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Stent é realmente um epônimo

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Trindade IS. Stent é Realmente um Epônimo? Rev Bras Cardiol Invas 2003; 11(4): 64-66.
Stent é Realmente um Epônimo?
Rev Bras Cardiol Invas 2003; 11(4): 64-66.
Artigo Especial
Ibsen Suetônio Trindade1
1 Membro Titular da SBHCI.
Correspondência: E-mail: ibsenst@terra.com.br
Recebido em: 19/04/2005 • Aceito em: 25/04/2005
Quando se tem a oportunidade de produzir traba-lhos científicos, além do propósito inicial de um
objetivo a ser alcançado, de um método a ser seguido,
de uma hipótese de nulidade ser aceita ou não, há o
contato com uma infindável quantidade de informações
que vão gerando cada vez mais interrogações, gerando
devaneios e, se não estamos bem seguros e certos
aonde queremos chegar, a jornada fica verdadeiramente
turbulenta. No entanto, algumas idéias ficam, vão ama-
durecendo e um dia produzem algo. A questão que
intitula esse escrito veio por ocasião da minha tese de
doutoramento, realizada no Instituto de Cardiologia
do Rio Grande do Sul e tendo como core-lab a Funda-
ção Costantino Costantini, em Curitiba1.
A palavra stent (sem a letra maiúscula S) e seus
neologismos derivados stentar, stentado, stentável estão
inseridos no vocabulário médico (e atualmente se difun-
dindo entre a população). O dicionário Aurélio já pos-
sui entre seus vocábulos a palavra stent, que é definida
como um dispositivo destinado a manter em uma de-
terminada posição um enxerto cutâneo, e que pode ser
feito de mais de um material, ou dispositivo filiforme,
ou em forma de bastão delgado, para sustentar estrutu-
ras tubulares que estão sendo anastomosadas, ou para
manter a permeabilidade no interior dessas estruturas.
Ruygrok e Serruys2 definem stent como um dispositivo
que mantém um retalho de pele em sua posição, uma
estrutura tubular que suporta uma anastomose e, atual-
mente, em uso mais freqüente, um suporte endovascular
que alivia e previne obstruções vasculares.
Quando, nos tempos de residente, perguntei ao
Dr. Luís Maria Yordi qual era a etimologia da palavra,
fui esclarecido que se tratava de uma homenagem a
um dentista, aceitei a explicação e, anos após, tento
reconstruir a seqüência histórica, chegando ao momento
da difusão do seu uso, bem como demonstro outras
possíveis origens dessa palavra.
Como a palavra é homenagem a um dentista,
vamos iniciar por essas paragens. A referência mais
antiga que versa sobre o uso de uma forma de modela-
gem da boca para próteses dentárias é de 1684, de
Gottfried Purman (1649-1711), cirurgião militar alemão3.
No entanto, apesar dessa grande idéia inicial, os mé-
todos de obtenção de moldagem só foram introduzidos
na prática quase um século depois. Philip Pfaff (1715-
1767), dentista de Frederico o Grande, rei da Prússia,
desenvolveu em 1756 um método para obtenção da
reprodução da arcada dentária, utilizando cera como
material de impressão negativa e gesso calcinado para
obter a modelagem final. Aproximadamente nessa mes-
ma época, foi descoberto um outro composto deno-
minado guta-percha (resina extraída de uma planta da
família das sapotáceas) e, como era mole quando em
contato com água quente e solidificava em contato
com a água fria, em 1847, o dentista inglês Edwin
Thomas Truman (1819-1905) utilizou-a como base
para a modelagem das dentaduras4. Devido às carac-
terísticas plásticas não ideais do material, que contraía
durante o processo de resfriamento, o resultado final
deixava a desejar. A busca por materiais mais apropriados
levou Charles Thomas Stent (1807-1885), um dentista
prático londrino, em 1857, a desenvolver um material
plástico, moldável pelo calor, que não modificasse
suas dimensões com a variação térmica e com possibi-
lidade de ser reutilizado4. As características físicas desse
novo material eram melhores do que a guta-percha
(que era o material em uso corrente) e foi denominado
“composto de Stent”. O composto de Stent possui em
sua fórmula: estearina, goma de Kauri (resina de uma
árvore da Nova Zelândia), talco chinês, talco n° 54,
óxido de titânio, vermelho Bordoux, carmim e sais de
bário4. Charles Stent e seus dois filhos, também den-
tistas Charles Robert Osborn Stent (1845-1901) e Arthur
Howard Osborn Stent (1859-1900), produziam e ven-
diam o material através de sua firma C.R. & A Stent,
que também era o nome da clínica dentária. Charles
Stent não foi um dentista de renome durante sua vida
profissional, tendo apenas um artigo publicado em
18595. Após sua morte por carcinoma de fígado em
18 de julho de 1885, o direito de venda do composto
foi transferido a uma empresa denominada Claudius
Ash Sons and Company, que alguns anos após também
comprou os direitos de produção. O composto de
Stent era vendido acondicionado dentro de uma emba-
lagem de lata, vinha em forma de disco, de consistência
dura e de cor vermelha (para facilitar a análise do
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molde). O composto se tornava maleável em contato
com o calor, a impressão era feita e o material resfriado,
obtendo-se, então, a modelagem da arcada dentária.
Charles Stent também desenvolveu a moldeira que ser-
via de base para a moldagem com o composto de Stent.
Acompanhando a ordem cronológica dos fatos,
em 1912, o prêmio Nobel de Medicina Alexis Carrel
(1873-1944) descreveu experimentos com tubos de
metal e vidro, recobertos com parafina, introduzidos
na aorta torácica de cães6. Carrel não utilizou em seu
artigo nenhuma palavra especial para descrever os
dispositivos. Ele deixa bem claro que a idéia de introduzir
um tubo no lúmen dos vasos não era originariamente
sua e que já havia sido aplicada por outros cientistas
com sucesso, citou os nomes de Abbe, Dunham e
Cushman (tentei localizar esses pesquisadores, o que
não foi possível por não haver referências no artigo de
Carrel). É creditada a Carrel a primeira tentativa de
implantar tubos na aorta de cães para o tratamento
cirúrgico da injúria traumática dos vasos, bem como
o desenvolvimento de técnicas de anastomose cirúrgi-
ca. O prêmio Nobel de Medicina conquistado por
Carrel foi devido aos seus trabalhos desenvolvendo
novas técnicas de sutura de vasos e transplantes.
O uso do composto de Stent na área médica
ocorreu na Áustria, durante a primeira guerra mundial
(1914-1918), quando o cirurgião Holandês Johannes
Fredericus Samuel Esser (1877-1946) criou uma nova
técnica de cirurgia plástica denominada “obturador
epidérmico”7. A técnica era utilizada no tratamento
cirúrgico de ferimentos e cavidades na pele (sessenta
anos após invenção do composto de Stent), pois as
lesões de face eram muito comuns em decorrência
dos ferimentos de guerra. A nova técnica consistia em
retirar um molde do ferimento profundo com o composto
de Stent (uma impressão negativa), obtendo-se, então,
um obturador (uma “rolha”) com as dimensões e detalhes
da cavidade. A parte do molde que limitou a cavidade
era coberta com um fino retalho de epiderme (com a
epiderme em contato com o composto e a face cruen-
ta do enxerto para fora), que após era implantado e
suturado no local da lesão, funcionando o material
como um obturador que era mantido por alguns dias,
sustentando o enxerto em sua posição. Dessa forma o
obturador feito com o composto de Stent imobilizava
no lugar o tecido a ser implantado.
Na Inglaterra, em trabalhos publicados em 1920
e 1923, o médico militar Sir Harold Delf Gillies (1882-
1960), pai da cirurgia plástica do século XX, reconhe-
ceu que os princípios de Esser marcavam época na
cirurgia e adaptou o método no reparo de cicatrizes
intra-orais, reparo de ectrópio, reconstrução de narinas,
e para estabilizar os enxertos na reconstrução de lesões
nasais por sífilis8,9. Esse foi um momento importante na
história do uso da palavra stent, pois foi Sir Gillies
quem associou o termo stent ao dispositivo que man-
tinha e modelava o enxerto de pele no localda lesão.
Na Alemanha, o composto de Stent também era utilizado
como tala nasal. John Butler Mulliken, cirurgião plásti-
co do Children’s Hospital Medical Center, menciona
que a palavra stent era um jargão entre os profissio-
nais da área cirúrgica, significando a fixação de enxer-
tos de pele4.
A primeira vez que a palavra stent foi utilizada, na
literatura médica, para descrever um aparelho de susten-
tação (não relacionado à cirurgia plástica) foi em 1954,
em um artigo de William H Remine, professor emérito
de cirurgia da Mayo Clinic (já aposentado), sobre a
reconstrução do ducto biliar em cirurgia experimental
em cães, aonde escreveu: “um segmento de polietileno
com 0,5 cm de diâmetro foi suturado para atuar como
um stent na anastomose até que a tendência inerente
da pele em contrair esteja diminuída”10.
Outras especialidades médicas também passaram
a utilizar a palavra stent e ela chegou na Cardiologia em
1966, quando Clarence S. Weldon et al.11 descreveram
uma nova técnica cirúrgica, desenvolvida experimen-
talmente em cães, em que utilizaram um homoenxerto
aórtico stentado em prótese, para a substituição da
valva mitral. As válvulas aórticas eram retiradas de cadá-
veres de cães, sendo então montadas (stentadas) sobre
um anel de aço, revestido de tecido com teflon que
cobria todo o metal, e que tornava possível a sutura das
válvulas no anel. O anel possuía três angulações que
permitiam uma precisa suspensão das cúspides. Poste-
riormente, esse enxerto era implantado via átrio esquer-
do em posição mitral. Essa foi a primeira vez que um
derivado da palavra stent foi utilizado na Cardiologia.
Na área da Urologia, há uma referência sobre
stents ureterais em um artigo de Firlit e Brown12, publi-
cado em 1972. Na frase inicial do artigo, eles escreve-
ram: “a aplicação de stents ureterais em cirurgia urológica
tem aumentado nos últimos anos”, no entanto, não há
referências de artigos anteriores a esse. Firlit e Brown
apresentaram um dispositivo e a técnica para a retira-
da dos stents ureterais (fabricados de silicone ou bor-
racha), que na época estavam sendo usados em vários
procedimentos cirúrgicos urológicos que necessitavam
de cuidados a longo prazo para manter o fluxo urinário
sem obstrução. Em comunicação pessoal a Silvester
Sterioff13, professor de cirurgia da Mayo Clinic College
of Medicine, Firlit argumentou que escolheu a palavra
por considerá-la mais lógica.
Como era de se esperar, alguns anos após, a
palavra chega ao âmbito vascular. A primeira referência
ao uso da palavra stent na abordagem de sustentação
intraluminal de vasos ocorreu em 1978, por Fein14
que, em um artigo sobre cirurgia microvascular no
acidente vascular cerebral, mencionou a palavra stent
para descrever um tubo sintético colocado em um
vaso para manter seu lúmen aberto e facilitar a sutura.
Da mesma forma que o composto de Stent foi
utilizado para dar suporte aos tecidos vivos em fase de
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cicatrização, provavelmente atribuiu-se por similitude,
que as endopróteses vasculares também deveriam re-
ceber o nome de stent por promoverem igualmente a
sustentação e o modelamento de um tecido vivo à
parede vascular.
Charles Theodore Dotter (1920-1985), pai da Car-
diologia Intervencionista, publicou seu primeiro artigo
sobre implante de próteses tubulares endoarteriais em
196915, porém somente em 1983 (quatorze anos após),
quando utilizaram molas de nitinol, é que Dotter et
al.16 empregaram o termo stent para descrever os dis-
positivos de implante endovascular. Logicamente, o
emprego da palavra stent por um médico de renome
e grande influência na época determinou que o seu
uso fosse inserido, irreversivelmente, no vocabulário
médico. Como foi escrito com muita propriedade por
Ulrich Sigwart17: “Dotter cunhou o termo stent que se
tornou uma das palavras-chave mais citadas na litera-
tura médica”. Em 1978, Dotter foi indicado para o
Prêmio Nobel de Medicina, porém não foi laureado.
Como em todas as histórias são possíveis outras
versões. Morgan e Osborn18 trazem à tona outra eti-
mologia para a palavra stent. Em consulta ao Oxford
English Dictionary Word and Language Service, Morgan
e Osborn18 encontraram que a palavra stent data do
século quatorze e significa estender, fixar ou esticar
uma vela, cortina ou rede de pesca; estaquear para
esticar redes de pesca sobre um rio. Atentem que essa
etimologia se presta bem para definir a função do
stent, e data de quatrocentos anos antes do surgimento
do composto de Stent. O Oxford English Dictionary19
atribui a origem da palavra stent a uma quantidade
determinada de trabalho; contudo uma variação esco-
cesa stynt ou stent é usada como verbo que significa
estender, esticar, ou colocar na posição, incluindo o
uso de esticar redes sobre um rio ou colocar roupas
no lugar. No Webster’s Dictionary20, a palavra stent é
apresentada como uma variação de stint que significa
esticar-se/alargar-se ou estendido/ampliado. No Cam-
bridge Advanced Learner’s Dictionary21, não encontrei
a palavra stent, somente stint com dois significados:
um como um período fixo ou limitado de tempo para
realizar um determinado trabalho ou atividade, e o
outro com o sentido de limite, pegar ou usar somente
uma pequena quantidade de algo. Mulliken e Goldwin4
afirmam que stint significa restringir em certos limites,
e, se usado com significado médico, refere-se à imobili-
zação de uma estrutura tubular. Sterioff13 teve o precio-
sismo de investigar a origem histórica do sobrenome
Stent, no The Historical Research Center e obteve a
informação de que o registro do sobrenome data do
século XVI, no sul da Inglaterra, e refere-se à pessoa
que é obrigada a realizar uma determinada quantidade
ou cota de trabalho em um tempo estabelecido.
Ainda discutindo a etimologia da palavra stent, po-
deríamos ir mais além. Estenose deriva do Grego sténosis
que significa estreitamento de qualquer canal ou orifício
(o qual será o objeto do tratamento com o stent), pegaría-
mos o prefixo sten e como sufixo a letra t do latim
tractare e teríamos a palavra stent que seria um acrônimo
de sténosis tractare (stenosis treatment). Vejam mais uma
etimologia perfeitamente plausível à palavra.
Não encerrando a discussão, mas encerrando esse
artigo, deixando ao critério do leitor a resposta da
pergunta título, cito Sterioff13: “Se não há uma base
histórica que justifique a palavra stent, uma melhor
palavra não poderia ter sido inventada, a palavra é
monossilábica, enfática em sua expressão, internamente
aliterativa, com consoante bem audível e não há outros
cognatos modernos”.
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