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Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Sidney Ferreira de Moraes Neto Módulo Envelhecimento Campo Grande 2016 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Resumo de Envelhecimento Problema 1 Senescência ou senectude e senilidade Senescência ou senectude é resultado do somatório de alterações orgânicas, funcionais e psicológicas próprias do envelhecimento normal. Senilidade é caracterizado por modificações determinadas por modificações determinadas por afecções que frequentemente acometem a pessoa idosa. Diferenciar os dois pode ser extremamente difícil. O limite entre esses dois estados não preciso e caracteristicamente apresenta zonas de transição frequente, dificultando distinguir cada um deles. Essa dificuldade, enfrentada no dia a dia, que está presente em todas as áreas que compõem a ciência gerontológica é consequência da indefinição da idade biológica, de grande variabilidade de comportamento do idoso perante fatores estressantes e de um fator genético, com importância já referida.. Nos idosos portadores de doenças, que frequentemente são múltiplas, somam-se os efeitos das alterações fisiológicas próprias do envelhecimento normal e os decorrentes de modificações funcionais produzidas pela presença de doenças concomitantes. Os efeitos da primeira podem atuar sobre os da última, induzindo graus variáveis de interação, a ponto de produzir ação deletéria muito acentuada. Com o número crescente de pessoas muito idosas, esta situação tende a ganhar mais atenção e levou a um novo foco de abordagem, utilizando o conceito de fragilidade. Fisiologia do Envelhecimento No envelhecimento, ocorre aumento da desordem molecular das células dos órgãos vitais. Essa modificação ocorre em algum ponto indeterminado da vida do indivíduo adulto. Não envolvendo todas as funções no mesmo grau nem ao mesmo tempo. Sua progressão segue um ritmo que difere para cada pessoa dependendo de fatores genéticos e ambientais, entretanto, ela é universal, declinante e intrínseca, não havendo até hoje nenhum recurso que possa evitá-la. Composição Corporal Por volta dos 25 anos, já é observável modificações na composição corporal. Toda a celularidade diminui, assim como a função dos órgãos, continuamente. Ocorre redução da água intracelular fazendo com que o organismo do idoso seja desidratado, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 fisiologicamente. Por isso devemos ficar em alerta quando prescrevermos medicamentos hidrossolúveis pois estarão em maior concentração, podendo causar efeitos indesejáveis. A musculatura diminui, especialmente as fibras do tipo 2, de contração rápida, como as encontradas nas mãos. Com isso a força muscular diminui, e na 8º década de vida, está 40% menor quando comparada à 2º década. Em substituição à musculatura, há aumento proporcional da gordura, especialmente em torno da cintura pélvica, provocando modificações da silhueta. Aqui também teremos que dar atenção às regras farmacológicas, pois os medicamentos lipossolúveis, como os de ação central, terão seu tempo de ação aumentado. Pele A pele se torna seca, por diminuição das glândulas sebáceas, e espessada, com as papilas dérmicas menos profundas, levando a menor junção entre a epiderme e a derme, facilitando a formação de bolhas e predispondo a lesões. O número de melanócitos diminui de 8 a 20%, por década, após os 30 anos. Esse fato associado ao retardo da reposição das células da epiderme, ao maior tempo de exposição aos raios UV e à redução das células de Langerhans (células mediadoras da resposta imunológica na pele) contribuem para o aumento da incidência do câncer de pele. Na derme do idoso, observa- se menor número de fibras elásticas e colágenas levando a uma perda da resiliência (capacidade de voltar ao normal) e à formação de rugas. Também há diminuição da vascularização justificando a palidez e a diminuição da temperatura da pele aumentando frequência de dermatites. Pálpebras A flacidez das pálpebras superiores leva a uma limitação do campo visual lateral, podendo impedir a pessoa de não ver objetos ao seu lado, não ver um veículo se aproximar ao atravessar a rua, aumentando o risco de sofrer acidentes. Já essa flacidez nas pálpebras inferiores desloca o orifício do canal lacrimal provocando um lacrimejamento contínuo e incomodativo, obrigando a pessoa limpar os olhos – nem sempre com as mãos limpas –, provocando infecções oculares. O tratamento para essas modificações é simples. Fâneros A diminuição do número das glândulas sudoríparas somada à diminuição dos vasos sanguíneos da derme e à diminuição da espessura do tecido celular subcutâneo dificultam a termorregulação. As glândulas sebáceas mantêm seu número Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 constante, mas seu tamanho aumenta enquanto a liberação de gordura, assim como a produção de cera, diminuem. O embranquecimento dos cabelos ocorre pela perda progressiva de melanócitos nos bulbos capilares. As alterações do crescimento e da aparência dos cabelos são devidas a um processo complexo representando um estado de saúde. O número dos corpúsculos de Pacini e Meissner, responsáveis pela sensação de pressão e tato leve, diminui, predispondo a lesões e diminuindo a destreza para certos movimentos com as mãos. O crescimento longitudinal das unhas diminui, elas se tornam mais quebradiças e frágeis. Musculatura A partir dos 25-30 anos, em que a força muscular é máxima, há um declínio, constante e universal. Entretanto, a força muscular do diafragma sofre pouca alteração, enquanto a força da musculatura da panturrilha diminui significativamente ao longo dos anos. O trabalho muscular é necessário para a manutenção de quase todas as funções do corpo, como postura, locomoção, respiração e digestão. A atividade física, independente da idade, aumenta a força e a velocidade muscular além de prevenir a perda óssea, as quedas e melhorar a função articular. Os exercícios praticados com regularidade diminuem os fatores de risco para doenças cardíacas, diabetes e alguns tipos de câncer. Promovem o bem-estar, melhoram o ritmo do sono e alcançam benefícios para além do físico, como maior integração social, ajudando na esfera psicológica. Estruturas Cardiovasculares Alteradas com o envelhecimento Contração prolongada Diminuição da resposta beta-adrenérgica Aumento da rigidez miocárdica e vascular Controle do sistema nervoso autônomo Diminuição dos barorreflexos arteriais Aumento do fluxo simpático Diminuição do fluxo vagal Diminuição do Vo2 Mantidas com o envelhecimento Contratilidade miocárdica Fluxo sanguíneo coronariano Vasoconstrição alfa-adrenérgica mediata Controlo do sistema nervoso autônomo Barorreflexos cardiopulmonares Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Alterações Cardiovasculares O envelhecimento compromete severamente algumas partes do sistema cardiovascular e outras são mantidas sem alterações. ➔ Estrutura cardíaca: ocorre hipertrofia do ventrículo esquerdo, provocando um aumento da pressão arterial dependente da idade. O aumento médio é de 1 g/ano nos homens e 1,5 g/ano nas mulheres. O volume diastólico final diminui somente nas mulheres e, portanto, não está correlacionado com a idade. Também observa-se aumento no número e na espessura das fibras colágenas presentes no miocárdio. Nos muito velhos, a massa ventricular esquerda pode diminuir, provavelmente devido ao extremo sedentarismo. O acúmulo da proteína amiloide é encontrado em aproximadamente 50% dos pacientesacima de 70 anos. Ainda é discutível se faz parte do processo de envelhecimento. Alterações cardíacas com o envelhecimento Endocárdio e valvas Aumenta lipofuscina (quanto mais tem, mas velha é) Aumenta fibrose Aumenta lípidios Aumenta calcificação Miocárdio Aumenta lipofuscina (quanto mais tem, mas velha é) Aumenta fibrose Aumenta amiloidose (acumulo proteico anormal) Aumenta apoptose Aumenta miosina isoenzima beta Aumenta mutações genéticas Diminui tecido conjuntivo ➔ Estrutura arterial: o aumento da rigidez da parede arterial é um fenômeno universal e contribui para muitas alterações do sistema cardiovascular. A diferença se dá na camada média, diferentemente do que ocorre na aterosclerose, onde o comprometimento está na camada íntima. Com o aumento da rigidez das paredes, as artérias aumentam de diâmetro e de espessura. Após os 60 anos a elasticidade está bem diminuída, aumentando a resistência do fluxo sanguíneo durante a sístole. O aumento da velocidade da onda de pulso aórtico e a diminuição da pressão diastólica são outras consequências da rigidez aórtica. Como a perfusão coronariana acontece Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 durante a diástole, pode-se provocar um dano ao paciente coronariopata ao prescrevermos anti-hipertensivos. Alterações arteriais com o envelhecimento Dilatação da aorta e grandes artérias Aumenta espessura da parede arterial Aumento o número de fibras colágenas na parede arterial Diminui conteúdo de glicoproteína Aumenta mineralização da elastina Aumenta rigidez arterial Aumenta resistência periférica Aumenta pressão sistólica do pulso Aumenta pressão arterial média ➔ Parâmetros funcionais: a frequência cardíaca de repouso é modulada pelo equilíbrio entre a inervação simpático e parassimpático, sendo a última dominante. A frequência cardíaca máxima durante o exercício vai diminuindo com o avanço da idade e tem sido definida pela fórmula 220 – idade. Um estudo mostrou que a frequência cardíaca máxima esta relacionada com a idade e não a doenças ou sedentarismo, sendo determinada pela equação 208 – 0,7 × idade. A sensibilidade ao sistema nervoso autônomo não é uniforme no organismo, podendo estar preservado em um local e comprometido em outro. Existe marcante diminuição na resposta do sistema cardiovascular a estimulação beta-adrenérgica com consequente diminuição da frequência cardíaca máxima. Para compensar essa baixa resposta, há aumento das catecolaminas plasmáticas (nora/adrenalina), especialmente durante exercícios físicos. Entretanto, a resposta é tímida, havendo aumento do volume diastólico final. Sistema nervoso Os avanços técnicos têm permitido aumentar o número de anos que vivemos na faixa etária idosa, na qual as doenças neurológicas são mais prevalentes. Por isso o conhecimento do processo biológico do envelhecimento do sistema nervoso é fundamental. ➔ Alterações estruturais: a diferença de tamanho do cérebro entre adultos e idosos tem pequeno significado funcional. O cérebro do adulto tem Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 aproximadamente 10 milhões e 10 a 15 vezes o número de células gliais. Cada neurônio tem, em média, 10.000 conexões. A perda do volume cerebral é de 2 a 3% por década depois dos 50 anos, e o peso diminui 8% comparado ao peso máximo quando adulto. Com o envelhecimento, a perda neuronal está limitada a algumas áreas. No idoso, sem déficits, no córtex e no cerebelo o número de células permanece o mesmo ao longo da vida. Em outras áreas, pode haver perdas, como no locus ceruleus (neurônios catecolaminérgicos), na substância negra (neurônios dopaminérgicos) e no hipocampo (neurônios colinérgicos). Já as células da glia aumentam. com o envelhecimento em resposta ao dano neuronal. Esse acúmulo de células gliais, denominado gliose, representa uma resposta compensatória protegendo a função neuronal e a plasticidade. O número de células da micróglia, pertencentes ao sistema imune, permanece sem mudanças. Há perda dos axônios e redução da mielina que cobre esses axônios levando à rarefação da substância branca periventricular denominada no exame de ressonância magnética de leucoairose. Estudos mostraram alterações no metabolismo cerebral, associadas ao envelhecimento, como diminuição do metabolismo de glicose nos lobos temporais e em outras áreas. Em algumas pessoas, o número de dendritos diminui, perdendo, assim, as sinapses, alterando a neurotransmissão, piorando a comunicação do sistema nervoso. Entretanto, em decorrência da plasticidade cerebral, pode ocorrer aumento da densidade dos dendritos assim como seu prolongamento, como uma reação de manutenção da função cerebral. Nos quadros demenciais, a perda dendrítica é acentuada e progressiva diminuindo a plasticidade e a dinâmica dos processos cerebrais. Além das alterações do SNC, há também a alteração dos nervos periféricos e da musculatura. As células do corno anterior da medula diminuem e ocorre redução da mielina nos nervos sensoriais. As consequências dessas mudanças incluem perda da sensação vibratória, do tato e da dor, assim como a disfunção autonômica, a qual afeta a reatividade pupilar, a regulação da temperatura corporal e o controle vascular cardíaco e periférico. Parte da cognição pode sofrer certa deterioração nas pessoas idosas saudáveis, como a velocidade do processamento cognitivo, menor destreza para executar movimentos finos e problemas com a memória recente. ➔ Alterações bioquímicas: A comunicação celular dentro do sistema nervoso se dá por meio de neurotransmissores. A transmissão química requer uma série de etapas: síntese do neurotransmissor no terminal nervoso pré-sináptico; depósito Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 do neurotransmissor em vesículas; liberação do neurotransmissor para o espaço sináptico; presença de receptor específico na membrana pós-sináptica; ligação do neurotransmissor ao receptor; liberação do neurotransmissor para a ação que pode ser de inibição ou de estimulação. Além do número e integridade celular, a função dos neurônios depende de suas conexões com outras células e da disponibilidade do neurotransmissor específico. Na mesma célula, podem coexistir o neurotransmissor e o peptídio que modulará a ação do neurotransmissor. O equilíbrio dessas ações é fundamental para a manutenção da função do sistema nervoso. O comprometimento das funções está mais ligado ao desequilíbrio desse processo do que a alteração de um neurotransmissor isoladamente. Além disso, cada neurotransmissor tem seu tempo de envelhecimento. Por isso, o desequilíbrio dessas substâncias ocorre anos antes da detecção clínica da doença. Aminas Aminoácidos Peptídeos Outros Acetilcolina Glutamato Eucefalina Óxido nitrico Catecolaminas Aspartato Colecistocinina Monóxido de carbono Norepinefrina Glicina Substância P Zinco Epinefrina GABA VIP Sinapsinas Dopamina Taurina Somatostatina Moléculas de adesão celular Serotonina Histamina TRH Neurotropinas Outros ➔ Alterações metabólicas e circulatórias: além dos neurotransmissores, outras substâncias estão alteradas no SNC. No cérebro, há diminuição tanto da água extracelular quanto da intracelular; lentidão da síntese proteica; aumento na oxidação das proteínas e sua glicolização, com aumento do acúmulo intraneural (emaranhados neurofibrilares); diminuição da síntese lipídica pela variação dos substratos lipídicos; alteração na membrana lipídica e na condução nervosa; alterações circulatórias relacionadascom a aterosclerose; diminuição do fluxo sanguíneo cerebral e da utilização da glicose. Componentes alterados no SNC com o envelhecimento Água total Espaço extra e intracelular Lipídios DNA, RNA e proteínas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Aminoácidos Carboidratos Circulação Metabolismo energético Oxigênio Reentrada de glicose Barreira hematencefálica O cérebro produz sua energia de oxidação anaeróbia da glicose. O fluxo sanguíneo e o consumo de oxigênio são iguais no adulto jovem e no idoso na ausência de doenças. Entretanto, na presença de aterosclerose, o fluxo sanguíneo é reduzido e o cérebro, para se proteger, extrai mais oxigênio do sangue. Isquemia, hipoxia e hipoglicemia ativam os receptores glutamato induzindo toxicidade com consequente morte neuronal. A barreira hematencefálica protege, por meio do endotélio, a entrada de substâncias tóxicas do sangue no cérebro. Com o envelhecimento, essa barreira torna-se permeável a muitas substâncias, podendo ser uma das causas de demência. Apesar das alterações o SNC se mantêm integro graças à sua plasticidade e à sua capacidade de compensar e reparar os danos ocorridos. ➔ Marcha, postura e equilíbrio: o SN participa de todas as funções orgânicas. Uma das mais importantes para a pessoa idosa é o controle da marcha e do equilíbrio. A instabilidade postural representa um dos gigantes da geriatria devido às suas complicações. Várias são as estruturas centrais e periféricas responsáveis por essa função de independência motora. Estruturas e fatores responsáveis pela marcha e equilíbrio Córtex cerebral Gânglios da base Cerebelo Sistema vestibular Visão Propriocepção Sistema límbico Medula espinhal Musculatura esquelética Ossos Articulações Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Hormônios Circulação sanguínea Nutrição Atividade física Com o avanço da idade, a marcha se altera. Na maioria das vezes a mulher, tanto adulta jovem quanto idosa, tem um desempenho pior quando comparada ao homem. É comum uma certa hesitação no andar, menor balanço dos braços e passos menores. Ao mudar de direção no caminho, faz a volta com o corpo em bloco. A postura típica, mais rígida, como se estivesse em alerta para se defender de alguma queda, caracteriza-se pela base alargada, retificação da coluna cervical, um certo grau de cifose torácica, flexão do quadril e dos joelhos. Esse conjunto de fatores indica piora da estabilidade, podendo até nos fazer pensar em parkinsonismo. A assimetria dos passos faz pensar em artrite ou hemiplegia; a falta de movimentos dos ombros em parkinsonismo; aumento da base em comprometimento do cerebelo; uma flexão mais acentuada do tronco pode revelar dificuldade de visão ou de propriocepção ou algum dano no sistema vestibular. Para vencer essas dificuldades, o idoso diminui o tamanho dos passos e anda mais devagar. O grande problema nos distúrbios da marcha é a queda com todas as complicações posteriores. A prática regular de exercícios físicos é uma forma de driblar essas modificações impostas pela natureza trazendo ainda benefícios tanto neurológicos quanto mentais, promovendo sensação de bem-estar e de saúde. ➔ Sono: o marca-passo circadiano está no hipotálamo acima do quiasma. O ciclo sono-vigília se modifica com o envelhecimento. Há a tendência de dormir mais cedo e acordar mais cedo. As queixas de insônia, sonolência diurna, despertares durante a noite e sono pouco reparador são frequentes. Isso ocorre porque existem dois tipos de sono:No idoso, o sono REM não se altera Já no sono não REM ocorre aumento dos estágios 1 e 2 (facilidade no despertar) e diminuição dos estágios 3 e 4 que são exatamente os dois períodos de sono mais profundo. Os períodos de apneia ocorrem no sono REM. São mais frequentes nos idosos, particularmente, no homem idoso e obeso. Durante uma noite, um homem de 24 anos faz, em média, cinco períodos de apneia, enquanto que um aos 74 anos chega a 50 vezes. Isso leva a um sono entrecortado, pois a pessoa acorda para restabelecer a respiração. Com a noite Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 mal dormida, ocorre sonolência durante o dia, mal humor, diminuição da memória, cefaleia e até depressão. Podem ser observadas nesse período arritmias cardíacas e hipertensão pulmonar. Não se sabe se essas alterações do sono, especialmente a hipoxia noturna, causam efeitos adversos na função cerebral. Outra consequência da alteração da respiração durante o sono é a ocorrência do ronco. Outro distúrbio do sono observado é a síndrome das pernas inquietas. É um desconforto sentido a cada 30 segundos durante uma grande parte da noite. Parece que corresponde a uma incoordenação entre a excitação e a inibição motora. A hipófise secreta melatonina, um hormônio derivado do neurotransmissor serotonina. Sua secreção é regulada pelo ritmo circadiano e ajuda na sincronia interna das funções orgânicas. Nos idosos, ela está baixa. E não estudo que mostre efeitos da reposição de melatonina em idosos. ➔ Memória: as partes do cérebro responsáveis pela memória envolvem o hipocampo, o tálamo, o córtex temporal, frontal e pré-frontal e o cerebelo. Os neurotransmissores, como a acetilcolina (ACh) e o glutamato, transmissor excitatório que atua no cérebro e na medula espinal, estão envolvidos nos processos de memória e aprendizado. É atribuído ao glutamato acúmulo de radicais livres nos neurônios com consequente degeneração neuronal. O ácido g-aminobutírico (GABA) é o principal neurotransmissor inibitório no cérebro. O equilíbrio entre o glutamato – excitatório – e o GABA – inibitório – é essencial para o funcionamento normal do SNC. É importante reconhecer as principais categorias em que as habilidades da memória são agrupadas. A memória pode ser dividida, de acordo com o tempo que ela é guardada, em memória a curto prazo, longo prazo, memória prospectiva e memória remota. Também pode ser dividida de acordo com o tipo de material arquivado – memória visual, verbal, para fatos ou eventos ocorridos ou assistidos pela pessoa. Ainda pode ser vista de acordo com o processo envolvido na codificação do arquivamento, o próprio arquivo e a recuperação do arquivo. As memórias reflexa medular, sensorial e implícita pouco se alteram com o envelhecimento. Já a episódica começa a diminuir por volta dos 30 anos e declina, progressivamente, enquanto a semântica responsável pela recordação de nomes, palavras e memória espacial pode ser mantida por toda a vida. Ainda não se sabe a combinação dos neurotransmissores responsáveis pela atividade da memória. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Três tipos (de acordo com o tempo guardado) Sensorial – a imagem é lembrada em menos de um segundo Primária (a curto prazo) – a informação é retida durante alguns minutos Secundária (a longo prazo) – a informação pode permanecer para sempre Cinco tipos Não declarativa ou reflexa medular – condicionada, não consciente Perceptiva ou sensorial – responsável pelo processamento sensorial Implícita – responsável pelas habilidades motoras Declarativa – Explícita episódica – lembra de um evento autobiográfico Declarativa – Explícita semântica – lembra de fatos ocorridos no mundo Sistema respiratório ➔ Alterações morfológicas no tórax e pulmões com o envelhecimento: com o envelhecimento, há grandes modificações na arquitetura e função pulmonar. Os primeiros sinais de piora da respiração pulmonar já podem ser vistos por volta dos 25 anos. Os pulmõesse tornam mais volumosos, os ductos e bronquíolos se alargam e os alvéolos se tornam flácidos com perda do tecido septal. A consequência é o aumento de ar nos ductos alveolares e diminuição do ar alveolar com piora da ventilação e perfusão. Entretanto, não há interferência na capacidade pulmonar total. Alterações pulmonares com o envelhecimento Aumenta espaços aerados Diminui superfície de troca gasosa Perda do tecido de suporte das vias respiratórias periféricas, diminuindo a elasticidade alveolar, chamado de enfisema senil (não mais) Aumenta tecido fibroso Modificações do surfactante pulmonar Sinais precoces de envelhecimento pulmonar Diminui capacidade máxima respiratória Diminui progressivamente a pressão parcial de O2 Perda de elasticidade pulmonar Enfraquecimento da musculatura pulmonar Diminui elasticidade da parede torácica Aumenta rigidez da estrutura interna pulmonar Diminui volume pulmonar expirado Fadiga fácil Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Colaboram para o declínio da capacidade respiratória os maus hábitos de vida, a população do local de moradia e trabalho e as doenças concomitantes. ➔ Respiração: A inspiração e expiração se dão da mesma forma do adulto. Na inspiração, participam os músculos intercostais externos que elevam as costelas e o diafragma, responsável por 75% do aumento do volume torácico durante a respiração de repouso. A expiração se faz de forma passiva, mas envolve os músculos intercostais internos que, ao se contraírem, puxam as costelas para baixo e para dentro, diminuindo o volume torácico. Caso precise, a musculatura abdominal e dos ombros pode participar como músculos auxiliares dos movimentos respiratórios. Além das alterações citadas, ocorre falha no controle central (medula e ponte) e nos quimiorreceptores carotídeos e aórticos com diminuição da sensibilidade a pCO2, pO2 e ao pH, limitando a adaptação da pessoa idosa ao exercício físico. A maioria dos músculos sofre um certo grau de sarcopenia (perda de massa e força muscular), daí a capacidade da função pulmonar piorar em algumas pessoas pela diminuição da força e da resistência da musculatura respiratória. Todas as modificações do aparelho respiratório são lentas, mas progressivas. A partir dos 25 anos a Vo2 máxima diminui em 5 ml/kg/min/década. O tórax se torna enrijecido devido à calcificação das cartilagens costais e os pulmões distendidos pela diminuição da capacidade das fibras elásticas retornarem após a distensão na inspiração. Com isso o volume pulmonar e a capacidade ventilatória diminuem. A capacidade vital pode chegar a diminuir 75% entre a 2 a e a 7 a décadas, enquanto o volume residual aumenta em torno de 50%. A consequência é uma inadequada oxigenação do sangue enquanto a pCO2 não se altera. ➔ Surfactante: sua está diminuída nos idosos. Na deficiência do surfactante, os alvéolos poderão colaborar na expiração fazendo atelectasias. O surfactante também tem função protetora impedindo a entrada de partículas e aumenta a capacidade dos macrófagos pulmonares destruírem bactérias. Ainda na deficiência de surfactante, há o aumento da permeabilidade alveolar, podendo levar ao edema pulmonar. Apesar de sua perda progressiva, a maioria dos idosos é capaz de levar uma vida normalmente ativa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Sistema hematopoético Parece que o processo de envelhecimento é mais lento nas células hematopoéticas quando comparadas com as outras células. Especula-se que a reserva das células pluripotenciais possa ser poupada contribuindo para a explicação da longevidade do indivíduo. Já a função da medula óssea não se modifica. No nascimento, quase toda a medula óssea apresenta atividade hematopoética, mas desde a infância ela começa a ser progressivamente substituída por tecido adiposo. No adulto, sua atividade concentra-se na pelve e no esterno. Por volta dos 70 anos, a celularidade da medula óssea no osso ilíaco é 30% menor que no adulto. Apesar dessa modificação, a contagem celular no sangue periférico é mantida. ➔ Multiplicação celular: o potencial proliferativo da maioria das células-tronco hematopoéticas é limitado e diminui com o envelhecimento. Uma vez que a célula entre no ciclo de divisão torna-se mais suscetível a mutações devido à redução da fidelidade de reparo do DNA. A perda de telômero em tecidos normais começa no adulto jovem e progride, gradualmente com o envelhecimento. A perda sequencial do DNA telomérico da parte final do cromossomo a cada divisão celular poderia alcançar um ponto crítico que serviria de gatilho para o envelhecimento e para influenciar o equilíbrio entre renovação e multiplicação das células-tronco. O encurtamento do telômero é observado nos portadores da síndrome de Werner onde ocorrem alterações precoces do envelhecimento. Alterações hematológicas com o envelhecimento Diminui hemoglobina Diminui hematócrito Diminui número de hemácias Diminui resposta eritropoética à administração de eritropoetina Demora para iniciar eritropoese após vultuoso sangramento ➔ Eritropoese: as hemácias duram 120 dias e por isso exige renovação contínua. Embora o envelhecimento não seja causa de anemia, é observado mudança do perfil hematológico sugerindo uma exaustão das células-tronco hematológicas pluripotenciais, tornando os idosos mais suscetíveis a essa doença. Também ocorre aumento da produção de radicais livres, os quais alteram as funções celulares e a integridade de suas membranas. Com isso, as hemácias deformadas são retiradas de circulação e a medula óssea acelera a produção Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 em uma tentativa de reparar o dano. Entretanto, a aceleração desse processo pode alterar a composição das membranas das hemácias, não conseguindo o equilíbrio da renovação dessas células, podendo surgir anemia e agregação dos eritrócitos. Os principais moduladores hormonais da eritropoese são a eritropoetina (EPO), testosterona e IL-3, e não há alterações nos níveis dessas substâncias em idosos. O (feedback entre hemoglobina e eritropoetina está mantido, mas a secreção de EPO em resposta à anemia por deficiência de ferro está diminuída. Isso ocorre porque as citocinas pró-inflamatórias, como a IL-6, aumentam com o avanço da idade reduzindo a resposta das células-tronco. Há maior produção de IL-6 por monócitos, células T, células endoteliais e células ósseas. Sistema urinário Por volta dos 30 anos, a função renal começa a diminuir progressivamente, chegando a metade aos 85 anos. Aos 60 anos, o rim pesa em média 250 g, aos 70 anos, 230 g e aos 80 anos, 190 g. Paralelamente, ocorre uma diminuição do fluxo plasmático de 600 ml/min para 300 ml/min. A avaliação renal é feita por meio de simples exames de urina e sangue facilitando os estudos das alterações que acontecem com o envelhecimento. O rim pode ser afetado diretamente em caso de lesões do néfron ou indiretamente, em caso de doenças cardiovasculares. A lesão renal pode levar a alterações à distância, como distúrbios hidreletrolíticos e hipertensão arterial. O declínio da função renal pode levar a intoxicação medicamentosa, particularmente perigosa no idoso. ➔ Função renal: o glomérulo filtra o plasma formando o filtrado glomerular, o qual praticamente não tem proteínas. Em condições normais, 99% do filtrado é reabsorvido, havendo a produção de mais ou menos um litro de urina por dia. Podemos medir o filtrado por meio do (clearance plasmático e a excreção na urina de inulinaou creatinina, pois essas substâncias são filtradas, mas não são secretadas nem reabsorvidas. Uma pessoa jovem tem uma taxa de filtração em torno de 125 ml/min. A dosagem de inulina e creatinina são trabalhosas de se fazer, embora sejam parâmetros bons. Por isso, o clearance (liberação) da creatinina (ClCr) é calculado facilmente usando-se uma fórmula onde só precisamos saber o peso, a idade, o sexo e a creatinina plasmática do paciente e aplicar os dados seguindo a fórmula: Clearance de creatinina = (140−Idade )×Peso corporalemKg 72×creatininaplasmática emmg Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Entretanto o resultado do ClCr para as pessoas idosas não é uma medida precisa, pois a creatinina é uma proteína muscular e pode estar diminuída, falseando possível comprometimento renal. como guia para ajuste de dose de medicamentos eliminados pela filtração glomerular, a equação de Cockcroft and Gault leva em conta a massa magra corporal (MMC). ClCr para homens = As mulheres têm 10% menos que os valores encontrados nos homens. O (clearance da creatinina para mulheres é o ClCr para os homens multiplicado por 0,85. A massa magra corporal é calculada de acordo com a fórmula abaixo: MMC para homens = 50 kg + 2,23 kg para cada 2,54 cm acima de 152,4 cm; MMC para mulheres = 45,5 kg + 2,3 kg para cada 2,54 cm acima de 152,4 cm. ➔ Diurese: O padrão do ritmo urinário apresenta-se modificado na pessoa idosa, que passa a eliminar água e eletrólitos mais a noite que durante o dia. Essa alteração, conhecida como poliúria noturna, ocorre por múltiplos fatores, como a diminuição da capacidade renal de concentração e conservação do sódio, assim como a alteração da função do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Fatores que alteram o ritmo urinário na pessoa idosa Diminui capacidade de concentração renal Diminui habilidade de conservação de sódio Alterações nos receptores de ADH Diminui produção e excreção de ADH Modificações na produção e função de ANP (peptídeo natriurético atrial) ➔ Alterações das funções glomerular e tubular: As alterações ocorridas com o envelhecimento na função glomerular não comprometem o bem-estar da pessoa idosa. Entretanto não há reserva para seu pleno funcionamento em caso de sobrecarga. Sob estresse, como infecção ou dieta rica em proteína, a taxa de filtração glomerular piora significativamente, aumentando a permeabilidade celular com perda de proteína bem maior que os traços normalmente observados na urina. É possível manter a função tubular em nível suficiente ao longo dos anos. Entretanto, muitas pessoas idosas sofrem perda da habilidade de concentrar ou diluir a urina de tal monta que se tornam incapazes de equilibrar o organismo frente a uma desidratação ou a uma (140−Idade)×MMCemKg 72×creatinina plasmática emmg Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 sobrecarga hídrica. o problema de concentração urinária não é devido à diminuição do ADH e sim pela diminuição de resposta do túbulo coletor ao ADH. Para manter o funcionamento do rim adequadamente, a pessoa idosa deverá ingerir 2,5 a 3 l de líquidos ao dia. É difícil para essas pessoas seguirem tal orientação, pois, muitas vezes evitam, de propósito, beber líquidos por medo de sofrerem constrangimentos devido à incontinência. Existem outros fatores que corroboram para a dificuldade em manterem-se hidratados, como a diminuição do reflexo da sede, a solidão, a imobilidade e outros. Há diminuição da capacidade renal de concentração e conservação do sódio, estando os idosos mais propensos à hiponatremia e à hipopotassemia quando em uso de diurético ou na vigência de dietas restritivas. A ureia contribui para estabelecer um gradiente osmótico na medula renal e concentra a urina nos túbulos coletores. Como a pessoa idosa, muitas vezes, faz uma dieta pobre em proteínas e tem deficit na produção hepática de ureia, a uremia também pode estar diminuída. Sistema endócrino ➔ Tireoide: os valores de T4 e T3 estão em níveis normais baixos e os do TSH normais altos. O TSH elevado e T4 normal pode ser devido à manutenção da imunorreatividade do TSH nas análises laboratoriais, porém com ação biologicamente menos ativa. A diminuição dos hormônios tireoidianos, especialmente a conversão de T4 em T3 sugere uma ação protetora para o organismo contra o catabolismo levando à diminuição da taxa do metabolismo basal (46 kcal em homens de 14 a 16 anos para 35 kcal de 70 a 80 anos, e 43 kcal em mulheres de 14 a 16 anos para 33 kcal de 70 a 80 anos) e ao aumento progressivo do tecido adiposo corporal, o qual, metabolicamente menos ativo que a massa magra, diminui a demanda pelo hormônio tireoidiano, fechando o ciclo. Os hormônios tireoidianos estimulam o consumo de oxigênio em quase todos os tecidos e aumentam a taxa do metabolismo celular, contribuindo para a manutenção da temperatura corporal. Seu efeito calorigênico diminui com o aumento da idade, elevando a suscetibilidade de hipotermia nos idosos. A resposta ao calor também está comprometida devido à menor sudorese. A redução da resposta febril ao ataque de diferentes agentes se dá pela incompetência termorregulatória observada onde a participação dos hormônios tireoidianos junto com a resposta termostática do hipotálamo é fundamental. O aumento do colesterol sérico, assim como das lipoproteínas de baixa densidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 observadas no envelhecimento, podem ser devidas ao declínio da função tireoidiana. ➔ Paratireoide: as glândulas paratireoidianas secretam os hormônios paratireoidianos (PTH – reabsorção óssea, reabsorção renal de cálcio, e formação de VitD) e calcitonina, e parece que não alteram suas funções de forma marcante. Mulheres negras e asiáticas, pós-menopausa, apresentam baixos níveis de PTH e elevados níveis de cálcio em relação às mulheres brancas. Os homens mantêm baixos níveis desse hormônio, coincidindo com menor incidência de osteoporose que as mulheres. Já o aumento do PTH pode ser devido à piora do (clearance renal ou acúmulo de fragmentos biologicamente inativos. Pode ser ainda uma resposta compensatória pela redução de cálcio intestinal. Os níveis do cálcio sérico são mantidos ao longo da vida, porém o mecanismo da regulação muda com o avanço da idade. a manutenção dos níveis plasmáticos do cálcio, na infância e na fase adulta, é mantida por meio da ingesta de cálcio sem perda óssea. Na idade avançada, a calcemia é mantida pela reabsorção do cálcio ósseo, mais do que pela absorção intestinal do cálcio ofertado pela dieta ou pela reabsorção do mineral pelo rim. Uma explicação para essa mudança pode ser uma diminuição na capacidade do PTH de estimular a produção da forma ativa da vitamina D, a qual estimula a absorção de cálcio intestinal. Embora a reabsorção óssea seja reconhecida quando o PTH está elevado, existem evidências de que a administração intermitente do PTH aumenta a força mecânica e a massa óssea pela transformação das células precursoras em osteoblastos. Esse hormônio também aumenta a formação óssea, prevenindo a apoptose dos osteoblastos. ➔ Hipófise: com o envelhecimento, a hipófise aumenta de volume e as alterações bioquímicas que ali ocorrem variam de indivíduo para indivíduo. Os níveis de melatonina, tanto diurnos quanto noturnos, diminuem na maioria das pessoas e interferem no sono, visto que esse hormônio tem efeito hipnótico. Além disso, ele possui uma ação protetora contra os danos oxidativos. ➔ Pâncreas: as alterações morfológicasobservadas são pequenas no pâncreas com o envelhecimento, o mesmo não ocorre com os hormônios. É esperado um leve aumento da glicemia de jejum relacionado com a idade (1 mg/dl/década). Para os idosos ativos pode não haver essa diferença. Entretanto, após ingesta Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 de alimentos, a glicemia alcança níveis mais elevados e o tempo de retorno ao normal é mais longo quando comparado com adultos jovens. A intolerância à glicose com o envelhecimento é devido a vários fatores além da diminuição da insulina. Os mecanismos que levam ao surgimento da intolerância à glicose com o envelhecimento ainda não estão completamente esclarecidos. O fato é que ocorre menor resposta dos tecidos à glicose e à insulina. Fatores responsáveis pela intolerância à glicose com o envelhecimento Alterações nos receptores de insulina Diminui número das unidades transportadoras de glicose Aumenta proporcionalmente secreção de pró-insulina em relação à insulina Diminui musculatura e aumenta tecido adiposo Diminui atividade física Aumenta gluconeogênese hepática Aumenta níveis de glucagon Trato gastrintestinal ➔ Boca: Como as pessoas idosas vão mais ao médico do que ao dentista, é importante que identifiquemos precocemente problemas orais para o devido encaminhamento, evitando não só problemas na boca como também as repercussões sistêmicas por eles causados. A boca está para o corpo assim como o fundo de olho está para a circulação. A Organização Mundial da Saúde define saúde oral pela presença de, no mínimo, 20 dentes. ➔ Caries: As cáries dentárias continuam sendo um dos principais problemas dos idosos, inclusive na raiz pela retração das gengivas, raramente encontradas nos adultos jovens. As cáries radiculares e coronais foram preditores significativamente mais importantes de perda dentária do que a condição periodontal. Esse fato justifica a aplicação de flúor nos idosos em paralelo à adição de flúor na água. A baixa mineralização óssea observada em várias partes do esqueleto, na boca, manifesta-se pela perda do osso alveolar que, associado à gengivite, constitui outra causa da perda dentária em adultos. Por volta dos 40 anos, a circunferência da arcada dentária poderá estar 1 centímetro menor, fazendo com que os dentes tenham maior atrito entre si, com lesão do esmalte, provocando cáries e fazendo aparecer o amarelado da dentina. Esse amarelado associado às manchas do esmalte originam o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 escurecimento dos dentes que vemos com o envelhecimento. A maior alteração na maxila e na mandíbula com a idade é consequente às extrações dentárias com atrofia do osso alveolar trazendo como resultado a diminuição da altura da face, mudando seu perfil. Contribui para essa alteração a diminuição da força de mastigação pela redução da massa muscular do masseter e pterigoide. as cáries ou a periodontite não são importantes para a perda dentária. Os fatores socioculturais e econômicos, o acesso à assistência e a disponibilidade da mesma é que constituem a verdadeira barreira para mantermos uma dentição saudável. ➔ Mucosa oral: A mucosa oral se torna fina, lisa e seca. Perde a elasticidade e parece edemaciada. A língua também é lisa devido à perda das papilas podendo trazer alterações no paladar e sensação de queimação. Isso pode ocorrer também devido à deficiência de ferro e das vitaminas B. É comum o aparecimento de varicosidades, principalmente na língua, não estando associada a outras doenças. A capacidade de cicatrização da mucosa oral mantêm-se inalterada. ➔ Glândulas salivares: A função das glândulas salivares permanece sem alterações na ausência de doenças e uso de medicamentos. Associada à dentição estável, há manutenção adequada da mastigação e da deglutição dos alimentos. Quando a mastigação está prejudicada, pode ocorrer comprometimento da saúde geral e do bem-estar. A xerostomia (secura da boca), associada a muitos medicamentos que o idoso toma, pode nem ser mencionada pelo paciente ou não ser valorizada pelo examinador. Porém, alguns pacientes se queixam frequentemente desse desconforto. O uso de estimuladores das glândulas salivares ou os substitutos de saliva aliviam esse sintoma. Na presença de estomatodinia (ardência na boca), pensar em baixa de vitamina do complexo B ou candidíase oral subclínica. A queilite angular, inflamação com ulceração nas comissuras, pode ser por má oclusão da mandíbula, como nos pacientes edentados (sem dentes) ou por deficiência de vitaminas e/ou xerostomia. Pode ser porta de entrada para fungos e bactérias levando a infecções mais sérias, como celulite de face. Um simples exame oral digital poderá identificar infecções, lesões e até câncer. Uma prótese dentária bem-adaptada, pelo trauma contínuo, poderá provocar uma lesão. Devemos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 estimular a escovação diária para prevenção das cáries, da gengivite e das doenças periodontais. ➔ Orofaringe: O ato de deglutir é bastante complexo, estando envolvidos a boca, a faringe e o esôfago coordenados por seis nervos cranianos. Todas essas estruturas ainda são organizadas no centro da deglutição do sistema nervoso central para seu perfeito funcionamento. Embora alterações funcionais possam ocorrer, elas não causam problemas com o envelhecimento. ➔ Esôfago: A motilidade esofágica pode ser anormal no idoso pela redução da amplitude da contração muscular após a deglutição e pelas contrações terciárias, raramente associadas a queixas. Por serem assintomáticas, o termo presbiesôfago foi abandonado por alguns autores. Em 35% das pessoas entre 50 e 75 anos de idade, pode ocorrer a incompetência esfincteriana, permitindo o refluxo do conteúdo ácido do estômago para a porção distal do esôfago. Em consequência, pode surgir dor torácica, por vezes exigindo diferenciação com problemas cardíacos, e sensação de queimação, pirose. ➔ Estômago: há diminuição da secreção do ácido clorídrico e de pepsina, dificultando a digestão de alimentos, principalmente, os ricos em proteína. Outras enzimas também estão envolvidas diretamente com a digestão como, por exemplo, a gastrina. Elas sofrem modificações em todas as fases desde a síntese, passando pela liberação e resposta devido às alterações dos receptores. Ainda pode ocorrer a ruptura da barreira da mucosa gástrica, permitindo que o ácido clorídrico e a pepsina da luz do estômago entrem nas células da mucosa destruindo-as. O rompimento dessa barreira acontece também com o uso de anti-inflamatórios, álcool, cafeína e na presença de bactérias. Corroborando com a lesão celular a prostaglandina, um lipídio que estimula a secreção de bicarbonato protegendo as células da mucosa, está diminuído. Além disso, observa-se dificuldade do esvaziamento gástrico pela diminuição de sua mobilidade normal, a gastroparesia. Em decorrência de todas essas modificações fisiológicas, o estômago fica mais exposto a lesões, como a gastrite e a úlcera péptica sendo responsáveis por metade dos sangramentos digestivos altos ocorridos nos pacientes acima de 60 anos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Intestino delgado: Com o avanço da idade, as vilosidades que cobrem toda a mucosa intestinal, em camada única de epitélio colunar, diminuem de altura. A absorção de várias substâncias está diminuída, dificultando a compensação nos casos de carência de algum elemento, como acontece com as pessoas antes dos 60 anos. Más-formações vasculares são comunsno trato digestivo alto, provocando sangramentos. A nomenclatura utilizada para essas alterações é confusa, pois utiliza vários termos indistintamente, como angiodisplasia, malformação arteriovenosa e ectasia vascular. ➔ Intestino Grosso: As alterações encontradas no intestino grosso são praticamente exclusivas do envelhecimento. A mais prevalente é a presença de divertículos que podem variar de 3 mm a 3 cm, sendo encontrados em 30 a 40% das pessoas acima de 50 anos. Eles surgem devido a um aumento da pressão intraluminal herniando a mucosa entre as camadas das fibras musculares lisas. Complicam com sangramentos digestivos baixos e processos inflamatórios, a diverticulite. Com a alteração para uma dieta com mais fibras, a peristalse se dá normalmente sem aumentar a pressão dentro da alça intestinal. A constipação intestinal, uma das queixas mais comuns, ocorre por alimentação pobre em fibras, baixa hidratação oral e falta da prática de exercícios físicos regulares. A diminuição do tônus e da força do esfíncter anal associados à menor complacência retal aumentam a chance de incontinência fecal nas pessoas idosas. ➔ Pâncreas: O pâncreas diminui de tamanho, endurece pelo aumento da fibrose e torna-se mais amarelado pelo depósito de lipofucsina (pigmento de digestão incompleta de restos celulares). Produz o suco pancreático, auxiliar na função digestiva, onde se encontram as enzimas amilase, lipase e as proteases, sendo a tripsina a mais importante. A amilase se mantém em volume constante, porém a lipase e a tripsina têm a sua produção bastante diminuída. A despeito da queda dramática da produção dessas enzimas, não há expressão clínica, pois precisamos somente de 1/10 da produção da secreção pancreática para fazermos uma digestão normal. ➔ Fígado: durante a vida os hepatócitos se dividem duas a três vezes apenas e sua capacidade de regeneração com o envelhecimento ainda é controversa. Entre os 24 e 90 anos o fígado diminui de volume em aproximadamente 37% e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 também diminui seu fluxo sanguíneo em 35%. Como no pâncreas, escurece pelo depósito da proteína lipofucsina, o qual também é visto em outros órgãos, notadamente no cérebro devido à diminuição da proteólise intracelular própria do envelhecimento. O sistema retículo endoplasmático liso dos hepatócitos diminui e está correlacionado com a redução da capacidade de metabolizar medicamentos contribuindo para aumentar a suscetibilidade do idoso à intoxicação por medicamentos. Já a síntese proteica é mantida. A síntese do colesterol diminui e há redução da bile total. Como a função da bile é garantir uma boa digestão e absorção dos lipídios, essa diminuição da produção biliar hepática pode agravar a deficiência de vitaminas lipossolúveis, já comprometida nas pessoas idosas que, por diferentes motivos, alimentam-se mal, fazendo dieta pobre em vitaminas lipossolúveis. Apesar dessas modificações as provas de função hepática não se alteram. Alterações psicológicas que acometem idosos O envelhecimento psíquico ou amadurecimento não é naturalmente progressivo nem ocorre inexoravelmente, como efeito da passagem de tempo. Depende também da passagem do tempo, mas, sobretudo, do esforço pessoal contínuo na busca do autoconhecimento e do sentido da vida. O autoconhecimento, o estudo da estrutura e dinâmica do psiquismo e a superação dos conflitos do cotidiano são indispensáveis para que se possa atingir a independência psíquica, condição indispensável para a sabedoria. O amadurecimento é conquista individual e se traduz pela modificação dos valores de vida ou pela aquisição da consciência (para que vivemos?). “Só é consciente a pessoa que se conhece, que conhece os reais motivos do seu viver, sua capacidade de controle desses motivos e de organização desse controle”. É a personalização do indivíduo, harmonizando-o consigo mesmo e com o mundo. Com o envelhecimento psíquico há, portanto, redução da vulnerabilidade. A pessoa idosa torna-se suficientemente sábia para aceitar a realidade, tolerar a dor ou a perda da independência biológica, pois seus dispositivos de segurança são cada vez mais eficazes na relação com o mundo. É a liberdade plena ou independência psíquica, pois compreende o sentido da vida (para quê). Os valores que regem a sua vida (filosofia de vida) são cada vez mais elevados, racionais, inteligentes, enfim, conscientes. O idoso “entrega-se à existência com a pureza das crianças, mas sem a sua ingenuidade, com o vigor do adolescente, mas sem a sua pugnacidade, com a sensatez do homem maduro, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 mas sem o seu orgulho. Torna-se cidadão do Universo com a astúcia da raposa e a malícia da serpente, o que faz dele um sábio”. A adultez velha (acima de 60 anos) ou velhice é a grande fase da vida, na qual o indivíduo, agora pessoa, atinge o grau máximo de compreensão do mistério da vida (consciência do absoluto) e do seu papel na unificação do universo. Vive a liberdade plena, permitindo-lhe compreender o lugar e a parte que cabem ao mal em um mundo em evolução. O sentido ético da sua existência permite a superação dos pre conceitos e a participação ativa na evolução das pessoas e dos grupos aos quais esteja ligado. Está, assim, cumprido o destino do ser humano adulto, cuja fé em si mesmo e no destino do mundo o faz viver em um permanente comungar e servir. A velhice é um processo contínuo e inevitável caracterizado por um conjunto complexo de fatores psicológicos, específicos de cada individuo. Os aspectos psicológicos, nesta etapa da vida, são muitos e por vezes difíceis de se lidar. A emoção torna-se mais complicada de gerir, a motivação que em alguns casos deixa de existir e é substituída por desilusão e a própria personalidade das pessoas idosas se altera porque há um desfasamento entre o ritmo e ao estilo da vida passada e o presente. Por vezes é difícil aceitar que já não se é a mesma pessoa pois já não se consegue fazer determinadas coisas como antes fazia. O “não envelhecer psicologicamente” por vezes torna-se complicado e pode levar à frustração, não usufruindo assim da vida em pleno e com qualidade. Os Idosos por vezes sentem dificuldade em adaptarem-se a situações novas. Planear o futuro e a motivação para se viver regridem e deixam de acreditar num futuro, o que lhes causa medo e vontade de não viver. À medida que envelhecemos, deparamo-nos com o surgimento de doenças crônicas deteriorando a saúde, a viuvez, morte de amigos e parentes próximos, essas são perdas que marcam nossas vidas. Assim como os papéis que desempenhamos que já não são valorizados, a aposentadoria e como consequência a dificuldade financeira, o isolamento, tudo isso afeta a nossa autoestima, desencadeando na maioria das vezes uma crise. Nesta fase da vida, o apoio dado por todas as pessoas deveria ser incondicional. A adaptação tem de ser bem-sucedida para que surja um envelhecimento feliz, pois a sociedade criou um preconceito negativo em volta do idoso e viver só não é fácil principalmente sem apoio. Devendo ensinar-se a aceitar o evoluir natural das “coisas” e saber viver o cotidiano. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 São muitas as alterações psicológicas que o ser humano sofre com o passar dos anos. Assim sendo, e depois de várias pesquisas, apresento alguns itens sobre o tema, matéria dada em Psicologia do Envelhecimento: ➔ Certo declínio na manifestação da afetividade, dos interesses, das acções, das emoções e dos desejos; ➔ Prejuízo da memória de fixação,como, por exemplo, esquecer nomes de pessoas, coisas, ou mesmo onde colocou determinados objetos; ➔ Acentuação das características da personalidade. Traços do tipo, por exemplo: rigidez, egocentrismo, desconfiança, irritabilidade, avareza, dogmatismo, autoritarismo, que tenham existido na juventude, tendem a exacerbar-se; ➔ Dificuldade na assimilação ou mesmo aversão a ideias, coisas e situações novas; ➔ Apego maior aos valores já conhecidos e convencionados, aos costumes e às normas já instituídas; ➔ Depressão/ alteração de humor; É preciso ter em conta que todas estas manifestações podem transformar-se em graves patologias, impedindo o Idoso de viver a sua vida de maneira independente. Também é importante saber quais os aspectos psicológicos de risco no Idoso, como por exemplo: ➔ Deterioração gradual dos processos sensoriais; ➔ Solidão e/ou depressão; ➔ Risco de suicídio; ➔ Doenças mentais (Alzheimer); ➔ Baixa autoestima; ➔ Violência (em casa ou na rua) – física, psicológica, neglicencia ou financeira. Tendo em conta estas alterações psicológicas, o ser humano pode envelhecer bem, dependendo da maneira como aceita o seu desenvolvimento para geronte. É preciso ter em conta que o equilíbrio entre o envelhecimento psíquico e biológico é importante para melhorar a qualidade de vida e as relações com os outros. O processo de envelhecimento é diferente e indiferenciado de pessoa para pessoa. A velhice bem-sucedida é a consequência de uma vida bem-sucedida, ou seja, o processo de envelhecimento ocorre de forma natural na gravidez mãe e processa-se ao longo da vida. Envelhece-se desde que somos concebidos até a morte. O envelhecimento vai depender do estilo de vida que levarmos, dos hábitos e costumes praticados ao longo da vida. A fase de ser velho tem de ser pensada e valorizada por todos nós e, enquanto esse conceito não for valorizado pelo Idoso, a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 sociedade também não o valorizará. É certo que a sociedade desvaloriza o Idoso e ao longo da vida não nos preocupamos com o processo de envelhecimento, a não ser quando estamos doentes ou quando os sintomas ou as mudanças ocorrem. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Metabolismo Ósseo O osso é um tecido dinâmico que é remodelado constantemente ao longo da vida. O arranjo do osso compacto e esponjoso proporciona força e densidade apropriadas tanto para a mobilidade quanto para a proteção. Além disso, o osso proporciona um reservatório para o cálcio, o magnésio, o fósforo, o sódio e outros íons necessários para as funções homeostáticas; abriga e regula a hematopoiese, proporcionando nichos para a proliferação das células hematopoéticas e a sua diferenciação. O esqueleto é vascularizado e recebe 10¢do débito cardíaco. A remodelação ósseo é feito por dois tipos de células: os osteoblastos que produzem matriz óssea, e os osteoclastos que a reabsorvem. Os componentes extracelulares do osso formam uma fase mineral sólida em íntima associação a uma matriz composta principalmente (90 a 95%) por colágeno tipo 1. A porção não colágenosa da matriz orgânica é heterogênea e contêm proteínas séricas como albumina e outras produzidas no local de funções desconhecidas. Algumas proteínas são as proteínas para ligação celular/sinalização (trombospondina, osteopontina e fibronectina), as proteínas ligantes de cálcio como a proteína gla da matriz e a osteocalcina, e proteoglicanos como biglicano e decorina. Algumas proteínas organizam- se em fibrilas colágenas, outras influenciam a mineralização e a ligação da fase mineral à matriz. A fase mineral é composta por cálcio e fosfato e se caracteriza melhor por uma hidroxiapatita precariamente cristalina. Essa fase é depositada inicialmente em íntima relação com as fibrilas colágenas e é encontrada em localizações específicas nos orifícios entre fibras colágenas. Essa organização do mineral e da matriz resulta em um material de duas fases capaz de suportar estresses mecânicos. Os osteoblastos sintetizam e secretam a matriz orgânica, e derivam de células de origem mesenquimal. Osteoblastos são encontrados na superfície do osso recém- formado. Conforme um osteoblasto secreta matriz, que é mineralizada, a célula é transformada em um osteócito, conectado com o suprimento sanguíneo por canalículos. Os osteócitos são a maioria das células do osso. Os osteócitos são os mecassensores que comunicam os sinais aos osteoblastos superficiais e aos progenitores pela rede de canalículos, atuando como principais reguladores da formação e reabsorção óssea. Os osteócitos secretam fator de crescimento de fibroblastos 2 (FGF23), que é regulador do metabolismo do fosfato. A mineralização da matriz, no osso trabecular (esponjoso) e nos ósteons (osteônios) do osso cortical compacto, começa logo depois que a matriz é secretada (mineralização primária), porém só é completada várias semanas depois ou após Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 períodos ainda mais longos (mineralização secundária). Embora a mineralização tire vantagem da alta concetração de cálcio e fosfato próximos da saturação no soro, a mineralização é um processo regulado que depende da atividade da fosfatase alcalina dos osteoblastos, que funciona hidrolisando os inibidores da mineralização. O Runx2 é um fator de transcrição que se expressa nos progenitores de condrócitos e dos osteoblastos, e nos condrócitos hipertróficos e nos osteoblastos maduros, regulando a expressão de várias proteínas importantes do osteoblasto, incluindo o rosterite (fator de transcrição necessário para a maturação do osteoblasto), osteopontina, sialoproteína óssea, colágeno tipo 1, osteocalcina e ligante de recptor- ativador de NfxB (RANK). A expressão do Runx2 é regulada pelas proteínas morfogênicas do osso (BMP). A molécula de sinalização parácrina do Indian hedgehog (Ihh) desempenha papel essencial no desenvolvimento dos osteoblastos. Vários fatores de crescimento afetam a função dos osteoblastos como os TGF-B, FGF 2 e 18, PDGF e IGF 1 e 2. Hormonios como paratormonio (PTH) e a 1,25- diidroxivitamina D ativam os receptores expressados pelos osteoblastos, garantindo a homeostase mineral e influenciando uma ampla variedade de funções das células ósseas. A reabsorção óssea é feita pelos osteoclastos, células multinucleadas que são formadas pela fusão de células que derivam do precursor comum dos macrófagos e osteoclastos. Fatores produzidos pelos osteoblastos ou pelas células estromais da medula óssea permitem aos osteoblastos. O fator estimulador de colônias de macrófagos (M-CSF) desempenha um papel crítico em várias etapas nessa via e acaba resultando em fusão das células progenitoras dos osteoclastos para formarem osteoclastos ativos multinucleados. O ligando do RANK, membro da família do TNF, se expressa na superfície dos progenitores dos osteoblastos e dos fibroblastos estromais. Em um processo de interações o ligante do RANK se liga ao receptor RANK sobre os progenitores dos osteoblastos, estimulando a diferenciação e a ativação dos osteoclastos, estimulando a diferenciação e a ativação dos osteoclastos. Um receptor chamariz solúvel, chamado de osteoprotegerina, pode se unir ao ligante do RANK, inibindo a diferenciação dos osteoclastos. Vários fatores de crescimento e citocinas (IL-1, 6 e 11, TNF e o IFN-y) modulam a diferenciação e a função dos osteoclastos. Amaioria dos hormônios que influenciam a função dos osteoclastos não agem diretamente pera essas células, porém influencia a sinalização do M-CSF e do ligante do RANK pelos osteoblastos. O PTH e a vitamina D induzem aumentos no número e na atividade dos osteoblastos, enquanto o estrogênio reduz o número e a atividade dos osteoclastos por esse mesmo mecanismo indireto. Já a calcitonina se une ao seu receptor sobre a superfície basal dos osteoclastos e inibe diretamente sua função. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 A reabsorção feita pelos osteoclastos se processa em espaços bem delineados (lacunas de Howship), onde os osteoclastos se unem atráves de uma integrina especifica aB, ao componentes da matriz óssea, como a osteopontina. O osteoclasto forma uma barreia impermeável para a matriz subjacente e secreta prótons, através de uma ATPase especializada da bomba de prótons, que secreta ácido e solubiliza a fase mineral. A matriz óssea é reabsorvida no ambiente ácido adjacente à borda enrugada por proteases que atuam em um pH baixo, como a catepsina K. No embrião e na criança em crescimento, o osso se desenvolve por remodelamento e substituição da cartilagem previamente calcificada (formação óssea endocondral), ou é formado sem uma matriz cartilaginosa (formação óssea intramembranosa). Metabolismo do Cálcio Mais de 99% dos 1-2 Kg de cálcio presentes no corpo humano adulto estão localizados no esqueleto, onde proporciona estabilidade mecânica e funciona como um reservatório que se torna necessário ocasionalmente para preservar a concentração de cálcio no liquido extracelular (LEC). O acréscimo de cálcio esquelético se torna significativo pela primeira vez no terceiro trimestre de vida, é acelerado em toda a infância e a adolescência, alcança um pico no início da vida adulta e, gradualmente, declina daí em diante com ritmos que só raramente ultrapassam 1 a 2% ao ano. A concetração de cálcio ionizado no LEC deve ser mantida dentro de uma variação estreita, por causa do papel extremamente importante que desempenha em uma ampla gama de funções celulares, especialmente na atividade neuromuscular, na secreção e transdução dos sinais. Os níveis de cálcio livre citosólico intracelular são de cerca de 100 nmol/L e 10000 vezes mais baixos que a concentração de cálcio ionizado no sangue e no LEC. O cálcio citosólico tem função de sinalização. A concentração de cálcio de fora para dentro da célula promove o influxo rápido de cálcio através de vários canais de cálcio da membrana que podem ser ativados por hormônios, metabólitos ou neurotransmissores, modificando rapidamente a função celular. O controle da concetração de cálcio ionizado no LEC em geral é feito por ajustes nos ritmos de movimentação do cálcio através dos epitélios intestinais e renais. Esses ajustes são mediados por mudanças nos níveis de sanguíneos dos hormônios PTH e vitamina D. O cálcio ionizado no sangue suprime diretamente a secreção de PTH por ativar os receptores sensíveis ao cálcio nas paratireoides (CaSR). Além disso, o cálcio ionizado afeta indiretamente a secreção de PTH por seus efeitos sobre a produção de 1,25(OH)2D. Esse metabólito ativo da vitamina D inibe a produção de PTH por um Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 mecanismo incompletamente explicado de feedback negativo. A absorção passiva do cálcio não é saturável e aproxima-se de 5% de sua ingestão diária e a absorção ativa envolve a entrada apical de cálcio através de canais iônicos específicos, com a expressão controlada pela 1,25(OH)2D, variando de 20% a 70%. O transporte ativo do cálcio ocorre principalmente no intestino delgado proximal (duodeno e jejuno proximal). A regulação hormonal controlada por retroalimentação da eficiência absortiva intestinal resulta em uma absorção diária global de cálcio, constante de cerca de 5 a 7,5 mmol/dia (200 a 400 mg/dia). Os níveis sanguíneos aumentados de PTH e 1,25(OH)2D ativam a reabsorção óssea osteoclástica para obter do osso o cálcio necessário, o que resulta em perda progressiva de osso e equilíbrio negativo do cálcio. Os maiores níveis de PTH e 1,25(OH)2D também aceleram a reabsorção renal de cálcio e a 1,25(OH)2D acelera a absorção de cálcio no intestino. Metabolismo da Vitamina D A 1,25-diidroxivitamina D (1,25(OH)2D) é o principal hormônio esteroide envolvido na regulação da homeostase mineral. A vitamina D e seus metabólitos são mais hormônios e precursores hormonais que vitaminas pois podem ser sintetizadas por mecanismos endógenos. Em resposta a radiação ultravioleta da pele, uma clivagem fotoquímica forma a vitamina D a partir de 7-dehidrocolesterol. A produção cutânea de vitamina D é reduzida pela melanina e pelos altos bloqueadores solares produzidos da pela luz ultravioleta. A vitamina D de fontes vegetais existe na forma de vitamina D2 e a de fonte de animais existe na forma de vitamina D3. As duas formas possuem uma atividade biológica equivalente e são ativadas igualmente bem pelas hidroxilases da vitamina D em humanos. A vitamina D penetra na circulação, independe se foi absorvida pelo intestino ou sintetizada na pele, ligada na proteína carreadora de vitamina D, uma alfa-globulina sintetizada no fígado. Depois a vitamina D é 25-hidroxilada no fígado por enzimas semelhantes ao citocromo P450 nas mitocôndrias e nos microssomos. A atividade dessa hidroxilase não é regulada de forma rígida e o metabólito resultante, 25-hidroxivitamina D [25(OH)D], é a principal forma circulante e de armazenamento da vitamina D. E a maioria é transportada ligada a proteína carreadora de vitamina D. A segunda hidroxilação, necessária para a formação do hormônio maduro, ocorre no rim. A 25-hidroxivitamina-D-1a-hidroxilase é uma oxidase que função mista semelhante ao citocromo P450 controlada de forma rígida que se expressa nas células do túbulo Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 proximal do rim. O PTH e a hipofosfatemia são os principais indutores dessa enzima microssomal, já o cálcio, o FGF23 e o produto da enzima, 1,25(OH)2D, inibem essa enzima. A principal via de inativação dos metabólitos da vitamina D é uma etapa adicional de hidroxilação por parte de 24-hidroxilase da vitamina D, enzima expressa na maioria dos tecidos. A 1,25(OH)2D é o principal indutor dessa enzima, portanto, esse hormônio promove sua própria inativação, limitando dessa forma seus efeitos biológicos. Os metabólitos polares de 1,25(OH)2D são secretados e lançados na bile e reabsorvidos pela circulação êntero-hepática. O comprometimento dessa recirculação acarreta perdas aceleradas dos metabólitos da vitamina D. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Ações da vitamina D (1,25(OH)2D) A 1,25(OH)2D medeia seus efeitos biológicos se ligando a um membro da superfamília de receptores nucleares, o receptor da vitamina D (VDR). Esse receptor é da família que inclui os receptores dos hormônios tireoidianos, os receptores retinoides e os receptores ativados pelo proliferador de peroxissomo. O VDR se expressa em várias células e tecidos. As ações moleculares da 1,25(OH)2D foram estudadas mais extensamente nos tecidos que participam da homeostase mineral. Esse hôrmonio é o principal indutor de calbindina 9K, uma proteína ligadorado cálcio que se expressa no intestino, e considerada como desempenhando um papel importante no transporte ativo do cálcio através do enterócito. Os dois principais transportadores de cálcio expressos pelo epitélio intestinal TRPV5 e TRPV6, também SidneyFerreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 respondem à vitamina D. Por induzir a expressão desse e de outros genes no intestino delgado, a 1,25(OH)2D aumenta a absorção do cálcio, e foi também constatado que ela exerce várias ações importantes no esqueleto. O VDR é expressado nos osteoblastos, regulando a expressão de vários genes nessa célula. Esses genes incluem as proteínas da matriz óssea, osteocalcina e osteopontina, que sofrem uma regulação ascendente por parte de 1,25(OH)2D, e o colágeno tipo 1 que sofre uma repressão transcricional por parte de 1,25(OH)2D. A 1,25(OH)2D e o PTH induzem a expressão do ligante do RANK, que promove a diferenciação dos oesteoblastos e aumenta sua atividade, por se ligar ao RANK nos progenitores dos osteoclastos, assim como nas formas maduras dessas células. Esse é o mecanismo pelo qual 1,25(OH)2D induz a reabsorção óssea. O VDR é expressado na paratireoide e mostrou-se que a 1,25(OH)2D tem efeitos antiproliferativos sobre as células paratireoideas e suprime a transcrição do gene do paratormônio. A 1,25(OH)2D exerce efeito antiproliferativo sobre vários tipos de células, incluindo queratinócitos, células do câncer de mama e células do câncer de próstata. Osteoporose (OP) É uma doença caracterizada pela alteração da qualidade óssea e por sua baixa massa, podendo levar ao desenvolvimento de fraturas atraumáticas em homens e mulheres. A fratura não traumática tem sido definida como decorrente de um trauma causado por uma queda da própria altura ou de menor intensidade. No estado pré-clínico, a OP é caracterizada simplesmente pela baixa massa óssea sem fraturas, e, geralmente, é assintomática, não levando o paciente e o médico ao diagnóstico precoce. Para realizar o diagnóstico precocemente, temos a densitometria óssea (DO), método não invasivo e de rápida execução. Tratando-se de exame de grande exatidão e precisão, determinados cuidados técnicos se fazem necessários durante a sua realização. A osteoporose é uma das doenças osteometabólicas mais comuns em países desenvolvidos. As fraturas osteoporóticas afetam qualquer parte do esqueleto, exceto o crânio. Ocorrem mais comumente na porção distal do antebraço (fratura de Colles), vértebras torácicas e lombares e no fêmur proximal. O aumento da morbidade e da mortalidade pela OP está associado a custos econômicos significativos relacionados com a hospitalização, cuidados ambulatoriais, institucionalização, incapacidades e mortes prematuras. Definição Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Osteoporose é uma desordem esquelética crônica e progressiva, de origem multifatorial, que acomete principalmente pessoas idosas, tanto homens quanto mulheres, geralmente após a menopausa. É caracterizada por resistência óssea comprometida, predispondo ao aumento do risco de fratura, à dor, à deformidade e à incapacidade física. A resistência óssea reflete a integração entre densidade e qualidade óssea, que, por sua vez é determinada por vários fatores: microarquitetura trabecular interna, taxa de remodelamento ósseo, macroarquitetura, acúmulo de microdanos, grau de mineralização e qualidade da matriz. É comum conceituar OP como sendo sempre o resultado de perda óssea. Entretanto, uma pessoa que não alcançou seu pico máximo durante a infância e a adolescência, por desnutrição ou anorexia nervosa, por exemplo, pode desenvolver OP sem ocorrência da perda óssea acelerada. Portanto, otimizar o pico de massa óssea na infância e adolescência é tão importante quanto a perda óssea no adulto. A OP é classificada como primária, subdividida em tipos 1 e 2 ou secundária: Epidemiologia A prevalência varia segundo a influência de vários fatores sobre a massa óssea e a facilidade de se realizar o diagnóstico, entretanto, atualmente, a literatura registra incidência de 50% para as mulheres na oitava década e 20% para os homens da mesma idade. O terceiro National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES III) estimou que 12 milhões (41%) de mulheres americanas brancas, por volta de 50 anos, apresentam osteopenia, enquanto 5 milhões (15%) sofrem de OP. Para as de 80 anos, a incidência sobe para 70%. A prevalência de OP nas mulheres brancas mexicanas é Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 semelhante. Para as mulheres negras, a taxa é menor (8%), porém ainda substancial. Fisiopatologia O osso é uma forma rígida de tecido conjuntivo, formado por células, osteócitos, osteoblastos (Ob) e osteoclastos (Oc). Os osteócitos encontram-se embebidos em uma matriz proteica de fibras colágenas impregnadas de sais minerais, especialmente de fosfato de cálcio. A matriz se apresenta na fase orgânica, constituída de colágeno, proteínas e glicosaminoglicanos; na fase inorgânica, encontram-se, principalmente, hidroxiapatita (fosfato de cálcio) e menores quantidades de outros minerais. Os Ob e os Oc estão no periósteo e no endósteo, formando a matriz óssea. As fibras colágenas dão elasticidade, e os minerais, resistência. Na infância, dois terços da substância óssea são formados por tecido conjuntivo. Na velhice, são os minerais que predominam. Essa transposição de conteúdo leva a menor flexibilidade e aumenta a fragilidade do osso. Na composição do esqueleto, há aproximadamente 80% de osso cortical ou compacto, com funções mecânica e protetora, portanto mais resistente, e 20% de osso trabecular ou esponjoso, mais frágil, responsável pela função metabólica. Remodelação óssea Embora a imagem do esqueleto seja uma estrutura inerte, de suporte corporal, o osso é um tecido dinâmico, que está em remodelação constante, não uniforme, por toda a vida. O processo de remodelação é realizado pelos Oc e Ob, coordenado com fases de formação e reabsorção óssea, renovando o esqueleto e mantendo sua estrutura. A remodelação ocorre na face interna do osso e é realizada por um conjunto celular justaposto com os Oc, na frente, e os Ob, atrás, formando a unidade básica multicelular (UBM). A velocidade da destruição e reposição de osso velho ou danificado é determinada pelo número de UBM que está funcionando em dado momento. Geralmente, é maior no osso trabecular (esponjoso). Os osteoclastos são células diferenciadas da linhagem macrófago/monócito, multinucleadas, dirigidas para uma sequência de eventos que inclui proliferação, diferenciação, fusão e ativação. Esses eventos estão sob controle de hormônios e citocinas locais, junto ao microambiente ósseo. Interleucinas (IL-1, IL-6, IL-4, IL-7, IL-11, IL-17), fator de necrose tumoral (TNFa), fator de transformação do crescimento b (TGFb), prostaglandina E2 e hormônios atuam em conjunto para controlar os osteoclastos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 RANKL é um membro da superfamília TNF, expressa pelos Ob e seus precursores imaturos. Essa citocina ativa seus receptores RANK, promovendo a formação e ativação dos Oc, prolongando sua sobrevivência por meio da supressão da apoptose. Os efeitos do RANKL são bloqueados pela osteoprotegerina (OPG), a qual atua como receptor solúvel, agindo como antagonista do RANKL. O equilíbrio entre RANKL e OPG é regulado pelas citocinas e hormônios e determina as funções dos Oc. Alterações da relação entre RANKL/OPG são críticas na patogênese das doenças ósseas reabsortivas. Deficiência de estrogênio, uso de corticosteroide, ativação das células-T (artrite reumatoide e outras) e doenças malignas (mieloma e metástase) alteram a relação RANKL/OPG, promovendo a osteoclastogênese,acelerando a reabsorção óssea e induzindo a perda óssea. Na infância, o esqueleto aumenta de tamanho por crescimento longitudinal, o qual cessa com o fechamento epifisário por volta dos 20 anos e por aposição de novo tecido ósseo nas superfícies externas do córtex. Esse processo é conhecido como modelação. Com a chegada da puberdade, aumenta a produção dos hormônios sexuais, com consequente maturação óssea, sendo alcançado o máximo de massa e densidade óssea na fase adulta jovem. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Uma vez atingido o pico de massa óssea, o processo de remodelação torna-se a principal atividade metabólica do esqueleto. O resultado final é a reposição óssea em igual quantidade da absorvida, mantendo a massa constante. Após os 30 anos, em vários locais do esqueleto, o processo de reabsorção e reposição não se faz na mesma proporção, predominando a fase de reabsorção, devido ao aumento da atividade Oc ou por diminuição da Ob, sendo mais marcante na mulher pós-menopausa. Fatores de risco A detecção dos fatores de risco é de maior utilidade para os cuidados de saúde pública do que para o indivíduo isoladamente. Eles podem ser divididos em cinco categorias: ➔ Idade ou relativo à idade ➔ Genética ➔ Ambiental ➔ Doenças crônicas e hormonais ➔ Características físicas do osso. A partir dos 35 anos de idade, o osso cortical apresenta perda de 0,3 a 0,5% por ano, tanto em homens quanto em mulheres, podendo ser 10 vezes maior na menopausa. A perda de osso trabecular anual, pela sua alta atividade metabólica, varia de 0,6 a 2,4% nas mulheres e de 0,2 a 1,2% nos homens. Ao longo da vida, as mulheres perdem 35 a 50% do osso trabecular e 25 a 30% do osso cortical, enquanto os homens perdem 15 a 45% do osso trabecular e 5 a 15% do osso cortical. A diferença sexual no esqueleto está mais relacionada com o tamanho do que com a densidade, sendo o osso masculino frequentemente maior que o feminino. Contribuindo para a maior frequência de fratura osteoporótica nas mulheres, sabe-se que a diminuição da massa esquelética é primariamente causada pela queda dos hormônios gonadais dependente da idade. A queda dramática dos hormônios nas mulheres está relacionada com a redução de massa óssea, enquanto, nos homens, o decréscimo é gradual. Muitas evidências apontam para as grandes diferenças entre grupos étnicos. A prevalência de fratura é muito rara nos países africanos e na Jamaica. A OP é relativamente comum na Europa e na Índia, embora, entre os indianos, a osteomalacia contribua para as fraturas. As meninas negras formam, durante a adolescência, maior quantidade de massa óssea do que as brancas. A nutrição pode ter um papel na perda óssea relacionada com a idade. Os principais pilares do osso – cálcio, proteína e fósforo – têm recebido maior atenção. A má absorção do cálcio instala-se gradualmente com o avançar da idade. A redução na Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 absorção do cálcio parece ser devida à queda de 25(OH)D com a idade, secundária à redução da exposição ao sol e à piora do metabolismo de 25(OH)D para 1,25(OH)D, pelo declínio da função renal. Além disso, os receptores da vitamina D estão em menor número na mulher idosa e na pós-menopausa. Diagnóstico de OP O mais usado para diagnóstico e acompanhamento da osteoporose é a densitometria óssea, que permite diagnosticar as perdas ósseas, avaliar o risco de fratura e monitorar o tratamento. Densitometria óssea (DXA) é um termo aplicado a métodos capazes de medir a quantidade de osso (conteúdo mineral) em uma área ou volume definido, calculando, como resultado desses dois parâmetros, a DMO. Mede a densidade óssea, em valores absolutos (g/cm 2 ), em todo o esqueleto ou em regiões específicas, comparando-os às curvas de normalidade, estabelecendo o diagnóstico precoce da doença, o nível de gravidade e o risco de fratura óssea. Amostras são obtidas durante a evolução da aquisição absorciométrica. Por meio delas, a imagem vai sendo processada pelo computador. A DXA permite estabelecer o diagnóstico da OP; determinar o risco de fraturas; auxiliar na identificação de candidatos para intervenção terapêutica; avaliar as mudanças na massa óssea, com o tempo, em pacientes tratados ou na evolução natural da doença; e aumentar a aceitação e a adesão aos diferentes tratamentos. O método oferece três tipos de medidas: 1. Valor absoluto (g/cm 2). 2. Valor percentual relativo a uma curva ajustada para a idade, sexo, raça e peso (age matched) – (Z-score). 3. Valor percentual relativo a uma curva de jovens entre 20 e 40 anos de idade (young adults) – (T-score). O valor absoluto estabelece o padrão esquelético do indivíduo por meio do corte transversal, representando a massa óssea em um determinado momento. Não define risco de fratura e não separa os indivíduos normais dos patológicos. Esse valor é importante quando comparamos exames prospectivamente. Age matched é uma curva ajustada considerando-se a idade do paciente, sexo, cor e peso. É um valor relativo, que serve para alertar quanto à existência de alguma causa secundária para a osteopenia ou para a OP. Indivíduos que se encontram com massa óssea abaixo da esperada para a sua idade podem ter alguma outra razão para desenvolver a doença, além dos fatores fisiológicos que acarretam a perda de massa Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 óssea. No entanto, estar dentro dessa curva de normalidade não afasta, em alguns casos, a necessidade de intervenção terapêutica, já que esse parâmetro não define risco de fratura. Esse valor é definido como Z-score. Young adults é uma curva ajustada de uma população entre 20 e 40 anos. Compara-se à massa óssea do idoso com a de uma pessoa jovem, que possui as mesmas características em relação a sexo e peso. Esse valor é definido como T-score. A OMS classifica os indivíduos, com base na curva ajustada para adultos jovens (T- score), como: ➔ Até –1,0 desvio padrão = indivíduos normais; ➔ Entre –1,0 e –2,5 desvios padrões = indivíduos osteopênicos; ➔ Abaixo de –2,5 desvios padrões = pacientes com OP; ➔ Abaixo de –2,5 desvios padrões, associada à fratura = pacientes com OP estabelecida ou grave. Por que –2,5 desvios padrões? Tal limite identifica cerca de 30% das mulheres pós- menopausa portadoras de OP, o que equivale ao risco de fraturas nesses locais. Tratamento A prevenção da OP e das fraturas consequentes apoia-se em um tripé: Adequada nutrição; Bons hábitos de vida, incluindo exercícios físicos, evitando alcoolismo e tabagismo; Controle do ambiente para prevenção das quedas. O nutriente mais importante é o cálcio. Sua ingesta em níveis adequados está relacionada com o pico de massa óssea, prevenção e tratamento, como veremos adiante. Todos os consensos de OP recomendam uma ingesta de 1.500 mg de cálcio para mulheres após a menopausa sem terapia estrogênica e 1.000 mg para os homens e mulheres em terapia estrogênica, diariamente, devendo ser aumentada para 1.500 mg/dia após os 65 anos. O ideal é obter a quantidade total com a dieta, mas, como nem sempre é possível, há necessidade de adicionar uma suplementação. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Um bom aporte proteico, sem qualquer exagero no sentido de alta ingesta de carne vermelha, pode, inclusive, diminuir a mortalidade pós-fratura de colo femoral. Os exercícios mais benéficos para a estimulação óssea no idoso são realizados com carga, como a marcha, e contra a resistência, como a musculação leve. Alguns exercícios específicos, visando alongara musculatura peitoral e fortalecer a musculatura paravertebral e abdominal, dão suporte à coluna e parecem ser benéficos nas pacientes com tendência à hipercifose dorsal. A natação, embora traga outras vantagens, não tem efeito benéfico sobre a massa óssea. A atividade física deve ser realizada pelo menos 3 vezes/semana, em dias alternados, durante, no mínimo, 30 minutos. Caminhadas podem ser feitas diariamente, por um período de 40 minutos. Para a população idosa, a prática regular de exercício mantém a massa muscular, melhora o equilíbrio, a mobilidade, o padrão senil da marcha e os reflexos posturais, contribuindo, definitivamente, para a prevenção de quedas. São elas as responsáveis por 90% das fraturas de fêmur, a complicação mais temida da OP. O calcitriol, na dose inicial de 0,25 mg/dia, vem se mostrando seguro e eficaz, com aumento da massa óssea e diminuição da incidência de fraturas. O alfacalcidol é usado na dose de 1 mg/dia. A forma ideal de suplementação de vitamina D é o colecalciferol, forma de depósito. Doses superiores às descritas acima podem estar indicadas para tratar graus de deficiência e insuficiência de vitamina D. O nível sérico ideal de 25 hidroxivitamina D é superior a 30 ng/dl, capaz de manter os níveis de PTH dentro do normal sem estímulo aos osteoclastos em jovens e de 40 ng/dl no idoso. Doenças Articulares Degenerativas (artrite e osteoartrite – OA) A artrite consiste em qualquer inflamação nas articulações que pode acontecer em qualquer idade e tem inúmeras causas desde a doenças autoimunes a patologias mais específicas. A doença articular degenerativa, osteoartrite (OA), ou osteoartrite, é de longe a enfermidade musculoesquelética mais comum nos indivíduos com mais de 65 anos. Antes se acreditava tratar-se de uma doença progressiva, de evolução arrastada, sem perspectivas de tratamento. Hoje, a OA é considerada uma insuficiência da articulação, com o comprometimento de todas as estruturas que as formam. Além disso, é encarada como uma doença cujo curso evolutivo é passível de modificação, tanto em relação ao tratamento imediato, quanto ao seu prognóstico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Epidemiologia Acredita-se que cerca de 85% da população geral apresenta evidências radiográficas de OA por volta dos 65 anos de idade. A OA distribui-se igualmente entre homens e mulheres, quando todas as idades são analisadas. No entanto, quando analisamos os grupos de idade superiores aos 55 anos, as mulheres são mais afetadas e parecem desenvolver uma doença mais grave, provavelmente associada aos hábitos corporais ou mesmo à predisposição genética. Etiologia Numerosos fatores podem estar relacionados à etiologia da OA, como idade, predisposição genética (principalmente a das articulações interfalangeanas distais), traumas, estresse repetitivo, algumas ocupações, obesidade, alterações na morfologia da articulação, instabilidade articular, alterações na bioquímica da cartilagem articular. Embora se observe uma forte associação entre OA e idade, essa enfermidade não é, como sempre se acreditou, uma consequência natural do envelhecimento. Alterações bioquímicas na matriz cartilaginosa podem ocorrer com a idade, mas hoje se sabe que essas alterações são diferentes daquelas que se observam na cartilagem osteoartrítica. No entanto, a cartilagem com as alterações do envelhecimento estão mais sujeitas a desenvolver aquelas próprias da OA, notadamente se outros fatores etiológicos, como obesidade, desvios de curvatura de membros inferiores etc. estiverem presentes. Da mesma forma, articulações que tenham sofrido traumas prévios, como fraturas, ruptura de ligamentos, alterações traumáticas de meniscos, também estão mais sujeitas a apresentarem OA em idades mais avançadas. Além disso, articulações expostas a traumas repetitivos ocupacionais, como aqueles a que estão submetidas às articulações das bailarinas ou dos atletas profissionais, também estão associadas a uma maior frequência de OA. Entre os atletas, os corredores são exceção, pois parece haver uma proteção contra o desenvolvimento da OA. A obesidade vem ganhando maior destaque entre os fatores desencadeantes da enfermidade. O excesso de peso no desenvolvimento da OA de joelhos já é bem conhecido. Qualquer alteração da conformação normal da articulação ou a instabilidade articular pode aumentar o risco de surgimento de OA na articulação afetada, incluindo-se aqui as artropatias inflamatórias (artrite reumatoide, gota, pseudogota), diátese hemorrágica (hemofilia), condições metabólicas que afetam as articulações (hemocromatose, ocronose), necrose asséptica com alteração do contorno ósseo, distúrbios neurológicos relacionados à sensação alterada (propriocepção) ao redor da articulação. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Fisiopatologia A cartilagem articular normal é composta por fluido intersticial, elementos celulares e moléculas da matriz extracelular. Cerca de 70% da cartilagem é constituída por água, e essa porcentagem aumenta com a progressão da osteoartrite. As células presentes na cartilagem são os condrócitos, e as moléculas que compõem a matriz cartilaginosa são sintetizadas por eles, dentre as quais as proteínas, representadas principalmente pelos diferentes tipos de colágenos, particularmente o do tipo II, que além de abundante é específico da cartilagem, a elastina, a fibronectina e os complexos polissacarídios. Essa composição é que confere à cartilagem suas propriedades de reversibilidade às deformidades e de elasticidade. A função desse tecido é absorver os impactos sobre a articulação e possibilitar um deslizamento suave entre as duas extremidades ósseas justapostas. A patogenia da OA envolve os processos de destruição e reparação da cartilagem visto que a remodelação é um processo contínuo na cartilagem normal. Os elementos da matriz são constantemente degradados por enzimas autolíticas e repostos por novas moléculas pelos condrócitos. Na OA, esse processo é alterado e, em consequência disso, há um desequilíbrio entre a formação e a destruição da matriz, com um aumento desta última. Na OA, os condrócitos têm papel-chave no equilíbrio entre a produção e a degradação da matriz cartilaginosa e, por consequência, da manutenção da função da cartilagem. São responsáveis pela síntese dos elementos da matriz extracelular (MEC) como já descrito, mas também. são eles os responsáveis pela produção das enzimas proteolíticas que as quebram, as metaloproteinases (MMP), tais como a MMP-1, MMP-3, MMP-8 e MMP-13, além das agrecanases, a desintegrina e a metaloproteinase com trombospondina-4 e 5 (ADAMTS). Os condrócitos indicam citocinas pró-inflamatórias, como a IL-1b e o TNF-a e fatores de crescimento, como o TGF-b. Normalmente, a produção e a destruição da matriz encontram-se em perfeito equilíbrio. Quando fatores mecânicos, que induzem o aumento da expressão de citocinas inflamatórias, e biológicos atuam rompendo esse equilíbrio, com predomínio da destruição, surge então a OA. Assim, a OA é resultante da quebra desse equilíbrio. A perda local de proteoglicanos e da molécula do colágeno tipo II ocorre inicialmente na superfície da cartilagem, levando a um aumento no conteúdo de água e perda da força de tensão da MEC na medida em que a lesão progride. No líquido sinovial, os novos elementos que são sintetizados são mecanicamente inferiores aos originais e, portanto, são mais suscetíveis às lesões. O processo pode ser iniciado por uma série de eventos queacarretam a alteração da função do condrócito, com fortes evidências de que os estímulos aos condrócitos seriam ocasionados por citocinas pró-inflamatórias, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 especialmente a IL-1b e o TNF-a. Os condrócitos liberam enzimas proteolíticas (proteinases neutras, catepsina e metaloproteinases), que degradam os elementos da matriz cartilaginosa, causando adelgaçamento da cartilagem e deterioração da sua qualidade mecânica. A velocidade de liberação dessas enzimas e a consequente destruição das moléculas da matriz são significativamente maiores na cartilagem osteoartrítica do que na cartilagem normal. A perda da força de tensão para suportar cargas leva à transmissão de uma força maior aos condrócitos e ao osso subcondral. Os condrócitos sob ação dessas forças liberam mais enzimas proteolíticas. O osso subcondral desenvolve microfraturas, causando endurecimento e perda da reversibilidade à compressão. Alguns produtos resultantes da quebra da cartilagem e os proteoglicanos podem estimular a resposta inflamatória, perpetuando o ciclo destrutivo. Na OA, a IL-1b e o TNF-a, bem como as metaloproteinases, desempenham um papel central na intermediação dos seus mecanismos fisiopatogênicos. O desenvolvimento de moléculas que possam bloqueá-las, particularmente as metaloproteinases, tem sido buscado; no entanto, até o presente momento os resultados não são muito animadores. Quadro clínico e Diagnóstico A OA apresenta um início insidioso, lento e gradualmente progressivo ao longo de vários anos, principalmente nas articulações de carga, coluna e mãos. O acometimento dos punhos, cotovelos e ombros são pouco frequentes, e a sua ocorrência deve sugerir outras causas, salvo se houver história de trauma prévio ou qualquer outro fator predisponente. Os pacientes descrevem uma dor mecânica nas articulações envolvidas, isto é, a dor aparece quando se movimenta a articulação, desaparecendo ao repouso. Para aqueles que apresentam queixas há mais tempo, a melhora ao repouso pode não ocorrer, tornando-se a dor presente tanto no repouso quanto na movimentação. Esse ritmo de dor diferencia as queixas da OA daquelas apresentadas pelos pacientes com artrite reumatoide (AR), na qual a dor frequentemente melhora com a movimentação articular. Nos casos clássicos de OA, os pacientes queixam-se apenas de dor, sem relato de edema, eritema ou aumento da temperatura articular. Com o tempo, no entanto, os indivíduos acometidos pela OA podem apresentar um alargamento ósseo e diminuição dos movimentos articulares. Rigidez matinal ou após período prolongado de inatividade pode estar presente, porém, sua duração é curta e raramente ultrapassa 30 min, diferentemente do que se observa nos pacientes com AR. Queixas de crepitações e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 estalidos durante a movimentação podem ocorrer e podem piorar com a perda progressiva de cartilagem. Os exames laboratoriais geralmente são de pouca utilidade para o diagnóstico de OA. As provas de fase aguda da inflamação (p. ex., velocidade de hemossedimentação [VHS], proteína C reativa [PCR]), hemograma e testes bioquímicos são geralmente normais. A solicitação de “perfil reumatológico” não é indicada. A investigação radiológica, por outro lado, é fundamental não só no diagnóstico da OA, mas também na avaliação do grau de comprometimento articular. Os principais achados radiológicos incluem diminuição do espaço articular, esclerose do osso subcondral, cistos subcondrais e presença de osteófitos. Tratamento A OA é uma enfermidade crônica, com múltiplos fatores envolvidos na sua patogenia e, por essa razão, o seu tratamento deve ser multidisciplinar e buscar não só melhora clínica, mas também melhora mecânica e funcional. Deve-se sempre procurar envolver os pacientes o máximo possível para se alcançar sucesso. Para isso, é de vital importância a educação, levando-os a conhecer e entender o diagnóstico, o prognóstico e as opções terapêuticas. Na OA é de grande relevância a preservação da cartilagem e, dessa forma, dos movimentos articulares. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, o tratamento da doença é analisado sob três diferentes aspectos: tratamento não farmacológico, farmacológico e cirúrgico. Tratamento não farmacológico – Inclui nessa modalidade os aspectos de educação e envolvimento dos pacientes no seu tratamento, as atividades esportivas moderadas com monitoramento profissional adequado e as orientações quanto à ergonomia ocupacional e doméstica, fundamentais no tratamento da OA. São importantes os aspectos de educação e envolvimento dos pacientes no seu tratamento, as atividades esportivas moderadas com monitoramento profissional adequado e as orientações quanto à ergonomia ocupacional e doméstica, fundamentais no tratamento da OA. Tratamento farmacológico – O uso de analgésicos , como o paracetamol em doses efetivas (3 a 4 g ao dia) nos casos de OA leve ou moderada iniciais, está indicado como primeira escolha no tratamento da OA. Deve-se, no entanto, verificar se o paciente não apresenta hepatopatia, quando então o paracetamol não poderá ser utilizado. Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINE), tanto os inibidores seletivos de COX-2, quanto os não seletivos acompanhados de proteção gástrica, são indicados nos casos em que há inflamação clínica evidente, ou naqueles casos que não apresentaram resposta aos analgésicos. Nos casos de dor intensa ou de má resposta, ou ainda de contraindicação Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 aos AINE, o uso de opioides naturais ou sintéticos torna-se uma alternativa. AINE e capsaicina podem ser utilizados topicamente, principalmente em OA de mãos. Tratamento cirúrgico – A opção final de tratamento para a OA é o cirúrgico. Procedimentos cirúrgicos podem incluir a osteotomia, o desbridamento artroscópico, a artrodese (fusão) e as artroplastias. A osteotomia é um procedimento que deve ser feito precocemente em pacientes selecionados e pode ter função profilática, quando em pacientes que apresentam queixas, mas ainda sem alterações radiográficas, com o objetivo de corrigir eventuais desvios do eixo articular. Pode ainda ser terapêutica, quando é realizada em pacientes com alterações clínicas e radiográficas com o objetivo de alterar o eixo de alinhamento do membro afetado e deslocar a carga para outra região da superfície articular. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Problema 2 Hipertensão Arterial em Idosos A hipertensão arterial (HA) é uma doença altamente prevalente em indivíduos idosos, tornando-se fator determinante na morbidade e mortalidade elevadas dessa população. A hipertensão arterial, presente em mais de 60% dos idosos, encontra-se frequentemente associada a outras doenças também altamente prevalentes nessa faixa etária, como a arteriosclerose e o diabetes melito, conferindo a essa população alto risco para a morbimortalidade cardiovascular e exigindo, portanto, uma correta identificação do problema e uma apropriada abordagem terapêutica. A associação de outros fatores de risco como sobrepeso/obesidade, diabetes melito, dislipidemia, tabagismo e hipertrofia ventricular esquerda aumentava progressivamente, de forma absoluta, o risco para as doenças cardiovasculares. Portanto, não há a menor dúvida de que a relação entre a pressão arterial e a doença cardiovascular émuito consistente, para ambos os sexos e para todas as classes populacionais. Esse risco aumenta substancialmente, de forma contínua, com o aumento da pressão arterial, tornando o ponto de corte de normalidade absolutamente arbitrário. Na população brasileira, estimativas do Datasus apontam quase 650 mil óbitos em indivíduos acima de 60 anos em 2007. Deste total, cerca de 230 mil são por doenças do aparelho circulatório, com 66 mil por doença isquêmica do coração e 75 mil por doença cerebrovascular, duas condições intimamente relacionadas com a hipertensão. A VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial (2010) considera o limite de normalidade para PAS valores abaixo de 130 mmHg e para PAD valores abaixo de 85 mmHg. A partir desses valores, seguem-se o normal limítrofe, a hipertensão leve, a moderada e a grave e a hipertensão sistólica isolada. Os valores apresentados nesse quadro são válidos para todos os indivíduos acima de 18 anos de idade, nos quais, evidentemente, estão incluídos os idosos. Os benefícios do tratamento da hipertensão arterial na população em geral só foram reconhecidos no início dos anos 1960, e as evidências se consolidaram no decorrer dos anos 1970. No entanto, para o paciente idoso, prevalecia a ideia de que, com a idade, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 haveria necessidade de níveis de pressão arterial mais altos, sistodiastólicos ou somente sistólicos, como compensação para o endurecimento vascular decorrente do envelhecimento. De fato, o estudo NHANES III (1995) mostrou que, com a idade, há um progressivo aumento médio da pressão sistólica, enquanto a pressão diastólica aumenta somente até a sexta década, quando, então, inicia uma lenta e progressiva queda. Nessas circunstâncias, é usual nos idosos uma pressão de pulso elevada, definida como a diferença entre a pressão sistólica e a pressão diastólica. Do ponto de vista anatomopatológico, a explicação para esse fato é a progressiva perda da elasticidade da parede arterial, com consequente redução da complacência vascular. A maioria dos estudos epidemiológicos e consensos ou diretrizes para o tratamento da hipertensão arterial em idosos considera a pressão arterial sistólica 140 mmHg e/ou pressão diastólica 90 mmHg como valores limites para a definição de hipertensão arterial, que são os mesmos valores considerados para indivíduos com idade igual ou maior que 18 anos. Do ponto de vista clínico, a hipertensão arterial no idoso é avaliada como a do adulto jovem, das seguintes formas: ➔ Hipertensão sistodiastólica; ➔ Hipertensão sistólica isolada; ➔ Hipertensão diastólica isolada; ➔ Pressão de pulso. Fisiopatologia O mecanismo básico que explica o progressivo aumento da pressão sistólica observado com a idade é a perda da distensibilidade e elasticidade dos vasos de grande capacitância (capacidade armazenar sangue), resultando em aumento da velocidade da onda de pulso. Nessas circunstâncias, a pressão diastólica tende a ficar normal ou até baixa devido à redução da complacência (índice de distensibilidade) dos vasos de grande capacitância. Os indivíduos idosos com aumento das pressões sistólica e diastólica cursam com menor débito cardíaco, volume intravascular, fluxo renal, atividade de renina plasmática e capacidade de vasodilatação mediados por receptores beta-adrenérgicos, e maiores resistência vascular periférica e massa ventricular esquerda, quando comparados aos jovens com a mesma alteração de pressão arterial. Basicamente, a pressão arterial é o resultado do produto do débito cardíaco e da resistência vascular periférica. Enquanto no jovem o débito cardíaco encontra-se elevado com pouca alteração na resistência vascular periférica, no idoso observa- se exatamente o contrário: aumento nítido da resistência periférica com redução do débito cardíaco. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 O aumento da resistência periférica no idoso é consequência direta da aterosclerose, que leva a um processo a que podemos chamar envelhecimento do vaso. A aterosclerose é um processo patológico multifatorial, caracterizado inicialmente por disfunção endotelial, seguida por alterações morfológicas do endotélio e da camada íntima. Essas alterações ocorrem como resposta fibroproliferativa da parede arterial causada por agressão à superfície endotelial. O endotélio vascular atua modulando o tônus do músculo liso vascular, liberando substâncias vasoativas tanto relaxantes como constritoras; controla o crescimento das células musculares lisas, produzindo fatores estimulantes ou inibitórios desse crescimento; apresenta propriedades antitrombogênicas, por meio de ação antiplaquetária, além de exercer uma resposta inflamatória imune, participando da adesão, da ativação e da migração de linfócitos T e de leucócitos. Não há dúvida de que o envelhecimento por si só pode determinar modificações tanto na arquitetura como na composição da parede vascular. O endotélio, atingido pelo envelhecimento, libera uma menor quantidade de óxido nítrico, que é um importante fator de relaxamento vascular. Por outro lado, a sensibilidade da musculatura lisa vascular aos efeitos da endotelina, um potente vasoconstritor, diminui, embora sua liberação aumente com o avançar da idade. O diâmetro dos vasos tende a aumentar. O conteúdo de colágeno aumenta, enquanto a elastina progressivamente se desorganiza, se adelgaça e, com frequência, se fragmenta. Há deposição lipídica e de cálcio, com concomitante perda de elasticidade. Todas essas modificações observadas no idoso podem interagir com outros potentes fatores de risco cardiovascular, como hipertensão arterial, dislipidemias, obesidade e diabetes, fato observado com muita frequência na prática clínica. Essas alterações vasculares têm importantes implicações clínicas na patogênese das doenças cardiovasculares. A fisiopatologia da hipertensão arterial por si é altamente complexa. Inúmeros fatores encontram-se relacionados, envolvendo vários sistemas, resultando em evidentes reflexos na relação entre a espessura da parede arterial e sua luz. Por exemplo, o fator relaxante derivado do endotélio-óxido nítrico (EDON) é reconhecido como um importante modulador do relaxamento vascular dependente do endotélio; consequentemente, uma alteração nesse sistema reduz a síntese e a liberação de ON pelas células endoteliais, com importantes repercussões sobre o tônus vascular, contribuindo para o aumento da resistência dos vasos. Em indivíduos hipertensos, há menor liberação de ON decorrente da disfunção endotelial, com reflexos na resposta vascular. A ausência de uma ação vasodilatadora menos eficaz do óxido nítrico permite que a resposta vasoconstritora, proveniente de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 outros mecanismos, estimule a proliferação de células musculares lisas, o que possibilita alterações na arquitetura vascular já descritas anteriormente. O processo anatomopatológico desenvolvido é expresso clinicamente, entre outras doenças, pela hipertensão arterial sistólica, de grande prevalência entre os idosos. Em relação aos rins, com o avanço da idade, a partir dos 40 anos, principalmente, a massa renal declina continuamente, há redução no número de glomérulos, atingindo na sétima década a 1/3 dos do adulto jovem. A progressiva natureza do processo do envelhecimento renal fica bem demonstrada com a mudança de estrutura dos glomérulos, com acentuado espessamento da membrana basal que se associa a alterações bioquímicas. Essas alterações levam a menorárea de filtração e permeabilidade glomerular, determinando diminuição do ritmo de filtração glomerular. De um modo geral, essas alterações nos idosos saudáveis têm pequeno ou nenhum significado na função renal. Porém, a presença de um processo patológico como, por exemplo, o DM ou a HA podem ter um papel determinante no desencadeamento de doença renal. Manifestações clínicas A investigação clínica esbarra na multiplicidade de doenças, algumas com sintomas semelhantes, que, com frequência, mascaram o quadro clínico. Além disso, é necessária rigorosa avaliação das condições cognitivas do paciente idoso, que, em um primeiro contato, pode dar falsa impressão de normalidade, gerando omissões ou informações erradas. O exame clínico deve seguir a rotina de abordagem ao paciente geriátrico descrita em outro capítulo deste livro. A história e o exame físico devem seguir a mesma técnica de um bom exame médico. Os sintomas relacionados com a área cardiovascular merecem uma atenção especial pela possibilidade do exagero ou da omissão, motivados ambos pelo medo de doença. Uma situação que vem sendo valorizada recentemente é a relação entre doença cardiovascular a as alterações do metabolismo ósseo. Embora tradicionalmente vistos como entidades clínicas separadas que aumentam a sua prevalência com o envelhecimento, atualmente têm se acumulado evidências indicativas de que seus mecanismos fisiopatológicos são similares e subjacentes. Além disso, a menopausa, a idade avançada, alguns medicamentos e os fatores de risco para DCV, como dislipidemia, estresse oxidativo, inflamação, hiper-homocistinemia, hipertensão arterial e diabetes também têm sido associados a risco aumentado de baixa densidade mineral óssea. O metabolismo lipídico alterado está associado à remodelação óssea e com o processo aterosclerótico, o que pode explicar, em parte, a coexistência de osteoporose e aterosclerose em pacientes com dislipidemia. Da mesma forma, a inflamação Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 desempenha um papel fundamental na aterosclerose e na osteoporose. Por outro lado, o óxido nítrico, além de seus conhecidos efeitos ateroprotetores, parece também desempenhar um papel na função dos osteoblastos e na remodelação óssea. Hipotensão postural A hipotensão ortostática é um fenômeno relativamente comum em pacientes idosos e que assume importância clínica quando se manifesta com tontura postural, sobretudo na vigência de uso de fármacos hipotensores. Hipotensão postural significativa é necessária para o diagnóstico, tal como uma queda de 20 mmHg na pressão sistólica e/ou 10 mmHg na pressão diastólica, quando se muda o paciente da posição supina para a ortostática. A palpação dos pulsos arteriais periféricos deve ser feita de rotina, tendo-se em mente a possibilidade real de envolvimento arteriosclerótico difuso. A palpação dos pulsos carotídeos, seguida da ausculta dessas artérias, pode detectar diminuição de amplitude dos pulsos e/ou a presença de sopros. A palpação abdominal busca a dilatação da aorta abdominal; a ausculta das lojas renais pode surpreender sopros sistólicos ou sistodiastólicos indicativos de estenose de artérias renais, especialmente nos pacientes com cifras tensionais sistodiastólicas elevadas surgidas recentemente ou agravamento da hipertensão arterial estável, ambas as situações sugestivas de hipertensão nefrovascular. Os pulsos arteriais de membros inferiores devem ser todos palpados. O exame do precórdio inicia-se pela inspeção e palpação em busca de aumentos de VE e/ou VD. A ausculta cardíaca pode detectar bulhas extras: uma quarta bulha indicativa de dificuldade de enchimento ventricular esquerdo, que pode estar acompanhando uma insuficiência cardíaca diastólica, ou uma terceira bulha, indicativa de dilatação do ventrículo esquerdo, observada na insuficiência cardíaca dilatada. Sopros cardíacos são relativamente frequentes em pacientes idosos com hipertensão arterial e, em geral, traduzem alterações degenerativas localizadas nas valvas mitral e aórtica. Exames complementares, inicialmente, incluem no sangue: hemograma completo, ureia, creatinina, ácido úrico, glicose, colesterol total, triglicerídios, LDL-colesterol, HDL- colesterol, urina (EAS) e eletrocardiograma. Hipertensão arterial secundária A busca de uma causa secundária para a hipertensão arterial em idosos não constitui rotina. No entanto, causas endócrinas, especialmente aquelas relacionadas com a glândula suprarrenal, que cursam com aumento da secreção de catecolaminas (feocromocitoma) de origem medular, de aldosterona (doença de Conn) e de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 glicocorticoides (doença de Cushing), ambas de origem cortical, devem ser consideradas quando houver sintomas ou sinais sugestivos dessas doenças. Tratamento A decisão de se iniciar o tratamento da hipertensão arterial em indivíduos idosos não deve se basear apenas no nível pressórico, mas também na presença de outros fatores de risco cardiovascular e/ou lesão em órgãos-alvo. São consideradas as seguintes categorias de risco: ➔ Sem risco adicional (risco basal) ➔ Risco adicional baixo ➔ Risco adicional médio (ou moderado) ➔ Risco adicional alto ➔ Risco adicional muito alto A idade igual ou acima de 60 anos já é considerada um fator de risco importante, não havendo distinção de risco entre os dois sexos, pois a menopausa já ocorreu nessa faixa etária. Outros fatores de risco cardiovascular também são considerados: tabagismo, diabetes, dislipidemia, história familiar para doença cardiovascular, notadamente em idades precoces. As lesões em órgãos-alvo ou doenças cardiovasculares a serem consideradas são: doenças cardíacas (hipertrofia ventricular esquerda, angina ou infarto do miocárdio prévio, revascularização miocárdica prévia, insuficiência cardíaca), nefropatia, doença vascular arterial periférica, episódio isquêmico ou acidente vascular encefálico e retinopatia hipertensiva. As modificações no estilo de vida devem ser estimuladas em todos os indivíduos como medidas de promoção de saúde e são obrigatórias na abordagem de qualquer indivíduo hipertenso e naqueles com PA na faixa normal limítrofe. Na hipertensão arterial leve, elas podem representar a única modalidade de tratamento por período de tempo variável, de acordo com o risco cardiovascular do indivíduo. Como também pode ser observado no Quadro 36.3, sempre que a PAS for maior ou igual a 160 e/ou a PAD for maior ou igual a 100 mmHg (estágios 2 e 3), ou quando no estágio 1 de hipertensão, mas com risco adicional médio (ou moderado), a terapia medicamentosa está indicada. Para a faixa normal limítrofe, a terapia medicamentosa pode estar indicada nos diabéticos e nos portadores de insuficiência cardíaca ou renal. Cabe ressaltar que, mesmo em idades avançadas e na hipertensão sistólica isolada, a decisão terapêutica não deve se alterar. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Frequentemente, os pacientes idosos apresentam deficiências cognitivas que podem ser precipitadas ou agravadas por alguns fármacos, da mesma maneira que certas doenças contribuem para o agravamento desses quadros. Assim, o estudo SCOPE (The Study on Cognition and Prognosis in the Elderly), além de mostrar os benefícios do tratamento da hipertensão moderada no idoso, teve como objetivo a análise dos efeitos dos bloqueadores dos receptores ATI da angiotensina II sobre a cognição e, pela primeira vez, um estudo mostrou que a redução da PA não aumentava o declínio cognitivo ou contribuía para o desenvolvimentode demência no idoso. Tratamente não-medicamentoso (mudanças no estilo de vida) – as principais medidas a serem implementadas e que resultam em maior eficácia anti-hipertensiva são: redução do peso corporal, redução na ingestão de sódio, aumento na ingestão de potássio, redução do consumo de bebidas alcoólicas e exercício físico regular. Além dessas, deve ser feita a identificação do uso de outras substâncias que podem contribuir para a elevação da PA. Destacam-se, entre elas, anti-inflamatórios não esteroides, anti- histamínicos descongestionantes, antidepressivos tricíclicos, corticosteroides, esteroides anabolizantes, vasoconstritores nasais, carbenoxolona, ciclosporina, inibidores da monoaminoxidase (IMAO), chumbo, cádmio, tálio, alcaloides derivados do ergot, moderadores do apetite, hormônios tireoidianos (altas doses), antiácidos ricos em sódio, eritropoetina, cocaína, cafeína. Essas medidas, que já se mostraram eficazes em reduzir a PA e a morbimortalidade cardiovascular, são de baixo custo e de baixo risco, além de contribuírem favoravelmente para o controle de outros fatores de risco CV associados ou comorbidades. Essa estratégia terapêutica deve ser encorajada nos indivíduos idosos, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 naturalmente adequando a sua implantação às restrições próprias do envelhecimento e à avaliação prévia de condições clínicas associadas. Recomenda-se que os pacientes participem de uma abordagem multiprofissional, o que reconhecidamente aumenta as taxas de adesão ao tratamento. Mais do que isso, é de grande importância que a família do indivíduo seja envolvida na adoção dessas medidas, não só para ampliar as chances de sucesso dos resultados, mas pelo potencial preventivo que representa para aquele núcleo familiar. Tratamento medicamentoso – os medicamentos anti-hipertensivos devem promover diminuição da pressão arterial, mas primordialmente contribuir para redução das taxas de eventos cardiovasculares fatais e não fatais. O tratamento medicamentoso deve ser individualizado e deve contemplar os seguintes princípios gerais: ➔ Ser eficaz pela via oral e bem tolerado ➔ Permitir o menor número de possível de tomadas diárias, de preferência aqueles com posologia de dose única diária. ➔ Iniciar com as menores doses preconizadas para cada situação clínica, podendo ser aumentadas gradativamente e/ou associar-se a outro hipotensor de classe farmacológica diferente (considerar que quanto maior a dose, maiores são as chances de surgirem efeitos indesejáveis) ➔ Respeitar um período de mínimo de 4 semanas para se proceder ao aumento da dose e/ou à associação de medicamento, salvo em situações especiais. ➔ Instruir o paciente sobre a doença, os efeitos colaterais dos medicamentos, a planificação e os objetivos terapêuticos ➔ Considerar as condições socioeconômicas A PA deve ser reduzida para abaixo de 140 mmHg para a pressão sistólica e abaixo de 90 mmHg para a pressão diastólica. Nos diabéticos, em vigência de nefropatia e na prevenção secundária do acidente vascular encefálico, níveis inferiores a 130/85 mmHg devem ser o alvo do tratamento. Cabe ressaltar que esses objetivos devem ser alcançados de maneira gradual, observando-se a resposta individual, a manutenção da qualidade de vida, a interação com outros medicamentos e a presença de condições clínicas associadas. Na atualidade, seis classes de fármacos anti-hipertensivos estão disponíveis: diuréticos, inibidores adrenérgicos (de ação central, alfabloqueadores e betabloqueadores), inibidores da enzima conversora de angiotensina, antagonistas dos canais de cálcio, vasodilatadores diretos e antagonistas dos receptores de angiotensina. Contudo, considerando-se as comorbidades comuns nessa faixa etária, o tratamento deve ser individualizado, e qualquer grupo de medicamentos, com exceção dos vasodilatadores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 de ação direta, pode ser apropriado para o controle da pressão arterial em monoterapia inicial, especialmente para pacientes portadores de hipertensão arterial leve a moderada que não responderam às medidas não medicamentosas. Hipertensão arterial e Diabetes melito A prevalência de hipertensão arterial em pacientes diabéticos é, pelo menos, duas vezes a da população em geral. No diabetes melito tipo 1 (dependente de insulina), a hipertensão arterial associa-se claramente a nefropatia diabética. Nesses pacientes, o controle da pressão arterial é crucial para retardar a perda de função renal. No diabetes melito tipo 2 (não dependente de insulina), a hipertensão arterial associa-se comumente a outros fatores de risco cardiovascular, tais como dislipidemia, obesidade, hipertrofia ventricular esquerda e hiperinsulinemia. Nesses pacientes, o tratamento não medicamentoso (atividade física regular e dieta apropriada) é obrigatório. Todos os medicamentos podem ser usados. Os diuréticos podem alterar a liberação ou até aumentar a resistência à insulina e prejudicar o controle glicêmico em alguns pacientes, embora possam ser utilizados em baixas doses, como recomendado atualmente. Os betabloqueadores podem interferir na liberação de insulina e também aumentar a resistência à insulina endógena. Em diabéticos tipo I em uso de insulina, os betabloqueadores podem mascarar os sintomas de hipoglicemia e prolongar uma crise hipoglicêmica. Entretanto, deve-se dar preferência a esses agentes em situações de indicações específicas (angina e pós-infarto do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 miocárdio). Inibidores adrenérgicos e vasodilatadores podem exacerbar sintomas neuropáticos, tais como disfunção sexual ou hipotensão postural. Os inibidores da ECA tornam-se particularmente úteis por não interferirem no metabolismo glicêmico e por melhorarem a resistência à insulina. Além disso, exercem, comprovadamente, efeito de proteção renal em pacientes com nefropatia diabética, caracterizada por micro- ou macroalbuminúria. Na impossibilidade de manter o tratamento com inibidores da ECA, os antagonistas do receptor da angiotensina II constituem alternativa promissora. Nos casos de difícil controle da pressão, os antagonistas dos canais de cálcio, os alfabloqueadores e a hidralazina podem ser úteis. Diabetes Melito (DM) em Idosos A prevalência e a incidência do diabetes melito (DM) vem crescendo de maneira acentuada nos últimos 20 anos como consequência do aumento da população idosa, da urbanização e industrialização, do aumento da obesidade e da inatividade física e do aumento de sobrevida dos diabéticos. A estimativa para as próximas duas décadas é a de que esses números continuarão crescendo, passando de aproximadamente 194 milhões em 2003 para 333 milhões em 2025, portanto, com um aumento de 70%. O termo DM se refere a um espectro de síndromes de distúrbio metabólico de carboidratos que são caracterizadas por hiperglicemia. As duas principais apresentações em importância clínica e em prevalência são de origem genética e são os DM do tipo 1 (DM1) e do tipo 2 (DM2). O DM1 é caracterizado pela destruição autoimune celular das células beta das ilhotas pancreáticas, determinando deficiência de insulina. Em cerca de 90% dos pacientes são encontrados um ou mais anticorpos circulantes contra insulina, marcadores dessa destruição. É a forma diagnosticada na infância e na adolescência, habitualmente devido à destruição autoimune de células beta do tipo 1A. Quando diagnosticado, já apresenta cerca de 85% das células beta destruídas, com controle metabólico lábil e tendência ao desenvolvimentode cetoacidose e coma. Requer dose diária de insulina para o seu tratamento. É mais comum na infância e a adolescência. O DM2 é definido como um grupo de desordens metabólicas caracterizada por hiperglicemia resultante da deficiência na secreção ou ação da insulina ou ambos. Essa é a forma mais comum de diabetes, de alta prevalência nos idosos, apresentando graus variáveis de deficiência e resistência à ação da insulina. A resistência pode preceder o aparecimento da deficiência insulínica que se acentua com a evolução da doença. Os pacientes afetados apresentam tipicamente hiperglicemia sem tendência habitual à cetoacidose que, entretanto, algumas vezes ocorre devido à presença de infecções ou de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 outras comorbidades que contribuem para o aumento de resistência insulínica, exacerbando a produção de hormônios antirregulatórios. O DM2 é uma das doenças crônicas mais comuns que afetam as pessoas idosas. Os cálculos de prevalência para as pessoas de 60 anos e mais oscilam entre 15 e 20%, com taxas maiores relacionadas às pessoas de mais de 75 anos. Recentes estatísticas revelam que aproximadamente 1 em cada 4 indivíduos com idade superior a 60 anos é portador de DM2. Por sua vez, mais da metade de todas as pessoas com diabetes têm mais de 60 anos; sendo assim, a doença está associada ao aumento de prevalência de problemas micro e macrovasculares no idoso, o que representa um grande desafio para a saúde pública, pois envolve a capacidade de equipe multiprofissional para atender a todas as necessidades de um tratamento ideal. O DM2 está associado à obesidade, especialmente visceroabdominal, surgindo muitas vezes após ganho de peso associado ao envelhecimento caracterizado por menor tolerância à glicose. Os diabéticos frequentemente apresentam diversas e graves complicações que criam a demanda por procedimentos complexos, além de serem responsáveis por alta taxa de permanência hospitalar e mortalidade hospitalar. Etiopatogenia O envelhecimento está associado ao desenvolvimento de resistência insulínica, uma condição que predispõe os idosos a intolerância à glicose, HA, dislipidemia e síndrome metabólica que aceleram o aparecimento da doença cardiovascular (DCV). No processo fisiológico do envelhecimento ocorrem modificações na composição do corpo que predispõem a essa condição, principalmente devido à grande perda de massa magra, responsável pela distribuição da glicose mediada pela insulina, e aumento de gordura visceral, ligada ao aumento da resistência insulínica. Os fatores genéticos parecem ser os determinantes mais importantes do DM2. Entretanto, ainda não foi demonstrada associação fenotípica ou anticorpos citoplasmáticos específicos de células das ilhotas. A insulina é um hormônio peptídeo secretado pelo pâncreas como resposta ao aumento dos níveis de glicose na circulação. Após ser secretada, a insulina vai para o fígado onde promove o armazenamento da glicose como glicogênio e reduz a neoglicogênese, reduzindo a produção hepática de glicose. Na circulação geral, a insulina se liga a receptores específicos, resultando no transporte de glicose na célula. Na insulinorresistência, há diminuição da ação da insulina endógena em seus tecidos-alvo, particularmente o fígado, músculos e tecido adiposo. Apesar de poder ser de origem genética, na maioria das vezes é decorrente de causas adquiridas como, por exemplo, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 adiposidade abdominal, obesidade e sedentarismo. Os idosos apresentam tendência ao acúmulo de gordura abdominal e à obesidade, e reduzem sua atividade física, tendo em muitos casos história de maus hábitos alimentares por muitos anos. Essa insulinorresistência é compensada pelo aumento da secreção de insulina fundamental para a manutenção dos níveis de glicose normais. A evolução da doença leva à deficiência da produção de insulina, com consequente intolerância à glicose, levando à hiperglicemia de jejum e ao estabelecimento do diagnóstico de DM. A presença de hiperglicemia também pode interferir com a reação intracelular, constituindo o fenômeno de glicotoxicidade relacionado com o aumento de estresse oxidativo no interior da célula. Isso provavelmente está relacionado à síndrome de resistência insulínica (SRI), embora o tratamento de DM com antioxidadntes tenha fracassado em vários estudos. A SRI afeta de modo adverso o metabolismo das lipoproteínas. Os portadores de SRI têm HDL-colesterol mais baixo, maiores níveis de triglicerídeos e partículas de LDL menores e mais densas. Essas LDL apresentam maior poder aterogênico, mesmo quando em presença de controle glicêmico, determinando maior risco para o desenvolvimento de DCV. A HA e a obesidade são também frequentes acompanhantes do DM2, podendo caracterizar a síndrome metabólica. Com o aumento da idade, mais insulina é requerida para manter a glicose normal, considerando-se a presença de adiposidade central, vida sedentária e caracteristicamente a presença de comorbidades que frequentemente exigem grande variedade de medicamentos, como, por exemplo, os corticoides. Idosos com DM têm altas taxas de morte prematura, incapacidade funcional e presença de comorbidades como HA, doença arterial coronariana (DAC) e acidente vascular encefálico (AVE). Além disso, idosos com DM têm risco maior para o desenvolvimento de diversas síndromes geriátricas, tais como depressão, distúrbios cognitivos, incontinência urinária, quedas e dor persistente. Diagnóstico As evidências apontam que o diagnóstico do DM2 deve ser feito precocemente. Níveis elevados de glicemia em jejum e o teste de tolerância à glicose oral são armas importantes no diagnóstico precoce. Muitas vezes, é uma doença pouco sintomática e, inúmeros portadores de diabetes têm o diagnóstico realizado após anos do início da doença, quando já apresentam complicações micro ou macrovasculares. A avaliação na população geral não tem sido preconizada para os idosos, exceto em pacientes de alto risco com história familiar de DM2, obesidade, HA ou hiperlipidemia. Com base nas histórias familiar e clínica, a glicemia em jejum deve ser realizada a cada 3 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 anos, enquanto que naqueles com fatores de risco adicionais, os testes devem ser feitos a cada ano ou até mais frequentemente. A investigação adequada para o DM2 proporciona meios para identificar os indivíduos não diagnosticados que podem ser beneficiados pela intervenção precoce. A investigação é justificada pela alta prevalência da doença, com altos custos financeiros para o paciente e para o sistema de saúde, e pela ocorrência de complicações que aumentam a morbimortalidade. É necessário considerar que existe um período assintomático, atuando de modo deletério sobre a saúde, e que o tratamento adequado reduz as complicações do DM. A faixa entre 100 mg/dl e 125 mg/dl de glicemia de jejum passou a ser considerada alterada, e os valores iguais ou superiores a 126 mg/dl (7,0 milimois/l), como DM, mantendo o critério anterior. O teste de tolerância oral à glicose (TTGO) é considerado normal quando abaixo de 140 mg/dl (7,8 milimois/l), entre 140 mg/dl e abaixo de 200 mg/dl (11,1 milimois/l), considera-se tolerância à glicose diminuída e acima de 200 mg/dl preenche-se o critério de DM. Em pequenos aumentos de glicemia, deve se repetir o exame pra confirmação diagnóstica. A glicose casual é definida como aquela medida a qualquer hora do dia, sem observar o intervalo da última refeição. Os sintomasclássicos de DM incluem poliúria, polidipsia e perda inexplicável de peso. De acordo com as DSBD, para a realização do TTGO algumas observações devem ser consideradas: a) Período de jejum de 10 a 16 h; b) Ingestão de pelo menos 150 g de glicídios nos 3 dias anteriores à realização do teste; c) Manutenção de atividade física normal; d) Investigar a presença de morbidades, o uso de medicamentos e de inatividade; e) Administrar 1,75 g de glicose por quilograma de peso até o máximo de 75 g. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Durante o teste, o paciente deve permanecer em repouso, não sendo permitido fumar ou tomar café. Antes e durante o exame o paciente não deve usar nenhum medicamento. A determinação da hemoglobina glicada (HbA1c) é útil para a medida do controle da glicemia nas últimas 4 a 12 semanas, não sendo critério para diagnóstico de diabetes. A HbA1c é o produto estável da glicosilação não enzimática da cadeia b da hemoglobina pela glicose plasmática e traduz os níveis de glicose plasmática. É o resultado da ligação da hemoglobina A com açúcares. Seu valor normal é entre 3 e 6%. É útil na avaliação da eficácia terapêutica, devendo ser medida rotineiramente em todos os pacientes com DM2. A meta recomendada da ADA é de HbA1c < 7% como referência para reavaliação terapêutica, entretanto a União Europeia (UE), a Federação Internacional de Diabetes (IDF) e a American Association of Clinical Endocrinologists preconizam como meta valores abaixo de 6,5%. O diagnóstico clínico no idoso por ser dificultado pela sua clínica peculiar, na qual sintomas clássicos de DM, como poliúria e polidipsia, podem estar ausentes. Nos jovens, a glicosúria se inicia com valores de glicemia acima de 180 mg/dl, ocorrendo no idoso com sintomas mais elevados, em geral acima de 220 mg/dl. No idoso, a atenuação nos mecanismos de sede é comum. Sintomas como mialgia, fadiga, adinamia, estado confusional e incontinência urinária são frequentes. As dores musculares ocorrem devido à amiotrofia diabética, doença incapacitante, caracterizada por fraqueza seguida de atrofia da musculatura pélvica, que se distingue de outros tipos de neuropatia diabética. Seu início é na meia-idade ou mais tarde, embora possa ocorrer na juventude, sendo responsável por fraqueza dolorosa, podendo ser simétrica ou assimétrica. Em geral, com regressão da sintomatologia. A hipertensão arterial frequentemente está presente e esses pacientes apresentam maior incidência de doença renal e complicações macrovasculares. Quando os níveis de glicose plasmática se tornam muito elevados, ocorre diurese osmótica, o que pode levar à desidratação, ocorrendo poliúria, polidipsia e perda de peso. Com frequência nos idosos há queixa de visão borrada nem sempre valorizada pelas alterações visuais comuns nessa faixa etária. Infecções fúngicas e bacterianas podem ocorrer. Além de todas essas alterações, o DM2 contribui ainda para o declínio funcional do idoso e aumenta o seu risco de queda. Comorbidades geriátricas associadas ao diabetes Diversos estudos amplos de coorte populacional e prospectivos (Whitmer, Sidney, Selby (et al., 2005; Alonso, Mosley, Gottesman (et al., 2009) têm associado o DM2 ao aumento do risco de declínio cognitivo e demência. Esse aumento de risco é de 50 a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 100% para demências em geral, e de 100 a 150% para demência vascular. No entanto, o Honolulu Aging Study e o Estudo de Framingham (Akomolafe, Beiser, Meigs (et al., 2006) não encontraram uma associação entre diabetes e demência. Outros estudos sugerem ainda que o efeito do DM2 sobre a cognição ocorre principalmente após os 70 anos seja pelos seus efeitos cumulativos seja pela maior vulnerabilidade do cérebro do idoso. Entretanto, não está claro se o tratamento do DM2 reduz o risco de demência. Alguns sintomas relacionados ao diabetes ocorrem também devido ao envelhecimento, favorecendo a ocorrência de quedas. A neuropatia, a doença arterial periférica, a redução da função renal, a fraqueza muscular, a presença de alterações visuais com perda de acuidade, algum grau de incapacidade funcional, o comprometimento articular devido a doenças reumáticas, além da frequente polifarmácia ao lado de uma hipoglicemia podem contribuir para a ocorrência de quedas, principalmente no idoso frágil. Tratamento Os objetivos do tratamento do DM no idoso incluem controle da hiperglicemia e seus sintomas, prevenção, avaliação e tratamento das complicações microvasculares e macrovasculares, considerando-se sempre a heterogeneidade clínica e funcional dessa coorte. Alguns desenvolveram DM na meia-idade já com anos de comorbidades, outros, com diagnóstico recente, podem ter complicações devido à falta do diagnóstico por anos ou pelo menor tempo da doença não apresentar complicações ligadas ao DM. Alguns são frágeis, com comprometimento funcional e ou cognitivo, enquanto outros são ativos, com expectativas de vida bastante variáveis. Assim sendo, o inventário de comorbidades associadas, como transtornos psiquiátricos, depressão ou demência, cardiopatia isquêmica, HA, dislipidemias, por exemplo, é fundamental para a adequação terapêutica. Também é importante a avaliação do estado funcional e da capacidade do paciente de realizar suas atividades, considerando que a hiperglicemia aumenta o risco de desidratação, de alterações visuais e cognitivas que contribuem para o declínio funcional, além de contribuírem para dificultar a terapêutica. O controle glicêmico atua reduzindo os sintomas associados à hiperglicemia, como poliúria, polidipsia, fadiga e, possivelmente, melhora a cognição. O regime terapêutico a ser instituído deve ser avaliado também à luz das possibilidades financeiras do paciente para que se torne viável a adesão ao tratamento. Outros pontos devem ser considerados para o tratamento do DM nos pacientes idosos como, por exemplo, o risco substancialmente aumentado de hipoglicemia, com menor probabilidade de sintomas que avisem que esse quadro ocorrerá, e com maior Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 probabilidade de agravamento cognitivo, renal e hepático durante o episódio. A terapêutica medicamentosa deve ser administrada sob criteriosa observação nos pacientes que sofrem de insuficiência hepática ou renal. Nos pacientes desidratados, com infecções ou outros quadros de agressão ao organismo, a glicemia mal controlada ou o tratamento irregular pode causar o coma hiperosmolar. A falta de tratamento contribui para aumento do risco de infecções, perda de autonomia, desnutrição, e ainda surgimento de manifestações tardias. No idoso ativo e independente, a autovigilância dos sintomas e da glicemia é tão importante quanto em qualquer outra idade. No idoso dependente, o trabalho de vigilância deve ser assumido pelo cuidador primário. O automonitoramento da glicose deve ser feito em todos os pacientes. É necessário que aqueles em uso de insulina aprendam a ajustar as doses de acordo com as variações dos níveis glicêmicos. Hoje são encontrados diversos analisadores de uso doméstico que devem fazer parte do (kit de tratamento do paciente diabético. A frequência dos testes deve ser adequada às necessidades de cada um. Em geral, porém, a glicemia deve ser avaliada cerca de uma ou duas horas após as refeições, antes das refeições e na hora de dormir. A HbA1c é um importante marcador dos níveis da glicose durante 1 a 3 meses antecedentes, não devendo ser negligenciada, como já descrito anteriormente. Tratamento não medicamentoso – as intervenções no estilo de vida devem ser precocementeinstituídas e compreendem aconselhamento nutricional, orientação sobre atividade física e amplo programa de educação de pacientes e de cuidadores, particularmente no caso dos idosos. Esse programa é de alta importância, tendo por objetivo tornar o paciente capaz de manter independência e criteriosa consciência de sua doença e de como controlá-la. Nesse processo deve haver engajamento de uma equipe multidisciplinar. A orientação do tratamento depende das condições cognitivas do paciente, devendo o clínico proceder à criteriosa avaliação dessas funções por meio dos testes próprios como, por exemplo, o Mini-Mental State Examination (MMSE). O DM2 tem sido associado a declínio das funções cognitivas nos idosos, com manifestações por meio de perda de memória, dificuldade de aprendizado e redução da habilidade verbal. Para os idosos, o planejamento terapêutico é, em geral, semelhante ao proposto para outras idades. Tem sido demonstrado que a abordagem multidisciplinar em diabéticos idosos traz resultados positivos. De início é recomendável dieta e exercício, e, se não for o bastante, cogita-se no uso de medicação. As recomendações nutricionais específicas devem ser individualizadas, existindo normas que são amplamente aplicáveis. Recomenda-se que as refeições, especialmente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 a ingesta de carboidratos, sejam fracionadas ao longo do dia para evitar grandes cargas calóricas. O aconselhamento alimentar por nutricionista é o ideal. A introdução da dieta nos idosos deve seguir um plano bem estabelecido devido à grande dificuldade da mudança dos hábitos adquiridos ao longo da vida. A dieta deve ser racionalmente dividida entre 60% de carboidratos, 30% de gorduras e 10% de proteínas, enquanto a ingesta de colesterol deve ser limitada a 300 mg/dia, Em relação à dieta nos idosos, deve-se considerar: ➔ Os idosos têm grande risco de desnutrição. ➔ Uma dieta menos restrita pode, com frequência, melhorar a qualidade de vida. ➔ A perda de peso nesse grupo aumenta o risco de morbidade e mortalidade. ➔ A restrição calórica sem o acompanhamento de um programa de exercícios tem menor probabilidade de obter sucesso. Nos idosos, o risco de quedas está aumentado e associado às maiores taxas de fragilidade por incapacidade funcional, dificuldade visual, polifarmácia e, nos diabéticos, esses fatores estão agravados por neuropatia periférica e possibilidade de hipoglicemia. Sabidamente as quedas estão associadas à elevada morbidade e mortalidade. A recomendação de pelo menos 30 min de atividade física moderada 5 vezes por semana é viável para a maioria dos pacientes idosos. A prescrição de exercícios deve levar em conta os seguintes aspectos: o maior risco de hipoglicemia (sobretudo com o uso de insulina), considerando-se que os idosos são mais propensos a desenvolverem esse quadro; a exacerbação de DCV preexistente e piora das complicações crônicas; o menor nível de tolerância ao exercício que, em geral, deve ser de grau moderado; a introdução gradual da atividade com a escolha do exercício de acordo com a aptidão do paciente. As caminhadas e as atividades em água obtêm maior adesão. Os exercícios devem ser considerados uma intervenção essencial na mudança de estilo de vida dos pacientes diabéticos. Tratamento medicamentoso – A meta para o controle da glicose, de acordo com a ADA, em pacientes com DM2 é a restauração metabólica o mais próximo possível da normalidade, seja por meio de medidas gerais isoladamente ou associadas à terapia medicamentosa. O propósito maior dessas metas é reduzir a morbimortalidade e os custos individuais de tratamento com o DM, como tem sido demonstrado em estudos prospectivos e randomizados. Além das metas estabelecidas para o controle da glicose, também devem ser observadas aquelas, já mencionadas anteriormente, para pressão arterial e dislipidemia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 A falta de resposta às medidas gerais impõe a associação de medicamento para o controle adequado da glicemia e promove a redução da hemoglobina glicada. Os esquemas terapêuticos utilizados são os medicamentos orais, a insulina e a combinação terapêutica. Desde a década de 1990, inúmeras novas classes de medicamentos foram descobertas, atuando sobre os diferentes mecanismos fisiopatológicos que contribuem para o desenvolvimento do DM. Os agentes antidiabéticos orais disponíveis podem ser divididos de acordo com seu mecanismo de ação: ou estimulando a secreção de insulina (sulfonilureias e glinidas); ou reduzindo a resistência periférica à insulina, isto é, aumentando a utilização periférica de glicose (glitazonas); ou diminuindo a velocidade de absorção dos glicídios (acarbose, inibidores da enzima dipeptidil peptidase IV [DPP-IV]); ou ainda reduzindo a produção hepática de glicose (biguanidas). O tratamento deve ser iniciado com doses menores do que as utilizadas nos pacientes jovens, considerando-se a possibilidade de interações medicamentosas devido à frequente utilização de vários fármacos pelos idosos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Nos pacientes obesos, com hipertrigliceridemia, HDL-c baixo, hipertensos ou com outras características da síndrome metabólica, há indicação de resistência insulínica, que requer a utilização de fármacos que melhoram a atuação da insulina endógena. Quando há perda de peso associada à hiperglicemia, sinalizando deficiência de insulina, com estágio mais avançado da doença, os secretagogos são mais eficientes, como, por exemplo, as sulfanilureias ou as glinidas. As gliptinas podem ser indicadas em associação, em fases mais avançadas, para reduzir os níveis de glucagon. Nos pacientes com glicemia em jejum normal, mas com HbA1c acima da normalidade, a metformina e as glitazonas podem ser úteis, ou quando há hiperglicemia, pós-prandial, a acarbose ou as glinidas têm um perfil favorável. Os pacientes obesos se beneficiam com o uso da metformina. Em presença de HbA1c acima de 8,5% ou com sintomas manifestos secundários à hiperglicemia, a introdução da insulina deve ser cogitada, devendo ser iniciada com insulina de ação intermediária ou prolongada. A introdução da insulina de modo oportuno, e não precoce, é recomendada pela Sociedade Brasileira de Diabetes. Avaliação Geriátrica Ampla Após a terceira década, o desempenho funcional dos indivíduos deteriora-se aos poucos devido ao processo natural e fisiológico de envelhecimento, que é lento, inexorável e universal. Essa velocidade pode ser influenciada por vários fatores – constituição genética, hábitos de vida, meio ambiente, fatores socioeconômicos, acidentes, doenças –, podendo acelerar ou retardar o surgimento de dependência. A AGA é um processo diagnóstico multidimensional, geralmente interdisciplinar, para determinar as deficiências ou habilidades dos pontos de vista médico, psicossocial e funcional. Denomina-se ampla por fazer uma abordagem global ou abrangente, avaliando as três dimensões do completo estado de bem-estar. Difere de um atendimento médico habitual por se concentrar nos idosos frágeis, portadores de múltiplas morbidades; por usar, com frequência, equipe interdisciplinar; por dar ênfase ao estado funcional e à qualidade de vida. Além disso, é bastante comum o uso de escalas de avaliação, o que facilita a comunicação entre os membros da equipe e a comparação evolutiva. A AGA é também conhecida como Avaliação Geriátrica Multidimensional (AGM) ou Avaliação Geriátrica Global (AGG). Tem como objetivos principais obter um diagnóstico global,desenvolver um plano de tratamento e de reabilitação e facilitar o gerenciamento dos recursos necessários para o tratamento. Para tanto, seguem três principais pontos: o idoso propriamente dito, com seus complexos problemas; a condição funcional e a qualidade de vida, enfaticamente Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 focados; e o envolvimento de uma equipe interdisciplinar. A avaliação médica padrão tendem a falhar na detecção dos problemas prevalentes neles. Esses desafios referem- se, principalmente aos “5 Is da Geriatria” – instabilidade cerebral, imobilidade, instabilidade postural, incontinências e iatrogenias, efetivamente detectados pela AGA, cuja identificação é fundamental para a adequação terapêutica e para a prevenção da incapacidade nessa população. A AGA pode ser feita pelo médico em seu consultório, no entanto, é melhor realizada por uma equipe composta por membros da equipe interdisciplinar, nos diferentes locais de atendimento ao idoso, como pronto-socorro, enfermaria, centro de reabilitação, ambulatório e em programas de atendimento domiciliar. Os componentes da equipe variam de um programa para outro, conforme o protocolo estabelecido. O principal objetivo da AGA é, com a participação de uma equipe multiprofissional e a utilização de escalas, identificar as limitações do paciente geriátrico, quantificá-las e estabelecer a conduta terapêutica adequada. As principais áreas a serem analisadas incluem a detecção das doenças crônicas, da função física e mental e das condições sociais e familiares. A AGA faz parte do exame clínico do idoso, sendo fundamental nos pacientes portadores de polipatologias e em uso de vários medicamentos. A avaliação clínica detalhada faz parte desse processo, devendo ser fundamentada em uma anamnese criteriosa e com peculiaridades que são indispensáveis à boa comunicação entre o médico e o paciente. Os componentes da AGA foram sendo incorporados aos elementos habituais do exame clínico, considerando-se a procura de condições específicas comuns nos idosos capazes de determinar importante impacto sobre a função e que podem passar despercebidas nos exames convencionais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) conceitua três domínios específicos que definem os objetivos da AGA: ➔ Deficiência (impairment) – definida como a perda da estrutura corpórea, aparência ou função de um órgão ou de um sistema. ➔ Incapacidade (disability) – refere-se à restrição ou à perda de habilidade. ➔ Desvantagem (handicap) – restrições ou perdas sociais e/ou ocupacionais experimentados por uma pessoa. Na realidade, define dependência. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Os componentes básicos da AGA incluem: anamnese, avaliação de saúde física – incluindo visão, audição e incontinência urinária –; avaliação nutricional; avaliação funcional; equilíbrio e mobilidade; avaliação ambiental, social e da saúde mental. Avaliação clínica – o diagnóstico clínico no idoso exige grande perspicácia por parte do examinador. Frequentemente, a apresentação clínica do idoso é atípica (como o hipertireoidismo apático) e tardia, dando-se por meio de queixas inespecíficas, vagas e mal caracterizadas. É necessária muita atenção na avaliação dos sintomas inespecíficos, haja vista que diferentes doenças, algumas graves, nela se apresentam. O conceito da “doença única”, na qual todos os sinais e sintomas seriam explicados por um único problema, não vale para o idoso, que se apresenta com a soma dos sinais e sintomas de uma ou mais doenças agudas ou subagudas e uma ou mais doenças crônicas. Como exemplo, podemos citar o paciente diabético e hipertenso, com lesão em órgãos-alvo (insuficiência renal e cardíaca) e o pulmonar crônico, o qual, após uma gripe, desenvolve insuficiência respiratória. O uso das escalas de autoavaliação de saúde é útil, e já foi demonstrado que o idoso que avalia seu estado como ruim realmente tem pior prognóstico. Peculiaridades na anamnese – para que a comunicação com o paciente seja eficiente e a história clínica fidedigna, devemos ter certos cuidados: ➔ Falar devagar, com tom de voz adequado, olhando para o paciente de maneira a facilitar a leitura labial; usar gesticulação para ajudar na comunicação; ter cuidado para não gritar com idosos que ouvem bem. ➔ Conduzir a anamnese: é importante deixar que o idoso se expresse com certa liberdade, principalmente no início; porém, devido à somação de problemas e pela ordem cronológica, frequentemente confusa, na maioria das vezes, a anamnese deve ser conduzida. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ O interrogatório sobre diversos aparelhos (ISDA) ou interrogatório complementar (IC) deve ser completo, pois é uma das etapas mais importantes da anamnese. Muitas alterações não valorizadas pelos pacientes ou familiares somente são lembradas quando interrogadas especificamente. Alguns exemplos são: quedas, que podem gerar sequelas graves; disfunções sexuais, sobre as quais, normalmente, os idosos ou idosas não falam espontaneamente; alterações bucais, como prótese dentária mal ajustada; distúrbios gastrintestinais, como plenitude pós-prandial ou obstipação intestinal. ➔ História medicamentosa: idosos são mais suscetíveis a eventos adversos e parte ou todo o problema atual pode ser secundário a isso. Os medicamentos em uso podem ajudar a conhecer diagnósticos anteriores. Recomendamos que o idoso seja instruído a levar, em todas as consultas, a prescrição e todos os medicamentos em uso. Muitas vezes, somente com essa medida se tem conhecimento sobre automedicação, posologia incorreta, uso de mais de um fármaco com o mesmo objetivo etc. Exame físico ➔ Deficiências sensoriais – os déficits sensoriais são muito comuns nos idosos e representam motivo de perda de qualidade de vida, tornando-se empecilho para a realização das AVD. Essas limitações sensoriais podem levar ao isolamento social, ao risco maior de quadros confusionais e a quedas. ➔ Visão – a diminuição da capacidade visual é comum e, frequentemente, não é referida pelo paciente. Deve, portanto, ser realizada em todos os pacientes idosos. É decorrente, principalmente de doenças como catarata, degeneração macular, glaucoma e retinopatia diabética, enquanto a presbiopia ocorre praticamente em toda população idosa. As alterações visuais estão relacionadas com quedas, declínio cognitivo e funcional, processos depressivos e imobilidade. O método padrão de triagem da acuidade visual é feita por meio de testes, os quais podem ser realizados em consultório. O Teste de Snellen é o sistema universal padrão para avaliar a visão. ➔ Audição – para a avaliação auditiva, o teste mais utilizado é o do sussurro, que avalia a compreensão de sons de alta e de baixa frequência. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Incontinência urinária – É definida como a perda involuntária de urina em quantidade suficiente para constituir um problema de ordem social e/ou de saúde. A perda da continência é um fator preponderante para a criação de isolamento social. Tem prevalência entre 30 e 60%, influenciando na independência e na autonomia do idoso. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Órgãos dos sentidos no Idoso Por meio dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) experimentamos o mundo e, com eles, exercemos nossa condição humana em sua plenitude. Há um consenso de que os pacientes submetidos a privações sensoriais desenvolvem mais frequentemente declínio cognitivo, isolamento social etranstornos depressivos, com maior risco de morte. Idosos privados de seus óculos ou de seus aparelhos de amplificação sonora individual (próteses auditivas) apresentam (delirium mais frequentemente quando internados em unidades de terapia intensiva. Neles, as deficiências sensoriais podem ter se instalado gradualmente, ao longo de vários anos. Por essas limitações, o paciente pode ter restringido suas atividades (conscientemente ou não) e perdido funcionalidade e independência. A avaliação geriátrica criteriosa pode identificar oportunidades de atuação, desencadeando a reabilitação. Em idosos, pequenos ganhos na capacidade funcional, psicológica ou cognitiva podem resultar em grande impacto na qualidade de vida. Isso fica especialmente evidente quando os alvos das estratégias de reabilitação são os órgãos dos sentidos. Na assistência aos idosos com perdas sensoriais, o médico geriatra deve considerar as influências emocionais que interferem na aceitação da enfermidade e no comprometimento com o tratamento, tanto por parte do paciente como de seus familiares. A negação das deficiências atrasa a reabilitação e faz com que qualquer obstáculo (pequeno efeito colateral de medicamento, por exemplo) seja motivo para a interrupção dos medicamentos e das tentativas de reabilitação. Em casos desses comportamentos, a melhor alternativa é discutir abertamente com os envolvidos, acolhendo-os, com suas expectativas e frustrações, e propondo-lhes um esforço conjunto, com foco no objetivo comum: o bem-estar do idoso. Mesmo que não haja dificuldade na aceitação da doença ou na execução das orientações da equipe de saúde, o portador de deficiência sensorial e seus familiares devem ter a oportunidade de expressarem suas angústias, à medida que a perda funcional causa maior impacto em suas vidas. Contato com outros idosos portadores de deficiência que conseguiram reinclusão social após reabilitação é particularmente útil nesse momento do tratamento. Paladar A idade avançada, por si só, é um fator de risco para o surgimento de transtornos do paladar ou anosmia (incapacidade de perceber odores). Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Com o envelhecimento, as mudanças no paladar e no olfato podem causar perda do apetite, escolhas alimentares erradas e desnutrição. O risco é ainda maior se ocorre pouca variabilidade na dieta, situação mais comum em idosos que moram sozinhos. Há elevações dos limiares para gosto e cheiro; redução da sensibilidade para estímulos supralimiares (gostos e odores são sentidos com menor intensidade); diminuição da capacidade discriminatória e sensações distorcidas. Ageusia (perda da gustação); hipogeusia (redução da sensibilidade a estímulos gustativos) e disgeusia (sensações gustativas distorcidas) são comuns em usuários de medicamentos. Idosos com perda do paladar e desinteresse pela alimentação são prejudicados em suas refeições – que são momentos de socialização familiar – e perdem oportunidades de estreitamento dos laços intergeracionais. Mais de 50% dos pacientes apresentam, em algum momento, disfunções do paladar durante o tratamento das neoplasias. A radioterapia e a quimioterapia podem afetar a reparação dos epitélios sensoriais olfatório e gustativo, comprometendo também a integridade anatômica das papilas gustativas. A manutenção de uma higiene oral adequada é importante no paciente em cuidados paliativos, pois influencia diretamente em seu conforto. Peculiaridades da gustação em idosos – Em idosos saudáveis, ocorre somente modesta redução na sensibilidade gustativa, enquanto a textura e a temperatura dos alimentos são percebidas normalmente. A capacidade de detecção declina de maneira diferente para cada sensação. A sensibilidade ao sabor salgado reduz-se, enquanto o sabor doce é percebido normalmente. Sempre considerar essas peculiaridades na dieta de hipertensos e nefropatas. Com o envelhecimento, pode haver declínios no prazer ao se alimentar, na capacidade de reconhecimento alimentar e na função sensorial da cavidade oral, com maior risco potencial de desnutrição. Essas mudanças podem se confundir com sintomas comuns de doenças em idosos, interagindo com fatores sociais e psicológicos na redução de ingesta alimentar. A anamnese em geriatria deve incluir questionamentos sobre sintomas na cavidade oral, dificuldades na mastigação ou com a adaptação às próteses dentárias. O exame físico deve incluir a inspeção da cavidade oral, inclusive removendo próteses dentárias, na busca por lesões. Dificuldades na percepção do gosto podem decorrer de problemas bucais (estomatite e glossite), doenças sistêmicas, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 alterações do sistema olfatório (rinites, lesões na lâmina crivosa), lesões no sistema nervoso central (acidentes vasculares encefálicos), fármacos, deficiência de zinco ou fatores não esclarecidos (forma idiopática). O uso de medicamentos é o principal fator etiológico nas disfunções do paladar em idosos. Queixas de boca seca são comuns em idosos, mais frequentemente relatadas por mulheres de raça branca e que usam medicamentos (principalmente antidepressivos, anti-hipertensivos, digitálicos e anti-histamínicos). Fármacos podem reduzir o paladar de idosos também para doces. Diabéticos que usam medicamentos estão em risco de usarem quantidade excessiva de açúcar na preparação dos alimentos. As próteses dentárias que cobrem boa parte do palato duro afetam a propagação dos odores durante a mastigação e podem causar perda olfatória, mesmo havendo epitélio nasal sensorial saudável. Em idosos inapetentes, o interesse pela alimentação pode ser recuperado com a adição de condimentos durante o preparo das refeições, pois realça o sabor dos alimentos, estimula fluxo salivar e aumenta a ingesta de alimentos e melhoram a imunidade. A suplementação com zinco tem sido sugerida para o manejo dos transtornos do paladar associados a medicamentos, baixas concentrações de zinco, doenças renais e radioterapia. Olfato Em idosos, as performances em testes de capacidade olfatória correlacionam-se com as de testes de função cognitiva. A habilidade de identificar odores depende do lobo temporal medial, afetado precocemente na doença de Alzheimer, na demência vascular e no transtorno cognitivo leve. A capacidade discriminatória para diferentes odores reduz-se em idosos de ambos os sexos. As mulheres, porém, têm melhor desempenho na identificação de odores que os homens, em todas as idades. Alterações do olfato em idosos – há redução na secreção do muco nasal, associada à menor fluidez do muco produzido. Também ocorre substituição parcial do epitélio sensorial nasal por mucosa respiratória e redução de sua espessura, com diminuição da concentração de neurônios. As taxas de recuperação da capacidade olfatória são menores em idosos. As rinites sempre devem ser tratadas para que discretas recuperações da capacidade olfatória não passem despercebidas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Na doença de Parkinson, há comprometimento do olfato. Testes de função olfatória têm o potencial de auxiliar no diagnóstico diferencial com outros transtornos extrapiramidais, como a paralisia supranuclear progressiva, na qual não há comprometimento do olfato. Se há dano grave e irreversível na capacidade olfatória, os idosos devem receber conselhos referentes à sua segurança: detectores de vazamentos de gás podem ser instalados na cozinha e no banheiro;as datas de vencimento dos alimentos industrializados devem ser respeitadas; alimentos caseiros devem ser armazenados em recipientes rotulados, identificando-se a data de preparo e quando deverão ser descartados. Visão A visão, em associação às aferências somatossensoriais vestibulares, auxilia no controle postural. Qualquer alteração em algum desses fatores provoca mudanças na marcha, com desequilíbrio, maior gasto energético, fraqueza muscular e quedas. O comprometimento da visão afeta, além do próprio doente, toda a sociedade, que despende recursos para tratamento médico e cuidados informais. Alterações da visão em idosos – aos 60 anos, ocorrem alterações anatômicas e fisiológicas oculares: o diâmetro pupilar está reduzido a menos da metade do que se tinha aos 20 anos; as reações pupilares à luz tornam-se mais lentas; o suporte gorduroso retro- ocular é perdido, fazendo com que os olhos localizem-se mais profundamente nas órbitas, e disfunções nos músculos extraoculares causam perda da amplitude nas rotações oculares. Na presbiopia, caracterizada pela perda da elasticidade da cápsula do cristalino, ocorre dificuldade no ajuste refrativo para enxergar alvos próximos (ler jornais, por exemplo). O idoso normal perde partes da capacidade de acomodação, da acuidade visual em meios com pouco contraste, da adaptação a ambientes escuros, da tolerância ao brilho, da capacidade de discriminar cores, da capacidade de leitura e do campo visual atencional ou de processamento rápido (em que os estímulos são mais facilmente percebidos). A adaptação ao escuro diminui em decorrência das reduções do diâmetro pupilar e da velocidade de condução intraocular do estímulo visual. Idosos podem cair ao transitarem entre ambientes com diferentes intensidades de iluminação. Com o envelhecimento, pode haver dificuldade para dirigir à noite, embora a habilidade visual para a condução veicular durante o dia seja, em geral, preservada. Há intolerância às luzes dos veículos que trafegam em sentido contrário ou dificuldade para Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 adaptar-se às áreas com pouca iluminação. Perdas no campo visual e glaucoma em idosos também determinam maior risco de acidentes automobilísticos com vítimas. Em idosos, a perda visual pode instalar-se gradualmente, não sendo percebida ou valorizada pelo paciente. Mesmo cientes da deficiência, alguns idosos preferem não relatá-la, por considerarem parte do envelhecimento normal. A avaliação da acuidade visual deve, portanto, ocorrer rotineiramente em idosos, principalmente naqueles com maior risco de doenças oculares (extremos de idade, hipertensos e diabéticos). A manutenção da capacidade para leitura depende da preservação de um bom campo visual atencional, da acuidade visual para meios com pouco contraste e dos movimentos sacádicos oculares. As perdas do campo visual atencional e da capacidade de leitura podem ser compensadas por treinamento, o qual, infelizmente, ainda não está amplamente disponível. Para pessoas de todas as idades, é mais difícil distinguir tons de azul e verde do que tons de amarelo e vermelho. Essa dificuldade é ainda maior para o idoso. Usar utensílios de cores contrastantes pode facilitar sua localização no ambiente doméstico. A visão subnormal em idosos está relacionada com declínio cognitivo, doença cardíaca, artrose, hipertensão arterial sistêmica, quedas, fraturas de quadril, comprometimento da qualidade de vida, depressão e morte. Cerca de 60% dos idosos da comunidade que apresentam visão subnormal têm outras limitações, como déficits auditivos, restrições na mobilidade, comprometimento cognitivo, doenças cardíacas e pulmonares. Esses indivíduos correm risco triplicado de apresentar dificuldade para sair de casa e de preparar sua própria refeição e risco duplicado de terem dificuldades nas transferências (levantar da cama ou do sofá). O comprometimento da visão, as doenças articulares e as cardíacas são os principais determinantes da necessidade de auxílio para as atividades de vida diária. A perda visual é fator de risco mais fortemente associado à depressão do que a perda auditiva, possivelmente porque o comprometimento causado pela visão inadequada tem maior impacto nas atividades cotidianas. A avaliação da acuidade visual deve ser parte da consulta geriátrica, pesquisando- se dificuldades para leitura, escrita, realização de tarefas domésticas, assistir televisão e entender os sinais das vias públicas. É necessária a distinção entre as alterações decorrentes do envelhecimento normal e as causadas por doenças tratáveis. Degeneração macular relacionada com a idade – no Ocidente, é a causa mais comum de perda visual grave em pessoas acima de 50 anos. Trata-se de uma desordem degenerativa da mácula, que ocorre nas formas não vascular (não exudativa ou atrófica; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 80% dos casos) e neovascular (exudativa ou serosa; 20% dos casos). Mulheres caucasianas, cardiopatas, hipertensos, dislipidêmicos e tabagistas são acometidos com mais frequência. Os pacientes apresentam metamorfopsia (imagens distorcidas) e escotoma central, que progridem até haver comprometimento visual grave. Há dificuldades para a leitura, reconhecimento de faces (o que pode levar ao isolamento social), para estimar distâncias ou profundidades do terreno (o que pode causar restrição à deambulação) e perceber cores ou contrastes (o que interfere nas tarefas domésticas e no lazer). Quando um olho está comprometido, há grande possibilidade de que, em breve, a doença cause sintomas bilateralmente. O idoso pode se adaptar à perda visual, desenvolvendo zona de fixação preferencial na retina (uma área alternativa à fóvea, onde preferencialmente tenta focalizar a imagem). Retinopatia diabética – A retinopatia é a principal causa de perda visual em diabéticos, ocorrendo mais frequentemente em idosos. Muitos pacientes podem não apresentar sintomas até fases avançadas de comprometimento retiniano. Em pacientes que desenvolveram diabetes melito após os 30 anos de idade (e com mais de 10 anos de doença), a perda visual ocorre em 23,9% dos pacientes não insulinodependentes e 37,2% dos que necessitam de insulina. Na retinopatia diabética não proliferativa encontram-se microaneurismas, hemorragias retinianas, exudatos algodonosos, exudatos duros e cruzamentos arteriovenosos patológicos. Na forma proliferativa, vasos sanguíneos novos são formados, causando hemorragias retinianas e no corpo vítreo, além de fibrose reacional. Em ambas as formas de retinopatia, pode haver borramento visual (se a fóvea é comprometida), escotomas ou descolamento da retina, associados à metamorfopsia, hipersensibilidade ao brilho, perda de sensibilidade às cores e aos contrastes e, em casos extremos, cegueira. Perdas visuais súbitas podem decorrer de hemorragias retinianas. O paciente pode, nesse caso, relatar visão embaçada ou sensação de véu sobre o olho. Queixas de flutuações na acuidade visual podem decorrer de alterações na hidratação da lente do cristalino (principalmente se há grande variabilidade da glicemia), de edema ou de hemorragia retinianos. No idoso diabético com retinopatia, as manutenções de níveis glicêmicos, lipídicos e de pressão arterial sistêmica controlados são importantes para evitar novas agressões aos vasos retinianos. A estratégia terapêutica deve ser individualizada, considerando-se o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 contexto clínico e a condiçãosociocultural do paciente. Metas de controle glicêmico menos agressivas devem ser estipuladas para aqueles que já apresentam perda funcional irreversível significativa ou que sejam incapazes de implementar o tratamento hipoglicemiante com segurança. Catarata – É a opacificação da lente do cristalino, que impede gradualmente a passagem da luz. Embora possa decorrer apenas do envelhecimento, a catarata também está associada a traumas oculares, inflamação, diabetes melito, radiação ultravioleta, medicamentos (corticoides) e desordens nutricionais. Sua prevalência aumenta com a idade, variando de 2,5%, nas pessoas entre 52 e 64 anos, até 45%, naquelas entre 75 e 85 anos. A doença é mais frequente em afro- americanos. O paciente com catarata apresenta diminuição da acuidade visual, com visão borrada, hipersensibilidade ao brilho, alterações na percepção de cores e metamorfopsia. O primeiro sintoma pode ser dificuldade para dirigir à noite, por intolerância à luz dos carros que vêm em sentido oposto. O impacto da catarata no cotidiano do idoso pode ser aferido aplicando-se a pouco utilizada Escala das Atividades da Visão Diária. O tratamento cirúrgico, com a remoção de toda a lente ou apenas de sua porção posterior, beneficia a maioria dos pacientes, mas está associado a pequeno risco de perda visual permanente. Comprometimento visual de origem nas vias ópticas e no córtex cerebral – Qualquer agressão que afete as vias visuais, da retina ao córtex visual, leva ao comprometimento da visão. Os acidentes vasculares, os tumores e os traumas são as principais causas dessas lesões. O quiasma óptico é utilizado como referência anatômica, diferenciando lesões periféricas (pré-quiasmáticas) de centrais (pós-quiasmáticas). Ceratoconjuntivite sicca – O filme lacrimal é composto por camadas de óleo, água e mucina. Ele auxilia na preservação da saúde do epitélio da córnea, mantendo a superfície ocular lubrificada. Uma boa função palpebral é fundamental para sua preservação. Condições que causam oclusão palpebral incompleta (perda do tônus muscular da palpebral inferior, ectrópio cicatricial, paralisia facial) ou diminuem a frequência de piscadas (uso de computadores, dirigir à noite, ler por tempo prolongado) permitem que a camada aquosa do filme lacrimal evapore, o que altera suas características. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 As queixas de olhos secos e irritação conjuntival são comuns em idosos (7% em norte-americanos e 33% em asiáticos). Paradoxalmente, esses pacientes podem relatar lacrimejamento, que, nesses casos, ocorre reflexamente. Fatores de risco para a ceratoconjuntivite sicca são idade avançada, gênero feminino, tabagismo, contato com poluentes ambientais, uso de computadores e certos medicamentos (antidepressivos e antiespasmódicos). Usuários de lentes de contato e pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos oculares também são mais frequentemente sintomáticos. A síndrome sicca em idosos (ressecamento dos olhos, da boca e da mucosa vaginal) está relacionada com medicamentos em mais de 60% dos casos. Audição A frequência sonora é medida em Hertz (Hz). A voz do homem tem frequência entre 100 e 200 Hz (grave, grossa), enquanto a feminina varia de 200 a 400 Hz (aguda, fina). O ouvido humano é sensibilizado entre 20 Hz em 20.000 Hz. A intensidade sonora é medida em bel (B) ou decibel (dB). Sons acima de 130 dB causam grande desconforto, enquanto aqueles de mais de 160 dB podem romper a membrana timpânica. A conversação normal ocorre, em geral, entre 500 e 3.000 Hz de frequência e 45 a 60 dB de intensidade. O comprometimento auditivo pode decorrer de perda de sensibilidade à frequência, à intensidade ou a ambas. Com relação à intensidade, a perda auditiva até 25 dB é considerada leve, fazendo com que uma conversa normal pareça um sussurro e que um sussurro não seja ouvido. Perdas de 40 dB são consideradas moderadas e, a partir de 60 dB, graves. Classificação – A perda auditiva pode ser classificada como de condução (em que o estímulo sonoro se perde em estruturas do ouvido externo ou médio, sem atingir a cóclea), sensorineural (em que há problemas cocleares ou no nervo vestibulococlear) ou mista. A perda auditiva de condução também é chamada de periférica, enquanto a sensorineural é denominada de central. Avaliação da perda auditiva em idosos – A consulta geriátrica deve incluir questionamentos ao idoso e aos seus familiares a respeito de dificuldades com a audição, pois idosos podem não reclamar ou mesmo não ter a percepção dessa deficiência. Idosos com perda auditiva estão suscetíveis ao isolamento social, encontrando maior dificuldade de enquadramento no ambiente familiar. A avaliação mais conveniente da perda auditiva é a subjetiva – perguntando-se ao paciente se há qualquer dificuldade com a audição. Aqueles que apresentarem queixa Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 devem ser encaminhados para avaliação otorrinolaringológica. Naqueles sem queixas de perda de audição, a acuidade auditiva pode ser avaliada verificando-se se o paciente identifica os sons de um relógio analógico, de dois dedos sendo friccionados perto de seu ouvido ou se ele é capaz de repetir algumas palavras pronunciadas por alguém localizado atrás dele. No teste do sussurro, o examinador posiciona-se a cerca de 60 cm atrás do paciente (para evitar a leitura labial) e oclui o conduto auditivo externo do ouvido não testado. Inspira, exala completamente e sussurra três números ou letras aleatoriamente. Um idoso com audição normal é capaz de repetir o que foi soletrado. O paciente que não teve bom desempenho pode ter outra tentativa (com outra combinação de letras e números). O outro ouvido é testado com a mesma técnica, utilizando-se outra combinação de letras e números. Presbiacusia – A partir da quarta década de vida, o aparelho auditivo humano (especialmente nos homens) é progressivamente mais suscetível às consequências do envelhecimento. A diferença de gênero na incidência da perda auditiva relacionada com a idade diminui nas últimas décadas da vida, o que sugere que fatores hormonais possam ter papel fisiopatológico. A presbiacusia é a doença neurodegenerativa mais comum. Pode ser consequência de lesões nas células sensórias do órgão de Corti (com perdas para sons de alta frequência), nos neurônios aferentes (com perda na capacidade de discriminar palavras), na estria vascular (com redução do volume do som ouvido), na membrana basilar (com perda de mais de 50 dB em todas as frequências) ou no sistema nervoso central (com dificuldade de compreender o som que é ouvido). Mais comumente, na perda auditiva relacionada com a idade, o déficit começa para as altas frequências, progredindo para as médias e baixas com a evolução da doença. A capacidade discriminatória de sons com altas frequências é importante em ambientes com ruído de fundo. Uma das primeiras manifestações da presbiacusia é a dificuldade de comunicação nesses ambientes. Na presbiacusia, apesar do aumento do limiar para a percepção sonora (os sons precisam ter maior intensidade para serem ouvidos), a tolerância à intensidade do som mantém-se inalterada, estreitando o espectro acústico útil. O fenômeno do recrutamento, em que a sensação de intensidade sonora experimentada pelo paciente cresce desproporcionalmente ao real aumento da intensidade física do som, prejudica ainda mais sua capacidade auditiva. Queixas de zumbido podem ocorrer, na medida em que a perda auditiva torna-se mais significativa. Sidney Ferreira de Moraes Neto- Med2020 - 2016 Fatores genéticos e ambientais podem interferir no risco de perda auditiva relacionada com a idade. Aproximadamente 55% da variância na perda de audição relacionada com a idade pode ser imputada a fatores genéticos. Parece haver maior risco de presbiacusia em afrodescendentes. Exposição a ruídos, solventes, tabagismo, diabetes melito, doenças das vias respiratórias, infecções (vírus e bactérias) e medicamentos (diuréticos, quimioterápicos e antibióticos) podem estar relacionados com a enfermidade. Medicamentos e solventes industriais causam perda auditiva por meio da indução de lesão oxidativa. Supõe-se que as alterações metabólicas decorrentes do diabetes melito levariam à hipoxia celular, com liberação de radicais livres de oxigênio, desestabilizando colágeno e microtúbulos celulares. Essas alterações levariam à apoptose celular, com perda auditiva. Assim como o diabetes melito, a dislipidemia e a hipertensão arterial sistêmica também podem comprometer a irrigação da estria vascular, causando disfunção na produção de endolinfa e, em última análise, interferindo na transmissão coclear do som. A aderência a estereótipos negativos com relação ao envelhecimento humano também aumenta o risco de desenvolvimento de perda auditiva. A perda auditiva de origem central pode ser secundária a insultos degenerativos primários do sistema nervoso central (acidentes vasculares encefálicos, tumores) ou a efeitos centrais perifericamente induzidos (decorrentes de longas privações das aferências dos receptores periféricos). Quanto maior o tempo decorrido entre a perda da audição e a tentativa de reabilitação, pior o prognóstico, considerando-se a inteligibilidade da fala. A perda auditiva relacionada com a idade pode ser prevenida evitando-se exposições a ruídos, medicamentos ototóxicos, tabaco, solventes industriais e grande volume de bebidas alcoólicas. Tontura A palavra tontura é usada para descrever várias sensações anormais que se referem à posição do corpo em relação ao espaço. As descrições de tontura frequentemente são vagas, inconsistentes, não confiáveis, deixando dúvidas e se acompanhando de outras sensações ou tipos de tontura. Informações sensoriais conflitantes, alentecimento, alterações na integração central e/ou função motora, lesões ou disfunções levam ao aparecimento de tontura. Há mecanismos de compensação e recuperação úteis no tratamento e na reabilitação, embora estes também reduzam a eficiência com o passar dos anos. Quedas, medo de cair, limitação das atividades, são consequências da tontura nas populações idosas. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Anatomia e fisiologia do labirinto O labirinto (Figuras 95.1 e 95.2) é um componente bilateral e simétrico do sistema do equilíbrio, integrado na percepção dos movimentos, posição do pescoço e da cabeça e que coleta informações necessárias para a manutenção do equilíbrio. Localiza-se dentro do osso temporal, compondo-se do labirinto ósseo e membranoso (Figura 95.1). O labirinto membranoso é banhado externamente pela perilinfa e internamente pela endolinfa. É constituído por três partes: a cóclea, o vestíbulo e os canais semicirculares que, por meio do epitélio sensorial, recebem e enviam as informações do som (coclear) e as informações do movimento (vestibular) ao sistema nervoso central (Figuras 95.2 e 95.3). Tanto a perilinfa como a endolinfa transportam ondas sonoras para os órgãos terminais da audição e do equilíbrio. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Cada labirinto tem canais semicirculares (um horizontal e dois verticais), um sáculo e um utrículo com receptores sensoriais (os cílios com otolitos que têm cristais de carbonato de cálcio). A deformação da extremidade ampolar é determinada pelo fluxo da endolinfa dentro dos canais semicirculares informando a velocidade e intensidade do movimento. Os cílios do sáculo informam sobre a força da gravidade, do movimento vertical, e os do utrículo sobre o movimento horizontal (aceleração linear). Informações conflitantes relacionadas com o movimento podem causar náuseas e tontura como quando giramos, andamos de carro ou avião (cinetose). No repouso há uma descarga simétrica, tônica. Se esta se altera por lesões unilaterais aparece a tontura ou vertigem mesmo em repouso. A inervação dos canais semicirculares superior, horizontal e utrículo é realizada pelo nervo singular superior. O canal semicircular inferior e o sáculo são inervados pelo nervo singular inferior. Estes, ao se unirem, formam o nervo vestibular. O nervo vestibular e o nervo coclear dão origem ao nervo vestibulococlear (VIII par craniano), com um gânglio vestibular primário no osso temporal e projeção no gânglio vestibular secundário (tronco cerebral). A irrigação é realizada pela artéria auditiva interna, ramo da artéria cerebelar inferior anterior ou mais raramente pela artéria basilar. A artéria auditiva interna divide-se em artéria vestibular anterior e artéria coclear comum. Esta última bifurca-se em coclear principal e artéria vestibulococlear. A inervação e irrigação do labirinto convergem, assim como têm relação com o cerebelo e tronco cerebral fazendo com que um mesmo quadro, possa ter causa neurológica e vascular. O sistema vestibular está integrado a várias estruturas importantes para o equilíbrio estático (orientação do corpo em relação ao chão), dinâmico (posição do corpo em resposta ao movimento de aceleração angular) e sua manutenção. Essas estruturas são: o labirinto, os núcleos vestibulares no tronco cerebral, o cerebelo, os órgãos da visão e audição, o sistema proprioceptivo e o córtex cerebral. Envelhecimento O envelhecimento normal aumenta a suscetibilidade para a tontura e contribui para recuperação mais lenta das doenças que causam a tontura. Associa-se a uma redução da função dos processos centrais, assim como dos receptores e das aferências sensoriais periféricas localizados nos canais semicirculares, sáculo, utrículo, órgão terminais proprioceptivos e retina. Os processos degenerativos relacionados com o envelhecimento são responsáveis pela ocorrência de vertigem e/ou tontura (presbivertigem) e de desequilíbrio (presbiataxia) na população geriátrica. Do mesmo modo, a compensação vestibular, que é o processo Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 de recuperação, depende da substituição sensorial e da compensação central que está comprometida no envelhecimento. Os processos degenerativos relacionados com o envelhecimento são responsáveis pela ocorrência de vertigem e/ou tontura (presbivertigem) e de desequilíbrio (presbiataxia) na população geriátrica. Do mesmo modo, a compensação vestibular, que é o processo de recuperação, depende da substituição sensorial e da compensação central que está comprometida no envelhecimento. A visão e o reflexo vestíbulo-ocular declinam com a idade. Como a visão é muito importante na compensação, os seus déficits contribuem significativamente para alterações do equilíbrio na população idosa. O diagnóstico de presbivertigem deve ser considerado em idosos com desequilíbrio e perda da função vestibular periférica. A presbivertigem apresenta-se como instabilidade, por perda da percepção periférica durante o movimento, principalmente no sentido angular. O medo de cair é frequente e pode estar associada à “marcha cautelosa” com redução da passada, da velocidade e o deslizar dos pés no chão. Geralmente o paciente faz a extensão dosbraços à procura de apoio e evita mudança de direção. É importante avaliar bem estes pacientes antes de rotulá-los como funcionais ou psicogênicos porque algumas vezes a “marcha cautelosa” pode anteceder um distúrbio orgânico. Distúrbios metabólicos, psíquicos, disautônomos, ortopédicos, visuais e proprioceptivos podem causar tontura em idosos com exame vestibular normal e dificultar a realização de ajustes posturais rápidos. Os critérios clínicos sobre o que é normal no paciente idoso têm de ser ajustados. Em resumo, o envelhecimento compromete a habilidade de o sistema nervoso central realizar o processamento dos sinais vestibulares, visuais e proprioceptivos responsáveis pela manutenção do equilíbrio corporal, bem como diminui a capacidade de modificação dos reflexos adaptativos. Acarreta também a perda progressiva de células ciliadas dos receptores sensoriais periféricos (cúpulas dos canais semicirculares e máculas sacular e utricular), decréscimo do número de fibras e da mielinização do nervo vestibular, degeneração das células ganglionares e de terminações nervosas no sistema vestibular periférico e central. Estes processos degenerativos são responsáveis pela ocorrência de vertigem e/ou tontura (presbivertigem) e de desequilíbrio (presbiataxia) na população geriátrica. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Classificação A definição de tontura e sua classificação em categorias de sintomas são as mais utilizadas atualmente, ainda hoje são as mais usadas. Caracterizar as queixas torna possível fazer uma relação com a etiologia, facilitando diagnósticos diferenciais. Quatro categorias de sintomas são definidos: a vertigem, o desequilíbrio, a pré- síncope e a tontura inespecífica. Muitas vezes, os pacientes não se incluem em uma categoria ou então descrevem dois ou mais tipos de tontura. Isso porque o desequilíbrio geralmente se acompanha de outros tipos de tontura Vertigem – Refere-se a um sintoma vestibular e envolve a sensação de girar ou outros tipos de movimentos ilusórios sobre si mesmo ou no ambiente. A ilusão visual rotatória do ambiente é particularmente característica e geralmente é acompanhada da sensação de queda, náuseas, vômitos, palidez, sudorese e desequilíbrio, agravados pelo movimento e pela mudança de posição da cabeça. Não há perda de consciência e geralmente é episódica, de início abrupto podendo ser grave. Sugere doença do sistema vestibular. É causada por distúrbio na aquisição de informação no aparelho vestibular ou seu processamento central. A cinetose seria uma forma fisiológica de vertigem relacionada com movimentos da cabeça e tronco, embarcações e aviões. Desequilíbrio – É a percepção do enfraquecimento ou instabilidade postural e marcha, queda eminente, descrita como envolvendo corpo e membros (não a cabeça), sendo muitas vezes contínua. O desequilíbrio no idoso é inespecífico, geralmente contínuo e raramente intermitente. Melhora com o sentar ou deitar. Classicamente, é atribuído a doenças neuromusculares, cerebelares, neuropatias periféricas e descondicionamento físico. São causas comuns de desequilíbrio: doença vestibular bilateral grave, acidente vascular cerebral, déficits neurológicos e sensoriais, doença cerebelar e neuropatia periférica. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Pré-síncope – É a sensação de desmaio ou perda de consciência, podendo ser acompanhada de fraqueza, zumbido, vista escura, palidez, sudorese e desmaio. Geralmente é episódica. A gravidade dos sintomas está ligada à magnitude da redução da perfusão cerebral. Pode ser causada por isquemia cerebral difusa secundária a causas cardiológicas (arritmias, estenose aórtica), e/ou causas não cardiológicas como hipotensão pós-prandial, hipotensão postural e medicações. Tonturas inespecíficas – Geralmente são tonturas difíceis de caracterizar, incluindo todos os sintomas que não estão nas outras categorias. São descritas como confusão mental, cabeça pesada ou leve, atordoamento, flutuação, embriaguez, tontura, sensação de desmaio eminente, cansaço, dificuldade de se concentrar, ansiedade. Podem se acompanhar de sintomas somáticos como dor de cabeça e no abdome. Aposentadoria e Envelhecimento A aposentadoria se constitui como um processo de transição, que tem início assim que o sujeito começa a tomar consciência de sua aproximação. Esse período que antecede a aposentadoria pode caracterizar-se por dois momentos de preparação, denominados fase remota e fase aproximada. Na primeira, a aposentadoria é vista de forma positiva, porém pouco concreta, sendo concebida como um acontecimento longínquo. Já na fase aproximada, a questão do tempo e a iminência do desligamento do trabalho são vinculadas de forma mais delineada. O planejamento da vida pós-aposentadoria proporciona um enfrentamento mais objetivo das condições frustrantes às quais muitos idosos ficam expostos. Já a ausência de planejamento pode indicar dificuldade na adaptação a novas circunstâncias, associadas a negativismo e resistência para entrar em contato com qualquer assunto ligado à aposentadoria. A falta de planejamento pode causar angústia e solidão, decorrentes da decepção frente a dificuldade de obter satisfação e realização pessoal após o desligamento da ocupação profissional, ainda que esta tenha sido desempenhada com insatisfação. A reação de uma pessoa frente a aposentadoria está diretamente ligado à sua história de vida, suas relações com a sociedade, sobretudo com o papel profissional, e seu modo de enfrentar perdas e de adaptar-se às novas situações. É possível ter uma prévia percepção de como alguém vivenciará o desligamento do trabalho se for compreendido o lugar que este ocupava em sua vida. O processo de se aposentar pode ser vivenciado como uma ruptura imposta pelo mundo externo, gerando frustração e sentimento de esvaziamento, já que o trabalho Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 estava fortemente associado à identidade. Assim aposentadoria, quando assimilada de forma negativa, pode ocasionar comprometimento na estrutura psíquica do sujeito. A aposentadoria pode se transformar em grande fonte de tensão quando associada à diminuição do poder aquisitivo, de forma que o empobrecimento é agravado, dificultando até mesmo o suprimento de necessidades básicas do cotidiano. Isso é o que a aposentadoria significa para a maioria dos idosos brasileiros. Hoje o trabalho voluntário é considerado uma forma de ajuda mútua, onde os idosos que o realizam assessoram a outras pessoas ao mesmo tempo em que se sentem úteis e inseridos na sociedade, sendo que esta troca também úteis e inseridos na sociedade, sendo que esta troca também reflete na saúde e na qualidade de vida dos voluntários. Outra maneira de preservar a positividade e o equilíbrio emocional frente a terceira idade e a aposentadoria é a busca por novas atividades de lazer e a participação em grupos ou em universidades da terceira idade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Problema 3 Envelhecimento do Sistema Digestivo Com o envelhecimento, o aparelho digestório apresenta alterações estruturais, de motilidade e da função secretória, que variam em intensidade e natureza em cada segmento. As consequências clínicas dessas alterações são, na maioria dos casos, pouco perceptíveis, mas, em seu conjunto, adquirem importância para compreensão e manuseio de sintomas, bem como para previsão de alterações na farmacocinética de diversas medicações. Esôfago Com o envelhecimento,a musculatura lisa do esôfago pouco se altera, porém ocorre importante e progressiva redução de sua inervação intrínseca. Uma série de alterações da motilidade do esôfago relacionada ao envelhecimento, em grande parte decorrente das alterações de sua inervação, tem sido descrita desde os trabalhos pioneiros de Soergel e colaboradores (1964). Esses autores observaram expressivo aumento da frequência de contrações terciárias, presença de aperistalse, distúrbios funcionais do esfíncter inferior do esôfago e contrações não propulsivas seguindo 45% das deglutições, em voluntários idosos. Os autores denominaram o conjunto dessas alterações como “presbiesôfago”. De maneira geral, reconhece-se diminuição da pressão de repouso e alterações da sincronia e magnitude do relaxamento do esfíncter superior do esôfago (o que pode causar disfagia alta), aumento da incidência de contrações não peristálticas (síncronas e falhas) e manutenção da pressão de repouso do esfíncter inferior do esôfago. Em relação a este, é descrito o aumento da frequência de respostas inadequadas à deglutição, com relaxamento incompleto ou ausente. A amplitude, duração e velocidade de propagação das ondas de contração esofágicas, quando presentes e normais, não apresentam alterações significativas. Mesmo em pessoas assintomáticas, as alterações da motilidade esofágica relacionadas ao envelhecimento podem reduzir a depuração de materiais deglutidos ou refluídos do estômago. Esse fato tem implicações clínicas importantes, como a necessidade, mesmo em idosos assintomáticos, de se administrar medicamentos por via oral (VO), na posição ortostática e acompanhados de razoável quantidade de líquido. Outra importante implicação consiste no fato de que materiais ácidos refluídos do estômago permanecem por mais tempo em contato com a mucosa esofágica, com maior potencial de lesão, conforme observaremos adiante. É provável ainda que a demora para Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 o esvaziamento de materiais refluídos do estômago para o esôfago contribua para a ocorrência de pneumonias aspirativas. Outro importante aspecto do envelhecimento esofágico é o fato de que a população idosa pode ter o limiar de dor esofágica aumentado, razão pela qual a gravidade dos sintomas dolorosos não se relaciona com a gravidade da lesão esofágica causada pela presença de refluxo ácido do estômago. Como as alterações da motilidade esofágica em idosos são extremamente frequentes e raramente associadas a sintomas, recomenda-se que (todo idoso com disfagia ou outros sintomas de natureza esofágica seja investigado para doenças envolvendo o esôfago e que jamais, antes de investigação exaustiva, queixas sejam atribuídas a alterações da motilidade relacionadas exclusivamente ao envelhecimento. Estômago As alterações do estômago relacionadas ao envelhecimento podem levar, isoladamente, a pouca sintomatologia. No entanto, essas alterações, se negligenciadas, podem levar a sérias consequências a longo prazo. Uma primeira alteração a ser considerada é a redução do relaxamento receptivo do fundo gástrico à chegada de alimentos. A capacidade de acomodação do alimento, por essa razão, reduz-se, com a ocorrência de saciedade precoce. Esse fenômeno, de natureza complexa e base neuro-humoral, contribui de forma importante para que haja saciedade precoce e anorexia do envelhecimento. Há discreta a moderada elevação do tempo de esvaziamento gástrico, principalmente para líquidos, o que pode alterar, em alguma medida, o tempo e o grau de absorção de medicações cuja exposição prolongada ao meio ácido é crítica. Entre essas, pode-se citar o cetoconazol, o fluconazol, as tetraciclinas e a indometacina. Vários estudos mostram alguma redução da secreção de ácido clorídrico, tanto basal quanto estimulada, provavelmente secundária à redução da quantidade de células parietais, que é relacionada à idade. Entretanto estudos mais recentes consideram essa redução uma manifestação inicial de gastrite atrófica e afirmam que a redução de secreção ácida gástrica não ocorre em idosos plenamente saudáveis. A secreção basal e estimulada de pepsina também se mostra reduzida com o envelhecimento, independentemente da presença de infecção pelo Helicobacter pylori, gastrite atrófica ou tabagismo. A produção de fator intrínseco, necessário para a absorção de vitamina B12, também se mostra relativamente reduzida, mas não em níveis capazes de alterar substancialmente a absorção dessa vitamina e induzir anemia. Também a absorção do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ferro pode estar parcialmente reduzida pela hipocloridria, o que poderia contribuir para o desenvolvimento de anemia ferropriva, mas não para a sua causa. A anemia também não deve ser atribuída, a princípio, à alterações fisiológicas do estômago ou de outras porções do trato digestório. A colonização da mucosa gástrica pelo H. pylori aumenta com o avançar da idade, com prevalência dessa colonização de até 75% em faixas etárias avançadas. Com o envelhecimento, aumenta a prevalência de doenças pépticas e, aparentemente, a sensibilidade a fatores agressores como anti-inflamatórios não esteroidais. Pâncreas O pâncreas sofre importantes alterações estruturais com o envelhecimento. O seu peso se reduz de uma média de 60 g para menos de 40 g, na nona década de vida. Alterações histológicas incluem dilatação do ducto principal, proliferação de epitélio ductal e formação de cistos. Há fibrose e lipoatrofia focal, manifestada, em exames radiológicos, como aumento da densidade do parênquima. As alterações estruturais do pâncreas se refletem em alterações funcionais consideráveis. Há redução da capacidade de secreção de tripsina, lipase e bicarbonato. No entanto, essas alterações provavelmente têm significado clínico negligenciável, uma vez que a reserva funcional pancreática é, proporcionalmente, muito elevada, e não há, até hoje, descrição de alterações do processo digestório em razão de alterações da função pancreática relacionadas ao envelhecimento. Há, ainda, a provável redução da secreção de insulina (já bem demonstrada em roedores), o que explicaria, em adição à redução da sensibilidade periférica a esse hormônio, o aumento da prevalência de diabetes na população idosa. Fígado É um dos órgãos mais estudados em relação aos efeitos do envelhecimento sobre o trato digestório. A maioria dos estudos se dedica mais à metabolização de medicamentos do que às alterações estruturais e à função secretora. ➔ Alterações estruturais: peso do fígado se reduz cerca de 30 a 40% da segunda para a nona década de vida. No entanto, a arquitetura hepática se mostra pouco alterada. Os hepatócitos, bem como suas organelas, têm aumento em seu tamanho, e o colágeno, embora aumentado em quantidade, pouco se altera em suas características. Há deposição marcante de lipofuscina, com o aspecto do fígado se tornando acastanhado. O fluxo sanguíneo hepático Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 é reduzido, proporcionalmente à redução do peso do fígado, em torno de 25 a 47%, de acordo com diferentes estudos. ➔ Funções secretoras: são descritos, em estudos em humanos, redução na secreção de albumina (até 20%), redução da secreção de colesterol e aumento da secreção de alfa-ácido glicoproteínas. Há, também, descrições de redução na quantidade total de ácidos biliares. As alterações na secreção de albumina e de glicoproteínas podem interferirna farmacocinética de medicações que têm importante ligação à albumina, como a fenitoína e os antipsicóticos, e às glicoproteínas, como a lidocaína e o propranolol. Essas alterações também interferem na interação entre os medicamentos quando são utilizados diversos fármacos que se ligam a esses carreadores. ➔ Metabolização de medicamentos: a metabolização de medicamentos é classificada em duas fases distintas. A fase I consiste da ação de enzimas mono-oxigenase microssomais (incluindo o sistema citocromo P-450), que promovem oxidação, redução ou hidrólise da medicação original, convertendo-a em metabólitos mais polares. Esses metabólitos podem ser menos ou mais ativos que a medicação original. A fase II se caracteriza por reações sintéticas ou de conjugação, que acoplam a medicação ou seus metabólitos a metabólitos endógenos, como os ácidos glicurônico, sulfúrico, acético ou mesmo um aminoácido, facilitando sua excreção na bile ou na urina. Há descrição da redução, com o envelhecimento, de 5 até 30% na metabolização de medicamentos pela fase I, mais intensa em homens do que em mulheres. O sistema citocromo P-450 se mantém pouco alterado em quantidade, porém estudos (in vitro mostram alterações de afinidade e efetividade. Essas alterações podem promover a redução da metabolização de fármacos, como vários benzodiazepínicos, e, mesmo, a produção de compostos intermediários de meia-vida muito longa. Outro aspecto importante das alterações das reações de fase I é que existe uma variabilidade interindividual grande, o que reduz a previsibilidade desse fenômeno individualmente. As reações da fase II (conjugação) se alteram menos com o envelhecimento, provavelmente sofrendo redução de grau modesto. ➔ Testes de função hepática e de lesão hepatocelular: os testes empregados para a avaliação da função hepática (dosagem de bilirrubinas, albumina, fatores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 da coagulação) e da presença de lesões hepatocelulares (transaminases) e canaliculares (fosfatase alcalina, gama glutamil transferase) permanecem praticamente inalterados com o envelhecimento. Intestino delgado No que se refere a alterações estruturais, são descritas apenas relativa redução da superfície mucosa, redução das vilosidades intestinais e redução correspondente do fluxo esplâncnico entre 40 e 50%. O tempo de trânsito intestinal não apresenta alterações significativas com o envelhecimento. Esse achado não exclui, no entanto, alterações da motilidade e de seus padrões. Apesar da escassez de dados, alterações da motilidade podem ter importante significado clínico, pois possibilitam a hiperproliferação bacteriana, uma das causas de perda de peso em idosos. A função absortiva é, aparentemente, pouco alterada para a maioria dos nutrientes, incluindo açúcares e proteínas. Para a avaliação da absorção de carboidratos, o clássico teste da D-xilose pode se mostrar reduzido com o envelhecimento em até 35%; entretanto, a redução da função renal é a responsável por essa alteração, e não a absorção de carboidratos. A absorção de lipídios envolve uma série de passos complexos, incluindo a formação de emulsão no estômago; a hidrólise de triglicerídios na presença da lipase pancreática; a formação de micelas complexas formadas por ácidos biliares, ácidos graxos e monoglicerídios; a difusão de ácidos graxos através da membrana vilosa; a ressíntese de triglicerídios nas células mucosas; a formação de quilomícrons e o transporte dos quilomícrons para ductos linfáticos. Uma discreta redução na absorção de lipídios, especialmente em situações de sobrecarga, é descrita, e, além de estar relacionada às alterações do pâncreas e da secreção de sais biliares, descritas anteriormente, deve-se, em parte, à redução da capacidade de ressíntese de triglicerídios na célula mucosa. De qualquer forma, essas alterações não se mostram críticas para a manutenção do estado nutricional. No entanto, a absorção de alguns nutrientes específicos, incluindo vitamina D, ácido fólico, vitamina B12, cálcio, cobre, zinco, ácidos graxos e colesterol, é reduzida com o envelhecimento. A redução da absorção da vitamina D, associada a outros fatores, contribui para a ocorrência da osteoporose e de outras consequências deletérias da hipovitaminose D que vêm sendo demonstradas recentemente. A absorção de alguns outros nutrientes, incluindo vitamina A e glicose, pode aumentar. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Cólon Três fatos evidentemente idade-relacionados ocorrem no que se refere ao cólon: (1) aumento da prevalência de constipação intestinal; (2) aumento da incidência de neoplasias e (3) aumento da prevalência de doença diverticular. A ocorrência mais frequente de constipação intestinal entre os idosos pode ser explicada por uma série de fatores extrínsecos ao cólon, como o sedentarismo, a redução na ingestão de fibras e de líquidos, as alterações hormonais e, em mulheres, a histerectomia e as alterações do assoalho pélvico. Uma possível causa para distúrbios do trânsito seria a redução dos neurônios do plexo mioentérico associada ao envelhecimento, porém essa regulação pelo plexo mioentérico é pouco conhecida. O aumento da prevalência de doença diverticular está relacionado a alterações morfológicas e biomecânicas do cólon, com o comprometimento da resistência da parede colônica a pressões intraluminais elevadas. A presença de colágeno e elastina submucosos confere distensibilidade ao cólon; alterações nesses elementos, com maior agregação e acumulação de colágeno e degeneração da fibrina podem causar menor distensibilidade e menor resistência. Por outro lado, devido a alterações no plexo mioentérico, passam a predominar os movimentos de segmentação em relação aos de progressão do bolo alimentar, criando-se câmaras de alta pressão intraluminal. Não se pode desconsiderar, todavia, que as alterações aqui mencionadas não explicam integralmente a formação de divertículos e que dietas pobres em fibra, além de outros fatores extrínsecos, também apresentam importante papel para a sua patogênese. A maior incidência de neoplasias também é explicada por diversas teorias, provavelmente complementares. Elas incluem a exposição da mucosa colônica, por período prolongado, a agentes carcinogênicos, hiperproliferação das células crípticas e, conforme estudos recentes vêm confirmando, o aumento da suscetibilidade da mucosa colônica, com o envelhecimento, à transformação maligna. Reto e ânus A prevalência de incontinência fecal aumenta claramente com o envelhecimento, com consequências pessoais e sociais importantes. Diversos mecanismos extrínsecos contribuem para a ocorrência de incontinência, como déficit cognitivo, impactação fecal, acidentes vasculares cerebrais, neuropatia diabética. No entanto, algumas alterações intrínsecas ao envelhecimento reconhecidamente contribuem para esse fenômeno. Alterações da musculatura do esfíncter exterior, com espessamento e alterações estruturais do tecido colágeno e redução da força muscular, diminuem a capacidade de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 retenção fecal voluntária. Além disso há alterações na automaticidade muscular esquelética, explicadas, em parte, pela lesão mecânica crônica dos nervos pudendos. Alterações da elasticidade retal e da sensibilidade à sua distensão foram descritas em alguns estudos, mas não confirmadas por outros. É importante considerar importantes diferenças entreo homem e a mulher nos parâmetros manométricos anorretais. Hemorragia digestiva baixa (HDB) O sangramento digestivo baixo agudo pode manifestar-se na forma de melena, sangue vermelho vivo de pequena monta, leve a moderada intensidade ou maciço. A HDB é menos frequente do que a hemorragia digestiva alta e, em comparação a essa, geralmente apresenta evolução menos grave. A incidência de HDB aumenta com a idade, sendo estimada entre 20 e 27 casos por 100.000 anualmente na população adulta de risco, enquanto a incidência anual para hemorragia gastrintestinal alta varia de 100 a 200 casos por 100.000. O aumento na incidência HDB com o avançar da idade parece estar relacionado com a maior prevalência de doença diverticular dos cólons e angiectasias. Do mesmo modo que na hemorragia digestiva alta, o sangramento baixo cessa espontaneamente na maioria dos casos (80 a 85%). Em cerca de 10 a 15% dos pacientes com manifestação de sangramento digestivo baixo, uma Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 esofagogastroduodenoscopia poderá identificar como fonte um sangramento na parte alta do tubo digestivo. As causas mais comuns de sangramento digestivo baixo são as diverticuloses e as angiectasias (dilatações de artérias, veias ou vasos linfáticos). A idade média de pacientes com sangramento digestivo baixo varia de 63 a 77 anos, e o índice de mortalidade varia de 2 a 4%. Colonoscopia – A maioria dos casos de HDB cessa espontaneamente, porém não é possível predizer quais pararão e quais necessitarão de intervenção. A hemostasia por via colonoscópica tem um papel importante no tratamento de algumas lesões, tais como ectasias vasculares sangrantes, que podem ser abordadas através de injeção de substâncias esclerosantes ou métodos térmicos. Quando indicar a colonoscopia, e qual o melhor momento para realizá-la? Qual o tipo de preparo a ser empregado? Não existem regras. As condições e o preparo são avaliados pelo endoscopista, que deverá determinar o momento adequado para a realização do exame em comum acordo com o clínico e cirurgião. O papel da colonoscopia na avaliação e condução dos pacientes com sangramento gastrintestinal baixo evoluiu muito nas últimas duas décadas. A instituição do diagnóstico e do tratamento precoce do sangramento, por meio da colonoscopia, tem sido amplamente difundida, tendo em vista a segurança no preparo e seus reais benefícios, mesmo no paciente idoso. Entre 12 e 17% dos pacientes submetidos à colonoscopia devido a sangramento digestivo baixo terão possibilidade de terapêutica endoscópica. As modalidades terapêuticas endoscópicas do sangramento digestivo baixo agudo, em particular para angioectasias e doença diverticular, incluem sondas térmicas de contato, (laser, eletrocauterização monopolar e bipolar, injeção de esclerosantes, ligadura elástica, além de métodos mecânicos tais como hemoclipes e endoloops. Constipação intestinal Quadros de constipação intestinal, embora não decorram do envelhecimento normal, são comuns em idosos devidos à associação de menor mobilidade intestinal com medicamentos e condições de saúde potencialmente obstipantes. Conforme critérios metodológicos adotados e local de análise, estimativas de prevalência de constipação intestinal variam entre 2 e 28% dos indivíduos estudados, embora haja quase unanimidade sobre seu aumento progressivo com o aumento da idade. Observa-se também sua maior frequência entre mulheres e em camadas de baixo nível socioeconômico. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 De acordo com a definição mais simples e mais utilizada na prática clínica, considera-se constipação intestinal evacuação inferior a três vezes por semana. Há outras definições baseadas em consensos internacionais, como os critérios de Roma II. Causas A frequência da constipação intestinal em idosos decorre da associação de várias circunstâncias usuais nessa faixa etária. Imobilidade total ou parcial, sedentarismo, alterações dietéticas, baixa ingestão hídrica, medicamentos e doenças que dificultam o ato da evacuação são exemplos encontrados diariamente na prática clínica. Deve-se valorizar o sintoma e atentar para excluir causas de constipação intestinal secundária a doenças e/ou causas muitas vezes subclínicas. A constipação intestinal é dividida em 2 grupos: ➔ Constipação intestinal primária (causas primárias): é dividida em 3 subtipos: ➢ Constipação intestinal com trânsito intestinal normal ou constipação intestinal funcional – apresenta como padrão fezes que passam pelo cólon em velocidade normal. O diagnóstico clínico é frequente. ➢ Constipação intestinal com trânsito intestinal lento – caracteriza-se pelo prolongado tempo de passagem do bolo fecal pelo intestino grosso. Associa- se normalmente às queixas de distensão abdominal e perda de borborigmo. Suas causas não são claras. Mecanismos possíveis incluem anormalidades no plexo mesentérico, inervação colinérgica incompleta e disfunções na placa motora noradrenérgica. ➢ Disfunção anorretal – provocada pela coordenação ineficaz da musculatura pélvica durante a defecação. Pacientes relatam sensações de evacuação incompleta ou de obstrução à defecação e/ou a necessidade de manipulação digital no orifício retal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Constipação secundária (causas secundárias): A boa avaliação clínica possibilita a detecção e/ou exclusão de potenciais causas de constipação intestinal secundária. A regra mnemônica dos 4 “Ds”, lembrando que defecação também começa com “D”, auxilia a lembrar os principais fatores desencadeantes durante investigação inicial da queixa de constipação intestinal: Deambulação, Dieta, Doenças e Drogas. Esses quatro fatores ou “Ds”, embora aparentemente óbvios, merecem sempre o questionamento durante a anamnese, visto ser comum a observação de idosos com limitações à deambulação ou dietéticas. Também são encontrados pacientes com doenças que dificultam o processo digestivo e/ou o ato da defecação. Merece destaque o papel dos medicamentos como desencadeadores de constipação intestinal secundária em idosos, em geral, consumidores crônicos de vários fármacos simultaneamente. Isso gera alto risco de efeitos colaterais e de interações medicamentosas com potencial obstipante. Uma parte dos grupos farmacológicas mais utilizados pelos idosos apresentam capacidade constipação intestinal, pois tem ação em sistema nervoso central, condução nervosa e em musculatura lisa são os principais pelo início ou evolução desse distúrbio intestinal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 A exclusão de câncer de cólon pelo toque retal, retossigmoidoscopia ou colonoscopia em pacientes com idade acima de 50 anos com antecedentes familiares de neoplasia colônica, relato de sangramento retal e/ou perda de peso recente é mandatória. Envelhecimento do Aparelho urinário Envelhecimento renal – Sabe-se que os rins participam na manutenção do meio interno, processamento e posterior excreção de substâncias administradas com fins terapêuticos e/ou de investigação clínica, como os contrastes radiológicos. Entretanto é difícil separar o envelhecimento fisiológico daquele associado a doenças, pelas inúmeras comorbidades que o idoso pode apresentar, além da ação de fatores ambientais, como o tabagismo e a obesidade, que têm conhecida ação deletéria sobre a função renal. Outros estímulos ambientais de ação deletéria questionável são o pronunciado consumo do álcool e do sal, hábitosmais comuns nas sociedades ocidentais. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Modificações morfológicas – o rim sofre modificação no seu peso, que é de 50 g no nascimento e que, na fase adulta, varia de 230 a 250 g, proporcionalmente à área corporal do indivíduo. A partir da quarta década, inicia-se o processo de envelhecimento renal, com diminuição do seu peso, que pode chegar a cerca de 180 g, redução da área de filtração glomerular e, consequentemente, das suas funções fisiológicas, o que se detecta universalmente pela medida do ritmo de filtração glomerular, em geral quantificada na clínica pela depuração da creatinina endógena. A dicotomia da embriologia renal com referência à origem do córtex e da medula também está representada na evolução do envelhecimento renal, em que a medula é relativamente preservada, em contraposição à progressiva perda das estruturas corticais. Essas perdas são heterogêneas e podem condicionar graus diferentes de atrofia, esclerose e hiperplasia de vasos, glomérulos, túbulos e interstício renal. A consequência desse fenômeno de alterações heterogêneas é uma perda funcional que não leva à plena falência do órgão. Algumas observações têm incluído (insuline-like growth factor 1 (IGF-1), apoptose, (plasminogen activator factor 1 (PAF-1), (epidermal growth factor (EGF) e alterações dos processos oxidativos como prováveis mediadores dessas alterações. ➔ Vasos renais – por ser intensamente vascularizado, o rim recebe cerca de 25% do débito cardíaco por minuto, que circula principalmente pelo córtex, para o processo de filtração glomerular. Esse é o ponto de partida da ação fisiológica renal, que promove depuração sanguínea de substâncias originárias do metabolismo e manutenção da homeostase.A partir dos 40 anos, todos os vasos renais sofrem progressiva esclerose, levando a uma diminuição da sua luz, com consequentes modificações no fluxo laminar do sangue, o que facilita a deposição lipídica na parede vascular. Isso propicia a substituição de células musculares por depósitos de colágeno, o que causa a diminuição da sua elasticidade. Essas modificações vasculares parecem ser importantes na diminuição do peso dos rins. As alterações arteriais são mais observadas nos vasos intrarrenais (artérias interlobulares e arqueadas). Além dessas alterações, os idosos, mesmo em estágios iniciais de insuficiência renal crônica, podem apresentar alterações vasculares envolvendo mecanismos de lesão do tipo inflamatório e disfunção endotelial. ➔ Os glomérulos – O número de glomérulos no nascimento varia entre 800 mil e 1 milhão, divididos entre os de localização cortical e justamedular, que têm características funcionais distintas. Esse número de glomérulos mantém-se Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 constante até a quarta década, quando se inicia o processo de envelhecimento renal; a partir daí, há uma progressiva redução dessas estruturas, alcançando na sétima década cerca de 1/3 do número de glomérulos iniciais. Além da redução em número e volume, os glomérulos sofrem processos de modificações estruturais, envolvendo mudança da expressão de genes que levam à expansão das células mesangiais e a um acentuado espessamento da membrana basal por mecanismos inflamatórios, associada a alterações bioquímicas da mesma. A deterioração glomerular deve-se a estímulos extrínsecos e intrínsecos que podem limitar o número de replicação celular causada por encurtamento telomérico. A principal consequência dessas alterações é a diminuição da área de filtração e da permeabilidade glomerulares, o que proporciona a diminuição do ritmo de filtração glomerular. O aspecto histológico do rim senil exibe um padrão heterogêneo de comprometimento na evolução nas estruturas glomerulares, com diversos graus de acometimento: pode haver algumas unidades esclerosadas (fibrose), outras hialinizadas (acumulo de proteínas), alguns glomérulos hipertrofiados e glomérulos de aspecto normal de permeio. Os glomérulos corticais sofrem uma evolução para atrofia e desaparecimento completo, com perda total do polo vascular, desaparecendo, assim, ambas as estruturas, enquanto nos glomérulos justamedulares ocorre o desaparecimento do glomérulo, sem a perda dos seguimentos das arteríolas aferentes e eferentes que dão origem a um shunt vascular. ➔ Túbulos e interstício – Após o nascimento, mantém-se o processo de expansão e maturação dos túbulos renais, que, a partir da quarta década, passam a sofrer o processo contrário, com diminuição do seu comprimento e volume, provavelmente em decorrência de isquemia. Como consequência, há uma substituição por tecido conectivo, sem grandes sinais inflamatórios associados. Tais alterações ocorrem antes do processo degenerativo que sofrem os glomérulos; portanto, esses dois processos parecem ser independentes. Notam-se também modificações nas alças de Henle, principalmente, por diminuição do seu comprimento. Com relação ao interstício, novamente se observam diferentes comportamentos entre o interstício cortical e o medular. No primeiro, o aumento do tecido conectivo não é tão marcante quanto na medula, onde também ocorre acentuado depósito gorduroso. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Modificações fisiológicas – m decorrência das modificações estruturais observadas com o envelhecimento renal, haverá algumas modificações funcionais que podem ser atribuídas ao envelhecimento bem-sucedido, já que, apesar dessas perdas, são preservadas tanto as funções de equilíbrio do meio interno, que é mantido dentro dos níveis de normalidade fisiológica, quanto as funções excretoras e endócrinas do rim. Desse equilíbrio resulta a preservação do metabolismo celular. Como citado anteriormente, as modificações funcionais são diretamente proporcionais à redução das medidas renais. As perdas do envelhecimento não são homogêneas, o que permite classificar os idosos em 3 categorias: ➔ Acentuada redução da filtração glomerular ➔ Situação intermediária ➔ Sem comprometimento nessa função renal A filtração é comprometida pela redução do número de glomérulos funcionantes. Fluxo sanguíneo renal – foi observado em estudos que há uma redução do aporte de sangue, com redução de cerca de 700 ml/min medidos em adultos jovens, para próximo de 300 ml/min entre os idosos na nona década. Essas modificações seriam devidas às modificações funcionais do endotélio, com vasoconstrição, havendo pouco ou nenhum concurso das alterações estruturais dos vasos. Aqui, as modificações proporcionadas pelo envelhecimento também não são homogêneas, já que há uma diminuição mais acentuada do aporte sanguíneo para os glomérulos corticais em relação aos medulares, com menor prejuízo funcional para a medula renal. Ritmo de filtração glomerular – principal teste de avaliação da função renal é expresso pela medida do ritmo de filtração glomerular (RFG), que, na prática clínica corrente, utiliza a depuração da creatinina endógena na sua medida. A maioria dos autores refere como valores normais as variações entre 80 e 120 ml/min para uma área corpórea de 1,73 m 2. Os estudos do envelhecimento renal têm apontado para uma contínua perda da função renal: a partir da quinta década, é registrada uma perda de 1 ml/min do RFG ou 1% para cada ano de vida ou, de modo mais abrangente, uma perda de 10 ml do RFG para cada 10 anos de vida. Como a medida do RFG emprega a depuração da creatinina endógena, que é um metabólitomuscular, deve-se ter atenção quando se avalia o seu nível plasmático nos idosos. Neste grupo, como há uma diminuição da massa muscular, os níveis plasmáticos só se elevarão quando houver adiantado comprometimento da função renal, falseando a ideia de um nível de função renal normal quando se toma por base a avaliação exclusiva Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 da creatinina plasmática. Contrariamente aos níveis da creatinina, observa-se um desproporcional aumento da ureia plasmática entre os idosos. A importância clínica dessa mudança na interpretação dos valores plasmáticos da creatinina é marcante quando do uso de medicamentos de eliminação por via renal, cujas doses padrão devem merecer atenção, com vistas a uma necessária redução para poupar uma agressão ao rim. A medida do RFG pela depuração da creatinina plasmática é um exame cuja realização demanda tempo, além de alguns cuidados que interferem na sua exatidão, especialmente entre os idosos, considerando-se as dificuldades que eles podem ter no aspecto cognitivo e operacional para a coleta completa da urina de 24 h, sem perdas. Outra maneira alternativa para a avaliação da função renal foi a criação de fórmulas estimativas do RFG que se consolidaram ao longo do tempo, como a de Cockroft e Gault e a MDRD (Modification on Diet in Renal Disease), para as quais não há necessidade da coleta da urina de 24h. Essas fórmulas estimativas, embora usadas para avaliação da função renal de qualquer nível, apresentam aumento de sensibilidade quando o RFG é inferior a 60 ml/min, valor a partir do qual o nível de comprometimento do rim requer cuidados especiais para a preservação da função renal. Para o sexo feminino, faz-se um ajuste, multiplicando-se o resultado por 0,85 devido a uma menor massa muscular. Com a observação de que idosos que, sem manifestações de uremia, apresentam frequentemente valores do RFG inferiores àqueles considerados normais, alguns grupos de estudo têm estabelecido novos critérios como o descrito pelo Australasian Creatinine Consensus Working Group, que atribui a pacientes de idade igual ou superior a 70 anos, clinicamente estáveis e sem evidência de lesão renal, um RFG entre 45 e 59 ml/min, o que seria considerado uma função renal típica desse grupo etário. Capacidade de reserva ranal – Esta é uma medida fisiológica renal de instituição relativamente recente, em que se avalia a capacidade do rim em responder aos estímulos de trabalho da filtração glomerular. Na sua medida, emprega-se o cálculo do RFG antes e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 após um estímulo por oferta oral de proteínas ou venosa de aminoácidos. A capacidade de reserva renal (CRR) é obtida pela diferença entre a medida do RFG com e sem estímulo proteico. O resultado dessa medida é expresso em números absolutos. Entre os idosos, a CRR é inferior àquela obtida entre os adultos de faixas etárias mais jovens. A importância da preservação de parte da capacidade funcional entre os idosos é que esse grupo de pessoas ainda tem uma população de glomérulos recrutáveis, quando são submetidos a estímulos metabólicos que aumentem a necessidade de trabalho do rim, podendo mostrar uma função renal conservada em resposta a determinadas circunstâncias. Situações de comorbidades, como HAS, DM e doenças cardíacas, podem acentuar as reduções funcionais fisiológicas, como a CCR. Função tubular – Entre os idosos, a CRR é inferior àquela obtida entre os adultos de faixas etárias mais jovens. A importância da preservação de parte da capacidade funcional entre os idosos é que esse grupo de pessoas ainda tem uma população de glomérulos recrutáveis, quando são submetidos a estímulos metabólicos que aumentem a necessidade de trabalho do rim, podendo mostrar uma função renal conservada em resposta a determinadas circunstâncias. Balanço de sódio – Os níveis plasmáticos de sódio dos idosos encontram-se nos limites da normalidade, havendo, no entanto, resposta mais lenta aos estímulos que impõem uma restrição ou sobrecarga salina. O padrão dos mecanismos envolvidos no controle do sódio que determinam ao final uma menor perda dessa substância na urina é: nível basal de renina e aldosterona reduzido; aumento dos níveis de fator natriurético atrial, o que favorece a uma maior perda tubular de Na e a supressão parcial do sistema renina-angiotensina; e por fim, uma redução do ritmo de filtração glomerular (RFG) levando a uma maior perda de Na por unidade de glomérulo. Balanço do potássio – o potássio tem sua fisiologia intimamente associada à do sódio. No idoso, a menor concentração de sódio nos túbulos renais leva a uma diminuição da sua troca pelo potássio, o que limita a sua eliminação e, consequentemente, possibilita o seu acúmulo no sangue. Assim há o risco de ocorrer hiperpotassemia, principalmente nos casos de uso de medicamentos como os diuréticos poupadores de potássio (amilorida, espironolactona, trianterene), hipotensores da classe inibidores da enzima de conversão da angiotensina e bloqueadores beta-adrenérgicos. Deve ter atenção à concentração de potássio nos suplementos alimentares. Mecanismos de concentração e diluição tubular – Os mecanismos envolvidos na concentração e diluição urinária dependem de fatores intra e extrarrenais integrados: ➔ Atividade do centro hipotalâmico da sede, que regula a ingestão de água, Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Efetivo ciclo de produção, liberação e ação tubular do hormônio antidiurético (HAD) ➔ Hipertonicidade da medula renal. A sensibilidade à sede do idoso está diminuída em relação a pessoas mais jovens, o que proporciona um estado potencial de desidratação. O HAD está com sua produção aumentada mas sua ação tubular, sujeita a múltiplos fatores, está prejudicada, provavelmente, ao nível dos seus receptores renais. A comprometida participação medular no mecanismo de concentração e diluição tubular dos idosos é determinada pelo fator vascular, analisado anteriormente, responsabilizado por uma maior perfusão nesse segmento, com consequente diminuição da sua hipertonicidade. Desse modo, os idosos encontram-se em um estado homeostático que os torna mais vulneráveis aos estados de restrição de água, com chance de sofrer progressivos graus de desidratação. Mecanismo de acidificação urinária – parte da manutenção do meio interno, os mecanismos de acidificação urinária e o consequente equilíbrio ácido-base do meio interno sofrem com o envelhecimento. Há uma tendência à acidose metabólica leve em decorrência de um aumento de cloretos plasmáticos, o que sugere que haja uma acidose metabólica leve do tipo tubular renal, com compensação respiratória. Envelhecimento do ureter, da bexiga e da uretra Envelhecimento do ureter – estudos sinalizaram progressivo aumento do seu diâmetro desde a infância. O ureter de pessoas mais velhas sofre menos deformidade, tanto longitudinal como transversalmente, quando comparado ao ureter das pessoas mais novas. Foi observado também que há um aumento de ferro e sulfato e uma diminuição das concentrações de cálcio, ao contrário do observado na maioria dos órgãos. Quanto à investigação funcional do envelhecimento do ureter, tem sido relatada uma maior contratilidade, que, provavelmente, estaria associada a uma expansão da sua camada muscular em relação às outras camadas desse órgão. Envelhecimento da bexiga – a bexiga é submetida, no envelhecimento, a alterações próprias do órgão e extravesicais, que podem levar a uma exteriorização clínica, com repercussões que extrapolamultrapassam a esfera biológica do indivíduo. O envelhecimento da bexiga pode resultar no desarranjo do delicado equilíbrio entre os músculos estriados (voluntários) e liso (autônomo), controlado pela ação simpática, responsável pelo relaxamento e pela capacidade de armazenamento vesical, e o parassimpático, com ação predominante na contração da bexiga e expulsão da urina. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Morfologicamente, as alterações do envelhecimento da bexiga são representadas pela deposição de colágeno, com pronunciadas alterações histológicas e consequente hiperatividade do mesmo, e pela progressiva esclerose dos vasa-vasorum, cuja consequência é a denervação da bexiga. O processo de atrofia cerebral pode ser responsável por alterações na função da bexiga, de forma temporária ou definitiva. Envelhecimento diferenciado entre os sexos: ➔ A origem embriológica comum da bexiga, uretra, do ureter e trato genital responde, na mulher, a estímulo estrogênico, o que pode trazer consequências fisiológicas com o declínio da produção no climatério, como facilitar o aparecimento das infecções urinárias. ➔ Nos homens, em associação aos processos degenerativos próprios, a bexiga está vulnerável, principalmente, ao aumento prostático e à consequente acentuação do prejuízo aos processos primários do seu envelhecimento. Envelhecimento da uretra – órgão pouco comprometido pelo envelhecimento, a uretra apresenta entre as mulheres uma diminuição da pressão uretral máxima e do comprimento funcional. Nos homens, o comprometimento principal é o extrínseco, promovido pela hipertrofia prostática. Doenças da próstata No adulto jovem, a próstata pesa aproximadamente 20 g e se situa imediatamente abaixo da bexiga, ao redor da porção proximal da uretra, tendo, à palpação, limites nítidos e textura suave. Sua arquitetura glandular tubuloalveolar secreta um líquido incolor, ligeiramente ácido, que contém zinco, potássio, cálcio, fibrinolisina, fosfatase ácida, espermina e ácido cítrico. Essa estrutura glandular é sustentada por um estroma fibromuscular que representa aproximadamente um terço do tecido prostático total. Desde o período embrionário até a maturidade sexual, sua diferenciação, crescimento e função dependem da ação reguladora dos andrógenos testiculares — a testosterona, regulada pelo hormônio luteinizante hipofisário, é o mais importante deles. A testosterona penetra no tecido prostático por difusão passiva, sendo então convertida, após a ação de enzima 5-alfarredutase, em di-hidrotestosterona, de ação intracelular, que se liga a proteínas receptoras específicas no citoplasma, e transloca-se para o núcleo celular, dando início a vários eventos bioquímicos mantenedores da homeostase local. Apesar de sua relativa importância vital e de suas pequenas dimensões, a próstata ocupa um lugar de grande destaque no universo nosológico geriátrico, pela alta incidência Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 e prevalência de patologias que interferem de maneira importante na qualidade de vida do homem durante o envelhecimento. São muito comuns, a partir da meia-idade e, em especial, após os 60 anos, os processos inflamatórios, congestivos e neoplásicos da próstata, trazendo assim sinais e sintomas, principalmente, ligados a distúrbios da micção. Prostatites A prostatite crônica é o diagnóstico urológico mais comum na quinta década de vida, resultando, nos EUA, por ano, em aproximadamente 2 milhões de casos tratados ambulatorialmente. Apesar dessa alta prevalência de diagnósticos sindrômicos, a maioria dos médicos urologistas e generalistas enfrenta dificuldades no diagnóstico etiológico preciso, bem como no estabelecimento de critérios mais objetivos para empreender o uso de antibióticos. Quadro clínico – As categorias I e II referem-se às prostatites bacterianas aguda e crônica, respectivamente. São as formas menos comuns, respondendo por aproximadamente 5 a 6% dos casos. A primeira caracteriza-se por sintomas e sinais de infecção bacteriana aguda, com toxemia e febre frequente, porém não obrigatória nos pacientes longevos, em especial, se desnutridos ou com polipatologia debilitante. São também comuns confusão mental, letargia, calafrios, disúria, polaciúria e importante queda do estado geral, além de dor abdominal suprapúbica, às vezes com retenção urinária aguda. A bactéria é facilmente isolada nas amostras de urina, com predomínio de gram negativa. A segunda apresenta-se em quadro de infecções urinárias recorrentes, causadas pelos mesmos microrganismos, com sinais e sintomas mais brandos e, às vezes, nos mais idosos e com dificuldade de cognição, de difícil índice de suspeição. A categoria III inclui a prostatite crônica asséptica e a síndrome de dor pélvica crônica (SDPC), dividindo-se ainda em IIIA, com detecção de indícios inflamatórios nas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 secreções prostáticas pela presença de leucócitos locais, e IIIB, na ausência desses indícios. Clinicamente, as queixas são muito variáveis: desde dores a micção, redução de fluxo urinário, nictúria, disúria, poliaciúria, dor pélvica inespecífica, sinais e sintomas predominantemente de caráter irritativo, flutuantes ou não, influenciados, inclusive, por aspectos psicossomáticos, incluídos genericamente como sintomas do trato urinário baixo. Na categoria IV, encontram-se os pacientes assintomáticos, geralmente investigados para avaliação de antígeno prostático específico (PSA) elevado, com detecção de sinais inflamatórios nas secreções prostáticas e em anatomopatológico de biópsias prostáticas geralmente orientadas por achados semióticos, em especial, toque retal anormal e ultrassonografia pélvica transretal alterada. Etiologia – as causas mais comuns são: ➔ Disfunção da micção por alterações da pressão intravesical. ➔ Refluxo ductal intraprostático. ➔ Microrganismos, tais como enterobactérias (Escherichia coli, Klebsiella sp., Pseudomonas sp. etc), gram-positivos (Enterococcus sp., Staphylococcus aureus, Staphylococcus coagulase-negativos etc), Chlamydia, ureaplasma, anaeróbicos, difteroides, lactobacilos, Corynebacteriae etc. ➔ Desordens autoimunes ➔ Etiologia química ou irritativa (urina e seus metabólitos, como ácido úrico) ➔ Etiologia neuromuscular ➔ Cistite intersticial. Tratamento Na categoria I, infecção aguda e de potencial gravidade, principalmente na faixa etária mais idosa, deve-se iniciar o tratamento com antibióticos de amplo espectro, por via parenteral nos casos de maior gravidade, até que se obtenham resultados de culturas para posterior reorientação para antibióticos por via oral (VO), bem como estabilidade clínica a permiti-los. São boas opções iniciais as quinolonas disponíveis no mercado, como ciprofloxacino, ofloxacino, levofloxacino, gatifloxacino e moxifloxacino, sempre com monitoramento das doses adequadas à função renal do paciente, ou as cefalosporinas de terceira geração, como a ceftriaxona, de fácil manuseio e segurança na terceira idade. Na categoria II, pela característica recorrência da infecção bacteriana (cistites de repetição) e forte tendência à indução de resistência bacteriana, deve-se optar por esquemas prolongados de antibióticos, com espectro mais seletivo para os germes Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 detectados em cultura, principalmente enterobactérias. As fluoroquinolonas e cefalosporinas são os medicamentos de escolha. O tempo total de tratamento não se encontratotalmente padronizado, porém a maioria dos autores recomenda, no mínimo, 6 semanas de antibioticoterapia plena para pacientes já assintomáticos e 12 semanas para pacientes sintomáticos persistentes. Na categoria IIIA, a despeito de culturas de urina negativas, recomenda-se o uso de 4 a 12 semanas de antibióticos para cobrir potenciais microrganismos de difícil detecção, como (Chlamydia sp. E Mycoplasma sp.), como, por exemplo, a associação de fluoroquinolonas e tetraciclina. A associação sulfametoxazol/trimetoprima ou a nitrofurantoína podem substituir as fluoroquinolonas em situações especiais. Na categoria IIIB, não está indicado o uso de antibióticos. A combinação de alfabloqueadores e analgésicos, além da associação da amitriptilina e/ou de miorrelaxantes, tais como o baclofeno, pode ser útil. Nesses pacientes, é fundamental a percepção do médico assistente quanto a fatores psicossomáticos que influenciam a intensidade dos sintomas e o impacto na qualidade de vida do paciente. Em casos selecionados, o apoio psicoterápico ajuda no controle dos sintomas, a despeito da terapia medicamentosa. Na categoria IV, sendo os pacientes assintomáticos, estes não devem ser tratados, à exceção dos casos selecionados de infertilidade e PSA elevado, esclarecidas suas causas específicas. Hiperplasia prostática benigna A hiperplasia prostática benigna (HPB) é um dos processos mórbidos mais comuns que afetam o homem idoso. Na literatura médica, encontram-se estimativas de que 90% dos homens com 80 anos de idade ou mais apresentam evidências histológicas dessa condição, 81% têm sinais ou sintomas relacionados com a HPB, e 10% desenvolvem retenção urinária aguda. Devido à íntima relação anatômica entre próstata, uretra e colo vesical, qualquer aumento da próstata, permanente ou não, trará graus variáveis de obstrução ao fluxo urinário. Na dependência da intensidade e duração desse fenômeno, bem como das reações de adaptação encontradas nos músculos detrusores da bexiga, o paciente poderá manter-se assintomático ou apresentar situações de desconforto e gravidade variados, tais como sintomas do trato urinário baixo, antigamente denominados genericamente prostatismo, além de hematúria, litíase vesical, incontinência urinária, infecções locais, e insuficiência renal ou pós-renal. A análise epidemiológica da história natural da HPB mostra que os sintomas não são inexoravelmente progressivos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Ao fim da puberdade, a próstata apresenta de 20 a 26 g, mantendo esse peso até que se iniciem os fenômenos histopatológicos da HPB, presentes em aproximadamente 8% dos homens na quarta década de vida. Essa porcentagem se eleva para 50% entre 51 e 60 anos e 90% a partir dos 80 anos de vida. Em homens entre 31 e 50 anos de idade, o tempo de duplicação do volume da próstata é de 4,5 anos, enquanto, entre 51 e 70 anos de idade, esse valor sobe para 10 anos, evidenciando uma clara desaceleração no ritmo de crescimento normal desse órgão ao longo do envelhecimento. Esses dados demonstram que o crescimento prostático é lento nas idades mais avançadas e ainda sugerem que os sintomas decorrentes da HPB vigente não se correlacionam diretamente com as dimensões da próstata, mas, principalmente, com a disfunção dos detrusores vesicais. Ao redor dos 55 anos de idade, aproximadamente 25% dos homens percebem redução na força do jato urinário. Etiologia – A idade e a presença dos hormônios androgênios atuantes são os maiores fatores de risco para o desenvolvimento da HPB. A doença não é diagnosticada em homens até 20 anos de idade ou em homens castrados antes da puberdade. Fisiopatologia – A HPB origina-se na zona de transição da próstata. Essa zona rodeia a uretra prostática entre o colo vesical e o (veru montanum. No desencadeamento da HPB, o aumento da zona de transição é observado pela cistoscopia como uma hipertrofia dos lobos lateral ou medial. Essa hiperplasia do estroma e dos elementos glandulares se expande em direção ao lúmen uretral, favorecendo sintomas obstrutivos locais. Esses sintomas possuem três componentes diferentes: estáticos ou mecânicos, dinâmicos e de disfunção vesical ou detrusora. O componente estático diz respeito ao efeito de massa exercido pela próstata crescida, composta de nódulos adenomatosos. Os andrógenos, principalmente testosterona e di-hidrotestosterona, possuem papel fundamental nesse processo, por estimularem o crescimento acinar e do estroma fibromuscular da próstata. Essa ação se dá tanto pelo estímulo trófico, exercido pela di- hidrotestosterona nos ácinos e estroma de próstatas normais ou hiperplásicas, como pela supressão dos mecanismos de autorregulação celular, ao reduzir a morte celular programada. Esses padrões anormais de crescimento hiperplásico são mediados por anormalidades presentes no envelhecimento, nos fatores de crescimento locais (growth factors) e nos seus receptores. Os mais estudados são EGF, TGF-alfa, FGF, KGF e os IGF-1 e 2. O componente dinâmico está diretamente relacionado ao tônus dos músculos lisos da cápsula prostática e do colo vesical. Essas regiões são ricas em receptores Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 adrenérgicos alfa-1, e um aumento no tônus muscular local pode justificar alguns dos sintomas de caráter obstrutivo vistos nos homens com HPB. O terceiro componente sintomático diz respeito às reações de adaptação da bexiga frente aos dois componentes anteriores, que, mediante processos de irritabilidade e/ou instabilidade detrusora, poderão responder por sintomas chamados irritativos. Inicialmente, as reações vesicais tendem à instabilidade ou à redução da complacência vesical, frequentemente associada a sintomas de urgência e frequência. Posteriormente, ocorrem perda da capacidade contrátil do detrusor e deterioração da capacidade de esvaziamento vesical, surgindo, pois, hesitação, intermitência e aumento do volume urinário residual. A base anatômica desse processo adaptativo da bexiga se dá tanto por hipertrofia dos músculos detrusores que compõem a parede vesical como, também, por aumento do colágeno local e surgimento de trabeculações na parede vesical, vistas à cistoscopia. Diagnóstico – Pontuação Internacional de Sintomas Prostáticos (I-PSS) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 A análise desses resultados apresenta pontuações de 0 a 35, com pesos de 0 a 5 para cada uma das 7 questões levantadas. São considerados leves os sintomas com pontuações de 0 a 7, moderados, de 8 a 19, e graves, de 20 a 35. Para melhorar a compreensão do impacto desses sintomas na qualidade de vida dos pacientes analisados, a Organização Mundial da Saúde elaborou uma questão complementar ao I- PSS, enfatizando a percepção do indivíduo sobre seus sintomas e o quanto esses sintomas pioram sua qualidade de vida: “Se você permanecer o resto de sua vida com a condição urinária atual, como você se sentirá?” As respostas: “feliz, bem, em geral bem, regular, desconfortável, infeliz, terrível” recebem pontuação de 0 a 6, nessa ordem, categorizando assim pacientes que devem ser discriminados quanto à necessidade de tratamento mais agressivo, incluindo cirurgia nos casos pertinentes. Complicações da HPB – As principais complicações da HPB podem se apresentar como achados de consultas iniciais. São elas: retenção urinária, litíase vesical, infecção urinária, falência do detrusor, insuficiência renal e hematúria. A retenção urinária pode ocorrer tanto em próstatas pequenascomo grandes, geralmente desencadeada pela ingestão de medicamentos simpaticomiméticos e anticolinérgicos , como também em quadros de distensão aguda da bexiga em casos de diurese forçada, de prostatite aguda e de infarto prostático. Tratamento – O papel do tratamento para quaisquer doenças depende da magnitude dos sinais e sintomas a interferirem com a qualidade de vida do paciente, assim como da morbimortalidade inferida para aquela dada patologia ao longo da sua história natural. Na HPB, os principais objetivos dos tratamentos a serem propostos deverão ser: diminuir a obstrução uretral, aliviar sintomas e sinais (I-PSS), melhorar o esvaziamento vesical, melhorar ou reverter a instabilidade detrusora, evitar ou reverter a insuficiência renal pós-renal e evitar eventos futuros de infecção do trato urinário e retenção urinária. A despeito do conceito clássico, ainda vigente, de que a prostatectomia aberta, a ressecção transuretral da próstata (RTUP) e a incisão transuretral da próstata (ITUP) são os tratamentos de escolha para a cura dessa morbidade, com o surgimento de novas drogas, em especial os alfabloqueadores de última geração, os inibidores da 5- alfarredutase, como a finasterida e a dutasterida, além de inúmeras opções ainda pouco estudadas na área dos fitoterápicos, verifica-se no mundo uma redução significativa do número de cirurgias realizadas para HPB. Adenocarcinoma de próstata A importância do adenocarcinoma de próstata reside tanto em sua alta incidência e prevalência em nosso meio e no mundo todo quanto na sua potencialidade em ser Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 precocemente diagnosticado e tratado de forma curativa. A detecção precoce de casos de câncer da próstata tem sido mais frequente devido não só à conscientização populacional no que se refere à prevenção, mas também à eficácia dos métodos de rastreamento, em especial o toque retal, associado à dosagem sérica do PSA. Etiologia – O crescimento do câncer da próstata depende assim da perda do equilíbrio entre a proliferação e a morte celular programada geneticamente. Em condições normais, estima-se um tempo de (turnover celular de cerca de 500 dias. O surgimento de lesões precursoras do câncer, como lesões intraepiteliais (PIN), envolve aumento nos ritmos de proliferação e de morte celular, abrindo caminho para mutações genéticas, redução posterior da morte celular programada e consequente elevação da replicação celular displásica. Aproximadamente 9% de todos os cânceres prostáticos e 45% dos casos diagnosticados abaixo dos 55 anos de idade podem ser atribuídos à suscetibilidade genética, caracterizada pela presença de um alelo autossômico dominante. Um número expressivo de homens carrega, pois, uma mensagem genética, os proto-oncogenes, que levam ao surgimento de células autônomas na sua replicação neoplásica. A presença de genes protetores, os oncossupressores, evita a ocorrência indiscriminada dessas transformações cancerígenas. Essa proteção é dada principalmente pelos genes p21, p53 e Rb, que, durante o envelhecimento, tendem a perder sua eficácia funcional, favorecendo o predomínio da replicação celular desordenada, disfunções na metilação do DNA celular, inativação da glutation S transferase, com posterior elevação do aumento da oxidação intranuclear, culminando com o surgimento do câncer. Fatores de risco – os principais são: ➔ Idade – A prevalência do câncer da próstata aumenta com a idade. Após os 50 anos, tanto a incidência como a mortalidade se elevam exponencialmente. A probabilidade de se desenvolver o câncer de próstata abaixo dos 39 anos de idade é menor do que 1 em 10.000, de 1 em 103 entre 40 e 59 anos de idade, e de 1 em 8 para homens entre 60 e 79 anos de idade. ➔ História familiar – O risco de um homem desenvolver câncer de próstata relaciona-se à idade de início do câncer, bem como ao número de parentes portadores dessa neoplasia. Os pacientes portadores do câncer prostático podem ser divididos em grupos hereditários (de 5 a 10%), familiares (de 15 a 25%) e esporádicos. Os casos hereditários apresentam cerca de 3 casos em Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 parentes de primeiro grau ou em gerações prévias sequenciais. O familiar é definido pela presença de dois casos diagnosticados em família. ➔ Etnia – A incidência na raça negra é 1,5 vez superior à raça branca; as taxas de metástases e de mortalidade são também maiores naquele grupo. O câncer da próstata é ainda mais frequente em brancos norte-americanos do que em homens asiáticos residentes nos países orientais. ➔ Dieta – Fatores ambientais parecem influenciar o aumento da incidência do câncer prostático, em especial o aumento na ingestão de alimentos ricos em gorduras saturadas. Tais conclusões parecem claras ao se verificar maior prevalência dessa neoplasia em países escandinavos, comparada a países do Extremo Oriente, bem como ao se comparar a ocorrência maior em asiáticos que migraram para o Ocidente e modificaram seu padrão nutricional, passando a ingerir mais gordura animal e menos fibras vegetais. ➔ Hormônios – Conforme descrito anteriormente, a função androgênica aparentemente é trófica para a próstata, pois os andrógenos não possuem ação causal no surgimento das neoplasias malignas da próstata, porém apresentam ação promotora nos indivíduos propensos geneticamente e portadores de células malignas hormônio-dependentes. Patologia – Mais de 95% das neoplasias da próstata correspondem ao adenocarcinoma, e o restante divide-se entre sarcomas, carcinomas epidermoides e carcinoma de células transicionais. Os adenocarcinomas estão localizados principalmente na zona periférica (75%), a postergar o surgimento de sintomas, ficando a zona de transição com 25% e a zona central com 5% dos casos. É de fundamental importância, para tratamentos adequados, o estudo histológico dos adenocarcinomas da próstata; eles consistem, inclusive, em fatores prognósticos, influenciando o comportamento biológico do tumor e a sobrevida do paciente. A graduação histológica mais utilizada mundialmente é a de Gleason, que valoriza o padrão glandular e sua relação com o estroma prostático. Os tumores são assim classificados: ➔ Grau 1 – tumor que consiste em glândulas pequenas, uniformes, com alterações nucleares discretas; ➔ Grau 2 – tumor com ácinos de tamanho médio, separados por estroma, arranjados mais proximamente; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Grau 3 – tumor com grande variação no tamanho e organização glandular, infiltrando o estroma e os tecidos vizinhos; ➔ Grau 4 – tumor que mostra grande atipia celular e extensa infiltração; ➔ Grau 5 – tumor caracterizado por camadas de células indiferenciadas. Estadiamento TNM Whitmore-Jewett Descrição TX Tumor não localizável T0 Sem evidência de tumor T1 A Tumor não palpável/visível T1a A1 Tumor encontrado em RTU (ressecção transuretral), 5% do tecido T1b A2 Tumor encontrado em RTU (ressecção transuretral), 5% do tecido T1c Tumor diagnosticado por elevação do PSA T2 B Tumor palpável, confinado à próstata T2a B1 Tumor envolve menos de meio lobo prostático T2b B1 Tumor envolve mais de meio lobo prostático T2c B2 Tumor envolve ambos os lobos prostáticos T3 C1 Tumor envolve cápsula prostática e vesículas seminais T3a C1 Tumor envolve cápsula prostática unilateralmente T3b C1 Tumor envolve cápsula prostática bilateralmente T3c C1 Tumor envolve vesículas seminais T4 C2 Tumor envolve estruturas adjacentes T4a C2 Tumor envolve colo vesical/reto/esfíncterexterno T4b C2 Tumor envolve elevadores/tumor fixo à parede pélvica D0 Elevação da fosfatase ácida prostática N1 D1 Tumor em gânglios regionais NX Linfonodos não avaliados N0 Linfonodos não acometidos N1 D1 1 gânglio maior que 2 cm N2 D1 1 gânglio maior que 2 cm e maior 5 cm ou vários menores que 5 cm N3 D1 1 ou mais gânglios maiores que 5 cm M1 D2 Metástases a distância M0 Ausência de metástases M1a D2 Metástases em gânglios não regionais M1b D2 Metástases ósseas Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 M1c D2 Metástases para outros órgãos D3 Doença hormônio-independente Diagnóstico – É fundamental o diagnóstico precoce. São, pois, importantes os programas de detecção do câncer prostático em populações gerais e, em especial, em indivíduos de maior risco, como familiares de portadores do câncer e negros. A detecção do câncer depende, assim, de exame digital (toque retal), dosagem sérica do PSA e ultrassonografia transretal. Outros recursos poderão ser utilizados como complementos para o estadiamento correto da lesão. Tratamento – Para definir o melhor tratamento do câncer de próstata, é necessário individualizar cada caso. Os fatores a serem analisados são a extensão da doença, o estado geral do paciente e a sua perspectiva de sobrevida por outras comorbidades, bem como o grau histológico do tumor. Em regras gerais, os tumores localizados dentro da próstata (T1 e T2) deverão ser tratados com prostatectomia ou radioterapia, havendo perspectivas de sobrevida de, no mínimo, 10 anos, ao se considerar o estado geral do paciente e doenças associadas. Na hipótese de pacientes com reduzida perspectiva de sobrevida, tais tumores podem até não ser tratados de forma invasiva, devendo-se considerar nesses casos condutas expectantes sob monitoramento clínico. Na doença tumoral regional transpondo a cápsula prostática (T3), será de boa norma indicar tratamento radioterápico associado à hormonoterapia antiandrogênica. Nos tumores avançados, atingindo outros órgãos (T3, N1, M1), a doença deverá ser abordada com castração ou terapia antiandrogênica. Ao contrário, as neoplasias mais indiferenciadas (8 a 10), por serem muito agressivas, deverão ser tratadas enfaticamente, podendo, nos casos refratários, carecer de tratamentos combinados, como cirurgia ou radioterapia associadas à terapia hormonal. Cabe ao geriatra consciencioso avaliar criteriosamente a relação entre custo e risco/benefício na indicação de tratamentos mais agressivos, tais como cirurgia radical e/ou radioterapia, nas situações já referidas de pacientes muito idosos ou com qualidade de vida precária determinada por patologias limitantes graves, como sequelas de acidentes vasculares cerebrais, insuficiência cardiovascular, insuficiência cerebrovascular, demências avançadas, em especial nos pacientes acamados cronicamente. Incontinência urinária A contração da bexiga resulta da ativação de neurônios parassimpáticos localizados no segmento medular S2-S4, de onde impulsos eferentes seguem pelos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 nervos pélvico e hipogástrico até o músculo detrusor. Esse mecanismo é mediado pela estimulação de receptores muscarínicos (colinérgicos) aí localizados. A inervação simpática da bexiga origina-se do segmento medular T11-L2, de onde fibras eferentes cruzam a cadeia simpática paravertebral nos níveis T12, L1 e L2, e prosseguem pelos nervos esplâncnicos lombares até o plexo hipogástrico. Neste local, fazem sinapses com neurônios pós-ganglionares e daí se dirigem para inervar a região do corpo vesical, do trígono, do esfíncter interno até os meatos uretrais. A resposta do trato urinário inferior ao estímulo simpático depende da distribuição dos receptores adrenérgicos nessa região. No corpo vesical, onde os receptores beta-2 são abundantes, a excitação do simpático provoca relaxamento. Na base, onde predominam os receptores alfa-1, provoca a contração do colo vesical e da uretra. A inervação somática para o esfíncter externo (rabdoesfíncter) e para os músculos do soalho pélvico é fornecida pelo nervo pudendo, cujas fibras se originam nos neurônios motores no núcleo de Onuf, localizado na coluna anterior da medula sacral (S2-S4). O processo de armazenamento e eliminação da urina envolve funções opostas entre a uretra e a bexiga. Durante a fase de armazenamento, o impulso simpático alfa- adrenérgico mantém o tônus da região esfincteriana elevado, enquanto o impulso beta mantém o detrusor relaxado; simultaneamente, a inervação somática mantém os músculos do soalho pélvico e o esfíncter externo contraídos, enquanto o parassimpático permanece inibido. Quando o volume vesical alcança de 150 a 300 ml, o mecanismo se inverte: o simpático é inibido, enquanto o parassimpático é estimulado, provocando contração do detrusor e expulsão da urina. Todo esse processo funciona sob a coordenação dos centros encefálicos, como foi descrito anteriormente. Impacto de envelhecimento sobre a micção – O envelhecimento por si só não é causa de incontinência, mas induz algumas mudanças funcionais e estruturais no trato urinário inferior que tornam o idoso suscetível ao problema: ➔ Na bexiga ➢ Hiperatividade e redução da contratilidade do detrusor ➢ Aumento do volume residual ➢ Redução da capacidade ➔ Na uretra ➢ Redução da pressão de fechamento uretral ➔ Na próstata ➢ Aumento do volume (hiperplasia benigna e câncer) ➔ Aumento da produção noturna de urina Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Redução da produção de estrógeno na mulher ➔ Aumento da incidência de infecções recorrentes Classificação Incontinência transitória ou reversível – é caracterizada pela perda involuntária de urina na ausência de disfunção do trato urinário inferior. É provocada por eventos clínicos agudos, potencialmente reversíveis. Esse tipo de incontinência tem sido referido como “incontinência relacionada a situações potencialmente reversíveis”. Incontinência estabelecida – A incontinência estabelecida refere-se à variedade não causada por comorbidades clínicas ou efeito colateral de medicamentos, que persiste ao longo do tempo. Relaciona-se aos seguintes mecanismos fisiopatológicos: hiperatividade ou hipoatividade do detrusor, alteração da pressão uretral, obstrução da saída vesical e distúrbios funcionais. A incontinência estabelecida é classificada, de acordo com a sintomatologia clínica, em: urgência, esforço, transbordamento (hiperfluxo) funcional e mista. Tratamento Incontinência transitória ou reversível – As estratégias para o tratamento da incontinência urinária transitória visam reconhecer e tratar as causas reversíveis, reduzir as doses e/ou suspender medicamentos envolvidos, recuperar a mobilidade e providenciar modificações ambientais que facilitem o acesso do indivíduo ao toalete. Incontinência estabelecida – O tratamento da incontinência estabelecida inclui medidas não farmacológicas, farmacológicas e cirúrgicas. As medidas não farmacológicas envolvem mudanças no estilo de vida, terapias do comportamento, dispositivos mecânicos e elétricos e exercícios para os músculos do soalho pélvico. As medidas farmacológicas se baseiam na utilização de fármacos anticolinérgicos, de relaxantes da parede vesical, de agonistas e de antagonistas alfa-adrenérgicos. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Doença de Alzheimer (DA) A DA passou a ser considerada uma doença neurodegenerativa progressiva, heterogênea nos seus aspectos etiológico, clínico e neuropatológico. A DA faz parte do grupo das mais importantes doenças comunsaos idosos que acarretam declínio funcional progressivo e perda gradual da autonomia, que, por decorrência, ocasionam, nos indivíduos por elas afetados, uma dependência total de outras pessoas. Na DA, esse processo se evidencia a partir da deterioração das funções cognitivas, do comprometimento para desempenhar atividades de vida diária e da ocorrência de uma variedade de distúrbios de comportamento e de sintomas neuropsiquiátricos. A DA é reconhecida, a exemplo de outras demências, como um importante problema de saúde pública em todo o mundo. Como agravante, as falhas no diagnóstico e na detecção precoce da DA ocorrem na maioria dos casos. Por vezes, pacientes e seus familiares atribuem os sintomas iniciais da demência ao processo de envelhecimento. É fato que a DA e o envelhecimento não são sinônimos. Alterações cognitivas leves podem ser encontradas no envelhecimento normal, como, por exemplo, lentidão do processamento das informações; não são, no entanto, progressivas nem incapacitantes. Embora o conceito de que as demências ocorram de forma inevitável com o envelhecimento esteja ultrapassado, as dificuldades para o seu diagnóstico persistem, particularmente na fase inicial do processo, quando, não raro, o paciente está alheio aos seus déficits cognitivos ou tenta minimizá-los e disfarçá-los para não serem notados. Apesar disso, é notória a negligência da avaliação rotineira da função cognitiva como exame compulsório durante as consultas médicas. Desse modo, é premente ressaltar a necessidade de conscientização de todos os profissionais da área de saúde que lidam com idosos, mesmo que não especialistas, para que estejam sempre alerta ao reconhecimento dos sintomas de demência, até mesmo em pacientes que procuram tratamento por outros motivos aparentemente não relacionados com a deterioração cognitiva. Epidemiologia A incidência e a prevalência das demências aumentam exponencialmente com a idade, dobrando, aproximadamente, a cada 5 anos, a partir dos 60 anos de idade. De acordo com metanálise de nove estudos, a prevalência das demências nas diferentes faixas etárias é a seguinte: 1,53% (65 a 69 anos); 3,54% (70 a 74 anos); 6,8% (75 a 79 anos); 13,57% (80 a 84 anos); 22,26% (85 a 89 anos); e 31,48% (90 a 94 anos). Na DA, observa-se a tendência a aumento de prevalência e de incidência com o avançar da idade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 observada nas demências em geral, embora também seja mais frequente a sua associação progressiva com doença cerebrovascular. Neuropatologia Os principais achados neuropatológicos encontrados na DA são a perda neuronal e a degeneração sináptica intensas, com acúmulo e deposição no córtex cerebral de duas lesões principais: placas senis ou neuríticas (PS) e emaranhados neurofibrilares (ENF). As PS são lesões extracelulares formadas de (débris e restos celulares com um núcleo central proteico sólido constituído pelo peptídio b-amiloide (Ab). O peptídio Ab é originado a partir da clivagem proteolítica de uma proteína precursora maior, a proteína precursora de amiloide (APP). A APP é, em geral, secretada a partir das células cerebrais no espaço extracelular supostamente responsável por importantes funções fisiológicas ainda pouco conhecidas. Em situações fisiológicas, a APP é clivada pela ação da enzima alfassecretase (a- secretase), entre os resíduos de lisina 681 e leucina 682 na extensão da sequência Ab excluindo-se, dessa forma, a possibilidade de formação de Ab intacto. A APP é então transformada em fragmentos menores sem ação tóxica para o sistema nervoso central. Na DA, ocorre uma liberação do peptídio Ab da APP a partir de outras vias de processamento alternativas e anormais envolvendo a ação consecutiva das atividades das enzimas betassecretase (b-secretase) e gama-secretase (g-secretase), por meio de um processo denominado endoproteólise. A divisão decorre de uma sequência complexa de eventos envolvendo a atividade das enzimas b e g-secretases sem que ocorra a ação da enzima a secretase. A sequência bioquímica do peptídio Ab nos depósitos de amiloide da DA e em modelos celulares evidenciam várias formas diferentes de Ab que variam essencialmente em comprimento. A maioria dos peptídios Ab em sistemas celulares terminam no aminoácido 40 e são denominados Ab40. Uma fração menor de Ab é ligeiramente mais longa, resultando de divisões em diferentes pontos quando o Ab é clivado. A maioria desses peptídios mais longos termina no aminoácido 42, denominado Ab42. O Ab42 apresenta maior tendência para a formação de fibrilas e agregados insolúveis do que o Ab40. Além dos peptídios Ab40 e Ab42 e das fibrilas amiloides, evidencia-se na DA a presença de peptídios menores, que são fragmentos dos peptídios de 40/42 aminoácidos, partidos mais próximos do terminal amino ou carboxila. Esses peptídios denominados oligômeros são pequenos agregados solúveis, sem alterações estruturais definidas, que se encontram como trímeros, hexâmeros, nonâmeros, duodecâmeros. Os oligômeros Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 solúveis apresentam efeitos deletérios sobre o neurônio e sobre as sinapses (afetam a potenciação a longo prazo) e estão presentes bem antes do desenvolvimento das placas em animais transgênicos, constituindo mais de 60% dos depósitos de amiloides presentes nas fases iniciais da DA. Suas concentrações correlacionam-se com o comprometimento cognitivo. Os ENF são inclusões intraneurais compostas de bandas de elementos citoesqueléticos anormais medindo 20 nm de diâmetro com constrições regulares a cada 80 nm, denominados filamentos helicoidais pareados insolúveis (PHF). O componente principal é a proteína tau em sua forma hiperfosforilada. Em condições fisiológicas, essa proteína fornece estabilidade ao sistema de microtúbulos no interior dos neurônios, responsável pelo transporte de substâncias do corpo celular para a terminação sináptica. Os microtúbulos são formados por duas proteínas (a e b-tubulinas), que se mantêm estáveis por meio das pontes de proteína tau presentes nas células. Na DA, por motivos ainda desconhecidos, ocorre um processo de fosforilação anormal que, por consequência, leva à instabilidade das tubulinas, ocasionando edema e distrofia dos microtúbulos e, por fim, a morte neuronal. Embora as PS e os ENF possam ser encontrados no envelhecimento normal sem demência e a sua presença isolada não seja suficiente para o diagnóstico, a densidade de ambos é muito mais alta em pacientes com a DA do que seria de esperar em pessoas da mesma idade com função cognitiva preservada. Isso pode ser comprovado em áreas típicas e proeminentes de distribuição da degeneração cerebral da DA, relacionadas com a perda de memória de curta duração e com o aprendizado. Entre elas, incluem-se as estruturas límbicas mediotemporais, particularmente o hipocampo e o córtex entorrinal, as áreas temporais posteroinferiores adjacentes aos lobos parietoccipitais e o giro posterior do cíngulo. De com a disseminação dessas alterações patológicas, vários critérios foram propostos para o diagnóstico neuropatológico da DA, baseados em estágios de progressão dos ENF do córtex transentorrinal e límbico para o neocórtex (estágios de Braak e Braak), na gravidade das PS e, mais recentemente, relacionando o número de PS encontradas e os ajustando por faixas etárias distintas, de forma semiquantitativa (ver diagnóstico). Existe um consenso cumulativo de que a produção e o acúmulo do peptídio Ab tenham papel central na patogênese da DA. Entre as evidências listadas por Cummings (2004),estão incluídas: mutações da APP causam a forma familial de início precoce da DA; todas as mutações atualmente conhecidas aumentam a produção de Ab; indivíduos portadores de síndrome de Down com trissomia do cromossomo 21 com três cópias do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 APP apresentam características neuropatológicas da DA, a qual se desenvolve na meia idade; neurotoxicidade de Ab (in vitro leva à morte celular; expressão aumentada de APP em modelos de camundongos transgênicos resulta em PS similares àquelas encontradas em humanos com a DA; camundongos transgênicos com expressão aumentada de APP apresentam evidências de déficits de memória e aprendizado em consonância com o volume de acúmulo de Ab, genótipo ApoE 4 relaciona-se com uma aceleração do depósito de amiloide, a geração de anticorpos antiamiloide em humanos com a DA abrandam o processo de evolução da doença. De acordo com essa hipótese, conhecida como a cascata de amiloide, outros fenômenos secundários ocorrem como consequência da geração e deposição de Ab, tais como: a formação de ENF; o processo oxidativo e de peroxidação lipídica; a excitotoxicidade glutamatérgica; a inflamação e a ativação da cascata de morte celular por apoptose; e o déficit colinérgico. É importante salientar a presença de disfunção e de morte celulares que ocorrem em grupos nucleares de neurônios responsáveis pela manutenção de sistemas específicos de transmissão. Essa perda neuronal leva à depleção progressiva de norepinefrina, de serotonina e, sobretudo de acetilcolina. As perdas neuronais são particularmente expressivas nas vias colinérgicas que partem de grupos nucleares subcorticais, dos núcleos prosencefálicos basais (núcleo basal de Meynert – NBM, núcleo da banda diagonal de Broca e núcleo septal medial) em direção à formação hipocampal e, após atingirem progressivamente regiões temporais mesiais, dirigem-se a áreas corticais associativas temporoparietais e frontais. Etiologia Multifatorial: fatores de genéticos e ambientais ➔ Fatores de risco não modificáveis: ➢ Gênero feminino, após 80 anos (sobrevida mais longa) ➢ Idade: aumento progressivo da prevalência a partir dos 60 anos idade ➢ Síndrome de Down ➔ História familiar positiva ➢ Aumento de 3,5 vezes de risco com parente de primeiro grau ➢ Mutações do gene da APP (cromossomo 21), gene da presenilina 1 (cromossomo 14) e gene da presenilina 2 (cromossomo 1) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Presença de gene de suscetibiliade (genótipo Apo E4) ➢ DA de início tardio ➢ Presença do genótipo E4/E4 – aumenta risco de DA em 15 vezes ➢ Genótipo E3/E4 – aumenta risco de DA em 3 vezes ➔ Fatores de risco modificáveis ➢ Baixo nível educacional e socioeconômico ➢ Hipercolesterolemeia e HAS na meia idade ➢ Hiper-homocisteinemia ➢ DM ➢ Tabagismo ➢ Sedentarismo ➢ Trauma cognitivo ➢ Trauma craniano ➢ Doenças neuropsiquiátricas ➔ Fatores de proteção ➢ Gênero masculino ➢ Nível educacional elevado ➢ Vida ativa com estimulação cognitiva constante ➢ Atividades sociais e de lazer ➢ Atividade física regular ➢ Dieta rica em antioxidantes e vitaminas (E, C, B6, B12 e folato) ➢ Ausência de traumas cranianos ➢ Presença do alelo E2 ➢ Baixos níveis de colesterol ➢ Consumo moderado de álcool (vinho tinto) ➢ Medicamentos: estatinas, anti-hipertensivos, reposição estrogÊnica, AINH, antioxidantes, agonistas dos receptores histamínicos H2 ➢ Ausência de doenças neuropsiquiátricas Quadro clínico Os idosos (ou seus familiares) constantemente se queixam, na avaliação médica, de piora do desempenho cognitivo com o envelhecimento. Os profissionais de saúde devem estar atentos, em todas as oportunidades, para identificar e avaliar a importância relativa das queixas ou dos sintomas detectados e, dessa forma, possibilitar a Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 determinação do estado de acuidade mental atual do paciente, sempre considerando as variações individuais influenciadas, sobretudo, pela idade e pelo grau de escolaridade. Evidências de esquecimento aparente (p. ex., pacientes demasiadamente repetitivos durante a conversação, inobservantes quanto à marcação de consultas e frequentemente confusos quanto ao uso correto da medicação) e alterações psicológicas, de personalidade e no cuidado pessoal adequado podem ser as primeiras pistas para a detecção da deterioração cognitiva. A DA se inicia, frequentemente, após os 60 anos de idade, apesar de raros casos descritos em pessoas com até 30 anos de idade. De forma simplificada, a sintomatologia da doença pode ser descrita utilizando-se um modelo de três estágios de Cummings & Benson. A dificuldade de precisar a data de início da doença é notória. A piora progressiva dos sintomas ocorre de forma gradual e contínua, em geral, em um período de 8 a 12 anos. Existe, todavia, grande variabilidade na velocidade de progressão da doença, desde períodos muito curtos (2 anos) a períodos muito longos (25 anos). Os fatores que afetam a sobrevida são: idade, gênero e gravidade da demência. A fase inicial dura, em média, de 2 a 3 anos e é caracterizada por sintomas vagos e difusos, que se desenvolvem insidiosamente. O comprometimento da memória é, em geral, o sintoma mais proeminente e precoce, principalmente de memória declarativa episódica. Os déficits de memória de evocação nas fases iniciais dizem respeito principalmente à dificuldade para recordar datas, compromissos, nomes familiares e fatos recentes, e podem vir acompanhadas de incapacidade para reconhecer o estado de doença ou de falta de consciência do déficit cognitivo (anosognosia). Alguns indivíduos apresentam alterações de linguagem precocemente, tais como dificuldade para encontrar palavras. Existem dificuldades frequentes no trabalho, para lidar com situações complexas e para o aprendizado de fatos novos. Em geral, perdem objetos pessoais, tais como chaves e carteiras, e se esquecem dos alimentos em preparo no fogão. Há desorientação progressiva com respeito ao tempo e ao espaço. Os problemas espaciais e de percepção podem se manifestar por dificuldades de reconhecer faces e de se deslocar em trajetos familiares. A fase intermediária, cuja duração varia entre 2 e 10 anos, é caracterizada por deterioração mais acentuada dos déficits de memória e pelo aparecimento de sintomas focais, que incluem afasia, apraxia, agnosia, alterações visuoespaciais e visuoconstrutivas. Os distúrbios de linguagem, inicialmente caracterizados pela dificuldade de nomeação, progridem com dificuldades de acesso léxico, empobrecimento do vocabulário, parafasias semânticas e fonêmicas, perseverações, circunlóquios, perda Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 de conteúdo e dificuldade de compreensão. A apraxia é, sobretudo, ideatória e ideomotora. Com o progredir do declínio cognitivo, a capacidade de aprendizado fica seriamente alterada, e a memória remota é também comprometida. O julgamento torna-se alterado, estando o paciente, com frequência, alheio aos seus déficits, tornando-se notórias as dificuldades para a realização de tarefas complexas. A capacidade para realizar cálculos, fazer abstrações, resolver problemas, organizar, planejar e realizar tarefas em etapas (funcionamento executivo) torna-se seriamente afetada. Deve-se enfatizar, no entanto, que a perícia para o desempenho de funções específicas depende não somente dos déficits eventualmente presentes, como também das habilidadesprévias, do estímulo e do ambiente social. Assim sendo, é essencial avaliar a gravidade dos déficits em vista do contexto e da função prévia dos vários domínios. Todos esses déficits contribuem para a perda das habilidades para realizar tarefas da vida diária, ocasionando não apenas um declínio cognitivo, mas também funcional. A perda funcional é hierárquica: a dificuldade para executar atividades instrumentais (p. ex., lidar com finanças, cozinhar, usar transporte público) precede a dificuldade para executar tarefas básicas (p. ex., vestir-se, alimentar-se, banhar-se). Nessa fase também podem ocorrer sintomas motores extrapiramidais, com a alteração da postura e da marcha, o aumento do tônus muscular e outros sinais de parkinsonismo que poderão agravar o declínio funcional. Os sintomas neuropsiquiátricos não cognitivos são conhecidos como sintomas psicológicos e de comportamento das demências, também definidos pela sigla BPSD (behavioral and psychological symptoms of dementia). Dentre eles, a agitação, a perambulação, a agressividade, os questionamentos repetidos, as reações catastróficas, os distúrbios do sono e a “síndrome do entardecer” são alguns exemplos comuns de alterações do comportamento que estão presentes mais comumente de forma variável a partir dessa fase da doença, podendo o convívio social ainda estar relativamente preservado. São distúrbios, às vezes, graves, mas que, em geral, ocasionam maior estresse ao grupo familiar e aos cuidadores do que ao próprio paciente, o qual se apresenta com perdas cognitivas mais graves na maioria dos casos. Os sintomas “psicológicos”, tais como apatia, ansiedade, depressão, ideias delirantes, alucinações, sobretudo as visuais, erros de identificação (p. ex., considerando pessoas familiares desconhecidas e vice-versa), ideias paranoides, principalmente persecutórias (p. ex., acreditar que foi roubado), também são frequentes. Embora conhecidos como BPSD, os sintomas neuropsiquiátricos devem ser distinguidos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 isoladamente ou em grupamentos, tendo em vista as apresentações clínicas e neuropatológicas distintas dos mesmos. Na fase avançada das demências, com duração média de 8 a 12 anos, e no estágio terminal, todas as funções cognitivas estão gravemente comprometidas, havendo, até mesmo, dificuldades para reconhecer faces e espaços familiares. Devido à perda total da capacidade para realizar atividades da vida diária, os pacientes tornam-se totalmente dependentes. As alterações de linguagem agravam-se progressivamente, ficando evidentes as dificuldades para falar sentenças completas e compreender comandos simples. Quando há redução drástica da fluência, os pacientes passam a comunicar-se somente por meio de ecolalias, vocalizações inarticuladas, sons incompreensíveis e jargões semânticos, até alcançarem o mutismo. Ficam acamados, com incontinência urinária e fecal. A morte sobrevém, em geral, como complicação da síndrome de imobilismo em decorrência de septicemia causada por pneumonia, infecção urinária e úlceras de decúbito. Diagnóstico Na fase avançada das demências, com duração média de 8 a 12 anos, e no estágio terminal, todas as funções cognitivas estão gravemente comprometidas, havendo, até mesmo, dificuldades para reconhecer faces e espaços familiares. Devido à perda total da capacidade para realizar atividades da vida diária, os pacientes tornam-se totalmente dependentes. As alterações de linguagem agravam-se progressivamente, ficando evidentes as dificuldades para falar sentenças completas e compreender comandos simples. Quando há redução drástica da fluência, os pacientes passam a comunicar-se somente por meio de ecolalias, vocalizações inarticuladas, sons incompreensíveis e jargões semânticos, até alcançarem o mutismo. Ficam acamados, com incontinência urinária e fecal. A morte sobrevém, em geral, como complicação da síndrome de imobilismo em decorrência de septicemia causada por pneumonia, infecção urinária e úlceras de decúbito. Demência pode ser definida como uma síndrome caracterizada pelo comprometimento de múltiplas funções corticais superiores. Nos déficits cognitivos, incluem-se os da memória, do pensamento, da orientação, da compreensão, da linguagem, do cálculo, da capacidade de aprendizagem, do pensamento abstrato e do julgamento. A deterioração não é necessariamente difusa nem global, e, com frequência, múltiplos domínios cognitivos são afetados enquanto outros mantêm-se preservados. O comprometimento dessas funções é acompanhado e até antecedido por alteações psicológicas, do comportamento e da personalidade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Para o diagnóstico de demência, é essencial que os déficits causem significativo comprometimento nas atividades profissionais, ocupacionais e sociais do indivíduo e representem declínio significativo com relação aos níveis prévios de funcionamento, na ausência de alterações de consciência. Nessa definição estão excluídos os déficits intelectuais preexistentes (p. ex., retardamento mental), o (delirium e as condições que possam impedir uma avaliação clínica adequada (p. ex., afasia grave, déficits sensoriais). A deterioração na execução de atividades da vida diária (AVD) deve resultar de déficits cognitivos, e não de disfunção física (p. ex., hemiparesia após acidente vascular cerebral).Alterações no desempenho de papéis, tais como uma diminuição na capacidade de manter ou encontrar um emprego, não devem ser usadas como critérios de demência devido às grandes diferenças culturais que existem sobre aquilo que é apropriado e, também, porque pode haver frequentes alterações externamente impostas na disponibilidade de trabalho dentro de uma cultura em particular. Condições, tais como ideias delirantes, alucinações, apatia e/ou depressão, são comuns nas demências; portanto, a presença delas não é considerada como fatores excludentes. Para o diagnóstico diferencial, é importante considerarmos várias outras condições que podem apresentar-se, de início, com quadro clínico semelhante às demências, nas quais se incluem as desordens amnésicas, o retardamento mental, as desordens fictícias, o estado confusional agudo (delirium), as desordens psiquiátricas funcionais (depressão maior, esquizofrenia), o comprometimento cognitivo leve, o declínio cognitivo associado ao envelhecimento. Nessa relação, merecem destaque o (delirium e a depressão. O (delirium é uma síndrome adquirida, com redução do estado de alerta, de percepção e da habilidade de manter e de desviar a atenção de forma apropriada. Como as demências, o (delirium é caracterizado por comprometimento cognitivo global. Seu início, entretanto, é súbito, e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 seu curso apresenta flutuações marcantes do déficit cognitivo ao longo do dia, com alternância do estado de consciência e de atenção e de alterações do ciclo do sono. Alucinações visuais e ideias delirantes são comuns. Condições médicas, como infecções, condições tóxicas e metabólicas, são causas típicas do (delirium. A demência e o (delirium frequentemente coexistem particularmente em pacientes internados, e a demência é um fator de risco para o (delirium. Na depressão, podem estar presentes, sobretudo em pessoas idosas, queixas de déficit de memória, perda de concentração e de atenção e de redução na capacidade intelectual além de fadiga, perda de energia, alterações psicomotoras (agitação ouretardo psicomotor), do sono e do apetite. O diagnóstico diferencial entre a demência e a depressão pode ser difícil visto que muitos desses sintomas podem ser comuns às duas doenças, sem contar que elas podem coexistir. Pacientes com a DA podem apresentar sintomas depressivos previamente ao início da doença ou nas diversas fases evolutivas dela. Uma prova terapêutica com o uso de antidepressivos pode ser necessária para melhor esclarecimento do diagnóstico. No comprometimento cognitivo leve (CCL), os déficits cognitivos de uma ou mais áreas cognitivas são mínimos, não progressivos e, principalmente, não ocasionam incapacidades funcionais significativas como nas demências. Trata-se, evidentemente, de uma condição heterogênea que representa um desafio para o diagnóstico. A forma mais apropriada para a detecção de casos é por meio da avaliação com testes cognitivos. Considerando-se que a queixa de memória isolada pode significar um estágio precoce da DA que pode durar de 4 a 6 anos, é fundamental fazer o Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 seguimento dos pacientes com o CCL para estabelecer quais evoluirão para um quadro demencial. Diagnóstico diferencial As demências vasculares (DVa) compreendem várias síndromes típicas em que as demências estão associadas às doenças cerebrovasculares. Elas se caracterizam, em geral, por início abrupto, declínio por etapas, disfunção executiva, distúrbios de marcha e labilidade emocional, com evidências clínicas e de neuroimagem de doença cerebrovascular. Uma correlação temporal entre o insulto vascular e as alterações cognitivas deve ser aventada. Pacientes com DVa mostram, por meio da história clínica, exame neurológico e de neuroimagem, achados compatíveis com alterações cerebrais isquêmicas. Nos casos típicos, é fácil fazer a diferenciação. As dificuldades para o diagnóstico ocorrem, sobretudo, quando DVa e DA coexistem. Esses casos de patologia mista podem ocorrer de acordo com um amplo espectro de apresentação, tornando difícil a distinção clara entre as duas condições, ou mesmo a definição da relevância de cada uma delas, individualmente, para a instalação do quadro demencial (ver Capítulo 17, Comprometimento Cognitivo Vascular e Demência Vascular). As demências frontotemporais (DFT) são caracterizadas pelo início insidioso e pela progressão lenta de distúrbios de personalidade e de conduta social, exibindo, na avaliação neuropsicológica, um quadro clínico sugestivo de “desordem do lobo frontal”. As alterações pronunciadas e precoces de linguagem e de dificuldades para a execução das atividades da vida diária, as mudanças de personalidade, bem como a relativa preservação da memória, orientação espacial e práxis são algumas das características que se destacam para a sua diferenciação em relação à DA (ver Capítulo 13, Diagnóstico Diferencial das Demências). Processo de investigação Em princípio, quanto menores forem a duração dos sintomas e a gravidade dos déficits, melhores serão as condições de planejamento do tratamento da DA e maiores as chances de detecção de fatores agravantes, de intervenções precoces e de prevenção de complicações. Além disso, o expressivo número de outras condições potencialmente responsáveis pelas demências a serem excluídas reforça a necessidade de uma inevitável avaliação inicial detalhada e abrangente de cada paciente com queixas cognitivas. Embora seja considerado um diagnóstico de exclusão, uma história clínica detalhada, a confirmação por parte dos familiares mais próximos e a avaliação do estado Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 mental podem alcançar uma precisão de diagnóstico de até 90% dos casos da DA, aproximadamente. Apesar disso, é consenso que uma investigação propedêutica deva ser realizada rotineiramente para auxiliar no esclarecimento do diagnóstico. A avaliação médica inclui a anamnese pormenorizada, com o histórico e a descrição das múltiplas alterações cognitivas e comportamentais, a investigação das habilidades para realização das atividades da vida diária e de atividades instrumentais, além dos exames físico e neurológico e das avaliações dos estados mental, funcional e psicossocial. História – É importante inquirir sobre a relação dos medicamentos em uso, prescritos ou não, condições clínicas associadas – “comorbidades” –, hábitos dietéticos, história de alcoolismo e intoxicações, doenças sistêmicas e neurológicas prévias. A história familial positiva para demências e a presença dos fatores de risco para doença cerebrovascular devem também ser exploradas. A cronologia dos fatos há de ser considerada, pois o ritmo de progressão do declínio cognitivo e a presença de determinadas alterações não cognitivas podem ser elucidativos para o diagnóstico. Exames físico e neurológico – As alterações encontradas nos exames físico e neurológico são frequentemente insuficientes para o diagnóstico da DA. Por isso, é fundamental correlacionar essas alterações com os dados clínicos e exames complementares. Pacientes idosos, principalmente com deficiências cognitivas, podem recusar-se a cooperar com o exame físico por considerá-lo uma intrusão. A condução do exame, portanto, deve ser hábil e cuidadosa, evitando-se contatos prematuros. Avaliação do estado mental – o Miniexame do estado mental (MEEM) é um dos métodos de triagem mais utilizados em todo o mundo. Em média, tem uma sensibilidade de 83% e uma especificidade de 82% para a detecção de demência. Como vantagens, incluem-se a facilidade e o tempo curto para aplicação, a concisão e a baixa variabilidade entre examinadores. Entre as limitações do MEEM, incluem-se: a baixa sensibilidade para a detecção de comprometimento cognitivo leve, as falhas para a distinção entre os indivíduos normais e aqueles com demência leve e as limitações para a avaliação do declínio cognitivo em fases avançadas de demências. Além disso, o seu uso é limitado em pessoas com afasia, baixas acuidades visual e auditiva e distúrbios motores. A escolaridade e a cultura são outros fatores limitantes comumente observados. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Exames complementares Marcadores biológicos A dosagem de proteínas no liquor (LCR) é um método promissor para o diagnóstico precoce da DA (fase predemencial da doença). Concentrações baixas de Ab 1-42, concentrações altas de proteína tau total ou tau fosforilidada (p-tau 181P), ou combinações das três são consideradas, de acordo com alguns autores, como preditivas da identificação dos indivíduos com CCL que evoluíram com a DA e também da identificação da DA incipiente (Dubois (et al., 2007). O emprego desses métodos, entretanto, ainda é relativamente restrito a centros de pesquisa, e os valores de referência ainda são incertos. Tratamento ➔ Tratamento farmacológico sintomático ➢ Anticolinesterásicos ➢ Antagonistas dos receptores NDMAR (receptor NMDA – NMDAR – é um receptor ionotrópico ativado pelo ácido glutâmico (glutamato)/Aspartato e seu agonista exógeno NMDA. O NMDAR pode ser considerado o principal receptor do sistema glutamatérgico, uma vez que ele tem papel de destaque na mediação de importantes funções dessa neurotransmissão, tais como: cognição, memória, plasticidade neural e neurotoxicidade) ➔ Tratamento dos sintomas neuropsiquiátricos Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Depressão e Demências São as doenças mais prevalentes na geriatria, frequentemente associadas e umapode simular a outra e resulta em dificuldades diagnósticas. Depressão Pode apresentar com déficits cognitivos (maioria leves), podem ser graves a ponto de simular um quadro demencial (pseudodemencia). Podem ser tratados com remédios p/ depressão e se não houver melhora do quadro significa que o primeiro sintoma do quadro demencial é a depressão. Aproximadamente 25% dos quadros demenciais na fase inicial são diagnosticados com depressão e 30% não são reconhecidos. As dificuldades são a coexistência de sintomas similares como retardo psicomotor, insônia, perda do interesse e do prazer, e insight. Idoso deprimido queixa-se de alteração cognitiva, corroborada por testes específicos p/ avaliação da memória. Esses idosos apresentam pior performance nos testes de atenção e funções cognitivas do q no de memória episódica (permanece). Pacientes idosos com deficit cognitivo e depressão são + propensos a desenvolver demência. Os subtipos de depressão mais comuns em idosos são: ➔ Depressão vascular: caracterizada por redução do interesse, retardo psicomotor, prejuízo na percepção e pouca agitação ou sentimento de culpa, além de uma possível piora na incapacidade. Dentre os sintomas cognitivos mais presentes, estão o déficit de fluência verbal e a anomia. Deve ser suspeitada quando o primeiro episódio ocorre em idade mais avançada (mais de 85 anos) e não tem relação com história de doença familiar. ➔ Depressão vascular: caracterizada por redução do interesse, retardo psicomotor, prejuízo na percepção e pouca agitação ou sentimento de culpa, além de uma possível piora na incapacidade. Dentre os sintomas cognitivos mais presentes, estão o déficit de fluência verbal e a anomia. Deve ser suspeitada quando o primeiro episódio ocorre em idade mais avançada (mais de 85 anos) e não tem relação com história de doença familiar. ➔ Depressão psicótica: mais frequentes em idosos que nos adultos jovens, associa-se a alucinações e/ou delírios (culpa, hipocondria, niilismo, persecutório e de ciúmes), com maior risco de comportamento de autolesão. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Depressão melancólica: caracterizada por incapacidade de reagir a estímulos positivos, piora do humor pela manhã, sentimento de culpa excessivo, despertar precoce, marcante retardo ou agitação psicomotora, perda de apetite ou peso. Diagnóstico O diagnóstico da depressão é essencialmente clínico, devendo ser dada ênfase à história clínica atual e pregressa, incluindo a história psiquiátrica do próprio paciente e de seus familiares e ideação suicida; uso de medicamentos; funcionalidade; avaliação psicológica (eventos estressores), cognitiva e social, incluindo inserções laborativas, de lazer, suporte social/familiar, rede de relacionamentos e estrutura econômica. Uma vez estabelecido o quadro sindrômico, com base nos critérios diagnósticos dos organismos internacionais de referência, deve-se investigar a presença de doenças clínicas que possam colaborar para o quadro, com seus exames específicos. O eletrocardiograma deve ser realizado nos pacientes com indicação de uso de antidepressivo tricíclico. Quando há deficit cognitivo associado ou suspeita de depressão vascular, está indicada a realização de ressonância magnética de encéfalo. Fatores de risco ➔ Doença cerebrovascular; A arteriopatia cerebral autossômica dominante com infartos subcorticais e leucoencefalopatia (CADASIL). Este é um dos poucos fatores de risco genéticos para depressão em idosos. Indivíduos com leucoencefalopatia na região pré-frontal medial orbital e na cápsula interna à esquerda desenvolvem depressão com maior frequência. Mesmo nos pacientes com lesões subcorticais em pequenos vasos, sem demência ou sinais neurológicos, existe maior risco de depressão de início tardio. A doença cerebrovascular, enfim, precipita, predispõe e perpetua a depressão no idoso (depressão vascular). ➔ Idade; A prevalência de transtornos depressivos é maior entre os mais jovens. Por outro lado, um maior número de idosos apresenta sintomas depressivos que não preenchem os critérios propostos. ➔ Gênero; As mulheres apresentam mais sintomas depressivos que os homens por fatores como maior possibilidade de se queixar dos sintomas, liberdade para chorar, disposição para procurar tratamento, exposição aos estressores da vida e aos efeitos hormonais. A morbidade da depressão é elevada para o sexo Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 feminino. Enquanto a mulher tem maior probabilidade de se tornar incapacitada, o homem tem de morrer. Mesmo para indivíduos institucionalizados, as mulheres têm mais depressão que os homens. Porém, após os 75 anos, nem sempre é evidenciada diferença entre gêneros. ➔ Estado civil; A convivência com companheiro, independentemente do estado civil, é fator protetor para os transtornos do humor, e o fato de não ser casado está associado à presença de sintomas depressivos, para ambos os sexos. ➔ Doença psiquiátrica; O episódio depressivo em curso é forte preditor de risco para novos episódios de depressão, assim como a presença de dano cognitivo subclínico e a história de transtornos psiquiátricos (pessoal ou familiar). ➔ Outros eventos de saúde; Alguns fatores também associados à depressão não devem ser esquecidos, como o uso de álcool; a privação sensorial visual ou auditiva; os transtornos do sono e a presença de dor em pacientes com doença crônica; a incapacidade (relação recíproca com a depressão). ➔ Uso de medicamentos; A prescrição de algumas classes de substâncias, apesar de necessária, deve ser cuidadosa, devido ao potencial efeito de desencadear sintomas depressivos. Dentre essas medicações, encontram-se alguns antihipertensivos, diuréticos, digitálicos, analgésicos, corticosteroides, antipsicóticos benzodiazepínicos, antiparkinsonianos, tuberculostáticos e o álcool. ➔ Escolaridade; A pouca instrução está associada a sintomas depressivos e a maior escolaridade é fator protetor. Fatores socioeconômicos: Os indicadores de classes sociais são inversamente relacionados com sintomas depressivos. Tem relação com a depressão, à pobreza e os baixos salários. No entanto, a riqueza não é fator protetor. ➔ Viuvez; A morte de um ente querido apresenta-se como uma relação consistente para o desenvolvimento de transtornos depressivos, na dependência das condições do óbito e das adaptações no pós-morte. A viuvez em 10 a 20% está associada a sintomas depressivos no primeiro ano e 14% no segundo ano, e esses sintomas persistem caso não tratados. A mortalidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 aumenta no primeiro ano, especialmente por doenças cardiovasculares, independentemente da existência de doença prévia. Os idosos viúvos estão sob maior risco que as viúvas. O cônjuge que era cuidador com carga sobre si, não está sob risco, de modo diferente de quem não era cuidador, ou o era, mas não tinha sobrecarga. A expectativa de morte do cônjuge não é preditor de transtornos depressivos. As mulheres adaptam-se melhor à viuvez que os homens. ➔ Institucionalização; A presença de sintomas depressivos na admissão em instituição de longa permanência é fator preditor de depressão, assim como a falta de visitas ao idoso institucionalizado. ➔ Traumas psicológicos; Os mais importantes como fatores de risco para transtornos depressivos em idosos são aqueles que afetam grandes grupos e são intencionais, como guerras, campos de concentração e terrorismo. O baixo suporte emocional na infância tambémé fator de risco para depressão em idosos. ➔ Suporte social; Se a condição de saúde é precária e o suporte social é pobre, o idoso está particularmente sob risco para depressão, pois o suporte social, além de ter um efeito direto nos sintomas depressivos, tem a capacidade de modelar os efeitos das perdas materiais e interpessoais. Assim, os indivíduos com um bom suporte social podem estar protegidos dos efeitos deletérios sociais da doença. ➔ Outros fatores de risco social; Baixa aculturação, morar só, perda de contatos e falta de um confidente. São, portanto medidas para a redução do risco e da prevalência de depressão: melhor prevenção e tratamento das doenças crônicas; suporte social adequado, com prevenção do isolamento social; e compensação do dano funcional. Diagnóstico diferencial entre depressão e demências História clínica/medicamentosa e exame físico; O primeiro passo consiste em se obter uma história clínica e exame físico detalhados. É fundamental caracterizar o início, duração e progressão dos sintomas. As características mais importantes que diferem a depressão da demência são as seguintes: na demência o humor tende a flutuar, enquanto Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 na depressão é persistentemente baixo. O deficit cognitivo tende a ser mais acentuado nessa patologia do que na depressão, frequentemente manifestado por dificuldades de orientação pessoal e temporoespacial, retenção de números, memória recente e abstração. Os deprimidos em geral reportam suas dificuldades cognitivas, enquanto os demenciados comumente são levados ao médico pelos familiares. Pacientes com demência são mais cooperativos em responder às perguntas solicitadas e o fazem muitas vezes com pouco sentido ou mesmo através de confabulações. Já os pacientes deprimidos podem se recusar a responder às questões, tornarem-se irritadiços e hostis. Em quadros demenciais iniciais, ao contrário da depressão, há certa preservação das atividades sociais, apesar de pouco usufruto delas. História pessoal ou familiar de desordem afetiva é encontrada em muitos pacientes com depressão. Exclusão de causas potencialmente reversíveis de deficit cognitivo Testes psicométricos. Demência A senescência revela mudanças neuropsicológicas, especialmente, como déficits cognitivos, alterações na memória, na velocidade de raciocínio, no sono, manifestação de episódios de confusão, além de distúrbios psicológicos e alterações nas atividades da vida diária, que podem se relacionar com sintomas demenciais e depressivos. Inclusive, é frequente a manifestação de depressão e demência nesta faixa – etária. No cérebro ocorrem modificações morfológicas, no indivíduo idoso, em média, é menor e tem menos peso do que o de uma pessoa jovem. Alguns giros são mais finos e separados por sulcos mais profundos e abertos, resultando menor espessura das regiões corticais. Nota-se diminuição do número de neurônios e sinapses, além da existência de sintomas psicológicos e físicos como os lapsos de memória, menor velocidade de raciocínio, episódios passageiros de confusão, tremor, dificuldade de locomoção, insônia noturna com sonolência diurna e falta de equilíbrio. A demência é uma síndrome que se caracteriza pelo declínio da memória associado a deficit de, pelo menos, uma outra função cognitiva (linguagem, gnosias, praxias ou funções executivas) com intensidade suficiente para interferir no desempenho social ou profissional do indivíduo. Frequentemente, as manifestações iniciais do comprometimento cognitivo leve amnéstico (CCL amnéstico) consistem em disfunção da memória de trabalho, geralmente leve, e em diminuição da capacidade de memória de curta duração. A redução da memória de trabalho obedece a perdas neuronais no córtex pré-frontal, e a diminuição da capacidade de memória de curta duração a perdas neuronais no hipocampo, no córtex entorrinal ou eventualmente parietal. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Entretanto, deve-se considerar o fato de o sistema límbico, com suas memórias mais recentes, ser uma das regiões mais afetadas pelo envelhecimento. Os pacientes com DA mostram prejuízo cognitivo nos anos que precedem um diagnóstico clínico. Os prejuízos da memória são pronunciados, mas o grau relativo a que outras funções cognitivas são danificadas e a velocidade com que declinam durante os anos pré-clínicos permanecem obscuros. Há várias causas de demência, cujo diagnóstico específico depende de conhecimento das diferentes manifestações clínicas e de uma sequência específica e obrigatória de exames complementares. As quatro causas mais frequentes de demência são ➔ A doença de Alzheimer (DA), ➔ A demência vascular (DV), ➔ A demência com corpos de Lewy (DCL) ➔ A demência frontotemporal (DFT). O primeiro sintoma da DA é o declínio da memória, sobretudo para fatos recentes (memória episódica), e desorientação espacial, aspectos cognitivos em boa parte dependentes da formação hipocampal. A instalação desses sintomas é insidiosa, com piora lentamente progressiva, apesar de que períodos de relativa estabilidade clínica possam ocorrer. A partir da evolução do quadro, há o aparecimento de alterações de linguagem (destaca-se a anomia), distúrbios de planejamento (funções executivas) e de habilidades visuoespaciais. A doença de Alzheimer (DA) é caracterizada por um processo degenerativo que acomete inicialmente a formação hipocampal, com posterior comprometimento de áreas corticais associativas e relativa preservação dos córtices primários. Tal distribuição patológica faz com que o quadro clínico da DA seja caracterizado por alterações cognitivas e comportamentais, com preservação do funcionamento motor e sensorial até as fases mais avançadas da doença. Na faixa pré- senil (antes dos 65 anos), os distúrbios de linguagem podem ser a manifestação predominante do processo demencial, enquanto sintomatologia psicótica (como ideias delirantes, especialmente de caráter persecutório, e alucinações) é mais frequente em pessoas mais idosas. O termo demência vascular (DV) refere-se aos quadros causados pela presença de doença cerebrovascular (DCV). É mais utilizado quando associado aos efeitos de grandes lesões tromboembólicas (demência por múltiplos infartos), mas inclui também os estados lacunares e as lesões únicas em locais estratégicos (tálamo, giro angular esquerdo, núcleo caudado), demência associada a lesões extensas da substância branca (doença Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 de Binswanger), angiopatia amiloide e demência por acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos. A demência com corpos de Lewy (DCL) indica a ocorrência de um quadro demencial com flutuação dos déficits cognitivos em questão de minutos ou horas, alucinações visuais detalhadas, vívidas e recorrentes e sintomas parkinsonianos, geralmente do tipo rígido-acinético, de distribuição simétrica. Duas manifestações são necessárias para o diagnóstico de DCL provável. A maior predominância ocorre no sexo masculino, tendo manifestações comportamentais importantes, como por exemplo, alucinações (auditivas, visuais), delírio de identidade e distúrbios de memória. A DCL tem um declínio cognitivo progressivo e interfere na capacidade funcional do indivíduo (funções executivas, capacidade de resolução de problemas e atividades de vida diária). A atenção, as funções executivas e as habilidades visuoespaciais são os domínios cognitivos mais comprometidos nas fases iniciais, com relativapreservação da memória. Provavelmente, este é de maior relevância para o diagnóstico diferencial com a DA. O quadro clínico característico da demência frontotemporal (DFT) inclui alterações precoces de personalidade, de comportamento, de alterações de linguagem (redução da fluência verbal, estereotipias e ecolalia), tendo início insidioso e caráter progressivo. A memória e as habilidades visuoespaciais ficam relativamente preservadas. As alterações de comportamento podem mostrar-se através de isolamento social, apatia, perda de crítica, desinibição, impulsividade, irritabilidade, inflexibilidade mental, sinais de hiperoralidade e descuido da higiene pessoal. Sintomas depressivos, preocupações somáticas bizarras e estereotipias motoras podem ocorrer, além da manifestação de desinteresse pelas atividades e pessoas habituais, manutenção de condutas rituais ou colecionismo, deambulações inadaptadas, apatia, desinibição e hipermotividade com ansiedade. Apesar das causas da demência serem variadas, seu diagnóstico pede a existência de comprometimento da memória, que pode estar relativamente preservada nas fases iniciais, como por exemplo, a DFT. Diagnóstico O diagnóstico etiológico da demência é baseado em exames laboratoriais e de neuroimagem, além da constatação de perfil neuropsicológico característico. Esse aspecto é particularmente importante para o diagnóstico diferencial das demências degenerativas, grupo do qual fazem parte a DA, a DCL e a DFT. Outro importante fator a ser considerado na avaliação psicológica/neuropsicológica é a possível interferência de algumas variáveis no critério diagnóstico, como a idade do Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 paciente, o gênero (onde as mulheres mostrariam melhor desempenho nas habilidades verbais e os homens em tarefas matemáticas e visuoconstrutivas) e a escolaridade, que parece ser influenciada tanto pela idade com que o indivíduo começou a estudar quanto pela frequência à escola e número de anos estudados, sendo que o nível educacional elevado seria fator preventivo no embotamento do estado mental durante o envelhecimento normal. Também há outros fatores associados, a serem considerados, ao risco maior ou menor, como os genéticos, traumatismo de crânio e doença vascular. O diagnóstico de demência exige a constatação de deterioração ou declínio intelectual em relação à condição prévia do indivíduo. A comprovação do diagnóstico de demência depende de avaliação objetiva das funções cognitivas. A princípio, um exame abreviado e global é utilizado e, caso for detectado alguma alteração, testes mais específicos para cada habilidade cognitiva são empregados. Envelhecimento normal ➔ Funções cognitivas preservadas ➔ Pequenas perdas, porém há capacidade de adaptação – esquecimento leve Envelhecimento anormal ➔ Deficit cognitivo progressivo com prejuízo funcional ➔ Cognição: todas as funções mentais, incluindo orientação, memória, cálculo, linguagem, paraxias, gnosias, planejamento, juízo. Causas ➔ Alzheimer é a principal ➔ Vasculares: doença difusa de pequenos vasos, agiopatia amilóide, embolias cerebrais múltiplas. ➔ Demencias reversíveis: hidrocefalia, álcool, deficit B12, deficit B1, hipotireoidismo, hematoma subdural cronico, sífilis, hiv, doença de Creutzfeldt- Jakob Delirium É uma manifestação neuropsiquiátrica de doença orgânica, que acomete principalmente pacientes idosos, especialmente os hospitalizados. Sem etiologia específica caracterizada pela presença simultânea de perturbações da consciência e da atenção, da percepção, do pensamento, da memória, do comportamento psicomotor, das emoções e do ritmo sono-vigília. A duração é variável e a gravidade varia de formas leves a formas muito graves. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Quadro clínico As manifestações clínicas de delirium refletem um largo espectro da disfunção cerebral. Caracterizam-se por apresentar distúrbio da cognição, atenção e consciência, ciclo sono-vigília e comportamento psicomotor. Têm início agudo, com sintomas precoces predominantemente no período noturno. Porém, no paciente idoso, o início dos sintomas pode ser relativamente insidioso, precedido de alguns dias por manifestações prodrômicas como diminuição da concentração, irritabilidade, insônia, pesadelos ou alucinação transitória. Característica marcante do delirium é a flutuação dos sintomas, que dificulta muitas vezes o seu diagnóstico. Disfunção global da cognição é uma manifestação essencial: o prejuízo do pensamento encontra-se invariavelmente presente, tornando-se vago e fragmentado, sendo que varia de lento ou acelerado, nas formas leves, a sem lógica ou coerência, nas formas graves. A memória está comprometida, diretamente associada ao prejuízo da atenção e nível de consciência. Anormalidades da sensopercepção manifestam-se mais comumente por meio de ilusões e alucinações visuais que, embora não essenciais para o diagnóstico, podem estar presentes em 40,0 a 75,0% dos pacientes idosos com delirium. Além disso, a orientação encontra-se frequentemente comprometida na sua forma temporoespacial. Entre os distúrbios de linguagem, em geral ocorrem disnomias e disgrafias. Outra característica fundamental é o distúrbio da atenção. Há dificuldade em manter a atenção em um determinado estímulo e em mudá-la para um estímulo novo, não se conseguindo manter o fluxo de conversação com o paciente. O estado de alerta ou vigilância também se encontra anormalmente alterado, podendo estar reduzido ou aumentado. A desorganização do ritmo circadiano do sono é comum, com sonolência diurna e sono noturno reduzido e fragmentado. O comportamento psicomotor encontra-se alterado, podendo ocorrer um estado de hiperatividade ou hipoatividade. Porém, no mesmo paciente, as duas formas podem estar presentes alternadamente. A forma hiperativa é mais fácil de ser reconhecida, sendo em geral associada à intoxicação ou abstinência de medicamentos ou álcool. A forma hipoativa tem seu reconhecimento mais difícil e é mais comumente associada a distúrbios metabólicos ou processos infecciosos. Sintomas como raiva, medo, ansiedade, euforia e manifestações autonômicas (rubor facial, taquicardia, sudorese e hipertensão arterial) podem estar associados ao delirium, em geral na sua forma hiperativa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Etiologia É de etiologia multifatorial, podendo ser atribuído virtualmente a qualquer afecção médica, uso ou abstinência de drogas. Qualquer condição que comprometa a função cerebral pode causar delirium, embora em geral resulte de um número limitado de condições clinicamente comuns. Destacam-se os processos infecciosos, particularmente pneumonia e infecção do trato urinário, afecções cardiovasculares, cerebrovasculares e pulmonares que causam hipóxia, e distúrbios metabólicos. Medicamentos como antidepressivos tricíclicos, antiparkinsonianos, neurolépticos e o uso ou abstinência de hipnóticos e sedativos estão entre os fármacos mais frequentemente associadas ao delirium. Vários grupos de fármacos largamente utilizados, como digitálicos, diuréticos, hipotensores, analgésicos narcóticos, anti-inflamatórios não hormonais, antimicrobianos, antifúngicos, anti- histamínicos, bloqueadores H2, entre outros, podem contribuir para o delirium. Isto ocorre especialmente quando outros fatores de risco estão presentes e na vigência da polifarmácia. Entre as condições cirúrgicas, os fatores etiológicos podemestar presentes no pré- operatório, como idade avançada e comorbidades; no intraoperatório, pelo tipo de anestesia, duração e tipo de cirurgia, hipotensão e hipoxia; e no pós-operatório, incluindo fatores como dor, infecção, analgesia, sedação, imobilização, entre outros. Duração; 10-12 dias podendo durar até dois meses. Geralmente é autolimitado. Fatores de Risco ➔ Doenças graves; pneumonias, distúrbio metabólico, doença cardiovascular, infecção do trato urinário. ➔ Uremia, ➔ Doenças neuropsiquiátricas, ➔ Deficit sensorial, ➔ Deficit motor (paciente acamado com baixa mobilidade), ➔ Polimedicação; principalmente antidepressivos tricíclicos, antiparkinsonianos, neuropiléticos, ➔ Abstinência de hipnóticos e sedativos. Por que o idoso é mais suscetível a apresentar delirium; menos plasticidade, maior toxicidade, polifarmácia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Diagnóstico Instrumento de avaliação – Método de Avaliação de Confusão (CAM) Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Abandono de idosos, leis e repercussões De acordo com o Estatuto do Idoso, Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, Art. 3º, é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e a convivência familiar e comunitária. O art.49 do mesmo estatuto orienta que as entidades que desenvolvam programas de institucionalização de longa permanência adotem os seguintes princípios: ➔ I – Preservação dos vínculos familiares; ➔ II – Atendimento personalizado e em pequenos grupos; ➔ III – Manutenção do idoso na mesma instituição salvo em caso de força maior; ➔ IV – Participação do idoso nas atividades comunitárias, de caráter interno e externo; ➔ V – Observância dos direitos e garantias dos idosos; ➔ VI – Preservação da identidade do idoso e oferecimento de ambiente de respeito e dignidade. Daí o surgimento de muitas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) para assistir às necessidades dessa população, cuja família é incapacitada ou não; ou que tenha dificuldade para prover o seu próprio sustento; rica em incapacidades físicas e mentais e considerados pouco atrativos para o convívio social. Inerente ao avanço da abertura de ILPIs, infelizmente surge a questão do abandono de idosos. A condição do abandono também pode estar relacionada às situações de fragilidade em que o idoso se encontra isolado do circuito familiar, aumentando seu sentimento de dependência pelos limites impostos pela incapacidade. Para que o idoso não tenha a sensação de abandono, e que ele continue integrado à sociedade, faz-se necessário um planejamento de assistência de familiares e amigos à instituição. A preocupação com a população idosa é algo recente no Brasil, tendo sido a Constituição Federal o primeiro texto a dar espaço para a proteção a estas pessoas. Porém com o aumento desta parte da população foram se criando dificuldades a serem supridas pelo poder público e faltava-lhes normas para dar o efetivo suporte, sendo então, criado o Estatuto do Idoso, Lei n° 10.741 de 1° de outubro de 2003 que entrou em vigor em 1° de janeiro de 2004. Tal Estatuto surgiu para amparar, valorizar e suprir algumas dúvidas decorrentes desta etapa, garantindo um suporte para uma melhor qualidade de vida e respeito para os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 idosos. Amparado no princípio da dignidade humana busca a proteção contra qualquer violação e abuso causado para as pessoas mais velhas. A afetividade é base sustentavel para um “bom” convívio familiar, é uma maneira positiva de ver a si mesmo, promovendo uma expressão positiva de humor e emoções dentro do ambiente familiar. Um relacionamento desprovido de apego emocional transforma o cuidado numa tarefa onerosa, pois as atitudes de solidariedade, gratidão e responsabilidade tendem a ser encaradas como mera obrigação. As pessoas admitidas num asilo se tornam membro de uma nova comunidade. Geralmente vivenciam uma radical ruptura de seus vinculos relacionais afetivos, convivendo cotidianamente com pessoas que não possuam qualquer vinculo afetivo. Independente da qualidade da instituição, ocorre normalmente o afastamento da vida “normal”. Na instituição, o idoso torna-se obrigado a se adaptar e aceitar normas e regulamentos, como horários e alimentação, por exemplo. Vale esclarecer que o abandono não se caracteriza somente pelo distanciamento físico do idoso, mas também pela exclusão dele do convívio familiar e social. Sabemos que as instituições são necessárias, pois em alguns casos é a única opção que resta ao idoso para sobreviver, no entanto, compreendemos que este estado de institucionalização não precisa ser um meio de excluir o idoso da sociedade. A família é entendida segundo os diversos espaços de socialização. Para muitos indivíduos, ela configura-se na rede social de apoio com a mais importante e a mais utilizada, principalmente nos momentos de doenças ou dificuldades. A família propicia os aportes afetivos necessários ao desenvolvimento de seus componentes, tornando-se um espaço indispénsável para a sobrevivência e proteção dos idosos e espaço privilegiado para absorção dos valores éticos e jumanitários e aprofundamento dos laços de solidariedade. Apesar de a família ser relevante para os idosos, o processo de asilamento conduz ao distanciamento progressivo entre eles e seus familiares, chegando ao abandono. O vínculo familiar diminuido, por sua vez, gera sentimentos negativos em relação à família, na maioria das vezes pelo fato de os idosos se sentirem esquecidos. Segundo PRADO e PETRILLI (2002), os principais motivos de admissão de idosos em asilos e a falta de respaldo familiar, relacionado a dificuldade financeira, distúrbios de comportamentos e precariedade nas condições de saúde. Percebe-se que algumas famílias estão despreparadas para conviver com os idosos, tanto nos aspectos financeiros, como de convivência entre os membros da fimilia de diferentes gerações, o que reflete na possibilidade dela não conseguir enfrentar os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 conflitos e optar em deixar os idosos em instituições como os asilos, denotando a idéia de abandono e solidão. Art. 98. Abandonar o idoso em hospitais, casas de saúde, entidades de longa permanência, ou congêneres, ou não prover suas necessidades básicas, quando obrigado por lei ou mandado: Pena – detenção de 6 (seis) meses a 3 (três) anos e multa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Problema 4 Idoso frágil e idoso vulnerável Fragilidade, não possui uma definição consensual. Constitui-se em uma síndrome multidimensional envolvendo uma interação complexa dos fatores biológicos, psicológicos e sociais no curso de vida individual, que culmina com um estado de maior vulnerabilidade, associado ao maior risco de ocorrência de desfechos clínicos adversos – declínio funcional, quedas, hospitalização, institucionalização e morte. Alguns profissionais de saúde consideram fragilidade como uma condição intrínseca do envelhecimento, atitude essa que pode ocasionar intervenções tardias, com potencial mínimo de reversão das consequências adversas da síndrome, o que inclui a redução da expectativa de vida saudável ou livre de incapacidades. Assim, torna-se necessário o estabelecimento de critérios que identifiquem as pessoas idosas que se encontram em uma condiçãosubclínica da síndrome e, portanto, passíveis de intervenções preventivas, com o objetivo de evitar ou postergar ao máximo a ocorrência das respostas adversas à mesma. Entre aqueles cuja síndrome já foi instalada, a adoção de critérios de avaliação específicos contribuirá para o adiamento ou a amenização de tais respostas, permitindo preservar por mais tempo a autonomia e independência funcional dos idosos. A partir da década de 90 a associação entre incapacidade e fragilidade passou a ser questionada com base em três grandes premissas: ➔ Nem todas as pessoas com declínio funcional são frágeis; ➔ Nem todas as pessoas frágeis apresentam declínio funcional; ➔ Medidas preventivas parecem interferir na instalação dessa síndrome. O conceito de “ser frágil” foi sendo gradativamente substituído pela condição de "tornar-se frágil. Fragilidade é compreendida como uma síndrome clínica caracterizada pela diminuição da reserva energética e pela resistência reduzida aos estressores. Essa condição resulta de declínio cumulativo dos sistemas fisiológicos e causa vulnerabilidade às condições adversas, por haver dificuldade de manutenção da homeostase em situações de exposição às perturbações tais como alterações de temperaturas ambientais e variações na condição de saúde. São três as principais mudanças relacionadas à idade que estão subjacentes à síndrome: ➔ Alterações neuromusculares (principalmente sarcopenia); ➔ Desregulação do sistema neuroendócrino; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Disfunção do sistema imunológico. A figura a seguir apresenta essa tríade na trajetória hipotética da fragilidade e indica a associação entre mecanismos primários – relativos à idade – e os secundários – relativos às doenças – que poderiam dar início ao fenômeno propriamente dito: Os autores construíram um fenótipo relacionado à fragilidade que inclui cinco componentes possíveis de serem mensurados: 1. Perda de peso não intencional: = 4,5 kg ou = 5% do peso corporal no último ano; 2. Fadiga auto-referida utilizando duas questões: com que frequência na última semana o(a) sr(a) sentiu que tudo que fez exigiu um grande esforço ou que não pode fazer nada; 3. Diminuição da força de preensão medida com dinamômetro na mão dominante e ajustada para gênero e Índice de Massa Corporal (IMC); 4. Baixo nível de atividade física medido pelo dispêndio semanal de energia em kcal (com base no autorrelato das atividades e exercícios físicos realizados) e ajustado segundo o gênero; 5. Diminuição da velocidade da marcha em segundos: distância de 4,5m ajustada para gênero e altura. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 A partir do modelo proposto pode-se identificar precocemente os sinais e sintomas que sugerem a instalação da síndrome. Frente a eles, é possível a adoção de medidas de intervenção específicas que contribuam para a eliminação ou o postergamento desse processo. A detecção precoce de um ou dois sintomas (condição pré-frágil) auxiliará a evitar a instalação da síndrome a partir da adoção de intervenções específicas. No contexto de saúde, a identificação dos referidos sinais e sintomas parece ser mais fácil desde que os diferentes profissionais que aí atuam, estejam atualizados e sensibilizados para a importância da detecção precoce. No entanto, nem sempre isso acontece, porque os idosos podem não comparecer com tanta frequência a esse serviço, evitando que tal observação possa ser, de fato, realizada. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 O idoso frágil deve ser considerado o alvo prioritário de políticas públicas de saúde para a população idosa. Por que o idoso frágil? Porque é o que mais necessita de cuidados de saúde, serviços comunitários de suporte e cuidados de longo prazo, pois o estado de vulnerabilidade acarreta um risco aumentado de eventos adversos, como a dependência, a incapacidade, as quedas e lesões, as doenças agudas, a lenta recuperação de doenças, a hospitalização, a institucionalização de longa permanência e a mortalidade elevada; também, porque é o subgrupo que cresce acentuadamente: constituem 10% a 25% das pessoas com 65 ou mais anos de idade; e ainda, porque muitos dos cuidados de medicina geriátrica (por exemplo, avaliações abrangentes, intervenções preventivas e cuidados multidisciplinares) são direcionados aos idosos frágeis, pois neste grupo são melhor custo-efetividade. Sendo o envelhecimento acompanhado de perda funcional fisiológica já a partir da 4ª década, perda esta que se acentua intensamente a partir da 7ª década, é natural que se considere os indivíduos muito idosos como potenciais portadores de fragilidade. No entanto, há que se considerar que sendo potencial, não é, no entanto, elemento indispensável ao diagnóstico da síndrome, que pode ser vista, também, em idosos mais jovens. Da mesma maneira, não pode ser considerada como elemento diagnóstico único, patognomônico, que dispensa a prova através de outros identificadores. Ainda, vale lembrar as definições de fragilidade que buscam as incapacidades como elemento diagnóstico definidor, indispensável, único e essencial. Por um lado, danos exclusivos em um aparelho, sistema ou parte do corpo, que pode produzir incapacidade, na maioria das vezes não produz comprometimento multissistêmico e não acarretam risco elevado de complicações, como aquelas já enunciadas para a fragilidade, sobretudo quando o dano pode ser compensado por reabilitação através de tecnologia específica – por exemplo, órteses, próteses e fisioterapia. Por outro, a incapacidade costuma ser consequência tardia de fragilidade, de maneira que, ao buscarmos o diagnóstico daquela síndrome através da identificação das dificuldades associadas às tarefas de vida, estamos nos habilitando apenas à identificação tardia de perdas funcionais que se iniciaram há muito tempo. Em resumo, a incapacidade pode se desenvolver a partir da disfunção de um sistema ou de múltiplos sistemas, mas a fragilidade sempre está associada à disfunção de múltiplos sistemas; a incapacidade não precisa estar associada à instabilidade, ao passo que a fragilidade sempre está associada ao declínio funcional que não se deixa estabilizar. Fisiopatologia da Síndrome da Fragilidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 O Centro de Envelhecimento e Saúde da Universidade John Hopkins, em estudos coordenados por Fried, definiu a síndrome da fragilidade como uma síndrome de declínio de energia que ocorre em espiral, embasado por um tripé de alterações relacionadas ao envelhecimento, composto, principalmente, por sarcopenia, desregulação neuroendócrina e disfunção imunológica. Como consequência da diminuição da massa muscular esquelética – sarcopenia – ocorreria a redução na captação máxima de oxigênio (VO2 max), da força e tolerância aos exercícios e do gasto energético; ainda, ocorreria distúrbios na termorregulação e aumento na resistência à insulina. A diminuição nos níveis de interleucina 2, das imunoglobulinas G e A, e da resposta mitogênica, assim como o aumento na quantidade de células de memória imunológica e das interleucinas 6 e 1B são conseqüências da disfunção imunlógica associada à síndrome. Por último, a desregulação neuroendócrina caracterizaria-se por redução dos níveis de hormônio do crescimento, do estrogênio e da testosterona, pelo aumento do tônus simpático e pela desregulação do cortisol. É uma síndrome clínica, de natureza multifatorial, caracterizada pela diminuição das reservas de energia epela resistência reduzida aos estressores, condições essas que resultam do declínio acumulativo dos sistemas fisiológicos. A trajetória de mudanças moleculares incluiria variações gênicas expressas em estresse oxidativo, perdas mitocondriais, encurtamento de telômeros, danos ao DNA e envelhecimento celular, em interação recíproca com doenças inflamatórias. Entre os marcadores genéticos que têm atraído o interesse de pesquisadores, estão os syngle nucleotide polymorphisms (SNP) e as mutações de DNA mitocondrial. Esse conjunto de condições de base genética daria origem a inflamações e à desregulação neuroendócrina, que, em interação recíproca, funcionariam como antecedentes para a anorexia, a sarcopenia, a osteopenia, o declínio da função imune, défices cognitivos, problemas hematológicos e problemas no metabolismo da glucose. É sugerido como marcadores biológicos alguns mediadores da resposta inflamatória, além de hormônios, radicais livres, antioxidantes e macro e micronutrientes. Níveis elevados de interleucina 6 e Proteína C Reativa (PCR) são associados ao desenvolvimento de incapacidades e à elevação da mortalidade. Foi identificado correlações positivas entre o estado de fragilidade e proteínas de fase aguda, como a PCR. Níveis elevados de insulinemia de jejum e após teste de tolerância à glicose foram demonstrados em idosos considerados frágeis. O resultado da influência das variáveis genéticas sobre os desequilíbrios fisiológicos se expressa num ciclo vicioso de redução de energia, aumento da Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 dependência e aumento da suscetibilidade a agressores, cujas manifestações clínicas resumem-se em lentidão, debilidade, perda de peso, baixo nível de atividade e fadiga. Isso significa que o termo genérico fragilidade denota uma diversidade de vulnerabilidades, debilidades, instabilidades e limitações com causas compartilhadas. Diferentemente de outras entidades clínicas usuais em Geriatria, o diagnóstico de fragilidade não é baseado numa queixa principal. Ao contrário, sua presença é frequentemente sutil e assintomática 24 , o que faz do seu estudo um foco de especial interesse, quando se tem a meta de estabelecer instrumentos diagnósticos e formas de tratamento norteadores de esforços de promoção de saúde na velhice, principalmente em situações como a brasileira, em que é imperativo eleger prioridades, dada a carência de recursos e as demandas em rápida emergência na população idosa. Para este grupo, a síndrome de fragilidade poderia ser uma expressão de formas primárias de apresentação, onde a redução da reserva funcional associada ao envelhecimento seria o principal mecanismo fisiopatológico, e de formas secundárias, onde o aparecimento de determinadas morbidades – diabetes mellitus, insuficiência cardíaca congestiva, doenças da tireoide, tuberculose e outras infecções crônicas, neoplasias, arterite temporal e outras condições inflamatórias, luto, depressão, demência – acelerariam as perdas funcionais, que mais rapidamente atingiriam o nível crítico limiar, a partir do qual apareceriam os sinais, sintomas e complicações frequentes entre os frágeis. Sexualidade no envelhecimento O envelhecimento e a sexualidade têm recebido mais espaço na pauta dos estudos de especialistas e pesquisadores sobre o tema a partir da última década, talvez devido ao impacto da população idosa em nosso país. As expressões de interesse e práticas sexuais na velhice, que eram toleradas há alguns anos com certo estranhamento, tornaram-se elementos determinantes para a saúde física e emocional daqueles que estão em processo de envelhecimento. Um ponto de convergência de vários campos do conhecimento com relação ao estudo do envelhecimento ligados às ciências biológicas, psicológicas ou sociais, apontam esse processo como um fenômeno universal do ponto de vista da espécie humana, ao mesmo tempo em que particular, posto que implica a singularidade deste mesmo humano. Psicossexualidade A sexualidade humana não está a serviço apenas da procriação e preservação da espécie, posto que tem como fator propulsor a realização de desejo e a busca do prazer. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Portanto, a forma como o envelhecimento se processa deve ser entendida a partir das diferenças não apenas sexuais, mas culturais e históricas do sujeito em cada sociedade para além de fatores biológicos ou de hereditariedade. A trajetória de vida do ser humano é um somatório das experiências vividas, dos valores, das metas, da compreensão e das interpretações pessoais que cada um tem do mundo em que vive. Isso é o que pode direcionar suas escolhas e sua filosofia de vida. A velhice, tal como a infância, a juventude e a idade adulta, é circunscrita como uma etapa de transformação, tanto física como biológica, emocional e sexual. A forma como cada pessoa envelhece é determinada por suas condições subjetivas, incluindo-se aí a forma como foi vivida sua história pessoal em todos os períodos da existência e também está atrelada às condições socioculturais. Ao abordar o envelhecimento e sexualidade como tema de reflexão, enfocamos esse binômio em suas ressignificações imaginárias e simbólicas, em que as manifestações das fantasias, dos sonhos, sempre deixam em aberto as possibilidades de realização sexual. Nesse sentido, afirmamos que a sexualidade do ser humano é psicossexual, tendo no biológico um dos elementos que a constitui. No entanto, o biológico não é o único fundamento do sexual. Enquanto categoria social, a velhice não define a respeito da cada sujeito. A idade cronológica pode nos dar indicativos dos aspectos corporais, fisiológicos ou mesmo sociais de uma pessoa, o que não determina como cada sujeito experienciar essas inscrições em sua história. Tampouco os inventários convencionais de escalas de desenvolvimento podem estipular padrões psicológicos de como se deve envelhecer. Podemos, com isso, afirmar que a velhice será vivida diferentemente em cada época e em cada cultura. Pessoas fisicamente bem conservadas alcançam a fronteira da velhice e experimentam seu avanço como uma libertação. O crescimento do individualismo no nosso estilo de vida tem capacitado os velhos a formarem seu próprio juízo, aumentando suas possibilidades de cultivar, conscientemente, uma sexualidade e um erotismo específicos da velhice, seja com relação ao próprio relacionamento de casal ou de pessoas sozinhas, em sua disposição para recomeçar outros relacionamentos. Não há uma teoria com relação à sexualidade da velhice, porém há uma grande quantidade de tentativas de análise por parte de ciências distintas e do ponto de vista holístico. Envelhecemos como vivemos, ou seja, a forma como cada um enfrenta e resolve seus problemas existenciais será determinante no enfrentamento das questões vitais na velhice. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Do ponto de vista da psicanálise, a sexualidade é forjada nos processos de identificação com os objetos amorosos, nas primeiras experiências de vida. São elas que permitirão a cada um, em sua singularidade, construir formas preferenciais de satisfação em relação a esses objetos. Por transferência, essas formas de satisfação se estenderão a objetos substitutos ou a outras formas de manifestação e realização para além do biológico. Por isso, a sexualidade pode se transformar em outras meios de expressão sublimatórias, via atividades criativas, artísticas ouna convivência com grupos de amigos, familiares, em que a ternura, o toque e as fantasias dão vazão ao erotismo. A velhice, como um fenômeno de múltiplo significado, decorre do contexto fragmentado das experiências de vida, na sua complexidade cultural. O processo de envelhecimento está sempre associado ao fim da vida, à morte, o que talvez nos leve a associá-lo aos quadros de depressão e angústia que surgem aos primeiros sinais de perda de vitalidade ou com a aposentadoria. Sob essa ótica, a velhice, inegavelmente, faz o enfrentamento com algumas perdas de laços com o Outro, o que caracteriza um luto dos objetos perdidos. Todavia, isso não determina uma impossibilidade de novos investimentos, o desejo de partilhar outras experiências. Messy (2002) afirma que a velhice é “uma ruptura brutal de equilíbrio entre perdas e aquisições, é um processo que se caracteriza pela posição do indivíduo idoso”. O velho, destituído de um lugar de importância como ser vital e produtivo para o mercado de trabalho, vendo-se limitado na sua possibilidade de intervenção sobre o seu meio, retira-se para um mundo de depressão. A velhice chega quando se perde o desejo: “Não entrar na velhice seria guardar, em si, uma certa dose de cumplicidade com a criança que se foi”. O desejo não tem a idade de nossos vasos sanguíneos ou nossos órgãos. Nessa direção, a velhice implica um saber vestir esse desejo. Resgatar o direito do idoso a uma vida sexual implica pensar o amor em suas formas de transformação libidinal, ou seja, outras formas de amor, que passam pela ternura, pelos contatos físicos que erogenizam o corpo, ou seja, despertam o erótico no corpo como o olhar, o toque, a voz, redescobrindo as primeiras formas de amor do ser humano. O velho idoso não deixa de amar, mas reinventa formas amorosas. A relevância do estudo do amor e da sexualidade na velhice está nessa perspectiva: a partir de outro enfoque a vida do velho, para além de suas perdas, mas das possibilidades criativas dadas pelo vivido, sofrido e acumulado nas experiências amorosas e sexuais e, por isso mesmo, reengendrando a vida em suas infinitas possibilidades, independentemente da proximidade real da morte. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Sentido sexual dos nossos atos Os atos falhos, os equívocos e os sonhos estão encobrindo sentidos que refletem conteúdos inconscientes, ou seja, os atos involuntários, aquilo que nos escapa, por isso mesmo, tem um sentido. Encontrar um sentido para as palavras e as condutas que nos escapam produz a revelação de um desejo até então velado. A propriedade erógena pode ligar-se a algumas partes do corpo, marcadas pelas primeiras experiências prazerosas, como o chupar, sugar, ou a qualquer outro ponto da pele ou mucosa, podendo tomar a seu cargo as funções de zona erógena. Os estímulos, mais do que a natureza das partes estimuladas do corpo, determinarão a produção da sensação prazerosa. Na infância, o alvo sexual consiste em provocar a satisfação mediante a estimulação da zona erógena que foi escolhida. A satisfação será vivenciada antes para transformar-se em necessidade de repeti-la. Chamamos sexual toda conduta que, partindo de uma região erógena do corpo (boca, ânus, olhos, voz, pele) e apoiando-se em uma fantasia, proporciona algum tipo de prazer. O prazer de mamar do bebê, por exemplo, seu prazer da sucção, do ponto de vista psicanalítico, corresponde a um prazer sexual que não se confunde com o alívio de saciar a fome, ou seja, não é da ordem da necessidade. Alívio e prazer ao alimentar-se estão associados, mas o prazer sexual de sucção logo se transforma em uma satisfação buscada por si mesmo, fora da necessidade natural. Além de saciar a fome, o bebê continua a sugar por descobrir que mamar é, em si, uma fonte de prazer. Fazendo uma transposição para etapas posteriores na vida adulta e na velhice, essa compreensão nos leva a afirmar que o prazer sexual, diferentemente do prazer orgânico, que é polarizado em torno de uma zona erógena e obtido graças à mediação de um objeto fantasiado, é encontrado entre os diferentes prazeres, das preliminares ao coito em si (prazer de olhar, de se mostrar, de acariciar, de sentir o cheiro do outro etc.). Entendendo essa afirmativa, podemos pensar que, com o envelhecimento, quando as funções orgânicas sofrem em seu desempenho uma perda sexual, decorrente das mudanças hormonais ou alguma doença incapacitante, a libido, ou seja, a energia sexual que privilegia o aparelho genital para sua realização, retorna seu investimento a outros zonas do corpo marcadas nas primeiras experiências, retornando ao prazer encontrado em outras formas erógenas, como o toque, o olhar, a delicadeza de toda sensibilidade. A sexualidade como manifestação de amor, de afeto toma outras formas de expressão. O amor pode ser compreendido em suas manifestações eróticas, podendo ser ligado à sexualidade ou ao afeto. As funções orgânicas e vitais perdidas encontram formas compensatórias e sublimatórias de realização, o que implica a relação com um outro. Sonhar com o amor não tem limite de idade. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 São os preconceitos que fazem pensar que a chamada andropausa no homem e a menopausa na mulher são responsáveis pelas dificuldades sexuais. A perda dos hormônios modifica o mecanismo e a frequência da ereção, assim como altera a lubrificação vaginal, dificultando a realização do coito. Isso parece decretar que a penetração é a única fonte produtora de prazer e que a ausência ou as dificuldades dessas possibilidades funcionais incapacitam o velho como ser sexuado. O que interfere na vida sexual do velho está para além das limitações orgânicas, que são decorrentes do processo natural da evolução do ser humano. O que interfere na vida sexual do idoso é de ordem psicológica e social. O preconceito que habita o jovem contra a sexualidade do velho também está no velho com relação a sua própria sexualidade. Muitas instituições, e mesmo a família, não toleram que idosos se autorizem a manter relações amorosas, o que equivale a dizer que negam a fonte da vida. O que mantém vivo o ser humano é a afeição, a ternura, o sonho, a presença de alguém que o escute, com quem compartilhe a vida. A sexualidade está para além da relação genital que, equivocadamente, é entendida no seu contrário. Sendo assim, a mudança de (performance da relação sexual passa a colocar o velho em proximidade com a ideia da morte. A perda da vitalidade está associada ao fim da vida útil, o que, até então, estava negado. Há vida sexual na velhice Há vida na velhice, como em qualquer outro período da existência. Sabemos, no entanto, que o envelhecimento produz uma série de efeitos sobre o narcisismo do sujeito, promovendo uma constante luta entre o investimento em si mesmo, enquanto pulsão de vida, e o desinvestimento que abre caminho para a pulsão de morte. Todavia, a perda narcísica que se instala pelas limitações físicas da velhice não significa a perda da condição humana. É preciso que se escute o discurso do velho não só do ponto de vista da patologia, como se a sua necessidade de voltar ao passado, contar e recontar episódios que fizeram parte de suas conquistas ou perdas estejam ligadas a um processo de nostalgia do passado, à depressão ou a um transtorno da memória recente. A repetição, conduta tão presente na vida dos velhos, historicizando a vida, como um forma de recordação, pode atestar que a lembrança de tais fatos e sentimentos, independente da veracidade do acontecimento, marca a cadência da vida vivida e que persiste no tempo.Inconscientemente, buscam preservar a vida, negar a morte. O velho, como o jovem, tem apego à vida, independentemente da passagem do tempo. O importante é que a velhice não seja tratada apenas como objeto de cuidado. Ao Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 contrário, é nesse momento em que o velho deve ser interpelado enquanto sujeito. A angústia advinda dos sintomas ou do surgimento de doenças é sinal de um perigo vital. No processo de envelhecimento, que pergunta é colocada ao velho, ou ao velho doente? “O que o outro quer de mim?”. O que ele não sabe é o que significa para o outro. Isso angustia. Mais uma vez, é pelo olhar do outro, por sua voz, que o sujeito se sustenta. O desejo, na medida em que é tentação, desejo do desejo do Outro, nos remete à angústia, tal como a reencontramos na sua função original: o afeto fica à deriva, nos diz Mannoni (1995). Em cada etapa da vida, o ser humano faz lutos de etapas precedentes. Na velhice, o que aparece com os lutos não é o lucro de avançar para uma etapa seguinte, mas a perda. No presente, o que insiste é a rememoração da vida vivida com o ser amado (companheiro, filhos, amigos). Esse luto do que se foi tem que ser sustentado pela dimensão narcísica idealizada, a fim de assegurar no Outro um encontro. Ao trabalhar as histórias das experiências sexuais dos velhos, a autora revela a riqueza da sexualidade, que toma muitas formas de expressão e de busca de prazer, e acredita que a capacidade de viver o amor não se esgota com a idade, mas se recria. Fraiman (1994) apresenta em seus relatos de velhos, que vão dos 60 aos 90 anos, as formas criativas que cada um encontrou de redirecionar a atividade sexual para uma valorização física, artística, havendo um reinvestimento libidinal, promovendo a autoestima. O sexo e o amor na velhice mudam o caráter explosivo e exuberante da juventude, tomando a forma da ternura, do carinho, do toque sutil, da valorização da sensibilidade dos pequenos gestos, respeitando as diferenças de suas manifestações no homem e na mulher. É de extrema importância poder pensar que a partir da redescoberta do sexo e do amor, o velho reconquista o lugar vital de homem e mulher e não mais o de um velho que tem como futuro o fim da vida. Novamente, é na relação com o Outro que está a importância da redescoberta do desejo de viver. As fantasias sexuais, sob forma de sonho, ou sublimadas em expressões artísticas, retomadas na relação direta de namoro, ou na relação com os familiares, netos, bisnetos, amigos, recolocam a vida viva, independentemente da idade ou da limitação física do idoso. A capacidade de amar não tem limite cronológico. O limite está no psicológico, no preconceito e na intolerância social. O limite não está no real do corpo, ou na capacidade de sonhar, de simbolizar, de levar a vida. O sexual insiste, para além das questões biológicas, pois mesmo que organicamente, com a velhice, o ser humano tenha perdas de suas capacidades físicas, não perde a capacidade de sonhar, de desejar, e principalmente, de desejar viver. Poder Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 desejar é o que nos distingue das outras espécies e é isso que possibilita o enfrentamento com a ideia de que somos seres mortais. Para a Psicanálise, no entanto, o desejo não está demarcado pelo tempo cronológico, mas por inscrições de significantes que estão na base da constituição do sujeito, enquanto sujeito do inconsciente, O que vai erogenizar, libidinizar cada um, está para além de questão estética, pois refere-se ao que produziu satisfação nas primeiras experiências, e que inscreveu marcas, representações, significantes de satisfação. Disfunção erétil Embora haja uma diminuição da atividade sexual com o envelhecimento, o interesse por ela muitas vezes é mantido entre os idosos. Por causa da sua alta prevalência e das consequências sobre a qualidade de vida, a disfunção erétil (DE) é possivelmente o mais importante problema da sexualidade masculina. Ela é definida como a persistente incapacidade de manter uma ereção suficiente para uma relação sexual satisfatória. Os novos critérios diagnósticos para a Disfunção Erétil Masculina (302.72) são os seguintes: A) Persistente ou recorrente inabilidade para chegar a uma ereção adequada ou mantê-la até que seja completada a atividade sexual B) Esse distúrbio causa intenso desconforto ou dificuldade interpessoal C) A DE não é explicada mais eficientemente por um outro distúrbio do eixo I (que não seja um distúrbio sexual), e não pode ser exclusivamente atribuída aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (i. e., uso abusivo de droga ilícita ou de uma medicação), ou de uma condição médica geral. Além disso, o médico deverá definir as seguintes 3 especificações: 1. Vida toda x adquirida 2. Geral x situacional 3. Atribuível a fatores médicos, psicológicos ou combinados Epidemiologia Uma pesquisa feita em 3 países da América do Sul (Colômbia, Equador e Venezuela), chamado DENSA (Morillo (et al., 2002), chegou a resultados semelhantes, com 53% dos homens avaliados revelando algum grau de DE. Outro estudo publicado em 2003, que, por sua vez, investigou a população de Salvador, uma grande cidade Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 brasileira, descobriu que a incidência de DE é duas vezes maior do que aquela registrada no MMAS, e que ela tem correlação com idade, presença de diabetes, hipertensão e baixo nível educacional (Moreira, 2006). Dois estudos de 2006 merecem menção: um americano, outro canadense. O estudo americano (Saigal (et al., 2006) avaliou 3.566 homens com mais de 20 anos e detectou uma prevalência de 77,5% naqueles com mais do que 75 anos, além de um risco significativamente maior entre homens de origem latino-americana. O trabalho canadense (Grover (et al., 2006) avaliou 3.921 homens com idades entre 40 e 88 anos, atendidos por médicos generalistas, e detectou uma prevalência média de 49,4%. Mudanças do comportamento sexual com a idade As alterações relacionadas ao envelhecimento que ocorrem no ciclo sexual masculino são retardo da ereção durante a fase de excitação; redução da congestão vascular e da tensão muscular do saco escrotal; prolongamento da fase de (plateau, e a diminuição do volume de secreção pré-ejaculatória; o orgasmo pode ser mais curto, as contrações prostáticas e uretrais mais fracas, e a força do jato ejaculatório diminuída. A fase de resolução é mais curta, com perda mais rápida da ereção e descida mais precoce do testículo. Fisiopatologia da disfunção erétil Os corpos cavernosos contêm os espaços lacunares onde o sangue se acumula após o relaxamento da sua musculatura lisa. O fluxo sanguíneo para os corpos cavernosos é trazido pelas artérias peniana e cavernosa. A própria tumescência peniana comprime as vias de drenagem venosa, o que impede o escoamento do sangue e ajuda na manutenção da ereção. A inervação parassimpática, que vem dos plexos sacrais, é responsável pelo processo de ereção, enquanto os nervos da cadeia simpática, ao liberarem norepinefrina, levam à vasoconstrição e à perda da ereção. O relaxamento da musculatura lisa é regulado pelo aumento da concentração intracelular de GMP cíclico (GMPc). A produção desse mensageiro químico, por sua vez, é estimulada pelo óxido nítrico (ON), que é liberado principalmente pelas terminações nervosas parassimpáticas. O GMPc é metabolizado e inativado pela fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), que o transforma em GMP. Com isso as células musculares lisas dos corpos cavernosos se contraem e o fluxo de sangueé reduzido, o que leva à perda da ereção. Recentemente o papel do cálcio, cujo aumento de concentração intracelular dispara a reação da miosina com a actina, causando a contração do músculo liso, tem sido muito estudado, assim como os papéis dos canais da membrana celular que regulam Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 os fluxos de entrada e saída desse íon e de vias enzimáticas (RhoA, Rho quinase) que potencializam seus efeitos sobre a contração celular. O potássio, por sua vez, é um importante regulador dos níveis de cálcio intracelular. A compreensão desses processos já nos possibilita antever novas alternativas terapêuticas para a DE (ver sessão sobre terapia genética). Todo esse mecanismo depende do funcionamento adequado da inervação peniana, das artérias e veias, e de uma anatomia peniana intacta. Danos a qualquer uma dessas estruturas podem causar DE. Os nervos podem ser afetados por trauma (p. ex., na prática de ciclismo), ou irradiação (tratamento de tumores na região pélvica), ou patologia sistêmica (diabetes melito). Uma obstrução do fluxo arterial por doença aterosclerótica pode impedir a ereção. Anormalidades anatômicas e estruturais do pênis e dos corpos cavernosos, por patologias como a doença de Peyronie, ou como consequência de traumas físicos, também podem interferir nesse mecanismo. Modificações estruturais das moléculas de colágeno relacionadas ao processo de envelhecimento podem aumentar a vulnerabilidade da anatomia peniana a essas doenças. Fatores de risco e causas da disfunção erétil A DE é causada, 80% das vezes, por patologia orgânica, sendo que a etiologia mais comum é vascular. Os fatores de risco para doença cardiovascular também estão fortemente associados à DE. A lição mais importante que se depreende dessas observações é que “o que faz mal para o coração faz mal para o pênis”. Isso inclui hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, diabetes e tabagismo. Em um estudo multinacional envolvendo 27.500 homens entre 20 e 75 anos de idade, esses fatores de risco eram mais comuns naqueles com DE (Rosen (et al., 2004). O inverso também é verdadeiro, ou seja, a prevalência de DE é mais alta entre homens com esses mesmos fatores de risco, mesmo que eles não tenham sinais clínicos de doença vascular. Além disso, parece que a DE é um marcador de patologia cardiovascular nos seus estágios iniciais, muitas vezes antecedendo por vários anos eventos catastróficos como AVC ou IAM e também ocorrendo provavelmente antes que haja doença vascular obstrutiva peniana importante. A explicação fisiopatológica para isso seria a associação que existe entre DE e disfunção endotelial. O endotélio vascular é um tecido dinâmico que, quando normofuncionante, libera óxido nítrico (ON) em resposta a certos estímulos, como, por exemplo, aumento do fluxo sanguíneo, e a liberação de ON resulta em vasodilatação. Na disfunção endotelial essa liberação é deficiente, e a consequente resposta vasodilatadora arterial é insuficiente. Essa disfunção seria um evento precoce, ocorrendo nas fases pré- Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 clínicas, antes do aparecimento das alterações estruturais características da aterosclerose, tais como a deposição de placas. Existem dados que mostram uma forte associação entre DE e disfunção endotelial. Em pacientes que têm sinais clínicos de doença vascular obstrutiva, a DE é um marcador de gravidade. Um estudo sobre a ocorrência de DE em pacientes que foram submetidos a cintigrafia miocárdica para avaliação de doença arterial coronariana revelou que a DE está associada a marcadores de doença mais grave e de pior prognóstico. isso indica que, em pacientes com cardiopatia isquêmica, a ocorrência de DE deve ser ativamente pesquisada. A disfunção venosa, mesmo sem patologia arterial concomitante, ao provocar o escoamento de sangue pelas vênulas subtúnicas, pode impedir o desenvolvimento de pressões suficientemente altas nos corpos cavernosos, impossibilitando assim a manutenção de uma ereção rígida. Essa disfunção venosa pode ser consequência de trauma, da formação de fístula arteriovenosa, ou da doença de Peyronie. As doenças endócrinas mais comumente associadas à DE são o hipogonadismo, doenças da tireoide (hipo ou hiper), hiperprolactinemia, e o diabetes melito. As insuficiências renal e hepática são patologias sistêmicas metabólicas que causam DE. A hipertrofia prostática benigna também está associada a dificuldades com ereção. Não podemos deixar de lado a ansiedade, especialmente aquela ligada à pressão de desempenho, e a depressão, que parece ser uma causa mais importante em pacientes mais jovens. Doenças neurológicas são comumente associadas à DE entre idosos. As mais importantes são a neuropatia relacionada ao diabetes melito, sequelas de AVC e o mal de Parkinson. A prostatectomia radical, assim como outros procedimentos cirúrgicos menos extensos envolvendo órgãos da região pélvica masculina, pode causar dano neurológico e DE. A associação de medicações com DE merece um comentário à parte; essa é uma questão especialmente importante na população geriátrica. Mais de 100 medicações têm sido ligadas à DE, mas existem poucos estudos realmente confiáveis a respeito. As mais fortemente associadas ao problema são: anti-hipertensivos, especialmente diuréticos e agentes de ação central; digoxina, provavelmente pelos seus efeitos antiandrogênicos; estatinas e fibratos; bloqueadores do receptor H2, principalmente a cimetidina, mas também a ranitidina; existem relatos da DE relacionada a omeprazol; metoclopramida, certamente porque causa hiperprolactinemia, está ligada à disfunção sexual; analgésicos opioides. Quanto às medicações psicotrópicas, existem alguns dados surpreendentes: os antidepressivos tricíclicos na realidade têm pouca associação com DE, enquanto os Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 inibidores da recaptação de serotonina estão mais ligados a disfunção ejaculatória; já os neurolépticos têm uma associação clara com a DE. Os relatos de disfunção com benzodiazepínicos são, na verdade, bastante infrequentes. O álcool e, principalmente o alcoolismo, têm uma forte ligação com problemas sexuais. A DE é muitas vezes de origem multifatorial, mesmo entre aqueles com menos de 60 anos. De maneira geral, podemos afirmar que patologias vasculares e hipogonadismo são as causas mais comuns no grupo com mais do que 60 anos, enquanto depressão e problemas conjugais são mais importantes no grupo com menos do que 60 anos. Abordagem ao paciente Infelizmente, muitos homens não procuram ajuda médica para seus problemas na esfera sexual. Durante a consulta é comum esse tema não ser abordado pelo profissional de saúde. Uma pesquisa mostrou que 70% dos pacientes adultos de ambos os sexos consideravam que é adequado para um generalista abordar ativamente problemas sexuais durante a consulta. É importante que, no nível do atendimento primário, sejam feitas perguntas de triagem a respeito de possíveis problemas sexuais para todos os pacientes que possam ter vida sexual ativa. É particularmente importante que os pacientes que têm evidências de doença vascular, ou fatores de risco, também sejam interrogados sobre sua função erétil. Eles devem ser assegurados da natureza confidencial do que está sendo discutido, e as perguntas devem ser neutras. Existem também questionários escritos que podem servir como instrumentos de avaliação para detecção da DE, como o IIEF-5 (International Index of Erectile Function), que tem 5 perguntas, as quais são:1. Como classifica o seu grau de confiança em conseguir e manter a ereção? 2. Quando conseguiu atingir a ereção por estimulação sexual, quantas vezes é que essa ereção foi suficientemente firme para a penetração? 3. Durante as relações sexuais, quantas vezes conseguiu manter a ereção após a penetração? 4. Durante as relações sexuais, foi difícil manter a ereção até o final da atividade sexual? 5. Quando tentou ter relações sexuais, quantas vezes teve satisfação? Para cada uma dessas perguntas o paciente deve responder de acordo com uma escala de 5 níveis, com uma pontuação de 1 a 5, sendo que as pontuações mais baixas refletem pior função sexual. O escore final é o resultado da soma dos pontos de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 cada um dos itens. O ponto de corte para detecção de DE foi determinado como sendo resultados abaixo de 22. O IIEF-5 é um instrumento bastante simples, que pode ser respondido pelo próprio paciente, inclusive em um ambiente de atendimento primário. Uma vez determinada a presença da DE, é importante ter em mente que ela não é um diagnóstico em si, e sim a consequência de outras patologias. O passo seguinte, portanto, consiste na determinação de todos os fatores que podem estar contribuindo para DE no paciente em questão. A anamnese deve avaliar, além dos dados diretamente relacionados à disfunção, a história sexual e médica do idoso. Um dos objetivos é determinar se o problema é essencialmente disfunção erétil, ou se existe um componente de perda de libido. A ocorrência de depressão pode ser pesquisada aplicando-se instrumentos como a Escala de Depressão Geriátrica (EDG), por exemplo. O exame físico deve buscar evidências de patologia cardiovascular, depressão, ou evidências sugestivas de hipogonadismo, como atrofia dos testículos ou rarefação de pelos pubianos. O pênis deve ser examinado, buscando evidências da doença de Peyronie; um exame neurológico focal, que inclua a pesquisa dos reflexos cremasteriano e bulbocavernoso, também é importante. No caso do hipogonadismo, a aplicação de instrumentos de avaliação padronizados, como o questionário ADAM, pode auxiliar na sua detecção. Uma listagem das medicações em uso é fundamental. A avaliação laboratorial deve incluir no mínimo um hemograma e um painel bioquímico para detecção de diabetes, dislipidemias, nefropatia, hepatopatia, e tireoidopatia. Nos casos em que há suspeita de hipogonadismo, os níveis de testosterona livre ou biodisponível devem ser medidos, já que a dosagem da testosterona total não é confiável nesses casos; quando há suspeita de patologia da hipófise, os níveis séricos de LH e prolactina devem ser determinados. Eco Doppler das artérias penianas pode revelar a existência de vasculopatia obstrutiva. Pode-se testar, no próprio consultório, a resposta à injeção intracavernosa de papaverina ou de prostaglandina E 1 . Caso ocorra uma ereção satisfatória dentro de 15 min, que dure cerca de meia hora, é provável que a circulação arterial esteja intacta. Quando possível, a parceira sexual deve ser entrevistada. Os problemas relacionados à ereção costumam ter um impacto na relação do casal, mesmo entre idosos. Além disso, tratamentos que incluem a parceira têm maior chance de êxito. Tratamento Nos casos em que uma etiologia específica foi identificada, como depressão ou hipogonadismo, o tratamento da causa subjacente, por exemplo, com antidepressivos ou reposição hormonal, respectivamente, deve resultar em melhora da DE. Na maioria das Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 vezes, no entanto, a DE é de origem multifatorial, e seu tratamento exige a abordagem simultânea dos diversos fatores potencialmente envolvidos. Medicações que podem estar contribuindo para a DE devem ser suspensas, ou trocadas por outras, ou ainda ter sua dosagem diminuída. Doenças coexistentes, tais como a hipertensão ou o diabetes, devem ser tratadas. Os pacientes devem ser estimulados a fazer atividade física regular e a ingerir uma dieta com pouca gordura e sal, e a deixar de fumar, quando for o caso. Essas medidas, embora necessárias, às vezes são insuficientes ou levam tempo para surtir efeito; podemos então lançar mão dos tratamentos específicos para a disfunção erétil. Atualmente existem várias opções, que incluem tratamentos orais, reposição hormonal, injeções intracavernosas, aparelhos a vácuo e próteses penianas. Os inibidores da PDE5 (sildenafila, tadalafila, vardenafila) revolucionaram o tratamento da DE. Eles atuam aumentando os níveis de GMP cíclico na célula muscular lisa cavernosa, o que leva a seu relaxamento. Estudos com a sildenafila mostraram que ela melhorou a função erétil em 69% dos pacientes, incluindo indivíduos com um amplo espectro de comorbidades (inclusive diabetes), enquanto o placebo teve efeito em somente 18% (P < 0,001). Ela foi bem tolerada, com efeitos colaterais considerados modestos, tais como dor de cabeça, rubor facial e dispepsia. Esse perfil de efeitos indesejados é comum a todos os três inibidores de PDE5 disponíveis no mercado atualmente. Os três estão absolutamente contraindicados a pacientes que fazem uso de nitratos e àqueles com estenose aórtica grave e com cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva. Também se deve evitar seu uso em pacientes que estão sendo tratados com bloqueadores a. A vardenafila não deve ser dada a homens que fazem uso de antiarrítmicos pertencentes às classes IA e III, tais com amiodarona, sotalol ou procainamida, porque pode haver alargamento do intervalo QT. Essas medicações devem ser usadas com cautela quando existe insuficiência cardíaca congestiva. Para aqueles que têm evidências de coronariopatia alguns pesquisadores recomendam a realização de um teste de esforço “pré-Viagra” para detectar a presença de isquemia miocárdica. Caso o paciente consiga chegar a pelo menos 5 MET sem isquemia, o risco de angina durante o ato sexual é pequeno (Gorge (et al., 2003). Tanto a vardenafila quanto a sildenafila podem ter sua absorção intestinal prejudicada pela ingestão concomitante de alimentos gordurosos, e o efeito de ambas dura em torno de 5 h, enquanto o da tadalafila pode se estender por até 36 h. A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION) seria um potencial efeito adverso dessa classe de medicamentos, cuja existência vem causando polêmica: em 2005 e 2006 a FDA (braço do governo americano que regula a venda e Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 comercialização de medicamentos) registrou a ocorrência de cerca de 50 casos de NAION, aparentemente associados ao uso de inibidores de PDE5. Esses achados, no entanto, são contestados por ensaios clínicos epidemiológicos envolvendo milhares de homens, que revelam incidências de NAION de cerca de 2,8 casos por 100.000 anos- paciente, que é a incidência esperada na população em geral, independente de exposição a inibidores de fosfodiesterase. A apomorfina, que atua no nível das vias dopaminérgicas do sistema nervoso central, mostrou-se eficaz (embora menos do que os inibidores de PDE5) em diversos estudos nas doses de 2 e 4 mg. Ela é administrada por via sublingual. Os efeitos colaterais mais comuns foram náuseas, tontura, e bocejos persistentes. A trazodona é um antidepressivo cujo mecanismo de ação está ligado ao antagonismo da serotonina e à inibição de sua recaptação no sistema nervoso central; às vezes melhora a função erétil. O alprostadil é uma alternativa não oral. Ele consiste na administração de um “supositório” intrauretral que contém prostaglandina E. Pode haver dor local,sangramento uretral e, muito infrequentemente, hipotensão arterial sistêmica. A eficácia do alprostadil varia em torno de 50%; ele não deve ser usado se a parceira estiver grávida. Pode ser tomado em combinação com um dos inibidores de PDE5. Embora não haja uma correlação linear entre os níveis séricos de testosterona e a função erétil, a reposição hormonal androgênica pode ter um papel adjuvante no tratamento da DE, geralmente nos casos em que existe diminuição da libido, mesmo que não se configure completamente um diagnóstico de hipogonadismo. Alguns estudos demonstram que ela não só melhora a libido, como muitas vezes melhora a qualidade das ereções em homens idosos. A testosterona geralmente é administrada pela via transdérmica ou por injeção, porque os preparados orais são mais tóxicos. A policitemia é um dos efeitos colaterais mais importantes, mas não é muito comum. Não se sabe ainda se a administração de testosterona pode contribuir de algum modo para a formação de adenocarcinoma de próstata, mas ela provavelmente piora o prognóstico de pacientes com câncer prostático metastático. Hipertensão e retenção hídrica são infrequentes. Produtos transdérmicos podem causar irritação cutânea local. A aplicação intrapeniana de substâncias vasodilatadoras, por injeção, é mais eficaz do que qualquer agente oral, com obtenção de ereções em mais de 70% dos idosos testados. As substâncias mais usadas são a prostaglandina E 1 , a fentolamina, e a papaverina, algumas vezes combinadas em uma única injeção. Os efeitos colaterais mais comuns são dor local (20%), priapismo, hipotensão arterial sistêmica e, às vezes, fibrose. A alternativa cirúrgica (prótese peniana) é o tratamento mais bem-sucedido quando avaliado com base nos índices de satisfação por parte do paciente e do parceiro sexual. Existe um pequeno risco de infecção da prótese, de seu deslocamento ou erosão com Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 exteriorização. Elas podem ser de 2 tipos básicos: semirrígidas ou infláveis (Levine (et al., 2001). As desvantagens dessa última são a ocorrência de problemas mecânicos, que em alguns casos pode chegar a 30% após 5 anos, e o fato de que na população geriátrica alguns homens, por patologias diversas, tais como artrose das mãos ou doenças neurológicas que afetam a coordenação motora, podem não ser capazes de manusear o aparelho inflável. Um estudo que avaliou 447 homens, nos quais haviam sido colocadas 504 próteses, entre 1975 e 2000, concluiu que o nível de satisfação era de 81% (Minervini (et al., 2006). Entre as terapias experimentais, talvez a mais interessante seja aquela à base de inserção de material genético diretamente no pênis, com o intuito de aumentar a expressão de certos canais de membrana que regulam os fluxos de potássio, que, por sua vez (como já foi aludido), podem resultar na inibição da entrada de cálcio, acarretando relaxamento da musculatura lisa. Os estudos preliminares, em animais, têm tido resultados promissores. Viagra ➔ Citrato de sildenafila, ➔ Indicação: para o tratamento da disfunção erétil, que se entende como sendo a incapacidade de atingir ou manter uma ereção suficiente para um desempenho sexual satisfatório. Para que Viagra®nseja eficaz, é necessário estímulo sexual. ➔ Contraindicado para uso por pacientes em tratamento com medicamentos que contenham qualquer forma doadora de óxido nítrico, nitratos orgânicos ou nitritos orgânicos. Pacientes com riscos cardiovasculares aumentados. Hipersensibilidade ao citrato de sildenafila ou qualquer componente da fórmula. Pacientes que têm alta susceptibilidade a vasodilatadores incluem aqueles que apresentam obstrução do fluxo de saída do ventrículo esquerdo (por ex., estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva) ou aqueles com uma síndrome rara de atrofia de múltiplos sistemas, se manifestando como um controle autônomo da pressão sanguínea gravemente comprometido. ➔ Recomenda-se cautela na administração concomitante de sildenafila em pacientes recebendo α-bloqueadores, pois a coadministração pode levar à hipotensão sintomática em alguns indivíduos suscetíveis. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Existe um grau de risco cardíaco associado à atividade sexual. Portanto, os médicos podem requerer uma avaliação da condição cardiovascular dos seus pacientes antes de iniciarem qualquer tratamento para a disfunção erétil. ➔ Infarto do miocárdio, morte cardíaca repentina, arritmia ventricular, hemorragia cerebrovascular e ataque isquêmico transitório em associação temporal com o uso de Viagra® para a disfunção erétil. ➔ Foi demonstrado que a sildenafila tem propriedades vasodilatadoras sistêmicas que resultam em uma diminuição transitória na pressão sanguínea. ➔ O metabolismo da sildenafila é mediado principalmente pelas isoformas do citocromo P450 (CYP), 3A4 (via principal) e 2C9 (via secundária). Portanto, inibidores dessas isoenzimas podem reduzir o clearance da sildenafila e os indutores podem aumentá-lo. ➔ Mecanismo de Ação: Evidenciou-se que durante a estimulação sexual ocorre a ativação da GMPc, por aumento dos níveis de óxido nítrico no pênis, resultando na ereção peniana. Dessa forma, os medicamentos intensificam a ereção peniana, interrompendo a ação da fosfodiesterase de inibir a GMP cíclica, produzindo um relaxamento da musculatura lisa dos corpos cavernosos, permitindo o influxo de sangue. ➔ Quando a estimulação sexual causa a liberação local de óxido nítrico, a inibição da PDE-5 causada pela sildenafila aumenta os níveis de GMPc no corpo cavernoso, resultando no relaxamento da musculatura lisa e no influxo de sangue nos corpos cavernosos. ➔ Idosos – Voluntários sadios idosos (65 anos ou mais) apresentaram uma redução no clearance da sildenafila, resultando em concentrações plasmáticas aproximadamente 90% maiores de sildenafila e o metabólito ativo N-desmetil comparado àquelas observadas em voluntários sadios mais jovens (18-45 anos). Devido a diferenças de idade na ligação às proteínas plasmáticas, o aumento correspondente na concentração plasmática da sildenafila livre foi de aproximadamente 40%. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Polifarmácia em Idosos Hoje é um grande desafio para a geriatria prevenir e tratar os problemas típicos das pessoas de idade avançada, como a imobilidade, a instabilidade, a incontinência urinária, a insuficiência cerebral e a iatrogenia medicamentosa. Estima-se que 23% da população brasileira consomem 60% da produção nacional de medicamentos, principalmente as pessoas acima de 60 anos. No Reino Unido, por exemplo, os idosos recebem 39% de todas as prescrições médicas, embora eles representem apenas 18% do total da população. Os pacientes maiores de 65 anos têm 85% de enfermidades crônicas e 30% apresentam 3 ou mais enfermidades. Estas pessoas são o grupo de maior importância, já que representam 10- 13% da população suposta pelo consumo de 25-50% dos fármacos prescritos. Flaherty et al. (2000) divide e avalia tipos de polifarmácia da seguinte forma: de cinco a seis, de sete a nove e >10 medicamentos. Foi considerada a existência de polifarmácia quando o paciente consome 5 ou mais medicamentos, segundo critério utilizado pelo Centro Ibero-Americano para a Terceira Idade. As interações medicamentosas podem classificar-se em: ➔ Menor: os efeitos são usualmente leves, ocasionam poucas moléstias e podem passar inadvertidamente. Não requerem tratamento adicional; ➔ Moderada: podem produzir uma deterioração na situação clínica dospacientes, requerem associação de tratamento; ➔ Maior: os efeitos são potencialmente ameaçadores para a vida, capazes de produzir um dano permanente. Os analgésicos, medicamentos cardiovasculares, antidiabéticos orais, antidepressivos (AD) e outros medicamentos psicotrópicos (barbitúricos de ação curta, antipsicóticos), relaxantes musculares, antiarrítmicos e os antibióticos são os mais comumente inclusos na fatalidade de intoxicação por medicamentos em idosos. A ingestão de doses elevadas dos medicamentos por descuido (negligência, esquecimento), a identificação confusa do medicamento, a via incorreta de administração e o armazenamento impróprio estão entre os principais motivos de intoxicação não intencional em idosos. A polifarmácia está relacionada ao uso de pelo menos uma medicação sem prescrição médica num rol de prescrições supostamente necessárias. A iatrogenia medicamentosa configura o efeito patogênico de um fármaco ou da interação de vários fármacos. Esses fatores acabam levando a uma consequente intoxicação medicamentosa. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Iatrogenia Iatrogênico é um distúrbio ou uma doença que é provocado pelo tratamento médico (na maioria das vezes após os tratamentos prescritos). Em pacientes hospitalizados, verifica-se que a frequência de reações medicamentosas iatrogênicas é três a sete vezes mais observada nos idosos em relação aos mais jovens. O diagnóstico das complicações medicamentosas nem sempre é fácil, pois a sintomatologia pode ser inespecífica. Na dúvida, a conduta adequada é a suspensão da medicação. Mas, não raro, o que se observa é a prescrição injustificada de um outro fármaco, com o objetivo de controlar manifestações oriundas, justamente, do uso de medicamentos, estabelecendo, assim, uma cascata farmacoiatrogênica. Outro ponto a ser destacado é que nem sempre o idoso segue adequadamente o tratamento pretendido. Os erros na ingestão ou a abstenção de medicamentos podem ser tanto voluntários (a chamada transgressão terapêutica) quanto oriundos de ignorância, dificuldades visual e auditiva e confusão mental. Ao prescrever medicamentos para idosos, o médico deve: ➔ Considerar a real necessidade do uso do medicamento; ➔ Não prescrever medicamentos que não sejam realmente úteis, principalmente aqueles com incidência elevada de efeitos colaterais; ➔ Avaliar se a dose do medicamento é a mais apropriada para as possíveis alterações do estado fisiológico do paciente, considerando as funções renais e hepáticas do momento; verificar a forma farmacêutica mais indicada; ➔ Observar se a embalagem é a mais indicada para o idoso, levando em conta suas dificuldades; ➔ Evitar, sempre que possível, o uso de medicamentos para tratar os efeitos colaterais de outra medicação; ➔ Ter sempre em mente a possibilidade de interação com substâncias que o paciente possa usar sem o conhecimento do médico, incluindo fitoterápicos, medicamentos não controlados, sobras de medicamentos obtidos de amigos; ➔ Usar associações fixas de medicamentos só quando estas forem lógicas, bem estudadas e auxiliem a aceitabilidade ou melhorem a tolerância e a eficácia; Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 ➔ Tentar verificar se o paciente aceita e segue corretamente o tratamento Fatores de risco de reações adversas medicamentosas (RAM) no idoso Idade avançada, sexo feminino, número elevado de fármacos, maiores doses e tratamentos prolongados, reações adversas prévias, enfermidades subjacentes, valoração clínica inadequada, mau cumprimento terapêutico (apego terapêutico), automedicação, estado nutricional alterado, alterações em farmacocinética e, farmacodinâmica: um terço das RAM são dependentes das doses. A classificação clínica das interações medicamento- sas mais completa e prática é apresentada pelo Departamento de Farmacologia do Hospital Huddinge de Estocolmo, Suécia. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 Metabolismo no idoso As trocas fisiológicas pela idade alteram a distribuição, metabolismo e excreção de fármacos porque modificam a ação destes e afetam sua concentração no sítio receptor. Desde a ingestão já podem apresentar problemas. A diminuição da saliva e as alterações no peristaltismo do estômago podem ocasionar que o fármaco fique aderido à mucosa, causando uma lesão local. O pH do estômago dos idosos é menos ácido e seus sucos gástricos menos abundantes, por isso, a absorção de medicamentos sofre alterações. Absorção: apesar de haver diminuição do intestino delgado com a idade, não parece haver trocas importantes com esta função. A diminuição de ácido, a diminuição da perfusão do trato gastrointestinal e, possivelmente, a diminuição do transporte ativo da membrana conduziriam a uma absorção deficiente. Assim devido ao trânsito mais lento, o fármaco permanece mais tempo em contato com a superfície de absorção, obtendo-se um balanço e a compensação. Distribuição: no idoso diminui a massa magra (muscular), aumenta o tecido adiposo e diminui a água no organismo (medicamentos solúveis em lipídeos ou em água); diminuem os níveis de albumina sérica, porque fármacos ligados a proteínas terão distribuição distinta. Metabolismo: ocorre diminuição da massa hepática. Portanto, decresce a depuração hepática em 30%; deteriora-se o metabolismo de oxidação; diminui o metabolismo de conjugação e o fluxo sanguíneo hepático é diminuído. O metabolismo pré-sistêmico do fígado pode afetar alguns fármacos e condicionar o aumento de Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 concentração no plasma (propranolol, verapamil, lidocaína); em contrapartida, outros fármacos não são afetados (imipramina, amitriptilina, morfina, meperidina). Biodisponibilidade: O sistema microssomial enzimático do fígado encarrega-se de produzir metabólitos menos ativos e menos lipossolúveis para diminuir a quantidade total de fármacos na circulação e, assim, baixar a quantidade utilizável para interações com os órgãos. Eliminação: alguns fármacos produzem metabólitos ativos como: benzodiazepínicos (diazepam); antidepressivos de aminas terciárias (amitriptilina e imipramina); tranquilizantes maiores (clorpromazina, tioridazina, exceto o haloperidol); analgésicos opioides (morfina, meperidina, propoxifeno. No caso destes metabólitos ativos se acumularem por eliminação renal deficiente, provocam toxicidade). A massa e fluxo renais diminuem significativamente com a idade e, portanto, a infiltração glomerular declina e também a função tubular, ocasionando uma deficiência na eliminação renal de fármacos. Por exemplo a gentamicina, que se depura totalmente no rim, pode ser tóxica se o paciente for idoso. Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2016 O paciente geriátrico pode apresentar alteração das seguintes funções gastrointestinais: ➔ Aumento do pH gástrico, devido à redução da produção basal e máxima de ácido clorídrico, alterando a ionização e a solubilidade de certos fármacos; ➔ Redução do fluxo sanguíneo visceral, retardando ou reduzindo a absorção dos fármacos; ➔ Redução do esvaziamento gástrico, retardando a absorção e/ou aumentando a degradação de fármacos devido ao tempo prolongado de contato com o ácido clorídrico; ➔ Aumento da incidência de divertículos, o que provoca maior frequência de síndromes de má absorção e a redução do efeito da primeira passagem hepática, aumentando a biodisponibilidade de fármacos na circulação sistêmica. Quanto à distribuição de fármacos, o paciente idoso pode apresentar