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Lisa Parkinson
Mediação Familiar
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Título
Lisa Parkinson - Mediação Familiar
Autoria
Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios | Ministério da Justiça
Editora
Agora Comunicação
Design Gráfico
AcPrint
Produção Gráfica
AcPrint
Tiragem
500 exemplares
1.ª edição
Março de 2008
Depósito Legal
____________
ISBN
978-989-8024-10-7
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Lisa Parkinson
Mediação Familiar
Ministério da Justiça
Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios
Março de 2008
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ÍNDICE
NOTAS DE ABERTURA............................................................................................................................................ 7
Filipe Lobo d’Avila
Director do Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios......................................................................... 9
Juan Carlos Vezzulla
Presidente do Conselho Científico do Instituto de Mediação e Arbitragem de Portugal ......................... 11
Capítulo I – Mediação e conflito ....................................................................................................................... 15
Capítulo II – Diferentes modelos de mediação familiar .................................................................... 39
Capítulo III – Comprometer ambas as partes na mediação........................................................... 69
Capítulo IV – Linguagem e técnicas de comunicação ....................................................................... 101
Capítulo V – Iniciar a mediação....................................................................................................................... 125
Capítulo VI – Crianças, adolescentes e mediação familiar ............................................................ 149
Capítulo VII – Gerir desequilíbrios de poder em mediação ........................................................ 183
Capítulo VIII – Estratégias para situações de impasse...................................................................... 207
Capítulo IX – O futuro da mediação familiar......................................................................................... 237
Sinopse da Mediação Familiar em Portugal .............................................................................................. 263
Bibliografia....................................................................................................................................................................... 267
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NOTAS DE ABERTURA
Filipe Lobo d’Avila
Juan Carlos Vezzulla
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Filipe Lobo d’Avila
Director do Gabinete para a Resolução Alternativa de Litígios
As primeiras linhas deste texto são dedicadas para expressar o sincero
agradecimento à autora, Lisa Parkinson, pelo consentimento prestado para a
tradução e edição desta obra em Portugal. Anteriormente, o Ministério da Justiça já
tinha beneficiado da sua prestimosa colaboração, disponibilidade e ensinamentos,
quer por ocasião da realização da IV Conferência Meios Alternativos de Litígios, quer
com a publicação do artigo A formação de mediadores familiares no Reino Unido,
na NewsletterDGAE nº4, de Dezembro de 2004. 
Lisa Parkinson é uma personalidade altamente conceituada e de reconhecido
mérito internacional na área da mediação familiar, quer como mediadora familiar quer
como formadora de mediadores familiares, com mais de 25 anos de experiência.
Esta iniciativa editorial para além de prosseguir a missão e atribuições do Gabinete
para a Resolução Alternativa de Litígios, encontra justificação na total ausência de
monografias nacionais versando a temática da mediação familiar e assume particular
relevo no momento propício em que se assume como objectivo para 2008, o
alargamento do Sistema de Mediação Familiar a todo o território nacional.
A obra que agora se publica espelha a experiência e reflexão da autora ao
longo da sua extensa prática como mediadora familiar. O livro começa por
abordar os conceitos básicos de mediação e do conflito, por apresentar diferentes
modelos de mediação familiar, para de seguida explanar diversas técnicas de
mediação familiar, como por exemplo:
1) Comprometer ambas as partes no processo de mediação familiar;
2) Gerir desequilíbrios de poder em mediação;
3) Aplicar estratégias para situações de impasse. 
A obra termina com um capítulo sobre o futuro da mediação, onde se expõe
de forma breve a situação da mediação familiar na Europa, com referência ao
recurso à mediação em situações de disputas internacionais de filhos e a diferentes
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tipos de mediação (com deficientes, em situação de cuidados com idosos e em
contendas de heranças). Menciona, ainda, redes informáticas sobre mediação e
diferentes facetas do papel do mediador.
Pelo exposto consideramos que esta obra é indispensável para qualquer
interessado na temática da mediação familiar. 
Com a perspectiva de enriquecer a presente publicação apresentamos no final
uma sinopse da mediação familiar em Portugal.
Por último, resta-nos, uma vez mais, agradecer o fantástico e generoso
contributo da Lisa.
O nosso muito obrigado.
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Juan Carlos Vezzulla
Presidente do Conselho Científico do Instituto de Mediação e Arbitragem de Portugal 
Quando Lisa me pediu para redigir a introdução à edição portuguesa de seu
livro tive lembranças que me ligavam a ela e a Portugal. Lembranças de trabalhos
e encontros que começam no ano 2000, na III Conferência do Fórum Mundial de
Mediação, na Sardenha, em Itália. A partir desse Congresso começámos a trabalhar
juntos no Conselho de Administração dessa entidade internacional. 
Casualmente, nesse mesmo ano fui convidado pelo Ministério da Justiça português,
através da recém criada Direcção-Geral da Administração Extrajudicial, para participar
na I Conferência RAL. Desde então Lisa, Portugal e eu continuamos unidos. 
A mediação familiar tem sido o nosso eixo de união e a nossa paixão comum.
Hoje em dia é dificil dar uma definição do que é uma família, pois as grandes
transformações sociais, psicológicas e legais vividas leva-nos a considerar questões
impensáveis até hà poucos anos a trás. Os laços de sangue, ponto de partida para
falar de família no passado, assim como a rígida distribuição de funções entre os
seus membros já não são mais indicadores fundamentais da família. Famílias
monoparentais, homossexuais e a crescente quantidade de casais que optam por
não ter filhos, dão conta de novas composições familiares. Mas fundamentalmente
a passagem do exercício absoluto do poder paternal a uma salutar e democrática
participação de todos os membros na tomada de decisões demonstra claramente
a enorme evolução e a mudança vivida em poucos anos.
Legalmente o Direito de Família passou também por transformações muito
significativas, de espaço privado, onde o pai era dono da mulher e dos filhos, à
situação actual onde mulheres, crianças e adolescentes gozam de direitos especiais
que levam a que seja exercida uma tutela pública quando esses direitos não são
atendidos. Tanto a comunidade que deve denúnciar a miníma suspeita do
desrespeito desses direitos, quanto o Estado que com a criação de espaços
especiais atende os casos de violência doméstica, na protecção dos seus membros,
cuidam do exercício desses direitos com uma tutela especial. 
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Todas estas característicasexigem logicamente uma abordagem diferente dos
conflitos familiares que acompanhe os novos direitos e o sistema relacional mais
respeitoso e cooperativo, onde as necessidades e desejos de todos são tomados
em consideração na hora de decidir.
Se o patriarcado correspondia ao sistema judicial de decisões impositivas, o
novo modelo de interacção corresponde sem dúvidas à mediação e ao seu sistema
de autodeterminação na base da cooperação, do respeito e fundamentalmente da
responsabilidade. 
Pioneira da mediação familiar em Europa, uma das fundadoras do Fórum Mundial
de Mediação e também do Fórum Europeu de Mediação Familiar, Lisa manteve
sempre uma permanente exigência por acompanhar as mudanças das famílias e assim
poder, pelo seu trabalho, oferecer mais no atendimento das demandas da sociedade. 
A publicação desta obra é sem dúvida um grande acontecimento para todos os
mediadores de Portugal e dos outros países de língua portuguesa por várias
razões:
Primeiro porque este livro resume os anos de experiência de trabalho com
famílias na Grã-Bretanha e noutros países onde Lisa desenvolveu a sua actividade
de mediadora familiar;
Segundo porque, pioneira na Europa, Lisa Parkinson soube dar à mediação
familiar a sua verdadeira dimensão e função humanas, pela abordagem que faz
dos conflitos entre os cônjuges e entre os pais e os filhos, nessa difícil, mas
misteriosamente atraente vida familiar;
Terceiro porque Lisa expressa os seus conhecimentos, experiências e técnicas
com uma grande humildade e simplicidade, como se toda essa difícil função de
ser mediador familiar fosse a sua forma natural e espontânea de auxiliar as famílias
a entenderem e resolverem os seus conflitos;
Quarto porque incorpora as contribuições das diversas escolas de mediação e
contribui ela própria com técnicas e procedimentos sem se enaltecer, nem se
colocar numa posição de possuidora da verdade que exclui outros conceitos ou
práticas. Este livro é o reflexo da sua experiência, teórica e prática, que tem
demonstrado excelentes resultados.
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Mas, o aspecto mais importante que me levou a aceitar o convite de Lisa para escre-
ver esta introdução foi ela própria: Lisa Parkinson que é uma das pessoas mais admi-
ráveis que se possa conhecer. Sensível, perceptiva, respeitosa e com uma capacidade
pedagógica ímpar, está sempre disposta a acolher, a compreender e a contribuir coope-
rativamente em todas as circunstâncias com todas as pessoas com as quais se relaciona.
Por termos participado juntos em tarefas científicas, pedagógicas e
institucionais posso dizer que se aprende com ela tanto nas aulas quanto na vida
quotidiana, na informalidade. Ler o seu livro é como estar a ouvi-la nas suas aulas.
Em Portugal, o nosso trabalho em conjunto tem passado pela capacitação em
mediação familiar dos mediadores de conflitos e pela orientação de seminários
vocacionados para os mediadores de família, como formação complementar. 
Com toda essa experiência não tenho dúvidas de que a publicação deste livro
revela-se imprescindível para os que trabalham os conflitos familiares por ser um
dos manuais que melhor define e delimita a abordagem da mediação.
Finalmente e por tudo o aqui foi expressado considero importante destacar os
méritos do Ministério da Justiça, através do Gabinete para a Resolução Alternativa de
Litígios por terem escolhido este texto para integrar a sua colecção de publicações.
O meu reconhecimento a Lisa Parkinson por ter escrito este manual e autorizar sua
publicação em português, ao Ministério da Justiça, aos mediadores de família que com
tanto esforço trabalham, a maioria deles, desinteressadamente para oferecer à
população o melhor serviço, porque graças a vós a mediação familiar esta viva em
Portugal e pode assim receber uma obra desta importância científica e profissional.
Unindo esforços esperemos que os leitores desta obra se convençam da grande
função da mediação na abordagem dos conflitos familiares e sua transcendência
pacificadora e emancipadora nas comunidades e divulgue estes conceitos para
implantar a cultura da mediação definitivamente em Portugal. 
Por todo isso, escrever esta nota de introdução ao livro de Lisa Parkinson tem
sido para mim muito gratificante e representa uma grande honra. 
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Capítulo I
MEDIAÇÃO E CONFLITO
A necessidade urgente de encontrar meios pacíficos para resolver conflitos
e diferendos
Conflitos violentos e actos de destruição maciça constituem tremendas ameaças
para a sobrevivência da nossa sociedade e do meio em que ela se desenvolve no
século XXI. Conflitos violentos dão origem a receios profundos e causam enorme
sofrimento. E, dado que os conflitos são tão perigosos, as reacções biológicas aos
conflitos e às agressões são normais em todos os animais, incluindo os humanos.
Muitas das reacções são do tipo “lutar ou morrer”. Muitos animais evitam instintiva-
mente o conflito directo, submetendo-se ao indivíduo ou ao grupo que reconhecem
como o mais forte. As sociedades humanas elaboraram maneiras mais sofisticadas para
tentar resolver os conflitos, incluindo a negociação e a mediação, mas muitas vezes
falham na sua utilização. As reacções aos conflitos nas chamadas “sociedades desen-
volvidas” são frequentemente primitivas e as consequências geralmente desastrosas.
Acresce que o conflito em si não é nem positivo nem negativo, é uma força natural
necessária para crescer e mudar. A vida sem conflitos seria estática. O importante é ver
se, e como é o conflito gerido. Se o conflito for gerido cuidadosamente, não precisa de
ser destrutivo. Não precisa de destruir indivíduos ou comunidades, nem o
relacionamento entre eles. A energia que é produzida num conflito pode ser canalizada
construtivamente em vez de destrutivamente. Quando os conflitos são resolvidos duma
forma integradora em vez de se optar pela via da disputa, as relações podem ser
mantidas e até reforçadas. Com boa vontade por parte das facções litigiosas, as
percepções e as atitudes duns para com os outros podem ser diferentes. A atmosfera
modificada de abertura, de escuta e de cooperação pode irradiar deles para outros
membros da sua família ou comunidade. De acordo com o ensinamento Budista,
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podemos aprender que “a maior parte do nosso tempo é gasta a analisar diferenças.
Concentremo-nos agora em semelhanças, no que existe de comum entre … opositores
antagónicos …Procurem o que os une em vez do que os separa … procurem esta
relação e serão mais amáveis com cada um dos parceiros” (Juiz Christmas Humphreys,
1984, pág. 158). A mediação oferece meios positivos para resolver disputas e para gerir
conflitos. Na mediação, o mediador assume uma posição central e equilibrada entre os
participantes. A partir dessa posição central, o mediador pode ajudá-los a canalizar e a
conciliar as suas energias procurando encontrar soluções em vez de se hostilizarem,
recusando ou aceitando compromissos que deixam bastante a desejar.
Como definir mediação
A palavra “mediação” deriva do latim “medius, medium”, que significa “no meio”.
Mediação é um “processo de colaboração para a resolução de conflitos” no qual duas
ou mais partes em litígio são ajudadas por uma ou mais terceiras partes imparciais
(mediadores) com o fim de comunicarem entre elas e de chegarem à sua própria
solução, mutuamente aceite, acerca da forma como resolver os problemas em disputa.
Os mediadores ajudam as partes a explorar as opções disponíveis e, se possível, a
atingir decisões que satisfaçam os interesses de todos os envolvidos. Os participantes
são ajudados a chegar às suaspróprias decisões voluntariamente e com conhecimento
de causa, sem ameaças ou pressões uns dos outros e sem directivas por parte do
mediador. Quando a solução proposta tem consequências legais, é-lhes normalmente
recomendado obterem separadamente um parecer jurídico independente antes de se
esforçarem por formalizar o seu consenso por meio dum acordo legalmente
vinculativo. A mediação é entendida internacionalmente como o termo genérico que
cobre diversas formas de intervenção usadas para resolver disputas de múltipla
natureza – civil e comercial, vizinhança e comunidade, alojamento, divórcio e outros
tipos de disputas familiares, saúde, educação, emprego, sistema de justiça criminal e
disputas do foro internacional. A palavra mediation é usada com apenas variações
menores de ortografia e pronúncia em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e
português. A mediação é largamente utilizada através do mundo inteiro, desde a
Europa e América do Norte à Austrália e Nova Zelândia, China e Japão. Nos países de
língua espanhola e portuguesa, o uso da mediação desenvolveu-se rapidamente.
Multiplicam-se as trocas internacionais entre mediadores através de literatura,
relatórios de investigação, conferências e Internet.
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Mediação – origens e desenvolvimento
A mediação é vista muitas vezes como um novo processo, embora na verdade
ela tenha um longo legado em civilizações e culturas muito diferentes. Na antiga
China, Confúcio incentivou as pessoas a usar a mediação em vez de recorrer aos
tribunais. No século V a.C., Confúcio chamou a atenção para o facto do sistema
litigioso ser susceptível de deixar as partes cheias de azedume e incapazes de
colaborarem umas com as outras. Recomendou que, em vez de irem a tribunal, as
partes deviam encontrar-se com um pacificador neutro que as ajudaria a
conseguirem um entendimento. Os antropólogos, por seu lado, têm documentado
a tradição existente em muitas partes de África de convocar uma assembleia na
qual os anciãos tribais mais respeitados são solicitados para ajudarem a resolver
as disputas entre indivíduos, famílias ou aldeias. Conhecem-se muitos exemplos
de mediação desde tempos recuados em comunidades na Europa e na América
do Norte. Entre os deveres dum chefe índio Cheyenne contava-se o de actuar
como pacificador e mediador para resolver quaisquer querelas que surgissem no
acampamento. Os antigos Quakers usavam a mediação como o meio preferido
para resolver disputas conjugais e comerciais. Em Inglaterra, na década de 1860,
foram criados os primeiros Conselhos de Conciliação para ajudar a resolver
contendas em certas indústrias. Há uma longa tradição de mediação nas
comunidades judaicas. A Comunidade Judaica Americana de Nova Iorque fundou
o Conselho Judaico de Conciliação para promover a resolução consensual de
disputas. Em cada esfera de actividade a mediação tem sido utilizada de diversas
formas para facilitar a comunicação e para ajudar as partes em litígio a chegar a
decisões consensuais.
O uso da mediação tornou-se mais formal em muitos sectores – em matérias
laborais, na indústria e no comércio, na saúde e educação e no sistema de justiça
criminal, nomeadamente com a introdução de uma justiça restaurativa entre vítima
e ofensor. A mediação comunitária é usada para resolver disputas entre vizinhos
no que se refere a limites de propriedade, ruído ou utilização de bens comuns, e
problemas entre senhorios e inquilinos. A nível internacional, os mediadores
podem ser chamados para ajudar a resolver disputas entre diversos países ou
comunidades. Foram mediadores que ajudaram a conseguir o acordo negociado
entre Israel e a Palestina em Janeiro de 1997 sobre a retirada das forças de Israel
da zona ocidental da cidade de Hebron. Ainda que as esperanças de paz no Médio
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Oriente se tivessem esfumado, isso não significava que o diálogo devesse cessar
– pelo contrário, devia ser continuado com renovada energia e determinação para
encontrar soluções pacíficas. Nelson Mandela, o anterior presidente da África do
Sul, talvez tenha sido o mediador internacional mais aclamado. Em Julho de 2000,
Nelson Mandela usou as suas qualidades de mediador na ruinosa contenda que se
verificou no interior da África do Sul a propósito da causa da SIDA, mostrando aos
cientistas e aos políticos a urgência de trabalhar em conjunto numa luta contra
uma doença que estava a devastar a África. O Prémio Nobel da Paz de 2000 foi
concedido ao Presidente da Coreia do Sul, Kim Dae Jung, pelo seu infatigável
trabalho no sentido de resolver o conflito e promover a paz entre a Coreia do
Norte e a Coreia do Sul. Desde a sua eleição como Presidente, Kim Dae Jung
melhorou extraordinariamente as relações entre os dois países através da sua
política de congregar 70 milhões de coreanos.
Nalguns países, a mediação é o caminho normal para resolver disputas,
chegando mesmo a ser obrigatório. A moderna China, com mais de um bilião de
habitantes, tem cerca de um milhão de mediadores. Existem mediadores
praticamente em toda a parte, e as disputas no seio das famílias, das comunidades
ou nos locais de trabalho são normalmente resolvidas por mediação (Cloke, 1987).
Os mediadores chineses e japoneses possuem autoridade, e espera-se que
defendam os valores morais, que reprovem a maldade e a injustiça duma das
partes e que louvem a outra por agir correctamente. As partes em litígio devem,
supostamente, resolver as suas diferenças duma maneira responsável e pacífica
para o bem da família e da sociedade como um todo. Esta abordagem paternalista
é aceite tanto na China como no Japão, países em que a ênfase posta em preceitos
e persuasão morais parece funcionar bem. Em contrapartida, a mediação é vista
noutros países como um meio de capacitar as partes para tomarem as suas
próprias decisões e estabelecer os seus próprios acordos. Muitos países criaram
legislação e procedimentos que autorizam os tribunais a remeter processos para
mediação e que encorajam as decisões pré-judiciais. A Austrália foi um dos
primeiros países a elaborar uma legislação no sentido de usar a mediação em
disputas de âmbito familiar (Family Law Act of Australia, 1975). A legislação na
Austrália é anterior à formulação dos serviços de mediação para famílias. Na
Inglaterra e no País de Gales, a Lei da Família de 1996 foi baseada em vinte anos
de iniciativas locais voluntárias para assegurar serviços de mediação familiar.
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Benefícios da mediação versus processos litigiosos
A comparação entre mediação e processos litigiosos tem tendência a
apresentar a mediação como a “boa” solução e os processos litigiosos como “os
maus da fita”. Este julgamento simplista não é justo para nenhum dos sistemas. A
mediação nem sempre é adequada nem possível, e mesmo que o seja, não é
seguro que conduza a um acordo. A mediação tem limitações e os resultados
finais variam de caso para caso. Há muitos casos em que a via judicial deve ser
usada em vez de (ou em conjunto com) a mediação. Muitos tribunais actuam nos
dias de hoje segundo processos orientados para conseguir um acordo. Contudo,
as partes em disputa, que se arriscam a ser envolvidas em procedimentos judiciais
demorados e adversos têm o direito de saber as diferenças entre processos
litigiosos e mediação, de modo a poderem fazer uma escolha com conhecimento
de causa e estando cientes de que os processos litigiosos envolvem custos
emocionais e financeiros.
Processos litigiosos Mediação
As partes são tratadas como adversários As partes são estimuladas a procura interesses 
mútuos
As questões são definidas pelos advogados As partes explicam as questões pelas suasrecorrendo a termos legais próprias palavras
Os advogados actuam como defensores Os participantes falam e escutam-se um ao outro
do seu cliente
As posições radicalizam-se, afastando As diferenças são reduzidas, estabelecem-se pontes
ainda mais os casais
Os processos estão sujeitos a regras legais formais Os processos são informais, confidenciais e flexíveis
Os processos duram normalmente muito Os acordos podem ser atingidos rapidamente
tempo e sofrem atrasos 
As partes confiam nos seus advogados Os participantes explicam as suas necessidades
A atenção está centrada em danos A atenção está centrada na procura de soluções 
e ofensas do passado futuras
Os estados de conflito e de tensão O conflito resolvido e a tensão diminui
são prolongados
Dificuldade em considerar diferentes alternativas Pondera todas as opções disponíveis
Os custos são elevados para os litigantes Os custos legais podem ser reduzidos ou evitados
e para o Estado
As decisões são impostas pela autoridade judicial A tomada de decisão é participada
As decisões impostas têm menos probabilidades As decisões consensuais têm maiores 
de subsistirem probabilidades de perdurarem
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RAD – Resolução Adequada de Disputas1
A mediação é um dos processos do grupo – que inclui ainda a negociação e
a arbitragem –, em que se procura chegar a um acordo. Estes processos
encontram-se genericamente agrupados sob o título de Resolução Alternativa de
Disputas (RAD). Neste contexto, entende-se Alternativa como uma opção aos
processos judiciais. Mas parece mais correcto designá-los por Resolução
Adequada de Disputas do que por Alternativa, uma vez que negociação e
mediação são frequentemente usadas em conjugação com processos judiciais,
muito mais do que como um substituto. 
Negociação, arbitragem, conciliação e mediação – o que os diferencia?
A negociação directa é um processo bilateral no qual as partes negoceiam
directamente entre si, sem pedirem a outras pessoas para conduzir ou acompanhar as
suas negociações. Em casos de separação ou de divórcio, muitos casais elaboram eles
próprios grande parte do acordo, embora possam eventualmente precisar de ratificar
essas resoluções por um tribunal ou por uma autoridade administrativa.
NEGOCIAÇÃO DIRECTA
Negociação indirecta através de representantes: 
É muitas vezes difícil para as partes negociarem directamente quando o seu
relacionamento foi fragmentado. De modo idêntico, também a comunicação fica
muitas vezes afectada. A tendência consiste em utilizar o serviço de advogados.
Um grande número de acordos é obtido por negociação através de representantes
legais. Os advogados experientes com conhecimento em negociação resolvem a
maior parte dos seus casos por esse método, e só raramente recorrem à via
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1 ADR – Appropriate Dispute Resolution
João Susana
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judicial. Se, porém, as negociações falharem, há sempre a possibilidade de nomear
advogados para representar cada uma das partes em tribunal.
NEGOCIAÇÃO ATRAVÉS DE ADVOGADOS
Arbitragem: Quando as partes envolvidas numa disputa decidem recorrer à
arbitragem, pedem a um especialista independente ou a um painel de especialistas
independentes para tomar ou recomendar uma decisão. A decisão do árbitro tem
força executiva, mas pode acontecer que seja apenas dada a título de recomen-
dação. A audição é privada e as partes podem decidir aspectos formais, como por
exemplo, a gravação dos debates. As partes têm normalmente representação legal
na audição. 
Mediação familiar 
O termo mediação familiar é usado na Europa preferencialmente ao termo
mediação de divórcio, que é correntemente utilizado nos Estados Unidos. A
mediação de divórcio não é relevante para o enorme número de casais que vivem
juntos sem estarem casados. Além disso, só dá uma mensagem unilateral, por se
apresentar como a favor do divórcio e do lado do parceiro que inicia o divórcio.
A ênfase sobre a palavra família é muito importante por outras razões. Há muitos
tipos de litígios envolvendo famílias – por exemplo disputas pais-filhos, adopção,
cuidado dos idosos, questões de heranças – que não implicam soluções de
separação ou divórcio. A mediação pode ser utilizada entre os pais e um
adolescente que tenha saído de casa, entre irmãos que podem não concordar se
um dos pais idosos deve ir para um lar, ou entre a primeira e a segunda esposa
e os possíveis filhos de ambos os matrimónios envolvidos numa disputa de
herança. A utilização mais corrente da mediação familiar verifica-se em casos de
separação ou de divórcio, em que os pais são ajudados a manter o seu papel de
pais, e ao mesmo tempo a separarem as suas preocupações conjuntas como pais,
da raiva e tristeza de terminarem o seu relacionamento enquanto casal. Os pais
21
João
Advogado
do João
SusanaAdvogado
da Susana
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são ajudados a concentrarem-se nas necessidades e sentimentos individuais dos
seus filhos, e a construírem planos para os mesmos. Desde que haja acordo entre
os pais, outros membros da família, como padrastos/madrastas, avós ou filhos
podem ser incluídos no processo de mediação. Trata-se dum processo para
famílias em transição duma estrutura familiar para outra: os seus objectivos
consistem em facilitar a comunicação, tomar decisões cooperativos e renegociar o
relacionamento.
A mediação familiar tem sido definido como “um processo no qual uma
terceira pessoa imparcial ajuda os que estão envolvidos numa ruptura familiar, e
em especial, casais em vias de separação ou de divórcio, a comunicar melhor entre
eles e a atingir de comum acordo e com base em informação adequada as suas
próprias decisões sobre alguma ou todas as questões relativas a separação,
divórcio, filhos, finanças ou propriedades (Colégio de Mediadores Familiares do
Reino Unido, Código de Procedimentos, 1995)
MEDIAÇÃO
Os princípios fundamentais da mediação familiar
Os princípios e limites da mediação são determinados para definir a sua
identidade única, para preservar a sua integridade e para salvaguardar aqueles que
a utilizam. Esses princípios e fronteiras diferenciam a mediação conduzida por
mediadores qualificados de práticas informais de mediação que são muitas vezes
prestadas por um amigo comum ou por um parente de confiança.
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João
Susana
Mediador
Discussão
à volta
da mesa
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De forma sumária os princípios fundamentais são:
1. Participação voluntária (obrigatória nalguns países)
2. Imparcialidade do mediador (designada por vezes por “neutralidade”)
3. Denúncia, por parte do mediador, de qualquer conflito de interesses 
4. Capacitar as partes para tomarem as suas próprias decisões mediante
esclarecimentos 
5. Respeito pelos indivíduos e pela diversidade cultural
6. Segurança pessoal – protecção contra riscos 
7. Confidencialidade, sujeita a certas limitações
8. Privilégios legais
9. Atenção focada no futuro, e não no passado
10. Maior ênfase nos interesses comuns do que nos individuais
11. Ter em consideração os interesses de todos os envolvidos, incluindo os
filhos
12. Competência do mediador
1. Participação voluntária
O termo “mediação compulsiva” é geralmente encarado como uma expressão
contraditória. Há uma diferença importante entre propor a participação numa
reunião de esclarecimento e uma mediação compulsiva. Na reunião preliminar de
informação o mediador explica as vantagens da mediação familiar como um
processo voluntário: os que nela tomam parte precisam de participar livremente,
sem serem forçados e sem terem medo. Devem ter a liberdade de abandonar a
mediação em qualquer fase da mesma. Por seu lado, o mediador podetambém
dar por terminada a mediação se a mesma deixar de ser útil ou não se vislumbrar
qualquer possibilidade de progresso.
2. Neutralidade e imparcialidade
Um mediador é muitas vezes referido como uma terceira parte neutra. Mas o
termo “neutralidade” é susceptível de assumir sentidos diversos. Por exemplo,
significa “imparcialidade” na medida em que o mediador não é parte interessada.
Em segundo lugar, neutralidade pode querer dizer que o mediador não tem
qualquer interesse material ou pessoal no resultado do processo de mediação.
23
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Imparcialidade pode também envolver o conceito de “equidistância”, significando
que o mediador presta igual atenção a todos os participantes e gere o processo
duma maneira equilibrada e imparcial. Muitos mediadores consideram-se
imparciais, mas reconhecem que não conseguem ser neutros. Os mediadores não
podem ser neutros se a neutralidade significar que eles não trazem valores e não
exercem qualquer influência no processo de mediação. Qualquer terceira parte está
obrigada moralmente a influenciar não apenas a maneira como as partes negoceiam,
mas também o próprio conteúdo das suas negociações. Os mediadores intervêm
selectivamente com formas que podem sugerir ou reforçar certos valores. Há uma
continuidade entre a facilitação “pura”, não dirigida pelos mediadores, e as
intervenções pró-activas. Os mediadores poderão encontrar-se em diferentes estados
evolutivos neste percurso contínuo, mas todos se consideram como mediadores.
A formação profissional dos mediadores pode influenciar o seu entendimento do
que significa na prática neutralidade e imparcialidade. Mediadores com uma
experiência jurídica podem ver a neutralidade e a imparcialidade em termos de
princípios legais e em estrita conformidade com a lei. Mediadores treinados em
disciplinas de saúde mental estarão menos inclinados a considerar-se neutros e mais
dispostos a definir imparcialidade em termos de manutenção de equidistâncias.
Mediadores treinados em ciências humanas podem estar também mais conscientes
da influência potencial dos seus valores pessoais e profissionais e dos seus próprios
condicionalismos. Existe igualmente alguma controvérsia sobre se os mediadores
desempenham algum papel como educadores, para explicarem aos pais o que os
filhos precisam em processos de separação e de divórcio (ver capítulo 6). Os
mediadores que pensam que sabem melhor do que os pais o que é melhor para os
seus filhos – ou que aconselham as partes sobre o que seria uma solução financeira
correcta – estão nitidamente a ultrapassar as fronteiras do papel do mediador. 
3. Denúncia, por parte do mediador, de qualquer conflito de interesses 
Os Códigos Profissionais de Conduta para mediação podem indicar que, nos
casos em que o mediador tem um conhecimento prévio e/ou uma relação prévia
profissional ou social com alguma ou com ambas as partes, não deve aceitar a
mediação. Deve ser nomeado outro mediador, mesmo que as partes não tenham
nenhuma objecção contra o primeiro nome, pois podem não fazer ideia da
24
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influência potencial do conhecimento prévio do mediador ou da relação com um
deles. O envolvimento prévio como um consultor jurídico é incompatível com a
imparcialidade que se exige a um mediador, que não pode ser influenciado por
quaisquer conhecimentos ou impressões prévias. Em muitas situações, a regra do
conflito de interesses é evidente. Deveria ser óbvio que um advogado que esteja
a trabalhar presentemente para uma das partes não pode actuar como um
mediador imparcial. Deveria ser, também, óbvio que um advogado que defendeu
uma das partes num divórcio anterior não deveria assumir o papel de mediador,
porque inevitavelmente essa situação seria influente na mediação. A Law Society
of England and Wales publicou um Código de Procedimentos para a Mediação
Familiar (1999) no qual se indica que a mediação não se deveria realizar “se o
mediador ou um membro da sua empresa tiver trabalhado para qualquer das
partes mesmo em questões não relacionadas com a mediação, salvo se tal tiver sido
comunicado às partes, e que estas consintam” (s.3.4.3).
4. Capacitação dos participantes na tomada esclarecida de decisões 
A capacitação é um princípio fundamental da mediação. Tal como a neutralidade,
a capacitação tem um certo número de significados. Por um lado, há capacitação por
partilha de conhecimento. Os mediadores ajudam as partes a tomarem as suas
próprias decisões, baseadas em informação e ponderação. Os mediadores explicam
que o pleno conhecimento da situação financeira é indispensável em mediação, em
todas as suas vertentes, e encorajam o fornecimento completo da informação e
documentação, de maneira a que os debates e as decisões sejam baseadas no facto
de que ambas as partes tenham recebido e tomado em consideração toda a
informação pertinente. É pedido aos participantes que assinem um Termo de
Consentimento da Mediação2, no qual se comprometem a fornecer diversas
informações, entre as quais informação financeira. O mediador ajuda-os a obter a
informação e os documentos que lhes permitirão chegar a um acordo com pleno
conhecimento de causa. Eles podem ser aconselhados a esclarecerem com os seus
consultores jurídicos sobre as revelações feitas pela outra parte e a obterem conselho
25
2 Nota do editor – O Termo de Consentimento da Mediação é um documento em que as partes assumem
voluntariamente um processo de mediação e aceitam as regras estipuladas. Em Portugal este documento é assinado
pelas partes e pelo mediador.
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sobre se é necessário realizar mais averiguações desse foro. A mediação deve cessar
se uma das partes se recusar a fornecer informações ou se fornecer informações que
se verifiquem ser deliberadamente incompletas ou falsas. Ao colectar e partilhar
informação, e ao explorar diversas opções, os mediadores dão também informações
e possibilitam aos participantes o alargamento do seu leque de opções. As
informações prestadas pelo mediador podem eventualmente abrir novas
possibilidades de que o casal desconhecia anteriormente. A informação deve ser
verificável e prestada duma forma equilibrada.
Outro aspecto da capacitação deve ser a protecção contra pressões. Os
mediadores não devem permitir que um dos participantes pressionasse o outro,
nem o mediador deve dar conselhos ou orientar os participantes num
determinado sentido, por exemplo, sugestionar a decisão que o tribunal poderia
tomar. No Termo de Consentimento da Mediação é explícito que o resultado da
mediação não é vinculativo para os participantes. Se houver consequências legais
ou financeiras, as partes devem ter uma oportunidade para serem aconselhadas
separada e independentemente, antes de se comprometerem com o acordo que
eles consideram legalmente vinculativo. Os mediadores podem até alertar para os
perigos dum acordo prematuro que poderia prejudicar uma ou ambas as partes
em relação ao acordo final. Se, pelo contrário, se atingir um acordo numa matéria
cuja natureza não requer nenhum parecer legal independente ou não precisa de
mais nenhum outro parecer, os participantes poderão decidir chegar a acordo, na
condição de que compreendam perfeitamente os seus termos e consequências.
5. Respeito pelos indivíduos e pela diversidade cultural
Os mediadores procuram assegurar que todos os participantes sejam tratados
com respeito e que pessoas de quaisquer raças ou culturas sejam tratadas com
idêntico respeito. Os mediadores precisam de treino e de recursos adicionais para
mediação com culturas diferentes. A mediação deve estar disponível para todos os
casais, casados ou solteiros, em qualquer fase de separação ou de divórcioe para
parentes noutros tipos de litígios. Deve ser acessível a todas as famílias de acordo
com uma política de oportunidades idênticas. Devem ser atendidas necessidades
especiais, tais como o acesso para deficientes motores e o atendimento apropriado
para quem tenha problemas auditivos.
26
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6. Segurança pessoal e protecção contra riscos
É indispensável realizar uma triagem prévia com cada um dos participantes.
Nos casos em que houver receios ou perigos de violência ou dano, os mediadores
devem considerar seriamente se a mediação deve ir avante, e, no caso positivo,
em que circunstâncias e condições. Os mediadores devem assegurar-se de que
cada participante toma parte na mediação de livre vontade, sem receios de
violência ou intimidação. Quando a mediação estiver em curso devem ser tomadas
medidas apropriadas para garantir a existência de áreas de espera separadas e, se
aconselhável, realizar reuniões separadas com cada parte. Se uma das partes
recear violência ou dano durante uma reunião, ele ou ela deve ter a liberdade de
abandonar a sala de mediação e o edifício antes da saída da outra parte, a fim de
reduzir qualquer receio ou risco de ser atacado ou seguido.
Os mediadores devem ser capazes de reconhecer diferentes desequilíbrios de
poder que afectem o processo de mediação, e de tomar medidas apropriadas para
gerir esses desequilíbrios, tais como o estabelecimento das regras de jogo, a
partilha de informação e a identificação da necessidade de aconselhamento
jurídico ou outro (ver capítulo 7). Se não for possível gerir adequadamente esses
desequilíbrios, ou se houver intimidação, linguagem ou comportamento abusivo,
o mediador deverá explicar que a mediação terá de ser cancelada se os
participantes não forem capazes de cumprir as regras básicas acordadas no Termo
de Consentimento da Mediação. Se os participantes continuarem a tratar-se sem
respeito, o mediador deve suspender ou terminar a mediação.
Crianças em risco
Quando uma criança ou qualquer outra pessoa estiver em risco dum dano
significativo, o mediador deve, na medida do possível, analisar com as partes os
procedimentos que devem ser tomados. Se uma criança estiver a sofrer ou em
risco de sofrer um dano grave, os pais ou outros responsáveis devem ser alertados
para procurar ajuda adequada. No Termo de Consentimento da Mediação
explicita-se claramente que em tais circunstâncias a confidencialidade deve ser
quebrada e que o mediador deve entrar em contacto com o profissional que preste
essa ajuda adequada e tomar as medidas que sejam necessárias para proteger a
criança ou a outra pessoa que se encontra ou que se julga encontrar em risco. 
27
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7. Confidencialidade
Os mediadores comprometem-se a não divulgar informação a nenhuma outra
pessoa ou órgão sem obter o consentimento por escrito de todos os participantes,
excepto quando a lei e/ou o seu Código Processual impuserem uma obrigação
derrogatória de revelação. Os participantes devem ser esclarecidos, verbalmente
ou por escrito, que a confidencialidade da mediação não é absoluta.
8. O privilégio legal próprio da mediação 
Os tribunais ingleses apoiaram durante muito tempo a existência dum
privilégio legal relacionado com declarações e comunicações em que as partes
estão a negociar com a finalidade de conseguir uma reconciliação. Este
privilégio está baseado no princípio de que há um interesse público em permitir
que as possibilidades de reconciliação sejam exploradas, sem risco de que
nenhuma das partes seja prejudicada em procedimentos judiciais subsequentes,
em resultado de ter havido uma tentativa de reconciliação. O privilégio legal
relacionado com tentativas para facilitar a reconciliação foi ampliado para
abranger também o processo de mediação, em que o mediador ajuda as partes
a solucionar um conflito. A única excepção, feita pelos tribunais ingleses,
verifica-se nos casos em que as declarações produzidas no processo de
mediação indicam que uma criança se pode encontrar num risco de gravidade
significativo. Nessas circunstâncias, o tribunal pode derrogar o privilégio legal
relacionado com a mediação.
9. Focalização no futuro
O litígio tem tendência a centrar-se sobre os erros e ofensas passadas. A
mediação foca o presente e o futuro, muitas vezes sem se deter na história
passada. Muitos participantes encontram um enorme alívio em ser ajudados a
olhar para a frente, em vez de olhar para trás. Informação sobre o passado poderá
ser necessária quando for directamente relevante para as decisões correntes e para
o planeamento futuro.
28
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10. Maior ênfase em interesses mútuos do que nos individuais
Os mediadores ajudam as partes a reconhecer os seus interesses e
preocupações mútuas e a chegarem a decisões que incorporam essas
preocupações partilhadas, em vez de insistirem em argumentos baseados nos seus
direitos. Em linguagem de mediação, as partes são ajudadas a chegar a soluções
de “ganha-ganha”, em que todos ganham, e não de “ganha-perde”, em que um
perde para o outro.
11. Tomada em consideração das necessidades de todos os interessados,
incluindo os filhos
Os mediadores ajudam os pais a ter em consideração as necessidades e os
sentimentos dos seus filhos, bem como, os seus próprios. Não está no papel do
mediador aconselhar os pais sobre os melhores interesses dum filho em particular.
Os mediadores ajudam os pais a considerar a posição, as necessidades e os
sentimentos de cada um dos filhos, ao procurarem soluções para eles que sirvam
também para todos os que estão envolvidos (capítulo 6).
12. Competência do mediador
Os mediadores deveriam mediar em assuntos em que estejam treinados e
sejam competentes para mediar. Eles precisam de ter em consideração a
complexidade dos casos e se os mesmos se enquadram na sua competência de
mediadores. Se o mediador não tiver a experiência e o conhecimento necessário
para os assuntos em causa, a mediação deveria ser passada para um mediador
devidamente qualificado. Na Inglaterra e no País de Gales, os mediadores
registados oficialmente devem passar com aprovação a uma Avaliação de
Competência baseada num conjunto de casos concretos de mediações anteriores,
antes de poderem realizar mediações familiares subsidiadas por fundos públicos
(capítulo 9).
Em que se distingue a mediação familiar do aconselhamento e da terapia?
Os mediadores familiares são muitas vezes treinados e experientes como
conselheiros, psicólogos, assistentes sociais e terapeutas familiares. O conhecimento
29
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e a experiência adquiridos na sua profissão de origem são extremamente válidos. É,
contudo, essencial distinguir entre o papel do mediador familiar e outras funções
com que poderia ser confundido. Os clientes da mediação têm o direito de que não
lhes sejam dados nem aconselhamento nem terapia que eles não pediram e que,
eventualmente, não necessitam. Um mediador familiar não é nem um conselheiro
nem um terapeuta familiar. A comparação que se segue pode ajudar a identificar as
diferenças.
Diferenças entre conselheiros familiares e mediadores familiares
Conselheiros familiares Mediadores familiares
Podem aconselhar apenas uma das partes Comprometem ambas as partes desde o início
A reconciliação pode ser um objectivo Separam os factos das especulações
O processo não tem ligação ao processo legal O processo complementa o processo legal 
O processo muitas vezes é iniciado O processo normalmente é iniciado com um
sem contrato escrito contrato escrito
O processo pode ser a longo prazo O processo normalmente é a curto prazo
Concentram-se na história pessoal e familiarConcentram-se mais no presente e no futuro 
e nas experiências passadas como uma do que no passado
chave para o presente
Concentram-se em sentimentos e nos aspectos Concentram-se em aspectos práticos e 
complicadas das relações na tomada de decisões
As perspectivas e as necessidades dos adultos As relações pais-filhos constituem a 
constituem a principal preocupação principal preocupação
Proporcionam informação sobre o aconselhamento Proporcionam informação sobre a mediação
Procuram aumentar o esclarecimento pessoal Procuram ajudar as partes a atingir um acordo
Podem usar teorias psicanalíticas Recorrem às teorias do conflito e da mediação 
Procuram sobretudo auxiliar Podem ter uma postura mais intervencionista 
A relação entre cliente e conselheiro pode Procuram capacitar as partes e aumentar a 
envolver alguma dependência durante sua autonomia
algum tempo
O processo termina muitas vezes sem Prepara um Memorando de Entendimento /
um acordo escrito Acordo
30
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Diferenças entre terapeutas familiares e mediadores familiares
Terapeutas familiares Mediadores familiares
Orientados para o tratamento Não orientados para o tratamento
Trabalham frequentemente com Trabalham em processos de separação e 
“famílias intactas” divórcio
Incluem crianças desde o início Raramente há crianças implicadas desde o início
Trabalham normalmente sem qualquer Iniciam o processo com a assinatura do 
contrato escrito Termo de Consentimento
Não tem nenhuma ligação com o processo legal Tem ligação ao processo legal 
A comunicação não está estruturada, Facilitam a comunicação duma forma 
observam como comunicam estruturada para garantir uma 
os membros da família participação equilibrada
Acento tónico nos processos familiares Dão relevo às questões inter-pessoais
Têm em consideração os problemas subjacentes Dão relevo a questões manifestas e situações 
por resolver
Transmitem mensagens em vez de informações Dão informações “neutras”
Desenvolvem hipóteses para explicar Ajudam as partes a negociar eficazmente face
o funcionamento familiar ao surgimento de várias hipóteses
Em sala com ecrã de visão unidireccional o Trabalham em conjunto e a comunicação
diálogo entre os terapeutas não é ouvido é aberta em situação de co-mediação
pela família 
Podem dar instruções paradoxais sem explicar Analisam e combinam tarefas com as partes
as razões
Trabalham estrategicamente em matérias que Ajudam fundamentalmente pais a concordarem
envolvem membros da família sobre como falar e como consultar os seus filhos
Terminam muitas vezes sem um acordo escrito Preparam um Memorando de Entendimento 
Muitos advogados de família na Grã-Bretanha e nalguns outros países
europeus, como a Dinamarca, a Alemanha e a Holanda, especializaram-se em
mediação. Muitas vezes a formação é multidisciplinar e pode usar um modelo
de co-mediação. Contudo, um único advogado mediador pode encontrar
dificuldades em passar de funções inerentes a um consultor jurídico para
funções inerentes a um mediador, especialmente se têm o hábito de aconselhar.
Como mediador, o advogado tem de aprender a facilitar a tomada de decisões
pelas partes e de aprender como prestar informações importantes duma maneira
neutra e não-impositiva. Dar informações em mediação exige um jeito especial.
31
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Corre-se o risco de se desviar do papel de mediador por se tornar – ou parecer
que se torna – mais apoiante duma das partes do que da outra. A informação
que é prestada em mediação é fornecida duma maneira diferente e para um fim
diferente da informação que os advogados dão aos seus clientes. Um experiente
advogado familiar e mediador na Escócia explica esta nuance da seguinte forma:
“Como jurista você pode ser mais directivo, partidário e táctico, ao passo que
como advogado mediador a prestação de informação é feita dum modo neutro,
imparcial e o processo é baseado em total abertura em vez de preocupações
estratégicas” (Dick, 1996, at p.4). 
Diferenças entre consultores jurídicos e mediadores familiares 
Consultores jurídicos Mediadores familiares
Trabalham dentro da disciplina da lei Multidisciplinares 
Aconselham o seu cliente individualmente Imparciais, sem tomar partido, ajuda equilibrada
O processo inicia-se frequentemente com As partes são convidadas a indicar as suas 
uma história do litígio necessidades
Aconselham no quadro dos direitos legais Concentram-se em interesses e preocupações mútuas
A informação financeira é coligida e permutada A informação financeira obtida é partilhada no 
formalmente entre advogados interior do processo de mediação
Usam terminologia jurídica Usam linguagem corrente
Ocupam-se das ofensas aos seus clientes Concentram-se nas soluções presentes e futuras
Sem formação na gestão de processos psicológicos Com formação gestão de conflitos
Baseiam-se no relato dos acontecimentos feito Analisam em conjunto, com ambos os pais, a 
pelos seus clientes e nas suas ideias acerca situação dos seus filhos. Os filhos podem 
das questões relacionadas com os filhos participar
Aconselham os clientes sobre o melhor Exploram opções, não-directivas
caminho a seguir 
Negoceiam com “o outro lado” por Os participantes negoceiam em reuniões e
correspondência frente-a-frente
Redigem requerimentos ao tribunal Normalmente não redigem documentos legais 
32
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A Estrutura da Mediação Familiar
A teoria da mediação
Os mediadores precisam duma teoria para fornecer uma explicação e um quadro
de trabalho coerente para a sua actividade. A teoria contém os valores básicos da
mediação. A prática da mediação está alicerçada em crenças e valores sobre pessoas
e conflitos. Os valores e as crenças moldam as nossas respostas aos clientes de
33
Funções de gestão:
– processo e estrutura
– desequilibrios de poderes
– partilha de informação
Define soluções
Recolhe informação
Explora opções
Minuta propostas
Conhecimentos de base necessários para:
– fazer perguntas relevantes
– prestar informação adequada
– analisar os dados financeiros
– saber quando deve consultar especialistas
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mediação, influenciando o que fazemos e o que dizemos. Em 1973, um psicólogo
social, Morton Deutsch, publicou a sua teoria sobre a natureza dos conflitos
humanos e o uso construtivo duma terceira parte na resolução de conflitos
(Deutsch, 1973). Estas teorias positivas são extremamente importantes, mas têm
limitações na prática. Durante a separação ou o divórcio, algumas pessoas
conseguem manter-se calmas, racionais e razoáveis. Mas há muitas que sentem
emoções tão intensas que durante um período de tempo podem ficar impedidas de
falar ou de actuar razoavelmente. Uma teoria de mediação baseada em negociaçãoe resolução de problemas por via cooperativa causa uma dicotomia entre conflito e
cooperação que é demasiado simplista. Em casos em que a mediação não conduz
a um acordo, não significa que a mediação foi necessariamente um falhanço: talvez
tenha aberto uma porta que permita comunicar, o que pode ser mais importante
para um casal do que concluir um acordo.
A finalidade da mediação – decidir disputas ou resolver conflitos?
Os mediadores familiares têm experiências profissionais variadas, particularmente
nos ramos de ciências jurídicas e humanas. A sua conceptualização da mediação
depende em grande parte de quem faz a mediação e de como definem o seu papel.
Os mediadores com uma experiência jurídica têm tendência a definir a mediação
como um processo contratual e não-terapêutico. Os mediadores com uma experiência
nas áreas da psicologia ou da terapia estão mais inclinados a defini-la como um
processo de gestão de conflitos e põem grande ênfase na melhoria da comunicação.
As palavras disputa e conflito são normalmente consideradas como sinónimas, mas na
verdade não o são. As Disputas são explícitas, e ao decidir a sua disputa, os litigantes
podem aceitar condições que envolvem um compromisso ou uma concessão. Poder-
se-á conseguir um acordo porque ambas as partes reconhecem que ele é necessário,
mas as suas atitudes, uma em relação à outra, podem continuar a ser hostis e pode
acontecer que não voltem a comunicar. O Conflito, por outro lado, pode ser manifesto
ou escondido. Não se procura necessariamente atingir um acordo. A mediação
procura ajudar as partes a conseguir decisões consensuais e a resolver disputas.
Poderá também ajudá-las a resolver os seus conflitos. Mas é irrealista esperar que um
breve processo resolva a profunda raiva e dor duma relação destroçada. Um parceiro
que se sinta abandonado e traído pode levar anos até que, emocionalmente, se sinta
em condições de tratar dum divórcio ou duma separação. Alguns nunca conseguem.
A mediação não oferece nem aconselhamento nem psicoterapia. Apesar disso o
34
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processo de trabalhar tendo em vista uma decisão em certas matérias permite a alguns
casais ouvirem-se um ao outro, talvez pela primeira vez. Ao fazerem-no percebem que
as suas percepções e atitudes se alteram radicalmente. Numa das extremidades deste
espectro, é possível conseguir um acordo sem modificar atitudes e sem apagar o ódio;
na outra extremidade, alguns casais parecem experimentar uma espécie de catarse em
que passam de violentas recriminações a um relacionamento diferente, construído em
cooperação e verdade. Portanto, uma das diferenças entre mediadores familiares e as
teorias que seguem é saber se pretendem resolver disputas por meio dum acordo
concreto, ou se procuram ajudar os participantes a resolver os conflitos psicológicos
e emocionais que estão subjacentes às suas disputas.
Entre essas duas possibilidades, a prática é substancialmente diferente, ainda que
os vários objectivos não sejam necessariamente incompatíveis. Muitos mediadores
acabam por os misturar de alguma maneira (capítulo 2).
Turbulência, gestão da mudança e mediação com famílias em mudança
A teoria da mediação precisa de explicar a dinâmica do processo, qualquer que
seja a conclusão. Precisamos duma teoria para explicar como é que de facto a
mediação funciona, em oposição a como devia funcionar. A turbulência e a
dinâmica dos fluidos oferecem uma metáfora e uma teoria para o processo de
mediação familiar, independentemente do seu resultado final. Há uma história
acerca do teórico de Física Quântica, Werner Heisenberg3, no seu leito de morte.
Heisenberg disse que teria duas perguntas para pôr a Deus: porquê a relatividade
e porquê a turbulência. Aparentemente, acrescentou: “Sinceramente, eu penso que
Ele talvez tenha uma resposta para a primeira pergunta”. (Gleick, 1987, p. 121).
Os mediadores que vêem os efeitos destrutivos dos conflitos maritais e conjugais
talvez estejam também inclinados a perguntar “Porquê o conflito?”. Conflito, em
separação e divórcio, encaixa-se perfeitamente na definição científica de turbulência:
“O que é turbulência? É uma confusão de desordem a todos os escalões, pequenos
redemoinhos no interior de grandes redemoinhos. É instável. É altamente dissipador,
significando que a turbulência escoa energia e cria lentidão de reacções” (Gleick, p
122). O conflito em processo de divórcio dissipa energias e cria arrastamentos,
35
3 Nota do editor: Werner Heisenberg é um reputado físico do século XX, que se dedicou à física quântica.
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exactamente como uma corrente de ar turbulenta por cima da asa dum avião cria uma
travagem e anula o impulso ascensional. O conflito em si não é necessariamente
destrutivo. Pode produzir uma mudança positiva e crescimento. Mas, falando em
termos científicos, uma superfície rugosa gasta imensa energia. Separar casais que se
batem por uma mudança ou que tentam manter o status quo contra a ameaça de
mudança, representa um enorme consumo de energia. Mas a energia é gasta muitas
vezes em puro desperdício e duma forma contraproducente: para atacar, para meter
medo ou para conflituar um com o outro. Os mediadores têm de ajudar os casais a
conservar o máximo da sua energia quanto possível, de modo a que eles consigam
caminhar para a frente e “subir”. Em vez de dissipar as suas reservas de energia, os
casais em vias de separação devem ter a preocupação de encontrar meios que lhes
permitam conjugar esforços nalgumas áreas embora isso não se verifique noutras. Não
se trata de modo nenhum duma tarefa fácil. Como os que trabalham com casais em
vias de divórcio bem sabem, o movimento é nitidamente flutuante, para cima e para
baixo, para trás e para a frente, por vezes com um fim em vista, mas na maior parte
dos casos caótico. Esta realidade dum movimento irregular em vez dum movimento
suave, com pontas e depressões repentinas, é familiar à maioria dos mediadores.
A turbulência é causada por forças estáveis interagindo com forças instáveis. Na
turbulência que se verifica quando as relações no interior dum casal são quebradas,
há muitas vezes uma luta, uma vez que a tentativa de aumentar a instabilidade se
sobrepõe aos esforços para manter alguma estabilidade. Nessa luta, a energia pode ser
usada para gerar ainda mais turbulência, ou pode ser orientada com o fim de controlar
a turbulência. Os mediadores procuram ajudar os casais a usar a sua energia
construtivamente em vez de destrutivamente, para gerir as dinâmicas da mudança.
Quando a turbulência assenta no fundo, volta-se a ganhar a estabilidade. Outra
característica da turbulência que é altamente relevante para a mediação consiste no
facto da turbulência produzir resultados imprevisíveis e altamente variáveis
designados pelos cientistas como “efeitos de tensão superficial”. Os efeitos de tensão
superficial são tipicamente minúsculos, “micro” efeitos (pensar nos flocos de neve,
todos diferentes uns dos outros), que os cientistas julgaram serem demasiadamente
pequenos para serem significativos. Contudo, as novas ideias sobre a teoria do caos
levou-os a olhar de novo para os efeitos de tensão superficial e para a maneira como
acontecem. Para sua surpresa, os cientistas descobriram que pequenas modificações
36
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nos efeitos de tensão superficial “provaram ser infinitamente sensíveis à estrutura
molecular duma substância em vias de solidificação” (Gleick, p 311). O significado
desta descoberta para a mediação consiste no convencimento de que mesmo
pequenas modificações nos efeitos da tensão superficial podem influenciar o
desenvolvimento de novos modelos e estruturas familiares mais profundamente doque aquilo que seria previsível. A nova estrutura duma família em vias de divórcio
pode ser ainda maleável e as relações podem ser ainda ambivalentes e flexíveis:
ainda não solidificaram. Uma crise familiar, quando forças instáveis interagem com
maior poder do que forças estáveis, cria oportunidades únicas para mudança e
crescimento. O tempo certo da intervenção é importante: a fase em que os
mediadores são envolvidos afecta o nível e a gestão da turbulência. As intervenções
numa fase inicial são normalmente mais influentes do que as mais tardias, quando
os modelos ou estruturas disfuncionais talvez já tenham sido adoptados e resistam
a alterações.
A teoria do caos
A teoria do caos oferece alguns conhecimentos a mediadores familiares que se
perguntam porque é que seguindo os mesmos passos e procedimentos quando
trabalham com casais em vias de separação os resultados são tão diferentes. A
teoria do caos é uma ciência da natureza global dos sistemas. Conseguiu agrupar
pensadores de origens diversas que anteriormente tinham estado totalmente
separados. Os primeiros cientistas do caos reconheciam amostras, especialmente
amostras que aparecessem em diferentes escalas ao mesmo tempo. Nos anos 70,
cientistas dos Estados Unidos e da Europa começaram em número crescente a
chegar à conclusão de que, ainda que os físicos tivessem estabelecido alguns
princípios para explicar as leis da natureza, eles ainda não dominavam as forças
que produzem modelos desordenados do tempo, turbulência na água e oscilações
no coração e no cérebro. A face irregular da natureza, a sua face descontínua e
errática, continua a ser profundamente enigmática. Mas na década de 1970 alguns
cientistas começaram a procurar ligações entre ordem e desordem. Edward
Lorenz, um cientista do Instituto de Tecnologia da Massachusetts, encontrou no
seu estudo de modelos de tempo que existiam modelos vulgares sobre tempo,
subida e descida de pressão, correntes de ar mudando de norte e de sul. Mas a
repetição nunca era idêntica. Os modelos mostravam grandes e imprevisíveis
variações. Utilizando praticamente o mesmo ponto de partida, dois modelos
37
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semelhantes de tempo podiam crescer cada vez mais de formas diferentes até que
desaparecesse qualquer semelhança. O que é que causaria as diferenças?
Partia-se do princípio de que se conheciam bem objectos como os fluidos que
podiam ser mais facilmente medidos do que a atmosfera. Contudo, não era bem
assim. Gleick (1987) tomou o exemplo de dois pedaços de espuma a cair sobre
uma queda de água e assentando no fundo lado a lado. “O que pode pensar sobre
a distância a que se encontravam um do outro à superfície? Nada. No que se refere
à física corrente, Deus pode muito bem ter tomado todas essas moléculas de água
… e tê-las misturado pessoalmente” (pág 8). Casais à beira do divórcio podem
estar profundamente separados, ou podem estar muito perto um do outro. Mesmo
que fosse possível medir a variação da distância entre eles, essa medida não
constituiria uma previsão segura da distância que iria verificar-se entre eles no fim
do processo de mediação. Há muitas correntes durante o caminho que podem
alterar o rumo de cada um dos parceiros.
Os cientistas que estudam variações imprevisíveis perceberam gradualmente que
variações muito pequenas dos factores iniciais podem conduzir a uma enorme
diferença na forma final das coisas. Em sistemas meteorológicos, Lorenz traduz esta
ideia no que é conhecido pela forma semi-jocosa de Efeito Borboleta: a noção de que
uma borboleta batendo as asas hoje em Pequim poderia ter como consequência
tempestades em Nova Iorque no próximo mês. Se Lorenz se tivesse limitado ao Efeito
Borboleta – uma imagem dum movimento minúsculo, frágil, capaz de ter conse-
quências a grande distância mas inteiramente ao acaso – ele não nos teria ajudado
muito. Mas o seu trabalho mostrou que uma cadeia de acontecimentos tem pontos
críticos de viragem, em que pequenas intervenções podem exercer grande influência.
Esta nova ciência da teoria do caos evoluiu como “uma ciência de processos mais do
que de estados, do “tornando-se” mais do que do “sendo” (Gleick, 1987, p.5).
Também a mediação é uma ciência de processos mais do que de estados, do
“tornando-se” mais do que do”sendo”.
38
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Capítulo II
DIFERENTES MODELOS DE MEDIAÇÃO FAMILIAR
Muitos mediadores familiares foram treinados segundo um modelo particular
de mediação e podem não estar familiarizados com outras abordagens. Um dos
mais conhecidos é o modelo de resolução de problemas ou modelo orientado
para acordos, baseado no sistema de Negociação de Princípios elaborado por
Fisher e Ury (1981).
1. Mediação orientada para o acordo
Uma das principais características da mediação orientada para o acordo é a sua
focagem em interesses mais do que em posições. Uma posição é uma declaração
duma solução preferida por uma das partes. O anúncio duma posição implica
normalmente elementos estratégicos, tais como acusação, exagero, insistência nos
seus direitos e recusa de que a outra parte tem os mesmos direitos. Em
contrapartida, um interesse é uma necessidade ou objectivo fundamental que é
preciso atingir. Pedir uma proporção fixa de activos de capital é um exemplo
duma posição, ao passo que a necessidade de dinheiro suficiente para
proporcionar alojamento conveniente é um exemplo dum interesse. Por exemplo,
um casal pode estar em desacordo sobre a quantia que cada um deles deve
receber. Como pais, eles podem ter um interesse comum em assegurar
estabilidade para as suas crianças e evitar que mudem de escola, se possível.
Em mediação orientada para acordo, as partes são primeiramente convidadas
a apresentar as suas respectivas posições. O mediador procura identificar e
perceber os interesses que servem de suporte a estas posições e ajudar as partes
a reconhecer que talvez tenham interesses e necessidades comuns, apesar de
39
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estarem em conflito. Os interesses mútuos muitas vezes não só são concretos,
como por exemplo a necessidade de alojamento, mas são também necessidades
psicológicas, como por exemplo a manutenção do respeito e do amor-próprio. O
mediador ajuda as partes a procurar soluções integradoras, em que ambos
ganhem, que vão ao encontro de tantas necessidades comuns quanto possível
seguindo a conhecida expressão: o mediador é “brando com as pessoas e duro
com o problema”. Comprometer as partes numa via de resolução do problema
permite-lhes trabalhar em conjunto no sentido do acordo, em vez de perderem
tempo e energias numa competição destrutiva. Esta via de resolução do problema
está fortemente alicerçada em técnicas de negociação e de discussão. 
É provável que o mediador utilize raciocínios a partir do lado esquerdo do
cérebro, caracterizado como sendo linear, lógico, analítico, racional e orientado
para realizar tarefas. 
Ao usar as técnicas da negociação de princípios, o mediador procura:
• Separar as pessoas do problema
• Focalizar as pessoas nos seus interesses mais do que nas posições
• Criar opções de ganhos mútuos
A mediação orientada para um acordo inclui uma série de fases. Um modelo
simples de quatro fases seria o seguinte:
1. Definição das questões Os participantes explicam as suas posições
2. Pesquisa dos factos Recolha e partilha de informação 
3. Exploração das opções Análise das necessidades, das preocupações e
das consequências
4. Obtenção de acordos Negociação para um resultado mutuamente
aceitável
O conceito de MAAN – a Melhor Alternativa para um Acordo Negociado – e do
seu oposto PAAN – a Pior Alternativa para um Acordo Negociado – são usados
como balizas que servempara medir o acordo proposto. Haynes, uma conhecida
autoridade em mediação orientada para o acordo, definiu a fase final da negociação
como a fase em que “são feitas propostas e contrapropostas, são sugeridas
negociações, são mudadas posições e se conquista um acordo” (Haynes, 1981 p.4).
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Quando a tónica é posta no interesse e não em posições, podem-se explorar
variados caminhos para encontrar esses interesses e podem surgir áreas de
entendimento. O processo pode correr muito bem quando houver interesses
mútuos e/ou motivações para resolver os problemas. Deve-se contudo ter presente
que as mediações em que se procura o acordo se apoiam num certo número de
suposições. Parte-se do princípio que os participantes estão:
* Motivados para chegar a um acordo
* Capazes de pensar racionalmente
* Razoavelmente esclarecidos sobre os diferendos que é preciso resolver
* Capazes de explicar e defender as suas posições
* Capazes de negociar
* Capazes de reconhecer ou aceitar uma solução aceitável
Muitos advogados mediadores preferem mediações orientadas para o acordo a
outros modelos porque as soluções são medidas em termos de resultados
concretos e porque os advogados têm tendência a sentirem-se mais à vontade
num papel activo ou mesmo de orientação. Na mediação orientada para o acordo,
o mediador pode exercer um poder considerável. Corre-se o risco de retirar poder
a uma ou a ambas as partes em vez de lhes conferir poder, e o mediador pode
ver-se confrontado com dilemas para resolver questões de se e como conferir
poder à parte mais fraca. Há também riscos que os mediadores que estão muito
ansiosos por chegar a resultados correm, em exercer acção junto das partes para
a sua solução preferencial, em vez de utilizarem o tempo para construir um acordo
mutuamente satisfatório com as duas partes (ver capítulo 8 sobre o uso de poder
pelo mediador). A tónica está normalmente em conseguir resultados concretos e
soluções práticas. As partes podem ser convidadas a expressar os seus sentimentos
no início, mas espera-se que os mesmos sejam postos de lado depois disso. Ora
tal não é possível para muita gente, especialmente em separações e divórcios.
A mediação orientada para o acordo não foi concebida para famílias. Foi
adaptada a partir da mediação comercial e civil. Se os sentimentos não forem
suficientemente reconhecidos e se não se conceder tempo suficiente para
considerar e renegociar as relações familiares, pode bem acontecer que se chegue
a um acordo sem os pais terem trabalhado as decisões nem as disposições que
têm em conta tanto as necessidades dos filhos como as suas próprias.
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2. Mediação transformativa 
A mediação orientada para o acordo é apropriada para certos tipos de conflitos.
Contudo, em separação e divórcio, muitas pessoas não estão preparadas nem são
capazes de negociar duma maneira calma e racional. Estão muitas vezes tão
oprimidas por emoções fortes que não conseguem pensar com clareza. Muitos
mediadores familiares, especialmente os de formação em aconselhamento e terapia,
acham que a mediação orientada para o acordo leva os mediadores a tomarem
demasiado controlo do processo e a envolverem-se na resolução dos problemas
para além do razoável. A metodologia desenvolvida por Bush e Folger (1994), que
eles designaram por mediação transformativa, deixa a condução aos participantes
enquanto o mediador se limita a seguir, em vez de limitar os participantes a
seguirem a orientação do mediador. Concentra-se em falar e ouvir, e encoraja uma
visão refrescante – literal e metaforicamente. Quando há uma visão refrescante e
compreensão com o coração, o quadro pode ser completamente alterado. Ouvir e
escutar são componentes fundamentais – escuta atenta pelo mediador e
possibilidade das partes se ouvirem e se compreenderem uma à outra.
A primeira premissa desta abordagem consiste em que a mediação tem a
potencialidade de gerar efeitos transformativos que são altamente benéficos para as
partes e para a sociedade. A segunda premissa é que a mediação só tem potencial
para gerar estes efeitos transformativos na medida em que o mediador introduz um
sistema mental e métodos práticos conducentes à realização dos dois objectivos-
chave: capacitação e sensibilização. A capacitação incita à autodeterminação e
autonomia, aumentando a capacidade das pessoas de verem com clareza a sua
situação e de tomarem decisões por si próprias. A sensibilização envolve a capacidade
dos participantes reconhecerem os sentimentos e perspectivas recíprocos e serem
mais sensíveis às necessidades da outra parte. Os mediadores transformativos ajudam-
nos a melhorar o entendimento mútuo, de maneira que é possível reconhecer as
necessidades de cada um com mais empatia do que anteriormente.
Folger e Bush (1996) identificaram dez pontos fundamentais da mediação
transformativa:
1. Compromisso para a capacitação e sensibilização como o principal obje-
ctivo do processo e os aspectos mais importantes do papel do mediador.
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2. Deixar a responsabilidade do resultado para as partes – “é a sua decisão”.
3. Recusar conscientemente criticar as apreciações e decisões das partes –
“as partes sabem melhor”.
4. Ter um olhar optimista sobre a competência e a motivação das partes. Os
mediadores transformativos têm uma atitude positiva sobre a boa-fé e a
decência, quaisquer que sejam as aparências. Em vez de rotular as
pessoas como intrinsecamente desleixadas, fracas ou manipuláveis, o
mediador vê as partes, mesmo nos seus piores momentos, como
temporariamente enfraquecidas, na defensiva ou absortas.
5. Permitir e responder às manifestações de emoção, não deixando às partes
apenas alguns momentos para tornarem conhecidos os seus sentimentos,
de modo a que estes sejam deixados de lado e seja possível centrarem-se
nas questões essenciais. Os mediadores transformativos estimulam as
partes a descreverem as suas emoções e os acontecimentos que as
causaram, a fim de promover o entendimento e a partilha de perspectivas.
6. Permitir e explorar a incerteza das partes: a sua falta de clareza deveria
ser vista como positiva e não como negativa. Se os mediadores
assumirem que compreendem a situação e as necessidades de cada parte
numa fase inicial da mediação, eles arriscam-se a bloquear uma fase
importante de fluidez e de ambivalência. Mais do que desenvolver uma
hipótese que orienta num certo sentido, é preferível que os mediadores
mantenham um saudável sentido de incerteza, de modo que eles
continuem a formular perguntas em vez de estabelecer conclusões.
7. Manter-se centrado no aqui e agora da interacção conflitual: “a acção está
na sala”. Em vez de tentar resolver problemas, o mediador concentra-se
em afirmações específicas à medida que forem feitas, tentando descobrir
os pontos precisos em que as partes estão confusas, não se sentem
compreendidas, ou não se entenderam uma à outra. Quando os
mediadores se dão conta deste tipo de problemas, eles moderam a
discussão e usam o tempo para esclarecer, comunicar e reconhecer.
8. Reagir às declarações das partes sobre acontecimentos passados: “discutir o
passado tem valor para o presente”. Normalmente os mediadores incitam as
partes a concentrarem-se no futuro, não no passado. Mas Folger e Bush, pelo
contrário, sustentam que se a história do conflito for encarada como um mal
que deve ser esquecido, perder-se-ão oportunidades importantes para
43
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conferir capacitação e sensibilização. A revisão do passado pode revelar
escolhas que foram feitas, opções que foi possível tomar e pontos-chave de
inflexão. Rever opassado pode conduzir a uma reavaliação do presente.
9. Considerar uma intervenção como um ponto numa sequência mais vasta
de interacção conflitual. O conflito acontece muitas vezes em ciclos, à
medida que as partes se debatem com lutas e incertezas. Se os
mediadores esperam um ciclo que inclua um movimento favorável ao
acordo, seguido doutro em sentido contrário, há menos risco de entrar
em pânico quando o progresso a favor do acordo pára ou retrocede. Os
mediadores transformativos podem até desejar esses ciclos como fazendo
parte dos fluxos e refluxos naturais dum processo de mediação.
10. Ter uma sensação de sucesso quando se verificam a capacitação e a
sensibilização, mesmo que em pequenas doses: “ Os passos pequenos
contam”. A mediação é sempre um desafio e muitas vezes difícil. Permitir
a nós próprios reconhecer e gozar pequenos sucessos é muito importante
para manter a nossa energia e motivação. Em vez de definir sucesso
apenas em termos de obtenção de acordo, os mediadores transformativos
valorizam cada pequeno passo que contribua para fortalecimento pessoal
e para compreensão e compaixão duns para com os outros. 
Folger e Bush acreditam que a sua visão transformativa deveria merecer
preferência em relação àquela em que se procura o acordo. Contudo, as pessoas
recorrem à mediação na medida em que têm problemas para resolver e não
porque estejam a pedir para serem “transformadas”. O termo “mediação
transformativa” é infeliz, se implicar a noção de que os mediadores são milagreiros
que transformam as pessoas ou os seus conflitos no decurso dum processo
relativamente rápido. Mesmo a terapia a longo prazo pode não produzir uma
modificação fundamental. Folger e Bush não explicam suficientemente se o
objectivo é transformar as próprias pessoas ou o seu relacionamento ou as suas
maneiras de ver o seu conflito. Um conflito tem potencial para ser transformado
se for percebido e gerido de maneira diferente. A transformação de indivíduos está
totalmente fora do papel do mediador e é potencialmente perigosa. As pessoas
não recorrem à mediação para serem transformadas e os mediadores não
deveriam impor um processo da sua autoria – mesmo que criativo e visionário –
a pessoas que não o desejem. Se os participantes quiserem ajuda para atingir um
44
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acordo concreto sem serem forçados a mudar as suas opiniões negativas sobre
cada um, têm o direito de receber o tipo de ajuda que pediram.
Mediadores que pretendam transformar os seus clientes podem estar a
transcender as fronteiras éticas da mediação. Contudo, há provas de que participar
numa mediação pode ser uma experiência catártica para algumas pessoas,
conduzindo a mudanças na maneira de responder aos outros e até a mudanças na
percepção de si próprios. Se esta catarse acontecer com o seu próprio
consentimento, sem ser forçada pelo mediador, o papel do mediador é
genuinamente facilitador. A mediação pode ter efeitos terapêuticos sem por isso se
tornar numa terapia. O contributo de Folger e Bush consiste em realçar a empatia
e os aspectos visionários e humanos da mediação, em contraste com o modelo
orientado para o acordo que pode ser muito frio, lógico e limitado quando trata de
relações interpessoais.
3. O Modelo Ecossistémico de Mediação Familiar
Os modelos de mediação para o acordo e o transformativo tendem a centrar-
se nas preocupações e perspectivas que os adultos apresentam na mediação. As
crianças são apenas mencionadas na literatura sobre estes modelos. Podem ser
consideradas como objectos de cuidado, ou até objecto de negociação, mais do
que como indivíduos com direitos e necessidades próprias merecedores de
consideração. Muitos mediadores familiares consideram que a sua tarefa consiste
em conceder poder aos adultos que participam na mediação, presumindo que o
acordo dos pais é o melhor para as crianças. Só uma pequena minoria envolve
directamente os filhos na mediação. Contudo, algumas crianças objectam
fortemente ao serem excluídas de decisões que vão também ter um impacte
profundo nas suas vidas. Conforme um jovem de 15 anos declarou: “Nós também
somos pessoas e não nos devem tratar como uma forma inferior de pessoas por
sermos jovens. Penso que os jovens também têm direito ao mesmo respeito que
os chamados adultos” (Morrow, quoted by O’Quigley 2000, p. 30 ).
Saposnek (1983) assinalou há cerca de vinte anos que “as disputas pela custódia
dos filhos surgem tipicamente de dinâmicas interactivas complexas. Considerando
disputas sobre custódias dum ponto de vista dos sistemas familiares, o mediador
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pode entender os elementos que os configuram e utilizar intervenções para obter
uma resolução efectiva. O comportamento das crianças pode ter o efeito de
aumentar ainda mais a polarização da posição de cada progenitor, porque cada
progenitor pode interpretar o comportamento dos filhos como uma evidência válida
e necessária para a sua própria posição de modo a assegurar o bem-estar das
crianças”. Se se analisa a disputa dentro dum conjunto sistémico, pode resultar que
as acções de cada membro da família, incluindo as dos próprios filhos, influenciem
as acções e reacções dos outros membros da família duma maneira recíproca. Em
consequência, trabalhar só com os adultos sem ter em consideração as necessidades,
os sentimentos e as reacções dos filhos pode ser ineficaz se o propósito for chegar
a um acordo que funcione na prática. As crianças podem encontrar uma fórmula de
bloquear arranjos que os façam profundamente infelizes.
O sistema ecossistémico de mediação (Berubé 2002, Parkinson 2002) centra-se
na família como um todo. Os filhos e outros membros da família são incluídos no
círculo familiar, indirectamente, ou se possível directamente. O mediador mantém
a equidistância ao considerar as necessidades da família como um todo, mais do
que pondo o acento tónico no casal dos pais em conflito.
Mediação com famílias em transição
Os mediadores familiares são confrontados com relações complexas, de forma
dramática e por vezes traumática, em estruturas familiares em mutação. Em termos
práticos, o cuidado infantil é frequentemente um tema para pais com relações
estáveis, que tratam de fazer malabarismos com os seus compromissos familiares e
laborais. Muitos casais que sempre partilharam as suas funções de pais, continuam
a fazê-lo em cooperação, mesmo depois de se separarem, mas há muitos outros que
lutam pelos seus direitos de pais e equivocam-se sobre o tempo que cada filho deve
passar com cada progenitor, agora que eles vivem separados. Também pode haver
conflito sobre os contactos dos filhos com outros membros da família, como sejam
os avós, e sobre a participação dos novos casais de cada lado. 
Os mediadores familiares precisam de perceber quem vive em cada casa e se
os novos membros são aceites como membros da família, e, se for esse o caso,
por quem.
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Uma das primeiras tarefas do mediador familiar, depois de dar as boas-vindas a
ambos os progenitores e de os ajudar a entender e a aceitar a sua participação na
mediação, é traçar um “mapa”, verbal ou literal, da família na sua forma actual,
segundo a perspectiva de cada um deles. É preciso obter a resposta de cada um dos
pais a um questionário. Para facilitar essa tarefa, deve-se desenhar um ecograma no
quadro. O ecograma é uma versão modificada de um geneograma. O geneograma é
uma ferramenta clássica em terapia familiar que pode ser utilizada de forma diferente
na mediação familiar e com outras finalidades. Os geneogramas são por definição
diagramas que mostram estruturas familiares e relações de linhas verticais geradoras.
O termo “ecograma”utiliza-se em vez de “geneograma” (Bérubé 2002, Parkinson
2002) para mostrar a relação com o meio ambiente “de famílias em transição, que
tendem a crescer para fora segundo um eixo horizontal, e não apenas verticalmente”.
Para perceber a ecologia e o sistema da evolução familiar, os mediadores utilizam
ecogramas para ter uma representação na horizontal em oposição ao formato vertical.
Outro aspecto útil do ecograma é mostrar duas linhas horizontais que ligam os pais,
em vez da clássica linha única. A linha superior representa a relação conjugal que está
terminando em separação ou divórcio. A linha inferior representa a ligação co-paternal
que normalmente é preciso continuar, para benefício dos filhos e dos próprios pais.
É extremamente difícil para os pais aceitar o fim da sua relação conjugal e
continuar ao mesmo tempo a sua co-parentalidade. Os fios da meada enredam-se
muitas vezes. Evitar um confronto directo entre os pais pode ajudá-los a tomar
consciência da necessidade de separar os fios conjugais (que os levam até antes da
ruptura da sua relação) dos fios que os ligam como pais na actualidade e no futuro.
Alguns mediadores familiares desenham um ecograma num quadro no começo da
mediação, como uma forma de compilar informação de ambos os pais, ecograma que
se vai tornando mais claro à medida que a realidade familiar se vai precisando. O
ecograma deve conter dados sobre o emprego, sobre as fontes de rendimento e sobre
os assuntos de maior urgência e prioridade para cada um dos pais. Os mediadores
podem desenhar ainda um ecograma nos seus apontamentos sobre o caso, como um
sumário de leitura rápida. Isto é também uma forma de ver o funcionamento familiar,
possivelmente para o analisar com um consultor ou supervisor. Os ecogramas são
especialmente úteis quando o sistema familiar alargado inclui filhos de relações
anteriores, padrastos, enteados, avós e pais dos padrastos.
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O ecograma mostra, por meio de linhas ponteadas (i.e. limites permeáveis) os que
vivem em cada casa e quem está em contacto com quem. Dá uma imagem visual para
os pais e pode-lhes facilitar a conversa sobre as relações das crianças e sobre os seus
contactos com outros membros da família. No ecograma apresentado mais adiante,
Carolina e Hugo participaram na mediação familiar para chegar a um acordo sobre os
seus filhos após uma separação de quatro meses. O Hugo está a viver com a sua nova
parceira, a Alice, e com os dois filhos dela, a Joaquina e a Deolinda. A Alice está
divorciada há cinco anos. As suas filhas, Joaquina e Deolinda, passam regularmente
tempo com o seu pai, Roberto. O Roberto também tem uma nova parceira que
também tem filhos, mas a mediação com a Carolina e o Hugo centra as suas
preocupações e desacordos sobre o Manuel e a Cristina e sobre o tempo que devem
passar com o pai. Um problema imediato consiste em que o Manuel, de 14 anos, não
quer ver o seu pai por enquanto. Há questões sobre o uso das responsabilidades dos
pais, sobre a continuidade da relação pais-filhos, e sobre as comunicações e
interacções entre sistemas familiares “antigos” e “novos”.
48
Norman
70 anos
Mary
65 anos
Carol
40 anos
Karen
12 anos
Jessica
10 anos
Debbie
8 anos
Alison
36 anos
Edward
75 anos
Hugh
44 anos
Bob
39 anos
Patrick
14 anos
Peggy
72 anos
separados há 4 meses
relação como pais
Patric
k recu
sa con
tacto
vvvv
vvvv
vvvv
vvvv
vvvv
vvvv
vvvv
vvvv
vvvv
vivendo
com
Divorciados
há 5 anos
Chave
Homem
Mulher
Casado ou vivendo maritalmente
Separado
Divorciado
Relacionamento difícil vvvvv
Ecograma para a mediação com a Carol e o Hugh
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Os princípios que regem os modelos ecossistémicos referem que:
* Os membros da família – principalmente os pais – podem precisar de
ajuda para negociar mudanças em todos os sectores das suas vidas,
incluindo a necessidade de chegar a acordos com relação aos filhos,
habitação e situação económica.
* A importância de um foco interdisciplinar: a mediação decorre dentro de
marcos culturais, sociais e jurídicos. Os mediadores familiares necessitam de
conhecimentos interdisciplinares e compreensão destas áreas interligadas.
* Os filhos são pessoas – não possessões – com direitos próprios, incluindo
o direito de manter relações familiares que lhes dêem apoio e formação.
* Uma família separada pode de qualquer modo ser uma família: as
necessidades dos seus membros interrelacionam-se e eles podem precisar
de ajuda para comunicar sobre os seus problemas.
* As crianças e adolescentes precisam de compreender as mudanças nas
suas vidas. Se ambos os pais estiverem de acordo que isso seja o mais
apropriado, as crianças e adolescentes podem ser envolvidos directamente
na mediação, ou também indirectamente. Os mediadores familiares
precisam de formação adicional para incluir crianças na mediação.
Os modelos ecossistémicos de mediação familiar têm valores que precisam de ser
explicados, mais do que permanecerem implícitos, de modo que os participantes
possam tomar uma opção com conhecimento de causa do âmbito e do processo que
vier a ser escolhido. Cada família é única: a sua cultura, as necessidades particulares,
as circunstâncias e relações são variáveis e isso pode conduzir a um resultado
concebido individualmente pela família e não para a família – resultado que
geralmente difere do tipo de resultado que se obteria por uma decisão judicial.
Este modelo tem em conta elementos das teorias de conflito e negociação e
igualmente das teorias de sistemas familiares e de vínculos. São considerados
relevantes factores culturais, sociais e jurídicos. Se as negociações na mediação
não considerassem aspectos jurídicos ou a influência de membros importantes da
família que estão excluídos da mediação, poder-se-ia acentuar um desequilíbrio
de poder. O modelo ecossistémico de mediação é um sistema de decisão
participativa no qual os membros da família – principalmente os pais – procuram
obter acordos em assuntos que têm implicações e consequências psicológicas,
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sociais, económicas e jurídicas. Isto pode conduzir a acordos concretos, como no
modelo de mediação orientada para o acordo, e pode incorporar elementos que
melhorem as comunicações. Isto é diferente do modelo de mediação orientada
para o acordo e das mediações terapêuticas na medida em que funde
conhecimento interdisciplinar, compreensão e gestão de conflitos. “A tomada de
decisões é um processo com raízes no passado, conduzido para além do presente,
que dá forma ao futuro… um acto deliberado e consciente de seleccionar de entre
pelo menos duas alternativas, ou então é a fusão de diversas alternativas numa
fórmula de acção” (Paolucci e outros 1977, p 5).
Noutro nível, o modelo ecossistémico faz ligações entre processos privados da
família e sistemas públicos, incluindo os sistemas jurídicos e económicos de apoio
para famílias. Ajudam-se os membros da família a resolver os seus arranjos actuais
nas suas relações e em aspectos práticos e a formalizá-los em termos jurídicos se
necessário. A abordagem interdisciplinar facilita acordos sobre assuntos que nem
advogados nem terapeutas poderiam abordar sozinhos. “Uma solução jurídica que
ignore as necessidades psicológicas dos clientes é tão inadequada como uma
solução psicológica que entre em conflito com as necessidades jurídicas dos
clientes” (Steinberg, 1980, p.261)
A mediação familiar precisa de se distinguir de intervenções de
aconselhamento e terapia
O modelo ecossistémico da mediação familiar difere da terapia familiar por ser
essencialmente interdisciplinar epor não ter objectivos especificamente terapêuticos
(Parkinson, 2002). É evidente que a mediação pode ter efeitos terapêuticos, mas
desde que a terapia não seja o móbil da mediação. As pessoas que participam na
mediação são sujeitos de direitos e decisões, e têm o direito de não se submeterem
a intervenções terapêuticas. O modelo ecossistémico de mediação familiar ajuda os
membros da família a usar as mudanças e comunicações entre eles para chegar a
decisões para o futuro, durante o período crítico de transição e reajuste. Estas
situações apresentam amiúde um desafio, e exigem dos mediadores familiares dotes
e meios complexos e extensos. É muito importante estar consciente de si próprio,
reflectir sobre a prática e a supervisão. Na Grã-Bretanha a supervisão e a aprendiza-
gem contínuas são requisitos para os mediadores familiares profissionais.
50
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4. Modelos Narrativos
Os modelos narrativos de mediação são baseados na ideia de que os
mediadores e os litigantes exercem uma influência recíproca contínua sobre cada
um dos outros através do seu diálogo. Autores, com uma perspectiva de narrativa
sobre a mediação, concebem-na como um processo à base de contar histórias no
qual os participantes são convidados a contar a sua história com o propósito duplo
de ficarem envolvidos em pé de igualdade e de os ajudar a conseguirem um
entendimento partilhado. Reconhecendo a influência contínua recíproca que os
mediadores e os mediados exercem uns sobre os outros, Cobb e outros (1994)
reconhecem essa influência como um desafio ao modelo de mediação orientada
para o acordo, no qual os litigantes são guiados pelo mediador, em conformidade
com uma série de fases. Os modelos de fases fornecem uma estrutura útil para o
processo de mediação, mas não explicam a dinâmica nem utilizam uma gama
extensa de estratégias de comunicação. O conceito de enquadramento de Bateson
(1972) é central no modelo de mediação narrativo ou de comunicação. Bateson
definiu-o como sendo um meio psicológico de delinear mensagens.
Os enquadramentos são úteis por incluírem certas mensagens e por excluírem
outras, tal como a moldura dum quadro mostra a imagem que se quer expor e
exclui os assuntos fora da moldura. As molduras também sugerem como é que a
mensagem no seu interior deve ser interpretada. Por exemplo, uma mensagem
negativa pode ser transformada por um enquadramento positivo, ou vice-versa.
Contudo, a noção de enquadramento é estática, ao passo que a mediação se
apropriou do termo reenquadramento mais orientado para o processo, para
representar uma troca interactiva de mensagens.
O reenquadramento é reconhecido como uma das ferramentas principais usadas
pelos mediadores para ajudar os participantes a encaminharem-se para o acordo. Na
maior parte da literatura sobre mediação, o reenquadramento é visto como uma
função unilateral levada a cabo pelo mediador. Nos modelos transformativo e
terapêutico de mediação, o mediador usa técnicas como o reenquadramento com o
fim de conseguir um efeito planeado sobre as partes. Em contrapartida, os modelos
de comunicação realçam a influência conjunta ou a “co-construção de estruturas”
em que todas as partes, opositores e mediadores, estão continuamente a enquadrar
51
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e a reenquadrar imagens uns para os outros. A influência tradicionalmente atribuída
ao mediador é fundamentalmente alterada por esta percepção, levando a que o
mediador estruture o processo de mediação em resposta aos movimentos e reacções
de cada um dos participantes.
Bodtker e Jameson (1997) sugeriram a metáfora dum caleidoscópio para descrever
a complexidade de enquadramentos interactivos. Cada participante (pelo menos três,
se houver duas partes e um mediador) trás um enquadramento para o processo, como
um disco que se adapta a uma das extremidades do caleidoscópio. Precisamos duma
ferramenta conceptual para nos ajudar a compreender a relação entre estes três
caleidoscópios durante o processo em que todos procuram influenciar todos. Que
aspectos é que o mediador apanha dos enquadramentos dos litigantes como sendo
mais significativos do que outros, e porque razão? Greatbatch e Dingwall (1994)
investigaram mudanças de intervenção dos mediadores em relação a três tipos de
resposta das partes – resistência verbal, condescendência verbal e silêncio. O seu
estudo ilustra as influências recíprocas nos processos de mediação. Cobb e Rifkin
(1991), numa análise narrativa de sessões de mediação, sugerem que a sequência de
propostas de enquadramento é importante. Referem que a parte que conta a sua
história em primeiro lugar tem uma vantagem porque a história da parte que se lhe
segue é então vista como uma reacção ou um desafio à primeira história, em vez
duma história que tem todo o direito de contar. Se o mediador não souber gerir o
processo de forma eficaz, a segunda história transforma-se num enredo acessório. Isto
levanta outras questões como por exemplo se o mediador convida as partes a decidir
quem é que vai falar em primeiro lugar, como no modelo Coogler, ou se o mediador
escolhe a que irá falar em primeiro lugar, baseando-se na sua perspectiva acerca da
relação de poder entre as partes ou noutros factores.
Cobb (1994, p. 54) descreve as histórias dos conflitos como “notoriamente rígidas,
repetitivas e avessas a mudanças”. Os papéis das personagens na história de cada
litigante são contestados e reformulados na versão contrária e os valores postos em
evidência numa história são denegridos na outra história. A imagem do caleidoscópio
é fixada. Cobb argumenta que todas as três características duma perspectiva pós-estru-
tural numa narrativa – coerência da narrativa, fecho da narrativa e interdependência
da narrativa – funcionam colectivamente para desafiar os caminhos tradicionais da
mediação. O contar das histórias em mediação é portanto mais do que uma metáfora.
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A compreensão da influência recíproca dos enquadramentos e reenquadramentos
efectuados por todos os participantes no processo fornece-nos um novo quadro
analítico para compreensão das intervenções. Conduz também ao desenvolvimento de
novas técnicas para os mediadores quer eles estejam à espera de transformar as
histórias dos litigantes ou simplesmente de encorajar uma maior congruência.
O uso de hipóteses em mediação
Autores reputados em mediação (Moore, 1986; Haynes, 1993) acreditam que, para
que os mediadores sejam eficientes, precisam de ser capazes de analisar e avaliar
situações e conceber intervenções eficazes para gerir o conflito. Os mediadores
precisam dum mapa de estradas conceptual que identifique as barreiras ao acordo e
que indique as causas das obstruções e possíveis caminhos alternativos. Moore
recomenda que o mediador devia tentar identificar uma causa central e construir então
uma hipótese à volta da mesma sobre a natureza do conflito que tem de ser resolvido,
as metas dos clientes e o seu comportamento negocial. Haynes (1993) explica que
“cada profissional constrói uma hipótese sobre o que está a acontecer em cada sessão
como uma maneira de o guiar ao longo da sessão” (p. 13). Para Haynes, a questão
não é se os mediadores usam uma hipótese ou não, mas sim que hipóteses estão a
usar. Quando uma hipótese tiver sido formulada, o mediador experimenta-a. Se as
respostas dos participantes mostrarem que a hipótese é mais ou menos correcta, o
mediador explora-a mais a fundo. Por outro lado, se a resposta mostrar que ela é
incorrecta, o mediador abandona esta hipótese e escolhe outra. Na prática parece
haver um contínuo entre mediadores que consideram ter uma tarefa puramente
facilitadora e aqueles que acreditam que faz parteda sua missão analisar os problemas
e fornecer orientação e pistas para os resolver.
Diferentes formas de mediação
a. Co-mediação
O velho adágio “duas cabeças valem mais do que uma” é particularmente bem
adaptado em mediação. Uma fórmula de equipa usando co-mediadores pode ser
vista como oferecendo vantagens significativas em relação a um mediador a
trabalhar isolado. Os co-mediadores podem trabalhar dentro dum modelo particular
ou inventar o seu próprio modelo conjunto. Na condição de que trabalhem bem em
conjunto e valorizem os pontos fortes de cada um, os co-mediadores que trabalham
em equipa têm uma capacidade maior de tratar de conflitos difíceis e desgastantes.
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Se pelo contrário eles não estiverem em harmonia e não se compreenderem um ao
outro, então o trabalho fica dificultado. A co-mediação pode ser usada para um
certo número de finalidades:
I. Formação – ajudar um mediador inexperiente a aprender com um colega
com mais experiência;
II. Supervisão (ainda que se possa argumentar que um mediador não pode
exercer supervisão num processo no qual também seja um co-mediador);
III. Proporcionar equilíbrio e apoio, especialmente nos casos em que se
verifique grande desequilíbrio de poder entre as partes;
IV. Proporcionar um equilíbrio em razão de género e/ou cultura; 
V. Aumentar a gama de conhecimentos e as aptidões existentes na mediação;
VI. Modificar a dinâmica do processo;
VII. Aumentar o número e o tipo de estratégias que podem ser usadas.
Vantagens da co-mediação
Se as condições básicas forem preenchidas, a co-mediação oferece um grande
número de vantagens. Os membros das famílias em diferentes fases de ruptura de
relações trazem pontos de vista discordantes, necessidades conflituosas e uma
mistura complexa de questões a debater: conjugais, pais/filhos, financeiras e
legais. Dois mediadores trabalhando em conjunto como uma equipa estão mais
aptos a tomar conhecimento e a refrear emoções fortes, a responder às diversas
necessidades e a manter o processo em andamento.
I) Equilíbrio: tal como um banco de quatro pernas é mais estável do que um
de três pernas, dois mediadores podem oferecer um melhor equilíbrio do
que um só mediador. 
II) Oportunidade para perspectivas mais amplas e para pontos de vista
diferentes: “ Também foi útil ter duas pessoas ali porque talvez tenhamos
podido ter dois pontos de vista ligeiramente diferentes sobre qualquer coisa
que com certeza nos ajudou a tomar uma opção” (cliente feminina citada
por Walker, McCarthy e Timms, 1994, p 125).
III) Apoio para os mediadores, tal como para os participantes. A mediação é
um trabalho desgastante que exige um elevado nível de concentração. Há
uma quantidade enorme de informação para assimilar. Um único mediador
tem que fazer perguntas que podem ser exigentes do ponto de vista
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intelectual e destruidoras dum ponto de vista emocional. A presença dum
co-mediador significa apoio e segurança. As responsabilidades podem ser
partilhadas e as tarefas podem ser divididas. Se os co-mediadores se
sentirem bem a trabalhar em conjunto, as tensões e os esforços são bem
menores do que quando se medeia sozinho.
IV) Estilos e aptidões complementares. Os co-mediadores complementam-
se um ao outro muitas vezes no que se refere às suas qualidades, estilos
de trabalho e uso de aptidões específicas. Essa complementaridade é
apreciada por casais que reconhecem que não é realista esperar que uma
só pessoa tenha todas as qualidades e aptidões que eles procuram. Alguns
co-mediadores podem ainda oferecer conhecimentos especializados em
culturas e línguas diversas e levantar questões de diversidade cultural que
um único mediador, com experiência confinada a uma só cultura, talvez
não conseguisse.
V) Equilíbrio de sexos: quando há só um mediador a trabalhar com o casal
verifica-se inevitavelmente um desequilíbrio de sexos na sala. Os
mediadores familiares são predominantemente mulheres e dois mediadores
do mesmo sexo ocasionam um desequilíbrio de género. Um equilíbrio de
sexos em mediação pode ser extremamente importante. Se a co-mediação
for oferecida com dois mediadores do mesmo sexo, os participantes
deveriam ser previamente interrogados sobre a sua aceitação e deveriam ser
assegurados de que a mediação será tão equilibrada quanto possível. Se os
co-mediadores forem homem e mulher há uma garantia de equilíbrio de
género na sala e um modelo para o equilíbrio de poderes. Alguma pesquisa
mostrou que equipas de mediação constituídas por homem e mulher
facilitam a chegada a acordos mais justos e mais equilibrados.
VI) Equilíbrio de culturas: em mediação com culturas diferentes, a equipa de
co-mediadores pode incluir utilmente um mediador que conheça as tra-
dições e necessidades culturais do casal. Tão bom como garantir que as
influências culturais são bem explicadas e percebidas, o mediador especia-
lista torna-se um educador para os outros mediadores e actua como um
controlador contra eventuais prejuízos ou tendências racistas.
VII) Um modelo: Os co-mediadores fornecem um modelo de debate construtivo,
quando têm pontos de vista diferentes durante a sessão. Não é preciso esta-
rem sempre de acordo, desde que apresentem perspectivas diferentes duma
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maneira construtiva. Devem evitar contradizerem-se um ao outro, alinharem-
se com uma das partes ou entrar numa argumentação que compita com os
argumentos do casal (ver adiante as regras básicas para a co-mediação).
Quando os co-mediadores discutem diferenças por meio dum diálogo
amistoso, isso revela uma outra forma de abordar as questões e uma maneira
positiva de explorara as diferenças. Esta atitude pode ajudar os participantes a
juntarem-se para analisar as suas diferenças, em vez de se baterem por elas.
VIII) Manutenção de boa prática: A presença dum co-mediador ajuda a evitar
esquecimentos e omissões. A presença dum só mediador não permite um
controlo perfeito, salvo se estiver presente um supervisor ou se as sessões
forem gravadas em fita ou vídeo. Um mediador a trabalhar sozinho pode
desviar-se do assunto, desenvolver pistas inadequadas ou falhar pontos
importantes, sem que ninguém se dê conta de que isso está a acontecer.
Os co-mediadores aprendem uns com os outros e asseguram um controlo
informal da acção levado a efeito por cada um deles. Se qualquer deles
sentir razões para preocupação ou desconforto, isso deve ser identificado
e analisado entre os dois mediadores e pode até ser discutido com um
grupo de outros mediadores ou com um supervisor.
Co-mediação inter-disciplinar
Formação de base e experiências profissionais diversas são sinónimos de mais
competência e de mais confiança para tratar dum leque alargado de questões. Co-
mediadores com uma formação profissional diferente complementam-se uns aos
outros ao oferecerem:
I) Um leque alargado de especializações. A combinação dum advogado com
formação em mediação trabalhando com um mediador familiar (conselheiro de
família, terapeuta familiar, assistente social ou psicólogo) oferece uma gama mais
vasta de especialização e de experiência do que a que poderia ser dada por um
único mediador, mesmo para aqueles que possuam formação em Direito e em
Aconselhamento Familiar. Este leque mais vasto de conhecimento e de
especialização é particularmente útil quando se trata de problemas relacionados
com crianças e com matéria financeira, em que os conhecimentos do mediador
familiar podem complementar os conhecimentos do advogado com formação
em mediação, especialista em assuntos legais e financeiros.
Os co-mediadores não deveriam porém estar restringidos às suas áreas deespecialização. Ainda que haja uma tendência inicial para se ficar confinado em
56
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segurança dentro da sua área, os seus conhecimentos tornam-se progres-
sivamente integrados e misturados à medida que ganham experiência por
trabalharem em conjunto. Muitos mediadores familiares de formação jurídica
têm uma formação de base e uma especialização considerável em relação a
questões relacionadas com crianças, e, do mesmo modo, mediadores sem
formação em matérias jurídicas podem muito bem tratar de matérias financeiras
ou de propriedade através doutra formação de base e doutra experiência.
Se ambos os mediadores se conseguirem mexer bem dentro da gama
completa de questões, sem inibições de estarem a invadir território alheio,
os benefícios da co-mediação são amplamente acrescidos.
II) Mediação em processos que se centram em diferentes questões inter-
relacionadas. Quando se verificam desequilíbrios de poderes, o que é
corrente, os co-mediadores podem ajudar a manter um equilíbrio no
desenrolar do processo de divórcio emocional, familiar, financeiro e legal.
Um mediador único pode achar difícil manter todas estas diferentes
dimensões em focagem simultânea. Na prática, um dos mediadores poderá
centrar-se na dinâmica que se estabelece entre as partes enquanto o outro
poderá trabalhar os aspectos práticos ou registá-los num quadro.
III) Maior criatividade é possível na criação das opções e das ideias. A discussão
das ideias é mais eficaz quando os co-mediadores trazem experiências e
modos de pensar complementares – analíticos ou intuitivos. Eles podem trocar
ideias entre si e ajudar os casais a gerar as suas próprias ideias.
IV) Maneiras estratégicas de prestar informações aos casais. Quando um
ou ambos os parceiros precisam de informação, mas não a pedem, pode
ser difícil para um só mediador lançar-se numa explicação não pedida. Um
co-mediador pode fazer aparecer a informação dum modo natural, fazendo
uma pergunta ao outro mediador que permita fornecer uma chave: “Pensa
que poderia ser útil nesta altura falar mais acerca de …?”. Uma grande
parte da informação relevante é assim trazida ao processo de mediação
interdisciplinar, reduzindo a necessidade dos casais de andarem em
bolandas entre os mediadores e os seus próprios advogados.
V) Debates estratégicos entre co-mediadores. Mediadores com formações de
base diversas têm tendência a ter perspectivas diferentes e a abordar as
questões sob ângulos diferentes. Estes debates podem ser usados estrate-
gicamente para reduzir as diferenças de poder. Desde que os co-mediadores
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se sintam à vontade para discutir dilemas e não minem o trabalho um do
outro, eles podem-se fazer perguntas e desafios de modo extremamente útil.
A redução da tensão na sala é muitas vezes palpável. No capítulo 9 é dado
um exemplo de estratégia para impasses.
VI) Usar o humor para aliviar a tensão. Muitas vezes os co-mediadores usam
o humor ao comentarem as suas próprias diferenças de abordagem como um
meio de aliviar o ambiente. Na condição de haver sensibilidade por parte de
todos os presentes assim como suficiente respeito mútuo e confiança, um
gracejo entre os co-mediadores pode aliviar a tensão do casal. É importante
que isso aconteça no momento oportuno, tendo em atenção os sentimentos
das pessoas presentes. O humor altera a dinâmica, e muitas vezes concorre
para que os participantes também recorram a esse meio.
VII) Minutar sumários escritos. É preciso um conjunto de qualidades para
preparar o Memorando do Acordo. Enquanto o jeito dum mediador advogado
para redigir minutas pode ser muito útil, os advogados podem cair numa
linguagem jurídica muito formal. Os mediadores com uma formação de
terapeutas podem utilizar as suas aptidões de reenquadramento e mutua-
lização em resumos tanto escritos como verbais. A combinação destas diversas
aptidões para redigir o Memorando do Acordo constitui uma boa experiência
didáctica para mediadores de formações profissionais diferentes.
Inconvenientes da co-mediação
I) Custo. Dois mediadores custam normalmente mais do que um. Os honorários
dos profissionais são elevados e as comparticipações legais podem ser
insuficientes para recorrer a dois mediadores. Um custo adicional deriva do
facto de ser preciso copiar todos os documentos e de ter de os enviar para
ambos os mediadores. Contudo, os custos legais subsequentes de ambas as
partes poderão ser reduzidos no caso dos co-mediadores conseguirem cobrir a
gama completa das questões (Walker, McCarthy e Timms, 1994, p. 154).
II) Logística. Normalmente um dos mediadores desloca-se para o escritório do
outro, o que implica tempo e custos adicionais. Se, por exemplo, o carro
tem uma avaria, será que o mediador anfitrião faz o trabalho sozinho, ou
marca-se outro encontro? Adiar uma reunião pode ser extremamente
problemático para casais em crise e uma nova marcação pode acarretar um
atraso considerável. 
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III) Tempo. Tal como o tempo necessário para organizar as reuniões de co-
mediação, também é preciso tempo para fazer consultas e planos antes das
reuniões de mediação e para análises e ajustes depois dessas mesmas reuniões.
As minutas dos sumários de mediação têm de ser verificadas por ambos os
mediadores, e os sumários devem também ser rubricados pelos dois.
IV) Uso dos recursos. O uso de dois mediadores muito experientes talvez não se
justifique em todos os casos. Mesmo mediadores adeptos fervorosos da co-
mediação aceitam que nem todos os casos precisam de ser co-mediados. As
disputas sobre um único ponto específico de baixa ou média conflitualidade
podem não necessitar de dois mediadores.
V) Confronto ou confusão. Se os mediadores se entrechocam, ou não
conseguem apreender a orientação um do outro, podem causar confusão e
pôr em perigo a mediação. Isto é mais susceptível de ocorrer quando eles
não se prepararam em conjunto e não tiveram oportunidades de se treinar,
trabalhando em conjunto durante a preparação.
VI) Divisão, tomada de partidos. Há o risco dos co-mediadores serem divididos
pelo casal, consciente ou inconscientemente. Os participantes tentam muitas
vezes persuadir os mediadores a tomarem partido. Se os co-mediadores são
apanhados em alianças e espelham o conflito do casal sem se dar conta do
que está a acontecer, provavelmente haverá uma escalada do conflito.
VII) Pressão conjunta. A combinação de dois mediadores seguros e conhe-
cedores pode ser esmagadora para um cliente nervoso. Os mediadores que
corroboram constantemente as afirmações do outro tornam difícil aos
participantes expressarem pontos de vista diferentes da opinião conjunta
dos mediadores. Contudo, mediadores experientes não deveriam permitir
que estas situações acontecessem.
Condições para uma co-mediação eficaz
I) Ter confiança no seu co-mediador. Os co-mediadores precisam ter con-
fiança na integridade e na competência um do outro e precisam de ser capazes
de acreditar um no outro. Uma associação construída em confiança e respeito
mútuos assegura firmeza quando se trabalha com casais conflituosos.
II) Considerar questões profissionais e práticas, incluindo instalações,
equipamentos, o modelo de actuação, os honorários e a cobertura por um
seguro profissional. Os co-mediadores precisam de ser perfeitamente claros
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sobre a sua contabilidade, conjunta ou separada, e sobre a base em que os
honorários são calculados. Também precisam de considerar questões do tipo
“Então e se”, como por exemplo o que fará perante o facto do outro co-
mediador sentir-se indisposto antes da reunião, não sendo já possível alteraro encontro. Dever-se-á apesar disso fazer uma curta reunião com um casal
que pode ter vindo de longe, ou pura e simplesmente anular o encontro?
III) Preparação para a co-mediação. Os co-mediadores deveriam, se pos-
sível, preparar-se em conjunto, visto que isso desenvolve compreensão e
conhecimentos conjuntos e oferece oportunidades para praticar a co-me-
diação com atribuição de papéis. Se os co-mediadores não se tiverem
preparado em conjunto, devem verificar a consistência da sua visão,
incluindo a documentação utilizada.
IV) Acordo sobre papéis e funções. Os co-mediadores precisam de consi-
derar como vão atribuir responsabilidades para diversas tarefas ou partes
do processo. Por exemplo, um mediador pode tomar a iniciativa na formu-
lação das perguntas e na obtenção de informações, enquanto o outro pode
reduzir a escrito as informações na agenda e procurar ainda oportunidades
de encontrar pontos de interesse comuns e de reenquadrar o processo
(capítulos 4 e 5). Os mediadores podem alternar para conduzir o processo
em fases diferentes. Será que ambos os mediadores vão tomar notas e
guardar conjuntos de registos em duplicado?
V) Acordo sobre se ambos os mediadores têm um peso igual, ou se um
deles é menos experiente. Pode acontecer que um mediador seja mais
experiente do que o outro. Muitas vezes a mediação tem lugar nos
escritórios de um dos mediadores e o outro mediador pode ser um visitante
no local de trabalho do primeiro. É importante para os co-mediadores
discutirem questões de hierarquia de um em relação ao outro e assegura-
rem-se que tudo está claro entre eles. Desigualdades de poderes entre
mediadores poderiam ter um impacto negativo na mediação.
VI) Permitir um ao outro espaço para participar na discussão. Não é preciso
que ambos os mediadores tenham a mesma contribuição e não é positivo se
eles sentirem a necessidade de competir. Um mediador que escuta e observa
tem um papel muito importante que pode ser explicado às partes como um
“papel de ouvinte”. Contudo, quando um mediador está a orientar a reunião,
é importante criar aberturas para que o outro possa entrar: “Há qualquer coisa
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que gostasse de acrescentar…?”, “Acha que podemos passar para…?”, “O que
é que pensa de…?” Estas consultas regulares evitam que o segundo mediador
se sinta supérfluo ou inexistente. A disposição das cadeiras deveria permitir aos
co-mediadores manterem contacto visual entre si.
VII) Perceber os pontos de vista e os valores um do outro. Os co-mediadores
precisam de perceber os pontos de vista e os valores um do outro, nomea-
damente naquilo em que diferem. A mediação pode envolver problemas
altamente controversos, tais como se os filhos devem viver com uma mãe
lésbica ou visitar um pai transexual. Os co-mediadores precisam de ser
capazes de se adaptar aos pontos de vista e aos valores um do outro e de ter
a percepção necessária para conseguirem ler os sinais um do outro. Precisam
também de gerir diferenças por meios que valorizem a complementaridade.
VIII) Suporte mútuo. Os co-mediadores não precisam de estar de acordo
sobre cada ponto, mas devem dar apoio um ao outro e estar preparados
para se ajudarem mutuamente a sair duma dificuldade. Quando não
estiverem de acordo, devem ser cautelosos para não se contradizerem ou
não se destruírem.
IX) Falar a mesma linguagem. Os mediadores com formações profissionais
diferentes devem falar a mesma linguagem, evitando o calão próprio da sua
área profissional (ver Cap. 4). Um mediador pode ter de clarificar ou
desenvolver o que o outro mediador disse.
X) Preparação e balanço. Os co-mediadores precisam de se preparar para as
sessões de mediação e de fazer o balanço posteriormente. Isto pode significar
reservar pelo menos duas horas para cada sessão. O planeamento e o balanço,
após a partilha das ideias e a libertação da tensão, são igualmente importantes.
Os co-mediadores precisam de dar um ao outro informações positivas e devem
também questionar-se um ao outro, se necessário. Quando se conseguiu
construir um bom relacionamento, muitos co-mediadores desenvolvem um
entendimento intuitivo que lhes permite trabalhar com criatividade.
XI) Ter um plano de recuo. A preparação pode ficar completamente perdida
quando os casais aparecem com uma inesperada versão diferente dos
acontecimentos, ou quando mudam de direcção. Os co-mediadores
precisam de ser capazes de alterar a estratégia com agilidade quando a
situação o exige. A familiaridade dum com o outro e a faculdade de fazer
uma leitura dos sinais reduz a necessidade de discussões arrastadas.
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XII) Sentido de humor. É difícil imaginar que se possa trabalhar bem em co-
mediação se os co-mediadores não tiverem sentido de humor, ou se eles
forem incapazes de usar o humor de uma maneira saudável.
XIII) Considerar detalhes práticos. A disposição dos assentos deverá facilitar
a discussão, maximizando o contacto visual e evitando disposições em
linha (ver Cap. 5).
XIV) Usar um consultor ou um supervisor. Conversas regulares sobre o
assunto com um consultor ou um supervisor e formação contínua em
mediação desenvolvem conhecimentos avançados e novas ideias.
A co-mediação deveria ser um componente essencial da formação em mediação.
Ela permite uma aprendizagem imediata, cria confiança e permite aos mediadores
ver o que funciona e o que não funciona. Mediadores recém-formados apreciam a
segurança adicional proporcionada por um mediador experiente, e os mediadores
experientes podem ser motivados por um recém-chegado a reequacionar a maneira
como trabalham.
b. Mediação “Âncora” 
Os mediadores que tanto trabalham a sós como em co-mediação podem usar a
“mediação âncora” em determinadas circunstâncias. O primeiro mediador “Âncora” o
processo e mantém-no controlado, mas pode sugerir que um segundo mediador seja
chamado durante o processo. O segundo mediador pode provir duma disciplina dife-
rente e ter uma especialização particular. Em geral, a introdução dum segundo mediador
costuma ser frutuosa, desde que os participantes não esperem um profissional milagreiro
com quaisquer poderes de magia. O segundo mediador beneficia das boas relações de
trabalho estabelecidas pelo mediador “âncora”, mas tem de fazer fé na informação já
recolhida, sem saber que questões foram levantadas e como foram respondidas.
Quando mediadores com uma formação de base jurídica trabalham sozinhos,
podem necessitar dum mediador familiar com formação de base em aconse-
lhamento ou terapia, se existirem questões difíceis sobre crianças e/ou níveis
elevados de conflito e complexidade. O mesmo acontece no sentido inverso e
ajuda a gerir desequilíbrios de poder e a criar opções. Os casais apreciam ter a
possibilidade do recurso extra a um segundo mediador como uma alternativa para
concluir uma mediação que não progride.
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c. Mediação com reuniões individuais 
Esta forma consiste em reuniões particulares de mediação realizadas com cada
parte separadamente, com o mediador a deslocar-se dum lado para o outro entre
elas. Este é o modelo usado correntemente em mediação comercial. Esta forma
não é habitual em mediação familiar, salvo no modelo de mediação terapêutica
apresentado anteriormente, porque os participantes necessitam desenvolver o seu
relacionamento como pais e para tal têm de conversar directamente um com o
outro. Se o mediador continuar a trabalhar com eles separadamente, isso não os
ajuda a ouvirem-se e a comunicarem directamente quando a mediação terminar.
Há outros inconvenientes. Reuniões separadas com cada parte consomem mais
tempo do que reuniões conjuntas com ambos. Além disso, comreuniões
separadas corre-se o risco de conferir ao mediador um papel de aconselhamento.
No entanto, reuniões separadas em mediação familiar podem ser muito úteis
como uma estratégia de recurso, e não propriamente como o modelo eleito. Pode
ser útil em determinadas circunstâncias, desde que seja usada com o maior
cuidado. A primeira questão a levantar é a da confidencialidade. Uma prática
comum em mediação comercial exige que o mediador guarde como confidencial
o que cada parte disse, revelando à outra parte só o que o mediador foi autorizado
a revelar. O mediador pode por isso conhecer, numa base de confidencialidade,
os termos em que cada parte estaria disposta a chegar a acordo. O mediador
utiliza esse conhecimento para discutir, negociar e procurar vantagens recíprocas,
sem revelar a posição de nenhuma das partes à outra parte.
Em mediação familiar, prometer confidencialidade a cada parte separadamente
poderá causar mais problemas do que soluções. Um mediador familiar não pode
receber e guardar segredos do tipo “Não diga ao João que estou a pensar casar-me com
o Carlos logo que o divórcio esteja resolvido”. Um mediador familiar pode oferecer-se
para ver cada parte separadamente na condição de que nenhuma informação fornecida
por uma das partes possa ser mantida em segredo da outra. Pedir-se-á a ambas as
partes para aceitarem antecipadamente que o mediador possa partilhar com a outra
parte o conteúdo de qualquer discussão separada. O mediador usa a sua discrição e
não vai necessariamente relatar tudo o que foi dito nem como foi dito pela outra parte.
Contudo, quanto maior controlo os mediadores têm na transmissão do que foi dito pela
outra parte, maior influência eles exercem no processo e no resultado da mediação.
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Antes da reunião individual, é importante considerar as possíveis vantagens e
inconvenientes. Como é que isso vai afectar cada participante e o processo? Isso
ajudará ambos a sentirem-se mais seguros? Poderá essa mediação afastá-los ainda
mais um do outro, enquanto arrasta o mediador para um papel de apoio e de
aconselhamento? O participante que considera que o deixaram de lado enquanto
o outro está em foco, pode tornar-se extremamente ansioso e inquieto sobre o que
irá acontecer. Pode haver suspeitas e fantasias sobre o que uma parte disse nas
costas do outro. Se o mediador faz um relato incorrecto por engano, a outra parte
não está presente para corrigir o erro.
A mediação de vaivém também pode ser usada em mediação familiar como uma
estratégia de crise, quando uma das partes está com o espírito perturbado e incapaz de
falar na presença do outro, ou quando a discussão está tão acalorada que um deles
está disposto a fugir da sala. Um arranque tempestuoso pode ser previsto e evitado
com mais facilidade. Proporcionar um curto espaço de tempo com cada participante
sozinho pode ser útil, se o casal já não aguentar em conjunto na sala, pois pode dar a
uma pessoa muito angustiada algum tempo de recuperação. É mais fácil fazer isto em
co-mediação, porque um mediador pode passar um curto intervalo de tempo com uma
das partes enquanto o co-mediador fala com a outra parte. Antes do vaivém, as regras
básicas sobre imparcialidade e comunicação aberta devem estar esclarecidas e aceites.
Pode também haver questões de género a considerar, tais como se é preferível para o
mediador masculino encontrar-se com o marido, e a mediadora feminina com a
mulher, ou se o contrário evitaria a impressão de haver alianças de géneros. Se a
reunião lateral de interessados tiver de ser repetida numa segunda ocasião, o arranjo
pode ser alterado. Depois dessa reunião, a mediação com ambos os participantes pode
ser recomeçada imediatamente, sem que os mediadores se retirem e conferenciem em
privado. Os benefícios duma reunião lateral de interessados, curta e cuidadosamente
organizada, são habitualmente visíveis ao permitirem que a mediação continue com
um nível de agressividade mais reduzido e um objectivo definido com mais clareza.
d. A presença de advogados na mediação
Os advogados pensam muitas vezes que deviam participar nas sessões de
mediação com os seus clientes. Em mediação civil e comercial, isto é uma prática
corrente, e em alguns estados dos EUA é comum os advogados participarem em
sessões de mediação familiar, contrariamente ao que se passa nos países europeus.
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Há inconvenientes se os advogados participam nas reuniões de mediação
familiar sem compreenderem o processo e os limites do seu envolvimento. Eles
podem tentar controlar o processo negociando ou discutindo entre si e evitando
que os seus clientes falem em representação de si próprios. Se os advogados
usarem a mediação como uma oportunidade para exercer advocacia,
transformam-na num processo contencioso e deixa de ser uma mediação.
Na Florida, mais de metade dos advogados, que tomaram parte num estudo,
disseram que tinham participado pessoalmente em sessões mediação familiar com
os seus clientes em três quartos de todos os seus casos jurídicos de família durante
os últimos doze meses. A maioria disse que participara com o objectivo de facilitar
a obtenção dum acordo. Outra razão adiantada por muitos deles foi a necessidade
de proteger os seus clientes. A presença dos advogados pode sem dúvida dar apoio
a um cliente ansioso ou vulnerável que, doutra maneira, se poderia recusar a tomar
parte numa mediação. Contudo, os advogados podem ser super-protectores e ter
relutância em perder o controlo. Se eles impedirem as partes de negociarem
directamente uma com a outra, podem transmitir aos seus clientes, voluntária ou
involuntariamente, a mensagem de que a comunicação directa com a outra parte
seria indesejável, destrutiva e perigosa.
Alguns advogados admitiram que participaram na mediação afim de aprender o
que é o processo de mediação e quais os requisitos exigidos aos mediadores. Uma
vez seguros de que os mediadores eram competentes e conhecedores da matéria, eles
sentiram-se mais à vontade para autorizarem os seus clientes a participar. O estudo
mostrou que depois da experiência em primeira-mão de participar em sessões de
mediação, os advogados reconheceram que os benefícios da mediação ultrapassavam
em muito os potenciais inconvenientes. Uma das vantagens de ter advogados
presentes consiste em que pode haver interrupções durante a sessão de mediação,
durante as quais as partes se retiram com os seus próprios advogados para uma curta
reunião. Quando é permitido dar aconselhamento jurídico no próprio lugar, evitam-
-se grandes demoras. Os advogados têm a possibilidade de dar conselhos orientadores
ao seu próprio cliente, se ele perceber que o referido cliente está a fazer obstrução,
explicando-lhe por exemplo que a sua posição não é realista nem razoável. Os
mediadores não podem ser tão claros e directos em casos destes. Os advogados
podem ser ainda muito úteis auxiliando as negociações e finalizando o acordo.
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Antes de convidar advogados para participar numa sessão de mediação, é
importante estabelecer algumas regras de base com eles para que os advogados
compreendam e respeitem o processo de mediação. O documento Termo de
Consentimento da Mediação tem de ser adaptado para advogados. Deve-lhes ser
pedido que assinem um documento reconhecendo a confidencialidade do processo
de mediação, de maneira a que o conteúdo da mediação não seja usado e abusado
pelos advogados em litígios posteriores. Há um certo número de outros aspectos que
precisam de ser esclarecidos com os advogados. Eles precisam de saber se estão a ser
convidados para participar sem tomar parte, ou se são convidados para contribuir
activamente.Neste último caso, há necessidade de se porem de acordo sobre certos
aspectos estruturais de modo a que os participantes falem por si próprios tanto quanto
possível. Deve ficar também perfeitamente esclarecido que o mediador não é
responsável pelo pagamento dos custos dos advogados das partes que participam
numa sessão de mediação.
Mediação – ciência ou arte?
A mediação é cada vez mais aceite como uma disciplina de pleno direito, com o
seu próprio corpo de conhecimento teórico e prático, de princípios e de regras de
base. Tal como outros ramos da ciência, a mediação acumulou um corpo de
conhecimentos baseados em “case studies”, classificação de casos e análise de
resultados. Mediadores e pesquisadores tiveram tendência a abordar a mediação duma
forma linear, dividindo a mediação numa série de fases com resultados classificados
como positivos, parcialmente positivos ou negativos, conforme os participantes
conseguiram atingir um acordo, um acordo parcial ou não conseguiram atingir
nenhum acordo. Esta abordagem da mediação usa o hemisfério esquerdo do cérebro
que pode ser caracterizado como lógico, analítico e pragmático.
Quando a mediação familiar é vista como um ciência, a ênfase é posta na
necessidade de:
I) Uma percepção intelectual da mediação como um processo racional
consistindo numa sequência de fases em que os factos são reunidos, as
diferenças são esclarecidas, as opções possíveis são identificadas e as
propostas para resolução são trabalhadas;
II) Conhecimento, incluindo conhecimento da lei e conhecimentos financeiros
abrangendo impostos, pensões e benefícios sociais; conhecimentos da
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experiência e do impacte do divórcio em adultos e crianças; conhecimento
do desenvolvimento de crianças e adultos e da dinâmica da família,
disponibilidade de serviços de apoio;
III) Conhecimentos de aritmética e capacidade de analisar dados financeiros;
IV) Conhecimento e experiência de acordos de divórcios quer negociados
quer litigiosos: estrutura dos acordos, tendências, questões correntes;
V) Técnicas de negociação e de discussão envolvendo pensamentos lógicos
e racionais;
VI) Formação na disciplina de mediação, conhecimento de estudos de
pesquisa sobre mediação.
Contudo, cada vez se considera mais que a mediação é um processo complexo
que não pode ser compreendido ou avaliado apenas pela análise dos resultados
e pela contagem dos acordos. O comportamento humano é extremamente variável
e imprevisível, em particular no turbilhão de separação e divórcio. Os casais em
vias de separação ou de divórcio mostram uma gama de reacções e de modelos
que variam ao longo do tempo, mesmo que alguns dos modelos sejam altamente
resistentes a mudanças. Na mediação familiar a dinâmica frequentemente volátil
dos casais em vias de separação pode-se acalmar de várias maneiras e em diversos
graus pela presença e intervenções activas do mediador. Este processo envolve
uma série complexa de interacções: não é um tapete transportador automático
para o acordo. Os mediadores também reconhecem que, embora precisem da
abordagem lógica e sistemática do hemisfério esquerdo do cérebro, não podem
dispensar o hemisfério cerebral direito que encoraja a criatividade e a intuição. O
pensamento do hemisfério direito do cérebro procura fazer ligações duma maneira
mais global. Trabalha em níveis diferentes e pode fazer ligações ou saltos
intuitivos entre eles. Encara os modelos e os relacionamentos duma maneira mais
circular do que linear.
Quando a mediação familiar é reconhecida como uma arte, a ênfase é posta
na necessidade de:
I) Empatia, compreensão intuitiva e capacidade de se comprometer com
pessoas;
II) Maturidade e experiência de vida, e não apenas conhecimentos
académicos;
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III) Capacidade de responder tanto às necessidades emocionais como às
necessidades práticas de casais em vias de separação, incluindo a
capacidade de gerir a crise quando as reacções irracionais dos
participantes se arriscam a acentuar ou a prolongar as suas disputas;
IV) Um estilo pessoal e flexível de trabalhar que permita variar a estrutura
e o ritmo do processo em conformidade com a dinâmica do casal ou da
família;
V) Preocupação pela família como um todo, em que o bom relacionamento
e a cooperação entre os membros da família são mais valorizados do
que um acordo per se;
VI) Capacidade de comunicação – uso da língua, facilidade de traduzir e de
interpretar.
A mediação familiar é tanto uma ciência como uma arte. Os mediadores
familiares precisam duma mistura de conhecimentos, compreensão humana e
capacidades especiais para ajudar casais em vias de separação ou de divórcio a
dialogar em conjunto e a tomar medidas para estabelecer formas de resolver
arranjos futuros para eles próprios e para os filhos. Recorrendo a termos franceses,
os mediadores devem possuir savoir, savoir-faire e savoir-être. Em Maio de 2000
trinta monitores de mediação familiar de onze países reuniram-se durante dois
dias num Fórum de Discussão de Mediadores Familiares perto de Londres. Foi
uma experiência extraordinariamente enriquecedora e inspiradora. Tentámos pôr
em evidência os valores da mediação e concordámos que procuramos:
• Ouvir numa atitude que vem mais do coração do que da cabeça
• Respeitar a individualidade de cada pessoa
• Mostrar humildade, compaixão e tolerância
• Manter a distância adequada
• Facilitar a comunicação que cria calor humano e compreensão
• Criar esperança para o futuro
• Desenvolver permanentemente a nossa capacidade de ver e pressentir
coisas que nem sempre é possível expressar por palavras. 
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Capítulo III
COMPROMETER AMBAS AS PARTES NA MEDIAÇÃO
“Eu estava muito mais longe do que Vocês pensavam,
E não estava a dizer adeus, mas sim a afogar-me”
Stevie Smith (1957)
O paradoxo da mediação em separação e divórcio
Um dos paradoxos da mediação familiar é o de que a esperamos mais de casais
em vias de separação ou já separados do que em casais que vivem juntos. Não se
espera que casais venham discutir os seus problemas financeiros quando estão no
meio duma crise emocional muito aguda. Porém, em mediação, pede-se a casais
sob enorme tensão que revelem valores e orçamentos financeiros, mesmo quando
estão desfeitos pela dor e perda. Espera-se dos pais que colaborem um com o
outro sobre os problemas dos seus filhos, mesmo quando um deles abandonou o
lar há alguns meses, ou mesmo anos, e interrompeu os contactos desde então. Os
mediadores esperam sensatez numa altura em que a razão parece submersa em
ódio e aflição. Casais em conflito violento ou sem se falarem um ao outro, podem
achar que a perspectiva de se encontrarem e de chegar a acordos é tão improvável
que o cenário de uma mediação é rapidamente recusado.
Muitas pessoas, no meio duma separação muito tensa ou de um divórcio, têm
vontade de chorar, ou de gritar, com o parceiro que quebrou a relação e
abandonou o lar. Um convite para se sentarem em conjunto para manterem um
diálogo civilizado, com vista a futuros acordos, pode ser rejeitado por ser
impossível tanto em termos práticos como emocionais. Participar numa mediação
pode tornar o fim da relação mais real e portanto mais penoso, especialmente
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quando o acordo podia abrir a porta ao divórcio que uma das partes deseja, mas
que a outra não aceita. Pode acontecer que se espere demasiado de clientes que
recorrem à mediação, por vezes muito perto ainda da ruptura da sua relação, e
quase sempre durante um período demasiado curto após essa mesma ruptura.
Numa escala de acontecimentos traumáticos da vida, o divórciositua-se em
segundo lugar, perto em nível de tensão da morte do outro cônjuge. Perda de
emprego e prisão estão classificados como menos traumáticos do que o divórcio.
É questionável até que ponto se pode esperar que pessoas tomem decisões desta
magnitude num período de grande amargura e de vulnerabilidade emocional.
Os mediadores precisam de ser capazes de reconhecer os níveis de choque ou
de trauma em que a mediação não é adequada. Precisam também de estar
conscientes das enormes convulsões e perturbações que ambos os parceiros estão
a sofrer em cada área das suas vidas e os estádios diferentes em que cada um se
pode encontrar para enfrentar esta convulsão.
É preciso cuidado e entusiasmo
Os mediadores têm de ser cautelosos por um lado, mas também inspirados e
entusiastas por outro. O recurso à mediação familiar é ainda reduzido e há o perigo
de forçar a sua utilização e de prometer mais do que ela de facto pode dar. Muitos
advogados desconhecem ainda a mediação ou são cépticos sobre os seus méritos,
enquanto que para o público em geral a mediação, se tiver algum significado, pode
significar reconciliação. A mediação não é uma panaceia universal e as suas
vantagens não são automáticas. Muito depende da motivação dos participantes para
chegarem a um acordo, das questões a resolver e da capacidade e experiência do
mediador. É evidente que a mediação não é apropriada, nem possível, em todos os
casos. É essencial proceder a uma análise para avaliar se a mediação é
potencialmente indicada e é preciso que os mediadores estejam cuidadosamente
preparados para reconhecer que outros processos ou meios de ajuda podem ser
necessários em vez – ou ao mesmo tempo – da mediação.
Mediação e intervenção na crise – em que altura se deve intervir?
Os pontos de vista divergem sobre se a mediação deve ser sugerida em situações
de crise, que ocorrem muitas vezes, antes, ou imediatamente depois da separação.
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O ideograma chinês para “crise” combina dois motivos, um que significa “perigo” e
outro que significa “oportunidade”. O período que conduz à separação e o que lhe
sucede imediatamente é frequentemente de crise aguda para um ou para ambos os
parceiros. Talvez o choque e o desânimo sejam demasiado fortes para que a
mediação seja possível ou apropriada sem reservas. Por outro lado, pode haver
questões urgentes relacionadas com os contactos de um dos pais com os filhos.
Numa fase inicial, quando as coisas estão fluidas, há mais espaço para modificações,
incluindo a possibilidade de reconciliação nalguns casos. À medida que o tempo
passa, o leque de opções torna-se normalmente mais reduzido, as posições
começam a extremar e as atitudes endurecem. Quando há uma quebra de contactos
entre um dos pais e um filho, quanto mais tempo decorre mais difícil se torna
renovar esses contactos e reconstruir o relacionamento afectado.
Autores sobre a teoria da crise sugeriram que a crise envolve normalmente:
a) Um acontecimento ou situação de grande tensão para o qual não se
consegue encontrar nenhuma solução imediata,
b) Uma ameaça à identidade e à rotina que faz reviver problemas não
resolvidos tanto num passado distante como próximo,
c) Reacções que formam um quadro reconhecido de desorientação e
desânimo, iniciado com uma fase aguda que dura habitualmente de seis
a oito semanas.
As intervenções numa fase inicial em situações de crise podem ajudar a evitar
consequências sérias. A resistência a intervenções externas é menor numa fase
inicial da crise. Uma ajuda que “seja propositadamente centrada num momento
estratégico é mais eficaz do que uma ajuda mais intensa prestada numa altura de
menor acessibilidade emocional” (Rapoport, 1965, p. 30)
Por vezes são manifestadas preocupações sobre mediações realizadas
demasiado cedo, antes que um ou ambos os parceiros estejam preparados para as
decisões do ponto de vista emocional. O receio reside normalmente no risco de
decisões prematuras tomadas sob pressão. Mediadores avisados, conscientes
destes riscos, deveriam ser capazes de ajudar os casais a encontrarem soluções
temporárias ou estabilizadoras, sem os pressionar a tomar decisões de longa
duração. Soluções provisórias podem diminuir a tensão e ajudar o casal a
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encontrar soluções a longo prazo a um ritmo que ambos consigam suportar.
Posições irredutíveis podem também ser aliviadas quando os casais se
compenetrarem de que se podem pôr de acordo sobre alguns assuntos restritos
sem terem de tratar de tudo. O ritmo da mediação e o intervalo entre sessões pode
ser modificado para ir ao encontro das necessidades de ambos os parceiros tanto
quanto possível. As sessões podem ser marcadas bastante próximas umas das
outras quando houver urgência – ou então afastadas com intervalos mais longos
quando for preciso mais tempo.
A mediação exclui a reconciliação?
A decisão de separação ou de divórcio é na maior parte das vezes mais uma
decisão tomada por uma das partes, com a qual a outra tem de se entender, do
que uma decisão tomada de comum acordo por ambos os parceiros. Os
mediadores têm de ser extremamente cuidadosos e têm de abordar desacordos
quanto à decisão de separação ou de divórcio duma maneira imparcial e não
ditatorial, de modo a evitar tornarem-se aliados quer do parceiro que pretende o
divórcio quer do parceiro que pretende a reconciliação. É compreensível, em face
de preocupações relacionadas com os elevados custos dos divórcios ou com os
efeitos do divórcio sobre os filhos, que os legisladores possam pretender que a
mediação familiar tenha a dupla função de “salvar casamentos”, sempre que
possível, ou então de proporcionar divórcios amigáveis. Contudo, se a mediação
tiver por objectivo primordial a procura da reconciliação, a sua imagem será
pouco clara e a posição não-directiva dos mediadores ficará comprometida.
Muitos casais que procuram a mediação já passaram pelo aconselhamento. Na
altura em que eles procuram a mediação, o seu casamento ou a sua relação já
estão destruídos há muito tempo. Um dos parceiros poderá ter já formado uma
nova relação e poderá viver com o(a) novo(a) parceiro(a). As razões do casal para
recorrer à mediação prendem-se geralmente com a obtenção duma separação ou
dum divórcio que um ou ambos consideram ser necessário. Por vezes a mediação
conduz a uma nova vontade de compreender e endireitar o que estava errado no
casamento. Casais que querem voltar a juntar-se e indivíduos que querem
compreender o que levou à quebra da sua relação são encorajados pelos
mediadores a procurar aconselhamento ou terapia
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Os casais deveriam ser ajudados na mediação a encontrar soluções para o
imediato e para o futuro, para si e para os seus filhos, sem serem influenciados num
sentido ou noutro. Se os casais fossem pressionados a dar outra oportunidade ao
seu casamento, para bem dos seus filhos ou da sociedade, a mediação poder-se-ia
converter num veículo de controlo político ou social, como acontece na China.
Dimensões diferentes de separação e divórcio
Bohannan (1970) identificou seis dimensões de ajustamento no divórcio:
dimensão emocional, psicológica, jurídica, económica, paternal e comunitária.
Quantos de nós poderiam fazer repentinamente frente a modificações fundamentais
em todas estas áreas? Uma dificuldade adicional consiste em que casais em vias de
divórcios não vão percorrer estas fases em conjunto. Os ajustamentos emocionais e
psicológicos começam normalmente mais cedo para o parceiro que parte do que
para o que fica. Um parceiro que é abandonado é deixado ficar para trás tanto dum
ponto de vista emocional como físico. Sentimentos agudos de choque, rejeiçãoe
traição vão influenciar os problemas com os filhos e com as finanças. Ainda que
alguns pais aceitem a mediação em condições de fragilidade, espera-se deles que
negoceiem sobre assuntos relacionados com os filhos e com as finanças duma
maneira razoável, numa fase em que a sua capacidade para pensar racionalmente
está temporariamente afectada.
Quando é preciso tomar decisões, simultaneamente, sobre tantos assuntos, não
é surpreendente que a maioria das pessoas se sinta oprimida. Os sentimentos de
ofensa e irritação podem alastrar rapidamente duma questão para outra. Por outro
lado, a colaboração e o acordo numa área ajudam a manter a confiança e
aumentam a colaboração para outras áreas.
Gerir um diálogo 
Um diálogo é necessário, mas muitos casais em vias de separação ou separados
acham que este diálogo é muito duro de orientar por si próprios. Os casais
envolvidos na quebra dum casamento podiam ser divididos em três categorias
muito simples: os que são capazes de conversar e de realizar coisas, os que
discutem e lutam, e os que não conseguem falar de modo nenhum. Podem
aparecer casais destas três categorias em processos de mediação. Os mediadores
precisam de ser capazes de adaptar a sua abordagem e ritmo, de modo que
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possam responder a diversas reacções ao conflito e às diversas fases em que cada
parceiro se possa encontrar num divórcio emocional e psicológico.
O diagrama abaixo ilustra as fases da separação e divórcio emocional e
psicológico, começando com uma crise inicial na qual uma das partes abandona a
outra, ou lhe comunica a intenção de o fazer. A parte que toma a iniciativa está melhor
preparado para fazer face às mudanças que foram previstas ou ponderadas, ao passo
que a outra parte, apanhada de surpresa, pode sentir-se inclinada numa primeira
reacção a negar que aquilo esteja a acontecer. A negação pode ser seguida por cólera
ou depressão, e esta fase pode prolongar-se. Se não houver suficiente ajuda ou apoio,
o parceiro que se sente abandonado pode passar da depressão ao desespero. David
Lodge (1995, p. 63), descreveu desespero como “um movimento em espiral de cima
para baixo – como um aeroplano que perde uma asa e cai através do ar como uma
folha, rodopiando e dando voltas à medida que o piloto se debate sem esperança com
os comandos, o barulho do motor atingindo um tom muito elevado, a agulha do
altímetro girando sem cessar no mostrador na direcção do zero”. Quando um dos
parceiros entrou em espiral de cima para baixo e o outro parceiro que pode ainda
voar está impaciente por se ir embora, o desafio para os mediadores é de como ajudar
ambos com equidade e evitar que o fosso entre eles se alargue ainda mais
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Fase 1
Mediação em situações de crise
Fase 2 Fase 3
Depressão
Desespero
Raiva Com
eça
a faz
er fr
ente
Começa a
Iniciador
fazer fr
ente
Receptor
C
A
P
A
C
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A
D
E
D
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F
A
Z
E
R
F
R
E
N
T
E
Crise
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Ao avaliar se a mediação é desejável numa situação de crise e se ela é
susceptível de ser útil, é preciso que os mediadores tenham em consideração o
grau de risco ou de urgência, os prazos relevantes e a condição psicológica de
cada parceiro. Controlar uma crise que se deteriora exige zelo pessoal por parte
do mediador familiar bem como aptidões profissionais. Se as pessoas sentem que
os mediadores são válidos e que talvez se consiga qualquer coisa de positivo, elas
estarão mais inclinadas a pedir ajuda.
O que leva os casais separados à mediação familiar?
Estudos de investigação têm mostrado que muitos pais divorciados sabem
antecipadamente pouco sobre o processo de divórcio e que ficam assustados com
o desconhecido. Muitos pais disseram que ficaram confusos com os seus direitos
e responsabilidades e inseguros sobre como tratar das coisas em relação aos filhos.
A sugestão mais repetida relativamente às maneiras de ajudar famílias em vias de
separação ou divórcio consiste em dar-lhes acesso mais fácil a informação e a
aconselhamento. A mediação, como um processo orientado para o acordo, não é
bem entendida nem pelos pais nem por outros agentes. Quando a mediação não
é imposta pelo tribunal, o que pode acontecer em alguns países, o que é que leva
casais separados a optarem voluntariamente pela mediação, apesar do seu
desânimo, da sua ira e dos seus receios? Se os pais tiverem de roubar horas ao
seu tempo de trabalho ou de arranjar alguém para tomar conta dos filhos, tendo
ao mesmo tempo de fazer face aos custos de deslocação para as sessões de
mediação, todos estes custos constituem obstáculos adicionais. Para perceber o
que leva os casais à mediação, pesquisadores da Universidade de Newcastle
(Walker, McCarthy e Timms, 1994) pediram a vários clientes de mediação que
descrevessem as razões que os tinham conduzido a recorrer a esse processo. Eles
deram as seguintes razões (não apresentadas por ordem de importância):
• Necessidade de seleccionar questões que eles seriam incapazes de tratar
por si próprios
• Desejo de conseguir acordos em conjunto, em vez de recorrerem a
advogados separados
• Desejo de fazerem o melhor possível pelos seus filhos 
• Desejo dum divórcio amigável e de ficarem de boas relações um com o outro
• Necessidade de alguém imparcial para os ajudar a gerir as discussões em
questões específicas
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• Desejo de evitarem custas de processo na medida do possível
• Desejo de um acordo sem envolver o tribunal
• Desejo de ter alguém imparcial, objectivo e experiente
• Desejo de apoio emocional e prático em simultâneo
• Desejo de reconciliação – “à espera dum milagre”
• Desejo que lhes digam “o que é justo” (ainda que isso não seja a função
do mediador)
Os investigadores acharam que muitos casais que recorreram à mediação tinham
dificuldade em explicar os pontos que precisavam de resolver. Muitos disseram que
precisavam de “separar tudo”. As questões financeiras e emotivas estavam, muitas
vezes, ligadas e atadas num emaranhado de discussões por resolver. Desatar esses nós
é uma parte essencial da mediação. A primeira sessão de mediação consiste muitas
vezes em dar a volta ao nó e em ver quais os fios que podem ser desatados em
primeiro lugar. O nó pode começar a desatar-se se os fios forem removidos com
cuidado, ao passo que se forem puxados com força apertam ainda mais o nó.
A mediação precisa de ter uma imagem pública muito mais visível para se
tornar aceite como o caminho normal para solucionar problemas familiares. O
conhecimento público da mediação é com certeza muito maior do que há vinte
anos e os advogados especializados em família reconhecem-lhe os benefícios. Mas
os advogados em geral estão muitas vezes mal informados sobre a mediação e
podem opor-se-lhe de forma activa.
Perguntas frequentementes
• Os mediadores tentam reconciliar os casais? Ou será que eles os ajudam
a obter um divórcio?
• É de gratuito? Se não for, quanto custa?
• É obrigatório? Há alguma penalidade para quem se recusa a utilizá-la?
• Quanto tempo leva? Só uma sessão chega?
• Os mediadores podem tratar de todos os problemas relacionados com a
separação e o divórcio?
• Quem é que contacta com a outra parte?
• Onde é que se realizam os encontros?
• O que acontece com os filhos? Estão presentes?
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• A parte mais fraca será pressionada pela mais forte para entrar em acordo?
• Usa-se a mediação em casos que envolvem violência doméstica?
• O que acontece se a outra parte for desonesta e prestar informação
financeira incompleta?
• Quem são os mediadores? Que espécie de formação é que têm?
• É preciso ter tambémum advogado?
• Os advogados vão à mediação com os seus clientes?
• Os acordos obtidos em mediação têm valor legal?
Mediação familiar e diversidade cultural
As populações em muitos países estão cada vez mais mescladas racial e
culturalmente. Para que a mediação familiar seja aceitável por todos os grupos
étnicos, os mediadores precisam de respeitar diversas tradições culturais ao
mesmo tempo que têm de ter o cuidado de evitar estereótipos. Nalgumas
comunidades os interesses da família alargada são prioritários sobre as preocu-
pações ou necessidades individuais. Os membros da família respondem às suas
obrigações mútuas e, em tempos de crise, é normal as crianças ficarem com
parentes, como é normal um parente dependente ser acolhido por outros
membros da família. Este tipo de sistema familiar é muito unido e famílias
numerosas vivem frequentemente nas proximidades uns dos outros. Quando a
cultura do mediador é diferente da do participante, é também importante estar
consciente das normas culturais que influenciam a sua capacidade de negociar uns
com os outros em mediação. Nos casamentos tradicionais na Ásia, o marido é
dominante e a mulher submissa. O divórcio não é bem visto porque dá origem a
um estigma social e prejudica a harmonia familiar.
A literatura específica dum ponto de vista cultural é importante porque
identifica variáveis que influenciam o processo de mediação. Os mediadores têm
de aumentar o seu conhecimento e sensibilidade a grupos de culturas e etnias
diferentes de modo que a sua aproximação não seja dominada pelas suas próprias
tradições e valores. Mesmo quando os mediadores são da mesma cultura dos
participantes, eles têm que apreciar a singularidade das suas próprias tradições e
valores. As mediações que envolvem pessoas de culturas diferentes precisam da
mesma abertura que o mediador usa em qualquer outra mediação.
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Resistência à mediação
A mediação é vista muitas vezes como o processo que outras pessoas deviam usar.
Mas ser o próprio a usá-la é outra história. A maioria das pessoas acha difícil pedir
ajuda a um estranho sobre problemas pessoais íntimos. É preciso coragem e
determinação para atravessar o limiar dum serviço de mediação desconhecido. É até
mais assustador encarar a perspectiva de explicar as suas necessidades a um
desconhecido do que a necessidade de controlar os sentimentos de ira e de dor
causados pela presença do(a) ex-parceiro(a). Quando as pessoas resistem a uma
determinada orientação, tentar persuadi-las contra a sua vontade faz com que
aumente a sua resistência. Dizer “De facto você devia…” pode ser contraproducente,
ao passo que reconhecer e mostrar empatia com os receios e as preocupações pode
ter o efeito oposto de reduzir a resistência. A ideia da mediação tem de ser
apresentada duma maneira clara e equilibrada, explicando os seus benefícios
potenciais, mas reconhecendo ao mesmo tempo as ansiedades e os medos reais.
A aproximação à outra parte
Muitas vezes, uma parte ou o seu advogado estabelece o primeiro contacto com
o serviço de mediação, sem saber se a outra parte está preparada para participar.
É evidente que a mediação só pode ter lugar se ambos estiverem dispostos a
participar. Os inquiridores precisam de receber informações e de ser ajudados
para considerarem como é que a proposta de mediação deve ser apresentada ao
seu parceiro. Imaginemos por exemplo uma chamada de uma mulher de nome
Luísa, que pensa que a mediação talvez a ajude a conseguir um divórcio. Ela
preferiria divorciar-se amigavelmente, mas não sabe se o seu marido, Carlos,
estará pelos ajustes para tomar parte. O mediador ou o seu adjunto podem ajudar
a Luísa a equacionar as seguintes questões:
• Pode ela falar com Carlos? Se eles já estão separados, pode ela telefonar-
lhe? O que lhe vai ela dizer para o encorajar a tentar a mediação?
• Se a comunicação entre eles for difícil, poderia a Luísa enviar-lhe um
folheto sobre a mediação familiar com uma nota explicativa pessoal?
Poderá ser aconselhável analisar o texto dessa nota pessoal.
• A Luísa talvez tenha um advogado e pode ser que ela queira que o seu
advogado escreva ao advogado de Carlos, ou ao próprio Carlos, no caso
dele não ter um advogado.
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• A Luísa pode pedir ao mediador ou ao serviço de mediação, para
escrever ao Carlos, porque ela pensa que qualquer proposta que lhe faça
está votada a insucesso.
Triangulação
A parte que tomar a iniciativa de propor a mediação prevê frequentemente que
a outra parte recusará participar. Ainda que este pessimismo esteja bem
fundamentado, deve-se dar uma oportunidade idêntica à outra parte para considerar
a mediação. É também possível que a primeira parte não queira partilhar qualquer
ajuda existente. A primeira parte pode esconder a sua relutância em participar,
desencorajando qualquer contacto que esteja a ser feito com a segunda parte. Um
conhecido terapeuta familiar escreveu acerca da Batalha para a Iniciativa e da
Batalha para a Estrutura para controlar aquele que fica encarregado do processo
(Whitaker, 1977). Muitos mediadores familiares reconhecem a batalha pelo controlo,
que tem lugar quando uma das partes procura assegurar o apoio do mediador antes
que a outra o possa fazer. Quando os casais estão a terminar uma relação, eles
normalmente procuram aliados, especialistas ou terceiros, que possam formar uma
triangulação no seu conflito. Os mediadores devem estar conscientes dos riscos da
triangulação, especialmente se medeiam sozinhos.
Os casais em conflito têm tendência para entrar numa série de jogadas e
contra-jogadas nas quais se corre o risco de aparecer um número crescente de
terceiros. Estas jogadas são estratégicas. À medida que o batalhão de apoio de
parentes, amigos e conselheiros cresce de cada lado, os interesses adquiridos de
outras pessoas podem ser empolados e obscurecer a disputa original. É preciso
que os mediadores percebam as jogadas estratégicas que poderão ser feitas de
modo a que possam responder com estratégias imparciais, embora eficazes, da sua
autoria. Mesmo numa fase inicial podem ocorrer manobras para controlar o
processo de mediação e os seus resultados. Pode haver manobras por uma das
partes para controlar o novo terreno em que o “jogo” se vai jogar. A primeira ma-
nobra poder-se-ia chamar de “Agarrar a iniciativa”. A parte que propõe a mediação
conheceu este processo em primeiro lugar e, porque conhece melhor o que é a
mediação, coloca a outra parte em desvantagem, pondo em evidência a solução
mais moral do “querer mediação” e afirmando que já contactou o mediador.
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A segunda jogada pode ser “Deixem-me explicar o problema”. Uma parte, ou
o seu advogado, pode tentar influenciar o mediador a tomar em mãos o processo
de mediação, dizendo “Posso visitá-lo para lhe explicar o problema?” Ou “Posso
enviar-lhe os papéis para o ajudar a perceber o problema?”. Os mediadores têm
de inspirar confiança e ser firmes ao explicar as regras básicas da mediação e ao
aderirem às mesmas desde o princípio sem alienar nenhuma das partes. É fácil
subestimar o trabalho e o tempo envolvidos para estabelecer uma mediação. Vale
a pena gastar esse tempo e ter esse trabalho, porque uma preparação cuidadosa
aumenta grandemente as probabilidades de que a mediação se venha a efectuar.
Uma carta a propor um encontro à outra parte produz uma resposta positiva
em alguns casos, mas quando se prevê que a resposta seja negativa, uma carta
exploratória pode ser mais eficaz. Uma carta exploratória usa a previsão de uma
das partes de que a resposta seria negativa, de modo que possa pelo contrário
produzir uma resposta positiva.Exemplo duma carta exploratória
Prezado Sr. Lourenço
A sua mulher, Senhora Dona Luísa Lourenço, telefonou-nos hoje a pedir
uma reunião. Explicámos-lhe que a mediação familiar existe para ajudar
ambas as partes de igual modo e que nós não marcamos uma reunião de
mediação com uma das partes sem convidar a outra parte a participar.
Sei muito pouco sobre a sua situação, visto que não pedimos a uma pessoa
para fornecer detalhes do problema antes de sabermos se a outra pessoa estará
disposta a participar na reunião. Tenho conhecimento apenas de que estão
vivendo separadamente e que a sua mulher assinou um pedido de divórcio.
Manifestei à sua mulher a opinião de que a mediação poderia ser útil
para ambos no que se refere às soluções referentes aos vossos filhos, aos
assuntos financeiros e a outros assuntos que têm de ser resolvidos.
A sua mulher pensa que é pouco provável que você queira participar,
contudo, pelo meu lado, espero que esteja disposto a considerar a sugestão.
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Junto tomo a liberdade de lhe enviar um folheto sobre o Serviço de
Mediação Familiar Concórdia com o número de telefone para marcação de
reuniões e para qualquer informação adicional. Se me quiser contactar ou
se pretender mais informações, estou à sua inteira disposição.” 
Os receios manifestados pela Luísa de que é pouco provável que Carlos aceite
a mediação podem levar Carlos a querer provar que ela está enganada. Isso pode
parecer-lhe importante porque contribuiria para acumular dúvidas sobre a
consistência das opiniões de Luísa e permitir-lhe-ia colocar-se numa posição
superior no campo da moral. A experiência no uso duma carta deste género é que
o suposto parceiro não colaborante normalmente telefona logo depois de a
receber. A primeira parte pode então ser informada que a outra está disposta a
recorrer à mediação. A primeira parte fica frequentemente atónita. E se for ela a
parte relutante, é-lhe agora mais difícil recusar a mediação.
Formulários de orientação
Recorre-se frequentemente a formulários de orientação em conjunto com
procedimentos de protecção para procurar obter informações preliminares de
ambas as partes em situação de igualdade. Os formulários de orientação depois
de preenchidos fornecem informação útil sobre a duração do casamento ou da
coabitação e, se o casal estiver separado, sobre a data da separação, e ainda sobre
os nomes e idades dos filhos, as condições de vida, a fase de quaisquer
procedimentos jurídicos, e contêm ainda informação preliminar sobre as
profissões, habitação e situação financeira do casal, em termos gerais. O
formulário também pergunta o que cada participante espera resolver através da
mediação. Frequentemente, os dois identificam as mesmas questões e indicam fins
e objectivos similares nos seus questionários. Isto permite ao mediador acentuar
as preocupações comuns das partes desde o princípio. Alguns casais fornecem
dados diferentes sobre o seu casamento, separação ou o nascimento dum filho.
Informação factual tem de ser verificada com o casal durante a primeira reunião
e fornecer indicadores úteis na preparação dessa primeira reunião.
O formulário de orientação deverá também incluir uma pergunta sobre qualquer
possibilidade de reconciliação. Muitos casais que recorrem à mediação não
concordam que o seu casamento ou união se tenha desfeito irremediavelmente. Os
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que querem continuar casados podem recusar a mediação, caso pensem que o
objectivo do mediador é empurrá-los para o divórcio. Pelo contrário, aqueles que
querem o divórcio podem recusar a mediação se julgarem que o seu objectivo é
voltar a juntá-los. Questões formuladas duma forma neutra ajudam o mediador a
perceber a posição de cada parceiro e em que fase se encontra.
Estabelecer a identidade da mediação familiar
Os interessados precisam duma explicação clara sobre os objectivos e
procedimentos da mediação familiar. A mediação familiar é facilmente confundida
com aconselhamento familiar e com apoio jurídico, especialmente se o mediador
é conhecido por trabalhar como conselheiro ou advogado. A mediação precisa da
sua própria identidade, distinta de outros serviços. Quando os mediadores
familiares partilham o seu local de trabalho com uma empresa de aconselhamento
ou de advocacia, os mediadores devem ter o seu telefone próprio e o serviço deve
ter uma identificação separada no exterior. Os recepcionistas que atendem os
interessados têm de saber explicar de que modo as reuniões preliminares ajudam
os clientes a decidir qual o caminho a tomar.
Identificação para a mediação
Quando um parceiro ou um casal são orientados para a mediação, o caminho
a seguir é como um cruzamento de estradas com semáforos. Antes de avançar é
essencial reduzir a velocidade e verificar se as luzes estão verdes, amarelas ou
vermelhas, e se estão fixas ou intermitentes. Nas situações a seguir apresentadas,
as luzes têm grandes probabilidades de estar vermelhas e a mediação pode ser
totalmente ou muito provavelmente inadequada:
• Algumas categorias e histórias de abuso doméstico
• Reconhecimento ou alegação de abuso dos filhos
• Intimidação, ameaças, desequilíbrios extremos de poderes
• Doenças mentais
• Incapacidade mental
• Uso de álcool ou drogas que interfira com a capacidade de tomar
decisões racionais
• Prova de fraude, como seja prestação de informações falsas
• Recusa ou incapacidade de aceitar regras básicas em mediação.
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Abuso doméstico e mediação
A Investigação sobre o Crime no Reino Unido de 1992 (The British Crime
Survey 1992) demonstrou que os dois factores mais significativos associados com
riscos de abuso doméstico ocorriam quando as mulheres estavam separadas ou
divorciadas e quando tinham filhos. Trabalhos de investigação mostraram que as
mulheres se encontram no ponto de risco mais elevado quando tentam terminar
a relação e/ou pedem auxílio exterior, particularmente se existem filhos. A
violência continua, e por vezes, acentua-se depois da separação. Existem opiniões
muito consistentes segundo as quais a mediação não é indicada nos casos que
envolvem violência ou intimidação, e em que um processo consensual de tomada
de decisões não é viável entre vítima e abusador. Trata-se de preocupações da
maior importância que pedem atenção especial. Não se faz ideia da frequência
com que a violência se manifesta no seio de casais, por detrás da porta fechada
da sua casa. A violência do domínio público é apenas uma ponta do icebergue.
Um estudo feito em Bristol durante três anos detectou que 40% de casais
recentemente divorciados admitiu que tinha havido violência física no seu
casamento. Pesquisadores nos Estados Unidos concluíram que pelo menos metade
das disputas relativas a custódia e acesso aos filhos que deram entrada nos
serviços de mediação de tribunais de família envolviam alguma forma de
violência. Contacto entre os pais por ocasião da recolha ou da entrega dos filhos
pode ser um rastilho para a ocorrência de episódios de violência.
Quando o uso da mediação se acentuou nos Estados Unidos durante a década
de 1980, houve oposição por parte de grupos dos direitos das mulheres e
feministas. As objecções mais fortes eram contra a mediação obrigatória, na qual
mulheres que foram vítimas de violência física eram obrigadas a tomar parte com
o parceiro abusador. Os opositores da mediação objectaram que a segurança física
não podia ser garantida e que os riscos de violência seriam aumentados por
encontros cara-a-cara. Pensava-se que as vítimas corriam os maiores riscos logo a
seguir aos encontros de mediação, no caso de abandonarem o edifício ao mesmo
tempo do participanteque se poderia encontrar enraivecido. Houve grandes
controvérsias sobre esta matéria nos Estados Unidos, envolvendo muitas e variadas
organizações e profissões. Foi promulgada legislação em pelo menos dezasseis
Estados americanos isentando as mulheres que foram vítimas de violência da
mediação obrigatória. Num projecto-piloto os mediadores foram proibidos por lei
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de aceitar vítimas de violência. Daqui resultou que 60% de potenciais utilizadores
da mediação foram excluídos. O pessoal que acompanhou este programa relatou
que muitas das mulheres que foram excluídas acreditava que a exclusão as estava
a prejudicar, em vez de as ajudar. Estas mulheres pensavam que seriam elas
próprias a tomar a decisão, em vez de terem de se sujeitar a um tribunal impessoal
que não levava em linha de conta os seus desejos e as circunstâncias.
As associações de mulheres têm tendência a serem sérios opositores da
mediação quando o abuso doméstico é um problema. E apesar disso são muitas
vezes as próprias mulheres que procuram a mediação porque elas querem uma
oportunidade para falar com o seu parceiro, ou anterior parceiro, na presença dum
terceiro imparcial, competente e fiável. Elas deviam ter a oportunidade de
considerar se desejam participar na mediação, e em caso afirmativo, se é necessário
ter em atenção algum tipo de salvaguarda. Para os mediadores, há questões
fundamentais éticas, profissionais e práticas para avaliar as diversas formas e níveis
de abuso. Uma avaliação cuidadosa de possíveis situações de violência doméstica
e doutras formas de abuso é uma exigência para a realização de sessões de
mediação financiadas publicamente em Inglaterra e no País de Gales. É igualmente
importante fazer a avaliação do abuso doméstico, considerando a conveniência da
mediação com clientes privados. Os mediadores familiares precisam de ser
conhecedores da intensidade do abuso doméstico e dos riscos para os envolvidos,
incluindo as crianças. Eles precisam de ter conhecimentos e capacidade para avaliar
em que circunstâncias a mediação poderia ser segura e apropriada e se deve ser
enviada para outras instâncias. Se a mediação for considerada adequada e aceitável
para ambos os parceiros, há que tomar determinadas salvaguardas.
Avaliação para identificar casos em que a violência ou o abuso foram
praticados
Estudos de pesquisa sobre mediação e abuso doméstico mostram a importância
de usar procedimentos de inquérito apropriados. Uma pessoa que se sente
ameaçada pode ter medo de correr grandes riscos se denunciar o prevaricador. É
preciso fazer uma avaliação separada para lhe permitir falar sem a presença do
presumível parceiro violento. As perguntas no inquérito inicial e na entrada têm de
ser apresentadas com sensibilidade para recolher informação factual, avaliar riscos
e perceber os receios. Algumas pessoas precisarão urgentemente de aconselha-
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mento jurídico e assistência e a mediação não será então aconselhável. Os media-
dores precisam de perguntar se em ocasiões anteriores estiveram envolvidos polícias
ou assistentes sociais, se foi necessário tratamento médico e ou apoio jurídico, se
houve sentenças ou medidas de protecção pessoal. 
Deve-se usar uma série de métodos de avaliação. Algumas pessoas acham mais
fácil revelar abusos quando escrevem do que quando falam cara-a-cara. Um inquérito
de orientação pode ser enviado para ser preenchido antes de qualquer um dos
parceiros participar na reunião inicial. O formulário deve incluir uma pergunta sobre
se pensa que a pessoa interessada ou qualquer membro da família está em risco, seja
de que modo for. Se a pergunta for respondida pela afirmativa, a resposta deve ser
enviada imediatamente. Deve-se informar se existem outros serviços, ainda que seja
duvidoso que haja serviços que possam assegurar protecção adequada.
É importante para os mediadores saberem se não existe protecção adequada
para vítimas da violência. Também é importante estar consciente de que a recusa
da mediação por uma das partes pode servir para desencadear novas agressões pela
outra, em especial se a violência deriva de tentativas frustradas para comunicar. Há
uma opinião segundo a qual a avaliação deveria ser feita por pessoal devidamente
habilitado e não pelo mediador a quem o casal foi confiado. O mediador corre
então menos riscos de ser considerado como estando do lado da outra parte.
Razões correntes para mostrar relutância em admitir ser uma vítima de abuso:
1. Muitas mulheres não se identificam como sendo “mulheres maltratadas”,
e não acham que o que sofreram seja “violência”. Nalgumas culturas as
mulheres são educadas a olhar a violência como normal e até como um
sinal de cuidado;
2. Uma mulher que está a ser abusada pode ser ameaçada, e ter medo de
mais abusos se contar a alguém o que está a acontecer;
3. Ela pode recear perder os seus filhos ou a sua casa;
4. Ela pode ainda importar-se com o seu parceiro e pode não querer
terminar o relacionamento;
5. Ela pode sentir-se humilhada e temer o estigma social de admitir ser
objecto de violência, ficando rotulada como um falhanço ou então
demasiadamente deprimida para fazer seja o que for;
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6. Para os homens é ainda mais difícil que para as mulheres terem de revelar
que são vítimas de violência, visto isto ser mais humilhante de admitir para
um homem do que para uma mulher. Assistentes sociais e mediadores
podem procurar saber se as mulheres foram sujeitas a abusos e não usar o
mesmo cuidado de averiguação idêntica no caso dos homens.
Diversas categorias de violências e de abusos domésticos
Um comportamento que pode ser aceite nalgumas comunidades pode ser
totalmente inaceitável noutras. As definições de abuso doméstico e o julgamento de
valores acerca dos autores de violência variam entre os que prestam apoio, assim
como entre os que o procuram. Temos de estar conscientes dos nossos próprios
condicionamentos culturais e valores pessoais e tendências para os estereótipos, que
nos poderiam impedir de perceber se estão a cometer abuso ou se há receio de
abusos. Não deveríamos considerar apenas violência física. Abusos do tipo psico-
lógico, emocional e verbal podem ser ainda mais destrutivos. Johnston e Campbell
(1993) identificaram cinco tipos de abuso doméstico. Ainda que a mediação possa
ser usada cuidadosamente nalgumas categorias, ela seria contra-indicada noutras. É
preciso que os mediadores sejam capazes de distinguir entre estes diferentes tipos
para conseguirem avaliar níveis de risco e de inquietação.
1. Espancamento severo pelo parceiro masculino
Este género de espancamento é susceptível de aumentar em termos de
violência com o tempo, e a mediação não é recomendada nestes casos. Se uma
vítima deste tipo de violência é encaminhada para a mediação, há que tomar o
maior cuidado para que tenha acesso a aconselhamento e ajuda, sem a fazer
correr riscos adicionais. Em Inglaterra e no País de Gales, a informação prestada
por uma das partes numa reunião preliminar separada é confidencial e não deve
ser transmitida à outra parte, mesmo se esta vier a realizar ulteriormente um
encontro preliminar com o mesmo mediador.
2. Violência associada a reacções psicóticas e paranóicas
Numa minoria dos casos a violência é causada por um pensamento confuso e
por uma séria distorção da realidade, como o que se verifica em doenças
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psicóticas. Esta violência é imprevisível, normalmente há poucas razões para o
ataque e o mesmo não é provocado pela vítima. O nível de violência varia entre
moderado e severo. A separação ocasiona uma fase de perigo. Esses casos devemser excluídos da mediação e entregues a outros serviços.
3. Usar violência interactiva para provocar reacções e ganhar controlo 
Johnston e Campbell lembram que casais que estão habituados a provocarem-se
verbalmente e a trocar insultos acabam frequentemente por ter uma confrontação
física. Qualquer um dos parceiros pode começar a provocar o outro, mas a reacção
prepotente do homem afirma-se pelo domínio físico sobre a mulher. O homem não
a espanca e normalmente não usa mais força do que a necessária para obter a sua
submissão.
4. Abuso pelas mulheres
A Pesquisa Sobre o Crime na Grã-Bretanha de 1998 (The British Crime Survey
1998) relatou que 30% das vítimas de violência doméstica eram homens. Contudo,
não é corrente as mulheres infligirem danos físicos sérios. Normalmente as mulheres
que são violentas enfureceram-se por causa da passividade do seu parceiro ou por
este não ter ido ao encontro das suas expectativas. Elas podem atirar qualquer
objecto ao seu parceiro ou bater-lhe, mas raramente utilizam uma arma. Mulheres
que matam um parceiro violento foram normalmente espancadas durante anos.
5. Abuso associado com separação
Há outra forma de abuso associado com separação que não decorre do
relacionamento do casal e do anterior comportamento de um para com o outro.
A violência física ocorre tipicamente pela primeira vez quando um dos parceiros
anuncia a intenção de abandonar o outro. Johnston e Campbell sugerem que a
mediação poderá ser útil para casais nesta categoria e que não se lhes devia negar
tal possibilidade, se ambos aceitarem a mediação.
Frequentemente esses casais têm relutância em admitir a um estranho que uma
discussão entre eles descambou em violência, pois sentem-se humilhados. Um
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mediador que se aperceba disso pode precisar de comentar como é fácil perder o
controlo em situações de crise, quando os níveis de tensão estão muito elevados.
Se nessa ocasião o casal reconhecer que perdeu ou receou perder o controlo é
importante questionar cada parceiro sobre os seus receios, para estabelecer se
houve danos físicos e se foi pedido apoio médico ou parecer jurídico. Se nunca
houve violência anteriormente e se ambos os parceiros estiverem ansiosos por
trabalhar em conjunto para reconquistar o controlo da situação, a mediação poderá
ser indicada e pode ajudá-los a reconquistar o controlo. Poderá haver necessidade
de medidas para reduzir quaisquer riscos, tal como definir as fronteiras de contacto
(local e /ou tempo), ou então estabelecer um acordo entre ambos para não falarem
em casa sobre um assunto que desencadeia uma ira explosiva. Pode ser que eles
aceitem que este assunto só seja discutido nas sessões de mediação. É preciso
considerar a salvaguarda para ambos os parceiros, e ambos precisam de estar
informados das acções legais ou outras em que possam incorrer se as regras
acordadas entre eles não forem respeitadas.
Dados de pesquisas sobre mediação indicam que pode ser apropriada e útil
para ambos os parceiros deste nível de violência relacionada com a separação,
desde que tenha sido estabelecido um código de regras e que existam as
necessárias salvaguardas para garantir que:
i. Foi feita a análise para verificar se houve incidentes anteriores de
violência ou abuso.
ii. Foram totalmente explicados a ambas as partes o processo, as
salvaguardas e as regras básicas que serão utilizadas.
iii. As partes concordaram em participar com base em informação completa
e de sua livre vontade. Os mediadores devem verificar durante a
mediação que nenhuma das partes está a participar sob pressão.
iv. Existem salas de espera separadas, de modo a que nenhum dos
parceiros tenha de ter receio de ter de esperar no mesmo local do outro
enquanto a tensão cresce entre eles.
v. Se uma das partes tiver medo de chegar ou de deixar o edifício ao
mesmo tempo da outra, foram tomadas medidas prévias para permitir
que possam chegar e sair separadamente.
vi. Os mediadores têm conhecimento adequado acerca das ordens de
protecção pessoal que possam ser decididas pelos tribunais.
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vii. Os mediadores foram treinados para reconhecer sinais não verbais de
abuso e estão preparados para encaminhar correctamente essas
situações para serviços próprios de ajuda e aconselhamento jurídico.
viii. Os serviços de mediação proporcionam condições adequadas de
trabalho e salvaguardas, incluindo a proibição dum mediador trabalhar
sozinho numa parte do edifício e a disponibilização dum sistema fiável
de chamadas de emergência ou de um botão de alarme.
ix. A morada e o número de telefone duma das partes podem ser mantidos
confidenciais e não transmitidos à outra parte, quando tal for
especificamente pedido. Esta confidencialidade deve ser mantida pelo
mediador com o máximo cuidado.
x. Quando uma das partes alega violência pela outra, uma das condições
essenciais para continuar a mediação é que a parte acusada de violência não
negue os factos básicos. Ainda que seja normal que as suas interpretações e
explicações de causas e razões sejam diferentes, ambas as partes têm de estar
de acordo sobre os factos essenciais do que aconteceu.
Filhos em risco
É essencial que os mediadores também equacionem o encaminhamento das
crianças para serviços de protecção quando considerarem a necessidade de
protecção dos progenitores em casos de violência doméstica. Em casos de
violência doméstica estima-se que os filhos sofreram abusos físicos numa
percentagem tão alta como 40 a 60 %. Muitos filhos mantém-se em contacto
depois da separação com um dos alegadamente violentos progenitores e alguns
continuam a viver com um deles. O impacto sobre as crianças que
testemunharam ou sofreram violência e temeram mais violência pode ser
devastador. A longo prazo pode ter efeitos destruidores muito profundos. Um em
cada quatro filhos declararam num estudo que sabiam que havia violência entre
os seus pais, quer durante o seu relacionamento, quer depois deste ter terminado.
Noutro estudo detectou-se que em 90% dos casos de violência doméstica, os
filhos dormiam no mesmo quarto ou num quarto adjacente quando a violência
acontecia. Os filhos descreveram o seu terror pela violência que eles ouviam estar
a acontecer: “Eu costumava esconder-me no canto mais pequeno do meu quarto”
(Cockett e Tripp, 1994, p.46)
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Escolher enquanto os semáforos estão amarelos em vez de vermelhos
As primeiras impressões podem ser enganadoras. Alguns casais parecem extre-
mamente hostis, ainda que nenhum dos parceiros se refira a abuso ou a medo de
abuso, mas talvez tenham atingido uma fase em que estão prontos a acalmar.
Outros são muito hostis e querem prolongar a sua luta. Quando se está hesitante
sobre se a mediação é recomendável, deve realizar reuniões iniciais separadas
com cada parte. Infelizmente estas reuniões não permitem ao mediador ver como
é que as partes actuam uma sobre a outra. Os semáforos podem estar amarelos,
mas não necessariamente vermelhos. Quando houver incerteza sobre a adequação
da mediação, os mediadores podem oferecer uma sessão exploratória adicional
para ver se se justifica continuar. Torna-se assim possível orientar com mais
confiança para a mediação situações que se encontram no limite. Eis alguns
exemplos de situações no limite:
• Um ou ambos os parceiros estão muito angustiados, indicando uma
necessidade de recorrer a serviços médicos, aconselhamento ou terapia
(ver Cap. 8)
• Um parceiro mostra sinais de depressão, ou está a ser tratado por
depressão
• Hostilidade extrema (ver Cap. 8)
• Desequilíbrios de poder podem não ser apropriados para mediação (ver
Cap. 7)
• Indicaçãode que um parceiro pretende prolongar a luta, sem motivação
para atingir uma solução
• Circunstâncias mais adaptadas a uma decisão judicial do que à mediação. 
Casais em vias de separação ou de divórcio: modelos de comunicação e
conflito
Cada situação de ruptura é única, mas é possível detectar alguns modelos. É
útil para os mediadores reconhecerem modelos, não para classificar os casais em
categorias ou para lhes dar receitas, mas para lhes dar linhas orientadoras sobre a
abordagem que oferece mais hipóteses para o casal em questão. O modelo pode
ser alterado ao longo do tempo e um parceiro pode mostrar características dum
modelo, ao passo que o outro parceiro mostra características doutro modelo. A
questão está em como pode um mediador ajudar ambos ao mesmo tempo. Os
mediadores não são clínicos a fazer diagnósticos e qualquer hipótese que
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formulem não é um prelúdio a um tratamento. Como o objectivo da mediação é
talhar o processo para se adaptar às necessidades dos participantes, a ênfase é
posta mais em como o talhar, do que em capacidades de diagnóstico.
A comunicação é a ferramenta básica, e os problemas de comunicação são
frequentemente a causa e o efeito da ruptura dum relacionamento. É essencial saber
como é que os casais lidam com os desacordos. Não se trata de saber se os casais
discutem, mas como discutem. As intervenções do mediador podem reduzir as
tensões superficiais. A escolha da técnica num momento particular é semelhante ao
uso da caixa de ferramentas dum marceneiro. Usar um nível de bolha de ar para
verificar um equilíbrio é frequentemente necessário e mais útil do que recorrer a
uma chave de fendas para conseguir chegar aos factos. Investigadores que se
ocuparam a estudar os caminhos que os casais usam quando se divorciam definiram
várias tipologias identificadoras de modelos de reacção e de interacção. Ahrons
(1994) distinguiu entre “pessoas perfeitas”, “colegas cooperantes”, “casais
dissolvidos”, “associados zangados” e “adversários explosivos”. A tipologia seguinte,
que é anterior à classificação estabelecida por Ahrons e com a qual é aliás parecida,
foi estabelecida a partir de experiência em mediação:
i) Pais cooperantes 
ii) Meio separados
iii) Gestores de negócios
iv) Conflito aberto 
v) Conflito deslocado 
vi) Não comunicadores 
vii) Aderentes a qualquer preço 
viii) Guerra, não Paz!
i) Pais cooperantes
As pessoas ficam por vezes surpreendidas ao tomar conhecimento de que
muitos pais cooperantes escolhem a via da mediação sem terem qualquer
disputa. A mediação torna-se atraente para esses casais porque eles pretendem
manter a sua cooperação e porque estão habituados a discutir as coisas em
conjunto. Se houver questões financeiras, eles querem tirar partido dos
conhecimentos técnicos e da experiência em preparar um acordo financeiro, em
vez de se entenderem com dois advogados diferentes. Os casais cooperantes
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movem-se com relativa facilidade duma fase de mediação para a seguinte,
tratando de problemas e necessidades, coligindo informação e arquitectando
soluções. Contudo é importante que o mediador se assegure da sua
exequibilidade, porque os planos financeiros que tenham sido aparentemente
aceites podem não ser viáveis na realidade. Por vezes, as consequências não
foram claramente percebidas pelas partes.
A mediação com estes casais é normalmente restrita e pode ser feita de forma
descontraída, mas os mediadores precisam de estar preparados para repentinas
manifestações de desavenças ou para sofrimento emocional. Estas desavenças
reactivas podem ser um mecanismo necessário para criar alguma distância entre
um casal cordial, de modo a que a separação possa acontecer – quando a
separação for necessária. Pode talvez ser um mecanismo de confrontação que
ajuda a evitar uma depressão. Se porém a zanga reactiva se tornar repetitiva, os
mediadores podem precisar de gastar mais tempo a perceberem a zanga e a sua
origem antes que ambas as partes estejam prontas para começar a tratar das
questões que têm de ser resolvidas.
A introdução dum novo parceiro num dos lados é normalmente perniciosa
para o anterior bom nível da cooperação. Os mediadores podem ajudar a rever
dificuldades, levantando questões hipotéticas (Cap. 4) tais como, no caso dum dos
parceiros começar uma nova relação que possa afectar os acordos, como é que o
anterior parceiro gostaria de ser informado. O casal poderá eventualmente
concordar que voltariam à mediação se um novo relacionamento em qualquer um
dos lados aconselhar a rever o que estiver acordado.
Pode também ser útil indicar a casais cooperantes que estão em vias de
separação ou que vivem separados que, ainda que estejam a ajudar claramente os
seus filhos por trabalharem tão bem em conjunto, os filhos podem ficar confundidos
pela grande amizade que vêem entre os pais. Essa amizade pode ser mal
interpretada pelos filhos, como um sinal de que os seus pais vão juntar-se outra vez.
Os filhos mais novos, em especial, podem achar muito difícil de compreender
porque é que há uma necessidade de divórcio, uma vez que os seus pais se dão tão
bem. Mesmo quando os pais estão de acordo sobre os filhos, pode acontecer que
tenham de analisar como vão falar com as crianças. Os pais evitam muitas vezes
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falar com os filhos sobre a sua separação ou divórcio, quando não estão bem certos
do que lhes devem dizer (ver Cap. 6 sobre as conversas com os filhos).
ii. Meio separados – apartados mas não totalmente afastados
Casais meio separados são frequentemente ambivalentes sobre o seu desejo de
separação ou divórcio. Eles podem demonstrar essa ambivalência deixando algumas
questões no ar. A mediação pode ajudá-los a esclarecer estes assuntos e a explorar
opções em matérias que ainda não resolveram. Durante o processo talvez consigam
exprimir as suas incertezas, a sua insegurança e os seus sentimentos confusos.
Pode ser particularmente útil para esses casais balizar melhor as fronteiras da sua
separação e definir o número de contactos dum com o outro. Um parceiro que faz
visitas frequentes – “passei por aqui e pensei que podia entrar” – pode justificar isso
como um meio de estar em contacto com os filhos. Mas visitas não planeadas podem
atrapalhar e podem ser uma desculpa para controlar como é que as coisas estão a
correr em casa. Pode ser útil que ambos os parceiros combinem os contactos de que
de facto precisam ou que querem e se esses contactos só devem ter lugar mediante
acordo prévio. Quando o contacto foi combinado, todos os interessados, incluindo os
filhos, podem preparar-se para eles dum ponto de vista emocional. Sentimentos
variados de prazer e de dor, quando um parceiro ou progenitor desaparecido volta a
aparecer é frequente as suas visitas serem complicadas pela raiva não resolvida entre
pais e filhos. É mais fácil lidar com o emaranhado de sentimentos complicados se o
contacto for planeado cuidadosamente.
Muitos casais meio-separados são capazes de falar entre si durante algum
tempo, mas talvez precisem da ajuda do mediador para tratar de questões difíceis
que doutro modo evitariam ou poriam de lado. Alguns admitem que, ao mesmo
tempo que procuram ser justos e razoáveis, sentem um desejo de ripostar a um
parceiro que causou dor. Os mediadores podem ajudá-los, organizando as
discussões e ajudando-os a gerir tópicos penosos.
iii. Gestores de negócios
Há alguns casais de dupla profissão cujo relacionamento é baseado em
conveniência e amizade e não propriamente em sentimentos profundos. O seu
relacionamento pode ser curto e talvez nunca tenha existido uma ligação forte. Estes
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casais em regra não têm filhos. Quando uma mudança na carreira de um deles
precipita uma decisão de separação, o casal pode tratar da separação como se fosse
um negócio. Os aspectos práticos são equacionados rapidamente e talvez nem se
faça nenhuma referência a sentimentos. Espera-se que os mediadores sejam
altamente eficientes nos assuntos técnicos e qualquer investigação relacionada com
emoções poderia ser vista como deslocada e ser por isso eliminada. Os casais que
tratam duma separação ou dum divórcio como um assunto de negócios para ser
resolvido rapidamente têm direito a uma mediação eficazmente conduzida. Os
mediadores deverão contudo ter uma antena sintonizada para captar sinais de dor
ou sofrimento que se escondam atrás duma aparência exterior fria. Entre os gestores
incluem-se casais de idosos cujos sentimentos de um para com o outro podem ter
enfraquecido. Por vezes eles formaram novas relações e recorrem à mediação para
dissolver um matrimónio que não era mais do que uma concha vazia. Se as questões
financeiras forem claras e se o nível de irritação entre eles for reduzido, a mediação
pode ser um processo desejável e eficaz.
iv. Conflito aberto
Existe um contraste nítido entre mediar casais que evidenciam uma postura
tranquila e metódica, e com casais em conflito violento e aberto. Quando a raiva
é muito grande, os temperamentos podem inflamar-se bruscamente e pode haver
gritos e lágrimas. Os mediadores precisam de ser rápidos e confiar nos seus dotes
de gerir conflitos, incluindo identificar e tirar partido da zanga. O objectivo é
canalizar a energia gerada pela raiva do casal para resolver os seus problemas, em
vez de prolongar uma batalha destrutiva. A mediação com casais em guerra exige
mais intervenções pelo mediador e uma estruturação mais cuidadosa das sessões.
Casais que se batem pelos “destroços” da sua relação falhada verificam que
estes valem cada vez menos quanto mais eles se batem para ver quem fica com
o quê. Os mediadores precisam de desviar a atenção dos acertos e desacertos
individuais para as preocupações e interesses mútuos. Os desacordos podem ser
reenquadrados como preocupações válidas (ver Cap. 4). Questões pragmáticas
como por exemplo “Então o que é que pensa que poderia ajudar?” podem fazer
aparecer uma sugestão que não tinha ocorrido anteriormente porque o casal
estava demasiado ocupado a marcar pontos um contra o outro para poder pensar
noutra coisa. Pode também ser útil concentrar-se na gestão da crise e dos acordos
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provisórios, antes de procurar resolver os problemas sobre os quais o casal se bate
mais amargamente. Mesmo uma pequena dose de cooperação pode encorajar
mais esforço. Também é difícil prever o efeito de manifestar sentimentos que se
mantiveram escondidos durante muito tempo. Dizer o que precisa ser dito e sentir-
se ouvido pode ser extremamente benéfico para ambos os parceiros. Se, contudo,
se verificar um modelo repetitivo de luta com acusações e contra-acusações
constantes, o casal pode soçobrar na última categoria do “Guerra, não Paz!” –
casais cuja ligação sentimental um com o outro é alimentada por ódio e raiva. 
v. Conflito deslocado
Muitos casais em via de separação discordam abertamente, mas outros evitam
desacordos directos. As negociações podem avançar a passo de caracol porque o
conflito secreto é suprimido e é transferido para uma outra questão. Um dos
argumentos mais fortes para mediação em qualquer questão é que ela permite
estabelecer contactos emocionais e práticos entre as diversas questões e trabalhá-los.
Os conflitos sobre os filhos são por vezes baseados em disputas antigas sobre diversos
estilos de parentesco. Mais frequentemente, eles são o alimento de questões não
resolvidas entre o casal. Estes conflitos têm tendência a vir à superfície quando um
dos progenitores arranja um novo parceiro. As disputas em relação às crianças podem
ser fruto de verdadeira preocupação, mas elas são frequentemente um meio de
retaliação. Alguns pais que recorreram à mediação admitem que estiveram em luta um
contra o outro através dos filhos. Ao darem-se conta de quanto isto afecta os filhos,
talvez se sintam motivados a pôr de lado questões não resolvidas entre eles. 
vi. Não comunicadores
Neste modelo corrente, um parceiro tem tendência a separar-se do outro durante
um certo período de tempo, muitas vezes procurando compensação em trabalho,
actividades lúdicas, numa nova relação, ou em todas ao mesmo tempo. A
comunicação entre o casal pode ser muito limitada e pode acabar completamente.
Alguns casais continuam a viver sobre o mesmo tecto, mas metidos numa concha, por
vezes sem se falarem durante anos. Eles escondem-se emocionalmente, e por vezes
literalmente, atrás de portas fechadas. O seu silêncio implica dor, raiva e sentimentos
de rejeição mútua. Pode também haver sentimentos não evidenciados de afeição e de
ligação sentimental e de grande receio de ser abandonado. As reacções típicas são o
evitarem-se, o retirarem-se, a não comunicação e a confrontação.
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Se um dos progenitores se for embora sem que o assunto tenha sido discutido, o
outro muitas vezes não diz aos filhos se, quando e como voltarão a ver o progenitor
que se foi embora. A fórmula de evitar discussões e conflitos pode ir passando de mão
em mão até à geração seguinte. Questões emocionais e práticas podem ficar sem ser
resolvidas, e podem constituir-se novas relações sem que os velhos laços sejam
desfeitos. Por vezes ambos os parceiros evitam discutir a quebra no seu
relacionamento. Noutras ocasiões, uma das partes procura a conversa, mas é frustrada
porque a outra se fecha numa concha. Esta concha pode permanecer fechada durante
anos. Se um dos parceiros se ausentar sem ter dado nenhum aviso claro, a parte
abandonada sofre um choque profundo seguido de descrença, desânimo, raiva e
duma mistura incontrolável de emoções. O que se ausentou insiste muitas vezes que
deu avisos, mas o que ficou não conseguiu perceber os sinais. 
O abismo da comunicação bloqueada pode ser tão largo que é impossível
conceber uma ponte que o atravesse. O aconselhamento pode ser apropriado para
ajudar o casal a perceber o que aconteceu e porque é que teria acontecido. Os que
conseguirem fazer bom uso do aconselhamento podem mudar-se para o modelo do
“Meio indiferentes” descrito acima. Alguns dos que evitaram todo o diálogo talvez
sejam capazes de falar em mediação, se pensarem que há bastante compreensão e
apoio. O ritmo tem de ser lento, em particular no começo. Os mediadores têm de
estar atentos à linguagem corporal, de ser capazes de detectar sentimentos não
mencionados e de ser conhecedores dos mecanismos da rejeição, da contra-rejeição
e da ambivalência. Uma boa capacidade de ouvir e de comunicar é importante,
especialmente na formulação e no enquadramento dos assuntos (ver Cap. 4).
vii. Posição de dependência
A mais penosa e prolongada fonte de ira emocional no divórcio deriva da intensa
e continuada necessidade de um dos parceiros pelo outro. Não são só os filhos que
abrigam fantasias de reconciliação. Quando uma ligação sentimental sólida e
continuada de um dos lados não é correspondida pelo outro lado, os sentimentos
de sofrimento e de zanga da parte abandonada pode tornar impossível qualquer
discussão racional. O parceiro emocionalmente destruído pode perturbar o outro
com disputas prolongadas como uma maneira de manter contacto e envolvimento
emocional. Se um dos parceiros recusar aceitar qualquer necessidade de separação
ou de divórcio, a mediação pode ser prematura ou desajustada. O recurso ao
96
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aconselhamentodeve ser a boa alternativa. Um parecer jurídico sobre os problemas
que ambos encaram poderá ser também aconselhável se um dos parceiros insiste
numa separação ou divórcio a que o outro resiste vigorosamente.
A mediação pode ajudar ambos a encarar a realidade da sua posição e das suas
opções quer o acordo seja atingido ou não. O casal talvez seja também ajudado a
aceitar soluções provisórias. O mediador pode referir-se deliberadamente a essas
soluções como “arranjos estáveis”, significando com isso contactos ou arranjos
financeiros interinos. “Arranjos estáveis” podem reconhecer a realidade duma
separação sem procurar soluções finais. Algumas pistas podem ser deixadas em
aberto, pelo menos por algum tempo. Ainda que o tempo nem sempre signifique
aceitação, o intervalo entre as reuniões de mediação pode ser útil. Progressiva-
mente, o parceiro que ficou aterrado por deixar o outro partir pode perceber que
existe ainda algum apoio e achar que é possível conceber um futuro para além
dum casamento desfeito.
É importante reconhecer com ambos os parceiros que eles estão em fases
diferentes e que estão a olhar em direcções diferentes. Pode ser também útil
reconhecer que terminar um matrimónio envolve mais do que a perda do
parceiro. Sonhos para o futuro e o sentido de segurança duma família intacta
também se perdem. Mudanças forçosas do estilo de vida arrastando
normalmente um nível de vida mais baixo, podem acentuar a amargura. Um dos
parceiros pode acusar o outro de não ter cumprido as promessas e os
compromissos. A desilusão alimenta mais desavenças. Ainda que as desavenças
por esperanças e sonhos falhados possam ser mútuas, o parceiro que é visto
como o responsável por terminar o casamento é naturalmente quem é
considerado o culpado. Responsabilizar a outra parte permite ao “parceiro
inocente” desempenhar o papel de vítima e evitar responsabilidades na partilha
da relação destruída.
Os mediadores normalmente não perdem tempo a investigar as razões duma
das partes para culparem a outra. Não oferecem terapia para ajudar as pessoas a
trabalhar através de sofrimento agudo e de raiva. Podem contudo tornar possível
alguma negociação, reconhecendo e legitimando a irritação causada por sonhos
falhados e desapontamentos. As grandes dificuldades, e nalguns casos a impossi-
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bilidade de mediar quando um parceiro é incapaz de deixar partir o outro, são
analisadas em detalhe no capítulo 9 sobre estratégias em casos de impasse.
viii. Guerra, não Paz!
Tem-se observado que cada casamento contém dois conjuntos de
experiências e de percepções: o “dele” e o “dela”. Isto é ainda mais verdade em
separação e em divórcio, em que a versão de cada parceiro está muitas vezes
em conflito directo com a do outro. Quando as linhas da batalha estão traçadas,
cada parceiro refugia-se atrás duma linha de defesa de não culpabilização e
procura angariar apoio e simpatia de outras pessoas. Para alguns, a experiência
de perder, e o receio de perder mais, acciona um mecanismo de defesa
psicológica conhecido como “decomposição”, no qual aquilo que se entende
como “mau” num relacionamento ou no próprio ego é separado da parte “boa”.
A parte “má” é então atribuída ao outro parceiro. Nos casos em que esta
separação conduz a acusações recíprocas e a contra-acusações, os casais podem
ficar envolvidos numa guerra permanente. Cada imagem própria e percepção do
outro fica sujeita a um ataque mútuo. Estes casais parecem ter uma necessidade
emocional muito profunda de manter a sua guerra em ebulição, apesar da
destruição que ela causa. Os casais viciados em combater parecem precisar da
adrenalina produzida na luta. Podem sabotar qualquer progresso porque
preferem a guerra ao acordo. Ainda que o potencial da mediação com estes
casais enredados seja muito diminuto, vale a pena explorar esta via. Talvez o
casal tenha atingido um estádio em que se encontram cansados da luta e prontos
a ultrapassá-la. A sua raiva sobre o passado pode ser reconhecida e as suas
necessidades para o futuro esclarecidas. Se houver filhos envolvidos, há que
discutir a sua posição e os seus sentimentos. Se os pais estiverem desejosos por
combater, pode-se-lhes perguntar como vêem o futuro para os seus filhos se a
guerra continuar. Se eles puderem imaginar que um dos seus filhos se vai casar,
gostariam eles que esse filho tivesse liberdade de convidar ambos os pais para
a cerimónia? Pode ser benéfico considerar o envolvimento de crianças ou
adolescentes que tenham sido arrastados para a batalha dos pais e que podem
ser usados como uma maneira de a perpetuar (Cap. 6). Podem ser testadas
estratégias para impasse antes de desistir da mediação (ver Cap. 8). Muitos casais
precisam de ajuda para reconhecer os seus sentimentos intimamente misturados
de raiva e de tristeza. Uma experiência catártica consiste em ver se são capazes
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de dizer que desejavam que o outro estivesse morto, particularmente se
estiverem convencidos de que esse desejo é mútuo. Perguntar “Depois do que já
aconteceu, o que é que pensa que poderia ser a pior coisa que lhe podia
acontecer agora?” é tão importante como perguntar às pessoas o que querem
que aconteça. Por vezes o pior acaba por ser o medo recíproco.
Usar humor com segurança na mediação
Alguns casais mostram uma habilidade desconcertante para se enfurecerem um
com o outro e a seguir um diz qualquer coisa que os faz rir a ambos. Se o
mediador começar a compreender a dinâmica do seu relacionamento e o género
de humor que funciona bem no caso deles, o humor usado com sensatez pode
fazer melhor que o raciocínio e o senso comum. É uma das maneiras mais fáceis
de descontrair. Usado com cuidado e sem ser nunca dirigido a um dos
participantes, o humor é uma ajuda preciosa. Pode perspectivar uma situação e
criar um ambiente muito mais descontraído, mesmo com questões difíceis.
Combinar a capacidade de gestão do processo com competências
interpessoais e de resolução de problemas
A tabela seguinte contém uma listagem das competências que os mediadores
precisam de combinar e usar selectivamente, dependendo da dinâmica entre os
participantes e do seu nível de conflitualidade. Os mediadores têm estilos
pessoais extremamente diferentes, bem como uma variedade de modelos de
trabalhar. Alguns mediadores abordam as suas tarefas como se estivessem a
tratar de negócios. Mantêm o ritmo e solucionam problemas com eficácia.
Podem contudo perder um ou mais participantes porque não transmitem
suficiente calor humano nem a sensação de perceber os sentimentos. Outros
mediadores poderão ter mais jeito para tratar com as pessoas, trabalhar a um
ritmo mais lento e possuir uma componente terapêutica acentuada. Por outro
lado podem ser menos hábeis na colheita de informação financeira e na análise
de números e podem gastar imenso tempo a discutir sem estarem a trabalhar
em soluções concretas. Os mediadores bem dotados possuem competências
interpessoais e de resolução de problemas que lhes permite adaptar a cada
casal, durante os pontos críticos de cada sessão, a receita para ajudar a gerir os
“efeitos da tensão superficial”. 
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Competências de Gestão Competências Interpessoais Competências para a 
do Processo Resolução de Problemas
Avaliação inicial Comprometimento com os Definir as questões
participantes
Marcar a primeira sessão Escuta activa Fazer perguntas e desenvolver 
os assuntos
Explicar o processo e os Reconhecer os sentimentos Definir prioridades
objectivos
Confirmação do consentimento Tornar as preocupações comuns Coligir e fornecer informação
para mediar 
Estruturação do processo Gerir o conflito Analisare valorizar
Manter as regras básicas Facilitar as comunicações Explorar opções
Gestão do tempo Concentrar a atenção nos filhos Planear passo a passo
Orientação para o apoio jurídico Gerir desequilíbrios de poder Brainstorming
Gestão do ritmo das negociações Reenquadrar Encurtar diferenças
Produção de resumos escritos Recapitular com clareza Negociação
Conclusão do processo Terminar com cuidado, deixando a Previsão e prevenção
porta aberta a reencaminhamento
para outras instâncias
100
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Capítulo IV
LINGUAGEM E TÉCNICAS DE COMUNICAÇÃO
A linguagem é um dos principais meios de comunicação. Os mediadores como
comunicadores que são, necessitam de possuir capacidades especiais neste campo
para poderem utilizar a linguagem duma forma positiva, útil e precisa. A
linguagem é um filtro poderoso de experiência. Usamos a linguagem para
organizar os nossos pensamentos e para canalizá-los numa direcção particular. A
linguagem é também um meio poderoso para despertar sentimentos e para evocar
imagens. Pode provocar-nos um bom ou mau estado de espírito. As palavras
podem confundir, excitar, irritar, apaziguar. As palavras que utilizamos diariamente
fazem parte de associações – pessoais, culturais e históricas, conscientes e
inconscientes – que condicionam a maneira como vemos o mundo à nossa volta
e as nossas reacções às pessoas e aos acontecimentos.
Usar linguagem simples
Quando estamos sob tensão a nossa capacidade para absorver informação é
limitada. Os outros perceber-nos-ão com mais facilidade se usarmos uma
linguagem clara e simples. Todos nós temos os nossos hábitos de apresentar as
coisas e precisamos de nos ouvir a fim de percebermos como somos ouvidos
pelos outros. Pessoas que estão zangadas e angustiadas ficam facilmente
confundidas se usarmos frases compridas ou termos especializados de leis ou de
psicologia. A maneira como falamos é influenciada pelo estilo familiar, pelos
amigos e pelas actividades lúdicas. O discurso varia segundo a formação cultural
e a classe social. Pessoas de regiões ou de formações sociais diferentes podem
achar difícil perceber o nosso emprego de palavras e a maneira de falarmos. Se
captamos uma expressão de confuso no nosso interlocutor talvez seja por que não
nos estamos a explicar de uma forma suficientemente clara.
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Quem vem à mediação optou por recorrer aos serviços de um mediador, logo
não deve ser tratado como “objecto” de intervenção que não compreende. Casais
em processo de mediação estão relacionados com uma gama muito extensa de
culturas e a sua linguagem inicial pode ser diferente da do mediador.
Normalmente o uso duma linguagem clara ajuda-os a perceber e a sentir que estão
a ser tratados como iguais. Habitualmente não é preciso usar terminologia jurídica.
Quando for preciso recorrer a termos técnicos, é frequentemente vantajoso prestar
alguns esclarecimentos ou comentários. Os mediadores falam de “reuniões
parcelares”, de “capacitação” e de “mutualização”. Este tipo de gíria profissional
pode confundir um processo que devia ser transparente. Devíamos ser capazes de
explicar a mediação com clareza suficiente de modo a que até uma criança de
cinco anos a compreendesse.
Linguagem positiva
Quando os casais estão em conflito, é útil empregar uma linguagem positiva
falando “dos vossos planos (ou arranjos ou opções possíveis) para o futuro” em vez
de referir que “vocês estão em litígio sobre o divórcio”. Uma mensagem verbal pode
neutralizar ou ampliar um conflito, dependendo de como é expressa. Pais em vias
de separação são muito sensíveis à linguagem. Por exemplo, é útil falar das suas
preocupações pelos filhos, e não das suas lutas a propósito dos filhos, assim como
é útil falar do seu apoio aos filhos em vez de manutenção dos filhos. Um mediador
deve evitar usar o termo “pai (ou mãe) ausente” porque isso poderia implicar que
um dos pais está totalmente ausente e que até está ausente por sua escolha. Do
mesmo modo, o termo de família monoparental é crítico e ofensivo porque
pressupõe que só há um dos pais. Os mediadores incluem ambos os pais se
disserem “ambos, como pais…”, “a família como um todo”, “ajuda a ambos e aos
vossos filhos”, “tornar as coisas mais fáceis para todos”, para mostrar que eles estão
interessados em ajudar os filhos e os pais. A mediação familiar não está limitada
a ajudar adultos a resolver problemas de adultos. Talvez seja uma redundância
observar que “a separação (divórcio) pode ser o fim da vossa relação
(matrimónio), mas vocês continuam a ser pais. A família poderá modificar-se, mas
ainda existe”. É útil para os pais ter consciência de que há muitos aspectos
positivos da vida de família e do relacionamento que precisam de continuar, e de
modo algum de terminar.
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Os mediadores têm tendência a filtrar as palavras acusatórias e os rótulos
incriminatórios. Por exemplo, se a mãe diz acerca do pai: “Ele é um descuidado com
o que as crianças comem”, um mediador deveria evitar repetir a palavra “descuidado”
ao perguntar: “Então uma das questões que gostaria de discutir aqui hoje é a da dieta
das crianças?”. Por vezes os mediadores arriscam-se a ofender porque neutralizam
demasiadamente. As pessoas podem sentir que não são ouvidas e que são
desvalorizadas se uma afirmação altamente emocional for de tal modo atenuada pelo
mediador que perca toda a sua força. Os mediadores precisam de usar palavras fortes
sem se apresentarem como juízes. Se uma mãe disser “Fico furiosa que ele (o pai) só
faça o que a mãe dele lhe diz”, ela ficará ainda mais zangada se o mediador comentar:
“Então você está irritada?”, visto que “irritada” não é um bom substituto para “muito
zangada”. No outro extremo da escala de emoções, os mediadores parecem
irresistivelmente atraídos pela palavra feliz. Durante a fase de estágio, os mediadores
dizem muitas vezes: “Então ficaria feliz se o Francisco ficasse com os filhos semana sim,
semana não?”. Os casais que estão em vias de separação raramente estão felizes. Seria
mais aceitável se o mediador perguntasse: “Então está a dizer que pelo seu lado não
poria obstáculos a que o Francisco ficasse com os filhos semana sim, semana não?”.
Olhando para o futuro
Muitos conselheiros e terapeutas acreditam que é necessária alguma
compreensão do passado antes de começar a ajudar as pessoas a tratar do
presente e do futuro. Os mediadores por seu lado têm tendência a olhar desde o
início para o presente e para o futuro, sem procurarem muita informação sobre o
passado. Há coisas do passado que podem ser directamente relevantes e que
precisam de ser conhecidas, mas os mediadores fazem perguntas que levam os
casais a olhar para a frente e não para trás. Normalmente o mediador não precisa
de saber como é que as pessoas chegaram à situação presente. O objectivo
consiste nos caminhos para a frente. “Então em que tipo de soluções é que estão a
pensar?”. As perguntas orientadas para o futuro ajudam as pessoas a deixar as
mágoas e as acusações para trás e a olhar para como querem que seja o futuro.
Repetindo e resumindo
Repetir o que cada pessoa disse, usar as palavras que elas usaram, é importante
em mediação por diversas razões:
• Mostra que está a ouvir cuidadosamente e que quer perceber
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• Dá a cada pessoa uma oportunidade de o confirmar ou de o corrigir, se
necessário
• Reduz a velocidade, se a argumentação estiver a andar muito depressa
• Ainda que as palavras sejam repetidas, o tom de voz do mediador pode
mudar o clima
• Um tom de voz diferente pode ser mais audível para a outra parte
• A repetição pode dar um reforço substanciala uma afirmação positiva ou
a uma preocupação mútua
• Um curto resumo pode ajudar a fazer o inventário e a planear o próximo
passo.
Os mediadores precisam normalmente de reformular as frases, porque se repe-
tirem as acusações palavra a palavra pode dar a impressão que se identificam com
elas.
Filtrar os aspectos negativos
A conversa dos casais é frequentemente marcada por mal-entendidos – por
vezes terríveis mal-entendidos – e pela maledicência um do outro: “O Pedro não
serve para nada”, “Não se pode fazer confiança na Cândida”. Conforme Fisher e
Ury (1981) enfatizaram, é importante separar as pessoas do problema. Os
mediadores têm de mostrar respeito e compreensão mútua, usando tanto quanto
possível uma linguagem positiva. Pedir a um dos parceiros para dar um exemplo
recente para ajudar a perceber a dificuldade é no fundo procurar uma informação
específica e não fazer um julgamento global. Um incidente específico ilustra o
problema em termos mais limitados e concretos. O outro parceiro pode então
adiantar uma explicação (“mas o que aconteceu foi …”). A explicação
normalmente muda a percepção de cada parceiro sobre este incidente concreto.
Escuta atenta e postura centrada 
Os mediadores manifestam pela sua postura, expressão facial e contacto visual,
e também pelas suas palavras, que estão atentos ao que se diz. A postura do
mediador precisa de transmitir calma e atenção, nem se encostando para a frente
duma maneira importuna nem se sentando pesadamente e em atitude super-
descontraída. As artes marciais japonesas do “Aikido”, que respondem a agressões
mais do que instigam ataques, põem em evidência a importância duma postura do
104
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corpo estável, equilibrada e “centrada” quando se está em situação de conflito ou
tensão. Um mediador que estiver convenientemente centrado pode manter
contacto visual com ambos os parceiros, olhando de um para o outro para ver
como cada um está a reagir e tomando nota das suas posturas e linguagem
corporal. Alguns mediadores fazem entoações de vozes não comprometedoras do
género “mm” ou “sim, sim, estou a ver”. Outros preferem ouvir sem se manifestar.
É essencial mostrar atenção e empatia com equidade e evitar dar a impressão de
estar mais inclinado para uma das partes do que para a outra.
Casais que discutem sem se ouvirem 
Quando os casais estão em vias de separação, os seus argumentos são muitas
vezes apressados e tempestuosos. Talvez nenhum deles consiga ouvir o que o
outro tem a dizer, como dois piões sussurrantes que se afastam um do outro num
redemoinho de palavras. Os mediadores têm que os acalmar, facultando-lhes uma
estrutura na qual cada um possa falar e possa ser ouvido. O remoinho de palavras
pode ser um escape de energias, que o mediador deve captar e canalizar duma
forma mais construtiva.
Muitas pessoas têm dificuldade em se exprimir, independentemente de terem
uma educação superior ou não. É muitas vezes necessário procurar informações
adicionais e explorar o que estão a dizer. As palavras podem ter tantos sentidos que
será difícil desvendar o seu significado original, escondido ou alterado por
referências históricas e pistas emocionais. Os mediadores procuram a explicação, a
clarificação, a definição. Quando uma das partes levanta uma objecção de carácter
geral, pode valer a pena pedir uma concretização específica: “Para me ajudar a
compreender melhor porque é que pensa que a sugestão do Francisco é impossível,
dê-me um exemplo do que é que aconteceu da última vez que ele telefonou para ir
buscar os filhos…”. Também é útil repetir o que cada parceiro diz, em particular
quando estão preocupados e zangados.”Assim está preocupado que … e o Francisco
está preocupado que …”. Repercutindo a posição de cada participante nele próprio
duma forma tão exacta quanto possível, usando frequentemente as suas próprias
palavras, contribui para os acalmar porque mostra que foram ouvidos. Estas técnicas
são fundamentalmente ingredientes da mediação. Elas podem contribuir para
acalmar o ritmo de argumentos, se ele for muito vivo.
105
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Versões contraditórias da “verdade”
Casais em vias de separação ficam muitas vezes bloqueados por intermináveis
argumentos circulares sobre o que aconteceu quando … sobre o que fez ou disse
o quê a quem … e sobre quem está agora a contar a versão “certa”. A história dos
acontecimentos é forçosamente subjectiva, enevoada por sentimentos e colorida
por valores sobre o que é certo e errado, aceitável e inaceitável. Acontecimentos,
experiências e as nossas percepções sobre outras pessoas envolvidas nos mesmos
casos são tecidos numa espécie de tapeçaria que representa a nossa visão do
mundo.
Uma questão importante sobre falar com os outros é a de voltar a contar as
nossas experiências dum modo que confirme a nossa maneira de ver e a nossa
própria imagem. O processo de voltar a contar experiências altera a maneira como
elas são recordadas e armazenadas na memória. Quanto mais se fala do sucedido,
mais o sujeito fica convencido de que o que aconteceu se passou como ele o está
a descrever. Quando casais separados discutem novamente versões conflituosas
do mesmo acontecimento, a ameaça é muito mais profunda para eles do que se
se tratasse de meras diferenças de relatos. A imagem interiorizada por cada
parceiro e a que eles querem transmitir para o mundo exterior é confrontada e
contrariada pelo outro. Se um dos dois parceiros tiver a sensação que a sua
própria imagem se está a desfazer em pedaços, pode recear que toda a sua
personalidade seja posta em causa. Os mediadores precisam de saber que os
indivíduos que se submetem à mediação se podem sentir muito vulneráveis e que
estão a lutar para se manterem ligados a um frágil sentimento de identidade. Ainda
que os mediadores não sejam nem conselheiros nem terapeutas, eles precisam de
mostrar compreensão, reconhecendo os medos e as tensões de ambos os
parceiros. O poder de reconhecimento é considerável (ver Cap. 5). É contudo
importante não reconhecer sofrimento em mediação duma maneira que aumente
ou exponha a vulnerabilidade duma parte à outra.
O uso da linguagem varia com o género
Estudos de linguística apontam para o facto que o homem e a mulher usam
modos ou estilos diferentes de falar, em parte devido a condicionamentos do tipo
cultural. Quando os sentimentos entre um casal estão em crise e a tensão é grande
é fácil interpretar mal o que o outro parceiro está a dizer ou ficar aborrecido pela
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maneira como o diz. Muitos argumentos são baseados em confusões ou em
diferenças de percepção, mais do que em autêntico desacordo. Os homens
sentem-se normalmente mais confortados em falar sobre actividades e coisas
práticas. As mulheres, por seu lado, falam frequentemente de relações e partilham
os seus sentimentos com mais facilidade com o outro. Os homens que acharem
as emoções demasiado intensas para estarem a tratar disso são capazes de cortar
a conversa. Quanto mais um dos parceiros desliga, o mais provável é que o outro
se exalte e que alcance o “ponto de ebulição”. Os mediadores talvez consigam
descarregar algum vapor tecendo comentários sobre o modelo que observaram,
duma maneira que seja bem recebida por ambas as partes: “Quando é difícil falar,
as coisas ficam mais difíceis para vocês os dois. Eu gostava de ter a certeza de que
percebi bem as preocupações principais de cada um. Sandra, você disse que …e
você, Manuel, disse que …?”.
Alguns casais têm o hábito de falar num tom cada vez mais alto sempre que
estão em desacordo. Mas também pode acontecer que um parceiro aumenta o
volume de voz e o outro desliga. Os mediadores observamestas situações ao vivo.
Quando parece que um dos parceiros ficou bloqueado enquanto o outro está aos
gritos num desespero crescente, o mediador pode pegar na mensagem e repeti-la
duma maneira calma, num tom apaziguador. Pode ser que o parceiro bloqueado
seja receptivo à voz calma do mediador. O parceiro que grita, ao ver isto,
provavelmente irá baixar o tom de voz.
Superioridade de uma das partes
Podem existir problemas em mediação quando um dos parceiros é mais
conhecedor do que o outro ou está mais familiarizado com termos profissionais
ou técnicos que são relevantes para a mediação. O outro parceiro que não
conhece esses termos tem tendência a sentir-se desajustado e posto de parte. Uma
mulher que não tenha tido uma carreira por si própria pode sentir-se em
desvantagem quando o mediador interroga o marido sobre os seus negócios
financeiros. Ainda que a mulher compreenda que essas perguntas têm de ser
feitas, pode muito bem ser que ela não compreenda nem as perguntas nem as
respostas. Ela pode ter medo de perder a sua reputação se admitir a sua
ignorância. Isto pode também verificar-se ao contrário, quando é a mulher quem
gere as finanças familiares ou tem uma carreira mais qualificada que a do seu
107
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marido. Quando um parceiro usa termos técnicos para impressionar o mediador,
o mediador tem de reconhecer o jogo de poderes que se está a travar e continuar
a usar uma linguagem simples e a certificar-se de que o outro parceiro se sente
integrado na discussão.
Encorajar cada pessoa a falar por si própria
Casais em conflito acusam-se frequentemente um ao outro, e alguns falam do
outro na terceira pessoa, mesmo quando o outro está presente na sala. Os mediadores
devem procurar modificar este infeliz hábito, procurando que os participantes falem
por si próprios e expliquem o que pretendem na primeira pessoa.
Actuar como árbitro, respeitando as regras básicas
Os casais em conflito tentam muitas vezes marcar pontos um contra o outro.
Se uma das partes está a monopolizar a conversa, pode ser que o mediador tenha
de interromper duma forma tão construtiva quanto possível: “Jorge, deixe-me
interrompê-lo neste ponto. Se eu o percebi bem, está a dizer que … e, Célia, você
antes disso disse que …?”. O mediador tem que mostrar que ambas as partes estão
a receber igual atenção e que nenhuma delas está autorizada a dominar a
conversa. O equilíbrio e o reequilíbrio podem ser feitos através dum contacto
visual igual, dando tempo a cada parte, propondo e reforçando as regras básicas.
Se uma das partes usar linguagem ofensiva ou ameaçadora, o mediador tem de
ser firme e seguro e tornar bem claro que isso tem de acabar como condição para
a mediação continuar.
Ajudar os casais a falarem um com o outro e não com o mediador
Um dos principais objectivos da mediação consiste em ajudar os casais a falarem
mais facilmente um com o outro, de modo a que se tornem mais capazes de tratar de
futuras situações por si próprios. “Melhor do que explicar o que é que sente que causou
estas dificuldades, acha que poderia sugerir o que poderia ajudar a …?”.
Se o mediador se dirigir a cada pessoa uma a uma, e se esperar por uma
resposta, as pessoas têm tendência para responder ao mediador sem falarem umas
com as outras. Os mediadores ajudam as pessoas a falarem umas com as outras,
talvez pela primeira vez depois de um longo período sem se falarem. O mediador
pode pedir a uma delas para explicar qualquer coisa à outra e não ao mediador.
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“Filipe, penso que podia ajudar a Margarida se lhe pudesse explicar como é que
você vê …”. Esta abordagem permite que a discussão se transforme num sistema
circular, com a conversa fluindo entre ambos os participantes e o mediador, em
vez dum caminho linear rígido. Se se usar um sistema linear, a comunicação tem
lugar entre o mediador e cada participante separadamente. No sistema circular, a
discussão processa-se mais livremente à volta da mesa. 
Dificuldades de linguagem e de audição
Casais que tenham uma língua materna diferente da língua principal usada no
seu país de residência precisam dum mediador que fale a sua própria língua.
Contudo, são raros os mediadores poliglotas. Do mesmo modo, quando um ou
ambos os parceiros têm problemas auditivos, eles precisam dum mediador que
possa usar a linguagem gestual ou dum especialista de comunicação com surdos.
Os intérpretes e os especialistas que participarem numa ou em mais sessões de
mediação têm de ser igualmente aceites por todos os interessados e também eles
precisam de ter uma boa compreensão do processo de mediação. Deveria haver
uma consulta prévia para se ter a certeza de que todos os participantes se sentirão
à vontade com o especialista proposto. Se essa pessoa já for conhecida deles,
poderá haver um preconceito, real ou perceptível, e a outra parte poderá pôr em
dúvida a sua imparcialidade. Também é difícil quando o mediador não pode
controlar a exactidão da tradução. Um intérprete pode não conseguir transmitir as
palavras exactas do mediador, ou as cambiantes da linguagem e do sentido. O
intérprete tem de ser instruído sobre o processo de mediação, sobre a
confidencialidade e sobre as tarefas envolvidas. O mesmo se aplica se for
necessário um especialista em linguagem gestual para os surdos ou por causa de
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Mediador
Abordagem linear Abordagem circular
Filipe Margarida
Mar
gari
da
Me
dia
do
r
Filipe
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outra espécie qualquer de deficiência de linguagem. É essencial dar relevo às
questões do equilíbrio e da imparcialidade, à função especializada dos auxiliares
e ao seu efeito no processo e no seu resultado final (ver também Cap. 8). 
Utilizar perguntas para estruturar o processo de mediação
Os mediadores gastam imenso tempo a fazer perguntas. As perguntas têm de
ser equilibradas, convenientemente focadas e apresentadas com sensatez, sem
interrogar as pessoas e sem formular questões que pertencem ao foro da terapia.
Os pesquisadores (Kressel e outros, 1989) concluíram que a boa utilização desta
técnica estava associada a resultados positivos, ao passo que, em mediações que
falharam, o mediador não a tinha usado de forma adequada. Fazer perguntas úteis
é um trunfo muito importante em mediação. As perguntas ajudam a evitar
armadilhas tais como pontificar, fazer observações desajustadas ou dar soluções.
É importante continuar a fazer perguntas em mediação, por muito tentado que se
esteja para dar ao casal aquilo que você pensa que é a resposta óbvia. Os
mediadores envolvem ambos os parceiros de igual modo colocando a mesma
pergunta a cada um, uma vez que é provável obterem respostas diferentes. A
ordem em que cada parceiro é interrogado deveria variar. Perguntas “abertas”
permitem às pessoas dar uma resposta espontânea, mas corre-se também o risco
de respostas descontroladas. Perguntas “fechadas” e centradas ajudam o mediador
a obter informações específicas e a conter situações de grande conflito.
Fazer perguntas orientadas para um determinado assunto ajuda os mediadores
a manter a estrutura e o controlo. Muitas pessoas estão extremamente nervosas
quando vêm à mediação pela primeira vez. Uma pergunta banal, como por
exemplo “Pode explicar-me a sua situação actual?” convida-as a falar à vontade.
Mas também lhes pode pôr um dilema por não saberem por onde começar ou
acabar. Se uma das partes se lança numa longa tirada dirigida contra a outra parte,
a segunda parte pode ter receio de não vir a ter oportunidade de falar e pode
perder confiança no mediador. As pessoas têm muito medo de se descontrolarem
e de ficarem feridas. Outras também receiam magoarem-se umas às outras.Muitas pessoas acham que é mais seguro e fácil responder a perguntas
orientadas, como por exemplo “Onde é que vive agora?”, “A decisão de separação
foi uma decisão de comum acordo?”, “A que horas é que gostava de ir buscar as
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crianças no próximo sábado?”. Desta maneira o mediador pode recolher
informação e indicar saídas duma maneira sistemática que os casais possam
considerar menos tensa.
Kressel e colegas (1989) descobriram que os mediadores hábeis têm tendência
para usar uma estrutura identificada com o tipo de questões que costumam
colocar e com o momento em que as aplicam. A estrutura é parecida com uma
pirâmide: à medida que a mediação progride, as perguntas, que inicialmente eram
amplas, com o objectivo de recolher informação, tornam-se gradualmente mais
precisas. Os seguintes exemplo mostram como as perguntas podem ser usadas
para estruturar o processo de mediação e para concentrar a atenção no presente,
no futuro ou no passado. Muitos casais ficam bloqueados no passado e precisam
de questões orientadas para o futuro para os ajudar a olhar para a frente e não se
fixarem no passado.
Tipo de pergunta Finalidade Exemplo
Aberta Convida a uma resposta “Portanto, quais são as suas 
genérica ou espontânea maiores preocupações ao vir à
mediação?”
Fechada Limita a informação que pode “Que tipo de hipoteca é que tem?”
ser dada em resposta. 
Mantém o controlo do processo
Indirecta Pode ser respondida por “Quais são as combinações em 
qualquer das partes curso?”
Directa Dirigida a uma das partes, “Já olhou para o preço das casas, 
normalmente uma de cada vez Ana?... João, já deu uma olhada…?
Orientada para o passado Recolhe informação sobre o “Utilizou o dinheiro do apartamento
passado, quando necessário para comprar a casa?
Orientada para o presente Clarifica as medidas em curso “Quantas vezes vê os filhos 
neste momento?”
Orientadas para o futuro Centra a atenção no futuro “Como é que gostaria que isto 
funcionasse no próximo ano?”
Pensando sobre a função da pergunta
É importante pensar sobre a função da pergunta. O mediador pode ser
desafiado a explicar uma pergunta aparentemente irrelevante – “Porque é que está
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a perguntar isso?”. Alguns exemplos de diversos tipos de perguntas, que podem
ser directas ou indirectas, fechadas ou abertas, incluem:
Perguntas abertas para construir comunicação e aclarar as principais
preocupações e objectivos de cada participante: “Poderia dizer o que é que gostaria
de conseguir ao recorrer à mediação?”
Perguntas para obter informação: “Com que frequência vê os seus filhos
actualmente?”, “Está a explicar que isto é uma conta de poupança especificamente
para fins fiscais. Quando é que espera receber o próximo aviso de pagamento de
imposto?”
Perguntas de negociação: “O que é que poderia fazer para facilitar isso…?”,
“O que é que seria viável para si?”
Perguntas para testar realidades: “O que é que aconteceria se…?”, “O
transporte em cada fim-de-semana ficaria a cargo de quem?”
Perguntas para desenvolver opções: “Haverá outras possibilidades em que
tenham pensado?”, “Consideraram …?”
Perguntas para esclarecer prioridades e facilitar a comunicação: “Qual é
a sua prioridade principal neste momento?”, “Pode explicar o que é que gostaria
que o Guilherme percebesse melhor?”
Perguntas para reflexão, apresentadas devagar e ponderadamente, talvez abram
uma janela que não tinha sido aberta e que talvez ofereça um novo ponto de vista:
“Pergunto-me o que é que os dois vão dizer aos filhos dentro de X anos, quando forem
adolescentes e vos perguntarem o que aconteceu quando vocês se separaram?”, “Se a
Luísa decidir casar-se quando for crescida, pensam que ela gostaria de vos ter aos dois
presentes no seu casamento?”. Se estas perguntas forem úteis, é quase possível ver a
resposta nos olhos das pessoas e o borbulhar do pensamento por cima das suas
cabeças. Por vezes constituem momentos de viragem.
Perguntas hipotéticas
As perguntas hipotéticas ajudam as pessoas a imaginar um cenário possível,
sem estarem comprometidas pelo mesmo ou sem se sentirem apanhadas. Estas
questões podem libertar as pessoas da sua situação actual, ajudando-as a
projectarem-se a elas próprias no futuro e a visualizar possibilidades, como se se
passasse um filme para a frente. Pode-se perguntar às pessoas quais as
modificações que elas procuram e perguntar-lhes a seguir quais as condições que
permitiriam concretizar essas modificações. É possível “implantar” sugestões dum
mediador numa pergunta, desde que elas não sejam apresentadas como soluções
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recomendadas. Perguntas hipotéticas são muito úteis quando se exploram opções
e negociações para chegar a um acordo.
Perguntas circulares
Este tipo de questão é uma maneira de recolher e clarificar informação derivada
da teoria de sistemas. É uma técnica usada em terapia familiar e que se pode usar
em mediação, mas não em diagnóstico nem em tratamento. As perguntas circulares
exploram percepções, relações e comunicações entre casais e entre membros da
família. É um método de inquérito para levar as pessoas a parar e a pensar antes de
responderem. As perguntas circulares estão centradas nas comunicações e nas
interacções entre participantes na mediação e entre eles e os seus filhos. Ampliam
o centro observação para além da comunicação bidireccional entre cada um dos
participantes, separadamente e com o mediador. Perguntas circulares exploram a
conexão, mais do que focam a atenção no abismo entre visões e posições pessoais.
São úteis porque rompem as explicações habituais de causa e efeito que encorajam
a queixa. Perguntas que convidam alguém a explicar como é que eles pensam que
outra pessoa (que pode estar ou não estar presente) poderá estar a pensar ou a
sentir um problema, em vez de lhes perguntar o que eles próprios pensam ou
sentem do dito problema, facilitam mudanças de perspectiva que podem levar a um
entendimento diferente ou a uma nova maneira de ver o assunto.
Esta técnica é especialmente útil para ajudar os pais a terem em consideração
as necessidades e os sentimentos dos filhos. Se ambos os pais reagem descreven-
do as necessidades e os sentimentos dos filhos em termos semelhantes, o media-
dor pode mutualizar as suas preocupações e avançar no sentido de obter opções
ou acordos. Se, porém, eles estiverem em desacordo, pode fazer mais perguntas
circulares sobre como pode um filho mostrar sentimentos diferentes a cada um
dos pais em ocasiões diferentes. Pode-se perguntar a cada um dos pais o que
pensa que o seu filho, ou filhos, diria se fosse inquirido sobre os seus sentimentos
ou sobre aquilo que mais o inquieta naquele momento.
As perguntas circulares suscitam frequentemente algum tipo de comparação,
como por exemplo uma comparação antes/depois ou uma pergunta sobre o que
é que poderia tornar as coisas melhores, ou piores, para os filhos. Pede-se aos pais
para se porem na situação dos filhos e para verem os seus filhos como indivíduos
que têm sentimentos e necessidades próprias, e não como extensões de cada um
113
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dos pais. Os pais são ajudados a comparar as percepções dos sentimentos e
reacções dos seus filhos, sem que nenhum deles seja classificado como tendo ou
não razão. As perguntas circulares ajudam os participantes a olhar através dos
olhos de outra pessoa, em particular através dos olhos dos seus filhos e,
eventualmente, a ver as coisas de um outro prisma.
O quadro seguinte apresenta exemplos de diferentes tipos de perguntas e a
possível finalidade dessas perguntas. Está longe de constituir uma categoriacompleta de perguntas.
Perguntas Finalidade Exemplo
Testar a realidade Ajudar as pessoas a explicar as “Como é que isto seria feito na prática...?”
suas ideias em termos concretos
Clarificação Procurar uma informação mais “Poderia dizer mais alguma coisa sobre …?”
específica ou pretender uma 
resposta mais completa
Resumo Faz o ponto da situação e a “Portanto eu tenho razão quando digo
focagem do processo que a questão fundamental agora é..?”
Estratégico Mudar de direcção ou evitar “Não se importa de pôr isto de lado 
um argumento por agora e olhar primeiro para..?
Reflexivo Para promover a meditação, “Pergunto-me se seria útil falar sobre.”
para oferecer outra perspectiva
Hipotético Torna possível aprofundar sem “Joana, se você se decidir a aceitar 
pedir às pessoas que se um emprego a tempo inteiro, como 
comprometam é que consegue ocupar-se de...?
Circular Ajuda a compreender percepções “Se o Guilherme estivesse aqui, o 
e relações no interior das famílias que é que pensa que ele diria?”
As questões relativas aos “porquês” não estão incluídas nesta lista porque
encorajariam respostas de culpabilização e de auto justificação. Uma pergunta que
procura uma razão suscita muitas vezes uma resposta acusatória.
O mediador como intérprete para o casal
Uma mulher separada escreveu no seu formulário, antes da primeira reunião
da mediação: “O Nuno e eu precisamos de reconstruir as nossas vidas. Não pode
deixar de haver partes sobre as quais estaremos em desacordo. Por vezes não
114
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falamos a mesma linguagem e uma terceira pessoa talvez seja capaz de interpretar
o que um de nós ou ambos estamos a dizer um ao outro”.
Um intérprete procura traduzir tão fielmente quanto possível de modo a que os
destinatários apanhem o essencial do que foi dito. Os mediadores frequentemente
traduzem para casais que têm dificuldade em se compreenderem um ao outro. A
mesma mensagem, dita por uma terceira pessoa que não está emocionalmente
envolvida, pode ser ouvida de formas diferentes. Do mesmo modo, quando repetir
as declarações, o mediador pode precisar de alterar o fraseado de modo a que se
sinta ouvido e compreendido. Ao mesmo tempo, o mediador está a ajudar a outra
parte a ouvir e a compreender. A pessoa para quem se fala poderá então responder
positivamente, em vez de usar uma atitude agressiva. Quando porém o mediador
substitui algumas palavras é importante verificar com o locutor original que o
significado ou a mensagem estão a ser transmitidos correctamente.
Parafrasear e reformular
Construímos a nossa realidade a partir duma mistura de percepções, de
crenças, de interpretações da experiência passada, de esperanças e de receios
quanto ao futuro. Não é de admirar que casais em via de separação apresentem
imagens inconsistentes e contraditórias da mesma situação ou do mesmo inci-
dente. Cada um deles construiu uma “moldura” através da qual ele observa e inter-
preta a conduta e as declarações do outro. Nenhuma “moldura” é certa ou errada:
cada uma tem a sua própria validade. Mas enquanto os casais em vias de sepa-
ração discutirem sobre qual das interpretações é a correcta estão a prejudicar o
progresso na construção de soluções de acordo.
Na sua missão de ouvir, clarificar e resumir, os mediadores precisam de mostrar
que estão interessados e podem aceitar as imagens contraditórias que possam ser
apresentadas por cada uma das partes. Eles não escolhem qual a imagem que
preferem, nem farão julgamentos de valores. Nas fases iniciais da mediação, a
imagem que cada participante faz do outro é normalmente negativa. As explicações
podem ser prestadas em termos de responsabilidade ou de acusação. O desafio para
os mediadores é reformular as declarações acusatórias de tal modo que não alterem
a imagem ainda que ponham outra “moldura” à volta de maneira a que seja vista
duma perspectiva diferente. As “molduras” que nós construímos adaptam-se às
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nossas reacções e decisões, mesmo quando elas produzem resultados auto-
destrutivos, ao passo que uma mudança de perspectiva fornece uma oportunidade
de alterar um modelo de pensamento e de comportamento. Portanto, quando um
mediador reenquadra a perspectiva de alguém, isto pode ajudar a mudar atitudes e
comportamentos, sem que o mediador seja orientador ou juiz. O reenquadramento
envolve o reformular de declarações ou de ideias para oferecer uma maneira mais
positiva de as compreender, sem introduzir uma nova interpretação que pertenceria
ao mediador. Pode ser usado para não se centrar sobre a opinião de um dos pais
em relação ao outro no que se refere às preocupações conjuntas pelos seus filhos.
Reformulações regulares mantêm os filhos na primeira linha da atenção dos pais.
Não é invulgar que os pais repitam a linguagem e as expressões que o mediador
usou. A reformulação exige sensibilidade e jeito. Pode envolver modificações de
palavras e de sintaxe, para ajudar a mudar o fluxo de energia de negativo para
positivo. Também são importantes a escolha adequada dos tempos de intervenção
e a atenção ao impacto sobre ambas as partes.
Como funciona a reformulação positiva?
1. Apresenta uma palavra ou uma declaração duma forma diferente: uma
determinada faceta é rodada para apanhar uma luz diferente. A intenção é clarificar
ou facilitar a comunicação entre as duas partes, e não para impor o ponto de vista
pessoal do mediador. Uma das maneiras de conseguir isto é fazer uma pergunta em
vez de um comentário para verificar se a preocupação ou o objectivo fundamental do
mediador foi percebido. Se não for esse o caso, a sua correcção permite esclarecer o
assunto. Se, por outro lado, a reformulação for correcta e sensível, há uma resposta
positiva, geralmente traduzida por um gesto de cabeça e por um cruzar de olhos.
2. Se se repetirem palavras e frases negativas, a repetição confere-lhes peso e
força adicional. Um reenquadramento deve ser positivo, não culpa, não acusa e
não denigre ninguém.
3. Um reenquadramento positivo pressupõe boas motivações. Pode-se dar às
pessoas o benefício da dúvida até que elas voltem a tornar evidente que só têm
motivações destrutivas. Se se der uma explicação positiva no caso duma posição
negativa, isso ajuda as pessoas a sentirem-se melhor. Frequentemente elas estão
conscientes que se comportam mal. O facto de lhes ser oferecida alguma forma
116
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de validação ajuda-as a restaurar a auto-estima que anda geralmente muito em
baixo durante os processos de separação ou divórcio.
Um reenquadramento positivo levanta preocupações subjacentes que podem
ter estado escondidas por baixo de reacções de irritação ou de defesa. Se o
mediador as exprimir como preocupações mútuas, partilhadas por ambos os pais,
pode acontecer que se abra e se explore um terreno comum.
4. Um reenquadramento orientado para uma das partes precisa de ser equilibrado
por um reenquadramento paralelo ou por um reconhecimento da outra parte. É im-
portante equilibrar e mutualizar – identificar um terreno comum e preocupações co-
muns, mesmo quando a atenção estiver concentrada nas afirmações de uma das partes.
5. Quando se verifica um nível particularmente elevado de emoção ou tensão,
o reenquadramento duma forma calma e reflectida baixa a temperatura emocional.
Ouvir com atenção torna-se mais fácil. O reenquadramento pode ser utilizado
como um passo para outras questões que precisam de ser analisadas.
O ritmo e o agendamento do reenquadramento
Mediadores inexperientes têm tendência para não aproveitar deixas para fazer
reenquadramentos e perdem valiosas oportunidades para intervir em ocasiões críticas.
Se se desperdiçarem oportunidadesdessas repetidamente o conflito pode agravar-se
e ambas as partes podem perder confiança na capacidade do mediador para as conter.
Por outro lado, um reenquadramento que é proposto muito depressa e
irreflectidamente pode não servir para nada. Não deve aparecer sob uma forma
paternalista, nem deve diminuir a importância da declaração inicial. Reenquadrar não
é uma técnica usada isoladamente; é parte dum processo no qual cada intervenção
pelo mediador deve ser feita com cuidado e orientada para o próximo passo.
Mensagens e “meta-mensagens”
Alguns casais não se guerreiam abertamente. Enviam mensagens codificadas
um ao outro. É preciso que os mediadores desenvolvam um “terceiro sentido”
para captar e descodificar essas mensagens codificadas. Uma “meta-mensagem” é
uma mensagem oculta que transmite uma instrução ou alguma informação sobre
as relações e atitudes do casal. A mensagem oculta pode contradizer o que está a
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ser dito abertamente. As mensagens codificadas ou “meta-mensagens” podem ser
subtis e mais devastadoras do que um ataque frontal, em especial se destroem o
outro parceiro por sarcasmo e pelo ridículo. Estas mensagens codificadas podem
ser usadas por um dos parceiros em mediação para arrastar o mediador para uma
aliança, usando por vezes palavras aparentemente inócuas para transmitir uma
mensagem de que a outra parte não é razoável, é estúpida ou ridícula.
Resposta à linguagem corporal
Uma quantidade apreciável de informação é transmitida em mediação através de
linguagem corporal – vestidos, postura, contacto visual, expressões faciais. Os
mediadores têm de estar atentos à linguagem corporal dos participantes e
conscientes das mensagens não verbais. Os sentimentos de carinho, de raiva bem
como de tristeza, são muitas vezes transmitidos por olhares ou gestos entre o casal.
Alguns géneros de linguagem corporal em mediação podem exigir uma resposta do
mediador, ao passo que outros não precisam de qualquer comentário. 
A linguagem corporal do mediador – contacto visual, expressão facial, movimentos
das mãos, maneira de estar sentado – também transmite sinais de que o mediador
necessita de estar consciente. As mãos podem ser usadas para realçar imparcialidade
e abertura, mas movimentos das mãos em demasia pelo mediador podem causar
distracção.
Nervosismo, ansiedade
Quando os mediadores notarem mãos a agarrar uma cadeira ou pés a mexer
para cima e para baixo, pode ser construtivo reconhecer e partilhar a tensão,
dizendo que estão a passar um tempo extremamente tenso e que o objectivo é
reduzir a tensão fazendo …
Medo de ataque, cólera controlada
Os braços dobrados à volta do peito, os punhos cerrados ou as pernas firmemente
cruzadas podem ser posições defensivas indiciadoras de vulnerabilidade, medo de
ataque ou raiva contida. As pessoas podem manter os olhos baixos e evitar olhar para
os outros. Podem deslocar as suas cadeiras e afastá-las das outras pessoas. Os
mediadores têm a possibilidade de ajudar as pessoas a sentirem-se mais seguras e mais
descontraídas com novas garantias que não seriam oferecidas espontaneamente Se um
118
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dos participantes evita o contacto visual, olhando constantemente para o chão ou para
fora através da janela, isso é um sinal de que qualquer coisa precisa de ser feita para
conseguir que essa pessoa se sinta mais segura, mais à vontade e mais envolvida. É
oportuno perguntar algo que convide ao contacto visual e volte a introduzir no
processo uma pessoa que se tenha ausentado.
Uma postura indolente, deitada para trás na cadeira com as pernas esticadas, pode
indiciar sentimentos de superioridade. Manter os olhos fechados pode manifestar tédio
ou falta de vontade de participar. No entanto, estas posturas podem também mascarar
ansiedade e receio. Sobrancelhas franzidas, olhar feroz, lábios trémulos, uma mão a
tapar a cara – todas estas expressões precisam de ser notadas e de certa maneira
respondidas. Sorrir, por seu lado, convida a um sorriso em resposta. Mediadores que
se concentram muito a fundo por vezes esquecem-se de sorrir um pouco.
Silêncio
Os silêncios são correntes em mediação. Podem ser pensativos ou altamente
emocionais. É importante que os mediadores aceitem o silêncio e não se apressem a
preenchê-lo. Se o ambiente é de reflexão, tem que se dar tempo para a reflexão. Mas
se o ambiente for pesado e ameaçador, talvez seja melhor reconhecer e discutir as
tensões, para evitar uma explosão prejudicial na mediação ou posteriormente.
Pontuação
Os mediadores precisam de orquestrar a discussão e de gerir o tempo. É útil
ter um conceito de “pontuação” – sublinhando, pondo um ponto final, começando
um novo parágrafo. A estrutura pode ser mantida marcando o final de cada
“movimento” (seguindo a agenda) antes de passar ao seguinte (recolhendo mais
informação). O mediador tem de ser mais pro-activo – não apenas reactivo – ao
gerir a estrutura e o ritmo.
A pontuação ajuda a:
* Manter os participantes no caminho desejado
* Sublinhar uma discussão específica
* Dar relevo ao progresso e reforçar a cooperação
* Caracterizar as fases do processo
* Planear as próximas fases ou passos
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A pontuação é normalmente verbal, mas usa-se frequentemente um expositor
de dados constituído por folhas de papel de grande formato para mostrar a
agenda e a estrutura, de modo que cada um se possa orientar com mais facilidade.
Uso de linguagem pictórica, de metáforas e de diagramas em mediação
Os argumentos são muitas vezes repetitivos e as mesmas palavras são usadas
vezes sem conta. Uma metáfora poderá mudar o modelo e transmitir com
vivacidade qualquer coisa que doutro modo necessitaria de longas explicações. As
metáforas captam a imaginação e aumentam o conhecimento. Mas também há
perigos: uma metáfora desajustada pode ser condescendente, insensível ou apenas
ridícula. Para os mediadores é importante pensar sobre as metáforas ou imagens
particulares que podem usar duma maneira natural no decurso das discussões. As
sugestões seguintes incluem algumas metáforas óbvias que ficaram classificadas na
categoria de clichés super-elaborados. Outras podem incitar os mediadores a
inventar as suas próprias metáforas. Uma metáfora inesperada pode lançar à terra
sementes duma ideia que germinará gradualmente.
Território, terreno intermédio
A mediação é muitas vezes descrita como meio de “encontrar a posição
intermédia”. As reuniões de mediação são realizadas em território neutro e os
mediadores ajudam os participantes a encontrar um terreno comum que seja firme
e seguro para prosseguir. Os mediadores falam frequentemente em estabelecer uma
base na qual os pais separados se sintam capazes de trabalhar em conjunto, ou para
construir fundações para uma futura colaboração ou para definir os limites para as
discussões difíceis ou os limites práticos de contacto ou de arranjos financeiros.
Viagens
Há do mesmo modo muitas metáforas óbvias a propósito de estradas, viagens,
escolha de itinerários, caminhos que conduzem a direcções diferentes,
cruzamentos, bloqueios de estradas e necessidade de sinalização. Podem ser
mostradas diversas opções de forma pictórica nas folhas de papel do expositor de
dados como caminhos diferentes para avançar, envolvendo decisões que podem
ser tomadas em fases diversas. Algumas situações parecem não ter saída, mas a
identificação de todos os caminhos possíveis e a discussão de todas as opções
possíveis pode abrir um caminho.
120
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Pontes
Mesmo pontes queimadas podem continuar a existir na mente. A mediação é uma
ponte a que os participantes acedem de ambosos lados. Aventurar-se a atravessar a
ponte pode exigir um enorme esforço e alguma esperança para o futuro. Algumas
pessoas dirigem-se para ela com facilidade, sem precisar de muito apoio, ao passo
que outras precisam de ser encorajadas e ajudadas antes de se decidirem a atravessar
a ponte e de acreditarem nela o suficiente para darem alguns passos. Em termos de
engenharia, uma ponte pode ser ancorada em maciços construídos em cada margem.
As pessoas que usam a ponte querem saber se há suficiente apoio. O mediador é
responsável por ver se a ponte está construída correctamente, com apoios sólidos
tanto em termos emocionais como práticos. Os que estão relutantes em abandonar o
passado podem ser ajudados pela mediação a dar alguns passos nesta ponte, na
direcção dum futuro que lhes pode parecer muito incerto. Numa perspectiva
metafórica, as discussões da mediação são uma ponte que atravessa o abismo entre
os aspectos conflituosos e as necessidades. São precisas pontes entre os pais e os
filhos, bem como entre os próprios pais. Um dos pais que tenha perdido o contacto
com uma criança ou adolescente pode-se sentir totalmente rejeitado ou posto de lado.
Este progenitor pode precisar de ser encorajado para conseguir atravessar mais de
metade da ponte – escrever ou telefonar regularmente, mesmo que não haja nenhuma
reacção. A criança precisa de ver que os pais mantêm viva essa ponte, possivelmente
durante um período longo, e podem eventualmente sentir-se capazes de reagir. Em
situações de bloqueio, quando a criança se recusa a ver um dos pais, pode ser útil
falar sobre a forma de manter a ponte aberta e as formas de a dar a conhecer ao filho.
Elástico
Objectos humanos podem ser também usados como metáforas. Toda a gente sabe
como um elástico é útil. Ele estica, contrai-se e mantém a sua forma. Mas se um
elástico for esticado com muita força ou durante muito tempo, ele começa a deformar-
se. A capacidade de recuperação duma criança é como um elástico. Algumas crianças
mantêm essa capacidade, bem como um desenvolvimento normal, apesar de estarem
submetidas a sentimentos ou forças em conflito. Outras tornam-se vulneráveis a
pressões que são tão fortes e prolongadas que elas perdem a sua resiliência e
capacidade para se adaptar. Os pais podem tornar-se mais compreensivos para um
filho que esteja a debater-se com mudanças importantes se pensarem que a criança é
como um elástico que tem grande resiliência, desde que não seja esticada com muita
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força nem durante muito tempo. O elástico é composto por um certo número de
pequenos fios unidos entre si. Se muitos desses fios se soltarem ao mesmo tempo, a
elasticidade fica afectada. Da mesma maneira, a maioria dos pais e filhos confiam num
certo número de ligações com outras pessoas. Se muitas dessas ligações (com um
parceiro, um dos pais, outro parente ou amigos) forem bruscamente interrompidas,
toda a estrutura pode desmoronar. Poderá ser muito urgente pensar como fornecer
apoios adicionais, mesmo que temporários, para manter as ligações existentes.
O psiquiatra Michael Rutter recordou aos seus auditores numa palestra
intitulada “Resiliência à face da adversidade” (Rutter 1985) que a tensão é normal
e que aprender a lidar com esse tipo de situações pode fortalecer. A resiliência
não se alcança evitando a tensão, mas sim encarando-a de maneira que permita
aumentar a auto-confiança e a capacidade de recuperação. Isto pode implicar o
assumir de responsabilidades em relação à própria reacção a uma situação de
tensão, em vez de acusar outros de serem os culpados. A resiliência é influenciada
por muitos factores, incluindo temperamento, forças pessoais, experiências
anteriores na vida, acontecimentos na parte final da meninice e na adolescência,
factores “pára-choques” tais como apoio familiar e capacidade de criar relações
próximas. Nenhuma destas experiências sozinha determina a reacção a uma
mudança de vida importante mas, tecidas em conjunto, podem dar origem a um
tecido que seja elástico e não quebradiço.
Puzzles de peças recortadas
Uma situação aparentemente impossível pode aparecer mais exequível se for
sugerido que seja tratada pouco a pouco. Os puzzles de peças recortadas
fornecem uma metáfora singela e animadora para uma abordagem passo a passo,
por oposição à procura duma solução total imediata. “Procurar uma decisão e
tentar que todas as peças se adaptem – as crianças, a casa, o dinheiro – é como
formar um puzzle de peças recortadas. Algumas peças não se adaptam de modo
nenhum no princípio, e outras parece que faltam. Mas, pelo menos em mediação,
eu posso ajudá-lo a procurar as peças que faltam. Se algumas peças não se
adaptam podemos retirá-las e tentar outras peças (...). Podemos também decidir
que parte vai ser trabalhada em primeiro lugar. Alguns gostam de começar por
num canto quando compõem um puzzle, e outros preferem fazer primeiro todos os
lados. Por onde deveríamos começar?”
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Portas e chaves
Encontrar a chave para um problema é uma metáfora comum. Por muito
sobrecarregada que pareça, a imagem duma chave pode ajudar as pessoas a fazer
uma viragem para um modo de resolução do problema. Quando se lhes pergunta
o que vêm eles como sendo a chave para o problema, é surpreendente quantas
vezes eles aparecem com uma sugestão útil. Poderá existir mais do que uma chave
que abre a porta?
Árvores
Os mediadores que reagem a uma disputa sobre propriedade falando sobre
árvores arriscam-se a ser rejeitados rapidamente. As metáforas têm de ser apropriadas
e usadas com cuidado. O conceito de lugar abrigado, protegido da balbúrdia do dia
a dia, é no entanto fundamental em mediação. Nas reuniões de Camp David, Jimmy
Carter convidou o Presidente Sadat, do Egipto e o Primeiro-ministro Begin, de Israel
a encontrarem-se com ele num jardim, afastados da comunicação social e do mundo
exterior. Ele descreveu o jardim como “abrigado por uma espessa cortina de carvalhos
imponentes, choupos, freixos, alfarrobeiras, nogueiras e álamos... uma atmosfera de
isolamento e de intimidade, propícia a reduzir as tensões e a encorajar a
informalidade” (Carter, 1982, p. 324) Em Camp David, Jimmy Carter mediava um
acordo de paz entre o Egipto e Israel.
Água e rios
As metáforas a propósito da água oferecem uma abundância de imagens. A
água simboliza o movimento e a mudança. Pode correr depressa ou devagar, e
pode estar parada. A água parada pode estagnar, mas uma mudança brusca é
como uma maré que arrebata as pessoas em correntes que elas são incapazes de
vencer. Ser arrastado constitui uma experiência terrível. Os mediadores podem
tentar tornar a corrente mais controlável, reconhecendo o medo de ser arrastado
e detectando quando, onde e como a corrente é mais rápida. Mesmo aqueles que
parecem em águas relativamente calmas podem ir contra as rochas ou serem
arrastados por rápidos. Perguntar aos participantes se prevêem algumas rochas
mais à frente pode ajudá-los a prever e a evitar futuras dificuldades. A imagem
pode também ajudar a reforçar a sua confiança na sua capacidade conjunta de
dirigir e de manter o controlo.
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O processo de mediação em si mesmo pode ser comparado à água. A água
pode penetrar em pequenas gretas e cair em pequenas gotas. Um fio de água
parece insignificante, mas mesmo assim tem o poder de partir um bloco de rocha.
Ideias novas, propostas e mudanças precisam frequentemente de ser absorvidas
gradualmente em vez de serem injectadas à força. Encorajar as pessoas a
considerarem e a aceitarem as modificações por fases em vez de tudo duma vez,
é uma abordagem útil que facilita o ajustamento dos filhos àsmodificações, bem
como os ajustamentos que os adultos têm de fazer.
A água reflecte a luz. Reflectir significa pensar. Pensar pode lançar alguma luz
numa área escura, em que a impossibilidade de ver no escuro causa pânico. Ainda
que a luz não forneça necessariamente resposta aos problemas, a luz, tal como a
água, pode filtrar através de fendas estreitas. Pode iluminar o processo de explorar
os problemas. As reflexões podem ser projectadas – atiradas para a frente – duma
superfície ou dum ângulo para outro e serem vistas a uma luz diferente.
A capacidade de mudar é afectada pela temperatura ambiente. Materiais frios ou
gelados são muito quebradiços. Estalam sob pressão. A água gelada estilhaça-se ou
parte, ao passo que a água a ferver está quente demais para ser tocada e evapora-se.
Os mediadores devem registar a temperatura, como um termómetro. Se a temperatura
for muito elevada, precisa de ser arrefecida duma maneira cuidadosa e ponderada,
antes das mudanças serem encaradas e discutidas. Quando parecer muito frio ou
gelado, os mediadores têm de oferecer calor e compreensão, tendo em conta os
medos e acalmando discussões penosas. O calor faz as pessoas sentirem-se mais
confortáveis. Também aumenta a maleabilidade e a flexibilidade.
A importância da linguagem e do recurso às imagens em mediação é muitas
vezes subestimada. Mesmo pequenas diferenças na abordagem duma questão ou
no tom duma reflexão podem fazer mudanças importantes que tragam as tensões
à superfície. Gerir estas tensões superficiais pode facilitar algum grau de mudança
a um nível mais profundo. As palavras que os mediadores usam, o seu tempo e
ritmo, podem influenciar o processo de mediação e o seu resultado mais
profundamente do que muitas vezes se pensa. 
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Capítulo V
INICIAR A MEDIAÇÃO
Salas de mediação e equipamentos
As salas de mediação familiar devem oferecer um ambiente de segurança e
privacidade. A atmosfera geral deve ser agradável e acolhedora. Deve dispor de
áreas de espera e de pelo menos duas salas, de modo a que os casais que vão à
mediação possam estar separados, se necessário. A sala de mediação deve ter
espaço suficiente para que os clientes se sintam confortáveis e deverá ter acesso
para clientes com deficiências motoras.
Um escritório não serve para reuniões de mediação. Um mediador nunca se
deverá sentar atrás duma secretária numa sala cheia de estantes de arquivo. A mobília
e a decoração, incluindo os quadros, deverão ser preferencialmente em tons quentes
e concebidas para que as pessoas se sintam bem-vindas. Uma sala ideal para
mediação familiar deverá ser suficientemente espaçosa para ter duas áreas distintas
que possam ser usadas para fins diferentes, incluindo para reuniões familiares com
filhos. Numa das metades da sala, uma mesa baixa com cadeiras de braços colocadas
à volta proporciona uma disposição informal propícia para as reuniões e debates
iniciais a propósito dos filhos. Na outra metade da sala, uma mesa redonda ou oval
com cadeiras verticais contribui para um ambiente semelhante ao dum local onde se
discutem negócios, adaptado para negociações sobre assuntos financeiros em que é
preciso consultar documentos. A sala de mediação deve conter ainda:
• Um telefone (salvo se for proibido receber chamadas durante a mediação);
• Um relógio em local de acesso visual pelo mediador;
• Um quadro branco ou um expositor de dados em cavalete e canetas-
marcadores;
• Uma máquina de calcular;
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• Materiais de referência e formulários de mediação;
• Uma pasta de informação e folhetos sobre outros serviços;
• Livros sobre separação e divórcio para pais e filhos;
• Água e copos – e café ou chá num jarro térmico;
• Uma caixa de toalhetes de papel.
Se houver crianças envolvidas, deverá haver material para crianças, incluindo
jogos para diversos grupos etários.
Recepção
As primeiras impressões são muito importantes, uma vez que muitos clientes se
sentem extremamente nervosos quando participam pela primeira vez num acto de
mediação. Os recepcionistas precisam de formação sobre a maneira como devem
receber os casais que vêm à mediação. Alguns casais poderão deslocar-se em
conjunto para a reunião, e não terão dificuldade em esperar juntos. Outros chegam
separadamente e pode acontecer que não se falem. Talvez não se tenham visto
desde há muito tempo e podem estar apavorados com este primeiro encontro.
Devem ser por isso poupados a terem de estar perto um do outro, enquanto
esperam que o mediador termine uma reunião precedente ou um telefonema muito
demorado. O recepcionista informa o mediador logo que chega o primeiro
participante. Se houver o cuidado de criar um bom relacionamento com cada uma
das partes desde o início, é raro acontecer um primeiro encontro falhado. Muitos
mediadores oferecem chá ou café no início duma reunião para ajudar as pessoas a
sentirem-se à vontade e para lhes dar tempo para estarem bem instaladas no
ambiente em que se encontram. Se for servido chá ou café, há que os ter preparados
num jarro térmico. Trazer bebidas posteriormente pode perturbar a reunião em
pontos críticos. Os telefones na sala de mediação deverão ser desligados, de modo
a que não haja interrupções a partir do momento em que a reunião começa.
Disposição das cadeiras
As cadeiras devem ser dispostas a uma distância conveniente e orientadas para
o centro. Os mediadores precisam de manter o mesmo contacto visual com ambas
as partes sem terem de se virar dum lado para o outro, como um árbitro numa
partida de ténis. Os participantes não deverão ser colocados em frente uns dos
outros, já que essa disposição pode suscitar confrontos. Eles precisam de
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conseguir olhar uns para os outros e para o mediador, sem se sentarem nem uns
ao lado dos outros, nem uns em frente aos outros.
Na primeira reunião é importante estabelecer o relacionamento e ajudar ambas
as partes a sentirem-se à vontade. Sentar-se à volta duma mesa tanto tem um
significado simbólico como um significado prático. Alguns clientes sentem-se
vulneráveis sem uma mesa, e de qualquer modo, quando há papéis de natureza
financeira para analisar, uma mesa é imprescindível. Mesas redondas ou ovais são
muito mais convenientes do que mesas rectangulares. 
Mediador único
Problemas de género
Com um único mediador, há um desequilíbrio de sexos, salvo se a mediação
tiver lugar com um casal homossexual. Os problemas de desequilíbrio de sexos
são inerentes às mediações tal como uma corrente eléctrica. Os mediadores têm
de ter muito cuidado para não formular hipóteses com base nos sexos. Os filhos
poderão estar a viver com o pai – ou com um dos avós – e o pedido do pai para
residência, ou pelo menos para um poder paternal partilhado, pode ser a questão
principal. Qualquer hipótese não considerada por parte do mediador pode
destruir a confiança na sua imparcialidade. Normalmente é útil referir-se a
qualquer desequilíbrio de sexos na sala, fazendo notar que os mediadores estão
acostumados a olhar para as situações segundo pontos de vista diversos. Os
problemas da diferença de sexos podem estar ligados com o desequilíbrio de
poderes na mediação (ver Cap. 7). O participante do mesmo sexo do mediador
não vê necessariamente essa coincidência como uma vantagem. Muitas vezes essa
parte receia que o mediador seja “seduzido” pela outra parte. Em co-mediação, as
127
João
Susana
Mediador
Discussão
à volta
da mesa
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desigualdades de sexo são compensadas pelo recurso a mediadores de sexos
opostos. Os co-mediadores homem-mulher são especialmente úteis quando osproblemas da diferença de sexo são muito significativos, mas na prática pode ser
impossível recorrer a este modelo de co-mediação.
Estruturação do processo de mediação
A mediação familiar ajuda casais em vias de separação e os seus filhos a gerir a
difícil transição duma estrutura familiar para outra. Normalmente trata-se dum período
de grande tensão, envolvendo mudanças a muitos níveis. A explicação das diversas
fases do processo pode ajudar a capacitar os clientes e a reduzir as suas ansiedades.
A criação duma estrutura para o processo oferece um mecanismo disciplinador de
emoções que poderiam ser incontroláveis. Frequentemente a primeira sessão é volátil.
Por mais fortes que sejam os sentimentos e os receios expressos, os mediadores
devem mostrar que são capazes de os manter dentro de limites seguros de local,
tempo e compreensão. As fases do processo não precisam de ser seguidas segundo
uma sequência rígida: pode ser preciso fazer antecipações ou recuos duma maneira
flexível, para ir ao encontro das necessidades à medida que elas se apresentam.
Fundamentalmente, uma estrutura ajuda um mediador a conter e a gerir necessidades
e emoções conflituais sem se aventurar por atalhos que não conduzem a nada.
Uma estrutura básica incluiria as seguintes fases:
1 Comprometer as partes no processo da mediação 
2 Explicar as finalidades e o processo
3 Acordar o agendamento das sessões mediação
4 Recolher e partilhar informação 
5 Examinar as necessidades e as opções
6 Negociar no âmbito das opções preferidas 
7 Elaborar termos possíveis para um acordo 
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Uma abordagem evolutiva pode ser preferível a trabalhar por etapas, mas é
importante ter uma compreensão das diversas tarefas e da fase em que cada parte
se encontra.
Comprometer ambas as partes, reuniões de lançamento e triagem
Comprometer ambas as partes duma forma equilibrada, fazer a triagem para
avaliar a adequação da mediação, obter o seu consentimento consciente e construir
uma relação com ambas as partes, constituem a primeira fase da mediação. As
aptidões para mediação são necessárias desde o princípio, quando se lida com a
recolha de informações e eventual recurso a serviços externos, de modo a
maximizar as oportunidades de mediação e a comprometer ambas as partes num
cuidadoso caminho imparcial. Um participante dominador terá esperança de levar
o outro a aceitar um acordo rápido, ao passo que a parte mais fraca espera por seu
lado conseguir o apoio do mediador.
Nomes e apresentações
Os mediadores deverão ter cuidado para acolher cada cliente duma maneira
calorosa e amistosa. Sorrir é importante. Dependendo do que for culturalmente
apropriado, os mediadores podem perguntar aos seus clientes se preferem usar
os apelidos ou os nomes próprios. Se preferirem os nomes próprios, o que
normalmente acontece, isso deverá ser também aplicado ao mediador. Muitos
mediadores começam com algumas observações introdutórias para realçar os
objectivos positivos da mediação e para ajudar as pessoas a sentirem-se à
vontade. Ainda que haja clientes que estejam demasiadamente preocupados
para absorver o que foi dito, isto proporciona-lhes alguns momentos para
assentar e controlar o impacte de estarem juntos na mesma sala. A introdução
do mediador não deve ser extensa, porque as partes estão normalmente
preocupadas em conseguir avançar e conscientes de que o tempo se pode estar
a esgotar. Habitualmente o mediador agradece aos participantes terem vindo e
reconhece que o estarem presentes talvez não tenha sido fácil para eles. É
importante reconhecer o esforço que fizeram para participar na mediação, desde
que isso não seja dito com ar protector. Eventualmente, os mediadores terão de
explicar o seu papel com maior detalhe, para terem a certeza de que tudo está
claro. “Penso que já perceberam que não posso tomar partido por nenhum dos
lados e que não posso tomar decisões no vosso lugar. Tento ajudar ambos a
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esclarecer o que é preciso ser trabalhado entre vocês, a recolher a informação
necessária e a encontrar pistas convosco. Vocês talvez queiram discutir as
soluções em relação aos vossos filhos e analisar o que os dois julgam que seria
melhor para eles.”
O Consentimento da Mediação
Os participantes precisam de perceber e aceitar os termos e as condições em
que a mediação se realiza, antes do processo começar de facto. Esses termos e
condições devem ser explicados na fase inicial e expostos num documento escrito
que descreva numa linguagem clara a finalidade e os princípios da mediação, o
papel do mediador, o compromisso de fornecer toda a informação financeira, a
natureza e os limites da confidencialidade acordada, a necessidade dum parecer
jurídico independente e pormenores sobre os encargos da mediação, se aplicável.
O mediador deve verificar se os participantes compreendem os termos e as
condições e pedir-lhes então para assinar o documento, como prova de aceitação.
O mediador guarda uma cópia assinada pelos dois. Isto também ajuda a proteger
o mediador no caso de qualquer dúvida posterior.
Confidencialidade
Excepto nos casos em que uma criança ou um adulto estejam em risco dum
perigo significativo, as conversas que se realizam durante a mediação são
confidenciais. Os participantes são encorajados a apresentar sugestões e
propostas, sem que elas os comprometam, ou possam ser usadas contra eles em
tribunal se o litígio for para a frente. Na maior parte das jurisdições, em que a
confidencialidade da mediação é reconhecida pela lei, o conteúdo das discussões
da mediação só pode ser invocado no tribunal se ambas as partes estiverem de
acordo. É extremamente raro que ambas as partes decidam prescindir do seu
privilégio e que portanto as discussões da mediação possam ser reveladas no
tribunal. Contudo sabe-se que isso já aconteceu. Também se pede às partes que
confirmem que não chamarão o mediador como testemunha em processos
judicias. Dum modo geral não é preciso examinar exaustivamente com os pais
ou outros adultos as excepções que se aplicam quando uma criança estiver ou
se julga estar em risco, desde que eles saibam por informação escrita ou verbal
que a confidencialidade da mediação não é absoluta. Se se fizerem alegações ou
se se levantarem questões sobre uma criança em risco, o mediador deve
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certificar-se que o órgão apropriado de protecção da criança é contactado sem
qualquer demora. Na prática, é mais provável que o tribunal peça uma avaliação
de bem-estar, a efectuar por um assistente social, do que chame o mediador para
testemunhar. 
Recolha de informação financeira e patrimonial
Nas mediações que envolvem questões financeiras é pedido a cada cliente para
preencher um formulário ou questionário, com documentação de apoio. No Reino
Unido esta informação, baseada em dados objectivos, surge na mediação mediante o
pressuposto (estabelecido no Termo de Consentimento de Mediação) de que cada um
dos participantes concorda em fornecer informações factuais completas e abertas
sobre as suas finanças, no processo da mediação, de modo que a informação que é
recolhida possa ser analisada com o seu advogado e, se necessário, apresentada em
tribunal para facilitar o processo judicial e para evitar a necessidade dos advogados
duplicarem o processo de recolha de informação. Contudo, as discussões que têm
lugar durante a mediação são legalmente privilegiadas, o que significa que o seu
conteúdo não pode ser revelado em tribunal.
Se na mediação forem aceites questões financeiras e imobiliárias, ambas as
partes têm de estar dispostas a fornecer informação completa sobre a sua situação
financeira. Asua disponibilidade para colaborar com o mediador é essencial,
mesmo que não haja colaboração entre as próprias partes nesta fase. Desde o
primeiro contacto com cada parte, os mediadores familiares precisam de criar
motivação e comunicação, explicando o processo de mediação e os benefícios de
atingir termos mutuamente aceitáveis para um acordo. Ao assinarem o Termo de
Consentimento da Mediação, ambas as partes confirmam estar dispostas a fornecer
informação financeira completa e cópias dos documentos necessários. Têm que
estar cientes de que, se no decurso do processo houver uma ordem do tribunal
elaborada com consentimento mútuo e se mais tarde se souber que uma das
partes não deu informação completa sobre a sua situação financeira, a outra parte
pode requerer que a ordem seja anulada e que o caso seja reconsiderado pelo
tribunal. O tribunal pode condenar a parte que omitiu informação ao pagamento
das custas.
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Dificuldades habituais no início 
1. Inquietações e receios
Muitos clientes resistem à mediação porque receiam ser esmagados por um
parceiro dominador. Outros ficam perplexos com os aspectos financeiros. Os
mediadores com uma formação de terapeutas podem não ter também o costume
de analisar informação financeira. Os mediadores precisam de mostrar empatia e
estabelecer comunicação entre as partes. Indivíduos cujo amor-próprio foi
destruído pela ruptura e que talvez nunca tenham lidado com assuntos financeiros
precisam de encorajamento contínuo por parte do mediador para encetar tarefas
ao seu alcance. Talvez seja útil usar uma abordagem faseada na qual o processo
de mediação é dividido numa série de fases, visto que isso ajuda as pessoas
nervosas e perturbadas a darem um passo de cada vez e a ganharem desse modo
autoconfiança. Alguns clientes estão ansiosos porque põem em dúvida a sua
capacidade de julgar se a informação fornecida pela outra parte é correcta e
completa. Os mediadores devem tranquilizá-los de que podem abordar o seu
consultor jurídico antes de chegarem a qualquer conclusão.
2. Confusão
Os mediadores precisam de observar as expressões faciais e a linguagem corporal.
Se alguém parece preocupado, o mediador pode dizer: “Maria, parece perturbada …
há qualquer coisa que não esteja clara?”. Os participantes ficam muitas vezes aliviados
por verem que os mediadores também ficam confusos. Se os mediadores admitirem
estar confusos, isso ajuda a criar uma atmosfera mais distendida na qual os
participantes se sentem à vontade para perguntar ao mediador ou à outra parte para
explicar melhor qualquer coisa, sem receio de parecerem estúpidos.
3. Desconfiança
Quando as relações se desfazem é também normal que aconteça o mesmo à
confiança. Pode acontecer que nunca tenha havido qualquer confiança, ou que a
confiança tenha desaparecido nalgumas áreas, mas não em relação aos filhos. É
importante para os mediadores reconhecerem e normalizarem a perda de confiança
quando a relação foi desfeita. Isto é mais útil do que forçar casais desavindos a terem
confiança um no outro. Os mediadores sabem que não podem fazer isso. Um
mediador que força a confiança será visto como um ingénuo e portanto não digno
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dela. Por outro lado, os mediadores deveriam ter cuidado para se manterem imparciais
e para não sugerirem de maneira nenhuma que a falta de confiança duma das partes
na outra é justificada. O reconhecimento da falta ou ausência de confiança pode ser
um dado, sem significar que um dos dois não é fiável. Ambas as partes precisam de
garantias de que não é suposto chegarem a acordo com base em números
incompletos ou informação duvidosa. Ambas vão precisar de fornecer os documentos
de suporte que um tribunal exigiria, se o litígio para lá transitasse.
Uma parte em quem não se acredita não é necessariamente desonesta. Muitas
pessoas que recorrem à mediação recusaram previamente fornecer informação ao seu
parceiro, por vezes durante todo o período da sua relação. Isto pode ter acontecido
por um certo número de razões. Por vezes um dos parceiros desejou dominar o outro.
O conhecimento é uma forma de poder, e por isso a recusa de informação é uma
maneira de manter o controlo. Por vezes um parceiro manifesta uma agressividade
activa ou passiva escondendo informação porque desconfia da maneira como essa
informação foi pedida pelo outro parceiro ou pelo seu advogado. Assim, quando o
mediador solicitar de uma forma diferente, é possível que a resposta varie.
Algumas pessoas pensam que a mediação é uma opção frágil, comparada com o
recurso a advogados ou com a ida a um tribunal. Podem pensar que são capazes de
escapar sem dar a informação completa. Talvez não saibam que lhes serão pedidos
documentos comprovativos. Obter uma informação financeira completa é tão
importante na mediação como num processo jurídico tradicional. Os mediadores
familiares precisam de explicar porque razão uma abertura financeira total é necessária
e como a informação fornecida por ambas as partes pode ser usada, durante e depois
da mediação. As dúvidas iniciais duma das partes sobre se a outra parte vai “dizer a
verdade” podem ser esclarecidas dizendo: “Bem, vamos ver antes de mais nada que
informação cada um de vocês prestou. As pessoas ficam por vezes surpreendidas pela
quantidade de informação que este formulário exige. Nós também precisamos de
documentos comprovativos com valores actualizados que sejam aceites por ambos. Os
vossos advogados também podem ver estes documentos. Logo que tenhamos chegado
tão longe quanto possível na mediação, eu poderei fornecer-vos a ambos um resumo
escrito abrangendo toda a informação que reunimos, incluindo cópias dos
documentos de apoio. O vosso advogado pode olhar para isto e ver se é necessário mais
alguma informação”.
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A maioria das pessoas está disposta a aceitar este procedimento, sentindo-se
possivelmente mais esperançada de que será possível obter informação, mesmo
que ainda sinta uma certa ansiedade. Recolher informação completa é um
processo de passo-a-passo. Informação adicional para preencher falhas pode ser
pensada ao planear o que é preciso fazer para a próxima sessão.
Os mediadores têm de observar as reacções e a linguagem do corpo de cada parte,
enquanto continuam a fazer perguntas duma maneira não ameaçadora. Uma das
partes pode estar com medo de fazer perguntas sobre os números apresentados pela
outra. Os mediadores precisam de ser suficientemente firmes e claros sobre a
informação que é pretendida e sobre quaisquer discrepâncias que apareçam.
Definir e clarificar as questões para a mediação
Alguns mediadores convidam cada parte a explicar o que a traz à mediação.
Acredita-se que ao dar a cada uma esta oportunidade de falar livremente, cada uma
se sentirá ouvida e o mediador poderá perceber as questões. Contudo, há riscos de
que o participante mais poderoso tome conta da palavra e que seja difícil conseguir
calá-lo. Em alternativa, pode-se tentar fazer perguntas pertinentes a cada um dos
participantes em alternância para esclarecer a informação, os assuntos que cada um
deles precisa de resolver e o grau de urgência ou prioridade que eles pretendem
dar a cada questão. Os casais estão frequentemente tão preocupados com as suas
divergências que se esquecem dos pontos em que estão de acordo. É importante
tratar das questões principais duma forma sistemática, verificando aquelas sobre as
quais há acordo e notando as outras sobre as quais não há acordo.
Quem fala primeiro?
A sequência segundo a qual as perguntas são apresentadas a cada participante
deve ser alternada, de modo que nenhum deles esteja invariavelmente na posiçãode responder ao que o outro acaba de dizer. No princípio pode ser aconselhável
fazer a primeira pergunta à parte mais hesitante ou relutante, e não àquela que
parece dominante ou mais confiante. O mediador deveria dar a ambos os
participantes as mesmas oportunidades para explicar o seu ponto de vista e os
seus sentimentos e registá-los tanto quanto possível duma forma equilibrada
(Portanto, ambos vocês estão a sentir-se muito tensos … preocupados..?). O
equilíbrio é muito importante para manter a imparcialidade do mediador e a
gestão do processo.
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Perceber os interesses e as preocupações
A maneira como as perguntas são formuladas pelo mediador influencia a resposta
que é dada (ver Cap. 4). É importante, em particular na fase inicial, que os mediadores
escolham as perguntas apropriadas e que as formulem cuidadosamente.
Listar as questões principais no expositor de dados
É muito útil listar as questões principais numa linguagem neutra ou positiva no
expositor de dados, visto que assim se mostra a ambos os participantes que foram
ouvidos e cria-se um interesse comum. Se a lista dos assuntos sobre os quais já
há acordo de princípio é mais extensa do que a dos assuntos sobre os quais ainda
não há acordo, isso ajuda a apresentar os pontos de desacordo numa perspectiva
mais ampla. O nível de urgência ou de prioridade deve ser tido em consideração
quando se decide a ordem pela qual as perguntas vão ser apresentadas. Se houver
recurso a um expositor de dados, convém usar cores diferentes ou asteriscos para
pôr em evidência certas questões e para assinalar as urgências. A agenda e a
ordem de prioridade são quase sempre de fácil consenso. Se houver assuntos que
compitam entre si, o tempo concedido a cada um deve ser dividido igualmente.
Em alternativa, o casal pode decidir discutir algumas questões durante a primeira
reunião e as outras na reunião seguinte.
O passo seguinte envolve considerar que informação adicional é precisa a fim de
abordar correctamente as questões. Argumentos sobre quanto deve um dos
progenitores pagar de apoio aos filhos podem ser antecipados dizendo: “No que se
refere às vossas preocupações sobre o apoio aos filhos, precisamos em primeiro lugar de
pormenores sobre os rendimentos e as despesas de cada um de vocês para termos uma
visão mais clara de qual a receita que existe e de quanto somam os gastos. Só então
poderemos considerar como é que vocês pensam que o rendimento disponível deveria
ser dividido entre vocês os dois e os filhos”. Quando as prioridades tiverem sido
identificadas e os passos seguintes merecerem acordo, os participantes deveriam
terminar a primeira reunião com a sensação de que estão a trilhar um caminho que
faz sentido. Não se deveriam ir embora sentindo-se frustrados ou confusos.
Gestão do conflito
O que acontece quando uma das partes está zangada? Do ponto de vista físico,
há uma subida de adrenalina, o ritmo do coração acelera e a pressão sanguínea
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aumenta. A respiração torna-se mais ofegante e os músculos ficam tensos. É difícil
ouvir, quando um está zangado. As pessoas talvez tenham de exprimir alguma da
sua zanga antes de serem capazes de ouvir. Os mediadores deverão reconhecer
explicitamente a zanga em vez de tentar abafá-la: Compreendo que vocês os dois
têm os nervos à flor da pele e estão de momento muito zangados”. Também pode
ajudar fazer uma observação referindo que o sentir-se zangado numa situação
destas é inteiramente natural e normal. Reconhecer a zanga e referir-se à mesma
duma maneira pacificadora reduz a necessidade dos casais de manifestarem a
zanga com afirmações agressivas e em voz alta.
Os casais podem vir à mediação determinados a marcar tantos pontos quanto
possível em relação ao outro. As tácticas de marcar pontos representam um teste
à capacidade do mediador de ser firme. Pode ser preciso propor algumas regras
básicas para manter as discussões sob algum controlo. Estas regras são
normalmente aceites com alívio. É da responsabilidade do mediador assegurar-se
de que as regras que foram aceites são respeitadas. Se se estabeleceu comunicação
com os dois participantes desde o início, isso torna mais fácil a intervenção do
mediador quando uma explosão de cólera dá sinais de se transformar numa longa
discussão. O mediador deve intervir duma forma cordial, embora firme, de modo
a que as regras básicas sejam mantidas e que cada participante tenha a
possibilidade de falar, sabendo que o mediador controla os ataques e as
interrupções. A marcação de pontos e os ataques verbais precisam de ser
encurtados e o mediador tem de controlar qualquer linguagem ou comportamento
abusivo. Se se quiser progredir na mediação, o mediador tem de acalmar as
pessoas depois duma explosão de cólera, de modo a que possam reatar a
mediação, apesar da sua desavença: “Eu sei que é muito difícil falar sobre a venda
da casa, quando ela é o vosso lar e também o lar dos vossos filhos, e vocês estão
ambos sob grande tensão. Mas poderemos olhar para que opções poderão existir e
como é que elas funcionariam?”. A gestão do conflito não significa que se
controlem ou evitem as explosões de cólera. Mais importante do que isso, há que
fazer uso das afirmações positivas e repeti-las, para lhes dar mais ênfase: “Então
Júlia, pensa que é importante que as crianças vejam o pai com regularidade..?”,
“Assim, Estêvão, está a dizer que reconhece que a Júlia sempre apoiou a sua
relação com os filhos?” (ver o capítulo precedente para a discussão da técnica de
reenquadramento).
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Os pais que discutem furiosamente a respeito dos filhos podem ficar surpreen-
didos se o mediador lhes disser: “Olhem bem, posso perceber que estão ambos
extremamente aborrecidos e zangados, mas o que me impressiona é perceber quanto
os dois se preocupam com os vossos filhos. Nenhum de vocês arredou pé… A coisa
mais triste é quando um dos pais desiste de manter o contacto com os filhos. Vocês os
dois preocupam-se imenso com eles, mesmo que neste momento não concordem
sobre o que seria melhor do ponto de vista deles e do vosso”. Os pais que estão a lutar
um com o outro podem ficar admirados e sentir-se encorajados, caso o comentário
do mediador soe a espontâneo e de modo algum paternalista. Pode-se recorrer a
um reenquadramento, para passar da corrente de sentimentos da raiva mútua como
esposos para as suas preocupações conjuntas como pais.
Deverão as regras básicas ser definidas logo no início?
Os mediadores nem sempre definem as regras básicas logo no princípio.
Podem ter uma impressão inicial do nível do conflito e em determinadas condi-
ções pode ser útil propor algumas regras básicas no começo. A maior parte dos
participantes apreciará saber que há certas regras básicas, tais como:
• Cada participante disporá de tempo para explicar a sua posição e as suas
preocupações
• Pede-se a cada pessoa para ouvir o outro, sem o interromper
• O mediador perguntará a cada participante para indicar o que, na sua
opinião, seria melhor para o futuro, desencorajando as queixas e
recriminações sobre o passado
• Ainda que se peça aos participantes para não se interromperem um ao
outro, o mediador pode interrompê-los se necessário para manter a
conversa no bom caminho. Talvez haja uma maneira de dizer isto que
possa fazer sorrir: “Eu sei que parece injusto ter-vos pedido para não se
interromperem um ao outro ao passo que eu tenho o direito de vos
interromper. Se de facto eu vos vier a interromper – o que talvez não seja
preciso – será apenas para nos ajudar a não nos desviarmos do assunto e
para usar o nosso tempo da melhor maneira possível. O tempo voa, e porisso passamos imediatamente a …?”
Prestação de informações pelos mediadores
Os participantes pedem muitas vezes aos mediadores para lhes fornecerem
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informações ou explicações – em particular sobre assuntos jurídicos e financeiros e
sobre procedimentos de divórcio. Ao explicar a lei e os procedimentos jurídicos, é
importante usar uma linguagem de todos os dias em vez de terminologia jurídica, e
evitar prestar muitos pormenores. Os mediadores não devem expressar opiniões nem
pareceres sobre posições. Se for preciso aconselhamento jurídico, as partes devem ser
aconselhadas a consultar o seu conselheiro jurídico e ajudadas a identificar os assuntos
que lhe devem apresentar. A experiência e o conhecimento do mediador constituem
um recurso importante para as partes, por as ajudar a definir problemas relevantes de
serem apresentados a consultores jurídicos ou financeiros.
O aconselhamento jurídico deve ser prestado antes da mediação começar?
Não é preciso que ambas as partes tenham obtido aconselhamento jurídico antes
de se iniciar a mediação. Normalmente é-lhes sugerido obterem esse
aconselhamento no decurso da mediação e quase sempre na sua fase final, excepto
evidentemente nos casos em que houver uma reconciliação ou uma decisão de
procurar tal aconselhamento. Alguns casais recorrem à mediação com a esperança
de evitar advogados. Os mediadores devem explicar que um parecer jurídico
independente é indispensável para se ter a certeza de que ambas as partes chegam
a decisões totalmente informadas, antes de entrarem num acordo que se pode vir a
tornar obrigatório dum ponto de vista legal. Aqueles que ainda não recorreram a
aconselhamento legal poderão obter uma lista de consultores jurídicos nas suas
áreas com experiência em trabalho de índole familiar e que conhecem o processo
de mediação. Um número considerável de casais recorre à mediação numa fase
inicial da separação, sem nenhum aconselhamento jurídico. Podem ter medo de ser
ainda mais afastados se recorrerem a advogados diferentes, e esperam que a
mediação lhes evite ou reduza os custos legais. Alguns participantes obtiveram
aconselhamento jurídico preliminar e decidiram recorrer à mediação por terem
ouvido falar dela pelo seu advogado. Muitos casais em Inglaterra e no País de Gales
são orientados para a mediação pelos seus consultores jurídicos ou pelo tribunal.
Os advogados são intermediários que têm uma influência considerável sobre o
momento oportuno de recurso dos seus clientes à mediação e sobre a sua decisão de
continuar na mediação. É muito importante que existam boas relações entre os
mediadores e os consultores jurídicos. É de boa política que os mediadores enviem
uma carta de cortesia aos consultores jurídicos, agradecendo o envio do caso ou
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explicando que o seu cliente solicitou mediação. A carta deve explicar que o seu
cliente se sentirá encorajado a procurar aconselhamento jurídico acerca de quaisquer
propostas que resultem da mediação, ou ainda sobre quaisquer assuntos relevantes.
Tarefas e experiência nas fases iniciais da mediação
Tarefas Exemplo de utilização Objectivos
Criar uma atmosfera de Acolhimento amigável Pôr as pessoas à vontade, 
convívio positiva permitindo-lhes dessa maneira 
entrarem em diálogo
Explicar, informar “Posso explicar-vos como é Ajudar as pessoas a atingir 
que posso ajudar os dois a decisões em perfeito conhecimento
tratarem deste assunto?” de causa e evitar serem forçadas 
a aceitar um acordo
Perguntar Escolher a maneira de perguntar, Perceber melhor as questões a 
“como?”. “O quê?”, “se?” etc. debater, concentrar a atenção em 
vias para avançar
Ouvir Contacto visual do mediador, Mostrar que se está a dar completa 
expressão facial, postura, atenção ao que está a ser dito 
tom de voz
Compreender “Percebo que achem que Ajudar as pessoas a sentirem que 
é difícil....” estão a ser ouvidas e percebidas
Esclarecer “Poderia dizer mais qualquer Verificar a compreensão e incentivar 
coisa sobre … explicar o que uma explicação mais ampla
é que quer dizer com....”
Gerir um conflito sem “Não se importa de deixar o Controlar as interrupções, equilibrar 
o suprimir Tomás acabar e então a discussão
perguntarei…”
Definir prioridades “Qual é o assunto mais Acordar o ordenamento dos assuntos
importante para si, nesta altura?”
Equilibrar Apresentar questões a cada Gerir desequilíbrios de forças, 
participante, um de cada vez manter imparcialidade
Construir confiança “Pode tranquilizar a Célia Restaurar ou manter suficiente 
de que vai...” confiança de que se pode confiar 
na outra parte 
Controlar o ritmo “Deveríamos gastar mais tempo Trabalhar a um ritmo adequado 
sobre o problema que levantou ara ambas as partes
a propósito de...?”
Resumir “Deveríamos recapitular as Ser claro acerca dos próximos 
coisas de que cada um tem de passos e encorajar os participantes
tratar antes da próxima reunião?” a responsabilizarem-se
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Limitações dum modelo faseado
Ainda que um modelo faseado de mediação seja amplamente aceite, ele tem
também algumas limitações:
• Poderá ser preciso voltar atrás, a uma fase anterior, por exemplo, onde
haja relutância ou hesitação em seguir em frente.
• Por vezes um casal beneficiará dum avanço rápido, quando ambos os
parceiros querem seguir um projecto de acordo antes de considerarem
outras opções possíveis.
• O acordo talvez não seja o principal objectivo das partes. É possível que
existam benefícios mais importantes, como por exemplo, estabelecer ou
restabelecer a comunicação entre elas.
• Os mediadores podem identificar as soluções mais concretas ou
substantivas e evitar as soluções mais difíceis do ponto de vista emocional
ou de relacionamento que actuem como bloqueadoras do progresso.
• Um mediador que segue um modelo faseado pode conduzir o casal numa
direcção que nenhum deles quer. Os medidores podem formular
hipóteses e suposições sobre uma solução desejável e podem tentar
orientar o casal nesse sentido. Pode acontecer que os participantes
tenham necessidades que lhes custe exprimir se o mediador muda
bruscamente duma fase para a seguinte.
• Percorrer apenas parte do caminho é suficiente para alguns casais. Podem
não estar preparados para ir mais à frente. Isto não representa uma
“mediação falhada”.
• As intervenções do mediador afectam tanto o conteúdo como o processo.
Movimento circular em mediação
Alguns casais caminham firmemente para a frente ao encontro duma solução
mutuamente satisfatória. Outros parecem mais inclinados a permanecer no
passado ou mesmo em recuar mais atrás. Podem ficar tão presos à sua relação
falhada que precisam de continuar a repisar as feridas e os danos que sofreram.
É muito mais complexo trabalhar com estes casais, o mediador tem que recorrer
a todos os seus conhecimentos. Se conseguirem dar uns passos em frente, um
susto real ou imaginário ou uma acusação é o suficiente para os atirar outra vez
para trás. Os movimentos para trás e para a frente são muito comuns em
mediação. Estes movimentos não são apenas lineares – muitas vezes são
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circulares, seguem uma pista familiar circular (em ambos os sentidos da palavra).
Verificam-se tendências para as discussões e acusações continuarem a andar à
volta de si próprias sem se chegar a uma saída – o problema da roda da gaiola
onde os ratos correm sem saírem do mesmo sítio. A formação dos mediadores
deve servir para nos habilitar com uma gama de técnicas e estratégias de modo a
que possamos ajudar as partes a sair da sua própria roda de hámster, quando elas
assim o quiserem. O objectivo da mediaçãoconsiste em encorajar os membros da
família a comunicarem uns com os outros, directa e construtivamente, sem
precisarem de intermediário.
Exemplo 1 António e Cristina – a primeira reunião de mediação
Informação prévia prestada nos formulários de orientação
Mulher Cristina, 34 anos Secretária (a tempo parcial)
Marido António, 38 anos Gestor de marketing
Filhos Rebeca, 11 anos
Sofia, 9 anos
Mateus, 6 anos
Cristina e António estiveram casados doze anos. Separaram-se há um mês. Cristina
continua a viver no apartamento familiar com as crianças. António deixou o lar há
um mês e está a viver num apartamento alugado com a companheira Célia. O
apartamento familiar está em nome dos dois e António ainda está a pagar uma
hipoteca. Nem um nem outro possuem reservas ou outros bens significativos.
Razões para recorrerem à mediação
António escreveu no seu formulário de orientação: “É cada vez mais difícil discutir
sobre assuntos económicos e sobre os filhos sem que os nossos sentimentos interfiram”.
Por seu lado, Cristina escreveu no seu formulário: “Preciso saber qual é a
minha situação financeira. As crianças estão perturbadas e aborrecidas por verem
o pai ir e vir”.
Ambos dizem que não têm a certeza de como resolver as coisas porque é difícil
falarem. Os problemas que eles pretendem analisar incluem soluções para os filhos.
Nomeadamente a relação do António com os filhos, pois tem tendência para ir e
vir continuamente, e os filhos nunca sabem quando o voltarão a ver.
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Dificuldades na primeira reunião com Cristina e António
1. A irritação e a aflição de Cristina. Sente-se muito abandonada por
António e não tem a certeza de querer colaborar com ele depois da
maneira como ele a abandonou a ela e aos filhos. Ela tem também a
preocupação de poder não ser capaz de sobreviver financeiramente.
2. A zanga, os sentimentos de culpa e de perda de António, que acusa a
Cristina por alguns dos problemas que levaram à ruptura do casamento.
Receia que ela vire os filhos contra ele, por isso tem uma posição
defensiva e acusa Cristina. 
3. Discussão sobre as crianças. Cada um dos pais tem uma perspectiva
diferente.
4. Célia, a companheira de António. A emoção aumenta sempre que o seu
nome é mencionado.
5. Confusão financeira e ansiedade sobre o pagamento das contas.
6. Cada um dos parceiros está profundamente descontente sobre o que se
passou entre eles. As opiniões sobre quem é o grande responsável estão
misturadas com as preocupações sobre as crianças e os receios sobre o
seu futuro.
As tarefas do mediador na primeira reunião
1. Boas-vindas a ambos – apresentações – uso dos nomes próprios?
2. Verificação de que os princípios básicos da mediação são compreendidos
e aceites, sem fazer uma revisão exaustiva de todos os pontos. Depois de
se certificar de que ambos percebem e aceitam os termos e as condições
da mediação, pede-lhes para assinarem o Termo de Consentimento da
Mediação.
3. Identificação das questões. Mesmo quando o nível de conflitualidade é
elevado há normalmente preocupações comuns. O reconhecimento das
preocupações ajuda a manter a exaltação a um nível tratável. Os
problemas e as questões principais podem ser listadas sob títulos que
sejam semelhantes para ambos os participantes. Isto ajuda a mediação a
começar.
4. É preciso estabelecer uma ordem de trabalhos: o que é que tem de ser
discutido em primeiro lugar? Por que ordem devem as questões ser
abordadas?
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5. Quaisquer assuntos urgentes têm de ser abordados em primeiro lugar.
Pode ser necessária a transferência para outros serviços.
6. Os arranjos financeiros são prioritários para cada um dos pais neste
exemplo. A necessidade de informação financeira é analisada e é dado a
cada uma das partes um formulário financeiro para ser levado para casa
e preenchido.
7. Os últimos quinze minutos, aproximadamente, devem ser reservados
para recapitular e resumir, acordando a data, a hora e o objectivo da
reunião seguinte e para terminar meticulosamente a reunião.
8. Contacto entre as reuniões. Os mediadores devem explicar que
normalmente não aceitam discussões separadas com uma das partes,
tanto pessoal como pelo telefone, fora das reuniões de mediação.
Chamadas telefónicas poderão ser aceites para alterar a data ou a hora
da reunião seguinte, mas se possível alguém que não o mediador deve
receber a chamada.
Exemplo 2 Primeira reunião de mediação com Albano e Rosa
Albano e Rosa estão nos seus cinquenta. São proprietários duma quinta na qual
trabalharam em conjunto. Rosa deixou Albano há dois anos e vive com um novo
parceiro. Têm dois filhos crescidos que trabalham e são independentes do ponto de
vista financeiro.
Na primeira reunião Albano está muito calmo, parece deprimido. O mediador
tem de o manter envolvido na reunião fazendo-lhe perguntas directas, reconhe-
cendo preocupações de ambas as partes e repetindo ou reenquadrando as suas
respostas. Quando são colocadas perguntas genéricas duma forma indirecta, Rosa
responde por ambos e Albano fica calado. Mantém os olhos baixos e não é fácil
estabelecer contacto visual com ele.
Não parece haver questões a curto prazo visto que este casal resolveu muito bem
os seus problemas durante os últimos dois anos. Continuam a ter uma conta
bancária conjunta. À primeira vista os problemas parecem ser basicamente de
natureza financeira, resultantes do divórcio que Rosa pretende obter. Albano está
extremamente relutante em falar de divórcio.
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Dificuldades na primeira reunião com Albano e Rosa
1. Albano está muito afastado. Parece ter-se refugiado atrás duma parede de
dor e de tristeza. Ainda tinha esperanças de que Rosa voltasse para ele.
Pretende adiar o divórcio tanto quanto possível.
2. Rosa está impaciente e frustrada. Acha que assumiu uma atitude discreta
para dar tempo a Albano para aceitar o facto de que ela o tinha deixado.
Ela não pode esperar indefinidamente.
3. Albano receia que a quinta a que ele se sente profundamente ligado e
da qual depende do ponto de vista financeiro tenha de ser vendida se
Rosa insistir numa solução total e final.
4. Rosa está ressentida com o facto de que todo o trabalho que ela realizou
durante muitos anos para aumentar a rentabilidade da quinta seja negado
por Albano. Ela pretende “uma quota justa”.
5. Rosa é dogmática e fala alto. Albano está quase sempre calado. O
mediador observa um episódio em que Rosa ataca verbalmente Albano:
Albano recua ainda mais e Rosa, frustrada pela falta de resposta, ataca
ainda mais veementemente.
6. Rosa tem um novo parceiro. Albano não tem.
Manter o equilíbrio e o controlo enquanto se identificam e esclarecem
as questões
O uso cuidadoso da técnica de questionar ajudou a identificar e a listar as
questões principais, sem que nenhuma das partes tomasse conta ou dominasse a
sessão.
Reconhecimento de preocupações, sentimentos e dificuldades
Os sentimentos têm de ser reconhecidos duma forma explícita … “Vocês os dois
estão-se a sentir muito irritados nesta ocasião” … “É muito difícil fazer face ao
desânimo dos filhos e ao vosso ao mesmo tempo…”. Albano e Rosa encontravam-
se em fases muito diferentes a nível da ruptura. O mediador comentou que o facto
deles não conseguirem sentar-se e conversar entre si dificultava muito a chegada
a decisões consensuais. Ambos concordaram que a falta de comunicação era um
dos principais problemas. A mediação procura facilitar a comunicação directa e
centrada sobre um objectivo positivo.
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Reenquadramento e mutualização
A mutualização diz respeito a ajudas parareduzir a culpabilização. Devem-se
fazer frequentes referências às intenções e aos objectivos partilhados pelos pais.
As disputas a propósito do apoio aos filhos podem ser reequacionadas como
preocupações sobre a segurança futura. As discussões acaloradas sobre questões
financeiras podem tornar-se mais calmas se o mediador sublinhar a necessidade
de procurar caminhos que garantam segurança para ambos os parceiros tanto a
curto como a longo prazo.
Arranjos provisórios
Na reunião com António e Cristina, o mediador pôs o acento tónico sobre os
filhos e sobre questões a curto prazo, fazendo uso duma combinação de per-
guntas, reconhecimentos e reenquadramentos (ver Cap. 4). Era importante
refrear o ritmo da discussão e também manter a atenção nas questões a curto
prazo. O mediador ajudou António e Cristina a encontrarem soluções provisórias
fiáveis para os ajudar a eles e aos filhos durante algumas semanas. As soluções
financeiras a curto prazo foram esclarecidas e registadas por escrito. Isto
proporcionou uma ponte ou plataforma sobre a qual foi possível construir planos
a longo prazo.
Conflito sobre o envolvimento dum novo parceiro
O envolvimento da parceira do António, Célia foi mantido de lado durante a
primeira reunião como uma preocupação secundária. O mediador ajudou António
e Cristina a concentrarem-se sobre a forma em que, como pais, poderiam
tranquilizar e apoiar os filhos a curto prazo. Foi sugerido que poderia haver uma
discussão adicional numa futura reunião sobre o papel de Célia e a extensão do
seu envolvimento com as crianças. Cristina aceitou esta sugestão. 
No caso do exemplo 2, Albano estava incomodado pelo facto de, apesar de
Rosa ter um novo companheiro para a apoiar, ela continuasse a tentar arruiná-lo.
Rosa retorquiu que o seu novo parceiro não a poderia apoiar visto que tinha
entregue todo o seu capital à sua ex-mulher no acerto do divórcio entre ambos.
Albano pareceu ainda mais desolado com esta afirmação. O mediador interveio
para dizer que, qualquer que fosse o acordo a que chegassem Albano e Rosa, o
mesmo teria de ser baseado na plena consideração das suas respectivas
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necessidades e dos seus planos para o futuro. O envolvimento dum novo parceiro
de qualquer uma das partes seria um factor a ter em consideração. Mas, em
primeiro lugar, seria preciso identificar entre outros os seus bens, as suas
responsabilidades financeiras e os seus custos de vida.
O humor não será conveniente?
Normalmente não se pensaria que o humor fosse conveniente, especialmente
no princípio do processo. Contudo é surpreendente a frequência com que, mesmo
quando as pessoas estão deprimidas, aparece uma réstia de humor. Rosa não
parecia ter muito sentido de humor, mas quando Albano sorriu ela ficou
nitidamente menos irritada. O mediador entendeu, ao trabalhar com este casal
muito obstinado, que o recurso ao humor duma maneira muito suave e cuidadosa
era importante para abrir um canal de comunicação mais seguro entre eles.
Manter o compromisso e o ritmo adquiridos
O compromisso de ambas as partes aceitarem a mediação foi conseguido
mediante um acordo sobre os passos seguintes a serem trilhados, tais como a
recolha de informação sobre os meios financeiros para explorar opções possíveis
para ambos. Nos dois casos foram distribuídos formulários financeiros com
discussão dos prazos para o seu preenchimento, discussão dos documentos de
apoio que necessitariam e de quem os forneceria. Foi combinada uma data para
a sua entrega, uns dias antes da data da próxima reunião. O mediador comentou
no fim das duas reuniões que, ainda que o trabalho tivesse sido muito duro e
tenso para ambos os participantes, tinha sido possível percorrer um longo
caminho duma forma muito construtiva. Tinha havido muitas mais explicações e
debates do que teria acontecido por troca de cartas entre consultores jurídicos.
Pode ser também útil verificar se o ritmo da reunião terá sido o adequado para
ambos os participantes.
Horário e duração das sessões
Uma hora e meia é normalmente a duração correcta. Uma hora apenas é
normalmente uma duração muito curta para cobrir o programa inicial. Duas horas
de discussões sobre impostos são demasiadamente longas para o comum das
pessoas, incluindo o mediador. Os mediadores têm de estar extremamente
conscientes do tempo e deveriam ter um relógio no seu campo de visão para
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evitarem olhares furtivos ao seu próprio relógio. Poderá ser necessário chamar a
atenção para o correr do tempo, dizendo: “Vejo que já gastámos metade do tempo
previsto para a nossa reunião de hoje. Acham que deveríamos passar à frente e
tratar de …?” ou “Estou consciente de que já estamos atrasados na reunião de hoje
e por isso sugiro que usemos o último quarto de hora para uma rápida
recapitulação do que tratámos e que vejamos se gostariam de organizar outra
reunião.”. É muito melhor averiguar se ambas as partes querem continuar a
mediação do que considerar isso como um dado adquirido. Se houver dúvidas,
pode-se marcar uma reunião provisoriamente, devendo a decisão ser confirmada
ou anulada por um contacto telefónico que deverá ser feito na data que ficar
escolhida para esse fim. Além de organizar a reunião seguinte, o mediador poderá
ter de tratar de assuntos práticos que digam respeito ao pagamento dos honorários
ou outros serviços, dependendo da forma combinada para pagar a mediação. Seria
insensato perguntar nos últimos cinco minutos: “Há mais qualquer coisa que
gostassem de tratar hoje?”. Deve-se evitar prolongar a sessão, mesmo que isso seja
possível, porque as pessoas precisam de saber a duração da sessão e que o tempo
acordado será respeitado. É muito fácil continuar por mais meia hora, ou mesmo
mais, mas, salvo se houver razões muito fortes para o fazer, há que evitar esses
prolongamentos porque as fronteiras do tempo têm uma importância tanto
simbólica como prática.
Há quase sempre problemas deixados no ar. O mediador pode dizer: “Sim, é
importante que você tenha falado nisso, e parece que o assunto precisa de ser
amplamente discutido, mas infelizmente já não temos tempo hoje para o fazer.
Acham que devemos começar com este ponto na próxima reunião, caso ambos
considerem que ele é prioritário?” ou “Compreendo que hoje não tivemos tempo
para tratar de tudo o que lhe diz respeito. Se houver pontos que ainda não tenha
tido tempo de apresentar, ou de que se venha a lembrar quando estiver em casa,
poderá por favor tomar nota dos mesmos para os poder levantar durante a nossa
próxima reunião?”. Isto ajuda a terminar a sessão sem que as pessoas se sintam
frustradas. Também as anima a reflectir e a continuar o trabalho entre as sessões.
Muitas pessoas vêm para a segunda reunião tendo reflectido imenso. A
atmosfera na segunda reunião é muitas vezes surpreendentemente diferente da
primeira reunião. A data e a hora da sessão seguinte têm de ser acordadas com
ambos os participantes antes deles se retirarem. Um intervalo de duas a três
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semanas é normal. Se houver uma grande quantidade de informação financeira
para recolher, talvez seja necessário prever um mês, para dispor de bastante
tempo. Se, pelo contrário, o casal estiver em crise e se o nível do conflito for
elevado, marcar a reunião para a semana seguinte pode ajudá-los a controlar a
crise. 
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Capítulo VI
CRIANÇAS, ADOLESCENTES E MEDIAÇÃO FAMILIAR
Reacções dos filhos à separação e ao divórcio
O período mais angustiante para os filhos não é normalmente o do divórcio
mas o da separação dos pais. A comunicação entre os pais é quebrada
frequentementequando se separam e os filhos podem não perceber o que se
passa. Ficam confusos e assustados. Filhos pequenos imaginam muitas vezes que
é por sua culpa que um dos pais se foi embora de casa. Alguns estudos mostraram
que só menos de metade dos filhos de casais separados ou divorciados
mantinham contacto com o progenitor com quem não moravam. Metade dessas
crianças nem sequer sabia onde é que esse progenitor – normalmente o pai –
vivia. Por comparação com os filhos de famílias intactas, os filhos que passaram
pela experiência da separação ou do divórcio dos pais eram mais atreitos a ter
problemas de saúde (especialmente de desordens psicossomáticas), precisavam de
mais ajuda extra na escola, tinham mais dificuldade em fazer amigos e a sua auto-
estima era muito reduzida. As consequências a longo prazo da separação e do
divórcio não são inevitavelmente desastrosas para os filhos. O que é mais
importante é a maneira como os pais conduzem a separação e como explicam as
mudanças aos filhos. Os conflitos prolongados entre os pais e a intensidade de
sofrimentos físicos sentidos pelos filhos são factores significativos. Os pais
admitem com frequência que sabem pouco sobre o processo de divórcio e sobre
como organizar as funções paternais no pós-divórcio. Muitos deles estão
conscientes da sua capacidade reduzida para comunicar com os outros e para
tomar decisões sensatas durante as fases iniciais da separação, quando estavam
sob uma grande tensão. Quando pais divorciados são capazes de colaborar um
com o outro para manterem uma paternidade conjunta, a adaptação dos filhos ao
divórcio é muito facilitada.
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Em geral os adultos subestimam a capacidade dos filhos de perceber emoções e
relacionamentos. Os pais que pensam que um filho é muito novo para perceber o que
está a acontecer estão no fundo a procurar protegerem-se a si próprios e não ao filho.
Ainda que as reacções do filho à separação não correspondam necessariamente à sua
idade cronológica, é importante para os que trabalham com os pais terem
conhecimentos do desenvolvimento da criança e do adolescente. Também é
importante procurar compreender a personalidade individual de cada filho e a cultura,
história e circunstâncias familiares. Quando as crianças se debatem e não têm apoio
suficiente, manifestam muitas vezes a sua angústia por actos e não por palavras. A
maneira como mostram os seus sentimentos pode causar dificuldades adicionais
porque o seu comportamento pode ser interpretado de forma diferente por cada
progenitor. Cada um deles pode acusar o outro de ser o causador do problema. O
resumo que se segue lista as reacções comuns das crianças conforme um estudo feito
na Califórnia. Wallesrtein e Kelly (1980) realizaram esse estudo em sessenta famílias
em vias de divórcio. Havia 131 crianças no grupo em estudo, que foram observadas
durante um período de cinco anos. Este grupo de estudo não era representativo de
famílias divorciadas em geral e nem todas as crianças mostraram estas reacções. Uma
grande parte depende da forma como cada pai gere a separação e da forma como os
pais a conduzem no que diz respeito aos filhos.
Crianças em idade pré-escolar: 2 a 5 anos de idade
• Confusão, ansiedade e medo: as crianças estão muito confusas e
inseguras sobre as mudanças na sua vida de família, porque os seus
próprios pais estão frequentemente inseguros sobre como explicar a
crianças desta idade o que está a acontecer.
• Fortes fantasias de reconciliação: as crianças agarram-se à esperança que
os seus pais vão voltar a estar juntos outra vez e inventam fantasias para
se confortarem a si próprias
• Aumento da agressividade: a ira das crianças provém muitas vezes dos
seus sentimentos de perda e rejeição. O seu sentimento de perda quando
um dos pais desaparece das suas vidas, muitas vezes de forma
inexplicável, pode conduzir a um comportamento agressivo para com
irmãos, pais e na escola. O progenitor que permanece pode estar tão
preocupado que a criança também recebe menos atenção por parte dele,
aumentando assim o seu sentimento de perda e rejeição.
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• Sentimentos de culpa: as crianças por vezes imaginam que devem ter culpa
por os seus pais não se darem um com o outro. Podem convencer-se de
que a sua maldade foi a razão para um dos pais as ter deixado.
• Regressão: as crianças podem manifestar a sua ansiedade e insegurança
por recaídas na prática da higiene, voltando a urinar na cama, e
mostrando um comportamento mais possessivo.
• Medos acrescidos – por exemplo, do escuro – ou manifestação de
problemas alimentares. Pais que já estejam cansados podem achar estes
problemas de comportamento muito difíceis de perceber e tolerar.
Ensino primário: 5 a 7 anos de idade
• Tristeza e aflição: podem estar relacionadas com a confusão que
aconteceu em sua casa, embora hajam crianças que estão profundamente
tristes mesmo quando os pais não o estão.
• Saudades de um progenitor ausente: dor semelhante à causada pela
morte de um dos pais, mas com sentimentos de rejeição mais fortes.
• Sentimentos de abandono e medo: a criança tem por vezes receio de ser
esquecida e de perder também o progenitor que ficou.
• Raiva: as crianças muitas vezes manifestam raiva pelo progenitor que é
em sua opinião responsável pela ruptura.
• Conflito de lealdade: a criança sente-se apanhada entre os pais e não
sabe como pode ser leal com ambos.
• Receio da incapacidade dos pais para se adaptarem: quanto mais a
criança sentir que os pais têm dificuldades para fazer frente à separação,
mais a criança fica receosa de que o progenitor em quem confia já não
venha a ser capaz de cuidar dela.
• Fantasias de reconciliação.
Ensino preparatório: 8 a 12 anos de idade
• As crianças nesta faixa etária conhecem melhor as causas e consequências
do divórcio e é natural que tomem partido nos conflitos dos pais.
• Sentimentos profundos de perda, rejeição, abandono e solidão.
• Sentimentos de vergonha, indignação moral e ofensa em relação ao
comportamento dos pais.
• Irritação extrema, acessos de nervos, comportamento exigente.
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• Receios, fobias e recusas.
• Crescentes queixas do foro psicossomático: dores de cabeça, dores de
estômago, insónias.
• Fazer juízos: identificar um dos pais como o progenitor bom e o outro
como o progenitor mau: rejeição do “progenitor mau”.
• Aliar-se a um dos pais – não necessariamente àquele a que é mais chegado.
• Auto-estima diminuída: a criança pode ter dificuldade em se concentrar
na escola e começar a ter um rendimento escolar inferior.
• Expressão pública: algumas crianças, especialmente rapazes, expressam
de forma mais exagerada o seu mal-estar e podem vir a envolver-se em
comportamentos de delinquência.
Adolescentes: 13 a 18 anos de idade
• Perda da infância: os filhos mais crescidos podem estar sobrecarregados
com a acrescida responsabilidade para com os irmãos mais novos e pelas
solicitações dum dos pais mais emocionalmente dependente.
• Pressão para fazer escolhas: alguns pais esperam que os filhos mais
crescidos tomem a sua própria decisão sobre as visitas ao outro progenitor
ou sobre com qual dos pais viver.
• Conflito entre a vontade de visitar um dos pais ausente e a vontade de
não falhar encontros com o seu grupo de amigos.
• Receios do foro monetário: melindrados por poderem vir a receber
menos do que os seus amigos, pressão sobre os pais para os compensar
pelo divórcio dando-lhes mais do ponto de vista material.
• Consciência acrescida e desconforto sobre o comportamento sexual dos
pais e do envolvimento deles com novos parceiros.
• Ciúmes do novo parceiro dum dos pais.• Receio de criar relações de longa duração e de confiar nas pessoas.
• Depressão: afastamento, recusa de comunicação.
• Delinquência: roubo, consumo de drogas. 
Jovens adultos: mais de 18 anos de idade
Muitas vezes os jovens adultos ficam de fora das discussões, na presunção de
que já são financeiramente independentes e menos afectados pela separação dos
pais do que ficariam os filhos mais novos. Qualquer destas suposições pode ser
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falsa. Os filhos estudantes em cursos superiores ainda precisam dum lar para se
apoiarem e podem ainda depender financeiramente dos pais. Igualmente
importante é que muitos filhos mais velhos preocupam-se imenso com os pais e
alguns estão profundamente envolvidos dum ponto de vista emocional nos
problemas parentais.
Alguns pais dependem fortemente dos filhos mais velhos – e também dos mais
novos – para apoio emocional e para ajuda prática. Os papéis dos pais estão por
vezes invertidos. Um filho pode aceitar conscientemente a responsabilidade de
tomar conta de um dos pais que não está bem ou que está incapaz de funcionar
correctamente. Cuidar dum pai emocionalmente dependente é uma carga enorme
para um filho. Pode ser muito difícil para filhos sensíveis e conscientes libertarem-
se deste encargo e continuarem a viver as suas próprias vidas.
Necessidades dos filhos durante a separação e o divórcio
• Ajuda para perceberem o que está a acontecer, com explicações
adequadas de acordo com a sua idade e compreensão, e garantia de que
continuarão a ser amados e de que continuarão a tomar conta deles.
• Manter as suas ligações e relacionamentos com ambos os pais e com
outras pessoas importantes nas suas vidas.
• Garantia de que não são de modo algum responsáveis pela ruptura.
• Permissão emocional de cada um dos pais para continuar a amar o outro
pai.
• A menos que haja contra-indicações envolvendo riscos ou perigos
imediatos para os filhos, manter contactos regulares e seguros com o
progenitor que abandonou o lar, incluindo noites inteiras e feriados.
Muitos trabalhos de pesquisa mostraram como é importante para os filhos
continuarem a ter dois pais que se preocupam com eles e que são
capazes de colaborar um com o outro quando os filhos estão em causa.
• Quando o seu mundo familiar está em mudança, os filhos beneficiam de
atenção e carinho extra, em especial à hora de irem para a cama.
• Se possível, os filhos devem permanecer em ambientes familiares. Ainda
que uma mudança seja frequentemente inevitável e por vezes bem-vinda,
a maior parte das crianças está tão agarrada à casa como aos pais. A
perturbação causada pela mudança de casa e pela mudança de escola
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aumenta a sua confusão e tensão e faz parte da perda que sentem.
• Os filhos são ajudados se a sua própria rotina diária for mantida tanto
quanto possível – tanto na escola como no lar.
• Apoio económico, evitando se possível uma queda brusca do estilo de
vida.
• Pais que possam tomar medidas e fazer esquemas cuidadosos sem
envolverem demasiadamente os filhos ou sem os usarem para apoio
emocional.
• Saber que cada um dos pais é ainda capaz de reagir, mesmo que já não
vivam em conjunto.
• Pais que ainda podem brincar e divertir-se com eles.
Os filhos têm que passar por processos psicológicas complexas para se ajustarem
à separação e divórcio dos pais. Wallerstein (1983) definiu assim essas tarefas:
1. Reconhecerem a ruptura na relação dos pais.
2. Desligarem-se do conflito e do desânimo dos pais e retomarem as suas
actividades habituais.
3. Adaptarem-se à perda.
4. Resolverem os seus próprios sentimentos de angústia e de auto-
culpabilização.
5. Aceitarem a continuidade da separação ou do divórcio.
6. Alcançar esperanças realistas de relações dignas de confiança.
Reformar a lei – da simples custódia à responsabilidade paternal conjunta
No passado era costume tratar os filhos como propriedade dos pais. As leis do
divórcio em muitos países autorizavam os pais a olhar para os filhos como coisa
sua que poderia ser alvo de disputa e ganho ou perda na altura do divórcio.
Tradicionalmente os advogados eram preparados para um sistema de confronto
no qual os casais em vias de divórcio eram tratados como adversários e
antagonistas. Este sistema contribuía para acentuar e prolongar as disputas de
paternidade exactamente na altura em que os filhos mais precisavam da
colaboração e apoio por parte dos pais.
No Children Act (Inglaterra e País de Gales) de 1989, e no Children Act
(Escócia) de 1995, foi abolido o termo “custódia” e introduzido o termo
154
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“responsabilidade parental”. O divórcio não significa o fim da responsabilidade
parental para com os filhos. O Children Act estimula os pais a porem-se de acordo
sobre as suas soluções para os filhos e desencoraja-os a deixar a responsabilidade
dessa decisão para o tribunal. A filosofia da não-intervenção do tribunal, excepto
nos casos em que os pais se mostrem incapazes de chegarem a um acordo ou
quando assim o exija o bem-estar do filho, está em perfeita harmonia com o
princípio de capacitação dos pais na mediação.
Os princípios básicos da Children Act de 1989 são:
• O bem-estar do filho é soberano
• Os pais têm responsabilidades para com os filhos e não direitos
• A responsabilidade parental não termina com o divórcio, continua
• Os pais devem pôr-se de acordo tanto quanto possível sobre as suas
decisões respeitantes aos filhos
• O tribunal só deve emitir uma ordem a respeito duma criança se
considerar que essa ordem é melhor para a criança do que nenhuma 
• As ordens que o tribunal pode dar são limitadas. Há cinco espécies de
ordens que podem ser emitidas: residência, contacto, questões
específicas, proibições e assistência familiar
• Quando emite uma ordem a respeito duma criança, o tribunal deve tomar
em especial consideração uma lista de factores (“checklist”). O primeiro
factor refere “os desejos e os sentimentos claramente expressos pela criança
em causa (considerados à luz da sua idade e do seu entendimento)”
Paternidade partilhada e diversidade cultural
É importante não impor expectativas de co-paternidade a todas as famílias, sem
ter em conta a sua cultura. Nalgumas culturas os filhos são criados pela família
alargada e não pelos pais. As crianças que crescem numa família monoparental
podem nunca ter experimentado viver numa família com os dois pais. Podem estar
isoladas de outras crianças e habituadas a serem cuidadas por diversas pessoas,
nem sempre as mesmas – um dos pais, o novo parceiro dum dos pais ou uma
sucessão de parceiros, uma ama. O seu pai natural pode ter desaparecido antes
delas terem nascido. As famílias em que existe apenas um dos pais e que são
dirigidas pelo pai propriamente dito são hoje mais correntes do que era costume.
Muitos pais (homens) estão hoje envolvidos activamente na criação dos filhos.
155
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Será que a paternidade partilhada significa que os filhos passam o
mesmo tempo com cada um dos pais?
O princípio de que, no seguimento da separação dos pais, os filhos deveriam
ter duas casas iguais e dividir equitativamente o tempo entre os seus pais é
controverso. Alguns pais acreditam que a paternidade deveria ser igual em todos
os aspectos, incluindo tempo que os filhos passam com cada um deles. É assim
que algumas crianças passam alternadamente semanas ou partes da semana com
cada um dos pais. Alguns pais fazem turnos para viver na casa da família com os
filhos, ainda que esta seja uma solução temporária. O envolvimento continuado
de ambos os pais é extremamente importante, mas o exercício da paternidadeem
igualdade pode ter como consequência os filhos serem trocados entre os pais com
tanta frequência que não têm tempo de assentar em parte nenhuma.
Os mediadores ajudam os pais a considerar o que significam os seus planos na
prática e os possíveis benefícios e dificuldades para os filhos. Os filhos têm um
sentido muito apurado de equidade e querem ser justos com ambos os pais.
Alguns filhos irão ao ponto de sacrificar as suas próprias necessidades para serem
leais com os dois pais. Podem aceitar acordos para deixarem os pais felizes.
Quando os filhos mudam frequentemente entre duas casas, beneficiam dum
contacto continuado com ambos os pais. Contudo, soluções que funcionam bem
numa dada fase podem ter de ser alteradas à medida que os filhos crescem.
Alguns filhos querem passar mais tempo com um dos pais numa determinada fase
do seu desenvolvimento, mas receiam magoar o outro progenitor se o disserem.
As perguntas circulares são especialmente úteis quando se pede aos pais para se
porem no lugar dos filhos, sem que o mediador exprima opiniões ou dê parecer.
Os pais julgam muitas vezes que as necessidades e os sentimentos dos filhos
coincidem com os seus próprios, mas pode não ser bem assim. Filhos que mudam
com muita frequência da casa de um dos pais para a do outro podem
desempenhar um bom papel na condição de:
• Os pais saberem exactamente quem é responsável pelo quê e permite
estabelecer uma boa colaboração e comunicação entre eles.
• Os pais dentro duma estrutura clara são flexíveis.
• O tempo de deslocação não ser muito longo nem muito cansativo para a
criança.
• O filho não estar preocupado em ser equitativo com ambos os pais.
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• Os aspectos práticos estarem decididos: ter duplicados de diversos artigos
essenciais em cada casa evita que o filho tenha que levar sempre tudo
dum lado para o outro.
• As amizades e as actividades do filho serem respeitadas – isto é tanto
mais importante quanto mais o filho cresce.
• Os pais estarem atentos ao filho e perceberem quando for altura de
ajustar os acordos vigentes.
Para muitos pais é impossível partilhar os cuidados com os filhos de igual
modo por causa do seu trabalho, das facilidades de alojamento, dos custos de
transporte, e do tempo e dos custos de comunicações frequentes entre duas casas.
Quando os pais vivem muito longe um do outro, pode até acontecer que seja em
países diferentes, a partilha da paternidade pode implicar para os filhos terem de
gastar muito tempo longe dum dos ambientes familiares e serem obrigados a usar
uma língua diferente. A idade do filho, o temperamento e a capacidade de
recuperação precisam de ser considerados cuidadosamente se o filho tiver de fazer
muitas mudanças entre ambientes diversos.
Ajudar os pais a elaborarem planos de exercício de paternidade em mediação
A mediação familiar proporciona um fórum em que os pais podem discutir os
sentimentos e necessidades dos filhos duma maneira construtiva e planear
soluções de paternidade. Os mediadores familiares podem ajudar os pais a:
• Tratar individualmente cada filho 
• Aumentar a sua colaboração e reduzir os conflitos acerca dos filhos
• Aceitar a continuidade da intervenção de cada um nas vidas dos filhos
• Ter em consideração diversas áreas da responsabilidade paternal e ver até
que ponto estas ou podem ser compartilhadas ou devem ser confiadas a
um único progenitor
• Encontrar soluções que libertem os filhos de conflitos de lealdade ou de
outras pressões
• Calcular as necessidades financeiras dos filhos e assumirem esses
compromissos
• Analisar como é que tencionam falar com os filhos e explicar-lhes novas
soluções
• Conhecer melhor o que os filhos podem estar a sentir
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• Analisar se as crianças e os jovens devem estar directamente envolvidos
na mediação, de modo a que se possa tomar em consideração os seus
pontos de vista e os seus sentimentos sem lhes atribuir qualquer
responsabilidade pelas decisões
Os pais estão muitas vezes de acordo sobre as necessidades básicas das
crianças, tais como as de amor e segurança, mesmo se estão em desacordo sobre
os arranjos inerentes à paternidade. Por seu lado, os mediadores procuram os
princípios básicos do acordo. As diferenças podem ser então vistas em
perspectiva e duma maneira mais positiva. Muitos pais concordam que os filhos
precisam:
• De ser amados
• Que cuidem deles, tanto física como emocionalmente
• De ter a certeza de que têm pais que tomam conta deles, mesmo que
tenham deixado de viver juntos
• De ser capazes de manter boas relações com ambos os pais, sem que
sintam conflitos de lealdade
• De manter relações com outros membros da família e com pessoas
importantes nas suas vidas
• De ter tanta estabilidade quanto possível
• De ter pais que possam tomar decisões e definir limites seguros, mesmo
que as regras não sejam as mesmas nas casas de cada um dos pais
• De ter pais que estejam activamente envolvidos e mostrem interesse
• De ter oportunidades de manifestar as suas ideias e de desenvolver novos
interesses
• De se desenvolverem como indivíduos, sem estarem demasiadamente
preocupados com os pais
Os mediadores ajudam os pais a elaborarem planos que definem como
partilhar as responsabilidades paternais conjuntas e como as aplicar na prática. Se
houver acordo nalguma forma de paternidade conjunta, existe uma plataforma
sobre a qual construir uma estrutura de paternidade após-separação. Um plano de
paternidade cobre normalmente:
• Cuidados com a saúde – controlos médicos e dentários, cuidados durante
a doença
158
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• Educação – escolha da escola, assuntos escolares, trabalhos de casa,
reuniões e eventos na escola
• Educação religiosa
• Feriados, festivais e aniversários – presentes, festas, saídas
• Desporto e actividades lúdicas
• Comunicação – transmissão de informação sobre os filhos, revisão e
alteração de combinações quando necessário
• Contactos com outros membros da família
• Disciplina – regras e limites, respeito pelas regras do outro progenitor,
acordo sobre se mais alguém tem qualquer autoridade sobre o filho 
• Responsabilidade pela segurança e desenvolvimento do filho – educação
sexual, ensino sobre drogas
• Emergências – contacto com o outro progenitor
Os pais nem sempre pensaram em todos estes aspectos. Podem apreciar
receber uma lista dos diversos pontos a considerar e alguma sugestão do mediador,
como por exemplo “Pensou acerca de …?” ou “O que acontece quando …?”. O
mediador também pode ajudar esclarecendo os limites duma maneira muito literal.
Por exemplo, quando um dos pais traz os filhos duma ou para uma visita, deve
deixá-los no limiar da porta ou deve esse progenitor entrar durante uns curtos
momentos para facilitar a transferência? Se os pais tiverem discutido como é que
vão ajudar os filhos a movimentarem-se entre eles, podem dar-lhes um melhor
apoio emocional e evitar cenas aborrecidas em frente dos filhos.
Incluir indirectamente os filhos na mediação
Os pais têm tantos problemas para tratar quando se separam que não lhes é
fácil reflectirem sobre a experiência que os filhos estão a viver Um dos aspectos
mais valiosos da mediação apontado pelos pais é que os leva a olharem para os
filhos como indivíduos e a considerarem os seus sentimentos e necessidades em
paralelo com os seus próprios. Os pais apreciam a ajuda para concentrarem a
atenção nos filhos. Apreciam igualmente o futuro objectivo da mediação que põe
em relevo as suas contínuas preocupações como pais e que estabelece uma
diferença entre estas e a irritação e as ofensas que muitas vezes sentem em relação
ao parceiro.159
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Pedir aos pais um retrato de cada filho
Os pais têm tendência para apresentarem versões diferentes dos acontecimentos
com o fim de justificarem o seu próprio ponto de vista. Uma maneira construtiva
de começar, evitando argumentos que não vêm a propósito, consiste em convidar
cada um dos pais a descrever cada filho, de modo a que a criança constitua mais
qualquer coisa do que um simples nome para o mediador. Os pais sentem-se
orgulhosos dos seus filhos e normalmente gostam de falar deles. A descrição dos
interesses e da personalidade de cada filho, com ambos os pais a completarem
pormenores, ajuda-os a encararem cada filho como um indivíduo. O mediador
pode auxiliá-los a concentrarem-se nesse retrato, sem se desviarem em ataques ao
outro progenitor. Essa atitude serve ainda outros objectivos:
• Partilhar informações sobre os filhos. Frequentemente o pai que está
envolvido no cuidado diário dos filhos sabe mais do que o outro. Pedir-lhe
para começar a traçar o quadro pode ser uma maneira de actualizar o
outro, que está menos informado.
• Ver até que ponto os pais estão de acordo ou em desacordo sobre a
personalidade, o temperamento e as ligações do filho. Muitas vezes
verifica-se um acordo em larga medida, mesmo entre pais que se
encontram em conflito sobre os esquemas de exercício da paternidade.
As áreas de acordo podem ser realçadas e usadas na fase seguinte dos
trabalhos. Muitos pais ficam surpreendidos ao reconhecer como estão tão
perto dum acordo
• Facilitar a comunicação duma maneira positiva, levando os pais a falar
sobre os interesses que partilham e que não são motivo de aborrecimento
nem de controvérsia.
• Estabelecer regras básicas, tornando claro que o mediador questionará
cada um dos pais e que lhe dará o tempo suficiente para ouvir e
responder, sem interrupções.
• Quando o conflito está muito aceso, os mediadores podem controlá-lo
formulando perguntas que criem uma estrutura clara e firme.
A recolha de informação sobre os filhos pode implicar fazer perguntas sobre:
• A personalidade e o temperamento da criança
• O nível de desenvolvimento da criança – físico, emocional, intelectual
• Como é que a criança se comporta na escola – trabalho escolar e amigos
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• Como é que a criança se entende com os seus irmãos e irmãs
• A saúde da criança
• Os interesses e as actividades da criança
• Quaisquer necessidades ou dificuldades especiais
• Como é que os pais sabem que a criança está feliz
• Como é que sabem que a criança está aborrecida e como reagem
Muitos pais que recorrem à mediação estão genuinamente preocupados com
os seus filhos e fortemente motivados para colaborarem. Mesmo que discordem,
a atmosfera fica mais aliviada quando se está a procurar traçar um esboço de cada
filho. Os pais sorriem frequentemente e olham um para o outro com à-vontade.
Torna-se então mais fácil voltar a questões mais controversas sobre acordos
correntes e futuros. Num caso em que os pais não se falavam e se encontravam
em litígio sobre com qual deles deveriam viver os seus dois filhos, foi visível o
abrandamento entre eles à medida que falavam sobre os rapazes e sobre a
personalidade e as actividades de cada um.
Questões centradas no presente
Normalmente é necessário fazer perguntas sobre os acordos em curso afim de
perceber o que está de facto a acontecer. Se os pais já estiverem separados,
quantas vezes há actualmente contacto entre eles? Qual é o modelo habitual?
Como é que cada um deles pensa que o modelo está a funcionar? É importante
fazer perguntas sobre as relações dos filhos uns com os outros … como é que isso
está a andar? … Quem é que está mais perto de quem? … E com outros membros
da família? Os avós muitas vezes representam um porto seguro para crianças cujos
pais estão em vias de separação. Há outros parentes que vivam nas proximidades?
Há mais alguém que seja especialmente importante para algum dos filhos?
A maneira como os pais respondem a estas perguntas, bem como o conteúdo
das suas respostas, mostram ao mediador como é que comunicam e se conseguem
ouvir-se um ao outro. Na crise actual, até onde podem os pais ir para se
concentrarem nos seus filhos como indivíduos e separar as necessidades deles das
suas próprias? Isto é especialmente difícil quando só há um filho. Às vezes é
duvidoso se a preocupação principal dum dos progenitores é realmente acerca
dos filhos. Pode haver um objectivo escondido, como por exemplo ficar com a
161
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casa da família. Os mediadores precisam de usar todas as suas observações –
verbais e não verbais – ao formularem perguntas adicionais.
Questões centradas no passado
Ainda que os mediadores estejam orientados para o futuro, é por vezes útil, ao
discutir acordos para os filhos, perceber como eram tratados antes de os pais se
terem separado. É útil perguntar se os pais partilhavam ou não o exercício do
poder paternal.
Exemplos de questões centradas no passado:
• Quando viviam juntos, quem é que tomava conta dos filhos a maior parte
do tempo?
• Quem é que deitava normalmente os filhos e se levantava para os ver
durante a noite?
• Quando começaram a ir para a escola ou para o infantário? Quem é que
os levava e trazia?
• Se ambos os pais trabalhavam profissionalmente: Quem é que ficava em
casa se um dos filhos estivesse doente?
• Quem levava os filhos ao médico ou ao dentista?
• Estavam de acordo sobre a maneira de disciplinar os filhos?
• Quem é que ia às reuniões com os professores e ajudava nos trabalhos
de casa?
• Quem é que comprava a roupa das crianças, os brinquedos e os
presentes de aniversário?
• A religião era um tema importante na educação dos filhos?
• As decisões sobre os filhos eram geralmente analisadas, deixadas para um
dos pais ou alvo de conflitos?
• Os filhos davam-se normalmente bem com ambos antes da separação?
Este tipo de perguntas ajuda a perceber os modelos anteriores de paternidade
e de relacionamento. Não se deve contudo assumir que o que funcionava ou não
funcionava antes da separação deva formar automaticamente a base do que
deverá funcionar no futuro. O alvo consiste em averiguar se a paternidade
partilhada era possível anteriormente de modo a que se possam fazer agora planos
realistas. É útil perguntar aos pais se eles eram capazes de tomar decisões em
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conjunto sobre a educação, a saúde e a religião das crianças. Estas áreas de
responsabilidade paternal são distintas das decisões dos problemas do dia-a-dia,
como por exemplo a roupa e o corte de cabelo (esta aliás uma questão emotiva),
e a maneira como esse tempo pode ser dividido entre os pais.
Usar o expositor de dados, desenhar um ecograma
Um expositor de dados é muito útil para salientar questões-chave, pondo em
evidência um objectivo comum e as prioridades. A elaboração duma lista das questões
e das opções dos pais permite mostrar as áreas da responsabilidade paternal sobre as
quais já existe acordo, tais como residência, escola e cuidados de saúde, e aquelas
sobre as quais ainda não há acordo, por exemplo modos de contacto e apoio
financeiro. Pode ser muito útil desenhar um calendário no expositor mostrando um
período de quatro semanas (ou outro), com cada dia dividido em manhã e tarde, e
convidar os pais a explicar as combinações em curso ou aquelas que têm em vista.
Marcar esses dados no expositor, possivelmente com cores diferentes, ajuda a mostrar
quanto tempo os filhos estão ou podem estar com cada um dos pais. O contraste entre
dois sábados com o pai, e vinte seis dias com a mãe, é mostrado com muito mais
clareza num expositorde dados do que numa discussão.
Questões centradas no futuro, questões hipotéticas
Os mediadores usam frequentemente questões hipotéticas e centradas no futuro
(ver Cap. 4) e podem sugerir que os pais pensem sobre elas entre uma sessão e a
seguinte:
• Se os filhos forem viver consigo (mãe) ou consigo (pai), quanto tempo é
que pensa que eles devem passar com o outro?
• Independentemente dos filhos terem uma casa principal ou se
deslocarem entre duas casas, que papel quer cada um de vocês assumir
na sua educação e desenvolvimento geral – o que é que vê como ponto
forte e contributo particular, como pai/mãe?
• Segundo o seu modo de ver, de que maneira poderia o outro progenitor
desempenhar um papel na educação dos filhos? Que apoio esperaria dele?
• Há algumas questões fundamentais – tais como saúde, educação, religião
– sobre as quais estaria de acordo para consultar o outro quando
necessário?
• Que tipos de informação sobre os filhos esperam partilhar um com o outro?
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Construir acordos gradualmente
Os pais que estão em conflito acerca dos filhos podem ser capazes de aceitar
soluções a curto prazo, experimentais ou graduais, durante períodos de tempo
definidos. Acordos temporários podem ser aceites na base de que não são
permanentes, de que os pais voltarão a outra reunião para rever como é que essas
soluções estão a funcionar e para analisar modificações, se necessário. Os
mediadores precisam contudo de ser cuidadosos ao permitirem a um dos pais
fazer o ponto da situação ou a autorizar um dos pais a usar o atraso para ganhar
uma vantagem pessoal.
Controlo do tempo e estrutura em mediação respeitante aos filhos
Os mediadores precisam de manter a sua atenção nas questões e o seu olhar no
relógio. As discussões sobre crianças podem levar imenso tempo e a mediação não
é uma terapia. As questões e os comentários precisam de ser focados e o ritmo da
discussão precisa de ser gerido. Se a prioridade for o próximo fim-de-semana, é
importante dar tempo para tratar disso, em vez de embarcar numa discussão sem
fim que não deixa tempo para escolher as opções do próximo fim-de-semana. É
preciso sensatez e inteligência para decidir até onde se podem fazer perguntas sobre
os filhos, e em que fase. Pode ser útil reconhecer os conflitos e as preocupações,
mantendo a focagem sobre o presente e o futuro. “Então estão os dois preocupados
em chegar a acordo em relação a … (nome dos filhos), de modo a ajudá-los a gerir
estas mudanças tão bem quanto possível?”. Há perguntas a propósito do que cada
um dos pais disse – ou alegadamente disse – aos filhos, que são por vezes altamente
sensíveis, e talvez constituam um assunto para retomar noutra reunião, depois do
mediador os ter ajudado a definir algumas soluções. “Falaram juntos com os filhos,
ou falaram separadamente?” ou “Disseram aos filhos que estão a vir à mediação?”.
Os filhos ficam mais tranquilos ao saber que os pais se estão a encontrar e a
trabalhar para chegar a soluções. Muitas crianças são capazes de perceber a ideia da
mediação e mesmo crianças pequenas podem perceber a necessidade de recorrer a
uma pessoa que não toma partido.
Quando os pais exprimem receios sobre um filho é importante estabelecer o
nível de preocupação e de urgência. Se se deve dar a prioridade à preocupação
durante a reunião seguinte, podem-se colocar perguntas antecipadamente aos
pais, para os ajudar a centrar a atenção neste aspecto e a considerar possíveis
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caminhos para resolver o problema. Se houver urgência, então é evidente que se
deve dar prioridade imediata. Pode ser necessário ter de recorrer a outro serviço
para ajuda médica, terapêutica ou outra, e os pais talvez precisem de dispor de
informação sobre os serviços disponíveis. 
Crianças em risco ou consideradas em risco pelo mediador
Se um dos pais manifesta preocupação de que um filho está ou pode estar em
risco, é evidente que essa hipótese deve ser explorada imediatamente para
esclarecer as bases de tal receio. Tratar-se-á duma preocupação relacionada com
o litígio entre os pais? Que conselho algum deles já procurou ou que medidas
foram já tomadas? Que medidas devem ser tomadas agora? Deverá o mediador
contactar uma entidade adequada para proteger a criança dum perigo real?
Referências utilizadas por mediadores familiares para falar sobre os filhos
Os mediadores usam uma série de questões de referência, nomeadamente:
• Aptidões para interrogatório, em especial questões circulares (ver Cap. 4)
• Reconhecimento e mutualização – “os dois preocupam-se demasiado com
os filhos”
• Normalização – “muitas crianças mostram sinais de…”, “é normal para
as crianças fazerem…”
• Prestar informações – “os tribunais preferem que os pais cheguem a
entendimentos”
• Reenquadrar medidas – “portanto estão ambos à procura de soluções
seguras?”
• Definição de prioridades – “o que pensam que é mais importante para os
vossos filhos de momento?”
• Estruturar – “devemos decidir por que ordem vamos discutir estas questões...”
• Ajuda adicional e informação – “por acaso encontraram estes livros para
crianças?”
Não compete ao mediador dizer aos pais o que é melhor para os seus filhos.
Porém, muitos pais precisam de informação e de orientação sobre a maneira de
ajudar os filhos a enfrentarem a separação. Há livros úteis de auto-ajuda para os
pais, bem como livros para crianças que os pais podem ler com os filhos mais
pequenos, ou que podem dar a um filho mais crescido.
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Encorajar o apoio paternal
Quando os pais se acusam mutuamente das reacções dos filhos, o mediador
pode talvez ser capaz de comentar que isso é normal ou um problema corrente. Em
muitas famílias normais encontram-se crianças que começam a andar e têm acessos
de mau humor, e adolescentes que se fecham em si mesmos. Os pais têm tendência
para se acusarem um ao outro. Em vez de procurar a causa e o efeito, o mediador
pode chegar à conclusão de que os pais precisam de mais ajuda e apoio um do
outro. Muitas vezes os pais são sensíveis a um pedido de ajuda e apoio, quando
compreendem que não estão a ser acusados de serem os causadores do problema.
É importante reconhecer os esforços dos pais e o apoio de que precisam sem sugerir
que estão a falhar em dar resposta às necessidades dos filhos. A crítica, tanto a
aberta como a fechada, aumenta a atitude defensiva e a resistência. Quando os pais
estão constantemente a acusar-se e encontram erros um no outro, as reacções dos
filhos podem ser reforçadas e os pais podem ter de pedir ajuda a especialistas por
terem perdido confiança na sua capacidade de ajudarem os filhos. Uma das
dificuldades consiste no comportamento dos filhos, que pode ser ambíguo e
susceptível de ser interpretado de maneiras diversas. O conflito aumenta quando os
pais interpretam as reacções dos filhos de formas diferentes. Para os ajudar a
perceber que ambos podem ter razão e que podem existir outras explicações
possíveis, os mediadores têm de perceber de que maneira é que os filhos podem
estar a esconder os seus sentimentos ou a exteriorizá-los.
Os papéis e as estratégias dos filhos para enfrentarem os conflitos dos pais
Por vezes os filhos são espectadores passivos sem interferirem nas disputas dos
pais. Porém, quanto mais grave é a disputa, maior a probabilidade de que o filho
esteja envolvido nela. O filho pode ser apanhado num triângulo emocional no
qual os conflitos não resolvidos dos pais são canalizados através da “criança
triangulada”. Os filhos que estão perturbados pela separação dos pais podem
reagir de uma forma que pode parecer uma chamada de atenção ou uma
manipulação. No fundo estecomportamento, que a “estratégia” infantil sugere ser
consciente e premeditado, pode muitas vezes ser uma resposta intuitiva a uma
combinação de necessidades pessoais e de pressões paternas. Os filhos tentam
que as coisas saiam certas segundo as suas próprias necessidades e percepções.
Podem estar também a tentar proteger os pais, bem como a eles próprios. Nestas
circunstâncias os filhos recorrem a um comportamento que pode ser a única
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maneira que encontram para demonstrar necessidades que não conseguem
exprimir em palavras. 
Papéis que os filhos podem desempenhar quando tentam resolver conflitos
entre os pais
Papel do filho Papel do mediador
1 Mensageiro, intermediário. Ajuda os pais a falarem directamente um com o outro, 
em vez de comunicarem através do filho.
2 Reconciliador Ajuda os pais a porem-se de acordo sobre o que deve ser 
(tenta voltar a juntar os pais). explicado; ajuda os pais a discutirem como tranquilizar o filho.
3 Pacificador (diz a cada Ajuda os pais a resolverem os conflitos.
progenitor o que quer ouvir).
4 Aliado aliciado por um dos Ajuda os pais a chegarem a acordos e a resolver conflitos 
pais para dar apoio. para libertar o filho.
5 Responsável pelas decisões. Ajuda os pais a tomarem a responsabilidade por decisões difíceis.
6 Bode expiatório Ajuda os pais a darem tranquilidade e a porem-se de acordo 
(é posto à prova, receia ser sobre os limites necessários, a definirem regras, etc.
abandonado por ambos os pais).
7 Confidente. Ajuda os pais a reflectir sobre como evitar aborrecer o filho.
8 Parceiro substituto (substitui Ajuda os pais a sentirem-se mais seguros de modo a que 
o progenitor que abandonou). dependam menos do filho.
9 Substitui progenitor ou ama Ajuda os pais a sentirem-se mais seguros de modo a que 
(cuida dum dos progenitores dependam menos do filho. Ajuda um ou ambos os 
ou de irmãos mais novos). progenitores a perceberem as necessidades do filho.
10 Juiz (encorajado a acusar Discute com os pais, sem os condenar, sobre como podem 
um dos progenitores). eles ajudar os filhos a compreender a sua situação.
11 Fugitivo Discute riscos e preocupações com os pais. Procura um 
(vadiagem, delinquência). maior envolvimento paternal.
12 Afectado pela família perdida. Ajuda os pais a reconhecer e a participar tanto na angústia 
Mostra desgosto que os pais como na raiva do filho.
reprimem.
Estratégias de reunião; disputas sobre o contacto 
É normal que os filhos, seja qual for a sua idade, esperem que os pais voltem
a juntar-se. O desejo de reunir pais separados é por vezes intenso e de longa
duração. Os filhos desenvolvem frequentemente sintomas físicos associados com
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tensão emotiva. Podem também fantasiar que ambos os pais vão voltar juntos para
cuidar dum filho que está doente.
Exemplo – A Sara, de seis anos de idade, queixava-se de se sentir doente
sempre que era suposto visitar o seu pai.
Interpretação da mãe: as visitas afligem a Sara, em especial porque o seu
ex-marido tem uma nova parceira. É importante para a Sara reduzir as visitas
ou suspendê-las mesmo durante algum tempo.
Interpretação do pai: a sua ex-mulher está a virar a Sara contra ele porque tem
inveja da sua nova namorada. Se a sua ex-mulher está a bloquear a sua relação
com a filha, talvez fosse preferível para a Sara ir viver com ele. A sua namorada
também tem filhos e é uma óptima mãe.
Soluções possíveis se o litígio não se resolver:
i) A Sara pode perder o contacto com o pai; ii) o médico de família, os
professores, o psicólogo da família e os procuradores podem ser todos envolvidos;
iii) pode ser pedido uma avaliação psicológica da criança; iv) se for emitida uma
ordem do tribunal, o contacto pode não funcionar na prática se a Sara continuar a
resistir; v) o litígio sobre contacto pode transformar-se num litígio sobre a residência.
O recurso à mediação pode ajudar os pais a:
• Centrar a atenção na Sara: como é que eles a descrevem? Têm mais filhos?
Se a Sara for a única filha, as pressões sobre ela podem ser
particularmente intensas.
• Esclarecer a situação presente e as questões principais.
• Considerar se e como pode a Sara manter a sua relação com ambos.
• Considerar como é que isto pode ser tratado duma maneira que dê à Sara
tanto apoio e confiança quanto possível. Quais são as opções e as
possibilidades práticas? Será que a Sara precisa de algum tempo sozinha com
o pai? E o que se passa quanto à duração e à frequência das visitas? Se os
pais discutirem quando se encontram, poderia o contacto realizar-se sem que
eles fossem confrontados cara-a-cara? Poderiam os avós ajudar?
• Explorar o que está a perturbar a Sara: poderá ser que ela ame ambos os pais
e não consiga perceber porque razões não conseguem estar juntos? Quem
sabe se ela espera que o pai venha e ajude a mãe a tomar conta dela, de
maneira que possam ir viver todos juntos? Talvez a Sara esteja a proteger
ambos os pais evitando que eles entrem em contacto um com o outro.
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• Um acordo passo-a-passo pode conduzir a um aumento gradual de
contacto de modo a que a Sara não tenha que enfrentar muitas mudanças
ou muitos movimentos demasiado depressa. Isto pode ajudar a tranquilizar
a mãe da Sara sobre a necessidade de lhe dar estabilidade, ao mesmo
tempo que tranquiliza o pai de que as combinações sobre os contactos que
foram aceites representam um passo para um contacto mais flexível.
• Pode a Sara ter a certeza de que a mãe a apoiará ao ter contacto com o
pai? E que não precisa de se afligir com a mãe enquanto estiver fora?
Poderá a mãe tranquilizá-la sobre isso?
• Ajudar a Sara a ser clara quando têm lugar as visitas de contacto. Pode
ser útil sugerir que a sua mãe marque as datas num calendário.
• Em especial, nos casos em que haja relutância em assumir qualquer
obrigação firme de arranjos de contactos firmes, planear outra reunião de
mediação para rever como é que os arranjos estão a funcionar depois de
algumas visitas.
• Considerar o que já foi dito à Sara? O que poderá estar ela a precisar de
ouvir de ambos os pais? Como pode ser ela ajudada a perceber e a aceitar
a sua separação?
• Haverá modificações possíveis que possam facilitar as coisas? Entretanto
pode o pai da Sara manter contacto com ela por postais ou chamadas
telefónicas?
Ao fazer sugestões e eventualmente interpretações alternativas para a angústia da
Sara, o mediador precisa de ter cuidado para não impor soluções nem rejeitar
interpretações de nenhum dos progenitores, declarando uma interpretação diferente
como sendo “a correcta”. As ideias são oferecidas como alimento para pensamentos,
não como soluções. Frequentemente os pais têm ideias ou sugestões em mente e
apresentam-nas. Podem abrir novas perspectivas e ajudá-los a funcionar numa via
de solução de problemas em vez de numa via de confrontação.
Estratégias para testar o amor dos pais e a ligação ao filho
Exemplo – Tiago, de 13 anos de idade, foi apanhado a roubar cassetes vídeo
numa loja vizinha 
Interpretação da mãe: O Tiago precisa de mais disciplina e controlo. É mal-
educado, taciturno e passa a vida fora de casa. A mãe não consegue ter mão nele
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– já tentou muitas vezes e já está farta. Não consegue que ele vá à escola. Por este
andar vai acabar por ser um criminoso. Já é tempo para o pai tomar conta dele.
Pode ir-se embora e ir viver em casa do pai.
Interpretação do pai: O Tiago está a ficar fora de controlo. A mãe nunca
conseguiu lidar muito bem com ele. Talvez ela tenha razão quando diz que o
Tiago precisava de viver com o pai – simplesmente não se podeesperar que o pai
esteja em casa quando o Tiago chega da escola. O rapaz tem de fazer o que se
lhe diz e afastar-se de sarilhos. Doutra maneira, acabará por ser preso. É melhor
estar ciente de que é isso que lhe acontecerá se continuar a roubar.
Cenários possíveis se o Tiago não tiver a ajuda de que precisa: i) mais discussão
entre os pais sobre de quem é a culpa do Tiago estar com problemas; ii) nenhum
dos pais faz o Tiago sentir-se amado e querido; iii) o Tiago volta a prevaricar; iv)
intervenção dos Serviços Sociais; v) o Tiago acaba por ser preso.
O recurso à mediação poderia ajudar os pais a:
• Concentrarem-se no Tiago: Como é o Tiago e como era quando era
pequeno? E agora os pais pensam que ele é infeliz? Revoltado? Preocupado?
Há mais filhos? 
• Discutir as necessidades do Tiago. Quais são os actuais acordos em
relação ao Tiago? É possível colaborarem para irem ao encontro das suas
necessidades? Se ele vive com a mãe, poderá ela ter confiança de que o
pai a apoiará em questões relativas a limites de comportamento (como
ficar fora de casa até tarde) e disciplina?
• Resolver outras questões relacionadas com o filho, incluindo questões do
foro financeiro. Poderão elas estar a afectar o Tiago? O Tiago recebe mesada?
• Reflectir sobre se o Tiago está revoltado com os pais. Talvez imagine que
eles não se importam com o que se passa com ele. Talvez pense que se
estiver metido em sarilhos eles se unirão de qualquer maneira para lhe
resolverem a situação?
• É possíveis os pais falarem em conjunto com o Tiago? Será que eles
pensam que seria útil para ele estar envolvido em mediação? Se assim for,
como é que isso podia ser feito?
Estratégias de protecção dos filhos
Os filhos tornam-se muito ansiosos quando se dão conta de que um dos pais
é incapaz de lutar ou então de que é pouco seguro para os pais encontrarem-se.
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Podem comprometer-se em estratégias defensivas que esperam tornar as coisas
mais seguras para os pais e que os protegerão de fazerem mal um ao outro. Uma
das maneiras como as crianças pensam proteger os seus pais e protegerem-se a
elas próprias é recusar ver o outro progenitor – mesmo que, bem no fundo,
desejem encontrá-lo. Alguns filhos procuram ajudar os pais dizendo a cada um
deles o que esse progenitor quer ouvir.
Exemplo dum conflito sobre a residência – Daniel, com 9 anos de idade
O Daniel não quer magoar nenhum dos pais mostrando preferência por um e
rejeitando o outro. Ele diz a ambos aquilo que ele julga que eles querem ouvir da
sua boca. Ao pai diz que gostaria de viver com ele. À mãe diz também que quer
ficar com ela. Não tem a certeza de que a mãe aguentasse, no caso dele ir viver com
o pai. Daniel sabe que a mãe depende dele já que não tem mais nenhum filho.
Interpretação da mãe: é evidente que o Daniel quer viver com ela. Ela sempre
tomou conta dele e eles estão muito próximos um do outro. O pai está a pôr
palavras na boca do Daniel fazendo pressão sobre ele. Isto é totalmente
irresponsável e errado.
Interpretação do pai: o Daniel é um rapaz e compreende-se que tenha atingido
uma idade em que prefira viver com o pai. Infelizmente a sua mãe é incapaz de
perceber isto. Ela é super-protectora. Devia-se deixar o Daniel decidir e então não
haveria dúvidas sobre qual a opção que ele preferiria.
Resultado possível se os pais não conseguem concordar: um relatório de bem-
estar que explica que qualquer dos pais poderia proporcionar um lar bom e
carinhoso ao Daniel. O relatório explicita os factores de equilíbrio, deixando a
escolha ao critério do juiz.
O recurso à mediação poderia ajudar os pais a:
• Concentrarem-se no Daniel e nas suas necessidades, através de questões
postas pelo mediador focadas no presente, no passado e no futuro (ver
acima). Por exemplo: quando o Daniel era bebé, ambos assumiram um
papel activo nos cuidados dele? Como é que isso funcionava?
Contribuíam ambos para tomar conta dele de maneiras semelhantes ou
diferentes? Será que ambos valorizavam o apoio prestado pelo outro
progenitor? Ou gostariam que o outro progenitor tivesse feito mais? Como
é que poderiam estar ambos envolvidos agora?
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• Identificar e considerar opções possíveis para a partilha do exercício do
poder paternal e do tempo, e os “prós” e “contras” de cada opção.
• Considerar questões imediatas no contexto das necessidades a mais longo
prazo.
Ajudar os pais a explicar decisões e novas medidas aos seus filhos
A incapacidade ou falta de vontade de um dos pais para explicar uma situação
dolorosa a um filho pode combinar-se com a tendência do filho para esconder
sentimentos e para criar um muro de silêncio à volta do progenitor que
abandonou a casa. Quanto mais tempo este muro existir, mais difícil será destruí-
lo. Compreende-se que muitos pais se sintam incapazes de falar sobre a separação
com os filhos pois já estão destruídos pela sua própria dor e preocupação.
Quando se pergunta aos filhos o que é que os poderia ter ajudado, eles quase
sempre dizem que o que teria ajudado era ter tido mais informações, explicações
e garantias por parte dos pais. Os mediadores familiares podem ajudar os pais a
discutirem as questões difíceis do que devia ser dito aos filhos, por quem e em
que fase. Talvez alguns pais já tenham prestado explicações aos filhos e lhes
tenham assegurado de que ambos os progenitores continuarão a amá-los e a
tomar conta deles, mesmo que deixem de viver juntos na mesma casa. Talvez
outros pais não tenham conseguido fazer isso. Quando os pais não estão de
acordo sobre o que conduziu à separação ou ao divórcio, os filhos estão sujeitos
a receberem versões que entram em conflito umas com as outras e que os tornam
ainda mais confusos. Os mediadores podem ajudar os pais a encontrar uma forma
adequada à idade da criança para explicar uma questão sobre a qual estão de
acordo, o que pode ser feito sozinhos ou em conjunto, sem se contradizerem nem
denegrirem a imagem do outro aos olhos do filho.
Explicações que os pais podem dar, mesmo se as soluções ainda não
estão estabelecidas:
• Ambos os pais amam os filhos e continuarão a amá-los
• Ambos os pais (ou pelo menos um dos pais) continuarão a tomar conta
dos filhos
• Continuarão a viver na mesma casa (ou, se for precisa uma mudança, que
as suas necessidades serão tidas em conta quando se planearem as novas
soluções)
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• Continuarão a ver o progenitor com quem deixarem de viver – com que
frequência, onde, etc.: os filhos precisam de saber onde é que esse pai vive
• Os filhos não têm qualquer culpa da separação
• Mesmo que se confirme o divórcio dos pais, não haverá nenhum divórcio
entre os filhos e os pais
• Os pais têm pena da separação (melhor do que dizer que estão zangados
um com o outro)
• Há razões aceites que justificam a separação, tais como os pais já não
serem capazes de continuar juntos (dizer que os pais já não se amam um
ao outro pode levar os filhos terem medo de que venham também a
deixar de os amar)
• Os pais manterão os filhos ao corrente de quaisquer novas medidas que
os afectem
• Os pais estão a tomar parte num processo de mediação e vão-lhes
explicando o que isso significa; mesmo os filhos mais novos podem
perceber muito bem a ideia básica da mediação (por vezes até melhor do
que os adultos)
• Os pontos de vista e os sentimentos dos filhos são importantes e é
preciso que saibam que serão ouvidos e que os pais vão encontrar
soluções que os têm em consideração 
• Os pais percebem que as modificações causam profundos transtornos aos
filhos e que os filhos podem sentir-se zangados ou tristes ou ambos; que
esses sentimentossão naturais e compreensíveis e que não há qualquer
perigo em falar sobre eles
• Se qualquer coisa preocupar o filho, esperam que o filho se sinta capaz
de lhes contar a um deles ou a ambos, de modo a que possam ajudá-lo
A maior parte dos pais prefere falar com os filhos na sua própria casa, mas po-
dem sentir-se inseguros sobre como consegui-lo. Os mediadores podem ajudá-los
a planear o momento certo e o conteúdo duma explicação conjunta, e também a
concordarem sobre o que não deve ser discutido com os filhos. Pode ser uma ajuda
para os pais perceberem que os filhos podem reagir de diversas maneiras. Alguns
choram e mostram um desgosto enorme, ao passo que outros podem parecer
indiferentes, sem dar qualquer atenção e a certa altura perguntarem: “o que é que
há hoje para o jantar?”. Mesmo que pareça que as crianças não estão a prestar
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atenção, elas estão normalmente a compreender o que está a ser dito. Talvez
tenham de o ouvir mais do que uma vez, em particular a garantia que for dada,
para a digerirem completamente. Os mediadores podem ajudar os pais a prever
antecipadamente como é que um dos filhos pode reagir (o que, se …?),
perguntando como é que responderiam a uma explosão colérica dirigida em
particular a um dos pais. Os pais que estiverem bem preparados são mais capazes
de controlar os seus sentimentos e de se apoiarem um ao outro em frente dos
filhos. Algumas vezes os pais estão perdidos sem saberem o que devem dizer a um
filho para o ajudar a perceber. O mediador pode ajudá-los colocando uma cadeira
vazia e pedindo-lhes para imaginarem que o filho está aí sentado e precisa de
alguma explicação deles. Podia pedir-lhes para imaginarem o filho dentro de, por
exemplo, cinco anos, e as perguntas que lhes poderia fazer. A uma mãe que pense
que um filho com menos de três anos não vai sentir a falta do pai, pode-se pedir
que imagine o filho aos doze ou quinze anos a perguntar-lhe porque é que o pai
não amou suficientemente o filho para manter o contacto.
O direito do filho a ser consultado
Olha-se normalmente para os filhos como sujeitos que precisam de cuidado e
protecção, e que frequentemente são as grandes vítimas do divórcio. Há
actualmente uma tendência para reconhecer que os filhos têm direitos, bem como
necessidades. Se pensarmos nos filhos como sujeitos com direitos e não apenas
como destinatários de cuidados e protecção, estamos provavelmente a preparar
decisões relativas às crianças duma maneira diferente. Estamos mais aptos para
pensar como é que as próprias crianças devem ser consultadas e ouvidas sem se
lhes atribuir responsabilidade pelas decisões. O direito das crianças de que os seus
desejos e sentimentos sejam tomados em conta está consignado no Artigo 12 da
Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, adoptado na
Assembleia Geral das Nações Unidas em 1989. Este artigo estatui que em qualquer
assunto ou procedimento que afecte a criança, os pontos de vista da criança devem
ser tidos em consideração, em conformidade com a sua idade e maturidade. No
Reino Unido, os desejos e os sentimentos da criança são factores que o tribunal deve
considerar, se apropriado, ao tomar decisões que digam respeito à criança. O
Children Act da Escócia de 1995 impõe a todos com responsabilidade paternal que
tenham em consideração, tanto quanto possível, os pontos de vista das crianças em
causa. Na Escócia considera-se que uma criança com doze ou mais anos tem idade
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e maturidade suficiente para ter opinião. Ainda que tenha sido conferido às crianças
o direito de serem consultadas sobre assuntos que lhes dizem respeito a todas, a
evidência mostra que as crianças raramente são consultadas na prática. Será que elas
querem mesmo ser consultadas? Estudos recentes no Reino Unido mostram que a
maioria das crianças gostaria de ser capaz de dizer uma palavra nos assuntos que
as afectam. Mesmo as crianças pequenas são capazes de perceber e de falar sobre
a noção de terem direitos e de serem ouvidas. Algumas crianças querem ser ouvidas
e envolvidas num processo de tomada de decisões, enquanto outras pretendem ser
consultadas mas não querem que lhes seja conferida responsabilidade para tomarem
decisões. A maioria das crianças pensa que deviam ter oportunidade para falar sobre
os seus sentimentos e serem consultadas, sem terem de tomar decisões.
Envolvimento directo dos filhos na mediação
Muitos mediadores vêem-se a si próprios como facilitadores de negociações
que capacitam os pais a tomarem as suas próprias decisões.
Os mediadores podem estar contra o envolvimento dos filhos por pensarem
que isto iria desautorizar os pais. Em contrapartida, muitos mediadores acreditam
que há vantagens em envolver os filhos, desde que exista um cuidadoso
planeamento com ambos os progenitores sobre a maneira de os envolver e os
objectivos desse envolvimento. Os requisitos prévios incluem acordo dos pais,
transparência sobre o papel do mediador familiar, confidencialidade com o filho
e consentimento do filho dado com conhecimento de causa. Os mediadores
precisam de formação adicional, aptidões e experiência de comunicação com
crianças. Quando um dos pais é a favor de procurar conhecer a opinião dum filho
e o outro é contra, ou mesmo quando ambos estão a favor, é importante discutir
as vantagens e as desvantagens potenciais do ponto de vista da criança.
Inconvenientes potenciais do envolvimento dos filhos na mediação
• Os filhos não são responsáveis e não deviam participar nas disputas entre
os pais
• O envolvimento dos filhos aumenta a sua angústia e confusão
• Os filhos ficarão incomodados se conhecerem o conflito entre os pais
com maior detalhe
• As crianças não se deveriam envolver no que são negociações de adultos
propriamente ditas
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• Os desequilíbrios de poderes entre pais e filhos situam-se fora dos limites
da mediação
• Conferir poderes aos filhos é arriscar-se a reduzir poderes a um ou a
ambos os pais
• A autoridade dos pais para tomarem decisões é prejudicada se o
mediador for visto como o especialista
• O papel do mediador pode ser confundido com o papel de conselheiro
ou de advogado do filho
• O envolvimento dos filhos pode criar expectativas de que as coisas
melhorarão para eles
• As crianças podem sentir-se sob pressão para exprimir os seus pontos de
vista ou sentimentos
• As crianças podem ter medo que lhes seja pedido que façam uma escolha
• As crianças podem não ser juízes fiáveis dos seus próprios interesses a
longo prazo
• O mediador pode encontrar-se numa posição “triangulada” entre os pais
e o filho
• O mediador poderia encontrar-se numa situação em que detém segredos
ou confidências duma criança que não quer que elas sejam partilhadas
com os seus pais: isto seria uma posição insustentável para o medidor
• Os conflitos de lealdade da criança podem ser agravados
• Pode acontecer que os pais não consigam controlar a sua angústia em
frente do filho
• Os pais podem exercer pressão e dar instruções ao filho sobre o que
dizer ao mediador
• Reportar aos pais o que o filho disse pode resultar em que fiquem
zangados com o filho
• Crianças pequenas que vejam os seus pais a conversarem dum modo
amistoso podem pensar que eles vão voltar a reunir-se, alimentando
esperanças de reconciliação
Benefícios potenciais do envolvimento dos filhos na mediação familiar
• A maioria das crianças que estiveram envolvidas diz que isso as ajudou
muito
• É possível dar explicações e garantias às crianças
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• As crianças adaptam-se mais facilmente se perceberem melhor asdecisões dos seus pais
• O envolvimento dos filhos mostra-lhes que os seus pontos de vista e
sentimentos são importantes e que eles devem ser tratados com respeito
• É uma maneira de ajudar os pais a prestarem atenção aos filhos
• Os pais podem escolher explicar as suas decisões e soluções aos filhos
numa reunião familiar (alguns pais precisam do apoio do mediador para
fazer isto)
• Dissipar mal-entendidos: por exemplo, que uma criança não quer ver um
dos pais quando de facto quer
• Dar aos filhos a oportunidade de fazerem perguntas e comentários e de
contribuírem com as suas ideias
• Dar oportunidade aos filhos de exprimirem uma preocupação ou
interesse, como por exemplo onde irão viver os animais de estimação da
família
• Facilitar as comunicações e reduzir as tensões nas relações pais-filhos
• Dar aos filhos uma oportunidade de verem o mediador a sós e
conversarem sobre os seus sentimentos e preocupações, sem se sentirem
ansiosos sobre como é que os pais vão reagir 
• Ajudar os filhos a prepararem as mensagens que querem transmitir aos pais
(ou a outras pessoas envolvidas) e a sentirem-se capazes de as transmitir
• Tornar possível a um filho receber uma mensagem dum dos pais que, por
qualquer razão, não a pode entregar directamente
• Com o acordo do filho, reportar aos pais as preocupações e sentimentos
do filho para os ajudar a compreendê-las, de modo que elas possam ser
tidas em conta nas decisões dos pais.
• As reacções positivas para envolver os filhos devem ser avaliadas em
comparação com os riscos potenciais e desvantagens. Quando ambos os
pais pensam que os filhos precisam de ser envolvidos e que isso os
ajudará, há um novo planeamento importante a fazer.
Explorar maneiras possíveis de envolver os filhos
Há frequentemente opções e considerações que precisam de ser trabalhadas.
O expositor é uma ferramenta importante quando se considera cada opção.
Alguns pais gostariam que os filhos participassem numa reunião familiar com a
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presença do mediador, para que este os ajude a explicar certas aspectos aos filhos.
Em alternativa, e dependendo da idade do filho e de cada circunstância particular,
os pais podem pedir ao mediador para ver um filho sozinho. Os pais podem
pensar que seria bom para um adolescente falar sozinho com uma terceira pessoa
que conhece ambos os pais mas que não está envolvido emotivamente. Alguns
adolescentes precisam dum espaço para falar dos seus sentimentos e decisões, em
especial quando já têm idade suficiente para tomarem decisões por eles próprios.
Nalguns casos há pedidos directos de filhos para se encontrarem com o mediador
porque sabem que o mediador tem conhecimento pormenorizado da sua situação
familiar, ao passo que um conselheiro escolar pode não ter esse tipo de
conhecimento e muitas vezes não ter contacto com ambos os progenitores. Muitas
crianças farão todos os possíveis para não serem etiquetadas como tendo
problemas e necessitando de aconselhamento. Mesmo crianças pequenas são
capazes de perceber que mediação não é o mesmo que aconselhamento ou
terapia e que o mediador não é um assistente social nem um investigador.
Se houver sugestões para que o mediador se possa encontrar com uma criança
sem a presença dos pais, há questões a considerar tais como: devem os irmãos ser
entrevistados em conjunto ou separadamente? O mediador deverá reportar aos
pais, ou a outra pessoa o que se passou? Os filhos vêem a confidencialidade como
uma questão-chave.
Acertar planos com ambos os progenitores e com o filho
É importante para os pais considerarem os limites das discussões com os filhos
em mediação. Se a confidencialidade não for absoluta e se estiverem a ser
aplicados processos de protecção da criança, por esta se encontrar em situação de
risco ou perigo, deve-se esclarecer a situação a todos os interessados, incluindo à
própria criança. Fora isto, pode-se pedir aos pais para darem o seu acordo para
que o filho decida se no final se deve dar qualquer informação aos pais e, em caso
afirmativo, por quem. Os pais precisam de aceitar que pode não existir nenhuma
informação final. Na prática, não se tem verificado que o mediador guarde
confidências dos filhos que não possam ser partilhadas com os pais. Normalmente
a criança foi ajudada a elaborar mensagens que queria transmitir a um ou a ambos
os pais. Muitas vezes trata-se de mensagens positivas sobre como a criança esteve
a tentar ajudar os pais – ou sobre a ajuda que a criança gostaria de receber dos
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seus pais. Se a criança quiser que o mediador explique qualquer coisa por ela, o
conteúdo dessa explicação deve ser reduzido a escrito e examinado com a
criança.
O contacto com a criança e a aceitação por parte da criança
Os pais precisam de explicar às crianças a razão porque gostariam que elas
participassem para aliviar a sua ansiedade e encorajar uma resposta positiva. É
muitas vezes útil que o mediador escreva também uma carta pessoal de convite à
criança. As crianças precisam de perceber o que lhes é proposto e que estão livres
de recusar. Precisam de saber que não serão confrontadas com ninguém. Se
quiserem falar serão ouvidas, mas não lhes será pedido para fazerem escolhas
nem serão responsabilizadas por decisões difíceis.
Acordo para não dar instruções à criança antecipadamente e para não
fazer perguntas à criança a posteriori sobre qualquer coisa que ela tenha
ou não tenha dito ao mediador.
As crianças precisam da garantia de que podem falar livremente, sem receio de
virem a ser chamadas à responsabilidade ou de causarem qualquer espécie de
dano aos seus pais. Os pais precisam de aceitar que a finalidade de envolver a
criança no processo consiste em ajudá-la, antes de qualquer outro objectivo. É
preciso tomar o maior dos cuidados em todas as fases – antes, durante e depois
da reunião – para evitar angústia adicional aos filhos.
Gerir os resultados e acordar os próximos passos
As crianças podem encontrar-se impotentes para mudar o que lhes está a
acontecer e as mais pequenas podem encarar os seus pais como “todo-poderosos”.
Contudo, nalgumas situações, uma criança pode ser amparada por um dos pais, ou
pode reflectir algum controlo recebido através de pressão psicológica ou de
manipulação. Os mediadores familiares que utilizam uma abordagem sistémica,
podem ajudar os pais e os filhos a definirem antes de mais nada quais as decisões
que são necessárias e, em segundo lugar, quem deve ser envolvido na sua
elaboração. O envolvimento de membros da família no processo da tomada da
decisão pode tornar possível transformar o poder em responsabilidade. A recusa
de ouvir pode ser transformada numa audição activa.
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As crianças estão habitualmente muito receosas em falarem com um estranho
e têm medo de dizer qualquer coisa que possa contrariar um ou ambos os
progenitores. Procuram muitas vezes proteger ambos os pais ou podem estar do
lado de um deles que considerem vulnerável ou “vítima”. Também se preocupam
em não acrescentar preocupações àquelas que os seus pais já têm. No entanto,
talvez as crianças se estejam a preocupar com assuntos de que os seus pais se
devem ocupar, desde que percebam do que se trata. Os mediadores podem ajudar
as crianças a explicar as suas preocupações aos pais, e isto pode libertá-los de
algumas das suas ansiedades. Os mediadores também precisam de ter consciência
de que as crianças talvez não consigam exprimir os seus receios por palavras – e
terem a humildade de reconhecer que não podem aliviar a dor da criança. Há
situações familiares nas quais já se verificaram perdas imensas e em que um dos
filhos se sente profundamente

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