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PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR 
DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 
 
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Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA 
DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS – PARTE III 
7) DIREITO À PRIVACIDADE 
O direito à privacidade está previsto no inciso X do art. 5º da 
Constituição Federal, nos seguintes termos: 
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a 
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo 
dano material ou moral decorrente de sua violação; 
Da leitura do dispositivo, percebe-se que o direito à privacidade 
é mais amplo e genérico, abrangendo as seguintes espécies: 
intimidade, vida privada, honra e imagem. 
Direito à intimidade compreende as relações e opções mais 
íntimas e pessoais de um sujeito, as quais são mantidas em sigilo e 
ocultas até mesmo de suas pessoas mais próximas. 
Direito à vida privada por seu turno é mais abrangente que o 
direito à intimidade, abrangendo as relações familiares, pessoais, 
negociais ou afetivas do indivíduo, incluindo-se aqui – por exemplo – 
os dados bancários e fiscais de um sujeito. Perceba-se que a tutela 
da vida privada não busca resguardar segredos ou particularidades 
confidenciais de uma pessoa, tarefa afeta ao direito à intimidade. 
Direito à honra é aquele que visa proteger o valor moral do 
indivíduo, o qual pode ser entendido como a reputação, bom nome, 
boa fama perante a sociedade (honra objetiva) ou como o sentimento 
próprio de estima e dignidade do sujeito (honra subjetiva). 
ATENÇÃO! Em relação ao direito à honra, é oportuno enfatizar que as 
pessoas jurídicas gozam do direito de proteção à honra na parte em que 
há compatibilidade entre esse direito e a sua natureza jurídica. A pessoa 
jurídica, muito embora não possua honra subjetiva dada a 
incompatibilidade lógica entre esse instituto (sentimento próprio de 
estima) e a natureza jurídica da pessoa jurídica (pessoa não humana, 
incapaz de ter sentimentos), possui honra objetiva, ou seja, uma 
imagem (marca) a zelar perante a sociedade, razão pela qual uma ofensa 
a esse bom nome (boa fama) da empresa enseja em violação ao seu 
direito à honra objetiva, atraindo a incidência do presente direito 
fundamental. 
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Direito à imagem visa proteger qualquer representação 
gráfica (tais como fotos, caricaturas, desenhos, pinturas, esculturas e 
etc.) do aspecto visual da pessoa ou de seus traços fisionômicos. 
É de fundamental importância que se perceba que o direito à 
imagem em nada se confunde com o direito à honra, ou seja, a 
divulgação não autorizada da imagem de um pessoa, ainda que não 
lhe gere nenhuma ofensa à honra, acarreta em ofensa ao direito à 
imagem. Portanto, ainda que a divulgação indevida da imagem da 
pessoa tenha sido feita em um contexto de enaltecimento de sua 
figura, tal fato não será suficiente para afastar a ofensa à sua 
imagem. 
ATENÇÃO! Importante destacar que o fato de a pessoa se 
encontrar em local público, sujeita-a a ser filmada, fotografada, 
vista por outras pessoas, razão pela qual nesse contexto pode ser 
presumido um consentimento tácito de exposição moderada. Por 
essa razão, não gera dano à imagem uma aparição sem destaque 
(sem proeminência, como mero coadjuvante) de alguém que se 
encontre em lugar aberto ao público e é retratado como parte da 
cena, parte de um todo. 
 
ESQUEMATIZANDO O DIREITO À PRIVACIDADE 
 
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TEORIA DAS ESFERAS DA PERSONALIDADE (ou dos círculos 
concêntricos da personalidade) 
De acordo com essa teoria, quanto maior a proximidade com a esfera 
central da personalidade, mais rígidos deverão ser os controles acerca das 
restrições admissíveis. 
São quatro as esferas ligadas ao direito à privacidade: a esfera da 
publicidade, a esfera da privacidade, a esfera da intimidade e a 
esfera do segredo. 
Vale ressaltar que essa teoria foi preconizada na década de 1950 por 
HEIRICH HENKEL, com três esferas (a espera pública não era considerada). 
I. ESFERA DA PUBLICIDADE: Abrange os episódios que se 
desenvolvem em âmbito público (dados não sensíveis). Não estão 
protegidos pelo direito à privacidade. 
 
II. ESFERA DA PRIVACIDADE: Abrange os aspectos e dados da vida 
pessoal que não são abrangidos pela esfera da publicidade, mas que 
o legislador, no exercício de seu poder conformador de direitos 
individuais, pode estabelecer restrições, sem que a Constituição exija 
condicioná-las à reserva absoluta de jurisdição (não há o monopólio 
judicial da primeira palavra). Exemplos: dados de registros 
telefônicos, sigilos fiscal e bancário. 
 
III. ESFERA DA INTIMIDADE: São os dados da vida pessoal cujo 
acesso não autorizado depende sempre de autorização judicial 
(reserva absoluta de jurisdição ou monopólio judicial da 
primeira palavra). 
 
IV. ESFERA DO SEGREDO: Inclui aspectos de personalidade 
inteiramente subtraídos do conhecimento alheio e informações de 
conhecimento apenas das pessoas mais íntimas ou de profissionais 
cuja atividade envolva necessário acesso a esses aspectos 
confidenciais (sigilos profissionais em sentido estrito ou segredos 
profissionais). Trata-se de esfera da personalidade cuja proteção 
quase não encontra limites, seja porque é muito difícil haver 
interesse público que justifique uma intervenção estatal não 
consentida a esse respeito, seja pela falta de meios juridicamente 
admitidos ou faticamente possíveis que a permitissem conhecer. Ex.: 
Sentimentos pessoais, preferências sexuais, etc. 
Obs.: As pessoas “públicas” (que explorem comercialmente a própria 
imagem ou marca) se encaixam em um grau menor de proteção do 
direito à intimidade. 
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PONTOS RELEVANTES PARA AS PROVAS DE CONCURSOS 
PÚBLICOS LIGADOS AO DIREITO À PRIVACIDADE 
7.1) DIREITO AO ESQUECIMENTO 
a) CONCEITO 
O direito ao esquecimento é o direito que uma pessoa possui de 
não permitir que um fato, ainda que verídico, ocorrido em 
determinado momento de sua vida, seja exposto ao público em geral, 
causando-lhe sofrimento ou transtornos. 
b) NOMENCLATURA 
O direito ao esquecimento, também é chamado de “direito de 
ser deixado em paz” ou o “direito de estar só”. Nos EUA, é conhecido 
como “the right to be let alone” e, em países de língua espanhola, é 
alcunhado de “derecho al olvido”. 
c) TRATAMENTO CONSTITUCIONAL 
Trata-se de um direito constitucionalmente protegido, muito 
embora não seja previsto expressamente no texto constitucional. A 
doutrina ensina que o direito ao esquecimento é implícito e 
decorre: 
 Dos direitos à vida privada, intimidade, honra e imagem 
(art. 5º, X, da CF/88); e 
 Do fundamento constitucional da dignidade humana (art. 
1º, III, da CF/88). 
d) DIREITO AO ESQUECIMENTO VERSUS DIREITO À 
LIBERDADE DE INFORMAÇÃO 
Ponto importante no estudo do direito ao esquecimento é a 
inevitável análise de sua colisão com outro direito fundamental: 
o direito à liberdade de informação que norteia a liberdade de 
imprensa no nosso Estado democrático de direito. 
Isso porque ao se aceitar o direito ao esquecimento, estar-se-á 
impedindo a imprensa de noticiar determinados fatos que ficaram no 
passado e que podem representar um sofrimento ou transtorno a 
quem neles estava envolvido. 
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# Diante disso, como deve ser feita a conciliação entre os 
dois direitos acima contrapostos? 
 Deve-se analisar se existe um interesse públicoatual na 
divulgação da referida informação. 
Se ainda existe interesse público na divulgação da 
informação: 
Não há que se falar em direito ao esquecimento, sendo lícita a 
publicidade daquela notícia. É o caso, por exemplo, de crimes 
genuinamente históricos, quando a narrativa desvinculada dos 
envolvidos se fizer impraticável. 
Como exemplos desses crimes históricos temos os casos de 
“Dorothy Stang” (missionária assassinada em razão de conflitos 
agrários no Pará) e de “Vladimir Herzog” (jornalista assassinado – ou 
que se suicidou, não se sabe ao certo – durante o período da ditadura 
militar). 
Em casos como esses, a narrativa dos fatos é vinculada 
intimamente aos nomes dos envolvidos, razão pela qual os familiares, 
por exemplo, não poderiam invocar o direito ao esquecimento para 
impedir a narrativa histórica tendo em vista o sofrimento que os fatos 
rememorados lhes causariam. 
ATENÇÃO: No entendimento do STJ, essa historicidade dos fatos, 
definidora da prevalência do direito de informação sobre o direito 
ao esquecimento, deve ser analisada caso a caso, sempre em 
respeito às particularidades do caso concreto (REsp 1.334.097/RJ). 
Se não existe mais interesse público atual na divulgação da 
informação: 
O direito ao esquecimento poderá ser invocado, tornando ilícita 
a divulgação dos fatos por violarem os direitos à vida privada, honra, 
imagem, intimidade ou até mesmo a dignidade humana dos 
envolvidos. 
 
 
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e) TRATAMENTO JURISPRUDENCIAL 
Em março de 2013, na VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, 
foi aprovado um enunciado defendendo a existência do direito ao 
esquecimento como uma expressão da dignidade da pessoa humana. 
Veja: 
Enunciado 531: A tutela da dignidade da pessoa humana na 
sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento. 
Apesar de tais enunciados não terem força cogente, trata-se de 
uma importante fonte de pesquisa e argumentação utilizada pelos 
profissionais do Direito. 
Ademais, reforçando o entendimento acima esposado, o STJ 
acolhe a tese de que o sistema jurídico brasileiro protege o 
direito ao esquecimento. O tribunal adotou o referido 
entendimento em dois recentes julgamentos sobre o tema: 
 CHACINA DA CANDELÁRIA (RESP 1.335.153/RJ): 
Certo cidadão foi denunciado por, supostamente, ter sido um dos 
participantes da famosa chacina da candelária. Ao final do processo, 
todavia, foi absolvido da acusação. 
Tempos depois, a Rede Globo, no programa “Linha Direta”, 
narrou o episódio da chacina da candelária citando nominalmente o 
sujeito e mostrando uma fotografia sua, informando que ao final do 
processo ele havia sido absolvido. 
O indivíduo ingressou, então, com ação de indenização, 
argumentando que sua exposição no programa, para milhões de 
telespectadores, em rede nacional, reacendeu na comunidade onde 
residia a imagem de que ele seria um assassino, violando seu direito 
à paz, anonimato e privacidade pessoal. Alegou, inclusive, que foi 
obrigado a abandonar a comunidade em que morava para preservar 
sua segurança e a de seus familiares. 
A 4ª Turma do STJ reconheceu que esse indivíduo 
possuía o direito ao esquecimento e que o programa poderia 
muito bem ser exibido sem que fossem mostrados o seu nome e a 
sua fotografia. Se assim fosse feito, não haveria ofensa à liberdade 
de expressão nem à honra do homem em questão. 
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 CASO AÍDA CURI (REsp 1.334.097/RJ) 
O segundo caso analisado foi o dos familiares de Aída Curi, 
abusada sexualmente e morta em 1958 no Rio de Janeiro. 
A história desse crime, um dos mais famosos do noticiário 
policial brasileiro, foi apresentada pela rede Globo, também no 
programa “Linha Direta”, tendo sido feita a divulgação do nome da 
vítima e de fotos reais, o que, segundo seus familiares, trouxe a 
lembrança do crime e todo sofrimento que o envolve. 
Em razão da veiculação do programa, os irmãos da vítima 
moveram ação contra a emissora, com o objetivo de receber 
indenização por danos morais, materiais e à imagem, por violação do 
direito ao esquecimento. 
A 4ª Turma do STJ entendeu que não seria devida a 
indenização, considerando que, nesse caso, o crime em questão 
foi um fato histórico, de interesse público e que seria impossível 
contar esse crime sem mencionar o nome da vítima, a exemplo 
do que ocorre com os crimes históricos, como os casos “Dorothy 
Stang” e “Vladimir Herzog”. 
Na ementa do julgamento, restou consignado o seguinte: 
“(...) o direito ao esquecimento que ora se reconhece 
para todos, ofensor e ofendidos, não alcança o caso dos autos, 
em que se reviveu, décadas depois do crime, acontecimento que 
entrou para o domínio público, de modo que se tornaria impraticável 
a atividade da imprensa para o desiderato de retratar o caso Aída 
Curi, sem Aída Curi.” 
 
 
 
 
 
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f) DIREITO À MEMÓRIA VERSUS DIREITO AO 
ESQUECIMENTO 
Quando um país faz a transição de um regime ditatorial para 
um Estado democrático, ele deverá passar por um processo de 
mudança e adaptação, chamado pela doutrina de “Justiça de 
Transição”. 
Uma das principais medidas desse processo é a salvaguarda do 
direito à memória, ou seja, o direito de preservar os fatos históricos 
marcantes do regime anterior. 
Em se tratando de Brasil, por exemplo, podemos conceituar o 
direito à memória como sendo o direito que possuem os lesados e 
toda a sociedade brasileira de esclarecer os fatos e as circunstâncias 
que geraram graves violações de direitos humanos durante o período 
de ditatura militar, tais como os casos de torturas, mortes, 
desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres etc. 
Nesse tanto, é importante ressaltar que o direito ao 
esquecimento não tem o condão de impedir a concretização do 
direito à memória. 
Isso porque as violações de direitos humanos ocorridas no 
período da ditadura militar são fatos de extrema relevância histórica 
e de inegável interesse público. Logo, em uma ponderação de 
interesses, o direito individual ao esquecimento cede espaço ao 
direito à memória e à verdade histórica. 
 
7.2) INVIOLABILIDADE DO DOMICÍLIO 
A inviolabilidade do domicílio é direito previsto no art. 5º, XI, da 
Constituição Federal, nos seguintes termos: 
XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo 
penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante 
delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por 
determinação judicial; 
 
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a) EXTENSÃO DO CONCEITO DE “CASA” 
O Código Penal define o conceito de “casa”, nos seguintes 
termos: 
§ 4º - A expressão "casa" compreende: 
I - qualquer compartimento habitado; 
II - aposento ocupado de habitação coletiva; 
III - compartimento não aberto ao público, onde alguém 
exerce profissão ou atividade. 
§ 5º - Não se compreendem na expressão "casa": 
I - hospedaria, estalagem ou qualquer outra habitação coletiva, 
enquanto aberta, salvo a restrição do n.º II do parágrafo anterior; 
II - taverna, casa de jogo e outras do mesmo gênero. 
A interpretação é ampla e abrangente, e alcança, além da 
residência (apartamento, casa), aposentos de habitação coletiva, 
desde que ocupados (hotel, motel, pensão, pousadas e hospedaria), 
escritórios profissionais, oficinas e garagens (STF, RHC n. 90.376). 
 
ATENÇÃO! Boleia de caminhão não entra no 
conceito de casa, independentemente se o 
caminhãose encontra parado ou em movimento. 
Esse entendimento prevalece no âmbito dos tribunais 
superiores quando da análise do crime de porte ilegal de 
arma de fogo (sempre será porte ilegal de arma de fogo 
quando a arma é flagrada na boleia do caminhão, por não 
se considerar a referida boleia como “casa”). 
 
Repartição pública: Em regra, não entra no conceito de casa. 
CUIDADO! O STJ já entendeu em caso específico que o 
gabinete de Delegado de Polícia seria “casa”, considerando crime de 
violação de domicílio (art. 150 do CP) o ingresso neste local em 
desacordo com a Lei, nos seguintes termos: 
“Assim, a sala de um servidor público, no caso concreto o 
gabinete de um Delegado Federal, ainda que situado em um 
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prédio público, está protegida pelo tipo penal em apreço, já que 
se trata de compartimento cujo acesso é restrito e depende de 
autorização, constituindo local fechado ao público em que 
determinado indivíduo exerce suas atividades, nos termos 
preconizados pelo Código Penal. (STJ: HC 298.763/SC, DJe 
14/10/2014)” 
 
b) EXCEÇÕES À INVIOLABILIDADE DO DOMICÍLIO 
i) Com o consentimento do morador: 
O ingresso na residência pode se dar a qualquer hora do dia ou 
da noite. 
Importante observar que a proteção é dada ao morador e 
não ao proprietário. Outro dia, uma Banca Examinadora trouxe 
uma situação hipotética na qual o locador (proprietário) ingressava 
em seu apartamento para saber se a locatária (moradora) estava 
cuidando direito de seu imóvel. A pergunta foi se havia ou não 
invasão de domicílio, a resposta esperada era que sim. 
 
ii) Sem o consentimento do morador: 
A qualquer hora do dia ou da noite para: 
 Prestar socorro; 
 Em caso de flagrante delito; ou 
 Em caso de desastre. 
 
Somente durante o dia: 
 Por determinação da autoridade judicial; 
ATENÇÃO: A autorização somente pode ser dada pelo 
poder judiciário (somente o Juiz), trata-se de uma 
cláusula de reserva de jurisdição. 
 
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CUIDADO! Em regra, não se permite o ingresso durante 
a noite. Em um caso específico (INQ 2424), todavia, o 
STF autorizou o ingresso da polícia no escritório de 
advocacia durante a noite, por ser o único momento em 
que a diligência – implantação de escuta ambiental – 
poderia ser cumprida sem que os investigados tivessem 
conhecimento dela, tendo em vista que a garantia da 
inviolabilidade do domicílio não pode ser usada como 
escudo para a prática de crimes (não existem direitos 
absolutos). 
 
CONCEITO DE DIA: Existem, na doutrina, dois critérios sugeridos. 
 
 Critério físico-astronômico: O período diurno compreende o 
lapso entre a aurora e o crepúsculo. Nesse sentido, Uadi 
Lammêgo Bulos. 
 
 Critério cronológico: O período diurno compreende o período 
entre as 06 horas e as 18 horas. 
 
Não há consenso na doutrina, de forma que a melhor opção 
na prática policial é conjugar os dois critérios: no cumprimento 
de um mandado judicial é recomendável a entrada em domicílio 
somente após as 6 horas e desde que tenha ocorrido a aurora 
(nascer do sol). Nesse sentido, o professor Pedro Lenza (Direito 
Constitucional Esquematizado). 
 
c) VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIO EM CASO DE FLAGRANTE 
DELITO 
O STF firmou o entendimento de que nos casos em que a 
polícia ingressa na residência diante de fundadas razões de situação 
de flagrante delito, a violação de domicílio é legitima e não deve 
ensejar responsabilização para o agente público. 
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Entretanto, caso fique caracterizada a má-fé (ingresso sem 
fundadas suspeitas), com o posterior encontro fortuito de provas que 
demonstrem flagrante de crime permanente, a violação do domicílio é 
ilegal e deve ensejar a responsabilização do agente público. 
Nas palavras do STF, no julgamento do RE 603.616/RO, DJe 
10/05/2016: 
“5. Justa causa. A entrada forçada em domicílio, 
sem uma justificativa prévia conforme o direito, é 
arbitrária. Não será a constatação de situação de 
flagrância, posterior ao ingresso, que justificará a 
medida. Os agentes estatais devem demonstrar que 
havia elementos mínimos a caracterizar fundadas 
razões (justa causa) para a medida. 6. Fixada a 
interpretação de que a entrada forçada em domicílio 
sem mandado judicial só é lícita, mesmo em 
período noturno, quando amparada em fundadas 
razões, devidamente justificadas a posteriori, que 
indiquem que dentro da casa ocorre situação de 
flagrante delito, sob pena de responsabilidade 
disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e 
de nulidade dos atos praticados.” 
Em outras palavras, a violação de domicílio não pode ser feita 
com base na mera “intuição” de que há flagrante delito na 
residência. Exige-se a prévia existência de um elemento objetivo 
que demonstre a probabilidade da ocorrência de flagrante no local. 
A entrada sem uma causa provável, ainda que encontre 
situação flagrancial, configura violação indevida do domicílio. 
 
 A ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA PODE INGRESSAR EM 
ESTABELECIMENTOS EMPRESARIAIS SEM AUTORIZAÇÃO 
JUDICIAL? Não! A auto executoriedade da administração 
pública não autoriza a violação de domicílio sem autorização 
judicial nem mesmo para a realização de fiscalização tributária 
(STF, 2ª Turma, HC 103.325/RJ – 30/3/2010). 
 
 
 
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d) O caso específico da “Lei do Mosquito” 
De acordo com o art. 1º, §1º, IV da Lei nº 13.301/2016 (Lei do 
Mosquito), na situação de iminente perigo à saúde pública pela 
presença do mosquito transmissor do vírus da dengue, do vírus 
chikungunya e do vírus da zika, a autoridade máxima do Sistema 
único de Saúde (SUS) de âmbito federal, estadual, distrital e 
municipal fica autorizada a determinar e executar, dentre outras 
medidas, enquanto perdurar a Emergência em Saúde Pública de 
Importância Nacional – ESPIN, o ingresso forçado nos imóveis 
públicos e particulares, nos casos de abandono, ausência ou 
recusa de pessoa que possa permitir o acesso do agente público 
designado para contenção das doenças. 
De acordo com Pedro Lenza, a lei deve ser entendida como 
constitucional, pois, apesar de não se encontrar nas ressalvas 
explícitas previstas no art. 5º, XI da CF/88 decorre da ponderação a 
ser realizada à luz de outros preceitos, como o direito à vida e o 
direito à saúde, caracterizando-se as medidas específicas previstas 
na lei como adequadas, necessárias e proporcionais em sentido 
estrito. 
7.3) INVIOLABILIDADE DAS CORRESPONDÊNCIAS 
Em respeito ao direito de privacidade, o art. 5º, XII, da 
Constituição Federal expressamente prevê a inviolabilidade das 
correspondências, nos seguintes termos: 
XII - é inviolável o sigilo da correspondência, (...); 
As correspondências objetos da proteção acima devem ser 
entendidas como as cartas ou qualquer outro impresso em geral, 
bem como os e-mails (correspondências eletrônicas). 
Insta salientar que essa inviolabilidade não é absoluta, 
existindo hipóteses excepcionais em que a violação do sigilo das 
correspondências será autorizada em razão da colisão deste direito 
com outros direitos fundamentais. 
A doutrina cita o exemplo da carta enviada pelo sequestrador à 
família do sequestrado. Por razões óbvias, tal correspondência poderá 
ser violada e utilizada como prova lícita no processo criminal contra o 
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autor do sequestro. Trata-se de uma colisão entre o direito à 
privacidade da correspondência e o direito à liberdade, integridade 
física e até mesmo à vida da vítima sequestrada. 
EXCEÇÕES CONSTITUCIONAIS 
O próprio texto constitucional prevê hipóteses excepcionais em 
que será possível ao Estado mitigar o direito de inviolabilidade de 
correspondências: 
Estado de defesa (art. 136, § 1º, I, “b” da CF/88): 
§ 1º O decreto que instituir o estado de defesa determinará o 
tempo de sua duração, especificará as áreas a serem 
abrangidas e indicará, nos termos e limites da lei, as medidas 
coercitivas a vigorarem, dentre as seguintes: 
I - restrições aos direitos de: 
b) sigilo de correspondência; 
Estado de sítio (art. 139, III, da CF/88): 
Art. 139. Na vigência do estado de sítio decretado com 
fundamento no art. 137, I, só poderão ser tomadas contra as 
pessoas as seguintes medidas: 
III - restrições relativas à inviolabilidade da correspondência 
(...); 
 
JURISPRUDÊNCIA 
O STF, julgando o HC 70.814, entendeu ser possível ao diretor 
do estabelecimento prisional interceptar as correspondências dos 
presos em situações excepcionais, desde que o ato seja 
devidamente motivado e fundamentado em: 
 Razões de segurança pública; 
 Preservação da ordem jurídica; ou 
 Disciplina prisional; 
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7.4) SIGILO DE DADOS PESSOAIS 
Em decorrência do direito à privacidade e à intimidade, a 
Constituição confere às pessoas o direito de controlar a circulação das 
informações que lhes digam respeito, cabendo ao próprio indivíduo 
decidir sobre “quando, como e em que extensão e para que finalidade 
determinada informação será conhecida por terceiros” (MONTEIRO, 
2007, p. 33). 
No entanto, não são todos os dados protegidos pelo direito à 
privacidade/intimidade. Apenas os dados sensíveis são 
protegidos (aqueles compreendidos por quaisquer das esferas da 
privacidade). Os dados não sensíveis não são protegidos pela 
inviolabilidade dos dados (aqueles cuja natureza ou meio de 
acesso são públicos). 
São entendidos como dados sensíveis, por exemplo. Os dados 
bancários, os dados fiscais, os valores remuneratórios de um 
indivíduo. 
A) FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL DO SIGILO DE 
DADOS 
Existem três teorias sobre o fundamento constitucional da 
inviolabilidade de dados: 
I. TEORIA DA PROTEÇÃO AMPLA 
A teoria da proteção ampla entende que o sigilo de dados está 
assegurado genericamente no inciso X e especificamente no inciso 
XII do art. 5º da CF/88. 
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a 
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano 
material ou moral decorrente de sua violação; 
XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das 
comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, 
salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma 
que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução 
processual penal; 
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Por essa teoria, os dados sensíveis apenas poderiam ter o sigilo 
violado por decisão judicial (haveria uma cláusula de reserva de 
jurisdição absoluta) e somente na forma que a lei estabelecer para 
fins de investigação criminal ou instrução processual penal. 
Essa é a posição majoritária na doutrina, já tendo sido, 
inclusive, adotada no Plenário do STF (RE 389.808/PR). 
II. TEORIA DA PROTEÇÃO RESTRITA 
A teoria da proteção restrita, adota atualmente pelo Supremo 
Tribunal Federal, entende que o sigilo de dados está protegido 
apenas pelo inciso X do art. 5º da CF/88 (vide acima). 
Para esse teoria, o inciso XII se destina a proteger o sigilo da 
comunicação/transferência dos dados (fluxo das 
informações), e não aos dados propriamente ditos (resultado do 
fluxo das informações). 
As consequências dessa teoria são as seguintes: 
i. a quebra do sigilo de dados, apesar de ser excepcional, não se 
sujeita à cláusula de reserva absoluta de jurisdição. O 
legislador ordinário, em seu poder conformador de direitos 
fundamentais, pode autorizar autoridades não judiciárias a 
quebra de tal sigilo. 
 
ii. É possível a quebra do sigilo de dados para outras finalidades 
além da investigação criminal ou instrução processual penal 
(ação de improbidade administrativa, por exemplo), desde que 
autorizada por autoridade legalmente competente por decisão 
fundamentada pela qual se demonstre a adequação e a efetiva 
necessidade da medida. 
Apesar de ser posição minoritária na doutrina, é a posição 
dominante no STF atualmente (Plenário, RE 418.416/SC, QO na 
Pet 577/DF e ADIn 2.407/SC). 
 
 
 
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III. TEORIA INTERMEDIÁRIA 
A teoria intermediária entende que o inciso XII do art. 5º 
protege as comunicações pessoais, incluindo os dados dela 
resultantes (exemplo, dados telefônicos). Porém, os dados constantes 
de arquivos pessoais ou privados (dados bancários e fiscais, por 
exemplo), só contariam com a proteção do inciso X do art. 5º. 
 
B) OUTRAS INFORMAÇÕES IMPORTANTES 
DESNECESSIDADE DE CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA 
PARA QUEBRA DO SIGILO DE DADOS: O STF entende que não é 
necessária a observância da ampla defesa antes de quebrar o sigilo 
de dados no âmbito de investigações e inquéritos (criminais, 
administrativos e civis)), pois o “princípio do contraditório não 
prevalece na fase inquisitória” (Pleno, AgRg no Inq 897/DF). 
 
CABIMENTO DE HABEAS CORPUS PARA QUESTIONAR QUEBRA 
DE SIGILO DE DADOS: O STF entende que o habeas corpus é 
medida idônea para impugnar decisão judicial que autoriza a quebra 
de sigilo fiscal e bancário em procedimento criminal, haja vista a 
possibilidade destes resultarem em constrangimento à liberdade do 
investigado (QO no AAI 573.623/RJ – 2ª Turma). 
 
C) SIGILO DE DADOS BANCÁRIOS 
As movimentações financeiras do indivíduo integram sua 
privacidade, sendo dever das instituições bancárias manter o sigilo 
sobre esses dados. 
ATENÇÃO! Por essa razão, em regra, o sigilo bancário do 
indivíduo apenas poderá ser quebrado por determinação 
judicial ou por ordem de Comissão Parlamentar de 
Inquérito (CPI). 
 
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COMPETÊNCIA PARA SOLICITAR QUEBRA DE SIGILO 
BANCÁRIO 
I) PODER JUDICIÁRIO 
É o único que pode fazer a quebra de qualquer dos sigilos 
descritos na CF, incluindo o sigilo das comunicações telefônicas em 
que há reserva absoluta de jurisdição. Essa prerrogativa, entretanto, 
deve ser feita mediante decisão devidamente fundamentada, a qual 
justifique, no caso concreto, a real necessidade da medida, já que a 
regra é o sigilo. 
A possibilidade da quebra é extraída da inexistência de direito 
absoluto e da impossibilidade de se valer de uma garantia 
constitucional para praticar atos ilícitos. 
II) COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO FEDERAL 
OU ESTADUAL 
Por possuírem os poderes próprios das autoridades judiciais, 
podem determinar a quebra de sigilo de quaisquer dados sensíveis 
dos cidadãos, RESSALVADAS as comunicações telefônicas. 
Ou seja, em relação aos dados bancários protegidos por sigilo, 
as CPIs federais e estaduais podem requisitá-los diretamente às 
instituições bancárias sem depender de autorização judicial. 
Importante registrar que a quebra feita pela CPI deve respeitar 
a necessidade de fundamentação e o princípio da colegialidade. 
Em outras palavras, a quebra não pode ser decretada apenaspelo 
Relator ou pelo Presidente, deve haver deliberação da maioria dos 
membros da Casa Legislativa. 
 
ATENÇÃO! Prevalece o entendimento de que as CPIs 
municipais não gozam dessa prerrogativa, tendo em 
vista que tal poder decorre do fato de que as CPIs 
possuem os poderes próprios das autoridades judiciais e o 
Município não possui um poder judiciário. 
 
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III) POLÍCIA 
Não pode requerer informações bancárias diretamente às 
instituições financeiras. Sempre dependerão de autorização judicial 
para obter essas informações. 
 
IV) MINISTÉRIO PÚBLICO 
Em regra, não pode quebrar os sigilos de dados bancários e 
fiscais. O caminho a ser percorrido, então, deverá solicitar a quebra 
pelo Poder Judiciário (STJ, RHC n. 46.571). 
Todavia, excepcionalmente, poderá requerer diretamente as 
informações bancárias no caso de contas de titularidades de 
órgãos ou entidades públicas, com o fim de proteger o patrimônio 
público. Nesses casos não haverá quebra ilegal de sigilo bancário, até 
porque tais contas públicas são regidas pelo princípio administrativo 
da publicidade. 
Nesse sentido, o STJ destacou que não são nulas as provas 
obtidas por meio de requisição do Ministério Público de informações 
bancárias de titularidade de Prefeitura para fins de apurar supostos 
crimes praticados por agentes públicos contra a Administração 
Pública, independentemente de autorização judicial (STJ, RHC n. 
308.493). 
Isso porque os recursos públicos não estão abrangidos por 
hipótese de sigilo de dados, pois submetidos aos princípios da 
Administração Pública (art. 37 da CF), dentre eles o princípio da 
publicidade. 
Além disso, de acordo com o STF, esse poder requisitório do MP 
em caso de recursos públicos abrange o acesso aos registros das 
operações bancárias sucessivas, ainda que realizadas por 
particulares, e objetiva garantir o acesso ao destino real da verba 
pública (RHC 133.118/CE – j. em 26/9/2017). 
 
 
 
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V) TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO 
Não pode requerer informações bancárias diretamente às 
instituições financeiras. Sempre dependerá de autorização judicial 
para obter essas informações. 
Ocorre que em um julgamento rumoroso – política e 
juridicamente –, o STF entendeu que o TCU poderia requisitar 
informações ao BNDES de um contrato de empréstimo envolvendo 
a JBS/Friboi. 
Na ocasião, o banco alegava que dar acesso aos dados 
significava quebrar o sigilo dos dados (bancários). O STF rebateu 
essa tese e pontuou que, se a empresa fosse vencedora, nenhum 
contrato entabulado pelo BB ou pela Caixa poderia ser fiscalizado, o 
que certamente vai contra a missão do TCU (STF, MS n. 33.340). 
ATENÇÃO! O envio de informações ao TCU relativas a 
operações de crédito originárias de recursos públicos não 
é coberto pelo sigilo bancário. 
 
VI) RECEITA FEDERAL 
 Consoante entendimento do STF, a requisição direta pela 
Receita Federal de dados bancários de cidadãos às instituições 
bancárias não caracteriza quebra de sigilo dos dados, mas tão 
somente uma transferência do sigilo de uma instituição para outra, 
vez que o fisco tem o dever de manter o sigilo dos dados requisitados 
perante terceiros. 
Com essa linha de fundamentação, o STF entendeu que, 
independentemente de decisão judicial, era possível o 
compartilhamento de dados entre as instituições financeiras e 
o Fisco Federal, estadual e municipal, até mesmo em razão do 
dever de o cidadão pagar regularmente seus tributos. No entanto, 
ressaltou que esses dados não poderiam ser divulgados, mantendo-
se resguardadas a intimidade e a vida íntima do correntista. Haveria, 
na verdade, transferência de sigilos de uma instituição (banco) 
para outra (Receita Federal), e não a quebra do sigilo (STF, ADI 
n.2.390). 
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ATENÇÃO: Dessa forma, a Receita Federal pode 
requisitar informações bancárias diretamente às 
instituições financeiras sem necessidade de autorização 
judicial. 
 
IMPORTANTE 
Os dados obtidos pela Receita Federal diretamente junto aos 
bancos, sem autorização judicial, podem ser utilizados em 
processos penais? 
Há divergência nos tribunais superiores. 
Consoante entendimento do STF, é perfeitamente possível que 
os dados obtidos pela Receita sem autorização judicial perante 
as instituições financeiras, sejam utilizados para instruir processos 
penais sem que isso caracterize qualquer ofensa ao sigilo dos dados 
bancários (STF, 1ª Turma, RE 1.057.667/SE, j. em 12/12/2017). 
Insta salientar que o STJ tem posicionamento em sentido 
contrário, vedando a utilização desses dados em processos penais 
se não houver autorização judicial, muito embora também admita a 
possibilidade de obtenção dos dados diretamente pela Receita 
Federal sem autorização judicial. 
 
 
VII) RECEITA ESTADUAL, DISTRITAL OU MUNICIPAL 
Da mesma forma que a Receita Federal, os fiscos estaduais, 
municipais e do Distrito Federal podem requisitar diretamente 
às instituições financeiras, sem autorização judicial, os dados 
bancários dos cidadãos, DESDE QUE exista regulamentação da 
matéria em seu respectivo âmbito de atuação (estado, município ou 
DF) de forma análoga à regulamentação trazida pelo Decreto 
3.724/2001 no âmbito federal. 
 
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 Tal regulamentação deve conter as seguintes garantias: 
 Pertinência temática entre a obtenção das informações 
bancárias e o tributo objeto de cobrança no procedimento 
administrativo instaurado; 
 A prévia notificação do contribuinte quanto a instauração 
do processo e a todos os demais atos; 
 Sujeição do pedido de acesso a um superior hierárquico; 
 Existência de sistemas eletrônicos de segurança que 
sejam certificados e com registro de acesso; 
 Estabelecimento de instrumentos efetivos de apuração e 
correção de desvios. 
 
D) SIGILO DE DADOS FISCAIS 
Os dados fiscais são dados atrelados à privacidade do indivíduo, 
dizendo respeito às informações referentes à posição econômica, 
financeira ou dos negócios e atividades do contribuinte e terceiros. O 
sigilo fiscal somente pode ser excepcionado em situações 
extraordinárias. 
Somente a autoridade judicial e as CPIs podem determinar a 
quebra do sigilo fiscal. Não há qualquer precedente do STF 
autorizando membros do Ministério Público a determinar a violação 
deste sigilo. 
 
E) SIGILO DE DADOS TELEFÔNICOS 
Dados telefônicos são as informações referentes a números 
para os quais se efetuou ligação ou dos quais se recebeu ligação, 
duração, data e horário da chamada. Em nenhuma hipótese o teor 
das comunicações (conteúdo das conversas) será considerado dado 
telefônico. 
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Consoante entendimento do STF, apenas as autoridades 
judiciais e as CPIs podem determinar a violação do sigilo dos dados 
telefônicos. 
F) SIGILO DAS COMUNICAÇÕES TELEFÔNICAS 
O sigilo das comunicações telefônicas é inviolável. Não se trata, 
entretanto, de uma inviolabilidade absoluta! Excepcionalmente, será 
admitida a quebra do sigilo das comunicações telefônicas, desde que 
cumpridos os seguintes requisitos: 
 Ordem judicial. 
ATENÇÃO! Trata-se de cláusula de reserva de jurisdição (monopólio 
judicial da primeira palavra). Somente a autoridade judicial poderá 
autorizar a quebra do sigilo dascomunicações telefônicas do cidadão, 
nem mesmo as CPIs têm esse poder. 
 Finalidade específica de auxiliar em investigação 
criminal ou instrução processual penal. 
ATENÇÃO! Nada impede que os dados obtidos regularmente na 
interceptação determinada em investigações criminais ou em 
instruções processuais penais sejam utilizados como prova 
emprestada em processo de outra natureza. 
 Previsão legal 
ATENÇÃO! Por essa razão o STF considera ilegais todas as 
interceptações telefônicas realizadas a partir da Constituição Federal 
de 1988 até a edição da Lei 9.296/96, que regulamentou a 
interceptação telefônica no ordenamento jurídico brasileiro. 
 
 
 
 
 
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# REGULAMENTO SOBRE A QUEBRA DO SIGILO DAS 
COMUNICAÇÕES TELEFÔNICAS 
Interceptação telefônica em sentido estrito: é a captação 
feita por terceira pessoa de uma conversa telefônica, sem o 
consentimento de nenhum dos interlocutores. 
Escuta telefônica: é a captação feita por terceira pessoa de 
uma conversa telefônica, com o consentimento de apenas um dos 
interlocutores. 
Gravação telefônica: é a captação feita por um dos 
interlocutores de uma conversa telefônica, sem o consentimento do 
outro. 
As regras estabelecidas pela Lei 9.296/96, aplicam-se tão 
somente às hipóteses de interceptação telefônica em sentido estrito e 
escuta telefônica, não abrangendo as hipóteses de gravação 
telefônica. 
A gravação telefônica não caracteriza violação do sigilo das 
comunicações, servindo de prova lícita. 
Prazo da interceptação telefônica: O juiz defere a captação 
das conversas pelo prazo máximo de 15 dias, prorrogáveis por mais 
15 dias. Entretanto, a jurisprudência é pacífica no sentido de permitir 
sucessivas prorrogações além dos 30 dias máximos estipulados em 
Lei, desde que exista autorização judicial e a satisfação dos requisitos 
para a decretação da medida antes de cada uma das prorrogações. 
Inclusive, é possível que seja fixado o prazo direto de 30 
dias, renovado sucessivamente por outros 30 (STF, HC n. 
102.601), considerando, no caso concreto, a quantidade de pessoas 
investigadas e da complexidade da organização criminosa. 
 
Conexão de crimes punidos com reclusão e detenção: A 
Lei exige como requisito para concessão da interceptação que o crime 
investigado seja punido com reclusão. 
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Todavia, caso exista conexão entre crimes punidos com 
reclusão e detenção, é possível o deferimento da medida para os dois 
delitos. 
 
ATENÇÃO! No momento da condenação, ainda que exista 
a absolvição do crime punido com reclusão, pode a prova 
oriunda da interceptação ser utilizada para condenação 
pelo crime punido com pena de detenção. 
 
 
SERENDIPIDADE: Trata-se do encontro fortuito de provas. As 
provas encontradas fortuitamente podem ser utilizadas sem nenhum 
problema, seja para condenar um novo réu ou o mesmo réu por 
outro delito que surja fortuitamente. 
Encontro fortuito de informações apontando para o 
envolvimento de autoridade com foro por prerrogativa de 
função: Outro ponto que merece ser lembrado é a situação em que 
um juiz de primeiro grau autoriza a interceptação telefônica e, em 
meio às escutas, se descobre o envolvimento de autoridade com foro 
especial. Nesse caso, entende-se pela validade dos elementos até ali 
colhidos, devendo a autoridade judicial remeter, de imediato, todo o 
processo ao Tribunal competente. 
Destaco que o juiz de primeiro grau não poderia fazer ele 
mesmo a cisão do feito, ficando com uma parte e remetendo a 
outra (com o detentor do foro especial) para o Tribunal competente. 
A análise de desmembramento ou não cabe exclusivamente ao 
Tribunal (STF, AP n. 871). 
 
DEGRAVAÇÃO DOS DIÁLOGOS: Afora isso, a orientação do 
STF e do STJ é no sentido de que não há necessidade de 
degravação integral dos diálogos interceptados, cabendo à 
autoridade policial transcrever os trechos relevantes à elucidação do 
caso. 
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No entanto, exige-se que a mídia contendo todos os 
áudios seja entregue à defesa. Esta, querendo, pode requerer a 
degravação de outros trechos, de modo a afastar eventual acusação 
extraída, por exemplo, de uma frase colocada fora de contexto (STF, 
RHC n. 122.812). 
 
APREENSÃO DE CELULAR E ACESSO AO WHATSAPP: o STJ 
entendeu serem nulas as provas obtidas pela polícia, por meio de 
extração de dados e de conversas registradas no WhatsApp, 
presentes no celular do suposto autor de fato delituoso, sem 
autorização judicial, ainda que o aparelho tenha sido apreendido no 
momento da prisão (STJ, RHC n. 51.531). 
No entanto, situação diversa é aquela em que o celular é 
apreendido em busca e apreensão determinada por decisão 
judicial, hipótese em que não há óbice para que a autoridade policial 
acesso o conteúdo armazenado no aparelho, inclusive as conversas 
do WhatsApp. Para a análise e a utilização desses dados 
armazenados no celular não é necessária nova autorização judicial. A 
ordem de busca e apreensão determinada já é suficiente para 
permitir o acesso aos dados dos aparelhos celulares apreendidos 
(STJ, 5ª Turma, RHC 77.232/SC). 
 
Vale ressaltar que o sigilo do conteúdo de comunicações 
compreende o teor de todas as comunicações privadas, mesmo 
aquelas relacionadas à esfera pública, a exemplo de troca de ideias 
sobre questões políticas e sociais por agentes políticos alvo de 
interceptação telefônica. 
 
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ESTUDO DIRIGIDO 
 
01) Pessoa jurídica tem direito à honra? 
 
02) Qual o conteúdo da teoria das esferas da personalidade? 
 
03) O que é o direito ao esquecimento? Há previsão expressa 
na Constituição Federal de 1988? 
 
04) Como conciliar o direito ao esquecimento com a 
liberdade de informação? 
 
05) Qual a relação entre o direito à memória e o direito ao 
esquecimento? 
 
06) No que diz respeito à inviolabilidade domiciliar, o que 
está abrangido no conceito de casa? 
 
07) Quais são as exceções à inviolabilidade domiciliar? 
 
08) Há precedente do STF autorizando a entrada em 
domicílio durante a noite em cumprimento a ordem judicial? 
 
09) Qual a jurisprudência atual do STF em relação à violação 
de domicílio em caso de flagrante delito? 
 
10) A administração tributária pode ingressar em 
estabelecimento empresarial sem autorização judicial? 
 
11) Qual o fundamento constitucional do sigilo de dados 
pessoais? 
 
12) É necessária a observância do contraditório e da ampla 
defesa para quebra do sigilo de dados? 
 
13) Qual o instrumento jurídico para impugnar quebra do 
sigilo de dados? 
 
14) O Poder Judiciário pode determinar a quebra do sigilo de 
dados bancários? 
 
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15) As Comissões Parlamentares de Inquérito podem 
determinar a quebra do sigilo de dados bancários? Isso 
abrange as CPI’s municipais? 
 
16) A polícia pode determinar quebra do sigilo de dados 
bancários? 
 
17) O Ministério Público pode determinar quebra do sigilo de 
dados bancários? 
 
18) Os recursos públicos estão abrangidos por sigilo de 
dados? 
 
19) O TCU pode quebrar sigilo de dados bancários? 
 
20) A Receita Federal pode requisitar diretamente às 
instituições financeiras os dados bancários de alguém? A 
hipótese configura quebra do sigilo de dados? 
 
21) Os dados obtidospela Receita Federal diretamente junto 
aos bancos, sem autorização judicial, podem ser utilizados em 
processos penais? 
 
22) A permissão dada à Receita Federal para requisitar 
dados bancários se estende ao fisco estadual, distrital e 
municipal? 
 
23) Quais são as autoridades que podem quebrar o sigilo de 
dados fiscais? 
 
24) Quais os requisitos para violação do sigilo das 
comunicações telefônicas?

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