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Olá pessoal, eu me chamo Gabriela Fontenelle, sou juíza federal no âmbito do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, atualmente lotada no estado do Ceará, minha terra natal, e hoje vou conversar com vocês sobre a disciplina de direito ambiental, mais especificamente sobre o tema que envolve os princípios do direito ambiental. Portanto, nossa temática principal, como dito, se trata dos princípios de direito ambiental e a nossa legislação, hoje a ser estudada, se trata da Constituição Federal e da Lei 69.381, que é exatamente a lei da política nacional no meio ambiente. Esses dois dispositivos, eles tratam dos princípios, tanto de forma expressa como implícita, tá certo? Os principais, então, princípios que nós temos nessa disciplina, tão relevante que tem ganhado cada vez mais espaço no âmbito do direito ambiental. Sendo assim, eu relembro aqui a vocês aquela ideia, né, que já é tão conhecida aí na nossa doutrina e também na jurisprudência, no sentido de os princípios serem entendidos também como espécies do gênero norma jurídica. Então, nós temos as normas regra e temos as normas princípio. Como diria Robert Alexi, eles são mandados de otimização, ou ainda, como diria Celso Antônio Bandeira, são aqueles mandamentos nucleares de um sistema. E trouxe ainda a definição de canotilho, que nos traz que os princípios são núcleos de condensações. Então, nós estamos aqui diante de espécies do gênero norma jurídica, que são mais abrangentes do que as normas regra e que ditam, portanto, diversos comportamentos, digamos assim, importantes a serem respeitados dentro do nosso ordenamento jurídico, Então, no âmbito da nossa disciplina de direito ambiental, eu começo destacando com vocês a importância do princípio do desenvolvimento sustentável. Então, esse é o princípio basilar do nosso direito ambiental e esse princípio, ele nos diz o quê, certo? Esse princípio, ele tem como fundamento e aprego a harmonia entre o desenvolvimento econômico e a preservação do meio ambiente. Então, quando a gente fala em desenvolvimento sustentável, a gente está diante desse binômio que envolve desenvolvimento em crescimento econômico, porém, envolve também a necessidade de preservação do meio ambiente. Portanto, pessoal, nós iremos aqui estar diante de uma necessidade de equilíbrio. Como é que a gente vai poder satisfazer as necessidades das gerações presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de usufruir, e do meio ambiente? É uma ideia que a gente chama de solidariedade intergeracional. Então, se vocês estiverem diante dessa expressão, numa prova, num concurso, que fala em solidariedade intergeracional, ela é uma consequência do princípio do desenvolvimento sustentável, portanto, uma consequência do equilíbrio desse binômio, tá certo? Eu trouxe aqui no material, como registro para vocês, que esse princípio do desenvolvimento, o desenvolvimento sustentável, ele contou, digamos assim, com uma evolução, tá certo? Normativa e, sobretudo, uma evolução que pode ser muito bem observada na realização de conferências internacionais, que marcaram muito bem a definição e, portanto, a evolução desse princípio. Eu coloquei aqui os círculos vintenários, porque esse espaço de 20 anos é o que separa as principais conferências, ambientais, que cuidaram do princípio do desenvolvimento sustentável. Então, a primeira delas, em 1972, a Conferência de Estocolmo, foi a primeira que trouxe essa noção de que o desenvolvimento econômico, ele deveria estar preocupado com a preservação do meio ambiente. Foi aí, então, que se começou a pensar no meio ambiente, não apenas como uma forma de auxiliar o crescimento econômico, mas sim de uma forma com que nós passássemos a nos preocupar realmente com a sua preservação. O meio ambiente não deixava de ser visto como, digamos assim, um objeto somente explorável, como um meio explorável, para ser um meio também de proteção e um meio de preservação. 20 anos depois, nós tivemos a Eco 92, que foi realizada no Rio de Janeiro, portanto, em nosso país, que veio a tratar, novamente, desse princípio, trazendo, então, todo o tratamento que tinha sido dado a ele pelos países participantes da Conferência de Estocolmo nos últimos 20 anos. Então, foram discutidas diversas ações a serem implementadas nos próximos 20 anos e o terceiro ciclo vintenário, nós temos com a Rio+, em 2012, que discute mais uma vez as ações dos últimos 20 anos. Portanto, 1972, 1992, 2012, são grandes marcos em termos internacionais para esse princípio do desenvolvimento sustentável. Então, traçadas as principais linhas sobre esse princípio basilar, nós podemos passar agora ao princípio do meio ambiente ecologicamente equilibrado. Esse princípio, ele é de suma importância porque ele está previsto na nossa Constituição Federal, no artigo 225. O artigo 225. O artigo 225 da Constituição é exatamente o artigo que vai trazer as principais disposições constitucionais e que vão aí desbordar também os aspectos legais atinentes a toda a regulação do meio ambiente. E o artigo 225, ele traz exatamente a necessidade, então, de uma preservação desse meio ambiente de uma forma ecologicamente equilibrada. Tá certo? Ele é chamado por parte da doutrina, esse princípio, de mínimo existencial ecológico, tá certo? Então, as disposições aqui do 220, elas são chamadas de mínimo existencial ecológico e elas apregam a necessidade de manutenção do que a gente chama de quatro espécies de meio ambiente, o natural, o artificial, o cultural e o laboral do trabalho, certo? Na verdade, o meio ambiente, ele é um só. Ele se divide nessas espécies para que a gente consiga fazer uma melhor compreensão de cada uma delas, de cada um dos aspectos que a envolvem, né? Mas, de toda sorte, o meio ambiente é um só, como um só, ele precisa dessa proteção macro que é trazida pelo artigo 225. Inclusive, o doutrinador José Afonso da Silva, em seu livro Direito Ambiental Constitucional, tá certo? Que é uma obra referência aqui sobre esse tema, ressalta que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, ele é, um direito fundamental, ainda que não esteja expressamente previsto no rol de direitos fundamentais, tá certo? E, sobre isso, o STF já se manifestou, concordando, então, com o José Afonso da Silva nesse mesmo sentido, tá bom? Passando ainda adiante, ainda no âmbito da nossa Constituição Federal, do artigo 225, nós temos os princípios da prevenção e da precaução. Desde o primeiro momento, aqui do nosso material, eu destaco pra vocês que esse princípio é de extrema relevância, sobretudo porque ele cai muito em concursos, né? No sentido de que a gente saiba diferenciá-los. Então, qual é a principal distinção que é feita pela doutrina e pela jurisprudência acerca dos princípios da prevenção e da precaução? Bom, o principal critério de diferenciação é a questão da certeza científica. A identificação, a identificação de risco ao meio ambiente em relação àquela atividade que será exercida. Então, se eu tenho uma determinada atividade e há uma dúvida, né, a respeito se ela causa ou não algum dano ao meio ambiente, então eu aplico o princípio da precaução. O princípio da precaução é para aqueles casos em que não há certeza científica do risco da atividade. Por outro lado, se há certeza científica desse risco, então aplica-se o princípio da prevenção. Então, como resumo, ao final aqui dessa página eu trago para vocês. Prevenção é para os casos de riscos certos e conhecidos pelo homem. Já a precaução a gente utiliza para proteger o meio ambiente diante de uma incerteza científica quanto aos riscos que a atividade pode produzir. E quando eu disse da previsão também desse princípio, ou aqui desses princípios no âmbito da Constituição Federal, hoje se fala que o inciso 4 do parágrafo 1º do artigo 225, que eu vou mostrar para vocês, ele traz uma disposição expressa acerca do princípio da precaução. Então, eu vou ler aqui com vocês, né, o 225 trata daquele princípio anterior que nós vimos, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povoé essencial, a assadia, qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações, exigindo-se na forma da lei para a instalação de atividade ou obra potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente e estudo prévio de impacto ambiental. Então, aqui a ideia é, se eu tenho uma atividade que é potencialmente causadora, eu não tenho certeza se ela vai causar, então, estou diante aqui do princípio da precaução, né, então, às vezes as provas fazem um tipo de pegadinha, né, misturam aqui os termos para saber qual é o princípio que está sendo tratado nesse inciso quarto. E agora vocês já sabem que se trata do princípio da precaução, porque quando eu falo em atividades potencialmente causadoras, é porque eu não tenho certeza se essas atividades geram risco ou não. Bom, eu trouxe aqui uma observação, uma observação para vocês, né, fruto de uma reflexão doutrinária que é um pouco mais profunda, que pode principalmente ser utilizada em provas discursivas, que tem um nível de complexidade um pouco maior, e que trata da gente, a necessidade de a gente avaliar a utilização desses princípios, em que sentido? Se todas as vezes que eu não tiver certeza se aquela atividade vai causar meios, vai causar danos ao meio ambiente, eu proibi-la, eu coibi-la, eu posso estar paralisando uma evolução, um crescimento de situações que são necessárias para a vida hoje, né, para o mundo em que a gente vive. Então, a gente tem que observar também o cuidado, claro, de prevenir, precaver tudo que for necessário, mas quando não há certeza científica e quando não há qualquer estudo, né, revelando que aquela atividade vai causar, um tipo de problema real, então também não se deve coibi-la como um todo, tá certo? Então, eu trouxe até para vocês um exemplo de uma atividade extremamente importante em que não há uma certeza científica acerca dos seus efeitos para o meio ambiente, que é a telefonia celular, né? Hoje a gente sabe que é impossível nós vivermos no mundo em que nós estamos hoje de tecnologia sem o telefone celular, tá certo? Então, não se tem certeza. Acerca dos efeitos da radiação sobre a saúde humana, sobre o meio ambiente, não dá para dizer se ela efetivamente atrapalha o desenvolvimento das espécies, se ela causa um dano mais efetivo à saúde humana. Então, nesse caso, o STF já decidiu que não dá para barrar esse tipo de atividade tão somente pelo receio do que ela possa vir a causar futuramente, tá certo? Eu trouxe aqui o registro para vocês também de que esses princípios eles estão previstos na declaração da ECO 92, que nós tratamos aqui no início da aula. Então, são princípios que a comunidade internacional também adota e respeita, tá certo? Então, o princípio da prevenção está previsto aqui como princípio 2 da declaração e a precaução está aqui no princípio 15. E mais uma vez, se referindo à ausência de absoluta certeza científica a respeito dos danos causados. Em relação ao que eu coloquei também anteriormente para vocês sobre a versão forte do princípio da precaução, ou seja, sobre a gente observar de fato a necessidade de utilizá-lo, o STF, quando julgou exatamente a lei 11.934 de 2009, ele teve que resolver se o princípio da precaução teria sido violado por essa lei. E essa lei dispõe sobre os limites de exposição humana a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos. E o que é que o STF resolveu? Que o princípio da precaução, portanto, não é absoluto. E sua aplicação não pode gerar temores infundados, devendo o Estado agir de forma proporcional, com prudência, tá certo? Diante das incertezas que reinam num campo científico. Então, foi isso. Que restou decidido. pedido. Avançando, nós temos um princípio, dois princípios previstos agora numa legislação infraconstitucional muito importante que é a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, que é a Lei 6938, que são os princípios do poluidor pagador e o princípio do usuário pagador. Então, o princípio do poluidor pagador, ele tem previsão no artigo 4, inciso 7 dessa lei e fala da imposição ao poluidor e ao predador da obrigação de recuperar e ou indenizar os danos causados, tá certo? Então, a ideia do princípio do poluidor pagador é justamente de que o poluidor, ele deve suportar as despesas e os revéses da atividade que exerce, que é o que a gente chama de externalidades negativas, tá certo? Na prática, né, não deveria ser considerado um sinônimo de poluidor pagador. O direito de pagar para ter direito de poluir, tá certo? Mas a gente sabe, claro, que infelizmente, muitas vezes, por conta mesmo da dificuldade aí de fiscalização administrativa dessa exploração, né, acaba, digamos, caindo muito nessa máxima do cotidiano, né? A pessoa tá pagando para ter o direito de poluir. Teoricamente, não deveria ser dessa forma. Mas, é... E é o que eu registro para vocês, inclusive, né, que a falta de fiscalização acaba permitindo esse direito de poluir. E trago também a observação de que no âmbito internacional, nós temos os créditos de carbono, e aí já vale aqui uma conexão da nossa disciplina com o ambiental internacional. Ou os créditos de carbono, né, são casos, são casos em que países desenvolvidos muito poluidores, altamente poluidores, eles compram o seu direito de poluir, e essa compra, ela é feita... Ela é feita com a correspondente responsabilidade de um país menos poluente, muitas vezes menos desenvolvido, para que ele continue protegendo o meio ambiente. E eu não sei se vocês sabem, que hoje o Brasil é um dos maiores vendedores de créditos de carbono, né? O Brasil ganha um dinheiro com isso, e os Estados Unidos são dos maiores, ali na lista dos maiores compradores, tá certo? A nossa interneiço é uma reflexão aqui, para que vocês façam também, não deixa de ser uma violação desse princípio do poluente, do poluidor, pagador, já que eu pago, né, para que outro país, neste caso, proteja o meio ambiente. Bom, em relação ao princípio do usuário pagador, que é a outra faceta, a parte final lá daquele dispositivo que nós estávamos vendo, ele apregou que os bens ambientais, né, a ideia desse princípio é que os bens ambientais, eles são finitos, assim, o usuário desses bens, ele deve arcar com o mundo financeiro mínimo, para a sua utilização, abrindo, assim, a possibilidade de o Estado aplicar instrumentos econômicos, tá certo? Para que o uso e aproveitamento desses bens, então, satisfaçam as necessidades da coletividade. E aí, eu trouxe para vocês aqui o exemplo do pagamento de fatura para fornecimento de água, de esgoto. Então, quando falamos do usuário pagador, nós não estamos falando de alguém que está poluindo, diferentemente do poluidor pagador, que assume os riscos da sua atividade. O que nós estamos falando de nós mesmos, né, enquanto usuários dos serviços mínimos, que a gente precisa para sobreviver, mas entendendo que esses recursos, esses recursos naturais, eles são finitos, então, o usuário é chamado a arcar com o mundo financeiro de pagamento pelo seu uso. Então, essa é a ideia do princípio do usuário pagador. O princípio do protetor recebidor, ele é um princípio novo aqui que eu trouxe para vocês, né, que ele, digamos, tem começado a ser tratado na doutrina há menos tempo, mas já foi objeto aí de provas de concurso, e ele apregou o quê? Que a pessoa que protege, além do que é obrigado pela lei, que ultrapassa os limites de preservação, ao qual estaria obrigada, essa pessoa, ela deve ser recompensada. Então, é uma forma de permitir que a legislação, ela crie instrumentos que podem ser tributáveis, tributários, sociais, que busquem recompensar aquele protetor, ou seja, aquela pessoa que protege, além do que ela seria obrigada a proteger, tá certo? Então, a ideia do princípio do protetor recebidor é esse, e um exemplo mundialmente famoso é o da água Perrier, aquela água verdinha, né, que é uma água francesa muito conhecida em todo o mundo pelo seu alto grau de pureza, e nessa região se aplica, a ideia do protetor recebedor, eles lá recebem para preservarcada vez mais aquela área, para que a área, né, possa ter, então, um grau de pureza muito grande que reflita na qualidade, então, da água. Aqui eu conto um pouco mais da história da água mineral Perrier que vocês podem encontrar, então, no material. Portanto, pessoal, em relação a esse exemplo da água Perrier, né, eu trouxe até para vocês de forma mais específica, essa ideia de que a maior parte das fábricas que faz o envase da água mineral Perrier, ela está na base dos morros, e ao longo da subida do morro, há diversos proprietários que são obrigados a preservar uma parte da margem de legislação, só que essa preservação não garante a pureza da água que é invadada embaixo. Então, a indústria paga os proprietários para que eles protejam, além do que são obrigados. Então, eles protegem o meio ambiente e recebem por isso. Esse é o exemplo clássico do princípio. O princípio do protetor recebedor, e é muito importante deixar claro que esse princípio não é apenas um instrumento voltado, né, do poder público para a sociedade, pois a sociedade como um todo pode criar instrumentos de interação com base nesse princípio do protetor recebedor. Então, pessoal, esses eram os principais princípios que eu gostaria de ter conversado com vocês e espero revê-los numa próxima oportunidade. Até mais.