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Filosofia e Ética ICEG- INSTITUTO E CONSULTORIA DE EDUCAÇÃO GERAL CNPJ: 11.274.641/0001-50 (33)3523-5169 / 3536-2540 / 8802-9788 E-mail: iceg.mg@hotmail.com 2 SUMÁRIO UNIDADE 1: FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA APRESENTAÇÃO................................................................................................................... 3 CAPÍTULO 1 - A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA FILOSOFIA ............................................5 CAPÍTULO 2 - SITUANDO A FILOSOFIA NAS DIVERSAS ÉPOCAS................................. 14 CAPÍTULO 3 - AS CONCEPÇÕES E OS MÉTODOS DA FILOSOFIA ............................... 16 CAPÍTULO 4 - OBJETOS DE ESTUDO – OS GRANDES TEMAS...................................... 21 CAPÍTULO 5 - OS RAMOS DA FILOSOFIA......................................................................... 40 REFERÊNCIAS..................................................................................................................... 49 UNIDADE 2: ÉTICA INTRODUÇÃO.......................................................................................................................52 CAPÍTULO 1 - A ÉTICA NA FILOSOFIA ANTIGA................................................................ 53 CAPÍTULO 2 - A ÉTICA CRISTÃ: A FILOSOFIA MEDIEVAL .............................................. 64 CAPÍTULO 3 - A ÉTICA NA FILOSOFIA MODERNA .......................................................... 70 CAPÍTULO 4 - ÉTICA CONTEMPORÂNEA ........................................................................ 76 REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 81 ATIVIDADE ............................................................................................................................82 3 UNIDADE 1 - FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA Vários são os motivos que justificam a importância do estudo e entendimento da filosofia, quer seja nos cursos de graduação, no Ensino Médio ou como leitura de lazer pessoal. No nosso entendimento (e que, evidentemente, pode e deve variar de acordo com a visão que cada um tem da vida), o que mais motiva no estudo da Filosofia é a possibilidade de desenvolver uma visão generalista e, ao mesmo tempo, crítico-reflexivo acerca dos problemas do cotidiano. Aos alunos do Ensino Médio, o estudo da Filosofia possibilita a formação de cidadãos críticos, disciplinados, autônomos e cultos como recomenda a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN n. 9394/96). O artigo 36, § 1o, inciso III, justifica os conhecimentos de Filosofia como “necessários ao exercício da cidadania”, contribuindo para o “aprimoramento como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico” (art. 35, inciso II, da LDB). E devem, ainda, mais especialmente, seguir a diretriz de “difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática” (art. 27, inciso I, da LDB) (BRASIL, 2006). Não é raro observarmos nos cursos de graduação, principalmente nas áreas de Ciências Exatas, a Filosofia ser encarada como algo de “intelectuais”, que não leva a nada, mas temos duas explicações! Primeiro, a forte influência do modelo universitário norte- americano com seu pragmatismo1 e segundo, porque aqui no Brasil, ao contrário da Europa, os meios de comunicação não se preocupam em divulgar textos filosóficos (dentre outras lacunas que não nos interessa aprofundar no momento). Desse modo, aos alunos dos cursos de graduação, a Filosofia em muito tem a contribuir na formação cultural, crítica e ética das gerações atuais e futuras do país. _____________________________________________________________________ 1 As doutrinas de C. S. Peirce (v. peirciano), W. James (v. jamesiano1), J. Dewey (v. deweyano) e do literato alemão Friedrich J. C. Schiller (1759-1805), cuja tese fundamental é que a verdade de uma doutrina consiste no fato de que ela seja útil e propicie alguma espécie de êxito ou satisfação (FERREIRA, 2004) 4 Concordando com Sponville (2002) filosofar é pensar por conta própria; mas só se consegue fazer isso de um modo válido, apoiando-se primeiro no pensamento dos outros, em especial dos grandes filósofos do passado. A filosofia não é apenas uma aventura; é também, um trabalho, que requer esforços, leituras, ferramentas. Esperamos que esta capacitação capacite-os para a discussão interdisciplinar, proporcionando a formação de cidadãos críticos que possam fazer com que a filosofia ocupe seu lugar no contexto local, regional e nacional, mas ressaltamos que o assunto não se esgota e tanto por isso, ao final da apostila são oferecidas bibliografias complementares para sanar dúvidas que, por ventura venham surgir no decorrer do estudo, possíveis lacunas e para aprofundamento dos senhores. Desejamos a todos uma boa leitura e um estudo proveitoso! 5 CAPÍTULO 1 - A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA FILOSOFIA Origem, nascimento, definições Oficialmente a Filosofia nasceu com Tales de Mileto marcando uma nova forma de pensar o mundo através da observação e a tentativa sistemática de uma explicação natural para a realidade. No começo o homem acreditava nos mitos, mas algo aconteceu que o fez mudar seu modo de pensar. Ele deixou de recorrer aos mitos para explicar o universo e inaugurou um sistema de pensamento que permeia toda a civilização ocidental até os dias de hoje. Ao longo desta apostila encontraremos os motivos, as razões e as características desde o começo, passando pelas ideias pré-socráticas. A palavra “filosofia” tem sua origem no idioma grego e resulta da união de outras duas palavras: philia que significa amizade, amor fraterno (não no sentido erótico) e respeito entre os iguais e Sophia, que significa sabedoria, conhecimento. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Assim, o filósofo seria aquele que ama e busca a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber. A tradição atribui ao filósofo Pitágoras de Samos (que viveu no século V antes de Cristo) a criação da palavra. Filosofia indica um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto é, deseja o conhecimento, o estima, o procura e o respeita (RUSSELL, 1977). Segundo Russell (1977), a filosofia origina-se de uma tentativa obstinada de atingir o conhecimento real. Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de três defeitos: é convencido, incerto e, em si mesmo, contraditório. O primeiro passo rumo à filosofia consiste em nos tornarmos conscientes de tais defeitos, não a fim de repousar, satisfeitos, no ceticismo indolente, mas para substituí-lo por uma aperfeiçoada espécie de conhecimento que será experimental, precisa e autoconsistente. Naturalmente, desejamos atribuir outra qualidade ao nosso conhecimento: a compreensão. Desejamos que a área de nosso conhecimento seja a mais ampla possível. Isto, no entanto, é mais da competência da ciência que da filosofia. Um homem não vem a ser necessariamente melhor filósofo graças ao conhecimento de maior número de fatos científicos; são os princípios e métodos, e as concepções gerais, que ele deva apreender da ciência, 6 caso a filosofia seja matéria de seu interesse. A missão do filósofo é, a bem dizer, a segunda natureza do fato bruto. A ciência tenta agrupar fatos por meio de leis científicas; estas leis, mais que os fatos originais, são a matéria-prima da filosofia.A filosofia envolve uma crítica, do conhecimento científico, não de um ponto de vista em tudo diferente do da ciência, mas de um ponto de vista menos preocupado com detalhes e mais comprometido com a harmonia do corpo genérico das ciências especiais. A Filosofia é um ramo do conhecimento que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados, seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aos conteúdos, contemporaneamente, a Filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade. Mas, nem sempre ela tratou de tais temas. No começo, na Grécia, a Filosofia tratava de todos os temas, já que até o séc. XIX não havia uma separação entre ciência e filosofia. Assim, na Grécia, a Filosofia incorporava todo o saber. No entanto, a Filosofia inaugurou um modo novo de tratamento dos temas a que passa a se dedicar, determinando uma mudança na forma de conhecimento do mundo até então vigente. Isto pode ser verificado a partir de uma análise da assim considerada primeira proposição filosófica (DUTRA 2005). Quanto ao seu valor, a filosofia deve ser estudada, não por causa de quaisquer respostas exatas às suas questões, uma vez que, em regra, não é possível saber que alguma resposta exata é verdadeira, mas antes por causa das próprias questões; porque estas questões alargam a nossa concepção do que é possível, enriquecem a nossa imaginação intelectual e diminuem a certeza dogmática que fecha a mente à especulação; mas acima de tudo porque, devido à grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também se eleva e se torna capaz da união com o universo que constitui o seu mais alto bem (RUSSELL, 2001). Para Prado Jr (1981) a Filosofia seria isso mesmo: uma especulação infinita e desregrada em torno de qualquer assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas preferências e mesmo de seus humores. Na verdade, existem pensadores ou especuladores que afirmam caber à Filosofia simplesmente sugerir questões e propor problemas, fazer perguntas cujas respostas não têm maior interesse, e com o fim único de estimular a reflexão, aguçar a curiosidade. 7 Apesar, contudo, de boa parte da especulação filosófica, particularmente em nossos dias, parecer confirmar tal ponto de vista, ele certamente não é verdadeiro. Há sem dúvida um terreno comum onde a Filosofia, ou aquilo que se tem entendido como tal, se confunde com a literatura e não objetiva realmente conclusão alguma, destinando-se tão somente, como toda literatura, a par do entretenimento que proporciona, levar aos leitores ou ouvintes, a partir destes centros condensadores da consciência coletiva que são os profissionais do pensamento, levar-lhes impressões e estados de espírito, emoções e estímulos, dúvidas e indagações. Mas esse terreno não é toda a Filosofia (PRADO JR, 1981). Mas vamos às definições colhidas para o termo Filosofia: 1) Para Platão, filosofia é o uso do saber em proveito do homem, o que implica em, 1º, posse de um conhecimento que seja o mais amplo e mais válido possível, e, 2º, o uso desse conhecimento em benefício do homem. 2) Rene Descartes simplifica como o estudo da sabedoria. 3) Em Thomas Hobbes encontramos o conhecimento causal e a utilização desse em benefício do homem. 4) Para Kant, é a ciência da relação do conhecimento à finalidade essencial da razão humana, que é a felicidade universal; portanto, a Filosofia relaciona tudo com a sabedoria, mas através da ciência, e para Auguste Comte, é a ciência universal que deve unificar num sistema coerente os conhecimentos universais fornecidos pelas ciências particulares (COLLINSON, 2006). 5) Para o filósofo cristão alemão Johannes Hessen, como quer que se entenda e defina o que é Filosofia, não pode ser negado que nesta se realiza sempre um autoexame do Espírito. “O espírito humano cultiva ciência e arte; pratica atos de moralidade e de religião. Mas só na filosofia ele medita sobre o sentido e o alcance dessas suas atividades. Reflete ainda sobre as suas funções e atividades não- teoréticas, sobre a sua atitude em face dos valores e pretende indagar qual é a essência dos valores éticos, estéticos e religiosos” (HESSEN, 1980, p.50). 8 6) Como o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881): “o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo de viver”. Não será a ciência, com sua postura essencialmente não valorativa, que irá fornecer este sentido de totalidade, o conhecimento unificado e universal. Numa comparação com as ciências, estas, de forma simplificada, tendem a uma descrição analítica dos fatos ou situações, enquanto a Filosofia acaba sendo uma interpretação sintética. Como diz Durant (1996, p.26) “A ciência quer decompor o todo em partes, o organismo em órgãos, o obscuro em conhecido. Ela não procura conhecer os valores e as possibilidades ideais das coisas, nem o seu significado total e final; contenta-se em mostrar a sua realidade e sua operação atuais, reduz resolutamente o seu foco, concentrando-se na natureza e no processo das coisas tais como são.” Com a Filosofia acontece o oposto. O filósofo não se contenta com a simples descrição dos fatos; quer averiguar a relação do fato com a experiência em geral, tenta compor o que havia sido decomposto pelos cientistas combinando as coisas em uma grande síntese interpretativa. “A ciência nos ensina a curar e a matar; reduz a taxa de mortalidade no varejo e depois nos mata por atacado na guerra; mas só a sabedoria - o desejo coordenado à luz de toda a experiência - pode nos dizer quando curar e quando matar. Observar processos e construir meios é ciência; criticar e coordenar fins é filosofia; e porque hoje os nossos meios e instrumentos se multiplicaram além da nossa interpretação e e da nossa síntese de ideais e fins, nossa vida está cheia de som e fúria, não significando coisa alguma. Porque um fato nada é exceto em relação ao desejo; não completo, exceto em relação a um propósito e a um todo. A ciência nos dá conhecimento mas só a filosofia pode nos dar a sabedoria” (DURANT, 1996, p. 27). Enfim, as contradições, as incoerências, as ambiguidades, as incompatibilidades levam o homem em direção à Filosofia. Esse é momento em que ela nasce, ou seja, quando ele começa a exigir provas e justificativas racionais que validam ou invalidam as crenças cotidianas. O surgimento dos momentos críticos e quando sistemas religiosos, éticos, políticos, científicos e artísticos estabelecidos se envolvem em contradições internas ou contradizem-se uns aos outros e buscam transformações e mudanças, também entra em cena o “filosofar”. 9 A matéria e o espírito Quando os filósofos tentaram explicar o mundo, a natureza, o homem, tudo o que nos rodeia, enfim, foram levados a fazer distinções. Nós próprios constatamos que há coisas, objetos que são materiais, que vemos e tocamos. Depois, outras realidades que não vemos e não podemos tocar, nem medir, como as nossas ideias (POLITZER, 2001). Classificamos, portanto, assim as coisas: por um lado, as que são materiais; por outro lado, as que não o são, e pertencem ao domínio do espírito, do pensamento das ideias. Foi assim que os filósofos se encontraram em presença da matéria e do espírito. Mas, o que vem a ser cada um deles? Nós não costumamos falar do espírito, mas do pensamento, das nossas ideias, da nossa consciência, da alma; assim como, falamos da natureza, do mundo, da terra, do ser,estamos falando é da matéria. O pensamento é a ideia que fazemos das coisas; algumas dessas ideias vêm-nos ordinariamente das nossas sensações e correspondem a objetos materiais; outras, como as de Deus, filosofia, infinito, do próprio pensamento não correspondem a objetos materiais. Temos ideias, pensamentos, sentimentos, porque vemos e sentimos. Já a matéria é tudo aquilo que nos rodeia, que chamamos de mundo “exterior Campos de investigação Os grandes temas ou os campos de investigação da Filosofia sempre serão o homem, o universo, a sociedade, o conhecimento é uma autocrítica constante. Sempre foi sob estes temas que a Filosofia existiu e existirá, sendo sempre necessária e prazerosa. Segundo Chauí (2003) no período socrático, a filosofia se voltou para as questões humanas no plano da ação, dos comportamentos, das ideias, das crenças, dos valores e, portanto, se preocupando com as questões morais e políticas. 10 Seu ponto de partida é a confiança no pensamento ou no homem como um ser racional, capaz de conhecer-se a si mesmo e, portanto, capaz de reflexão. Reflexão é a volta que o pensamento faz sobre si mesmo para conhecer-se; é a consciência conhecendo-se a si mesma como capacidade para conhecer as coisas, alcançando o conceito ou a essência delas (GILES, 2006). Como se trata de conhecer a capacidade de conhecimento do homem, a preocupação se volta para estabelecer procedimentos que nos garantam que encontramos a verdade, isto é, o pensamento deve oferecer a si mesmo caminhos próprios, critérios próprios e meios próprios para saber o que é o verdadeiro e como alcançá-lo em tudo o que investiguemos (GILES, 2006). Ela também está voltada para a definição das virtudes morais e das virtudes políticas, tendo como objeto central de suas investigações a moral e a política, isto é, as ideias e práticas que norteiam os comportamentos dos seres humanos tanto como indivíduos quanto como cidadãos. Cabe à Filosofia, portanto, encontrar a definição, o conceito ou a essência dessas virtudes, para além da variedade das opiniões, para além da multiplicidade das opiniões contrárias e diferentes. As perguntas filosóficas se referem, assim, a valores como a justiça, a coragem, a amizade, a piedade, o amor, a beleza, a temperança, a prudência, etc., que constituem os ideais do sábio e do verdadeiro cidadão (GILES, 2006). É feita, pela primeira vez, uma separação radical entre, de um lado a opinião e as imagens das coisas, trazidas pelos nossos órgãos dos sentidos, nossos hábitos, pelas tradições, pelos interesses, e, de outro lado, as ideias. As ideias se referem à essência íntima, invisível, verdadeira das coisas e só podem ser alcançadas pelo pensamento puro, que afasta os dados sensoriais, os hábitos recebidos, os preconceitos, as opiniões (GILES, 2006). A reflexão e o trabalho do pensamento são tomados como uma purificação intelectual, que permite ao espírito humano conhecer a verdade invisível, imutável, universal e necessária (GILES, 2006). 11 A opinião, as percepções e imagens sensoriais são consideradas falsas, mentirosas, mutáveis, inconsistentes, contraditórias, devendo ser abandonadas para que o pensamento siga seu caminho próprio no conhecimento verdadeiro (GILES, 2006). Em última análise, a filosofia nada mais é do que um instrumento, uma maneira que o homem encontrou para entender melhor a si próprio, ao outro e ao mundo, o que vai, complementarmente com as demais ciências, proporcionar benefícios ao próprio homem, o qual não deixa de ser um animal curioso que investiga, que deseja saber o porquê de toda existência, inclusive da sua (GILES, 2006). Isso nos leva a inferir que o homem é o tema mais privilegiado da Filosofia, e do seu entorno fazem parte o universo e a sociedade onde vive. Quanto ao conhecimento, outro campo de atuação da filosofia, conceitualmente: a) Conhecer, em sentido lato, é recolher e organizar informações sobre o meio envolvente de modo a permitir a constante adaptação do organismo ao meio, possibilitando assim a sua sobrevivência. b) Conhecer, em sentido restrito, apenas aplicável aos seres humanos, pode ser entendido como a construção de representações mentais que o sujeito organiza ao longo da vida na sua relação com os objetos. Nesta perspectiva restrita, encontramos conceitos como: 1. Sujeito (aquele que conhece); 2. Objeto (o que é conhecido); 3. Sensação (apreensão imediata do objeto, que se realiza pela ação de um estímulo específico); 4. Percepção (configuração ou construção individual dos dados sensoriais, em função dos mecanismos receptores, experiências anteriores, interesses, etc.). A palavra percepção deriva do latim perceptio que significa ação de recolher, e por extensão conhecimento como apreensão. O que caracteriza a percepção é a apreensão da realidade, não como 12 impressões sensoriais isoladas, mas um conjunto organizado, ou uma totalidade portadora de sentido. 5. Razão (elaboração de representações mentais abstratas, conceitos, discursos), relações lógicas e teorias interpretativas sobre a realidade (FONTE, 2008). Enfim, as teorias explicativas sobre o conhecimento foram sempre um tema central na história da filosofia, e mais recentemente, também na ciência. As perspectivas da ciência não são, como é obvio, coincidentes com as da filosofia (FONTES, 2008). Entre as teorias científicas do conhecimento, Fontes (2008) destaca as filogenéticas, as ontogenéticas, a sociologia do conhecimento e a psicologia da percepção. A filogênese estuda a história da evolução humana, nomeadamente a constituição dos seres humanos como sujeitos cognitivos. A paleontologia humana, baseada em inúmeras investigações, afirma que os homens nem sempre tiveram a mesma constituição e capacidades. A explicação mais consensual é que a evolução da nossa constituição morfológica e funcional, foi feita em simultâneo com o desenvolvimento das nossas capacidades cognitivas (memória, linguagem e pensamento) e esta de forma articulada com o desenvolvimento das nossas realizações e capacidades técnicas. Todos estes fatores de forma inter-relacionada contribuíram para gerarem a espécie que hoje somos (FONTES, 2008). Na ontogênese, o conhecimento é encarado como um processo de modificações e adaptações ao meio que desde o nascimento ocorre em todos os seres vivos. Segundo diversos autores, a ontogênese repete a filogênese, isto é, o desenvolvimento da humanidade é como que repetido no desenvolvimento de cada ser (FONTES, 2008). Sobre outro grande campo de estudo da Filosofia, a autocrítica, Marx e Freud descobriram aspectos decisivos da ação das forças que atuam subterraneamente em nós e mostraram que, sob uma capa de “racionalidade”, elas impõem limites aos movimentos da nossa consciência. Mostraram como esquemas explicativos são elaborados e reelaborados em nossas cabeças com a finalidade de nos proporcionar a “boa consciência”, com o 13 objetivo de amenizar nossas dúvidas, atenuar nossas inquietações e evitar a vertigem das nossas inseguranças (KONDER, 2008). No pensamento de Konder (2008) forjamos para nós imagens que nos ajudem a viver; e nos apegamos a elas. O autoritário se apresenta como “enérgico” e “corajoso”; o oportunista como “prudente” ou “realista”; o covarde com “sensato”; o irresponsável como “livre”. Não existe nenhuma tomada de posição no plano político ou filosófico que, por si mesma, imunize a consciência contra a ação desses mecanismos. Somos todos divididos, contraditórios. Por isso mesmo, precisamos promover discussões, examinar e reexaminar a função interna das nossas racionalizações.Quer dizer: precisamos realizar permanentemente um vigoroso esforço crítico e autocrítico. Nesse contexto, a autocrítica é de uma importância decisiva. É por ela que passa o teste da superação do conservadorismo dentro de nós. Um conservador – é claro – pode fazer autocrítica; mas, se a autocrítica for feita mesmo para valer, ele seguramente não estará sendo conservador no momento em que a fizer. Desde que consiga se instalar solidamente na consciência de alguém, o conservadorismo pode administrar uma grande flexibilidade: pode suportar com tolerância liberal as opiniões divergentes, até as provocações e irreverências alheias. Mas não pode se permitir o autoquestionamento radical (KONDER, 2008). Este campo basicamente permeia ao mesmo tempo, o começo e o final do processo de filosofia de qualquer ser humano, sendo de extrema importância para lançar mão de novos questionamentos e reiniciar sua caminhada na busca de novas respostas. 14 CAPÍTULO 2 - SITUANDO A FILOSOFIA NAS DIVERSAS ÉPOCAS Antiga (do séc. VI a.C. ao séc. III d.C) A filosofia ocidental surgiu na Grécia antiga, no séc. VI a.C. sendo considerados Pitágoras (c. 580-500 a.C.) e Tales de Mileto (c. 624-546 a.C.), os fundadores e primeiros filósofos. Eles dedicavam-se com especial atenção à cosmologia (que hoje é uma disciplina científica), isto é, ao estudo da origem e natureza última do universo. Sócrates e Platão dedicaram-se depois a problemas éticos e políticos, assim como a alguns aspectos mais conceituais da filosofia. Fizeram da procura de definições explícitas de conceitos básicos como beleza, justiça e conhecimento a sua atividade principal. Aristóteles desenvolveu praticamente todas as áreas da filosofia e da ciência, e estabeleceu firmemente o estudo sistemático de problemas filosóficos e científicos. Fundaram-se várias escolas dedicadas ao estudo da filosofia e surgiram vários filósofos importantes (CHAUÍ, 2003; WARBURTON, 2006). Medieval (sécs. III-XV) No período medieval a filosofia foi estudada num contexto, sobretudo religioso. Muitos filósofos deste período foram extraordinariamente perspicazes, tendo desenvolvido algumas ideias e argumentos hoje considerados centrais em filosofia, não só na filosofia da religião e na metafísica, mas também na ética, filosofia da linguagem e lógica. Alguns dos debates mais importantes da época incluem o problema dos universais, as provas da existência de Deus e a compatibilidade entre a presciência divina e o livre-arbítrio humano (a presciência é a capacidade para saber de antemão o que vai acontecer). Alguns dos mais destacados filósofos ocidentais do período medieval foram Santo Agostinho, Santo Anselmo (1033-1109), Abelardo (1079-1142), Tomás de Aquino e Guilherme de Ockham (CHAUÍ, 2003; WARBURTON, 2006). Moderna (sécs. XVI-XVIII) No período moderno, a epistemologia foi considerada por muitos filósofos o ponto de partida da filosofia. Descartes tornou-se um dos mais influentes filósofos de sempre. Neste período, a oposição entre empirismo e racionalismo tornou-se central. Do lado racionalista, juntamente com Descartes, estão filósofos como Espinosa (1632-77) e Leibniz. Do lado 15 empirista, filósofos como Hobbes, Locke, Berkeley e Hume. Hobbes, Locke, Hume e Espinosa deram uma atenção especial à ética e à filosofia política, que tinham sido negligenciadas por Descartes. Outros filósofos importantes deste período foram Voltaire (1694-1778) e Jean Jacques Rousseau (1712-78). Kant prossegue o trabalho dos filósofos racionalistas e empiristas, ocupando-se, sobretudo, de ética, epistemologia e metafísica (CHAUÍ, 2003; WARBURTON, 2006). Contemporânea (do séc. XIX aos dias de hoje) No séc.XIX, principalmente a partir do séc. XX, a filosofia conhece uma vitalidade e diversidade que ultrapassa de longe qualquer período histórico anterior. Alguns filósofos alemães e franceses fundam correntes como o existencialismo, a fenomenologia e a hermenêutica; que serão definidos em tópico mais adiante. Depois da segunda guerra mundial, florescem disciplinas antes negligenciadas, como a metafísica, a filosofia da religião, a filosofia da arte, a ética, incluindo a ética aplicada) e a filosofia política. A filosofia da ciência e a epistemologia atingem resultados de grande importância, assim como a filosofia da linguagem e a lógica, que em grande parte se autonomiza relativamente à filosofia. A filosofia, tal como as artes e as ciências, entra no séc. XXI com um grau de sofisticação, pertinência e alcance nunca antes atingido (CHAUÍ, 2003; WARBURTON, 2006). 16 CAPÍTULO 3 - AS CONCEPÇÕES E OS MÉTODOS DA FILOSOFIA SegundoChauí (2003), Politzer (2001) e outros autores, existem três formas de concebermos a filosofia, sendo elas: a forma metafísica, a positivista e a crítica. A forma metafísica prevaleceu na Antiguidade e na Idade Média, tendo como característica principal, a negação de que qualquer investigação autônoma fora da Filosofia tivesse validade. Naqueles tempos, um conhecimento era filosófico ou não era conhecimento. As demais ciências eram apenas parte da Filosofia, sendo esta, o saber único possível. Para Politzer (2001) a metafísica só tem importância na filosofia burguesa, uma vez que se ocupa de Deus e da alma. Tudo aí é eterno. Deus é eterno, não mudando, permanecendo igual a si mesmo; a alma também. O mesmo acontece com o bem, o mal, etc., estando tudo isso nitidamente definido, definitivo e eterno. Nessa parte da filosofia que se chama metafísica, veem-se, pois, as coisas como um conjunto congelado, e procede-se, no raciocínio, por oposição: opõe-se espírito à matéria, o bem ao mal, etc., isto é, raciocina-se por oposição das contrárias entre elas (POLITZER, 2001, p. 99-100). Ainda segundo Politzer, chama-se metafísica a essa maneira de raciocinar, de pensar, porque trata das coisas e das ideias que se encontram fora da física, como Deus, a bondade, a alma, o mal, etc. Metafísica vem do grego meta, que quer dizer além, e de física, ciência dos fenômenos do mundo. Portanto, metafísica ocupa-se de coisas situadas além do mundo. Na segunda forma, Positivista, o conhecimento cabe às ciências e à Filosofia cabe coordenar e unificar os resultados. Os positivistas abandonaram a busca pela explicação de fenômenos externos, como a criação do homem, por o conhecimento cabe às ciências e à Filosofia cabe coordenar e unificar os resultados exemplo, para buscar explicar coisas mais práticas e presentes na 17 vida do homem, como no caso das leis, das relações sociais e da ética. A filosofia positivista de Comte, surgida no século XIX, nega que a explicação dos fenômenos naturais, assim como sociais, provenha de um só princípio. Tem como base teórica os três pontos seguintes: 1) Todo conhecimento do mundo material decorre dos dados "positivos" da experiência, e é somente a eles que o investigador deve ater-se; 2) Existe um âmbito puramente formal, no qual se relacionam as ideias, que é o da lógica pura e da matemática; e, 3) Todo conhecimento dito “transcendente” - metafísica, teologia e especulação acrítica - que se situa além de qualquer possibilidade de verificação prática, deve ser descartado (CHAUÍ, 2003). Na terceira forma, a crítica, a Filosofia é juízo sobre a ciência e não conhecimento de objetos. Sua tarefa é verificar a validade do saber, determinando seus limites, condições e possibilidades efetivas. Segundo essa concepção, a Filosofia nãoaumenta a quantidade do saber, portanto, não pode ser chamada propriamente de “conhecimento” (CHAUÍ, 2003). Segundo Ewing (2008), recentemente, a filosofia crítica tem sido frequentemente contraposta à metafísica (que nesse caso é às vezes denominada filosofia especulativa). A filosofia crítica analisa e critica os conceitos pertencentes ao senso comum e às ciências. As ciências pressupõem certos conceitos que não são suscetíveis de investigação por meio de métodos científicos, de modo que passam a integrar o âmbito da filosofia. Nesse sentido, todas as ciências, com exceção da matemática, pressupõem de alguma forma a concepção de lei natural; cabe à filosofia, e não a qualquer das ciências particulares, examinar tal concepção. Enfim, a parte da filosofia crítica que trata da investigação da natureza e dos critérios de verdade, assim como da maneira pela qual obtemos conhecimento, é chamada de epistemologia (teoria do conhecimento). Sobre os métodos, a ciência moderna, caracterizada pelo método experimental, foi tornando-se independente da Filosofia, dividindo-se em vários ramos de conhecimento, 18 tendo em comum o método experimental. Esse fenômeno, típico da modernidade, restringiu os temas tratados pela Filosofia. Restaram aqueles cujo tratamento não poderia ser dado pela empiria, ao menos não com a pretensão de esclarecimento que a Filosofia pretenderia (POLITZER, 2001). A característica destes temas é que vai determinar o modo adequado de tratá-los, já que eles não têm uma significação empírica. Em razão disso, o tratamento empírico de tais questões não atinge o conhecimento próprio da Filosofia, ficando, em assim procedendo, adstrita ao domínio das ciências (POLITZER, 2001). Macedo e Santos (1994) deixam claro que o tratamento dos assuntos filosóficos não se pode dar de maneira empírica, porque, desta forma, confundir-se-ia com o tratamento científico da questão. Por isso, no dizer de Kant “o conhecimento filosófico é o conhecimento racional a partir de conceitos”. Ou seja, “as definições filosóficas são unicamente exposições de conceitos dados [...] obtidas analiticamente através de um trabalho de desmembramento”. Portanto, a Filosofia é um conhecimento racional mediante conceitos, ela constitui-se num esclarecimento de conceitos, cuja significação não pode ser ofertada de forma empírica, tais como o conceito de justiça, beleza, bem, verdade, etc. Vários são os métodos que foram utilizados pela Filosofia, cada um a seu tempo. Abaixo temos alguns exemplos, os quais serão explicados em tópicos adiante. MÉTODO HERMENÊUTICO SUJEITO OBJETO FINALIDADE SISTEMA DE INTERPRETAÇÃO DE HERMENÊUTICA FONTE: (MACEDO E SANTOS, 1994) Interpretação Texto Verdade|siginificado 19 MÉTODO CARTESIANO EVIDÊNCIA ANÁLISE SÍNTESE ENUMERAÇÃO FONTE: (MACEDO E SANTOS, 1994) MÉTODO FENOMENOLÓGICO SISTEMA DE INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICA FONTE: (MACEDO E SANTOS, 1994) INTERPRETAÇÃO TEXTO COISA – EM - SI 20 MÉTODO SOCRÁTICO Definição - conceitos Experiência (ação) Opiniões particulares FONTE: (MACEDO E SANTOS, 1994) Raciocínio Indutivo (das opiniões particulares aos conceitos) Ciência: Universal Imanente Essência Raciocínio Dedutivo Aplicação prática dos conceitos universais Ironia Fase destrutiva Maiêutica Fase construtiva (auto-reflexão) Douta Ignorância 21 CAPÍTULO 4 - OBJETOS DE ESTUDO – OS GRANDES TEMAS Metafísica Metafísica (além do físico) é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo, as inter-relações entre mente e matéria, buscando responder perguntas tais como: O que é real? O que é natural? O que é sobrenatural? Tem na ontologia o seu ramo central que investiga em quais categorias as coisas estão no mundo e quais as relações dessas coisas entre si. Ela também tenta esclarecer as noções de como as pessoas entendem o mundo, incluindo a existência e a natureza do relacionamento entre objetos e suas propriedades, espaço, tempo, causalidade, e possibilidade. De acordo com o sentido usado por Aristóteles e Andrônico de Rodes, ou seja, algo que vinha depois da física, se torna algo intocável, que só existe no mundo das ideias, como a ética e a política que não tratam de seres físicos, mas de seres não-físicos existentes apesar de sua imaterialidade. Como é uma especulação em torno das causas primeiras do ser, podemos chegar a confundi-la com a própria filosofia. Epistemologia O primeiro conceito de epistemologia é creditado a Platão: conformidade ou adequação entre o pensamento e a realidade. A partir do século XVII quando começa a crescer a importância do conhecimento científico, predominando nos debates sobre a verdade as questões sobre a objetividade e validade universal desse conhecimento científico, a epistemologia toma novo impulso (FONTES, 2008). Positivistas como Comte consideram que somente são verdadeiros os conhecimentos baseados em fatos que podem ser observados. A possibilidade da verificação das provas torna-se uma exigência básica do conhecimento científico. 22 Na sequência, os empiristas lógicos, também conhecidos como neopositivistas colocam a questão da adequação, enquanto garantia da verdade do conhecimento, na própria linguagem. Ao considerarem que a linguagem científica se exprime através de proposições, defendem que a principal tarefa para atingir a verdade é expurgar da linguagem, os termos ambíguos susceptíveis de provocarem o erro. A única forma da linguagem cientifica permitir o acesso à verdade, é tornar-se unívoco, isto é, cada termo possuir apenas um único sentido ou significado. Para isso terá de usar signos lógicos ou matemáticos, ou expressões que tenham conceitos cuja aplicação se possa decidir com auxilio da observação (FONTE, 2008). Entretanto, o único critério para saber se um conhecimento é verdadeiro ou falso, continua, contudo, a ser o da sua verificabilidade. Só se conhece o significado de uma proposição se conhece como a mesma pode ser verificada (FONTE, 2008). Para Silveira (2005), toda epistemologia é histórica ou não é epistemologia. Histórica porque se constrói a partir da história do conhecimento humano e porque se altera com as descobertas científicas e com as mudanças de valores e interesses. Dada a história das ciências desde o final do século XIX, à epistemologia atual não interessa discutir a verdade da ciência, conceito que perdeu o sentido, mas a gênese, a formação ea estruturação de cada ciência e os processos históricos de validação que aí aparecem (SILVEIRA, 2005). Para Grayling (1996), à epistemologia interessa a investigação da natureza, das fontes e da validade do conhecimento. O mesmo autor acima infere que na era moderna, a partir do século XVII em diante - como resultado do trabalho de Descartes (1596-1650) e Locke (1632-1704) em associação com a emergência da ciência moderna - que a epistemologia tem ocupado um plano central na filosofia. 23 Ética e Moral A Ética além de ser um dos grandes temas da Filosofia onde a investigação da conduta humana é central, determinando as origens, conceitos, universalidades, relatividades e constituição da dimensão ética individual e social, é completamente um tema atual. O termo ética deriva de uma palavra grega que significa “costume” e, por isso, a ética foi definida com frequência como a doutrina dos costumes, principalmente no pensamento de orientação mais empirista. Para os antigos gregos, principalmente para Aristóteles, o termo “ética” é tomado primitivamente só num sentido “adjetivo”: trata-se de saber se uma ação, uma qualidade, uma virtude ou um modo de ser são ou não “éticos” (MORA, 1998). Para Aristóteles, as virtudes éticas são aquelas que se desenvolvem na prática e que estão orientadas para a consecução de um fim, servem para a realização da ordem na vida do Estado como a justiça, a amizade, o valor, etc. e que têm a sua origem direta nos costumes e no hábito, pelos quais se pode chamá-las de virtudes de hábito ou tendência. Na evolução do termo, Vazquéz (1999, p.23) fala que o ético identificou-se cada vez mais com o moral, e a ética chegou a significar propriamente “a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade”. Ainda segundo Vasquéz (1999), ética diz respeito diretamente ao Homem, à relação consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Além de ser um tema que remonta às mais antigas especulações filosóficas, tem trazido na atualidade grandes questões para a pós-modernidade, especificamente no que concerne à bioética e questões ambientais. Muitas vezes confundimos o objeto em estudo (o comportamento moral) com a ciência (Ética), mas as explicações abaixo ajudarão a compreender o sentido de ambos. A moral tem por objeto as formas históricas de conhecimento e conduta moral, ao passo que a ética trata dos conteúdos do conhecimento moral, formulando juízos sobre o que é dado sobre este conhecimento moral. 24 A ética tem um caráter absoluto, enquanto a moral é essencialmente relativa a uma realidade histórica, cultural e mesmo individual, atuando como regulamentação do comportamento dos indivíduos entre si e destes com a comunidade, ajustando o comportamento individual ao coletivo com a finalidade de estabelecer e manter a estabilidade social da comunidade bem como proporcionar as condições para a sua própria sobrevivência. Várias são as origens da moral, dentre elas, a concepções baseada no comportamento histórico do homem em sociedade; ou, a que coloca Deus como sua origem ou fonte. Nesse sentido Vasquéz (1999, p. 38) nos ensina que “as normas morais derivam de um poder sobre-humano, cujos mandamentos constituem os princípios e as normas morais fundamentais.” Outra hipótese sobre a origem da moral considera a Natureza como origem ou fonte da moral. Considera que a conduta moral seria apenas um aspecto da conduta natural, biológica, tendo sua origem nos instintos. Se observarmos, essas correntes não consideram o caráter histórico, mas, em cada época, cada sociedade cria seus códigos morais visando, com a subordinação do individual ao coletivo, sua própria sobrevivência. Esse código persiste no tempo enquanto existem condições sociais capazes de sustentá-la. Quando estas condições não são mais suficientes, surgem novas morais mais adaptadas a estas novas condições que são de natureza sociais, econômicas e políticas (ABBAGNANO, 2007). As filosofias de Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Hegel, Marx e outros, consideram a ética como a ciência do fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada e dos meios para atingir este fim. Essa é a ética que fala a língua do ideal para o qual o homem se dirige por sua natureza, essência ou substância do homem (ABBAGNANO, 2007). Abbagnano continua seu pensamento expondo a outra concepção (compartilhada por autores como Kant, Spinoza, Schopenhauer, Hobbes, Hume, Locke e Leibniz) que considera a Ética como ciência do móvel da conduta humana e procura determinar este móvel, o que faz o homem ir de tal maneira e não de outra nas diversas situações de sua 25 vida, visando dirigir ou disciplinar esta conduta. É a Ética que fala dos motivos ou causas da conduta humana, ou das forças que a determinam, pretendendo ater-se aos fatos. Na segunda metade do século XX, após a segunda guerra mundial desenvolveu-se na França (com Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty) e na Alemanha (com Heidegger), a chamada “Ética Existencialista” que, em linhas gerais é uma espécie de “não-ética”, uma negação de que possa haver uma ética, pois, segundo os pensadores desta corrente, não parece haver possibilidade de se formular normas morais objetivas, fundadas em Deus, sociedade, natureza, um suposto reino objetivo de valores ou normas, etc., de modo que o único “imperativo” ético possível é o de que cada um tem de decidir por si mesmo, em vista de sua própria e intransferível situação concreta, o que vai fazer e o que vai ser (ABBAGNANO, 2007). Analisando-se a história da ética como uma disciplina da Filosofia não devemos esquecer que esta história é mais limitada no tempo e no material tratado do que as ideias morais da humanidade que compreendem, segundo MORA (1998), o estudo de todas as “normas que regularam a conduta humana desde os tempos pré-históricos até os nossos dias”. Este estudo da Moral não é só filosófico ou histórico-filosófico, mas também, essencialmente social. Por este motivo a descrição dos diversos grupos de ideias morais é um tema de que se ocupam disciplinas como a sociologia e a antropologia. Enfim, a existência de ideias morais e de atitudes morais não implicam a presença de uma disciplina filosófica particular. Estética e Arte Conhecida como Filosofia da Arte, a estética é o estudo da forma ideal ou da beleza! Estética (percepção, sensação) é um ramo da filosofia que tem por objeto o estudo da natureza do belo e dos fundamentos da arte. Ela estuda: • O julgamento e a percepção do que é considerado belo; • A produção das emoções pelos fenômenos estéticos, 26 • As diferentes formas de arte e do trabalho artístico; • A idéia de obra de arte e de criação; • A relação entre matérias e formas nas artes. Por outro lado, a estética também pode ocupar-se da privação da beleza, ou seja, o que pode ser considerado feio, ou até mesmo ridículo. A publicação da obra Aesthetica do filósofo alemão Baumgarten, por volta de 1750 levou a estética a adquirir autonomia como ciência, destacando-se da metafísica, lógica e da ética. A nova abordagem da autor permitia aos artistas alterarem a natureza, adicionando sentimentos à realidade percebida, compreendendo,então, de outra forma, o prévio entendimento grego clássico que entendia a arte principalmente como mimesis da realidade. Na Antiguidade - especialmente com Platão, Aristóteles e Plotino - a estética era estudada fundida com a lógica e a ética. O belo, o bom e o verdadeiro formavam uma unidade com a obra. A essência do belo seria alcançada identificando-o com o bom, tendo em conta os valores morais. Na Idade Média surgiu a intenção de estudar a estética independente de outros ramos filosóficos como ficou claro quando falamos da obra de Baumgarten. Pauli (1997) nos coloca que no âmbito do Belo, dois aspectos fundamentais podem ser particularmente destacados: • A estética iniciou-se como teoria que se tornava ciência normativa às custas da lógica e da moral - os valores humanos fundamentais: o verdadeiro, o bom, o belo. Centrava em certo tipo de julgamento de valor que enunciaria as normas gerais do belo (ver cânone estético); • A estética assumiu características também de uma metafísica do belo, que se esforçava para desvendar a fonte original de todas as belezas sensíveis: reflexo do inteligível na matéria (Platão), manifestação sensível da idéia (Hegel), o belo natural e o belo arbitrário (humano), etc. 27 Mas este caráter metafísico e conseqüentemente dogmático da estética transformou-se posteriormente em uma filosofia da arte, onde se procura descobrir as regras da arte na própria ação criadora (Poética) e em sua recepção, sob o risco de impor construções a priori sobre o que é o belo. Neste caso, a filosofia da arte se tornou uma reflexão sobre os procedimentos técnicos elaborados pelo homem, e sobre as condições sociais que fazem um certo tipo de ação ser considerada artística (PAULI, 1997). A estética também possui, conforme já se adiantou, um sentido amplo, ou acepção ampla, em que estuda, além do sentimento estético, ainda o belo e a arte, que são os principais causadores desse apreciável sentimento. A denominação tomada neste sentido amplo reúne três assuntos com peculiaridades semelhantes, sem, contudo, se unirem numa só disciplina de saber. Separados os três planos ou três áreas inconfundíveis, eles ficam, conforme a seguir: • O sentimento estético se mantém como capítulo da psicologia; • O belo, quando entendido como a perfeição em destaque, é um capitulo da ontologia; • Da arte se ocupam as ciências formais, a saber, a filosofia da arte e a tecnologia da arte (PAULI, 1997). Simplificando, a estética estuda o sentimento estético e os objetos que o produzem, tais como o belo e a arte. Se for reduzido ao estudo de belo, a estética estuda o belo e sua propriedade de produzir o sentimento estético. E reduzindo ao estudo da arte, a estética investiga a arte e sua propriedade de agrado estético (PAULI, 1997). Lógica e Linguagem A lógica (do grego clássico logos, que significa palavra, pensamento, idéia, argumento, relato, razão ou princípio) é uma ciência de índole matemática e fortemente ligada à Filosofia. Já que o pensamento é a manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, é preciso estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. Assim, a lógica é o ramo da filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento 28 do pensar. Desse modo, aprender a lógica não constitui um fim em si. Ela só tem sentido enquanto meio de garantir que nosso pensamento proceda corretamente a fim de chegar a conhecimentos verdadeiros. Enfim, a lógica trata dos argumentos, isto é, das conclusões a que chegamos através da apresentação de evidências que a sustentam. O principal organizador da lógica clássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Organon. Ele divide a lógica em formal e material. A lógica é o estudo do método ideal de pensamento e pesquisa. Observação e introspecção, dedução e indução, hipótese e experimento, análise e síntese são as formas da atividade humana que a lógica tenta compreender e orientar. Quanto à linguagem esta é a forma como acontece a manifestação do pensamento. Os melhoramentos pelos quais passou ao longo de sua história é que permitiu o desenvolvimento dos diversos métodos de pesquisa científica. Segundo Chateaubriand (2008) a lógica se apresenta na prática contemporânea como uma multiplicidade de sistemas formais conceitualizados lingüística e matematicamente. Uma lógica (e, de modo mais geral, um sistema formal) é concebida como uma linguagem composta de uma sintaxe e de uma semântica. A sintaxe inclui tudo o que pode ser tratado como uma combinatória de símbolos, sem considerar quaisquer conteúdos que esses símbolos possam ter - isto é, sem considerar o que os símbolos simbolizam. A formulação da linguagem (a gramática) é um aspecto central da sintaxe, mas esta não se restringe à gramática. Também a prova é tratada sintaticamente como constituída de operações (isto é, regras de inferência) realizadas sobre seqüências de símbolos de certas categorias como fórmulas e sentenças. Considerando uma totalidade de aplicações dessas operações pode-se definir as noções de dedução lógica, consistência lógica e teorema lógico, que juntamente com certas noções de definição (definição abreviativa, definição recursiva), são as principais noções sintáticas da lógica (CHATEAUBRIAND, 2008). A semântica de uma linguagem lógica é baseada na noção de interpretação (ou de estrutura). Esta é uma noção que pertence principalmente à teoria de conjuntos e que envolve um universo de discurso - um conjunto não vazio - e uma função de denotação que atribui a vários símbolos denotações relativas ao universo de discurso. Pode-se, assim, 29 introduzir as noções de satisfação e verdade relativas a uma interpretação. Considerando uma totalidade de interpretações, pode-se definir as noções de conseqüência lógica, satisfatibilidade e verdade lógica, bem como uma noção semântica de definição como individuação, que são as principais noções semânticas da lógica (CHATEAUBRIAND, 2008). O estudo sistemático dessas noções e de suas interconexões pertence à teoria da prova, à teoria de modelos e à teoria da recursão, que são as áreas centrais da lógica e são basicamente ramos da matemática. A lógica enquanto ciência é considerada a combinação destas teorias, e não simplesmente lógica proposicional e lógica de predicados. Essa foi uma mudança importante na concepção de lógica. Para Frege e para Russell, por exemplo, a lógica se restringia à lógica proposicional e à lógica de predicados; e era uma ciência (CHATEAUBRIAND, 2008). As principais influências filosóficas na formação da concepção linguística moderna de lógica vieram de Wittgenstein e dos positivistas lógicos, embora também Russell tenha desempenhado um papel decisivo com a sua teoria eliminativista de classes (CHATEAUBRIAND, 2008). Temos vários tipos de lógica. Dentre elas a lógica formal, a material, a matemática, filosófica, a lógica de predicados, de vários valores e a lógica de computadores. Evidentemente que nos interessa a lógica filosófica, a qual lida com descrições formais da linguagem natural, sendo postulado pelos filósofos que a maior parte do raciocínio “normal”pode ser capturada pela lógica, desde que se seja capaz de encontrar o método certo para traduzir a linguagem corrente para essa lógica. A lógica estuda e sistematiza a argumentação válida. O seu alto grau de precisão e tecnicismo permitiu-lhe tornar-se uma disciplina autônoma em relação à filosofia, tanto que nos dias atuais, ela recorre a métodos matemáticos, e os lógicos contemporâneos têm em geral formação matemática. Todavia, a lógica elementar que se costuma estudar nos cursos de filosofia é tão básica como a aritmética elementar e não tem elementos matemáticos. A lógica elementar é usada como instrumento pela filosofia, para garantir a validade da argumentação (CHATEAUBRIAND, 2008). 30 Quando a filosofia tem a lógica como objeto de estudo, entramos na área da filosofia da lógica, que estuda os fundamentos das teorias lógicas e os problemas não estritamente técnicos levantados pelas diferentes lógicas. Hoje em dia há muitas lógicas além da teoria clássica da dedução de Russell e Frege (como as lógicas livres, modais, temporais, paraconsistentes, difusas, intuicionistas, etc.), o que levanta novos problemas à filosofia da lógica (CHATEAUBRIAND, 2008). Para Warburton (2007) a filosofia da lógica distingue-se da lógica filosófica, que não estuda problemas levantados por lógicas particulares, mas problemas filosóficos gerais, que se situam na intersecção da metafísica, da epistemologia e da lógica. Em qualquer caso, o importante é não pensar que a lógica filosófica é um gênero de lógica, a par da lógica clássica, mas “mais filosófica”; pelo contrário, e algo paradoxalmente, a lógica filosófica, não é uma lógica no sentido em que a lógica clássica é uma lógica, isto é, no sentido de uma articulação sistemática das regras da argumentação válida. A lógica informal estuda os aspectos da argumentação válida que não dependem exclusivamente da forma lógica (WARBURTON, 2007). Enfim, a Lógica filosófica está muito mais preocupada com a conexão entre a Linguagem Natural e a Lógica. 31 Ceticismo e outros “ismos” Ceticismo, Cinismo, Dogmatismo, Estoicismo, Epicurismo, Neoplatonismo, Humanismo, Iluminismo, Espiritualismo, Pragmatismo, Racionalismo, Subjetivismo, Materialismo, Idealismo são alguns dos inúmeros “ismos” das ciências sociais (aqui só citamos aqueles que mais tem relação com a filosofia). Suas acepções variam conforme a área ou ramo de conhecimento, ou seja, referem- se a posições assumidas ou ideias aceitas sobre a possibilidade do conhecimento (GRAYLING, 1996). O Dogmatismo defende que não existe o problema do conhecimento enquanto relação entre sujeito e objeto. As coisas existem pura e simplesmente, o jeito é acreditar. O Ceticismo é o extremo do Dogmatismo e afirma que o sujeito não pode apreender o objeto, daí o conhecimento ser impossível. Já o Subjetivismo e o Relativismo limitam a validade do conhecimento ao sujeito. Toda verdade é relativa, não há verdade absoluta. Para o Pragmatismo, o conhecimento ou a verdade significam utilidade, valor, prática. Numa posição diferente, o Criticismo admite o conhecimento, mas sob reserva. Não é dogmático nem cético, mas reflexivo e crítico. Para cada um destes “ismos” houve ilustres filósofos com suas obras clássicas. Além destes “ismos” há outros, referentes ainda ao conhecimento, sobre sua origem e sobre sua essência (GRAYLING, 1996). Vamos explica o que vem a ser o "ismo". É uma posição filosófica ou científica que sustenta algo sobre uma idéia, um fato, um sistema, uma política, um programa, uma circunstância, etc. É uma idéia central a nortear o adepto perante o mundo ou em face de determinadas coisas. É um método ou conjunto de valores, é um principio ou conjunto de princípios explicativos sobre alguma coisa ou algum fato. É uma filosofia ou um modo de ver o mundo ou determinado problema. Para Grayling (1996) há tantas definições de “ismos” quase quantos “ismos” há. Cada um tem seu contexto histórico em que surge e se desenvolve. Ocorre, muitas vezes, que, após passar a ser moda ou um sistema de ideias dominante, o “ismo” cai no ostracismo. Não há dúvidas de que a filosofia sempre preconizou grandes cosmovisões. Com elas, o pensador procurava entender e unificar o entendimento do mundo por um prisma específico, fundando escolas de pensamento, correntes e filosofias específicas. Cada época da história do pensamento mundial, uma 32 determinada cosmovisão predominou, e a maioria das vezes “contaminou” todas as áreas de uma determinada sociedade ou cultura. Formas de pensar, de ver o mundo, de conceber o universo, o homem e a sociedade, passaram por uma visão unificada e voltada para um determinado conjunto de ideias de uma escola ou corrente filosófica específica (MIRANDA, 2008). Tentaremos na sequência, definir e explicar pormenorizadamente alguns dos ismos mais importantes dentro da Filosofia, já adiantando que, como observado acima, eles são inúmeros. Portanto, sugerimos aprofundamento paralelo, devido a importância do seu conhecimento para o entendimento da trajetória percorrida pela filosofia. O Ceticismo, estudo e o emprego dos argumentos céticos, é frequentemente descrito como a tese do não é ou do pode ser! Mas segundo Grayling (1996) essa é uma caracterização ruim, porque se não conhecemos nada, então não podemos saber que não sabemos nada, e assim tal afirmação é trivialmente algo que frustra a si mesma. Na realidade, ele é um desafio direto contra reivindicações de conhecimento, e a forma e a natureza do desafio variam segundo o campo da atividade epistêmica em questão. O termo ceticismo terminou por designar atualmente, na linguagem comum, uma atitude negativa do pensamento. O cético é visto, freqüentemente, não somente como um espírito hesitante ou tímido, que não se pronuncia sobre nada, mas como aquele que, sobre qualquer coisa que é avançada, ou sobre qualquer coisa que possa dizer, se refugia na crítica. Da mesma forma, acredita-se ainda que o ceticismo é a escola da recusa e da negação categórica. Os céticos qualificam a si mesmos de zetéticos, isto é, de pesquisadores; de eféticos, que praticam a suspensão do juízo; de aporéticos, filósofos do obstáculo, da perplexidade e dos resultados não encontrados (GRAYLING, 1996; MEGALE, 2008). O Historicismo, surgido no século XIX, mais precisamente em 1881, é uma visão ou filosofia segundo a qual todos os valores resultam de uma evolução histórica. A historicidade ou a inserção cronológica, causal, condicionante e concomitante de eventos na história constitui posição assumida a priori, isto é, ela é prévia e determina a inserção dos fatos na história. A razão substitui a providência divina na visão historicista, caracterizada pela consciência histórica, pela historicidade do real. A humanidade é 33 compreendida por sua história e a essência do homem não é a espécie biológica, mas sua história, movida pela razão (GRAYLING, 1996; MEGALE, 2008). O termo humanismo veio com o objetivo de promover a educação e formação global do indivíduo através do estudo dos clássicos gregos e latinos, em oposição às escolas da moderna pedagogia. A própria natureza e experiência humanas constituem os seus fundamentos(GRAYLING, 1996; MEGALE, 2008). O Positivismo se constitui no conjunto de ideias e doutrinas de Comte (1798-1857) baseado nas obras Curso de filosofia positiva, Sistema de filosofia positiva e Catecismo positivista. Admite a evolução da humanidade em três estados: teológico, metafísico e positivo. “Tudo é relativo - eis o princípio absoluto único.” No século XX o positivismo ressurgiu com novo nome e outra preocupação, no Círculo de Viena, empirismo lógico ou positivismo lógico (GRAYLING, 1996; MEGALE, 2008). Utilitarismo ou Pragmatismo é uma teoria ética e social que defende a busca do poder como objetivo do homem. É uma versão moderna do epicurismo, ou a busca da felicidade. Surgiu no final do século XIX com J. Bentham e J. Mill. Tem certa semelhança com o hedonismo, diferenciando-se deste pelo aspecto moral. Segundo Veblen, o homem econômico é um emérito calculador de prazeres e de sofrimentos, se se consideram o lucro e o custo como prazer e sofrimento. O direito serviu-se das ideias utilitaristas, através da jurisprudência produzida pela obra de Beccaria: Dos delitos e das penas, que defendia a pena ou o sofrimento para todos os criminosos, de qualquer classe sem distinção, desde a nobreza até a classe mais baixa. O crime deve ser compensado de seu prejuízo para com a sociedade através do castigo e a única medida do crime é a extensão do dano: maior crime, maior pena (MEGALE, 2008) No geral, as teorias filosóficas do conhecimento, apesar da sua enorme diversidade, polarizam-se em grandes problemas do tipo: (1) Qual a natureza do conhecimento? (2) Qual o seu valor ou possibilidade? (3) Qual a sua origem? No quadro abaixo temos os grandes problemas e algumas respostas filosóficas. 34 Problema Resposta filosófica (1) O que é que conhecemos? Os próprios objetos, ou as representações, em nós, dos mesmos? Realismo: Conhecer é apreender a realidade existente na experiência interna (atos da consciência) ou na experiência externa (objetos do mundo sensível). Os objetos existem independentemente dos sujeitos. Idealismo: Nega a existência do real. A realidade é reduzida a ideias: o mundo sensível é um mero produto do pensamento. Os objetos só existem enquanto representações, não têm uma existência independente. (2) Pode o sujeito apreender o objeto? Atingir a verdade, a essência das coisas, ou está condenado às suas múltiplas aparências? O dogmatismo (dogmatikós, em grego significa que se funda em princípios ou é relativo a uma doutrina) defende a apreensão absoluta da realidade pelo sujeito. Esta posição assenta numa total confiança na razão humana. O cepticismo (skeptikós, em grego significa “que observa”, que “considera”) defende a impossibilidade do sujeito apreender a realidade.Esta posição desconfia na razão humana. (3) Qual a origem do conhecimento: a razão ou a experiência? Racionalismo: a razão é a fonte principal do conhecimento. O conhecimento sensível é considerado enganador. Por isso, as representações da razão são as mais certas, e as únicas que podem conduzir ao conhecimento logicamente necessário e universalmente válido. Os racionalistas partem do princípio que o sujeito cognoscente é ativo e, ao criar uma representação de qualquer objeto real, está a submetê-lo às suas estruturas ideias. Entre os filósofos que assumiram uma perspectiva 35 racionalista do conhecimento, destacam-se Platão, René Descartes (1596-1650) e Leibniz. Todos eles partem do princípio que temos ideias inatas e que é a nossa razão que constrói a realidade tal como a percebemos. Descartes é considerado o fundador do racionalismo moderno. Após ter suspendido a validade de todos os conhecimentos, porque susceptíveis de serem postos em causa, descobre que a única coisa que resiste à própria dúvida é a razão. Esta seria a primeira verdade absoluta da filosofia. Descobre ainda que possuímos ideias que se impõem à razão como verdadeiras mas que não derivam da experiência (as ideias inatas). Só com base nestas ideias claras e distintas, segundo Descartes, se poderia construir por dedução um conhecimento universal e necessário. Empirismo: a experiência é a fonte de todo o conhecimento. Os empiristas negam a existência de ideias inatas, como defendiam Platão e Descartes. A mente está vazia antes de receber qualquer tipo de informação proveniente dos sentidos. Todo o conhecimento sobre as coisas, mesmo aquele em que se elabora leis universais, provém da experiência, por isso mesmo, só é válido dentro dos limites do observável. Os empiristas reservam para a razão a função de uma mera organização de dados da experiência sensível, sendo as ideias ou conceitos da razão simples cópias ou combinações de dados provenientes desta experiência. FONTE: (GRAYLING, 1996) 36 Retórica e Oratória “A definição de retórica é conhecida: é a arte de bem falar, de mostrar eloquência diante de um público para ganhar a sua causa. Isto vai da persuasão à vontade de agradar: tudo depende (...) da causa, do que motiva alguém a dirigir-se a outrem. O caráter argumentativo está presente desde o início: justificamos uma tese com argumentos, mas o adversário faz o mesmo: neste caso, a retórica não se distingue em nada da argumentação (...). Para os antigos, a retórica englobava tanto a arte de bem falar - ou eloquência - como o estudo do discurso ou as técnicas de persuasão até mesmo de manipulação” (MEYER, 1997). A origem da Retórica como técnica oratória de persuasão, remonta à necessidade grega na nova configuração das relações sociais com o advento da Pólis e do regime democrático. Há toda uma configuração histórica contextual que precisa ser entendida para compreender os desdobramentos e necessidade do aprendizado da Oratória nesses tempos remotos, bem como sua aplicação e necessidade nos tempos atuais. Juntamente com a Lógica Argumentativa, a Filosofia Política e a Ética, a Retórica e a Oratória constitui um estudo racional do discurso, se constituindo um dos grandes temas da filosofia. A palavra Retórica (originária do grego rhetoriké, “arte da retórica”, subentendendo-se o substantivo téchne) tem sido entendida historicamente em acepções muito diversas. Em sentido lato, a retórica se mistura com a poética, consistindo na arte da eloquência em qualquer tipo de discurso. Não é esse, no entanto, o sentido que interessa no estudo em questão, mas a concepção mais restrita que identifica a retórica como “a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão” (PACHECO, 2008). Como características básicas da retórica temos: • A retórica exerce a persuasão por meio de um discurso. Não se recorre a um experimento empírico nem à violência, mas procura-se ganhar a adesão intelectual do auditório apenas com o uso da argumentação; 37 • A retórica se preocupa mais com a adesão do que com a verdade. O objetivo daquele que a exerce é obter o assentimento do auditório à tese que apresenta. A verdade ou falsidade da mesma é uma questão secundária; • A retórica se utiliza da linguagem comum do dia-a-dia, e não de uma linguagem técnica ou especializada.Isso ocorre porque a retórica é dirigida a todos os homens, e não a um setor específico da população; • A retórica não se limita a transmitir noções neutras e assépticas, mas tem sempre em vista um determinado comportamento concreto resultante da persuasão por ela exercida, já que se propõe a modificar não só as convicções, mas também as atitudes (PACHECO, 2008). Na verdade, para compreender a retórica é preciso levar em conta o processo histórico de sua formação e evolução no mundo grego. Suas origens estão relacionadas às novas relações sociais advindas do surgimento da Polis como foi falado acima, consistindo sua essência na persuasão através da argumentação, portanto, não há como pensar na retórica sem democracia e liberdade de debate, características da organização política do mundo grego. Ligada também ao Direito, no aspecto que Aristóteles chamou de “Gênero judicial” do discurso retórico (PACHECO, 2008). A Retórica só se desenvolveu plenamente, no entanto, após a consolidação da democracia ateniense. Todos os cidadãos atenienses participavam diretamente nas assembléias populares, que possuíam funções legislativas, executivas e judiciárias. Assim, todos os assuntos eram submetidos ao voto popular - a organização do estado, a fixação de impostos, a declaração de guerra e até mesmo a morte de um cidadão, tudo isso era submetido à apreciação dos tribunais de justiça. Nenhum cidadão podia escapar à sua cota de responsabilidade, que muitas vezes incluía a justificativa de sua opinião perante uma platéia. O exercício da função política dependia, portanto, da habilidade em raciocinar, falar e argumentar corretamente, e era natural que houvesse uma demanda de professores que proporcionassem a necessária “educação política”. Esses professores eram os sofistas (PACHECO, 2008). 38 A maioria dos sofistas desprezava o conhecimento daquilo que discutiam, contentando-se com simples opiniões, concentrado a sua atenção nas técnicas de persuasão e, tanto por isso, encontramos oposicionistas como Sócrates e Platão, que afirmavam ser a retórica, uma negação da própria filosofia e passaram a impor como condição primeira da filosofia, que o discurso fosse dirigido à razão e não à emoção, não sendo necessário convencer ninguém. Durante a Idade Média, a argumentação adquiriu enorme divulgação, nomeadamente entre os cléricos, ocupando um lugar central na educação (fazia parte do Trivium) (FONTES, 2008). Na Idade Moderna, a retórica continuou a desfrutar ainda de algum prestígio nos países católicos (é só relembrar o orador Padre Antonio Vieira), mas segundo Fontes (2008), a tendência era outra. A Retórica como arte argumentativa começou a ser completamente desacreditada. Descartes reafirma o primado das evidências sobre os argumentos verossímeis. Na mesma linha, se desenvolve o discurso científico. Não se trata de convencer ninguém, mas de demonstrar com “fatos”, “dados”, “provas” a Verdade (única e irrefutável). Chegamos ao século XX e a verdade dos filósofos não pode mais ser admitida como ponto de partida para qualquer discussão, muito por conseqüência das teses relativistas e o descrédito das ideologias. Fontes (2008) nos diz que todas as filosofias não passam de opiniões plausíveis que devem ser continuamente demonstradas através de argumentos também plausíveis. Neste sentido, toda a filosofia é um espaço sempre em aberto e susceptível de continuas revisões. 39 Ontologia e Cosmologia Respectivamente, Ontologia e Cosmologia são: A Ciência do Ser e a Ciência do Cosmos. A Ontologia parte do princípio que existe algo perene, além das particularidades de cada coisa, além dos acidentes, estudando, portanto, o SER enquanto SER (SANTOS, 1957). A Cosmologia preocupa-se, sobretudo, com uma concepção do Universo, seja ele físico ou metafísico (SANTOS, 1957). Ambos os estudos fazem parte da concepção Metafísica da Filosofia (sendo objeto desta), no entanto, inseridos nela, revelam apenas aspectos do que a Metafísica é como um todo: a ciência da realidade última das coisas (SANTOS, 1957). Se um cosmos (de Cosmos, em grego, universo organizado em oposição a Caos) tem realmente uma ordem, se é um e único, se há vários, se entre eles há pontos de contato ou não, se forma uma unidade ou uma pluralidade, se essa unidade é homogênea ou o produto de uma pluralidade, heterogênea, portanto, que se unifica, etc., tais perguntas cabem à Metafísica responder (SANTOS, 1957). A filosofia não se dá fora da vida, ou seja, pertence à vida e ao homem, e busca, através do cosmos, invadir os mais altos terrenos sobre a origem e o destino do ser humano, não impedindo, é claro, que se torne em ócio agradável de alguns espíritos. De acordo com Fontes (2008) a Cosmologia enquanto disciplina filosófica usa métodos metafísicos para estudar os magnos problemas que surgem da visão do nosso cosmos, sendo que entre os gregos, o problema cosmológico fora colocado desde a antiguidade, como encontramos nas origens da filosofia hindu, da filosofia chinesa e da egípcia. O mesmo autor infere sobre duas vertentes da cosmologia, a científica (que estuda as diversas hipóteses sobre a ordenação do mundo) e a filosófica (que examina tais hipóteses e estabelece especulações fundadas apenas em métodos metafísicos), 40 entretanto, o próprio confere a essa classificação uma certa arbitrariedade, ou seja, não há tanta distinção assim entre elas, se confundindo em seus centros Para distinguir a Cosmologia científica da filosófica, Fontes (2008) propõe indicar que a primeira, em suas observações, pode comprová-las, empregando até certo ponto os métodos da ciência, enquanto a metafísica baseia-se nos métodos filosóficos para estudar o cosmos. Enfim, a Cosmologia é a ciência filosófica que estuda a origem, determinação, significação e destino do mundo. 41 CAPÍTULO 5 - OS RAMOS DA FILOSOFIA Social e política No entendimento de Almeida (2005) a Filosofia Política está intimamente ligada á Ética, principalmente por fazer parte da Ética da Coletividade. O autor ressalta que na antiguidade não houve separação entre a moral das pessoas e suas atuações políticas, sendo a Ética responsável por ambas. A melhor definição possível para a Filosofia Política é a mais ampla possível, ou seja, é o campo da investigação filosófica que se ocupa das relações humanas consideradas em seu sentido coletivo. Voltando à Antiguidade grega e romana (principalmente na primeira), discutia-se os limites e as possibilidades de uma sociedade justa e ideal (Platão, com sua obra A República). Mas o que se tornou célebre, por tornar-se a teorização da prática política grega, em particular de Atenas, foi o tema do bem comum (Aristóteles), representado pelo homem político, compreendido como o cidadão habitante da Polis, o homem politikós que opinando e reunindo-se livremente na Ágora, junto a seus pares, discute e delibera acerca das leis e das estruturas da sociedade. Já em Roma, Cícero teorizou aRepública como espaço das liberdades cívicas, em que ocorre uma complementaridade entre os senadores e a plebe (tese retomada no século XVI por Maquiavel). Segundo Politzer (2001) e Chauí (2003), desde fins da Idade Média, a Filosofia Política e os pensadores tratavam das mais variadas questões sobre a legitimação e a justificação do Estado e do governo: • Os limites e a organização do Estado frente ao indivíduo (Thomas Hobbes, John Locke, dentre outros); • As relações gerais entre sociedade, Estado e moral (Nicolau Maquiavel, Augusto Comte, Antonio Gramsci); • As relações entre a economia e política (Karl Marx, F. Engels, Max Weber); • O poder como constituidor do “indivíduo” (Michel Foucault); 42 • As questões sobre a liberdade (Benjamin Constant, John Stuart Mill, Hannah Arendt, Raymond Aron, Norberto Bobbio); • As questões sobre justiça e Direito (Kant, Hegel, Habermas) e, • As questões sobre participação e deliberação (Habermas, Joshua Cohen). Educação É tarefa da Filosofia da Educação contribuir para a intencionalização da prática educacional, a partir de sua própria construção em ato; como presença atuante na sociedade. Essa internacionalização quer dizer, dar condições à prática educacional para que se realize como práxis, ou seja, como ação pautada num sentido, como ação pensada, refletida, apoiada em significações construídas, explicitadas e assumidas pelos sujeitos envolvidos. É por isso que se pode definir a Filosofia da Educação como o esforço para o desvendamento/construção do sentido da educação no contexto do sentido da existência humana, em sua totalidade (MIRANDA, 2008). Para Kohan (2008), pensar, reformular e fundamentar a função do professor como educador, a função dos alunos enquanto educandos e a própria função da educação como método de aprendizado e seus próprios métodos de ensino e tantos outros temas e abordagens em relação ao ensino é o escopo da Filosofia da Educação. Como havia falado inicialmente sobre o descaso do ensino de filosofia nos países latino-americanos, mais especificamente no Brasil, realmente ela ocupa um lugar de pouco interessante no universo acadêmico e no Ensino Médio, embora tenhamos observado tentativas do MEC em levá-la para as escolas. “Depreciada na imensa maioria dos departamentos de filosofia das instituições de formação superior, acolhida nos de educação, costuma ser matéria obrigatória nos cursos de formação de mestres. Tornada, assim, muitas vezes, o único espaço de contato com a filosofia durante todo o processo de formação, seus docentes, programas e bibliografia costumam manter, no melhor dos casos, um caráter enciclopédico, totalizador e fundacionista. Em todo o caso, o repertório não parece muito variado: aqui, a história das ideias filosóficas sobre a educação; lá, correntes do pensamento filosófico 43 sobre a educação; ou, então, o estudo das divisões mais ou menos claras do saber pedagógico, segundo orientações bastante clássicas do conhecimento filosófico: um pouco de epistemologia, outro tanto de axiologia e de ontologia, usadas para explicar o fenômeno educativo. Dessa forma, o aluno mais afortunado poderá compreender, com a ajuda de um mestre explicador, um saber filosófico, histórico ou sistemático, sobre a educação. Aprenderá a distinguir, com as explicações que recebeu, escolas e orientações pedagógicas, períodos, conceitos e categorias, que habilmente relacionará às correntes de pensamento já instituídas. Para os menos afortunados, essas mesmas explicações funcionarão, muito mais simplesmente, como uma espécie de doutrinação educativa, que os infundirá, brutal ou delicadamente, da firme crença nos fins, nos valores e nos ideais que deverão passar a perseguir (KOHAN, 2008). O mesmo autor nos mostra que esses modos de ensinar a filosofia da educação não estão isentos de pressupostos sobre o significado e sentido de ensinar e aprender a filosofia, assim como sobre suas relações com a educação. Trata-se, basicamente, de transmitir um certo saber instituído, predeterminado, que permitirá uma compreensão mais “crítica” do fenômeno educacional ou, simplesmente, compreender a “verdadeira” missão da filosofia na educação. O saber filosófico pode toma a forma de conteúdos conceituais ou atitudinais que contribuirão para a aquisição das habilidades ou competências de pensamento crítico, por parte do(a)s futuro(a)s profissionais da educação. Mente Encontramos em Teixeira (2) (2008) algumas referências sobre a Filosofia da mente, como um estilo de filosofar que nos últimos anos vem recolocando questões centrais da filosofia como: O que é o pensamento? Qual a natureza do mental? O que é consciência? Será o cérebro o produtor da mente? Ou apenas o seu hospedeiro biológico? Será que pensamos com nossa cabeça ou somente “em” nossa cabeça? Para Miranda (2008), uma ponte legítima entre as neurociências e a especulação filosófica coloca a Filosofia da Mente como vanguarda entre a reserva que existe entre os limites da ciência e da filosofia. Ambas dão exemplo da necessária retroalimentação entre um conhecimento experimental e o especulativo, abrindo caminhos uma para outra no entendimento necessário do universo cognitivo humano. 44 Já Zilhão (2008) coloca o fato de que a Filosofia da Mente contemporânea e as Ciências cognitivas se distinguem por serem sensíveis a diferentes aspectos do seu problema crucial. Nesse campo encontramos os experimentos mentais que são muito antigos, remontando à tradição grega, como por exemplo, a alegoria do mito da caverna de Platão. Muitos experimentos mentais incluem aparentes paradoxos sobre fatos conhecidos ou aceitos que tem permitido reformular ou precisar em maior medida diferentes teorias científicas. Segundo Chauí (2003), a filosofia faz intenso uso de experimentos mentais. Como exemplo, podemos citar dentro da metafísica, o paradoxo de Zenão; na epistemologia, o Mito da Caverna, o Cérebro numa cuba; dentro da filosofia da mente, terra gêmea, quarto chinês e ainda como identidade pessoal, o homem do pântano. Religião Já deu para entendemos que filosofia é o movimento do pensar globalmente a relação da vida humana no mundo, desde o mundo e como ela concebe o mundo. Dentro desse enfoque, Teixeira (1) (2008) nos lembra o fenômeno religioso que se transforma em um dos escopos filosóficos por excelência. A mesma autora discute ainda que, mesmo que tenhamos uma consciência contemporânea pós-moderna marcada pelo conhecimento científico, avanços tecnológicos e um ceticismo atuante, a proliferação de seitas, religiões e culturas misteriosas precisam ser estudadas filosoficamente, sendo tema recorrente da Filosofia da Religião, assim como o próprio repensar e desvendar das religiões já constituídas e consolidadas. Outro ponto a se considerar é que, apesar da multiplicidade de religiões com diferentes cultos, mitos e práticas, os filósofos têm-se tradicionalmente centrado nas religiões dominantes no ocidente — o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Uma das razões deve- se ao fato de estas religiões fornecerem visões complexas acerca do modo como o mundo e o universo se comportam, ao contrário do que se passa com as religiõesorientais — como o hinduísmo, o budismo e o confucionismo — que se preocupam mais em propor formas 45 de conduta e de viver. O que interessa em geral aos filósofos é saber se a visão religiosa do universo é ou não verdadeira. Comum às religiões ocidentais é a crença na existência de Deus, caracterizado como uma pessoa incorpórea e eterna, que criou o universo, que é sumamente boa (moralmente perfeita), que é toda-poderosa (omnipotente), que sabe tudo (omnisciente), que está em todo o lado (omnipresente), etc. Diz-se que este deus é o Deus teísta, e chama-se teísmo à crença na sua existência, de modo que não é de estranhar que os problemas que mais têm atraído a atenção dos filósofos sejam o da coerência do conceito de Deus e o da existência de Deus (TEIXEIRA (1) 2008). Um dos paradoxos clássicos relativamente à coerência do conceito de Deus é o de saber se Deus pode criar uma pedra tão pesada que Ele não a possa levantar. Se Deus é omnipotente, então pode criar tal pedra, mas se a criar então não é omnipotente, porque depois não pode levantá-la. Por outro lado, se não a pode criar, então não é omnipotente. Uma resposta a este problema é a de que Deus não pode criar impossibilidades lógicas. Outro problema é o de saber se a existência de Deus é compatível com a liberdade humana: se Deus sabe tudo, então sabe o que vamos fazer; mas, se sabe o que vamos fazer, então o que vamos fazer já está determinado; logo, não pode haver livre-arbítrio. A questão de saber se Deus existe é a que mais tem interessado aos filósofos. São vários os argumentos a favor da existência de Deus, muitos deles apresentados na Idade Média. Por exemplo, só da autoria de S. Tomás de Aquino há cinco argumentos a favor da existência de Deus. Os principais tipos de argumentos a favor da existência de Deus são: o argumento ontológico, o argumento cosmológico e o argumento do desígnio (TEIXEIRA (1) 2008). Dois outros problemas igualmente muito discutidos são o papel dos milagres enquanto provas da existência de Deus, a que David Hume levantou fortes objeções, e o problema do mal (TEIXEIRA (1) 2008). Outros problemas igualmente importantes são os seguintes: Será que a existência de Deus é compatível com a liberdade humana? Será que existe vida depois da morte? Como compreender conceitos como o de fé, salvação e criação, entre outros? (TEIXEIRA (1) 2008). 46 Entre nós, a filosofia da religião certamente não é uma prioridade. Para isso há diversas razões. Por um lado, em nossa época, predomina a consciência marcada pelo saber científico, pela técnica e pela crítica iluminista, centrada na imanência. Tal postura ignora o pensamento religioso. Por outro, nas últimas décadas, a teologia pulverizou-se em tantas teologias que, no meio cristão, a única coisa comum que sobrou parece reduzir- se ao recurso à Bíblia (PAULI, 1997). Para Zilles (2006), o diálogo entre filosofia e religião é tão antigo como a própria filosofia. A partir da tensão desafiadora entre conhecimento autônomo e fé gratuita, desenvolveram-se sistemas filosóficos e projetos teológicos. Mas, se, no passado distante, a religião pertencia aos temas centrais da reflexão filosófica, nos tempos modernos e recentes, o problema dos fenômenos religiosos é cada vez mais marginalizado. O homem moderno, esclarecido, evita argumentos religiosos como evita falar de Deus. Consideram-se tais coisas reservadas ao púlpito ou simplesmente pertencentes à esfera íntima e privada de cada pessoa ou, então, quando muito, busca-se espaço para a crítica do conceito de Deus e de religião. Por outro lado, a filosofia não consegue demonstrar religião, mas pode mostrar seus fundamentos. Pode mostrar que se trata de um fenômeno original e colocá-lo ao lado de outros; descobrir os vestígios da religião e seus símbolos na cultura secularizada. A filosofia, segundo Wittgenstein, pode mostrar como são estreitos os limites da linguagem e da racionalidade. O espaço limitado pela linguagem e pela razão é pequeno para nele viver. Mostrando os limites da linguagem e do pensamento, indica para além dos mesmos (ZILLES, 2006). A filosofia da religião não se limita a descrições neutras de costumes da linguagem religiosa, nem fixa normas arbitrárias para o uso religioso da linguagem. Sua missão consiste em mostrar sentido e profundidade da religião, na vida humana, de maneira crítica. Vale usar a razão, para completar a fé, e crer, para aprofundar a razão, enfim, humanizar mais o homem e a humanidade. Enfim, a filosofia da religião pensa criticamente o fenômeno religioso como fenômeno que diz respeito ao homem e à humanidade, sendo o fenômeno religioso a expressão da liberdade (ZILLES, 2006). 47 Analítica Segundo Marcondes (2004), a análise em filosofia é um método utilizado ao menos desde os tempos de Platão e Aristóteles, mas tornando-se característico entre o final do século 19 e o início do século 20. Na Antiguidade, em Platão a análise foi motivada pelo seu realismo, segundo o qual as coisas são tal qual se apresentam ao intelecto, e não tal qual se apresentam aos sentidos. Assim, para se compreender a realidade que se apresenta aos órgãos dos sentidos é preciso decompô-la (MARCONDES, 2004). Os filósofos analíticos viram a análise lingüística e conceitual como um modo de chegar à compreensão sobre temas vistos tradicionalmente como problemas na filosofia. Alguns, pioneiros, como Frege, buscaram uma linguagem científica à qual a linguagem ordinária pudesse ser reduzida. Outros, posteriores, como John L. Austin, viram a linguagem ordinária como o ponto de partida inevitável para o esclarecimento através da análise (MARCONDES, 2004). Inicialmente, as propostas da filosofia analítica eram exclusivamente analisar conceitos para resolver problemas filosóficos. A Hermenêutica O termo hermenêutica vem do grego e significa declarar, anunciar, interpretar, esclarecer e ainda, traduzir. Em outras palavras, significa que alguma coisa é tornada compreensível. Filosoficamente o termo deriva do nome do deus da mitologia grega, Hermes, mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam a origem da linguagem e da escrita, sendo ainda considerado o patrono da comunicação e do entendimento humano. Relativo à expressão “dos deuses”, a qual precisa de uma interpretação mais profunda para ser apreendida corretamente. Encontramos em Spinoza, um dos precursores da hermenêutica bíblica, ou seja, aquele que interpreta correta e objetivamente a bíblia. 48 Também pode ser entendida como ciência ou técnica que tem por objetivo exclusivo, interpretar textos religiosos, especialmente as Sagradas Escrituras. Para Schleiermacher a hermenêutica não visa o saber teórico, mas sim o uso prático, isto é, a práxis ou a técnica da boa interpretação de um texto falado ou escrito. Trata-se aí da “compreensão”, que se tornou desde então o conceito básico e a finalidade fundamental de toda a questão hermenêutica. Schleiermacher define a hermenêutica como “reconstrução histórica e divinatória, objetiva e subjetiva, de um dado discurso” (COLLINSON, 2006). A maiêutica A maiêutica foi um método criado por Sócrates que a definiu como o momento do parto intelectual da procura daverdade no interior do homem, ou seja, “parir” ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de determinado contexto. A auto-reflexão, expressa no nosce te ipsum “conhece a ti mesmo” põe o Homem na procura das verdades universais que são o caminho para a prática do bem e da virtude. 49 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ALMEIDA, Rodrigo Andrade de. Panorama histórico da filosofia política, da antigüidade ao período pós-revolucionário. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 835, 16 out. 2005. BRASIL. 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A ética do dever tem como princípio o seguinte fundamento: a melhor ação é esta porque isto é o correto a ser feito. A ética dos fins tem como princípio: ainda que isto signifique uma ação moralmente incorreta, neste momento, é melhor tomá-la e evitar um mal maior no futuro. Em geral, um exemplo significativo desse dilema se dá em relação a moral religiosa. Na Bíblia está escrito que não devemos julgar para não sermos julgados. Tomando ao pé da letra, tal preceito impediria todo o funcionamento do sistema judiciário. No entanto, o mesmo preceito pode ser compreendido em outra perspectiva, qual seja, não queira julgar se alguém é ou não pecador, portanto, que ninguém diga que o outro está condenado às penas divinas, pois somente Deus julga. Em relação à lei dos homens, trata-se de um julgamento meramente humano e nada tem a ver com as leis divinas. Tal interpretação, porém, só é compreensível a partir do momento em que vemos a lei como laica, isto é, que não se pode tomar preceitos religiosos para fundamentar leis civis, porque as religiões dentro de um mesmo Estado podem ser muitas e, nenhuma, deve ter a primazia para orientar o comportamento de todos os cidadãos. Nas teocracias – tanto as atuais como as antigas – as leis da religião oficial se tornam também leis civis, portanto, os que julgam condenam tanto o criminoso como o infiel. O dilema ético contemporâneo que se encontra em maior evidência é o do aborto. Há dois casos em que o aborto é considerado legal: se resultado de um estupro e se a gestação coloca em risco a vida da mãe. Do ponto de vista da ética do dever, portanto, com exceção desses dois casos e da anencefalia, autorizar um aborto porque a mãe não deseja ter o filho seria inadequado. Porém, o argumento daqueles que partem do princípio da “ética do maior bem possível” é a deque impedir o aborto legal leva milhares de mulheres às clínicas clandestinas causando mortes ou problemas de saúde que mais tarde deverão ser atendidos no sistema público de saúde elevando os custos para toda a sociedade. Portanto, para esse grupo, autorizar o aborto é uma forma de minimizar a morte de mulheres e reduzir os custos da saúde pública. 53 CAPÍTULO 1 - A ÉTICA NA FILOSOFIA ANTIGA 1.1 ÉTICA SOFÍSTICA A filosofia nasce com os filósofos conhecidos como pré-socráticos,dentre eles destacamos Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Parmênides, Heráclito, Demócrito. Buscavam o conhecimento sobre a origem de todas as coisas, a chamada physis, muitas vezes incorretamente traduzida por natureza. O período da Filosofia da physis é conhecido também por cosmológico, pois sua preocupação era antes de mais nada com a ordem do universo, a definição do ser, a origem das coisas. Os sofistas modificaram o tema da filosofia, transportaram o tema principal para o homem. Assim, as relações humanas, as possibilidades da linguagem, a cultura, a política, passam a ser os novos objetos de investigação da Filosofia. O período sofístico também passa a ser conhecido como humanístico. Como foram adversários de Sócrates, Platão e Aristóteles, os sofistas passaram para a histórica como falsos filósofos, afinal, nos diálogos platônicos foram desmascarados por Sócrates. No entanto, a partir do século XIX, especialmente, vários filósofos recuperaram a imagem dos sofistas procurando entender seus pensamentos por suas próprias expressões e não mais pelas palavras de Platão. Outro fenômeno causado pelos sofistas foi a disseminação da cultura helênica, pois esses filósofos circulavam por entre as cidades, ensinando a quem os contratasse para ensinar. A arte da oratória e da escrita foram levadas aos seus graus máximos de excelência, pois além de ensinarem, tais filósofos também defendiam pessoas em tribunais públicos, ou posições políticas nos debates. Sua ferramenta era a linguagem e seu objetivo demonstrar os erros de raciocínio do adversário, bem como impor o seu. Aristóteles registrou em seus elencos sofísticos os principais recursos retóricos utilizados por eles. Dentre os principais sofistas destacaremos dois: Protágoras e Górgias. O primeiro nasceu em Abdera e sua frase mais conhecida é “o homem é a medida de todas as coisas” esse é o conceito de homo mesura. Tal concepção nos remete à ideia de que o conhecimento das coisas, ou da verdade sobre as coisas, é resultado da construção humana, ou ainda, da construção possível da linguagem humana. Não há uma verdade oculta a ser desvendada pelos raciocínios filosóficos, mas a verdade reside justamente na linguagem. Os pré- 54 socráticos buscavam a relação entre physis (origem) e logos (saber/linguagem); para Protágoras, há somente o logos, sabedoria e linguagem se fundem numa unidade indissolúvel. Górgias de Leontinos, em sua obra, ataca os fundamentos da Filosofia pré- socrática a partir de três teses fundamentais. A primeira afirma: “o ser não existe”. Tal tese nos remete a ideia de que não há uma verdade oculta por trás das coisas a qual pode ser desvendada. Não há, portanto, nenhuma physis a ser descoberta pelo logos. Em sua segunda tese afirma: “se o ser existisse não poderia ser pensado”; essa concepção nos remete à ideia de que o pensamento está dentro do limite humano e que, portanto, não é possível conceber o ser das coisas, mas somente o próprio pensamento. Ora o nosso pensamento não é o ser das coisas, mas apenas pensamento. Também afirma: “se existisse e fosse pensável, não seria comunicável”; aqui vemos a delimitação do uso da linguagem. Nesse caso, a ideia central é a de que mesmo que pudéssemos pensar o ser, não haveria como comunicá-lo a outra pessoa, porque a linguagem não nos permite transmitir as coisas mesmas, mas somente suas representações em forma de palavras e fonemas. Conclusões A respeito da ética sofística podemos compreender que para eles como não há verdades ocultas por trás das aparências das coisas, não há também nenhum critério absoluto e intocável que possa orientar a conduta ética. Essa deve ser definida dentro do limite humano do pensamento e da palavra. Assim, não buscam um princípio metafísico de verdade, justiça, bem ou qualquer outro que possa servir de orientação para o estabelecimento daquilo que é bom, mau, justo ou injusto na vida concreta dos homens. Essas coisas devem ser conhecidas e definidas a partir da própria realidade humana, homo mesura, da linguagem e da cultura. Tais filósofos, evidentemente, são acusados de relativismo ético, pois dessa forma, não havendo critério absoluto para definir o que é bem e o que é mal estamos sempre à procura dos critérios de definição. Dentre estes acusadores está o maior adversário que enfrentaram: Sócrates. 55 1.2 SÓCRATES O pensamento socrático foi registrado por dois discípulos: Xenócrates e Platão. No entanto, apesar de inúmeros pontos em comum, há diferenças entre os registros destes dois discípulos. Em Xenofonte, temos um Sócrates bem mais próximo dos sofistas, pois, em geral, os registros de seus argumentos estão presos ao campo da linguagem e ele mais faz destruir a argumentação dos adversários do que, propriamente, demonstrar verdades sobre a ética. Em Platão, no entanto,Sócrates além de contra-argumentar os pensamentos sofísticos registrados em diálogos como Górgias, Protágoras, Laquês, Teeteto, também demonstra a necessidade de se encontrar princípios que estejam além da realidade e que devem nortear a ética. Assim, a ética socrática diferencia-se da sofística, nesta perspectiva, na medida em que esta não está baseada em princípios metafísicos e aquela, busca tais princípios para orientarem a conduta do indivíduo, bem como a lei. Por exemplo, lemos nas Memoráveis de Xenofonte: “Farei também por contar como Sócrates formava seus discípulos na dialética. Achava que, quando se conhece bem o que seja cada coisa em particular, pode-se explicá-la aos outros; mas que, se se ignora, não admira que se engane a si mesmo e consigo aos outros”. Aristófanes foi o primeiro a dizer que Sócrates mais parecia um sofista do que propriamente seus adversários em sua peça teatral As Nuvens. Nietzsche, em A Gaia Ciência, também o chama de sofista. Sua obra, registrada pelos escritos de Platão, destaca-se por opor-se ao pensamento sofístico. 1.2 PLATÃO A doutrina ética de Platão nos remete à ideia de que existem: o bem, a verdade, a justiça, e outros elementos da ética. Ao contrário dos sofistas que não acreditavam na existência desses entes. Uma vez que, se pode conhecer, por exemplo, o que é o bem, então os casos particulares nos quais deve se julgar o que é o bem e o que é o mal deve ser orientado por aquele conhecimento do que é o bem. Ora, conforme Platão, não podemos depreender o que é o bem ou o que é o justo somente observando os casos concretos que ocorrem, tal observação nunca se esgotará, haverá sempre a possibilidade de novos 56 eventos. Será preciso usar de um critério que não derive dos casos particulares, mas ao contrário, que oriente a análise desses casos. Por isso, em Platão, o conhecimento e a ética estão profundamente imbricados. Afinal de contas, para que se julgue uma ação conforme a ética é preciso de um critério e esse só pode ser obtido por meio do uso abstrato da razão. Nesse filósofo, o modelo da geometria é fundamental para a Filosofia. Por meio de raciocínios, podemos nos distanciar da dependência dos casos particulares, dos fenômenos e entendero que as coisas são. Esta é a teoria das ideias, isto é, o que as coisas são? Ideias. No entanto, as coisas concretas, os fenômenos ou as aparências existem de fato, mas são apenas uma, das inúmeras possibilidades de existências das ideias. Tomemos como exemplo uma mesa. Ora por mais que observemos todas as mesas existentes no mundo hoje, não esgotaremos uma definição do que é mesa: quadrada, redonda; de madeira, de ferro; para cozinha, para sala; branca, azul? Definir o que é mesa é antes um exercício da razão do que de observação. Como dissemos anteriormente, se definir o que é mesa exige o uso da razão, definir o que é justo ou injusto torna-se ainda mais complicado. Por isso, Platão insiste em abandonar a observação dos casos reais e avançar cada vez mais em direção à ideia em si, ou como ele diz, a coisa – em – si. Vejamos o que nos diz no livro VII da República: Sócrates – Mas como? Achas espantoso que um homem que passa das contemplações divinas às miseráveis coisas humanas revele repugnância e pareça inteiramente ridículo, quando, ainda com a vista perturbada e não estando suficientemente acostumado às trevas circundantes, é obrigado a entrar em disputa, perante os tribunais ou em qualquer outra parte, sobre sombras de justiça ou sobre as imagens que projetam essas sombras, e a combater as interpretações que disso dão os que nunca viram a justiça em si mesma? (Platão, 1987, p. 255). Esse princípio de que nosso conhecimento não passa de sombras do que as coisas realmente são (no exemplo acima, a justiça em si mesma) sintetiza os dois polos principais de seu pensamento, isto é, o problema do conhecimento e o da ética. A alegoria da caverna, também presente no livro VII da República, é a mais conhecida ilustração que Platão faz desses dois polos. 57 Sócrates – Agora, prossegui, imagina da maneira que se segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, tendo a toda a largura uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, dado que a cadeia os impede de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada alta: imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem suas maravilhas. Imagina, agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda a espécie, que transpõem o muro, e estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda a espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e os outros calam-se. (...) E, para começar, achas que, numa tal situação, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte? (...) E, portanto, se pudessem comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam? (pp. 251 – 252). Essa alegoria ilustra muito bem o problema platônico: o que nós observamos são as sombras dos objetos reais e não os objetos mesmo. Portanto, perdemos nosso tempo tentando descobrir o que as coisas são pelo que “vemos”, isto é, pelo conhecimento dos inúmeros fenômenos onde a justiça, o bem, o mal, o belo aparecerem. 1.4 ARISTÓTELES Aristóteles foi o mais famoso discípulo de Platão. Enquanto este fundou e dirigiu a Academia, seu discípulo fundou e dirigiu o Liceu. Aristóteles, apesar da admiração pelo mestre e por Sócrates, não deixou de efetuar críticas a eles e elaborar sua própria Filosofia. Essa se estende por vários campos, a Física, a Metafísica (ou Filosofia primeira em suas palavras), a linguagem, o raciocínio e, como não poderia deixar de ser, sobre ética e política. Sobre a ética sua obra mais conhecida é a Ética a Nicômacos, este não é outro senão o próprio filho de Aristóteles. São vários os temas presentes nos livros da Ética a Nicômacos, o bem, a excelência moral, o meio termo, a amizade, o prazer e outros, concentrar-nos-emos nos mais 58 significativos para esta obra. No livro 2 da Ética, Aristóteles afirma que o propósito desse livro não é o conhecimento teórico, mas o prático, porque seu objetivo não é somente dar a conhecer o que é a excelência moral, mas praticá-la. Assim, precisamos entender o que é a excelência moral e como ela pode ser alcançada. A excelência moral é uma disposição da alma que pode ser alcançada somente pelo hábito. Para Aristóteles, nossa alma possui três manifestações: emoções, como os desejos de cólera, medo, temeridade, inveja, alegria e outros; as faculdades que são nossas capacidades naturais, como por exemplo, a inteligência; e disposições as quais podem ser para a excelência ou para a deficiência. As disposições para a excelência ou para a deficiência moral não decorrem das emoções, mas de uma escolha, portanto não somos excelentes ou deficientes moralmente por natureza, mas por escolha. Ou seja, não são nossas emoções que nos fazem escolher esta ou aquela ação, mas nossa disposição para a excelência ou deficiência moral. A excelência moral, além de proporcionar boas condições à coisa a que ela dá excelência, faz com que esta mesma coisa atue bem, como por exemplo, a excelência dos olhos é a de serem sadios e permitirem uma boa visão; assim como o cavalo são é sadio e permite transportar o homem. Ter excelência moral é bom em si e suas consequências também o são, ou seja, o resultado das ações de quem possui excelência moral são bons em si. Por outro lado, a excelência moral é a nossa disposição para escolher o meio termo, por meio da percepção. Assim, quando estamos diante de situações que exigem uma escolha moral, a razão não é o único critério de escolha, pois há também necessidade da percepção e da excelência moral. A excelência nos leva a escolher o bem; a razão, o meio termo. Esse não pode ser encontrado universalmente, isto é, não existe um meio termo natural do objeto, pois é preciso sempre levar em conta as condições de escolha, daí a necessidade da razão para nos levar a compreender qual é o meio termo em cada circunstância. Por exemplo, seis é o meio termo entre dez e dois; mas comer um quilo de alimento pode ser muito, assim como, duzentos gramas, pouco. Conforme a pessoa seiscentos gramas não são, necessariamente, o meio termo. Eis alguns exemplos que ilustram o meio termo: • O meio termo entre o medo e a temeridade é a coragem; 59 • O meio termo entre a insensibilidade e a concupiscência é a moderação; • O meio termo entre a avareza e a prodigalidade é a liberalidade; • O meio termo entre o irascível e o apático é o amável; • O meio termo entre o acanhado e o impudente é o recatado; • O meio termo entre a inveja e o despeito é a indignação justa. Ora, da mesma forma que o médio é maior que o menor e menor do que o maior, os dois extremos, isto é, as duas disposições que pecam pelo excesso ou pela falta, relativizam, o meio termo. Por exemplo, o corajoso é chamado de covarde pelo temerário e de temerário pelo covarde; da mesma forma, o moderado é chamado de insensível pelo concupiscente e de concupiscente pelo insensível. É bem mais fácil atingir o excesso ou a falta em relação à excelência moral do que o meio termo, pois como dissemos, é preciso ter percepção das condições. Por isso,quando se procura agir pelo meio termo, mas se incorre no excesso ou na falta, deve-se observar se a ação não ficou muito longe do que seria o seu ponto de equilíbrio. Deve tomar cuidado, no entanto, para não se afastar demais do meio termo seja para mais, seja para menos para que a pessoa não se torne censurável. 1.5 A ÉTICA NO PERÍODO HELENÍSTICO Entende-se por Filosofia helênica aquela formada pelo pensamento grego clássico. Por Filosofia helenística, a Filosofia formada pelo contato do pensamento grego com outras fontes – especialmente as orientais. No século II antes de Cristo, Atenas ainda é o centro do pensamento filosófico, mas Alexandria, o centro das ciências. Essa passagem foi decorrente da desarticulação do mundo grego graças às invasões sofridas desde os macedônicos até os romanos. Por um lado, o pensamento grego perdeu a sua pureza, por outro, deu origem a novas filosofias marcadas profundamente pela ruptura entre a ética e a política. Em geral, os críticos apontam essa ruptura porque entendem que a Filosofia clássica formava cidadãos, afinal o indivíduo não teria qualquer identidade isolado de sua sociedade. Afirmam que a Filosofia helenística toma como principal motivo a formação do indivíduo, porque não havia mais sentido formar um cidadão para participar de uma sociedade na qual as leis eram impostas pelo imperador. A Filosofia helenística, por causa desses fenômenos, é também conhecida como período ético. Várias escolas filosóficas formaram-se nesse período: o cinismo, o ceticismo, o 60 epicurismo, o estoicismo; todas, porém, inseridas na história da Filosofia, ou seja, de um modo ou de outro, variando de fonte filosófica de influência, remetem suas ideias ao pensamento filosófico anterior a eles. a) O cinismo A escola cínica é conhecida também por ser a mais anti-cultural de todas as escolas helenísticas, exatamente porque, considera toda a cultura artificialidade humana que somente nos afasta da vida para a qual os deuses nos prepararam. Viver as fadigas impostas pela natureza – suportar o frio, a fome, o calor – era uma forma de temperar o espírito e o corpo para poder superar as ilusões que os homens criaram e chamavam de sociedade. Daí as “esquisitices” que marcaram sua história: viver num barril, carregar somente um manto, desprezar o luxo e a riqueza. Diz-se que certa vez Alexandre Magno sabendo que Diógenes se encontrava próximo e conhecendo a fama do filósofo apelidado de cão, foi ter com ele. Acercando-se do filósofo que estava deitado no chão propôs-lhe: “pede-me o que quiseres e eu te darei!” Diógenes, mesmo reconhecendo seu poderoso interlocutor, respondeu de maneira direta: “Afasta-te do meu sol!” b) O Epicurismo A primeira escola helenística surgiu em Atenas ao final do século IV (306 – 307 a.C.) e já captava o sentido da necessidade de mudança, pois ao invés de se localizar próximo à Ágora (praça pública) localizava-se em um lugar afastado do centro urbano, no campo, num prédio dominado por um imenso jardim (daí kéros). Por isso a ruptura com a Filosofia da interpretação, vizinha do comércio onde se “discutia o preço”, interpretio. As principais teses epicuristas podem ser resumidas nos seguintes itens: • a realidade é plenamente cognoscível pela inteligência humana (crítica aos filósofos que duvidavam de nossa capacidade de conhecer a realidade material, especialmente Platão); • nas dimensões do real existe espaço para a felicidade do homem; • a felicidade é a falta de perturbação; • para atingir essa felicidade e essa paz, o homem só precisa de si mesmo; • não lhe servem a cidade, as instituições, a nobreza e todas as coisas e nem mesmo os deuses: o homem é autárquico, isto é, governa-se por si mesmo. 61 O pensamento de Epicuro é, predominantemente, ético, fundamentado na lógica e na física. A primeira é importante para determinar os critérios que nos permitem chegar à verdade; a segunda, por que demonstra a constituição do real; e então, chega-se à ética, que estuda a finalidade do homem, ou seja, a felicidade. Sobre a física de Epicuro, pode-se afirmar que está diretamente inspirada nas doutrinas dos atomistas Leucipo e Demócrito, com mudanças em algumas concepções. Para Epicuro, ao contrário de Platão, as sensações não devem ser descartadas do campo do saber, ao contrário, são reais porque pertencem à própria estrutura atômica da realidade. A física de Epicuro é uma ontologia, isto é, ao refletir sobre a natureza reflete, fundamentalmente, sobre o ser. Seus fundamentos são: o nada nasce do não-ser e nada se dissolve no nada. Matéria gera matéria. O todo é composto apenas por dois elementos fundamentais: os corpos e o vazio que nada mais é do que espaço, distanciando-se da noção de não-ser de Platão. É importante observar que para Epicuro a alma é material, composta por partículas sutis. A ética epicuréia está baseada nos princípios anteriores, por isso, sendo o homem matéria, sua felicidade será também material: seu bem é seu prazer. Essa é a sua teoria do hedonismo, da felicidade. Normalmente, acredita-se que a ética de Epicuro leva à uma concepção de fruir, desregradamente, dos prazeres. No entanto, se analisarmos corretamente seu pensamento verificaremos que isso deve ser interpretado como uma incitação à imoralidade. Para Epicuro a felicidade é obtida por dois princípios: • Aponia, que significa a ausência de dor no corpo; • Ataraxia: ausência de perturbação na alma. Quando dizemos, então, que o prazer é bem, não aludimos, de modo algum aos prazeres dos dissipados, ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos ignorantes em desacordo conosco ou não nos compreendem mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos no corpo e à ausência de perturbação na alma. (Epicuro, 1980, p. 17). Também, para ele, existem três tipos de prazeres: 62 • Os naturais e necessários: por exemplo, comer, beber, repousar, abrigar-se e outros semelhantes; • Os naturais, mas não necessários: comer bem, sorver bebidas finas, vestir-se com luxo e outros semelhantes; • Os não naturais e nem necessários os quais devem ser evitados, como o desejo de riqueza, poder, honrarias, glória e outros semelhantes. Os quatro remédios do sábio são conclusões inevitáveis da lógica e da física que nos levam à aceitar a rigorosa ética, são eles: são vãos os temores em relação aos deuses e ao além; a morte é um mergulho no nada, por isso não deve nos apavorar; o prazer está à disposição de todos; o mal dura pouco e é facilmente suportável. c) O Estoicismo O estoicismo é representado por grandes nomes como Zenão de Cítio (336 – 264 a.C.), Cleanto de Assos (280 – 210 a.C.) e Sêneca (4 ou 2 até 65 d. C.). A física dos estóicos gregos caracteriza-se por supor que todas as coisas corpóreas são semelhantes aos seres vivos. O sopro divino, presente em tudo, é quem faz com que todas as partes que compõem os corpos se tornem interdependentes. Assim, o Universo é a junção de todas as coisas unidas por um sopro ígneo (alma). A Razão Universal (o logos) seria essa alma comum, que a tudo penetra e organiza. Assim, tanto na natureza como na vida humana não haveria lugar para o caos nem para a desordem, pois é estar contra o logos. Dessa física decorre que tudo é corpóreo e sujeito a ciclos de surgimento e desaparecimento; sujeitos estamos à predeterminação de tudo, pois somente a predeterminação pode explicar a ordem perfeita das coisas. A ética, cujo lema é “seguir a natureza”, decorre dessa física. Uma vez que a natureza é logos, segui-la é estar de acordo com o que há de melhor para o homem. A virtude moral é o acordo do homemcom sua natureza, quando caminha nesse sentido, pratica a prudência. O que leva os homens a viverem de forma contrária à sua natureza são as paixões, cujo surgimento e ampliação podem ser explicados pela influência do meio externo sobre os homens, por exemplo, por meio da educação. 63 Para Sêneca, o corpo humano é um mal necessário, uma prisão, uma passagem; enganam- se aqueles que vivem para o corpo e não para a alma, pois ela é eterna, ao passo que o corpo é transitório. Porém, em virtude de sua necessidade não se deve negligenciar as necessidades do corpo, por outro lado, não se deve ser seu escravo, pois se nos entregamos às suas volições também estragamos nossa alma. Sintetizemos alguns dos principais aspectos da filosofia de Sêneca para compreendermos melhor o pensamento estóico. a) O homem é um ser corpóreo e espiritual. O corpo é uma prisão para a alma e devemos, portanto, livrarmo-nos o máximo possível da influência deste sobre ela; b) A razão é parte do espírito divino imerso no corpo humano; c) Para Sêneca Júpiter é o único Deus, todos as outras divindades que ele cultuava eram consideradas manifestações de Júpiter; d) A pessoa é o composto de corpo e alma; assim esta palavra atinge para ele um elevado teor ético, contrariamente a toda a filosofia anterior na qual significava, meramente, aparência; e) O ser pessoa iguala a todos os homens, quaisquer que sejam suas diferenças aparentes; f) Podem os homens diferir quanto ao corpo, podem diferir quanto à fortuna, mas somente pela razão de todos serem bons por natureza, tornam-se iguais; g) A pessoa humana representa algo sagrado, na carta 4 a Lucilio afirma: Deus está perto de ti,; está contigo; está em ti. Sim, Lucilio, um espírito santo reside em nós, o qual observa e nota as más e boas ações nossas” Contudo, este espírito só habita os virtuosos e não aqueles que se entregam aos vícios. 64 CAPÍTULOS 2 – A ÉTICA CRISTÃ: A FILOSOFIA MEDIEVAL A Filosofia cristã é caracterizada pela formação de um pensamento influenciado pela filosofia grega e pelos preceitos morais do cristianismo, orientados pela Bíblia e por seus intérpretes. O nascimento de Filosofia cristã ocorre com a formação de um período conhecido por patrística, o qual pode ser definido da seguinte forma: “elaboração doutrinal das crenças religiosas do cristianismo e na sua defesa contra os ataques dos pagãos e das heresias” (Abbagnano, 2003). Então, a Filosofia cristã tinha por objetivo justificar a fé no cristianismo, mas precisava combater a filosofia pagã e as heresias, por vezes também orientadas pela Filosofia. Assim, era preciso tornar-se filosófica também. 2.1 A virtude cristã e a virtude pagã Em geral, observa-se que, em relação à ética, a Filosofia cristã está muito próxima da Filosofia helenística, porque o cristianismo não é uma religião nacional, mas universal. A virtude do cristão não é a mesma virtude do cidadão. Enquanto a desse é marcada pelo amor à pátria, a qual vale mesmo a pena sacrificar a própria vida, aquela é marcada pelo amor a Deus, ao qual vale a pena sacrificar a própria vida. São vários os exemplos, durante a antiguidade, de heróis que sacrificaram a própria vida por amor à pátria. Catão é um exemplo romano e os 300 de Esparta que morreram na batalha das Termópilas são um exemplo grego auto-sacrifício em nome da pátria. Por outro lado, os mártires cristãos sacrificaram-se por sua fé; desde Estevão, aos mártires da perseguição romana até o édito de Milão, não morreram por pátria terrena, mas celeste. Esta diferença entre o sacrifício cristão e o pagão nos demonstra uma mudança significativa na estrutura ética. Enquanto a virtude no paganismo é a do cidadão, do guerreiro que defende sua pátria, a do cristão é a do auto-sacrifício, ser morto, mas não matar. Maquiavel observará em O Príncipe que o príncipe deverá parecer ter as virtudes cristãs, tais como a piedade, a humildade, a recusa à violência, o perdão, mas não deverá praticá- las sob pena de ser um mau governante e por todo o Estado em risco, por exemplo, como perdoar um inimigo que ataca sua cidade? Como ser piedoso com os traidores da pátria? Enfim, do mesmo modo que a virtude no modelo cristão representou um choque para a 65 virtude pagã, também a autonomia da política na era moderna chocou-se contra os princípios cristãos. 2.2 A Cidade de Deus Santo Agostinho, ou Aurélio Agostinho, nasceu em 354 em Tagasta, norte da África e faleceu em Hipona, em 430. Sua obra pode ser considerada a mais importante do início da filosofia cristã, justamente porque conseguiu conciliar, definitivamente, a doutrina filosófica de Platão aos princípios morais do cristianismo. É bom advertirmos ao leitor que Agostinho não teve contato com toda a obra platônica e, muitas vezes, suas fontes eram os neo- platônicos e não exatamente os diálogos do discípulo de Sócrates. Na Cidade de Deus Agostinho responde a uma acusação dos pagãos. Para eles a invasão de Roma por Alarico em 410 fora consequência do enfraquecimento do espírito de cidadania dos romanos em razão da penetração da moral cristã. Como vimos, a moral cristã enfraquece o espírito nacional e fortalece o universal. Agostinho escreve essa obra com o intuito de responder esta acusação dizendo que ao contrário do que os detratores do cristianismo falavam, o que enfraqueceu o espírito romano não foi a moral cristã, mas a situação de falta de moral, de absoluto desregramento na qual havia mergulhado a moral pagã. Então, em sua perspectiva, o rigor da moral cristã seria uma salvação para Roma e não a sua perdição. 2.3 A liberdade do cristão Um ponto central da ética cristã é o problema da liberdade. A questão pode ser posta mais ou menos da seguinte forma: nascemos sob o pecado, isto é, o pecado original. No entanto, este pode ser perdoado com o batismo. O problema se diante dos dilemas éticos da ação e tem liberdade de escolha. Assim, o pecador é alguém que diante de uma escolha, decidiu- se por agir de modo contrário ao recomendado pela moral cristã. A perspectiva de Santo Agostinho é a de que somos dotados por Deus Do livre arbítrio, isto é, da liberdade de escolha. Para ele a chave do problema está na noção de vontade. Enquanto para os gregos a liberdade é uma escolha racional, ou pertence à esfera da razão, Santo Agostinho reconhece que a vontade está além do campo da racionalidade. Nossa razão pode até nos mostrar o que deve ser feito, mas nossa vontade pode nos 66 conduzir para outros caminhos. Ele viveu isso plenamente, pois antes de converter-se ao cristianismo teve, como relata em suas Confissões uma vida libertina. Portanto, nossa liberdade está em resistir aos apelos da vontade e fazer aquilo que é correto e não aquilo que desejamos, pois estes desejos não pertencem à nossa natureza humana, mas foram impostos pela educação. Evidentemente, o referencial estóico na formação da Filosofia cristã é de absoluta evidência, mas o cristianismo não se resume em ser uma reprodução do estoicismo, havia novas questões para serem resolvidas. Dentre elas, Santo Agostinho nos alerta para o fato de que se os homens tentam ser livres e viver somente com as próprias forças uma vida correta não o conseguirão, o homem não pode pretender ser “autárquico”, isto é, governar a si mesmo, pois é preciso que uma força superior nos ajude a superar as tentações. Essa força superior é a graça divina. Ela não nos torna seu escravo, ao contrário, nos liberta verdadeiramente das paixões e do pecado, que é para onde ela nos conduzem. A graça divina é libertadora, porque, desde a tradição epicurista e estóica, considera-seque viver ao sabor das paixões não é ser livre, mas tornar-se escravo dos próprios desejos. Quem não é senhor de seus desejos e vontades é escravo dos mesmos. Sozinho, o homem não tem capacidade de libertar-se desta servidão, a razão grega, por mais imponente que seja foi incapaz de salvar os homens, completamente, ainda que tenham os sábios, como Sócrates, chegado muito próximos da verdadeira libertação, não a conseguiram, pois não contaram com a conversão ao cristianismo. A graça divina não tem o poder de eliminar a vontade humana, mas pode torná-la boa. Os conceitos livre arbítrio e graça divina, portanto estão profundamente imbricados, pois a razão é insuficiente para nos fazer preferir o bem ao mal; ainda que possa demonstrar qual é o bem e qual é o mal, ela não nos pode fazer escolher. Como vimos, nossa vontade de preferir o bem ao mal também não é suficiente, mas sim, é preciso que a graça divina nos converta a preferir o bem. Santo Agostinho tornou-se a principal referência para a formação filosófica dos cristãos durante séculos da Idade Média até que a influência de Aristóteles suplantou a de Platão, especialmente na Escolástica e na obra de Santo Tomás de Aquino. Contudo, em termos de teologia e do livre arbítrio sua obra continuou como uma referência fundamental. Assim, sua obra continuou a influenciar novos pensadores e, dentre estes, encontra-se Erasmo de 67 Roterdã (1466 – 1536), em cuja obra encontramos o tratado Sobre o Livre Arbítrio. Encontramos em sua obra críticas severas à escolástica e um retorno às origens, do ponto de vista da história, ao cristianismo primitivo, e do ponto de vista filosófico aos padres da Igreja, ou seja, ao período patrístico com especial destaque para Santo Agostinho. Assim, suas concepções sobre o livre arbítrio são muito próximas daquelas de Santo Agostinho, por isso, vamos abordar agora não seu pensamento, mas o de seu mais ilustre adversário, Martinho Lutero. Sobre a liberdade do Cristão: Martinho Lutero Martinho Lutero (1483 – 1546) foi o fundador do protestantismo, contudo, sua formação intelectual se deu dentro da Igreja Católica, pois foi monge agostiniano. Aliás, é clara a influência de Santo Agostinho sobre seu pensamento e, tal como Erasmo, com base nele tornou-se crítico da escolástica e sua filosofia árida e distante da vida do cristão. No entanto, afasta-se de Erasmo na medida em que rompe, definitivamente, com a Igreja em seu desejo de reforma; Erasmo também crítico dos péssimos costumes que tomavam conta da instituição, não aceita a posição de ruptura. O auge de seus debates se dá em torno do tema da liberdade. Erasmo publicou em 1524 seu Do Livre Arbítrio tendo em vista criticar as já propaladas teses de Martinho Lutero, esse respondeu-o em Do Servo Arbítrio em 1525. O pensamento de Lutero, apesar de ser um forte crítico do pensamento filosófico, teve grande influência na história da filosofia, pois forneceu uma série de elementos críticos à autoridade da interpretação das escrituras – e consequentemente, qualquer autoridade que queira se impor sobre a razão. Seus pontos fundamentais são: • A doutrina da justificação, unicamente, pela fé; • A doutrina da infalibilidade da Escritura considerada única fonte de verdade; • A doutrina do livre exame da Bíblia ou do sacerdócio universal; • A doutrina da predestinação. 68 Quanto à primeira destas doutrinas trata-se de uma posição radical contra uma ala dominantes da Igreja Católica que defendia a venda de indulgências como forma de salvação pelas obras. O problema não estava na venda da indulgência em si, mas no abuso que se fez dela para a reforma da Igreja de São Pedro em Roma e a estratégias nada éticas de John Tetzel para convencer os fiéis a doarem dinheiro à Igreja como forma de salvação da alma. Lutero radicaliza ao máximo suas posturas frente aos desmandos da cúpula da Igreja e defende, ardentemente, a doutrina da salvação unicamente pela fé. Além do que, os católicos como Tetzel afirmavam que quando se dava um dízimo à Igreja, Deus se via obrigado a conceder uma graça ao donatário. Para Lutero, essa postura era inaceitável, pois, de alguma forma, os homens estavam tentando obrigar Deus a fazer algo, o que era um absurdo. A segunda doutrina se opõe à política da Igreja Católica de basear sua autoridade, não somente na Bíblia, mas numa série de documentos canônicos, como os resultados dos concílios. Para ele, estes documentos escritos por homens poderiam ser submetidos ao exame da razão e não deviam ser considerados verdades incontestáveis. Além disso, os próprios concílios se contradiziam, com teses abandonadas ou retomadas constantemente. Dessa postura, nasce sua crítica à ideia de infalibilidade papal, isto é, que a opinião oficial do Papa é sempre correta. A terceira doutrina afirma que todos possuem luzes de razão suficientes para ler e interpretar a Bíblia. Tradicionalmente, a Igreja Católica considerava desaconselhável que os fiéis lessem a Bíblia, pois como é um livro repleto de parábolas e histórias cujas interpretações deveriam ser orientadas por um correto e profundo conhecimento das Escrituras. Enfim, a xegese da Bíblia exige uma formação adequada para que não se a interprete literalmente dando origem a uma série de heresias. Para Lutero, se a interpretação da Bíblia exige determinados conhecimentos, então que sejam ensinados àqueles que desejam aprender. Para que ela fosse mais acessível ao povo, providenciou sua tradução para o alemão, dando origem às traduções da Bíblia para as línguas vulgares. Além disso, não adotou a Bíblia dos Católicos que era baseada na Septuaginta, preferindo o cânone da Bíblia judaica. Sua posição fortaleceu no meio protestante o estímulo à leitura da Bíblia e, portanto, ao estudo. 69 Sua doutrina da predestinação se opõe frontalmente ao livre arbítrio, pois trata-se de uma tese na qual o destino dos homens já está traçado e não há como sabermos se Deus nos reservou a condenação ou a salvação. Em geral, essa tese causa algum embaraço naqueles que não enxergam nela a possibilidade de se compreender qual a responsabilidade que temos sobre nossos atos se tudo já está previsto pela mente divina, ou seja, se Deus já predisse o que aconteceria conosco, então não seríamos responsáveis por nossas ações. Ora, essa interpretação não é condizente com o pensamento luterano. Para ele, de fato, Deus já determinou quem será salvo e quem será condenado, mas nós não sabemos em qual grupo estamos. Por isso, a responsabilidade de nossos atos recai sobre nós mesmos. A religião continua até nossos dias a influenciar o pensamento ético e os códigos morais, contudo, tais posturas não são essencialmente diferentes destas analisadas aqui. Por isso, passemos agora à Idade Moderna, onde as reflexões sobre a ética tentam livrar-se da influência religiosa e procuram fundamentar-se unicamente na natureza humana e na razão. 70 CAPÍTULO 3 - A ÉTICA NA FILOSOFIA MODERNA Podemos dizer que na idade moderna a tendência geral é pela busca de uma ética laica, ou seja, de uma ética que esteja baseada somente na racionalidade, na natureza humana e não na religião. O motivo desta mudança está no fato de que a liberdade religiosa se expandiu de maneira definitiva, assim, pensadores de diversos credos buscam diferentes referenciais, mas estão em busca de uma ética universal, que valha para todo gênero humano e não somente para um grupo social específico. O anglicano Locke, o protestante Bayle, o judeu Espinosa, o católico Pascal. De qualquer forma, a problemática geral daética continua em pé, pois todos estão em busca da compreensão do comportamento humano. 3.1 Baruc Espinosa (1632 – 1677) Retoma os princípios socráticos e estóicos de ética, ou seja, para ele, o vício é resultado da ignorância e a virtude do conhecimento. Por outro lado, para ele, as paixões nos dominam somente quando não as compreendemos. Desta forma, em linhas gerais, a ética de Espinosa implica naquela perspectiva de que é pela razão que nós controlaremos as paixões e passaremos a ter um comportamento ético, portanto, a razão é o fundamento de todas as virtudes. 3.2 Blaise Pascal (1623 - 1662) Parte de um princípio diferente daquele de Espinosa. Para ele, a razão é insuficiente para levar os homens à grandeza moral. Ele próprio converteu-se a uma ordem religiosa católica, extremamente, rigorosa do ponto de vista do comportamento e devotada ao conhecimento. Define, então, dois conceitos fundamentais: o espírito de geometria e o espírito de finesse. O primeiro é correspondente à racionalidade científica a qual Pascal conheceu desde a juventude, pois foi grande matemático e inventou a máquina de calcular, da qual obteve não somente a patente, como continuou aperfeiçoando o modelo. O espírito de finesse refere-se a uma forma de compreensão da realidade que ultrapassa os limites da pura racionalidade matemática ou científica. Pascal está convicto de que a razão não é suficiente para conduzir os homens. 71 Agora, deixemos as proposições éticas particulares de alguns filósofos e mergulhemos nas duas correntes éticas mais representativas da modernidade: o utilitarismo e o kantismo. Em outras palavras, a ética voltada para o que é mais útil para a maioria e a ética voltada para o dever. 3.3 Rousseau: a moral como razão e consciência Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778), filósofo genebrino, é muitas vezes considerado um dos mais influentes inspiradores do romantismo. Essa corrente filosófica caracteriza-se por uma valorização da natureza em oposição à super-valorização da cultura. Trata-se de um retorno ao “seguir a natureza” dos estóicos. Sua obra é marcada pela relação intrínseca entre ética e política, pois para ele, como lemos no texto que abre este trabalho, ética e política devem ser compreendidas juntas, quem as separa não entende, nem de uma, nem de outra. Sobre a ética podemos lembrar que, para Rousseau, a razão é insuficiente para conduzir a vontade humana. Em seu Discurso sobre as Ciências e as Artes afirma que se o gênero humano dependesse da compreensão do que os moralistas escrevem em seus grossos livros, há muito teria desaparecido. Isto significa sua desconfiança quanto à pedagogia dos moralistas que pretendem ensinar lições de morais e convencer seus leitores racionalmente a preferirem o bem ao mal. No entanto, não devemos supor que, para Rousseau, a natureza humana é má por sua origem, de forma alguma. No Discurso sobre a Origem da Desigualdade formulou sua tese de que o homem nasce com uma tendência para preferir o bem ao mal e somente prefere este quando a educação que recebeu em sociedade o leva a não mais ouvir e seguir “a voz da natureza”. Por isso, em seu Emílio ou da Educação procura demonstrar passo a passo como o mal vai lentamente penetrando o coração humano e deturpando sua origem boa. Para ele, o que nos leva a preferir o bem ao mal não é a razão, mas a consciência, tal como apresenta no Emílio: Consciência! Consciência! Instinto divino, voz celeste e imortal; guia seguro de um ser ignorante e limitado, 72 mas inteligente e livre; juiz infalível do bem e do mal, que tornas o homem semelhante a Deus, és tu que fazes a excelência de sua natureza e a moralidade de suas ações; sem ti nada sinto em mim que me eleve acima dos bichos, a não ser o triste privilégio de me perder de erro em erro com a ajuda de um entendimento delirante sem regra e de uma razão sem princípios (1992, p. 338). Não devemos supor, no entanto, que Rousseau seja um irracionalista apenas porque duvida dos limites da razão. De forma alguma, podemos ver em sua proposição uma ética do irracional, mas do sentimento e da consciência, pois a razão pode nos fazer compreender o que é o bem e o que é o mal, mas não tem força suficiente para direcionar nossa vontade. 3.4 O utilitarismo Trata-se de uma corrente predominante no pensamento inglês dos séculos XVIII e XIX que abrangia as áreas da ética, da política e da economia. Stuart Mil foi seu primeiro teórico. O utilitarismo propunha transformar a ética numa ciência da conduta humana, portanto, transformar a ética em uma ciência exata como a matemática e a geometria. Ora, tais ciências assumem determinados axiomas e, a partir deles, deduzem as consequências. Tratava-se de encontrar os axiomas fundamentais da ética e deles deduzir as consequências inevitáveis. Seu fundamento não será, de forma alguma, o bem ou o mal em si mesmos, porque não há bem ou mal em si. Também não está preocupado em definir a natureza humana, ou seja, saber se ela é boa ou má em sua origem. Toma como referências os homens tais quais se comportam e procura formas de fazê-los comportarem-se de maneira útil para a sociedade. O pensamento utilitarista pode ser sintetizado na fórmula clássica de Cesare Beccaria: “a maior felicidade possível, compartilhada pelo maior número possível de pessoas” (Dos Delitos e das Penas). Há, portanto, uma coincidência entre a utilidade individual e a utilidade pública, no entanto, de modo proporcional. Assim, não se trata de se escolher o melhor bem público em si, porque não existe, mas de escolher o melhor bem possível, para a maioria 73 das pessoas. A influência do utilitarismo nas doutrinas econômicas resultou na radicalização das doutrinas liberais, as quais, por sua vez, sabiam que a liberdade de mercado poderia trazer alguns danos para a sociedade, mas por outro lado, também permitiam bens maiores. Outra influência decisiva da doutrina ética utilitarista se encontra na obra O Príncipe de Maquiavel. No capítulo XVIII afirma sua máxima mais conhecida: os fins justificam os meios, a qual, a rigor foi assim enunciada: Nas ações de todos os homens, especialmente os príncipes, contra os quais não há tribunal a que recorrer, os fins é que contam”. (MAQUIAVEL,1995, p. 113) Por vezes, o príncipe deverá tomar determinadas decisões que ferem os princípios da moral cristã, ou mesmo não cumprir a palavra dada. No entanto, isto não deve acontecer ao seu bel-prazer, mas como resultado inevitável das circunstâncias. Se essas mudam, não deve o príncipe prender-se às máximas da religião porque os danos de uma postura desse formato podem ser maiores do que os danos causados por sua decisão. Por exemplo, o inimigo está às portas da cidade para invadi-la, o que fazer? Perdoa-los e oferecer a outra face? Ainda que a decisão por uma guerra viole outro princípio o do, não matarás, o príncipe deve fazer uma escolha que deve oferecer o maior bem possível ao maior número possível de pessoas. O mesmo se dá em relação a palavra dada. Muitas vezes, o príncipe empenha sua palavra numa promessa futura, mas se as circunstâncias se modificam e manter o que havia prometido for causar mal a um grande número de pessoas é melhor deixar sua palavra e fazer o que é melhor para a maioria. 3.5 Kant e a ética do dever Immanuel Kant (1724 – 1804), filósofo alemão, realizou uma obra que pretendia sintetizar a filosofia até então e propô-la em novas bases. Supõe que sua teoria do conhecimento é uma síntese do empirismo (de David Hume,por exemplo) e o inatismo (de Descartes). Seu pensamento ficou conhecido como criticismo porque algumas de suas obras mais importantes iniciam com esta palavra: Crítica da Razão pura e Crítica da Razão Prática. Enquanto a primeira formula os o princípios que demonstram como nós podemos conhecer, 74 a segunda se refere à moral. A palavra prática para Kant, não tem o mesmo significado que lhe atribuímos hoje. Para ele, como herança da obra de Aristóteles, prática se refere ao mundo moral da ação e da esfera política. Nesse caso, a Crítica da Razão Prática é um livro sobre a ética. Para Kant, a razão humana não é apenas teórica, mas também prática, ou seja, não é apenas capaz de conhecer possui a capacidade de determinar a vontade e, portanto, a ação moral. Por esse motivo, Kant pode ser considerado o maior expoente moderno da ética do dever, isto é, que nós devemos pautar nossas ações conforme o dever moral revelado a nós pela razão. Abaixo sintetizamos o caminho percorrido pelo pensamento kantiano do qual faremos a análise a seguir. Os princípios práticos podem ser máximas (subjetivas) ou imperativos (objetivos). Os imperativos, por sua vez, podem ser hipotéticos (que são prescrições práticas, divididas em regras de habilidade e conselhos de prudência); ou categóricos (que são leis morais). As máximas são subjetivas porque valem somente para os indivíduos que as propõem, por exemplo, “vinga-te da ofensa que receberdes”. Ora, diz-se que serve somente ao indivíduo que a propõe porque se todos agirem assim a sociedade logo se destruirá. Portanto, as máximas não têm valor universal, logo não podem tornar-se leis morais. A respeito dos imperativos hipotéticos é importante observar que o termo “hipotético” não tem o mesmo significado ao qual o atribuímos hoje. Aqui talvez pudéssemos falar em imperativos condicionais, porque eles determinam a vontade com a condição de que alcancem determinados objetivos. Uma prescrição prática é aquela que determina um objetivo imediato, por exemplo: “se quiser boas notas, deve estudar”. Um conselho de prudência é mais geral, suas orientações não remetem a um objetivo tão específico, como por exemplo, “seja cortês para com os mais velhos”. Os imperativos categóricos possuem valor universal, não somente para quem enuncia o princípio, mas para todo ser racional. Giovane Reale sintetiza desta forma o imperativo kantiano: “o imperativo categórico, portanto não diz se quiserdes...deves’, mas sim ‘deves fazer, porque deves’ ou ‘deves e pronto” (1990). Kant definiu alguns imperativos categóricos que possuem, conforme ele, valor universal, por exemplo: “não deves nunca prometer em falso”. Para identificarmos o imperativo categórico 75 basta nos perguntarmos diante de uma ação que faremos: “se todos agirem conforme você o que ocorrerá na sociedade?” Podemos distinguir o imperativo categórico do hipotético sob duas perspectivas. A primeira é: o imperativo categórico nos propõe uma lei moral, porque o fim resultante da sua ação não é necessariamente o benefício de quem observou a lei. Por isso, trata-se da ética do dever; a segunda, que o imperativo categórico pode ser praticado por todo gênero humano e isto não implicará a destruição da sociedade. Por fim, os conceitos de heteronomia e autonomia em Kant concluem o desenvolvimento do trajeto ético. A heteronomia, palavra cujo sentido literal significa “lei alheia” é obedecer às leis. Depois, passa-se à autonomia (lei própria). Ora, a autonomia não significa viver alheio às leis sociais, mas de admitir as leis civis como boas para si. Por exemplo, as leis nos obrigam a usar o cinto de segurança nos automóveis (heteronomia), porém, quando admitimos que é melhor utilizar o cinto do que circular nos automóveis sem eles, passamos da heteronomia para a autonomia. 76 CAPÍTULO 4 - ÉTICA CONTEMPORÂNEA Sobre a ética contemporânea nos concentraremos sobre um grupo específico de pensadores os quais possuem em comum a busca de fundamentos éticos materialistas, ou seja, não querem recorrer a preceitos que dependem de princípios metafísicos ou religiosos. Noções sobre “o que é o homem”, “o que é o bem”, “o que é justiça” são considerados princípios metafísicos e as noções que derivem dos livros sagrados ou das teologias, não servem como base para esta ética. Por outro lado, abordaremos também uma escola filosófica que fundamenta suja ética em princípios morais baseados tanto na metafísica quanto na religião,trata-se do personalismo. 4.1 Friedrich Nietzsche (1844 – 1890) Atacou todos os fundamentos morais metafísicos e religiosos, porque considerava que eles serviam somente para tornar os homens dóceis e não permitiam sua realização plena. Em Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral Nietzsche desenvolve seus argumentos contra a moral fundada, especialmente, na filosofia clássica ou metafísica e no cristianismo. Sobre a primeira, seu alvo de críticas é, especialmente, Sócrates e Platão. Para Nietzsche, Sócrates nos lançou para noções de ética para o mundo das ideias, separando o sensível do inteligível e, com isso, retirou as relações éticas do limite humano, tal como haviam estabelecido os sofistas. Definir o que é ético ou não, está dentro dos limites da linguagem, das relações humanas e não em princípios obtidos por meio de reflexões abstratas que podem até ser irrefutáveis, as insuficientes para convencê-lo de que são a verdade. O positivismo, o evolucionismo, idealismo e todas as outras escolas filosóficas eram apenas reflexões dos homens que pretendiam atribuir às suas teorias um valor universal de verdades eternas e absolutas. Era preciso, portanto, desmascará-las, todas. Sobre o cristianismo, Nietzsche repete a máxima de Rousseau modificando-lhe de forma significativa o sentido: “uma religião de escravos”. Tal afirmação tem o seguinte sentido: o cristianismo pregando humildade, auto-sacrifício nos retira a vontade de vida; a famosa frase de São Paulo, em Romanos, 13: “toda autoridade vem de Deus” é uma evidência 77 dessa ação do cristianismo sobre o espírito humano. Para ele, é uma moral dos escravos que não podendo ter a mesma glória dos nobres subverte os valores realmente dignos dos guerreiros, como a bravura, o destemor, e torna os valores dos fracos mais elevados que o dos fortes. Dois princípios ilustram o pensamento nietzscheano sobre ética: o dionísico e o apolíneo. Em termos gerais, entendemos por dionisíaco, o mito grego de Dionísio, no qual a religião não significa a negação da vida, o controle das paixões e dos instintos. O dionisíaco é uma afirmação da vida em seu sentido mais pleno. Para ele, o apolíneo, referência ao deus Apolo, é o símbolo da racionalidade que procura eliminar o elemento que não pode compreender, ou seja, a razão expulsa os instintos e procura a tudo controlar. Nietzsche, em seus estudos sobre a tragédia grega, observou que as tragédias de Eurípedes (Medéia, Electra, As Bacantes) retiraram o elemento dionisíaco e inseriram os elementos da moral e de uma racionalidade árida, substituindo o valor vida pela superficialidade silogística, por isso conhecido também por “filosofo do teatro”. Quando Nietzsche proclama a “morte de deus”, quer dizer o fim de uma sociedade fundada nos valores morais que dependem da existência de um Deus que seja o fundamento de toda a verdade, de toda a justiça. Conforme Nietzsche, quem matou deus foram os homens que pouco a pouco foram se afastando dos valores que diziam cultuar, mas o super-homem nascerá para umanova sociedade que não depende de um valor extra-humano para guiar-se. 4.2 Jean-Paul Sartre Sartre (1905 – 1980) foi um dos mais notáveis representantes do existencialismo. Em sua concepção, o existencialismo se opõe à filosofia essencialista, pois para ele, o homem não possui essência alguma ao nascer, a essência se forma na medida em que vivemos, por isso, “a existência precede a essência”. Sartre formula uma relação entre liberdade e responsabilidade. Nós somos livres e não há limite para esta liberdade, além da própria liberdade. Não podemos deixar de ser livres. Por outro lado, esta liberdade traz consigo a responsabilidade das nossas escolhas. Uma vez que estamos no mundo, estamos diante de escolhas a serem feitas constantemente, por 78 isso, com a mesma frequência somos forçados a usar nossa liberdade o que faz de nós responsáveis por nossas escolhas e por suas consequências. Aparentemente, é paradoxal a afirmação de que somos livres e não podemos abrir mão de nossa liberdade, pois se vivemos em uma sociedade regida por leis as quais não fizemos – no máximo, votamos em que faz as leis – então que liberdade é essa? Ora, até mesmo obedecer ou deixar de obedecer às leis é escolha. Não nos esqueçamos que Sartre presenciou as duas grandes guerras e o holocausto, por isso, pode afirmar que o que levou o mundo a esses horrores foram escolhas, não podemos ocultar nossas decisões sob o manto da hipocrisia. Podemos citar como exemplo um seminarista que diga ter ido residir em uma cidade por ordem de sua congregação. Alega não ter tido oportunidade de escolha. No entanto, teve sim, pois ele poderia escolher não obedecer, como consequência, teria sido expulso do seminário. Ora, como não deseja sair do seminário, obedece a ordem superior e o faz por escolha própria. O existencialismo sartreano propõe o conceito de angústia, inspirado em Kierkegaard, pois diante dessa liberdade ilimitada, pela qual somos obrigados o tempo todo a fazer escolhas e arcar com a responsabilidade delas, vivemos um sentimento constante de angústia. 4.3 Apel: a Ética do Discurso A expressão ética do discurso foi criada por Otto von Apel e, conforme ele, os atuais problemas éticos exigem novas respostas. Apel procura retomar a tradição filosófica da filosofia da linguagem desenvolvida no século XIX e a razão comunicativa elaborada por Jurgen Habermas. Três são os temas a serem abordados: os problemas éticos contemporâneos, os fundamentos da ética do discurso e sua aplicação. Dois são os problemas éticos mais significativos para Apel. O primeiro deles é o embate entre natureza e técnica. Para Apel, ela primeira vez na história a civilização colocou sua própria existência em risco, pois a natureza corre riscos evidentes com a aplicação da técnica, por isso, é preciso que todas as nações atuem em comum para governar os efeitos do poder que efetivamente possuímos. O segundo problema é o desafio 79 político, porque desde a “Queda do muro de Berlim”(1989) as questões éticas transcendem as fronteiras dos Estados e exigem a elaboração de uma ética universal de solidariedade. A não atenção a esses dois problemas leva a sociedade a conviver com o que Apel chama de as quatro vergonhas contemporâneas: a fome, a miséria, a tortura e a má distribuição de renda e riquezas. A solução destas vergonhas é uma questão, portanto, de responsabilidade mundial. A respeito da fundamentação da ética o discurso, tanto para Apel, quanto para Habermas, o discurso é o ponto de apoio para a ética contemporânea. Ora, o discurso não é somente um jogo linguístico (como Sócrates afirmava ser o discurso sofístico), mas é uma forma pública, porque tanto o pensar como o falar, só encontram sua fundamentação no processo de comunicação das ideias. Por isso, é preciso superar a filosofia da consciência que deseja instalar-se como médio entre o sujeito e o objeto; para ele, deve ser o discurso, linguístico comunicativo que deve intermediar todas as experiências no mundo da vida. Sobre as condições de aplicação da ética do discurso, Apel afirma dois pontos de vista que devem ser atendidos: a) Sintático: que o discurso cumpra as regras intersubjetivas do uso linguístico que uma determinada comunidade possua; b) Semântico e pragmático: as proposições devem ser compreensíveis para os sujeitos da argumentação para que possa mediatizar o significado do objeto da argumentação. O objetivo de Apel, portanto, é encontrar um princípio moral que seja fundamento da argumentação e da ação. Esse fundamento regulador da ação exige a corresponsabilidade da sociedade real. A sobrevivência aponta para dois caminhos, cujo interesse global são evidentes: a condição natural da sociedade (ecologia) e a condição particular de cada comunidade (cultura). A aplicação da ética do discurso deve ocorrer no campo da prática, e devem viabilizar as condições históricas concretas de um agir moral. Esse agir moral, pautado por normas 80 válidas obtidas por meio de consenso, implica em aceitar, responsavelmente e, sem coerção, suas consequências, por todos os participantes do discurso. 81 REFERÊNCIAS: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. ARANHA, M. L. A. e MARTINS, M. H. P. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Editora Moderna, 2006. CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2004.Introdução à História da Filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 1990, volumes III. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ARISTÓTELES. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. EPICURO Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. KANT, I. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002. MAQUIAVEL. O Príncipe. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. PLATÃO. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. ROUSSEAU. Do Contrato Social e outras obras. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Emílio ou da Educação. Bertrand Brasil, 1992. SANTO AGOSTINHO. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1999. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996. SENECA Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. SOCRATES. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. 82 INSTITUTO E CONSULTORIA DE EDUCAÇÃO GERAL CNPJ 11.274.641/0001-50 Rua Padre Virgolino, 789 – Centro - Teófilo Otoni/MG iceg.mg@hotmail.com Fone (33) 3536-2540 ___________________________________________________________________ FILOSOFIA E ÉTICA Aluno: ___________________________________________________________________ Data: ___/___/_____ Núcleo:_________________________________________________ → Todas as questões estão de acordo com a apostila. Em caso de dúvida, leia e estude novamente. UNIDADE 1 - FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA Questão 01 A palavra “filosofia” tem sua origem no idioma grego e resulta da união de outras duas palavras: philia que significa amizade, amor fraterno e respeito entre os iguais e sophia, que significa sabedoria, conhecimento. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Assim, o filósofo seria aquele que amae busca a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja o saber. Assinale a opção que mostra o nome do filósofo que a tradição atribui à origem da palavra: a) Pitágoras de Samos b) Parmênides c) Heráclito d) Górgias Questão 02 Prado Jr. (1981) nos coloca uma definição ou explicação muito interessante para Filosofia. Assinale a opção que condiz com seu pensamento: a) O uso do saber em proveito do homem, o que implica em 1º, posse de uma conhecimento em benefício do homem. b) Uma ciência universal que deve unificar num sistema coerente os conhecimentos universais fornecidos pelas ciências particulares. c) A compreensão de todas as questões do mundo. 83 d) Uma especulação infinita e desregrada em torno de qualquer assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas preferências e mesmo de seus humores. Questão 03 Assinale abaixo a opção que NÃO condiz com o momento de nascimento da Filosofia: a) No momento em que o homem se torna coerente e quando as contradições e ambiguidades foram todas sanadas. b) Quando se acentuam as contradições, as incoerências, as ambiguidades, as incompatibilidades. c) Quando ele começa a exigir provas e justificativas racionais que validam ou invalidam as crenças cotidianas. d) Quando surgem os momentos críticos e quando sistemas religiosos, éticos, políticos, científicos e artísticos estabelecidos se envolvem em contradições internas ou contradizem-se uns aos outros e buscam transformações e mudanças. Questão 04 Vimos que são vários os campos de atuação ou de investigação da filosofia. Dentre eles, temos o conhecimento que encerra vários conceitos, tais como sujeito, objeto, percepção, sensação e razão. Qual a definição proposta para SENSAÇÃO: a) O que é conhecido b) Configuração ou construção individual dos dados sensoriais em função dos mecanismos receptores, experiências anteriores, interesses, etc. c) Apreensão imediata do objeto que se realiza pela ação de um estímulo específico. d) Elaboração de representações mentais abstratas, conceitos, discursos, relações lógicas e teorias interpretativas sobre a realidade. Questão 05 A filosofia foi dividida, segundo Chauí (2003) e Warburton (2006) em quatro períodos. Em qual dos períodos surgiram correntes como o existencialismo, fenomenologia e a hermenêutica e que também tiveram elevada importância da ciência e da epistemologia? a) Contemporânea (século XIX aos dias de hoje) 84 b) Moderna (século XVI – XVIII) c) Medieval (século III- XV) d) Antiga (século VI a.C ao século III a.C) Questão 06 “O campo de investigação filosófica que se ocupa das relações humanas consideradas em seu sentido coletivo” diz respeito a qual ramo da filosofia? a) Filosofia da mente b) Filosofia da política c) Hermenêutica d) Analítica Questão 07 A filosofia da mente vem colocando, ultimamente, questões centrais que dizem respeito a, exceto: a) De onde viemos e para onde vamos? b) Qual a natureza do mental? c) O que é consciência? d) O que é pensamento? Questão 08 Sobre a Filosofia da Religião, podemos dizer que estão corretas as afirmativas, exceto: a) Pensa criticamente o fenômeno religioso como fenômeno que diz respeito ao homem e à humanidade. b) Mesmo que tenhamos uma consciência contemporânea pós-moderna marcada pelo conhecimento científico, avanços tecnológicos e um ceticismo atuante, a proliferação de seitas, religiões e culturas misteriosas precisam ser estudadas filosoficamente, sendo tema recorrente da Filosofia da Religião. c) No passado distante, a religião pertencia aos temas centrais da reflexão filosófica, nos tempos modernos e recentes, o problema dos fenômenos religiosos é cada vez mais marginalizado. d) Se limita a descrições neutras de costumes da linguagem religiosa, nem fixa normas arbitrárias para o uso religioso da linguagem. Questão 09 85 Hermenêutica, maiêutica e filosofia analítica são métodos filosóficos. Respectivamente, qual a atribuição de cada um desses métodos? a) A técnica da boa interpretação de um texto falado ou escrito | momento do parto intelectual da procura da verdade do interior do homem, ou seja, “parir” ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de determinado contexto | modo de chegar à compreensão sobre temas vistos tradicionalmente como problemas na filosofia. b) modo de chegar à compreensão sobre temas vistos tradicionalmente como problemas na filosofia | momento do parto intelectual da procura da verdade do interior do homem, ou seja, “parir” ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de determinado contexto | a técnica da boa interpretação de um texto falado ou escrito c) técnica da boa interpretação de um texto falado ou escrito | modo de chegar à compreensão sobre temas vistos tradicionalmente como problemas na filosofia | momento do parto intelectual da procura da verdade do interior do homem, ou seja, “parir” ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de determinado contexto. d) momento do parto intelectual da procura da verdade do interior do homem, ou seja, “parir” ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de determinado contexto | modo de chegar à compreensão sobre temas vistos tradicionalmente como problemas na filosofia | técnica da boa interpretação de um texto falado ou escrito. Questão 10 Segundo a LDBEN, os conhecimentos de Filosofia são importantes para o desenvolvimento dos alunos enquanto cidadãos... a) Críticos b) Disciplinados c) Autônomos d) Todas as respostas acima 86 UNIDADE 2 - ETICA Questão 01 Na história da Filosofia fica claro que os pré-socráticos eram os filósofos que buscavam o conhecimento sobre a origem de todas as coisas, a chamada physis. Marque a alternativa correta quanto à tradução desse período da Filosofia: a) O período da Filosofia da physis é conhecido como metafísico. b) O período da Filosofia da physis pode ser também traduzida por Filosofia da natureza. c) O período da Filosofia da physis pode ser definido como o período do homem como tema principal. d) O período da Filosofia da physis é conhecido também por cosmológico, pois sua preocupação maior era com a ordem do universo, a definição do ser, a origem das coisas. Questão 02 Grandes fenômenos foram causados pelos sofistas que eram os filósofos que circulavam por entre as cidades no período humanístico. Marque a alternativa que não condiz com os sofistas: a) Os sofistas modificaram o tema da filosofia, transportaram o tema principal para o homem. b) Os sofistas eram considerados dentre os filósofos os mais sábios e foram homenageados nos diálogos platônicos. c) Os sofistas disseminaram a cultura helênica, ensinando-a a que os contratasse para ensinar. d) Além de ensinar, tais filósofos levaram a arte da oratória e da escrita a graus máximos de excelência, pois sua ferramenta era a linguagem e demonstrar erro do raciocínio do adversário. Questão 03 A respeito da ética sofistica podemos afirmar que para eles não há verdades ocultas por trás das aparências das coisas, não há nenhum critério absoluto que possa orientar a conduta ética. Eles não buscam um princípio metafísico de verdade, justifica, bem ou outro que sirva de orientação para a vida concreta dos homens. Assim, evidentemente, tais filósofos são acusados de: 87 a) Argumentadores racionais. b) Libertinos existencialistas c) Relativistas éticos, sempre á procura dos critérios de definição. d) Absolutistas orientadores. Questão 04 Dentre os maiores acusadores dos sofistas está Sócrates. No entanto, vários filósofos posterioresa ele falaram que ele parecia um sofista. Exceto: a) Nietzsche b) Aristófanes c) Xenofontes d) Platão. Questão 05 A teoria das ideias foi elaborada por Platão e é considerada uma das mais importantes teorias da filosofia. Marque a alternativa que melhor explica a relação entre esta teoria e a ética socrática. a) Para Platão, não podemos depreender o que é o bem ou o que é o justo somente observando os casos concretos que ocorrem; é preciso encontrar a “ideia de bem” ou a “ideia de justiça”. b) A teoria das ideias demonstra que os fundamentos da ética se encontram nas aparências e não nas essências. c) A teoria das ideias, ao separar essência e aparência, destrói completamente os fundamentos racionais da ética. d) A teoria das ideias dissolve a barreira entre aparência essência e nos permite observar diretamente os fundamentos da ética tal qual são, para isso não é preciso fazer-se filósofo, basta contemplar as verdades a partir dos conhecimentos do senso comum. Questão 06 A excelência moral é uma disposição da alma que pode ser alcançado somente pelo hábito. Essa afirmação CONDIZ com a ética de: 88 a) Sócrates b) Platão c) Sofistas d) Aristóteles Questão 07 A filosofia helenística, que toma como principal motivo a formação do indivíduo, é também conhecida como período ético. Várias escolas filosóficas formaram-se nesse período, exceto: a) O cinismo b) O cristianismo c) O epicurismo d) O estoicismo Questão 08 Assinale a alternativa que descreve os conceitos de aponia e ataraxia em Epicuro. a) Ausência de pertubação no corpo e ausência de pertubação na alma. b) Ausência de pertubação na alma e ausência de pertubação no corpo. c) Os dois conceitos nos remetem à valorização das paixões e desejos humanos. d) Estes não são conceitos de Epicuro, mas de Platão. Questão 09 O utilitarismo trata-se de uma corrente predominante no pensamento inglês dos séculos XVIII e XIX que abrangia áreas da ética, da política e da economia. Assinale a alternativa que apresenta seu primeiro teórico: a) Rousseau b) Pascoal c) Stuart Mill d) Espinosa Questão 10 O filósofo contemporâneo Apel tem como objetivo encontrar um princípio moral que seja fundamentado da argumentação e da ação. Para ele, são dois os problemas éticos mais 89 significativos, o primeiro sendo o embate entre natureza e técnica e o segundo é o problema político. A não atenção a esses problemas leva a sociedade a conviver com o que Apel chama de as quatro vergonhas contemporâneas. Assinale a alternativa que NÃO descreve uma dessas vergonhas: a) A fome, a tortura b) Miséria c) A poluição dos mares e rios d) A má distribuição de renda e riquezas