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11 Thiago Aragão Leite CLÍNICA MÉDICA I INSUFICIÊNCIA CARDÍACA 2 SUMÁRIO INSUFICIÊNCIA CARDÍACA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1. Definição. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 2. Epidemiologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 3. Fatores de risco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 4. Fisiopatologia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 5. Quadro clínico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 6. Diagnóstico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 6.1. Diagnóstico da ICFEp . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 7. Classificação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 8. Exames complementares. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 9. Diagnósticos diferenciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 10. Tratamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 10.1. Tratamento não farmacológico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 10.2. Tratamento farmacológico NA ICFER. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 10.3. Tratamento com dispositivos cardíacos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 10.4. Transplante cardíaco. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 11. Insuficiência cardíaca descompensada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 11.1. Perfil A (quente e seco) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 11.2. Perfil B (quente e úmido) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 11.3. Perfil C (frio e úmido). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 11.4. Perfil L (frio e seco) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Mapa mental . Resumo de insuficiência cardíaca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Questões comentadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 3 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA O QUE VOCÊ PRECISA SABER? u Diagnóstico: lembre-se dos Critérios de Framingham, eles costumam ser cobrados em provas. u Saber as classificações segundo os sintomas (Classe Funcional da NYHA), progressão da doença (estágios da ACC/AHA), fração de ejeção e determinar a etiologia (isquêmica, hipertensiva, Chagas, entre outros). u Tratamento: saber quais drogas permitem a redução da mortalidade e quais reduzem apenas os sintomas, além das indicações, das contraindicações e dos efeitos colaterais mais comuns dessas medicações. u IC descompensada: saber a classificação do perfil clínico-hemodinâmico e manejo para cada perfil. Nunca se esqueça de buscar e tratar a causa da descompensação. 1. DEFINIÇÃO A Insuficiência Cardíaca (IC) é uma síndrome clí- nica caracterizada pela incapacidade do coração de fornecer Débito Cardíaco (DC) suficiente para atender à demanda metabólica dos tecidos ou pela capacidade de fazê-lo à custa de elevação das pressões de enchimento. Como toda síndrome, a IC é diagnosticada por um conjunto de sinais e sintomas presentes em pacientes com fatores de risco, associado a exames complementares sugestivos da patologia. Portanto, não há nenhum exame que, isoladamente, defina o diagnóstico. Os sintomas apresentados por pacientes com IC são geralmente precedidos por alterações estruturais no miocárdio que causam disfunção sistólica e/ou diastólica. Além do miocárdio, outras estruturas cardíacas podem estar acometidas, como valvas, pericárdio, endocárdio e o sistema de condução elétrico (que leva a taqui ou bradiarritmias). 2. EPIDEMIOLOGIA Estima-se que mais de 23 milhões de pessoas no mundo sejam portadores de IC, e a prevalência da doença aumenta com idade (em maiores de 70 anos pode chegar a 10%). Dados do estudo BREATHE (Brazilian Registry of Acute Heart Failure)1 revelam que, dos pacientes internados por IC descompensada, a idade mediana foi de 64 anos, sendo 40% do sexo masculino. A mortalidade intra-hospitalar no Brasil é bastante elevada (12,6%). Pacientes com diagnóstico de IC têm, reconhecida- mente, mortalidade aumentada em relação à popu- lação geral; as estimativas são de que a sobrevida de pacientes com essa doença seja de 50% em 5 anos e de 10% em 10 anos. Em relação à etiologia, a IC com Fração de Ejeção reduzida (ICFEr) é mais comum em homens com antecedente de isquemia coronária, enquanto a IC com Rração de Ejeção preservada (ICFEp) é mais importância/prevalência Insuficiência cardíaca Cardiologia 4 comum em mulheres idosas, com comorbidades como Fibrilação Atrial (FA), Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e sobrepeso. O prognóstico da ICFEr é pior que a ICFEp, enquanto ICFElr é o grupo mais heterogêneo, com características e prognóstico que ficam no meio-termo entre os 2 grandes grupos. DICA No Brasil, a principal etiologia de insuficiência cardíaca é a cardiopatia is- quêmica crônica. DIA A DIA MÉDICO O conhecimento da epidemiologia da IC é importante para investigação diagnóstica. Assim, ao deparar-se com um paciente com quadro clínico compatível com insuficiên- cia cardíaca, é mandatória a investigação etiológica. No Brasil, sempre considerar a possibilidade de etiologia isquêmica ou hipertensiva como causa subjacente. Em determinadas regiões do país, como a Bahia e o norte do Paraná, deve-se incluir a miocardiopatia chagásica como uma das causas a ser investigada. 3. FATORES DE RISCO O principal fator de risco no mundo é a doença isquêmica cardíaca, que se desenvolve em pacientes com HAS, Diabetes Mellitus (DM), dislipidemia, taba- gismo e história familiar de doença cardiovascular. A HAS é outra causa importante (a segunda no mundo), assim como consumo de álcool e exposição a drogas quimioterápicas cardiotóxicas (doxirrubi- cina, ciclofosfamida, trastuzumabe). No Brasil, outras etiologias que não são comuns em países desenvolvidos ainda estão presentes, como Doença de Chagas e a valvopatia reumática. Entre as causas com componente genético, a Car- diomiopatia Dilatada (CMD) idiopática é a mais prevalente. 4. FISIOPATOLOGIA BASES DA MEDICINA Os ventrículos funcionam como uma bomba capaz de deslocar um determinado volume de sangue para a cir- culação. Enquanto o Ventrículo Direito (VD) impulsionada ICFEr no mé- dio e longo prazo. Alternativa C: CORRETA. A furosemida vai melhorar os sintomas congestivos. Como os paciente com IC tem alto risco trombótico durante a internação, principalmente pelo imobilismo (geralmente ficam restritos ao leito devido a dispneia), sempre deve-se prescrever profilaxia medicamentosa para TEV, a menos que haja alguma contraindicação. Alternativa D: INCORRETA. Embora as duas drogas tenham efeito diurético, a furosemida, por ser diu- rético de alça e ter efeito mais potente, seria mais indicada para a prescrição inicial da internação. ✔ resposta: ⮨ Questão 6 dificuldade: Y Dica do professor: Estamos diante de uma pacien- te com ICFEr com terapia farmacológica otimizada, porém ainda sintomático (CF III). No ECG temos BRE. A terapia adicional que pode melhorar sobrevida e a terapia de ressincronização ventricular (implante de eletrodos nos dois ventrículos para reduzir a dissin- cronia entre os ventrículos determinada pelo BRE). Alternativa A: INCORRETA. O paciente está com sin- tomas limitantes (CF III), precisa de alguma inter- venção para melhora dos sintomas, e não apenas observar a progressão. Alternativa B: CORRETA. Vide a dica do autor. Alternativa C: INCORRETA. Não há indicação de sin- tomas anginosos e o enunciado é claro em dizer que a etiologia não é isquêmica. Alternativa D: INCORRETA. Em pacientes com FEVE 1,1 ng/dL tem maior correlação com intoxicação). Alternativa A: CORRETA. Esses fatores têm relação direta com a intoxicação digitálica. Os níveis sé- ricos de potássio sempre devem ser avaliados: a HIPOcalemia pode exacerbar a intoxicação, por isso o K+ deve ser reposto. Já a HIPERcalemia tem relação com gravidade (quando há hiperK+, maior a chance de arritmias). Alternativa B: CORRETA. Esse ECG é clássico da in- toxicação digitálica. Reveja as aulas e a apostila e grave esse padrão eletrocardiográfico. Alternativa C: CORRETA. Além do tratamento descrito, existem os fragmentos Fab do anticorpo policlonal anti-digoxina, porém não estão disponíveis no Brasil. Alternativa D: INCORRETA. A digoxina é uma medica- ção que pode melhorar sintomas e reduz hospitali- zações por IC, porém não há benefício em termos de mortalidade de acordo com o grande estudo clínico randomizado DIG, por isso não é essencial no tratamento. ✔ resposta: ⮨ Questão 8 dificuldade: Y Dica do professor: Questão clássica sobre me- dicações que reduzem mortalidade na ICFER. A base do tratamento é composta por 4 grupos de medicações: IECA ou BRA ou INRA (Sacubitril/ Valsartana) + Betabloqueador (carvedilol, succi- nato de metoprolol e bisoprolol) + Antagonista da aldosterona (espironolactona) + Inibidor da SGLT2 (dapagliflozina ou empagliflozina). Assertiva I: VERDADEIRA. O sacubitril-valsartana é um INRA (inibidor da neprisilina + bloqueador do receptor da angiotensina) e tem benefício de mor- talidade em pacientes com ICFEr. De acordo com a atualização da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca (2021), está indicado em virgens de trata- mento como terapia inicial (Classe de indicação IIa, nível de evidência C) ou em substituição ao IECA ou BRA em pacientes que estão em tratamento oti- mizado e que permanecem sintomáticos (Classe I, NE B), como no caso em questão. Assertiva II: VERDADEIRA. Os iSGLT2 (dapa e empagli- flozina) tem benefício de mortalidade em pacientes com ICFEr, independentemente se o paciente for diabético ou não, de acordo com estudos clínicos randomizados (EMPEROR-Reduced e DAPA-HF). Estão indicados em diabético ou não, que estejam sintomáticos, a despeito do tratamento otimizado, como no caso em questão. Assertiva III: FALSA. Vide comentário acima. Assertiva IV: FALSA. A digoxina pode reduzir sinto- mas e hospitalizações, mas não melhora sobrevida, portanto não é uma medicação de primeira linha para ICFEr. ✔ resposta: ⮦ Questão 9 dificuldade: Y Dica do professor: Paciente com miocardite pré- via, evoluindo com dispneia, crepitação pulmonar difusa até ápice e raio X com congestão pulmonar intensa, velamento de seios costofrênicos e cardio- megalia; portanto, estamos diante de um Edema Agudo de Pulmão. Alternativa A: INCORRETA. Não há sinais de broncop- neumonia no raio X, mas sim de congestão difusa. Alternativa B: INCORRETA. No TEP não há congestão pulmonar. Alternativa C: INCORRETA. O quadro clínico é de EAP. A covid-19 habitualmente não leva esses achados radiográficos com cardiomegalia tão significativa. Alternativa D: CORRETA. No EAP, a conduta deve ser prescrever diuréticos e vasodiltadores (como Insuficiência cardíaca 31 nitroglicerina ou nitroprussiato), além de ventilação positiva (CPAP ou BiPAP). Alternativa E: INCORRETA. A intubação estaria indicada se paciente rebaixado (GCSlia para tirarmos a paciente da descompensação. A causa provavelmente é a má aderência terapêutica. Alternativa C: INCORRETA. O perfil B é quente e úmido, não frio e úmido. Não usamos digitálico venoso e milrinone para melhorar o quadro da paciente, e, por fim, não há indícios eletrocardiográficos ou queixas da paciente que nos façam pensar que a paciente tenha descompensado por um novo infarto agudo do miocárdio. Alternativa D: CORRETA. Conforme a dica. Alternativa E: INCORRETA. Como mencionado no co- mentário da alternativa B, não se trata de cardio- patia isquêmica. O perfil B é quente e úmido, mas nossa paciente apresenta-se fria e úmida (perfil C). Digitálico venoso e betabloqueador não são os tratamentos para retirarmos a paciente da descom- pensação. A única informação correta na alterna- tiva é a provável causa da descompensação: má aderência terapêutica. ✔ resposta: ⮩ Fixe seus conhecimentos! 32 FIXE SEU CONHECIMENTO COM FLUXOGRAMAS Use esse espaço para construir fluxogramas e fixar seu conhecimento! FIXE SEU CONHECIMENTO COM MAPAS MENTAIS Use esse espaço para construir mapas mentais e fixar seu conhecimento!o sangue para a circulação pulmonar, o Ventrículo Esquerdo (VE) é responsável pela ejeção sanguínea para a circu- lação sistêmica. Ao analisar os determinantes no desempenho ventricular, 3 variáveis devem ser consideradas: a pré-carga, a pós-carga e a contratilidade miocárdica. A pré-carga reflete o retorno venoso e o volume diastólico final, enquanto a pós-carga corresponde à força que se opõe à contração cardíaca (resistência e impedância vascular periférica), determi- nado pela resistência vascular periférica, complacência da aorta e a resistência da valva aórtica. A contratilidade miocárdica, por sua vez, é a força de contração cardíaca. Estudos marcantes de Frank e Starling estabeleceram a relação entre o volume diastólico final (uma medida da pré-carga) e o desempenho cardíaco. Assume-se, pela Lei de Frank-Starling, que o aumento do volume diastólico final permite o aumento da contratilidade cardíaca. Do ponto de vista celular, há o aumento do comprimento do sarcômero, gerando sobreposição entre os filamentos de actina e miosina, permitindo o aumento da força de contração miocárdica. Contudo, existe um ponto de inflexão desse mecanismo, e a sobrecarga volumétrica excedente leva à perda da capacidade contrátil compen- satória (Figura 1). Dá-se início, então, ao quadro clínico de insuficiência cardíaca. BASES DA MEDICINA Os principais sistemas neuro-hormonais envolvidos na resposta à IC são o sistema nervoso simpático, o sis- tema renina-angiotensina-aldosterona e o hormônio antidiurético. Outras substâncias vasoativas também são afetadas, incluindo a endotelina vasoconstrictora e os vasodilatadores peptídeo natriurético atrial, Peptídeo Natriurético Cerebral (BNP) e Óxido Nítrico (NO). Em um primeiro momento, toda a modulação neuro-hormonal é responsável por uma resposta compensatória; porém, com o tempo, é deletéria aos miócitos, perpetuando a apoptose celular e a insuficiência cardíaca. Essas alte- rações hormonais contribuem para disfunção sistólica e diastólica. Insuficiência cardíaca 5 Principais determinantes do volume sistólico: u Pré-carga: estiramento das fibras miocárdicas do VE no final da diástole, que tem relação dire- ta com o retorno venoso e o volume diastólico final – VDF (Figura 1). u A contratilidade miocárdica: força gerada pelo miocárdio para uma dada pré-carga (Figura 2). u Pós-carga: resistência durante a ejeção, determi- nada pelo volume ventricular, espessura da pa- rede e resistência vascular sistêmica (Figura 3). Qualquer elemento que prejudique um desses deter- minantes (como a isquemia miocárdica, que reduz contratilidade, ou a HAS, que aumenta a pós-carga) leva a uma redução no volume sistólico, o que leva à ativação de uma cascata neuro-hormonal de compensação: u Sistema nervoso simpático é ativado, levando ao aumento da frequência cardíaca, da contratilida- de e vasoconstrição periférica, que inicialmente aumenta o retorno venoso e a pré-carga. u O Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA) e o Hormônio Antidiurético (ADH) le- vam à retenção de água e sódio, aumentando o volume circulante e, portanto, a pré-carga e o volume sistólico. Essa resposta compensatória no médio e longo prazo ocasiona diversas alterações patológicas (Figura 4): u Aumento significativo da resistência vascular periférica (pós-carga). u Hipervolemia. u Fibrose e remodelamento cardíaco, que pode ser (Quadro 1): u Concêntrico, por sobrecarga de pressão (como na HAS e estenose aórtica). u Excêntrico, por sobrecarga de volume (como na insuficiência aórtica e mitral). Por fim, isso gera um ciclo vicioso de disfunção sistólica e/ ou diastólica. Figura 1. Mecanismo de Frank-Starling. Como podemos observar no gráfico abaixo, existe uma faixa (em rosa-escuro) de distensão ideal das fibras, onde a tensão desenvolvida é máxima. Se a distensão for aumentando (aumento da pré-carga) ou diminuindo (redução da pré-carga) a partir desse ponto, ocorre diminuição da tensão e queda do desempenho ventricular. Fonte: Acervo Sanar. Insuficiência cardíaca Cardiologia 6 Figura 2. Interferência da contratilidade no desempenho ventricular. No gráfico, observa-se que, para uma mesma pré-carga, o volume de ejeção será maior quanto maior o inotropismo. A curva do meio mostra o intropismo normal, a curva de cima o aumento do inotro- pismo e a de baixo uma redução. Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 3. Pós-carga. Observe o efeito da pós-carga sobre a ejeção. Quanto pior a contra- tilidade de ventrículo (mostrada por disfunções leves, moderadas e graves), mais pronunciada será a queda do volume ejetado de acordo com o aumento da pós-carga. Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 4. Fisiopatologia da IC. Fator causal / determinante (Isquemia ; HAS ; Chagas, entre outros) SRAA SNS ADH ↓ Débito Cardíaco (↑↑↑ pré-carga e/ou ↓ contra lidade e/ou ↑ pós-carga) Retenção de H2O e Na+ Vasoconstrição ↑ FC Vasoconstrição Retenção de H2O ++ + Aumento da Resistência Vascular Periférica Fibrose Miocárdica Remodelamento cardíaco SRAA (sistema renina-angiotensina-aldosterona), SNS (sistema nervoso simpático), ADH (hormônio antidiurético). Fonte: Elaborada pelo autor. Insuficiência cardíaca 7 Quadro 1. Tipos de remodelamento cardíaco. Geometria do VE Tipo de sobrecarga Disposição dos miócitos Exemplo de etiologia Normal — — — Concêntrico Pressão Em paralelo Estenose aórtica HAS Excêntrico Volume Em série Insuficiência aórtica Insuficiência mitral Fonte: Adaptado de Gaash.1 5. QUADRO CLÍNICO Os sinais e sintomas estão relacionados ao baixo débito cardíaco e à congestão pulmonar ou sistê- mica (Quadro 2), aos esforços e ao repouso (em casos mais graves). Existem sinais (B3, estase jugular, refluxo hepatojugular) e sintomas (ortop- neia e dispneia paroxística noturna – DPN) mais específicos. DICA A ausculta de B4 está relacionada a déficit de relaxamento do VE (disfunção diastólica). Já a presença de terceira bulha cardíaca é sinal de disfunção sistólica de ventrículo esquerdo. No entanto, em pacientes crônicos, a presença de sinais clínicos de congestão pode estar reduzida ou ausente, por processos adaptativos e pela grande capacidade do sistema linfático em lidar com a con- gestão. Por esse motivo, a ausência de crepitações na ausculta cardíaca, em pacientes crônicos, não afasta o diagnóstico de IC. DICA Quando há líquido no interstício pul- monar, podem ocorrer sibilos, fenômeno conhecido como asma cardíaca. A Respiração de Cheyne-Stokes é descrita como em “crescendo e decrescendo”. São movimentos cíclicos de apneia seguida por aumento progressivo na frequência respiratória e no volume corrente e logo após nova redução gradual e apneia. Tem relação com o baixo fluxo sanguíneo que ocorre na IC e com a demora no tempo do fluxo sanguíneo dos pulmões para o cérebro. Insuficiência cardíaca Cardiologia 8 Quadro 2. IC – sinais e sintomas. Sintomas típicos Sinais típicos Ortopneia Terceira bulha cardíaca (B3 – ritmo de galope) Dispneia paroxística noturna Refluxo hepatojugular Falta de ar/dispneia Pressão venosa jugular aumentada Intolerância ao exercício Ictus cordis desviado para esquerda Fadiga/cansaço Sintomas menos típicos Sinais menos típicos Tosse noturna Taquicardia Perda de apetite Crepitações pulmonares Palpitações Extremidades frias Ganho de peso Edema periférico Noctúria e oligúria Hepatomegalia e ascite Dor abdominal Respiração de Cheyne-Stokes Fonte: Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca2. DIA A DIA MÉDICO A presença de B3 também tem significado prognóstico, estando associada a um maior risco de progressão para IC sintomática naqueles com disfunção ventricular esquerda assintomática, além de um maior risco de hospitalização por IC. 6. DIAGNÓSTICO O diagnóstico, por se tratar de uma síndrome, é baseado no achado dos sinais e sintomas típicos em paciente com fatores de risco (por exemplo, pós-infarto), associado a examescomplemen- tares que corroboram a hipótese diagnóstica, principalmente raio-X, eletrocardiograma e eco- cardiograma. Diversos critérios clínicos foram criados para ajudar no diagnóstico, dentre eles o mais consagrado é o Critério de Framingham (Quadro 3). Os critérios maiores de Framingham podem ser lembrados pelo mnemônico ABDCEF: u A – Aumento da jugular: turgência jugular e re- fluxo hepatojugular. u B – B3. u C – Cardiomegalia. u D – Dispneia Paroxística Noturna (DPN) e or- topneia. u E – Edema Agudo de Pulmão (EAP)/Estertores pulmonares. u F – Furosemida: redução do peso (4,5 kg em 5 dias) com diurético. Para uniformizar o diagnóstico, diversas sociedades de cardiologia se uniram para criar a Definição Uni- versal da Insuficiência Cardíaca. Por essa definição, a IC é uma síndrome caracterizada por: u Sinais e sintomas (Quadro 3) causados por anor- malidade cardíaca estrutural e ou funcional, como: W Fração de ejeção 16 cm H2O) Refluxo hepatojugular Perda de peso > 4,5 kg em 5 dias em resposta ao tratamento Para diagnóstico: 2 critérios maiores ou 1 maior e 2 menores que não possam ser atribuídos a outra patologia Fonte: Zipes et al.3 DIA A DIA MÉDICO O diagnóstico da insuficiência cardíaca é essencialmente clínico, baseado nos Critérios de Framinghan. Os exames complementares auxiliam na investigação etiológica e na classificação do tipo de IC. 6 .1 . DIAGNÓSTICO DA ICFEP No paciente com dispneia ou fadiga inexplicada, a avaliação da probabilidade pré-teste para Insufi- ciência Cardíaca (IC) deve ser efetuada com dados clínicos, eletrocardiográficos, ecocardiográfico e laboratoriais. Existem sistemas de escores para ava- liação dessa probabilidade em pacientes com FEVE preservada, como os escores H2FPEF (Tabela 1) e o HFA-PEFF. Idade avançada, fibrilação atrial e elevação de pep- tídeos natriuréticos são dados que aumentam sig- nificativamente a probabilidade pré-teste de ICFEp. Insuficiência cardíaca Cardiologia 10 Tabela 1. Escore H2FPEF para o diagnóstico da ICFEp. Variável clínica Características Pontos H2 Obesidade (Heavy) IMC > 30 Kg/m2 2 Hipertensão ≥ 2 anti-hipertensivos 1 F Fibrilação atrial Paroxística ou persistente 3 P Hipertensão Pulmonar PSAP > 35 mmHg 1 E Idoso (Elderly) Idade > 60 anos 1 F Pressão de enchimento (Filling Pressure) E/e´> 9 (ECO) 1 Escore ≤ 1 indica baixa probabilidade de IC, enquanto escore ≥ 6 indica alta probabilidade. Fonte: Marcondes-Braga et al.4 7. CLASSIFICAÇÃO Existem diversas classificações possíveis para IC, como a diferenciação entre baixo débito (maioria das etiologias) ou alto débito (que ocorre na tireoto- xicose, anemia, fístulas arteriovenosas e beribéri), predomínio de sintomas de IC direita (congestão sistêmica) ou esquerda (congestão pulmonar). As classificações mais usadas na prática clínica utilizam os seguintes critérios: u Gravidade dos sintomas (classificação funcional da New York Heart Association − NYHA/Quadro 4). u Tempo e progressão da doença (diferentes es- tágios da American Heart Association – AHA/ Quadro 5). u Fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE/ Tabela 2). Os termos “IC sistólica” e “IC diastólica”, embora muito utilizados, são imprecisos, pois as disfunções sistólica e diastólica podem coexis- tir em um mesmo paciente. Por esse motivo, a classificação por FEVE é preferida atualmente. A IC com fração de ejeção melhorada (ICFEm) representa um grupo onde a FEVE basal estava reduzida e melhorou em uma segunda avaliação após tratamento adequado. Quadro 4. Classificação pela gravidade dos sintomas, segundo a New York Heart Association (NYHA). Classe Funcional Definição Descrição geral I Ausência de sintomas Assintomático (dispneia aos grandes esforços, como esperado para qualquer pessoa) II Sintomas com atividades habituais e limitação leve Dispneia aos moderados esforços III Sintomas com atividades menos intensas que habituais e limitação importante Dispneia aos pequenos esforços IV Sintomas com qualquer atividade e ao repouso Dispneia ao repouso Fonte: Yancy et al.5 Insuficiência cardíaca 11 Quadro 5. Estágios da insuficiência cardíaca (IC), segundo a American College of Cardiology/American Heart Association (ACC/AHA) e adaptado pela Definição Universal da Insuficiência Cardíaca. Estágio Descrição Descrição A Sob risco de IC Fator de risco para IC, sem doença estrutural nem sintomas B Pré-IC Doença cardíaca estrutural, sem sintomas C IC Sintomas de IC, atuais ou pregressos D IC avançada Sintomas refratários ao tratamento clínico. Requer intervenção especializada Fonte: Bozkurt et al.6 Tabela 2. Definição de insuficiência cardíaca de acordo com a fração de ejeção de ventrículo esquerdo. Classificação ICFEr ICFElr ICFEp ICFEm FEVE ≤ 40% 41 – 49% ≥ 50% Aumento ≥ 10 pontos e FEVE > 40% numa segunda medida, partindo de uma FEVE basal ≤ 40% ICFEr: IC com fração de ejeção reduzida; ICFElr: IC com fração de ejeção levemente reduzida; ICFEp: IC com fração de ejeção preservada; ICFEm: IC com fração de ejeção melhorada. Fonte: Bozkurt et al.6 DIA A DIA MÉDICO A classificação dos sintomas de acordo com a classe funcional da NYHA permite uma melhor avaliação da gravidade do quadro clínico e do prognóstico. Além disso, é um parâmetro interessante para adequar a terapia e graduar a resposta terapêutica. 8. EXAMES COMPLEMENTARES Exames laboratoriais gerais estão indicados para avaliação de comorbidades e prognóstico (hemo- grama, perfil lipídico, função tireoidiana, hepática e renal). DICA Anemia, hiponatremia e insuficiên- cia renal e hepática são marcadores de pior prognóstico na IC. A avaliação de biomarcadores tornou-se ferramenta de grande valia para diagnóstico e prognóstico da IC. Tanto o BNP (peptídeo natriurético tipo B) quanto o NT-proBNP (fração N-terminal do BNP) são liberados na presença de distensão da parede do miocárdio ventricular e têm função oposta ao SRAA, causando vasodilatação e natriurese. Valo- res elevados aumentam a probabilidade de IC. Nos pacientes ambulatoriais em tratamento, quanto menores os valores do BNP/NT-proBNP, melhor o prognóstico (Tabela 3). Cuidados com o BNP/NT-proBNP: u Situações que elevam os peptídeos natriuréti- cos: idade avançada, doença renal crônica, SCA, TEP, miocardite. u Situações que reduzem os peptídeos natriuré- ticos: obesidade. Insuficiência cardíaca Cardiologia 12 Tabela 3. Pontos de corte dos biomarcadores para diagnóstico de IC. Biomarcador IC improvável (pg/mL) IC possível (pg/mL) IC muito provável (pg/mL) Pacientes na emergência BNP 400 NT-proBNP (valores variam com a idade) 450 50 a 75 anos 900 > 75 anos 1800 Pacientes ambulatoriais BNPfunda- mentais para o diagnóstico, e a presença de exame normal tem alto valor preditivo negativo para excluir a IC. Achados mais comuns são sobrecargas de câmaras esquerdas, onda Q patológica, bloqueio de ramo direito ou esquerdo (implica pior prognóstico), extrassístoles, bradicardia ou taquiarritmias. A radiografia de tórax (Figura 5) pode apresentar cardiomegalia (índice cardiotorácico > 0,5) e sinais de congestão pulmonar (cefalização de trama, Linhas B de Kerley, congestão hilar, derrame pleural). Figura 5. Radiografia na IC. Cardiomegalia, congestão hilar, cefalização de trama e linhas B de Kerley (linhas horizontais na periferia do parênquima). Fonte: Acervo Sanar. O ecocardiograma é fundamental para diagnóstico e classificação da IC. Os achados mais importantes são quantificação da FEVE, tamanhos das câmaras cardíacas, avaliação das valvas, pericárdio e função diastólica. Alterações segmentares da contração sugerem etiologia isquêmica. Outros exames de imagem ficam reservados para situações específicas, como cintilografia (para avaliação de isquemia miocárdica) e ressonância nuclear magnética cardíaca (avaliar fibrose pelo realce tardio, presença de doenças de depósito no diagnóstico diferencial da etiologia da IC). O ecocardiograma é fundamental para o diagnós- tico e classificação da IC, sendo os achados mais importantes: u Quantificação da FEVE e da função diastólica. u Tamanhos das câmaras cardíacas. u Alterações segmentares da contração, que su- gerem etiologia isquêmica. O ultrassom (US) pulmonar é um exame rápido, que pode ser realizado à beira-leito e tem se mostrado mais sensível e específico para avaliação de congestão pulmonar que o exame físico e a radiografia de tórax. Os achados do US pulmonar no edema pulmonar são mais de três linhas B (linhas verticais, em rabo de cometa) por campo avaliado, que interrompem as linhas A (horizontais) presentes no parênquima normal e a presença de derrame pleural (Figura 6). Insuficiência cardíaca 13 Figura 6. US pulmonar na IC. Linhas A Linhas B Linhas A: linhas horizontais ocorrem no pulmão normal. Linhas B: linhas verticais (em rabo de cometa) ocorrem na congestão pulmonar. Fonte: Bass et al.7 9. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS Qualquer patologia que cause dispneia entra no diagnóstico diferencial, com destaque para causas pulmonares, como TEP, DPOC e asma. No diagnós- tico diferencial de pacientes que se apresentam com dispneia agudamente manifesta, o uso dos biomarcadores (BNP/NT-proBNP) pode auxiliar nos casos duvidosos (quanto mais aumentados, maior a probabilidade de IC – vide Tabela 3). Cuidados devem ser tomados em pessoas que podem ter valores mais elevados que o esperado (idosos, pacientes com anemia e doença renal crônica) e nos obesos, que, em geral, apresentam elevações inferiores ao esperado para o quadro clínico. 10. TRATAMENTO O tratamento da IC começa pela prevenção em pacientes no estágio A (cessação de tabagismo, con- trole da HAS) e engloba medidas comportamentais e tratamento farmacológico específico a partir dos pacientes em estágio B (com disfunção ventricular assintomática). 10 .1 . TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO 10 .1 .1 . Restrição de sódio A ingestão diária de sódio ainda não foi bem estabelecida na literatura, tendo em vista que dietas muito restritivas podem estar associadas à redução no consumo de calorias e à desnutrição. É prudente recomendar que se evite consumo excessivo (> 7 g de sal por dia) em paciente com IC crônica. 10 .1 .2 . Restrição hídrica Não há estudos randomizados que comprovaram redução de mortalidade e hospitalizações com a restrição hídrica para pacientes ambulatoriais com IC crônica. Pacientes que estejam descompensados e hipervolêmicos devem ser orientados a realizar restrição de 1000 a 1500 mL, a depender da gravi- dade do caso. Insuficiência cardíaca Cardiologia 14 10 .1 .3 . Tabagismo e bebidas alcoólicas Todos os pacientes devem ser aconselhados a parar de fumar e a reduzir ou cessar o consumo de álcool (principalmente aqueles com cardiomiopatia dilatada de etiologia alcoólica). 10 .1 .4 . Reabilitação cardiovascular Atividade física regular melhora a qualidade de vida e reduz internações. Devem ser associados exer- cícios aeróbicos e resistivos para grandes grupos musculares. 10 .1 .5 . Vacinação Está indicada a vacinação contra influenza (anual), pneumococo e covid-19. 10 .2 . TRATAMENTO FARMACOLÓGICO NA ICFER A terapia medicamentosa para redução de mortali- dade e morbidade (reinternações, melhora sintomá- tica) foi bem estabelecida nesse grupo de pacientes com FEVE 5,5 mmol/L. Não se deve utilizar a associação de IECA e BRA pelo aumento nos efeitos colaterais. DICA Os BRA são uma alternativa com eficácia comparável aos IECA e estão indicados em pacientes intolerantes ou com alergia documentada a essa clas- se de fármacos. 10.2.1.2. Betabloqueadores Também são fármacos de primeira linha no trata- mento da ICFER, com benefício de mortalidade e melhora dos sintomas, e devem ser utilizados em pacientes tanto sintomáticos (estágio C) quanto assintomáticos (estágio B). As medicações com benefício comprovado por ensaios clínicos randomizados são carvedilol, biso- prolol e succinato de metoprolol (não confundir com o tartarato de metoprolol, que não teve eficácia comprovada). O tratamento deve ser iniciado com doses bai- xas, com aumento progressivo a cada 2 semanas, mediante monitoração de bradicardia ou piora dos Insuficiência cardíaca 15 sintomas de IC. Caso haja acentuação dos sintomas, ajuste de diuréticos e vasodilatadores devem ser tentados antes de se considerar a redução da dose ou suspensão do betabloqueador. Devem ser evitados em pacientes com bradiarrit- mias e usados com cautela em paciente com bron- coespasmo (nesse caso, priorizar cardiosseletivos, como bisoprolol). 10.2.1.3. Antagonistas dos Receptores Mineralocorticoides (ARM) As medicações dessa classe são espironolactona e eplerenone (que não está disponível no Brasil). Estão indicados em pacientes com ICFER e sinto- máticos (estágio C e classe funcional II a IV) para redução de mortalidade e internações, associado ao tratamento padrão (IECA ou BRA e betabloqueador). Esses fármacos, assim como os IECA e BRA, estão contraindicados em caso de insuficiência renal (RFG(potássio > 6.0 mmol/L). A espironolactona pode causar ginecomastia, e nesse caso a dose deve ser reduzida ou a medica- ção suspensa. DICA Espironolactona é um antagonis- ta da aldosterona, testado em pacien- tes com insuficiência cardíaca classes II a IV segundo classificação funcional da New York Heart Association (NYHA), que reduz mortalidade e hospitalização em ICFEr. 10.2.1.4. Inibidores da neprilisina e dos receptores da angiotensina (sacubitril/valsartana) O sacubitril/valsartana representa uma nova classe terapêutica, que inibe simultaneamente o SRAA e a neprilisina (enzima responsável pela degradação dos peptídeos natriuréticos). O estudo PARADIGM-HF de 2014 avaliou os efeitos desse fármaco em comparação com o enalapril (IECA) em pacientes com ICFER sintomáticos, e houve benefícios de mortalidade e redução de inter- nações9. Recomenda-se o uso em substituição do IECA ou BRA em pacientes sintomáticos já em uso de tera- pêutica otimizada com terapia tripla, para reduzir morbidade e mortalidade. Também pode ser iniciado em pacientes virgens de tratamento, com menor grau de evidência7. O IECA deve ser suspenso pelo menos 36 horas antes de iniciar o sacubitril/valsartana (pelo risco de angioedema), e o tratamento combinado com IECA ou BRA e sacubitril/valsartana está contraindicado. Também está contraindicado em caso de insufi- ciência renal e hipercalemia. 10.2.1.5. Inibidores do SGLT2 Classe de medicações que inibem o cotransporta- dor de sódio e glicose tipo 2 (SGLT2) dos néfrons, levando à glicosúria. Inicialmente utilizados para o tratamento do DM tipo II, posteriormente, 2 estudos clínicos randomi- zados (DAPA-HF e EMPEROR-Reduced) mostram benefícios de morbimortalidade em pacientes com ICFEr, independemente de serem diabéticos ou não, por mecanismos ainda não totalmente com- preendidos10,11. As drogas aprovadas para o tratamento são a dapa- gliflozina e a empagliflozina. Indicações: ICFEr em pacientes sintomáticos (CF II a IV) com terapia otimizada (IECA/BRA + BB+ ARM). Contraindicações: DM tipo I, hipotensão, desidra- tação, ritmo de filtração glomerularredução do débito car- díaco. A TRC consiste no implante de dispositivo com eletrodos em ambos os ventrículos, gerando estimulação simultânea em VD e VE a cada ciclo cardíaco. A TRC está indicada em pacientes com IC sintomá- tica (CF II a IV), a despeito de terapias medicamen- tosas otimizadas, FEVE 150 ms). 10 .3 .3 . Abordagem da Insuficiência mitral secundária Muitos pacientes com cardiomiopatia dilatada apresentam Insuficiência Mitral (IM) secundária à dilatação do anel mitral, o que piora a hemodinâ- mica cardíaca. Em pacientes com ICFEr em terapia otimizada (incluindo medicamentos, TRC e revascularização quando indicada) o tratamento percutâneo da IM grave com dispotivo edge-to-edge (MitraClip®) pode beneficiar os pacientes com sintomas refratários ao tratamento convencional e após avaliação de equipe multidisciplinar (Heart Team). 10 .3 .4 . Dispositivos de assistência ventricular Pacientes com IC em estágio D (refratários ao tra- tamento clínico) podem necessitar de dispositivos de assistência ao VE para aumentar o débito car- díaco. Existem dispositivos de curta duração para pacientes internados com IC descompensada, como balão intra-aórtico de contrapulsação e Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), e outros de longa duração para uso ambulatorial em pacientes com IC crônica em espera de transplante (como Heartmate®), porém esses últimos ainda são pouco utilizados no Brasil por conta do custo elevado. DIA A DIA MÉDICO No dia a dia, o tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida deve priorizar as drogas modi- ficadoras de sobrevida. Conforme o fluxograma, uma vez que se estabelece a terapêutica tripla padrão e o paciente se mantém sintomático, novas terapias devem ser con- sideradas caso a caso. Pacientes com difícil controle de frequência cardíaca, por exemplo, podem beneficiar-se de medicações cronotrópicas negativas. Aqueles com bloqueios de ramo importante podem ser bons candidatos à terapia de ressincronização, por sua vez. DIA A DIA MÉDICO Nos últimos anos, estudos envolvendo o uso dos ISGLT2 em pacientes com insuficiência cardíaca, independente- mente de terem diabetes associado ou não, vêm demons- trando bons resultados, inclusive com redução de mor- talidade. Por esse motivo, a FDA – agência reguladora americana – incluiu a dapaglifozina como medicação a ser utilizada em pacientes com insuficiência cardíaca. Alguns especialistas advogam que essa classe de medi- cação será incorporada no hall de medicações essenciais nos pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. Insuficiência cardíaca 19 DIA A DIA MÉDICO Nos pacientes com fração de ejeção preservada, o trata- mento consiste no controle de fatores de risco, além de sintomáticos, como diureticoterapia. 10 .4 . TRANSPLANTE CARDÍACO O transplante cardíaco fica reservado para pacientes com IC em estágio D que estão em choque cardio- gênico e necessitam de suporte com medicações inotrópicas (como dobutamina), desde que não apresentem contraindicação (como outras doenças crônicas graves e hipertensão pulmonar grave). 11. INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DESCOMPENSADA A avaliação e o tratamento dos pacientes que se apresentam com IC descompensada devem levar em consideração o perfil clínico-hemodinâmico (Figura 7), que é determinado pela presença de sinais de congestão (crepitações pulmonares, tur- gência jugular, hepatomegalia, ascite, edema de extremidades) e má perfusão (hipotensão, tontura, lentificação do enchimento capilar, oligúria, redução da pressão de pulso, ou seja, aproximação entre PAS e PAD). Além disso, sempre deve ser procurada e tratada a causa da descompensação (Quadro 7). Figura 7. Perfil clínico-hemodinâmico na IC descompensada e tratamento. A (Quente e seco) B (Quente e úmido) L (Frio e seco) C (Frio e úmido) Congestão Não Sim Má perfusão/ Baixo débito Não Sim Diuréticos Inotrópicos Diuréticos Vasodilatadores Volume (SF ou RL 250 ml) Compensado SF: soro fisiológico; RL: ringer lactato. Fonte: Elaborada pelo autor. Quadro 7. Causas de descompensação da IC. Má aderência ao tratamento farmacológico Taquicardias Dieta inadequada Bradicardias Síndrome coronariana aguda Emergência hipertensiva Tromboembolismo pulmonar Complicação mecânica do IAM (ruptura de cordoalha mitral, CIV, ruptura da parede livre do VE) Infecções Anemia Uso de álcool e drogas ilícitas Medicações (como AINH) IAM: infarto agudo do miocárdio, CIV: comunicação interventricular, VE: ventrículo esquerdo, AINH: anti-inflamatório não hormonal. Fonte: Zipes et al3. Insuficiência cardíaca Cardiologia 20 11 .1 . PERFIL A (QUENTE E SECO) Pacientes em perfil A (sem sinais de congestão nem de baixo débito) não estão descompensados. Em geral, procuram o pronto-socorro por queixas não relacionadas à IC. Devem ser estimulados a manter o uso das medicações com impacto na mortalidade e seguimento ambulatorial. DICA Perfil A de Arabia: quente e seco, é o perfil de Alta, perfil Ambulatorial. 11 .2 . PERFIL B (QUENTE E ÚMIDO) Pacientes em perfil B estão congestos, com crepta- ções pulmonares, refluxo hepatojugular e estase de jugular a 45ºC, contudo sem sinais de baixo débito. Esse é o perfil mais comum de descompensação e, felizmente, com melhor prognóstico. O tratamento é baseado no uso de diuréticos de alça endovenosos como a furosemida, já que a absorção oral das medicações pode estar prejudicada pelo edema de alças intestinais. Em casos refratários a doses elevadas de furose- mida, podem-se associar diuréticos tiazídicos e poupadores de potássio (espironolactona). Nesses pacientes, a função renal e os eletrólitos devem ser monitorizados (risco de distúrbios hidroeletrolíticos), assim como o débito urinário e o peso diário, para guiar o tratamento nos pacientes que necessitam de internação. Além disso, vasodilatadores devem ser utilizados para redução da resistência vascular periférica e da pós-carga. Podem ser utilizados desde vasodi- latadores orais (nitratos, IECA ou BRA), para casos com congestão menos intensa, até vasodilatadores endovenosos (nitroglicerina e nitroprussiato), para os casos mais graves. Pacientes com congestão importante, hipoxemia e taquipneia se beneficiam do uso de ventilação com pressão positiva (CPAP ou BiPAP). Como os betabloqueadores são medicações com efeito inotrópico negativo (reduzem a contratilidade), seu uso durante a descompensação em perfil B deve seguir os seguintes princípios: u Em pacientes que já utilizam: devem ser mantidos ou a dose reduzida pela metade, mas não devem ser suspensos, pois são benéficos e a suspensão pode causar efeito rebote (taquicardia). u Em pacientes que não estão em uso: só devem ser introduzidos após a compensação, quando não houver mais sinais de congestão, preferen- cialmente antes da alta hospitalar. DICA Perfil B de Brasil: quente e úmido. Tratar com diuréticos e vasodilatadores. 11 .3 . PERFIL C (FRIO E ÚMIDO) Aqueles em perfil C estão congestos e com baixo débito, o que confere o pior prognóstico entre os perfis de descompensação. O tratamento deve incluir o uso de furosemida endovenosa e medicações com efeito inotrópico positivo, em que se destacam 3 categorias: u Agonistas beta-adrenérgicos: dobutamina, do- pamina. u Inibidores da fosfodiesterase: milrinona. u Sensibilizadores de cálcio: levosimendana. Dentre os inotrópicos, a dobutamina é a droga mais utilizada, pois não é contraindicada em pacientes hipotensos como as demais. Em pacientes com baixo débito, os betabloqueado- res devem ter a dose reduzida pela metade naqueles que já utilizam e nunca podem ser introduzidos nos virgens de tratamento. Nos pacientes em choque cardiogênico franco (baixo débito com insuficiência de múltiplos órgãos), o betabloqueador deve ser suspenso. DICA Perfil C de Curitiba: frio e úmido. Tratar com diuréticose inotrópicos. Insuficiência cardíaca 21 11 .4 . PERFIL L (FRIO E SECO) Pacientes com sinais de baixo débito e sem conges- tão estão hipovolêmicos, seja por causas patológi- cas (diarreia e vômitos) ou iatrogênicas (excesso de diuréticos). Inicialmente, esses pacientes devem ser submeti- dos à prova volêmica com alíquotas de cristaloides (soro fisiológico 0,9% ou ringer lactato 250 mL) e reavaliações frequentes. Existem 3 respostas possíveis após a prova volê- mica: 1. Melhora do baixo débito sem congestão (perfil A): paciente pode ter alta com redução da dose do diurético. 2. Melhora do baixo débito, mas evoluindo com congestão (perfil B): paciente deve receber diurético com parcimônia e vasodilatadores. 3. Sem melhora do baixo débito e evolução com congestão (perfil C): devem ser introduzidos diu- réticos com parcimônia e inotrópico. DICA Perfil L de Las Vegas: frio e seco. Fa- zer prova volêmica em pequenas alíquotas. DIA A DIA MÉDICO Na emergência, pacientes apresentam-se mais frequen- temente em descompensação clínica-hemodinâmica em perfil B ou C. Nem sempre é tão simples essa diferencia- ção apenas com dados clínicos. Na prática, é importante avaliar diversos fatores em conjunto: sinais, sintomas e achados laboratoriais. Sintomas de baixo débito que apon- tam para a descompensação perfil C incluem confusão mental, náuseas, vômitos, oligúria. Achados do exame físico são tempo de enchimento capilar prolongado, extremidades frias, pele pegajosa. Laboratorialmente, pacientes em baixo débito podem ter repercussões como a presença de hiperlactatemia, saturação venosa central baixa, piora de função renal, entre outras. DIA A DIA MÉDICO Ao atender um paciente com insuficiência cardíaca des- compensada, deve-se procurar ativamente o fator des- compensador. Frequentemente, a má adesão à terapia – medicamentosa e não medicamentosa – é o fator causal. Outras vezes, algum gatilho infeccioso é o responsável pela piora clínica. Por último, ao não se identificar a causa específica, devemos considerar a possibilidade de progressão de doença. Nesse momento, é necessária a avaliação especializada a fim de definir condutas adicio- nais ao paciente: implante de dispositivos de curta/longa permanência, transplante cardíaco ou paliação naqueles com contraindicação a outras terapias. Insuficiência cardíaca Cardiologia 22 Mapa mental. Resumo de insuficiência cardíaca ClassificaçãoDiagnóstico Exames IC descompensada Critérios de Framingham (ABCDEF) • BNP elevado • Cardiomegalia (Rx) • ECO com alteração estrutural/funcional Perfil clínico‑hemodinâmico CF NYHA I / II / III/ IV Perfil B: diurético e vasodilatador FEVE ICFEr / ICFElr / ICFEp / ICFEm Perfil A: alta, ambulatório Estágio ACC/AHA A / B / C / D Perfil C: diurético e inotrópico Etiologia Isquêmica / HAS / Chagas Perfil L: volume IC BB (carvedilol, metoprolol, bisoprolol) Digoxina IECA /BRA Diuréticos Espironolactona Sacubitril/ Valsartana iSGLT2 Redução de mortalidade Reduzir sintomas Tratamento Insuficiência cardíaca 23 REFERÊNCIAS 1. Gaasch W. Patterns of left ventricular remodeling. Pathophysiology of heart failure with reduced ejection fraction: hemodynamic alterations and remodeling. UpToDate. [Internet]; 2018. [acesso em 18 nov 2022]. 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Questão 2 (AMP‑ PR ‑ 2022) A insuficiência cardíaca é uma sín- drome clínica decorrente de uma disfunção cardía- ca envolvendo enchimento ventricular e/ou ejeção ventricular. Seus sintomas cardinais são dispneia e fadiga, tendo como sinais comuns estertoração pulmonar e edema. Com respeito à Insuficiência Cardíaca, analise as afirmações abaixo. I - No paciente ambulatorial, o edema periférico tende a ser simétrico, envolvendo tornozelos e re- gião pré-tibial. II - No paciente sem pneumopatia, a presença de estertores à ausculta é específica para insuficiên- cia cardíaca. III - Na insuficiência cardíaca crônica, devido ao aumento de pressões de enchimento ventricular, é infrequente a ausência de estertores à ausculta. Selecione a opção correta. ⮦ As afirmativasI e II são verdadeiras. A afirma- tiva III é falsa. ⮧ As afirmativas I e III são verdadeiras. A afirma- tiva II é falsa. ⮨ As afirmativas II e III são verdadeiras. A afirma- tiva I é falsa. ⮨ As afirmativas I, II e III são verdadeiras. ⮪ As afirmativas I, II e III são falsas. Questão 3 (SUS ‑ SP ‑ 2022) A Portaria n.o 40/2019 torna pública a decisão de incorporar sacubitril/valsartana para o tratamento de insuficiência cardíaca crônica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), ⮦ a partir da classe funcional NYHA II e BNP > 150 (ou NT-ProBNP > 600), com fração de ejeção re- duzida (FEVE 150 (ou NT-ProBNP > 600), com fração de ejeção re- duzida (FEVE 150 (ou NT-ProBNP > 600), com fração de ejeção reduzida (FEVE 150 (ou NT-ProBNP > 600), com fra- ção de ejeção reduzida (FEVEcom pressão arterial de 150 x 100 mmHg, bilateralmente, frequência cardíaca de 124 bpm, frequência respiratória de 28 irpm e satu- ração de 91% em ar ambiente, evoluindo, durante a avaliação, com piora da dispneia, progressivamente, Insuficiência cardíaca 27 assim como com a ausculta evidenciando ester- tores até o ápice pulmonar. Realizou, também, a radiografia seguinte. Com base nesse caso hipotético, assinale a alter- nativa que apresenta a conduta que deverá ser adotada no momento. ⮦ solicitar tomografia de tórax para complementar e iniciar antibioticoterapia empírica. ⮧ solicitar angiotomografia e iniciar anticoagula- ção plena. ⮨ solicitar teste rápido de covid e começar corti- coide endovenoso conforme protocolo recovery. ⮩ realizar dose de ataque de furosemida e nitrato endovenoso e ventilação não invasiva. ⮪ realizar intubação orotraqueal e iniciar vaso- pressores. Questão 10 (UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ - PI - 2021) Paciente de 55 anos, sexo feminino, com infarto do miocárdio com supra de ST de parede anterior há 2 anos. Não foi realizado trombolítico ou angioplastia primária na ocasião. A paciente foi encaminhada ao ambu- latório de cardiologia realizando acompanhamen- to regular. Estava em uso de carvedilol 6,25 mg a cada 12 horas, lisinopril de 5 mg e furosemida de 40 mg diariamente. Fazia uso irregular dos medi- camentos no último ano. Há 2 dias foi admitida em pronto-socorro com quadro de piora da dispneia nas últimas 48 horas. Apresentava sintomas de tosse e ortopenia. Na avaliação inicial apresentou-se taquidispneica, com palidez cutânea, sonolência e aferição de PA em 91 x 68mmHg, saturação de oxigênio em 91%, estertores crepitantes em base de pulmão direito, estase jugular presente, reflexo hepatojugular positivo, presença de ascite e perfu- são periférica lentificada com extremidades frias. A análise inicial do eletrocardiograma evidenciou ritmo sinusal taquicárdico com frequência cardíaca de 114 bpm e área eletricamente inativa na parede anterior. Assinale a alternativa que corresponde ao perfil hemodinâmico, causa da descompensação e medidas iniciais adequadas. ⮦ Cardiopatia chagásica com IC descompensada. Perfil C (frio e úmido). Início de digitálico venoso e amiodarona. Provável causa de descompen- sação: infecciosa. ⮧ Cardiopatia hipertensiva com IC descompen- sada. Perfil L (frio e úmido). Início de diurético venoso e inibidor da enzima conversora de an- giotensina. Provável causa de descompensação: má aderência terapêutica. ⮨ Cardiopatia isquêmica com IC descompensada. Perfil B (frio e úmido). Início de digitálico venoso e milrinone. Provável causa de descompensação: infarto agudo do miocárdio. ⮩ Cardiopatia isquêmica com IC descompensa- da. Perfil C (frio e úmido). Início de diurético e inotrópico imediato para controle de sintomas. Provável causa de descompensação: má ade- rência terapêutica. ⮪ Cardiopatia isquêmica com IC descompensa- da. Perfil B (quente e úmido). Início de digitálico venoso e beta-bloqueador. Provável causa de descompensação: má aderência terapêutica. Insuficiência cardíaca Cardiologia 28 GABARITO E COMENTÁRIOS Questão 1 dificuldade: Y Dica do professor: Os critérios maiores de Fra- mingham se referem a sinais/sintomas específicos da IC. Observe que pacientes com IC podem apre- sentar todos os sintomas descritos nas opções, mas o refluxo hepatojugular é o mais específico, ou seja, aquele que dificilmente ocorrerá em ou- tras patologias. Mnemônico para critérios maiores de Framingham (ABCDEF) Aumento da jugular (Estase ou Refluxo hepatojugular) B3 (3ª bulha) Cardiomegalia DPN e ortopneia Edema agudo de pulmão Furosemida (perda de peso com diurético) ✔ resposta: ⮨ Questão 2 dificuldade: Y Dica do professor: Pacientes com IC crônica tem desenvolvimento da drenagem linfática, por isso tem menos estertoração pulmonar que pacientes com IC aguda. Assertiva 1: VERDADEIRA. O edema da IC geralmente é gravitacional, acomentendo primeiro os membros inferiores de forma simétrica. Assertiva 2: VERDADEIRA. Estertores pulmonares são critérios maiores de Framingham para diagnóstico de IC, mais específicos quando não há pneumopatia. Assertiva 3: FALSA. Como dito, pacientes com IC crônica desenvolvem a drenagem linfática que compensa a congestão venosa pulmonar, por isso é FREQUENTE a ausência de estertores na ausculta. ✔ resposta: ⮦ Questão 3 dificuldade: Y Dica do professor: Sacubitril/Valsartana está indi- cado para paciente com IC com fração de ejeção reduzida que persistem sintomáticos (CF > ou igual a 2) a despeito de tratamento otimizado (IECA ou BRA + BB + Espironolactona), em substituição ao IECA ou BRA. No âmbito do SUS, foi autorizado para paciente com 70 bpm em máxima dose de BB tolerada. Como paciente está com FC de 51 bpm, este fármaco não tem indicação nesse momento. Alternativa D: INCORRETA. O paciente apresenta disp- neia a esforços habituais (CF II); portanto, faz-se necessário otimizar o tratamento. Alternativa E: CORRETA. Essa classe de medicações, usada inicialmente para o tratamento da DM pelo seu efeito glicosúrico, mostrou redução de mor- talidade em pacientes com ICFEr, mesmo em não diabéticos, sendo indicada como parte do arsenal terapêutico inicial para estes pacientes. ✔ resposta: ⮪ Questão 5 dificuldade: Y Dica do professor: Em todo paciente com IC des- compensada, devemos avaliar qual o perfil clíni- co-hemodinâmico, baseado em dois parâmetros: sinais de congestão (úmido/congesto ou seco/sem congestão) e de baixo débito cardíaco (quente/bem perfundido ou frio/mal perfundido), existindo 3 pa- drões principais: perfil B (quente e úmido), perfil C (frio e úmido) e perfil L (frio e seco). No caso em questão, estamos diante de uma IC descompensada perfil B (PA 160/80, ou seja, bem perfundido/quente e sinais de congestão pulmonar/úmido). Nesse ce- nário, devemos iniciar diuréticos e vasodilatadores. Alternativa A: INCORRETA. Regra para uso de beta- bloqueadores (BB) na IC descompensada: NUNCA INICIAR nos virgens de tratamento DURANTE a descompensarão. Para os que já usam, devemos MANTER se não houver baixo débito e REDUZIR ou SUSPENDER se há sinais de baixo débito. No caso da questão, como não há menção sobre a pacien- te já estar em uso de BB, não devemos iniciar. Já o enalapril seria uma boa opção, por seu efeito va- sodilatador. Alternativa B: INCORRETA. Nenhum desses dois fár- macos é uma boa opção para o tratamento da IC descompensada perfil B, embora a dapagliflozina melhore sobrevida no tratamento