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Identificação das principais bactérias de interesse clínico Meios de cultura e características bacterianas Seção 2 de 7 Uma população de bactérias cultivadas em laboratório é chamada de cultura. Uma cultura pura contém apenas um único tipo; uma cultura mista contém duas ou mais bactérias diferentes. Se uma cultura bacteriana for deixada no mesmo meio por muito tempo, as células esgotam os nutrientes disponíveis, excretam metabólitos tóxicos e, eventualmente, toda a população morre. Assim, as culturas bacterianas devem ser transferidas periodicamente ou subcultivadas para novos meios a fim de manter o crescimento da população bacteriana. A descoberta dos meios de cultura permitiu o desenvolvimento da microbiologia no século XIX. A cultura bacteriana foi o primeiro método desenvolvido para estudar a microbiota humana, utilizando um meio artificial que permite o crescimento e isolamento das bactérias. Os novos meios de cultura imitam o ambiente natural das bactérias, adicionando diferentes elementos para cultivar aquelas que não eram cultivadas anteriormente. O cultivo de bactérias em cultura pura ainda é um dos métodos mais usados em microbiologia. Muitas bactérias, principalmente as causadoras de doenças e as utilizadas em estudos científicos, são heterotróficas, o que significa que dependem de compostos orgânicos, como alimento, para fornecer energia e carbono. Um ambiente físico apropriado deve ser criado, onde fatores importantes, como temperatura, pH e a concentração de gases atmosféricos (particularmente oxigênio) são controlados e mantidos. As necessidades nutricionais das bactérias podem ser atendidas com meios microbiológicos especializados, que normalmente contêm extratos de proteínas (como fonte de carbono e nitrogênio), sais inorgânicos, como fosfato de potássio ou sulfato de sódio e, em alguns casos, carboidratos, como glicose ou lactose. Para bactérias exigentes, vitaminas e/ou outros fatores de crescimento também devem ser adicionados. A quantidade de nutrientes disponíveis em um meio de cultura deve determinar o tamanho das colônias bacterianas. Um meio de cultura excessivamente firme, devido à alta concentração de agente gelificante, causa diminuição no fluxo de nutrientes e, portanto, diminuição no acesso a esses nutrientes pelas bactérias. Por outro lado, em alguns meios de cultura, a quantidade de nutrientes disponível é muito alta e pode ser tóxica para algumas bactérias que requerem um meio de cultura mais pobre para crescimento. Microcolônias são colônias pouco visíveis a olho nu (entre 100 e 300 μm de diâmetro). Para obter colônias maiores, às vezes é necessário simular o ambiente natural da bactéria fornecendo elementos específicos. É o caso, por exemplo, de Phascolarctobacterium faecium e Phascolarctobacterium succinatutens que formam microcolônias. Entretanto, quando o meio é suplementado com succinato, as colônias têm um diâmetro maior, variando de 0,8 a 1,2 mm. Bactérias diferentes dão origem a colônias que podem ser bastante distintas das espécies bacterianas que as criaram. Portanto, uma etapa preliminar útil na identificação de bactérias é examinar uma característica chamada morfologia colonial, que é definida como o aparecimento das colônias em uma placa de ágar ou inclinação. Idealmente, essas determinações devem ser feitas olhando para uma única colônia; entretanto, se o crescimento colonial é mais abundante e não existem colônias isoladas, ainda é possível descrever algumas das características coloniais, como a textura e a cor do crescimento bacteriano. DESCREVENDO A MORFOLOGIA COLONIAL DE BACTÉRIAS Observando de perto o crescimento colonial na superfície de um meio sólido, características, como a textura da superfície, transparência e a cor ou matiz do crescimento podem ser descritas. Três características são prontamente aparentes se você estiver olhando para uma única colônia bacteriana, ou um crescimento mais denso, sem o auxílio de qualquer tipo de dispositivo de aumento, sendo elas: TexturaDescreve como a superfície da colônia aparece. Os termos comuns usados para descrever a textura podem incluir lisa, brilhante, mucoide, viscosa, seca, pulverulenta, escamosa etc. Transparência As colônias podem ser transparentes (você pode ver através delas), translúcidas (a luz passa por elas) ou opacas (aparência sólida). Cor ou pigmentaçãoMuitas bactérias produzem pigmentos intracelulares, que fazem com que suas colônias tenham uma cor distinta, como amarelo, rosa, roxo ou vermelho. Muitas bactérias não produzem nenhum pigmento e aparecem em branco ou cinza. Além disso, podem se diferenciar pela forma, elevação e margem. Como exemplos, podem ser citadas: · bullet Bactérias com margem inteira e forma circular em meio de cultura: Serratia marcescens, Staphylococcus aureus; · Bactéria com forma irregular em meio de cultura: Mycobacterium smegm Bactéria com forma filamentosa em meio de cultura: Streptomyces albus; · Bactéria com forma circular e elevação papilada em meio de cultura: Pasteurella multocida; · Bactéria com forma rizoide em meio de cultura: Nocardia asteroides; · Bactéria com elevação plana em meio de cultura: Pseudomonas aeruginosa; · Bactérias com elevação convexa em meio de cultura: Streptococcus salivarius e Streptomyces albus. A Figura 1 apresenta essas descrições bacteriológicas da morfologia colonial. Identificação dos principais meios de cultura “Algumas espécies bacterianas podem apresentar características específicas de suas colônias em meios de cultura, o que permite a sua identificação” (YOKOMIZO et al., 2019). Os principais meios de cultura bacteriana podem ser classificados por meio de sua consistência e/ou por sua finalidade/uso/aplicação funcional. CLASSIFICAÇÃO DOS MEIOS DE CULTURA BACTERIANA COM BASE NA CONSISTÊNCIA A classificação dos meios de cultura bacteriana com base na consistência são o meio sólido, o semissólido e o líquido (caldo). // Meio sólido O meio sólido contém ágar em uma concentração de 1,5 a 2,0%, ou algum outro agente de solidificação principalmente inerte. Além disso, sua estrutura física permite que as bactérias cresçam de modos fisicamente informativos ou úteis (por exemplo, como colônias ou em faixas). O meio sólido é útil para isolar bactérias ou para determinar as características da colônia do isolado. // Meio semissólido O meio semissólido é preparado com ágar em concentrações de 0,5% ou menos. Possui uma consistência suave de creme e é útil para o cultivo de bactérias microaerofílicas ou para a determinação da motilidade bacteriana. // Meio líquido (caldo) Esses meios contêm quantidades específicas de nutrientes, mas não têm vestígios de agentes gelificantes, como gelatina ou ágar. O caldo serve para vários fins, como a propagação de um grande número de organismos, estudos de fermentação e vários outros testes, por exemplo, para testes. CLASSIFICAÇÃO DOS MEIOS DE CULTURA BACTERIANA COM BASE NA FINALIDADE/USO/APLICAÇÃO FUNCIONAL Muitos meios de cultura para fins especiais são necessários para facilitar o reconhecimento, enumeração e isolamento de certos tipos de bactérias. Para atender a essas necessidades, inúmeros meios estão disponíveis. // Meios básicos (meios de uso geral) Os meios básicos são, essencialmente, meios simples, que suportam a maioria das bactérias não fastidiosas, tais como Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus. Água peptonada, caldo nutriente e ágar nutriente (Figura 2) são considerados meios básicos, geralmente usados para o isolamento primário de microrganismos. Figura 2. Ágar nutriente. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/10/2020. // Meio enriquecido (fatores de crescimento adicionados) // Ágar sangue A adição de nutrientes extras na forma de sangue, soro, gema de ovo, entre outros, ao meio básico o torna um meio enriquecido, isto é, um meio usado para cultivar bactérias nutricionalmente exigentes (fastidiosas). Ágar sangue (Figura 3), ágar chocolate e soro de Loeffler são exemplos de meios enriquecidos. O ágar sangue é preparado adicionandode 5 a 10% (por volume) de sangue a uma base de ágar sangue. O ágar chocolate também é conhecido como ágar sangue aquecido ou ágar sangue lisado. Figura 3. Ágar sangue. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 10/10/2020. EXPLICANDO O ágar sangue é um meio de cultura sólido composto, principalmente, por sangue desfibrinado de carneiro ou de coelho e uma mistura de peptonas. Trata-se de um meio de cultura rico em nutrientes que permite o crescimento da maioria dos microrganismos (com exceção de alguns fastidiosos), logo, não é um meio seletivo (YOKOMIZO et al., 2019, p. 74). // Meios seletivos e de enriquecimento Esses meios são projetados para inibir bactérias comensais ou contaminantes indesejadas e ajudar a recuperar patógenos de uma mistura de bactérias. Assim, enquanto os meios seletivos são baseados em ágar, os meios de enriquecimento são líquidos em consistência. Ambos têm o mesmo propósito, e qualquer meio de ágar pode ser feito seletivo pela adição de certos agentes inibidores que não afetam o crescimento do patógeno de interesse. Algumas abordagens para tornarem um meio seletivo incluem adição de antibióticos, corantes, produtos químicos, alteração de pH ou uma combinação desses. // Meios seletivos Princípio: supressão de crescimento diferencial. O meio seletivo é projetado para suprimir o crescimento de alguns microrganismos enquanto permite o crescimento de outros. O meio seletivo é à base de ágar (sólido) para que as colônias individuais possam ser isoladas, e alguns exemplos desse meio são: Clique nos botões para saber mais Ágar Thayer-Martin (Figura 4) – Usado para recuperar Neisseria gonorrhoeae; contém antibióticos (vancomicina, colistina e nistatina). Ágar manitol (Figura 5) – Usado para recuperar Staphylococcus aureus; contém 10% NaCl. Meio de telurito de potássio – ágar Baird-Parker (Figura 6) – Usado para recuperar Corynebacterium diphtheriae; contém 0,04% de telurito de potássio. Ágar MacConkey (Figura 7) – Usado para membros Enterobacteriaceae; contém sal biliar que inibe a maioria das bactérias gram-positivas. Ágar cetrimide – Pseudosel (Figura 8) – Usado para recuperar Pseunas aeruginosa; contém cetrimide, que é um agente antisséptico. Meio Lowenstein Jensen (Figura 9) – Usado para recuperar Mycobacterium tuberculosis; é feito seletivo pela incorporação de verde malaquita. Ágar de Wilson e Blair (Figura 10) – Usado para a recuperação de Salmonella typhi; é feito seletivo pela adição de corante verde brilhante. Ágar de tiossulfato, citrato, bile e sacarose – TCBS (Figura 11) – Usado para isolar Vibrio cholerae de amostras fecais, tem pH elevado (entre 8,5 e 8,6), o que inibe a maioria das outras bactérias. O Quadro 1 apresenta os principais meios de cultura bacterianos. // Quadro 1. Meios de cultura e suas particularidades e aplicações na bacteriologia. // Meio de cultura de enriquecimento O meio de enriquecimento é usado para aumentar a concentração relativa de certos microrganismos na cultura, antes do plaqueamento em meio seletivo sólido. Ao contrário dos meios seletivos, a cultura de enriquecimento é normalmente usada em caldo. Os meios de enriquecimento são meios líquidos que também servem para inibir os microrganismos comensais na amostra clínica. Caldo selenito, caldo tetrationato e água peptonada alcalina são exemplos usados para recuperar patógenos de amostras fecais. // Meios diferenciais/indicadores Certos meios de comunicação são projetados de modo que diferentes bactérias possam ser reconhecidas com base na cor de sua colônia. Várias abordagens incluem a incorporação de corantes, substratos metabólicos e outros, de forma que as bactérias que os utilizam aparecem como colônias de cores diferentes. Esses meios são chamados de meios diferenciais, ou meios indicadores, e permitem o crescimento de mais de um microrganismo de interesse, mas com colônias morfologicamente distinguíveis. Exemplos de meios diferenciais incluem: · bullet · Ágar manitol: fermentação de manitol = amarelo; · Ágar sangue: vários tipos de hemólise, i.e., hemólise α, β e γ; · Ágar MacConkey: para os fermentadores de lactose, colônias rosas, enquanto o fermentador sem lactose produz colônias claras ou incolores; · Ágar de tiossulfato, citrato, bile e sacarose (TCBS): vibrio cholerae produz colônias amarelas devido à fermentação da sacarose. // Meios de transporte As amostras clínicas devem ser transportadas para o laboratório imediatamente após a coleta, para evitar o crescimento excessivo de organismos contaminantes ou comensais, o que pode ser feito usando meios de transporte. Esses meios evitam a secagem (dessecação) de uma amostra, mantêm a proporção entre patógenos e comensais e inibem o crescimento excessivo de bactérias indesejadas. Alguns são semissólidos em consistência, e a adição de carvão vegetal serve para neutralizar os fatores inibitórios. O meio de transporte Cary-Blair e o meio Venkatraman Ramakrishnan (VR) são usados para transportar fezes de pacientes com suspeita de cólera; a solução salina de glicerol tamponada de Sach é usada para transportar fezes de pacientes com suspeita de sofrer de disenteria bacilar; já o meio de Pike é usado para transportar estreptococos de espécimes da garganta. // Meios anaeróbicos As bactérias anaeróbias precisam de meios especiais para crescimento porque precisam de baixo teor de oxigênio, potencial de redução de oxidação reduzido e nutrientes extras. Os meios para anaeróbios podem ter que ser suplementados com nutrientes, como hemina e vitamina K, e também podem ter que ser reduzidos por meios físicos ou químicos. Ferver o meio serve para expelir qualquer oxigênio dissolvido, e a adição de 1% de glicose, 0,1% de tioglicolato, 0,1% de ácido ascórbico e 0,05% de cisteína pode tornar um meio reduzido. Antes de usar o meio, deve ser fervido em banho-maria para expelir todo o oxigênio dissolvido e, em seguida, selado com parafina líquida estéril. O meio Robertson Cooked Meat (RCM), que é comumente usado para cultivar, contém uma coluna de 2,5 cm de carne de coração de boi e 15 mL de caldo nutriente. O caldo de tioglicolato contém tioglicolato de sódio, glicose, cistina, extrato de levedura e hidrolisado de caseína. Azul de metileno ou resazurina é um indicador do potencial de oxidação-redução que é incorporado ao meio. Em condições reduzidas, o azul de metileno é incolor. // Meios de ensaio Esses meios são usados para dosagem de vitaminas, aminoácidos e antibióticos. Por exemplo, os meios de ensaio de antibióticos são usados para determinar a potência do antibiótico pela técnica de ensaio microbiológico. Há, ainda, meios para enumeração de bactérias, para caracterização de bactérias, de manutenção bacteriana etc. Coleta e semeio de culturas de orofaringe e nasofaringe Segundo Yokomizo et al. (2019), “as infecções do trato respiratório superior estendem-se da laringe às narinas, incluindo a orofaringe e a nasofaringe, e estão relacionadas à alta prevalência em pacientes ambulatoriais”. Muitas vezes essas infecções podem causar graves complicações, principalmente em crianças. Desse modo, a coleta e o semeio de culturas são de extrema relevância para o diagnóstico dessas patologias. A coleta de amostras pode se dar por meio de swabs orofaríngeos (OP) e nasofaríngeos (NP), ao que se pode destacar: Momento idealAs amostras devem ser coletadas dentro de três dias do início dos sintomas e no máximo sete dias, idealmente após o início da quimioprofilaxia ou terapia antimicrobiana. Tipos de cotoneteUtilizam-se cotonetes estéreis, preferencialmente de dacron ou rayon com hastes de plástico, ou, se disponíveis, cotonetes flocados. Não se deve utilizar zaragatoas de alginato de cálcio ou zaragatoas com bastões de madeira, uma vez que podem conter substâncias que inativam alguns vírus e inibem alguns ensaios moleculares. Coleta com o swab OPInsere-se o cotonete na faringe posterior e nas áreas tonsilares, e, em seguida, esfrega-se o cotonete sobre os pilares tonsilares e na orofaringe posterior. Deve-se evitar tocar a língua, os dentes e as gengivas.Coleta com o swab NPInsere-se o cotonete de haste flexível por meio das narinas paralelas ao palato (não para cima) até que a resistência seja encontrada ou a distância seja equivalente à da orelha até a narina do paciente, indicando contato com a nasofaringe. Suavemente, deve-se esfregar e rolar o cotonete. Deixa-se, então, o cotonete no local por alguns segundos para absorver as secreções antes de remover Manuseio de amostras – Coloca-se o swab NP e o OP imediatamente em um frasco estéril, contendo 2 mL de meio de transporte viral sem antibióticos. Ambos os cotonetes podem ser colocados no mesmo frasco, se desejado. Assepticamente, pode-se cortar ou quebrar os palitos do aplicador perto da ponta para permitir o aperto da tampa. Etiqueta-se o frasco com o nome do paciente, número de identificação, tipo de amostra e data da coleta. Se as amostras forem examinadas dentro de 48 horas após a coleta, devem ser mantidas a 4 ºC e enviadas em gelo úmido ou gel refrigerante. Caso contrário, devem ser armazenadas a uma temperatura ≤ _70 ºC e enviadas em gelo seco. Deve-se evitar congelar e descongelar as amostras, pois a viabilidade de alguns patógenos de amostras que foram congeladas e descongeladas é muito diminuída, e podem ocorrer resultados de teste falso negativos. Outro tipo de coleta de amostra que se pode destacar é a lavagem/aspiração nasofaríngea, comumente coletada em crianças com menos de cinco anos de idade. Considera-se: Com relação à semeadura de amostras de orofaringe e nasofaringe e posterior análise, pode-se destacar: Secreção de orofaringe; Secreção de nasofaringe; Secreção nasaL Punção de seios maxilares; Raspado de lesão da boca Raspado de lesão de tonsilas. Quanto ao transporte, indica-se: · bullet Swabs: até 12 horas em temperatura ambiente; · bullet Seringas ou frascos: até duas horas em temperatura ambiente. // Secreção de orofaringe Em coleta de secreção de orofaringe, considera-se: · bullet Usar um abaixador de língua, pressionar e rolar um swab (com meio de transporte) sobre as tonsilas e a faringe posterior, principalmente onde houver pus ou placas. Teste rápido para detecção de Streptococcus do grupo A; · bullet Kits comerciais: extração dos antígenos diretamente da amostra; técnicas de coaglutinação, enzimaimunoensaio ou aglutinação com partículas de látex; · bullet Processamento – gram: deve-se rolar o swab em uma lâmina para fazer um esfregaço; · Processamento – cultura: deve-se rolar o swab em uma pequena área do meio de cultura; · Semeadura: esgotamento; · Meios: AS + CHOC; · Incubação: 35 ± 2 ºC por 18 a 48/72 horas, microaerofilia; · bullet Interpretação – gram: para avaliar contaminação da microbiota orofaríngea, presença de leucócitos e predomínio de algum possível patógeno (diplococos gram-positivo sugestivos de S. pneumoniae, associação fusoespiralar ou presença de leveduras com filamentos); Interpretação – Cultura: · Streptococcus grupos A, C e G; · Neisseria gonorrhoeae. // Secreção de nasofaringe Em coleta de secreção de nasofaringe, considera-se: · Remover excesso de secreção, inserir um swab fino com haste flexível (com meio de transporte), delicadamente, por meio das narinas até a nasofaringe; fazer movimentos rotatórios; · bullet Processamento – gram: deve-se rolar o swab em uma lâmina para fazer um esfregaço; Processamento – cultura: deve-se rolar o swab em uma pequena área do meio de cultura; · Semeadura: esgotamento; · Meios: AS + CHOC; · Incubação: 35 ± 2 ºC por 18 a 48/72 horas, microaerofilia; Interpretação – gram: para avaliar contaminação da microbiota orofaríngea, presença de leucócitos e predomínio de algum possível patógeno (diplococos gram-positivo sugestivos de S. pneumoniae, associação fusoespiralar ou presença de leveduras com filamentos); Interpretação – cultura: · Pesquisa de portadores de N. meningitidis, H. influenzae e S. pneumoniae: não recomendada, pois fazem parte de microbiota normal. // Identificação da microbiota da orofaringe e nasofaringe Os microrganismos reportados para o trato respiratório superior são: · Streptococcus alfa-hemolíticos (grupo viridans); · bullet Streptococcus não hemolíticos; · bullet Streptococcus não grupo A; · bullet Neisseria spp. não patogênicas; · bullet Haemophilus spp.; · bullet Staphylococcus spp.; · bullet Micrococcus spp.; · bullet Corynebacterium spp.; · bullet Bacteroides spp.; Clique nos botões para saber mais Faringite/tonsilite – Streptococcus pyogenes (grupo A), grupos C e G. Faringite gonocócica – Neisseria gonorrhoeae. Laringite – Geralmente viral; cultura para descartar difteria e Streptococcus spp. Epiglotite – Haemophilus influenzae tipo B (crianças de dois a seis anos). Sinusite aguda – S. pneumoniae, H. influenzae, Moraxella catarrhalis, Streptococcus pyogenes. Sinusite crônica – S. pneumoniae, H. influenzae, Neisseria spp., Moraxella catarrhalis, Streptococcus pyogenes, anaeróbios (menos frequentes), Streptococcus spp., ocasionalmente bacilos gram-negativos, P. aeruginosa; cultura negativa pode sugerir Mycoplasma pneumoniae ou Chlamydophila pneumoniae. Pesquisa de portadores – S. aureus resistente à meticilina e Neisseria meningitidis. Candidíase oral CONTEXTUALIZANDO O diagnóstico laboratorial da covid-19, disponível até o momento, é a metodologia de RT-PCR, realizada em amostras do alto e baixo trato respiratório. PCR é a metodologia padrão-ouro utilizada na detecção do vírus da covid-19 em pacientes com suspeita da infecção. Essa técnica pesquisa o material genético do vírus em secreção coletada da garganta (orofaringe) e do nariz (nasofaringe). É recomendado apenas para indivíduos com sintomas, podendo detectar a presença do vírus do terceiro ao décimo dia do início dos sintomas. C Urocultura (fundamento teórico) e semeio de urocultura, resultados e interpretação Avanços exponenciais na tecnologia de saúde levaram ao aumento na sensibilidade da detecção de doenças e, como resultado, o tratamento excessivo levou ao aumento de hospitalizações e complicações, sendo que infecções secundárias à instrumentação se tornaram cada vez mais comuns. As taxas de infecção hospitalar variam entre 5 e 20% e estão associadas ao aumento da morbimortalidade e dos custos hospitalares. Uma infecção do trato urinário (ITU) é uma das causas mais prevalentes de infecções relacionadas aos cuidados de saúde, e pode ocorrer em pacientes sem sintomas típicos. Também é evitável, pois a maioria das infecções urinárias está relacionada ao uso de cateteres. Cateterismo do trato urinário é a introdução de um cateter através da uretra, permitindo o fluxo da urina para um saco plástico de eliminação. Esse dispositivo é utilizado em várias situações, como retenção urinária, controle do volume urinário durante cirurgias de grande porte ou em pacientes críticos, principalmente aqueles com queimaduras graves. Cerca de 80% das infecções do trato urinário relacionadas à assistência à saúde são atribuídas ao uso de cateter urinário, portanto, esses pacientes devem ser prioridade para a vigilância epidemiológica. Os agentes etiológicos responsáveis pelas infecções do trato urinário, em geral, pertencem à flora natural do paciente, embora o uso de antibióticos e a falta de cuidados adequados com o cateter asséptico possam modificar a microbiota endógena. Bactérias gram-negativas, como as da família Enterobacteriaceae, são as mais comuns, mas as gram-positivas também têm relevância epidemiológica. O patógeno mais comumente isolado em infecções do trato urinário é Escherichia coli, embora outras bactérias também sejam frequentemente isoladas, incluindo: Proteus mirabilis, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Enterococcus spp., Enterobacter spp., Streptococcus do Grupo B e Staphylococcus saprophyticus. O uso prévio de antibióticos e variações no espectro de suscetibilidade local são importantes preditores de resistência. O tratamento com antibióticos considera a eficácia, a excreção urinária, a toxicidade, o custo e o esquema de dosagem do medicamento. A demora no diagnóstico de infecções e a prescriçãoindiscriminada, empírica ou errônea de antibióticos são tidas atualmente como responsáveis pelo desenvolvimento de resistência bacteriana, que vem se tornando uma preocupação mundial, principalmente em casos de infecções urinárias. O Quadro 2 aponta os microrganismos correspondentes às uretras feminina e masculina. Características e realização de testes para identificação dos estreptococos e enterococos Seção 6 de 7 A identificação presuntiva pode ser feita a partir das características de crescimento adequadas, aparência colonial, coloração de gram da cultura, entre outros. TESTE PYR O teste PYR é um método rápido para a identificação presuntiva de bactérias com base na enzima pirrolidonil arilamidase. A enzima L-pirrolidonil arilamidase hidrolisa o substrato de L-pirrolidonil-β-naftilamida para produzir uma beta-naftilamina. A beta-naftilamina pode ser detectada na presença do reagente N, N-metilaminocinamaldeído pela produção de um precipitado vermelho brilhante. Após a hidrólise do substrato pela peptidase, a beta-naftilamida resultante produz uma cor vermelha após a adição de reagente de cinamaldeído a 0,01%. Quando um inóculo visível de microrganismo é esfregado em uma pequena área de um disco impregnado com o substrato, a hidrólise ocorre em dois minutos, momento em que o reagente de cinamaldeído é adicionado para detectar a reação por uma mudança de cor para púrpura. Vale ressaltar que é usado para a identificação presuntiva de estreptococos do grupo A (Streptococcus pyogenes) e para a rápida diferenciação de enterococos dos estreptococos beta-hemolíticos do grupo D. Além disso, também está para a identificação de E. coli, separando-a de outros bacilos indol positivos, lactose positivos e gram-negativos. No procedimento do teste PYR, deve-se: · bullet Inocular o caldo PYR com três a cinco colônias de cultura pura de 18 a 24 horas; · bullet Incubar o tubo aerobiamente, de 35 a 37 ºC por quatro horas; · bullet Adicionar duas a três gotas de reagente PYR e observar a mudança de cor; · bullet Observar o desenvolvimento da cor vermelha por um a dois minutos. CONTINUE Micobactérias As micobactérias são bactérias gram-positivas, imóveis, de crescimento lento e em forma de bastonete. Devido às suas características especiais de coloração vista pelo microscópio, a qual é mediada pelo ácido micólico na parede celular, são chamadas de ácido-resistentes. Essa também é a razão da robustez das micobactérias. As micobactérias podem ser divididas em três grupos: · bullet Complexo Mycobacterium tuberculosis, patógeno causador da tuberculose; · Micobactérias não tuberculosas (MNT); · bullet Mycobacterium leprae, patógeno causador da hanseníase. COMPLEXO MYCOBACTERIUM TUBERCULOSIS Os patógenos causadores da tuberculose são as micobactérias pertencentes ao complexo M. tuberculosis, que compreende as seguintes espécies: · bullet M. tuberculosis; · bullet M. bovis (subsp. bovis e caprae); · bullet M. africanum; · bullet M. canettii · bullet M. microti; · bullet M. pinnipedii. Essas espécies são, com exceção à M. bovis, consideradas causadoras de tuberculose em humanos e animais. Apesar de sua similaridade genética próxima, esses organismos diferem consideravelmente no que diz respeito à epidemiologia, patogenicidade e seu espectro de hospedeiro. O M. tuberculosis é considerado a principal causa de tuberculose em humanos. As infecções de tuberculose geralmente surgem de pacientes que sofrem de tuberculose pulmonar ativa e, portanto, infecciosa. Os patógenos são transmitidos por gotículas de infecção pelo ar, por tosse ou espirro. O risco de infecção é aumentado por más condições de higiene e em áreas densamente povoadas. Como os patógenos infectam as células do sistema imunológico, os chamados macrófagos, especialmente bebês e pessoas imunocomprometidas estão em risco. Na maioria dos casos, o sistema imunológico consegue combater as bactérias ou encapsulá-las. As micobactérias podem persistir no corpo por vários anos, como tuberculose latente, sem causar quaisquer sintomas. Não pode ser previsto quando e se a reativação vai ocorrer; embora todos os órgãos possam ser afetados, a doença se manifesta como tuberculose pulmonar em 80% dos pacientes. M. bovis é a principal causa de tuberculose bovina. Pode ser transmitido aos humanos pelo consumo de leite não pasteurizado ou, em casos raros, pela inalação de poeira em celeiros. Atualmente, essa infecção é bastante rara na Europa Central, pois a população de gado está praticamente livre de tuberculose. M. bovis pode ser dividido em duas subespécies: M. bovis subsp. bovis e M. bovis subsp. caprae. Um grupo heterogêneo de cepas, que podem ser encontradas principalmente na África e causam tuberculose exclusivamente em humanos, é denominado M. africanum. A M canettii foi isolada principalmente em pequenos roedores, enquanto M. pinnipedii foi detectada em focas. Em ocasiões muito raras, descobriu-se que esses patógenos causavam tuberculose em humanos. TUBERCULOSE A tuberculose pode ser encontrada em todo o mundo e, com exceção da aids e da malária, é uma das doenças infecciosas mais frequentes. Estimativas recentes sugerem que um terço da população mundial está infectada com tuberculose. Existem quatro parâmetros importantes para a contenção da tuberculose: · bullet Diagnóstico precoce; · bullet Prevenção da propagação de doenças; · Tratamento eficaz com antituberculóticos; · bullet Prevenção do desenvolvimento de resistência. Se a radiografia do tórax mostrar sinais de tuberculose, o médico pode solicitar amostras de escarro, que são testadas para bactérias do complexo Mycobacterium tuberculosis. Todavia, as amostras de escarro também podem ser usadas para testar cepas de tuberculose resistentes a medicamentos. Isso ajuda o médico a escolher os medicamentos com maior probabilidade de resultados positivos. Esses testes podem levar de quatro a oito semanas para serem concluídos. MICOBACTÉRIAS NÃO TUBERCULOSAS O grupo de micobactérias não tuberculosas (MNT), anteriormente chamadas de micobactérias atípicas ou ubíquas, contém mais de 150 espécies. Podem ser encontradas de modo onipresente na natureza e apresentam uma ampla diversidade em relação à localização onde podem ser encontradas e como se adaptam a certas condições ambientais. Podem ser detectadas no solo, na água potável ou em alimentos, como leite pasteurizado ou queijo, e, em geral, são menos patogênicas. No entanto, podem causar doenças em humanos, especialmente em pessoas imunocomprometidas ou com histórico de doenças pulmonares anteriores. SINTETIZANDO Nesta unidade, vimos que uma população de bactérias cultivadas em laboratório é chamada de cultura, sendo que uma cultura pura contém apenas um único tipo, e uma cultura mista contém duas ou mais bactérias diferentes. Por meio do exame de cultura bacteriana em diversos materiais biológicos é possível verificar, com precisão, a existência ou não de infecções em um determinado indivíduo, permitindo também a identificação das bactérias que precisam ser combatidas. Abordamos também as principais características bacterianas em crescimento cultural, bem como os meios mais comumente utilizados na prática laboratorial. Os meios de cultura podem ser de enriquecimento, diferenciais, de transporte, entre outros, com finalidades distintas para todas as fases do diagnóstico microbiano. Para a coleta e semeio de culturas de orofaringe e nasofaringe, citamos o uso de swabs e a coleta de amostras por lavagem/aspiração, além da semeadura no ágar sangue e chocolate. Sobre urocultura, vimos que bactérias gram-negativas são as mais comuns, mas as gram-positivas também têm relevância epidemiológica. Já a identificação de estreptococos e enterococos pode ser feita a partir das características de crescimento adequadas, aparência colonial, coloração de gram da cultura e, principalmente, pelo teste PYR. Por fim, abordamos as micobactérias, que são bactérias gram-positivas, imóveis, de crescimento lento e em forma de bastonete. Devido às suas características especiais decoloração ao microscópio, que é mediada pelo ácido micólico na parede celular, são chamadas de ácido-resistentes, característica principal para a correta identificação e diagnóstico da tuberculose. image1.png image2.png