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11 Thiago Aragão Leite CLÍNICA MÉDICA I TAQUIARRITMIAS 2 SUMÁRIO TAQUIARRITMIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1. Definições. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 2. Epidemiologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 3. Fisiopatologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 4. Quadro clínico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 5. Diagnóstico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6. Exames complementares. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6.1. Taquicardias supraventriculares (TSV). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6.2. Taquicardias ventriculares (TV) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 7. Diagnóstico diferencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 8. Tratamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 8.1. Taquicardias instáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 8.2. Taquicardias estáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Mapa mental . Taquiarritmias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 3 TAQUIARRITMIAS O QUE VOCÊ PRECISA SABER? u Na avaliação inicial de uma taquiarritmia, é fundamental a identificação do ritmo (a partir do monitor ou de um ECG de 12 derivações, se possível) e de sinais/sintomas de instabilidade hemodinâmica pela presença de pelo menos um dos seguintes critérios (5 Ds): dispneia, dor torácica, desmaio (síncope), diminuição de PA (hipotensão) e diminuição do nível de consciência (Glasgow 100 bpm). Podem corresponder a uma resposta fisiológica do organismo frente a algum estímulo externo ou estar relacionadas a um distúrbio pri- mário do ritmo cardíaco. Automatismo refere-se à propriedade que algu- mas células têm de gerar impulso elétrico sem Taquiarritmias 5 necessidade de estímulo externo, ou seja, são capa- zes de se autodespolarizarem. As Taquicardias Supraventriculares (TSV) têm sua origem acima do feixe de His, ou seja, em qualquer região dos átrios ou do NAV, acima dos ventrículos. Já as Taquicardias Ventriculares (TV), como o nome já diz, originam-se nos ventrículos. A FC máxima que pode ser atingida de forma fisio- lógica por determinado indivíduo varia de acordo com a faixa etária e pode ser determinada de forma aproximada pela fórmula: 220 – idade, ou seja, uma pessoa de 20 anos pode atingir até 200 bpm de forma fisiológica, enquanto uma de 60 anos, no máximo 160 bpm. 2. EPIDEMIOLOGIA As taquiarritmias podem ocorrer em qualquer faixa etária, lembrando que em recém-nascidos e lacten- tes a FC habitualmente é mais elevada. As taquiarritmias mais comuns em crianças e ado- lescentes são as TSV, que ocorrem geralmente em pacientes com doença cardíaca estrutural (miocar- diopatia dilatada, doenças congênitas etc.). DICA Em crianças, as TSV podem estar associadas à miocardite infecciosa. A Fibrilação Atrial (FA) é a arritmia cardíaca susten- tada mais comum na prática clínica, e sua incidên- cia aumenta com a idade, sendo mais comum em idosos com comorbidades. A Taquicardia Atrial (TA) ocorre com mais frequência em pacientes com dilatação de câmaras direitas, secundária a doenças congênitas ou pela hiper- tensão pulmonar relacionada à Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). Flutter atrial está rela- cionado ao pós-operatório de cirurgia cardíaca e causas relacionadas à hipertensão pulmonar. A Taquicardia por Reentrada Nodal (TRN) é mais comum em mulheres de meia-idade, enquanto a Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW), relacio- nada à Taquicardia por Reentrada Atrioventricular (TAV), é mais frequente em homens jovens. 3. FISIOPATOLOGIA BASES DA MEDICINA As taquiarritmias podem ocorrer devido a diferentes mecanismos. É importante entender como funcionam e a fisiopatologia de cada arritmia, pois existe implicação tanto no tratamento como no prognóstico. Os principais mecanismos são automatismo anormal, reentrada e atividade deflagrada por pós-potenciais. De maneira sucinta, o automatismo é o aumento na fre- quência de despolarização de células com capacidade de automatismo, ocasionado pela maior inclinação da fase 4 do potencial de ação da célula, gerando despolarizações espontâneas mais frequentes. No que tange à reentrada nodal, para a sua ocorrência, é necessária a presença de um circuito com 2 vias de condução do estímulo, que possuem propriedades ele- trofisiológicas distintas, com velocidades de condução e períodos refratários diferentes. Em condições normais, há apenas um caminho a ser seguidopelo estímulo elétrico. Em algumas situações, pode haver mais de um trajeto possível, como na presença de fibrose miocárdica, dupla via nodal ou uma via acessória. Nesses casos, o estímulo é conduzido anterogradamente por uma das vias, enquanto a outra via encontra-se em período refratário. Ao chegar ao ponto final do circuito de reentrada, o estímulo encontra a via previamente refratária passível de nova despolarização, conduzindo retrogradamente por essa via. Forma-se, assim, a reentrada (Figura 4). A atividade deflagrada tem relação com potencial de ação. Podem ocorrer “abalos” na corrente elétrica trans- membrana relacionados à movimentação de cálcio no meio intracelular, o que pode gerar um novo potencial de ação. Esses “abalos” são chamados de pós-potenciais precoces ou tardios, a depender da fase do potencial de ação em que ocorrem. O surgimento de uma taquiarritmia envolve dis- túrbios na formação ou na condução do estímulo elétrico. Os 3 mecanismos principais implicados na gênese das taquiarritmias são: Taquiarritmias Cardiologia 6 u Automatismo anormal (Figura 3): aumento na frequência de despolarização de células com capacidade de automatismo. O início e o término são graduais, e as frequências máximas atingi- das geralmente não superam a máxima espe- rada para a idade. Pode ocorrer como resposta ao aumento de atividade adrenérgica que ocorre na febre, hipertireoidismo, hipóxia, hipovolemia, anemia, uso de β-agonistas, entre outros. O au- tomatismo está relacionado às seguintes taqui- cardias: sinusal (foco de automatismo no NSA) e atrial (foco nos átrios, em uma região do NSA). Figura 3. Mecanismo do automatismo anormal. Fonte: Elaborada pelo autor. u Reentrada: O início e o término são súbitos e a reentrada pode atingir FC mais elevadas que o esperado para a idade. Está relacionada às Ta- quicardias por Reentrada Nodal (TRN), Atrioven- tricular (TAV), flutter atrial (cuja etiologia envolve macrorreentrada no átrio direito) e a maioria das taquicardias ventriculares. Figura 4. Mecanismo de reentrada. Na imagem 1, um batimento precoce encontra a via rápida no período refratário. Na imagem 2, após ser conduzido pela via lenta, o estímulo encontra a via rápida já fora da refratariedade e é conduzido. Por fim, na imagem 3, fecha-se o circuito de reentrada, com o estímulo sendo novamente conduzido pela via lenta. Fonte: Acervo Sanar. u Atividade deflagrada por pós-potenciais: último mecanismo a ser descrito e ainda não completa- mente elucidado. Após ou durante um potencial de ação, podem ocorrer “abalos” na corrente elétrica Taquiarritmias 7 transmembrana relacionados à movimentação de cálcio no meio intracelular, o que pode levar a um novo potencial de ação. Está implicada na intoxicação digitálica e na taquicardia ventricular por Torsades de Pointes. A fibrilação atrial é a arritmia com mecanismo mais complexo; acredita-se que haja sobreposição dos 3 mecanismos descritos. DIA A DIA MÉDICO Além dos mecanismos geradores das arritmias, é neces- sário que uma série de fatores conspirem para a manu- tenção das taquiarritmias: W Fatores moduladores (alteração do tônus do sistema nervoso autônomo, isquemia, alteração do pH etc.). W Substrato anatômico ou eletrofisiológico (área de fibrose, alteração de velocidade de condução ou do período refratário, existência de dupla via nodal). W Gatilhos (extrassístoles atriais ou ventriculares). Fluxograma 1. Componentes relacionados à fisiopatologia das taquiarritmias. Fatores Moduladores SNA, isquemia, pH tecidual etc. Gatilhos Ectopias atriais e ventriculares Gatilhos Fibrose, alteração da refratariedade e condutividade Fonte: Acervo Sanar. 4. QUADRO CLÍNICO Os sintomas mais comuns são palpitações, com sensação de batimento acelerado descrito muitas vezes como “batedeira” no peito. Outros sintomas podem ser inespecíficos, como tontura, mal-estar, sensação de angústia. Sinais e sintomas que devem chamar atenção para quadros de instabilidade são dispneia, dor torácica anginosa, síncope, hipotensão e rebaixamento do nível de consciência. Na anamnese, deve ser pesquisado o uso de drogas estimulantes, como hormônio tireoidiano em fórmu- las para emagrecer, excesso de cafeína, energéti- cos e drogas ilícitas simpaticomiméticas (cocaína, anfetamina). DICA A taquicardia sinusal geralmente é secundária e pode estar relacionada ao tromboembolismo pulmonar, desidratação e à sepse. Ao exame físico, pesquisar FC, regularidade e sime- tria do pulso. A ausculta cardíaca pode identificar sopros em pacientes com valvopatias associadas, e a ausculta pulmonar pode identificar sinais de congestão (crepitações, estertores). Pacientes com FA podem apresentar-se com sinais e sintomas associados a tromboembolismo sistê- mico, como hemiparesias (AVC isquêmico) e qua- dro súbito de dor no abdome seguido de diarreia sanguinolenta (isquemia mesentérica). É comum também a dissociação entre a frequência cardíaca auscultada e a sentida no pulso periférico (disso- ciação pulso-frequência ou anisocardiosfigmia). Taquiarritmias Cardiologia 8 DICA Na presença de FA, a fase final da diástole (contração atrial) está ausente, portanto, todos os achados relacionados também desaparecem, como B4, onda “a” do pulso venoso e reforço pré-sistólico do sopro em ruflar mitral. DIA A DIA MÉDICO Outros fatores que auxiliam no diagnóstico e na identifi- cação, até mesmo do mecanismo eletrofisiológico, são as informações sobre a duração (poucos segundos ou horas) e a frequência (diário, mensal, anual) das crises, além da forma de início e término (súbito ou gradual) dos episódios de palpitações. 5. DIAGNÓSTICO O diagnóstico baseia-se na avaliação do Eletrocar- diograma (ECG) para identificação da taquiarritmia específica e avaliação dos sinais e sintomas para definir se o paciente está instável ou estável do ponto de vista hemodinâmico. DIA A DIA MÉDICO É de fundamental importância ter em mente que o ECG não é padrão-ouro para o diagnóstico das taquiarritmias, tendo esse papel o estudo eletrofisiológico. Portanto, nem sempre é possível chegar a um diagnóstico certeiro apenas com um traçado eletrocardiográfico. Por isso, é importante obter mais de um ECG, quando for possível, além de comparar com ECG de base do paciente (fora da crise), quando disponível (ou após reversão ao ritmo sinusal). 6. EXAMES COMPLEMENTARES O principal exame complementar é o ECG, que pode identificar o tipo específico de taquicardia e orien- tar o tratamento. Eletrólitos devem ser checados (principalmente potássio e magnésio), porque mudanças nas suas concentrações facilitam o aparecimento de taquicardias. No caso de taqui- cardias ventriculares, marcadores de necrose do miocárdio são fundamentais, pois a isquemia é a principal causa. Os demais exames dependem das comorbidades associadas e diagnósticos etiológicos; logo, devem ser avaliados caso a caso. Em linhas gerais, rit- mos com QRS estreito são supraventriculares, e a exceção ocorre na presença de aberrância de condução (bloqueios de ramo) ou na pré-excitação. Taquicardias ventriculares são sempre ritmos com QRS largo. Seguem exemplos de ECG nos principais tipos de taquicardias: 6 .1 . TAQUICARDIAS SUPRAVENTRICULARES (TSV) u Taquicardia sinusal: ritmo regular com onda “p” sinusal (positiva em DI e aVF) antes de todo QRS (Figura 5). Taquiarritmias 9 Figura 5. Taquicardia sinusal. Onda “p” sinusal (positiva em DI e aVF) antes de todo complexo QRS. Onda “p” sinusal (positiva em DI e aVF) antes de todo complexo QRS. Fonte: Alencar Neto et al.¹ u Taquicardia Atrial (TA): constitui ritmo atrial ori- ginado em região diversa do nó sinusal, carac- terizado pela presença de onda “p” distinta da sinusal com frequência atrial superior a 100 bpm (Figura 6). É comum a ocorrência de condução AV variável. Se houver ritmo irregular, com 3 ou mais morfologias de “p” na mesma derivação, é chamadode taquicardia atrial multifocal. Figura 6. Taquicardia atrial. Onda “p” não é sinusal (negativa em D2). Em (A) a frequência está normal (ritmo atrial ectópico). Em (B) a frequência está elevada (taqui- cardia atrial). Fonte: Adaptado de asia11m/Shutterstock.com². u Flutter atrial: presença de ondas “F” (serrilhado na linha de base) com frequência entre 240 e 340 bpm, negativas nas derivações inferiores (circuito anti-horário) e geralmente positivas em V1. A frequência atrial, em geral, fica em torno de 300 bpm e, na presença de bloqueio atrioven- tricular (BAV) 2:1, a FC no ECG fica em torno de 150 bpm (Figura 7). Taquiarritmias Cardiologia 10 Figura 7. Flutter atrial. Presença de ondas “F” de flutter: serrilhado na linha de base. Forma mais comum com ondas negativas nas derivações inferiores (DII, DIII e aVF) e positivas em V1. Fonte: Keetapong Pongtipakorn/Shutterstock.com³. u Fibrilação Atrial (FA): ritmo IRREGULAR (Figura 8), com ausência de onda “p” e tremor na linha de base (onda “f”). Figura 8. Fibrilação atrial. Ausência de onda “p”, ritmo irregular com tremor na linha de base (onda “f”). Fonte: Alencar Neto et al.¹ Taquiarritmias 11 u Taquicardia por Reentrada Nodal (TRN): o padrão eletrocardiográfico é de Taquicardia Supraventri- cular (TSV): ritmo regular com QRS estreito e au- sência de onda "p". Ocorre pela presença de dupla via nodal. O ECG fora da taquicardia é normal. Figura 9. Taquicardia supraventricular. Ritmo regular, com presença de onda “r” em V1 e onda “s” (pseudo “s”) em derivações inferiores, que corresponde à onda “p” retrógrada na TRN. Ritmo com QRS estreito e regular e ausência de onda P. Fonte: Keetapong Pongtipakorn/Shutterstock.com4. u Taquicardia por Reentrada Atrioventricular (TAV): mesmo padrão de TSV que ocorre na TRN. Ocor- re pela presença de um feixe anômalo (Feixe de Kent) entre átrio e ventrículo que é capaz de con- duzir o estímulo elétrico. Podemos diferenciar da TRN pelo ECG fora da taquicardia (Figura 10), que apresenta os elementos da pré-excitação ventricular: PR curto, onda delta, alargamento do QRS e alterações de repolarização. A Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) corresponde à pré-excitação relacionada a episódios de taqui- cardia paroxística sintomáticos. Taquiarritmias Cardiologia 12 Figura 10. Pré-excitação ventricular. Presença de PR curto, onda delta, QRS largo e alteração de repolarização. Fonte: Christian Cantarelli/Shutterstock.com5. DIA A DIA MÉDICO ECG basal sem alterações sugestivas de pré-excitação não exclui a possibilidade de TAV: até 35% das vias aces- sórias (feixes anômalos) apresentam apenas condução retrógrada, ou seja, transmitem o estímulo do ventrículo para o átrio. Dessa forma, como não há condução ante- rógrada (do átrio para o ventrículo), não encontramos os elementos típicos de pré-excitação, podendo o ECG ser completamente normal fora da crise. 6 .2 . TAQUICARDIAS VENTRICULARES (TV) u Taquicardia ventricular monomórfica (Figura 11): QRS largo com ritmo regular e mesma morfologia. u Taquicardia ventricular polimórfica: QRS largo com ritmo irregular e morfologias diferentes. u Torsades de Pointes: tipo específico de TV po- limórfica em que os complexos QRS aumentam e diminuem, como se houvesse mudança no eixo ou “torção das pontas”. u Fibrilação Ventricular (FV): ritmo completamente irregular e bizarro, em que não é possível iden- tificar complexos QRS. Não é passível de pulso, portanto, é ritmo de Parada Cardiorrespiratória (PCR). Figura 11. Tipos de taquicardias ventriculares. Taquicardia ventricular monomórfica (A), taquicardia ventricular polimórfica do tipo Torsades de Pointes (B) e fibrilação ventricular (C). Fonte: Alencar Neto et al.¹ Taquiarritmias 13 7. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Existem situações clínicas que levam à taquicardia por automatismo, principalmente a taquicardia sinusal, como febre, hipertireoidismo, TEP, anemia, ansiedade, dor, uso de drogas (como β-agonistas) e sepse. Distúrbios hidroeletrolíticos (hipomagnesemia e hipocalemia), uso de antiarrítmicos e isquemia miocárdica podem predispor o aparecimento de determinadas taquicardias. 8. TRATAMENTO Inicialmente, é preciso definir se a taquicardia é instável ou estável. Em caso de instabilidade, é necessário instituir o tratamento de forma imediata. Nas taquicardias estáveis, há tempo para identificar o tipo e realizar o tratamento específico. 8 .1 . TAQUICARDIAS INSTÁVEIS Taquicardias são consideradas instáveis quando ocasionam alterações na hemodinâmica do paciente que podem ser ameaçadoras à vida. Os principais sintomas são os seguintes (5 Ds): u Dor torácica com característica anginosa. u Dispneia (por insuficiência cardíaca, com des- saturação, congestão pulmonar e esforço res- piratório). u Desmaio (síncope). u Diminuição da PA (hipotensão). u Diminuição do nível de consciência (rebaixa- mento o nível de consciência, confusão mental, GlasgowReentrada Atrioventricular (TAV). Se for identificada taquicardia sinusal, ela é secundá- ria e deve-se procurar e tratar o fator desencadeante (infecção, TEP, hipertireoidismo, entre outros). Nos demais casos, ou se não for possível identifi- car o ritmo, a conduta inicial é realizar manobras vagais, que estimulam o nervo vago e, por conse- guinte, levam à bradicardia. As manobras vagais mais comumente realizadas são a massagem do seio carotídeo e a Manobra de Valsalva (expiração forçada contra glote fechada: pode pedir para o paciente soprar uma seringa tentando empurrar o êmbolo ou expirar contra o dorso da mão). A massagem do seio carotídeo está contraindicada em paciente com aterosclerose carotídea, pelo risco de embolização; portanto, deve ser evitada em ido- sos (> 65 anos), pacientes com sopro carotídeo ou com diversos fatores de risco para aterosclerose (DM, HAS, tabagismo). Em 2015, foi publicado um estudo clínico randomi- zado7 que validou o uso da Manobra de Valsalva modificada, na qual o paciente começa a manobra sentado, faz a expiração forçada e, ao final de 10 a 15 segundos, é deitado e as pernas são elevadas em 45° por mais 15 segundos. Com isso, há aumento da pressão intratorácica e estimulação do nervo vagal, aumentando as taxas de reversão. Se as manobras não forem eficazes, o próximo passo é administrar adenosina, droga que inibe o NAV e tem pico de efeito e duração rápida (segun- dos). A adenosina deve ser administrada em bolus EV, com flush de solução salina e elevação do mem- bro para chegar rapidamente à circulação central. A dose inicial é de 6 mg e pode ser repetida, com doses mais altas. De acordo com o ACLS 20256, é permitida mais uma dose de 12 mg, enquanto a Diretriz Europeia de Taquicardias Supraventriculares 20198 autoriza uma terceira dose adicional de 18 mg. É contraindicada em caso de broncoespasmo (crise asmática ou DPOC exacerbado). DICA Em caso de TSV estável, a primei- ra conduta é realizar manobra vagal. Se não houver resposta, deve-se administrar adenosina. Taquiarritmias 15 A adenosina é capaz de reverter as taquicardias que dependem do NAV para sua manutenção – TRN e TAV. Nos demais casos, pode ajudar no diagnóstico, pois, ao inibir o NAV, permite visualizar a atividade atrial com mais clareza. Por fim, se não houver resposta à adenosina, dro- gas antiarrítmicas devem ser administradas para o controle da FC (Tabela 1). Tabela 1. Fármacos antiarrítmicos mais utilizadas no pronto-socorro. Fármacos Dose Mecanismo de ação Contraindicação Metoprolol 5 mg EV, máximo 15 mg Βetabloqueador Broncoespasmo e ICC Diltiazem 0,25 mg/kg EV Bloqueador do canal de cálcio ICC e disfunção ventricular esquerda Verapamil 5 a 10 mg EV em bolus Bloqueador do canal de cálcio ICC e disfunção ventricular esquerda Deslanosídeo 0,4 a 0,8 mg EV em bolus Glicosídeo cardíaco (digital) Insuficiência renal, pelo risco de intoxicação digitálica Amiodarona 150 a 300 mg EV diluído em SF em 10 minutos Bloqueador de canais de potássio, cálcio e sódio — Fonte: Cintra et al9. O tratamento ambulatorial das taquicardias envolve a ablação por radiofrequência do feixe anômalo (TAV), da dupla via nodal (TRN) ou do circuito de macroentrada (flutter atrial) e está indicado a depender dos sintomas e do risco de morte súbita no caso da Síndrome de WPW (depende das características do feixe anômalo). Na presença de pré-excitação, drogas que redu- zem a condução pelo NAV devem ser evitadas, pois aumentam a chance de condução pelo feixe anômalo e, por consequência, o risco de morte súbita. As drogas antiarrítmicas de escolha para prevenir recorrência de TSV em paciente com pré-excitação são propafenona e procainamida (contraindicadas na presença de doença arterial coronariana ou doença cardíaca estrutural). Betabloqueador e bloqueador do canal de cálcio são drogas proscritas e aumentam a mortalidade em casos de taquicardia por reentrada atrioven- tricular. Pacientes idosos e com insuficiência renal estão sob maior risco de intoxicação por antiarrítmicos digitálicos, cujo quadro clínico engloba alterações gastrointestinais (náuseas, vômitos, dor abdomi- nal), neurológicas (confusão, fraqueza) e visuais (xantopsia: objetos ficam com coloração amarela), além de diversos tipos de arritmia (bradicardias, taquicardia atrial, extrassístoles ventriculares em bigeminismo). O tratamento consiste na suspen- são da droga, hidratação, avaliação de possíveis distúrbios hidroeletrolíticos associados (hipo- calemia, hipomagnesemia), além do anticorpo antidigoxina, em casos refratários. DICA Sinais de intoxicação digitálica: náu- seas, vômitos, taquiarritmias e xantopsia (visão amarelada). Taquiarritmias Cardiologia 16 DIA A DIA MÉDICO As taxas de sucesso na reversão com adenosina são superiores a 90%, enquanto com as manobras vagais ficam abaixo de 50%. 8 .2 .2 . QRS estreito e irregular Nesse caso, a FA é a principal hipótese diagnóstica. Essa condição é muito comum na prática clínica, principalmente em pacientes mais idosos e com cardiopatia estrutural. Os diagnósticos diferenciais (raros) são flutter atrial com BAV variável e TA multifocal. O tratamento inicial, no pronto-socorro, deverá ser o controle da FC com drogas antiarrítmicas, tomando cuidado com a amiodarona, pois pode ocorrer reversão para ritmo sinusal com essa droga. Verapamil e diltiazem não devem ser uti- lizados em pacientes com disfunção ventricular esquerda ou ICC. A decisão sobre a reversão para ritmo sinusal deverá levar em consideração o tempo do início dos sinto- mas, pelo risco de tromboembolismo. Nos pacientes com FA e tempo de início menor que 24 horas de baixo risco (na ausência de estenose mitral, prótese valvar metálico ou evento tromboembólico prévio), pode-se realizar a cardioversão elétrica ou química (com amiodarona ou propafenona) sem necessidade de anticoagulação prévia. A amiodarona é bastante efetiva na reversão e manutenção do ritmo sinusal. Para pacientes com FA com duração mais prolon- gada, deve-se iniciar anticoagulação por pelo menos 3 semanas antes da tentativa de cardioversão, seguido por no mínimo 4 semanas de tratamento anticoagulante. Uma opção, se disponível, é a rea- lização de ecocardiograma transesofágico e, na ausência de trombos no átrio esquerdo, a CVES pode ser realizada com segurança. A indicação de anticoagulação por tempo mais prolongado deve levar em consideração comorbi- dades e a idade do paciente e está sintetizada no acrônimo CHA2DS2-VA (Tabela 2). Na presença de 2 ou mais pontos, a anticoagulação está indicada. Tabela 2. Escore CHA2DS2-VA – risco de tromboembolismo na FA. CHA2DS2-VA Pontuação Congestiveheartfailure/left ventricular dysfunction (ICC/disfunção ventricular esquerda) 1 Hypertension (hipertensão) 1 Age ≥ 75 yrs (Idade ≥ 75 anos) 2 Diabetes mellitus 1 Stroke/transientischaemicattack (histórico de AVC/AIT) 2 Vascular disease (prior myocardialinfarction, peripheralarterydiseaseoraortic plaque) (Doença Vascular) 1 Age 65-74 yrs (Idade) 1 Pontuação Conduta 0 Anticoagulação não deve ser instituída 1 Anticoagulação pode ser instituída, a depender do risco de sangramento e preferências do paciente ≥ 2 Anticoagulação deve ser instituída Fonte: Adaptada de Cintra et al9. Taquiarritmias 17 Deve-se também avaliar o risco de sangramento pelo escore HAS-BLED (Tabela 3). Em caso de escore ≥ 3 pontos, o paciente tem alto risco de sangramento e deve ser monitorizado com mais frequência. Tabela 3. Escore HAS-BLED – risco de sangramento na FA. HAS-BLED Pontuação H – Hipertensão não controlada (PAS > 160 mmHg) 1 A – Função renal e/ou hepática Anormal 1 para cada S – AVC (Stroke) 1 B – Sangrametno (Bleeding) 1 L – INR Lábil 1 E – Idade > 65 anos (Elderly) 1 D – Drogas (AINE, antiplaquetário) ou excesso de álcool 1 para cada Máximo 9 Fonte: Adaptada de Cintra et al9. A terapia anticoagulante envolve tradicionalmente drogas cumarínicas(varfarina), que inibem os fatores de coagulação dependentes de vitamina K (II, VII, IX e X) relacionados à via extrínseca da coagulação. Seu efeito deve ser monitorizado pelo tempo de protrombina (avaliado pelo International Normalized Ratio – INR). Em geral, após o início da varfarina, um controle de tempo de protrombina deve ser solicitado em aproximadamente 5 dias. Essas drogas, porém, apresentam diversas interações medicamentosas e com alimentos, o que dificulta manter o paciente na faixa terapêutica (INR entre 2 e 3). Na última década, anticoagulantes orais com ação direta nos fatores de coagulação se tornaram dis- poníveis, sem a necessidade de monitorizar os tempos de coagulação e com menos interações medicamentosas (Quadro 1). Esses fármacos, no entanto, estão contraindicados na FA relacionada à estenose mitral (moderada ou severa) e na presença de próteses valvares mecânicas. Quadro 1. Anticoagulantes orais com ação direta (ACODs). Fármaco Nome comercial Mecanismo de ação Dabigatrana Pradaxa® Inibe o fator IIa Rivaroxabana Xarelto® Inibe o fator Xa Apixabana Eliquis® Inibe o fator Xa Edoxabana Lixiana® Inibe o fator Xa Fonte: Adaptada de Cintra et al9. A FA pode ser classificada de acordo com a sua apresentação clínica da seguinte forma: u Paroxística: quando é revertida espontaneamente ou com intervenção médica em até 7 dias. u Persistente: duração superior a 7 dias. u Permanente: nos casos em que as tentativas de reversão ao ritmo sinusal não serão mais insti- tuídas. FA subclínica: identificada em assintomáticos por dispositivos implantados (como marcapassos), monitores cardíacos e dispositivos vestíveis (como smartwatchs). Na FA que ocorre na presença de estenose mitral moderada/grave ou de prótese valvar mecânica, como já dito, os ACODs estão contraindicados. Em pacientes com FA, não há evidência de que a estratégia de controle de ritmo (reversão para sinusal) seja superior ao controle de FC. No manejo ambulatorial, existe a possibilidade de ablação, indicada para pacientes muito sintomáticos (com palpitações frequentes). Na FA, a terapia intervencionista (ablação) é indi- cada como estratégia inicial para pacientes jovens sem remodelamente atrial e para sintomáticos (com palpitações frequentes) refratários a drogas antiarrítmicas. Taquiarritmias Cardiologia 18 DICA Em pacientes com FA e alto risco de tromboembolismo (CHA2DS2-VA ≥ 2) de- ve-se indicar anticoagulação, que pode ser feita com anticoagulantes orais diretos ou varfarina. Os antiagregantes plaquetários (como AAS e clopidogrel) não reduzem o risco de TEV, por isso não estão indicados nesse caso. 8 .2 .3 . QRS largo e regular A principal hipótese é TV monomórfica (cerca de 80% das vezes é o diagnóstico encontrado). Pode- mos encontrar TSV com QRS largo em situações de aberrância de condução ou pré-excitação; porém, são situações mais raras e, para diferenciá-las, são necessários critérios eletrocardiográficos (como Brugada e Vereckei, entre outros) que não são de fácil aplicação em ambiente de pronto-socorro para não especialistas. O paciente, apesar de estável, tem potencial para piora clínica rápida. Por esse motivo, deve ser monitorado em sala de emergência. O tratamento inicial é a tentativa de cardioversão química com amiodarona. Na ausência de resposta, o próximo passo é a CVES. Os pacientes devem ser investigados quanto à presença de isquemia miocárdica e deve-se ava- liar achados sugestivos no ECG e marcadores de necrose do miocárdio (troponina). DICA O cardiodesfibrilador implantável (CDI) está indicado em pacientes sobrevi- ventes de episódio de taquicardia ventri- cular hemodinamicamente instável e por- tadores de cardiomiopatia isquêmica com disfunção de VE grave (FE 100 bpm) Há instabilidade? Avaliar QRS QRS largo e irregular QRS Estreito (. Acesso em 18 de junho de 2022. 3. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, dis- ponível em: . Acesso em 18 de junho de 2022. 4. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, dis- ponível em: . Acesso em 18 de junho de 2022. 5. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, dis- ponível em: . Acesso em 18 de junho de 2022. 6. Wigginton JG, Agarwal S, Bartos JA, Coute RA, Drennan IR, Haamid A, et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmo- nary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2025 Oct 21;152(16_suppl_2):S538-S577. 7. Appelboam A, Reuben A, Mann C, Gagg J, Ewings P, Barton A, et al. Postural modification to the standard Valsalva manoeuvre for emergency treatment of supraventricular tachycardias(REVERT): a randomised controlled trial. Lancet. 2015 Oct 31;386(10005):1747-53 8. Brugada J, Katritsis DG, Arbelo E, Arribas F, Bax JJ, Bloms- tröm-Lundqvist C, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycar- diaThe Task Force for the management of patients with supraventricular tachycardia of the European Society of Cardiology (ESC). Eur Heart J. 2020; 41(5): 655-720. 9. Cintra FD, Pisani CF, Rezende AGS, Henz BD, Armagani- jan LV, Pimentel M, et al. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618.