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Lisa Parkinson Mediação Familiar Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 1 Título Lisa Parkinson - Mediação Familiar Autoria Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios | Ministério da Justiça Editora Agora Comunicação Design Gráfico AcPrint Produção Gráfica AcPrint Tiragem 500 exemplares 1.ª edição Março de 2008 Depósito Legal ____________ ISBN 978-989-8024-10-7 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 2 Lisa Parkinson Mediação Familiar Ministério da Justiça Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios Março de 2008 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 3 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 4 ÍNDICE NOTAS DE ABERTURA............................................................................................................................................ 7 Filipe Lobo d’Avila Director do Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios......................................................................... 9 Juan Carlos Vezzulla Presidente do Conselho Científico do Instituto de Mediação e Arbitragem de Portugal ......................... 11 Capítulo I – Mediação e conflito ....................................................................................................................... 15 Capítulo II – Diferentes modelos de mediação familiar .................................................................... 39 Capítulo III – Comprometer ambas as partes na mediação........................................................... 69 Capítulo IV – Linguagem e técnicas de comunicação ....................................................................... 101 Capítulo V – Iniciar a mediação....................................................................................................................... 125 Capítulo VI – Crianças, adolescentes e mediação familiar ............................................................ 149 Capítulo VII – Gerir desequilíbrios de poder em mediação ........................................................ 183 Capítulo VIII – Estratégias para situações de impasse...................................................................... 207 Capítulo IX – O futuro da mediação familiar......................................................................................... 237 Sinopse da Mediação Familiar em Portugal .............................................................................................. 263 Bibliografia....................................................................................................................................................................... 267 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 5 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 6 NOTAS DE ABERTURA Filipe Lobo d’Avila Juan Carlos Vezzulla Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 7 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 8 Filipe Lobo d’Avila Director do Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios As primeiras linhas deste texto são dedicadas para expressar o sincero agradecimento à autora, Lisa Parkinson, pelo consentimento prestado para a tradução e edição desta obra em Portugal. Anteriormente, o Ministério da Justiça já tinha beneficiado da sua prestimosa colaboração, disponibilidade e ensinamentos, quer por ocasião da realização da IV Conferência Meios Alternativos de Litígios, quer com a publicação do artigo A formação de mediadores familiares no Reino Unido, na NewsletterDGAE nº4, de Dezembro de 2004. Lisa Parkinson é uma personalidade altamente conceituada e de reconhecido mérito internacional na área da mediação familiar, quer como mediadora familiar quer como formadora de mediadores familiares, com mais de 25 anos de experiência. Esta iniciativa editorial para além de prosseguir a missão e atribuições do Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios, encontra justificação na total ausência de monografias nacionais versando a temática da mediação familiar e assume particular relevo no momento propício em que se assume como objectivo para 2008, o alargamento do Sistema de Mediação Familiar a todo o território nacional. A obra que agora se publica espelha a experiência e reflexão da autora ao longo da sua extensa prática como mediadora familiar. O livro começa por abordar os conceitos básicos de mediação e do conflito, por apresentar diferentes modelos de mediação familiar, para de seguida explanar diversas técnicas de mediação familiar, como por exemplo: 1) Comprometer ambas as partes no processo de mediação familiar; 2) Gerir desequilíbrios de poder em mediação; 3) Aplicar estratégias para situações de impasse. A obra termina com um capítulo sobre o futuro da mediação, onde se expõe de forma breve a situação da mediação familiar na Europa, com referência ao recurso à mediação em situações de disputas internacionais de filhos e a diferentes 9 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 9 tipos de mediação (com deficientes, em situação de cuidados com idosos e em contendas de heranças). Menciona, ainda, redes informáticas sobre mediação e diferentes facetas do papel do mediador. Pelo exposto consideramos que esta obra é indispensável para qualquer interessado na temática da mediação familiar. Com a perspectiva de enriquecer a presente publicação apresentamos no final uma sinopse da mediação familiar em Portugal. Por último, resta-nos, uma vez mais, agradecer o fantástico e generoso contributo da Lisa. O nosso muito obrigado. 10 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 10 Juan Carlos Vezzulla Presidente do Conselho Científico do Instituto de Mediação e Arbitragem de Portugal Quando Lisa me pediu para redigir a introdução à edição portuguesa de seu livro tive lembranças que me ligavam a ela e a Portugal. Lembranças de trabalhos e encontros que começam no ano 2000, na III Conferência do Fórum Mundial de Mediação, na Sardenha, em Itália. A partir desse Congresso começámos a trabalhar juntos no Conselho de Administração dessa entidade internacional. Casualmente, nesse mesmo ano fui convidado pelo Ministério da Justiça português, através da recém criada Direcção-Geral da Administração Extrajudicial, para participar na I Conferência RAL. Desde então Lisa, Portugal e eu continuamos unidos. A mediação familiar tem sido o nosso eixo de união e a nossa paixão comum. Hoje em dia é dificil dar uma definição do que é uma família, pois as grandes transformações sociais, psicológicas e legais vividas leva-nos a considerar questões impensáveis até hà poucos anos a trás. Os laços de sangue, ponto de partida para falar de família no passado, assim como a rígida distribuição de funções entre os seus membros já não são mais indicadores fundamentais da família. Famílias monoparentais, homossexuais e a crescente quantidade de casais que optam por não ter filhos, dão conta de novas composições familiares. Mas fundamentalmente a passagem do exercício absoluto do poder paternal a uma salutar e democrática participação de todos os membros na tomada de decisões demonstra claramente a enorme evolução e a mudança vivida em poucos anos. Legalmente o Direito de Família passou também por transformações muito significativas, de espaço privado, onde o pai era dono da mulher e dos filhos, à situação actual onde mulheres, crianças e adolescentes gozam de direitos especiais que levam a que seja exercida uma tutela pública quando esses direitos não são atendidos. Tanto a comunidade que deve denúnciar a miníma suspeita do desrespeito desses direitos, quanto o Estado que com a criação de espaços especiais atende os casos de violência doméstica, na protecção dos seus membros, cuidam do exercício desses direitos com uma tutela especial. 11 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 11 Todas estas característicasexigem logicamente uma abordagem diferente dos conflitos familiares que acompanhe os novos direitos e o sistema relacional mais respeitoso e cooperativo, onde as necessidades e desejos de todos são tomados em consideração na hora de decidir. Se o patriarcado correspondia ao sistema judicial de decisões impositivas, o novo modelo de interacção corresponde sem dúvidas à mediação e ao seu sistema de autodeterminação na base da cooperação, do respeito e fundamentalmente da responsabilidade. Pioneira da mediação familiar em Europa, uma das fundadoras do Fórum Mundial de Mediação e também do Fórum Europeu de Mediação Familiar, Lisa manteve sempre uma permanente exigência por acompanhar as mudanças das famílias e assim poder, pelo seu trabalho, oferecer mais no atendimento das demandas da sociedade. A publicação desta obra é sem dúvida um grande acontecimento para todos os mediadores de Portugal e dos outros países de língua portuguesa por várias razões: Primeiro porque este livro resume os anos de experiência de trabalho com famílias na Grã-Bretanha e noutros países onde Lisa desenvolveu a sua actividade de mediadora familiar; Segundo porque, pioneira na Europa, Lisa Parkinson soube dar à mediação familiar a sua verdadeira dimensão e função humanas, pela abordagem que faz dos conflitos entre os cônjuges e entre os pais e os filhos, nessa difícil, mas misteriosamente atraente vida familiar; Terceiro porque Lisa expressa os seus conhecimentos, experiências e técnicas com uma grande humildade e simplicidade, como se toda essa difícil função de ser mediador familiar fosse a sua forma natural e espontânea de auxiliar as famílias a entenderem e resolverem os seus conflitos; Quarto porque incorpora as contribuições das diversas escolas de mediação e contribui ela própria com técnicas e procedimentos sem se enaltecer, nem se colocar numa posição de possuidora da verdade que exclui outros conceitos ou práticas. Este livro é o reflexo da sua experiência, teórica e prática, que tem demonstrado excelentes resultados. 12 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 12 Mas, o aspecto mais importante que me levou a aceitar o convite de Lisa para escre- ver esta introdução foi ela própria: Lisa Parkinson que é uma das pessoas mais admi- ráveis que se possa conhecer. Sensível, perceptiva, respeitosa e com uma capacidade pedagógica ímpar, está sempre disposta a acolher, a compreender e a contribuir coope- rativamente em todas as circunstâncias com todas as pessoas com as quais se relaciona. Por termos participado juntos em tarefas científicas, pedagógicas e institucionais posso dizer que se aprende com ela tanto nas aulas quanto na vida quotidiana, na informalidade. Ler o seu livro é como estar a ouvi-la nas suas aulas. Em Portugal, o nosso trabalho em conjunto tem passado pela capacitação em mediação familiar dos mediadores de conflitos e pela orientação de seminários vocacionados para os mediadores de família, como formação complementar. Com toda essa experiência não tenho dúvidas de que a publicação deste livro revela-se imprescindível para os que trabalham os conflitos familiares por ser um dos manuais que melhor define e delimita a abordagem da mediação. Finalmente e por tudo o aqui foi expressado considero importante destacar os méritos do Ministério da Justiça, através do Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios por terem escolhido este texto para integrar a sua colecção de publicações. O meu reconhecimento a Lisa Parkinson por ter escrito este manual e autorizar sua publicação em português, ao Ministério da Justiça, aos mediadores de família que com tanto esforço trabalham, a maioria deles, desinteressadamente para oferecer à população o melhor serviço, porque graças a vós a mediação familiar esta viva em Portugal e pode assim receber uma obra desta importância científica e profissional. Unindo esforços esperemos que os leitores desta obra se convençam da grande função da mediação na abordagem dos conflitos familiares e sua transcendência pacificadora e emancipadora nas comunidades e divulgue estes conceitos para implantar a cultura da mediação definitivamente em Portugal. Por todo isso, escrever esta nota de introdução ao livro de Lisa Parkinson tem sido para mim muito gratificante e representa uma grande honra. 13 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 13 14 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 14 Capítulo I MEDIAÇÃO E CONFLITO A necessidade urgente de encontrar meios pacíficos para resolver conflitos e diferendos Conflitos violentos e actos de destruição maciça constituem tremendas ameaças para a sobrevivência da nossa sociedade e do meio em que ela se desenvolve no século XXI. Conflitos violentos dão origem a receios profundos e causam enorme sofrimento. E, dado que os conflitos são tão perigosos, as reacções biológicas aos conflitos e às agressões são normais em todos os animais, incluindo os humanos. Muitas das reacções são do tipo “lutar ou morrer”. Muitos animais evitam instintiva- mente o conflito directo, submetendo-se ao indivíduo ou ao grupo que reconhecem como o mais forte. As sociedades humanas elaboraram maneiras mais sofisticadas para tentar resolver os conflitos, incluindo a negociação e a mediação, mas muitas vezes falham na sua utilização. As reacções aos conflitos nas chamadas “sociedades desen- volvidas” são frequentemente primitivas e as consequências geralmente desastrosas. Acresce que o conflito em si não é nem positivo nem negativo, é uma força natural necessária para crescer e mudar. A vida sem conflitos seria estática. O importante é ver se, e como é o conflito gerido. Se o conflito for gerido cuidadosamente, não precisa de ser destrutivo. Não precisa de destruir indivíduos ou comunidades, nem o relacionamento entre eles. A energia que é produzida num conflito pode ser canalizada construtivamente em vez de destrutivamente. Quando os conflitos são resolvidos duma forma integradora em vez de se optar pela via da disputa, as relações podem ser mantidas e até reforçadas. Com boa vontade por parte das facções litigiosas, as percepções e as atitudes duns para com os outros podem ser diferentes. A atmosfera modificada de abertura, de escuta e de cooperação pode irradiar deles para outros membros da sua família ou comunidade. De acordo com o ensinamento Budista, 15 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 15 podemos aprender que “a maior parte do nosso tempo é gasta a analisar diferenças. Concentremo-nos agora em semelhanças, no que existe de comum entre … opositores antagónicos …Procurem o que os une em vez do que os separa … procurem esta relação e serão mais amáveis com cada um dos parceiros” (Juiz Christmas Humphreys, 1984, pág. 158). A mediação oferece meios positivos para resolver disputas e para gerir conflitos. Na mediação, o mediador assume uma posição central e equilibrada entre os participantes. A partir dessa posição central, o mediador pode ajudá-los a canalizar e a conciliar as suas energias procurando encontrar soluções em vez de se hostilizarem, recusando ou aceitando compromissos que deixam bastante a desejar. Como definir mediação A palavra “mediação” deriva do latim “medius, medium”, que significa “no meio”. Mediação é um “processo de colaboração para a resolução de conflitos” no qual duas ou mais partes em litígio são ajudadas por uma ou mais terceiras partes imparciais (mediadores) com o fim de comunicarem entre elas e de chegarem à sua própria solução, mutuamente aceite, acerca da forma como resolver os problemas em disputa. Os mediadores ajudam as partes a explorar as opções disponíveis e, se possível, a atingir decisões que satisfaçam os interesses de todos os envolvidos. Os participantes são ajudados a chegar às suaspróprias decisões voluntariamente e com conhecimento de causa, sem ameaças ou pressões uns dos outros e sem directivas por parte do mediador. Quando a solução proposta tem consequências legais, é-lhes normalmente recomendado obterem separadamente um parecer jurídico independente antes de se esforçarem por formalizar o seu consenso por meio dum acordo legalmente vinculativo. A mediação é entendida internacionalmente como o termo genérico que cobre diversas formas de intervenção usadas para resolver disputas de múltipla natureza – civil e comercial, vizinhança e comunidade, alojamento, divórcio e outros tipos de disputas familiares, saúde, educação, emprego, sistema de justiça criminal e disputas do foro internacional. A palavra mediation é usada com apenas variações menores de ortografia e pronúncia em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e português. A mediação é largamente utilizada através do mundo inteiro, desde a Europa e América do Norte à Austrália e Nova Zelândia, China e Japão. Nos países de língua espanhola e portuguesa, o uso da mediação desenvolveu-se rapidamente. Multiplicam-se as trocas internacionais entre mediadores através de literatura, relatórios de investigação, conferências e Internet. 16 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 16 Mediação – origens e desenvolvimento A mediação é vista muitas vezes como um novo processo, embora na verdade ela tenha um longo legado em civilizações e culturas muito diferentes. Na antiga China, Confúcio incentivou as pessoas a usar a mediação em vez de recorrer aos tribunais. No século V a.C., Confúcio chamou a atenção para o facto do sistema litigioso ser susceptível de deixar as partes cheias de azedume e incapazes de colaborarem umas com as outras. Recomendou que, em vez de irem a tribunal, as partes deviam encontrar-se com um pacificador neutro que as ajudaria a conseguirem um entendimento. Os antropólogos, por seu lado, têm documentado a tradição existente em muitas partes de África de convocar uma assembleia na qual os anciãos tribais mais respeitados são solicitados para ajudarem a resolver as disputas entre indivíduos, famílias ou aldeias. Conhecem-se muitos exemplos de mediação desde tempos recuados em comunidades na Europa e na América do Norte. Entre os deveres dum chefe índio Cheyenne contava-se o de actuar como pacificador e mediador para resolver quaisquer querelas que surgissem no acampamento. Os antigos Quakers usavam a mediação como o meio preferido para resolver disputas conjugais e comerciais. Em Inglaterra, na década de 1860, foram criados os primeiros Conselhos de Conciliação para ajudar a resolver contendas em certas indústrias. Há uma longa tradição de mediação nas comunidades judaicas. A Comunidade Judaica Americana de Nova Iorque fundou o Conselho Judaico de Conciliação para promover a resolução consensual de disputas. Em cada esfera de actividade a mediação tem sido utilizada de diversas formas para facilitar a comunicação e para ajudar as partes em litígio a chegar a decisões consensuais. O uso da mediação tornou-se mais formal em muitos sectores – em matérias laborais, na indústria e no comércio, na saúde e educação e no sistema de justiça criminal, nomeadamente com a introdução de uma justiça restaurativa entre vítima e ofensor. A mediação comunitária é usada para resolver disputas entre vizinhos no que se refere a limites de propriedade, ruído ou utilização de bens comuns, e problemas entre senhorios e inquilinos. A nível internacional, os mediadores podem ser chamados para ajudar a resolver disputas entre diversos países ou comunidades. Foram mediadores que ajudaram a conseguir o acordo negociado entre Israel e a Palestina em Janeiro de 1997 sobre a retirada das forças de Israel da zona ocidental da cidade de Hebron. Ainda que as esperanças de paz no Médio 17 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 17 Oriente se tivessem esfumado, isso não significava que o diálogo devesse cessar – pelo contrário, devia ser continuado com renovada energia e determinação para encontrar soluções pacíficas. Nelson Mandela, o anterior presidente da África do Sul, talvez tenha sido o mediador internacional mais aclamado. Em Julho de 2000, Nelson Mandela usou as suas qualidades de mediador na ruinosa contenda que se verificou no interior da África do Sul a propósito da causa da SIDA, mostrando aos cientistas e aos políticos a urgência de trabalhar em conjunto numa luta contra uma doença que estava a devastar a África. O Prémio Nobel da Paz de 2000 foi concedido ao Presidente da Coreia do Sul, Kim Dae Jung, pelo seu infatigável trabalho no sentido de resolver o conflito e promover a paz entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Desde a sua eleição como Presidente, Kim Dae Jung melhorou extraordinariamente as relações entre os dois países através da sua política de congregar 70 milhões de coreanos. Nalguns países, a mediação é o caminho normal para resolver disputas, chegando mesmo a ser obrigatório. A moderna China, com mais de um bilião de habitantes, tem cerca de um milhão de mediadores. Existem mediadores praticamente em toda a parte, e as disputas no seio das famílias, das comunidades ou nos locais de trabalho são normalmente resolvidas por mediação (Cloke, 1987). Os mediadores chineses e japoneses possuem autoridade, e espera-se que defendam os valores morais, que reprovem a maldade e a injustiça duma das partes e que louvem a outra por agir correctamente. As partes em litígio devem, supostamente, resolver as suas diferenças duma maneira responsável e pacífica para o bem da família e da sociedade como um todo. Esta abordagem paternalista é aceite tanto na China como no Japão, países em que a ênfase posta em preceitos e persuasão morais parece funcionar bem. Em contrapartida, a mediação é vista noutros países como um meio de capacitar as partes para tomarem as suas próprias decisões e estabelecer os seus próprios acordos. Muitos países criaram legislação e procedimentos que autorizam os tribunais a remeter processos para mediação e que encorajam as decisões pré-judiciais. A Austrália foi um dos primeiros países a elaborar uma legislação no sentido de usar a mediação em disputas de âmbito familiar (Family Law Act of Australia, 1975). A legislação na Austrália é anterior à formulação dos serviços de mediação para famílias. Na Inglaterra e no País de Gales, a Lei da Família de 1996 foi baseada em vinte anos de iniciativas locais voluntárias para assegurar serviços de mediação familiar. 18 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 18 Benefícios da mediação versus processos litigiosos A comparação entre mediação e processos litigiosos tem tendência a apresentar a mediação como a “boa” solução e os processos litigiosos como “os maus da fita”. Este julgamento simplista não é justo para nenhum dos sistemas. A mediação nem sempre é adequada nem possível, e mesmo que o seja, não é seguro que conduza a um acordo. A mediação tem limitações e os resultados finais variam de caso para caso. Há muitos casos em que a via judicial deve ser usada em vez de (ou em conjunto com) a mediação. Muitos tribunais actuam nos dias de hoje segundo processos orientados para conseguir um acordo. Contudo, as partes em disputa, que se arriscam a ser envolvidas em procedimentos judiciais demorados e adversos têm o direito de saber as diferenças entre processos litigiosos e mediação, de modo a poderem fazer uma escolha com conhecimento de causa e estando cientes de que os processos litigiosos envolvem custos emocionais e financeiros. Processos litigiosos Mediação As partes são tratadas como adversários As partes são estimuladas a procura interesses mútuos As questões são definidas pelos advogados As partes explicam as questões pelas suasrecorrendo a termos legais próprias palavras Os advogados actuam como defensores Os participantes falam e escutam-se um ao outro do seu cliente As posições radicalizam-se, afastando As diferenças são reduzidas, estabelecem-se pontes ainda mais os casais Os processos estão sujeitos a regras legais formais Os processos são informais, confidenciais e flexíveis Os processos duram normalmente muito Os acordos podem ser atingidos rapidamente tempo e sofrem atrasos As partes confiam nos seus advogados Os participantes explicam as suas necessidades A atenção está centrada em danos A atenção está centrada na procura de soluções e ofensas do passado futuras Os estados de conflito e de tensão O conflito resolvido e a tensão diminui são prolongados Dificuldade em considerar diferentes alternativas Pondera todas as opções disponíveis Os custos são elevados para os litigantes Os custos legais podem ser reduzidos ou evitados e para o Estado As decisões são impostas pela autoridade judicial A tomada de decisão é participada As decisões impostas têm menos probabilidades As decisões consensuais têm maiores de subsistirem probabilidades de perdurarem 19 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 19 RAD – Resolução Adequada de Disputas1 A mediação é um dos processos do grupo – que inclui ainda a negociação e a arbitragem –, em que se procura chegar a um acordo. Estes processos encontram-se genericamente agrupados sob o título de Resolução Alternativa de Disputas (RAD). Neste contexto, entende-se Alternativa como uma opção aos processos judiciais. Mas parece mais correcto designá-los por Resolução Adequada de Disputas do que por Alternativa, uma vez que negociação e mediação são frequentemente usadas em conjugação com processos judiciais, muito mais do que como um substituto. Negociação, arbitragem, conciliação e mediação – o que os diferencia? A negociação directa é um processo bilateral no qual as partes negoceiam directamente entre si, sem pedirem a outras pessoas para conduzir ou acompanhar as suas negociações. Em casos de separação ou de divórcio, muitos casais elaboram eles próprios grande parte do acordo, embora possam eventualmente precisar de ratificar essas resoluções por um tribunal ou por uma autoridade administrativa. NEGOCIAÇÃO DIRECTA Negociação indirecta através de representantes: É muitas vezes difícil para as partes negociarem directamente quando o seu relacionamento foi fragmentado. De modo idêntico, também a comunicação fica muitas vezes afectada. A tendência consiste em utilizar o serviço de advogados. Um grande número de acordos é obtido por negociação através de representantes legais. Os advogados experientes com conhecimento em negociação resolvem a maior parte dos seus casos por esse método, e só raramente recorrem à via 20 1 ADR – Appropriate Dispute Resolution João Susana Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 20 judicial. Se, porém, as negociações falharem, há sempre a possibilidade de nomear advogados para representar cada uma das partes em tribunal. NEGOCIAÇÃO ATRAVÉS DE ADVOGADOS Arbitragem: Quando as partes envolvidas numa disputa decidem recorrer à arbitragem, pedem a um especialista independente ou a um painel de especialistas independentes para tomar ou recomendar uma decisão. A decisão do árbitro tem força executiva, mas pode acontecer que seja apenas dada a título de recomen- dação. A audição é privada e as partes podem decidir aspectos formais, como por exemplo, a gravação dos debates. As partes têm normalmente representação legal na audição. Mediação familiar O termo mediação familiar é usado na Europa preferencialmente ao termo mediação de divórcio, que é correntemente utilizado nos Estados Unidos. A mediação de divórcio não é relevante para o enorme número de casais que vivem juntos sem estarem casados. Além disso, só dá uma mensagem unilateral, por se apresentar como a favor do divórcio e do lado do parceiro que inicia o divórcio. A ênfase sobre a palavra família é muito importante por outras razões. Há muitos tipos de litígios envolvendo famílias – por exemplo disputas pais-filhos, adopção, cuidado dos idosos, questões de heranças – que não implicam soluções de separação ou divórcio. A mediação pode ser utilizada entre os pais e um adolescente que tenha saído de casa, entre irmãos que podem não concordar se um dos pais idosos deve ir para um lar, ou entre a primeira e a segunda esposa e os possíveis filhos de ambos os matrimónios envolvidos numa disputa de herança. A utilização mais corrente da mediação familiar verifica-se em casos de separação ou de divórcio, em que os pais são ajudados a manter o seu papel de pais, e ao mesmo tempo a separarem as suas preocupações conjuntas como pais, da raiva e tristeza de terminarem o seu relacionamento enquanto casal. Os pais 21 João Advogado do João SusanaAdvogado da Susana Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 21 são ajudados a concentrarem-se nas necessidades e sentimentos individuais dos seus filhos, e a construírem planos para os mesmos. Desde que haja acordo entre os pais, outros membros da família, como padrastos/madrastas, avós ou filhos podem ser incluídos no processo de mediação. Trata-se dum processo para famílias em transição duma estrutura familiar para outra: os seus objectivos consistem em facilitar a comunicação, tomar decisões cooperativos e renegociar o relacionamento. A mediação familiar tem sido definido como “um processo no qual uma terceira pessoa imparcial ajuda os que estão envolvidos numa ruptura familiar, e em especial, casais em vias de separação ou de divórcio, a comunicar melhor entre eles e a atingir de comum acordo e com base em informação adequada as suas próprias decisões sobre alguma ou todas as questões relativas a separação, divórcio, filhos, finanças ou propriedades (Colégio de Mediadores Familiares do Reino Unido, Código de Procedimentos, 1995) MEDIAÇÃO Os princípios fundamentais da mediação familiar Os princípios e limites da mediação são determinados para definir a sua identidade única, para preservar a sua integridade e para salvaguardar aqueles que a utilizam. Esses princípios e fronteiras diferenciam a mediação conduzida por mediadores qualificados de práticas informais de mediação que são muitas vezes prestadas por um amigo comum ou por um parente de confiança. 22 João Susana Mediador Discussão à volta da mesa Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 22 De forma sumária os princípios fundamentais são: 1. Participação voluntária (obrigatória nalguns países) 2. Imparcialidade do mediador (designada por vezes por “neutralidade”) 3. Denúncia, por parte do mediador, de qualquer conflito de interesses 4. Capacitar as partes para tomarem as suas próprias decisões mediante esclarecimentos 5. Respeito pelos indivíduos e pela diversidade cultural 6. Segurança pessoal – protecção contra riscos 7. Confidencialidade, sujeita a certas limitações 8. Privilégios legais 9. Atenção focada no futuro, e não no passado 10. Maior ênfase nos interesses comuns do que nos individuais 11. Ter em consideração os interesses de todos os envolvidos, incluindo os filhos 12. Competência do mediador 1. Participação voluntária O termo “mediação compulsiva” é geralmente encarado como uma expressão contraditória. Há uma diferença importante entre propor a participação numa reunião de esclarecimento e uma mediação compulsiva. Na reunião preliminar de informação o mediador explica as vantagens da mediação familiar como um processo voluntário: os que nela tomam parte precisam de participar livremente, sem serem forçados e sem terem medo. Devem ter a liberdade de abandonar a mediação em qualquer fase da mesma. Por seu lado, o mediador podetambém dar por terminada a mediação se a mesma deixar de ser útil ou não se vislumbrar qualquer possibilidade de progresso. 2. Neutralidade e imparcialidade Um mediador é muitas vezes referido como uma terceira parte neutra. Mas o termo “neutralidade” é susceptível de assumir sentidos diversos. Por exemplo, significa “imparcialidade” na medida em que o mediador não é parte interessada. Em segundo lugar, neutralidade pode querer dizer que o mediador não tem qualquer interesse material ou pessoal no resultado do processo de mediação. 23 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 23 Imparcialidade pode também envolver o conceito de “equidistância”, significando que o mediador presta igual atenção a todos os participantes e gere o processo duma maneira equilibrada e imparcial. Muitos mediadores consideram-se imparciais, mas reconhecem que não conseguem ser neutros. Os mediadores não podem ser neutros se a neutralidade significar que eles não trazem valores e não exercem qualquer influência no processo de mediação. Qualquer terceira parte está obrigada moralmente a influenciar não apenas a maneira como as partes negoceiam, mas também o próprio conteúdo das suas negociações. Os mediadores intervêm selectivamente com formas que podem sugerir ou reforçar certos valores. Há uma continuidade entre a facilitação “pura”, não dirigida pelos mediadores, e as intervenções pró-activas. Os mediadores poderão encontrar-se em diferentes estados evolutivos neste percurso contínuo, mas todos se consideram como mediadores. A formação profissional dos mediadores pode influenciar o seu entendimento do que significa na prática neutralidade e imparcialidade. Mediadores com uma experiência jurídica podem ver a neutralidade e a imparcialidade em termos de princípios legais e em estrita conformidade com a lei. Mediadores treinados em disciplinas de saúde mental estarão menos inclinados a considerar-se neutros e mais dispostos a definir imparcialidade em termos de manutenção de equidistâncias. Mediadores treinados em ciências humanas podem estar também mais conscientes da influência potencial dos seus valores pessoais e profissionais e dos seus próprios condicionalismos. Existe igualmente alguma controvérsia sobre se os mediadores desempenham algum papel como educadores, para explicarem aos pais o que os filhos precisam em processos de separação e de divórcio (ver capítulo 6). Os mediadores que pensam que sabem melhor do que os pais o que é melhor para os seus filhos – ou que aconselham as partes sobre o que seria uma solução financeira correcta – estão nitidamente a ultrapassar as fronteiras do papel do mediador. 3. Denúncia, por parte do mediador, de qualquer conflito de interesses Os Códigos Profissionais de Conduta para mediação podem indicar que, nos casos em que o mediador tem um conhecimento prévio e/ou uma relação prévia profissional ou social com alguma ou com ambas as partes, não deve aceitar a mediação. Deve ser nomeado outro mediador, mesmo que as partes não tenham nenhuma objecção contra o primeiro nome, pois podem não fazer ideia da 24 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 24 influência potencial do conhecimento prévio do mediador ou da relação com um deles. O envolvimento prévio como um consultor jurídico é incompatível com a imparcialidade que se exige a um mediador, que não pode ser influenciado por quaisquer conhecimentos ou impressões prévias. Em muitas situações, a regra do conflito de interesses é evidente. Deveria ser óbvio que um advogado que esteja a trabalhar presentemente para uma das partes não pode actuar como um mediador imparcial. Deveria ser, também, óbvio que um advogado que defendeu uma das partes num divórcio anterior não deveria assumir o papel de mediador, porque inevitavelmente essa situação seria influente na mediação. A Law Society of England and Wales publicou um Código de Procedimentos para a Mediação Familiar (1999) no qual se indica que a mediação não se deveria realizar “se o mediador ou um membro da sua empresa tiver trabalhado para qualquer das partes mesmo em questões não relacionadas com a mediação, salvo se tal tiver sido comunicado às partes, e que estas consintam” (s.3.4.3). 4. Capacitação dos participantes na tomada esclarecida de decisões A capacitação é um princípio fundamental da mediação. Tal como a neutralidade, a capacitação tem um certo número de significados. Por um lado, há capacitação por partilha de conhecimento. Os mediadores ajudam as partes a tomarem as suas próprias decisões, baseadas em informação e ponderação. Os mediadores explicam que o pleno conhecimento da situação financeira é indispensável em mediação, em todas as suas vertentes, e encorajam o fornecimento completo da informação e documentação, de maneira a que os debates e as decisões sejam baseadas no facto de que ambas as partes tenham recebido e tomado em consideração toda a informação pertinente. É pedido aos participantes que assinem um Termo de Consentimento da Mediação2, no qual se comprometem a fornecer diversas informações, entre as quais informação financeira. O mediador ajuda-os a obter a informação e os documentos que lhes permitirão chegar a um acordo com pleno conhecimento de causa. Eles podem ser aconselhados a esclarecerem com os seus consultores jurídicos sobre as revelações feitas pela outra parte e a obterem conselho 25 2 Nota do editor – O Termo de Consentimento da Mediação é um documento em que as partes assumem voluntariamente um processo de mediação e aceitam as regras estipuladas. Em Portugal este documento é assinado pelas partes e pelo mediador. Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 25 sobre se é necessário realizar mais averiguações desse foro. A mediação deve cessar se uma das partes se recusar a fornecer informações ou se fornecer informações que se verifiquem ser deliberadamente incompletas ou falsas. Ao colectar e partilhar informação, e ao explorar diversas opções, os mediadores dão também informações e possibilitam aos participantes o alargamento do seu leque de opções. As informações prestadas pelo mediador podem eventualmente abrir novas possibilidades de que o casal desconhecia anteriormente. A informação deve ser verificável e prestada duma forma equilibrada. Outro aspecto da capacitação deve ser a protecção contra pressões. Os mediadores não devem permitir que um dos participantes pressionasse o outro, nem o mediador deve dar conselhos ou orientar os participantes num determinado sentido, por exemplo, sugestionar a decisão que o tribunal poderia tomar. No Termo de Consentimento da Mediação é explícito que o resultado da mediação não é vinculativo para os participantes. Se houver consequências legais ou financeiras, as partes devem ter uma oportunidade para serem aconselhadas separada e independentemente, antes de se comprometerem com o acordo que eles consideram legalmente vinculativo. Os mediadores podem até alertar para os perigos dum acordo prematuro que poderia prejudicar uma ou ambas as partes em relação ao acordo final. Se, pelo contrário, se atingir um acordo numa matéria cuja natureza não requer nenhum parecer legal independente ou não precisa de mais nenhum outro parecer, os participantes poderão decidir chegar a acordo, na condição de que compreendam perfeitamente os seus termos e consequências. 5. Respeito pelos indivíduos e pela diversidade cultural Os mediadores procuram assegurar que todos os participantes sejam tratados com respeito e que pessoas de quaisquer raças ou culturas sejam tratadas com idêntico respeito. Os mediadores precisam de treino e de recursos adicionais para mediação com culturas diferentes. A mediação deve estar disponível para todos os casais, casados ou solteiros, em qualquer fase de separação ou de divórcioe para parentes noutros tipos de litígios. Deve ser acessível a todas as famílias de acordo com uma política de oportunidades idênticas. Devem ser atendidas necessidades especiais, tais como o acesso para deficientes motores e o atendimento apropriado para quem tenha problemas auditivos. 26 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 26 6. Segurança pessoal e protecção contra riscos É indispensável realizar uma triagem prévia com cada um dos participantes. Nos casos em que houver receios ou perigos de violência ou dano, os mediadores devem considerar seriamente se a mediação deve ir avante, e, no caso positivo, em que circunstâncias e condições. Os mediadores devem assegurar-se de que cada participante toma parte na mediação de livre vontade, sem receios de violência ou intimidação. Quando a mediação estiver em curso devem ser tomadas medidas apropriadas para garantir a existência de áreas de espera separadas e, se aconselhável, realizar reuniões separadas com cada parte. Se uma das partes recear violência ou dano durante uma reunião, ele ou ela deve ter a liberdade de abandonar a sala de mediação e o edifício antes da saída da outra parte, a fim de reduzir qualquer receio ou risco de ser atacado ou seguido. Os mediadores devem ser capazes de reconhecer diferentes desequilíbrios de poder que afectem o processo de mediação, e de tomar medidas apropriadas para gerir esses desequilíbrios, tais como o estabelecimento das regras de jogo, a partilha de informação e a identificação da necessidade de aconselhamento jurídico ou outro (ver capítulo 7). Se não for possível gerir adequadamente esses desequilíbrios, ou se houver intimidação, linguagem ou comportamento abusivo, o mediador deverá explicar que a mediação terá de ser cancelada se os participantes não forem capazes de cumprir as regras básicas acordadas no Termo de Consentimento da Mediação. Se os participantes continuarem a tratar-se sem respeito, o mediador deve suspender ou terminar a mediação. Crianças em risco Quando uma criança ou qualquer outra pessoa estiver em risco dum dano significativo, o mediador deve, na medida do possível, analisar com as partes os procedimentos que devem ser tomados. Se uma criança estiver a sofrer ou em risco de sofrer um dano grave, os pais ou outros responsáveis devem ser alertados para procurar ajuda adequada. No Termo de Consentimento da Mediação explicita-se claramente que em tais circunstâncias a confidencialidade deve ser quebrada e que o mediador deve entrar em contacto com o profissional que preste essa ajuda adequada e tomar as medidas que sejam necessárias para proteger a criança ou a outra pessoa que se encontra ou que se julga encontrar em risco. 27 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 27 7. Confidencialidade Os mediadores comprometem-se a não divulgar informação a nenhuma outra pessoa ou órgão sem obter o consentimento por escrito de todos os participantes, excepto quando a lei e/ou o seu Código Processual impuserem uma obrigação derrogatória de revelação. Os participantes devem ser esclarecidos, verbalmente ou por escrito, que a confidencialidade da mediação não é absoluta. 8. O privilégio legal próprio da mediação Os tribunais ingleses apoiaram durante muito tempo a existência dum privilégio legal relacionado com declarações e comunicações em que as partes estão a negociar com a finalidade de conseguir uma reconciliação. Este privilégio está baseado no princípio de que há um interesse público em permitir que as possibilidades de reconciliação sejam exploradas, sem risco de que nenhuma das partes seja prejudicada em procedimentos judiciais subsequentes, em resultado de ter havido uma tentativa de reconciliação. O privilégio legal relacionado com tentativas para facilitar a reconciliação foi ampliado para abranger também o processo de mediação, em que o mediador ajuda as partes a solucionar um conflito. A única excepção, feita pelos tribunais ingleses, verifica-se nos casos em que as declarações produzidas no processo de mediação indicam que uma criança se pode encontrar num risco de gravidade significativo. Nessas circunstâncias, o tribunal pode derrogar o privilégio legal relacionado com a mediação. 9. Focalização no futuro O litígio tem tendência a centrar-se sobre os erros e ofensas passadas. A mediação foca o presente e o futuro, muitas vezes sem se deter na história passada. Muitos participantes encontram um enorme alívio em ser ajudados a olhar para a frente, em vez de olhar para trás. Informação sobre o passado poderá ser necessária quando for directamente relevante para as decisões correntes e para o planeamento futuro. 28 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 28 10. Maior ênfase em interesses mútuos do que nos individuais Os mediadores ajudam as partes a reconhecer os seus interesses e preocupações mútuas e a chegarem a decisões que incorporam essas preocupações partilhadas, em vez de insistirem em argumentos baseados nos seus direitos. Em linguagem de mediação, as partes são ajudadas a chegar a soluções de “ganha-ganha”, em que todos ganham, e não de “ganha-perde”, em que um perde para o outro. 11. Tomada em consideração das necessidades de todos os interessados, incluindo os filhos Os mediadores ajudam os pais a ter em consideração as necessidades e os sentimentos dos seus filhos, bem como, os seus próprios. Não está no papel do mediador aconselhar os pais sobre os melhores interesses dum filho em particular. Os mediadores ajudam os pais a considerar a posição, as necessidades e os sentimentos de cada um dos filhos, ao procurarem soluções para eles que sirvam também para todos os que estão envolvidos (capítulo 6). 12. Competência do mediador Os mediadores deveriam mediar em assuntos em que estejam treinados e sejam competentes para mediar. Eles precisam de ter em consideração a complexidade dos casos e se os mesmos se enquadram na sua competência de mediadores. Se o mediador não tiver a experiência e o conhecimento necessário para os assuntos em causa, a mediação deveria ser passada para um mediador devidamente qualificado. Na Inglaterra e no País de Gales, os mediadores registados oficialmente devem passar com aprovação a uma Avaliação de Competência baseada num conjunto de casos concretos de mediações anteriores, antes de poderem realizar mediações familiares subsidiadas por fundos públicos (capítulo 9). Em que se distingue a mediação familiar do aconselhamento e da terapia? Os mediadores familiares são muitas vezes treinados e experientes como conselheiros, psicólogos, assistentes sociais e terapeutas familiares. O conhecimento 29 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 29 e a experiência adquiridos na sua profissão de origem são extremamente válidos. É, contudo, essencial distinguir entre o papel do mediador familiar e outras funções com que poderia ser confundido. Os clientes da mediação têm o direito de que não lhes sejam dados nem aconselhamento nem terapia que eles não pediram e que, eventualmente, não necessitam. Um mediador familiar não é nem um conselheiro nem um terapeuta familiar. A comparação que se segue pode ajudar a identificar as diferenças. Diferenças entre conselheiros familiares e mediadores familiares Conselheiros familiares Mediadores familiares Podem aconselhar apenas uma das partes Comprometem ambas as partes desde o início A reconciliação pode ser um objectivo Separam os factos das especulações O processo não tem ligação ao processo legal O processo complementa o processo legal O processo muitas vezes é iniciado O processo normalmente é iniciado com um sem contrato escrito contrato escrito O processo pode ser a longo prazo O processo normalmente é a curto prazo Concentram-se na história pessoal e familiarConcentram-se mais no presente e no futuro e nas experiências passadas como uma do que no passado chave para o presente Concentram-se em sentimentos e nos aspectos Concentram-se em aspectos práticos e complicadas das relações na tomada de decisões As perspectivas e as necessidades dos adultos As relações pais-filhos constituem a constituem a principal preocupação principal preocupação Proporcionam informação sobre o aconselhamento Proporcionam informação sobre a mediação Procuram aumentar o esclarecimento pessoal Procuram ajudar as partes a atingir um acordo Podem usar teorias psicanalíticas Recorrem às teorias do conflito e da mediação Procuram sobretudo auxiliar Podem ter uma postura mais intervencionista A relação entre cliente e conselheiro pode Procuram capacitar as partes e aumentar a envolver alguma dependência durante sua autonomia algum tempo O processo termina muitas vezes sem Prepara um Memorando de Entendimento / um acordo escrito Acordo 30 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 30 Diferenças entre terapeutas familiares e mediadores familiares Terapeutas familiares Mediadores familiares Orientados para o tratamento Não orientados para o tratamento Trabalham frequentemente com Trabalham em processos de separação e “famílias intactas” divórcio Incluem crianças desde o início Raramente há crianças implicadas desde o início Trabalham normalmente sem qualquer Iniciam o processo com a assinatura do contrato escrito Termo de Consentimento Não tem nenhuma ligação com o processo legal Tem ligação ao processo legal A comunicação não está estruturada, Facilitam a comunicação duma forma observam como comunicam estruturada para garantir uma os membros da família participação equilibrada Acento tónico nos processos familiares Dão relevo às questões inter-pessoais Têm em consideração os problemas subjacentes Dão relevo a questões manifestas e situações por resolver Transmitem mensagens em vez de informações Dão informações “neutras” Desenvolvem hipóteses para explicar Ajudam as partes a negociar eficazmente face o funcionamento familiar ao surgimento de várias hipóteses Em sala com ecrã de visão unidireccional o Trabalham em conjunto e a comunicação diálogo entre os terapeutas não é ouvido é aberta em situação de co-mediação pela família Podem dar instruções paradoxais sem explicar Analisam e combinam tarefas com as partes as razões Trabalham estrategicamente em matérias que Ajudam fundamentalmente pais a concordarem envolvem membros da família sobre como falar e como consultar os seus filhos Terminam muitas vezes sem um acordo escrito Preparam um Memorando de Entendimento Muitos advogados de família na Grã-Bretanha e nalguns outros países europeus, como a Dinamarca, a Alemanha e a Holanda, especializaram-se em mediação. Muitas vezes a formação é multidisciplinar e pode usar um modelo de co-mediação. Contudo, um único advogado mediador pode encontrar dificuldades em passar de funções inerentes a um consultor jurídico para funções inerentes a um mediador, especialmente se têm o hábito de aconselhar. Como mediador, o advogado tem de aprender a facilitar a tomada de decisões pelas partes e de aprender como prestar informações importantes duma maneira neutra e não-impositiva. Dar informações em mediação exige um jeito especial. 31 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 31 Corre-se o risco de se desviar do papel de mediador por se tornar – ou parecer que se torna – mais apoiante duma das partes do que da outra. A informação que é prestada em mediação é fornecida duma maneira diferente e para um fim diferente da informação que os advogados dão aos seus clientes. Um experiente advogado familiar e mediador na Escócia explica esta nuance da seguinte forma: “Como jurista você pode ser mais directivo, partidário e táctico, ao passo que como advogado mediador a prestação de informação é feita dum modo neutro, imparcial e o processo é baseado em total abertura em vez de preocupações estratégicas” (Dick, 1996, at p.4). Diferenças entre consultores jurídicos e mediadores familiares Consultores jurídicos Mediadores familiares Trabalham dentro da disciplina da lei Multidisciplinares Aconselham o seu cliente individualmente Imparciais, sem tomar partido, ajuda equilibrada O processo inicia-se frequentemente com As partes são convidadas a indicar as suas uma história do litígio necessidades Aconselham no quadro dos direitos legais Concentram-se em interesses e preocupações mútuas A informação financeira é coligida e permutada A informação financeira obtida é partilhada no formalmente entre advogados interior do processo de mediação Usam terminologia jurídica Usam linguagem corrente Ocupam-se das ofensas aos seus clientes Concentram-se nas soluções presentes e futuras Sem formação na gestão de processos psicológicos Com formação gestão de conflitos Baseiam-se no relato dos acontecimentos feito Analisam em conjunto, com ambos os pais, a pelos seus clientes e nas suas ideias acerca situação dos seus filhos. Os filhos podem das questões relacionadas com os filhos participar Aconselham os clientes sobre o melhor Exploram opções, não-directivas caminho a seguir Negoceiam com “o outro lado” por Os participantes negoceiam em reuniões e correspondência frente-a-frente Redigem requerimentos ao tribunal Normalmente não redigem documentos legais 32 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 32 A Estrutura da Mediação Familiar A teoria da mediação Os mediadores precisam duma teoria para fornecer uma explicação e um quadro de trabalho coerente para a sua actividade. A teoria contém os valores básicos da mediação. A prática da mediação está alicerçada em crenças e valores sobre pessoas e conflitos. Os valores e as crenças moldam as nossas respostas aos clientes de 33 Funções de gestão: – processo e estrutura – desequilibrios de poderes – partilha de informação Define soluções Recolhe informação Explora opções Minuta propostas Conhecimentos de base necessários para: – fazer perguntas relevantes – prestar informação adequada – analisar os dados financeiros – saber quando deve consultar especialistas PR INC ÍPI OS E V ALO RE S AP TID ÕE S P R O C E SS O S Co mu nic açã o a ber ta Cap aci tar as par tes Im par cia l, e qu ilib rad o Ce ntr ada no fut uro Nã o-d ire ctiv a Cen trad a n as nec ess ida des dos filh os Est imu lar a c oo per açã o Nã o t em for ça exe cut iva C o m p ro m is so , re co n h ec im en to d e au to ri d ad e Fo rm u la çã o d e p er gu n ta s ap ro p ri ad as C la ri fi ca çã o , d ef in iç ão d e p ri o ri d ad es R ef o rm u la çã o , co n ve rg ên ci a G es tã o d e d es eq u ilí b ri o s d e p o d er es N eg o ci aç ão Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 33 mediação, influenciando o que fazemos e o que dizemos. Em 1973, um psicólogo social, Morton Deutsch, publicou a sua teoria sobre a natureza dos conflitos humanos e o uso construtivo duma terceira parte na resolução de conflitos (Deutsch, 1973). Estas teorias positivas são extremamente importantes, mas têm limitações na prática. Durante a separação ou o divórcio, algumas pessoas conseguem manter-se calmas, racionais e razoáveis. Mas há muitas que sentem emoções tão intensas que durante um período de tempo podem ficar impedidas de falar ou de actuar razoavelmente. Uma teoria de mediação baseada em negociaçãoe resolução de problemas por via cooperativa causa uma dicotomia entre conflito e cooperação que é demasiado simplista. Em casos em que a mediação não conduz a um acordo, não significa que a mediação foi necessariamente um falhanço: talvez tenha aberto uma porta que permita comunicar, o que pode ser mais importante para um casal do que concluir um acordo. A finalidade da mediação – decidir disputas ou resolver conflitos? Os mediadores familiares têm experiências profissionais variadas, particularmente nos ramos de ciências jurídicas e humanas. A sua conceptualização da mediação depende em grande parte de quem faz a mediação e de como definem o seu papel. Os mediadores com uma experiência jurídica têm tendência a definir a mediação como um processo contratual e não-terapêutico. Os mediadores com uma experiência nas áreas da psicologia ou da terapia estão mais inclinados a defini-la como um processo de gestão de conflitos e põem grande ênfase na melhoria da comunicação. As palavras disputa e conflito são normalmente consideradas como sinónimas, mas na verdade não o são. As Disputas são explícitas, e ao decidir a sua disputa, os litigantes podem aceitar condições que envolvem um compromisso ou uma concessão. Poder- se-á conseguir um acordo porque ambas as partes reconhecem que ele é necessário, mas as suas atitudes, uma em relação à outra, podem continuar a ser hostis e pode acontecer que não voltem a comunicar. O Conflito, por outro lado, pode ser manifesto ou escondido. Não se procura necessariamente atingir um acordo. A mediação procura ajudar as partes a conseguir decisões consensuais e a resolver disputas. Poderá também ajudá-las a resolver os seus conflitos. Mas é irrealista esperar que um breve processo resolva a profunda raiva e dor duma relação destroçada. Um parceiro que se sinta abandonado e traído pode levar anos até que, emocionalmente, se sinta em condições de tratar dum divórcio ou duma separação. Alguns nunca conseguem. A mediação não oferece nem aconselhamento nem psicoterapia. Apesar disso o 34 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 34 processo de trabalhar tendo em vista uma decisão em certas matérias permite a alguns casais ouvirem-se um ao outro, talvez pela primeira vez. Ao fazerem-no percebem que as suas percepções e atitudes se alteram radicalmente. Numa das extremidades deste espectro, é possível conseguir um acordo sem modificar atitudes e sem apagar o ódio; na outra extremidade, alguns casais parecem experimentar uma espécie de catarse em que passam de violentas recriminações a um relacionamento diferente, construído em cooperação e verdade. Portanto, uma das diferenças entre mediadores familiares e as teorias que seguem é saber se pretendem resolver disputas por meio dum acordo concreto, ou se procuram ajudar os participantes a resolver os conflitos psicológicos e emocionais que estão subjacentes às suas disputas. Entre essas duas possibilidades, a prática é substancialmente diferente, ainda que os vários objectivos não sejam necessariamente incompatíveis. Muitos mediadores acabam por os misturar de alguma maneira (capítulo 2). Turbulência, gestão da mudança e mediação com famílias em mudança A teoria da mediação precisa de explicar a dinâmica do processo, qualquer que seja a conclusão. Precisamos duma teoria para explicar como é que de facto a mediação funciona, em oposição a como devia funcionar. A turbulência e a dinâmica dos fluidos oferecem uma metáfora e uma teoria para o processo de mediação familiar, independentemente do seu resultado final. Há uma história acerca do teórico de Física Quântica, Werner Heisenberg3, no seu leito de morte. Heisenberg disse que teria duas perguntas para pôr a Deus: porquê a relatividade e porquê a turbulência. Aparentemente, acrescentou: “Sinceramente, eu penso que Ele talvez tenha uma resposta para a primeira pergunta”. (Gleick, 1987, p. 121). Os mediadores que vêem os efeitos destrutivos dos conflitos maritais e conjugais talvez estejam também inclinados a perguntar “Porquê o conflito?”. Conflito, em separação e divórcio, encaixa-se perfeitamente na definição científica de turbulência: “O que é turbulência? É uma confusão de desordem a todos os escalões, pequenos redemoinhos no interior de grandes redemoinhos. É instável. É altamente dissipador, significando que a turbulência escoa energia e cria lentidão de reacções” (Gleick, p 122). O conflito em processo de divórcio dissipa energias e cria arrastamentos, 35 3 Nota do editor: Werner Heisenberg é um reputado físico do século XX, que se dedicou à física quântica. Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 35 exactamente como uma corrente de ar turbulenta por cima da asa dum avião cria uma travagem e anula o impulso ascensional. O conflito em si não é necessariamente destrutivo. Pode produzir uma mudança positiva e crescimento. Mas, falando em termos científicos, uma superfície rugosa gasta imensa energia. Separar casais que se batem por uma mudança ou que tentam manter o status quo contra a ameaça de mudança, representa um enorme consumo de energia. Mas a energia é gasta muitas vezes em puro desperdício e duma forma contraproducente: para atacar, para meter medo ou para conflituar um com o outro. Os mediadores têm de ajudar os casais a conservar o máximo da sua energia quanto possível, de modo a que eles consigam caminhar para a frente e “subir”. Em vez de dissipar as suas reservas de energia, os casais em vias de separação devem ter a preocupação de encontrar meios que lhes permitam conjugar esforços nalgumas áreas embora isso não se verifique noutras. Não se trata de modo nenhum duma tarefa fácil. Como os que trabalham com casais em vias de divórcio bem sabem, o movimento é nitidamente flutuante, para cima e para baixo, para trás e para a frente, por vezes com um fim em vista, mas na maior parte dos casos caótico. Esta realidade dum movimento irregular em vez dum movimento suave, com pontas e depressões repentinas, é familiar à maioria dos mediadores. A turbulência é causada por forças estáveis interagindo com forças instáveis. Na turbulência que se verifica quando as relações no interior dum casal são quebradas, há muitas vezes uma luta, uma vez que a tentativa de aumentar a instabilidade se sobrepõe aos esforços para manter alguma estabilidade. Nessa luta, a energia pode ser usada para gerar ainda mais turbulência, ou pode ser orientada com o fim de controlar a turbulência. Os mediadores procuram ajudar os casais a usar a sua energia construtivamente em vez de destrutivamente, para gerir as dinâmicas da mudança. Quando a turbulência assenta no fundo, volta-se a ganhar a estabilidade. Outra característica da turbulência que é altamente relevante para a mediação consiste no facto da turbulência produzir resultados imprevisíveis e altamente variáveis designados pelos cientistas como “efeitos de tensão superficial”. Os efeitos de tensão superficial são tipicamente minúsculos, “micro” efeitos (pensar nos flocos de neve, todos diferentes uns dos outros), que os cientistas julgaram serem demasiadamente pequenos para serem significativos. Contudo, as novas ideias sobre a teoria do caos levou-os a olhar de novo para os efeitos de tensão superficial e para a maneira como acontecem. Para sua surpresa, os cientistas descobriram que pequenas modificações 36 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 36 nos efeitos de tensão superficial “provaram ser infinitamente sensíveis à estrutura molecular duma substância em vias de solidificação” (Gleick, p 311). O significado desta descoberta para a mediação consiste no convencimento de que mesmo pequenas modificações nos efeitos da tensão superficial podem influenciar o desenvolvimento de novos modelos e estruturas familiares mais profundamente doque aquilo que seria previsível. A nova estrutura duma família em vias de divórcio pode ser ainda maleável e as relações podem ser ainda ambivalentes e flexíveis: ainda não solidificaram. Uma crise familiar, quando forças instáveis interagem com maior poder do que forças estáveis, cria oportunidades únicas para mudança e crescimento. O tempo certo da intervenção é importante: a fase em que os mediadores são envolvidos afecta o nível e a gestão da turbulência. As intervenções numa fase inicial são normalmente mais influentes do que as mais tardias, quando os modelos ou estruturas disfuncionais talvez já tenham sido adoptados e resistam a alterações. A teoria do caos A teoria do caos oferece alguns conhecimentos a mediadores familiares que se perguntam porque é que seguindo os mesmos passos e procedimentos quando trabalham com casais em vias de separação os resultados são tão diferentes. A teoria do caos é uma ciência da natureza global dos sistemas. Conseguiu agrupar pensadores de origens diversas que anteriormente tinham estado totalmente separados. Os primeiros cientistas do caos reconheciam amostras, especialmente amostras que aparecessem em diferentes escalas ao mesmo tempo. Nos anos 70, cientistas dos Estados Unidos e da Europa começaram em número crescente a chegar à conclusão de que, ainda que os físicos tivessem estabelecido alguns princípios para explicar as leis da natureza, eles ainda não dominavam as forças que produzem modelos desordenados do tempo, turbulência na água e oscilações no coração e no cérebro. A face irregular da natureza, a sua face descontínua e errática, continua a ser profundamente enigmática. Mas na década de 1970 alguns cientistas começaram a procurar ligações entre ordem e desordem. Edward Lorenz, um cientista do Instituto de Tecnologia da Massachusetts, encontrou no seu estudo de modelos de tempo que existiam modelos vulgares sobre tempo, subida e descida de pressão, correntes de ar mudando de norte e de sul. Mas a repetição nunca era idêntica. Os modelos mostravam grandes e imprevisíveis variações. Utilizando praticamente o mesmo ponto de partida, dois modelos 37 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 37 semelhantes de tempo podiam crescer cada vez mais de formas diferentes até que desaparecesse qualquer semelhança. O que é que causaria as diferenças? Partia-se do princípio de que se conheciam bem objectos como os fluidos que podiam ser mais facilmente medidos do que a atmosfera. Contudo, não era bem assim. Gleick (1987) tomou o exemplo de dois pedaços de espuma a cair sobre uma queda de água e assentando no fundo lado a lado. “O que pode pensar sobre a distância a que se encontravam um do outro à superfície? Nada. No que se refere à física corrente, Deus pode muito bem ter tomado todas essas moléculas de água … e tê-las misturado pessoalmente” (pág 8). Casais à beira do divórcio podem estar profundamente separados, ou podem estar muito perto um do outro. Mesmo que fosse possível medir a variação da distância entre eles, essa medida não constituiria uma previsão segura da distância que iria verificar-se entre eles no fim do processo de mediação. Há muitas correntes durante o caminho que podem alterar o rumo de cada um dos parceiros. Os cientistas que estudam variações imprevisíveis perceberam gradualmente que variações muito pequenas dos factores iniciais podem conduzir a uma enorme diferença na forma final das coisas. Em sistemas meteorológicos, Lorenz traduz esta ideia no que é conhecido pela forma semi-jocosa de Efeito Borboleta: a noção de que uma borboleta batendo as asas hoje em Pequim poderia ter como consequência tempestades em Nova Iorque no próximo mês. Se Lorenz se tivesse limitado ao Efeito Borboleta – uma imagem dum movimento minúsculo, frágil, capaz de ter conse- quências a grande distância mas inteiramente ao acaso – ele não nos teria ajudado muito. Mas o seu trabalho mostrou que uma cadeia de acontecimentos tem pontos críticos de viragem, em que pequenas intervenções podem exercer grande influência. Esta nova ciência da teoria do caos evoluiu como “uma ciência de processos mais do que de estados, do “tornando-se” mais do que do “sendo” (Gleick, 1987, p.5). Também a mediação é uma ciência de processos mais do que de estados, do “tornando-se” mais do que do”sendo”. 38 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 38 Capítulo II DIFERENTES MODELOS DE MEDIAÇÃO FAMILIAR Muitos mediadores familiares foram treinados segundo um modelo particular de mediação e podem não estar familiarizados com outras abordagens. Um dos mais conhecidos é o modelo de resolução de problemas ou modelo orientado para acordos, baseado no sistema de Negociação de Princípios elaborado por Fisher e Ury (1981). 1. Mediação orientada para o acordo Uma das principais características da mediação orientada para o acordo é a sua focagem em interesses mais do que em posições. Uma posição é uma declaração duma solução preferida por uma das partes. O anúncio duma posição implica normalmente elementos estratégicos, tais como acusação, exagero, insistência nos seus direitos e recusa de que a outra parte tem os mesmos direitos. Em contrapartida, um interesse é uma necessidade ou objectivo fundamental que é preciso atingir. Pedir uma proporção fixa de activos de capital é um exemplo duma posição, ao passo que a necessidade de dinheiro suficiente para proporcionar alojamento conveniente é um exemplo dum interesse. Por exemplo, um casal pode estar em desacordo sobre a quantia que cada um deles deve receber. Como pais, eles podem ter um interesse comum em assegurar estabilidade para as suas crianças e evitar que mudem de escola, se possível. Em mediação orientada para acordo, as partes são primeiramente convidadas a apresentar as suas respectivas posições. O mediador procura identificar e perceber os interesses que servem de suporte a estas posições e ajudar as partes a reconhecer que talvez tenham interesses e necessidades comuns, apesar de 39 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 39 estarem em conflito. Os interesses mútuos muitas vezes não só são concretos, como por exemplo a necessidade de alojamento, mas são também necessidades psicológicas, como por exemplo a manutenção do respeito e do amor-próprio. O mediador ajuda as partes a procurar soluções integradoras, em que ambos ganhem, que vão ao encontro de tantas necessidades comuns quanto possível seguindo a conhecida expressão: o mediador é “brando com as pessoas e duro com o problema”. Comprometer as partes numa via de resolução do problema permite-lhes trabalhar em conjunto no sentido do acordo, em vez de perderem tempo e energias numa competição destrutiva. Esta via de resolução do problema está fortemente alicerçada em técnicas de negociação e de discussão. É provável que o mediador utilize raciocínios a partir do lado esquerdo do cérebro, caracterizado como sendo linear, lógico, analítico, racional e orientado para realizar tarefas. Ao usar as técnicas da negociação de princípios, o mediador procura: • Separar as pessoas do problema • Focalizar as pessoas nos seus interesses mais do que nas posições • Criar opções de ganhos mútuos A mediação orientada para um acordo inclui uma série de fases. Um modelo simples de quatro fases seria o seguinte: 1. Definição das questões Os participantes explicam as suas posições 2. Pesquisa dos factos Recolha e partilha de informação 3. Exploração das opções Análise das necessidades, das preocupações e das consequências 4. Obtenção de acordos Negociação para um resultado mutuamente aceitável O conceito de MAAN – a Melhor Alternativa para um Acordo Negociado – e do seu oposto PAAN – a Pior Alternativa para um Acordo Negociado – são usados como balizas que servempara medir o acordo proposto. Haynes, uma conhecida autoridade em mediação orientada para o acordo, definiu a fase final da negociação como a fase em que “são feitas propostas e contrapropostas, são sugeridas negociações, são mudadas posições e se conquista um acordo” (Haynes, 1981 p.4). 40 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 40 Quando a tónica é posta no interesse e não em posições, podem-se explorar variados caminhos para encontrar esses interesses e podem surgir áreas de entendimento. O processo pode correr muito bem quando houver interesses mútuos e/ou motivações para resolver os problemas. Deve-se contudo ter presente que as mediações em que se procura o acordo se apoiam num certo número de suposições. Parte-se do princípio que os participantes estão: * Motivados para chegar a um acordo * Capazes de pensar racionalmente * Razoavelmente esclarecidos sobre os diferendos que é preciso resolver * Capazes de explicar e defender as suas posições * Capazes de negociar * Capazes de reconhecer ou aceitar uma solução aceitável Muitos advogados mediadores preferem mediações orientadas para o acordo a outros modelos porque as soluções são medidas em termos de resultados concretos e porque os advogados têm tendência a sentirem-se mais à vontade num papel activo ou mesmo de orientação. Na mediação orientada para o acordo, o mediador pode exercer um poder considerável. Corre-se o risco de retirar poder a uma ou a ambas as partes em vez de lhes conferir poder, e o mediador pode ver-se confrontado com dilemas para resolver questões de se e como conferir poder à parte mais fraca. Há também riscos que os mediadores que estão muito ansiosos por chegar a resultados correm, em exercer acção junto das partes para a sua solução preferencial, em vez de utilizarem o tempo para construir um acordo mutuamente satisfatório com as duas partes (ver capítulo 8 sobre o uso de poder pelo mediador). A tónica está normalmente em conseguir resultados concretos e soluções práticas. As partes podem ser convidadas a expressar os seus sentimentos no início, mas espera-se que os mesmos sejam postos de lado depois disso. Ora tal não é possível para muita gente, especialmente em separações e divórcios. A mediação orientada para o acordo não foi concebida para famílias. Foi adaptada a partir da mediação comercial e civil. Se os sentimentos não forem suficientemente reconhecidos e se não se conceder tempo suficiente para considerar e renegociar as relações familiares, pode bem acontecer que se chegue a um acordo sem os pais terem trabalhado as decisões nem as disposições que têm em conta tanto as necessidades dos filhos como as suas próprias. 41 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 41 2. Mediação transformativa A mediação orientada para o acordo é apropriada para certos tipos de conflitos. Contudo, em separação e divórcio, muitas pessoas não estão preparadas nem são capazes de negociar duma maneira calma e racional. Estão muitas vezes tão oprimidas por emoções fortes que não conseguem pensar com clareza. Muitos mediadores familiares, especialmente os de formação em aconselhamento e terapia, acham que a mediação orientada para o acordo leva os mediadores a tomarem demasiado controlo do processo e a envolverem-se na resolução dos problemas para além do razoável. A metodologia desenvolvida por Bush e Folger (1994), que eles designaram por mediação transformativa, deixa a condução aos participantes enquanto o mediador se limita a seguir, em vez de limitar os participantes a seguirem a orientação do mediador. Concentra-se em falar e ouvir, e encoraja uma visão refrescante – literal e metaforicamente. Quando há uma visão refrescante e compreensão com o coração, o quadro pode ser completamente alterado. Ouvir e escutar são componentes fundamentais – escuta atenta pelo mediador e possibilidade das partes se ouvirem e se compreenderem uma à outra. A primeira premissa desta abordagem consiste em que a mediação tem a potencialidade de gerar efeitos transformativos que são altamente benéficos para as partes e para a sociedade. A segunda premissa é que a mediação só tem potencial para gerar estes efeitos transformativos na medida em que o mediador introduz um sistema mental e métodos práticos conducentes à realização dos dois objectivos- chave: capacitação e sensibilização. A capacitação incita à autodeterminação e autonomia, aumentando a capacidade das pessoas de verem com clareza a sua situação e de tomarem decisões por si próprias. A sensibilização envolve a capacidade dos participantes reconhecerem os sentimentos e perspectivas recíprocos e serem mais sensíveis às necessidades da outra parte. Os mediadores transformativos ajudam- nos a melhorar o entendimento mútuo, de maneira que é possível reconhecer as necessidades de cada um com mais empatia do que anteriormente. Folger e Bush (1996) identificaram dez pontos fundamentais da mediação transformativa: 1. Compromisso para a capacitação e sensibilização como o principal obje- ctivo do processo e os aspectos mais importantes do papel do mediador. 42 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 42 2. Deixar a responsabilidade do resultado para as partes – “é a sua decisão”. 3. Recusar conscientemente criticar as apreciações e decisões das partes – “as partes sabem melhor”. 4. Ter um olhar optimista sobre a competência e a motivação das partes. Os mediadores transformativos têm uma atitude positiva sobre a boa-fé e a decência, quaisquer que sejam as aparências. Em vez de rotular as pessoas como intrinsecamente desleixadas, fracas ou manipuláveis, o mediador vê as partes, mesmo nos seus piores momentos, como temporariamente enfraquecidas, na defensiva ou absortas. 5. Permitir e responder às manifestações de emoção, não deixando às partes apenas alguns momentos para tornarem conhecidos os seus sentimentos, de modo a que estes sejam deixados de lado e seja possível centrarem-se nas questões essenciais. Os mediadores transformativos estimulam as partes a descreverem as suas emoções e os acontecimentos que as causaram, a fim de promover o entendimento e a partilha de perspectivas. 6. Permitir e explorar a incerteza das partes: a sua falta de clareza deveria ser vista como positiva e não como negativa. Se os mediadores assumirem que compreendem a situação e as necessidades de cada parte numa fase inicial da mediação, eles arriscam-se a bloquear uma fase importante de fluidez e de ambivalência. Mais do que desenvolver uma hipótese que orienta num certo sentido, é preferível que os mediadores mantenham um saudável sentido de incerteza, de modo que eles continuem a formular perguntas em vez de estabelecer conclusões. 7. Manter-se centrado no aqui e agora da interacção conflitual: “a acção está na sala”. Em vez de tentar resolver problemas, o mediador concentra-se em afirmações específicas à medida que forem feitas, tentando descobrir os pontos precisos em que as partes estão confusas, não se sentem compreendidas, ou não se entenderam uma à outra. Quando os mediadores se dão conta deste tipo de problemas, eles moderam a discussão e usam o tempo para esclarecer, comunicar e reconhecer. 8. Reagir às declarações das partes sobre acontecimentos passados: “discutir o passado tem valor para o presente”. Normalmente os mediadores incitam as partes a concentrarem-se no futuro, não no passado. Mas Folger e Bush, pelo contrário, sustentam que se a história do conflito for encarada como um mal que deve ser esquecido, perder-se-ão oportunidades importantes para 43 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 43 conferir capacitação e sensibilização. A revisão do passado pode revelar escolhas que foram feitas, opções que foi possível tomar e pontos-chave de inflexão. Rever opassado pode conduzir a uma reavaliação do presente. 9. Considerar uma intervenção como um ponto numa sequência mais vasta de interacção conflitual. O conflito acontece muitas vezes em ciclos, à medida que as partes se debatem com lutas e incertezas. Se os mediadores esperam um ciclo que inclua um movimento favorável ao acordo, seguido doutro em sentido contrário, há menos risco de entrar em pânico quando o progresso a favor do acordo pára ou retrocede. Os mediadores transformativos podem até desejar esses ciclos como fazendo parte dos fluxos e refluxos naturais dum processo de mediação. 10. Ter uma sensação de sucesso quando se verificam a capacitação e a sensibilização, mesmo que em pequenas doses: “ Os passos pequenos contam”. A mediação é sempre um desafio e muitas vezes difícil. Permitir a nós próprios reconhecer e gozar pequenos sucessos é muito importante para manter a nossa energia e motivação. Em vez de definir sucesso apenas em termos de obtenção de acordo, os mediadores transformativos valorizam cada pequeno passo que contribua para fortalecimento pessoal e para compreensão e compaixão duns para com os outros. Folger e Bush acreditam que a sua visão transformativa deveria merecer preferência em relação àquela em que se procura o acordo. Contudo, as pessoas recorrem à mediação na medida em que têm problemas para resolver e não porque estejam a pedir para serem “transformadas”. O termo “mediação transformativa” é infeliz, se implicar a noção de que os mediadores são milagreiros que transformam as pessoas ou os seus conflitos no decurso dum processo relativamente rápido. Mesmo a terapia a longo prazo pode não produzir uma modificação fundamental. Folger e Bush não explicam suficientemente se o objectivo é transformar as próprias pessoas ou o seu relacionamento ou as suas maneiras de ver o seu conflito. Um conflito tem potencial para ser transformado se for percebido e gerido de maneira diferente. A transformação de indivíduos está totalmente fora do papel do mediador e é potencialmente perigosa. As pessoas não recorrem à mediação para serem transformadas e os mediadores não deveriam impor um processo da sua autoria – mesmo que criativo e visionário – a pessoas que não o desejem. Se os participantes quiserem ajuda para atingir um 44 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 44 acordo concreto sem serem forçados a mudar as suas opiniões negativas sobre cada um, têm o direito de receber o tipo de ajuda que pediram. Mediadores que pretendam transformar os seus clientes podem estar a transcender as fronteiras éticas da mediação. Contudo, há provas de que participar numa mediação pode ser uma experiência catártica para algumas pessoas, conduzindo a mudanças na maneira de responder aos outros e até a mudanças na percepção de si próprios. Se esta catarse acontecer com o seu próprio consentimento, sem ser forçada pelo mediador, o papel do mediador é genuinamente facilitador. A mediação pode ter efeitos terapêuticos sem por isso se tornar numa terapia. O contributo de Folger e Bush consiste em realçar a empatia e os aspectos visionários e humanos da mediação, em contraste com o modelo orientado para o acordo que pode ser muito frio, lógico e limitado quando trata de relações interpessoais. 3. O Modelo Ecossistémico de Mediação Familiar Os modelos de mediação para o acordo e o transformativo tendem a centrar- se nas preocupações e perspectivas que os adultos apresentam na mediação. As crianças são apenas mencionadas na literatura sobre estes modelos. Podem ser consideradas como objectos de cuidado, ou até objecto de negociação, mais do que como indivíduos com direitos e necessidades próprias merecedores de consideração. Muitos mediadores familiares consideram que a sua tarefa consiste em conceder poder aos adultos que participam na mediação, presumindo que o acordo dos pais é o melhor para as crianças. Só uma pequena minoria envolve directamente os filhos na mediação. Contudo, algumas crianças objectam fortemente ao serem excluídas de decisões que vão também ter um impacte profundo nas suas vidas. Conforme um jovem de 15 anos declarou: “Nós também somos pessoas e não nos devem tratar como uma forma inferior de pessoas por sermos jovens. Penso que os jovens também têm direito ao mesmo respeito que os chamados adultos” (Morrow, quoted by O’Quigley 2000, p. 30 ). Saposnek (1983) assinalou há cerca de vinte anos que “as disputas pela custódia dos filhos surgem tipicamente de dinâmicas interactivas complexas. Considerando disputas sobre custódias dum ponto de vista dos sistemas familiares, o mediador 45 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 45 pode entender os elementos que os configuram e utilizar intervenções para obter uma resolução efectiva. O comportamento das crianças pode ter o efeito de aumentar ainda mais a polarização da posição de cada progenitor, porque cada progenitor pode interpretar o comportamento dos filhos como uma evidência válida e necessária para a sua própria posição de modo a assegurar o bem-estar das crianças”. Se se analisa a disputa dentro dum conjunto sistémico, pode resultar que as acções de cada membro da família, incluindo as dos próprios filhos, influenciem as acções e reacções dos outros membros da família duma maneira recíproca. Em consequência, trabalhar só com os adultos sem ter em consideração as necessidades, os sentimentos e as reacções dos filhos pode ser ineficaz se o propósito for chegar a um acordo que funcione na prática. As crianças podem encontrar uma fórmula de bloquear arranjos que os façam profundamente infelizes. O sistema ecossistémico de mediação (Berubé 2002, Parkinson 2002) centra-se na família como um todo. Os filhos e outros membros da família são incluídos no círculo familiar, indirectamente, ou se possível directamente. O mediador mantém a equidistância ao considerar as necessidades da família como um todo, mais do que pondo o acento tónico no casal dos pais em conflito. Mediação com famílias em transição Os mediadores familiares são confrontados com relações complexas, de forma dramática e por vezes traumática, em estruturas familiares em mutação. Em termos práticos, o cuidado infantil é frequentemente um tema para pais com relações estáveis, que tratam de fazer malabarismos com os seus compromissos familiares e laborais. Muitos casais que sempre partilharam as suas funções de pais, continuam a fazê-lo em cooperação, mesmo depois de se separarem, mas há muitos outros que lutam pelos seus direitos de pais e equivocam-se sobre o tempo que cada filho deve passar com cada progenitor, agora que eles vivem separados. Também pode haver conflito sobre os contactos dos filhos com outros membros da família, como sejam os avós, e sobre a participação dos novos casais de cada lado. Os mediadores familiares precisam de perceber quem vive em cada casa e se os novos membros são aceites como membros da família, e, se for esse o caso, por quem. 46 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 46 Uma das primeiras tarefas do mediador familiar, depois de dar as boas-vindas a ambos os progenitores e de os ajudar a entender e a aceitar a sua participação na mediação, é traçar um “mapa”, verbal ou literal, da família na sua forma actual, segundo a perspectiva de cada um deles. É preciso obter a resposta de cada um dos pais a um questionário. Para facilitar essa tarefa, deve-se desenhar um ecograma no quadro. O ecograma é uma versão modificada de um geneograma. O geneograma é uma ferramenta clássica em terapia familiar que pode ser utilizada de forma diferente na mediação familiar e com outras finalidades. Os geneogramas são por definição diagramas que mostram estruturas familiares e relações de linhas verticais geradoras. O termo “ecograma”utiliza-se em vez de “geneograma” (Bérubé 2002, Parkinson 2002) para mostrar a relação com o meio ambiente “de famílias em transição, que tendem a crescer para fora segundo um eixo horizontal, e não apenas verticalmente”. Para perceber a ecologia e o sistema da evolução familiar, os mediadores utilizam ecogramas para ter uma representação na horizontal em oposição ao formato vertical. Outro aspecto útil do ecograma é mostrar duas linhas horizontais que ligam os pais, em vez da clássica linha única. A linha superior representa a relação conjugal que está terminando em separação ou divórcio. A linha inferior representa a ligação co-paternal que normalmente é preciso continuar, para benefício dos filhos e dos próprios pais. É extremamente difícil para os pais aceitar o fim da sua relação conjugal e continuar ao mesmo tempo a sua co-parentalidade. Os fios da meada enredam-se muitas vezes. Evitar um confronto directo entre os pais pode ajudá-los a tomar consciência da necessidade de separar os fios conjugais (que os levam até antes da ruptura da sua relação) dos fios que os ligam como pais na actualidade e no futuro. Alguns mediadores familiares desenham um ecograma num quadro no começo da mediação, como uma forma de compilar informação de ambos os pais, ecograma que se vai tornando mais claro à medida que a realidade familiar se vai precisando. O ecograma deve conter dados sobre o emprego, sobre as fontes de rendimento e sobre os assuntos de maior urgência e prioridade para cada um dos pais. Os mediadores podem desenhar ainda um ecograma nos seus apontamentos sobre o caso, como um sumário de leitura rápida. Isto é também uma forma de ver o funcionamento familiar, possivelmente para o analisar com um consultor ou supervisor. Os ecogramas são especialmente úteis quando o sistema familiar alargado inclui filhos de relações anteriores, padrastos, enteados, avós e pais dos padrastos. 47 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 47 O ecograma mostra, por meio de linhas ponteadas (i.e. limites permeáveis) os que vivem em cada casa e quem está em contacto com quem. Dá uma imagem visual para os pais e pode-lhes facilitar a conversa sobre as relações das crianças e sobre os seus contactos com outros membros da família. No ecograma apresentado mais adiante, Carolina e Hugo participaram na mediação familiar para chegar a um acordo sobre os seus filhos após uma separação de quatro meses. O Hugo está a viver com a sua nova parceira, a Alice, e com os dois filhos dela, a Joaquina e a Deolinda. A Alice está divorciada há cinco anos. As suas filhas, Joaquina e Deolinda, passam regularmente tempo com o seu pai, Roberto. O Roberto também tem uma nova parceira que também tem filhos, mas a mediação com a Carolina e o Hugo centra as suas preocupações e desacordos sobre o Manuel e a Cristina e sobre o tempo que devem passar com o pai. Um problema imediato consiste em que o Manuel, de 14 anos, não quer ver o seu pai por enquanto. Há questões sobre o uso das responsabilidades dos pais, sobre a continuidade da relação pais-filhos, e sobre as comunicações e interacções entre sistemas familiares “antigos” e “novos”. 48 Norman 70 anos Mary 65 anos Carol 40 anos Karen 12 anos Jessica 10 anos Debbie 8 anos Alison 36 anos Edward 75 anos Hugh 44 anos Bob 39 anos Patrick 14 anos Peggy 72 anos separados há 4 meses relação como pais Patric k recu sa con tacto vvvv vvvv vvvv vvvv vvvv vvvv vvvv vvvv vvvv vivendo com Divorciados há 5 anos Chave Homem Mulher Casado ou vivendo maritalmente Separado Divorciado Relacionamento difícil vvvvv Ecograma para a mediação com a Carol e o Hugh Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 48 Os princípios que regem os modelos ecossistémicos referem que: * Os membros da família – principalmente os pais – podem precisar de ajuda para negociar mudanças em todos os sectores das suas vidas, incluindo a necessidade de chegar a acordos com relação aos filhos, habitação e situação económica. * A importância de um foco interdisciplinar: a mediação decorre dentro de marcos culturais, sociais e jurídicos. Os mediadores familiares necessitam de conhecimentos interdisciplinares e compreensão destas áreas interligadas. * Os filhos são pessoas – não possessões – com direitos próprios, incluindo o direito de manter relações familiares que lhes dêem apoio e formação. * Uma família separada pode de qualquer modo ser uma família: as necessidades dos seus membros interrelacionam-se e eles podem precisar de ajuda para comunicar sobre os seus problemas. * As crianças e adolescentes precisam de compreender as mudanças nas suas vidas. Se ambos os pais estiverem de acordo que isso seja o mais apropriado, as crianças e adolescentes podem ser envolvidos directamente na mediação, ou também indirectamente. Os mediadores familiares precisam de formação adicional para incluir crianças na mediação. Os modelos ecossistémicos de mediação familiar têm valores que precisam de ser explicados, mais do que permanecerem implícitos, de modo que os participantes possam tomar uma opção com conhecimento de causa do âmbito e do processo que vier a ser escolhido. Cada família é única: a sua cultura, as necessidades particulares, as circunstâncias e relações são variáveis e isso pode conduzir a um resultado concebido individualmente pela família e não para a família – resultado que geralmente difere do tipo de resultado que se obteria por uma decisão judicial. Este modelo tem em conta elementos das teorias de conflito e negociação e igualmente das teorias de sistemas familiares e de vínculos. São considerados relevantes factores culturais, sociais e jurídicos. Se as negociações na mediação não considerassem aspectos jurídicos ou a influência de membros importantes da família que estão excluídos da mediação, poder-se-ia acentuar um desequilíbrio de poder. O modelo ecossistémico de mediação é um sistema de decisão participativa no qual os membros da família – principalmente os pais – procuram obter acordos em assuntos que têm implicações e consequências psicológicas, 49 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 49 sociais, económicas e jurídicas. Isto pode conduzir a acordos concretos, como no modelo de mediação orientada para o acordo, e pode incorporar elementos que melhorem as comunicações. Isto é diferente do modelo de mediação orientada para o acordo e das mediações terapêuticas na medida em que funde conhecimento interdisciplinar, compreensão e gestão de conflitos. “A tomada de decisões é um processo com raízes no passado, conduzido para além do presente, que dá forma ao futuro… um acto deliberado e consciente de seleccionar de entre pelo menos duas alternativas, ou então é a fusão de diversas alternativas numa fórmula de acção” (Paolucci e outros 1977, p 5). Noutro nível, o modelo ecossistémico faz ligações entre processos privados da família e sistemas públicos, incluindo os sistemas jurídicos e económicos de apoio para famílias. Ajudam-se os membros da família a resolver os seus arranjos actuais nas suas relações e em aspectos práticos e a formalizá-los em termos jurídicos se necessário. A abordagem interdisciplinar facilita acordos sobre assuntos que nem advogados nem terapeutas poderiam abordar sozinhos. “Uma solução jurídica que ignore as necessidades psicológicas dos clientes é tão inadequada como uma solução psicológica que entre em conflito com as necessidades jurídicas dos clientes” (Steinberg, 1980, p.261) A mediação familiar precisa de se distinguir de intervenções de aconselhamento e terapia O modelo ecossistémico da mediação familiar difere da terapia familiar por ser essencialmente interdisciplinar epor não ter objectivos especificamente terapêuticos (Parkinson, 2002). É evidente que a mediação pode ter efeitos terapêuticos, mas desde que a terapia não seja o móbil da mediação. As pessoas que participam na mediação são sujeitos de direitos e decisões, e têm o direito de não se submeterem a intervenções terapêuticas. O modelo ecossistémico de mediação familiar ajuda os membros da família a usar as mudanças e comunicações entre eles para chegar a decisões para o futuro, durante o período crítico de transição e reajuste. Estas situações apresentam amiúde um desafio, e exigem dos mediadores familiares dotes e meios complexos e extensos. É muito importante estar consciente de si próprio, reflectir sobre a prática e a supervisão. Na Grã-Bretanha a supervisão e a aprendiza- gem contínuas são requisitos para os mediadores familiares profissionais. 50 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 50 4. Modelos Narrativos Os modelos narrativos de mediação são baseados na ideia de que os mediadores e os litigantes exercem uma influência recíproca contínua sobre cada um dos outros através do seu diálogo. Autores, com uma perspectiva de narrativa sobre a mediação, concebem-na como um processo à base de contar histórias no qual os participantes são convidados a contar a sua história com o propósito duplo de ficarem envolvidos em pé de igualdade e de os ajudar a conseguirem um entendimento partilhado. Reconhecendo a influência contínua recíproca que os mediadores e os mediados exercem uns sobre os outros, Cobb e outros (1994) reconhecem essa influência como um desafio ao modelo de mediação orientada para o acordo, no qual os litigantes são guiados pelo mediador, em conformidade com uma série de fases. Os modelos de fases fornecem uma estrutura útil para o processo de mediação, mas não explicam a dinâmica nem utilizam uma gama extensa de estratégias de comunicação. O conceito de enquadramento de Bateson (1972) é central no modelo de mediação narrativo ou de comunicação. Bateson definiu-o como sendo um meio psicológico de delinear mensagens. Os enquadramentos são úteis por incluírem certas mensagens e por excluírem outras, tal como a moldura dum quadro mostra a imagem que se quer expor e exclui os assuntos fora da moldura. As molduras também sugerem como é que a mensagem no seu interior deve ser interpretada. Por exemplo, uma mensagem negativa pode ser transformada por um enquadramento positivo, ou vice-versa. Contudo, a noção de enquadramento é estática, ao passo que a mediação se apropriou do termo reenquadramento mais orientado para o processo, para representar uma troca interactiva de mensagens. O reenquadramento é reconhecido como uma das ferramentas principais usadas pelos mediadores para ajudar os participantes a encaminharem-se para o acordo. Na maior parte da literatura sobre mediação, o reenquadramento é visto como uma função unilateral levada a cabo pelo mediador. Nos modelos transformativo e terapêutico de mediação, o mediador usa técnicas como o reenquadramento com o fim de conseguir um efeito planeado sobre as partes. Em contrapartida, os modelos de comunicação realçam a influência conjunta ou a “co-construção de estruturas” em que todas as partes, opositores e mediadores, estão continuamente a enquadrar 51 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 51 e a reenquadrar imagens uns para os outros. A influência tradicionalmente atribuída ao mediador é fundamentalmente alterada por esta percepção, levando a que o mediador estruture o processo de mediação em resposta aos movimentos e reacções de cada um dos participantes. Bodtker e Jameson (1997) sugeriram a metáfora dum caleidoscópio para descrever a complexidade de enquadramentos interactivos. Cada participante (pelo menos três, se houver duas partes e um mediador) trás um enquadramento para o processo, como um disco que se adapta a uma das extremidades do caleidoscópio. Precisamos duma ferramenta conceptual para nos ajudar a compreender a relação entre estes três caleidoscópios durante o processo em que todos procuram influenciar todos. Que aspectos é que o mediador apanha dos enquadramentos dos litigantes como sendo mais significativos do que outros, e porque razão? Greatbatch e Dingwall (1994) investigaram mudanças de intervenção dos mediadores em relação a três tipos de resposta das partes – resistência verbal, condescendência verbal e silêncio. O seu estudo ilustra as influências recíprocas nos processos de mediação. Cobb e Rifkin (1991), numa análise narrativa de sessões de mediação, sugerem que a sequência de propostas de enquadramento é importante. Referem que a parte que conta a sua história em primeiro lugar tem uma vantagem porque a história da parte que se lhe segue é então vista como uma reacção ou um desafio à primeira história, em vez duma história que tem todo o direito de contar. Se o mediador não souber gerir o processo de forma eficaz, a segunda história transforma-se num enredo acessório. Isto levanta outras questões como por exemplo se o mediador convida as partes a decidir quem é que vai falar em primeiro lugar, como no modelo Coogler, ou se o mediador escolhe a que irá falar em primeiro lugar, baseando-se na sua perspectiva acerca da relação de poder entre as partes ou noutros factores. Cobb (1994, p. 54) descreve as histórias dos conflitos como “notoriamente rígidas, repetitivas e avessas a mudanças”. Os papéis das personagens na história de cada litigante são contestados e reformulados na versão contrária e os valores postos em evidência numa história são denegridos na outra história. A imagem do caleidoscópio é fixada. Cobb argumenta que todas as três características duma perspectiva pós-estru- tural numa narrativa – coerência da narrativa, fecho da narrativa e interdependência da narrativa – funcionam colectivamente para desafiar os caminhos tradicionais da mediação. O contar das histórias em mediação é portanto mais do que uma metáfora. 52 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 52 A compreensão da influência recíproca dos enquadramentos e reenquadramentos efectuados por todos os participantes no processo fornece-nos um novo quadro analítico para compreensão das intervenções. Conduz também ao desenvolvimento de novas técnicas para os mediadores quer eles estejam à espera de transformar as histórias dos litigantes ou simplesmente de encorajar uma maior congruência. O uso de hipóteses em mediação Autores reputados em mediação (Moore, 1986; Haynes, 1993) acreditam que, para que os mediadores sejam eficientes, precisam de ser capazes de analisar e avaliar situações e conceber intervenções eficazes para gerir o conflito. Os mediadores precisam dum mapa de estradas conceptual que identifique as barreiras ao acordo e que indique as causas das obstruções e possíveis caminhos alternativos. Moore recomenda que o mediador devia tentar identificar uma causa central e construir então uma hipótese à volta da mesma sobre a natureza do conflito que tem de ser resolvido, as metas dos clientes e o seu comportamento negocial. Haynes (1993) explica que “cada profissional constrói uma hipótese sobre o que está a acontecer em cada sessão como uma maneira de o guiar ao longo da sessão” (p. 13). Para Haynes, a questão não é se os mediadores usam uma hipótese ou não, mas sim que hipóteses estão a usar. Quando uma hipótese tiver sido formulada, o mediador experimenta-a. Se as respostas dos participantes mostrarem que a hipótese é mais ou menos correcta, o mediador explora-a mais a fundo. Por outro lado, se a resposta mostrar que ela é incorrecta, o mediador abandona esta hipótese e escolhe outra. Na prática parece haver um contínuo entre mediadores que consideram ter uma tarefa puramente facilitadora e aqueles que acreditam que faz parteda sua missão analisar os problemas e fornecer orientação e pistas para os resolver. Diferentes formas de mediação a. Co-mediação O velho adágio “duas cabeças valem mais do que uma” é particularmente bem adaptado em mediação. Uma fórmula de equipa usando co-mediadores pode ser vista como oferecendo vantagens significativas em relação a um mediador a trabalhar isolado. Os co-mediadores podem trabalhar dentro dum modelo particular ou inventar o seu próprio modelo conjunto. Na condição de que trabalhem bem em conjunto e valorizem os pontos fortes de cada um, os co-mediadores que trabalham em equipa têm uma capacidade maior de tratar de conflitos difíceis e desgastantes. 53 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 53 Se pelo contrário eles não estiverem em harmonia e não se compreenderem um ao outro, então o trabalho fica dificultado. A co-mediação pode ser usada para um certo número de finalidades: I. Formação – ajudar um mediador inexperiente a aprender com um colega com mais experiência; II. Supervisão (ainda que se possa argumentar que um mediador não pode exercer supervisão num processo no qual também seja um co-mediador); III. Proporcionar equilíbrio e apoio, especialmente nos casos em que se verifique grande desequilíbrio de poder entre as partes; IV. Proporcionar um equilíbrio em razão de género e/ou cultura; V. Aumentar a gama de conhecimentos e as aptidões existentes na mediação; VI. Modificar a dinâmica do processo; VII. Aumentar o número e o tipo de estratégias que podem ser usadas. Vantagens da co-mediação Se as condições básicas forem preenchidas, a co-mediação oferece um grande número de vantagens. Os membros das famílias em diferentes fases de ruptura de relações trazem pontos de vista discordantes, necessidades conflituosas e uma mistura complexa de questões a debater: conjugais, pais/filhos, financeiras e legais. Dois mediadores trabalhando em conjunto como uma equipa estão mais aptos a tomar conhecimento e a refrear emoções fortes, a responder às diversas necessidades e a manter o processo em andamento. I) Equilíbrio: tal como um banco de quatro pernas é mais estável do que um de três pernas, dois mediadores podem oferecer um melhor equilíbrio do que um só mediador. II) Oportunidade para perspectivas mais amplas e para pontos de vista diferentes: “ Também foi útil ter duas pessoas ali porque talvez tenhamos podido ter dois pontos de vista ligeiramente diferentes sobre qualquer coisa que com certeza nos ajudou a tomar uma opção” (cliente feminina citada por Walker, McCarthy e Timms, 1994, p 125). III) Apoio para os mediadores, tal como para os participantes. A mediação é um trabalho desgastante que exige um elevado nível de concentração. Há uma quantidade enorme de informação para assimilar. Um único mediador tem que fazer perguntas que podem ser exigentes do ponto de vista 54 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 54 intelectual e destruidoras dum ponto de vista emocional. A presença dum co-mediador significa apoio e segurança. As responsabilidades podem ser partilhadas e as tarefas podem ser divididas. Se os co-mediadores se sentirem bem a trabalhar em conjunto, as tensões e os esforços são bem menores do que quando se medeia sozinho. IV) Estilos e aptidões complementares. Os co-mediadores complementam- se um ao outro muitas vezes no que se refere às suas qualidades, estilos de trabalho e uso de aptidões específicas. Essa complementaridade é apreciada por casais que reconhecem que não é realista esperar que uma só pessoa tenha todas as qualidades e aptidões que eles procuram. Alguns co-mediadores podem ainda oferecer conhecimentos especializados em culturas e línguas diversas e levantar questões de diversidade cultural que um único mediador, com experiência confinada a uma só cultura, talvez não conseguisse. V) Equilíbrio de sexos: quando há só um mediador a trabalhar com o casal verifica-se inevitavelmente um desequilíbrio de sexos na sala. Os mediadores familiares são predominantemente mulheres e dois mediadores do mesmo sexo ocasionam um desequilíbrio de género. Um equilíbrio de sexos em mediação pode ser extremamente importante. Se a co-mediação for oferecida com dois mediadores do mesmo sexo, os participantes deveriam ser previamente interrogados sobre a sua aceitação e deveriam ser assegurados de que a mediação será tão equilibrada quanto possível. Se os co-mediadores forem homem e mulher há uma garantia de equilíbrio de género na sala e um modelo para o equilíbrio de poderes. Alguma pesquisa mostrou que equipas de mediação constituídas por homem e mulher facilitam a chegada a acordos mais justos e mais equilibrados. VI) Equilíbrio de culturas: em mediação com culturas diferentes, a equipa de co-mediadores pode incluir utilmente um mediador que conheça as tra- dições e necessidades culturais do casal. Tão bom como garantir que as influências culturais são bem explicadas e percebidas, o mediador especia- lista torna-se um educador para os outros mediadores e actua como um controlador contra eventuais prejuízos ou tendências racistas. VII) Um modelo: Os co-mediadores fornecem um modelo de debate construtivo, quando têm pontos de vista diferentes durante a sessão. Não é preciso esta- rem sempre de acordo, desde que apresentem perspectivas diferentes duma 55 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 55 maneira construtiva. Devem evitar contradizerem-se um ao outro, alinharem- se com uma das partes ou entrar numa argumentação que compita com os argumentos do casal (ver adiante as regras básicas para a co-mediação). Quando os co-mediadores discutem diferenças por meio dum diálogo amistoso, isso revela uma outra forma de abordar as questões e uma maneira positiva de explorara as diferenças. Esta atitude pode ajudar os participantes a juntarem-se para analisar as suas diferenças, em vez de se baterem por elas. VIII) Manutenção de boa prática: A presença dum co-mediador ajuda a evitar esquecimentos e omissões. A presença dum só mediador não permite um controlo perfeito, salvo se estiver presente um supervisor ou se as sessões forem gravadas em fita ou vídeo. Um mediador a trabalhar sozinho pode desviar-se do assunto, desenvolver pistas inadequadas ou falhar pontos importantes, sem que ninguém se dê conta de que isso está a acontecer. Os co-mediadores aprendem uns com os outros e asseguram um controlo informal da acção levado a efeito por cada um deles. Se qualquer deles sentir razões para preocupação ou desconforto, isso deve ser identificado e analisado entre os dois mediadores e pode até ser discutido com um grupo de outros mediadores ou com um supervisor. Co-mediação inter-disciplinar Formação de base e experiências profissionais diversas são sinónimos de mais competência e de mais confiança para tratar dum leque alargado de questões. Co- mediadores com uma formação profissional diferente complementam-se uns aos outros ao oferecerem: I) Um leque alargado de especializações. A combinação dum advogado com formação em mediação trabalhando com um mediador familiar (conselheiro de família, terapeuta familiar, assistente social ou psicólogo) oferece uma gama mais vasta de especialização e de experiência do que a que poderia ser dada por um único mediador, mesmo para aqueles que possuam formação em Direito e em Aconselhamento Familiar. Este leque mais vasto de conhecimento e de especialização é particularmente útil quando se trata de problemas relacionados com crianças e com matéria financeira, em que os conhecimentos do mediador familiar podem complementar os conhecimentos do advogado com formação em mediação, especialista em assuntos legais e financeiros. Os co-mediadores não deveriam porém estar restringidos às suas áreas deespecialização. Ainda que haja uma tendência inicial para se ficar confinado em 56 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 56 segurança dentro da sua área, os seus conhecimentos tornam-se progres- sivamente integrados e misturados à medida que ganham experiência por trabalharem em conjunto. Muitos mediadores familiares de formação jurídica têm uma formação de base e uma especialização considerável em relação a questões relacionadas com crianças, e, do mesmo modo, mediadores sem formação em matérias jurídicas podem muito bem tratar de matérias financeiras ou de propriedade através doutra formação de base e doutra experiência. Se ambos os mediadores se conseguirem mexer bem dentro da gama completa de questões, sem inibições de estarem a invadir território alheio, os benefícios da co-mediação são amplamente acrescidos. II) Mediação em processos que se centram em diferentes questões inter- relacionadas. Quando se verificam desequilíbrios de poderes, o que é corrente, os co-mediadores podem ajudar a manter um equilíbrio no desenrolar do processo de divórcio emocional, familiar, financeiro e legal. Um mediador único pode achar difícil manter todas estas diferentes dimensões em focagem simultânea. Na prática, um dos mediadores poderá centrar-se na dinâmica que se estabelece entre as partes enquanto o outro poderá trabalhar os aspectos práticos ou registá-los num quadro. III) Maior criatividade é possível na criação das opções e das ideias. A discussão das ideias é mais eficaz quando os co-mediadores trazem experiências e modos de pensar complementares – analíticos ou intuitivos. Eles podem trocar ideias entre si e ajudar os casais a gerar as suas próprias ideias. IV) Maneiras estratégicas de prestar informações aos casais. Quando um ou ambos os parceiros precisam de informação, mas não a pedem, pode ser difícil para um só mediador lançar-se numa explicação não pedida. Um co-mediador pode fazer aparecer a informação dum modo natural, fazendo uma pergunta ao outro mediador que permita fornecer uma chave: “Pensa que poderia ser útil nesta altura falar mais acerca de …?”. Uma grande parte da informação relevante é assim trazida ao processo de mediação interdisciplinar, reduzindo a necessidade dos casais de andarem em bolandas entre os mediadores e os seus próprios advogados. V) Debates estratégicos entre co-mediadores. Mediadores com formações de base diversas têm tendência a ter perspectivas diferentes e a abordar as questões sob ângulos diferentes. Estes debates podem ser usados estrate- gicamente para reduzir as diferenças de poder. Desde que os co-mediadores 57 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 57 se sintam à vontade para discutir dilemas e não minem o trabalho um do outro, eles podem-se fazer perguntas e desafios de modo extremamente útil. A redução da tensão na sala é muitas vezes palpável. No capítulo 9 é dado um exemplo de estratégia para impasses. VI) Usar o humor para aliviar a tensão. Muitas vezes os co-mediadores usam o humor ao comentarem as suas próprias diferenças de abordagem como um meio de aliviar o ambiente. Na condição de haver sensibilidade por parte de todos os presentes assim como suficiente respeito mútuo e confiança, um gracejo entre os co-mediadores pode aliviar a tensão do casal. É importante que isso aconteça no momento oportuno, tendo em atenção os sentimentos das pessoas presentes. O humor altera a dinâmica, e muitas vezes concorre para que os participantes também recorram a esse meio. VII) Minutar sumários escritos. É preciso um conjunto de qualidades para preparar o Memorando do Acordo. Enquanto o jeito dum mediador advogado para redigir minutas pode ser muito útil, os advogados podem cair numa linguagem jurídica muito formal. Os mediadores com uma formação de terapeutas podem utilizar as suas aptidões de reenquadramento e mutua- lização em resumos tanto escritos como verbais. A combinação destas diversas aptidões para redigir o Memorando do Acordo constitui uma boa experiência didáctica para mediadores de formações profissionais diferentes. Inconvenientes da co-mediação I) Custo. Dois mediadores custam normalmente mais do que um. Os honorários dos profissionais são elevados e as comparticipações legais podem ser insuficientes para recorrer a dois mediadores. Um custo adicional deriva do facto de ser preciso copiar todos os documentos e de ter de os enviar para ambos os mediadores. Contudo, os custos legais subsequentes de ambas as partes poderão ser reduzidos no caso dos co-mediadores conseguirem cobrir a gama completa das questões (Walker, McCarthy e Timms, 1994, p. 154). II) Logística. Normalmente um dos mediadores desloca-se para o escritório do outro, o que implica tempo e custos adicionais. Se, por exemplo, o carro tem uma avaria, será que o mediador anfitrião faz o trabalho sozinho, ou marca-se outro encontro? Adiar uma reunião pode ser extremamente problemático para casais em crise e uma nova marcação pode acarretar um atraso considerável. 58 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 58 III) Tempo. Tal como o tempo necessário para organizar as reuniões de co- mediação, também é preciso tempo para fazer consultas e planos antes das reuniões de mediação e para análises e ajustes depois dessas mesmas reuniões. As minutas dos sumários de mediação têm de ser verificadas por ambos os mediadores, e os sumários devem também ser rubricados pelos dois. IV) Uso dos recursos. O uso de dois mediadores muito experientes talvez não se justifique em todos os casos. Mesmo mediadores adeptos fervorosos da co- mediação aceitam que nem todos os casos precisam de ser co-mediados. As disputas sobre um único ponto específico de baixa ou média conflitualidade podem não necessitar de dois mediadores. V) Confronto ou confusão. Se os mediadores se entrechocam, ou não conseguem apreender a orientação um do outro, podem causar confusão e pôr em perigo a mediação. Isto é mais susceptível de ocorrer quando eles não se prepararam em conjunto e não tiveram oportunidades de se treinar, trabalhando em conjunto durante a preparação. VI) Divisão, tomada de partidos. Há o risco dos co-mediadores serem divididos pelo casal, consciente ou inconscientemente. Os participantes tentam muitas vezes persuadir os mediadores a tomarem partido. Se os co-mediadores são apanhados em alianças e espelham o conflito do casal sem se dar conta do que está a acontecer, provavelmente haverá uma escalada do conflito. VII) Pressão conjunta. A combinação de dois mediadores seguros e conhe- cedores pode ser esmagadora para um cliente nervoso. Os mediadores que corroboram constantemente as afirmações do outro tornam difícil aos participantes expressarem pontos de vista diferentes da opinião conjunta dos mediadores. Contudo, mediadores experientes não deveriam permitir que estas situações acontecessem. Condições para uma co-mediação eficaz I) Ter confiança no seu co-mediador. Os co-mediadores precisam ter con- fiança na integridade e na competência um do outro e precisam de ser capazes de acreditar um no outro. Uma associação construída em confiança e respeito mútuos assegura firmeza quando se trabalha com casais conflituosos. II) Considerar questões profissionais e práticas, incluindo instalações, equipamentos, o modelo de actuação, os honorários e a cobertura por um seguro profissional. Os co-mediadores precisam de ser perfeitamente claros 59 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 59 sobre a sua contabilidade, conjunta ou separada, e sobre a base em que os honorários são calculados. Também precisam de considerar questões do tipo “Então e se”, como por exemplo o que fará perante o facto do outro co- mediador sentir-se indisposto antes da reunião, não sendo já possível alteraro encontro. Dever-se-á apesar disso fazer uma curta reunião com um casal que pode ter vindo de longe, ou pura e simplesmente anular o encontro? III) Preparação para a co-mediação. Os co-mediadores deveriam, se pos- sível, preparar-se em conjunto, visto que isso desenvolve compreensão e conhecimentos conjuntos e oferece oportunidades para praticar a co-me- diação com atribuição de papéis. Se os co-mediadores não se tiverem preparado em conjunto, devem verificar a consistência da sua visão, incluindo a documentação utilizada. IV) Acordo sobre papéis e funções. Os co-mediadores precisam de consi- derar como vão atribuir responsabilidades para diversas tarefas ou partes do processo. Por exemplo, um mediador pode tomar a iniciativa na formu- lação das perguntas e na obtenção de informações, enquanto o outro pode reduzir a escrito as informações na agenda e procurar ainda oportunidades de encontrar pontos de interesse comuns e de reenquadrar o processo (capítulos 4 e 5). Os mediadores podem alternar para conduzir o processo em fases diferentes. Será que ambos os mediadores vão tomar notas e guardar conjuntos de registos em duplicado? V) Acordo sobre se ambos os mediadores têm um peso igual, ou se um deles é menos experiente. Pode acontecer que um mediador seja mais experiente do que o outro. Muitas vezes a mediação tem lugar nos escritórios de um dos mediadores e o outro mediador pode ser um visitante no local de trabalho do primeiro. É importante para os co-mediadores discutirem questões de hierarquia de um em relação ao outro e assegura- rem-se que tudo está claro entre eles. Desigualdades de poderes entre mediadores poderiam ter um impacto negativo na mediação. VI) Permitir um ao outro espaço para participar na discussão. Não é preciso que ambos os mediadores tenham a mesma contribuição e não é positivo se eles sentirem a necessidade de competir. Um mediador que escuta e observa tem um papel muito importante que pode ser explicado às partes como um “papel de ouvinte”. Contudo, quando um mediador está a orientar a reunião, é importante criar aberturas para que o outro possa entrar: “Há qualquer coisa 60 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 60 que gostasse de acrescentar…?”, “Acha que podemos passar para…?”, “O que é que pensa de…?” Estas consultas regulares evitam que o segundo mediador se sinta supérfluo ou inexistente. A disposição das cadeiras deveria permitir aos co-mediadores manterem contacto visual entre si. VII) Perceber os pontos de vista e os valores um do outro. Os co-mediadores precisam de perceber os pontos de vista e os valores um do outro, nomea- damente naquilo em que diferem. A mediação pode envolver problemas altamente controversos, tais como se os filhos devem viver com uma mãe lésbica ou visitar um pai transexual. Os co-mediadores precisam de ser capazes de se adaptar aos pontos de vista e aos valores um do outro e de ter a percepção necessária para conseguirem ler os sinais um do outro. Precisam também de gerir diferenças por meios que valorizem a complementaridade. VIII) Suporte mútuo. Os co-mediadores não precisam de estar de acordo sobre cada ponto, mas devem dar apoio um ao outro e estar preparados para se ajudarem mutuamente a sair duma dificuldade. Quando não estiverem de acordo, devem ser cautelosos para não se contradizerem ou não se destruírem. IX) Falar a mesma linguagem. Os mediadores com formações profissionais diferentes devem falar a mesma linguagem, evitando o calão próprio da sua área profissional (ver Cap. 4). Um mediador pode ter de clarificar ou desenvolver o que o outro mediador disse. X) Preparação e balanço. Os co-mediadores precisam de se preparar para as sessões de mediação e de fazer o balanço posteriormente. Isto pode significar reservar pelo menos duas horas para cada sessão. O planeamento e o balanço, após a partilha das ideias e a libertação da tensão, são igualmente importantes. Os co-mediadores precisam de dar um ao outro informações positivas e devem também questionar-se um ao outro, se necessário. Quando se conseguiu construir um bom relacionamento, muitos co-mediadores desenvolvem um entendimento intuitivo que lhes permite trabalhar com criatividade. XI) Ter um plano de recuo. A preparação pode ficar completamente perdida quando os casais aparecem com uma inesperada versão diferente dos acontecimentos, ou quando mudam de direcção. Os co-mediadores precisam de ser capazes de alterar a estratégia com agilidade quando a situação o exige. A familiaridade dum com o outro e a faculdade de fazer uma leitura dos sinais reduz a necessidade de discussões arrastadas. 61 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 61 XII) Sentido de humor. É difícil imaginar que se possa trabalhar bem em co- mediação se os co-mediadores não tiverem sentido de humor, ou se eles forem incapazes de usar o humor de uma maneira saudável. XIII) Considerar detalhes práticos. A disposição dos assentos deverá facilitar a discussão, maximizando o contacto visual e evitando disposições em linha (ver Cap. 5). XIV) Usar um consultor ou um supervisor. Conversas regulares sobre o assunto com um consultor ou um supervisor e formação contínua em mediação desenvolvem conhecimentos avançados e novas ideias. A co-mediação deveria ser um componente essencial da formação em mediação. Ela permite uma aprendizagem imediata, cria confiança e permite aos mediadores ver o que funciona e o que não funciona. Mediadores recém-formados apreciam a segurança adicional proporcionada por um mediador experiente, e os mediadores experientes podem ser motivados por um recém-chegado a reequacionar a maneira como trabalham. b. Mediação “Âncora” Os mediadores que tanto trabalham a sós como em co-mediação podem usar a “mediação âncora” em determinadas circunstâncias. O primeiro mediador “Âncora” o processo e mantém-no controlado, mas pode sugerir que um segundo mediador seja chamado durante o processo. O segundo mediador pode provir duma disciplina dife- rente e ter uma especialização particular. Em geral, a introdução dum segundo mediador costuma ser frutuosa, desde que os participantes não esperem um profissional milagreiro com quaisquer poderes de magia. O segundo mediador beneficia das boas relações de trabalho estabelecidas pelo mediador “âncora”, mas tem de fazer fé na informação já recolhida, sem saber que questões foram levantadas e como foram respondidas. Quando mediadores com uma formação de base jurídica trabalham sozinhos, podem necessitar dum mediador familiar com formação de base em aconse- lhamento ou terapia, se existirem questões difíceis sobre crianças e/ou níveis elevados de conflito e complexidade. O mesmo acontece no sentido inverso e ajuda a gerir desequilíbrios de poder e a criar opções. Os casais apreciam ter a possibilidade do recurso extra a um segundo mediador como uma alternativa para concluir uma mediação que não progride. 62 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 62 c. Mediação com reuniões individuais Esta forma consiste em reuniões particulares de mediação realizadas com cada parte separadamente, com o mediador a deslocar-se dum lado para o outro entre elas. Este é o modelo usado correntemente em mediação comercial. Esta forma não é habitual em mediação familiar, salvo no modelo de mediação terapêutica apresentado anteriormente, porque os participantes necessitam desenvolver o seu relacionamento como pais e para tal têm de conversar directamente um com o outro. Se o mediador continuar a trabalhar com eles separadamente, isso não os ajuda a ouvirem-se e a comunicarem directamente quando a mediação terminar. Há outros inconvenientes. Reuniões separadas com cada parte consomem mais tempo do que reuniões conjuntas com ambos. Além disso, comreuniões separadas corre-se o risco de conferir ao mediador um papel de aconselhamento. No entanto, reuniões separadas em mediação familiar podem ser muito úteis como uma estratégia de recurso, e não propriamente como o modelo eleito. Pode ser útil em determinadas circunstâncias, desde que seja usada com o maior cuidado. A primeira questão a levantar é a da confidencialidade. Uma prática comum em mediação comercial exige que o mediador guarde como confidencial o que cada parte disse, revelando à outra parte só o que o mediador foi autorizado a revelar. O mediador pode por isso conhecer, numa base de confidencialidade, os termos em que cada parte estaria disposta a chegar a acordo. O mediador utiliza esse conhecimento para discutir, negociar e procurar vantagens recíprocas, sem revelar a posição de nenhuma das partes à outra parte. Em mediação familiar, prometer confidencialidade a cada parte separadamente poderá causar mais problemas do que soluções. Um mediador familiar não pode receber e guardar segredos do tipo “Não diga ao João que estou a pensar casar-me com o Carlos logo que o divórcio esteja resolvido”. Um mediador familiar pode oferecer-se para ver cada parte separadamente na condição de que nenhuma informação fornecida por uma das partes possa ser mantida em segredo da outra. Pedir-se-á a ambas as partes para aceitarem antecipadamente que o mediador possa partilhar com a outra parte o conteúdo de qualquer discussão separada. O mediador usa a sua discrição e não vai necessariamente relatar tudo o que foi dito nem como foi dito pela outra parte. Contudo, quanto maior controlo os mediadores têm na transmissão do que foi dito pela outra parte, maior influência eles exercem no processo e no resultado da mediação. 63 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 63 Antes da reunião individual, é importante considerar as possíveis vantagens e inconvenientes. Como é que isso vai afectar cada participante e o processo? Isso ajudará ambos a sentirem-se mais seguros? Poderá essa mediação afastá-los ainda mais um do outro, enquanto arrasta o mediador para um papel de apoio e de aconselhamento? O participante que considera que o deixaram de lado enquanto o outro está em foco, pode tornar-se extremamente ansioso e inquieto sobre o que irá acontecer. Pode haver suspeitas e fantasias sobre o que uma parte disse nas costas do outro. Se o mediador faz um relato incorrecto por engano, a outra parte não está presente para corrigir o erro. A mediação de vaivém também pode ser usada em mediação familiar como uma estratégia de crise, quando uma das partes está com o espírito perturbado e incapaz de falar na presença do outro, ou quando a discussão está tão acalorada que um deles está disposto a fugir da sala. Um arranque tempestuoso pode ser previsto e evitado com mais facilidade. Proporcionar um curto espaço de tempo com cada participante sozinho pode ser útil, se o casal já não aguentar em conjunto na sala, pois pode dar a uma pessoa muito angustiada algum tempo de recuperação. É mais fácil fazer isto em co-mediação, porque um mediador pode passar um curto intervalo de tempo com uma das partes enquanto o co-mediador fala com a outra parte. Antes do vaivém, as regras básicas sobre imparcialidade e comunicação aberta devem estar esclarecidas e aceites. Pode também haver questões de género a considerar, tais como se é preferível para o mediador masculino encontrar-se com o marido, e a mediadora feminina com a mulher, ou se o contrário evitaria a impressão de haver alianças de géneros. Se a reunião lateral de interessados tiver de ser repetida numa segunda ocasião, o arranjo pode ser alterado. Depois dessa reunião, a mediação com ambos os participantes pode ser recomeçada imediatamente, sem que os mediadores se retirem e conferenciem em privado. Os benefícios duma reunião lateral de interessados, curta e cuidadosamente organizada, são habitualmente visíveis ao permitirem que a mediação continue com um nível de agressividade mais reduzido e um objectivo definido com mais clareza. d. A presença de advogados na mediação Os advogados pensam muitas vezes que deviam participar nas sessões de mediação com os seus clientes. Em mediação civil e comercial, isto é uma prática corrente, e em alguns estados dos EUA é comum os advogados participarem em sessões de mediação familiar, contrariamente ao que se passa nos países europeus. 64 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 64 Há inconvenientes se os advogados participam nas reuniões de mediação familiar sem compreenderem o processo e os limites do seu envolvimento. Eles podem tentar controlar o processo negociando ou discutindo entre si e evitando que os seus clientes falem em representação de si próprios. Se os advogados usarem a mediação como uma oportunidade para exercer advocacia, transformam-na num processo contencioso e deixa de ser uma mediação. Na Florida, mais de metade dos advogados, que tomaram parte num estudo, disseram que tinham participado pessoalmente em sessões mediação familiar com os seus clientes em três quartos de todos os seus casos jurídicos de família durante os últimos doze meses. A maioria disse que participara com o objectivo de facilitar a obtenção dum acordo. Outra razão adiantada por muitos deles foi a necessidade de proteger os seus clientes. A presença dos advogados pode sem dúvida dar apoio a um cliente ansioso ou vulnerável que, doutra maneira, se poderia recusar a tomar parte numa mediação. Contudo, os advogados podem ser super-protectores e ter relutância em perder o controlo. Se eles impedirem as partes de negociarem directamente uma com a outra, podem transmitir aos seus clientes, voluntária ou involuntariamente, a mensagem de que a comunicação directa com a outra parte seria indesejável, destrutiva e perigosa. Alguns advogados admitiram que participaram na mediação afim de aprender o que é o processo de mediação e quais os requisitos exigidos aos mediadores. Uma vez seguros de que os mediadores eram competentes e conhecedores da matéria, eles sentiram-se mais à vontade para autorizarem os seus clientes a participar. O estudo mostrou que depois da experiência em primeira-mão de participar em sessões de mediação, os advogados reconheceram que os benefícios da mediação ultrapassavam em muito os potenciais inconvenientes. Uma das vantagens de ter advogados presentes consiste em que pode haver interrupções durante a sessão de mediação, durante as quais as partes se retiram com os seus próprios advogados para uma curta reunião. Quando é permitido dar aconselhamento jurídico no próprio lugar, evitam- -se grandes demoras. Os advogados têm a possibilidade de dar conselhos orientadores ao seu próprio cliente, se ele perceber que o referido cliente está a fazer obstrução, explicando-lhe por exemplo que a sua posição não é realista nem razoável. Os mediadores não podem ser tão claros e directos em casos destes. Os advogados podem ser ainda muito úteis auxiliando as negociações e finalizando o acordo. 65 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 65 Antes de convidar advogados para participar numa sessão de mediação, é importante estabelecer algumas regras de base com eles para que os advogados compreendam e respeitem o processo de mediação. O documento Termo de Consentimento da Mediação tem de ser adaptado para advogados. Deve-lhes ser pedido que assinem um documento reconhecendo a confidencialidade do processo de mediação, de maneira a que o conteúdo da mediação não seja usado e abusado pelos advogados em litígios posteriores. Há um certo número de outros aspectos que precisam de ser esclarecidos com os advogados. Eles precisam de saber se estão a ser convidados para participar sem tomar parte, ou se são convidados para contribuir activamente.Neste último caso, há necessidade de se porem de acordo sobre certos aspectos estruturais de modo a que os participantes falem por si próprios tanto quanto possível. Deve ficar também perfeitamente esclarecido que o mediador não é responsável pelo pagamento dos custos dos advogados das partes que participam numa sessão de mediação. Mediação – ciência ou arte? A mediação é cada vez mais aceite como uma disciplina de pleno direito, com o seu próprio corpo de conhecimento teórico e prático, de princípios e de regras de base. Tal como outros ramos da ciência, a mediação acumulou um corpo de conhecimentos baseados em “case studies”, classificação de casos e análise de resultados. Mediadores e pesquisadores tiveram tendência a abordar a mediação duma forma linear, dividindo a mediação numa série de fases com resultados classificados como positivos, parcialmente positivos ou negativos, conforme os participantes conseguiram atingir um acordo, um acordo parcial ou não conseguiram atingir nenhum acordo. Esta abordagem da mediação usa o hemisfério esquerdo do cérebro que pode ser caracterizado como lógico, analítico e pragmático. Quando a mediação familiar é vista como um ciência, a ênfase é posta na necessidade de: I) Uma percepção intelectual da mediação como um processo racional consistindo numa sequência de fases em que os factos são reunidos, as diferenças são esclarecidas, as opções possíveis são identificadas e as propostas para resolução são trabalhadas; II) Conhecimento, incluindo conhecimento da lei e conhecimentos financeiros abrangendo impostos, pensões e benefícios sociais; conhecimentos da 66 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 66 experiência e do impacte do divórcio em adultos e crianças; conhecimento do desenvolvimento de crianças e adultos e da dinâmica da família, disponibilidade de serviços de apoio; III) Conhecimentos de aritmética e capacidade de analisar dados financeiros; IV) Conhecimento e experiência de acordos de divórcios quer negociados quer litigiosos: estrutura dos acordos, tendências, questões correntes; V) Técnicas de negociação e de discussão envolvendo pensamentos lógicos e racionais; VI) Formação na disciplina de mediação, conhecimento de estudos de pesquisa sobre mediação. Contudo, cada vez se considera mais que a mediação é um processo complexo que não pode ser compreendido ou avaliado apenas pela análise dos resultados e pela contagem dos acordos. O comportamento humano é extremamente variável e imprevisível, em particular no turbilhão de separação e divórcio. Os casais em vias de separação ou de divórcio mostram uma gama de reacções e de modelos que variam ao longo do tempo, mesmo que alguns dos modelos sejam altamente resistentes a mudanças. Na mediação familiar a dinâmica frequentemente volátil dos casais em vias de separação pode-se acalmar de várias maneiras e em diversos graus pela presença e intervenções activas do mediador. Este processo envolve uma série complexa de interacções: não é um tapete transportador automático para o acordo. Os mediadores também reconhecem que, embora precisem da abordagem lógica e sistemática do hemisfério esquerdo do cérebro, não podem dispensar o hemisfério cerebral direito que encoraja a criatividade e a intuição. O pensamento do hemisfério direito do cérebro procura fazer ligações duma maneira mais global. Trabalha em níveis diferentes e pode fazer ligações ou saltos intuitivos entre eles. Encara os modelos e os relacionamentos duma maneira mais circular do que linear. Quando a mediação familiar é reconhecida como uma arte, a ênfase é posta na necessidade de: I) Empatia, compreensão intuitiva e capacidade de se comprometer com pessoas; II) Maturidade e experiência de vida, e não apenas conhecimentos académicos; 67 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 67 III) Capacidade de responder tanto às necessidades emocionais como às necessidades práticas de casais em vias de separação, incluindo a capacidade de gerir a crise quando as reacções irracionais dos participantes se arriscam a acentuar ou a prolongar as suas disputas; IV) Um estilo pessoal e flexível de trabalhar que permita variar a estrutura e o ritmo do processo em conformidade com a dinâmica do casal ou da família; V) Preocupação pela família como um todo, em que o bom relacionamento e a cooperação entre os membros da família são mais valorizados do que um acordo per se; VI) Capacidade de comunicação – uso da língua, facilidade de traduzir e de interpretar. A mediação familiar é tanto uma ciência como uma arte. Os mediadores familiares precisam duma mistura de conhecimentos, compreensão humana e capacidades especiais para ajudar casais em vias de separação ou de divórcio a dialogar em conjunto e a tomar medidas para estabelecer formas de resolver arranjos futuros para eles próprios e para os filhos. Recorrendo a termos franceses, os mediadores devem possuir savoir, savoir-faire e savoir-être. Em Maio de 2000 trinta monitores de mediação familiar de onze países reuniram-se durante dois dias num Fórum de Discussão de Mediadores Familiares perto de Londres. Foi uma experiência extraordinariamente enriquecedora e inspiradora. Tentámos pôr em evidência os valores da mediação e concordámos que procuramos: • Ouvir numa atitude que vem mais do coração do que da cabeça • Respeitar a individualidade de cada pessoa • Mostrar humildade, compaixão e tolerância • Manter a distância adequada • Facilitar a comunicação que cria calor humano e compreensão • Criar esperança para o futuro • Desenvolver permanentemente a nossa capacidade de ver e pressentir coisas que nem sempre é possível expressar por palavras. 68 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 68 Capítulo III COMPROMETER AMBAS AS PARTES NA MEDIAÇÃO “Eu estava muito mais longe do que Vocês pensavam, E não estava a dizer adeus, mas sim a afogar-me” Stevie Smith (1957) O paradoxo da mediação em separação e divórcio Um dos paradoxos da mediação familiar é o de que a esperamos mais de casais em vias de separação ou já separados do que em casais que vivem juntos. Não se espera que casais venham discutir os seus problemas financeiros quando estão no meio duma crise emocional muito aguda. Porém, em mediação, pede-se a casais sob enorme tensão que revelem valores e orçamentos financeiros, mesmo quando estão desfeitos pela dor e perda. Espera-se dos pais que colaborem um com o outro sobre os problemas dos seus filhos, mesmo quando um deles abandonou o lar há alguns meses, ou mesmo anos, e interrompeu os contactos desde então. Os mediadores esperam sensatez numa altura em que a razão parece submersa em ódio e aflição. Casais em conflito violento ou sem se falarem um ao outro, podem achar que a perspectiva de se encontrarem e de chegar a acordos é tão improvável que o cenário de uma mediação é rapidamente recusado. Muitas pessoas, no meio duma separação muito tensa ou de um divórcio, têm vontade de chorar, ou de gritar, com o parceiro que quebrou a relação e abandonou o lar. Um convite para se sentarem em conjunto para manterem um diálogo civilizado, com vista a futuros acordos, pode ser rejeitado por ser impossível tanto em termos práticos como emocionais. Participar numa mediação pode tornar o fim da relação mais real e portanto mais penoso, especialmente 69 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 69 quando o acordo podia abrir a porta ao divórcio que uma das partes deseja, mas que a outra não aceita. Pode acontecer que se espere demasiado de clientes que recorrem à mediação, por vezes muito perto ainda da ruptura da sua relação, e quase sempre durante um período demasiado curto após essa mesma ruptura. Numa escala de acontecimentos traumáticos da vida, o divórciositua-se em segundo lugar, perto em nível de tensão da morte do outro cônjuge. Perda de emprego e prisão estão classificados como menos traumáticos do que o divórcio. É questionável até que ponto se pode esperar que pessoas tomem decisões desta magnitude num período de grande amargura e de vulnerabilidade emocional. Os mediadores precisam de ser capazes de reconhecer os níveis de choque ou de trauma em que a mediação não é adequada. Precisam também de estar conscientes das enormes convulsões e perturbações que ambos os parceiros estão a sofrer em cada área das suas vidas e os estádios diferentes em que cada um se pode encontrar para enfrentar esta convulsão. É preciso cuidado e entusiasmo Os mediadores têm de ser cautelosos por um lado, mas também inspirados e entusiastas por outro. O recurso à mediação familiar é ainda reduzido e há o perigo de forçar a sua utilização e de prometer mais do que ela de facto pode dar. Muitos advogados desconhecem ainda a mediação ou são cépticos sobre os seus méritos, enquanto que para o público em geral a mediação, se tiver algum significado, pode significar reconciliação. A mediação não é uma panaceia universal e as suas vantagens não são automáticas. Muito depende da motivação dos participantes para chegarem a um acordo, das questões a resolver e da capacidade e experiência do mediador. É evidente que a mediação não é apropriada, nem possível, em todos os casos. É essencial proceder a uma análise para avaliar se a mediação é potencialmente indicada e é preciso que os mediadores estejam cuidadosamente preparados para reconhecer que outros processos ou meios de ajuda podem ser necessários em vez – ou ao mesmo tempo – da mediação. Mediação e intervenção na crise – em que altura se deve intervir? Os pontos de vista divergem sobre se a mediação deve ser sugerida em situações de crise, que ocorrem muitas vezes, antes, ou imediatamente depois da separação. 70 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 70 O ideograma chinês para “crise” combina dois motivos, um que significa “perigo” e outro que significa “oportunidade”. O período que conduz à separação e o que lhe sucede imediatamente é frequentemente de crise aguda para um ou para ambos os parceiros. Talvez o choque e o desânimo sejam demasiado fortes para que a mediação seja possível ou apropriada sem reservas. Por outro lado, pode haver questões urgentes relacionadas com os contactos de um dos pais com os filhos. Numa fase inicial, quando as coisas estão fluidas, há mais espaço para modificações, incluindo a possibilidade de reconciliação nalguns casos. À medida que o tempo passa, o leque de opções torna-se normalmente mais reduzido, as posições começam a extremar e as atitudes endurecem. Quando há uma quebra de contactos entre um dos pais e um filho, quanto mais tempo decorre mais difícil se torna renovar esses contactos e reconstruir o relacionamento afectado. Autores sobre a teoria da crise sugeriram que a crise envolve normalmente: a) Um acontecimento ou situação de grande tensão para o qual não se consegue encontrar nenhuma solução imediata, b) Uma ameaça à identidade e à rotina que faz reviver problemas não resolvidos tanto num passado distante como próximo, c) Reacções que formam um quadro reconhecido de desorientação e desânimo, iniciado com uma fase aguda que dura habitualmente de seis a oito semanas. As intervenções numa fase inicial em situações de crise podem ajudar a evitar consequências sérias. A resistência a intervenções externas é menor numa fase inicial da crise. Uma ajuda que “seja propositadamente centrada num momento estratégico é mais eficaz do que uma ajuda mais intensa prestada numa altura de menor acessibilidade emocional” (Rapoport, 1965, p. 30) Por vezes são manifestadas preocupações sobre mediações realizadas demasiado cedo, antes que um ou ambos os parceiros estejam preparados para as decisões do ponto de vista emocional. O receio reside normalmente no risco de decisões prematuras tomadas sob pressão. Mediadores avisados, conscientes destes riscos, deveriam ser capazes de ajudar os casais a encontrarem soluções temporárias ou estabilizadoras, sem os pressionar a tomar decisões de longa duração. Soluções provisórias podem diminuir a tensão e ajudar o casal a 71 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 71 encontrar soluções a longo prazo a um ritmo que ambos consigam suportar. Posições irredutíveis podem também ser aliviadas quando os casais se compenetrarem de que se podem pôr de acordo sobre alguns assuntos restritos sem terem de tratar de tudo. O ritmo da mediação e o intervalo entre sessões pode ser modificado para ir ao encontro das necessidades de ambos os parceiros tanto quanto possível. As sessões podem ser marcadas bastante próximas umas das outras quando houver urgência – ou então afastadas com intervalos mais longos quando for preciso mais tempo. A mediação exclui a reconciliação? A decisão de separação ou de divórcio é na maior parte das vezes mais uma decisão tomada por uma das partes, com a qual a outra tem de se entender, do que uma decisão tomada de comum acordo por ambos os parceiros. Os mediadores têm de ser extremamente cuidadosos e têm de abordar desacordos quanto à decisão de separação ou de divórcio duma maneira imparcial e não ditatorial, de modo a evitar tornarem-se aliados quer do parceiro que pretende o divórcio quer do parceiro que pretende a reconciliação. É compreensível, em face de preocupações relacionadas com os elevados custos dos divórcios ou com os efeitos do divórcio sobre os filhos, que os legisladores possam pretender que a mediação familiar tenha a dupla função de “salvar casamentos”, sempre que possível, ou então de proporcionar divórcios amigáveis. Contudo, se a mediação tiver por objectivo primordial a procura da reconciliação, a sua imagem será pouco clara e a posição não-directiva dos mediadores ficará comprometida. Muitos casais que procuram a mediação já passaram pelo aconselhamento. Na altura em que eles procuram a mediação, o seu casamento ou a sua relação já estão destruídos há muito tempo. Um dos parceiros poderá ter já formado uma nova relação e poderá viver com o(a) novo(a) parceiro(a). As razões do casal para recorrer à mediação prendem-se geralmente com a obtenção duma separação ou dum divórcio que um ou ambos consideram ser necessário. Por vezes a mediação conduz a uma nova vontade de compreender e endireitar o que estava errado no casamento. Casais que querem voltar a juntar-se e indivíduos que querem compreender o que levou à quebra da sua relação são encorajados pelos mediadores a procurar aconselhamento ou terapia 72 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 72 Os casais deveriam ser ajudados na mediação a encontrar soluções para o imediato e para o futuro, para si e para os seus filhos, sem serem influenciados num sentido ou noutro. Se os casais fossem pressionados a dar outra oportunidade ao seu casamento, para bem dos seus filhos ou da sociedade, a mediação poder-se-ia converter num veículo de controlo político ou social, como acontece na China. Dimensões diferentes de separação e divórcio Bohannan (1970) identificou seis dimensões de ajustamento no divórcio: dimensão emocional, psicológica, jurídica, económica, paternal e comunitária. Quantos de nós poderiam fazer repentinamente frente a modificações fundamentais em todas estas áreas? Uma dificuldade adicional consiste em que casais em vias de divórcios não vão percorrer estas fases em conjunto. Os ajustamentos emocionais e psicológicos começam normalmente mais cedo para o parceiro que parte do que para o que fica. Um parceiro que é abandonado é deixado ficar para trás tanto dum ponto de vista emocional como físico. Sentimentos agudos de choque, rejeiçãoe traição vão influenciar os problemas com os filhos e com as finanças. Ainda que alguns pais aceitem a mediação em condições de fragilidade, espera-se deles que negoceiem sobre assuntos relacionados com os filhos e com as finanças duma maneira razoável, numa fase em que a sua capacidade para pensar racionalmente está temporariamente afectada. Quando é preciso tomar decisões, simultaneamente, sobre tantos assuntos, não é surpreendente que a maioria das pessoas se sinta oprimida. Os sentimentos de ofensa e irritação podem alastrar rapidamente duma questão para outra. Por outro lado, a colaboração e o acordo numa área ajudam a manter a confiança e aumentam a colaboração para outras áreas. Gerir um diálogo Um diálogo é necessário, mas muitos casais em vias de separação ou separados acham que este diálogo é muito duro de orientar por si próprios. Os casais envolvidos na quebra dum casamento podiam ser divididos em três categorias muito simples: os que são capazes de conversar e de realizar coisas, os que discutem e lutam, e os que não conseguem falar de modo nenhum. Podem aparecer casais destas três categorias em processos de mediação. Os mediadores precisam de ser capazes de adaptar a sua abordagem e ritmo, de modo que 73 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 73 possam responder a diversas reacções ao conflito e às diversas fases em que cada parceiro se possa encontrar num divórcio emocional e psicológico. O diagrama abaixo ilustra as fases da separação e divórcio emocional e psicológico, começando com uma crise inicial na qual uma das partes abandona a outra, ou lhe comunica a intenção de o fazer. A parte que toma a iniciativa está melhor preparado para fazer face às mudanças que foram previstas ou ponderadas, ao passo que a outra parte, apanhada de surpresa, pode sentir-se inclinada numa primeira reacção a negar que aquilo esteja a acontecer. A negação pode ser seguida por cólera ou depressão, e esta fase pode prolongar-se. Se não houver suficiente ajuda ou apoio, o parceiro que se sente abandonado pode passar da depressão ao desespero. David Lodge (1995, p. 63), descreveu desespero como “um movimento em espiral de cima para baixo – como um aeroplano que perde uma asa e cai através do ar como uma folha, rodopiando e dando voltas à medida que o piloto se debate sem esperança com os comandos, o barulho do motor atingindo um tom muito elevado, a agulha do altímetro girando sem cessar no mostrador na direcção do zero”. Quando um dos parceiros entrou em espiral de cima para baixo e o outro parceiro que pode ainda voar está impaciente por se ir embora, o desafio para os mediadores é de como ajudar ambos com equidade e evitar que o fosso entre eles se alargue ainda mais 74 Fase 1 Mediação em situações de crise Fase 2 Fase 3 Depressão Desespero Raiva Com eça a faz er fr ente Começa a Iniciador fazer fr ente Receptor C A P A C I D A D E D E F A Z E R F R E N T E Crise Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 74 Ao avaliar se a mediação é desejável numa situação de crise e se ela é susceptível de ser útil, é preciso que os mediadores tenham em consideração o grau de risco ou de urgência, os prazos relevantes e a condição psicológica de cada parceiro. Controlar uma crise que se deteriora exige zelo pessoal por parte do mediador familiar bem como aptidões profissionais. Se as pessoas sentem que os mediadores são válidos e que talvez se consiga qualquer coisa de positivo, elas estarão mais inclinadas a pedir ajuda. O que leva os casais separados à mediação familiar? Estudos de investigação têm mostrado que muitos pais divorciados sabem antecipadamente pouco sobre o processo de divórcio e que ficam assustados com o desconhecido. Muitos pais disseram que ficaram confusos com os seus direitos e responsabilidades e inseguros sobre como tratar das coisas em relação aos filhos. A sugestão mais repetida relativamente às maneiras de ajudar famílias em vias de separação ou divórcio consiste em dar-lhes acesso mais fácil a informação e a aconselhamento. A mediação, como um processo orientado para o acordo, não é bem entendida nem pelos pais nem por outros agentes. Quando a mediação não é imposta pelo tribunal, o que pode acontecer em alguns países, o que é que leva casais separados a optarem voluntariamente pela mediação, apesar do seu desânimo, da sua ira e dos seus receios? Se os pais tiverem de roubar horas ao seu tempo de trabalho ou de arranjar alguém para tomar conta dos filhos, tendo ao mesmo tempo de fazer face aos custos de deslocação para as sessões de mediação, todos estes custos constituem obstáculos adicionais. Para perceber o que leva os casais à mediação, pesquisadores da Universidade de Newcastle (Walker, McCarthy e Timms, 1994) pediram a vários clientes de mediação que descrevessem as razões que os tinham conduzido a recorrer a esse processo. Eles deram as seguintes razões (não apresentadas por ordem de importância): • Necessidade de seleccionar questões que eles seriam incapazes de tratar por si próprios • Desejo de conseguir acordos em conjunto, em vez de recorrerem a advogados separados • Desejo de fazerem o melhor possível pelos seus filhos • Desejo dum divórcio amigável e de ficarem de boas relações um com o outro • Necessidade de alguém imparcial para os ajudar a gerir as discussões em questões específicas 75 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 75 • Desejo de evitarem custas de processo na medida do possível • Desejo de um acordo sem envolver o tribunal • Desejo de ter alguém imparcial, objectivo e experiente • Desejo de apoio emocional e prático em simultâneo • Desejo de reconciliação – “à espera dum milagre” • Desejo que lhes digam “o que é justo” (ainda que isso não seja a função do mediador) Os investigadores acharam que muitos casais que recorreram à mediação tinham dificuldade em explicar os pontos que precisavam de resolver. Muitos disseram que precisavam de “separar tudo”. As questões financeiras e emotivas estavam, muitas vezes, ligadas e atadas num emaranhado de discussões por resolver. Desatar esses nós é uma parte essencial da mediação. A primeira sessão de mediação consiste muitas vezes em dar a volta ao nó e em ver quais os fios que podem ser desatados em primeiro lugar. O nó pode começar a desatar-se se os fios forem removidos com cuidado, ao passo que se forem puxados com força apertam ainda mais o nó. A mediação precisa de ter uma imagem pública muito mais visível para se tornar aceite como o caminho normal para solucionar problemas familiares. O conhecimento público da mediação é com certeza muito maior do que há vinte anos e os advogados especializados em família reconhecem-lhe os benefícios. Mas os advogados em geral estão muitas vezes mal informados sobre a mediação e podem opor-se-lhe de forma activa. Perguntas frequentementes • Os mediadores tentam reconciliar os casais? Ou será que eles os ajudam a obter um divórcio? • É de gratuito? Se não for, quanto custa? • É obrigatório? Há alguma penalidade para quem se recusa a utilizá-la? • Quanto tempo leva? Só uma sessão chega? • Os mediadores podem tratar de todos os problemas relacionados com a separação e o divórcio? • Quem é que contacta com a outra parte? • Onde é que se realizam os encontros? • O que acontece com os filhos? Estão presentes? 76 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 76 • A parte mais fraca será pressionada pela mais forte para entrar em acordo? • Usa-se a mediação em casos que envolvem violência doméstica? • O que acontece se a outra parte for desonesta e prestar informação financeira incompleta? • Quem são os mediadores? Que espécie de formação é que têm? • É preciso ter tambémum advogado? • Os advogados vão à mediação com os seus clientes? • Os acordos obtidos em mediação têm valor legal? Mediação familiar e diversidade cultural As populações em muitos países estão cada vez mais mescladas racial e culturalmente. Para que a mediação familiar seja aceitável por todos os grupos étnicos, os mediadores precisam de respeitar diversas tradições culturais ao mesmo tempo que têm de ter o cuidado de evitar estereótipos. Nalgumas comunidades os interesses da família alargada são prioritários sobre as preocu- pações ou necessidades individuais. Os membros da família respondem às suas obrigações mútuas e, em tempos de crise, é normal as crianças ficarem com parentes, como é normal um parente dependente ser acolhido por outros membros da família. Este tipo de sistema familiar é muito unido e famílias numerosas vivem frequentemente nas proximidades uns dos outros. Quando a cultura do mediador é diferente da do participante, é também importante estar consciente das normas culturais que influenciam a sua capacidade de negociar uns com os outros em mediação. Nos casamentos tradicionais na Ásia, o marido é dominante e a mulher submissa. O divórcio não é bem visto porque dá origem a um estigma social e prejudica a harmonia familiar. A literatura específica dum ponto de vista cultural é importante porque identifica variáveis que influenciam o processo de mediação. Os mediadores têm de aumentar o seu conhecimento e sensibilidade a grupos de culturas e etnias diferentes de modo que a sua aproximação não seja dominada pelas suas próprias tradições e valores. Mesmo quando os mediadores são da mesma cultura dos participantes, eles têm que apreciar a singularidade das suas próprias tradições e valores. As mediações que envolvem pessoas de culturas diferentes precisam da mesma abertura que o mediador usa em qualquer outra mediação. 77 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 77 Resistência à mediação A mediação é vista muitas vezes como o processo que outras pessoas deviam usar. Mas ser o próprio a usá-la é outra história. A maioria das pessoas acha difícil pedir ajuda a um estranho sobre problemas pessoais íntimos. É preciso coragem e determinação para atravessar o limiar dum serviço de mediação desconhecido. É até mais assustador encarar a perspectiva de explicar as suas necessidades a um desconhecido do que a necessidade de controlar os sentimentos de ira e de dor causados pela presença do(a) ex-parceiro(a). Quando as pessoas resistem a uma determinada orientação, tentar persuadi-las contra a sua vontade faz com que aumente a sua resistência. Dizer “De facto você devia…” pode ser contraproducente, ao passo que reconhecer e mostrar empatia com os receios e as preocupações pode ter o efeito oposto de reduzir a resistência. A ideia da mediação tem de ser apresentada duma maneira clara e equilibrada, explicando os seus benefícios potenciais, mas reconhecendo ao mesmo tempo as ansiedades e os medos reais. A aproximação à outra parte Muitas vezes, uma parte ou o seu advogado estabelece o primeiro contacto com o serviço de mediação, sem saber se a outra parte está preparada para participar. É evidente que a mediação só pode ter lugar se ambos estiverem dispostos a participar. Os inquiridores precisam de receber informações e de ser ajudados para considerarem como é que a proposta de mediação deve ser apresentada ao seu parceiro. Imaginemos por exemplo uma chamada de uma mulher de nome Luísa, que pensa que a mediação talvez a ajude a conseguir um divórcio. Ela preferiria divorciar-se amigavelmente, mas não sabe se o seu marido, Carlos, estará pelos ajustes para tomar parte. O mediador ou o seu adjunto podem ajudar a Luísa a equacionar as seguintes questões: • Pode ela falar com Carlos? Se eles já estão separados, pode ela telefonar- lhe? O que lhe vai ela dizer para o encorajar a tentar a mediação? • Se a comunicação entre eles for difícil, poderia a Luísa enviar-lhe um folheto sobre a mediação familiar com uma nota explicativa pessoal? Poderá ser aconselhável analisar o texto dessa nota pessoal. • A Luísa talvez tenha um advogado e pode ser que ela queira que o seu advogado escreva ao advogado de Carlos, ou ao próprio Carlos, no caso dele não ter um advogado. 78 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 78 • A Luísa pode pedir ao mediador ou ao serviço de mediação, para escrever ao Carlos, porque ela pensa que qualquer proposta que lhe faça está votada a insucesso. Triangulação A parte que tomar a iniciativa de propor a mediação prevê frequentemente que a outra parte recusará participar. Ainda que este pessimismo esteja bem fundamentado, deve-se dar uma oportunidade idêntica à outra parte para considerar a mediação. É também possível que a primeira parte não queira partilhar qualquer ajuda existente. A primeira parte pode esconder a sua relutância em participar, desencorajando qualquer contacto que esteja a ser feito com a segunda parte. Um conhecido terapeuta familiar escreveu acerca da Batalha para a Iniciativa e da Batalha para a Estrutura para controlar aquele que fica encarregado do processo (Whitaker, 1977). Muitos mediadores familiares reconhecem a batalha pelo controlo, que tem lugar quando uma das partes procura assegurar o apoio do mediador antes que a outra o possa fazer. Quando os casais estão a terminar uma relação, eles normalmente procuram aliados, especialistas ou terceiros, que possam formar uma triangulação no seu conflito. Os mediadores devem estar conscientes dos riscos da triangulação, especialmente se medeiam sozinhos. Os casais em conflito têm tendência para entrar numa série de jogadas e contra-jogadas nas quais se corre o risco de aparecer um número crescente de terceiros. Estas jogadas são estratégicas. À medida que o batalhão de apoio de parentes, amigos e conselheiros cresce de cada lado, os interesses adquiridos de outras pessoas podem ser empolados e obscurecer a disputa original. É preciso que os mediadores percebam as jogadas estratégicas que poderão ser feitas de modo a que possam responder com estratégias imparciais, embora eficazes, da sua autoria. Mesmo numa fase inicial podem ocorrer manobras para controlar o processo de mediação e os seus resultados. Pode haver manobras por uma das partes para controlar o novo terreno em que o “jogo” se vai jogar. A primeira ma- nobra poder-se-ia chamar de “Agarrar a iniciativa”. A parte que propõe a mediação conheceu este processo em primeiro lugar e, porque conhece melhor o que é a mediação, coloca a outra parte em desvantagem, pondo em evidência a solução mais moral do “querer mediação” e afirmando que já contactou o mediador. 79 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 79 A segunda jogada pode ser “Deixem-me explicar o problema”. Uma parte, ou o seu advogado, pode tentar influenciar o mediador a tomar em mãos o processo de mediação, dizendo “Posso visitá-lo para lhe explicar o problema?” Ou “Posso enviar-lhe os papéis para o ajudar a perceber o problema?”. Os mediadores têm de inspirar confiança e ser firmes ao explicar as regras básicas da mediação e ao aderirem às mesmas desde o princípio sem alienar nenhuma das partes. É fácil subestimar o trabalho e o tempo envolvidos para estabelecer uma mediação. Vale a pena gastar esse tempo e ter esse trabalho, porque uma preparação cuidadosa aumenta grandemente as probabilidades de que a mediação se venha a efectuar. Uma carta a propor um encontro à outra parte produz uma resposta positiva em alguns casos, mas quando se prevê que a resposta seja negativa, uma carta exploratória pode ser mais eficaz. Uma carta exploratória usa a previsão de uma das partes de que a resposta seria negativa, de modo que possa pelo contrário produzir uma resposta positiva.Exemplo duma carta exploratória Prezado Sr. Lourenço A sua mulher, Senhora Dona Luísa Lourenço, telefonou-nos hoje a pedir uma reunião. Explicámos-lhe que a mediação familiar existe para ajudar ambas as partes de igual modo e que nós não marcamos uma reunião de mediação com uma das partes sem convidar a outra parte a participar. Sei muito pouco sobre a sua situação, visto que não pedimos a uma pessoa para fornecer detalhes do problema antes de sabermos se a outra pessoa estará disposta a participar na reunião. Tenho conhecimento apenas de que estão vivendo separadamente e que a sua mulher assinou um pedido de divórcio. Manifestei à sua mulher a opinião de que a mediação poderia ser útil para ambos no que se refere às soluções referentes aos vossos filhos, aos assuntos financeiros e a outros assuntos que têm de ser resolvidos. A sua mulher pensa que é pouco provável que você queira participar, contudo, pelo meu lado, espero que esteja disposto a considerar a sugestão. 80 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 80 Junto tomo a liberdade de lhe enviar um folheto sobre o Serviço de Mediação Familiar Concórdia com o número de telefone para marcação de reuniões e para qualquer informação adicional. Se me quiser contactar ou se pretender mais informações, estou à sua inteira disposição.” Os receios manifestados pela Luísa de que é pouco provável que Carlos aceite a mediação podem levar Carlos a querer provar que ela está enganada. Isso pode parecer-lhe importante porque contribuiria para acumular dúvidas sobre a consistência das opiniões de Luísa e permitir-lhe-ia colocar-se numa posição superior no campo da moral. A experiência no uso duma carta deste género é que o suposto parceiro não colaborante normalmente telefona logo depois de a receber. A primeira parte pode então ser informada que a outra está disposta a recorrer à mediação. A primeira parte fica frequentemente atónita. E se for ela a parte relutante, é-lhe agora mais difícil recusar a mediação. Formulários de orientação Recorre-se frequentemente a formulários de orientação em conjunto com procedimentos de protecção para procurar obter informações preliminares de ambas as partes em situação de igualdade. Os formulários de orientação depois de preenchidos fornecem informação útil sobre a duração do casamento ou da coabitação e, se o casal estiver separado, sobre a data da separação, e ainda sobre os nomes e idades dos filhos, as condições de vida, a fase de quaisquer procedimentos jurídicos, e contêm ainda informação preliminar sobre as profissões, habitação e situação financeira do casal, em termos gerais. O formulário também pergunta o que cada participante espera resolver através da mediação. Frequentemente, os dois identificam as mesmas questões e indicam fins e objectivos similares nos seus questionários. Isto permite ao mediador acentuar as preocupações comuns das partes desde o princípio. Alguns casais fornecem dados diferentes sobre o seu casamento, separação ou o nascimento dum filho. Informação factual tem de ser verificada com o casal durante a primeira reunião e fornecer indicadores úteis na preparação dessa primeira reunião. O formulário de orientação deverá também incluir uma pergunta sobre qualquer possibilidade de reconciliação. Muitos casais que recorrem à mediação não concordam que o seu casamento ou união se tenha desfeito irremediavelmente. Os 81 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 81 que querem continuar casados podem recusar a mediação, caso pensem que o objectivo do mediador é empurrá-los para o divórcio. Pelo contrário, aqueles que querem o divórcio podem recusar a mediação se julgarem que o seu objectivo é voltar a juntá-los. Questões formuladas duma forma neutra ajudam o mediador a perceber a posição de cada parceiro e em que fase se encontra. Estabelecer a identidade da mediação familiar Os interessados precisam duma explicação clara sobre os objectivos e procedimentos da mediação familiar. A mediação familiar é facilmente confundida com aconselhamento familiar e com apoio jurídico, especialmente se o mediador é conhecido por trabalhar como conselheiro ou advogado. A mediação precisa da sua própria identidade, distinta de outros serviços. Quando os mediadores familiares partilham o seu local de trabalho com uma empresa de aconselhamento ou de advocacia, os mediadores devem ter o seu telefone próprio e o serviço deve ter uma identificação separada no exterior. Os recepcionistas que atendem os interessados têm de saber explicar de que modo as reuniões preliminares ajudam os clientes a decidir qual o caminho a tomar. Identificação para a mediação Quando um parceiro ou um casal são orientados para a mediação, o caminho a seguir é como um cruzamento de estradas com semáforos. Antes de avançar é essencial reduzir a velocidade e verificar se as luzes estão verdes, amarelas ou vermelhas, e se estão fixas ou intermitentes. Nas situações a seguir apresentadas, as luzes têm grandes probabilidades de estar vermelhas e a mediação pode ser totalmente ou muito provavelmente inadequada: • Algumas categorias e histórias de abuso doméstico • Reconhecimento ou alegação de abuso dos filhos • Intimidação, ameaças, desequilíbrios extremos de poderes • Doenças mentais • Incapacidade mental • Uso de álcool ou drogas que interfira com a capacidade de tomar decisões racionais • Prova de fraude, como seja prestação de informações falsas • Recusa ou incapacidade de aceitar regras básicas em mediação. 82 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 82 Abuso doméstico e mediação A Investigação sobre o Crime no Reino Unido de 1992 (The British Crime Survey 1992) demonstrou que os dois factores mais significativos associados com riscos de abuso doméstico ocorriam quando as mulheres estavam separadas ou divorciadas e quando tinham filhos. Trabalhos de investigação mostraram que as mulheres se encontram no ponto de risco mais elevado quando tentam terminar a relação e/ou pedem auxílio exterior, particularmente se existem filhos. A violência continua, e por vezes, acentua-se depois da separação. Existem opiniões muito consistentes segundo as quais a mediação não é indicada nos casos que envolvem violência ou intimidação, e em que um processo consensual de tomada de decisões não é viável entre vítima e abusador. Trata-se de preocupações da maior importância que pedem atenção especial. Não se faz ideia da frequência com que a violência se manifesta no seio de casais, por detrás da porta fechada da sua casa. A violência do domínio público é apenas uma ponta do icebergue. Um estudo feito em Bristol durante três anos detectou que 40% de casais recentemente divorciados admitiu que tinha havido violência física no seu casamento. Pesquisadores nos Estados Unidos concluíram que pelo menos metade das disputas relativas a custódia e acesso aos filhos que deram entrada nos serviços de mediação de tribunais de família envolviam alguma forma de violência. Contacto entre os pais por ocasião da recolha ou da entrega dos filhos pode ser um rastilho para a ocorrência de episódios de violência. Quando o uso da mediação se acentuou nos Estados Unidos durante a década de 1980, houve oposição por parte de grupos dos direitos das mulheres e feministas. As objecções mais fortes eram contra a mediação obrigatória, na qual mulheres que foram vítimas de violência física eram obrigadas a tomar parte com o parceiro abusador. Os opositores da mediação objectaram que a segurança física não podia ser garantida e que os riscos de violência seriam aumentados por encontros cara-a-cara. Pensava-se que as vítimas corriam os maiores riscos logo a seguir aos encontros de mediação, no caso de abandonarem o edifício ao mesmo tempo do participanteque se poderia encontrar enraivecido. Houve grandes controvérsias sobre esta matéria nos Estados Unidos, envolvendo muitas e variadas organizações e profissões. Foi promulgada legislação em pelo menos dezasseis Estados americanos isentando as mulheres que foram vítimas de violência da mediação obrigatória. Num projecto-piloto os mediadores foram proibidos por lei 83 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 83 de aceitar vítimas de violência. Daqui resultou que 60% de potenciais utilizadores da mediação foram excluídos. O pessoal que acompanhou este programa relatou que muitas das mulheres que foram excluídas acreditava que a exclusão as estava a prejudicar, em vez de as ajudar. Estas mulheres pensavam que seriam elas próprias a tomar a decisão, em vez de terem de se sujeitar a um tribunal impessoal que não levava em linha de conta os seus desejos e as circunstâncias. As associações de mulheres têm tendência a serem sérios opositores da mediação quando o abuso doméstico é um problema. E apesar disso são muitas vezes as próprias mulheres que procuram a mediação porque elas querem uma oportunidade para falar com o seu parceiro, ou anterior parceiro, na presença dum terceiro imparcial, competente e fiável. Elas deviam ter a oportunidade de considerar se desejam participar na mediação, e em caso afirmativo, se é necessário ter em atenção algum tipo de salvaguarda. Para os mediadores, há questões fundamentais éticas, profissionais e práticas para avaliar as diversas formas e níveis de abuso. Uma avaliação cuidadosa de possíveis situações de violência doméstica e doutras formas de abuso é uma exigência para a realização de sessões de mediação financiadas publicamente em Inglaterra e no País de Gales. É igualmente importante fazer a avaliação do abuso doméstico, considerando a conveniência da mediação com clientes privados. Os mediadores familiares precisam de ser conhecedores da intensidade do abuso doméstico e dos riscos para os envolvidos, incluindo as crianças. Eles precisam de ter conhecimentos e capacidade para avaliar em que circunstâncias a mediação poderia ser segura e apropriada e se deve ser enviada para outras instâncias. Se a mediação for considerada adequada e aceitável para ambos os parceiros, há que tomar determinadas salvaguardas. Avaliação para identificar casos em que a violência ou o abuso foram praticados Estudos de pesquisa sobre mediação e abuso doméstico mostram a importância de usar procedimentos de inquérito apropriados. Uma pessoa que se sente ameaçada pode ter medo de correr grandes riscos se denunciar o prevaricador. É preciso fazer uma avaliação separada para lhe permitir falar sem a presença do presumível parceiro violento. As perguntas no inquérito inicial e na entrada têm de ser apresentadas com sensibilidade para recolher informação factual, avaliar riscos e perceber os receios. Algumas pessoas precisarão urgentemente de aconselha- 84 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 84 mento jurídico e assistência e a mediação não será então aconselhável. Os media- dores precisam de perguntar se em ocasiões anteriores estiveram envolvidos polícias ou assistentes sociais, se foi necessário tratamento médico e ou apoio jurídico, se houve sentenças ou medidas de protecção pessoal. Deve-se usar uma série de métodos de avaliação. Algumas pessoas acham mais fácil revelar abusos quando escrevem do que quando falam cara-a-cara. Um inquérito de orientação pode ser enviado para ser preenchido antes de qualquer um dos parceiros participar na reunião inicial. O formulário deve incluir uma pergunta sobre se pensa que a pessoa interessada ou qualquer membro da família está em risco, seja de que modo for. Se a pergunta for respondida pela afirmativa, a resposta deve ser enviada imediatamente. Deve-se informar se existem outros serviços, ainda que seja duvidoso que haja serviços que possam assegurar protecção adequada. É importante para os mediadores saberem se não existe protecção adequada para vítimas da violência. Também é importante estar consciente de que a recusa da mediação por uma das partes pode servir para desencadear novas agressões pela outra, em especial se a violência deriva de tentativas frustradas para comunicar. Há uma opinião segundo a qual a avaliação deveria ser feita por pessoal devidamente habilitado e não pelo mediador a quem o casal foi confiado. O mediador corre então menos riscos de ser considerado como estando do lado da outra parte. Razões correntes para mostrar relutância em admitir ser uma vítima de abuso: 1. Muitas mulheres não se identificam como sendo “mulheres maltratadas”, e não acham que o que sofreram seja “violência”. Nalgumas culturas as mulheres são educadas a olhar a violência como normal e até como um sinal de cuidado; 2. Uma mulher que está a ser abusada pode ser ameaçada, e ter medo de mais abusos se contar a alguém o que está a acontecer; 3. Ela pode recear perder os seus filhos ou a sua casa; 4. Ela pode ainda importar-se com o seu parceiro e pode não querer terminar o relacionamento; 5. Ela pode sentir-se humilhada e temer o estigma social de admitir ser objecto de violência, ficando rotulada como um falhanço ou então demasiadamente deprimida para fazer seja o que for; 85 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 85 6. Para os homens é ainda mais difícil que para as mulheres terem de revelar que são vítimas de violência, visto isto ser mais humilhante de admitir para um homem do que para uma mulher. Assistentes sociais e mediadores podem procurar saber se as mulheres foram sujeitas a abusos e não usar o mesmo cuidado de averiguação idêntica no caso dos homens. Diversas categorias de violências e de abusos domésticos Um comportamento que pode ser aceite nalgumas comunidades pode ser totalmente inaceitável noutras. As definições de abuso doméstico e o julgamento de valores acerca dos autores de violência variam entre os que prestam apoio, assim como entre os que o procuram. Temos de estar conscientes dos nossos próprios condicionamentos culturais e valores pessoais e tendências para os estereótipos, que nos poderiam impedir de perceber se estão a cometer abuso ou se há receio de abusos. Não deveríamos considerar apenas violência física. Abusos do tipo psico- lógico, emocional e verbal podem ser ainda mais destrutivos. Johnston e Campbell (1993) identificaram cinco tipos de abuso doméstico. Ainda que a mediação possa ser usada cuidadosamente nalgumas categorias, ela seria contra-indicada noutras. É preciso que os mediadores sejam capazes de distinguir entre estes diferentes tipos para conseguirem avaliar níveis de risco e de inquietação. 1. Espancamento severo pelo parceiro masculino Este género de espancamento é susceptível de aumentar em termos de violência com o tempo, e a mediação não é recomendada nestes casos. Se uma vítima deste tipo de violência é encaminhada para a mediação, há que tomar o maior cuidado para que tenha acesso a aconselhamento e ajuda, sem a fazer correr riscos adicionais. Em Inglaterra e no País de Gales, a informação prestada por uma das partes numa reunião preliminar separada é confidencial e não deve ser transmitida à outra parte, mesmo se esta vier a realizar ulteriormente um encontro preliminar com o mesmo mediador. 2. Violência associada a reacções psicóticas e paranóicas Numa minoria dos casos a violência é causada por um pensamento confuso e por uma séria distorção da realidade, como o que se verifica em doenças 86 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 86 psicóticas. Esta violência é imprevisível, normalmente há poucas razões para o ataque e o mesmo não é provocado pela vítima. O nível de violência varia entre moderado e severo. A separação ocasiona uma fase de perigo. Esses casos devemser excluídos da mediação e entregues a outros serviços. 3. Usar violência interactiva para provocar reacções e ganhar controlo Johnston e Campbell lembram que casais que estão habituados a provocarem-se verbalmente e a trocar insultos acabam frequentemente por ter uma confrontação física. Qualquer um dos parceiros pode começar a provocar o outro, mas a reacção prepotente do homem afirma-se pelo domínio físico sobre a mulher. O homem não a espanca e normalmente não usa mais força do que a necessária para obter a sua submissão. 4. Abuso pelas mulheres A Pesquisa Sobre o Crime na Grã-Bretanha de 1998 (The British Crime Survey 1998) relatou que 30% das vítimas de violência doméstica eram homens. Contudo, não é corrente as mulheres infligirem danos físicos sérios. Normalmente as mulheres que são violentas enfureceram-se por causa da passividade do seu parceiro ou por este não ter ido ao encontro das suas expectativas. Elas podem atirar qualquer objecto ao seu parceiro ou bater-lhe, mas raramente utilizam uma arma. Mulheres que matam um parceiro violento foram normalmente espancadas durante anos. 5. Abuso associado com separação Há outra forma de abuso associado com separação que não decorre do relacionamento do casal e do anterior comportamento de um para com o outro. A violência física ocorre tipicamente pela primeira vez quando um dos parceiros anuncia a intenção de abandonar o outro. Johnston e Campbell sugerem que a mediação poderá ser útil para casais nesta categoria e que não se lhes devia negar tal possibilidade, se ambos aceitarem a mediação. Frequentemente esses casais têm relutância em admitir a um estranho que uma discussão entre eles descambou em violência, pois sentem-se humilhados. Um 87 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 87 mediador que se aperceba disso pode precisar de comentar como é fácil perder o controlo em situações de crise, quando os níveis de tensão estão muito elevados. Se nessa ocasião o casal reconhecer que perdeu ou receou perder o controlo é importante questionar cada parceiro sobre os seus receios, para estabelecer se houve danos físicos e se foi pedido apoio médico ou parecer jurídico. Se nunca houve violência anteriormente e se ambos os parceiros estiverem ansiosos por trabalhar em conjunto para reconquistar o controlo da situação, a mediação poderá ser indicada e pode ajudá-los a reconquistar o controlo. Poderá haver necessidade de medidas para reduzir quaisquer riscos, tal como definir as fronteiras de contacto (local e /ou tempo), ou então estabelecer um acordo entre ambos para não falarem em casa sobre um assunto que desencadeia uma ira explosiva. Pode ser que eles aceitem que este assunto só seja discutido nas sessões de mediação. É preciso considerar a salvaguarda para ambos os parceiros, e ambos precisam de estar informados das acções legais ou outras em que possam incorrer se as regras acordadas entre eles não forem respeitadas. Dados de pesquisas sobre mediação indicam que pode ser apropriada e útil para ambos os parceiros deste nível de violência relacionada com a separação, desde que tenha sido estabelecido um código de regras e que existam as necessárias salvaguardas para garantir que: i. Foi feita a análise para verificar se houve incidentes anteriores de violência ou abuso. ii. Foram totalmente explicados a ambas as partes o processo, as salvaguardas e as regras básicas que serão utilizadas. iii. As partes concordaram em participar com base em informação completa e de sua livre vontade. Os mediadores devem verificar durante a mediação que nenhuma das partes está a participar sob pressão. iv. Existem salas de espera separadas, de modo a que nenhum dos parceiros tenha de ter receio de ter de esperar no mesmo local do outro enquanto a tensão cresce entre eles. v. Se uma das partes tiver medo de chegar ou de deixar o edifício ao mesmo tempo da outra, foram tomadas medidas prévias para permitir que possam chegar e sair separadamente. vi. Os mediadores têm conhecimento adequado acerca das ordens de protecção pessoal que possam ser decididas pelos tribunais. 88 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 88 vii. Os mediadores foram treinados para reconhecer sinais não verbais de abuso e estão preparados para encaminhar correctamente essas situações para serviços próprios de ajuda e aconselhamento jurídico. viii. Os serviços de mediação proporcionam condições adequadas de trabalho e salvaguardas, incluindo a proibição dum mediador trabalhar sozinho numa parte do edifício e a disponibilização dum sistema fiável de chamadas de emergência ou de um botão de alarme. ix. A morada e o número de telefone duma das partes podem ser mantidos confidenciais e não transmitidos à outra parte, quando tal for especificamente pedido. Esta confidencialidade deve ser mantida pelo mediador com o máximo cuidado. x. Quando uma das partes alega violência pela outra, uma das condições essenciais para continuar a mediação é que a parte acusada de violência não negue os factos básicos. Ainda que seja normal que as suas interpretações e explicações de causas e razões sejam diferentes, ambas as partes têm de estar de acordo sobre os factos essenciais do que aconteceu. Filhos em risco É essencial que os mediadores também equacionem o encaminhamento das crianças para serviços de protecção quando considerarem a necessidade de protecção dos progenitores em casos de violência doméstica. Em casos de violência doméstica estima-se que os filhos sofreram abusos físicos numa percentagem tão alta como 40 a 60 %. Muitos filhos mantém-se em contacto depois da separação com um dos alegadamente violentos progenitores e alguns continuam a viver com um deles. O impacto sobre as crianças que testemunharam ou sofreram violência e temeram mais violência pode ser devastador. A longo prazo pode ter efeitos destruidores muito profundos. Um em cada quatro filhos declararam num estudo que sabiam que havia violência entre os seus pais, quer durante o seu relacionamento, quer depois deste ter terminado. Noutro estudo detectou-se que em 90% dos casos de violência doméstica, os filhos dormiam no mesmo quarto ou num quarto adjacente quando a violência acontecia. Os filhos descreveram o seu terror pela violência que eles ouviam estar a acontecer: “Eu costumava esconder-me no canto mais pequeno do meu quarto” (Cockett e Tripp, 1994, p.46) 89 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 89 Escolher enquanto os semáforos estão amarelos em vez de vermelhos As primeiras impressões podem ser enganadoras. Alguns casais parecem extre- mamente hostis, ainda que nenhum dos parceiros se refira a abuso ou a medo de abuso, mas talvez tenham atingido uma fase em que estão prontos a acalmar. Outros são muito hostis e querem prolongar a sua luta. Quando se está hesitante sobre se a mediação é recomendável, deve realizar reuniões iniciais separadas com cada parte. Infelizmente estas reuniões não permitem ao mediador ver como é que as partes actuam uma sobre a outra. Os semáforos podem estar amarelos, mas não necessariamente vermelhos. Quando houver incerteza sobre a adequação da mediação, os mediadores podem oferecer uma sessão exploratória adicional para ver se se justifica continuar. Torna-se assim possível orientar com mais confiança para a mediação situações que se encontram no limite. Eis alguns exemplos de situações no limite: • Um ou ambos os parceiros estão muito angustiados, indicando uma necessidade de recorrer a serviços médicos, aconselhamento ou terapia (ver Cap. 8) • Um parceiro mostra sinais de depressão, ou está a ser tratado por depressão • Hostilidade extrema (ver Cap. 8) • Desequilíbrios de poder podem não ser apropriados para mediação (ver Cap. 7) • Indicaçãode que um parceiro pretende prolongar a luta, sem motivação para atingir uma solução • Circunstâncias mais adaptadas a uma decisão judicial do que à mediação. Casais em vias de separação ou de divórcio: modelos de comunicação e conflito Cada situação de ruptura é única, mas é possível detectar alguns modelos. É útil para os mediadores reconhecerem modelos, não para classificar os casais em categorias ou para lhes dar receitas, mas para lhes dar linhas orientadoras sobre a abordagem que oferece mais hipóteses para o casal em questão. O modelo pode ser alterado ao longo do tempo e um parceiro pode mostrar características dum modelo, ao passo que o outro parceiro mostra características doutro modelo. A questão está em como pode um mediador ajudar ambos ao mesmo tempo. Os mediadores não são clínicos a fazer diagnósticos e qualquer hipótese que 90 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 90 formulem não é um prelúdio a um tratamento. Como o objectivo da mediação é talhar o processo para se adaptar às necessidades dos participantes, a ênfase é posta mais em como o talhar, do que em capacidades de diagnóstico. A comunicação é a ferramenta básica, e os problemas de comunicação são frequentemente a causa e o efeito da ruptura dum relacionamento. É essencial saber como é que os casais lidam com os desacordos. Não se trata de saber se os casais discutem, mas como discutem. As intervenções do mediador podem reduzir as tensões superficiais. A escolha da técnica num momento particular é semelhante ao uso da caixa de ferramentas dum marceneiro. Usar um nível de bolha de ar para verificar um equilíbrio é frequentemente necessário e mais útil do que recorrer a uma chave de fendas para conseguir chegar aos factos. Investigadores que se ocuparam a estudar os caminhos que os casais usam quando se divorciam definiram várias tipologias identificadoras de modelos de reacção e de interacção. Ahrons (1994) distinguiu entre “pessoas perfeitas”, “colegas cooperantes”, “casais dissolvidos”, “associados zangados” e “adversários explosivos”. A tipologia seguinte, que é anterior à classificação estabelecida por Ahrons e com a qual é aliás parecida, foi estabelecida a partir de experiência em mediação: i) Pais cooperantes ii) Meio separados iii) Gestores de negócios iv) Conflito aberto v) Conflito deslocado vi) Não comunicadores vii) Aderentes a qualquer preço viii) Guerra, não Paz! i) Pais cooperantes As pessoas ficam por vezes surpreendidas ao tomar conhecimento de que muitos pais cooperantes escolhem a via da mediação sem terem qualquer disputa. A mediação torna-se atraente para esses casais porque eles pretendem manter a sua cooperação e porque estão habituados a discutir as coisas em conjunto. Se houver questões financeiras, eles querem tirar partido dos conhecimentos técnicos e da experiência em preparar um acordo financeiro, em vez de se entenderem com dois advogados diferentes. Os casais cooperantes 91 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 91 movem-se com relativa facilidade duma fase de mediação para a seguinte, tratando de problemas e necessidades, coligindo informação e arquitectando soluções. Contudo é importante que o mediador se assegure da sua exequibilidade, porque os planos financeiros que tenham sido aparentemente aceites podem não ser viáveis na realidade. Por vezes, as consequências não foram claramente percebidas pelas partes. A mediação com estes casais é normalmente restrita e pode ser feita de forma descontraída, mas os mediadores precisam de estar preparados para repentinas manifestações de desavenças ou para sofrimento emocional. Estas desavenças reactivas podem ser um mecanismo necessário para criar alguma distância entre um casal cordial, de modo a que a separação possa acontecer – quando a separação for necessária. Pode talvez ser um mecanismo de confrontação que ajuda a evitar uma depressão. Se porém a zanga reactiva se tornar repetitiva, os mediadores podem precisar de gastar mais tempo a perceberem a zanga e a sua origem antes que ambas as partes estejam prontas para começar a tratar das questões que têm de ser resolvidas. A introdução dum novo parceiro num dos lados é normalmente perniciosa para o anterior bom nível da cooperação. Os mediadores podem ajudar a rever dificuldades, levantando questões hipotéticas (Cap. 4) tais como, no caso dum dos parceiros começar uma nova relação que possa afectar os acordos, como é que o anterior parceiro gostaria de ser informado. O casal poderá eventualmente concordar que voltariam à mediação se um novo relacionamento em qualquer um dos lados aconselhar a rever o que estiver acordado. Pode também ser útil indicar a casais cooperantes que estão em vias de separação ou que vivem separados que, ainda que estejam a ajudar claramente os seus filhos por trabalharem tão bem em conjunto, os filhos podem ficar confundidos pela grande amizade que vêem entre os pais. Essa amizade pode ser mal interpretada pelos filhos, como um sinal de que os seus pais vão juntar-se outra vez. Os filhos mais novos, em especial, podem achar muito difícil de compreender porque é que há uma necessidade de divórcio, uma vez que os seus pais se dão tão bem. Mesmo quando os pais estão de acordo sobre os filhos, pode acontecer que tenham de analisar como vão falar com as crianças. Os pais evitam muitas vezes 92 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 92 falar com os filhos sobre a sua separação ou divórcio, quando não estão bem certos do que lhes devem dizer (ver Cap. 6 sobre as conversas com os filhos). ii. Meio separados – apartados mas não totalmente afastados Casais meio separados são frequentemente ambivalentes sobre o seu desejo de separação ou divórcio. Eles podem demonstrar essa ambivalência deixando algumas questões no ar. A mediação pode ajudá-los a esclarecer estes assuntos e a explorar opções em matérias que ainda não resolveram. Durante o processo talvez consigam exprimir as suas incertezas, a sua insegurança e os seus sentimentos confusos. Pode ser particularmente útil para esses casais balizar melhor as fronteiras da sua separação e definir o número de contactos dum com o outro. Um parceiro que faz visitas frequentes – “passei por aqui e pensei que podia entrar” – pode justificar isso como um meio de estar em contacto com os filhos. Mas visitas não planeadas podem atrapalhar e podem ser uma desculpa para controlar como é que as coisas estão a correr em casa. Pode ser útil que ambos os parceiros combinem os contactos de que de facto precisam ou que querem e se esses contactos só devem ter lugar mediante acordo prévio. Quando o contacto foi combinado, todos os interessados, incluindo os filhos, podem preparar-se para eles dum ponto de vista emocional. Sentimentos variados de prazer e de dor, quando um parceiro ou progenitor desaparecido volta a aparecer é frequente as suas visitas serem complicadas pela raiva não resolvida entre pais e filhos. É mais fácil lidar com o emaranhado de sentimentos complicados se o contacto for planeado cuidadosamente. Muitos casais meio-separados são capazes de falar entre si durante algum tempo, mas talvez precisem da ajuda do mediador para tratar de questões difíceis que doutro modo evitariam ou poriam de lado. Alguns admitem que, ao mesmo tempo que procuram ser justos e razoáveis, sentem um desejo de ripostar a um parceiro que causou dor. Os mediadores podem ajudá-los, organizando as discussões e ajudando-os a gerir tópicos penosos. iii. Gestores de negócios Há alguns casais de dupla profissão cujo relacionamento é baseado em conveniência e amizade e não propriamente em sentimentos profundos. O seu relacionamento pode ser curto e talvez nunca tenha existido uma ligação forte. Estes 93 Miolo_17X24.qxp3/4/08 3:11 PM Page 93 casais em regra não têm filhos. Quando uma mudança na carreira de um deles precipita uma decisão de separação, o casal pode tratar da separação como se fosse um negócio. Os aspectos práticos são equacionados rapidamente e talvez nem se faça nenhuma referência a sentimentos. Espera-se que os mediadores sejam altamente eficientes nos assuntos técnicos e qualquer investigação relacionada com emoções poderia ser vista como deslocada e ser por isso eliminada. Os casais que tratam duma separação ou dum divórcio como um assunto de negócios para ser resolvido rapidamente têm direito a uma mediação eficazmente conduzida. Os mediadores deverão contudo ter uma antena sintonizada para captar sinais de dor ou sofrimento que se escondam atrás duma aparência exterior fria. Entre os gestores incluem-se casais de idosos cujos sentimentos de um para com o outro podem ter enfraquecido. Por vezes eles formaram novas relações e recorrem à mediação para dissolver um matrimónio que não era mais do que uma concha vazia. Se as questões financeiras forem claras e se o nível de irritação entre eles for reduzido, a mediação pode ser um processo desejável e eficaz. iv. Conflito aberto Existe um contraste nítido entre mediar casais que evidenciam uma postura tranquila e metódica, e com casais em conflito violento e aberto. Quando a raiva é muito grande, os temperamentos podem inflamar-se bruscamente e pode haver gritos e lágrimas. Os mediadores precisam de ser rápidos e confiar nos seus dotes de gerir conflitos, incluindo identificar e tirar partido da zanga. O objectivo é canalizar a energia gerada pela raiva do casal para resolver os seus problemas, em vez de prolongar uma batalha destrutiva. A mediação com casais em guerra exige mais intervenções pelo mediador e uma estruturação mais cuidadosa das sessões. Casais que se batem pelos “destroços” da sua relação falhada verificam que estes valem cada vez menos quanto mais eles se batem para ver quem fica com o quê. Os mediadores precisam de desviar a atenção dos acertos e desacertos individuais para as preocupações e interesses mútuos. Os desacordos podem ser reenquadrados como preocupações válidas (ver Cap. 4). Questões pragmáticas como por exemplo “Então o que é que pensa que poderia ajudar?” podem fazer aparecer uma sugestão que não tinha ocorrido anteriormente porque o casal estava demasiado ocupado a marcar pontos um contra o outro para poder pensar noutra coisa. Pode também ser útil concentrar-se na gestão da crise e dos acordos 94 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 94 provisórios, antes de procurar resolver os problemas sobre os quais o casal se bate mais amargamente. Mesmo uma pequena dose de cooperação pode encorajar mais esforço. Também é difícil prever o efeito de manifestar sentimentos que se mantiveram escondidos durante muito tempo. Dizer o que precisa ser dito e sentir- se ouvido pode ser extremamente benéfico para ambos os parceiros. Se, contudo, se verificar um modelo repetitivo de luta com acusações e contra-acusações constantes, o casal pode soçobrar na última categoria do “Guerra, não Paz!” – casais cuja ligação sentimental um com o outro é alimentada por ódio e raiva. v. Conflito deslocado Muitos casais em via de separação discordam abertamente, mas outros evitam desacordos directos. As negociações podem avançar a passo de caracol porque o conflito secreto é suprimido e é transferido para uma outra questão. Um dos argumentos mais fortes para mediação em qualquer questão é que ela permite estabelecer contactos emocionais e práticos entre as diversas questões e trabalhá-los. Os conflitos sobre os filhos são por vezes baseados em disputas antigas sobre diversos estilos de parentesco. Mais frequentemente, eles são o alimento de questões não resolvidas entre o casal. Estes conflitos têm tendência a vir à superfície quando um dos progenitores arranja um novo parceiro. As disputas em relação às crianças podem ser fruto de verdadeira preocupação, mas elas são frequentemente um meio de retaliação. Alguns pais que recorreram à mediação admitem que estiveram em luta um contra o outro através dos filhos. Ao darem-se conta de quanto isto afecta os filhos, talvez se sintam motivados a pôr de lado questões não resolvidas entre eles. vi. Não comunicadores Neste modelo corrente, um parceiro tem tendência a separar-se do outro durante um certo período de tempo, muitas vezes procurando compensação em trabalho, actividades lúdicas, numa nova relação, ou em todas ao mesmo tempo. A comunicação entre o casal pode ser muito limitada e pode acabar completamente. Alguns casais continuam a viver sobre o mesmo tecto, mas metidos numa concha, por vezes sem se falarem durante anos. Eles escondem-se emocionalmente, e por vezes literalmente, atrás de portas fechadas. O seu silêncio implica dor, raiva e sentimentos de rejeição mútua. Pode também haver sentimentos não evidenciados de afeição e de ligação sentimental e de grande receio de ser abandonado. As reacções típicas são o evitarem-se, o retirarem-se, a não comunicação e a confrontação. 95 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 95 Se um dos progenitores se for embora sem que o assunto tenha sido discutido, o outro muitas vezes não diz aos filhos se, quando e como voltarão a ver o progenitor que se foi embora. A fórmula de evitar discussões e conflitos pode ir passando de mão em mão até à geração seguinte. Questões emocionais e práticas podem ficar sem ser resolvidas, e podem constituir-se novas relações sem que os velhos laços sejam desfeitos. Por vezes ambos os parceiros evitam discutir a quebra no seu relacionamento. Noutras ocasiões, uma das partes procura a conversa, mas é frustrada porque a outra se fecha numa concha. Esta concha pode permanecer fechada durante anos. Se um dos parceiros se ausentar sem ter dado nenhum aviso claro, a parte abandonada sofre um choque profundo seguido de descrença, desânimo, raiva e duma mistura incontrolável de emoções. O que se ausentou insiste muitas vezes que deu avisos, mas o que ficou não conseguiu perceber os sinais. O abismo da comunicação bloqueada pode ser tão largo que é impossível conceber uma ponte que o atravesse. O aconselhamento pode ser apropriado para ajudar o casal a perceber o que aconteceu e porque é que teria acontecido. Os que conseguirem fazer bom uso do aconselhamento podem mudar-se para o modelo do “Meio indiferentes” descrito acima. Alguns dos que evitaram todo o diálogo talvez sejam capazes de falar em mediação, se pensarem que há bastante compreensão e apoio. O ritmo tem de ser lento, em particular no começo. Os mediadores têm de estar atentos à linguagem corporal, de ser capazes de detectar sentimentos não mencionados e de ser conhecedores dos mecanismos da rejeição, da contra-rejeição e da ambivalência. Uma boa capacidade de ouvir e de comunicar é importante, especialmente na formulação e no enquadramento dos assuntos (ver Cap. 4). vii. Posição de dependência A mais penosa e prolongada fonte de ira emocional no divórcio deriva da intensa e continuada necessidade de um dos parceiros pelo outro. Não são só os filhos que abrigam fantasias de reconciliação. Quando uma ligação sentimental sólida e continuada de um dos lados não é correspondida pelo outro lado, os sentimentos de sofrimento e de zanga da parte abandonada pode tornar impossível qualquer discussão racional. O parceiro emocionalmente destruído pode perturbar o outro com disputas prolongadas como uma maneira de manter contacto e envolvimento emocional. Se um dos parceiros recusar aceitar qualquer necessidade de separação ou de divórcio, a mediação pode ser prematura ou desajustada. O recurso ao 96 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 96 aconselhamentodeve ser a boa alternativa. Um parecer jurídico sobre os problemas que ambos encaram poderá ser também aconselhável se um dos parceiros insiste numa separação ou divórcio a que o outro resiste vigorosamente. A mediação pode ajudar ambos a encarar a realidade da sua posição e das suas opções quer o acordo seja atingido ou não. O casal talvez seja também ajudado a aceitar soluções provisórias. O mediador pode referir-se deliberadamente a essas soluções como “arranjos estáveis”, significando com isso contactos ou arranjos financeiros interinos. “Arranjos estáveis” podem reconhecer a realidade duma separação sem procurar soluções finais. Algumas pistas podem ser deixadas em aberto, pelo menos por algum tempo. Ainda que o tempo nem sempre signifique aceitação, o intervalo entre as reuniões de mediação pode ser útil. Progressiva- mente, o parceiro que ficou aterrado por deixar o outro partir pode perceber que existe ainda algum apoio e achar que é possível conceber um futuro para além dum casamento desfeito. É importante reconhecer com ambos os parceiros que eles estão em fases diferentes e que estão a olhar em direcções diferentes. Pode ser também útil reconhecer que terminar um matrimónio envolve mais do que a perda do parceiro. Sonhos para o futuro e o sentido de segurança duma família intacta também se perdem. Mudanças forçosas do estilo de vida arrastando normalmente um nível de vida mais baixo, podem acentuar a amargura. Um dos parceiros pode acusar o outro de não ter cumprido as promessas e os compromissos. A desilusão alimenta mais desavenças. Ainda que as desavenças por esperanças e sonhos falhados possam ser mútuas, o parceiro que é visto como o responsável por terminar o casamento é naturalmente quem é considerado o culpado. Responsabilizar a outra parte permite ao “parceiro inocente” desempenhar o papel de vítima e evitar responsabilidades na partilha da relação destruída. Os mediadores normalmente não perdem tempo a investigar as razões duma das partes para culparem a outra. Não oferecem terapia para ajudar as pessoas a trabalhar através de sofrimento agudo e de raiva. Podem contudo tornar possível alguma negociação, reconhecendo e legitimando a irritação causada por sonhos falhados e desapontamentos. As grandes dificuldades, e nalguns casos a impossi- 97 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 97 bilidade de mediar quando um parceiro é incapaz de deixar partir o outro, são analisadas em detalhe no capítulo 9 sobre estratégias em casos de impasse. viii. Guerra, não Paz! Tem-se observado que cada casamento contém dois conjuntos de experiências e de percepções: o “dele” e o “dela”. Isto é ainda mais verdade em separação e em divórcio, em que a versão de cada parceiro está muitas vezes em conflito directo com a do outro. Quando as linhas da batalha estão traçadas, cada parceiro refugia-se atrás duma linha de defesa de não culpabilização e procura angariar apoio e simpatia de outras pessoas. Para alguns, a experiência de perder, e o receio de perder mais, acciona um mecanismo de defesa psicológica conhecido como “decomposição”, no qual aquilo que se entende como “mau” num relacionamento ou no próprio ego é separado da parte “boa”. A parte “má” é então atribuída ao outro parceiro. Nos casos em que esta separação conduz a acusações recíprocas e a contra-acusações, os casais podem ficar envolvidos numa guerra permanente. Cada imagem própria e percepção do outro fica sujeita a um ataque mútuo. Estes casais parecem ter uma necessidade emocional muito profunda de manter a sua guerra em ebulição, apesar da destruição que ela causa. Os casais viciados em combater parecem precisar da adrenalina produzida na luta. Podem sabotar qualquer progresso porque preferem a guerra ao acordo. Ainda que o potencial da mediação com estes casais enredados seja muito diminuto, vale a pena explorar esta via. Talvez o casal tenha atingido um estádio em que se encontram cansados da luta e prontos a ultrapassá-la. A sua raiva sobre o passado pode ser reconhecida e as suas necessidades para o futuro esclarecidas. Se houver filhos envolvidos, há que discutir a sua posição e os seus sentimentos. Se os pais estiverem desejosos por combater, pode-se-lhes perguntar como vêem o futuro para os seus filhos se a guerra continuar. Se eles puderem imaginar que um dos seus filhos se vai casar, gostariam eles que esse filho tivesse liberdade de convidar ambos os pais para a cerimónia? Pode ser benéfico considerar o envolvimento de crianças ou adolescentes que tenham sido arrastados para a batalha dos pais e que podem ser usados como uma maneira de a perpetuar (Cap. 6). Podem ser testadas estratégias para impasse antes de desistir da mediação (ver Cap. 8). Muitos casais precisam de ajuda para reconhecer os seus sentimentos intimamente misturados de raiva e de tristeza. Uma experiência catártica consiste em ver se são capazes 98 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 98 de dizer que desejavam que o outro estivesse morto, particularmente se estiverem convencidos de que esse desejo é mútuo. Perguntar “Depois do que já aconteceu, o que é que pensa que poderia ser a pior coisa que lhe podia acontecer agora?” é tão importante como perguntar às pessoas o que querem que aconteça. Por vezes o pior acaba por ser o medo recíproco. Usar humor com segurança na mediação Alguns casais mostram uma habilidade desconcertante para se enfurecerem um com o outro e a seguir um diz qualquer coisa que os faz rir a ambos. Se o mediador começar a compreender a dinâmica do seu relacionamento e o género de humor que funciona bem no caso deles, o humor usado com sensatez pode fazer melhor que o raciocínio e o senso comum. É uma das maneiras mais fáceis de descontrair. Usado com cuidado e sem ser nunca dirigido a um dos participantes, o humor é uma ajuda preciosa. Pode perspectivar uma situação e criar um ambiente muito mais descontraído, mesmo com questões difíceis. Combinar a capacidade de gestão do processo com competências interpessoais e de resolução de problemas A tabela seguinte contém uma listagem das competências que os mediadores precisam de combinar e usar selectivamente, dependendo da dinâmica entre os participantes e do seu nível de conflitualidade. Os mediadores têm estilos pessoais extremamente diferentes, bem como uma variedade de modelos de trabalhar. Alguns mediadores abordam as suas tarefas como se estivessem a tratar de negócios. Mantêm o ritmo e solucionam problemas com eficácia. Podem contudo perder um ou mais participantes porque não transmitem suficiente calor humano nem a sensação de perceber os sentimentos. Outros mediadores poderão ter mais jeito para tratar com as pessoas, trabalhar a um ritmo mais lento e possuir uma componente terapêutica acentuada. Por outro lado podem ser menos hábeis na colheita de informação financeira e na análise de números e podem gastar imenso tempo a discutir sem estarem a trabalhar em soluções concretas. Os mediadores bem dotados possuem competências interpessoais e de resolução de problemas que lhes permite adaptar a cada casal, durante os pontos críticos de cada sessão, a receita para ajudar a gerir os “efeitos da tensão superficial”. 99 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 99 Competências de Gestão Competências Interpessoais Competências para a do Processo Resolução de Problemas Avaliação inicial Comprometimento com os Definir as questões participantes Marcar a primeira sessão Escuta activa Fazer perguntas e desenvolver os assuntos Explicar o processo e os Reconhecer os sentimentos Definir prioridades objectivos Confirmação do consentimento Tornar as preocupações comuns Coligir e fornecer informação para mediar Estruturação do processo Gerir o conflito Analisare valorizar Manter as regras básicas Facilitar as comunicações Explorar opções Gestão do tempo Concentrar a atenção nos filhos Planear passo a passo Orientação para o apoio jurídico Gerir desequilíbrios de poder Brainstorming Gestão do ritmo das negociações Reenquadrar Encurtar diferenças Produção de resumos escritos Recapitular com clareza Negociação Conclusão do processo Terminar com cuidado, deixando a Previsão e prevenção porta aberta a reencaminhamento para outras instâncias 100 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 100 Capítulo IV LINGUAGEM E TÉCNICAS DE COMUNICAÇÃO A linguagem é um dos principais meios de comunicação. Os mediadores como comunicadores que são, necessitam de possuir capacidades especiais neste campo para poderem utilizar a linguagem duma forma positiva, útil e precisa. A linguagem é um filtro poderoso de experiência. Usamos a linguagem para organizar os nossos pensamentos e para canalizá-los numa direcção particular. A linguagem é também um meio poderoso para despertar sentimentos e para evocar imagens. Pode provocar-nos um bom ou mau estado de espírito. As palavras podem confundir, excitar, irritar, apaziguar. As palavras que utilizamos diariamente fazem parte de associações – pessoais, culturais e históricas, conscientes e inconscientes – que condicionam a maneira como vemos o mundo à nossa volta e as nossas reacções às pessoas e aos acontecimentos. Usar linguagem simples Quando estamos sob tensão a nossa capacidade para absorver informação é limitada. Os outros perceber-nos-ão com mais facilidade se usarmos uma linguagem clara e simples. Todos nós temos os nossos hábitos de apresentar as coisas e precisamos de nos ouvir a fim de percebermos como somos ouvidos pelos outros. Pessoas que estão zangadas e angustiadas ficam facilmente confundidas se usarmos frases compridas ou termos especializados de leis ou de psicologia. A maneira como falamos é influenciada pelo estilo familiar, pelos amigos e pelas actividades lúdicas. O discurso varia segundo a formação cultural e a classe social. Pessoas de regiões ou de formações sociais diferentes podem achar difícil perceber o nosso emprego de palavras e a maneira de falarmos. Se captamos uma expressão de confuso no nosso interlocutor talvez seja por que não nos estamos a explicar de uma forma suficientemente clara. 101 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 101 Quem vem à mediação optou por recorrer aos serviços de um mediador, logo não deve ser tratado como “objecto” de intervenção que não compreende. Casais em processo de mediação estão relacionados com uma gama muito extensa de culturas e a sua linguagem inicial pode ser diferente da do mediador. Normalmente o uso duma linguagem clara ajuda-os a perceber e a sentir que estão a ser tratados como iguais. Habitualmente não é preciso usar terminologia jurídica. Quando for preciso recorrer a termos técnicos, é frequentemente vantajoso prestar alguns esclarecimentos ou comentários. Os mediadores falam de “reuniões parcelares”, de “capacitação” e de “mutualização”. Este tipo de gíria profissional pode confundir um processo que devia ser transparente. Devíamos ser capazes de explicar a mediação com clareza suficiente de modo a que até uma criança de cinco anos a compreendesse. Linguagem positiva Quando os casais estão em conflito, é útil empregar uma linguagem positiva falando “dos vossos planos (ou arranjos ou opções possíveis) para o futuro” em vez de referir que “vocês estão em litígio sobre o divórcio”. Uma mensagem verbal pode neutralizar ou ampliar um conflito, dependendo de como é expressa. Pais em vias de separação são muito sensíveis à linguagem. Por exemplo, é útil falar das suas preocupações pelos filhos, e não das suas lutas a propósito dos filhos, assim como é útil falar do seu apoio aos filhos em vez de manutenção dos filhos. Um mediador deve evitar usar o termo “pai (ou mãe) ausente” porque isso poderia implicar que um dos pais está totalmente ausente e que até está ausente por sua escolha. Do mesmo modo, o termo de família monoparental é crítico e ofensivo porque pressupõe que só há um dos pais. Os mediadores incluem ambos os pais se disserem “ambos, como pais…”, “a família como um todo”, “ajuda a ambos e aos vossos filhos”, “tornar as coisas mais fáceis para todos”, para mostrar que eles estão interessados em ajudar os filhos e os pais. A mediação familiar não está limitada a ajudar adultos a resolver problemas de adultos. Talvez seja uma redundância observar que “a separação (divórcio) pode ser o fim da vossa relação (matrimónio), mas vocês continuam a ser pais. A família poderá modificar-se, mas ainda existe”. É útil para os pais ter consciência de que há muitos aspectos positivos da vida de família e do relacionamento que precisam de continuar, e de modo algum de terminar. 102 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 102 Os mediadores têm tendência a filtrar as palavras acusatórias e os rótulos incriminatórios. Por exemplo, se a mãe diz acerca do pai: “Ele é um descuidado com o que as crianças comem”, um mediador deveria evitar repetir a palavra “descuidado” ao perguntar: “Então uma das questões que gostaria de discutir aqui hoje é a da dieta das crianças?”. Por vezes os mediadores arriscam-se a ofender porque neutralizam demasiadamente. As pessoas podem sentir que não são ouvidas e que são desvalorizadas se uma afirmação altamente emocional for de tal modo atenuada pelo mediador que perca toda a sua força. Os mediadores precisam de usar palavras fortes sem se apresentarem como juízes. Se uma mãe disser “Fico furiosa que ele (o pai) só faça o que a mãe dele lhe diz”, ela ficará ainda mais zangada se o mediador comentar: “Então você está irritada?”, visto que “irritada” não é um bom substituto para “muito zangada”. No outro extremo da escala de emoções, os mediadores parecem irresistivelmente atraídos pela palavra feliz. Durante a fase de estágio, os mediadores dizem muitas vezes: “Então ficaria feliz se o Francisco ficasse com os filhos semana sim, semana não?”. Os casais que estão em vias de separação raramente estão felizes. Seria mais aceitável se o mediador perguntasse: “Então está a dizer que pelo seu lado não poria obstáculos a que o Francisco ficasse com os filhos semana sim, semana não?”. Olhando para o futuro Muitos conselheiros e terapeutas acreditam que é necessária alguma compreensão do passado antes de começar a ajudar as pessoas a tratar do presente e do futuro. Os mediadores por seu lado têm tendência a olhar desde o início para o presente e para o futuro, sem procurarem muita informação sobre o passado. Há coisas do passado que podem ser directamente relevantes e que precisam de ser conhecidas, mas os mediadores fazem perguntas que levam os casais a olhar para a frente e não para trás. Normalmente o mediador não precisa de saber como é que as pessoas chegaram à situação presente. O objectivo consiste nos caminhos para a frente. “Então em que tipo de soluções é que estão a pensar?”. As perguntas orientadas para o futuro ajudam as pessoas a deixar as mágoas e as acusações para trás e a olhar para como querem que seja o futuro. Repetindo e resumindo Repetir o que cada pessoa disse, usar as palavras que elas usaram, é importante em mediação por diversas razões: • Mostra que está a ouvir cuidadosamente e que quer perceber 103 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 103 • Dá a cada pessoa uma oportunidade de o confirmar ou de o corrigir, se necessário • Reduz a velocidade, se a argumentação estiver a andar muito depressa • Ainda que as palavras sejam repetidas, o tom de voz do mediador pode mudar o clima • Um tom de voz diferente pode ser mais audível para a outra parte • A repetição pode dar um reforço substanciala uma afirmação positiva ou a uma preocupação mútua • Um curto resumo pode ajudar a fazer o inventário e a planear o próximo passo. Os mediadores precisam normalmente de reformular as frases, porque se repe- tirem as acusações palavra a palavra pode dar a impressão que se identificam com elas. Filtrar os aspectos negativos A conversa dos casais é frequentemente marcada por mal-entendidos – por vezes terríveis mal-entendidos – e pela maledicência um do outro: “O Pedro não serve para nada”, “Não se pode fazer confiança na Cândida”. Conforme Fisher e Ury (1981) enfatizaram, é importante separar as pessoas do problema. Os mediadores têm de mostrar respeito e compreensão mútua, usando tanto quanto possível uma linguagem positiva. Pedir a um dos parceiros para dar um exemplo recente para ajudar a perceber a dificuldade é no fundo procurar uma informação específica e não fazer um julgamento global. Um incidente específico ilustra o problema em termos mais limitados e concretos. O outro parceiro pode então adiantar uma explicação (“mas o que aconteceu foi …”). A explicação normalmente muda a percepção de cada parceiro sobre este incidente concreto. Escuta atenta e postura centrada Os mediadores manifestam pela sua postura, expressão facial e contacto visual, e também pelas suas palavras, que estão atentos ao que se diz. A postura do mediador precisa de transmitir calma e atenção, nem se encostando para a frente duma maneira importuna nem se sentando pesadamente e em atitude super- descontraída. As artes marciais japonesas do “Aikido”, que respondem a agressões mais do que instigam ataques, põem em evidência a importância duma postura do 104 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 104 corpo estável, equilibrada e “centrada” quando se está em situação de conflito ou tensão. Um mediador que estiver convenientemente centrado pode manter contacto visual com ambos os parceiros, olhando de um para o outro para ver como cada um está a reagir e tomando nota das suas posturas e linguagem corporal. Alguns mediadores fazem entoações de vozes não comprometedoras do género “mm” ou “sim, sim, estou a ver”. Outros preferem ouvir sem se manifestar. É essencial mostrar atenção e empatia com equidade e evitar dar a impressão de estar mais inclinado para uma das partes do que para a outra. Casais que discutem sem se ouvirem Quando os casais estão em vias de separação, os seus argumentos são muitas vezes apressados e tempestuosos. Talvez nenhum deles consiga ouvir o que o outro tem a dizer, como dois piões sussurrantes que se afastam um do outro num redemoinho de palavras. Os mediadores têm que os acalmar, facultando-lhes uma estrutura na qual cada um possa falar e possa ser ouvido. O remoinho de palavras pode ser um escape de energias, que o mediador deve captar e canalizar duma forma mais construtiva. Muitas pessoas têm dificuldade em se exprimir, independentemente de terem uma educação superior ou não. É muitas vezes necessário procurar informações adicionais e explorar o que estão a dizer. As palavras podem ter tantos sentidos que será difícil desvendar o seu significado original, escondido ou alterado por referências históricas e pistas emocionais. Os mediadores procuram a explicação, a clarificação, a definição. Quando uma das partes levanta uma objecção de carácter geral, pode valer a pena pedir uma concretização específica: “Para me ajudar a compreender melhor porque é que pensa que a sugestão do Francisco é impossível, dê-me um exemplo do que é que aconteceu da última vez que ele telefonou para ir buscar os filhos…”. Também é útil repetir o que cada parceiro diz, em particular quando estão preocupados e zangados.”Assim está preocupado que … e o Francisco está preocupado que …”. Repercutindo a posição de cada participante nele próprio duma forma tão exacta quanto possível, usando frequentemente as suas próprias palavras, contribui para os acalmar porque mostra que foram ouvidos. Estas técnicas são fundamentalmente ingredientes da mediação. Elas podem contribuir para acalmar o ritmo de argumentos, se ele for muito vivo. 105 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 105 Versões contraditórias da “verdade” Casais em vias de separação ficam muitas vezes bloqueados por intermináveis argumentos circulares sobre o que aconteceu quando … sobre o que fez ou disse o quê a quem … e sobre quem está agora a contar a versão “certa”. A história dos acontecimentos é forçosamente subjectiva, enevoada por sentimentos e colorida por valores sobre o que é certo e errado, aceitável e inaceitável. Acontecimentos, experiências e as nossas percepções sobre outras pessoas envolvidas nos mesmos casos são tecidos numa espécie de tapeçaria que representa a nossa visão do mundo. Uma questão importante sobre falar com os outros é a de voltar a contar as nossas experiências dum modo que confirme a nossa maneira de ver e a nossa própria imagem. O processo de voltar a contar experiências altera a maneira como elas são recordadas e armazenadas na memória. Quanto mais se fala do sucedido, mais o sujeito fica convencido de que o que aconteceu se passou como ele o está a descrever. Quando casais separados discutem novamente versões conflituosas do mesmo acontecimento, a ameaça é muito mais profunda para eles do que se se tratasse de meras diferenças de relatos. A imagem interiorizada por cada parceiro e a que eles querem transmitir para o mundo exterior é confrontada e contrariada pelo outro. Se um dos dois parceiros tiver a sensação que a sua própria imagem se está a desfazer em pedaços, pode recear que toda a sua personalidade seja posta em causa. Os mediadores precisam de saber que os indivíduos que se submetem à mediação se podem sentir muito vulneráveis e que estão a lutar para se manterem ligados a um frágil sentimento de identidade. Ainda que os mediadores não sejam nem conselheiros nem terapeutas, eles precisam de mostrar compreensão, reconhecendo os medos e as tensões de ambos os parceiros. O poder de reconhecimento é considerável (ver Cap. 5). É contudo importante não reconhecer sofrimento em mediação duma maneira que aumente ou exponha a vulnerabilidade duma parte à outra. O uso da linguagem varia com o género Estudos de linguística apontam para o facto que o homem e a mulher usam modos ou estilos diferentes de falar, em parte devido a condicionamentos do tipo cultural. Quando os sentimentos entre um casal estão em crise e a tensão é grande é fácil interpretar mal o que o outro parceiro está a dizer ou ficar aborrecido pela 106 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 106 maneira como o diz. Muitos argumentos são baseados em confusões ou em diferenças de percepção, mais do que em autêntico desacordo. Os homens sentem-se normalmente mais confortados em falar sobre actividades e coisas práticas. As mulheres, por seu lado, falam frequentemente de relações e partilham os seus sentimentos com mais facilidade com o outro. Os homens que acharem as emoções demasiado intensas para estarem a tratar disso são capazes de cortar a conversa. Quanto mais um dos parceiros desliga, o mais provável é que o outro se exalte e que alcance o “ponto de ebulição”. Os mediadores talvez consigam descarregar algum vapor tecendo comentários sobre o modelo que observaram, duma maneira que seja bem recebida por ambas as partes: “Quando é difícil falar, as coisas ficam mais difíceis para vocês os dois. Eu gostava de ter a certeza de que percebi bem as preocupações principais de cada um. Sandra, você disse que …e você, Manuel, disse que …?”. Alguns casais têm o hábito de falar num tom cada vez mais alto sempre que estão em desacordo. Mas também pode acontecer que um parceiro aumenta o volume de voz e o outro desliga. Os mediadores observamestas situações ao vivo. Quando parece que um dos parceiros ficou bloqueado enquanto o outro está aos gritos num desespero crescente, o mediador pode pegar na mensagem e repeti-la duma maneira calma, num tom apaziguador. Pode ser que o parceiro bloqueado seja receptivo à voz calma do mediador. O parceiro que grita, ao ver isto, provavelmente irá baixar o tom de voz. Superioridade de uma das partes Podem existir problemas em mediação quando um dos parceiros é mais conhecedor do que o outro ou está mais familiarizado com termos profissionais ou técnicos que são relevantes para a mediação. O outro parceiro que não conhece esses termos tem tendência a sentir-se desajustado e posto de parte. Uma mulher que não tenha tido uma carreira por si própria pode sentir-se em desvantagem quando o mediador interroga o marido sobre os seus negócios financeiros. Ainda que a mulher compreenda que essas perguntas têm de ser feitas, pode muito bem ser que ela não compreenda nem as perguntas nem as respostas. Ela pode ter medo de perder a sua reputação se admitir a sua ignorância. Isto pode também verificar-se ao contrário, quando é a mulher quem gere as finanças familiares ou tem uma carreira mais qualificada que a do seu 107 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 107 marido. Quando um parceiro usa termos técnicos para impressionar o mediador, o mediador tem de reconhecer o jogo de poderes que se está a travar e continuar a usar uma linguagem simples e a certificar-se de que o outro parceiro se sente integrado na discussão. Encorajar cada pessoa a falar por si própria Casais em conflito acusam-se frequentemente um ao outro, e alguns falam do outro na terceira pessoa, mesmo quando o outro está presente na sala. Os mediadores devem procurar modificar este infeliz hábito, procurando que os participantes falem por si próprios e expliquem o que pretendem na primeira pessoa. Actuar como árbitro, respeitando as regras básicas Os casais em conflito tentam muitas vezes marcar pontos um contra o outro. Se uma das partes está a monopolizar a conversa, pode ser que o mediador tenha de interromper duma forma tão construtiva quanto possível: “Jorge, deixe-me interrompê-lo neste ponto. Se eu o percebi bem, está a dizer que … e, Célia, você antes disso disse que …?”. O mediador tem que mostrar que ambas as partes estão a receber igual atenção e que nenhuma delas está autorizada a dominar a conversa. O equilíbrio e o reequilíbrio podem ser feitos através dum contacto visual igual, dando tempo a cada parte, propondo e reforçando as regras básicas. Se uma das partes usar linguagem ofensiva ou ameaçadora, o mediador tem de ser firme e seguro e tornar bem claro que isso tem de acabar como condição para a mediação continuar. Ajudar os casais a falarem um com o outro e não com o mediador Um dos principais objectivos da mediação consiste em ajudar os casais a falarem mais facilmente um com o outro, de modo a que se tornem mais capazes de tratar de futuras situações por si próprios. “Melhor do que explicar o que é que sente que causou estas dificuldades, acha que poderia sugerir o que poderia ajudar a …?”. Se o mediador se dirigir a cada pessoa uma a uma, e se esperar por uma resposta, as pessoas têm tendência para responder ao mediador sem falarem umas com as outras. Os mediadores ajudam as pessoas a falarem umas com as outras, talvez pela primeira vez depois de um longo período sem se falarem. O mediador pode pedir a uma delas para explicar qualquer coisa à outra e não ao mediador. 108 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 108 “Filipe, penso que podia ajudar a Margarida se lhe pudesse explicar como é que você vê …”. Esta abordagem permite que a discussão se transforme num sistema circular, com a conversa fluindo entre ambos os participantes e o mediador, em vez dum caminho linear rígido. Se se usar um sistema linear, a comunicação tem lugar entre o mediador e cada participante separadamente. No sistema circular, a discussão processa-se mais livremente à volta da mesa. Dificuldades de linguagem e de audição Casais que tenham uma língua materna diferente da língua principal usada no seu país de residência precisam dum mediador que fale a sua própria língua. Contudo, são raros os mediadores poliglotas. Do mesmo modo, quando um ou ambos os parceiros têm problemas auditivos, eles precisam dum mediador que possa usar a linguagem gestual ou dum especialista de comunicação com surdos. Os intérpretes e os especialistas que participarem numa ou em mais sessões de mediação têm de ser igualmente aceites por todos os interessados e também eles precisam de ter uma boa compreensão do processo de mediação. Deveria haver uma consulta prévia para se ter a certeza de que todos os participantes se sentirão à vontade com o especialista proposto. Se essa pessoa já for conhecida deles, poderá haver um preconceito, real ou perceptível, e a outra parte poderá pôr em dúvida a sua imparcialidade. Também é difícil quando o mediador não pode controlar a exactidão da tradução. Um intérprete pode não conseguir transmitir as palavras exactas do mediador, ou as cambiantes da linguagem e do sentido. O intérprete tem de ser instruído sobre o processo de mediação, sobre a confidencialidade e sobre as tarefas envolvidas. O mesmo se aplica se for necessário um especialista em linguagem gestual para os surdos ou por causa de 109 Mediador Abordagem linear Abordagem circular Filipe Margarida Mar gari da Me dia do r Filipe Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 109 outra espécie qualquer de deficiência de linguagem. É essencial dar relevo às questões do equilíbrio e da imparcialidade, à função especializada dos auxiliares e ao seu efeito no processo e no seu resultado final (ver também Cap. 8). Utilizar perguntas para estruturar o processo de mediação Os mediadores gastam imenso tempo a fazer perguntas. As perguntas têm de ser equilibradas, convenientemente focadas e apresentadas com sensatez, sem interrogar as pessoas e sem formular questões que pertencem ao foro da terapia. Os pesquisadores (Kressel e outros, 1989) concluíram que a boa utilização desta técnica estava associada a resultados positivos, ao passo que, em mediações que falharam, o mediador não a tinha usado de forma adequada. Fazer perguntas úteis é um trunfo muito importante em mediação. As perguntas ajudam a evitar armadilhas tais como pontificar, fazer observações desajustadas ou dar soluções. É importante continuar a fazer perguntas em mediação, por muito tentado que se esteja para dar ao casal aquilo que você pensa que é a resposta óbvia. Os mediadores envolvem ambos os parceiros de igual modo colocando a mesma pergunta a cada um, uma vez que é provável obterem respostas diferentes. A ordem em que cada parceiro é interrogado deveria variar. Perguntas “abertas” permitem às pessoas dar uma resposta espontânea, mas corre-se também o risco de respostas descontroladas. Perguntas “fechadas” e centradas ajudam o mediador a obter informações específicas e a conter situações de grande conflito. Fazer perguntas orientadas para um determinado assunto ajuda os mediadores a manter a estrutura e o controlo. Muitas pessoas estão extremamente nervosas quando vêm à mediação pela primeira vez. Uma pergunta banal, como por exemplo “Pode explicar-me a sua situação actual?” convida-as a falar à vontade. Mas também lhes pode pôr um dilema por não saberem por onde começar ou acabar. Se uma das partes se lança numa longa tirada dirigida contra a outra parte, a segunda parte pode ter receio de não vir a ter oportunidade de falar e pode perder confiança no mediador. As pessoas têm muito medo de se descontrolarem e de ficarem feridas. Outras também receiam magoarem-se umas às outras.Muitas pessoas acham que é mais seguro e fácil responder a perguntas orientadas, como por exemplo “Onde é que vive agora?”, “A decisão de separação foi uma decisão de comum acordo?”, “A que horas é que gostava de ir buscar as 110 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 110 crianças no próximo sábado?”. Desta maneira o mediador pode recolher informação e indicar saídas duma maneira sistemática que os casais possam considerar menos tensa. Kressel e colegas (1989) descobriram que os mediadores hábeis têm tendência para usar uma estrutura identificada com o tipo de questões que costumam colocar e com o momento em que as aplicam. A estrutura é parecida com uma pirâmide: à medida que a mediação progride, as perguntas, que inicialmente eram amplas, com o objectivo de recolher informação, tornam-se gradualmente mais precisas. Os seguintes exemplo mostram como as perguntas podem ser usadas para estruturar o processo de mediação e para concentrar a atenção no presente, no futuro ou no passado. Muitos casais ficam bloqueados no passado e precisam de questões orientadas para o futuro para os ajudar a olhar para a frente e não se fixarem no passado. Tipo de pergunta Finalidade Exemplo Aberta Convida a uma resposta “Portanto, quais são as suas genérica ou espontânea maiores preocupações ao vir à mediação?” Fechada Limita a informação que pode “Que tipo de hipoteca é que tem?” ser dada em resposta. Mantém o controlo do processo Indirecta Pode ser respondida por “Quais são as combinações em qualquer das partes curso?” Directa Dirigida a uma das partes, “Já olhou para o preço das casas, normalmente uma de cada vez Ana?... João, já deu uma olhada…? Orientada para o passado Recolhe informação sobre o “Utilizou o dinheiro do apartamento passado, quando necessário para comprar a casa? Orientada para o presente Clarifica as medidas em curso “Quantas vezes vê os filhos neste momento?” Orientadas para o futuro Centra a atenção no futuro “Como é que gostaria que isto funcionasse no próximo ano?” Pensando sobre a função da pergunta É importante pensar sobre a função da pergunta. O mediador pode ser desafiado a explicar uma pergunta aparentemente irrelevante – “Porque é que está 111 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 111 a perguntar isso?”. Alguns exemplos de diversos tipos de perguntas, que podem ser directas ou indirectas, fechadas ou abertas, incluem: Perguntas abertas para construir comunicação e aclarar as principais preocupações e objectivos de cada participante: “Poderia dizer o que é que gostaria de conseguir ao recorrer à mediação?” Perguntas para obter informação: “Com que frequência vê os seus filhos actualmente?”, “Está a explicar que isto é uma conta de poupança especificamente para fins fiscais. Quando é que espera receber o próximo aviso de pagamento de imposto?” Perguntas de negociação: “O que é que poderia fazer para facilitar isso…?”, “O que é que seria viável para si?” Perguntas para testar realidades: “O que é que aconteceria se…?”, “O transporte em cada fim-de-semana ficaria a cargo de quem?” Perguntas para desenvolver opções: “Haverá outras possibilidades em que tenham pensado?”, “Consideraram …?” Perguntas para esclarecer prioridades e facilitar a comunicação: “Qual é a sua prioridade principal neste momento?”, “Pode explicar o que é que gostaria que o Guilherme percebesse melhor?” Perguntas para reflexão, apresentadas devagar e ponderadamente, talvez abram uma janela que não tinha sido aberta e que talvez ofereça um novo ponto de vista: “Pergunto-me o que é que os dois vão dizer aos filhos dentro de X anos, quando forem adolescentes e vos perguntarem o que aconteceu quando vocês se separaram?”, “Se a Luísa decidir casar-se quando for crescida, pensam que ela gostaria de vos ter aos dois presentes no seu casamento?”. Se estas perguntas forem úteis, é quase possível ver a resposta nos olhos das pessoas e o borbulhar do pensamento por cima das suas cabeças. Por vezes constituem momentos de viragem. Perguntas hipotéticas As perguntas hipotéticas ajudam as pessoas a imaginar um cenário possível, sem estarem comprometidas pelo mesmo ou sem se sentirem apanhadas. Estas questões podem libertar as pessoas da sua situação actual, ajudando-as a projectarem-se a elas próprias no futuro e a visualizar possibilidades, como se se passasse um filme para a frente. Pode-se perguntar às pessoas quais as modificações que elas procuram e perguntar-lhes a seguir quais as condições que permitiriam concretizar essas modificações. É possível “implantar” sugestões dum mediador numa pergunta, desde que elas não sejam apresentadas como soluções 112 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 112 recomendadas. Perguntas hipotéticas são muito úteis quando se exploram opções e negociações para chegar a um acordo. Perguntas circulares Este tipo de questão é uma maneira de recolher e clarificar informação derivada da teoria de sistemas. É uma técnica usada em terapia familiar e que se pode usar em mediação, mas não em diagnóstico nem em tratamento. As perguntas circulares exploram percepções, relações e comunicações entre casais e entre membros da família. É um método de inquérito para levar as pessoas a parar e a pensar antes de responderem. As perguntas circulares estão centradas nas comunicações e nas interacções entre participantes na mediação e entre eles e os seus filhos. Ampliam o centro observação para além da comunicação bidireccional entre cada um dos participantes, separadamente e com o mediador. Perguntas circulares exploram a conexão, mais do que focam a atenção no abismo entre visões e posições pessoais. São úteis porque rompem as explicações habituais de causa e efeito que encorajam a queixa. Perguntas que convidam alguém a explicar como é que eles pensam que outra pessoa (que pode estar ou não estar presente) poderá estar a pensar ou a sentir um problema, em vez de lhes perguntar o que eles próprios pensam ou sentem do dito problema, facilitam mudanças de perspectiva que podem levar a um entendimento diferente ou a uma nova maneira de ver o assunto. Esta técnica é especialmente útil para ajudar os pais a terem em consideração as necessidades e os sentimentos dos filhos. Se ambos os pais reagem descreven- do as necessidades e os sentimentos dos filhos em termos semelhantes, o media- dor pode mutualizar as suas preocupações e avançar no sentido de obter opções ou acordos. Se, porém, eles estiverem em desacordo, pode fazer mais perguntas circulares sobre como pode um filho mostrar sentimentos diferentes a cada um dos pais em ocasiões diferentes. Pode-se perguntar a cada um dos pais o que pensa que o seu filho, ou filhos, diria se fosse inquirido sobre os seus sentimentos ou sobre aquilo que mais o inquieta naquele momento. As perguntas circulares suscitam frequentemente algum tipo de comparação, como por exemplo uma comparação antes/depois ou uma pergunta sobre o que é que poderia tornar as coisas melhores, ou piores, para os filhos. Pede-se aos pais para se porem na situação dos filhos e para verem os seus filhos como indivíduos que têm sentimentos e necessidades próprias, e não como extensões de cada um 113 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 113 dos pais. Os pais são ajudados a comparar as percepções dos sentimentos e reacções dos seus filhos, sem que nenhum deles seja classificado como tendo ou não razão. As perguntas circulares ajudam os participantes a olhar através dos olhos de outra pessoa, em particular através dos olhos dos seus filhos e, eventualmente, a ver as coisas de um outro prisma. O quadro seguinte apresenta exemplos de diferentes tipos de perguntas e a possível finalidade dessas perguntas. Está longe de constituir uma categoriacompleta de perguntas. Perguntas Finalidade Exemplo Testar a realidade Ajudar as pessoas a explicar as “Como é que isto seria feito na prática...?” suas ideias em termos concretos Clarificação Procurar uma informação mais “Poderia dizer mais alguma coisa sobre …?” específica ou pretender uma resposta mais completa Resumo Faz o ponto da situação e a “Portanto eu tenho razão quando digo focagem do processo que a questão fundamental agora é..?” Estratégico Mudar de direcção ou evitar “Não se importa de pôr isto de lado um argumento por agora e olhar primeiro para..? Reflexivo Para promover a meditação, “Pergunto-me se seria útil falar sobre.” para oferecer outra perspectiva Hipotético Torna possível aprofundar sem “Joana, se você se decidir a aceitar pedir às pessoas que se um emprego a tempo inteiro, como comprometam é que consegue ocupar-se de...? Circular Ajuda a compreender percepções “Se o Guilherme estivesse aqui, o e relações no interior das famílias que é que pensa que ele diria?” As questões relativas aos “porquês” não estão incluídas nesta lista porque encorajariam respostas de culpabilização e de auto justificação. Uma pergunta que procura uma razão suscita muitas vezes uma resposta acusatória. O mediador como intérprete para o casal Uma mulher separada escreveu no seu formulário, antes da primeira reunião da mediação: “O Nuno e eu precisamos de reconstruir as nossas vidas. Não pode deixar de haver partes sobre as quais estaremos em desacordo. Por vezes não 114 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 114 falamos a mesma linguagem e uma terceira pessoa talvez seja capaz de interpretar o que um de nós ou ambos estamos a dizer um ao outro”. Um intérprete procura traduzir tão fielmente quanto possível de modo a que os destinatários apanhem o essencial do que foi dito. Os mediadores frequentemente traduzem para casais que têm dificuldade em se compreenderem um ao outro. A mesma mensagem, dita por uma terceira pessoa que não está emocionalmente envolvida, pode ser ouvida de formas diferentes. Do mesmo modo, quando repetir as declarações, o mediador pode precisar de alterar o fraseado de modo a que se sinta ouvido e compreendido. Ao mesmo tempo, o mediador está a ajudar a outra parte a ouvir e a compreender. A pessoa para quem se fala poderá então responder positivamente, em vez de usar uma atitude agressiva. Quando porém o mediador substitui algumas palavras é importante verificar com o locutor original que o significado ou a mensagem estão a ser transmitidos correctamente. Parafrasear e reformular Construímos a nossa realidade a partir duma mistura de percepções, de crenças, de interpretações da experiência passada, de esperanças e de receios quanto ao futuro. Não é de admirar que casais em via de separação apresentem imagens inconsistentes e contraditórias da mesma situação ou do mesmo inci- dente. Cada um deles construiu uma “moldura” através da qual ele observa e inter- preta a conduta e as declarações do outro. Nenhuma “moldura” é certa ou errada: cada uma tem a sua própria validade. Mas enquanto os casais em vias de sepa- ração discutirem sobre qual das interpretações é a correcta estão a prejudicar o progresso na construção de soluções de acordo. Na sua missão de ouvir, clarificar e resumir, os mediadores precisam de mostrar que estão interessados e podem aceitar as imagens contraditórias que possam ser apresentadas por cada uma das partes. Eles não escolhem qual a imagem que preferem, nem farão julgamentos de valores. Nas fases iniciais da mediação, a imagem que cada participante faz do outro é normalmente negativa. As explicações podem ser prestadas em termos de responsabilidade ou de acusação. O desafio para os mediadores é reformular as declarações acusatórias de tal modo que não alterem a imagem ainda que ponham outra “moldura” à volta de maneira a que seja vista duma perspectiva diferente. As “molduras” que nós construímos adaptam-se às 115 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 115 nossas reacções e decisões, mesmo quando elas produzem resultados auto- destrutivos, ao passo que uma mudança de perspectiva fornece uma oportunidade de alterar um modelo de pensamento e de comportamento. Portanto, quando um mediador reenquadra a perspectiva de alguém, isto pode ajudar a mudar atitudes e comportamentos, sem que o mediador seja orientador ou juiz. O reenquadramento envolve o reformular de declarações ou de ideias para oferecer uma maneira mais positiva de as compreender, sem introduzir uma nova interpretação que pertenceria ao mediador. Pode ser usado para não se centrar sobre a opinião de um dos pais em relação ao outro no que se refere às preocupações conjuntas pelos seus filhos. Reformulações regulares mantêm os filhos na primeira linha da atenção dos pais. Não é invulgar que os pais repitam a linguagem e as expressões que o mediador usou. A reformulação exige sensibilidade e jeito. Pode envolver modificações de palavras e de sintaxe, para ajudar a mudar o fluxo de energia de negativo para positivo. Também são importantes a escolha adequada dos tempos de intervenção e a atenção ao impacto sobre ambas as partes. Como funciona a reformulação positiva? 1. Apresenta uma palavra ou uma declaração duma forma diferente: uma determinada faceta é rodada para apanhar uma luz diferente. A intenção é clarificar ou facilitar a comunicação entre as duas partes, e não para impor o ponto de vista pessoal do mediador. Uma das maneiras de conseguir isto é fazer uma pergunta em vez de um comentário para verificar se a preocupação ou o objectivo fundamental do mediador foi percebido. Se não for esse o caso, a sua correcção permite esclarecer o assunto. Se, por outro lado, a reformulação for correcta e sensível, há uma resposta positiva, geralmente traduzida por um gesto de cabeça e por um cruzar de olhos. 2. Se se repetirem palavras e frases negativas, a repetição confere-lhes peso e força adicional. Um reenquadramento deve ser positivo, não culpa, não acusa e não denigre ninguém. 3. Um reenquadramento positivo pressupõe boas motivações. Pode-se dar às pessoas o benefício da dúvida até que elas voltem a tornar evidente que só têm motivações destrutivas. Se se der uma explicação positiva no caso duma posição negativa, isso ajuda as pessoas a sentirem-se melhor. Frequentemente elas estão conscientes que se comportam mal. O facto de lhes ser oferecida alguma forma 116 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 116 de validação ajuda-as a restaurar a auto-estima que anda geralmente muito em baixo durante os processos de separação ou divórcio. Um reenquadramento positivo levanta preocupações subjacentes que podem ter estado escondidas por baixo de reacções de irritação ou de defesa. Se o mediador as exprimir como preocupações mútuas, partilhadas por ambos os pais, pode acontecer que se abra e se explore um terreno comum. 4. Um reenquadramento orientado para uma das partes precisa de ser equilibrado por um reenquadramento paralelo ou por um reconhecimento da outra parte. É im- portante equilibrar e mutualizar – identificar um terreno comum e preocupações co- muns, mesmo quando a atenção estiver concentrada nas afirmações de uma das partes. 5. Quando se verifica um nível particularmente elevado de emoção ou tensão, o reenquadramento duma forma calma e reflectida baixa a temperatura emocional. Ouvir com atenção torna-se mais fácil. O reenquadramento pode ser utilizado como um passo para outras questões que precisam de ser analisadas. O ritmo e o agendamento do reenquadramento Mediadores inexperientes têm tendência para não aproveitar deixas para fazer reenquadramentos e perdem valiosas oportunidades para intervir em ocasiões críticas. Se se desperdiçarem oportunidadesdessas repetidamente o conflito pode agravar-se e ambas as partes podem perder confiança na capacidade do mediador para as conter. Por outro lado, um reenquadramento que é proposto muito depressa e irreflectidamente pode não servir para nada. Não deve aparecer sob uma forma paternalista, nem deve diminuir a importância da declaração inicial. Reenquadrar não é uma técnica usada isoladamente; é parte dum processo no qual cada intervenção pelo mediador deve ser feita com cuidado e orientada para o próximo passo. Mensagens e “meta-mensagens” Alguns casais não se guerreiam abertamente. Enviam mensagens codificadas um ao outro. É preciso que os mediadores desenvolvam um “terceiro sentido” para captar e descodificar essas mensagens codificadas. Uma “meta-mensagem” é uma mensagem oculta que transmite uma instrução ou alguma informação sobre as relações e atitudes do casal. A mensagem oculta pode contradizer o que está a 117 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 117 ser dito abertamente. As mensagens codificadas ou “meta-mensagens” podem ser subtis e mais devastadoras do que um ataque frontal, em especial se destroem o outro parceiro por sarcasmo e pelo ridículo. Estas mensagens codificadas podem ser usadas por um dos parceiros em mediação para arrastar o mediador para uma aliança, usando por vezes palavras aparentemente inócuas para transmitir uma mensagem de que a outra parte não é razoável, é estúpida ou ridícula. Resposta à linguagem corporal Uma quantidade apreciável de informação é transmitida em mediação através de linguagem corporal – vestidos, postura, contacto visual, expressões faciais. Os mediadores têm de estar atentos à linguagem corporal dos participantes e conscientes das mensagens não verbais. Os sentimentos de carinho, de raiva bem como de tristeza, são muitas vezes transmitidos por olhares ou gestos entre o casal. Alguns géneros de linguagem corporal em mediação podem exigir uma resposta do mediador, ao passo que outros não precisam de qualquer comentário. A linguagem corporal do mediador – contacto visual, expressão facial, movimentos das mãos, maneira de estar sentado – também transmite sinais de que o mediador necessita de estar consciente. As mãos podem ser usadas para realçar imparcialidade e abertura, mas movimentos das mãos em demasia pelo mediador podem causar distracção. Nervosismo, ansiedade Quando os mediadores notarem mãos a agarrar uma cadeira ou pés a mexer para cima e para baixo, pode ser construtivo reconhecer e partilhar a tensão, dizendo que estão a passar um tempo extremamente tenso e que o objectivo é reduzir a tensão fazendo … Medo de ataque, cólera controlada Os braços dobrados à volta do peito, os punhos cerrados ou as pernas firmemente cruzadas podem ser posições defensivas indiciadoras de vulnerabilidade, medo de ataque ou raiva contida. As pessoas podem manter os olhos baixos e evitar olhar para os outros. Podem deslocar as suas cadeiras e afastá-las das outras pessoas. Os mediadores têm a possibilidade de ajudar as pessoas a sentirem-se mais seguras e mais descontraídas com novas garantias que não seriam oferecidas espontaneamente Se um 118 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 118 dos participantes evita o contacto visual, olhando constantemente para o chão ou para fora através da janela, isso é um sinal de que qualquer coisa precisa de ser feita para conseguir que essa pessoa se sinta mais segura, mais à vontade e mais envolvida. É oportuno perguntar algo que convide ao contacto visual e volte a introduzir no processo uma pessoa que se tenha ausentado. Uma postura indolente, deitada para trás na cadeira com as pernas esticadas, pode indiciar sentimentos de superioridade. Manter os olhos fechados pode manifestar tédio ou falta de vontade de participar. No entanto, estas posturas podem também mascarar ansiedade e receio. Sobrancelhas franzidas, olhar feroz, lábios trémulos, uma mão a tapar a cara – todas estas expressões precisam de ser notadas e de certa maneira respondidas. Sorrir, por seu lado, convida a um sorriso em resposta. Mediadores que se concentram muito a fundo por vezes esquecem-se de sorrir um pouco. Silêncio Os silêncios são correntes em mediação. Podem ser pensativos ou altamente emocionais. É importante que os mediadores aceitem o silêncio e não se apressem a preenchê-lo. Se o ambiente é de reflexão, tem que se dar tempo para a reflexão. Mas se o ambiente for pesado e ameaçador, talvez seja melhor reconhecer e discutir as tensões, para evitar uma explosão prejudicial na mediação ou posteriormente. Pontuação Os mediadores precisam de orquestrar a discussão e de gerir o tempo. É útil ter um conceito de “pontuação” – sublinhando, pondo um ponto final, começando um novo parágrafo. A estrutura pode ser mantida marcando o final de cada “movimento” (seguindo a agenda) antes de passar ao seguinte (recolhendo mais informação). O mediador tem de ser mais pro-activo – não apenas reactivo – ao gerir a estrutura e o ritmo. A pontuação ajuda a: * Manter os participantes no caminho desejado * Sublinhar uma discussão específica * Dar relevo ao progresso e reforçar a cooperação * Caracterizar as fases do processo * Planear as próximas fases ou passos 119 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 119 A pontuação é normalmente verbal, mas usa-se frequentemente um expositor de dados constituído por folhas de papel de grande formato para mostrar a agenda e a estrutura, de modo que cada um se possa orientar com mais facilidade. Uso de linguagem pictórica, de metáforas e de diagramas em mediação Os argumentos são muitas vezes repetitivos e as mesmas palavras são usadas vezes sem conta. Uma metáfora poderá mudar o modelo e transmitir com vivacidade qualquer coisa que doutro modo necessitaria de longas explicações. As metáforas captam a imaginação e aumentam o conhecimento. Mas também há perigos: uma metáfora desajustada pode ser condescendente, insensível ou apenas ridícula. Para os mediadores é importante pensar sobre as metáforas ou imagens particulares que podem usar duma maneira natural no decurso das discussões. As sugestões seguintes incluem algumas metáforas óbvias que ficaram classificadas na categoria de clichés super-elaborados. Outras podem incitar os mediadores a inventar as suas próprias metáforas. Uma metáfora inesperada pode lançar à terra sementes duma ideia que germinará gradualmente. Território, terreno intermédio A mediação é muitas vezes descrita como meio de “encontrar a posição intermédia”. As reuniões de mediação são realizadas em território neutro e os mediadores ajudam os participantes a encontrar um terreno comum que seja firme e seguro para prosseguir. Os mediadores falam frequentemente em estabelecer uma base na qual os pais separados se sintam capazes de trabalhar em conjunto, ou para construir fundações para uma futura colaboração ou para definir os limites para as discussões difíceis ou os limites práticos de contacto ou de arranjos financeiros. Viagens Há do mesmo modo muitas metáforas óbvias a propósito de estradas, viagens, escolha de itinerários, caminhos que conduzem a direcções diferentes, cruzamentos, bloqueios de estradas e necessidade de sinalização. Podem ser mostradas diversas opções de forma pictórica nas folhas de papel do expositor de dados como caminhos diferentes para avançar, envolvendo decisões que podem ser tomadas em fases diversas. Algumas situações parecem não ter saída, mas a identificação de todos os caminhos possíveis e a discussão de todas as opções possíveis pode abrir um caminho. 120 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 120 Pontes Mesmo pontes queimadas podem continuar a existir na mente. A mediação é uma ponte a que os participantes acedem de ambosos lados. Aventurar-se a atravessar a ponte pode exigir um enorme esforço e alguma esperança para o futuro. Algumas pessoas dirigem-se para ela com facilidade, sem precisar de muito apoio, ao passo que outras precisam de ser encorajadas e ajudadas antes de se decidirem a atravessar a ponte e de acreditarem nela o suficiente para darem alguns passos. Em termos de engenharia, uma ponte pode ser ancorada em maciços construídos em cada margem. As pessoas que usam a ponte querem saber se há suficiente apoio. O mediador é responsável por ver se a ponte está construída correctamente, com apoios sólidos tanto em termos emocionais como práticos. Os que estão relutantes em abandonar o passado podem ser ajudados pela mediação a dar alguns passos nesta ponte, na direcção dum futuro que lhes pode parecer muito incerto. Numa perspectiva metafórica, as discussões da mediação são uma ponte que atravessa o abismo entre os aspectos conflituosos e as necessidades. São precisas pontes entre os pais e os filhos, bem como entre os próprios pais. Um dos pais que tenha perdido o contacto com uma criança ou adolescente pode-se sentir totalmente rejeitado ou posto de lado. Este progenitor pode precisar de ser encorajado para conseguir atravessar mais de metade da ponte – escrever ou telefonar regularmente, mesmo que não haja nenhuma reacção. A criança precisa de ver que os pais mantêm viva essa ponte, possivelmente durante um período longo, e podem eventualmente sentir-se capazes de reagir. Em situações de bloqueio, quando a criança se recusa a ver um dos pais, pode ser útil falar sobre a forma de manter a ponte aberta e as formas de a dar a conhecer ao filho. Elástico Objectos humanos podem ser também usados como metáforas. Toda a gente sabe como um elástico é útil. Ele estica, contrai-se e mantém a sua forma. Mas se um elástico for esticado com muita força ou durante muito tempo, ele começa a deformar- se. A capacidade de recuperação duma criança é como um elástico. Algumas crianças mantêm essa capacidade, bem como um desenvolvimento normal, apesar de estarem submetidas a sentimentos ou forças em conflito. Outras tornam-se vulneráveis a pressões que são tão fortes e prolongadas que elas perdem a sua resiliência e capacidade para se adaptar. Os pais podem tornar-se mais compreensivos para um filho que esteja a debater-se com mudanças importantes se pensarem que a criança é como um elástico que tem grande resiliência, desde que não seja esticada com muita 121 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 121 força nem durante muito tempo. O elástico é composto por um certo número de pequenos fios unidos entre si. Se muitos desses fios se soltarem ao mesmo tempo, a elasticidade fica afectada. Da mesma maneira, a maioria dos pais e filhos confiam num certo número de ligações com outras pessoas. Se muitas dessas ligações (com um parceiro, um dos pais, outro parente ou amigos) forem bruscamente interrompidas, toda a estrutura pode desmoronar. Poderá ser muito urgente pensar como fornecer apoios adicionais, mesmo que temporários, para manter as ligações existentes. O psiquiatra Michael Rutter recordou aos seus auditores numa palestra intitulada “Resiliência à face da adversidade” (Rutter 1985) que a tensão é normal e que aprender a lidar com esse tipo de situações pode fortalecer. A resiliência não se alcança evitando a tensão, mas sim encarando-a de maneira que permita aumentar a auto-confiança e a capacidade de recuperação. Isto pode implicar o assumir de responsabilidades em relação à própria reacção a uma situação de tensão, em vez de acusar outros de serem os culpados. A resiliência é influenciada por muitos factores, incluindo temperamento, forças pessoais, experiências anteriores na vida, acontecimentos na parte final da meninice e na adolescência, factores “pára-choques” tais como apoio familiar e capacidade de criar relações próximas. Nenhuma destas experiências sozinha determina a reacção a uma mudança de vida importante mas, tecidas em conjunto, podem dar origem a um tecido que seja elástico e não quebradiço. Puzzles de peças recortadas Uma situação aparentemente impossível pode aparecer mais exequível se for sugerido que seja tratada pouco a pouco. Os puzzles de peças recortadas fornecem uma metáfora singela e animadora para uma abordagem passo a passo, por oposição à procura duma solução total imediata. “Procurar uma decisão e tentar que todas as peças se adaptem – as crianças, a casa, o dinheiro – é como formar um puzzle de peças recortadas. Algumas peças não se adaptam de modo nenhum no princípio, e outras parece que faltam. Mas, pelo menos em mediação, eu posso ajudá-lo a procurar as peças que faltam. Se algumas peças não se adaptam podemos retirá-las e tentar outras peças (...). Podemos também decidir que parte vai ser trabalhada em primeiro lugar. Alguns gostam de começar por num canto quando compõem um puzzle, e outros preferem fazer primeiro todos os lados. Por onde deveríamos começar?” 122 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 122 Portas e chaves Encontrar a chave para um problema é uma metáfora comum. Por muito sobrecarregada que pareça, a imagem duma chave pode ajudar as pessoas a fazer uma viragem para um modo de resolução do problema. Quando se lhes pergunta o que vêm eles como sendo a chave para o problema, é surpreendente quantas vezes eles aparecem com uma sugestão útil. Poderá existir mais do que uma chave que abre a porta? Árvores Os mediadores que reagem a uma disputa sobre propriedade falando sobre árvores arriscam-se a ser rejeitados rapidamente. As metáforas têm de ser apropriadas e usadas com cuidado. O conceito de lugar abrigado, protegido da balbúrdia do dia a dia, é no entanto fundamental em mediação. Nas reuniões de Camp David, Jimmy Carter convidou o Presidente Sadat, do Egipto e o Primeiro-ministro Begin, de Israel a encontrarem-se com ele num jardim, afastados da comunicação social e do mundo exterior. Ele descreveu o jardim como “abrigado por uma espessa cortina de carvalhos imponentes, choupos, freixos, alfarrobeiras, nogueiras e álamos... uma atmosfera de isolamento e de intimidade, propícia a reduzir as tensões e a encorajar a informalidade” (Carter, 1982, p. 324) Em Camp David, Jimmy Carter mediava um acordo de paz entre o Egipto e Israel. Água e rios As metáforas a propósito da água oferecem uma abundância de imagens. A água simboliza o movimento e a mudança. Pode correr depressa ou devagar, e pode estar parada. A água parada pode estagnar, mas uma mudança brusca é como uma maré que arrebata as pessoas em correntes que elas são incapazes de vencer. Ser arrastado constitui uma experiência terrível. Os mediadores podem tentar tornar a corrente mais controlável, reconhecendo o medo de ser arrastado e detectando quando, onde e como a corrente é mais rápida. Mesmo aqueles que parecem em águas relativamente calmas podem ir contra as rochas ou serem arrastados por rápidos. Perguntar aos participantes se prevêem algumas rochas mais à frente pode ajudá-los a prever e a evitar futuras dificuldades. A imagem pode também ajudar a reforçar a sua confiança na sua capacidade conjunta de dirigir e de manter o controlo. 123 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 123 O processo de mediação em si mesmo pode ser comparado à água. A água pode penetrar em pequenas gretas e cair em pequenas gotas. Um fio de água parece insignificante, mas mesmo assim tem o poder de partir um bloco de rocha. Ideias novas, propostas e mudanças precisam frequentemente de ser absorvidas gradualmente em vez de serem injectadas à força. Encorajar as pessoas a considerarem e a aceitarem as modificações por fases em vez de tudo duma vez, é uma abordagem útil que facilita o ajustamento dos filhos àsmodificações, bem como os ajustamentos que os adultos têm de fazer. A água reflecte a luz. Reflectir significa pensar. Pensar pode lançar alguma luz numa área escura, em que a impossibilidade de ver no escuro causa pânico. Ainda que a luz não forneça necessariamente resposta aos problemas, a luz, tal como a água, pode filtrar através de fendas estreitas. Pode iluminar o processo de explorar os problemas. As reflexões podem ser projectadas – atiradas para a frente – duma superfície ou dum ângulo para outro e serem vistas a uma luz diferente. A capacidade de mudar é afectada pela temperatura ambiente. Materiais frios ou gelados são muito quebradiços. Estalam sob pressão. A água gelada estilhaça-se ou parte, ao passo que a água a ferver está quente demais para ser tocada e evapora-se. Os mediadores devem registar a temperatura, como um termómetro. Se a temperatura for muito elevada, precisa de ser arrefecida duma maneira cuidadosa e ponderada, antes das mudanças serem encaradas e discutidas. Quando parecer muito frio ou gelado, os mediadores têm de oferecer calor e compreensão, tendo em conta os medos e acalmando discussões penosas. O calor faz as pessoas sentirem-se mais confortáveis. Também aumenta a maleabilidade e a flexibilidade. A importância da linguagem e do recurso às imagens em mediação é muitas vezes subestimada. Mesmo pequenas diferenças na abordagem duma questão ou no tom duma reflexão podem fazer mudanças importantes que tragam as tensões à superfície. Gerir estas tensões superficiais pode facilitar algum grau de mudança a um nível mais profundo. As palavras que os mediadores usam, o seu tempo e ritmo, podem influenciar o processo de mediação e o seu resultado mais profundamente do que muitas vezes se pensa. 124 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 124 Capítulo V INICIAR A MEDIAÇÃO Salas de mediação e equipamentos As salas de mediação familiar devem oferecer um ambiente de segurança e privacidade. A atmosfera geral deve ser agradável e acolhedora. Deve dispor de áreas de espera e de pelo menos duas salas, de modo a que os casais que vão à mediação possam estar separados, se necessário. A sala de mediação deve ter espaço suficiente para que os clientes se sintam confortáveis e deverá ter acesso para clientes com deficiências motoras. Um escritório não serve para reuniões de mediação. Um mediador nunca se deverá sentar atrás duma secretária numa sala cheia de estantes de arquivo. A mobília e a decoração, incluindo os quadros, deverão ser preferencialmente em tons quentes e concebidas para que as pessoas se sintam bem-vindas. Uma sala ideal para mediação familiar deverá ser suficientemente espaçosa para ter duas áreas distintas que possam ser usadas para fins diferentes, incluindo para reuniões familiares com filhos. Numa das metades da sala, uma mesa baixa com cadeiras de braços colocadas à volta proporciona uma disposição informal propícia para as reuniões e debates iniciais a propósito dos filhos. Na outra metade da sala, uma mesa redonda ou oval com cadeiras verticais contribui para um ambiente semelhante ao dum local onde se discutem negócios, adaptado para negociações sobre assuntos financeiros em que é preciso consultar documentos. A sala de mediação deve conter ainda: • Um telefone (salvo se for proibido receber chamadas durante a mediação); • Um relógio em local de acesso visual pelo mediador; • Um quadro branco ou um expositor de dados em cavalete e canetas- marcadores; • Uma máquina de calcular; 125 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 125 • Materiais de referência e formulários de mediação; • Uma pasta de informação e folhetos sobre outros serviços; • Livros sobre separação e divórcio para pais e filhos; • Água e copos – e café ou chá num jarro térmico; • Uma caixa de toalhetes de papel. Se houver crianças envolvidas, deverá haver material para crianças, incluindo jogos para diversos grupos etários. Recepção As primeiras impressões são muito importantes, uma vez que muitos clientes se sentem extremamente nervosos quando participam pela primeira vez num acto de mediação. Os recepcionistas precisam de formação sobre a maneira como devem receber os casais que vêm à mediação. Alguns casais poderão deslocar-se em conjunto para a reunião, e não terão dificuldade em esperar juntos. Outros chegam separadamente e pode acontecer que não se falem. Talvez não se tenham visto desde há muito tempo e podem estar apavorados com este primeiro encontro. Devem ser por isso poupados a terem de estar perto um do outro, enquanto esperam que o mediador termine uma reunião precedente ou um telefonema muito demorado. O recepcionista informa o mediador logo que chega o primeiro participante. Se houver o cuidado de criar um bom relacionamento com cada uma das partes desde o início, é raro acontecer um primeiro encontro falhado. Muitos mediadores oferecem chá ou café no início duma reunião para ajudar as pessoas a sentirem-se à vontade e para lhes dar tempo para estarem bem instaladas no ambiente em que se encontram. Se for servido chá ou café, há que os ter preparados num jarro térmico. Trazer bebidas posteriormente pode perturbar a reunião em pontos críticos. Os telefones na sala de mediação deverão ser desligados, de modo a que não haja interrupções a partir do momento em que a reunião começa. Disposição das cadeiras As cadeiras devem ser dispostas a uma distância conveniente e orientadas para o centro. Os mediadores precisam de manter o mesmo contacto visual com ambas as partes sem terem de se virar dum lado para o outro, como um árbitro numa partida de ténis. Os participantes não deverão ser colocados em frente uns dos outros, já que essa disposição pode suscitar confrontos. Eles precisam de 126 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 126 conseguir olhar uns para os outros e para o mediador, sem se sentarem nem uns ao lado dos outros, nem uns em frente aos outros. Na primeira reunião é importante estabelecer o relacionamento e ajudar ambas as partes a sentirem-se à vontade. Sentar-se à volta duma mesa tanto tem um significado simbólico como um significado prático. Alguns clientes sentem-se vulneráveis sem uma mesa, e de qualquer modo, quando há papéis de natureza financeira para analisar, uma mesa é imprescindível. Mesas redondas ou ovais são muito mais convenientes do que mesas rectangulares. Mediador único Problemas de género Com um único mediador, há um desequilíbrio de sexos, salvo se a mediação tiver lugar com um casal homossexual. Os problemas de desequilíbrio de sexos são inerentes às mediações tal como uma corrente eléctrica. Os mediadores têm de ter muito cuidado para não formular hipóteses com base nos sexos. Os filhos poderão estar a viver com o pai – ou com um dos avós – e o pedido do pai para residência, ou pelo menos para um poder paternal partilhado, pode ser a questão principal. Qualquer hipótese não considerada por parte do mediador pode destruir a confiança na sua imparcialidade. Normalmente é útil referir-se a qualquer desequilíbrio de sexos na sala, fazendo notar que os mediadores estão acostumados a olhar para as situações segundo pontos de vista diversos. Os problemas da diferença de sexos podem estar ligados com o desequilíbrio de poderes na mediação (ver Cap. 7). O participante do mesmo sexo do mediador não vê necessariamente essa coincidência como uma vantagem. Muitas vezes essa parte receia que o mediador seja “seduzido” pela outra parte. Em co-mediação, as 127 João Susana Mediador Discussão à volta da mesa Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 127 desigualdades de sexo são compensadas pelo recurso a mediadores de sexos opostos. Os co-mediadores homem-mulher são especialmente úteis quando osproblemas da diferença de sexo são muito significativos, mas na prática pode ser impossível recorrer a este modelo de co-mediação. Estruturação do processo de mediação A mediação familiar ajuda casais em vias de separação e os seus filhos a gerir a difícil transição duma estrutura familiar para outra. Normalmente trata-se dum período de grande tensão, envolvendo mudanças a muitos níveis. A explicação das diversas fases do processo pode ajudar a capacitar os clientes e a reduzir as suas ansiedades. A criação duma estrutura para o processo oferece um mecanismo disciplinador de emoções que poderiam ser incontroláveis. Frequentemente a primeira sessão é volátil. Por mais fortes que sejam os sentimentos e os receios expressos, os mediadores devem mostrar que são capazes de os manter dentro de limites seguros de local, tempo e compreensão. As fases do processo não precisam de ser seguidas segundo uma sequência rígida: pode ser preciso fazer antecipações ou recuos duma maneira flexível, para ir ao encontro das necessidades à medida que elas se apresentam. Fundamentalmente, uma estrutura ajuda um mediador a conter e a gerir necessidades e emoções conflituais sem se aventurar por atalhos que não conduzem a nada. Uma estrutura básica incluiria as seguintes fases: 1 Comprometer as partes no processo da mediação 2 Explicar as finalidades e o processo 3 Acordar o agendamento das sessões mediação 4 Recolher e partilhar informação 5 Examinar as necessidades e as opções 6 Negociar no âmbito das opções preferidas 7 Elaborar termos possíveis para um acordo 128 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 128 Uma abordagem evolutiva pode ser preferível a trabalhar por etapas, mas é importante ter uma compreensão das diversas tarefas e da fase em que cada parte se encontra. Comprometer ambas as partes, reuniões de lançamento e triagem Comprometer ambas as partes duma forma equilibrada, fazer a triagem para avaliar a adequação da mediação, obter o seu consentimento consciente e construir uma relação com ambas as partes, constituem a primeira fase da mediação. As aptidões para mediação são necessárias desde o princípio, quando se lida com a recolha de informações e eventual recurso a serviços externos, de modo a maximizar as oportunidades de mediação e a comprometer ambas as partes num cuidadoso caminho imparcial. Um participante dominador terá esperança de levar o outro a aceitar um acordo rápido, ao passo que a parte mais fraca espera por seu lado conseguir o apoio do mediador. Nomes e apresentações Os mediadores deverão ter cuidado para acolher cada cliente duma maneira calorosa e amistosa. Sorrir é importante. Dependendo do que for culturalmente apropriado, os mediadores podem perguntar aos seus clientes se preferem usar os apelidos ou os nomes próprios. Se preferirem os nomes próprios, o que normalmente acontece, isso deverá ser também aplicado ao mediador. Muitos mediadores começam com algumas observações introdutórias para realçar os objectivos positivos da mediação e para ajudar as pessoas a sentirem-se à vontade. Ainda que haja clientes que estejam demasiadamente preocupados para absorver o que foi dito, isto proporciona-lhes alguns momentos para assentar e controlar o impacte de estarem juntos na mesma sala. A introdução do mediador não deve ser extensa, porque as partes estão normalmente preocupadas em conseguir avançar e conscientes de que o tempo se pode estar a esgotar. Habitualmente o mediador agradece aos participantes terem vindo e reconhece que o estarem presentes talvez não tenha sido fácil para eles. É importante reconhecer o esforço que fizeram para participar na mediação, desde que isso não seja dito com ar protector. Eventualmente, os mediadores terão de explicar o seu papel com maior detalhe, para terem a certeza de que tudo está claro. “Penso que já perceberam que não posso tomar partido por nenhum dos lados e que não posso tomar decisões no vosso lugar. Tento ajudar ambos a 129 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 129 esclarecer o que é preciso ser trabalhado entre vocês, a recolher a informação necessária e a encontrar pistas convosco. Vocês talvez queiram discutir as soluções em relação aos vossos filhos e analisar o que os dois julgam que seria melhor para eles.” O Consentimento da Mediação Os participantes precisam de perceber e aceitar os termos e as condições em que a mediação se realiza, antes do processo começar de facto. Esses termos e condições devem ser explicados na fase inicial e expostos num documento escrito que descreva numa linguagem clara a finalidade e os princípios da mediação, o papel do mediador, o compromisso de fornecer toda a informação financeira, a natureza e os limites da confidencialidade acordada, a necessidade dum parecer jurídico independente e pormenores sobre os encargos da mediação, se aplicável. O mediador deve verificar se os participantes compreendem os termos e as condições e pedir-lhes então para assinar o documento, como prova de aceitação. O mediador guarda uma cópia assinada pelos dois. Isto também ajuda a proteger o mediador no caso de qualquer dúvida posterior. Confidencialidade Excepto nos casos em que uma criança ou um adulto estejam em risco dum perigo significativo, as conversas que se realizam durante a mediação são confidenciais. Os participantes são encorajados a apresentar sugestões e propostas, sem que elas os comprometam, ou possam ser usadas contra eles em tribunal se o litígio for para a frente. Na maior parte das jurisdições, em que a confidencialidade da mediação é reconhecida pela lei, o conteúdo das discussões da mediação só pode ser invocado no tribunal se ambas as partes estiverem de acordo. É extremamente raro que ambas as partes decidam prescindir do seu privilégio e que portanto as discussões da mediação possam ser reveladas no tribunal. Contudo sabe-se que isso já aconteceu. Também se pede às partes que confirmem que não chamarão o mediador como testemunha em processos judicias. Dum modo geral não é preciso examinar exaustivamente com os pais ou outros adultos as excepções que se aplicam quando uma criança estiver ou se julga estar em risco, desde que eles saibam por informação escrita ou verbal que a confidencialidade da mediação não é absoluta. Se se fizerem alegações ou se se levantarem questões sobre uma criança em risco, o mediador deve 130 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 130 certificar-se que o órgão apropriado de protecção da criança é contactado sem qualquer demora. Na prática, é mais provável que o tribunal peça uma avaliação de bem-estar, a efectuar por um assistente social, do que chame o mediador para testemunhar. Recolha de informação financeira e patrimonial Nas mediações que envolvem questões financeiras é pedido a cada cliente para preencher um formulário ou questionário, com documentação de apoio. No Reino Unido esta informação, baseada em dados objectivos, surge na mediação mediante o pressuposto (estabelecido no Termo de Consentimento de Mediação) de que cada um dos participantes concorda em fornecer informações factuais completas e abertas sobre as suas finanças, no processo da mediação, de modo que a informação que é recolhida possa ser analisada com o seu advogado e, se necessário, apresentada em tribunal para facilitar o processo judicial e para evitar a necessidade dos advogados duplicarem o processo de recolha de informação. Contudo, as discussões que têm lugar durante a mediação são legalmente privilegiadas, o que significa que o seu conteúdo não pode ser revelado em tribunal. Se na mediação forem aceites questões financeiras e imobiliárias, ambas as partes têm de estar dispostas a fornecer informação completa sobre a sua situação financeira. Asua disponibilidade para colaborar com o mediador é essencial, mesmo que não haja colaboração entre as próprias partes nesta fase. Desde o primeiro contacto com cada parte, os mediadores familiares precisam de criar motivação e comunicação, explicando o processo de mediação e os benefícios de atingir termos mutuamente aceitáveis para um acordo. Ao assinarem o Termo de Consentimento da Mediação, ambas as partes confirmam estar dispostas a fornecer informação financeira completa e cópias dos documentos necessários. Têm que estar cientes de que, se no decurso do processo houver uma ordem do tribunal elaborada com consentimento mútuo e se mais tarde se souber que uma das partes não deu informação completa sobre a sua situação financeira, a outra parte pode requerer que a ordem seja anulada e que o caso seja reconsiderado pelo tribunal. O tribunal pode condenar a parte que omitiu informação ao pagamento das custas. 131 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 131 Dificuldades habituais no início 1. Inquietações e receios Muitos clientes resistem à mediação porque receiam ser esmagados por um parceiro dominador. Outros ficam perplexos com os aspectos financeiros. Os mediadores com uma formação de terapeutas podem não ter também o costume de analisar informação financeira. Os mediadores precisam de mostrar empatia e estabelecer comunicação entre as partes. Indivíduos cujo amor-próprio foi destruído pela ruptura e que talvez nunca tenham lidado com assuntos financeiros precisam de encorajamento contínuo por parte do mediador para encetar tarefas ao seu alcance. Talvez seja útil usar uma abordagem faseada na qual o processo de mediação é dividido numa série de fases, visto que isso ajuda as pessoas nervosas e perturbadas a darem um passo de cada vez e a ganharem desse modo autoconfiança. Alguns clientes estão ansiosos porque põem em dúvida a sua capacidade de julgar se a informação fornecida pela outra parte é correcta e completa. Os mediadores devem tranquilizá-los de que podem abordar o seu consultor jurídico antes de chegarem a qualquer conclusão. 2. Confusão Os mediadores precisam de observar as expressões faciais e a linguagem corporal. Se alguém parece preocupado, o mediador pode dizer: “Maria, parece perturbada … há qualquer coisa que não esteja clara?”. Os participantes ficam muitas vezes aliviados por verem que os mediadores também ficam confusos. Se os mediadores admitirem estar confusos, isso ajuda a criar uma atmosfera mais distendida na qual os participantes se sentem à vontade para perguntar ao mediador ou à outra parte para explicar melhor qualquer coisa, sem receio de parecerem estúpidos. 3. Desconfiança Quando as relações se desfazem é também normal que aconteça o mesmo à confiança. Pode acontecer que nunca tenha havido qualquer confiança, ou que a confiança tenha desaparecido nalgumas áreas, mas não em relação aos filhos. É importante para os mediadores reconhecerem e normalizarem a perda de confiança quando a relação foi desfeita. Isto é mais útil do que forçar casais desavindos a terem confiança um no outro. Os mediadores sabem que não podem fazer isso. Um mediador que força a confiança será visto como um ingénuo e portanto não digno 132 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 132 dela. Por outro lado, os mediadores deveriam ter cuidado para se manterem imparciais e para não sugerirem de maneira nenhuma que a falta de confiança duma das partes na outra é justificada. O reconhecimento da falta ou ausência de confiança pode ser um dado, sem significar que um dos dois não é fiável. Ambas as partes precisam de garantias de que não é suposto chegarem a acordo com base em números incompletos ou informação duvidosa. Ambas vão precisar de fornecer os documentos de suporte que um tribunal exigiria, se o litígio para lá transitasse. Uma parte em quem não se acredita não é necessariamente desonesta. Muitas pessoas que recorrem à mediação recusaram previamente fornecer informação ao seu parceiro, por vezes durante todo o período da sua relação. Isto pode ter acontecido por um certo número de razões. Por vezes um dos parceiros desejou dominar o outro. O conhecimento é uma forma de poder, e por isso a recusa de informação é uma maneira de manter o controlo. Por vezes um parceiro manifesta uma agressividade activa ou passiva escondendo informação porque desconfia da maneira como essa informação foi pedida pelo outro parceiro ou pelo seu advogado. Assim, quando o mediador solicitar de uma forma diferente, é possível que a resposta varie. Algumas pessoas pensam que a mediação é uma opção frágil, comparada com o recurso a advogados ou com a ida a um tribunal. Podem pensar que são capazes de escapar sem dar a informação completa. Talvez não saibam que lhes serão pedidos documentos comprovativos. Obter uma informação financeira completa é tão importante na mediação como num processo jurídico tradicional. Os mediadores familiares precisam de explicar porque razão uma abertura financeira total é necessária e como a informação fornecida por ambas as partes pode ser usada, durante e depois da mediação. As dúvidas iniciais duma das partes sobre se a outra parte vai “dizer a verdade” podem ser esclarecidas dizendo: “Bem, vamos ver antes de mais nada que informação cada um de vocês prestou. As pessoas ficam por vezes surpreendidas pela quantidade de informação que este formulário exige. Nós também precisamos de documentos comprovativos com valores actualizados que sejam aceites por ambos. Os vossos advogados também podem ver estes documentos. Logo que tenhamos chegado tão longe quanto possível na mediação, eu poderei fornecer-vos a ambos um resumo escrito abrangendo toda a informação que reunimos, incluindo cópias dos documentos de apoio. O vosso advogado pode olhar para isto e ver se é necessário mais alguma informação”. 133 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 133 A maioria das pessoas está disposta a aceitar este procedimento, sentindo-se possivelmente mais esperançada de que será possível obter informação, mesmo que ainda sinta uma certa ansiedade. Recolher informação completa é um processo de passo-a-passo. Informação adicional para preencher falhas pode ser pensada ao planear o que é preciso fazer para a próxima sessão. Os mediadores têm de observar as reacções e a linguagem do corpo de cada parte, enquanto continuam a fazer perguntas duma maneira não ameaçadora. Uma das partes pode estar com medo de fazer perguntas sobre os números apresentados pela outra. Os mediadores precisam de ser suficientemente firmes e claros sobre a informação que é pretendida e sobre quaisquer discrepâncias que apareçam. Definir e clarificar as questões para a mediação Alguns mediadores convidam cada parte a explicar o que a traz à mediação. Acredita-se que ao dar a cada uma esta oportunidade de falar livremente, cada uma se sentirá ouvida e o mediador poderá perceber as questões. Contudo, há riscos de que o participante mais poderoso tome conta da palavra e que seja difícil conseguir calá-lo. Em alternativa, pode-se tentar fazer perguntas pertinentes a cada um dos participantes em alternância para esclarecer a informação, os assuntos que cada um deles precisa de resolver e o grau de urgência ou prioridade que eles pretendem dar a cada questão. Os casais estão frequentemente tão preocupados com as suas divergências que se esquecem dos pontos em que estão de acordo. É importante tratar das questões principais duma forma sistemática, verificando aquelas sobre as quais há acordo e notando as outras sobre as quais não há acordo. Quem fala primeiro? A sequência segundo a qual as perguntas são apresentadas a cada participante deve ser alternada, de modo que nenhum deles esteja invariavelmente na posiçãode responder ao que o outro acaba de dizer. No princípio pode ser aconselhável fazer a primeira pergunta à parte mais hesitante ou relutante, e não àquela que parece dominante ou mais confiante. O mediador deveria dar a ambos os participantes as mesmas oportunidades para explicar o seu ponto de vista e os seus sentimentos e registá-los tanto quanto possível duma forma equilibrada (Portanto, ambos vocês estão a sentir-se muito tensos … preocupados..?). O equilíbrio é muito importante para manter a imparcialidade do mediador e a gestão do processo. 134 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 134 Perceber os interesses e as preocupações A maneira como as perguntas são formuladas pelo mediador influencia a resposta que é dada (ver Cap. 4). É importante, em particular na fase inicial, que os mediadores escolham as perguntas apropriadas e que as formulem cuidadosamente. Listar as questões principais no expositor de dados É muito útil listar as questões principais numa linguagem neutra ou positiva no expositor de dados, visto que assim se mostra a ambos os participantes que foram ouvidos e cria-se um interesse comum. Se a lista dos assuntos sobre os quais já há acordo de princípio é mais extensa do que a dos assuntos sobre os quais ainda não há acordo, isso ajuda a apresentar os pontos de desacordo numa perspectiva mais ampla. O nível de urgência ou de prioridade deve ser tido em consideração quando se decide a ordem pela qual as perguntas vão ser apresentadas. Se houver recurso a um expositor de dados, convém usar cores diferentes ou asteriscos para pôr em evidência certas questões e para assinalar as urgências. A agenda e a ordem de prioridade são quase sempre de fácil consenso. Se houver assuntos que compitam entre si, o tempo concedido a cada um deve ser dividido igualmente. Em alternativa, o casal pode decidir discutir algumas questões durante a primeira reunião e as outras na reunião seguinte. O passo seguinte envolve considerar que informação adicional é precisa a fim de abordar correctamente as questões. Argumentos sobre quanto deve um dos progenitores pagar de apoio aos filhos podem ser antecipados dizendo: “No que se refere às vossas preocupações sobre o apoio aos filhos, precisamos em primeiro lugar de pormenores sobre os rendimentos e as despesas de cada um de vocês para termos uma visão mais clara de qual a receita que existe e de quanto somam os gastos. Só então poderemos considerar como é que vocês pensam que o rendimento disponível deveria ser dividido entre vocês os dois e os filhos”. Quando as prioridades tiverem sido identificadas e os passos seguintes merecerem acordo, os participantes deveriam terminar a primeira reunião com a sensação de que estão a trilhar um caminho que faz sentido. Não se deveriam ir embora sentindo-se frustrados ou confusos. Gestão do conflito O que acontece quando uma das partes está zangada? Do ponto de vista físico, há uma subida de adrenalina, o ritmo do coração acelera e a pressão sanguínea 135 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 135 aumenta. A respiração torna-se mais ofegante e os músculos ficam tensos. É difícil ouvir, quando um está zangado. As pessoas talvez tenham de exprimir alguma da sua zanga antes de serem capazes de ouvir. Os mediadores deverão reconhecer explicitamente a zanga em vez de tentar abafá-la: Compreendo que vocês os dois têm os nervos à flor da pele e estão de momento muito zangados”. Também pode ajudar fazer uma observação referindo que o sentir-se zangado numa situação destas é inteiramente natural e normal. Reconhecer a zanga e referir-se à mesma duma maneira pacificadora reduz a necessidade dos casais de manifestarem a zanga com afirmações agressivas e em voz alta. Os casais podem vir à mediação determinados a marcar tantos pontos quanto possível em relação ao outro. As tácticas de marcar pontos representam um teste à capacidade do mediador de ser firme. Pode ser preciso propor algumas regras básicas para manter as discussões sob algum controlo. Estas regras são normalmente aceites com alívio. É da responsabilidade do mediador assegurar-se de que as regras que foram aceites são respeitadas. Se se estabeleceu comunicação com os dois participantes desde o início, isso torna mais fácil a intervenção do mediador quando uma explosão de cólera dá sinais de se transformar numa longa discussão. O mediador deve intervir duma forma cordial, embora firme, de modo a que as regras básicas sejam mantidas e que cada participante tenha a possibilidade de falar, sabendo que o mediador controla os ataques e as interrupções. A marcação de pontos e os ataques verbais precisam de ser encurtados e o mediador tem de controlar qualquer linguagem ou comportamento abusivo. Se se quiser progredir na mediação, o mediador tem de acalmar as pessoas depois duma explosão de cólera, de modo a que possam reatar a mediação, apesar da sua desavença: “Eu sei que é muito difícil falar sobre a venda da casa, quando ela é o vosso lar e também o lar dos vossos filhos, e vocês estão ambos sob grande tensão. Mas poderemos olhar para que opções poderão existir e como é que elas funcionariam?”. A gestão do conflito não significa que se controlem ou evitem as explosões de cólera. Mais importante do que isso, há que fazer uso das afirmações positivas e repeti-las, para lhes dar mais ênfase: “Então Júlia, pensa que é importante que as crianças vejam o pai com regularidade..?”, “Assim, Estêvão, está a dizer que reconhece que a Júlia sempre apoiou a sua relação com os filhos?” (ver o capítulo precedente para a discussão da técnica de reenquadramento). 136 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 136 Os pais que discutem furiosamente a respeito dos filhos podem ficar surpreen- didos se o mediador lhes disser: “Olhem bem, posso perceber que estão ambos extremamente aborrecidos e zangados, mas o que me impressiona é perceber quanto os dois se preocupam com os vossos filhos. Nenhum de vocês arredou pé… A coisa mais triste é quando um dos pais desiste de manter o contacto com os filhos. Vocês os dois preocupam-se imenso com eles, mesmo que neste momento não concordem sobre o que seria melhor do ponto de vista deles e do vosso”. Os pais que estão a lutar um com o outro podem ficar admirados e sentir-se encorajados, caso o comentário do mediador soe a espontâneo e de modo algum paternalista. Pode-se recorrer a um reenquadramento, para passar da corrente de sentimentos da raiva mútua como esposos para as suas preocupações conjuntas como pais. Deverão as regras básicas ser definidas logo no início? Os mediadores nem sempre definem as regras básicas logo no princípio. Podem ter uma impressão inicial do nível do conflito e em determinadas condi- ções pode ser útil propor algumas regras básicas no começo. A maior parte dos participantes apreciará saber que há certas regras básicas, tais como: • Cada participante disporá de tempo para explicar a sua posição e as suas preocupações • Pede-se a cada pessoa para ouvir o outro, sem o interromper • O mediador perguntará a cada participante para indicar o que, na sua opinião, seria melhor para o futuro, desencorajando as queixas e recriminações sobre o passado • Ainda que se peça aos participantes para não se interromperem um ao outro, o mediador pode interrompê-los se necessário para manter a conversa no bom caminho. Talvez haja uma maneira de dizer isto que possa fazer sorrir: “Eu sei que parece injusto ter-vos pedido para não se interromperem um ao outro ao passo que eu tenho o direito de vos interromper. Se de facto eu vos vier a interromper – o que talvez não seja preciso – será apenas para nos ajudar a não nos desviarmos do assunto e para usar o nosso tempo da melhor maneira possível. O tempo voa, e porisso passamos imediatamente a …?” Prestação de informações pelos mediadores Os participantes pedem muitas vezes aos mediadores para lhes fornecerem 137 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 137 informações ou explicações – em particular sobre assuntos jurídicos e financeiros e sobre procedimentos de divórcio. Ao explicar a lei e os procedimentos jurídicos, é importante usar uma linguagem de todos os dias em vez de terminologia jurídica, e evitar prestar muitos pormenores. Os mediadores não devem expressar opiniões nem pareceres sobre posições. Se for preciso aconselhamento jurídico, as partes devem ser aconselhadas a consultar o seu conselheiro jurídico e ajudadas a identificar os assuntos que lhe devem apresentar. A experiência e o conhecimento do mediador constituem um recurso importante para as partes, por as ajudar a definir problemas relevantes de serem apresentados a consultores jurídicos ou financeiros. O aconselhamento jurídico deve ser prestado antes da mediação começar? Não é preciso que ambas as partes tenham obtido aconselhamento jurídico antes de se iniciar a mediação. Normalmente é-lhes sugerido obterem esse aconselhamento no decurso da mediação e quase sempre na sua fase final, excepto evidentemente nos casos em que houver uma reconciliação ou uma decisão de procurar tal aconselhamento. Alguns casais recorrem à mediação com a esperança de evitar advogados. Os mediadores devem explicar que um parecer jurídico independente é indispensável para se ter a certeza de que ambas as partes chegam a decisões totalmente informadas, antes de entrarem num acordo que se pode vir a tornar obrigatório dum ponto de vista legal. Aqueles que ainda não recorreram a aconselhamento legal poderão obter uma lista de consultores jurídicos nas suas áreas com experiência em trabalho de índole familiar e que conhecem o processo de mediação. Um número considerável de casais recorre à mediação numa fase inicial da separação, sem nenhum aconselhamento jurídico. Podem ter medo de ser ainda mais afastados se recorrerem a advogados diferentes, e esperam que a mediação lhes evite ou reduza os custos legais. Alguns participantes obtiveram aconselhamento jurídico preliminar e decidiram recorrer à mediação por terem ouvido falar dela pelo seu advogado. Muitos casais em Inglaterra e no País de Gales são orientados para a mediação pelos seus consultores jurídicos ou pelo tribunal. Os advogados são intermediários que têm uma influência considerável sobre o momento oportuno de recurso dos seus clientes à mediação e sobre a sua decisão de continuar na mediação. É muito importante que existam boas relações entre os mediadores e os consultores jurídicos. É de boa política que os mediadores enviem uma carta de cortesia aos consultores jurídicos, agradecendo o envio do caso ou 138 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 138 explicando que o seu cliente solicitou mediação. A carta deve explicar que o seu cliente se sentirá encorajado a procurar aconselhamento jurídico acerca de quaisquer propostas que resultem da mediação, ou ainda sobre quaisquer assuntos relevantes. Tarefas e experiência nas fases iniciais da mediação Tarefas Exemplo de utilização Objectivos Criar uma atmosfera de Acolhimento amigável Pôr as pessoas à vontade, convívio positiva permitindo-lhes dessa maneira entrarem em diálogo Explicar, informar “Posso explicar-vos como é Ajudar as pessoas a atingir que posso ajudar os dois a decisões em perfeito conhecimento tratarem deste assunto?” de causa e evitar serem forçadas a aceitar um acordo Perguntar Escolher a maneira de perguntar, Perceber melhor as questões a “como?”. “O quê?”, “se?” etc. debater, concentrar a atenção em vias para avançar Ouvir Contacto visual do mediador, Mostrar que se está a dar completa expressão facial, postura, atenção ao que está a ser dito tom de voz Compreender “Percebo que achem que Ajudar as pessoas a sentirem que é difícil....” estão a ser ouvidas e percebidas Esclarecer “Poderia dizer mais qualquer Verificar a compreensão e incentivar coisa sobre … explicar o que uma explicação mais ampla é que quer dizer com....” Gerir um conflito sem “Não se importa de deixar o Controlar as interrupções, equilibrar o suprimir Tomás acabar e então a discussão perguntarei…” Definir prioridades “Qual é o assunto mais Acordar o ordenamento dos assuntos importante para si, nesta altura?” Equilibrar Apresentar questões a cada Gerir desequilíbrios de forças, participante, um de cada vez manter imparcialidade Construir confiança “Pode tranquilizar a Célia Restaurar ou manter suficiente de que vai...” confiança de que se pode confiar na outra parte Controlar o ritmo “Deveríamos gastar mais tempo Trabalhar a um ritmo adequado sobre o problema que levantou ara ambas as partes a propósito de...?” Resumir “Deveríamos recapitular as Ser claro acerca dos próximos coisas de que cada um tem de passos e encorajar os participantes tratar antes da próxima reunião?” a responsabilizarem-se 139 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 139 Limitações dum modelo faseado Ainda que um modelo faseado de mediação seja amplamente aceite, ele tem também algumas limitações: • Poderá ser preciso voltar atrás, a uma fase anterior, por exemplo, onde haja relutância ou hesitação em seguir em frente. • Por vezes um casal beneficiará dum avanço rápido, quando ambos os parceiros querem seguir um projecto de acordo antes de considerarem outras opções possíveis. • O acordo talvez não seja o principal objectivo das partes. É possível que existam benefícios mais importantes, como por exemplo, estabelecer ou restabelecer a comunicação entre elas. • Os mediadores podem identificar as soluções mais concretas ou substantivas e evitar as soluções mais difíceis do ponto de vista emocional ou de relacionamento que actuem como bloqueadoras do progresso. • Um mediador que segue um modelo faseado pode conduzir o casal numa direcção que nenhum deles quer. Os medidores podem formular hipóteses e suposições sobre uma solução desejável e podem tentar orientar o casal nesse sentido. Pode acontecer que os participantes tenham necessidades que lhes custe exprimir se o mediador muda bruscamente duma fase para a seguinte. • Percorrer apenas parte do caminho é suficiente para alguns casais. Podem não estar preparados para ir mais à frente. Isto não representa uma “mediação falhada”. • As intervenções do mediador afectam tanto o conteúdo como o processo. Movimento circular em mediação Alguns casais caminham firmemente para a frente ao encontro duma solução mutuamente satisfatória. Outros parecem mais inclinados a permanecer no passado ou mesmo em recuar mais atrás. Podem ficar tão presos à sua relação falhada que precisam de continuar a repisar as feridas e os danos que sofreram. É muito mais complexo trabalhar com estes casais, o mediador tem que recorrer a todos os seus conhecimentos. Se conseguirem dar uns passos em frente, um susto real ou imaginário ou uma acusação é o suficiente para os atirar outra vez para trás. Os movimentos para trás e para a frente são muito comuns em mediação. Estes movimentos não são apenas lineares – muitas vezes são 140 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 140 circulares, seguem uma pista familiar circular (em ambos os sentidos da palavra). Verificam-se tendências para as discussões e acusações continuarem a andar à volta de si próprias sem se chegar a uma saída – o problema da roda da gaiola onde os ratos correm sem saírem do mesmo sítio. A formação dos mediadores deve servir para nos habilitar com uma gama de técnicas e estratégias de modo a que possamos ajudar as partes a sair da sua própria roda de hámster, quando elas assim o quiserem. O objectivo da mediaçãoconsiste em encorajar os membros da família a comunicarem uns com os outros, directa e construtivamente, sem precisarem de intermediário. Exemplo 1 António e Cristina – a primeira reunião de mediação Informação prévia prestada nos formulários de orientação Mulher Cristina, 34 anos Secretária (a tempo parcial) Marido António, 38 anos Gestor de marketing Filhos Rebeca, 11 anos Sofia, 9 anos Mateus, 6 anos Cristina e António estiveram casados doze anos. Separaram-se há um mês. Cristina continua a viver no apartamento familiar com as crianças. António deixou o lar há um mês e está a viver num apartamento alugado com a companheira Célia. O apartamento familiar está em nome dos dois e António ainda está a pagar uma hipoteca. Nem um nem outro possuem reservas ou outros bens significativos. Razões para recorrerem à mediação António escreveu no seu formulário de orientação: “É cada vez mais difícil discutir sobre assuntos económicos e sobre os filhos sem que os nossos sentimentos interfiram”. Por seu lado, Cristina escreveu no seu formulário: “Preciso saber qual é a minha situação financeira. As crianças estão perturbadas e aborrecidas por verem o pai ir e vir”. Ambos dizem que não têm a certeza de como resolver as coisas porque é difícil falarem. Os problemas que eles pretendem analisar incluem soluções para os filhos. Nomeadamente a relação do António com os filhos, pois tem tendência para ir e vir continuamente, e os filhos nunca sabem quando o voltarão a ver. 141 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 141 Dificuldades na primeira reunião com Cristina e António 1. A irritação e a aflição de Cristina. Sente-se muito abandonada por António e não tem a certeza de querer colaborar com ele depois da maneira como ele a abandonou a ela e aos filhos. Ela tem também a preocupação de poder não ser capaz de sobreviver financeiramente. 2. A zanga, os sentimentos de culpa e de perda de António, que acusa a Cristina por alguns dos problemas que levaram à ruptura do casamento. Receia que ela vire os filhos contra ele, por isso tem uma posição defensiva e acusa Cristina. 3. Discussão sobre as crianças. Cada um dos pais tem uma perspectiva diferente. 4. Célia, a companheira de António. A emoção aumenta sempre que o seu nome é mencionado. 5. Confusão financeira e ansiedade sobre o pagamento das contas. 6. Cada um dos parceiros está profundamente descontente sobre o que se passou entre eles. As opiniões sobre quem é o grande responsável estão misturadas com as preocupações sobre as crianças e os receios sobre o seu futuro. As tarefas do mediador na primeira reunião 1. Boas-vindas a ambos – apresentações – uso dos nomes próprios? 2. Verificação de que os princípios básicos da mediação são compreendidos e aceites, sem fazer uma revisão exaustiva de todos os pontos. Depois de se certificar de que ambos percebem e aceitam os termos e as condições da mediação, pede-lhes para assinarem o Termo de Consentimento da Mediação. 3. Identificação das questões. Mesmo quando o nível de conflitualidade é elevado há normalmente preocupações comuns. O reconhecimento das preocupações ajuda a manter a exaltação a um nível tratável. Os problemas e as questões principais podem ser listadas sob títulos que sejam semelhantes para ambos os participantes. Isto ajuda a mediação a começar. 4. É preciso estabelecer uma ordem de trabalhos: o que é que tem de ser discutido em primeiro lugar? Por que ordem devem as questões ser abordadas? 142 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 142 5. Quaisquer assuntos urgentes têm de ser abordados em primeiro lugar. Pode ser necessária a transferência para outros serviços. 6. Os arranjos financeiros são prioritários para cada um dos pais neste exemplo. A necessidade de informação financeira é analisada e é dado a cada uma das partes um formulário financeiro para ser levado para casa e preenchido. 7. Os últimos quinze minutos, aproximadamente, devem ser reservados para recapitular e resumir, acordando a data, a hora e o objectivo da reunião seguinte e para terminar meticulosamente a reunião. 8. Contacto entre as reuniões. Os mediadores devem explicar que normalmente não aceitam discussões separadas com uma das partes, tanto pessoal como pelo telefone, fora das reuniões de mediação. Chamadas telefónicas poderão ser aceites para alterar a data ou a hora da reunião seguinte, mas se possível alguém que não o mediador deve receber a chamada. Exemplo 2 Primeira reunião de mediação com Albano e Rosa Albano e Rosa estão nos seus cinquenta. São proprietários duma quinta na qual trabalharam em conjunto. Rosa deixou Albano há dois anos e vive com um novo parceiro. Têm dois filhos crescidos que trabalham e são independentes do ponto de vista financeiro. Na primeira reunião Albano está muito calmo, parece deprimido. O mediador tem de o manter envolvido na reunião fazendo-lhe perguntas directas, reconhe- cendo preocupações de ambas as partes e repetindo ou reenquadrando as suas respostas. Quando são colocadas perguntas genéricas duma forma indirecta, Rosa responde por ambos e Albano fica calado. Mantém os olhos baixos e não é fácil estabelecer contacto visual com ele. Não parece haver questões a curto prazo visto que este casal resolveu muito bem os seus problemas durante os últimos dois anos. Continuam a ter uma conta bancária conjunta. À primeira vista os problemas parecem ser basicamente de natureza financeira, resultantes do divórcio que Rosa pretende obter. Albano está extremamente relutante em falar de divórcio. 143 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 143 Dificuldades na primeira reunião com Albano e Rosa 1. Albano está muito afastado. Parece ter-se refugiado atrás duma parede de dor e de tristeza. Ainda tinha esperanças de que Rosa voltasse para ele. Pretende adiar o divórcio tanto quanto possível. 2. Rosa está impaciente e frustrada. Acha que assumiu uma atitude discreta para dar tempo a Albano para aceitar o facto de que ela o tinha deixado. Ela não pode esperar indefinidamente. 3. Albano receia que a quinta a que ele se sente profundamente ligado e da qual depende do ponto de vista financeiro tenha de ser vendida se Rosa insistir numa solução total e final. 4. Rosa está ressentida com o facto de que todo o trabalho que ela realizou durante muitos anos para aumentar a rentabilidade da quinta seja negado por Albano. Ela pretende “uma quota justa”. 5. Rosa é dogmática e fala alto. Albano está quase sempre calado. O mediador observa um episódio em que Rosa ataca verbalmente Albano: Albano recua ainda mais e Rosa, frustrada pela falta de resposta, ataca ainda mais veementemente. 6. Rosa tem um novo parceiro. Albano não tem. Manter o equilíbrio e o controlo enquanto se identificam e esclarecem as questões O uso cuidadoso da técnica de questionar ajudou a identificar e a listar as questões principais, sem que nenhuma das partes tomasse conta ou dominasse a sessão. Reconhecimento de preocupações, sentimentos e dificuldades Os sentimentos têm de ser reconhecidos duma forma explícita … “Vocês os dois estão-se a sentir muito irritados nesta ocasião” … “É muito difícil fazer face ao desânimo dos filhos e ao vosso ao mesmo tempo…”. Albano e Rosa encontravam- se em fases muito diferentes a nível da ruptura. O mediador comentou que o facto deles não conseguirem sentar-se e conversar entre si dificultava muito a chegada a decisões consensuais. Ambos concordaram que a falta de comunicação era um dos principais problemas. A mediação procura facilitar a comunicação directa e centrada sobre um objectivo positivo. 144 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 144 Reenquadramento e mutualização A mutualização diz respeito a ajudas parareduzir a culpabilização. Devem-se fazer frequentes referências às intenções e aos objectivos partilhados pelos pais. As disputas a propósito do apoio aos filhos podem ser reequacionadas como preocupações sobre a segurança futura. As discussões acaloradas sobre questões financeiras podem tornar-se mais calmas se o mediador sublinhar a necessidade de procurar caminhos que garantam segurança para ambos os parceiros tanto a curto como a longo prazo. Arranjos provisórios Na reunião com António e Cristina, o mediador pôs o acento tónico sobre os filhos e sobre questões a curto prazo, fazendo uso duma combinação de per- guntas, reconhecimentos e reenquadramentos (ver Cap. 4). Era importante refrear o ritmo da discussão e também manter a atenção nas questões a curto prazo. O mediador ajudou António e Cristina a encontrarem soluções provisórias fiáveis para os ajudar a eles e aos filhos durante algumas semanas. As soluções financeiras a curto prazo foram esclarecidas e registadas por escrito. Isto proporcionou uma ponte ou plataforma sobre a qual foi possível construir planos a longo prazo. Conflito sobre o envolvimento dum novo parceiro O envolvimento da parceira do António, Célia foi mantido de lado durante a primeira reunião como uma preocupação secundária. O mediador ajudou António e Cristina a concentrarem-se sobre a forma em que, como pais, poderiam tranquilizar e apoiar os filhos a curto prazo. Foi sugerido que poderia haver uma discussão adicional numa futura reunião sobre o papel de Célia e a extensão do seu envolvimento com as crianças. Cristina aceitou esta sugestão. No caso do exemplo 2, Albano estava incomodado pelo facto de, apesar de Rosa ter um novo companheiro para a apoiar, ela continuasse a tentar arruiná-lo. Rosa retorquiu que o seu novo parceiro não a poderia apoiar visto que tinha entregue todo o seu capital à sua ex-mulher no acerto do divórcio entre ambos. Albano pareceu ainda mais desolado com esta afirmação. O mediador interveio para dizer que, qualquer que fosse o acordo a que chegassem Albano e Rosa, o mesmo teria de ser baseado na plena consideração das suas respectivas 145 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 145 necessidades e dos seus planos para o futuro. O envolvimento dum novo parceiro de qualquer uma das partes seria um factor a ter em consideração. Mas, em primeiro lugar, seria preciso identificar entre outros os seus bens, as suas responsabilidades financeiras e os seus custos de vida. O humor não será conveniente? Normalmente não se pensaria que o humor fosse conveniente, especialmente no princípio do processo. Contudo é surpreendente a frequência com que, mesmo quando as pessoas estão deprimidas, aparece uma réstia de humor. Rosa não parecia ter muito sentido de humor, mas quando Albano sorriu ela ficou nitidamente menos irritada. O mediador entendeu, ao trabalhar com este casal muito obstinado, que o recurso ao humor duma maneira muito suave e cuidadosa era importante para abrir um canal de comunicação mais seguro entre eles. Manter o compromisso e o ritmo adquiridos O compromisso de ambas as partes aceitarem a mediação foi conseguido mediante um acordo sobre os passos seguintes a serem trilhados, tais como a recolha de informação sobre os meios financeiros para explorar opções possíveis para ambos. Nos dois casos foram distribuídos formulários financeiros com discussão dos prazos para o seu preenchimento, discussão dos documentos de apoio que necessitariam e de quem os forneceria. Foi combinada uma data para a sua entrega, uns dias antes da data da próxima reunião. O mediador comentou no fim das duas reuniões que, ainda que o trabalho tivesse sido muito duro e tenso para ambos os participantes, tinha sido possível percorrer um longo caminho duma forma muito construtiva. Tinha havido muitas mais explicações e debates do que teria acontecido por troca de cartas entre consultores jurídicos. Pode ser também útil verificar se o ritmo da reunião terá sido o adequado para ambos os participantes. Horário e duração das sessões Uma hora e meia é normalmente a duração correcta. Uma hora apenas é normalmente uma duração muito curta para cobrir o programa inicial. Duas horas de discussões sobre impostos são demasiadamente longas para o comum das pessoas, incluindo o mediador. Os mediadores têm de estar extremamente conscientes do tempo e deveriam ter um relógio no seu campo de visão para 146 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 146 evitarem olhares furtivos ao seu próprio relógio. Poderá ser necessário chamar a atenção para o correr do tempo, dizendo: “Vejo que já gastámos metade do tempo previsto para a nossa reunião de hoje. Acham que deveríamos passar à frente e tratar de …?” ou “Estou consciente de que já estamos atrasados na reunião de hoje e por isso sugiro que usemos o último quarto de hora para uma rápida recapitulação do que tratámos e que vejamos se gostariam de organizar outra reunião.”. É muito melhor averiguar se ambas as partes querem continuar a mediação do que considerar isso como um dado adquirido. Se houver dúvidas, pode-se marcar uma reunião provisoriamente, devendo a decisão ser confirmada ou anulada por um contacto telefónico que deverá ser feito na data que ficar escolhida para esse fim. Além de organizar a reunião seguinte, o mediador poderá ter de tratar de assuntos práticos que digam respeito ao pagamento dos honorários ou outros serviços, dependendo da forma combinada para pagar a mediação. Seria insensato perguntar nos últimos cinco minutos: “Há mais qualquer coisa que gostassem de tratar hoje?”. Deve-se evitar prolongar a sessão, mesmo que isso seja possível, porque as pessoas precisam de saber a duração da sessão e que o tempo acordado será respeitado. É muito fácil continuar por mais meia hora, ou mesmo mais, mas, salvo se houver razões muito fortes para o fazer, há que evitar esses prolongamentos porque as fronteiras do tempo têm uma importância tanto simbólica como prática. Há quase sempre problemas deixados no ar. O mediador pode dizer: “Sim, é importante que você tenha falado nisso, e parece que o assunto precisa de ser amplamente discutido, mas infelizmente já não temos tempo hoje para o fazer. Acham que devemos começar com este ponto na próxima reunião, caso ambos considerem que ele é prioritário?” ou “Compreendo que hoje não tivemos tempo para tratar de tudo o que lhe diz respeito. Se houver pontos que ainda não tenha tido tempo de apresentar, ou de que se venha a lembrar quando estiver em casa, poderá por favor tomar nota dos mesmos para os poder levantar durante a nossa próxima reunião?”. Isto ajuda a terminar a sessão sem que as pessoas se sintam frustradas. Também as anima a reflectir e a continuar o trabalho entre as sessões. Muitas pessoas vêm para a segunda reunião tendo reflectido imenso. A atmosfera na segunda reunião é muitas vezes surpreendentemente diferente da primeira reunião. A data e a hora da sessão seguinte têm de ser acordadas com ambos os participantes antes deles se retirarem. Um intervalo de duas a três 147 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 147 semanas é normal. Se houver uma grande quantidade de informação financeira para recolher, talvez seja necessário prever um mês, para dispor de bastante tempo. Se, pelo contrário, o casal estiver em crise e se o nível do conflito for elevado, marcar a reunião para a semana seguinte pode ajudá-los a controlar a crise. 148 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 148 Capítulo VI CRIANÇAS, ADOLESCENTES E MEDIAÇÃO FAMILIAR Reacções dos filhos à separação e ao divórcio O período mais angustiante para os filhos não é normalmente o do divórcio mas o da separação dos pais. A comunicação entre os pais é quebrada frequentementequando se separam e os filhos podem não perceber o que se passa. Ficam confusos e assustados. Filhos pequenos imaginam muitas vezes que é por sua culpa que um dos pais se foi embora de casa. Alguns estudos mostraram que só menos de metade dos filhos de casais separados ou divorciados mantinham contacto com o progenitor com quem não moravam. Metade dessas crianças nem sequer sabia onde é que esse progenitor – normalmente o pai – vivia. Por comparação com os filhos de famílias intactas, os filhos que passaram pela experiência da separação ou do divórcio dos pais eram mais atreitos a ter problemas de saúde (especialmente de desordens psicossomáticas), precisavam de mais ajuda extra na escola, tinham mais dificuldade em fazer amigos e a sua auto- estima era muito reduzida. As consequências a longo prazo da separação e do divórcio não são inevitavelmente desastrosas para os filhos. O que é mais importante é a maneira como os pais conduzem a separação e como explicam as mudanças aos filhos. Os conflitos prolongados entre os pais e a intensidade de sofrimentos físicos sentidos pelos filhos são factores significativos. Os pais admitem com frequência que sabem pouco sobre o processo de divórcio e sobre como organizar as funções paternais no pós-divórcio. Muitos deles estão conscientes da sua capacidade reduzida para comunicar com os outros e para tomar decisões sensatas durante as fases iniciais da separação, quando estavam sob uma grande tensão. Quando pais divorciados são capazes de colaborar um com o outro para manterem uma paternidade conjunta, a adaptação dos filhos ao divórcio é muito facilitada. 149 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 149 Em geral os adultos subestimam a capacidade dos filhos de perceber emoções e relacionamentos. Os pais que pensam que um filho é muito novo para perceber o que está a acontecer estão no fundo a procurar protegerem-se a si próprios e não ao filho. Ainda que as reacções do filho à separação não correspondam necessariamente à sua idade cronológica, é importante para os que trabalham com os pais terem conhecimentos do desenvolvimento da criança e do adolescente. Também é importante procurar compreender a personalidade individual de cada filho e a cultura, história e circunstâncias familiares. Quando as crianças se debatem e não têm apoio suficiente, manifestam muitas vezes a sua angústia por actos e não por palavras. A maneira como mostram os seus sentimentos pode causar dificuldades adicionais porque o seu comportamento pode ser interpretado de forma diferente por cada progenitor. Cada um deles pode acusar o outro de ser o causador do problema. O resumo que se segue lista as reacções comuns das crianças conforme um estudo feito na Califórnia. Wallesrtein e Kelly (1980) realizaram esse estudo em sessenta famílias em vias de divórcio. Havia 131 crianças no grupo em estudo, que foram observadas durante um período de cinco anos. Este grupo de estudo não era representativo de famílias divorciadas em geral e nem todas as crianças mostraram estas reacções. Uma grande parte depende da forma como cada pai gere a separação e da forma como os pais a conduzem no que diz respeito aos filhos. Crianças em idade pré-escolar: 2 a 5 anos de idade • Confusão, ansiedade e medo: as crianças estão muito confusas e inseguras sobre as mudanças na sua vida de família, porque os seus próprios pais estão frequentemente inseguros sobre como explicar a crianças desta idade o que está a acontecer. • Fortes fantasias de reconciliação: as crianças agarram-se à esperança que os seus pais vão voltar a estar juntos outra vez e inventam fantasias para se confortarem a si próprias • Aumento da agressividade: a ira das crianças provém muitas vezes dos seus sentimentos de perda e rejeição. O seu sentimento de perda quando um dos pais desaparece das suas vidas, muitas vezes de forma inexplicável, pode conduzir a um comportamento agressivo para com irmãos, pais e na escola. O progenitor que permanece pode estar tão preocupado que a criança também recebe menos atenção por parte dele, aumentando assim o seu sentimento de perda e rejeição. 150 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 150 • Sentimentos de culpa: as crianças por vezes imaginam que devem ter culpa por os seus pais não se darem um com o outro. Podem convencer-se de que a sua maldade foi a razão para um dos pais as ter deixado. • Regressão: as crianças podem manifestar a sua ansiedade e insegurança por recaídas na prática da higiene, voltando a urinar na cama, e mostrando um comportamento mais possessivo. • Medos acrescidos – por exemplo, do escuro – ou manifestação de problemas alimentares. Pais que já estejam cansados podem achar estes problemas de comportamento muito difíceis de perceber e tolerar. Ensino primário: 5 a 7 anos de idade • Tristeza e aflição: podem estar relacionadas com a confusão que aconteceu em sua casa, embora hajam crianças que estão profundamente tristes mesmo quando os pais não o estão. • Saudades de um progenitor ausente: dor semelhante à causada pela morte de um dos pais, mas com sentimentos de rejeição mais fortes. • Sentimentos de abandono e medo: a criança tem por vezes receio de ser esquecida e de perder também o progenitor que ficou. • Raiva: as crianças muitas vezes manifestam raiva pelo progenitor que é em sua opinião responsável pela ruptura. • Conflito de lealdade: a criança sente-se apanhada entre os pais e não sabe como pode ser leal com ambos. • Receio da incapacidade dos pais para se adaptarem: quanto mais a criança sentir que os pais têm dificuldades para fazer frente à separação, mais a criança fica receosa de que o progenitor em quem confia já não venha a ser capaz de cuidar dela. • Fantasias de reconciliação. Ensino preparatório: 8 a 12 anos de idade • As crianças nesta faixa etária conhecem melhor as causas e consequências do divórcio e é natural que tomem partido nos conflitos dos pais. • Sentimentos profundos de perda, rejeição, abandono e solidão. • Sentimentos de vergonha, indignação moral e ofensa em relação ao comportamento dos pais. • Irritação extrema, acessos de nervos, comportamento exigente. 151 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 151 • Receios, fobias e recusas. • Crescentes queixas do foro psicossomático: dores de cabeça, dores de estômago, insónias. • Fazer juízos: identificar um dos pais como o progenitor bom e o outro como o progenitor mau: rejeição do “progenitor mau”. • Aliar-se a um dos pais – não necessariamente àquele a que é mais chegado. • Auto-estima diminuída: a criança pode ter dificuldade em se concentrar na escola e começar a ter um rendimento escolar inferior. • Expressão pública: algumas crianças, especialmente rapazes, expressam de forma mais exagerada o seu mal-estar e podem vir a envolver-se em comportamentos de delinquência. Adolescentes: 13 a 18 anos de idade • Perda da infância: os filhos mais crescidos podem estar sobrecarregados com a acrescida responsabilidade para com os irmãos mais novos e pelas solicitações dum dos pais mais emocionalmente dependente. • Pressão para fazer escolhas: alguns pais esperam que os filhos mais crescidos tomem a sua própria decisão sobre as visitas ao outro progenitor ou sobre com qual dos pais viver. • Conflito entre a vontade de visitar um dos pais ausente e a vontade de não falhar encontros com o seu grupo de amigos. • Receios do foro monetário: melindrados por poderem vir a receber menos do que os seus amigos, pressão sobre os pais para os compensar pelo divórcio dando-lhes mais do ponto de vista material. • Consciência acrescida e desconforto sobre o comportamento sexual dos pais e do envolvimento deles com novos parceiros. • Ciúmes do novo parceiro dum dos pais.• Receio de criar relações de longa duração e de confiar nas pessoas. • Depressão: afastamento, recusa de comunicação. • Delinquência: roubo, consumo de drogas. Jovens adultos: mais de 18 anos de idade Muitas vezes os jovens adultos ficam de fora das discussões, na presunção de que já são financeiramente independentes e menos afectados pela separação dos pais do que ficariam os filhos mais novos. Qualquer destas suposições pode ser 152 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 152 falsa. Os filhos estudantes em cursos superiores ainda precisam dum lar para se apoiarem e podem ainda depender financeiramente dos pais. Igualmente importante é que muitos filhos mais velhos preocupam-se imenso com os pais e alguns estão profundamente envolvidos dum ponto de vista emocional nos problemas parentais. Alguns pais dependem fortemente dos filhos mais velhos – e também dos mais novos – para apoio emocional e para ajuda prática. Os papéis dos pais estão por vezes invertidos. Um filho pode aceitar conscientemente a responsabilidade de tomar conta de um dos pais que não está bem ou que está incapaz de funcionar correctamente. Cuidar dum pai emocionalmente dependente é uma carga enorme para um filho. Pode ser muito difícil para filhos sensíveis e conscientes libertarem- se deste encargo e continuarem a viver as suas próprias vidas. Necessidades dos filhos durante a separação e o divórcio • Ajuda para perceberem o que está a acontecer, com explicações adequadas de acordo com a sua idade e compreensão, e garantia de que continuarão a ser amados e de que continuarão a tomar conta deles. • Manter as suas ligações e relacionamentos com ambos os pais e com outras pessoas importantes nas suas vidas. • Garantia de que não são de modo algum responsáveis pela ruptura. • Permissão emocional de cada um dos pais para continuar a amar o outro pai. • A menos que haja contra-indicações envolvendo riscos ou perigos imediatos para os filhos, manter contactos regulares e seguros com o progenitor que abandonou o lar, incluindo noites inteiras e feriados. Muitos trabalhos de pesquisa mostraram como é importante para os filhos continuarem a ter dois pais que se preocupam com eles e que são capazes de colaborar um com o outro quando os filhos estão em causa. • Quando o seu mundo familiar está em mudança, os filhos beneficiam de atenção e carinho extra, em especial à hora de irem para a cama. • Se possível, os filhos devem permanecer em ambientes familiares. Ainda que uma mudança seja frequentemente inevitável e por vezes bem-vinda, a maior parte das crianças está tão agarrada à casa como aos pais. A perturbação causada pela mudança de casa e pela mudança de escola 153 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 153 aumenta a sua confusão e tensão e faz parte da perda que sentem. • Os filhos são ajudados se a sua própria rotina diária for mantida tanto quanto possível – tanto na escola como no lar. • Apoio económico, evitando se possível uma queda brusca do estilo de vida. • Pais que possam tomar medidas e fazer esquemas cuidadosos sem envolverem demasiadamente os filhos ou sem os usarem para apoio emocional. • Saber que cada um dos pais é ainda capaz de reagir, mesmo que já não vivam em conjunto. • Pais que ainda podem brincar e divertir-se com eles. Os filhos têm que passar por processos psicológicas complexas para se ajustarem à separação e divórcio dos pais. Wallerstein (1983) definiu assim essas tarefas: 1. Reconhecerem a ruptura na relação dos pais. 2. Desligarem-se do conflito e do desânimo dos pais e retomarem as suas actividades habituais. 3. Adaptarem-se à perda. 4. Resolverem os seus próprios sentimentos de angústia e de auto- culpabilização. 5. Aceitarem a continuidade da separação ou do divórcio. 6. Alcançar esperanças realistas de relações dignas de confiança. Reformar a lei – da simples custódia à responsabilidade paternal conjunta No passado era costume tratar os filhos como propriedade dos pais. As leis do divórcio em muitos países autorizavam os pais a olhar para os filhos como coisa sua que poderia ser alvo de disputa e ganho ou perda na altura do divórcio. Tradicionalmente os advogados eram preparados para um sistema de confronto no qual os casais em vias de divórcio eram tratados como adversários e antagonistas. Este sistema contribuía para acentuar e prolongar as disputas de paternidade exactamente na altura em que os filhos mais precisavam da colaboração e apoio por parte dos pais. No Children Act (Inglaterra e País de Gales) de 1989, e no Children Act (Escócia) de 1995, foi abolido o termo “custódia” e introduzido o termo 154 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 154 “responsabilidade parental”. O divórcio não significa o fim da responsabilidade parental para com os filhos. O Children Act estimula os pais a porem-se de acordo sobre as suas soluções para os filhos e desencoraja-os a deixar a responsabilidade dessa decisão para o tribunal. A filosofia da não-intervenção do tribunal, excepto nos casos em que os pais se mostrem incapazes de chegarem a um acordo ou quando assim o exija o bem-estar do filho, está em perfeita harmonia com o princípio de capacitação dos pais na mediação. Os princípios básicos da Children Act de 1989 são: • O bem-estar do filho é soberano • Os pais têm responsabilidades para com os filhos e não direitos • A responsabilidade parental não termina com o divórcio, continua • Os pais devem pôr-se de acordo tanto quanto possível sobre as suas decisões respeitantes aos filhos • O tribunal só deve emitir uma ordem a respeito duma criança se considerar que essa ordem é melhor para a criança do que nenhuma • As ordens que o tribunal pode dar são limitadas. Há cinco espécies de ordens que podem ser emitidas: residência, contacto, questões específicas, proibições e assistência familiar • Quando emite uma ordem a respeito duma criança, o tribunal deve tomar em especial consideração uma lista de factores (“checklist”). O primeiro factor refere “os desejos e os sentimentos claramente expressos pela criança em causa (considerados à luz da sua idade e do seu entendimento)” Paternidade partilhada e diversidade cultural É importante não impor expectativas de co-paternidade a todas as famílias, sem ter em conta a sua cultura. Nalgumas culturas os filhos são criados pela família alargada e não pelos pais. As crianças que crescem numa família monoparental podem nunca ter experimentado viver numa família com os dois pais. Podem estar isoladas de outras crianças e habituadas a serem cuidadas por diversas pessoas, nem sempre as mesmas – um dos pais, o novo parceiro dum dos pais ou uma sucessão de parceiros, uma ama. O seu pai natural pode ter desaparecido antes delas terem nascido. As famílias em que existe apenas um dos pais e que são dirigidas pelo pai propriamente dito são hoje mais correntes do que era costume. Muitos pais (homens) estão hoje envolvidos activamente na criação dos filhos. 155 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 155 Será que a paternidade partilhada significa que os filhos passam o mesmo tempo com cada um dos pais? O princípio de que, no seguimento da separação dos pais, os filhos deveriam ter duas casas iguais e dividir equitativamente o tempo entre os seus pais é controverso. Alguns pais acreditam que a paternidade deveria ser igual em todos os aspectos, incluindo tempo que os filhos passam com cada um deles. É assim que algumas crianças passam alternadamente semanas ou partes da semana com cada um dos pais. Alguns pais fazem turnos para viver na casa da família com os filhos, ainda que esta seja uma solução temporária. O envolvimento continuado de ambos os pais é extremamente importante, mas o exercício da paternidadeem igualdade pode ter como consequência os filhos serem trocados entre os pais com tanta frequência que não têm tempo de assentar em parte nenhuma. Os mediadores ajudam os pais a considerar o que significam os seus planos na prática e os possíveis benefícios e dificuldades para os filhos. Os filhos têm um sentido muito apurado de equidade e querem ser justos com ambos os pais. Alguns filhos irão ao ponto de sacrificar as suas próprias necessidades para serem leais com os dois pais. Podem aceitar acordos para deixarem os pais felizes. Quando os filhos mudam frequentemente entre duas casas, beneficiam dum contacto continuado com ambos os pais. Contudo, soluções que funcionam bem numa dada fase podem ter de ser alteradas à medida que os filhos crescem. Alguns filhos querem passar mais tempo com um dos pais numa determinada fase do seu desenvolvimento, mas receiam magoar o outro progenitor se o disserem. As perguntas circulares são especialmente úteis quando se pede aos pais para se porem no lugar dos filhos, sem que o mediador exprima opiniões ou dê parecer. Os pais julgam muitas vezes que as necessidades e os sentimentos dos filhos coincidem com os seus próprios, mas pode não ser bem assim. Filhos que mudam com muita frequência da casa de um dos pais para a do outro podem desempenhar um bom papel na condição de: • Os pais saberem exactamente quem é responsável pelo quê e permite estabelecer uma boa colaboração e comunicação entre eles. • Os pais dentro duma estrutura clara são flexíveis. • O tempo de deslocação não ser muito longo nem muito cansativo para a criança. • O filho não estar preocupado em ser equitativo com ambos os pais. 156 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 156 • Os aspectos práticos estarem decididos: ter duplicados de diversos artigos essenciais em cada casa evita que o filho tenha que levar sempre tudo dum lado para o outro. • As amizades e as actividades do filho serem respeitadas – isto é tanto mais importante quanto mais o filho cresce. • Os pais estarem atentos ao filho e perceberem quando for altura de ajustar os acordos vigentes. Para muitos pais é impossível partilhar os cuidados com os filhos de igual modo por causa do seu trabalho, das facilidades de alojamento, dos custos de transporte, e do tempo e dos custos de comunicações frequentes entre duas casas. Quando os pais vivem muito longe um do outro, pode até acontecer que seja em países diferentes, a partilha da paternidade pode implicar para os filhos terem de gastar muito tempo longe dum dos ambientes familiares e serem obrigados a usar uma língua diferente. A idade do filho, o temperamento e a capacidade de recuperação precisam de ser considerados cuidadosamente se o filho tiver de fazer muitas mudanças entre ambientes diversos. Ajudar os pais a elaborarem planos de exercício de paternidade em mediação A mediação familiar proporciona um fórum em que os pais podem discutir os sentimentos e necessidades dos filhos duma maneira construtiva e planear soluções de paternidade. Os mediadores familiares podem ajudar os pais a: • Tratar individualmente cada filho • Aumentar a sua colaboração e reduzir os conflitos acerca dos filhos • Aceitar a continuidade da intervenção de cada um nas vidas dos filhos • Ter em consideração diversas áreas da responsabilidade paternal e ver até que ponto estas ou podem ser compartilhadas ou devem ser confiadas a um único progenitor • Encontrar soluções que libertem os filhos de conflitos de lealdade ou de outras pressões • Calcular as necessidades financeiras dos filhos e assumirem esses compromissos • Analisar como é que tencionam falar com os filhos e explicar-lhes novas soluções • Conhecer melhor o que os filhos podem estar a sentir 157 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 157 • Analisar se as crianças e os jovens devem estar directamente envolvidos na mediação, de modo a que se possa tomar em consideração os seus pontos de vista e os seus sentimentos sem lhes atribuir qualquer responsabilidade pelas decisões Os pais estão muitas vezes de acordo sobre as necessidades básicas das crianças, tais como as de amor e segurança, mesmo se estão em desacordo sobre os arranjos inerentes à paternidade. Por seu lado, os mediadores procuram os princípios básicos do acordo. As diferenças podem ser então vistas em perspectiva e duma maneira mais positiva. Muitos pais concordam que os filhos precisam: • De ser amados • Que cuidem deles, tanto física como emocionalmente • De ter a certeza de que têm pais que tomam conta deles, mesmo que tenham deixado de viver juntos • De ser capazes de manter boas relações com ambos os pais, sem que sintam conflitos de lealdade • De manter relações com outros membros da família e com pessoas importantes nas suas vidas • De ter tanta estabilidade quanto possível • De ter pais que possam tomar decisões e definir limites seguros, mesmo que as regras não sejam as mesmas nas casas de cada um dos pais • De ter pais que estejam activamente envolvidos e mostrem interesse • De ter oportunidades de manifestar as suas ideias e de desenvolver novos interesses • De se desenvolverem como indivíduos, sem estarem demasiadamente preocupados com os pais Os mediadores ajudam os pais a elaborarem planos que definem como partilhar as responsabilidades paternais conjuntas e como as aplicar na prática. Se houver acordo nalguma forma de paternidade conjunta, existe uma plataforma sobre a qual construir uma estrutura de paternidade após-separação. Um plano de paternidade cobre normalmente: • Cuidados com a saúde – controlos médicos e dentários, cuidados durante a doença 158 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 158 • Educação – escolha da escola, assuntos escolares, trabalhos de casa, reuniões e eventos na escola • Educação religiosa • Feriados, festivais e aniversários – presentes, festas, saídas • Desporto e actividades lúdicas • Comunicação – transmissão de informação sobre os filhos, revisão e alteração de combinações quando necessário • Contactos com outros membros da família • Disciplina – regras e limites, respeito pelas regras do outro progenitor, acordo sobre se mais alguém tem qualquer autoridade sobre o filho • Responsabilidade pela segurança e desenvolvimento do filho – educação sexual, ensino sobre drogas • Emergências – contacto com o outro progenitor Os pais nem sempre pensaram em todos estes aspectos. Podem apreciar receber uma lista dos diversos pontos a considerar e alguma sugestão do mediador, como por exemplo “Pensou acerca de …?” ou “O que acontece quando …?”. O mediador também pode ajudar esclarecendo os limites duma maneira muito literal. Por exemplo, quando um dos pais traz os filhos duma ou para uma visita, deve deixá-los no limiar da porta ou deve esse progenitor entrar durante uns curtos momentos para facilitar a transferência? Se os pais tiverem discutido como é que vão ajudar os filhos a movimentarem-se entre eles, podem dar-lhes um melhor apoio emocional e evitar cenas aborrecidas em frente dos filhos. Incluir indirectamente os filhos na mediação Os pais têm tantos problemas para tratar quando se separam que não lhes é fácil reflectirem sobre a experiência que os filhos estão a viver Um dos aspectos mais valiosos da mediação apontado pelos pais é que os leva a olharem para os filhos como indivíduos e a considerarem os seus sentimentos e necessidades em paralelo com os seus próprios. Os pais apreciam a ajuda para concentrarem a atenção nos filhos. Apreciam igualmente o futuro objectivo da mediação que põe em relevo as suas contínuas preocupações como pais e que estabelece uma diferença entre estas e a irritação e as ofensas que muitas vezes sentem em relação ao parceiro.159 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 159 Pedir aos pais um retrato de cada filho Os pais têm tendência para apresentarem versões diferentes dos acontecimentos com o fim de justificarem o seu próprio ponto de vista. Uma maneira construtiva de começar, evitando argumentos que não vêm a propósito, consiste em convidar cada um dos pais a descrever cada filho, de modo a que a criança constitua mais qualquer coisa do que um simples nome para o mediador. Os pais sentem-se orgulhosos dos seus filhos e normalmente gostam de falar deles. A descrição dos interesses e da personalidade de cada filho, com ambos os pais a completarem pormenores, ajuda-os a encararem cada filho como um indivíduo. O mediador pode auxiliá-los a concentrarem-se nesse retrato, sem se desviarem em ataques ao outro progenitor. Essa atitude serve ainda outros objectivos: • Partilhar informações sobre os filhos. Frequentemente o pai que está envolvido no cuidado diário dos filhos sabe mais do que o outro. Pedir-lhe para começar a traçar o quadro pode ser uma maneira de actualizar o outro, que está menos informado. • Ver até que ponto os pais estão de acordo ou em desacordo sobre a personalidade, o temperamento e as ligações do filho. Muitas vezes verifica-se um acordo em larga medida, mesmo entre pais que se encontram em conflito sobre os esquemas de exercício da paternidade. As áreas de acordo podem ser realçadas e usadas na fase seguinte dos trabalhos. Muitos pais ficam surpreendidos ao reconhecer como estão tão perto dum acordo • Facilitar a comunicação duma maneira positiva, levando os pais a falar sobre os interesses que partilham e que não são motivo de aborrecimento nem de controvérsia. • Estabelecer regras básicas, tornando claro que o mediador questionará cada um dos pais e que lhe dará o tempo suficiente para ouvir e responder, sem interrupções. • Quando o conflito está muito aceso, os mediadores podem controlá-lo formulando perguntas que criem uma estrutura clara e firme. A recolha de informação sobre os filhos pode implicar fazer perguntas sobre: • A personalidade e o temperamento da criança • O nível de desenvolvimento da criança – físico, emocional, intelectual • Como é que a criança se comporta na escola – trabalho escolar e amigos 160 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 160 • Como é que a criança se entende com os seus irmãos e irmãs • A saúde da criança • Os interesses e as actividades da criança • Quaisquer necessidades ou dificuldades especiais • Como é que os pais sabem que a criança está feliz • Como é que sabem que a criança está aborrecida e como reagem Muitos pais que recorrem à mediação estão genuinamente preocupados com os seus filhos e fortemente motivados para colaborarem. Mesmo que discordem, a atmosfera fica mais aliviada quando se está a procurar traçar um esboço de cada filho. Os pais sorriem frequentemente e olham um para o outro com à-vontade. Torna-se então mais fácil voltar a questões mais controversas sobre acordos correntes e futuros. Num caso em que os pais não se falavam e se encontravam em litígio sobre com qual deles deveriam viver os seus dois filhos, foi visível o abrandamento entre eles à medida que falavam sobre os rapazes e sobre a personalidade e as actividades de cada um. Questões centradas no presente Normalmente é necessário fazer perguntas sobre os acordos em curso afim de perceber o que está de facto a acontecer. Se os pais já estiverem separados, quantas vezes há actualmente contacto entre eles? Qual é o modelo habitual? Como é que cada um deles pensa que o modelo está a funcionar? É importante fazer perguntas sobre as relações dos filhos uns com os outros … como é que isso está a andar? … Quem é que está mais perto de quem? … E com outros membros da família? Os avós muitas vezes representam um porto seguro para crianças cujos pais estão em vias de separação. Há outros parentes que vivam nas proximidades? Há mais alguém que seja especialmente importante para algum dos filhos? A maneira como os pais respondem a estas perguntas, bem como o conteúdo das suas respostas, mostram ao mediador como é que comunicam e se conseguem ouvir-se um ao outro. Na crise actual, até onde podem os pais ir para se concentrarem nos seus filhos como indivíduos e separar as necessidades deles das suas próprias? Isto é especialmente difícil quando só há um filho. Às vezes é duvidoso se a preocupação principal dum dos progenitores é realmente acerca dos filhos. Pode haver um objectivo escondido, como por exemplo ficar com a 161 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 161 casa da família. Os mediadores precisam de usar todas as suas observações – verbais e não verbais – ao formularem perguntas adicionais. Questões centradas no passado Ainda que os mediadores estejam orientados para o futuro, é por vezes útil, ao discutir acordos para os filhos, perceber como eram tratados antes de os pais se terem separado. É útil perguntar se os pais partilhavam ou não o exercício do poder paternal. Exemplos de questões centradas no passado: • Quando viviam juntos, quem é que tomava conta dos filhos a maior parte do tempo? • Quem é que deitava normalmente os filhos e se levantava para os ver durante a noite? • Quando começaram a ir para a escola ou para o infantário? Quem é que os levava e trazia? • Se ambos os pais trabalhavam profissionalmente: Quem é que ficava em casa se um dos filhos estivesse doente? • Quem levava os filhos ao médico ou ao dentista? • Estavam de acordo sobre a maneira de disciplinar os filhos? • Quem é que ia às reuniões com os professores e ajudava nos trabalhos de casa? • Quem é que comprava a roupa das crianças, os brinquedos e os presentes de aniversário? • A religião era um tema importante na educação dos filhos? • As decisões sobre os filhos eram geralmente analisadas, deixadas para um dos pais ou alvo de conflitos? • Os filhos davam-se normalmente bem com ambos antes da separação? Este tipo de perguntas ajuda a perceber os modelos anteriores de paternidade e de relacionamento. Não se deve contudo assumir que o que funcionava ou não funcionava antes da separação deva formar automaticamente a base do que deverá funcionar no futuro. O alvo consiste em averiguar se a paternidade partilhada era possível anteriormente de modo a que se possam fazer agora planos realistas. É útil perguntar aos pais se eles eram capazes de tomar decisões em 162 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 162 conjunto sobre a educação, a saúde e a religião das crianças. Estas áreas de responsabilidade paternal são distintas das decisões dos problemas do dia-a-dia, como por exemplo a roupa e o corte de cabelo (esta aliás uma questão emotiva), e a maneira como esse tempo pode ser dividido entre os pais. Usar o expositor de dados, desenhar um ecograma Um expositor de dados é muito útil para salientar questões-chave, pondo em evidência um objectivo comum e as prioridades. A elaboração duma lista das questões e das opções dos pais permite mostrar as áreas da responsabilidade paternal sobre as quais já existe acordo, tais como residência, escola e cuidados de saúde, e aquelas sobre as quais ainda não há acordo, por exemplo modos de contacto e apoio financeiro. Pode ser muito útil desenhar um calendário no expositor mostrando um período de quatro semanas (ou outro), com cada dia dividido em manhã e tarde, e convidar os pais a explicar as combinações em curso ou aquelas que têm em vista. Marcar esses dados no expositor, possivelmente com cores diferentes, ajuda a mostrar quanto tempo os filhos estão ou podem estar com cada um dos pais. O contraste entre dois sábados com o pai, e vinte seis dias com a mãe, é mostrado com muito mais clareza num expositorde dados do que numa discussão. Questões centradas no futuro, questões hipotéticas Os mediadores usam frequentemente questões hipotéticas e centradas no futuro (ver Cap. 4) e podem sugerir que os pais pensem sobre elas entre uma sessão e a seguinte: • Se os filhos forem viver consigo (mãe) ou consigo (pai), quanto tempo é que pensa que eles devem passar com o outro? • Independentemente dos filhos terem uma casa principal ou se deslocarem entre duas casas, que papel quer cada um de vocês assumir na sua educação e desenvolvimento geral – o que é que vê como ponto forte e contributo particular, como pai/mãe? • Segundo o seu modo de ver, de que maneira poderia o outro progenitor desempenhar um papel na educação dos filhos? Que apoio esperaria dele? • Há algumas questões fundamentais – tais como saúde, educação, religião – sobre as quais estaria de acordo para consultar o outro quando necessário? • Que tipos de informação sobre os filhos esperam partilhar um com o outro? 163 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 163 Construir acordos gradualmente Os pais que estão em conflito acerca dos filhos podem ser capazes de aceitar soluções a curto prazo, experimentais ou graduais, durante períodos de tempo definidos. Acordos temporários podem ser aceites na base de que não são permanentes, de que os pais voltarão a outra reunião para rever como é que essas soluções estão a funcionar e para analisar modificações, se necessário. Os mediadores precisam contudo de ser cuidadosos ao permitirem a um dos pais fazer o ponto da situação ou a autorizar um dos pais a usar o atraso para ganhar uma vantagem pessoal. Controlo do tempo e estrutura em mediação respeitante aos filhos Os mediadores precisam de manter a sua atenção nas questões e o seu olhar no relógio. As discussões sobre crianças podem levar imenso tempo e a mediação não é uma terapia. As questões e os comentários precisam de ser focados e o ritmo da discussão precisa de ser gerido. Se a prioridade for o próximo fim-de-semana, é importante dar tempo para tratar disso, em vez de embarcar numa discussão sem fim que não deixa tempo para escolher as opções do próximo fim-de-semana. É preciso sensatez e inteligência para decidir até onde se podem fazer perguntas sobre os filhos, e em que fase. Pode ser útil reconhecer os conflitos e as preocupações, mantendo a focagem sobre o presente e o futuro. “Então estão os dois preocupados em chegar a acordo em relação a … (nome dos filhos), de modo a ajudá-los a gerir estas mudanças tão bem quanto possível?”. Há perguntas a propósito do que cada um dos pais disse – ou alegadamente disse – aos filhos, que são por vezes altamente sensíveis, e talvez constituam um assunto para retomar noutra reunião, depois do mediador os ter ajudado a definir algumas soluções. “Falaram juntos com os filhos, ou falaram separadamente?” ou “Disseram aos filhos que estão a vir à mediação?”. Os filhos ficam mais tranquilos ao saber que os pais se estão a encontrar e a trabalhar para chegar a soluções. Muitas crianças são capazes de perceber a ideia da mediação e mesmo crianças pequenas podem perceber a necessidade de recorrer a uma pessoa que não toma partido. Quando os pais exprimem receios sobre um filho é importante estabelecer o nível de preocupação e de urgência. Se se deve dar a prioridade à preocupação durante a reunião seguinte, podem-se colocar perguntas antecipadamente aos pais, para os ajudar a centrar a atenção neste aspecto e a considerar possíveis 164 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 164 caminhos para resolver o problema. Se houver urgência, então é evidente que se deve dar prioridade imediata. Pode ser necessário ter de recorrer a outro serviço para ajuda médica, terapêutica ou outra, e os pais talvez precisem de dispor de informação sobre os serviços disponíveis. Crianças em risco ou consideradas em risco pelo mediador Se um dos pais manifesta preocupação de que um filho está ou pode estar em risco, é evidente que essa hipótese deve ser explorada imediatamente para esclarecer as bases de tal receio. Tratar-se-á duma preocupação relacionada com o litígio entre os pais? Que conselho algum deles já procurou ou que medidas foram já tomadas? Que medidas devem ser tomadas agora? Deverá o mediador contactar uma entidade adequada para proteger a criança dum perigo real? Referências utilizadas por mediadores familiares para falar sobre os filhos Os mediadores usam uma série de questões de referência, nomeadamente: • Aptidões para interrogatório, em especial questões circulares (ver Cap. 4) • Reconhecimento e mutualização – “os dois preocupam-se demasiado com os filhos” • Normalização – “muitas crianças mostram sinais de…”, “é normal para as crianças fazerem…” • Prestar informações – “os tribunais preferem que os pais cheguem a entendimentos” • Reenquadrar medidas – “portanto estão ambos à procura de soluções seguras?” • Definição de prioridades – “o que pensam que é mais importante para os vossos filhos de momento?” • Estruturar – “devemos decidir por que ordem vamos discutir estas questões...” • Ajuda adicional e informação – “por acaso encontraram estes livros para crianças?” Não compete ao mediador dizer aos pais o que é melhor para os seus filhos. Porém, muitos pais precisam de informação e de orientação sobre a maneira de ajudar os filhos a enfrentarem a separação. Há livros úteis de auto-ajuda para os pais, bem como livros para crianças que os pais podem ler com os filhos mais pequenos, ou que podem dar a um filho mais crescido. 165 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 165 Encorajar o apoio paternal Quando os pais se acusam mutuamente das reacções dos filhos, o mediador pode talvez ser capaz de comentar que isso é normal ou um problema corrente. Em muitas famílias normais encontram-se crianças que começam a andar e têm acessos de mau humor, e adolescentes que se fecham em si mesmos. Os pais têm tendência para se acusarem um ao outro. Em vez de procurar a causa e o efeito, o mediador pode chegar à conclusão de que os pais precisam de mais ajuda e apoio um do outro. Muitas vezes os pais são sensíveis a um pedido de ajuda e apoio, quando compreendem que não estão a ser acusados de serem os causadores do problema. É importante reconhecer os esforços dos pais e o apoio de que precisam sem sugerir que estão a falhar em dar resposta às necessidades dos filhos. A crítica, tanto a aberta como a fechada, aumenta a atitude defensiva e a resistência. Quando os pais estão constantemente a acusar-se e encontram erros um no outro, as reacções dos filhos podem ser reforçadas e os pais podem ter de pedir ajuda a especialistas por terem perdido confiança na sua capacidade de ajudarem os filhos. Uma das dificuldades consiste no comportamento dos filhos, que pode ser ambíguo e susceptível de ser interpretado de maneiras diversas. O conflito aumenta quando os pais interpretam as reacções dos filhos de formas diferentes. Para os ajudar a perceber que ambos podem ter razão e que podem existir outras explicações possíveis, os mediadores têm de perceber de que maneira é que os filhos podem estar a esconder os seus sentimentos ou a exteriorizá-los. Os papéis e as estratégias dos filhos para enfrentarem os conflitos dos pais Por vezes os filhos são espectadores passivos sem interferirem nas disputas dos pais. Porém, quanto mais grave é a disputa, maior a probabilidade de que o filho esteja envolvido nela. O filho pode ser apanhado num triângulo emocional no qual os conflitos não resolvidos dos pais são canalizados através da “criança triangulada”. Os filhos que estão perturbados pela separação dos pais podem reagir de uma forma que pode parecer uma chamada de atenção ou uma manipulação. No fundo estecomportamento, que a “estratégia” infantil sugere ser consciente e premeditado, pode muitas vezes ser uma resposta intuitiva a uma combinação de necessidades pessoais e de pressões paternas. Os filhos tentam que as coisas saiam certas segundo as suas próprias necessidades e percepções. Podem estar também a tentar proteger os pais, bem como a eles próprios. Nestas circunstâncias os filhos recorrem a um comportamento que pode ser a única 166 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 166 maneira que encontram para demonstrar necessidades que não conseguem exprimir em palavras. Papéis que os filhos podem desempenhar quando tentam resolver conflitos entre os pais Papel do filho Papel do mediador 1 Mensageiro, intermediário. Ajuda os pais a falarem directamente um com o outro, em vez de comunicarem através do filho. 2 Reconciliador Ajuda os pais a porem-se de acordo sobre o que deve ser (tenta voltar a juntar os pais). explicado; ajuda os pais a discutirem como tranquilizar o filho. 3 Pacificador (diz a cada Ajuda os pais a resolverem os conflitos. progenitor o que quer ouvir). 4 Aliado aliciado por um dos Ajuda os pais a chegarem a acordos e a resolver conflitos pais para dar apoio. para libertar o filho. 5 Responsável pelas decisões. Ajuda os pais a tomarem a responsabilidade por decisões difíceis. 6 Bode expiatório Ajuda os pais a darem tranquilidade e a porem-se de acordo (é posto à prova, receia ser sobre os limites necessários, a definirem regras, etc. abandonado por ambos os pais). 7 Confidente. Ajuda os pais a reflectir sobre como evitar aborrecer o filho. 8 Parceiro substituto (substitui Ajuda os pais a sentirem-se mais seguros de modo a que o progenitor que abandonou). dependam menos do filho. 9 Substitui progenitor ou ama Ajuda os pais a sentirem-se mais seguros de modo a que (cuida dum dos progenitores dependam menos do filho. Ajuda um ou ambos os ou de irmãos mais novos). progenitores a perceberem as necessidades do filho. 10 Juiz (encorajado a acusar Discute com os pais, sem os condenar, sobre como podem um dos progenitores). eles ajudar os filhos a compreender a sua situação. 11 Fugitivo Discute riscos e preocupações com os pais. Procura um (vadiagem, delinquência). maior envolvimento paternal. 12 Afectado pela família perdida. Ajuda os pais a reconhecer e a participar tanto na angústia Mostra desgosto que os pais como na raiva do filho. reprimem. Estratégias de reunião; disputas sobre o contacto É normal que os filhos, seja qual for a sua idade, esperem que os pais voltem a juntar-se. O desejo de reunir pais separados é por vezes intenso e de longa duração. Os filhos desenvolvem frequentemente sintomas físicos associados com 167 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 167 tensão emotiva. Podem também fantasiar que ambos os pais vão voltar juntos para cuidar dum filho que está doente. Exemplo – A Sara, de seis anos de idade, queixava-se de se sentir doente sempre que era suposto visitar o seu pai. Interpretação da mãe: as visitas afligem a Sara, em especial porque o seu ex-marido tem uma nova parceira. É importante para a Sara reduzir as visitas ou suspendê-las mesmo durante algum tempo. Interpretação do pai: a sua ex-mulher está a virar a Sara contra ele porque tem inveja da sua nova namorada. Se a sua ex-mulher está a bloquear a sua relação com a filha, talvez fosse preferível para a Sara ir viver com ele. A sua namorada também tem filhos e é uma óptima mãe. Soluções possíveis se o litígio não se resolver: i) A Sara pode perder o contacto com o pai; ii) o médico de família, os professores, o psicólogo da família e os procuradores podem ser todos envolvidos; iii) pode ser pedido uma avaliação psicológica da criança; iv) se for emitida uma ordem do tribunal, o contacto pode não funcionar na prática se a Sara continuar a resistir; v) o litígio sobre contacto pode transformar-se num litígio sobre a residência. O recurso à mediação pode ajudar os pais a: • Centrar a atenção na Sara: como é que eles a descrevem? Têm mais filhos? Se a Sara for a única filha, as pressões sobre ela podem ser particularmente intensas. • Esclarecer a situação presente e as questões principais. • Considerar se e como pode a Sara manter a sua relação com ambos. • Considerar como é que isto pode ser tratado duma maneira que dê à Sara tanto apoio e confiança quanto possível. Quais são as opções e as possibilidades práticas? Será que a Sara precisa de algum tempo sozinha com o pai? E o que se passa quanto à duração e à frequência das visitas? Se os pais discutirem quando se encontram, poderia o contacto realizar-se sem que eles fossem confrontados cara-a-cara? Poderiam os avós ajudar? • Explorar o que está a perturbar a Sara: poderá ser que ela ame ambos os pais e não consiga perceber porque razões não conseguem estar juntos? Quem sabe se ela espera que o pai venha e ajude a mãe a tomar conta dela, de maneira que possam ir viver todos juntos? Talvez a Sara esteja a proteger ambos os pais evitando que eles entrem em contacto um com o outro. 168 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 168 • Um acordo passo-a-passo pode conduzir a um aumento gradual de contacto de modo a que a Sara não tenha que enfrentar muitas mudanças ou muitos movimentos demasiado depressa. Isto pode ajudar a tranquilizar a mãe da Sara sobre a necessidade de lhe dar estabilidade, ao mesmo tempo que tranquiliza o pai de que as combinações sobre os contactos que foram aceites representam um passo para um contacto mais flexível. • Pode a Sara ter a certeza de que a mãe a apoiará ao ter contacto com o pai? E que não precisa de se afligir com a mãe enquanto estiver fora? Poderá a mãe tranquilizá-la sobre isso? • Ajudar a Sara a ser clara quando têm lugar as visitas de contacto. Pode ser útil sugerir que a sua mãe marque as datas num calendário. • Em especial, nos casos em que haja relutância em assumir qualquer obrigação firme de arranjos de contactos firmes, planear outra reunião de mediação para rever como é que os arranjos estão a funcionar depois de algumas visitas. • Considerar o que já foi dito à Sara? O que poderá estar ela a precisar de ouvir de ambos os pais? Como pode ser ela ajudada a perceber e a aceitar a sua separação? • Haverá modificações possíveis que possam facilitar as coisas? Entretanto pode o pai da Sara manter contacto com ela por postais ou chamadas telefónicas? Ao fazer sugestões e eventualmente interpretações alternativas para a angústia da Sara, o mediador precisa de ter cuidado para não impor soluções nem rejeitar interpretações de nenhum dos progenitores, declarando uma interpretação diferente como sendo “a correcta”. As ideias são oferecidas como alimento para pensamentos, não como soluções. Frequentemente os pais têm ideias ou sugestões em mente e apresentam-nas. Podem abrir novas perspectivas e ajudá-los a funcionar numa via de solução de problemas em vez de numa via de confrontação. Estratégias para testar o amor dos pais e a ligação ao filho Exemplo – Tiago, de 13 anos de idade, foi apanhado a roubar cassetes vídeo numa loja vizinha Interpretação da mãe: O Tiago precisa de mais disciplina e controlo. É mal- educado, taciturno e passa a vida fora de casa. A mãe não consegue ter mão nele 169 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 169 – já tentou muitas vezes e já está farta. Não consegue que ele vá à escola. Por este andar vai acabar por ser um criminoso. Já é tempo para o pai tomar conta dele. Pode ir-se embora e ir viver em casa do pai. Interpretação do pai: O Tiago está a ficar fora de controlo. A mãe nunca conseguiu lidar muito bem com ele. Talvez ela tenha razão quando diz que o Tiago precisava de viver com o pai – simplesmente não se podeesperar que o pai esteja em casa quando o Tiago chega da escola. O rapaz tem de fazer o que se lhe diz e afastar-se de sarilhos. Doutra maneira, acabará por ser preso. É melhor estar ciente de que é isso que lhe acontecerá se continuar a roubar. Cenários possíveis se o Tiago não tiver a ajuda de que precisa: i) mais discussão entre os pais sobre de quem é a culpa do Tiago estar com problemas; ii) nenhum dos pais faz o Tiago sentir-se amado e querido; iii) o Tiago volta a prevaricar; iv) intervenção dos Serviços Sociais; v) o Tiago acaba por ser preso. O recurso à mediação poderia ajudar os pais a: • Concentrarem-se no Tiago: Como é o Tiago e como era quando era pequeno? E agora os pais pensam que ele é infeliz? Revoltado? Preocupado? Há mais filhos? • Discutir as necessidades do Tiago. Quais são os actuais acordos em relação ao Tiago? É possível colaborarem para irem ao encontro das suas necessidades? Se ele vive com a mãe, poderá ela ter confiança de que o pai a apoiará em questões relativas a limites de comportamento (como ficar fora de casa até tarde) e disciplina? • Resolver outras questões relacionadas com o filho, incluindo questões do foro financeiro. Poderão elas estar a afectar o Tiago? O Tiago recebe mesada? • Reflectir sobre se o Tiago está revoltado com os pais. Talvez imagine que eles não se importam com o que se passa com ele. Talvez pense que se estiver metido em sarilhos eles se unirão de qualquer maneira para lhe resolverem a situação? • É possíveis os pais falarem em conjunto com o Tiago? Será que eles pensam que seria útil para ele estar envolvido em mediação? Se assim for, como é que isso podia ser feito? Estratégias de protecção dos filhos Os filhos tornam-se muito ansiosos quando se dão conta de que um dos pais é incapaz de lutar ou então de que é pouco seguro para os pais encontrarem-se. 170 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 170 Podem comprometer-se em estratégias defensivas que esperam tornar as coisas mais seguras para os pais e que os protegerão de fazerem mal um ao outro. Uma das maneiras como as crianças pensam proteger os seus pais e protegerem-se a elas próprias é recusar ver o outro progenitor – mesmo que, bem no fundo, desejem encontrá-lo. Alguns filhos procuram ajudar os pais dizendo a cada um deles o que esse progenitor quer ouvir. Exemplo dum conflito sobre a residência – Daniel, com 9 anos de idade O Daniel não quer magoar nenhum dos pais mostrando preferência por um e rejeitando o outro. Ele diz a ambos aquilo que ele julga que eles querem ouvir da sua boca. Ao pai diz que gostaria de viver com ele. À mãe diz também que quer ficar com ela. Não tem a certeza de que a mãe aguentasse, no caso dele ir viver com o pai. Daniel sabe que a mãe depende dele já que não tem mais nenhum filho. Interpretação da mãe: é evidente que o Daniel quer viver com ela. Ela sempre tomou conta dele e eles estão muito próximos um do outro. O pai está a pôr palavras na boca do Daniel fazendo pressão sobre ele. Isto é totalmente irresponsável e errado. Interpretação do pai: o Daniel é um rapaz e compreende-se que tenha atingido uma idade em que prefira viver com o pai. Infelizmente a sua mãe é incapaz de perceber isto. Ela é super-protectora. Devia-se deixar o Daniel decidir e então não haveria dúvidas sobre qual a opção que ele preferiria. Resultado possível se os pais não conseguem concordar: um relatório de bem- estar que explica que qualquer dos pais poderia proporcionar um lar bom e carinhoso ao Daniel. O relatório explicita os factores de equilíbrio, deixando a escolha ao critério do juiz. O recurso à mediação poderia ajudar os pais a: • Concentrarem-se no Daniel e nas suas necessidades, através de questões postas pelo mediador focadas no presente, no passado e no futuro (ver acima). Por exemplo: quando o Daniel era bebé, ambos assumiram um papel activo nos cuidados dele? Como é que isso funcionava? Contribuíam ambos para tomar conta dele de maneiras semelhantes ou diferentes? Será que ambos valorizavam o apoio prestado pelo outro progenitor? Ou gostariam que o outro progenitor tivesse feito mais? Como é que poderiam estar ambos envolvidos agora? 171 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 171 • Identificar e considerar opções possíveis para a partilha do exercício do poder paternal e do tempo, e os “prós” e “contras” de cada opção. • Considerar questões imediatas no contexto das necessidades a mais longo prazo. Ajudar os pais a explicar decisões e novas medidas aos seus filhos A incapacidade ou falta de vontade de um dos pais para explicar uma situação dolorosa a um filho pode combinar-se com a tendência do filho para esconder sentimentos e para criar um muro de silêncio à volta do progenitor que abandonou a casa. Quanto mais tempo este muro existir, mais difícil será destruí- lo. Compreende-se que muitos pais se sintam incapazes de falar sobre a separação com os filhos pois já estão destruídos pela sua própria dor e preocupação. Quando se pergunta aos filhos o que é que os poderia ter ajudado, eles quase sempre dizem que o que teria ajudado era ter tido mais informações, explicações e garantias por parte dos pais. Os mediadores familiares podem ajudar os pais a discutirem as questões difíceis do que devia ser dito aos filhos, por quem e em que fase. Talvez alguns pais já tenham prestado explicações aos filhos e lhes tenham assegurado de que ambos os progenitores continuarão a amá-los e a tomar conta deles, mesmo que deixem de viver juntos na mesma casa. Talvez outros pais não tenham conseguido fazer isso. Quando os pais não estão de acordo sobre o que conduziu à separação ou ao divórcio, os filhos estão sujeitos a receberem versões que entram em conflito umas com as outras e que os tornam ainda mais confusos. Os mediadores podem ajudar os pais a encontrar uma forma adequada à idade da criança para explicar uma questão sobre a qual estão de acordo, o que pode ser feito sozinhos ou em conjunto, sem se contradizerem nem denegrirem a imagem do outro aos olhos do filho. Explicações que os pais podem dar, mesmo se as soluções ainda não estão estabelecidas: • Ambos os pais amam os filhos e continuarão a amá-los • Ambos os pais (ou pelo menos um dos pais) continuarão a tomar conta dos filhos • Continuarão a viver na mesma casa (ou, se for precisa uma mudança, que as suas necessidades serão tidas em conta quando se planearem as novas soluções) 172 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 172 • Continuarão a ver o progenitor com quem deixarem de viver – com que frequência, onde, etc.: os filhos precisam de saber onde é que esse pai vive • Os filhos não têm qualquer culpa da separação • Mesmo que se confirme o divórcio dos pais, não haverá nenhum divórcio entre os filhos e os pais • Os pais têm pena da separação (melhor do que dizer que estão zangados um com o outro) • Há razões aceites que justificam a separação, tais como os pais já não serem capazes de continuar juntos (dizer que os pais já não se amam um ao outro pode levar os filhos terem medo de que venham também a deixar de os amar) • Os pais manterão os filhos ao corrente de quaisquer novas medidas que os afectem • Os pais estão a tomar parte num processo de mediação e vão-lhes explicando o que isso significa; mesmo os filhos mais novos podem perceber muito bem a ideia básica da mediação (por vezes até melhor do que os adultos) • Os pontos de vista e os sentimentos dos filhos são importantes e é preciso que saibam que serão ouvidos e que os pais vão encontrar soluções que os têm em consideração • Os pais percebem que as modificações causam profundos transtornos aos filhos e que os filhos podem sentir-se zangados ou tristes ou ambos; que esses sentimentossão naturais e compreensíveis e que não há qualquer perigo em falar sobre eles • Se qualquer coisa preocupar o filho, esperam que o filho se sinta capaz de lhes contar a um deles ou a ambos, de modo a que possam ajudá-lo A maior parte dos pais prefere falar com os filhos na sua própria casa, mas po- dem sentir-se inseguros sobre como consegui-lo. Os mediadores podem ajudá-los a planear o momento certo e o conteúdo duma explicação conjunta, e também a concordarem sobre o que não deve ser discutido com os filhos. Pode ser uma ajuda para os pais perceberem que os filhos podem reagir de diversas maneiras. Alguns choram e mostram um desgosto enorme, ao passo que outros podem parecer indiferentes, sem dar qualquer atenção e a certa altura perguntarem: “o que é que há hoje para o jantar?”. Mesmo que pareça que as crianças não estão a prestar 173 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 173 atenção, elas estão normalmente a compreender o que está a ser dito. Talvez tenham de o ouvir mais do que uma vez, em particular a garantia que for dada, para a digerirem completamente. Os mediadores podem ajudar os pais a prever antecipadamente como é que um dos filhos pode reagir (o que, se …?), perguntando como é que responderiam a uma explosão colérica dirigida em particular a um dos pais. Os pais que estiverem bem preparados são mais capazes de controlar os seus sentimentos e de se apoiarem um ao outro em frente dos filhos. Algumas vezes os pais estão perdidos sem saberem o que devem dizer a um filho para o ajudar a perceber. O mediador pode ajudá-los colocando uma cadeira vazia e pedindo-lhes para imaginarem que o filho está aí sentado e precisa de alguma explicação deles. Podia pedir-lhes para imaginarem o filho dentro de, por exemplo, cinco anos, e as perguntas que lhes poderia fazer. A uma mãe que pense que um filho com menos de três anos não vai sentir a falta do pai, pode-se pedir que imagine o filho aos doze ou quinze anos a perguntar-lhe porque é que o pai não amou suficientemente o filho para manter o contacto. O direito do filho a ser consultado Olha-se normalmente para os filhos como sujeitos que precisam de cuidado e protecção, e que frequentemente são as grandes vítimas do divórcio. Há actualmente uma tendência para reconhecer que os filhos têm direitos, bem como necessidades. Se pensarmos nos filhos como sujeitos com direitos e não apenas como destinatários de cuidados e protecção, estamos provavelmente a preparar decisões relativas às crianças duma maneira diferente. Estamos mais aptos para pensar como é que as próprias crianças devem ser consultadas e ouvidas sem se lhes atribuir responsabilidade pelas decisões. O direito das crianças de que os seus desejos e sentimentos sejam tomados em conta está consignado no Artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, adoptado na Assembleia Geral das Nações Unidas em 1989. Este artigo estatui que em qualquer assunto ou procedimento que afecte a criança, os pontos de vista da criança devem ser tidos em consideração, em conformidade com a sua idade e maturidade. No Reino Unido, os desejos e os sentimentos da criança são factores que o tribunal deve considerar, se apropriado, ao tomar decisões que digam respeito à criança. O Children Act da Escócia de 1995 impõe a todos com responsabilidade paternal que tenham em consideração, tanto quanto possível, os pontos de vista das crianças em causa. Na Escócia considera-se que uma criança com doze ou mais anos tem idade 174 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 174 e maturidade suficiente para ter opinião. Ainda que tenha sido conferido às crianças o direito de serem consultadas sobre assuntos que lhes dizem respeito a todas, a evidência mostra que as crianças raramente são consultadas na prática. Será que elas querem mesmo ser consultadas? Estudos recentes no Reino Unido mostram que a maioria das crianças gostaria de ser capaz de dizer uma palavra nos assuntos que as afectam. Mesmo as crianças pequenas são capazes de perceber e de falar sobre a noção de terem direitos e de serem ouvidas. Algumas crianças querem ser ouvidas e envolvidas num processo de tomada de decisões, enquanto outras pretendem ser consultadas mas não querem que lhes seja conferida responsabilidade para tomarem decisões. A maioria das crianças pensa que deviam ter oportunidade para falar sobre os seus sentimentos e serem consultadas, sem terem de tomar decisões. Envolvimento directo dos filhos na mediação Muitos mediadores vêem-se a si próprios como facilitadores de negociações que capacitam os pais a tomarem as suas próprias decisões. Os mediadores podem estar contra o envolvimento dos filhos por pensarem que isto iria desautorizar os pais. Em contrapartida, muitos mediadores acreditam que há vantagens em envolver os filhos, desde que exista um cuidadoso planeamento com ambos os progenitores sobre a maneira de os envolver e os objectivos desse envolvimento. Os requisitos prévios incluem acordo dos pais, transparência sobre o papel do mediador familiar, confidencialidade com o filho e consentimento do filho dado com conhecimento de causa. Os mediadores precisam de formação adicional, aptidões e experiência de comunicação com crianças. Quando um dos pais é a favor de procurar conhecer a opinião dum filho e o outro é contra, ou mesmo quando ambos estão a favor, é importante discutir as vantagens e as desvantagens potenciais do ponto de vista da criança. Inconvenientes potenciais do envolvimento dos filhos na mediação • Os filhos não são responsáveis e não deviam participar nas disputas entre os pais • O envolvimento dos filhos aumenta a sua angústia e confusão • Os filhos ficarão incomodados se conhecerem o conflito entre os pais com maior detalhe • As crianças não se deveriam envolver no que são negociações de adultos propriamente ditas 175 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 175 • Os desequilíbrios de poderes entre pais e filhos situam-se fora dos limites da mediação • Conferir poderes aos filhos é arriscar-se a reduzir poderes a um ou a ambos os pais • A autoridade dos pais para tomarem decisões é prejudicada se o mediador for visto como o especialista • O papel do mediador pode ser confundido com o papel de conselheiro ou de advogado do filho • O envolvimento dos filhos pode criar expectativas de que as coisas melhorarão para eles • As crianças podem sentir-se sob pressão para exprimir os seus pontos de vista ou sentimentos • As crianças podem ter medo que lhes seja pedido que façam uma escolha • As crianças podem não ser juízes fiáveis dos seus próprios interesses a longo prazo • O mediador pode encontrar-se numa posição “triangulada” entre os pais e o filho • O mediador poderia encontrar-se numa situação em que detém segredos ou confidências duma criança que não quer que elas sejam partilhadas com os seus pais: isto seria uma posição insustentável para o medidor • Os conflitos de lealdade da criança podem ser agravados • Pode acontecer que os pais não consigam controlar a sua angústia em frente do filho • Os pais podem exercer pressão e dar instruções ao filho sobre o que dizer ao mediador • Reportar aos pais o que o filho disse pode resultar em que fiquem zangados com o filho • Crianças pequenas que vejam os seus pais a conversarem dum modo amistoso podem pensar que eles vão voltar a reunir-se, alimentando esperanças de reconciliação Benefícios potenciais do envolvimento dos filhos na mediação familiar • A maioria das crianças que estiveram envolvidas diz que isso as ajudou muito • É possível dar explicações e garantias às crianças 176 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 176 • As crianças adaptam-se mais facilmente se perceberem melhor asdecisões dos seus pais • O envolvimento dos filhos mostra-lhes que os seus pontos de vista e sentimentos são importantes e que eles devem ser tratados com respeito • É uma maneira de ajudar os pais a prestarem atenção aos filhos • Os pais podem escolher explicar as suas decisões e soluções aos filhos numa reunião familiar (alguns pais precisam do apoio do mediador para fazer isto) • Dissipar mal-entendidos: por exemplo, que uma criança não quer ver um dos pais quando de facto quer • Dar aos filhos a oportunidade de fazerem perguntas e comentários e de contribuírem com as suas ideias • Dar oportunidade aos filhos de exprimirem uma preocupação ou interesse, como por exemplo onde irão viver os animais de estimação da família • Facilitar as comunicações e reduzir as tensões nas relações pais-filhos • Dar aos filhos uma oportunidade de verem o mediador a sós e conversarem sobre os seus sentimentos e preocupações, sem se sentirem ansiosos sobre como é que os pais vão reagir • Ajudar os filhos a prepararem as mensagens que querem transmitir aos pais (ou a outras pessoas envolvidas) e a sentirem-se capazes de as transmitir • Tornar possível a um filho receber uma mensagem dum dos pais que, por qualquer razão, não a pode entregar directamente • Com o acordo do filho, reportar aos pais as preocupações e sentimentos do filho para os ajudar a compreendê-las, de modo que elas possam ser tidas em conta nas decisões dos pais. • As reacções positivas para envolver os filhos devem ser avaliadas em comparação com os riscos potenciais e desvantagens. Quando ambos os pais pensam que os filhos precisam de ser envolvidos e que isso os ajudará, há um novo planeamento importante a fazer. Explorar maneiras possíveis de envolver os filhos Há frequentemente opções e considerações que precisam de ser trabalhadas. O expositor é uma ferramenta importante quando se considera cada opção. Alguns pais gostariam que os filhos participassem numa reunião familiar com a 177 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 177 presença do mediador, para que este os ajude a explicar certas aspectos aos filhos. Em alternativa, e dependendo da idade do filho e de cada circunstância particular, os pais podem pedir ao mediador para ver um filho sozinho. Os pais podem pensar que seria bom para um adolescente falar sozinho com uma terceira pessoa que conhece ambos os pais mas que não está envolvido emotivamente. Alguns adolescentes precisam dum espaço para falar dos seus sentimentos e decisões, em especial quando já têm idade suficiente para tomarem decisões por eles próprios. Nalguns casos há pedidos directos de filhos para se encontrarem com o mediador porque sabem que o mediador tem conhecimento pormenorizado da sua situação familiar, ao passo que um conselheiro escolar pode não ter esse tipo de conhecimento e muitas vezes não ter contacto com ambos os progenitores. Muitas crianças farão todos os possíveis para não serem etiquetadas como tendo problemas e necessitando de aconselhamento. Mesmo crianças pequenas são capazes de perceber que mediação não é o mesmo que aconselhamento ou terapia e que o mediador não é um assistente social nem um investigador. Se houver sugestões para que o mediador se possa encontrar com uma criança sem a presença dos pais, há questões a considerar tais como: devem os irmãos ser entrevistados em conjunto ou separadamente? O mediador deverá reportar aos pais, ou a outra pessoa o que se passou? Os filhos vêem a confidencialidade como uma questão-chave. Acertar planos com ambos os progenitores e com o filho É importante para os pais considerarem os limites das discussões com os filhos em mediação. Se a confidencialidade não for absoluta e se estiverem a ser aplicados processos de protecção da criança, por esta se encontrar em situação de risco ou perigo, deve-se esclarecer a situação a todos os interessados, incluindo à própria criança. Fora isto, pode-se pedir aos pais para darem o seu acordo para que o filho decida se no final se deve dar qualquer informação aos pais e, em caso afirmativo, por quem. Os pais precisam de aceitar que pode não existir nenhuma informação final. Na prática, não se tem verificado que o mediador guarde confidências dos filhos que não possam ser partilhadas com os pais. Normalmente a criança foi ajudada a elaborar mensagens que queria transmitir a um ou a ambos os pais. Muitas vezes trata-se de mensagens positivas sobre como a criança esteve a tentar ajudar os pais – ou sobre a ajuda que a criança gostaria de receber dos 178 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 178 seus pais. Se a criança quiser que o mediador explique qualquer coisa por ela, o conteúdo dessa explicação deve ser reduzido a escrito e examinado com a criança. O contacto com a criança e a aceitação por parte da criança Os pais precisam de explicar às crianças a razão porque gostariam que elas participassem para aliviar a sua ansiedade e encorajar uma resposta positiva. É muitas vezes útil que o mediador escreva também uma carta pessoal de convite à criança. As crianças precisam de perceber o que lhes é proposto e que estão livres de recusar. Precisam de saber que não serão confrontadas com ninguém. Se quiserem falar serão ouvidas, mas não lhes será pedido para fazerem escolhas nem serão responsabilizadas por decisões difíceis. Acordo para não dar instruções à criança antecipadamente e para não fazer perguntas à criança a posteriori sobre qualquer coisa que ela tenha ou não tenha dito ao mediador. As crianças precisam da garantia de que podem falar livremente, sem receio de virem a ser chamadas à responsabilidade ou de causarem qualquer espécie de dano aos seus pais. Os pais precisam de aceitar que a finalidade de envolver a criança no processo consiste em ajudá-la, antes de qualquer outro objectivo. É preciso tomar o maior dos cuidados em todas as fases – antes, durante e depois da reunião – para evitar angústia adicional aos filhos. Gerir os resultados e acordar os próximos passos As crianças podem encontrar-se impotentes para mudar o que lhes está a acontecer e as mais pequenas podem encarar os seus pais como “todo-poderosos”. Contudo, nalgumas situações, uma criança pode ser amparada por um dos pais, ou pode reflectir algum controlo recebido através de pressão psicológica ou de manipulação. Os mediadores familiares que utilizam uma abordagem sistémica, podem ajudar os pais e os filhos a definirem antes de mais nada quais as decisões que são necessárias e, em segundo lugar, quem deve ser envolvido na sua elaboração. O envolvimento de membros da família no processo da tomada da decisão pode tornar possível transformar o poder em responsabilidade. A recusa de ouvir pode ser transformada numa audição activa. 179 Miolo_17X24.qxp 3/4/08 3:11 PM Page 179 As crianças estão habitualmente muito receosas em falarem com um estranho e têm medo de dizer qualquer coisa que possa contrariar um ou ambos os progenitores. Procuram muitas vezes proteger ambos os pais ou podem estar do lado de um deles que considerem vulnerável ou “vítima”. Também se preocupam em não acrescentar preocupações àquelas que os seus pais já têm. No entanto, talvez as crianças se estejam a preocupar com assuntos de que os seus pais se devem ocupar, desde que percebam do que se trata. Os mediadores podem ajudar as crianças a explicar as suas preocupações aos pais, e isto pode libertá-los de algumas das suas ansiedades. Os mediadores também precisam de ter consciência de que as crianças talvez não consigam exprimir os seus receios por palavras – e terem a humildade de reconhecer que não podem aliviar a dor da criança. Há situações familiares nas quais já se verificaram perdas imensas e em que um dos filhos se sente profundamente