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Jamile Haddad Neta Fluidoterapia em Cães e Gatos Conteúdo 1) Introdução 2) Fisiologia dos Líquidos Corporais 3) História Clínica 9) Bibliografia 4) Sinais Clínicos 5) Análises Laboratoriais 6) Vias de Administração 7) Soluções Empregadas 8) Volume de Administração 1. INTRODUÇÃO FLUIDOTERAPIA 1.1 Definição É a intervenção médica mais comum em medicina veterinária, consistindo na restauração do volume e composição dos líquidos corporais à normalidade e na manutenção do equilíbrio hidroeletrolítico corporal, de modo que o ganho de líquidos se iguale à perda dos mesmos (SENIOR, 1997). BALANÇO HÍDRICO 1.2 Finalidades Principais finalidades da reposição hidroeletrolítica: Correção da desidratação Manutenção do acesso vascular Preservação da função renal em anestesiados 2. FISIOLOGIA DOS LÍQUIDOS CORPORAIS 2. 1 Água corporal total e compartimentos líquidos corporais HADDAD NETA , J.; TRAPP , S.M.; STURION , D.J., 2005. Desidratação Hipovolemia 2. 2 Composição dos solutos dos líquidos corporais Molaridade (M)= [ ] x 10/PM M (NaCl)= 0,9 x 10/58,5 M (naCl) = 0,154 Osmolaridade (O)= M x n° partículas O (NaCl)= 0,154 x 2 O (NaCl) = 0,308 osmóis/L O (NaCl)= 308 miliosmóis/L • O movimento de água entre LIC e LEC é governado pelo gradiente osmótico criado pelas concentrações diferentes de solutos entre os dois compartimentos líquidos. 2. 3 Movimento de água entre os compartimentos - Osmose DE ACORDO COM A TONICIDADE, AS SOLUÇÕES (incluindo os líquidos corpóreos) SÃO CLASSIFICADAS EM: • Solução hipertônica: É uma solução extracelular com mais solutos do que solvente, e que promove o fluxo de água para fora da célula, promovendo a crenação (ou murchamento). • Solução hipotônica: é uma solução extracelular com mais solvente (água) do que soluto, e que promove o fluxo de água para dentro da célula, promovendo a turgidez da célula até ruptura total (hemólise). • Solução isotônica: não produz alteração de volume celular. Todas as soluções são isotônicas entre si. Hipotônica • Perda de fluido hipertônico. • [Na+] 158 mEq/L • Diarréia, insuficiência renal, diabetes insipidus, hipertermia. 2. 4 Tipos de desidratação * A mais comum na rotina clínica. Classificação da Desidratação -Hipotônica; -Isotônica; -Hipertônica. Desidratação Hipotônica Ocorre quando há perda de sal maior que de água, levando à hiponatriemia. Ocorre uma transposição de água do espaço extracelular para o espaço intracelular que levam a diminuição severa do volume circulante e sinais clínicos mais evidentes de desidratação. *Tipo mais grave de desidratação; Causas: perda de fluído hipertônico (diuréticos, peritonite, pancreatite e uroabdomen) e perda de fluído isotônica com reposição de água (diarréia, hemorragia e hipoadrenocorticismo); Desidratação Isotônica • Ocorre quando a perda de sal é proporcional à de água. Hematócrito e proteínas totais permanecem normais. • Causas: Perda de fluído isotônico (vômito, diarréia, hemorragia e hipoadrenocorticismo); Desidratação Hipertônica • Ocorre quando há perda de água maior que a de sal, levando à hipernatremia. Há transposição de água do espaço intracelular para o extracelular. Hematócrito e proteínas totais estão minimamente alterados. • Causas: Perda de fluídos hipotônicos (vômito, diarréia, diabetes melito, insuficiência renal e queimaduras) e perda de água (diabetes insípido, febre e diminuição da ingestão de água); 3. HISTÓRIA CLÍNICA Informações úteis 1) Ingestão de alimentos e água 2) Perdas gastrointestinais por vômito e/ou diarréia 3) Débito urinário 4) Exercícios recentes 5) Exposição ao calor 6) Traumatismo 7) Hemorragia 8) Febre 9) Uso de medicamentos (diuréticos, AINES) 4. SINAIS CLÍNICOS Sinais Clínicos 1. Sede (com perda de 2% do peso corpóreo) 2. Mucosas secas 3. Pele intertriginosa seca 4. Perda da elasticidade da pele 5. Oligúria (sinais precoces) 6. Taquicardia 7. Hipotensão postural 8. Pulso fraco 9. Obnubilação (diminuição da consciência) 10. Febre, coma (sinais tardios) 11. Morte (com perda de 15% do peso corpóreo). ELASTICIDADE DA PELE MUCOSAS: TPC, COR, UMIDADE POSIÇÃO DOS OLHOS NA ÓRBITA F.C. E PULSAÇÃO PERIFÉRICA A desidratação pode ser subestimada em pacientes obesos e superestimada em pacientes caquéticos. Grau de desidratação Sinais clínicos Não aparente 5% Indetectáveis. Histórico: menor ingestão de água. Leve 5-6% Discreta perda da elasticidade da pele e mucosas secas. Histórico: episódios esporádicos de vômito e diarréia. Moderada 6-8% Perda evidente da elasticidade da pele, ↑ TPC, possível enoftalmia e ressecamento das mucosas. Histórico: inapetência, vômito e diarréia moderados. Grave 10-12% Permanência da pele em forma de tenda, evidente prolongamento do TPC, enftalmia, ressecameto mucosas, início sinais de choque (taquicardia com pulso fraco e rápido). Histórico:anorexia, vômito e diarréia severos, I.R.C. Choque 12-15% Sinais evidentes de choque hipovolêmico, morte eminente. Histórico: hemorragias, queimaduras. Escala de desidratação 5. ANÁLISES LABORATORIAIS 5.1 HEMATÓCRITO E PROTEÍNAS PLASMÁTICAS TOTAIS -Hematócrito(cão: 37-55%; gato: 30-45%) ↑ HT e PPT em todos os tipos de perdas de fluidos, exceto hemorragias **Animais anêmicos e desidratados: HT falsamente normal PPT cão: 5,7 a 7,7 g/dL; gato:5,8 a 8,0 g/dL Desidratação: elevação de albumina Doença inflamatória: elevação de globulinas Ideal: obter valores laboratoriais antes e depois da fluidoterapia HEMATÓCRITO E PPT - CONSIDERAÇÕES 5.2 URINÁLISE – DENSIDADE URINÁRIA Ideal: determinar antes e após a fluidoterapia Valores cão: 1.015-1045; gato: 1.035-1.060 D.U esperada: elevada em animais desidratados com função renal normal Administração prévia de corticóides e furosemida: ↓ D.U. Isostenúria em animal desidratado: IR, hipo/hiperadrenocorticismo, piometra 5.3 OUTRAS ANÁLISES Eletrólitos, glicose Uréia, creatinina Nitrogênio derivado da uréia: 6 a 20mg de nitrogênio uréico por 100mL de sangue (equivalente a 13mg a 43mg de uréia) 6. VIAS DE ADMINISTRAÇÃO ORAL/ENTERAL: absorção lenta. Deve ser empregada em an. sem vômito SUBCUTÂNEA: contra-indicada em animais com vasoconstrição periférica (desidratação, hipotensão e hipotermia). INTRAVENOSA: + efetiva e de efeito imediato. Rigorosa esterilidade. INTRA-ÓSSEA: muito utilizada em pediatria. Rigorosa esterilidade. SC: não adm fluidos sem eletrólitos (agravam desequilíbrios) e hipertônicos (dor e necrose) 7. SOLUÇÕES EMPREGADAS NA FLUIDOTERAPIA 7.1 CLASSIFICAÇÃO DAS SOLUÇÕES De acordo com o tamanho e permeabilidade molecular • Cristalóides (pressão osmótica) • Colóides (pressão oncótica) De acordo com osmolaridade ou tonicidade • Hipotônica • Isotônica • Hipertônica De acordo com a função pretendida • Reposição • Manutenção 7.2 TIPOS DE FLUIDOS CRISTALÓIDES RINGER COM LACTATO DE SÓDIO Solução isotônica, cristalóide, de reposição Composição semelhante ao LEC pH 6,5. Indicado para acidose. Caraterística alcalinizante (lactato sofre biotransformação hepática em bicarbonato). Contra-indicada para hepatopatas, vômito agudo com conteúdo estomacal, linfossarcoma, acidemia lática, choque hipovolêmico. Contém cálcio: contra-indicada para pacientes hipercalcêmicos Não deve ser administrada junto com hemoderivados (precipitação do cálcio com o anticoagulante) RINGER SEM LACTATO (RINGER SIMPLES) Solução isotônica, cristalóide, de reposição. Não contém lactato. pH 5,5 Solução ideal para alcalose metabólica. Contém mais cloreto e cálcio do que outras soluções. SOLUÇÃO DE NaCl a 0,9% Solução isotônica, cristalóide, de reposição. Contém apenas água, Na e Cl. pH 4,5-7,0É acidificadora. Indicado para pacientes em alcalose, hipoadrenocorticismo (por aumentar a reposição de sódio), IR oligúrica ou anúrica (pois evita a retenção de potássio) e hipercalcemia (pois não contém cálcio). SOLUÇÃO DE GLICOSE a 5% em NaCl 0,9% Solução isotônica, cristalóide, de reposição Também chamada solução glicofisiológica pH 4,0 Maior osmolaridade que a solução fisiológica SOLUÇÕES DE MANUTENÇÃO São soluções de reposição modificadas, adicionadas de sódio, potássio, glicose, bicarbonato, de acordo com as necessidades do animal. As soluções aditivas mais utilizadas incluem dextrose 50%, frutose, cloreto de cálcio, gluconato de cálcio, fosfato de potássio, bicarbonato de sódio a 8,4%, vitaminas do completo B, cloreto de potássio. A osmolaridade final do fluido pode ser maior do que a prevista, influenciada pela adição de mEq/L de eletrólito e de mMol/L de solutos livres na solução. COMPOSIÇÃO IÔNICA, OSMOLARIDADE E TONICIDADE DAS PRINCIPAIS SOLUÇÕES SUPLEMENTAÇÃO COM POTÁSSIO (KCl) 1 L de NaCl 0,9% tem 0 mEq K. Para atingir 30 mEq: Adicionar 23 mL KCl 10% Ou 12 mL KCl 19,1% 1 L de Ringer tem 4 mEq K. Para atingir 20 mEq faltam 16 mEq Adicionar 15 mL KCl 10% Ou 8 mL 19,1% Todo paciente que não apresente hipercalemia deve ser suplementado 1 mL KCl 10%= 1,3 mEq/L 1 mL KCl 19,1%= 2,6 mEq/L Necessidades de Potássio: 15 a 30 mEq/L Ringer: 4 mEq/L NaCl 0,9%: 0 *Velocidade infusão: não ultrapassar 0,5 mEq/L/hora 7.3 FLUIDOS COLÓIDES Isso leva à expansão e restauração da volemia, com um menor volume e maior rapidez comparados às soluções cristalóides. Uma vez infundidos na circulação têm a capacidade de atrair líquido para o espaço intravascular e retê-lo. A solução coloidal possui moléculas de alto PM, que são impermeáveis. Restaura pressão oncótica. Indicações • PPT menor 3,5 g/dL • Albumina menor que 1,5 g/dL • Choque hipovolêmico Contra-indicações • Falência renal • Coagulopatias (podem causar hemorragias e são acidificantes) Disponíveis no mercado • Derivados dextrano: Dextran 40 e 70 • Polímeros de gelatina: Haemacel e Polisocel • Amido de hidroxietila: Hetastarch • Fluidos à base de Hb 8. VOLUME DE ADMINISTRAÇÃO Conduta Terapêutica 1. Reposição líquida 2. Reposição de eletrólitos Cálculo da quantidade de Solução a ser Infundida 1. Volume de Reposição É aquele que corrige o déficit de fato, ou aquilo que estimamos ao avaliar o grau de desidratação (com alguma pequena margem de erro aceitável). É calculado com base no grau de desidratação apresentado e deve ser reposto de forma rápida, idealmente. Deve ser reavaliado (recalculado) a cada 24 horas de tratamento. Calcula-se empregando a fórmula a seguir: Volume de reposição (mL) = peso(kg) x 10 x grau desidratação 2. Volume de manutenção Considera a taxa de rotatividade diária de fluidos (ou de água) do organismo e varia de acordo com a idade do paciente. É um volume calculado com base nas fórmulas apresentadas a seguir, que deve ser administrado ao longo das 24 horas de um tratamento. Portanto, ao contrário do volume de reposição, a sua administração é lenta ou parcelada ao longo do dia. Cão: 50ml/kg/dia Gato: 70ml/kg/dia K+: 1mEq/kg/dia 3. Perdas Contínuas Volume que continua sendo perdido ao longo do dia do tratamento iniciado. É uma simples estimativa com uma margem de erro relativamente grande, e somente possível nos quadros em que a perda é visível (diarréia e poliúria). Dificilmente mensurável. É impossível estimar nos casos de seqüestros de fluidos. Tais dificuldades técnicas fazem com que esse volume seja muitas vezes ignorado. Vômito: 40ml/kg/dia Diarréia: 50ml/kg/dia Ambos: 60ml/kg/dia K+: 3 mEq/100ml Exemplo: Paciente da raça Pinscher (2kg) -Desidratação Clínica: 10% = 200mL -Vômito (40mL/kg/dia) = 80 mL -Diarréia (50mL/kg/dia) = 100 mL -Manutenção (50mL/kg/dia) = 100 mL TOTAL = 480 mL Temos 480 mL em 24 horas. No equipo macrogotas 20 gotas / mL = 480 mL x 20 = 9600 gotas em 24 horas 400 gotas /hora (60 minutos) 6,6 gotas/min ou seja 1 gota a cada 10 segundos aproximadamente BIBLIOGRAFIA AGUIAR, E.S.V. Manual prático de emergências em pequenos animais. 1ª.ed. Porto Alegre: UFRGS, 2002. 100p. COLLEGE OF VETERINARY MEDICINE/ WASHINGTON STATE UNIVERSITY. Ancillary notes for fluid therapy Disponível em: . Acesso em: set. 2008. DIBARTOLA, S.P.; BATEMAN, S. Introdução à fluidoterapia. In: DIBARTOLA, S.P. Distúrbios hídricos eletrolíticos e ácido-básicos em pequenos animais. 3ª.ed. São Paulo: Saunders Elsevier, 2006. p 309 – 328. GONZÁLEZ, F.H.D.; SILVA, S.C. 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