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11 Thiago Aragão Leite CLÍNICA MÉDICA I BRADIARRITMIAS 2 SUMÁRIO BRADIARRITMIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1. Definições. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 2. Epidemiologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 3. Fisiopatologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 4. Quadro clínico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 5. Diagnóstico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 6. Exames complementares. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6.1. Doença do nó sinusal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6.2. Bloqueio atrioventricular (BAV). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 7. Diagnóstico diferencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 8. Tratamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 8.1. Bradicardia instável . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 8.2. Marca-passo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 8.3. Bradicardia estável . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Mapa mental . Resumo das condutas na bradiarritmias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Biblliografia consultada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Questões comentadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 3 BRADIARRITMIAS O QUE VOCÊ PRECISA SABER? u Bradiarritmias são frequentes na prática clínica, sendo caracterizadas por Frequência Cardíaca (FC) abaixo de 50 batimentos por minuto. As mais relevantes do ponto de vista patológico são os Bloqueios Atrioventriculares (BAV). u Disfunção do Nó Sinusal (DNS): o nó sinusal está com automatismo deprimido, outras células assumem o controle com FC mais baixa. Quando acompanhado de sintomas, é chamado de doença do nó sinusal. u Bloqueio Atrioventricular (BAV) de primeiro grau: prolongamento do intervalo PR, que fica com duração superior a 200 ms. u BAV 2º grau Mobitz I: o intervalo PR apresenta um aumento progressivo até que ocorre o bloqueio, o que é chamado de Fenômeno de Wenckebach. u BAV 2º grau Mobitz II: o intervalo PR tem duração fixa até ocorrer o bloqueio. Esse tipo de bloqueio aponta para um defeito mais grave no sistema de condução, indicando implante de marca-passo na maioria dos casos. Por esse motivo, é fundamental diferenciar o BAV de 2º grau Mobitz I do Mobitz II. u BAV 3º grau (BAVT): ocorre a completa dissociação entre átrios e ventrículos. Nenhum batimento é con- duzido. Tanto a onda P quanto o QRS têm ritmo regular e frequências independentes entre si. u O tratamento das bradicardias instáveis deve ser feito com atropina EV. Se não houver resposta, as opções de segunda linha são: dopamina, epinefrina ou marca-passo transcutâneo. u Nas bradicardias estáveis, deve-se procurar uma causa reversível, como uso de drogas antiarrítmicas e hipercalemia. 1. DEFINIÇÕES Bradicardias ou bradiarritmias são definidas pela presença de Frequência Cardíaca (FC) abaixo de 50 bpm. Podem ocorrer de forma fisiológica, em pacien- tes nos quais o tônus vagal basal está aumentado (vagotônicos), como em atletas treinados. Ocorre também em consequência do uso de drogas antiarrítmicas, distúrbios hidroeletrolíticos ou por evolução degenerativa, como fibrose do tecido do Nó Sinoatrial (NSA) ou do Nó Atrioventricular (NAV) em pacientes idosos. Bradicardia sinusal é definida por frequência car- díaca menor que 50 bpm em ritmo sinusal. A disfunção do nó sinusal cursa com bradicardias relacionadas ao NSA e apresenta-se geralmente como bradicardia sinusal, pausas ou paradas sinu- sais, bloqueio sinoatrial ou síndrome bradi-taqui (bradicardia seguida por taquicardia atrial, flutter ou Fibrilação Atrial – FA). DICA A doença do nó sinusal representa a disfunção do NSA acompanhada de sin- tomas como tontura, síncope e dispneia aos esforços. importância/prevalência Bradiarritmias Cardiologia 4 Bloqueio Atrioventricular (BAV) corresponde ao dis- túrbio na condução de estímulos elétricos gerados nos átrios para os ventrículos. 2. EPIDEMIOLOGIA A bradicardia sinusal e pausas sinusais de até 2 segundos são comuns em pessoas saudáveis durante o sono e em atletas bem condicionados, devido ao aumento do tônus vagal, como já exposto. A doença do nó sinusal e os bloqueios atrioventricu- lares, por sua vez, são mais comuns em idosos (> 70 anos) com comorbidades (HAS, DM, FA) e ocorrem devido à degeneração do sistema de condução. Pausas noturnas acentuadas podem ser detectadas no Holter 24h de pacientes com Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS). Diversas causas, tanto intrínsecas (degeneração, síndrome coronariana aguda, miocardite viral, Doença de Lyme) quanto extrínsecas (medicações e distúrbios hidroeletrolíticos) podem ocasionar bradicardias (Tabela 1). Tabela 1. Causas de bradicardias. Intrínseca Extrínseca Degeneração idiopática Antiarrítmicos (amiodarona, betabloqueadores, diltiazem, verapamil, digoxina) Intrínseca Extrínseca IAM Psicotrópicos (lítio, tricíclicos) Síndrome da apneia do sono Hipotireoidismo Miocardite viral Hipotermia Doença de Lyme Hipóxia Doença neuromuscular Hiper ou hipocalemia Doença de Chagas Hipertensão intracraniana Síndrome do lúpus neonatal Síndrome da hipersensibilidade do seio carotídeo Doenças de depósito (amiloidose) Reflexo vasovagal Fonte: Kusumoto et al.1 As bradiarritmias são incomuns em crianças e ocorrem geralmente em situações patológicas, como no Bloqueio Atrioventricular total (BAVT) con- gênito, relacionado à síndrome do lúpus neonatal, pela passagem de autoanticorpos anti-SSA/Ro e anti-SSB/La que danificam o sistema de condução. DICA Causas de bradicardia em crianças incluem estimulação vagal, hipoxemia, aci- dose e elevação da pressão intracraniana. ETIOLOGIA Doenças isquêmicas do coração Maior tônus vagal (atletas) Degeneração idiopática do sistema de condução Doenças sistêmicas – hipotireoidismo, hipotermia, hipertensão intracraniana Medicamentos – bloqueados do canal de cálcio, beta bloqueadores, anestésicos (midazolam) Fluxograma. Etiologias das Bradiarritmias Fonte: Elaborado pelo autor. Bradiarritmias 5 DIA A DIA MÉDICO A diferenciação de bradicardias de causa intrínseca ou extrínseca pode ser feita a partir da história clínica e ECG basal de repouso do paciente. Falam a favor de etiologia primariamente cardíaca quando há relato de antecedente cardiovascular prévio, apresentação com síncope em idade avançada,sem pródromos, precipitadas pelos esforços ou ocorrida em decúbito. O ECG basal com alterações como bloqueio de ramo direito ou esquerdo, além de bloqueio fascicular, fala a favor de etiologia cardíaca para a bradiarritmia. 3. FISIOPATOLOGIA BASES DA MEDICINA O coração possui um sistema de condução elétrica espe- cializado que é influenciado pelo sistema nervoso autô- nomo simpático e parassimpático. Estímulos adrenérgicos aumentam a frequência cardíaca, enquanto que estímulos provenientes do parassimpático a reduzem. Além das células do nó sinusal, outros miócitos possuem capacidade de automatismo. Por isso, caso haja doença do nó sinusal, outras células cardíacas assumem o papel de marca-passo do coração, geralmente em uma frequência de disparo reduzido. BASES DA MEDICINA O eletrocardiograma é a representação de alterações existentes no sistema de condução elétrica do coração. São diversos os mecanismos que podem culminar em bradicardias, desde situações benignas, como tônus vagal exacerbado em indivíduo atleta, até aquelas que são ameaçadoras à vida, como o BAV 3º grau. Como regra geral, os bloqueios de condução elétrica que ocorrem relacionados ao Feixe de His ou abaixo dele são poten- cialmente malignos. Todos os miócitos têm a capacidade de gerar impulso elétrico (automatismo), porém existe uma hierarquia dentro do sistema de condução car- díaco: as células do NSA têm a maior capacidade (frequência de disparo de impulsos maior) e essa propriedade vai reduzindo conforme nos dirigimos para os ventrículos (Figura 1). Logo, as bradicardias ocorrem em 2 situações: u Automatismo do NSA está deprimido: nesse caso, outras células com menor frequência de disparo têm de assumir o ritmo. u Existe um bloqueio na condução do estímulo do NSA para os ventrículos: nessa situação, as células ventriculares assumem o controle com frequências bem baixas, o que chamamos de escape ventricular. Bradiarritmias Cardiologia 6 Figura 1. Frequência intrínseca do sistema de condução. Fonte: Acervo Sanar. Os Bloqueios Atrioventriculares (BAV) estão subdi- vididos de acordo com o local onde há o distúrbio na condução AV e isso relaciona-se à gravidade. Nos BAV de 1º grau e de 2º grau Mobitz I, o defeito está no NAV, e por esse motivo são considerados bloqueios “altos” ou não avançados. No caso do BAV 2º grau Mobitz II e no 3º grau (BAVT), o distúr- bio ocorre abaixo do Feixe de His (infra-hissiano), portanto são considerados “baixos” ou avançados. Os distúrbios de condução relacionados à isquemia do miocárdio dependem da localização da área do infarto e da massa de miocárdio afetada, correla- cionando-se com pior prognóstico. No infarto inferior (supra de ST em DII, DIII e aVF), ocorre oclusão da artéria coronária direita, respon- sável pelo suprimento sanguíneo do NSA (60% das vezes) e do NAV (90%), além do Feixe de His. Além disso, na parede inferolateral do coração, existem receptores de vias aferentes vagais. Portanto, o IAM inferior cursa com bradicardia de localização mais “alta” no sistema de condução (região intranodal), por redução do suprimento sanguíneo para o NAV e estimulação parassimpática. As bradicardias mais comuns são sinusal, BAV 1º grau e BAV 2º grau Mobitz I. Na presença de BAVT (mais raro), geralmente a FC de escape fica entre 40 e 60 bpm e o QRS é estreito. No infarto anterior (supra de V1 a V6), por outro lado, a bradicardia está relacionada à necrose do sistema de condução abaixo do Feixe de His e, por esse motivo, é mais grave. Os achados mais comuns são BAV 2º grau Mobitz II e BAVT, com escape de FC baixa e QRS largo. Como a artéria descendente anterior irriga o ramo direito do Feixe de His e a divisão anterossuperior do ramo esquerdo, a mor- fologia mais comum do QRS é de BRD com BDAS. Bradiarritmias 7 DIA A DIA MÉDICO A presença de bradicardia e hipotensão em pacientes pós-IAM pode ser também decorrente de um reflexo vagal conhecido como Reflexo de Bezold-Jarisch. Esse reflexo pode ser abolido com o uso de atropina. 4. QUADRO CLÍNICO Os sintomas têm relação com o baixo débito car- díaco secundário à baixa FC e geralmente só ocor- rem com FC 200 ms). Figura 5. Bloqueio atrioventricular de 1º grau. Existe uma onda “p” para cada QRS, com intervalo PR de 260 ms (> 200 ms). Fonte: JY FotoStock/Shutterstock.com6. Bradiarritmias Cardiologia 10 2. BAV 2º grau: existem ondas “p” que não são conduzidas (ditas “bloqueadas”), ouseja, perde-se a relação de uma onda “p” para cada QRS. 2.1. BAV 2º grau Mobitz I (Figura 6): há aumento progressivo no intervalo PR (Fenômeno de Wencke- bach) até que ocorre bloqueio da onda “p” que não é conduzida. Figura 6. Bloqueio atrioventricular de 2º grau Mobitz I. Ocorre aumento progressivo no intervalo PR até o bloqueio (fenômeno de Wenckebach). Observe a onda P bloqueada (seta) e a diferença entre o PR anterior (longo) e o PR posterior (curto). Fonte: Adaptado de JY FotoStock/Shutterstock.com7. 2.2. BAV 2º grau Mobitz II (Figura 7): intervalo PR fixo, com momentos em que a onda “p” é bloqueada. Figura 7. Bloqueio atrioventricular de 2º grau Mobitz II. Intervalo PR é fixo (não há fenômeno de Wenckebach), com presença de ondas P bloqueadas (setas). Fonte: Adaptado de JY FotoStock/Shutterstock.com8. 2.3. BAV 2º grau 2:1 (Figura 8): Existe um padrão de 2 ondas P para cada QRS. Como não existem 2 batimentos conduzidos seguidamente, não conseguimos saber se o PR aumenta ou não, por isso pode se tratar tanto de Mobitz I quanto de Mobitz II. Para diferenciar, devemos obter um traçado longo e tentar observar se em algum momento apa- recem 2 batimentos conduzidos consecutivamente, e avaliar o intervalo PR. Outra forma é fazer um teste com atropina, pois apenas o Mobitz I irá responder com aumento de FC. Bradiarritmias 11 Figura 8. BAV 2:1. Nesse tipo específico de BAV há 2 ondas P para cada QRS. Fonte: Alencar Neto et al.9 3. BAV 3º grau ou BAVT (Figura 9): ocorre completa dissociação entre átrios e ventrículos, todas as ondas “p” estão bloqueadas, logo, não há relação nenhuma entre a onda “p” e o QRS. O intervalo PP e o RR são fixos. Às vezes, a onda “p” ocorre simultaneamente ao QRS e não é possível visualizá-la. Figura 9. BAV de 3º grau ou BAVT. O intervalo entre ondas P e entre ondas R são regulares, mas não há relação entre elas. Observe que a onda P aparece entre o QRS e a onda T (seta), localização incomum que só ocorre no BAVT. Fonte: Adaptado de Alencar Neto et al.9 DIA A DIA MÉDICO O ECG de 12 derivações é o exame complementar inicial de escolha para o diagnóstico das bradiarritmias. Apesar disso, a depender da sintomatologia do paciente e da frequência com que ela acontece, devemos realizar a solicitação de outros exames. O Holter 24h é um exame que monitoriza o paciente ao longo de todo o dia e pode registrar momentos de bradiarritmia e pausas que não são identificáveis em um ECG habitual. Pacientes com sintomas menos frequentes podem ser monitorizados ao longo de 7 a 14 dias com Loop Event Recorder. Casos que permanecem duvidosos podem ir para um exame de estudo eletrofisiológico. Assim, antes de definir se o paciente possui alguma doença ou não, deve-se avaliar a frequência de sintomas e escolher o exame apropriado. Um ECG de 12 derivações normal definitivamente não exclui uma doença no sistema de condução elétrica do coração. Bradiarritmias Cardiologia 12 7. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Os diagnósticos diferenciais estão relacionados à etiologia da bradicardia, desde casos fisiológicos em atletas, passando por distúrbios hidroeletrolíticos (checar principalmente potássio e cálcio), isquemia miocárdica e uso de medicações bradicardizantes. Em relação à síncope, diversos diferenciais são possíveis, como crises convulsivas, hipoglicemia, intoxicação exógena e acidente vascular encefálico. 8. TRATAMENTO O tratamento consiste inicialmente na avaliação da bradicardia com ECG, estabelecer se existe causa reversível e se o paciente apresenta sintomas rela- cionados à instabilidade hemodinâmica. DIA A DIA MÉDICO Ao abordar o paciente com bradiarritmia é importante entender em qual cenário ele se encontra. Em situações em que há sinais de instabilidade, o tratamento baseia- -se nas recomendações conforme o ACLS 202010 como veremos adiante. Já em contexto de estabilidade clínica, o mais importante é identificar precisamente qual a arritmia subjacente, afastar potenciais causas reversíveis e definir a necessidade de implante do marca-passo definitivo. 8 .1 . BRADICARDIA INSTÁVEL A bradicardia é dita instável quando leva a sintomas relacionados ao baixo débito cardíaco, como os seguintes (5 Ds): u Dor torácica com característica anginosa. u Dispneia (por insuficiência cardíaca, com dessa- turação e esforço respiratório). u Desmaio (síncope). u Diminuição da PA (hipotensão). u Diminuição do nível de consciência (rebaixamen- to, Glasgowe dor ao paciente, visto que corren- tes elétricas de 50 a 100 miliamperes (mA) são necessárias. Isso pode ser feito com opioides (morfina ou fentanil) e drogas hipnóticas (mida- zolam ou etomidato). 3. Ligue o modo marca-passo e defina FC desejada e o modo de estimulação: em geral, FC de 70 a 80 bpm é adequada. Existem 2 modos básicos de estimulação: de demanda, quando o MPTC só estimula se a FC do paciente estiver abaixo do estabelecido, evitando disparos durante a onda T (repolarização) de um batimento espontâneo, o que pode induzir fibrilação ventricular. O outro modo é fixo, quando o estímulo é disparado em intervalos regulares, independentemente do bati- mento espontâneo do paciente. Esse modo deve ser reservado para situações de transporte, com paciente agitado ou no início da estimulação, até a estabilização inicial. 4. Aumente a corrente aplicada até captura elétrica: iniciar com 20 a 30 mA e aumentar progressiva- mente, até que ocorra captura elétrica, ou seja, que cada espícula gerada pelo marca-passo seja seguida por QRS alargado. 5. Avalie se houve captura mecânica: checar se a FC estabelecida e presente no monitor corres- ponde ao pulso femoral do paciente (evitar pulso carotídeo, uma vez que a estimulação elétrica gera abalos na musculatura torácica e dificulta a palpação da região cervical). Em outras palavras, avaliar se cada estímulo elétrico está gerando pulso palpável (Figura 11). 6. A partir desse ponto, deixe o valor da corrente elétrica com margem de segurança de 30% acima desse limiar: o valor mínimo de energia que é capaz de levar à captura elétrica e mecânica é dito limiar de estimulação. É conveniente o aumento a partir do limiar para prevenir perdas de capturas que podem ocorrer, eventualmente, por aumento da impedância da pele e deslocamentos das pás por movimentação do paciente. Figura 11. Captura elétrica do marca-passo. A. Falha de captura elétrica (existem espículas do marca-passo que não geram QRS). B. Captura elétrica, ou seja, cada espícula gera QRS largo. Próximo passo é checar o pulso femoral e avaliar se coincide com a FC do ECG. Fonte: Adaptado de Alencar Neto et al.9 A desvantagem do MPTC é a necessidade de alta energia de estimulação para vencer a impedância transtorácica (resistência da parede torácica ao fluxo da corrente elétrica) e chegar ao miocárdio. Além disso, exige sedação contínua e sua eficácia diminui após algumas horas, por isso outro método de estimulação deve ser estabelecido, como o Marca-Passo Transvenoso (MPTV). O MPTV deve ser passado por profissional habilitado, de preferência guiado por radioscopia na sala de hemodinâmica. Requer acesso venoso central (de preferência jugular direita) e deve ser impactado na região do septo inferior do Ventrículo Direito (VD). Pode ser mantido por mais tempo que o MPTC, com energias de estimulação muito menores, e não requer sedação (maior conforto para o paciente). Suas principais complicações são riscos na pas- sagem (pneumotórax, hemotórax, perfuração do septo), infecções e arritmias. 8 .3 . BRADICARDIA ESTÁVEL Pacientes com bradicardia sem critérios de instabi- lidade devem ser monitorados e avaliados quanto a possíveis causas reversíveis. Drogas antiarrítmicas devem ser suspensas (como betabloqueadores, amiodarona, bloqueadores do canal de cálcio não di-hidropiridínicos). Bradiarritmias 15 DICA O glucagon pode ser utilizado em casos de intoxicação por betabloqueadores ou bloqueadores do canal de cálcio. Em caso de hipotermia, o ECG pode identificar bradicardia com onda J de Osborn. Está indicada a hidratação com soro fisiológico ou Ringer lactato aquecido através de acesso venoso central. Após o aquecimento, a FC tende a normalizar-se (Figura 12). Figura 12. ECG na hipotermia. Bradicardia e onda J ou onda de Osborn, que consiste na elevação no ponto J (seta). Linha de base com tremores por movimentação dos membros. Fonte: Adaptado de Alencar Neto et al.9 No hipotireoidismo, o ECG pode apresentar bra- dicardia com baixa voltagem e inversão difusa de onda T. A reposição do hormônio tireoidiano é a conduta inicial. Paciente com hipercalemia (Figura 13) pode se apresentar com bradicardia com ausência de onda “p” e QRS com onda T apiculada e simétrica (em “tenda”). O tratamento imediato nesse caso deve ser o gluconato de cálcio (estabilizador de mem- brana) e medidas para hipercalemia (bicarbonato, diuréticos, Sorcal, entre outras). Figura 13. ECG na hipercalemia. Bradicardia com ausência de onda “p” e onda T apiculada e simétrica (em tenda). Fonte: Sai Naresh et al.11 Pacientes estáveis, mas com bloqueios avançados (BAV 2º grau Mobitz II e BAVT) devem permanecer internados e avaliados para necessidade de mar- ca-passo definitivo. Bradiarritmias Cardiologia 16 Mapa mental. Resumo das condutas na bradiarritmias MOVE: Monitorização (cardioscopia, oximetria, PA) Oxigenioterapia se hipoxemia (SpO2 . Acesso em 18 de junho de 2022. 3. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, dis- ponível em: . Acesso em 18 de junho de 2022. 4. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, dis- ponível em: . Acesso em 18 de junho de 2022. 5. Burns E. Sinus Node Dysfunction (Sick Sinus Syndrome). Life in the fast lane. ECG library. 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Two interrupted sinus beats. What is the etiology? Dr. Smith’s ECG blog [internet]; 2020 [acesso em 17 nov 2022] Disponível em: http://hqmeded-ecg.blogspot.com/2013/09/ two-interrupted-sinus-beats-what-is.html. Bradiarritmias Cardiologia 18 QUESTÕES COMENTADAS Questão 1 (FACULDADE DE MEDICINA DO ABC - SP - 2021) Mulher, 63 anos de idade, admitida na sala de emergência com quadro de confusão mental e letargia há duas horas. Relatou também episódio de tontura ao se levantar da cama. Previamente independente para atividades básicas e instrumentais da vida diária. Com diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica há 10 anos, infarto agudo do miocárdio há 3 anos. Faz uso de amlodipina 10mg por dia, AAS 100mg por dia e atorvastatina 40mg por dia. Ao exame clí- nico: abertura ocular ao chamado, resposta verbal confusa e obediência aos comandos. Frequência cardíaca: 38 batimentos/minuto; pressão arterial: 92 x 66 mmHg; frequência respiratória: 20 incursões/ minuto; Saturação de O2: 96% em ar ambiente. Sem outras alterações. Foi obtido um eletrocardiograma de 12 derivações, reproduzido a seguir: Qual é a primeira conduta terapêutica que deve ser adotada neste momento? ⮦ Noradrenalina 0,1 mcg/kg/min por via intrave- nosa em infusão contínua. ⮧ Dopamina 1 mcg/kg/min por via intravenosa em infusão contínua. ⮨ Adrenalina 1mg administrada por via intraveno- sa em bolus. ⮩ Atropina 1mg administrada por via intravenosa em bolus. Questão 2 (BENEFICIÊNCIA PORTUGUESA DE RIBEIRÃO PRETO - SP - 2021) Paciente de 56 anos vem ao PS com sensação de mal estar torácico. Ao exame físico, notado bradi- cardia. O traçado do ECG apresenta-se abaixo. Qual o diagnóstico? ⮦ Bloqueio atrioventricular grau 1. ⮧ Bloqueio atrioventricular grau 2 Mobitz 1. ⮨ Bloqueio atrioventricular grau 2 Mobitz 2. ⮩ Bloqueio atrioventricular total. Questão 3 (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE JOÃO PESSOA - PB - 2021) As bradiarritmias se definem como alterações do ritmo cardíaco que cursam com frequência cardía- ca menor que 50 batimentos por minuto. Há condi- ções com baixas frequências cardíacas fisiológicas, como em atletas e indivíduos com bom preparo Bradiarritmias 19 físico, mas há diversas outras situações que levam a repercussões ao organismo, quando a presença médica é fundamental, pois podem se apresentar como emergência médica com necessidade de in- tervenção precoce. Em relação a estas arritmias, é correto afirmar: ⮦ Hipoxemia é uma causa comum de bradicardia. Nesses casos, a prioridade é corrigi-la. A bradi- cardia reverterá mesmo sem a normalização dos parâmetros respiratórios. ⮧ Há necessidade de tratamento imediato para elevação da FC em todos os pacientes. ⮨ A atropina é o primeiro medicamento nos qua- dros estáveis, pela disponibilidade, rapidez e facilidade na administração. ⮩ Caso a instabilidade hemodinâmica seja refra- tária todas as medidas prévias, deve-se passar o marcapasso transvenoso na emergência para rápida correção da frequência cardíaca. Questão 4 (SANTA CASA MISERICÓRDIA DE MARÍLIA - SP - 2021) Conside- rando de como utilizar o Marca-Passo Transcutâneo, podemos indicar como correto que: ⮦ Fixe as pás autoadesivas no tórax colocando o eletrodo anterior à esquerda do esterno, cen- tralizado e o mais próximo possível do ponto de máximo do impulso cardíaco. ⮧ Colocar o eletrodo posterior nas costas, direta- mente atrás do eletrodo anterior e à direita da coluna torácica. ⮨ Uma alternativa é a colocação semelhante à do DEA: uma das pás sobre o ápice do coração e a outra na região para esternal esquerda. ⮩ Considere analgesia e sedação, não tendo o cui- dado com a qualidade da ventilação. Questão 5 (HOSPITAL DO AÇÚCAR - AL - 2017) Durante procedimento eletivo com anestesia local na sala de pequenas cirurgias, ocorreu a emergência de um paciente eletivo da clínica cirúrgica. Você, então, foi chama- do a ajudar no socorro do paciente apenas com a informação de que ele já era cardiopata em uso de digoxina e amiodarona. Na sua avaliação inicial, de- tectou bradicardia com grande repercussão clínica; assim indicou o uso de marca-passo transcutâneo. Referente aos passos desse procedimento, marque a opção incorreta: ⮦ Observe qual é o ponto de corte para que haja captura de algumas das espículas do MP. A par- tir desse ponto, deixe o valor da corrente elétri- ca com margem de segurança de 30% acima desse limiar. ⮧ Fixe as pás autoadesivas no tórax despido da vítima. Coloque o eletrodo anterior à esquerda do esterno, centralizado e o mais próximo pos- sível do ponto de máximo do impulso cardíaco. Coloque o eletrodo posterior nas costas, direta- mente atrás do eletrodo anterior e à esquerda da coluna torácica. A alternativa a essa posição dos eletrodos é a colocação semelhante à do DEA: uma das pás deve ser posicionada na re- gião sobre o ápice do coração e a outra, sobre a região paraesternal direita. ⮨ Selecione inicialmentea frequência cardíaca desejada (geralmente em torno de 80 bpm, em casos de bradicardias). Em seguida, ajuste a cor- rente elétrica a ser administrada, aumentando gradualmente o valor de corrente elétrica a partir do valor mínimo, até que se obtenha captura elé- trica. Geralmente, a captura se caracteriza pelo alargamento do complexo QRS com uma onda T larga e oposta à polaridade do QRS. ⮩ Avalie a resposta hemodinâmica do MP pelo pulso e pela pressão arterial. Forneça analgesia e sedação, conforme necessário. Questão 6 (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE GOIÂNIA - GO - 2020) Mu- lher, 68 anos, portadora de doença de Chagas, sem uso de medicações prévias, é encaminhada ao pronto-socorro após episódio de síncope. O eletro- cardiograma da ilustração abaixo foi realizado na emergência. Após avaliação do eletrocardiograma e tendo sido descartada a síndrome coronariana aguda, qual deve ser a conduta? Bradiarritmias Cardiologia 20 ⮦ Manter a paciente em observação, pois o eletro- cardiograma não evidenciou nenhuma alteração. ⮧ Encaminhar a paciente para realizar um Holter de 24 horas, por se tratar de bloqueio atrioven- tricular de primeiro grau. ⮨ Encaminhar a paciente para colocação de mar- ca-passo, por se tratar de um bloqueio atrioven- tricular total sintomático. ⮩ Liberar a paciente, pois esses sintomas são co- muns na Doença de Chagas. Questão 7 (HOSPITAL RIO DOCE DE LINHARES - ES - 2020) Mulher, 78 anos, vai ao consultório de Clínica Médica para consulta de acompanhamento clínico. Está assintomática. É portadora de insuficiência cardíaca e faz uso de furosemida, enalapril, metoprolol, espironolactona e digoxina. Ao exame físico, apresenta-se alerta e orientada. Os dados vitais são PA: 120 X 70mmHg, FC: 30bpm, FR: 17ipm, SpO2 em ar ambiente 97%. O exame cardiovascular revela bradicardia e variação da fonese da primeira bulha. Sem outras anormali- dades ao exame físico. Solicitou-se o eletrocardio- grama apresentado a seguir. Considerando o caso descrito, assinale a conduta imediata mais adequada para essa paciente: ⮦ Administrar atropina, dopamina ou dobutamina em infusão contínua pela via intravenosa. ⮧ Posicionar um marcapasso transvenoso até a colocação do marca-passo definitivo. ⮨ Suspender o metoprolol e realizar o estudo ele- trofisiológico após 48 horas. ⮩ Suspender o metoprolol e a digoxina e manter a monitoração clínica e eletrocardiográfica. Questão 8 (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - SP - 2021) Mulher, 58 anos, vai à Unidade Básica de Saúde pois apresentou quadro de escurecimento visual durante prática de atividade física. Não houve perda da consciên- cia. Não tem antecedentes mórbidos relevantes. No exame clínico, frequência cardíaca de 58 bpm. O restante do exame clínico é normal. Realizou o ECG da ilustração. Qual é a conclusão do laudo do eletrocardiograma? ⮦ Eletrocardiograma normal. ⮧ Bradicardia sinusal. ⮨ Bloqueio atrioventricular de segundo grau, Mo- bitz I. ⮩ Bradicardia sinusal. Questão 9 (FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP - SP - 2015) Homem, 72 anos, queixa-se de tontura e cansaço por dois dias. No dia da consulta, apresentou que- da da própria altura ao se levantar. Antecedente pessoal: hipertensão arterial em uso de metoprolol e hidroclorotiazida. Realizou o ECG da ilustração. Bradiarritmias 21 A conduta adequada é: ⮦ Realizar cateterismo cardíaco. ⮧ Suspender hidroclorotiazida e repor potássio. ⮨ Realizar estudo eletrofisiológico. ⮩ Inserir marca-passo temporário. Questão 10 (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE ARAÇATUBA - SP - 2017) Paciente diabética (mas não hipertensa) refere ao geriatra que a acompanha que, há um ano, vem apresentando piora da astenia, desânimo intenso e, por duas vezes, perda de consciência enquanto assistia televisão. Durante a investigação, eviden- ciando o ritmo cardíaco da paciente, demonstrado na ilustração abaixo, qual conduta deve ser tomada? ⮦ Realização de cardioversão elétrica ⮧ Início de medicação antirrítmica ⮨ Observação clínica com Holter a cada seis meses ⮩ Implante de marcapasso definitivo Questão 11 (HOSPITAL OFTALMOLÓGICO DE SOROCABA - SP - 2021) Pacien- te de 77 anos de idade, antecedentes de diabetes, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca, em uso de anlodipino (10 mg/dia), bisoprolol (20 mg/ dia), losartana (50 mg/dia), gliclazida (60 mg/dia) e atorvastatina (20 mg/dia), evolui com bradicardia sintomática. Exames séricos: creatinina: 1,1 mg/dL, glicemia: 168 mg/dL, potássio: 4,7 mEq/L. O medi- camento que mais provavelmente pode justificar essa complicação é o(a) ⮦ anlodipino. ⮧ atorvastatina. ⮨ bisoprolol. ⮩ gliclazida. ⮪ losartana. Bradiarritmias Cardiologia 22 GABARITO E COMENTÁRIOS Questão 1 dificuldade: Y Dica do professor: O traçado eletrocardiográfico evidencia um bloqueio atriventricular de segundo grau. O bloqueio atrioventricular corresponde a anormalidades da condução do impulsão do átrio para os ventrículos. O nó atriventricular possui a capacidade de alentecer o estímulo, permitindo que átrios e ventrículos contraiam em momentos dis- tintos e, assim, mantém o débito cardíaco. No BAV de primeiro grau, há um atraso maior que o normal nessa condução AV (intervalo Pr > 200 ms). No blo- queio AV de 2º grau, alguns estímulos atriais não conseguem “passar” para o ventrículo. Esses são divididos em duas categorias diferentes: Mobitz I e II. No Mobitz I o intervalo PR vai aumentando de forma progressiva até que uma onda P é bloquea- da. Essa característica é chamada de fenômeno de Wenckebach. No BAV 2º grau Mobitz II, o intervalo PR é fixo e, eventualmente, há uma onda P bloquea- da. O BAV total ou de 3º grau, por fim, corresponde à completa dissociação entre os impulsos atriais e ventriculares, pois nenhum estímulo é conduzido pelo nó AV. A paciente da questão apresenta um eletro com evidência de BAV 2º grau 2:1, pois há um padrão de onda P bloqueada e onda P conduzida. Não é possível diferenciar entre Mobitz 1 ou 2 por- que não há dois batimentos conduzidos seguidos para avaliar o intervalo PR. O manejo nesse caso, por se tratar de uma bradiarritmia sintomática (si- nais de instabilidade, como confusão mental), en- volve o uso de atropina endovenosa (primeira linha). Alternativa A: INCORRETA. A noradrenalina é mais beta-1 seletiva e, por isso, promove um aumento maior da pressão arterial do que da frequência cardíaca, não sendo utilizada no manejo de bra- diarritmias. Alternativas B e C: INCORRETAS. A adrenalina e a do- pamina podem ser usadas como ponte para a insta- lação de marcapasso transcutâneo, se não houver resposta com a atropina. Alternativa D: CORRETA. É a primeira linha no manejo de bradiarritimias sintomáticas. ✔ resposta: ⮩ Questão 2 dificuldade: Y Dica do professor: É fundamental diferenciar os tipos de BAV: 1º grau é 1 para 1, ou seja, 01 onda P para cada QRS. No 2º grau, há onda P não conduzida (dita bloqueada). Neste caso, devemos olhar para o intervalo PR. Quando ele aumenta progressivamente até o bloqueio (fenômeno de Wenckebach), é cha- mado de Mobitz 1 (menos grave, porque dá “aviso”, vai atrasando até bloquear). Quando o intervalo PR é constante, não aumenta, e temos o Mobitz 2. Por fim, no BAVT não dissociação total, o intervalo entre cada onda P é constante, assim como o intervalo entre QRS (onda R). A onda P “cai” muitas vezes “dentro” do QRS ou da onda T no traçado. ✔ resposta: ⮧ Questão 3 dificuldade: Y Dica do professor: As bradiarritmias são arritmias que cursam com FCturvação visual, entre outros. Quando há sinais de instabilidade (hipotensão, dispneia, dor torácica, redução do nível de consciência e sínco- pe), deve-se iniciar a administração de atropina na dose de 1 mg repetida a cada 3 a 5 minutos até uma dose máxima total de 3,0 mg. Na ausência de resposta, o ACLS 2020 indica a implantação de um marcapasso transcutâneo (contexto de emergên- cia) ou Dopamina 5 – 20 mcg/kg/min ou Adrenalina 2 – 10 mcg/min. Alternativa A: INCORRETA. A hipóxia é uma causa de bradicardia mais comum na criança, e para melho- rar deve ocorrer a melhora da oxigenação. Alternativa B: INCORRETA. Se um paciente é atleta de alta performance, sua frequência cardíaca ba- sal será reduzida, não necessitando de tratamento. Além disso, o tratamento imediato é indicado para pacientes que cursam com instabilidade hemodi- nâmica. Alternativa C: INCORRETA. A atropina é utilizada em pacientes que cursam com instabilidade hemodi- nâmica. No caso de um paciente estável, há tem- po hábil para investigação e tomada de decisão de forma mais tardia. Alternativa D: CORRETA. O marcapasso transcutâneo é uma opção rápida e segura para reversão de bra- diarritmias instáveis. ✔ resposta: ⮩ Questão 4 dificuldade: Y Dica do professor: O marca-passo transcutâneo é uma ferramenta utilizada para a correção de arrit- mias. Antes de sua colocação, devemos informar o paciente e os familiares. O paciente deve estar monitorizado e receber sedoanalgesia. As pás au- toadesivas devem ser posicionadas colocando o eletrodo anterior à esquerda do externo, centrali- zado e o mais próximo possível do ponto máximo do impulso cardíaco. O eletrodo posterior, por sua vez, deve ser colocado nas costas, diretamente atrás do eletrodo anterior e à esquerda da coluna toráci- ca. Iniciamos a carga com 20-30mA, aumentando até que cada disparo corresponda a um QRS com pulso central palpável. Depois, mantemos um nível de energia 10-20% acima do menor nível de energia que conduza todos os pulsos. Alternativa A: CORRETA. Conforme a dica. Alternativa B: INCORRETA. O eletrodo posterior de fato deve ser colocado atrás do eletrodo anterior, mas à esquerda da coluna torácica. Alternativa C: INCORRETA. A colocação semelhante à do DEA realmente é uma alternativa; entretanto, ela ocorre com a colocação de uma das pás sobre o ápice do coração e a outra na região paraester- nal direita. Alternativa D: INCORRETA. Devemos considerar anal- gesia, sedação e a qualidade da ventilação. ✔ resposta: ⮦ Questão 5 dificuldade: Y Dica do professor: Questão específica, referente à técnica de utilização do marca-passo transcutâneo, e, para não errarmos devido aos detalhes, devemos nos lembrar do passo a passo e analisar as alter- nativas com calma. Alternativa A: INCORRETA. Não deve haver captura de ALGUMAS espículas, e sim de TODAS as espículas para determinar o limiar de captura elétrica, deven- do checar a captura mecânica no pulso femoral (o carotídeo terá interferência dos choques e conse- quentes contrações musculares no tórax e pescoço). Alternativa B: CORRETA. O posicionamento dos ele- trodos poderá ser anterior e posterior ou seme- lhante ao DEA, nas posições paraesternal direita e sobre o ápice. Alternativa C: CORRETA. A frequência inicialmente desejada poderá ser entre 60-80 bpm, variando de acordo com a fonte. Devemos titular a carga até o limiar de captura e aumentar para ter margem de segurança, bem como observar o traçado caracte- rístico com um QRS largo e uma onda T larga com polaridade oposta ao QRS. Alternativa D: CORRETA. Devemos sempre fornecer analgesia e sedação, pois os choques do mar- ca-passo transcutâneo são dolorosos. Além dis- so, devemos monitorar a resposta hemodinâmica do paciente, atentando para sinais vitais e outros Bradiarritmias Cardiologia 24 parâmetros clínicos, como Grau de consciência e perfusão periférica. ✔ resposta: ⮨ Questão 6 dificuldade: Y Dica do professor: O ECG evidencia um ritmo regu- lar com intervalo RR constante. Nota-se que não há relação entre a onda P e o QRS, com onda P ocor- rendo no final da onda T no terceiro batimento do D2 longo. Portanto, estamos diante de uma paciente com Doença de Chagas que teve síncope por BAVT, indicação formal de implante de marca-passo. ✔ resposta: ⮨ Questão 7 dificuldade: Y Dica do professor: Questão difícil sobre bradicardia em uma paciente idosa em uso de diversos medi- camentos. A grande dica nesse caso é a avaliação do ECG, no qual notamos onda P dissociada do complexo QRS (em ritmos diferentes). O que isso indica? BAVT ou bloqueio atrioventricular de terceiro grau. Observe que no 5º batimento do D2 a onda P está caindo dentro da onda T (bem no final dela). No caso em tela, a grande suspeita diagnóstica vai recair justamente sobre o uso de medicamentos, principalmente a digoxina e o betabloqueador, que podem levar à bradicardia. Alternativa A: INCORRETA. Não devemos adminis- trar atropina. Tal fármaco estaria indicado em si- tuações de bradicardia instável, que não é o caso dessa paciente. Alternativa B: INCORRETA. A paciente se encontra estável, não indicando a passagem de um marca- -passo de forma emergencial, como proposto pela alternativa. Alternativa C: INCORRETA. Está correto suspender o metoprolol, porém o estudo eletrofisiológico não está indicado, já que não acrescentaria novos da- dos ao diagnóstico. Alternativa D: CORRETA. Como a principal hipótese para bradicardia na questão é justamente o uso de fármacos e a paciente se encontra estável, devemos então suspender tais medicamentos e avaliar a resposta. ✔ resposta: ⮩ Questão 8 dificuldade: Y Dica do professor: O reconhecimento dos padrões de bloqueios atrioventriculares (BAVs) é funda- mental para as provas: fique atento aos traçados. No traçado apresentado, podemos observar no D2 longo que existem ondas P que não conduzem QRS (ditas “bloqueadas”). Portanto, estamos diante de um BAV. Quando observamos com calma, notamos um prolongamento progressivo do intervalo PR até que a onda P é bloqueada (observe que o intervalo PR do 5º QRS no traçado D2 longo é muito maior que o PR do 6º QRS). Esse achado do ECG é conhe- cido como Fenômeno de Wenckebach e ocorre no BA-V2º grau Mobitz 1. ✔ resposta: ⮨ Questão 9 dificuldade: Y Dica do professor: A história deste paciente é clás- sica, numa questão de ECG, de Bloqueio Atrioven- tricular (BAV). No traçado, vemos uma bradicardia com ondas P não relacionadas aos QRS, ou seja, uma dissociação atrioventricular (observe que no 4º batimento do D2 longo, a onda P está caindo entre a onda R e a onda T, sinal de dissociação total), ca- racterística do BAV Total ou BAV de terceiro grau. Trata-se de um bloqueio atrioventricular maligno (infra-hissiano), que pode de repente degenerar para PCR (assistolia ou FV), e, portanto, a conduta deve ser o implante de um marca-passo, inicialmente temporário, para depois fazer o definitivo. ✔ resposta: ⮩ Questão 10 dificuldade: Y Dica do professor: Paciente com queixa de cansaço e síncopes e com achado no ECG de BAV 2º grau Mobitz 2, já que temos ondas P bloqueadas e, nos momentos em que há condução, o intervalo PR é fixo, não ocorre o fenômeno de Wenckebach. Nes- te caso, está indicado o implante de marca-passo Bradiarritmias 25 definitivo, já que estamos diante de um bloqueio avançado sintomático sem causa reversível. ✔ resposta: ⮩ Questão 11 dificuldade: Y Dica do professor: Temos um paciente de 77 anos, em uso de anlodipino, bisoprolol, losartana, gliclazida e atorvastatina que apresenta quadro de bradicar- dia sintomática. Dentre as principais medicações que podem desencadear esta condição, temos os betabloqueadores, que no caso de nosso paciente é representado pelo bisoprolol. Alternativa A: INCORRETA. O anlodipino é um bloquea- dor dos canais de cálcio (BCC) e não costuma es- tar relacionado a bradicardias, sendo seus efeitos colaterais maisfrequentes edema perimaleolar e cefaleia. Existem BCC não diídropiridínicos (vera- pamil e diltiazem) que podem causar bradicardia. Alternativa B: INCORRETA. A atorvastatina é uma esta- tina, e não costuma estar relacionada a bradicardias, sendo mialgia seu efeito colateral mais comum. Alternativa C: CORRETA. Como mencionado na dica, o bisoprolol é um betabloqueador, droga que pode apresentar como efeito colateral a bradicardia sin- tomática Alternativa D: INCORRETA. A gliclazida é uma sulfoniu- reia e não costuma estar associada à bradicardia, mas sim à hipoglicemia. Alternativa E: INCORRETA. A losartana é um bloquea- dor dos receptores da angiotensina (BRA) e não cos- tuma apresentar associação com bradicardia, sendo sua principal manifestação adversa hipercalemia. ✔ resposta: ⮨ Fixe seus conhecimentos! 26 FIXE SEU CONHECIMENTO COM FLUXOGRAMAS Use esse espaço para construir fluxogramas e fixar seu conhecimento! FIXE SEU CONHECIMENTO COM MAPAS MENTAIS Use esse espaço para construir mapas mentais e fixar seu conhecimento!