhorado pelo juízo deprecado, que não decidiu a respeito, agindo apenas como longa manus, a competência para apreciar os embargos fundados em impenhorabilidade será do juízo deprecante, que foi quem efetivamente determinou o ato questionado. 10. Embargos do executado e convenção de arbitragem. Caso o título executivo extrajudicial contenha uma cláusula compromissória (art. 4º da Lei 9.307/1996), sua execução permanecerá na esfera do Poder Judiciário, pois o árbitro não tem poder para determinar a prática de atos executivos, nem para executar suas próprias decisões. No entanto, com a apresentação dos embargos, podem ser suscitadas questões que dizem respeito ao título executivo e à obrigação executada. Quem será o competente para apreciar tais matérias? Se os embargos se limitarem à análise das questões formais do título e dos atos praticados na execução (por exemplo, alegação de impenhorabilidade ou de avaliação errônea ou, de forma geral, as hipóteses relacionadas no art. 803), o Poder Judiciário será competente para conhecer da matéria. Por outro lado, se o executado questionar a obrigação executada (existência, constituição ou extinção do crédito), ou alegar excesso de execução, pressupondo que a cláusula compromissória abranja tais matérias e suscitada a existência de convenção de arbitragem na impugnação do exequente aos embargos, estes deverão ser extintos sem resolução de mérito quanto a tais questões, sem prejuízo de que estas sejam resolvidas mediante o devido procedimento arbitral (nesse sentido, STJ, REsp 1.465.535, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 21.06.2016, e Enunciado 12 da I Jornada de Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios). Observe-se que, se o exequente não invoca a convenção de arbitragem na impugnação aos embargos, entende-se ter havido aceitação da jurisdição estatal e renúncia ao juízo arbitral pelo consenso das partes (art. 337, § 6º), caso em que os embargos poderão ser normalmente apreciados pelo Poder Judiciário CPC/2015 CPC/1973 Art. 915. Os embargos serão oferecidos no prazo de 15 (quinze) dias, contado, conforme o caso, na forma do art. 231. Art. 738. Os embargos serão oferecidos no prazo de 15 (quinze) dias, contados dadata da juntada aos autos do mandado de citação. § 1º Quando houver mais de um executado, o prazo para cada um deles embargar conta-se a partir da juntada do respectivo comprovante da citação, salvo no caso de cônjuges ou de companheiros, quando será contado a partir da juntada do último. § 2º Nas execuções por carta, o prazo para embargos será contado: I – da juntada, na carta, da certificação da citação, quando versarem unicamente sobre vícios ou defeitos da § 1º Quando houver mais de um executado, o prazo para cada um deles embargar conta-se a partir da juntada do respectivo mandado citatório, salvo tratando-se de cônjuges. § 2º Nas execuções por carta precatória, a citação do executado será imediatamente comunicada pelo juiz deprecado ao juiz deprecante, inclusive por meios eletrônicos, contando-se o prazo para embargos a partir da juntada aos autos de tal comunicação. penhora, da avaliação ou da alienação dos bens; II – da juntada, nos autos de origem, do comunicado de que trata o § 4º deste artigo, ou, não havendo este, da juntada da carta devidamente cumprida, quando versarem sobre questões diversas da prevista no inciso I deste parágrafo. § 3º Em relação ao prazo para oferecimento dos embargos à execução, não se aplica o disposto no art. 229. § 4º Nos atos de comunicação por carta precatória, rogatória ou de ordem, a realização da citação será imediatamente informada, por meio eletrônico, pelo juiz deprecado ao juiz deprecante. Comentários de Andre Vasconcelos Roque: 1. Prazo para os embargos. Verificado qualquer dos eventos do art. 231 (como a juntada do aviso de recebimento ou do mandado de citação do executado aos autos da execução, ou a consulta à citação eletrônica pelo executado), inicia-se o prazo para apresentação de embargos, o qual é de quinze dias. Trata-se de prazo evidentemente processual, razão pela qual deve ser computado apenas nos dias úteis (art. 219). Nada impede, obviamente, que o executado compareça espontaneamente, abrindo o prazo para os embargos (art. 239, § 1º) ou mesmo que se antecipe ao início do prazo e já apresente os embargos, por exemplo, antes da juntada do mandado de sua citação aos autos, sendo tal ato considerado tempestivo, na forma do art. 218, § 4º. 1.1. Observe-se que o termo inicial do prazo dos embargos não coincide com aquele previsto para o pagamento espontâneo pelo executado na execução de obrigação pecuniária (três dias contados da própria citação – art. 829, caput) ou, de forma geral, para o cumprimento voluntário da obrigação pelo executado (sempre a partir do próprio ato citatório, por se tratar de ato a ser praticado diretamente pela parte, ou seja, sem a necessidade de intermediação por advogado ou qualquer outro sujeito com capacidade postulatória – art. 231, § 3º). 2. Litisconsórcio passivo na execução e prazo para os embargos. Os embargos são uma ação autônoma incidental à execução (v. comentários ao art. 914, item 4) e, por esta razão, não se aplicam as regras relativas ao prazo para a contestação quando há pluralidade de réus. 2.1. O prazo para os embargos é individual para cada executado, não havendo que se aguardar a citação do último litisconsorte passivo para que tenha início (não se aplica, portanto, o art. 231, § 1º). Assim, para cada executado que for citado, correrá em separado o seu prazo para embargar, o qual será sempre contado a partir dos eventos relacionados no art. 231 e que sejam correspondentes à sua respectiva citação. Impreciso, portanto, o § 1º do dispositivo em destaque, que estabelece que o prazo terá início “a partir da juntada do respectivo comprovante da citação”, pressupondo que a citação será invariavelmente realizada pelos correios ou por oficial de justiça, o que não é correto, pois é possível que a citação do executado se verifique por outras modalidades, como por meio eletrônico ou por edital. 2.2. Há uma exceção à regra geral de que o prazo para embargar é individual, referida no próprio § 1º, que se passa no caso em que os executados são casados entre si ou vivem em união estável. Não se compreende a razão dessa exceção, a qual se aplica apenas, insista-se, no caso de litisconsórcio passivo na execução, não se estendendo à hipótese em que apenas um deles é executado e o outro vem a ser intimado pela penhora sobre bem imóvel (art. 842). De todo modo, no caso de companheiros, para que se excepcione a regra geral, é necessário que a união estável esteja amparada em prova pré-constituída nos autos, não fazendo sentido desvirtuar o procedimento executivo para discutir o termo inicial do prazo para os embargos. 2.3. Outra decorrência de que os embargos possuem natureza de ação autônoma (e não de defesa) é que não haverá a dobra no caso de litisconsortes passivos com procuradores distintos, sendo explicitamente afastada a incidência do art. 229 pelo § 4º da regra em destaque. Entretanto, o prazo será simples apenas para o oferecimento dos embargos. Se, porventura, eles são apresentados por mais de um executado e estes possuem diferentes advogados, de escritórios distintos e o processo tramita em autos físicos, haverá prazo em dobro para as próximas manifestações dos embargantes. 3. Termo inicial do prazo para os embargos na execução por carta. Situação peculiar ocorre na execução por carta (art. 845, § 2º), que se caracteriza pela prática de atos processuais executivos (como a penhora e a avaliação) fora da comarca ou seção judiciária em que ajuizada a execução. 3.1. Em princípio, o prazo para embargar terá início com a juntada da carta precatória de citação nos autos originários da execução, que correm perante o juízo deprecante, ou, ainda, com a juntada aos autos originários da execução da informação enviada pelo juízo deprecado de que se realizou a citação (art. 915, § 2º, II e § 4º). O exequente também pode tomar a iniciativa e juntar aos autos da execução o comprovante de citação na carta precatória, o que igualmente deflagrará o prazo para os embargos. 3.2. Entretanto, se os embargos versarem unicamente sobre atos praticados pelo juízo deprecado (penhora, avaliação ou alienação dos bens), de maneira a configurar a competência do próprio juízo deprecado para a apreciação dos embargos (art. 914, § 2º), o prazo terá início a partir “da juntada, na carta, da certificação da citação”. Ou seja, não será necessário aguardar que a carta seja devolvida para o juízo deprecante ou que este receba a informação de que a citação foi realizada pelo juízo deprecado. Será suficiente a juntada aos autos da carta precatória (e não aos autos da execução) do comprovante de citação do executado, raciocínio este que poderá ser estendido a outras modalidades de citação (por exemplo, citação eletrônica realizada pelojuízo deprecado ou retirada, em carga, dos autos da carta precatória). 4. Prazo preclusivo. O prazo para a apresentação dos embargos é preclusivo. Isso quer dizer que, encerrado tal prazo, não poderá o devedor oferecer os embargos ou estes serão rejeitados liminarmente (art. 918, I). Poderá, contudo, suscitar matérias de ordem pública por simples petição nos autos da execução, que podem ser conhecidas de ofício pelo juiz, como são exemplo as hipóteses de nulidade da execução referidas no art. 803. É lícito, ainda, opor-se contra atos executivos praticados posteriormente ao encerramento do prazo para os embargos, como evidencia o art. 917, § 1º, que se refere à incorreção da penhora ou da avaliação (extensível a qualquer outro ato executivo superveniente ao momento para oferecimento dos embargos). O executado ainda poderá, mesmo após encerrado o prazo dos embargos, apresentar ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica), conforme visto em comentários ao art. 914, item 2. 5. Prazo para os embargos à execução fiscal. Os embargos do executado na execução fiscal possuem prazo e termo inicial diferenciados. O prazo para embargar se inicia, de forma semelhante ao que dispunha o CPC/1973 antes da reforma realizada pela Lei 11.382/2006, a partir (i) da data do depósito em dinheiro; (ii) da juntada aos autos da execução da prova do seguro garantia judicial ou da fiança bancária, ou; (iii) da intimação da penhora (art. 16 da Lei 6.830/1980). Em regra, o juízo necessita estar garantido integralmente, mas se o executado demonstrar que não tem condições econômicas para fazê-lo, é o caso de se admitir o seu processamento mediante garantia parcial, sob pena de comprometer o acesso à justiça do executado. Além disso, estabelece referido dispositivo que o prazo é de trinta dias (em vez dos quinze dias previstos no CPC/2015). O STJ, em julgamento submetido ao rito dos recursos repetitivos na vigência do código anterior, decidiu que tais regras especiais da Lei 6.830/1980 prevalecem sobre as dispostas no CPC/1973 (STJ, REsp 1.112.416, Rel. Min. Herman Benjamin, j. 27.05.2009), não havendo razão para que a conclusão seja diferente com o CPC/2015 (nesse sentido, STJ, REsp 1.663.742, Rel. Min. Herman Benjamin, j. 16.05.2017). O único impacto que o CPC/2015 trouxe para o prazo dos embargos à execução fiscal diz respeito à sua contagem: como se trata de prazo processual e não há regra especial em contrário, o executado terá trinta dias úteis para oferecer os embargos (nesse sentido, Enunciado 20 da I Jornada de Direito Processual Civil). CPC/2015 CPC/1973 Art. 916. No prazo para embargos, reconhecendo o crédito do exequente e comprovando o depósito de trinta por cento do valor em execução, acrescido de custas e de honorários de advogado, o executado poderá requerer que lhe seja permitido pagar o restante em até 6 (seis) parcelas mensais, acrescidas de correção monetária e de juros de um por cento ao mês. Art. 745-A. No prazo para embargos, reconhecendo o crédito do exequente e comprovando o depósito de 30% (trinta por cento) do valor em execução, inclusive custas e honorários de advogado, poderá o executado requerer seja admitido a pagar o restante em até 6 (seis) parcelas mensais, acrescidas de correção monetária e juros de 1% (um por cento) ao mês. § 1º O exequente será intimado para manifes-tar-se sobre o preenchimento dos pressupostos do caput, e o juiz decidirá o requerimento em 5 (cinco) dias. § 2º Enquanto não apreciado o requerimento, o executado terá de depositar as parcelas vincendas, facultado ao exequente seu levantamento. § 3º Deferida a proposta, o exequente levantará a quantia depositada, e serão suspensos os atos executivos. § 4º Indeferida a proposta, seguir-se-ão os atos executivos, mantido o depósito, que será convertido em penhora. § 5º O não pagamento de qualquer das prestações acarretará cumulativamente: I – o vencimento das prestações subsequentes e o prosseguimento do processo, com o imediato reinício dos atos executivos; II – a imposição ao executado de multa de dez por cento sobre o valor das prestações não pagas. § 6º A opção pelo parcelamento de que trata este artigo importa renúncia ao direito de opor embargos. § 1º Sendo a proposta deferida pelo juiz, o exequente levantará a quantia depositada e serão suspensos os atos executivos; caso indeferida, seguir-se-ão os atos executivos, mantido o depósito. § 2º O não pagamento de qualquer das prestações implicará, de pleno direito, o vencimento das subsequentes e o prosseguimento do processo, com o imediato início dos atos executivos, imposta ao executado multa de 10% (dez por cento) sobre o valor das prestações não pagas e vedada a oposição de embargos. § 7º O disposto neste artigo não se aplica ao cumprimento da sentença. Comentários de Andre Vasconcelos Roque: 1. Parcelamento: conceito e fundamentos. O dispositivo em tela somente se aplica à execução de obrigação de pagar quantia certa e, a rigor, está mal posicionado no CPC/2015, pois não versa sobre qualquer modalidade de defesa do executado. De acordo com a regra em análise, o executado pode, no prazo para os embargos (art. 915), pedir o parcelamento do crédito executado, depositando à vista o correspondente a trinta por cento do valor da execução e comprometendo-se a pagar o restante em até seis parcelas mensais. 1.1. Trata-se de providência que visa, a um só tempo, a promover a efetividade da tutela executiva (art. 797), uma vez que dificilmente, considerando a realidade brasileira, a execução seria satisfeita em menos do que seis meses, e a tutelar a menor onerosidade da execução (art. 805), pois assegura ao executado a possibilidade de adimplir sua dívida de forma parcelada e evita a prática de atos de agressão ao seu patrimônio enquanto permanece com as prestações em dia, tudo isso independentemente de se alcançar a autocomposição com o exequente. 1.2. Como se observa do confronto dos dispositivos em destaque, o CPC/2015 detalhou e aprimorou a disciplina do instituto, resolvendo questões sobre as quais havia expressiva controvérsia, como a necessidade de intimação do exequente sobre a proposta de parcelamento (§ 1º), e a inaplicabilidade do parcelamento ao cumprimento de sentença, como consta no § 7º. 2. Requisitos. Para que seja concedido o parcelamento ao executado, devem ser observados três requisitos. 2.1. O primeiro requisito é o reconhecimento do crédito do exequente pelo executado, o qual deverá ser incondicionado, mas não necessita ser expresso, podendo ser inferido do simples pedido de parcelamento. Se o executado afirma expressamente que não reconhece o crédito do exequente, contudo, o parcelamento não pode ser autorizado pelo juiz. 2.2. Outro requisito é que, no próprio ato em que requerer o parcelamento, o executadopromova o depósito de, no mínimo, trinta por cento do valor executado, incluindo as despesas processuais e os honorários de advogado (não se aplica a redução à metade prevista no art. 827, § 1º, porque o pagamento não foi integral). Em que pese a omissão do dispositivo, não há nenhum prejuízo para que seja deferido o parcelamento se o executado se propõe a dar uma entrada superior ao mínimo legal de trinta por cento. 2.3. O terceiro requisito é que seja explicitamente requerido pelo executado o parcelamento do saldo não depositado em até seis prestações mensais – sendo perfeitamente possível, por óbvio, requerer o parcelamento em menor prazo. Sem que seja requerido o parcelamento, o depósito da entrada será considerado pagamento parcial (se não apresentados os embargos) ou penhora parcial (se oferecidos os embargos). 2.4. O executado não precisa, contudo, motivar a sua proposta de parcelamento. É necessário que, uma vez atendidos os requisitos objetivamente dispostos na lei, confira-se segurança jurídica ao executado de que sua proposta será deferida ou, caso contrário, dificilmente estará disposto a renunciar ao direito de opor embargos (§ 6º). 3. Prazo para se propor o parcelamento . A proposta de parcelamento e o depósito da entrada devem ser impreterivelmente realizados no prazo para os embargos (art. 915). Ultrapassado o prazo dos embargos, fecha-se para o executado a possibilidade de pedir o parcelamento com fundamento no dispositivo legal em tela, sem prejuízo de eventual transação, a qual necessitará, como em qualquer outra forma de autocomposição, do consenso da parte contrária, ou seja, do exequente. Isso significa, por outro lado, que o oferecimento antecipado dos embargos pelo executado – ou seja, antes do término do prazo legal para a sua apresentação – obsta o pedido de parcelamento, diante da preclusão consumativa. O prazo para os embargos se encerrou antes de seu término legal porque o ato processual a que se refere já foi praticado. 4. Intimação do exequente. Uma vez apresentada tempestivamente a proposta para parcelamento, junto com o depósito de, no mínimo, trinta por cento do valor executado, deverá o exequente ser intimado para se manifestar a respeito. Trata-se de necessária providência para resguardar o contraditório. 4.1. O prazo de manifestação do exequente não foi indicado explicitamente, de sorte que será de cinco dias (úteis, pois é um prazo de natureza processual), a não ser que haja determinação do juiz em sentido diverso (art. 218, § 1º). 4.2. O exequente somente poderá se opor à proposta de parcelamento alegando não estarem preenchidos os seus requisitos. Não pode o exequente recusar o parcelamento por motivo de conveniência e oportunidade, ou simplesmente afirmando que o executado teria condições econômicas de adimplir o débito à vista. Por isso, há quem sustente na doutrina tratar-se o parcelamento de verdadeiro direito potestativo do executado (nesse sentido, BASTOS, Antonio Adonias Aguiar. Comentários ao art. 916. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al. (coord.). Breves comentários ao novo Código de Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 2.274). 4.3. Se o exequente não se manifestar no prazo legal, pressupõe-se que concorda com o parcelamento, mas, ainda assim, deverá o juiz avaliar se estão presentes os requisitos legais. 5. Prazo para decisão sobre o requerimento e depósito das parcelas vincendas na sua pendência. Após a manifestação do exequente ou esgotado o prazo legal sem que o exequente tenha se pronunciado, deverá o juiz decidir sobre o pedido de parcelamento no prazo de cinco dias (também úteis, pois é um prazo processual, ainda que não para as partes). Trata-se, contudo, de prazo impróprio, cujo esgotamento não acarreta preclusão alguma. 5.1. Enquanto o julgador não decide sobre a proposta de parcelamento, o executado deve já ir depositando regularmente as prestações vincendas, corrigidas monetariamente e acrescidas de juros legais de mora de um por cento ao mês, sob pena de lhe serem aplicadas as sanções do § 5º. Trata-se de inovação muito bem-vinda, pois acelera a satisfação do exequente. No código anterior, era frequente que fosse apresentada a proposta de parcelamento e se passassem vários meses até que tal providência fosse deferida pelo juiz, período durante o qual não se exigia o depósito das parcelas vincendas, postergando o pagamento pelo executado. De acordo com o § 2º, portanto, o executado não deve esperar o deferimento do parcelamento pelo juiz para iniciar o pagamento das parcelas seguintes, cujo vencimento ocorrerá necessariamente a partir do primeiro mês seguinte à data de protocolo do requerimento. 6. Deferimento da proposta de parcelamento. Deferida a proposta de parcelamento, o juiz determinará o levantamento de todos os depósitos já realizados (entrada, mais as parcelas vincendas depositadas enquanto o requerimento não era apreciado) pelo exequente, bem como a suspensão de todos os atos executivos. O executado fica obrigado a adimplir as parcelas remanescentes, corrigidas monetariamente e acrescidas de juros legais de um por cento ao mês. Observe-se que se trata de suspensão, e não desfazimento de qualquer ato praticado na execução. Assim se, por exemplo, já houve penhora antes que fosse deferido o parcelamento, o bem permanecerá penhorado durante o período de suspensão do processo. A suspensão perdurará até a integral satisfação do crédito (caso em que eventuais bens penhorados serão liberados da constrição) ou se configurada a inadimplência do executado, na forma do § 5º, I. 7. Indeferimento da proposta de parcelamento. Caso a proposta de parcelamento seja indeferida, o que normalmente ocorrerá por não estarem presentes seus requisitos legais, a execução terá regular prosseguimento e os depósitos já realizados pelo executado serão convertidos em penhora – os quais, provavelmente, serão levantados pelo exequente, pois o executado já reconheceu seu crédito por ocasião da proposta de parcelamento e lhe restará espaço muito restrito para eventuais defesas (v. item 10, infra). Se o valor convertido em penhora não for suficiente para a integral garantia do juízo, será necessário buscar outros bens a serem penhorados. 8. Um caso raro de indeferimento: garantia completa do juízo e em dinheiro. Há uma situação peculiar em que o parcelamento poderá ser indeferido, por violar a exigência do art. 805, parágrafo único (alternativa mais eficaz à execução ou, pelo menos, igualmente efetiva). Tal se passa quando o juiz, ao apreciar a proposta de parcelamento, verifica que já houve penhora suficiente a garantir integralmente a execução e em dinheiro (incluindo a hipótese de bloqueio eletrônico de ativos financeiros pelo sistema BacenJud), situação em que o seu levantamentopelo exequente seria muito mais efetivo que aguardar o pagamento das parcelas subsequentes pelo executado. Note-se que, embora rara, tal hipótese não é de todo inviável, pois o prazo para pagamento espontâneo pelo executado, de três dias, contados da citação (art. 829, caput ) se encerra anteriormente ao prazo para os embargos (art. 915). A penhora se torna possível, portanto, antes mesmo que se esgote o prazo para a proposta de parcelamento. Além disso, a suspensão da execução apenas ocorre com o efetivo deferimento da proposta de parcelamento (§ 3º), razão pela qual, antes que tal ocorra, o processo prosseguirá normalmente. 9. Inadimplência do executado. Inaplicabilidade do § 5º aos casos de recuperação judicial ou extrajudicial do executado. O inadimplemento pelo executado do pagamento de qualquer das parcelas vincendas acarreta as seguintes consequências: (i) vencimento antecipado de todas as prestações subsequentes;(ii) multa de dez por cento sobre todas as prestações não pagas; (iii) retomada da execução (na redação do dispositivo, “reinício”, embora a suspensão não tenha implicado encerramento de nenhum ato executivo). Se havia bens do executado penhorados antes que tivesse sido deferido o parcelamento, eles continuarão submetidos à constrição, observados o limite do saldo devedor e a exigência de que a penhora guarde correspondência com o valor executado (art. 831). Se algum depósito foi realizado pelo executado e ainda não havia sido levantado pelo exequente, será convertido em penhora – o qual, provavelmente, será levantado pelo exequente, pois o executado já reconheceu seu crédito por ocasião da proposta de parcelamento e lhe restará espaço muito restrito para eventuais defesas (v. item 10, infra). 9.1. O que acontece se deferido o processamento da recuperação judicial do executado no curso do parcelamento? O deferimento do processamento da recuperação judicial implica a suspensão de todas as execuções em face do devedor (art. 6º, caput, da Lei 11.101/2005), de sorte que a falta de pagamento das parcelas remanescentes não pode implicar as consequências previstas no § 5º do dispositivo em análise, sob pena de permitir o prosseguimento de uma execução individual à revelia da recuperação judicial. O mesmo se diga no caso de homologação do plano de recuperação extrajudicial do executado (art. 163, § 1º, da Lei 11.101/2005), desde que o crédito objeto da execução em que houve o parcelamento esteja abrangido pelo plano. 10. Renúncia ao direito de opor embargos ou a qualquer outra forma de defesa. Preclusão lógica. Limites da renúncia. Nos termos do § 6º, a opção pelo parcelamento regulado no dispositivo em tela implica renúncia do executado ao direito de opor embargos. Nem poderia ser diferente, pois um dos requisitos para que seja deferida a proposta de parcelamento é o reconhecimento pelo executado do crédito do exequente. Seria um flagrante comportamento contraditório, em violação à boa-fé objetiva no processo (art. 5º do CPC/2015), o executado primeiro reconhecer o crédito do exequente e, em momento posterior, pretender apresentar embargos. O executado, ao reconhecer o crédito do exequente, praticou ato incompatível com o oferecimento de embargos à execução. 10.1. Ainda tendo em vista a proibição do comportamento contraditório, embora o dispositivo apenas se refira à renúncia ao direito de opor embargos (principal forma de defesa do executado), impõe-se a interpretação extensiva, configurando-se a renúncia para todas as modalidades de defesa, como a exceção de pré-executividade e a ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica – v. comentários ao art. 914, item 2). Mais do que simples preclusão lógica, a qual produz efeitos endoprocessuais, trata-se de verdadeira renúncia ao direito de ação (embargos ou ação autônoma de impugnação). Se o executado, ainda assim, insistir em tais defesas, cometerá ato atentatório à dignidade da justiça (art. 774, II). 10.2. Há, porém, um limite temporal à renúncia do executado, a qual abrange apenas o próprio crédito executado e a validade dos atos executivos praticados até o momento em que foi apresentada a proposta de parcelamento. É lícito ao executado, uma vez retomada a marcha processual executiva, questionar a validade dos atos executivos posteriores, mediante simples petição, na forma do art. 917, § 1º. Nesse sentido, por exemplo, se após a inadimplência das parcelas vincendas, a execução volta a correr e vem a ser penhorado um bem de família do executado, este poderá questionar a constrição judicial no prazo de quinze dias da ciência do ato. 11. Inaplicabilidade ao cumprimento de sentença. De maneira a encerrar expressiva controvérsia que se desenvolveu ao tempo do CPC/1973, o § 7º prevê que a proposta de parcelamento regulada no dispositivo em análise não se aplica ao cumprimento de sentença. Isso porque, tratando-se de título executivo judicial, o exequente já teve que aguardar todo o trâmite da fase de conhecimento, não sendo razoável exigir que espere por mais seis meses em caso de parcelamento. Além disso, o executado teve toda a fase de conhecimento para chegar a uma autocomposição com o exequente, o que também não se verificou. Considerou o legislador, portanto, que deveria nesse cenário preponderar a exigência de efetividade da tutela executiva, o que não impede que o executado obtenha o parcelamento de seu débito mediante transação com o exequente. 12. Aplicabilidade em caráter subsidiário à ação monitória. Na ação monitória fundada em obrigação pecuniária, o réu também poderá pedir o parcelamento da dívida (art. 701, § 5º), cujo procedimento segue, em linhas gerais, o art. 916. A proposta de parcelamento deve ser formulada no prazo para os embargos monitórios, que é o mesmo para cumprimento do mandado de pagamento (arts. 701, caput, e 702, caput). Para maiores detalhes sobre o assunto, v. comentários ao art. 701, item 12. 13. Inaplicabilidade à execução fiscal. O parcelamento previsto na regra em tela não se aplica à execução fiscal, notadamente de tributos. Não se deve cogitar de aplicação subsidiária do CPC/2015 nesse aspecto, uma vez que há regras específicas para o parcelamento de tais obrigações (v., por exemplo, art. 37-B da Lei 10.522/2002, referente a créditos de autarquias e fundações públicas federais, de qualquer natureza), as quais devem prevalecer sobre a regra geral de parcelamento em destaque. JURISPRUDÊNCIA SELECIONADA: a)Enunciado 331 do FPPC: “O pagamento da dívida objeto de execução trabalhista fundada em título extrajudicial pode ser requerido pelo executado nos moldes do art. 916”. CPC/2015 CPC/1973 Art. 917. Nos embargos à execução, o executado poderá alegar: Art. 745. Nos embargos, poderá o executado alegar: I – inexequibilidade do título ou inexigibilidade da obrigação; II –penhora incorreta ou avaliação errônea; III – excesso de execução ou cumulação indevida de execuções; IV – retenção por benfeitorias necessárias ou úteis, nos casos de execução para entrega de coisa certa; V – incompetência absoluta ou relativa do juízo da execução; VI – qualquer matéria que lhe seria lícito deduzir como defesa em processo de conhecimento. § 1º A incorreção da penhora ou da avaliação poderá ser impugnada por simples petição, no prazo de 15 (quinze) dias, contado da ciência do ato. § 2º Há excesso de execução quando: I – o exequente pleiteia quantia superior à do título; II – ela recai sobre coisa diversa daquela declarada no título; III – ela se processa de modo diferente do que foi determinado no título; IV – o exequente, sem cumprir a prestação que lhe corresponde, exige o I – nulidade da execução, por não ser executivo o título apresentado; II – penhora incorreta ou avaliação errônea; III – excesso de execução ou cumulação indevida de execuções; IV – retenção por benfeitorias necessárias ou úteis, nos casos de título para entrega de coisa certa (art. 621); V – qualquer matéria que lhe seria lícito deduzir como defesa em processo de conhecimento. Art. 743. Há excesso de execução: I – quando o credor pleiteia quantia superior à do título; II – quando recai sobre coisa diversa daquela declarada no título; III – quando se de modo diferente do que foi determinado na sentença; IV – quando o credor, sem cumprir a prestação que lhe corresponde, exige o adimplemento da do devedor (art. 582); V – se o credor não provar que a condição se realizou. Art. 739-A. (...) adimplemento da prestação do executado; V – o exequente não prova que a condição se realizou. § 3º Quando alegar que o exequente, em excesso de execução, pleiteia quantia superior à do título, o embargante declarará na petição inicial o valor que entende correto, apresentando demonstrativo discriminado e atualizado de seu cálculo. § 4º Não apontado o valor correto ou não apresentado o demonstrativo, os embargos à execução: I – serão liminarmente rejeitados, sem resolução de mérito, se o excesso de execução for o seu único fundamento; II – serão processados, se houver outro fundamento, mas o juiz não examinará a alegação de excesso de execução. § 5º Nos embargos de retenção por benfeitorias, o exequente poderá requerer a compensação de seu valor com o dos frutos ou dos danos considerados devidos pelo executado, cumprindo ao juiz, para a apuração dos respectivos valores, nomear perito, observando-se, então, o art. 464. § 5º Quando o excesso de execução for fundamento dos embargos, o embargante deverá declarar na petição inicial o valor que entende correto, apresentando memória do cálculo, sob pena de rejeição liminar dos embargos ou de não conhecimento desse fundamento. Art. 745. (...) § 1º Nos embargos de retenção por benfeitorias, poderá o exequente requerer a compensação de seu valor com o dos frutos ou danos considerados devidos pelo executado, cumprindo ao juiz, para a apuração dos respectivos valores, nomear perito, fixando-lhe breve prazo para entrega do laudo. § 2º O exequente poderá, a qualquer tempo, ser imitido na posse da coisa, prestando caução ou depositando o valor devido pelas benfeitorias ou resultante da compensação. § 6º O exequente poderá a qualquer tempo ser imitido na posse da coisa, prestando caução ou depositando o valor devido pelas benfeitorias ou resultante da compensação. § 7º A arguição de impedimento e suspeição observará o disposto nos arts. 146 e 148. Comentários de Andre Vasconcelos Roque: 1. Matérias suscetíveis de alegação em embargos (causas de pedir): cognição plena. Ao contrário do que se verifica na impugnação ao cumprimento de sentença (arts. 525 e 535), não há limitação das matérias que podem ser alegadas nos embargos à execução fundada em título extrajudicial. Apesar de o legislador relacionar as defesas mais comuns nos incisos I a V, encerra o rol com uma hipótese aberta no inciso VI, que se refere a qualquer matéria que poderia ser deduzida como defesa em processo de conhecimento. Exemplos de questões não relacionadas nos incisos I a V são o pagamento da obrigação ou a alegação de compensação. Por esse motivo, diz-se que os embargos do executado são uma ação autônoma de cognição plena, em que não há limitação às questões que podem ser suscitadas, as quais podem versar sobre fatos anteriores ou posteriores à formação do título executivo. Nem poderia ser diferente: é que, ao contrário do que se passa normalmente no cumprimento de sentença, o título executivo extrajudicial foi formado fora do Poder Judiciário, mediante algum negócio jurídico ou ato administrativo, sendo o processo de execução a primeira oportunidade em que este será submetido à apreciação judicial. 1.1. Como os embargos são um processo autônomo e incidental à execução, os fundamentos que vierem a ser alegados consistem, na verdade, em verdadeiras causas de pedir, o que será relevante para definir os limites objetivos da coisa julgada material na hipótese de trânsito em julgado de decisão que apreciar o mérito das questões veiculadas nos embargos. 1.2. Eventualmente, o direito material pode limitar as matérias que podem ser suscitadas nos embargos, tal como ocorre em relação aos títulos de crédito revestidos de abstração e que tenham circulado, em que não se admite a discussão de sua causa subjacente (causa debendi). Tal limitação, contudo, não infirma o inciso VI do art. 917, pois mesmo em processo de conhecimento tais matérias não poderiam ser veiculadas como defesa. 1.3. Poder veicular qualquer defesa não se confunde com a possibilidade de formulação de qualquer pedido em embargos. Indevido, por exemplo, pleitear em embargos em que o exequente-embargado seja condenado a indenizar o executado-embargante por danos materiais ou morais. Tal pedido somente poderá ser veiculado por ação autônoma. 2. Inexequibilidade do título. O executado poderá alegar que o título apresentado não tem força executiva, seja por algum defeito formal (por exemplo, nota promissória sem data de emissão), ou porque não está aperfeiçoado o seu fato gerador, ou porque o documento apresentado não se compreende no rol de títulos executivos extrajudiciais (por exemplo, documento particular assinado por apenas uma testemunha). Compreendem-se ainda, nesta hipótese de defesa, a falta de certeza ou liquidez da obrigação representada pelo título executivo. 2.1. Obrigação certa é aquela expressa no título executivo e sobre a qual há um mínimo de segurança quanto à sua existência. Evidentemente, tal certeza não se revela absoluta, até porque tal discussão pode consistir precisamente no mérito dos embargos. Suficiente, portanto, para atender ao requisito da certeza, que se empreenda uma cogniçãosuperficial a esse respeito, em regra limitada aos requisitos extrínsecos (de forma) do título executivo. 2.2. Liquidez refere-se à expressa determinação do objeto da liquidação, em seus aspectos qualitativos (por exemplo, individuação da coisa a ser entregue ao exequente) e quantitativos (delimitação do quantum debeatur da obrigação de pagar quantia certa). Observe-se não haver falta de liquidez na mera necessidade de realização de cálculos aritméticos (art. 786, parágrafo único), providência corriqueira sobretudo para fins de atualização monetária da obrigação. 3. Inexigibilidade da obrigação. A inexigibilidade da obrigação refere-se à ausência de demonstração, pelo exequente, de que se implementou a condição ou de que ocorreu o termo, conforme exigido pelo art. 798, I, c e d. O juiz, contudo, deve dar ao exequente a oportunidade de apresentar tal prova antes de julgar os embargos. Se, por exemplo, a condição se implementou apenas enquanto eram processados os embargos ou se semelhante situação se verificou quanto ao advento do termo (por exemplo, obrigação que se venceu somente após o ajuizamento da execução), o magistrado poderá considerar tal fato superveniente (art. 493) e julgar improcedentes os embargos. No entanto, a distribuição dos ônus sucumbenciais também deverá ter por perspectiva o princípio da causalidade e o ajuizamento injustificado da execução, pelo menos enquanto não implementada a condição ou verificado o termo. Outra situação que pode ser alegada nos embargos a título de inexigibilidade da obrigação é a prescrição da obrigação. 4. Penhora incorreta ou avaliação errônea. Trata-se de hipótese que apenas pode ser suscitada na execução relativa a obrigação de pagar quantia certa. A penhora “incorreta” é aquela realizada sobre bens impenhoráveis (art. 833 da Lei 8.009/1990), que deixa de observar a gradação legal do art. 835, que implica excessiva onerosidade ao executado (arts. 805 e 836) ou, de forma geral, a que deixa de observar as formalidades estabelecidas em lei. Avaliação “errônea”, por sua vez, é a que aponta valor em desconformidade com o preço justo do bem penhorado ou a que se realiza sem atender às formalidades legais. 4.1. Na sistemática estabelecida pelo CPC/2015, em regra a penhora e a avaliação acabarão por se realizar quando já esgotado o prazo para os embargos. Por esta razão, o legislador estabeleceu, no § 1º do art. 917, que eventuais vícios da penhora ou da avaliação, se realizados tais atos após o prazo para os embargos, poderão ser questionados pelo executado por simples petição, no prazo de quinze dias (úteis, por se tratar de prazo processual), contado da ciência do ato. 5. Excesso de execução. Qualquer desconformidade entre o pleiteado pelo exequente na petição inicial e o efetivamente devido, de acordo com os parâmetros estabelecidos no título executivo, caracteriza excesso de execução. Não é só, portanto, a execução em valor superior a que tem direito o exequente que enseja o excesso de execução, conforme definido no CPC/2015. Nesse sentido, o § 2º estabelece haver excesso quando o exequente pleiteia quantia superior à do título (obrigação de pagar quantia certa ou de entregar coisas fungíveis); ou a atividade executiva recai sobre coisa diversa daquela declarada no título (obrigação de entregar coisa); ou a execução se processa de modo diferente do que foi determinado no título (obrigação de fazer ou não fazer distinta da indicada no título ou no caso em que o exequente busca o cumprimento de obrigação de natureza diversa da que foi reconhecida no título executivo, como a execução de uma obrigação de fazer no lugar de outra de pagar quantia certa – o que configura mais uma inadequação do rito executivo eleito pelo exequente do que propriamente excesso de execução). As últimas duas hipóteses relacionadas no art. 917, § 2º (exequente que não cumpre prestação que lhe corresponde e que não prova que a condição se realizou), a rigor, se enquadram como inexigibilidade da obrigação, já contemplada no inciso I do art. 917. 5.1. No caso em que se afirma excesso por ser o valor executado superior ao devido, não basta ao executado formular tal alegação genericamente. Nesse sentido, exige o § 3º que declare já nos embargos o valor que considera correto (o qual ficará incontroverso e, portanto, não será afetado pelos embargos, nem por seu eventual efeito suspensivo, a não ser que em virtude de algum outro fundamento suscitado pelo executado que abranja toda a execução). Deve o executado, ainda, apresentar demonstrativo discriminado e atualizado do crédito, demonstrando de que maneira chegou ao valor que entende como adequado. Esse demonstrativo, por questão de igualdade de tratamento no processo, também deve atender aos requisitos do art. 798, parágrafo único e, se for o executado beneficiário de gratuidade de justiça, poderá pedir para que a planilha de cálculos seja elaborada pelo contador judicial, com fundamento no art. 98, VII. A rigor, não basta apenas que o executado indique formalmente o valor que entende correto e junte um demonstrativo, devendo, sempre que possível, desenvolver argumentação apontando especificamente por que os cálculos do exequente estão errados. O ônus da impugnação especificada (art. 341), portanto, aplica-se também à alegação de excesso de execução veiculada nos embargos, impedindo que tal questão seja suscitada pelo executado com objetivos meramente protelatórios, sem o menor fundamento, em contrariedade à boa-fé processual (art. 5º). A consequência para o não atendimento a tais exigências será a rejeição liminar dos embargos se o excesso de execução for o único fundamento suscitado ou, estando estes amparada em algum outro fundamento, o não conhecimento pelo juiz da alegação de excesso. 5.2. O CPC/2015 estabelece, como um de seus princípios fundamentais, a preponderância do julgamento do mérito (art. 4º). Desse modo, se o executado alega excesso de execução, mas deixa de indicar o valor que entende correto ou não apresenta o demonstrativo discriminado do crédito, deverá o julgador conceder prazo razoável para que tal vício seja sanado e, apenas na hipótese de desatendimento à determinação judicial, aplicar as consequências previstas no § 4º, deixando de conhecer do excesso de execução invocado (Enunciado 95 da I Jornada de Direito Processual Civil, aplicável subsidiariamente). Deve ser superada, assim, a orientação da jurisprudência consolidada ao tempo do CPC/1973 que entende não ser possível a emenda em tal circunstância (STJ, REsp 1.387.248, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 07.05.2014). 6. Cumulação indevida de execuções. Os requisitos para a cumulação de execuções estão dispostos no art. 780. São eles: (i) identidade subjetiva no polo passivo; (ii) competência absoluta do juízo;e (iii) identidade de procedimento para as diversas execuções, que podem estar lastreadas em títulos distintos. 6.1. Estabelecidos os requisitos, não é possível cumular execução fundada em título judicial com outra amparada em título extrajudicial, pois são diferentes os procedimentos. Pela mesma razão, não deve o exequente cumular no mesmo processo a tutela executiva de obrigações de naturezas distintas. Se o título extrajudicial for objetivamente complexo, contemplando, por exemplo, obrigações de fazer e de pagar quantia certa, deverá o exequente propor duas execuções distintas. 6.2. Outro requisito importante para a cumulação de execuções é que haja identidade pelo menos parcial de executados. Nada impede, nesse sentido, que uma execução seja proposta relativamente a duas obrigações de natureza idêntica (por exemplo, pagar quantia certa), sendo que um dos executados responde por ambas e o outro, por apenas uma delas. Contudo, se tal identidade no polo passivo não existir, sequer parcialmente, inviável será a cumulação, devendo o exequente ajuizar duas execuções distintas. 6.3. O acolhimento da alegação de cumulação indevida de execuções não acarreta a extinção completa do processo. Se inexiste identidade ao menos parcial dos executados, o exequente será intimado para indicar contra qual deles pretende prosseguir. Se o problema for a incompetência absoluta do juízo para um ou alguns dos pedidos formulados, somente estes serão extintos. Se os procedimentos forem incompatíveis, o exequente será intimado para indicar qual das obrigações pretende continuar a executar, extinguindo-se a execução em relação às demais. Somente no caso de inércia do exequente, aí sim, será o processo totalmente extinto. 7. Retenção por benfeitorias necessárias ou úteis. Tal matéria somente pode ser alegada na ação de execução destinada à entrega de coisa e, ainda assim, se o executado realizou benfeitorias úteis (“as que aumentam ou facilitam o uso do bem” – art. 96, § 2º, do Código Civil) ou necessárias (“as que têm por fim conservar o bem ou evitar que se deteriore” – art. 96, § 3º, do Código Civil) no bem objeto da execução e desde que o direito material lhe assegure direito de retenção. O direito de retenção consiste na possibilidade, conferida pelo ordenamento jurídico, de o credor (ora executado) manter consigo a posse de um bem do devedor (ora exequente) em garantia ao pagamento de determinada obrigação (qual seja, indenização pelas benfeitorias necessárias ou úteis realizadas). São exemplos de direito de retenção em decorrência da realização de benfeitorias os arts. 578 (locatário que faz benfeitorias necessárias, ou úteis, estas últimas se feitas com expresso consentimento do locador) e 1.219 (possuidor de boa-fé que realiza benfeitorias necessárias e úteis) do Código Civil, bem como o art. 35 da Lei 8.245/1991 (locatário de imóvel urbano que realiza benfeitorias necessárias, ou úteis, estas últimas se feitas autorizadas locador, podendo o contrato dispor em sentido contrário e afastar qualquer direito de retenção). 7.1. O executado/embargante deve especificar nos embargos quais benfeitorias foram feitas no bem objeto da execução e, sempre que possível, indicar o valor que entende devido. Não se pode admitir a alegação genérica de realização de benfeitorias, sob pena de rejeição liminar dos embargos (art. 918, III) ou não conhecimento desse argumento. O ônus da prova de realização das benfeitorias, em princípio, recairá sobre o executado/embargante, por se tratar de fato impeditivo do direito do exequente. 7.2. Em resposta aos embargos fundados em direito de retenção decorrente da realização de benfeitorias, o exequente poderá pedir a compensação do valor que deve com os frutos ou danos considerados devidos pelo executado. Trata-se, a rigor, de verdadeira reconvenção excepcionalmente admitida pelo legislador em sede de embargos, tanto que, se o saldo resultante da compensação dos frutos ou danos com o valor devido a título de indenização por benfeitorias for favorável ao exequente, este poderá cobrá-lo nos autos da execução (art. 810, II). Se impossível a indicação dos valores relativos à indenização por benfeitorias a serem pagos ao executado ou dos frutos ou danos em favor do exequente mediante prova documental, o juiz deverá determinar a realização de prova pericial para este fim. 7.3. Antes mesmo do julgamento dos embargos fundados em direito de retenção, o exequente poderá se imitir na posse da coisa, desde que preste caução idônea (real ou fidejussória) ou deposite valor suficiente a garantir o pagamento da indenização pelas benfeitorias ou, ainda, do saldo resultante de eventual compensação com os frutos ou danos devidos pelo executado. Como se vê, a alegação de retenção é meramente dilatória: não afasta a obrigação de entregar a coisa, apenas postergando-a até que seja paga a indenização pelas benfeitorias ou que o exequente preste alguma garantia de que efetuará tal pagamento. 8. Incompetência absoluta ou relativa do juízo da execução. Caso a execução tenha sido proposta em juízo absoluta ou relativamente incompetente (por exemplo, por não terem sido observadas as regras do art. 781), tais matérias também devem ser veiculadas nos embargos. Assim como se passa com o processo de conhecimento, não se prevê mais no CPC/2015 a exceção de incompetência na execução. Evidentemente, os regimes jurídicos da incompetência absoluta e relativa são inconfundíveis. A incompetência absoluta poderá ser conhecida de ofício pelo juiz ou alegada a qualquer tempo pelo executado (art. 64, § 1º), ainda que por simples petição, após o prazo dos embargos. A incompetência relativa, por sua vez, depende de alegação pelo executado e, se não suscitada nos embargos, acarreta a prorrogação de competência (art. 65). 9. Alegação de impedimento ou suspeição. Além de suscitar qualquer defesa por meio dos embargos, poderá o executado, ainda, suscitar em petição autônoma o impedimento ou suspeição do juiz, do membro do Ministério Público, dos auxiliares da justiça ou dos demais sujeitos imparciais do processo, devendo ser observadas as regras estabelecidas nos arts. 146 e 148, que disciplinam de forma detalhada a arguição de impedimento ou suspeição. CPC/2015 CPC/1973 Art. 918. O juiz rejeitará liminarmente os embargos: I – quando intempestivos; II – nos casos de indeferimento da petição inicial e de improcedência liminar do pedido; III – manifestamente protelatórios. Parágrafo único. Considera-se conduta atentatória à dignidade da justiça o oferecimento de embargos manifestamente protelatórios. Art. 739. O juiz rejeitará liminarmente os embargos: I – quando intempestivos; II – quando inepta a petição (art. 295); ou III – quando manifestamente protelatórios. Comentários de Andre Vasconcelos Roque:1. Rejeição liminar dos embargos. Apresentados os embargos, o juiz poderá rejeitá-los liminarmente – ou seja, antes da citação do exequente para sobre eles se manifestar – nas hipóteses do art. 918. São situações em que, ao apreciar a petição inicial dos embargos, o juiz profere um despacho liminar negativo, não chegando sequer a recebê-los. Como o exequente sequer foi citado para responder aos embargos, não haverá condenação do embargante em honorários sucumbenciais. 2. Intempestividade dos embargos. A primeira hipótese de rejeição liminar se refere à intempestividade dos embargos. Como não há que se cogitar de embargos intempestivos por terem sido apresentados antes do início do prazo, nos termos do art. 218, § 4º, e como os embargos não exigem prévia penhora, depósito ou caução (art. 914, caput), só pode haver intempestividade se os embargos forem oferecidos após o esgotamento do prazo regulado no art. 915. 2.1. Controverte-se a doutrina a respeito do fundamento pelo qual se veda o oferecimento de embargos após esgotado o prazo legal. Há quem sustente tratar-se de preclusão temporal (por exemplo, DIDIER JR., Fredie et al. Curso de direito processual civil – Execução. Salvador: JusPodivm, 2017, v. 5, p. 766). Outros apontam que a preclusão produz apenas efeitos endoprocessuais e os embargos são uma ação autônoma, de forma que o encerramento do prazo do art. 915 comprometeria, em verdade, o interesse processual (sob o aspecto da adequação) em relação à via dos embargos (nesse sentido, BASTOS, Antonio Adonias Aguiar. Comentários ao art. 916. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al. (coord.). Breves comentários ao novo Código de Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 2.287; NEVES, Daniel Amorim Assumpção, Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 1.462), sem prejuízo da possibilidade de o executado ajuizar ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica – v. comentários ao art. 914, item 2). Independentemente do fundamento teórico adotado, é indiscutível o fato de que, encerrado o prazo estabelecido no art. 915, veda-se o oferecimento dos embargos, sob pena de rejeição liminar. 2.2. Eventualmente, se o executado alegou alguma matéria de ordem pública em sede de embargos intempestivos, como aquelas relacionadas no art. 803, nada obsta que o juiz os receba como simples petição e aprecie tal questão (a qual poderia ser, de todo modo, conhecida de ofício a qualquer tempo). O magistrado não poderá, todavia, examinar as matérias que não sejam de ordem pública, devendo o executado, se assim quiser, propor a competente ação autônoma de impugnação. 3. Indeferimento da petição inicial. O CPC/2015 ampliou as hipóteses de rejeição liminar dos embargos. O código anterior se referia apenas ao caso de inépcia da petição inicial, ao passo que o atual indica que todas as causas de indeferimento da petição inicial (art. 330) podem conduzir à rejeição liminar. Os embargos consistem em ação autônoma incidental à execução (v. comentários ao art. 914, item 4). Uma das consequências dessa natureza jurídica dos embargos é que estes devem ser apresentados por meio de uma petição inicial, a qual deve observar, no que couber, os requisitos do art. 319 (o único requisito que não se aplica é o que se encontra disposto no inciso VII, pois não há previsão no procedimento dos embargos de designação obrigatória de audiência de conciliação ou de mediação). Havendo qualquer defeito ou irregularidade sanável, o juiz deverá conceder o prazo de quinze dias ao embargante para correção (art. 321), indicando com precisão o que deve ser corrigido ou complementado. Tratando-se de vício insanável ou no caso de inércia do embargante em atender à determinação de correção ou complementação, será o caso de indeferimento da petição inicial. 4. Improcedência liminar do pedido. Ċonfigurado qualquer dos casos de improcedência liminar do pedido (art. 332), os embargos também deverão ser liminarmente rejeitados. Observe-se, portanto, que nem sempre a rejeição liminar implica extinção dos embargos sem resolução do mérito, pois o julgamento liminar de improcedência é típica decisão que resolve o mérito do processo e, uma vez verificado o trânsito em julgado, forma coisa julgada material (v. comentários ao art. 332, item 10). 5. Embargos manifestamente protelatórios. Não é fácil interpretar o inciso III do art. 918, pois se trata de um conceito jurídico indeterminado, de difícil compreensão. A rigor, literalmente tomado, sequer seria possível cogitar de embargos “protelatórios”, tratando-se de dispositivo concebido ao tempo do CPC/1973, anterior à reforma promovida pela Lei 11.382/2006. Nessa época, em que os embargos contavam com efeito suspensivo automático, compreendia-se que o executado que os apresentava destituídos de qualquer fundamento minimamente consistente lograva, ainda assim, obstar a marcha processual executiva enquanto os embargos não fossem julgados. Desde a Lei 11.382/2006, no entanto, os embargos não possuem efeito suspensivo automático, o que foi preservado no CPC/2015 (art. 919, caput ). Dessa forma, ou bem os embargos não terão o condão de suspender a execução (e não poderão ser protelatórios) ou lhes será atribuído excepcional efeito suspensivo pelo juiz (o qual exige, na forma do art. 919, § 1º, a plausibilidade dos argumentos articulados nos embargos, o que também afasta o caráter protelatório). 5.1. Abstraída a imprecisão conceitual do dispositivo, verifica-se que se trata de hipótese de improcedência prima facie dos embargos, situação na qual o juiz já constata, antes mesmo da citação do exequente, que o embargante não tem a mínima chance de vitória. Não deixa de ser, portanto, um caso de julgamento liminar de improcedência fora das situações tipificadas no art. 332 (que exigem, em regra, contrariedade a precedente jurisprudencial ou enunciado de súmula), mas caracterizando, igualmente, apreciação do mérito dos embargos. 5.2. Exemplo de embargos manifestamente protelatórios são aqueles fundados em alegação genérica de excesso de execução, sem que o executado tenha apontado o valor que entende correto ou apresentado o demonstrativo discriminado e atualizado de seu cálculo (art. 917, § 3º). De todo modo, na hipótese de alegação genérica de excesso de execução, o juiz deve primeiro dar ao executado a oportunidade de emenda e, apenas na hipótese de desatendimento, rejeitar liminarmente os embargos (nesse sentido, Enunciado 95 da I Jornada de Direito Processual Civil). 5.3. Outros exemplos se passam nos casos em que o embargante sustenta tese jurídica que contraria texto expresso de lei ou suas alegações contrariam fatos já definitivamente comprovados no processo ou, ainda, afrontam decisão judicial anterior transitada em julgado (por exemplo,ressuscitando tese já afastada em anterior exceção de pré-executividade). 5.4. Recomenda-se, contudo, que o julgador atue com parcimônia, só rejeitando liminarmente os embargos por serem manifestamente protelatórios quando não exista qualquer chance de êxito do embargante. Na dúvida, e ausente qualquer das outras hipóteses de rejeição liminar, deve o magistrado dar regular prosseguimento aos embargos. 5.5. Uma vez verificado tratar-se de embargos manifestamente protelatórios, deve o juiz não somente rejeitá-los liminarmente, como aplicar as sanções previstas no art. 774, parágrafo único, contra o embargante, pois tal conduta caracteriza ato atentatório à dignidade da justiça, na forma do parágrafo único do art. 918. 6. Ausência de recolhimento do preparo. Outra hipótese de rejeição liminar não prevista no dispositivo em tela ocorre quando o embargante, mesmo após devidamente intimado, na forma do art. 290, deixa de recolher o preparo exigido para o processamento dos embargos, situação em que será determinado o cancelamento da distribuição. 7. Recurso cabível. Via de regra, contra a decisão que rejeita liminarmente os embargos, qualquer que seja o seu conteúdo, caberá apelação, pois se trata de pronunciamento com natureza de sentença (art. 203, § 1º). Referida apelação não terá efeito suspensivo automático (art. 1.012, § 1º, III). Excepcionalmente, porém, é possível que a rejeição liminar somente atinja parte do objeto dos embargos (por exemplo, no caso de embargos com alegação genérica de excesso de execução, bem como outros fundamentos aduzidos de forma regular), situação em que o recurso cabível será o agravo de instrumento, com fundamento no art. 354, parágrafo único (se a rejeição liminar tiver conteúdo de decisão sem resolução do mérito, como no indeferimento da petição inicial) ou no art. 1.015, II (se implicar resolução do mérito parcial, como nas hipóteses de julgamento liminar de improcedência ou de embargos manifestamente protelatórios). Obviamente, no caso de embargos intempestivos, a rejeição liminar atingirá a sua totalidade. 8. Coisa julgada. A decisão de rejeição liminar dos embargos apresenta conteúdo variável, podendo implicar ou não a formação de coisa julgada material. Nas hipóteses de embargos intempestivos ou de indeferimento da petição inicial, não haverá exame sobre o mérito dos embargos e, portanto, não se formará coisa julgada material, sendo ainda possível a discussão das questões veiculadas nos embargos por meio de ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica). Em relação aos casos de julgamento liminar de improcedência e de embargos com caráter manifestamente protelatório, o juiz deverá necessariamente se debruçar sobre a causa de pedir e o pedido formulado nos embargos, o que implica julgamento de mérito e, uma vez transitada aludida decisão em julgado, a formação de coisa julgada material, impedindo a rediscussão das matérias suscitadas pelo embargante em qualquer outro processo. CPC/2015 CPC/1973 Art. 919. Os embargos à execução não terão efeito suspensivo. § 1º O juiz poderá, a requerimento do embargante, atribuir efeito suspensivo aos embargos quando verificados os requisitos para a concessão da tutela provisória, e desde que a execução já esteja garantida por penhora, depósito ou caução suficientes. § 2º Cessando as circunstâncias que a motivaram, a decisão relativa aos efeitos dos embargos poderá, a requerimento da parte, ser modificada ou revogada a qualquer tempo, em decisão fundamentada. § 3º Quando o efeito suspensivo atribuído aos embargos disser respeito apenas a parte do objeto da execução, esta prosseguirá quanto à parte restante. Art. 739-A. Os embargos do executado não terão efeito suspensivo. § 1º O juiz poderá, a requerimento do embargante, atribuir efeito suspensivo aos embargos quando, sendo relevantes seus fundamentos, o prosseguimento da execução manifestamente possa causar ao executado grave dano de difícil ou incerta reparação, e desde que a execução já esteja garantida por penhora, depósito ou caução suficientes. § 2º A decisão relativa aos efeitos dos embargos poderá, a requerimento da parte, ser modificada ou revogada a qualquer tempo, em decisão fundamentada, cessando as circunstâncias que a motivaram. § 3º Quando o efeito suspensivo atribuído aos embargos disser respeito apenas a parte do objeto da execução, essa prosseguirá quanto à parte restante. § 4º A concessão de efeito suspensivo aos embargos oferecidos por um dos executados não suspenderá a execução contra os que não embargaram, quando o respectivo fundamento disser respeito exclusivamente ao embargante. § 4º A concessão de efeito suspensivo aos embargos oferecidos por um dos executados não suspenderá a execução contra os que não embargaram, quando o respectivo fundamento disser respeito exclusivamente ao embargante. § 5º A concessão de efeito suspensivo não impedirá a efetivação dos atos de substituição, de reforço ou de redução da penhora e de avaliação dos bens. (...) § 6º A concessão de efeito suspensivo não impedirá a efetivação dos atos de penhora e de avaliação dos bens. Comentários de Andre Vasconcelos Roque: 1. Regra geral: não há efeito suspensivo automático. Os embargos não têm efeito suspensivo automático, o que significa dizer que sua simples apresentação não impede o prosseguimento da execução, nem mesmo em relação aos atos de expropriação. Nada obsta, inclusive, a satisfação do crédito executado na pendência dos embargos, ressalvada a responsabilidade objetiva do exequente em indenizar eventuais prejuízos ocasionados ao executado na hipótese de acolhimento dos embargos, com a restituição das partes ao estado anterior (art. 776). 2. Concessão excepcional de efeito suspensivo. O efeito suspensivo dos embargos depende de decisão que o conceda (ope judicis) e está condicionado ao preenchimento de quatro requisitos: (i) requerimento do executado (não pode ser concedido de ofício, pois o efeito suspensivo tutela exclusivamente o interesse do executado, não dizendo respeito à efetividade da tutela jurisdicional); (ii) presença dos requisitos para a tutela provisória; e (iii) garantia integral do juízo com penhora, caução ou depósito suficientes. 2.1. A apreciação do requerimento de atribuição de efeito suspensivo normalmente ocorre por ocasião do recebimento dos embargos, mas nada impede que tal se verifique em etapa procedimental posterior, por exemplo, nos casos de tutela da evidência fundados no art. 313, incisos I e IV, os quais só podem se configurar após a manifestação do exequente sobre os embargos (art. 311, parágrafo único). Nada impede, ainda, que o próprio embargante pleiteie a concessão do efeito suspensivo em etapa mais avançada do procedimento dos embargos, por exemplo, porque acabou de ser designada para a realização do leilão judicial.2.2. Observe-se que o efeito suspensivo apenas obsta a marcha processual da execução, mas não implica desfazimento de nenhum ato executivo, o que apenas (eventualmente) ocorrerá com o julgamento de procedência dos embargos. Dessa forma, se um bem do executado foi penhorado antes da concessão do efeito suspensivo, ele permanecerá submetido à constrição judicial. 3. Requisitos para a tutela provisória como pressuposto para o efeito suspensivo. O CPC/2015 ampliou as hipóteses de concessão de efeito suspensivo aos embargos, pois se refere, como um dos pressupostos para tal medida, aos requisitos do gênero “tutela provisória”, que pode ser de urgência ou de evidência (art. 294). 3.1. No primeiro caso, da tradicional tutela de urgência, o efeito suspensivo depende da demonstração da plausibilidade da fundamentação dos embargos e do risco iminente de dano grave ou de difícil reparação para o executado. Esse risco deve dizer respeito a um dano específico do caso concreto, não podendo consistir de forma genérica no simples prosseguimento da atividade executiva, como a possibilidade de alienação do bem penhorado, o que representa risco inerente a qualquer execução, já ponderado em abstrato na lei. Nesse caso, por exemplo, poderia ser atribuído o efeito suspensivo se o bem a ser alienado tem um valor sentimental especial, é essencial para a atividade profissional do executado ou para a sobrevivência da empresa executada, peculiaridades não antecipadas pelo legislador. Além disso, o risco deve ser manifesto, no sentido de existir grande probabilidade ou mesmo certeza de que o prosseguimento da execução acarretará dano de difícil reparação ou irreparável ao executado. 3.2. O CPC/2015 inova, ao dispor que o efeito suspensivo pode ainda ser concedido no caso de tutela de evidência, a qual dispensa a demonstração do periculum in mora diante da elevadíssima plausibilidade da tese sustentada pelo embargante. Para saber em que casos se admite a tutela da evidência nos embargos, é necessário analisar o art. 311. O inciso I raramente restará configurado, mas não se pode descartar a hipótese de execução manifestamente indevida e de defesa abusiva do exequente nos embargos. Em relação ao inciso II, trata-se de hipótese perfeitamente compatível com os embargos, quando as alegações de fato do embargante estiverem comprovadas documentalmente e a tese jurídica por ele sustentada encontrar amparo em julgamento de casos repetitivos (recursos repetitivos ou incidente de resolução de demandas repetitivas – art. 928). O inciso III não tem aplicação ao caso de embargos à execução. Finalmente, o inciso IV também é compatível com os embargos, bastando que estejam amparados em prova documental suficiente, a que o exequente não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável. Observe-se, porém, que por força do art. 311, parágrafo único, somente a hipótese contemplada no inciso II autorizará o juiz a atribuir efeito suspensivo liminarmente, por ocasião do recebimento dos embargos, devendo nos demais casos aguardar a manifestação do exequente para, aí sim, verificar se deverá ser concedido o efeito suspensivo. 4. Integral garantia do juízo da execução. Ċomo visto, a integral garantia do juízo da execução, mediante penhora, caução (como o seguro garantia judicial ou a fiança bancária) ou depósito, é requisito para a atribuição do efeito suspensivo aos embargos. Obviamente, a regra apenas se explica às execuções de obrigação pecuniária e de dar coisa, mas não à obrigação de fazer ou não fazer, em que sequer se prevê a garantia do juízo como etapa do procedimento executivo. 4.1. A regra é salutar, pois equilibra a exigência de efetividade da execução (art. 797) com o princípio da menor onerosidade para o executado (art. 805). Dessa forma, enquanto o juízo não estiver integralmente garantido, o exequente poderá continuar em sua tarefa de buscar bens no patrimônio do executado. 4.2. Em situações excepcionais, como pondera de forma acertada a doutrina (ASSIS, Araken de. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, v. 13, p. 1.590-1.591), é possível se cogitar de efeito suspensivo sem a integral garantia do juízo, quando o executado demonstrar que simplesmente não tem condições patrimoniais de fazê-lo e, por exemplo, esteja prestes a perder o bem penhorado em decorrência dos atos expropriatórios, sem que o exequente tenha condições de indenizá-lo (art. 776) pelos danos que serão causados. Sob a perspectiva do exequente, o prejuízo decorrente da atribuição do efeito suspensivo e de ter que suportar o ônus do tempo do processo é mitigado com a previsão do § 5º do dispositivo em tela, que lhe permite continuar a buscar novos bens no patrimônio do executado para garantia de forma integral a execução e, inclusive, passar à fase de sua avaliação. 5. Modificação ou revogação da decisão que concede efeito suspensivo. A decisão que atribui efeito suspensivo aos embargos nada mais é do que uma tutela provisória com regulamentação legal específica, a qual se funda em cognição sumária do juiz, sobretudo acerca da plausibilidade dos argumentos veiculados pelo embargante Por esta razão, assim como qualquer outra forma de tutela provisória (art. 296), a decisão que atribui efeito suspensivo aos embargos pode ser modificada ou revogada pelo juiz, diante, por exemplo, de novos elementos trazidos pelo exequente que demonstrem não haver verossimilhança na tese sustentada pelo embargante. 5.1. Para que tal ocorra, contudo, é necessário haver requerimento do exequente, não podendo a modificação ou revogação da decisão que concedeu efeito suspensivo ocorrer de ofício, o que foi previsto pelo legislador como medida de isonomia processual, já que a atribuição do efeito suspensivo também depende de requerimento do embargante. 6. Modulação objetiva do efeito suspensivo. O efeito suspensivo pode ser total, sustando por completo a execução, ou parcial, quando os embargos disserem respeito a apenas parte do objeto da execução (situação em que, evidentemente, não pode ir além dos limites objetivos dos embargos a decisão que lhes empresta efeito suspensivo) ou, ainda, quando os requisitos para a atribuição do efeito suspensivo estiverem preenchidos somente quanto a uma parcela da execução (por exemplo, argumentos relevantes dos embargos apenas para reduzir o valor executado, mas não para excluí-lo totalmente, ou bem penhorado essencial para a atividade profissional do executado e que não deve ser alienado, mas que garante apenas parte do montante executado). 6.1. Nada impede, ainda, que o efeito suspensivo apenas obste a prática de alguns atos executivos (por exemplo, apenas o levantamento do dinheiro obtido com a alienação judicial pelo exequente, mas não a realização do atode expropriação). 7. Efeito suspensivo dos embargos e litisconsórcio passivo na execução. Havendo litisconsórcio passivo na execução, o efeito suspensivo concedido nos embargos de um executado aproveitará aos demais (que tenham embargado ou não, em que pese a referência do § 4º apenas aos executados que deixaram de oferecer embargos) apenas quanto aos fundamentos comuns (por exemplo, plausibilidade da tese de prescrição da obrigação executada) e às parcelas que estiverem sendo executadas em comum de todos eles, em regramento que apenas expressa, nesta fase processual, a disciplina do art. 117. Se os fundamentos não forem comuns (por exemplo, bem penhorado essencial à atividade econômica de um dos executados) ou as parcelas executadas forem diversas, os litisconsortes serão considerados litigantes distintos em suas relações com o exequente e o efeito suspensivo nos embargos de um executado não aproveitará aos demais. 8. Possibilidade de penhora de novos bens ou avaliação mesmo com a atribuição de efeito suspensivo à execução. O efeito suspensivo não poderá impedir a realização de novos atos de constrição patrimonial do executado (incluindo substituição, redução ou reforço de penhora), nem a avaliação dos bens penhorados. Considerou o legislador que tais atos, por si sós, não acarretam dano irreparável ou de difícil reparação. Não se pode descartar, contudo, que em hipóteses excepcionalíssimas seja obstada a penhora, desde que da sua realização decorra dano especialmente grave ao executado e que seja de difícil ou impossível reparação pelo exequente. 9. Recurso cabível. O pronunciamento judicial que concede, modifica ou revoga efeito suspensivo atribuído aos embargos pode ser atacado por agravo de instrumento, como estabelece o art. 1.015, X, do CPC/2015. Pode existir alguma dúvida a respeito da recorribilidade imediata da decisão que indefere o efeito suspensivo, mas a mesma conclusão se impõe. Como os embargos são uma ação autônoma (ainda que incidental à execução), não se lhes aplica o art. 1.015, parágrafo único, que estabelece ser cabível o agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias na execução. Nada obstante, como exposto (v. item 5, supra ), a decisão que aprecia o efeito suspensivo dos embargos versa sobre hipótese específica de tutela provisória, fundada em cognição sumária do juiz, situação em que se previu de forma explícita o cabimento do agravo de instrumento (art. 1.015, I). Concluindo no mesmo sentido, Enunciado 71 da I Jornada de Direito Processual Civil e STJ, REsp 1.694.667, Rel. Min. Herman Benjamin, j. 05.12.2017. Esta observação conduz ainda a outra importante conclusão: no agravo de instrumento interposto contra decisão que aprecia requerimento de atribuição de efeito suspensivo aos embargos, deve ser admitida a sustentação oral, nos termos do art. 937, VIII (nesse sentido, acolhendo o entendimento aqui sustentado, Enunciado 681 do FPPC). 10. Efeito suspensivo dos embargos à execução fiscal. Os embargos à execução fiscal também não possuem efeito suspensivo automático, podendo, contudo, ser paralisada a execução, desde que preenchidos os requisitos estabelecidos pela legislação processual comum, ou seja, pelo art. 919, § 1º, do CPC/2015. Nesse sentido, em julgamento submetido ao rito dos recursos repetitivos, STJ, REsp 1.272.827, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, j. 22.05.2013. CPC/2015 CPC/1973 Art. 920. Recebidos os embargos: I – o exequente será ouvido no prazo de 15 (quinze) dias; II – a seguir, o juiz julgará imediatamente o pedido ou designará audiência; III – encerrada a instrução, o juiz proferirá sentença. Art. 740. Recebidos os embargos, será o exequente ouvido no prazo de 15 (quinze) dias; a seguir, o juiz julgará imediatamente o pedido (art. 330) ou designará audiência de conciliação, instrução e julgamento, proferindo sentença no prazo de 10 (dez) dias. Comentários de Andre Vasconcelos Roque: 1. Procedimento dos embargos. Citação do exequente. O dispositivo em tela disciplina o procedimento dos embargos, após o seu recebimento pelo juiz. Trata-se de uma forma de procedimento especial sumarizado, em que não se prevê a designação de audiência de mediação ou conciliação, nem uma fase formal de saneamento (embora seja frequente que tal ocorra, na prática do foro, o que é recomendável, dada a amplitude de matérias que podem ser suscitadas nos embargos e o fato de que a cognição do juiz será exauriente, com possibilidade de formação de coisa julgada material). Não sendo, portanto, o caso de rejeição liminar (art. 918) e apreciado eventual requerimento de concessão de efeito suspensivo (art. 919), o juiz determinará a manifestação do exequente, no prazo de quinze dias (úteis, por se tratar de prazo processual). Tal comunicação consiste em verdadeira citação do exequente para responder aos embargos, pois estes são uma ação autônoma incidental à execução. Excepcionalmente, contudo, por questão de economia e celeridade processual, a citação se realizará na pessoa do advogado constituído pelo exequente na execução (em regra, por meio eletrônico ou pelo Diário da Justiça), ainda que a procuração não contemple poderes expressos nesse sentido. Trata-se de comunicação confiável e segura, a qual deve continuar a ser prestigiada no CPC/2015. 2. Resposta do embargado e intervenção de terceiros nos embargos. Devidamente citado, o exequente/embargado terá o prazo de quinze dias (úteis) para se manifestar sobre os embargos. Essa resposta do embargado tem natureza jurídica de contestação, embora na prática do foro tenha se consagrado a denominação “impugnação aos embargos” (o que é ruim, pois pode causar confusão com a impugnação ao cumprimento de sentença). Qualquer matéria poderá ser alegada na contestação aos embargos, com exceção, obviamente, da incompetência do juízo (afinal, foi o próprio exequente/embargado que escolheu onde ajuizar a execução e os embargos são normalmente de competência do juízo da execução), ressalvado o caso de execução por carta, em que o embargado poderá discutir se a competência para julgamento dos embargos é do juízo deprecante ou deprecado (art. 914, § 2º). Pode o embargado, ainda, arguir a suspeição ou impedimento do juiz ou de auxiliar da justiça imparcial em petição autônoma, na forma dos arts. 146 a 148. 2.1. Não cabe, via de regra, reconvenção em embargos à execução. Na execução fiscal, há vedação legal expressa (art. 16, § 3º, da Lei 6.830/1980). Por sua vez, no CPC/2015, não há resposta clara, mas o fato de os embargos se tratarem de procedimento sumarizado e terem por finalidade precípua atacar a obrigação executada ou a validade dos atos da execução afasta o cabimento da reconvenção. Se o embargado pretender formular pretensão contra o embargante, deverá fazê-lo por meiode demanda autônoma (nesse sentido, STJ, REsp 1.528.049, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, j. 18.08.2015; contra, entre outros, NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 1.473). A exceção se passa nos casos de embargos de retenção por benfeitorias (art. 917, IV) em que o exequente/embargado alega em seu favor ter direito a receber do executado/ embargante valores a título de frutos e danos (art. 917, § 5º), hipótese em que o art. 810, II admite a cobrança de eventual saldo favorável ao embargado nos próprios autos da execução. 2.2. Quanto às modalidades de intervenção de terceiros, cabem somente a assistência (art. 119, parágrafo único, admissível “em qualquer procedimento”) e, ocasionalmente, se houver repercussão social ou pela especificidade do tema, a intervenção do amicus curiae. A denunciação da lide, o chamamento ao processo e o incidente de desconsideração da personalidade jurídica são incompatíveis com os embargos (a não ser, quanto a este último, no que concerne a eventual fase de cumprimento de sentença, por exemplo, das verbas sucumbenciais fixadas pela sentença que julgar os embargos). 3. Revelia do embargado. A ausência de resposta do embargado acarreta a decretação de revelia, pois os embargos nada mais são que uma ação autônoma incidental e de natureza cognitiva. Os efeitos da revelia, contudo, necessitam de uma análise detida. O efeito processual (desnecessidade de intimação do revel para que se deflagrem os seus prazos – art. 346) não irá se verificar, pois o exequente/embargado terá constituído advogado para ingressar com a execução. Quanto ao efeito material decorrente da presunção de veracidade das alegações do embargante (art. 344), há intensa controvérsia. De acordo com o STJ, não se operaria tal efeito, pois prevaleceria a presunção de existência da obrigação decorrente do título executivo (nesse sentido, STJ, AgRg no AREsp 576.926, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 12.02.2015). Tal raciocínio merece reparos. De fato, a presunção da existência da obrigação contemplada no título executivo prevalece sobre a presunção decorrente da revelia, mas o mesmo não se verifica em relação a fatos posteriores e externos ao título, como a alegação de pagamento. Não se infirma o título executivo, apenas se aponta que a obrigação executada já foi satisfeita. Nesse caso, a ausência de resposta aos embargos por parte do exequente induzirá à presunção de veracidade da alegação de pagamento do embargante, cumprindo ao juiz verificar se tal fato (presumido) acarretará o acolhimento dos embargos. Isso não quer dizer, evidentemente, que os embargos serão automaticamente julgados procedentes, pois não pode o juiz presumir verdadeiro o inverossímil (art. 345, IV) e deverá, em todo caso, avaliar se as consequências jurídicas alegadas pelo executado são pertinentes (v. comentários ao art. 341, que trata do ônus da impugnação especificada no processo civil). Não se concorda, portanto, com a tese de que nunca haverá presunção de veracidade decorrente da falta de resposta aos embargos por prevalecer a presunção de existência do crédito extraída do título executivo extrajudicial. 4. Providências preliminares e julgamento conforme o estado do processo. Como já se apontou, os embargos tramitam por meio de um procedimento especial sumarizado, em que não há exigência formal de que o juiz tome as providências preliminares dispostas nos arts. 373 a 353, ou realize o saneamento formal do processo, nos termos do art. 357. Apesar disso, se o exequente/embargado alegou em sua resposta algum fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do embargante, ou se deduziu qualquer matéria preliminar, deve ser aberta a oportunidade para oferecimento de réplica, em decorrência do princípio do contraditório. 4.1. Apresentadas as manifestações das partes ou transcorrido o prazo para tal, caso o juiz verifique a desnecessidade de qualquer prova adicional, deverá proceder imediatamente ao julgamento dos embargos. Nada impede, embora não previsto no CPC/2015, que se proceda ao julgamento antecipado parcial do mérito, desde que configurada qualquer das hipóteses do art. 356. 4.2. Não é verdade que o magistrado só tenha duas escolhas nesta etapa do procedimento (julgar de imediato ou designar audiência), como o inciso II do art. 920 faz crer. Pode ser necessário produzir prova pericial, que em regra prescinde da designação de audiência, a qual se destina precipuamente à prova oral. Embora o art. 920 não preveja, diante da necessidade de produção de novas provas, é de todo recomendável que o julgador profira decisão de saneamento e organização do processo (art. 357). 5. Sentença dos embargos e recurso cabível. A sentença que julga procedentes os embargos pode ser de natureza preponderantemente constitutiva negativa (por exemplo, no caso em que se invalida o título executivo extrajudicial por vício do consentimento ou que se desfaz a constrição judicial sobre bem impenhorável) ou declaratória (a título de ilustração, na hipótese em que se reconhece ter havido o pagamento ou a ocorrência de excesso de execução), conforme o fundamento acolhido. A sentença que julga improcedentes os embargos será sempre de natureza declaratória negativa, certificando a inexistência do direito alegado pelo embargante. 5.1. Não há dúvidas acerca do recurso cabível contra a decisão que julga os embargos, qualquer que seja o seu conteúdo. Como se trata de sentença, a qual põe fim a um processo incidental, o recurso cabível será a apelação. Reforça essa conclusão o disposto no art. 1.012, § 1º, III, que trata da ausência de efeito suspensivo automático da apelação interposta contra a sentença que extingue sem resolução de mérito ou julga improcedentes os embargos do executado. 5.2. A apelação poderá veicular inconformismo contra a sentença, assim como contra qualquer decisão interlocutória que tenha sido proferida no procedimento dos embargos e não se enquadre nos incisos do art. 1.015, conforme previsto no art. 1.009, § 1º. Como já apontado, os embargos possuem natureza de ação autônoma, razão pela qual não se lhes aplica o disposto no art. 1.015, parágrafo único, que estabelece a recorribilidade imediata de qualquer decisão interlocutória proferida na execução. 6. Honorários de advogado. Tendo em vista a natureza jurídica de ação autônoma incidental, qualquer que seja o resultado da sentença dos embargos (a não ser no caso de sua rejeição liminar – art. 918), haverá arbitramento de nova verba sucumbencial, com amparo no art. 85, caput . Se os embargos forem rejeitados (com ou sem resolução de mérito), os honorários de advogados fixados liminarmente no despacho que recebeu a petição inicial da ação de execução poderão ser elevados até o limite de vintepor cento sobre o valor da execução (art. 827, § 2º). 7. Coisa julgada. A sentença que julga os embargos, uma vez transitada em julgado, forma coisa julgada material? Há que se distinguir duas situações. Na primeira, os embargos são rejeitados liminarmente (exceto por improcedência liminar do pedido ou por serem manifestamente protelatórios) ou extintos sem resolução de mérito. A sentença não examinou o mérito e não forma coisa julgada material. Na segunda, os embargos do executado são rejeitados liminarmente por improcedência liminar do pedido (arts. 332 e 918, II) ou por serem manifestamente protelatórios (art. 918, III) ou são julgados improcedentes. Neste caso, haverá efetiva formação de coisa julgada material (sobre a formação de coisa julgada na sentença liminar de improcedência, v. comentários ao art. 332, item 10), nos limites das questões apreciadas conclusivamente pelo juiz na sentença, que não poderão ser discutidas neste e em nenhum outro processo. Para as matérias compreendidas fora das causas de pedir veiculadas nos embargos, é ainda possível que o executado ajuíze ação autônoma de impugnação (defesa heterotópica), mesmo encerrado o prazo dos embargos e após eventual julgamento de sua improcedência. 8. Acolhimento dos embargos e possibilidade de cobrança na própria execução ou mediante processo de conhecimento. Nem sempre o julgamento de procedência dos embargos, embora forme coisa julgada material, impedirá a cobrança do crédito pelo exequente. Se foi reconhecida, no âmbito dos embargos, a inexistência da obrigação, a coisa julgada material impedirá que a cobrança ocorra em qualquer outra demanda, independentemente da via processual eleita. Contudo, se os embargos foram acolhidos simplesmente para invalidar determinado ato executivo (por exemplo, afastamento da constrição judicial sobre bem impenhorável ou reconhecimento de erro na avaliação), nada impedirá o prosseguimento da execução, com a repetição dos atos processuais considerados defeituosos. Ainda, se foi reconhecida a impossibilidade de se prosseguir na execução, por exemplo, por ausência de título executivo extrajudicial, poderá o exequente cobrar o seu crédito do executado por meio do competente processo de conhecimento.