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PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 1 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS – PARTE II 5) DIREITO À PROPRIEDADE A) ABRANGÊNCIA DO DIREITO DE PROPRIEDADE A Constituição Federal não protege apenas o direito de propriedade sobre os bens materiais (móveis ou imóveis), mas também sobre os bens imateriais (direitos autorais, direitos de propriedade industrial e direito à herança). BENS MATERIAIS XXII - é garantido o direito de propriedade; DIREITOS AUTORAIS XXVII - aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar; XXVIII - são assegurados, nos termos da lei: a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas; b) o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas; PROPRIEDADE INDUSTRIAL XXIX - a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País; HERANÇA XXX - é garantido o direito de herança; XXXI - a sucessão de bens de estrangeiros situados no País será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do "de cujus"; PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 2 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA B) DIREITO DE PROPRIEDADE COMO NORMA DE EFICÁCIA CONTIDA O direito de propriedade previsto no art. 5º, XXII, da Constituição Federal é tido pela doutrina como norma de eficácia contida, pois pode ter a sua abrangência restrita em razão da aplicação de outros dispositivos constitucionais, tais como: Art. 5º, XXIII: a propriedade atenderá a sua função social; Art. 5º, XXIV: a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição; Art. 5º, XXV: no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano; (hipótese conhecida como requisição administrativa) Como se depreende dos dispositivos acima, a Constituição estabelece várias possibilidades de restrições ao exercícios do direito de propriedade (respeito à função social, desapropriação, requisição), razão pela qual não há dúvidas de que se trata de direito previsto em norma de eficácia contida. C) FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE DE BENS IMÓVEIS A função social da propriedade é conceituada pela doutrina majoritária como uma forma de limitação ao exercício do direito de propriedade, o qual somente seria constitucionalmente adequado quando exercido em conformidade com as determinações gerais da Constituição sobre a função social que a propriedade privada deve ter. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 3 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Corrente doutrinária minoritária, entretanto, capitaneada por José Afonso da Silva, entende que a função social da propriedade seria parte integrante do próprio direito e não mero mecanismo de limitação ao seu exercício. Para essa corrente, só existe direito de propriedade, quando esta cumpre a sua função social, cujo não cumprimento acarreta a inexistência do direito. I. FUNÇÃO SOCIAL DAS PROPRIEDADES RURAIS Para que as propriedades rurais atendam a sua função social são necessários os seguintes requisitos, todos estabelecidos no art. 186 da Constituição Federal, em três planos distintos: Plano econômico: Aproveitamento racional e adequado (produtividade); Plano ecológico: Utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; Plano social: Observância das disposições que regulam as relações de trabalho; Exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores. ATENÇÃO! A função social somente é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, todos os requisitos acima expressos nos três planos de atuação. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 4 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA # CONSEQUÊNCIAS PARA O DESCUMPRIMENTO DA FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE RURAL Nos termos do art. 184 da Constituição Federal, o descumprimento da função social da propriedade rural pode acarretar na desapropriação do imóvel pelo poder público: Art. 184. Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei. Trata-se de espécie de DESAPROPRIAÇÃO SANÇÃO! Nesse caso, a indenização não é em dinheiro, mas em títulos da dívida da dívida agrária (resgatáveis no prazo de até 20 anos). II. FUNÇÃO SOCIAL DAS PROPRIEDADES URBANAS A propriedade urbana cumpre a sua função social quando respeita o plano diretor estabelecido pelo Município em que se encontre localizada, nos termos do art. 182, § 2º, da Constituição Federal: Art. 182, § 2º: A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor. # CONSEQUÊNCIAS PARA O DESCUMPRIMENTO DA FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE URBANA O art. 182, § 4º, da Constituição garante ao Município a prerrogativa de exigir que o proprietário promova o adequado aproveitamento de sua propriedade urbana quando o solo urbano não está edificado, está subutilizado, ou não está utilizado. Caso a exigência não seja cumprida, caberão as seguintes sanções, sucessivamente: Parcelamento ou edificação compulsórios; PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 5 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo; Desapropriação sanção com pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas, assegurados o valor real da indenização e os juros legais. CUIDADO! A ordem acima exposta deve ser respeitada, ou seja, não se pode, por exemplo, desapropriar o imóvel sem antes exigir seu parcelamento ou edificação compulsórios e, posteriormente, determinar a cobrança de IPTU progressivo no tempo. D) OUTRAS FORMAS DE LIMITAÇÃO AO DIREITO DE PROPRIEDADE Além da função social da propriedade, majoritariamente definida como mecanismo de limitação ao exercício do direito de propriedade, existem outras quatro maneiras de restringir o exercício do referido direito: desapropriação, requisição, expropriação e usucapião. I. DESAPROPRIAÇÃO XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados osiv) Deve ser previamente comunicada à autoridade competente; ATENÇÃO: Não se pode confundir a necessidade de prévia comunicação com a necessidade de prévia autorização. Cuidado com esse ponto!! Apenas se exige a prévia comunicação para que o poder público possa providenciar as ações necessárias para permitir o exercício pleno do direito de reunião (por exemplo, orientar o trânsito, garantir a segurança dos participantes, garantir a incolumidade do patrimônio público e etc.). v) Não pode frustrar outra reunião anteriormente marcada para o mesmo local e horário; PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 41 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA ELEMENTOS QUE COMPÕEM O DIREITO DE REUNIÃO I) ELEMENTO SUBJETIVO O direito de reunião pressupõe um conjunto de pessoas. Não é possível haver reunião individual. II) ELEMENTO FORMAL A reunião deve ser minimamente coordenada, deve haver uma conclamação das pessoas envolvidas, as quais devem aderir conscientemente à reunião. Uma aglomeração espontânea e casual de pessoas em determinado lugar não pode ser classificada como reunião. III) ELEMENTO TELEOLÓGICO Os integrantes da reunião devem comungar de uma mesma finalidade, que pode ser: política, filosófica, artística ou religiosa. IV) ELEMENTO TEMPORAL A reunião não pode apresentar um caráter duradouro, estável e permanente, sob pena de ser considerada uma associação e não uma mera reunião. A reunião, portanto, deve ser um movimento passageiro e pontual, momentâneo. V) ELEMENTO OBJETIVO A reunião deve ser previamente comunicada ao poder público, não pode frustrar outra reunião previamente marcada para o mesmo local e horário, deve ser pacífica e sem armas. VI) ELEMENTO ESPACIAL A reunião tem de ocorrer em local delimitado, em um local específico. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 42 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA ATENÇÃO! O elemento espacial não impede que a reunião seja dinâmica, por exemplo, uma passeata, uma carreata e etc. Ou seja, não se exige que a reunião seja estática, apenas se exige que o trajeto que ela percorrerá seja previamente delimitado. PONTOS RELEVANTES PARA AS PROVAS DE CONCURSOS PÚBLICOS LIGADOS AO DIREITO À LIBERDADE DE REUNIÃO: LEGALIDADE DE PASSEATAS EM DEFESA DA LEGALIZAÇÃO DO USO DE DETERMINADAS SUBSTÂNCIAS ENTORPECENTES O STF, por meio da ADPF 187, firmou entendimento no sentido de serem legítimas as popularmente denominadas “Marchas da Maconha”, tendo em vista que tais passeatas seriam uma expressão do direito à liberdade de reunião e da manifestação do pensamento. Nesse sentido, também a ADI 4274: Impossibilidade de restrição ao direito fundamental de reunião que não se contenha nas duas situações excepcionais que a própria Constituição prevê: o estado de defesa e o estado de sítio (art. 136, § 1º, inciso I, alínea “a”, e art. 139, inciso IV). Ação direta julgada procedente para dar ao § 2º do art. 33 da Lei 11.343/2006 “interpretação conforme à Constituição” e dele excluir qualquer significado que enseje a proibição de manifestações e debates públicos acerca da descriminalização ou legalização do uso de drogas ou de qualquer substância que leve o ser humano ao entorpecimento episódico, ou então viciado, das suas faculdades psicofísicas (ADI 4274, STF). INCONSTITUCIONALIDADE DE DECRETO DISTRITAL QUE RESTRINGIA O DIREITO DE REUNIÃO NAS ADJACÊNCIAS DA PRAÇA DOS TRÊS PODERES O STF entendeu ser inconstitucional o Decreto 20.098/1999, do Distrito Federal, que vedava o direito de realização de manifestações populares com a utilização de carros, aparelhos e objetos sonoros na PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 43 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA praça dos três poderes, na Esplanada dos Ministérios, na Praça do Buriti e vias adjacentes. Segundo o tribunal, tal decreto representaria flagrante violação ao direito de reunião e de associação para fins lícitos, sendo portanto, inconstitucional, inadequado, desnecessário e desproporcional. REMÉDIO CONSTITUCIONAL CABÍVEL PARA COIBIR VIOLAÇÃO AO EXERCÍCIO DO DIREITO DE REUNIÃO O remédio constitucional adequado para garantir o exercício do direito de reunião é o Mandado de Segurança, mesmo nas hipóteses em que o direito de reunião seja exercido de forma dinâmica, na qual o agrupamento de pessoas tenha por finalidade percorrer trajeto previamente delimitado. ATENÇÃO! Não é cabível habeas corpus para garantir o exercício do direito de reunião. VIII) LIBERDADE DE ASSOCIAÇÃO XVII - é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; XVIII - a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento; XIX - as associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, o trânsito em julgado; XX - ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado; XXI - as entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm legitimidade para representar seus filiados judicial ou extrajudicialmente; DIREITO DE ASSOCIAÇÃO X DIREITO DE REUNIÃO Inicialmente, é importante diferenciar a associação da reunião (direito analisado no ponto anterior do nosso material). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 44 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Enquanto a reunião se caracteriza pela coligação temporária, ocasional e eventual de pessoas, a associação, em sentido oposto, se caracteriza pelo agrupamento estável e permanente de pessoas. Ademais, as reuniões jamais serão entidades personificadas, enquanto as associações podem adquirir personalidade jurídica na forma da lei. Esquematizando: REUNIÃO ASSOCIAÇÃO É temporária, ocasional, eventual É permanente e estável Jamais será uma entidade personificada Pode adquirir personalidade jurídica nos termos da lei Em seu art. 5º, XVII, a Constituição Federal garante o direito de liberdade de associação, desde que essa associação tenha fins lícitos e não possua caráter paramilitar: XVII - é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; Como forma de garantir plenitude ao exercício do direito de associação, a Constituição Federal veda a ingerência estatal na criação e funcionamento das associações: XVIII - a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento; Ou seja, a Constituição garante que a criação de uma associação não dependerá de autorização estatal. Além disso aduz também que o Estado não pode interferir no funcionamento das associações, e para garantir efetividade a essa disposição determina: PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 45 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA i) Que as atividades da associação não podem ser suspensas; ii) Que o Estado não pode determinar a dissolução compulsória das associações; ATENÇÃO: Salvo, em qualquer dos casos, por determinação judicial, exigindo-se o trânsito em julgado apenas para a dissolução compulsória. Trata-se do expresso teor do inciso XIX, do art. 5º, da Constituição Federal: XIX - as associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, o trânsito em julgado; DIMENSÕES DO DIREITO DE LIBERDADE ASSOCIATIVA O STF, no julgamento da ADI3045/DF, estabeleceu que a liberdade de associação possui duas dimensões: uma positiva e uma negativa. Em sua dimensão positiva a liberdade de associação assegura a qualquer pessoa (física ou jurídica) o direito de associar-se e de formar associações. Por outro lado, em sua dimensão negativa, a liberdade de associação garante a qualquer pessoa o direito de não se associar, de não ser compelida a filiar-se ou a desfiliar-se de determinada entidade. A dimensão negativa da liberdade de associação trata-se da expressão do art. 5º, XX, da Constituição: XX - ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado; Ainda segundo o STF, a liberdade de associação possui ainda uma função inibitória, direcionada ao próprio Estado, na medida em que veda a interferência estatal na criação e no funcionamento das associações (ressalvadas as hipóteses de suspensão das atividades ou dissolução compulsória depois do devido processo judicial). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 46 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA REPRESENTAÇÃO PROCESSUAL VERSUS SUBSTITUIÇÃO PROCESSUAL DAS ASSOCIAÇÕES Em regra, é o próprio titular do direito que tem legitimidade ativa para ajuizar uma ação judicial. Excepcionalmente, entretanto, é possível que o titular do direito confira a alguém a atribuição de representá-lo em juízo. Surge aqui a figura da representação processual. Na representação processual o representante atua em nome de terceiro pleiteando direito de terceiro e somente pode ocorrer com autorização expressa do representado. Em outros casos, pode haver também aquilo que se chama de substituição processual, que se trata de uma legitimação ativa extraordinária, na qual o substituto ajuíza ação em nome próprio, mas na defesa de direitos alheios. Na substituição processual não é necessária a autorização expressa do substituído. Esquematizando: REPRESENTAÇÃO PROCESSUAL SUBSTITUIÇÃO PROCESSUAL Atuação em nome de terceiro, na defesa de direitos de terceiro. Atuação em nome próprio, na defesa de direitos de terceiro. Exige autorização expressa do representado. Não exige autorização expressa do representado. As associações podem atuar como representantes ou substitutas processuais de seus associados a depender da situação especifica, conforme se depreende da leitura dos incisos XXI e LXX do art. 5º, da Constituição Federal: XXI - as entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm legitimidade para representar seus filiados judicial ou extrajudicialmente. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 47 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA LXX - o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: (...) b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados; Da leitura dos dispositivos acima, depreende-se que, em regra, as associações têm legitimidade para atuar como representante processual de seus associados nas ações judiciais. Isso porque o inciso XXI exige “expressa autorização” para a atuação da associação em nome de seus filiados. Todavia, em situação excepcional, a associação pode também funcionar como substituta processual: no mandado de segurança coletivo, desde que legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano. Esquematizando: MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO OUTRAS AÇÕES JUDICIAIS A associação funciona como substituta processual A associação funciona como representante judicial Não exige expressa autorização Exige expressa autorização. ATENÇÃO! Nas ações judiciais em que se exige a expressa autorização dos associados (ou seja, todas com exceção do mandado de segurança coletivo), a autorização pode ser dada por ato individual do associado ou por meio de assembleia geral da entidade. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 48 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA SUBSTITUIÇÃO PROCESSUAL DOS SINDICATOS Ponto importante para a prova é compreender o tratamento diferenciado em relação à legitimação extraordinária dos sindicatos na defesa dos direitos de seus sindicalizados. Enquanto as associações, em regra, atuam por representação processual, os sindicatos atuam por substituição processual, nos termos do art. 8º, III, da Constituição Federal: Art. 8º, III, da CF/88: ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas; O STF entende que o supracitado dispositivo, por não exigir expressa autorização do sindicalizado, traz uma hipótese de ampla legitimação ativa extraordinária. Segundo o STF, o sindicato está legitimado a defender em juízo, na qualidade de substituto processual (portanto, sem expressa autorização do sindicalizado), qualquer direito dos sindicalizados, inclusive nas liquidações e execuções de sentença. # EFICÁCIA HORIZONTAL DO DIREITO À LIBERDADE DE ASSOCIAÇÃO: O associado somente poderá ser excluído da associação se houver “justa causa, assim reconhecida em procedimento que assegure direito de defesa e de recurso, nos termos previstos no estatuto” (art. 57 do CC, com redação da Lei nº 11.127/05). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 49 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA ESTUDO DIRIGIDO 01) O direito constitucional de propriedade se limita aos bens materiais? 02) Como se classifica o direito de propriedade na tradicional classificação das normas constitucionais de José Afonso da Silva? 03) O que é a função social da propriedade? 04) Quais são os requisitos para que se considere que uma propriedade rural atende à sua função social? 05) Quais as consequências para o descumprimento da função social da propriedade rural? 06) Quando se considera que uma propriedade urbana atende à sua função social? 07) Quais as consequências para o descumprimento da função social da propriedade urbana? 08) O que é a desapropriação? 09) Quais são as espécies de desapropriação? Em todas elas o patrimônio é incorporado ao patrimônio do Estado? 10) Quais entes federativos podem proceder à desapropriação para reforma agrária? 11) Qual a proteção a Constituição confere à pequena propriedade rural? 12) O que é a requisição administrativa? Quais as suas características? Quais as suas espécies? 13) Em quais hipóteses a Constituição autoriza a expropriação sem indenização (confisco)? PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 50 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA 14) O que é o usucapião? Quais seus requisitos em imóveis urbanos e rurais? 15) Os imóveis públicos são passíveis de usucapião? 16) Quais as exceções constitucionais à liberdade de locomoção? 17) Como conciliar a possibilidade de sigilo da fonte de informação com a vedação ao anonimato também expressa na Constituição Federal no inciso IV do mesmo art. 5º? 18) No que consiste a autonomia privada? 19) Qual a diferença entre a legalidade genérica e a legalidade para o poder público? 20) Qual a diferença entre o princípio da legalidade e o princípio da reserva legal? 21) O que é o direito de resistência? Quais são suas espécies? É sempre admitido no Brasil? 22) Qual o limite imposto à liberdade de ação? 23) Qual foi a posição do STF no que diz respeito à norma do edital do ENEM que previa a anulação de redação desrespeitosa aos direitos humanos? 24) Quais são os critériosque orientam o direito de resposta? 25) Qual o prazo decadencial para pleitear o exercício do direito de resposta? 26) Qual foi a posição do STF em relação às biografias não autorizadas? PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 51 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA 27) Quais as teorias existentes no que diz respeito ao momento do controle judicial da liberdade de imprensa? Qual foi a teoria adotada pelo STF no julgamento da ADPF 130/DF? Qual a teoria adotada pelo legislador civil? 28) O que é o whistle-blower? 29) É possível a instauração de inquérito policial com base unicamente em denúncia anônima? 30) É possível a quebra do sigilo das interceptações telefônicas com base unicamente em denúncia anônima? 31) Qual a diferença entre o “hate speech” e as “fighting words”? São protegidos pela liberdade de manifestação do pensamento? 32) A antiga Lei de Imprensa foi recepcionada pela CF/88? 33) A ordem e a segurança pública podem justificar restrição à liberdade de manifestação do pensamento? 34) Na escusa de consciência, a recusa da prestação obrigatória fixada em lei gera perda ou suspensão dos direitos políticos? 35) A escusa de consciência pode servir como fundamento para remarcação de provas pelo Estado (ENEM, por exemplo)? 36) A laicidade do Brasil impede símbolos religiosos em locais públicos? E quanto à expressão “Deus seja louvado” nas cédulas de real? 37) O ensino confessional é possível em escolas públicas? PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 52 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA 38) A atividade de músico pode ser objeto de restrição estatal? 39) Exige-se diploma de jornalismo para o exercício da profissão de jornalista? 40) Quais são os requisitos para o exercício do direito de reunião? 41) As marchas da maconha são permitidas no Brasil? 42) Qual o remédio constitucional para garantir o exercício do direito de reunião? 43) Qual a diferença entre a liberdade de associação e a liberdade de reunião? 44) Qual o requisito para suspensão do funcionamento de uma associação? Qual o requisito para que uma associação seja compulsoriamente dissolvida? 45) Quais as dimensões do direito à liberdade de associação? 46) Qual a diferença entre representação processual e substituição processual? 47) As associações exercem a representação processual ou a substituição processual de seus associados? 48) Os sindicatos exercem a representação processual ou a substituição processual da categoria? 49) Qual a eficácia horizontal do direito à liberdade de associação?casos previstos nesta Constituição; Desapropriação é o procedimento público de transferência compulsória de uma propriedade particular, por meio do qual o Estado a toma para si ou a transfere para terceiros, mediante o pagamento de prévia e justa indenização, em regra, em dinheiro. A doutrina classifica a desapropriação como forma originária de aquisição da propriedade, razão pela qual o bem desapropriado é insuscetível de reivindicação por parte de terceiros, estando livre e desembaraçado de quaisquer ônus que incidissem sobre ele precedentemente. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 6 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA a) ESPÉCIES DE DESAPROPRIAÇÃO A desapropriação se divide em três espécies: por necessidade pública, por utilidade pública e por interesse social. ATENÇÃO! Nas hipóteses de necessidade e utilidade pública, a propriedade é revertida para o patrimônio do próprio Estado, enquanto na hipótese de interesse social não há incorporação ao patrimônio estatal, mas tão somente a disponibilização da propriedade para o credenciamento legal de beneficiários que irão recebê-las e utilizá-las. DESAPROPRIAÇÃO POR NECESSIDADE PÚBLICA A desapropriação ocorre por necessidade pública nas hipóteses em que a Administração precisa realizar, em caráter emergencial, uma atividade essencial e indispensável ao Estado. Nessa hipótese, a desapropriação surge como único meio de solução administrativa para o problema. A doutrina entende que essa desapropriação ocorre nas hipóteses previstas, nas alíneas “a”, “b” e “c”, do art. 5º, do Decreto- Lei 3.365/41: Art. 5º Consideram-se casos de utilidade pública: a) a segurança nacional; b) a defesa do Estado; c) o socorro público em caso de calamidade; ATENÇÃO: Muito embora o Decreto-Lei 3.665/41 mencione que são hipóteses de “utilidade pública”, a doutrina esclarece que a interpretação cabível é que essas hipóteses seriam, na verdade, de “necessidade pública”. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 7 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA DESAPROPRIAÇÃO POR UTILIDADE PÚBLICA A desapropriação ocorre por utilidade pública nas hipóteses em que a atividade estatal não é urgente e nem precisa ser realizada indispensavelmente, mas é conveniente para o poder público. Nessa hipótese, a desapropriação não é a única solução para o problema administrativo, mas é considerada a melhor delas. A doutrina entende que essa desapropriação ocorre nas hipóteses previstas no art. 5º, do Decreto-Lei 3.365/411 (ressalvadas as alíneas “a”, “b” e “c”, que seriam hipóteses de desapropriação por necessidade pública, como visto anteriormente). DESAPROPRIAÇÃO POR INTERESSE SOCIAL (DESAPROPRIAÇÃO SANÇÃO) A desapropriação ocorre por interesse social nas hipóteses em que o Estado pretende promover uma distribuição mais justa da propriedade, em benefício da coletividade. Essa modalidade tem caráter sancionatório em razão do descumprimento da função social da propriedade. A desapropriação por interesse social pode ser de duas espécies: para fins de política urbana ou para fins de reforma agrária. A razão da desapropriação por interesse social sempre será o descumprimento da função social da propriedade, diferenciando-se as duas espécies unicamente em função da natureza do bem, urbano ou rural. Para fins de política urbana: nos termos do art. 182, § 4º, da Constituição, nas hipóteses em que a propriedade urbana não 1 Trata-se de rol bastante extenso de hipóteses, o qual não precisa ser memorizado para fins de provas. Basta conhecer as hipóteses de desapropriação por necessidade pública (rol mais restrito). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 8 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA cumprir a sua função social, o município estará autorizado a tomar medidas para solucionar o problema. O município deverá tentar solucionar o problema determinando inicialmente o parcelamento ou edificação compulsórios, posteriormente a cobrança progressiva do IPTU (necessariamente nessa ordem) e, persistindo o descumprimento da função social, procederá à desapropriação por interesse público como última medida. Nessa hipótese a indenização consistirá em pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas, assegurados o valor real da indenização e os juros legais. Para fins de reforma agrária: nos termos do art. 184, § 1º, da Constituição, competirá exclusivamente à União promover a desapropriação para fins de reforma agrária da propriedade rural que não esteja cumprindo a sua função social. Nessa hipótese a indenização consistirá em pagamento mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei. ATENÇÃO! A competência para desapropriação somente será exclusiva da União nas hipóteses de interesse social para fins de reforma agrária. Ou seja, os outros entes federativos podem promover a desapropriação de propriedades rurais com fundamento na necessidade ou utilidade pública. # PROTEÇÃO À PEQUENA PROPRIEDADE RURAL: XXVI - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família, não será objeto de penhora para pagamento de débitos decorrentes de sua atividade produtiva, dispondo a lei sobre os meios de financiar o seu desenvolvimento; PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 9 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Esquematizando as espécies de desapropriação, temos: NECESSIDADE PÚBLICA UTILIDADE PÚBLICA INTERESSE SOCIAL Situação de emergência Não há situação de emergência Objetiva promover distribuição mais justa da propriedade Atividade indispensável para o Estado A atividade não é indispensável para o Estado Decorre do descumprimento da função social Única solução para o problema Não é a única solução, mas a melhor delas. Tem caráter sancionatório Recai sobre imóvel urbano ou rural Recai sobre imóvel urbano ou rural Recai sobre imóvel urbano ou rural II. REQUISIÇÃO ADMINISTRATIVA XXV - no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano; Trata-se de uma forma de intervenção do Estado na propriedade privada que possui caráter temporário e não tem por finalidade a supressão da propriedade particular, mas tão somente permitir o uso emergencial de uma propriedade privada em atendimento a interesse público. # CARACTERÍSTICAS DA REQUISIÇÃO Situação emergencial; Iminente perigo público; Uso temporário do bem particular. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 10 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA ATENÇÃO: A requisição administrativa possui duas modalidades: civil e militar. A militar ocorre durante o período de estado de sítio, nos termos do art. 139, VII, da Constituição Federal, enquanto a civil ocorre fora do referido período. # POSSIBILIDADE DE INDENIZAÇÃO Será devida indenização ao proprietário do bem quando a requisição administrativa acarretar danos ao bem requisitado. III. EXPROPRIAÇÃO SEM INDENIZAÇÃO (CONFISCO) Trata-se da supressão punitiva da propriedade privada, por ordem judicial, sem que o proprietáriotenha direito a receber qualquer indenização. Nos termos do art. 243 da Constituição Federal, essa forma de intervenção na propriedade privada ocorrerá em duas situações: Cultivo ilegal de plantas psicotrópicas; Exploração do trabalho escravo; Art. 243. As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no art. 5º. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 81, de 2014) ATENÇÃO! A expropriação de que trata o art. 243 da CF alcança a totalidade do imóvel utilizado na cultura ilegal de plantas psicotrópicas, e não somente as áreas em que foram cultivadas (RE 543.974/MG, STF). IV. USUCAPIÃO Trata-se da aquisição da propriedade pelo uso. Pode ser de duas espécies: urbana ou rural. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc81.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc81.htm#art1 PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 11 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Usucapião especial de imóvel urbano: prevista no art. 183 da Constituição Federal nos seguintes termos: Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinqüenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. Usucapião de imóvel rural: prevista no art. 191 da Constituição Federal, nos seguintes termos: Art. 191. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como seu, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra, em zona rural, não superior a cinqüenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade. Ou seja, para que ocorra a usucapião, urbana ou rural, são necessários os seguintes requisitos cumulativos: a) Posse mansa, pacífica e ininterrupta do imóvel; b) Posse por cinco anos ininterruptos; c) Não possuir outro imóvel urbano ou rural; d) Utilizar o imóvel para a sua moradia ou de sua família; e) Área não superior a: i) 250 metros quadrados para imóvel urbano; ii) 50 hectares para imóvel rural; ATENÇÃO! Os imóveis públicos não são passíveis de usucapião em nenhuma hipótese. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 12 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA 6) DIREITO À LIBERDADE O direito à liberdade como direito fundamental estabelecido no art. 5º da CF/88 deve ser entendido em sua acepção mais ampla, não envolvendo, portanto, somente o direito à liberdade física (liberdade de locomoção), mas também a liberdade de acesso à informação, ação, pensamento e sua manifestação, consciência, crença, culto, profissão, reunião, associação e etc. Dessa forma, vamos analisar o direito à liberdade dividindo didaticamente os referidos direitos em suas várias facetas: I) LIBERDADE DE LOCOMOÇÃO O direito à liberdade de locomoção é expressamente previsto no art. 5º, XV, da Constituição Federal: XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens; Como se observa do dispositivo acima transcrito o direito à liberdade de locomoção alcança: i) O acesso ao território nacional e o ingresso nele; ii) A saída do território nacional; iii) A permanência no território nacional; iv) O deslocamento no território nacional; O direito à liberdade de locomoção também é contemplado no seguinte dispositivo do art. 5º: LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei; Todavia, há de se ressaltar que o direito de liberdade de locomoção não possui caráter absoluto nem mesmo nos tempos de paz, até porque se constitui em norma de eficácia PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 13 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA contida, podendo ter sua aplicação restringida pela lei ou pela própria Constituição a partir de critérios justos e proporcionais. O Estado de sítio (art. 139 da CF) é um exemplo de exceção constitucional ao direito de liberdade de locomoção. Durante a sua vigência é permitida a obrigação de permanecer em determinado local, bem como a detenção em edifício não destinado a acusados ou condenados por crimes comuns. Outra exceção ocorre no Estado de Defesa (art. 136), quando é possível, por exemplo, a prisão preventiva de alguém sem mandado judicial. Além das hipóteses constitucionalmente previstas, há também outras situações de restrição ao referido direito, tais como a restrição da liberdade decorrente de imposição de penas privativas de liberdade em processos criminais e a autorização legislativa conferida à administração pública para regulamentar a forma de circulação de pessoas em determinados locais públicos. II) LIBERDADE DE ACESSO À INFORMAÇÃO O inciso XIV do art. 5º da Constituição Federal assegura: XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; Portanto, o direito à informação é assegurado como direito fundamental do indivíduo como se depreende do dispositivo acima. Contudo, deve-se ter em mente que, como os outros direitos fundamentais, este também não se trata de um direito absoluto, razão pela qual carece de uma interpretação que lhe estabeleça o alcance adequado. Nesse sentido é necessário perceber que o referido direito recai sobre informações de interesse público ou geral, não cabendo a sua invocação perante informações que digam respeito à vida privada ou à intimidade de outro indivíduo. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 14 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA PROTEÇÃO AO SIGILO DA FONTE Outro ponto importante é a possibilidade de salvaguarda do sigilo da fonte da informação, quando isso for necessário ao exercício profissional. Trata-se de uma exceção constitucional que visa, principalmente, auxiliar os profissionais de imprensa na execução de seu trabalho de informar a população, tendo em vista que em muitas ocasiões as informações que lhes são passadas podem colocar o seu informante em situação de risco pessoal, profissional e etc. Por essa razão, a Constituição cria um escudo protetor para a fonte da informação, garantindo que ao jornalista – por exemplo – não será imposta a obrigação de revelar a identidade dessa pessoa. Uma pergunta que se pode fazer nesse momento é a seguinte: Como conciliar a possibilidade de sigilo da fonte de informação com a vedação ao anonimato também expressa na Constituição Federal no inciso IV do mesmo art. 5º? A resposta é simples. A Constituição Federal veda o anonimato na liberdade de manifestação do pensamento para que seja possível, diante de eventual excesso daquele que manifesta suas opiniões, garantir a sua responsabilização civil e criminal. Pois bem, quando um jornalista divulga determinada informação, ele o faz em nome próprio, portanto, assumindo a responsabilidade pelas opiniões divulgadas, de forma que possível responsabilização por eventual excesso recairá sobre o profissional. Dessa forma, não há que se falarem ofensa à vedação do anonimato. Dessa forma, muito embora a fonte possa ser sigilosa, a informação não será divulgada de forma anônima. III) LIBERDADE DE AÇÃO (AUTONOMIA PRIVADA) O direito à liberdade de ação está previsto no inciso II, do art. 5º, da CF/88, nos seguintes termos: PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 15 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; Trata-se do muito conhecido princípio genérico da legalidade, que garante ao cidadão o direito de não ser forçado a agir ou deixar de agir por qualquer via diversa da legal. Sobre o princípio genérico da legalidade, dois pontos são relevantes para provas de concursos públicos: a diferença entre o princípio genérico da legalidade e os princípios específicos da legalidade; e a diferença entre o princípio genérico da legalidade e o princípio da reserva legal. Vamos analisar cada um desses pontos separadamente, abrangendo tudo aquilo que pode ser cobrado pelo seu examinador nas provas de concursos públicos. I) PRINCÍPIO GENÉRICO E PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS DA LEGALIDADE O princípio genérico da legalidade aduz que a imposição de obrigações aos particulares (cidadãos) somente pode se dar por meio de lei. Dessa forma, o particular está autorizado a fazer qualquer coisa que a lei não lhe proíba ou deixar de fazer qualquer coisa que a lei não lhe exija. Em outro giro, temos outras três hipóteses constitucionais que são taxadas como princípio da legalidade, mas têm incidência específica a determinada situação. São elas: a) Princípio da legalidade para o poder público (art. 37, caput, da CF): Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade (...) PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 16 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Segundo o princípio da legalidade especificamente aplicado ao poder público, a análise deve ser diferente daquela feita ao princípio genérico da legalidade. Ao poder público só é lícita a atuação expressamente autorizada por lei, nessa hipótese, o silêncio legislativo não pode ser entendido como autorização para agir, diferentemente do que estabelece o princípio genérico da legalidade. Resumindo: Legalidade Genérica Legalidade da Administração Pública O cidadão pode fazer qualquer coisa que a lei não proíba. A Administração Pública somente pode agir quando expressamente autorizada por lei. b) Princípio da legalidade para o direito penal XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal; Para o direito penal, o princípio da legalidade exige que a criação de crimes e a cominação de penas somente seja feita por meio de lei, entendida essa lei em seu sentido estrito (ou seja, apenas lei ordinária ou lei complementar). c) Princípio da legalidade tributária Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 17 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Trata-se de uma vedação à atuação estatal na arrecadação tributária. O Estado somente pode agravar a situação do contribuinte (criando novos tributos ou aumentando a carga tributária) quando houver expressa autorização legislativa. Perceba que se trata de clara limitação à discricionariedade do Estado. II) Princípio genérico da legalidade e o princípio da reserva legal Como vimos, o princípio genérico da legalidade aduz que a imposição de obrigações aos particulares (cidadãos) somente pode se dar por meio de lei. Reserva legal, por sua vez, é a exigência constitucional de que determinada matéria seja regulada mediante lei. São vários os exemplos de reserva legal no texto constitucional, somente no art. 5º, podemos citar dois: XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; XVIII - a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento; Mas não só no art. 5º, temos exemplos de reserva legal. Podemos citar também: Art. 9º, § 1º, da CF/88: A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. Art. 37, I, da CF/88: os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei; Enfim, diversos são os exemplos de reserva legal espalhados pelo texto constitucional, mas a diferença entre legalidade genérica e PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 18 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA reserva legal não fica suficientemente esclarecida somente com essas informações. Afinal, analisando-se, por exemplo, o supracitado inciso XIII, do art. 5º, da CF/88, podemos concluir que os mandamentos da legalidade genérica e da reserva legal se sobrepõe desnecessariamente. Isso porque a legalidade genérica já menciona que o cidadão somente pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo em virtude de lei, o que por si só abarcaria a determinação do inciso XIII de que a lei poderia estabelecer qualificações para restringir o livre exercício profissional. Veja que, nesse caso, o inciso XIII estaria repetindo desnecessariamente a exigência de lei para estabelecimento de restrição ao exercício profissional. Todavia, essa aparente sobreposição de normas fica resolvida quando se compreende a extensão do vocábulo lei em cada um dos mandamentos constitucionais. Enquanto na legalidade genérica o vocábulo lei é utilizado em seu sentido amplo, permitindo inclusive a utilização de atos infralegais, o vocábulo lei empregado nos exemplos de reserva legal é utilizado em seu sentido estrito, apenas admitindo a utilização de atos normativos primários (lei ordinária, lei complementar, lei delegada ou medida provisória). Por essa razão, caso não houvesse a exigência de Lei no analisado inciso XIII, o livre exercício profissional poderia ser restringido por atos infralegais, pois deveria obediência tão somente ao princípio da legalidade genérica. Outra diferença marcante é que o princípio da legalidade genérica é utilizado tão somente para pautar a imposição de obrigações a particulares, enquanto a reserva legal é exigida para diversos temas diferentes, sendo apenas um deles a imposição de obrigações a particulares. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 19 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Como exemplo de reserva legal sem nenhuma relação com a imposição de obrigações a particulares temos o inciso XIX, do art. 37, da CF/88: XIX – somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo à lei complementar, neste último caso, definir as áreas de sua atuação; Resumindo: LEGALIDADE GENÉRICA RESERVA LEGAL Exige lei em sentido amplo, ou seja, admite atos infralegais Somente admite lei em sentido estrito (ato normativo primário) Somente se refere à imposição de obrigações a particulares Trata de diversas matérias, inclusive imposição de obrigações a particulares# DIREITO DE RESISTÊNCIA: Como ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei, surge o denominado DIREITO DE RESISTÊNCIA: o indivíduo pode resistir à ação de agentes do Estado e de particulares que busquem constrange-lhe a praticar conduta não determinada na lei ou a não praticar algo que a lei lhe permite. A resistência pode ser individual ou coletiva. Além disso, comporta as seguintes espécies: Resistência passiva: É a simples recusa em cumprir o ato opressivo, enquanto ainda não houver coação para cumpri-lo. Resistência defensiva: É a repulsão da força pela força, num autêntico exercício do direito de defesa. Resistência agresiva:É forma de rebelião ou revolução tendente à revogação do ato injusto ou à própria mudança de governo. ATENÇÃO! Apenas a resistência agressiva não é tolerada em nosso ordenamento jurídico. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 20 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA # LIMITAÇÕES À LIBERDADE DE AÇÃO ( AUTONOMIA PRIVADA): Nos dizeres do STF, a autonomia privada encontra claras limitações de ordem jurídica” e “não pode ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua incidência e atuação, o poder de transgredir as restrições postas e definidas pela própria Constituição, cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares no âmbito de suas relações privadas, em tema de liberdades fundamentais”. (RE 201.819, 2ª Turma). IV) LIBERDADE DE PENSAMENTO E MANIFESTAÇÃO IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; É garantido a todo e qualquer cidadão a liberdade de pensamento e, o mais importante, o direito de manifestar suas ideias por qualquer meio, tais como mensagens faladas ou escritas, gestos, expressões corporais, imagens e etc. Obviamente, o direito à liberdade de manifestação do pensamento não é absoluto e encontra limitação em outros direitos fundamentais previstos na CF/88, tais como o direito à inviolabilidade da privacidade e da intimidade e a vedação ao racismo. Por essa razão não é lícito a ninguém externar seus pensamentos discriminatórios em relação a uma pessoa de outra raça, religião, cor, etnia, procedência nacional, orientação sexual e etc. Não obstante a relatividade da liberdade de manifestação do pensamento, em decisões monocráticas a Ministra Cármen Lúcia entendeu que era ilegítima norma do edital do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que previa a anulação de redação desrespeitosa a direitos humanos (STA 864/DF e SL 1.127/DF). A Ministra asseverou que há outros meios e modos para se questiona, administrativa ou judicialmente, eventuais excessos. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 21 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA PONTOS RELEVANTES PARA AS PROVAS DE CONCURSOS PÚBLICOS LIGADOS AO DIREITO À LIBERDADE DE PENSAMENTO E MANIFESTAÇÃO: I. VEDAÇÃO AO ANONIMATO Conforme determina o inciso IV, do art. 5º, da CF/88: IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; Portanto, muito embora seja direito de qualquer cidadão externar de qualquer modo o seu pensamento, veda-se o anonimato. Busca-se, dessa forma, evitar abusos no uso do direito de livre manifestação, que causem ofensas a direitos de terceiras pessoas, tais como honra ou imagem, por exemplo, e inclusive permitir a responsabilização penal aplicável à hipótese quando diante de uma prática criminosa (como o racismo, por exemplo). ATENÇÃO! Com base na vedação ao anonimato (art. 5º, IV, da CF/88), o STF firmou entendimento de que o Tribunal de Contas da União não pode manter em sigilo a identidade de autor de denúncia apresentada ao Tribunal contra administrador público. O entendimento supramencionado foi proferido durante julgamento do MS 24.405/DF, DJ 23/04/2004, em que o STF declarou a inconstitucionalidade do art. 55, § 1º, da Lei Orgânica do TCU, que determinava o estabelecimento de sigilo permanente em relação à autoria de denúncias sobre irregularidades. II. DIREITO DE RESPOSTA O direito de resposta (regulamentado pela Lei 13.188/2015) está previsto no inciso V, do art. 5º, da CF/88: PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 22 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; Esse direito surge na hipótese em que tenha ocorrido um abuso do direito de manifestação do qual tenha resultado dano a terceira pessoa. O direito de resposta é orientado pelos critérios da gratuidade e da proporcionalidade, ou seja, a resposta deve ser assegurada no mesmo meio de comunicação em que o agravo foi veiculado e deve ter o mesmo destaque e a mesma duração (em meio sonoro ou audiovisual) ou tamanho (em meio escrito), sempre sem ônus para o ofendido. O prazo decadencial para pleitear o exercício do direito de resposta é de sessenta dias contados a partir da data de cada uma das publicações, transmissões ou divulgações de matérias ofensivas. ATENÇÃO! O exercício do direito de resposta não afasta o direito à indenização pelas ofensas praticadas. III. OBRAS BIOGRÁFICAS OU AUDIOVISUAIS E A DESNECESSIDADE DE PRÉVIA AUTORIZAÇÃO O STF afastou a exigência de autorização prévia da pessoa biografada ou de seus familiares, em casos de pessoas falecidas, para produção de obras biográficas ou audiovisuais (ADI 4815/DF, DJe 01/02/2016). Mais uma vez o fundamento foi o direito à liberdade de manifestação e o direito previsto no inciso IX, do art. 5º, da CF/88: IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; O dispositivo acima prevê a garantia do que se costuma chamar de LIVRE MERCADO DE IDEIAS (marketplace of ideas), com base no qual a sociedade tem mais chances de evoluir e prosperar, não só no âmbito das ciências sociais, como em todas as demais áreas do conhecimento. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 23 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA A Constituição ainda reforça a vedação à censura no art. 220 (§2º): é “vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. Muito embora não seja necessária a autorização prévia do biografado, diante de abusos no direito de liberdade de manifestação, a pessoa que se sinta prejudicada com o teor de determinada obra biográfica ou audiovisual pode buscar o poder judiciário em defesa de seu direito à honra ou imagem que eventualmente esteja sendo violado. ATENÇÃO! Existe a possibilidade de responsabilizar (civil ou penalmente) o autor da biografia nos casos de excesso. Sendo possível ao biografado, nos casos de responsabilidade civil, pleitear uma tutela ressarcitória (tirar o livro de circulação) ou, excepcionalmente, uma tutela inibitória (impedir a publicação). IV. JURISPRUDÊNCIA IMPORTANTE No HC 83.996/RJ (caso Gerald Thomas), a 2ª Turma do STF afastou a configuração do crime de ato obsceno e incluiu, na esfera de proteção efetiva da liberdade de expressão, atos de artista que, em reação a vaias ao término de peça teatral, exibira as nádegas aos espectadores. V. LIBERDADE DE IMPRENSA A Constituição tratou da liberdade de imprensa sob a ótica da ordem econômica. No art. 220, proibiu a instituição de monopólio ou oligopólio nos meios de comunicação social (§5º), além de ter criado séria de condições à propriedade deempresa jornalística e de radiofusão sonora e de sons e imagens (art. 222), atividades cuja exploração foi condicionada à outorga estatal (art. 223). Contudo, em relação à publicação de veículo impresso de comunicação, a Constituição afastou a necessidade de qualquer licença do Poder Público (art. 220, §6º). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 24 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Controle judicial da liberdade de imprensa É certo que a liberdade de imprensa não é absoluta e pode gerar colisão com outros direitos fundamentais. A questão a ser analisada é em que momento o Poder Judiciário pode impor restrições à liberdade de imprensa. Existem duas teorias: o Teoria da ponderação simples: Entende que a liberdade de imprensa pode sofrer restrições em casos concretos, incluindo a possibilidade de eventual proibição de publicações consideradas abusivas. o Teoria da relativização somente “a posteriori”: Entende que a liberdade de imprensa e a livre circulação de ideias não podem ser restringidas a priori, nem mesmo pelo Judiciário, mas isso não impede a aplicação, a posteriori, de medidas contra os excessos cometidos, tais como a garantia do direito de resposta e a responsabilização civil e penal. A jurisprudência do STF, em momento anterior, já aderiu à ideia segundo a qual a liberdade de expressão (especialmente em relação aos órgãos de comunicação social) só poderia ser controlada judicialmente a posteriori. Nesse sentido, na ementa do AgRg na Rcl 21.504/SP (2ª Turma, j. 17-11-2015) constou que a “liberdade de imprensa, qualificada por sua natureza essencialmente constitucional, assegura aos profissionais de comunicação social o direito de buscar, de receber e de transmitir informações e ideias por quaisquer meios, inclusive digitais, ressalvada, no entanto, a possibilidade de intervenção judicial – necessariamente “a posteriori” – nos casos em que se registrar prática abusiva dessa prerrogativa de ordem jurídica, resguardando, sempre, o sigilo da fonte quando, a critério do próprio jornalista, este assim o julgar necessário ao seu exercício profissional”. No mesmo sentido, a redação da ementa da ADPF 130/DF que decidiu pela não recepção da Lei de Imprensa (Lei nº 5.520/67). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 25 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Todavia, o legislador civil optou, explicitamente, pela teoria da ponderação simples. O artigo 20 do CC admite a proibição da própria “divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa” – salvo se autorizadas ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública. E o artigo seguinte do mesmo Código Civil prevê que o juiz, “a requerimento do interessado”, poderá adotar as providências necessárias também para impedir – e não só para fazer cessar – atos contrários à inviolabilidade da vida privada da pessoa natural. Em decisão recente, o STF fixou o entendimento no sentido de que, via de regra, o controle judicial da liberdade de manifestação do pensamento deve ser feito a posteriori, todavia, excepcionalmente, é possível a proibição de divulgação de conteúdo, sempre em situações extremas teratológicas e justificadas por uma análise de proporcionalidade que considere a posição preferencial da liberdade de expressão (ADI 4815, STF – p. 29/1/16). VI. WHISTLE-BLOWER “Whistle-blower” é a pessoa que expõe qualquer tipo de informação ou atividade considerada ilegal, desonesta ou incorreta no âmbito de uma organização pública ou privada. No Brasil, pode-se manter o anonimato do “whistle-blower” para protegê-lo sob o fundamento do sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional do jornalista. Vale ressaltar que o sigilo da fonte pode ser resguardado a critério do jornalista, quando ele achar necessário ao exercício profissional. Contudo, não há falar-se nesse critério subjetivo se foi o próprio informante quem requisitara ao jornalista o sigilo da finte, como nas informações dadas em “off” (off the records). Nesse caso, o jornalista estará obrigado a manter o sigilo da fonte, sob pena de eventual responsabilização civil e até criminal (art. 154 do CP). Além disso, como veremos a seguir, uma notícia anônima pode ensejar a verificação preliminar das informações pelas autoridades PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 26 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA policiais, que, caso verifiquem a procedência da notícia, podem instaurar procedimento oficial de investigação. VII. POSSIBILIDADE DE INSTAURAÇÃO DE INQUÉRITO POLICIAL OU DE AÇÃO PENAL COM BASE EXCLUSIVAMENTE EM DENÚNCIA ANÔNIMA Os tribunais superiores não admitem a instauração de inquérito policial ou de ação penal fundamentados apenas em notitia criminis inqualificada, notitia criminis apócrifa (ou, como popularmente é conhecida, denúncia anônima). Tal fato deriva do mandamento constitucional que veda o anonimato no exercício do direito de manifestação. Contudo, por ser uma ferramenta de suma importância no combate à criminalidade (já que o receio de sofrer retaliações acaba impedindo o cidadão de denunciar os fatos de que toma conhecimento), busca-se uma mitigação à vedação ao anonimato nessas hipóteses de delações apócrifas. Com efeito, os tribunais superiores entendem que, antes de oferecer a denúncia, instaurar inquérito policial ou solicitar medidas judiciais mais invasivas, as autoridades responsáveis devem realizar diligências preliminares que comprovem o teor da denúncia apócrifa, buscando indícios mínimos de sua procedência. Após as investigações preliminares que certifiquem a veracidade do teor da delatio criminis apócrifa, os procedimentos formais podem ser instaurados sem que exista ilegalidade por derivação nos elementos informativos inaugurais que decorreram da denúncia anônima originária. ATENÇÃO: Existem duas únicas hipóteses em que peças apócrifas (anônimas) podem ser utilizadas como única prova para instauração de inquérito policial ou ação penal: (a) quando o documento anônimo tiver sido produzido pelo próprio acusado; (b) quando o documento anônimo representar o corpo de delito do crime praticado (por exemplo, bilhete de resgate em um crime de extorsão mediante sequestro). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 27 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA É possível a quebra do sigilo das interceptações telefônicas com base unicamente em denúncia anônima? A resposta é negativa. No julgamento de um HC envolvendo a chamada Operação Castelo de Areia, o STJ anulou as provas que eram decorrentes de interceptação telefônica autorizada com base exclusivamente em denúncia anônima (STJ, HC n. 137.349). Vale ressaltar que a Lei nº 8.443/92 prescreve tratamento sigiloso às denúncias formuladas por cidadãos, partidos políticos ou sindicatos ao TCU, até decisão definitiva sobre a matéria. O STF considerou válido o dispositivo, mas decidiu que o sigilo só pode ser mantido até que se tenha decisão definitiva sobre a matéria (MS 24.405/DF, Plenário). VIII. “HATE SPEECH” X “FIGHTTING WORDS” As palavras belicosas (“fighting words”) são discursos considerados ofensivos que, destituídos de valor social ou persuasivo, se dirigem a uma pessoa em particular e de maneira tão provocativa que possa gerar ou justificar o perigo de pronta e violenta reação/retaliação. Já o discurso de ódio (“hate speech”) é a manifestação do pensamento que ofende, ameacem ou insultem, genericamente, certo grupo de pessoas com base na raça, cor, religião, nacionalidade,orientação sexual, ancestralidade, deficiência ou outras características próprias. No direito norte-americano, prevalece o entendimento de que até o discurso de ódio (hate speech) inclui-se no âmbito de proteção da liberdade de expressão. Diversamente das palavras belicosas, que se dirigem a pessoa determinada. Adota-se o entendimento, originalmente baseado na concepção do livre mercado de ideias, de que a liberdade de expressão não admite restrições em relação à mensagem do discurso em si, embora possam ser admitidas quanto às maneiras com que são expressadas as opiniões. No Brasil, o hate speech não conta com proteção jurídica (muito menos as “fighting words”). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 28 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA No Plenário do STF, em precedente que discutia o caráter criminoso de publicação literária preconceituosa e antissemita, venceu a posição pela antijuridicidade dos discursos de ódio. Para a Corte, o “preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o direito à incitação ao racismo, dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra”. (HC 82.424/RS. IX. NÃO RECEPÇÃO DA ANTIGA LEI DE IMPRENSA PELA CF/88 Com base no direito à liberdade de manifestação, dentre vários outros fundamentos, o STF firmou o entendimento de que a Lei de Imprensa (Lei 5.250/67), editada ao tempo do regime militar, era absolutamente incompatível com o padrão de democracia e liberdade do regime jurídico estabelecido pela constituição cidadã de 1988 (STF: ADPF 130, DJe 06/11/2009). X. A ORDEM E A SEGURANÇA PÚBLICA PODEM JUSTIFICAR RESTRIÇÃO À LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO? Sim! Na ADInMC 5.136/DF, o Plenário do STF reputou proporcionais – e, portanto, constitucionais – as restrições legais à liberdade de manifestação em estádios de futebol durante a Copa do Mundo de 2014. De acordo com o STF, o fundamento da restrição era prevenir confrontos e garantir a segurança dos próprios participantes daquele evento de grande porte internacional. XI. DIREITO DIFUSO À NOTÍCIA VERDADEIRA A veracidade da informação serve como limite interno à liberdade de comunicação social. Não estão agasalhadas pelo direito à liberdade de expressão comunicativa aquelas informações falsas. V) LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA, CRENÇA E CULTO O Brasil é um estado laico (secular ou não-confessional), ou seja, não possui nenhuma religião oficial, conforme estabelece o art. 19, I, da CF/88: PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 29 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; Por essa razão o direito à liberdade de consciência, crença e culto é alçado à condição de direito fundamental do indivíduo no art. 5º, VI, da CF/88, nos seguintes termos: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; Liberdade de consciência possui um aspecto bem amplo, envolvendo a liberdade de o indivíduo escolher as ideias e opiniões que bem entender em relação à religiosidade (tais como acreditar em conceitos sobrenaturais propostos por determinada religião, ou acreditar na existência de um Deus ou até mesmo não crer em nenhum Deus ou entidade sobrenatural). Liberdade de crença, por sua vez possui conceito mais restrito, envolvendo tão somente o aspecto religioso em si, ou seja, é a liberdade de professar a crença religiosa que bem entender. Liberdade de culto é a permissão para externar a crença que professa, valendo-se dos ritos, cerimônias, reuniões, hábitos e tradições correspondentes. Abrange, inclusive, o direito de empreender proselitismo e de explicitar atos próprios de religiosidade (o STF entendeu que não havia crime em conduta de padre que explicitara conteúdo discriminatório ao Espiritismo – RHC 134.682/BA). Como forma de viabilizar o direito de liberdade de consciência, crença e culto, o inciso VII, do art. 5º, da CF/88 estabelece a garantia de assistência religiosa a todos aqueles que se encontrem internados em entidades civis ou militares, nos seguintes termos: PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 30 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva; É uma espécie de garantia-limite, que busca prevenir a violação ao referido direito daqueles que se encontrem impossibilitados de comparecerem livremente aos seus locais de culto em razão de estarem privados de sua liberdade de locomoção em decorrência de condenação criminal ou em estado de saúde delicado em hospitais públicos ou particulares. PONTOS RELEVANTES PARA AS PROVAS DE CONCURSOS PÚBLICOS LIGADOS AO DIREITO À LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA, CRENÇA E CULTO: I. ESCUSA DE CONSCIÊNCIA A escusa de consciência, também conhecida como objeção de consciência ou alegação de imperativo de consciência, é a garantia que o cidadão tem de não sofrer restrições em seus direitos em razão de ter se recusado a cumprir uma obrigação a todos imposta quando esta for colidente com seus princípios filosóficos, religiosos ou políticos. A referida garantia está prevista no inciso VIII, do art. 5º, da CF/88, nos seguintes termos: VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; Da leitura do dispositivo acima podemos concluir que ninguém pode sofrer restrição em seus direitos por ter se valido da escusa de consciência. Salvo quando, além de não cumprir a obrigação genérica a todos imposta, não cumprir também a obrigação alternativa estabelecida em Lei. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 31 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA ATENÇÃO! A ausência de norma prevendo a obrigação alternativa não prejudica o cidadão, ou seja, na ausência de norma que estabeleça prestação alternativa, o cidadão não pode ser punido com restrição em seus direitos por ter alegado a escusa de consciência. Diante do exposto, percebe-se que o inciso VIII, em relação à criação da obrigação alternativa, é norma de eficácia contida, muito embora possua eficácia plena em relação ao direito de alegar objeção de consciência. II. RECUSA DA PRESTAÇÃO OBRIGATÓRIA E DA ALTERNATIVA: PERDA OU SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS? Existe uma forte divergência em relação à espécie de restrição dos direitos políticos nos casos de escusa de consciência. Para uma primeira corrente, tratar-se-ia de caso de SUSPENSÃO dos direitos políticos, tendo em vista o disposto no art. 4º, § 2º, da Lei 8.239/09 (regula a obrigação alternativa ao serviço militar obrigatório), in verbis: Art. 4º, § 2º: Findo o prazo previsto no parágrafo anterior, o certificado só será emitido após a decretação, pela autoridade competente, da suspensão dos direitos políticos do inadimplente, que poderá, a qualquer tempo, regularizar sua situação mediante cumprimento das obrigações devidas. Ainda em favor da primeira corrente, o Código de Processo Penal em seuart. 438, tratando sobre a recusa ao serviço do júri, aduz que: Art. 438. A recusa ao serviço do júri fundada em convicção religiosa, filosófica ou política importará no dever de prestar serviço alternativo, sob pena de suspensão dos direitos políticos, enquanto não prestar o serviço imposto. Para uma segunda corrente, entretanto, como os direitos políticos ficarão restritos indefinidamente até que o cidadão cumpra a obrigação social alternativa prevista em Lei e tendo em vista que o título de eleitor do cidadão é cancelado, obrigando a um novo alistamento eleitoral após o PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 32 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA cumprimento da obrigação para reaquisição dos direitos políticos, a escusa de consciência representaria hipótese de PERDA dos direitos políticos (nesse sentido: José Afonso da Silva, Pedro Lenza e Alexandre de Moraes, André Ramos Tavares, Ives Gandra). Portanto, de um lado temos uma corrente mais legalista (amparada em dois dispositivos legais), que defende a suspensão dos direitos políticos e, de outro lado, uma corrente mais moderna e capitaneada por grandes nomes do direito constitucional, que defende ser caso de perda dos direitos políticos. COMO FOI COBRADO EM PROVA: O referido tema já foi cobrado em provas objetivas de duas grandes bancas examinadoras, tendo cada uma delas trabalhado com uma das correntes acima expostas. Vejamos: (CESPE/ TRF 5ª Região - Juiz Federal/2011) Apesar de a prestação de serviço militar ser obrigatória, a recusa em cumpri-la é admitida sob a alegação do direito de escusa de consciência, cabendo, nesse caso, às forças armadas atribuir àquele que exercer esse direito serviço alternativo em tempo de paz, cuja recusa enseja como sanção a declaração da perda dos direitos políticos. RESPOSTA: CORRETA. (FCC/Juiz/RR/2008) A recusa de obrigação a todos ou prestação alternativa acarreta: (a) somente a imposição de pena pecuniária; (b) a cassação dos direitos políticos; (c) a perda dos direitos políticos; (d) a suspensão dos direitos políticos; (e) somente a aplicação de pena privativa de liberdade. RESPOSTA: LETRA D. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 33 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA III. IMPOSSIBILIDADE DE REALIZAÇÃO DE PROVA DE CERTAME PÚBLICO EM DATA DIFERENTE DA PREVISTA EM RAZÃO DA ESCUSA DE CONSCIÊNCIA Alunos Judeus ortodoxos – que devem guardar o sétimo dia após os seis dias de criação do universo (período compreendido entre o pôr do sol de sexta-feira até o pôr do sol de sábado) –, em razão de sua crença religiosa, solicitaram a alteração da data da prova do ENEM de sábado para domingo. O STF firmou posicionamento (STA 389 AgR, DJe 14/05/2010) de que o Estado não é obrigado a realizar provas em datas alternativas para atender à escusa de consciência de determinado grupo de estudantes que possuem limitações em razão de convicção religiosa. Notadamente em razão de ter sido oferecido aos estudantes, por ocasião da inscrição, a opção de “atendimento a necessidades especiais” que permitiria aos candidatos com essa restrição a permanência em sala isolada e incomunicável até as 18h de sábado, momento em que iniciariam a resolução das mesmas provas que foram aplicadas aos outros candidatos durante o dia. IV. SÍMBOLOS RELIGIOSOS EM LOCAIS PÚBLICOS E LAICIDADE DO ESTADO BRASILEIRO Sobre a afixação de crucifixos nas dependências dos órgãos do poder judiciário, o CNJ decidiu que tais objetos representariam símbolos da cultura brasileira, em nada prejudicando a universalidade e imparcialidade do poder judiciário, determinando, por fim, que caberia a cada órgão do poder judiciário decidir sobre a utilização dos referidos símbolos em seus respectivos espaços. E QUANTO À EXPRESSÃO “DEUS SEJA LOUVADO” NAS CÉDULAS DE REAL? O tema ainda não foi discutido nos tribunais superiores. A doutrina pondera que, muito embora o Brasil seja um país laico, isso não significa um Estado ateu. O que se exige do Estado Brasileiro e decorre da noção de laicidade é a neutralidade, o respeito ao pluralismo, e não a atitude de intolerância e de hostilidade. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 34 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Vale ressaltar que laicidade não se confunde com laicismo. Laicidade significa neutralidade religiosa por parte do Estado. Laicismo é uma atitude de intolerância e hostilidade estatal em relação às religiões. É a laicidade a marca da República Federativa do Brasil. V. CURANDEIRISMO E A OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA O Curandeirismo trata-se de conduta criminosa prevista no art. 284 do Código Penal, nos seguintes termos: Curandeirismo Art. 284 - Exercer o curandeirismo: I - prescrevendo, ministrando ou aplicando, habitualmente, qualquer substância; II - usando gestos, palavras ou qualquer outro meio; III - fazendo diagnósticos: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. Parágrafo único - Se o crime é praticado mediante remuneração, o agente fica também sujeito à multa. O agente que pratique a conduta definida em Lei como curandeirismo deve ser punido nos termos propostos pelo código penal, não sendo possível a alegação de exercício da liberdade religiosa. Esse foi o entendimento firmado pelo STF (RHC 62.240). VI. POSSIBILIDADE DE ENSINO RELIGIOSO CONFESSIONAL EM ESCOLAS PÚBLICAS O STF firmou o entendimento de que é possível que ocorra o ensino religioso confessional em escolas públicas sem que isso afete a laicidade estatal (STF: ADI 4439/DF, julgado em 27/9/2017). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 35 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Para que assim seja, é necessário que o Estado observe o binômio: laicidade estatal (art. 19, I, da CF/88) e Direito à liberdade religiosa (art. 5º, VI, da CF/88), garantindo que a rede pública, em igualdade de condições, permita o oferecimento de ensino confessional das diversas crenças, mediante requisitos formais e objetivos previamente fixados pelo Ministério da Educação - MEC. O STF entendeu, portanto, que a CF/88 não proíbe que sejam oferecidas aulas de uma religião específica, que ensine os dogmas ou valores daquela religião. Não há qualquer problema nisso, desde que se garanta oportunidade a todas as doutrinas religiosas. O ensino religioso é, então, encarado da seguinte forma: o Estado disponibiliza a estrutura física das escolas públicas, assim como já acontece com alguns hospitais e presídios, para que a religião que assim desejar possa fazer a livre disseminação de suas crenças e ideais para aqueles alunos que professam da mesma fé e que voluntariamente queiram cursar a disciplina. Resumindo: O ensino religioso pode ser confessional nas escolas públicas, desde que cumpridos os seguintes requisitos: a) Seja concedido, em igualdade de condições às diversas crenças, o direito de lecionar o ensino religioso de acordo com seus dogmas na estrutura física das escolas públicas; b) Que o MEC estabeleça requisitos formais e objetivos para viabilizar a igualdade de condições às diversas crenças; c) Que a matrícula na disciplina “ensino religioso” seja facultativa; VII. TRANSFUSÃO DE SANGUE E TESTEMUNHAS DE JEOVÁ As testemunhas de jeová, por convicções religiosas, não admitem a realização de transfusão de sangue em nenhuma hipótese, ainda que em situações extremas como a morte iminente. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 36 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Em razão dessa convicçãoreligiosa, não raras vezes pode ocorrer uma situação de embate entre dois direitos fundamentais: a vida e a liberdade de crença. Diante do perigo de morte iminente em que seja necessário realizar uma transfusão de sangue para salvar a vida de um paciente e a recusa de realização do referido procedimento por parte da vítima ou de seus familiares em razão de convicção religiosa, qual direito deve prevalecer? A resposta à indagação acima dependerá do contexto em que estiver inserida a discussão: a) Se a vítima for absolutamente capaz e estiver consciente e manifestar a sua vontade de não receber a transfusão de sangue em razão de sua convicção religiosa: Prevalecerá a autonomia da vontade do paciente, o qual deverá ter o seu direito de liberdade de crença respeitado, devendo o Estado abster-se de realizar o procedimento médico. Por essa razão, caso o médico não faça a transfusão de sangue nessas circunstâncias e o paciente venha a óbito em função disso, o médico não poderá ser responsabilizado de forma alguma (seja civilmente, criminalmente ou profissionalmente – no conselho de classe). ATENÇÃO! Caso desrespeite a vontade da vítima e realize o procedimento de maneira forçada, o médico, muito embora possa ter praticado o fato típico do delito de constrangimento ilegal, estará penalmente resguardado por causa de exclusão da ilicitude de seu comportamento, tendo em vista o disposto no art. 146, § 3º, I, do Código Penal: Constrangimento ilegal Art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda: PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 37 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa. § 3º - Não se compreendem na disposição deste artigo: I - a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida; b) Se a vítima estiver inconsciente ou for incapaz, por qualquer razão, de manifestar sua intenção: Prevalecerá o direito à vida, devendo o Estado realizar o procedimento salvador ainda que os pais ou outros familiares ou responsáveis pelo paciente recusem o procedimento. Esse foi o entendimento do STJ, no julgamento do HC 268.459/SP, DJe 28/10/2014. No referido julgamento o tribunal não emite uma conclusão a respeito da possível responsabilização criminal do médico que deixa de fazer a transfusão nessas circunstâncias, permitindo a morte do paciente. Apenas menciona expressamente que é dever do profissional tomar todas as medidas que considere necessárias para a salvaguarda da vida, mesmo que isso vá de encontro ao anseio dos responsáveis legais. CUIDADO! A doutrina (por exemplo, Marcelo Novelino) ressalta que nem mesmo a manifestação de vontade antecipada, por escrito, de paciente que esteja inconsciente no momento da transfusão, recusando-se a esse tipo de tratamento, será suficiente para afastar a prática da transfusão. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 38 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA # O QUE É O “DIREITO DE APOSTASIA”? É o direito implicitamente assegurado pela Constituição de negar, renunciar ou sair de determinada religião ou culto religioso, independentemente das regras religiosas. Há discussão sobre o eventual direito de se obter a eliminação de registros de adesão ou de filiação anterior a determinado grupo religioso, sobretudo nos casos em que tais registros tenham sido promovidos sem o consentimento do interessado (como no caso dos batismos feitos em crianças). No Brasil, contudo, a proibição constitucional a que o Estado intervenha ou embarace o funcionamento das igrejas ou cultos religiosos (art. 19, I) obsta essa dimensão do direito à apostasia. VI) LIBERDADE PROFISSIONAL XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; A CF/88 estabelece como regra que o exercício profissional será livre. Excepcionalmente, contudo, a lei poderá restringir o exercício profissional, exigindo determinada qualificação técnica para o exercício da profissão. ATENÇÃO! Não é qualquer profissão que poderá ser objeto de regulamentação e restrição estatal, mas tão somente aquelas atividades com um potencial lesivo inerente às atribuições, por exemplo, médico, advogado2 e etc. CUIDADO! Por essa razão, entendeu o STF que a atividade de músico não pode depender de licença ou registro em entidade de classe para seu exercício, afinal a liberdade profissional é quase absoluta e a restrição ao seu exercício somente 2 Segundo o STF, o exame de ordem mostra-se consentâneo com a Constituição Federal, que possibilita a exigência de qualificação específica para o exercício de algumas profissões (RE 603.583, DJe 25/05/2012). PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 39 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA pode ser justificada em razão de proteção a um interesse público (STF: RE 414.426/SC, DJe 10/10/2011). O exercício da acupuntura por indivíduo que não é médico não configura o delito previsto no art. 282 do CP (exercício ilegal da medicina, arte dentária ou farmacêutica). Não existe lei federal prevendo que a acupuntura é uma atividade privativa de médico (art. 22, XVI, da CF/88). STJ. 6ª Turma. RHC 66.641-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 3/3/2016 (Info 578). PONTOS RELEVANTES PARA AS PROVAS DE CONCURSOS PÚBLICOS LIGADOS AO DIREITO À LIBERDADE PROFISSIONAL: I. NÃO EXIGÊNCIA DE DIPLOMA DE JORNALISMO PARA O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO Com fundamento, dentre outros, no direito à liberdade profissional, o STF entendeu ser inconstitucional a exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão de jornalista (RE 511.961/SP, DJe 13/11/2009). O tribunal asseverou que seria uma ofensa à liberdade de imprensa e ao direito de livre exercício profissional condicionar o exercício da profissão de jornalista à específica formação acadêmica. No mesmo julgado, o STF asseverou o entendimento da impossibilidade do estabelecimento de controles estatais sobre a profissão jornalística, o que leva à conclusão de que não pode o Estado criar uma ordem ou um conselho profissional para a fiscalização desse tipo de profissão. O exercício do poder de polícia do Estado é vedado nesse campo em que imperam as liberdades de expressão e de informação”. PROFESSORES CARLOS ALFAMA E PAULO IGOR DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS 40 Professores Carlos Alfama e Paulo Igor – ZERO UM CONSULTORIA VII) LIBERDADE DE REUNIÃO O direito de liberdade de reunião é estampado no art. 5º, inciso XVI, da Constituição Federal: XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; REQUISITOS PARA O EXERCÍCIO DO DIREITO DE REUNIÃO i) A reunião deve ser pacífica; ii) Não pode haver utilização de armas; ATENÇÃO: Uma reunião de policiais civis grevistas portando armas de fogo, por exemplo, caracterizaria violação a este requisito, tornando a reunião inconstitucional. iii) Deve ocorrer em locais abertos ao público; ATENÇÃO: Violaria este requisito o exercício do direito de reunião nas dependências do Congresso Nacional, ou do Palácio do Planalto, por exemplo, por tratar-se de local não aberto indiscriminadamente ao público.