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RELAÇÕES TRABALHISTAS E SINDICAIS AULA 01 - BREVE HISTÓRICO DA ASCENSÃO DOS DIREITOS SOCIAIS NO MUNDO E NO CONTEXTO BRASILEIRO Olá, O desenvolvimento dos direitos sociais está relacionado com o conceito de Estado social e de constituição social. O fracasso do Estado Mínimo, baseado na liberdade, destacou a necessidade de mecanismos compensatórios para equilibrar direitos e obrigações. A crise de 1929 obrigou o Estado a intervir ativamente na economia, marcando o início do Estado-providência, promovendo os direitos econômicos e sociais. Constituições como as do México (1917) e da Alemanha (1919) influenciaram a Constituição brasileira de 1934. No entanto, os críticos apontam que o Estado Social brasileiro nasceu sob uma ditadura. A base dos direitos civis, como a dignidade humana, impõe limites à flexibilidade destes direitos. A proibição do retrocesso público é uma limitação legal a esta flexibilidade. Casos complexos, como o assentamento de mulheres grávidas, demonstram a importância da unidade jurídica em matéria de direitos civis, para garantir que a negociação coletiva não corroa os direitos fundamentais. A modernização dos métodos de produção e a flexibilidade devem promover uma gestão inteligente dos trabalhadores, garantindo a igualdade de benefícios e preservando a dignidade humana. Bons estudos! 1 A EVOLUÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS: DO ESTADO MÍNIMO AO CONSTITUCIONALISMO SOCIAL O desenvolvimento dos direitos sociais está profundamente relacionado com o conceito de Estado Social e a constituição que o acompanha (BARROSO, 2011). O fracasso do modelo do Pequeno Mundo, de orientação liberal, é demonstrado ao considerar o indivíduo como único ponto de referência no estatuto jurídico do Estado (THEODORO, 2016). Nem a teoria econômica de Adam Smith nem a política nacional subsequente foram suficientes para abordar adequadamente o problema fundamental: a diversidade natural dos seres humanos e a necessidade de mecanismos compensatórios para equilibrar o serviço de direitos e obrigações (ZAFFARONI, 2011). A igualdade formal do Estado Livre não forneceu estes meios, e o capitalismo descontrolado mostrou, em períodos tristes da história mundial, que a independência do indivíduo pode ser uma negligência coletiva, causando grandes desigualdades sociais e tragédias humanas (THEODORO, 2016). O Pânico de 1929, marcado pelo colapso da Bolsa de Valores de Nova Iorque, obrigou o Estado a assumir um papel anteriormente proibido: a intervenção saudável na vida dos seus cidadãos, através de investimentos públicos em grande escala e da regulação econômica (SOUZA, 2008). Os mercados não regulamentados revelaram- se perigosos para o desenvolvimento social, especialmente para os mais desfavorecidos, que sofreram com os baixos salários, com longos horários de trabalho e as condições insalubres nas áreas urbanas no final do século XIX e no início do século XX (AROUCA, 2014). O Estado social e o constitucionalismo social surgiram como uma nova máquina política da Constituição, tornando-se uma ferramenta de desenvolvimento social, além de garantir a liberdade frente ao Estado (PEREIRA, 2018). A Constituição Mexicana (1917) e a Constituição Alemã (1919, Constituição de Weimar) foram pioneiras nesse modelo, influenciando a Constituição Brasileira de 1934, a mais abrangente até então em termos de direitos e proteções básicas (SOUZA, 2008). Contudo, Sarmento e Neto (2012), criticam a determinação da constituição social no Brasil da época, apontando que a instauração do Estado Social brasileiro esteve intimamente ligada à instauração da ditadura durante o período do Estado Novo. Este período viu o Executivo assumir responsabilidades mais amplas, enfraquecendo o significado político do texto constitucional. O chefe de Estado, entre outras funções, tem o poder de rever as decisões do Supremo Tribunal e fechar o parlamento por razões de segurança nacional, consolidando estranhamente o poder (AROUCA, 2014). Apesar das limitações quanto às liberdades constitucionais, este período foi marcado pelo estabelecimento de importantes direitos civis no Brasil, embora tenha impedido a expansão da ideia de uma Constituição comum, como as Constituições foram estabelecidas pela primeira vez em outros países europeus (ZAFFARONI, 2011). 1.1. A nota de fundamentalidade dos direitos sociais Os direitos humanos, tal como os direitos na luta em curso, não podem permitir- se ficar livres de ataques, sejam eles do Governo ou de determinados setores da sociedade (THEODORO, 2016). Pereira (2018), referindo-se ao pensamento de Danièle Lochak, enfatizou que os direitos humanos não apresentam uma história linear, não compõem a história de uma marcha triunfal, nem a história de uma causa perdida de antemão, mas a história de um combate. No contexto desta luta histórica pelos direitos sociais, a propaganda para tornar os direitos dos trabalhadores mais flexíveis foi introduzida tendo em mente o fundamento dos direitos civis (GAGLIANO; FILHO, 2016). “Nota sobre a importância da cidadania” refere-se à inevitabilidade das condições existentes. A violação desses direitos, em conjunto com outros direitos humanos, tem impacto negativo no conceito de dignidade humana. Por outro lado, há diferenças na medida em que as pessoas usufruem destes direitos no local de trabalho. Por outro lado, existem limites significativos para além dos quais não se pode discutir um local de trabalho digno e, consequentemente, a dignidade da profissão. Para reconhecer a importância dos direitos civis, deve primeiro reconhecer que há algo de importante na dignidade humana na defesa destes direitos. Isto coloca limites à ação da vontade nesta área, seja por parte do legislador, seja por parte do sujeito de direito, uma vez que os direitos fundamentais são, por definição, inalienáveis e intransferíveis (PEREIRA, 2018). Mesmo sem direitos absolutos, a flexibilidade ainda pode ser discutida sem grandes perturbações na estrutura básica dos direitos civis (AROUCA, 2014). Essa flexibilidade exige um debate sério sobre quais os direitos sociais que podem ser flexibilizados, em que medida e com base em que parâmetros de considerações sociais relevantes (GAGLIANO; FILHO, 2016). Nem a mera abolição dos direitos civis nem a perturbação da estrutura do conselho de administração da relação comercial envolvida são aceitáveis (BARROSO, 2011). Esta complexidade de ideias e interesses contraditórios mostra a importância do diálogo sobre o desenvolvimento dos direitos civis (SOUZA, 2008). O ponto de partida óbvio desta análise é que nenhuma teoria que promova “a extensão das negociações jurídicas”, ou a doutrina da “completa invisibilidade dos direitos civis”, pode resolver o problema com provas no seu estado atual (GAGLIANO; FILHO, 2016). A sabedoria do Hinduísmo e do Budismo propõe um caminho intermédio, ou curso de ação correto, como ponto de equilíbrio neste debate acirrado (PEREIRA, 2018). 1.2. A vedação ao retrocesso social como limite jurídico da possibilidade de flexibilização de direitos sociais A base dos direitos civis identifica um valor importante nestas garantias, o que dificulta a questão da flexibilidade do ponto de vista da manutenção de padrões mínimos de civilização (LUHMANN, 2009). Em primeiro lugar, é necessário distinguir o conceito de prevenção da degradação social do equívoco sobre a invisibilidade dos direitos sociais. É claro que os direitos civis são bons benefícios do Governo, são firmemente mantidos e podem ser protegidos (GAGLIANO; FILHO, 2016). Esta tensão faz com que a concretização destes direitos seja uma construção contínua limitada por fatores temporais, psicológicos e econômicos, refletidos em serviçoscomo saúde, educação, assistência social e pensões (BARROSO, 2011). No entanto, os direitos dos trabalhadores, como parte dos direitos sociais, estão menos dependentes de benefícios diretos do Governo, que promovem indiretamente boas condições de trabalho (SOUZA, 2008). Portanto, o argumento sobre a falta de recursos não funciona como uma limitação direta ao gozo desses direitos. As limitações aos direitos dos trabalhadores encontram-se, portanto, noutros fundamentos constitucionais, como a liberdade de ação e os direitos de propriedade (GAGLIANO; FILHO, 2016). Portanto, o desenvolvimento dos direitos dos trabalhadores é consistente com a abordagem de casos difíceis, como mencionado por Ronald Dworkin em “Levando os Direitos a Sério”, incluindo os princípios jurídicos conflitantes necessários para analisar teorias e conceitos (THEODORO, 2016). Esta complexidade indica a falta de uma decisão racional para resolver a questão, uma vez que a interação entre princípios jurídicos igualmente válidos deve geralmente ser resolvida caso a caso, respeitando a integridade da lei (PEREIRA, 2018). Portanto, a perspectiva maniqueísta (fortalecimento das negociações jurídicas contra a invisibilidade absoluta dos direitos civis) não é suficiente para resolver o conflito entre os campos jurídicos sobre a reivindicação deste direito (GAGLIANO; FILHO, 2016). Dado que um caso particular é importante para a discussão sobre o desenvolvimento dos direitos dos trabalhadores, o Judiciário apresenta-se como uma parte relevante desta discussão (ZAFFARONI, 2011). Numa democracia totalmente liberalizada, onde a negociação coletiva é livre de desigualdades no poder econômico e social, esta reconciliação pode ser diferente. Porém, no contexto brasileiro, a representação sindical não é uma solução eficaz no combate ao equilíbrio de poder entre capital e trabalho, devido ao estreitamento do modelo organizacional adotado na Constituição (AROUCA, 2014). Por esse motivo, a primeira parte mantém a competência da Justiça do Trabalho nos termos do art. 114, § 2º, da Constituição do Estado, previu que os debates sobre direitos civis acabariam nos Tribunais de Justiça (AROUCA, 2014). Ao alterar a Constituição nº 45 de abril, houve proposta de retirada desse poder geral, mas a lei do TST permaneceu inalterada no que diz respeito às disputas econômicas. Isto mostra que a reforma constitucional não teve um impacto muito claro, quando os elementos reais do poder ainda convergem na proteção dos interesses coletivos do poder judicial, mostrando a necessidade de maturidade em termos políticos antes de mudanças importantes (PEREIRA, 2018). Trocar a frase “estabelecer normas e condições” para “determinar conflitos” não muda a ideia, porque o Ministério da Justiça só trabalha para resolver conflitos, sejam eles individuais ou coletivos (LUHMANN, 2009). Portanto, uma norma jurídica revela seu verdadeiro significado quando aplicada em um caso específico, segundo a teoria organizacional de Friedrich Müller. O controle judicial sobre as etapas da negociação coletiva garante os diferentes interesses envolvidos, a conciliação do consentimento mútuo e os direitos sociais mínimos, que são essencialmente inalienáveis (AROUCA, 2014). A dificuldade reside em estabilizar as expectativas dos atores sociais, uma vez que a falta de uniformidade jurídica em algumas áreas do direito laboral cria incerteza, impedindo a negociação coletiva e a participação crescente entre as finanças e os trabalhadores (ZAFFARONI, 2011). A aplicação dos princípios no sistema jurídico brasileiro ainda é incipiente devido à polêmica e à densidade caótica associada ao discurso jurídico (BARROSO, 2011). Isto torna a definição jurídica nas relações laborais, especialmente no que diz respeito à adequação ou flexibilidade dos direitos sociais dos trabalhadores, uma questão importante (SOUZA, 2008). Por outro lado, a negociação coletiva não pode pôr fim ao desenvolvimento social garantido pela Constituição. Por outro lado, a Constituição Federal Brasileira, em seu art. 7º, XXVI, assegura a validade e eficácia dos instrumentos de negociação, o que impõe ao tradutor jurídico a complexa tarefa de harmonizar as intenções das partes em um instrumento coletivo comum sem afetar as garantias mínimas de dignidade profissional. Este equilíbrio nem sempre é alcançado, criando divisões entre as partes envolvidas e entre os juízes que julgam estes litígios (AROUCA, 2014). A falta de uma abordagem hermenêutica para consolidar de forma coerente a Constituição num discurso judicial eficaz é um problema premente (GAGLIANO; FILHO, 2016). As pessoas precisam de confiar na interpretação da Constituição, que deve ser consistente na teoria e na prática (LUHMANN, 2009). Desta forma, os intervenientes jurídicos podem ver o sistema de justiça como um local seguro para definir e fazer cumprir os seus direitos, evitando que as relações jurídicas e sociais se tornem imprevisíveis e sujeitas a culpa, prejudicando o desenvolvimento econômico e político de uma sociedade ordenada e livre (PEREIRA, 2018). Nesse contexto, a reforma trabalhista que deu origem à Lei nº 1. 13.467, de 13 de julho de 2017, é relevante porque uma de suas inovações diz respeito à ação judicial em matéria de negociação coletiva. A revolução enfatiza a expansão do que é negociado sobre o que é legislado, o que poderia ameaçar a manutenção dos padrões mínimos de civilização (LUHMANN, 2009). Instalação artística 611-A, especialmente o § 1º, da CLT, limita a atuação do Ministério da Justiça aos aspectos jurídicos da negociação coletiva, introduzindo o conceito do “princípio da interferência mínima no direito à autodeterminação da vontade coletiva”. Esta limitação é problemática, uma vez que o fortalecimento dos direitos civis é uma obrigação constitucional inalienável das estruturas da Justiça do Trabalho. A nova lei reforça perigosa e ilegalmente estas garantias constitucionais (AROUCA, 2014). A flexibilidade da cidadania deve obedecer a critérios rígidos e rigorosos propostos no trabalho discutido. Se não for possível manter um nível mínimo de civilidade, então devem ser permitidas ações legais para garantir direitos civis mínimos sem quaisquer restrições (GAGLIANO; FILHO, 2016). Para negociar uma medida é importante entender que devemos agir como forma de controlar os excessos, limitar tanto os princípios coletivos desiguais que violam os direitos civis mínimos quanto a excessiva dedicação estatal (PEREIRA, 2018). Em todos os casos, é importante manter o controle sobre as questões em discussão, especialmente no caso de violações menores dos direitos civis, puníveis à medida que se discutem conflitos constitucionais (HABERLE, 2002). 1.3. O caso da flexibilização da estabilidade da gestante: algumas reflexões sobre a importância da sindicabilidade judicial dos direitos sociais Em meados de 2004, enquanto trabalhava na 1ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho, o escritor, Pereira (2018), teve a oportunidade de relatar um caso que causou séria reflexão no Tribunal Superior do Trabalho. Este caso foi posteriormente apreciado pelo Tribunal com toda a sua discricionariedade, o que levou a uma alteração da lei. Refere-se ao caso AIRR-1422400-38.2002.5.04.0900, que discutiu a legalidade de um dispositivo de direito coletivo que impõe às trabalhadoras grávidas a condição de usufruir do direito à estabilidade regulamentado 10, II, b, do ADCT. A cláusula estabelece que, em caso de demissão sem justa causa, a empregada grávida deve revelar sua gravidez ao empregador no prazo de 60 dias antes da notificação para garantir o direito a recurso (HABERLE, 2002). Durante o julgamento de 10 de março de 2004, a 1ª Câmara de Julgamento do Tribunal Superior do Trabalho, contrariando a legislação então vigente (extinto JO nº 88 da SDI-1 doTST), decidiu confirmar esta previsão geral, tendo acatado o veredito legal. A seguinte interpretação: “é impossível aceitar uma interpretação restritiva que permita compreender que o incumprimento do prazo previsto nas regras coletivas sobre a obrigação de comunicar ao empregador a gravidez pode ser um fator que impede a suspensão temporária do direito estabilizado, ou pelo menos reduz o período de estabilização". Portanto, o Conselho 1 tende a ir contra o entendimento escrito no JO n. 88 da SDI-1 para o TST. De acordo com os regulamentos internos em vigor, os resultados do caso não foram anunciados, mas foi tomada a decisão de transferir a competência para resolver o caso para o Tribunal de Recurso. A decisão é escrita com as seguintes disposições: Decisão: por unanimidade, suspender o pronunciamento do resultado do julgamento, visto que a 1ª Turma identificou possível contrariedade à O.J. n. 88 da SESBDI-1, submetendo a matéria à apreciação do Tribunal Pleno do TST. Após a votação do Exmo. Ministro Emmanoel Pereira, Relator, que negava provimento ao agravo de instrumento (BRASIL, 2005). Posteriormente, na audiência realizada em 15 de abril de 2004, o Plenário analisou a questão e manteve o parecer expresso no caso. Esta decisão resultou na alteração da redação do JO n. 88 da SDI-1 do TST, passando a vigorar com o seguinte: "PARA GESTANTES ESTABILIDADE TEMPORÁRIA. O desconhecimento do empregador sobre a gravidez não prejudica o direito à indenização causada pela estabilidade" (art. 10, II, b, ADCT). Com o retorno do caso ao Primeiro Conselho, a matéria foi encaminhada para novo julgamento, no qual o voto do relator foi confirmado por unanimidade, culminando com a redação de decisão exemplar sobre esta questão, estão resumidos no seguinte resumo: AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO. ESTABILIDADE DA GESTANTE. O artigo 10, inciso II, “b”, do ADCT, garante à gestante o direito à estabilidade provisória no emprego, abrangendo o período desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto. Este comando constitucional não permite uma interpretação restritiva que aceite a ideia de que o não cumprimento do prazo fixado em norma coletiva para a comunicação ao empregador sobre o estado gravídico possa impedir o direito à estabilidade provisória ou reduzir seu período. A jurisprudência que sugere que a demora da gestante em informar seu estado ao empregador, conforme estabelecido em norma coletiva, poderia prejudicar a trabalhadora, surgiu do entusiasmo em privilegiar convenções e acordos coletivos de trabalho, respeitando o que foi acordado entre as partes. No entanto, este entendimento negligencia um aspecto crucial do objetivo do constituinte, pois a estabilidade garantida pela Constituição possui um caráter duplo: além de proteger o direito da trabalhadora, visa, principalmente, proteger o nascituro. Não havendo ofensa ao artigo 10, inciso II, “b”, do ADCT, nega-se provimento ao agravo (BRASIL, 2005). Desde esta nova decisão, que dá prioridade ao direito inevitável das mulheres e dos nascituros à dignidade durante a gravidez e nas primeiras fases da vida do recém-nascido, registaram-se grandes progressos na estabilidade das trabalhadoras grávidas (BARROSO, 2011). Este direito, que tinha sido enfraquecido pelos princípios coletivos que estabelecem as condições e os encargos para a sua plena utilização, foi fortalecido pelo novo paradigma estabelecido pelo exemplo acima dado (AROUCA, 2014). Historicamente, devido à falta de disposições constitucionais específicas e às limitações impostas pelo atual regime político, tanto as agências jurídicas como as de inteligência não hesitaram em garantir o direito das mulheres a uma vida estável durante a gravidez (LUHMANN, 2009). A Súmula 244 do TST, anterior ao advento da Constituição Federal de 1988, dispunha sobre tal direito nos seguintes termos: “GESTANTE. GARANTIA DE EMPREGO (Redação original – Res. 15/1985, DJ 05, 06 e 09.12.1985). A garantia de emprego à gestante não autoriza a reintegração, assegurando-lhe apenas o direito a salários e vantagens correspondentes ao período e seus reflexos”. A partir de 1988, com a inclusão do direito à fixação da gestante no ADCT, que passou a ser entendido como uma garantia de retorno à participação, baseada no princípio da proteção da mulher e do nascituro, do nascimento, bem como no princípio da continuidade de trabalho (HABERLE, 2002). O Tribunal Superior do Trabalho, em razão da alteração dos parâmetros gerais, considerou o conteúdo do Escrito TST 244, que incluía o direito à reintegração nas seguintes condições: GESTANTE. GARANTIA DE EMPREGO (Súmula revisada – Res. 121/2003, DJ 19, 20 e 21.11.2003). A garantia de emprego da gestante permite a reintegração apenas se esta ocorrer dentro do período de estabilidade. Caso contrário, a garantia limita-se ao recebimento dos salários e demais direitos relativos ao período de estabilidade (BRASIL, 2016). A Súmula 244 do TST de 2012, esclarece o direito constitucional à estabilização da gestante, afirmando que esse direito se limita ao período de estabilização, sem garantir indenização obrigatória após esse período. Contudo, permite a discussão judicial, que se converte em indenização caso não seja utilizada. Esta interpretação abrange situações em que o empregador não pretende reintegrar à grávida durante o período de resolução ou nos casos em que a reintegração é necessária após a rescisão, por incumprimento de compatibilidade induzida por evento (LUHMANN, 2009). Esta garantia, centrada na dignidade das mulheres e dos nascituros como direito social mínimo, foi escrita ao longo do tempo, evidenciando a mudança de paradigma estabelecida pelos precedentes judiciais que limita a interpretação extremamente liberal dos princípios coletivistas, exemplificada pelas reformas laborais (LUHMANN, 2009). Esta mudança, ao expandir as negociações sindicais formais e limitadas, desafia a autonomia garantida constitucionalmente na regulação dos direitos civis (BARROSO, 2011). É importante notar que a lei, embora tenha um papel na definição e limitação dos direitos públicos, deve evitar suprimir esses direitos, especialmente os direitos básicos de saúde, higiene e segurança no local de trabalho (AROUCA, 2014). A discussão da reforma laboral levanta questões sobre o equilíbrio entre a negociação coletiva e os direitos constitucionalmente protegidos, tais como a estabilidade das mulheres grávidas, que não devem participar nas negociações das reformas laborais põem em perigo a sua própria natureza (PEREIRA, 2018). Em suma, a função administrativa desempenha um papel importante na proteção destes direitos contra os excessos coletivos, garantindo que a autonomia coletiva não ultrapassa os limites estabelecidos pela constituição (PEREIRA, 2018). 1.4. O discurso da modernização dos meios de produção do novo modelo de gestão da força de trabalho como fundamento para a flexibilização de direitos sociais A emergência de um novo modelo econômico global, influenciado por fatores neoliberais, tem sido defendida por economistas e pelo direito econômico (SOUZA, 2008). Este modelo aplica o sistema de produção distribuída da Toyota, dividindo os processos de produção em todo o mundo para otimizar as condições de mercado e gerir eficazmente os recursos de trabalho e produção (HABERLE, 2002). A adoção deste método coincidiu com o que foi chamado de terceira revolução tecnológica, que marcou um afastamento dos métodos tradicionais de produção, como o fordismo e o taylorismo (SOUZA, 2008). Neste contexto, as pessoas continuam a ser sujeitos de direitos, não desvinculados do processo de informatização social. Isto cria exigências de qualidade de vida que muitas vezes contradizem as expectativas cada vez menores de benefícios econômicos e sociais (LUHMANN, 2009). O paradoxosurge quando a sociedade, ao se modernizar em busca de maior qualidade de vida, parece estar comprometendo o acesso a recursos considerados importantes ou necessários (BARROSO, 2011). Na história industrial, o entusiasmo inicial britânico pelo advento da máquina a vapor e da produção em massa logo revelou a necessidade de abolir a escravatura para expandir o mercado consumidor noutro país (LUHMANN, 2009). Este exemplo histórico destaca que o desenvolvimento inacessível a todos não é sustentável na sociedade. Os custos ambientais destes desenvolvimentos resultam muitas vezes na redução da qualidade de vida, sem proporcionar benefícios claros para a sociedade como um todo (SOUZA, 2008). A modernização dos meios de produção não é, portanto, apenas uma questão de flexibilidade e vulnerabilidade das relações laborais (ZAFFARONI, 2011). Deve incluir uma gestão inteligente do trabalho, promovendo métodos socialmente libertadores como o trabalho remoto, metas salariais individuais, participação nos lucros e investimento na formação especializada através de institutos técnicos e escolas de competências (LUHMANN, 2009). A redução dos custos de produção não pode ser alcançada através da criação de relações laborais, nem conduz à supressão dos direitos sociais básicos (PEREIRA, 2018). Além disso, é importante que os benefícios do desenvolvimento econômico sejam partilhados de forma equitativa por toda a sociedade e não apenas revertam em benefícios monetários (THEODORO, 2016). As mudanças nos métodos de recrutamento e nos métodos de gestão do trabalho deverão simultaneamente aumentar a competitividade dos empregadores e promover uma melhor qualidade de vida dos trabalhadores. Caso contrário, enfrentarão oposição significativa do público e, portanto, do poder judicial (PEREIRA, 2018). Em suma, o desenvolvimento dos direitos sociais deve ser realizado de acordo com a filosofia do “ganha-ganha”, em que tanto os empregadores como os trabalhadores beneficiam, evitando a alienação da dignidade humana devido aos benefícios financeiros (SOUZA, 2008). Isto é importante para garantir que o desenvolvimento econômico não comprometa os princípios democráticos e os importantes objetivos de uma sociedade livre, justa e solidária, conforme determinado pela Constituição do país (PEREIRA, 2018). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AROUCA, J. C. Curso básico de direito sindical. 4. ed. São Paulo: LTr, 2014. BARROSO, L. R. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito. In: CLÈVE, Clèmerson Merlin; BARROSO, Luís Roberto (Org.). Doutrinas essenciais. Direito constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. BRASIL. Constituição Federal (1988). 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Acesso em: 11 jul. 2024. BRASIL. Súmula 244. I – O desconhecimento do estado gravídico pelo empregador não afasta o direito ao pagamento da indenização decorrente da estabilidade (art. 10, II, b, do ADCT). Res. 185/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27 set. 2012. Livro de Súmulas, Orientações Jurisprudenciais, Precedentes Normativos. Brasília: CSG/ SEG/TJDFT, 2016. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/busca?q=s%C3%BAmula+244+do+tst. Acesso em: 11 jul. 2024. GAGLIANO, P. S.; FILHO, R. P. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. v. 3. HABERLE, P. Hermenêutica constitucional: a sociedade aberta dos intérpretes da Constituição – contribuição para a interpretação pluralista e procedimental da Constituição. Trad. Gilmar Ferreira Mendes. Porto Alegre: Sergio Fabris Editor, 2002. LUHMANN, N. Introdução à teoria dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 2009. PEREIRA, E. 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