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REEDUCAÇÃO FUNCIONAL TREINO DE MARCHA COM OU SEM DISPOSITIVOS Prof. Dr. Rubens dos Santos Rosa TREINO DE MARCHA COM E SEM DISPOSITIVOS AUXILIARES Como já visto em disciplinas anteriores, a marcha humana é uma complexa tarefa motora, promovendo inúmeras contrações musculares em diversos segmentos do corpo, formando movimentos cíclicos, denominados de ciclo da marcha1, 2. No padrão normal da marcha, nós encontramos a fase de apoio, dividida em 5 fases/períodos: FASES DO CICLO DA MARCHA FASE DE APOIO (FASE INICIAL) É SUBDIVIDIDA EM 5 FASES/PERÍODOS: 1- Contato inicial: quando o pé toca o solo (calcâneo) 2- Resposta à carga: é o tempo de apoio duplo, quando os 2 pés estão sobre o solo fase de recebimento do peso do corpo 3- Meio apoio/Apoio médio: o centro de gravidade se move sobre o pé, e o membro suporta todo o peso sobre o corpo 4- Final do apoio/Apoio terminal: começa com o centro de gravidade diretamente acima do pé e termina quando o calcanhar se eleva do solo e o pé oposto toca o solo 5- Preparação para oscilação/Pré balanço: outro período de apoio duplo, quando o pé está prestes a elevar-se e o membro oposto aceita cada vez mais carga ROSE e GAMBLE (2007) FASES DO CICLO DA MARCHA FASE DE OSCILAÇÃO/BALANÇO (FASE FINAL) É SUBDIVIDIDA EM 3 FASES/PERÍODOS: 1- Início da oscilação/Balanço inicial: quando o pé deixa deter contato com o solo e continua com flexão de joelho 2- Meio da oscilação/Balanço médio: começa com o joelho em flexão máxima e termina quando o membro está perpendicular ao solo 3- Fim da oscilação/Balanço final (desaceleração): começa com o membro perpendicular ao solo e termina quando o pé entra de novo em contato com o solo ROSE e GAMBLE (2007) A fase de apoio/fase inicial representam 60%, enquanto a fase de oscilação/fase de balanço representa 40% do ciclo da marcha1. A marcha normal, requer um perfeito funcionamento entre o sistema nervosa central e o sistema musculoesquelético1, 2. MARCHA ANORMAL (PATOLÓGICA) Marcha normal: toque do pé no solo acontece com o calcanhar Marcha patológica: pode ocorrer com outras partes do pé Qualquer alteração no padrão normal de marcha, poderá ser considerado uma marcha anormal ou até mesmo uma marcha patológica4. Essas alterações podem ocorrer devido anormalidades como: Encurtamento do membro inferior, Anquilose ou limitação de amplitude de movimento, Instabilidade articular Marcha antálgica (auto-protetora). Déficits neurológicos de origem central como: Hemiplegia Espasticidade Atáxia Parkinson Lesões neurológicas periféricas que afetem a musculatura extensora do quadril, glúteo médio, quadríceps, flexores plantares dos dedos e tríceps sural. Doenças reumatologias, Traumas Déficits circulatórios podem ser responsáveis por alterações na normalidade da marcha de nossos pacientes5. Portanto, devido a alta complexidade da marcha e inúmeras disfunções que afetam esse ciclo normal é comum na prática diária dos Fisioterapeutas encontrarmos pacientes com algum déficit e a necessidade na utilização de dispositivos que auxiliam na deambulação desses pacientes. Esses dispositivos são conhecidos como; Bengalas Muletas Andadores Outro dispositivo que talvez não possa ser considerado como um dispositivo auxiliar de marcha, mas em caso mais extremos é a utilização da cadeira de rodas. A prescrição desses dispositivos são indicado em casos para: Melhora do equilíbrio (exemplo em casos de pacientes idosos que tem uma diminuição do equilíbrio por uma diminuição de força muscular e déficit proprioceptivo com o envelhecimento), Diminuição da dor, Fraqueza muscular (pacientes com fraqueza muscular pode apresentar déficit proprioceptivo e o uso desse auxiliares, pode auxiliar na fase inicial da reabilitação), Instabilidade articular (em casos de instabilidade os dispositivos pode agir como um protetor, evitando novas lesões como entorse) e/ou eliminação total e parcial de descarga de peso em membros inferiores (MMII) (em fases de reabilitação, como por exemplo pacientes que utilizaram fixadores externos (Ilizarov) é importante uma descarga parcial para uma melhor consolidação óssea, evoluindo gradativamente para uma descarga total do peso corporal sobre os membros inferiores). Bengalas As bengalas podem ser fabricadas em alumínio, madeira ou até mesmo de algum material plástico (pouco utilizada). A sua principal função é aumentar a base de apoio, consequentemente aumentado o equilíbrio e diminuído a descarga de peso sobre os membros inferiores. Estudos apontam, que um paciente com 80 kg em apoio unipodal (apoio sobre uma única perna), a descarga de peso sobre o membro apoiado é de aproximadamente 200kg. Com a utilização de uma bengala sobre o membro apoiado, essa descarga de peso é de aproximadamente 80 kg (figura 1). Tipos de Bengalas Bengala Padrão Material: Alumínio, madeira ou plástico. Apoio semicircular para as mãos. Ponto distal de 2,5 cm ou maior (apoio da bengala). Vantagens: mais barata e adapta-se a escadas; Desvantagem: Não ajustável e apresenta ponto de apoio em posição anterior à mão. Bengala padrão ajustável Mesmo design da bengala padrão Permite o ajuste da altura Tamanho geral entre 68 a 98 cm Vantagens: Ajuste rápido, leve e se adapta escadas Desvantagem: Ponto de apoio em posição anterior à mão e mais cara em relação à convencional Bengala de quatro (4) apoios Material: Alumínio Tipos: Bengala de quatro apoios de base larga e de base estreita Tamanho geral entre 71 a 91 cm Vantagem: Propicia um apoio de base larga (tamanhos variados) e facilidade de ajuste; Desvantagem: Dependendo do modelo, a pressão aplicada pela mão pode não ficar centralizada, gerando instabilidade, dificultando a marcha Como ajustar uma bengala? 15 cm de distância da borda lateral dos artelhos (pé) Altura: trocânter maior ou ângulo do cotovelo flexionado ± 20o a 30º Flexão do cotovelo permite que o braço estenda ou se flexione durante as fases distintas da marcha e proporcione um mecanismo de absorção do impacto e se ajuste a diferentes irregularidades do piso. Mas quando o comprometimento for bilateral, devemos levar em consideração o conforto do paciente (o que ele se sente melhor), lado em que apresenta maior equilíbrio, maior segurança ou diferença entre as mãos (ex.: pacientes com sequelas de AVE). Orientação ao paciente para utilização da bengala A bengala e o membro acometido avançam simultaneamente e deve-se permanecer próxima do corpo, não ultrapassando a direção do médio pé do membro afetado. MIE = Membro Inferior Esquerdo MULETAS As muletas são utilizadas para promover um maior equilíbrio, aliviando parcialmente ou totalmente a sustentação do peso corporal sobre os membros interiores (MMII), aumentando também a base de apoio melhorando a estabilidade e permitindo que os membros superiores também sejam responsáveis pela distribuição do peso corporal. Tipos de Muletas Auxiliares Material: alumínio ou madeira leve Design: barra axilar, apoio de mão e hastes duplas unidas distalmente por uma única perna, cobertura por uma ponteira (3,75 cm a 7,5 cm) Perna única, permite variações de altura. Tamanho geral: 1,2 a 1,5 m (tamanhos infantis e extralongas) Vantagens: melhoram equilíbrio e estabilidade lateral; sustentação restrita de peso; facilidade e custo. Desvantagem: perigosas em áreas pequenas, ambientes populosos. Como ajustar as muletas? Paciente em decúbito dorsal ou em pé Aproximadamente 5 cm abaixo da axila. Durante a medição, a extremidade distal deve repousar em um ponto 15 cm anterior ao pé. Apoio da mão e ombros relaxados, apoio deve permitir 20º a 30º de flexão de cotovelo. Posição em decúbito dorsal toma-se a medida desde a borda axilar anterior até uma superfície de apoio a uma distância de 5 a 7,5 cm da borda lateral do tornozelo. Tipos de Muletas Muletas Canadenses Material: alumínio Design: Hastes únicas, braçadeiras para antebraço e apoio de mão Tamanho: 74 a 89 cm Vantagens: braçadeiras permite uso das mãos sem que a muleta seja solta; são fáceis de ajustar e possibilitam atividades funcionais; Desvantagens: proporcionam menos apoio devido à ausência da barra axilar. Ajustes para muletas canadenses Em pé: a extremidade distal da muleta deve ser posicionada em um ponto a 5 cm lateral e 15 cm anterior do pé. Com ombros relaxados, deve-se ajustar a altura de modo a permitir 20o a 30o de flexão do cotovelo. Braçadeira 1/3 proximal do antebraço, 2,5cm a 3,75cm abaixo do cotovelo. Tipos de Marchas com as muletas Marcha de três pontos: utilizada quanto se requer a ausência de sustentação de peso em um dos membros inferiores. Figura 2: Marcha de três pontos Marcha com sustentação parcial de peso É uma modificação do padrão de 3 pontos; Durante a progressão do membro afetado para a frente, o peso é sustentado parcialmente por ambas as muletas e pelo membro afetado. Enfatizar uma progressão normal; Figura 3: Marcha com sustentação parcial de peso Marcha de quatro pontos Padrão de marcha lenta e estável. Peso é sustentado por ambos os MMII. Tipicamente usado em caso de comprometimento bilateral (falta de equilíbrio, coordenação e fraqueza muscular). Marcha de dois pontos: Semelhante a de quatro pontos, porém é menos estável e a muleta direita avança simultaneamente ao MIE e assim sucessivamente. Requer equilíbrio melhor Simula a marcha normal, uma vez que realiza dissociação de cinturas. Cadeira de Rodas A cadeira de rodas é considerada uma órtese móvel, com a finalidade de sustentação para ajudar a deter o efeito das forças deformantes ou estruturas debilitadas sobre o funcionamento do sistema, ajudando na reintegração das funções quando possível. Ela é constituída de; Assento; Encosto; Cinto de segurança (em alguns casos); Apoio para os braços Pranchas de colo (uma espécie de mesa, utilizada por exemplo para alimentação); Apoio para os pés Quando possível, os pacientes devem ser capazes de conduzir a própria cadeira, travar rodas, ajustar os pedais, Remover/colocar apoios de braço, subir e descer degraus. Todo esse treinamento deve ser realizado pelo fisioterapeuta, melhorando a qualidade de vida do paciente que por alguma fase da reabilitação ou aqueles pacientes que farão uso permanente dessa. Benefícios fisiológicos em relação a pacientes que permanecem imóveis (exemplo pacientes acamados) Melhora da circulação sanguínea, Diminuição da fadiga, Diminuição da ocorrência de feridas provenientes da permanência por longos períodos em uma mesma posição, Diminuição da ocorrência de osteoporose, Evita formação de desvios da coluna vertebral, Facilita a utilização de sondas (na posição deitada), evitando manipulação excessiva ou transporte do paciente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1.Morais Filho MC, Reis RAd, Kawamura CM. Avaliação do padrão de movimento dos joelhos e tornozelos durante a maturação da marcha normal. Acta Ortopédica Brasileira. 2010;18:23-25. 2.Rose J, Gamble JG. Marcha humana. São Paulo: Premier. 1998. 3.Magee DJ. Avaliação musculoesquelética: Editora Manole; 2005. 4.Lacuesta JJS, Prat J, Sánchez-Lacuesta J. Biomecánica de la marcha humana normal y patológica: Instituto de Biomecánica de Valencia; 1993. 5.Perry J. Análise de Marcha, v. 1, 2 e 3: Marcha patológica: Barueri.