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Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Unidade 1 - História da Engenharia de Segurança do Trabalho Sumário CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO Evolução da engenharia de segurança Contextualizando a segurança do trabalho Evolução da formação profissional Engenharia de Segurança do Trabalho moderna Segurança do trabalho no Brasil Aspectos econômicos, políticos e sociais Contexto histórico Aspectos econômicos Aspectos políticos Aspectos sociais História do prevencionismo Sintetizando a história Prevencionismo pré-Revolução Industrial Revolução 4.0 6 17 27 Sumário CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO Entidades públicas e privadas Conceitos legais Direitos e deveres prevencionistas O papel do serviço especializado em engenharia e medicina do trabalho Serviço especializado em engenharia e medicina do trabalho entidades privadas Serviço especializado em engenharia e medicina do trabalho entidades públicas Terceiro setor Referências 37 46 Objetivos Definição Explicando Melhor Você Sabia? Acesse Resumindo Nota Importante Saiba Mais Reflita Atividades Testando Para o início do desenvolvimento de uma nova competência; Se houver necessidade de se apresentar um novo conceito; Algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; Curiosidades indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se form necessarias; Se for preciso acesar um ou mais sites para fazer dowload, assistir videos, ler textos, ouvir podcast; Quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; quando forem necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; As observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; Textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; Quando o desenvolvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas. @faculdadelibano_ 1 Evolução da engenharia de segurança Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Capítulo 1 O direito e sua relação com a justiça e a moral Objetivos Ao término deste capítulo você será capaz de conhecer e analisar o contexto histórico da Segurança do Trabalho, as perspectivas para o futuro da segurança e saúde do trabalho e compreender o papel da Engenharia de Segurança no contexto econômico, político e social. Contextualizando a segurança do trabalho Querido(a) aluno(a), estamos prestes a iniciar nossa jornada rumo à Engenharia de Segurança do Trabalho, mas precisamos primeiro estabelecer o que é trabalho. Para Sussekind (2002, p. 1), em seu curso de Direito do Trabalho, a definição de trabalho é: “toda energia humana, física ou intelectual, empregada com um fim produtivo, constitui trabalho”. F I G U R A 1 Carteira de trabalho F O N T E https://bit.ly/2KAuU30. Acesso em: 16 dez. 2020. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 Assim, podemos chamar de trabalhadores todos os seres humanos, homens e mulheres que exercem uma atividade que tenha por finalidade o seu sustento, estando inseridos no mercado de trabalho por meio de uma relação contratual; que pode ser formal, quando o trabalhador tem um contrato de trabalho registrado mediante carteira de trabalho pela consolidação das leis do trabalho (CLT) ou estatutário, quando seu contrato é registrado em uma entidade pública. Esse trabalhador também pode exercer seu trabalho nos setores informais, quando não há um contrato de trabalho registrado na carteira de trabalho. Dessa forma, a relação do homem com o trabalho pode ser encontrada na história da humanidade de forma muito marcante em seus acontecimentos e em suas mudanças, tanto nas relações sociais entre os homens como na relação do homem com o meio. A relação do homem com o meio é um importante registro da evolução da humanidade. Por isso, Walter Bazzo analisa o desenvolvimento das relações humanas e afirma que: Analisando a história, logo percebemos que ela é de fato permeada de significativos desenvolvimentos que marcaram profundamente o destino da humanidade. O controle do fogo, a domesticação dos animais, a invenção da agricultura, a criação de cidades, o desenvolvimento da imprensa ou a construção de um avião comercial estão aí para comprovar esta interpretação. (BAZZO, 2006, p. 66) Na pré-história, o homem apresenta uma relação extrativista com o meio e sua energia é consumida no trabalho de retirar do ambiente o fruto de sua sobrevivência. Ele precisava ir em busca da caça, do alimento, do abrigo estando exposto a diferentes situações de risco e vulnerabilidade. Ainda na pré-história, no período Neolítico, o homem começa a busca por PROTEÇÃO, por mais SEGURANÇA em relação ao meio com o qual ele interage. Essa busca o leva a desenvolver habilidades em talhar a pedra e posteriormente os metais para fabricar suas armas de caça e de proteção. É também nesse momento histórico que o homem trabalha na terra, cultivando, domesticando animais e produzindo alimentos e se tornam sedentários, formando pequenos grupos familiares com o mesmo objetivo (SILVA, 2019). Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 Sendo assim, podemos ver nesse momento que o trabalho para o homem é uma relação dele com o meio e com os outros. É pela força do trabalho que o homem constrói suas primeiras comunidades. Além disso, a formação da comunidade também foi uma forma de gerar mais segurança e conforto. Os homens agora saíam para caçar em bandos com as armas confeccionadas por eles enquanto as mulheres e crianças cultivavam a terra e cuidavam dos animais (SILVA, 2019). Diante disso, o homem não parou nas cavernas e continuou evoluindo, agregando conhecimento e aplicando suas descobertas para produzir mais e sentir-se socialmente mais seguro. A força vital era a sua maior fonte de energia, até que o homem começou a dominar a energia da natureza, primeiro o fogo, depois a água e o vento. No estudo do ambiente de trabalho é preciso avaliar os pontos de tensão e os conflitos que fazem com que os homens criem novas relações de trabalho. Dessa forma, primeiramente analisemos pela ótica do trabalho, partindo da pedra lascada, passando pelos metais até o domínio do conhecimento técnico, com a construção de máquinas, ainda que rudimentares. Depois, por uma ótica social, partindo de uma sociedade caçadora/coletora, passamos para uma sociedade rural até chegarmos em ambientes urbanos, com novas relações de produção para obter lucro e consumo capitalista. O trabalho realizado atualmente encontra-se dentro de um contexto histórico. Um exemplo da evolução das relações de trabalho é compararmos o trabalho de um artesão medieval, que nele concentrava- se todo o trabalho de criar, planejar e modificar as peças produzidas, com a indústria metalúrgica atual, onde há linha de produção F I G U R A 2 Sociedade pré-histórica F O N T E Pixabay Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 mecanizada, objetivando a produtividade e a empregabilidade no setor. Assim, vemos o homem começar a gerar o contrato de trabalho, pois o trabalho não era mais para garantir a sobrevivência, e sim para garantir o salário e o lucro, ou seja, o homem trabalha para outro homem e recebe algo em troca (BAZZO, 2006). F I G U R A 3 C o n t r a t o d e t r a b a l h o F O N T E pixabay Hipócrates, o pai da medicina, a respeito do envenenamento por chumbo realizados no século XV e, séculos depois, em Roma, volta-se a falar sobre envenenamento com enxofre, zinco e vapores ácidos. Nesses escritos, os autores relatam fatos acontecidos, porém a Engenharia de Segurança do Trabalho vai surgir para desenvolver a técnicade prevenção com o objetivo de gerar maior qualidade de vida aos trabalhadores, e para os empregadores um aumento na produtividade e nos resultados positivos em sua gestão organizacional. Embora durante séculos os marcos da Segurança do Trabalho, como quando Bernardino Ramazzini descreve doenças relacionadas a 50 profissões e por seu trabalho ele é considerado o Pai da Medicina do Trabalho (MACEDO, 2012), estejam ligados a ações corretivas, a Engenharia de Segurança do Trabalho trabalha para avaliar os riscos por meio de métodos qualitativos e quantitativos, de forma que se possa controlar o aparecimento de doenças ocupacionais e evitar acidentes. Dessa forma, a Engenharia de Segurança tem o apoio dos demais profissionais da prevencionista, como o médico do trabalho, que auxilia da gestão de segurança Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 analisando e acompanhando a saúde do trabalhador mediante exames médicos ocupacionais (admissional, periódico, retorno ao trabalho ou mudança de função e o demissional) que ajudam em diagnósticos precoces. Outro aspecto importante que devemos destacar na Engenharia de Segurança do Trabalho é a prevenção de acidentes de trabalho, que além de garantir a integridade física, mental e social do colaborador, deve ser vista como um bom investimento de capital, já que garante a continuidade das operações e redução com os custos do acidente. Atualmente, podemos destacar a função do engenheiro de segurança do trabalho de produzir e manter atualizado o Perfil Profissional Previdenciário (PPP), documento que registra as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores da empresa e que é utilizado para a análise da rescisão do contrato por desligamento e concessão de benefícios por incapacidade, usado durante a perícia realizada pelos médicos do INSS para comprovação do nexo causal. A Engenharia de Segurança do Trabalho só é hoje uma realidade porque foram necessários mais de 100 anos, desde a primeira lei que garantia segurança aos trabalhadores, para que a proteção dos trabalhos atingisse a todos os povos. Foi apenas no século XX, depois da Primeira Guerra Mundial, quando aconteceu a Conferência da Paz, onde foi criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1919, com o início das suas operações, impactando o mundo. Em 1958 e 1959, em Conferência Internacional do Trabalho, foi estabelecida a Recomendação no 112 para os serviços de saúde ocupacional. Podemos destacar na gestão da Saúde e Segurança do Trabalho (SST), realizada pela Engenharia de Segurança do Trabalho, a atenção às recomendações estabelecidas pela OIT em níveis globais e o atendimento às Normas Regulamentadora Nacionais, priorizando as práticas organizacionais que proporcionem aos trabalhadores a vivência do conceito de saúde estabelecido pelas Organizações Mundiais de Saúde (OMS), que estabelece saúde como bem-estar físico mental e social e não apenas ausência de sintomas, por meio dos exames ocupacionais. Sendo assim, a engenharia de segurança deve estar atenta às condições ergonômicas e de conforto ofertadas aos colaboradores, principalmente para os postos de trabalho Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 que exigirem um desgaste psicofisiológico do trabalhador, reduzindo situações que levem aos conflitos e ao estresse. Uma boa prática organizacional para reduzir esses efeitos é o uso de meritocracia como reconhecimento e qualificação profissional. Em um aspecto mais operacional, a Engenharia de Segurança do Trabalho deve priorizar as medidas de controle coletivas e organizacionais ou administrativas, utilizando- se das medidas individuais como complementadoras no processo de antecipação, reconhecimento, avaliação e controle de risco previsto pela NR 9. (BRASIL, 2016) Evolução da formação profissional Assim como as máquinas e os processos evoluíram, a formação profissional também precisou evoluir, saindo do Assistente de Segurança do Trabalho, passando pelo Auxiliar de Segurança do Trabalho até chegarmos no Técnico de Segurança do Trabalho e Engenheiro de Segurança do Trabalho. Vamos conhecer o conceito de cada um desses profissionais. • Auxiliar Técnico de Segurança no Trabalho: é o profissional responsável por promover a segurança e prevenção de riscos. Ele orienta os funcionários a utilizar os EPIs de forma correta, estabelece normas de segurança, informa sobre meios de prevenção de acidentes, inspeciona áreas de trabalho a fim de verificar as condições do ambiente e verifica equipamentos usados para determinar possíveis fatores de risco. O profissional trabalha diretamente com a área de saúde e segurança em empresas (Empregos.com. br, 2015). • Técnico de Segurança do Trabalho: o profissional de Segurança do Trabalho pode atuar em empresas, brigadas de incêndio e instituições públicas e privadas. Sua meta é preservar a segurança dos trabalhadores a partir de programas de prevenção, como a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), que visa a precaução de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho (BRASIL, 2017). • Engenheiro de Segurança: desenvolve, testa e supervisiona sistemas, processos e métodos produtivos, gerencia atividades de segurança no trabalho e do meio ambiente, gerencia exposições a fatores ocupacionais de risco à saúde do trabalhador, planeja empreendimentos e atividades produtivas e coordena equipes, treinamentos e atividades de trabalho (BRASIL, 2017). Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 Se desde os primórdios da sociedade o engenheiro é importante no dia a dia de uma sociedade, seja planejando ou executando projetos, também na área de segurança é fundamental para a procura de soluções, para a concretização de ideias ou mesmo para a administração dos serviços necessários à execução da gestão de segurança. Não seria diferente na engenharia moderna, que se caracteriza pelo uso de ferramentas de gestão atreladas à aplicação de conhecimentos científicos para a solução de problemas (ALVIM, 2006). Engenharia de Segurança do Trabalho moderna A engenharia de segurança que vemos hoje está inserida em uma nova cultura organizacional, que iniciou durante uma reunião em Londres em 1946, onde foi decidido pelos vinte e cinco países representantes criar uma organização internacional, International Organization for Standardization (ISO), que tem como objetivo facilitar a coordenação de normas industriais. Através da ISO foi possível estabelecer como gerenciar os negócios ao longo do processo e não por resultados. Hoje, podemos dizer que todos os segmentos vêm se preocupando com a Segurança e Saúde Ocupacional para reduzir e controlar acidentes de trabalho. As organizações querem ainda servir os clientes com produtos de qualidade, garantir a prevenção no uso de máquinas e equipamentos e qualquer tipo de erro. Junto com a ISO, a norma OHSAS 18001 fortalece o desenvolvimento da política de segurança, possibilitando a padronização das regras que devem ser respeitadas por todos, acrescentando os terceiros em uma conduta de equidade e postura prevencionista. Sendo assim, atualmente, a condução de um Sistema de Gestão da Saúde e Segurança Ocupacional é um elemento fundamental da estratégia organizacional. A implementação de um Sistema de Gestão Integrada permite à organização proteger sua força de trabalho e outras pessoas sob seu controle, cumprir os requisitos legais e facilitar o aprimoramento contínuo. A ISO 45001 é um futuro real na área da Segurança do Trabalho. É a nova norma internacional para uma Gestão da Saúde e Segurança que embora seja semelhante à OHSAS 18001, a nova norma ISO 45001 aproxima a gestão de Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 Segurança do Trabalho a um sistema de gestãointegrada (SGI). Mas qual a finalidade de gerir um Sistema Integrado? Depois de verificar o quanto eram custosos os gastos com acidentes e doenças do trabalho, as empresas descobriram que investindo na prevenção e no controle de perdas, elas reduziriam custos, pois estariam evitando possíveis acidentes e doenças ocupacionais e seus custos com afastamento e benefícios, além de garantir uma boa reputação com os stakeholders, que reconhecem um ambiente mais seguro como um ambiente mais produtivo. Segurança do trabalho no Brasil A história da Segurança do Trabalho acompanha a Revolução Industrial nos países europeus e nos EUA e não seria diferente no Brasil. Porém, como nos demais países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, a Revolução Industrial no Brasil ocorreu de forma tardia, por volta de 1930, e não tardou para que o país fosse um dos que registrava o maior número de acidentes e mortes no trabalho (MACEDO, 2012). Foi apenas após a Constituição Federal de 1988 que a legislação trabalhista começou a se adequar, embora desde 1943 existissem leis para reger as relações de trabalho, como a Consolidação das Leis trabalhista (CLT), e posteriormente a Lei de Planos de Benefícios da Previdência Social. Em 1978 foram aprovadas Normas Regulamentadoras, Capítulo V, Título II, da CLT Relativo à Segurança e Medicina do Trabalho. Em dezembro de 1997 foi alterado o Capítulo V da CLT (relativo à Segurança e Medicina do Trabalho) (BARSANO & BARBOSA, 2018). Hoje são um total de 38 Normas Regulamentadoras e 36 em vigência após as últimas revisões ocorridas em 2022, com significativas alterações na NR1 e na NR9, em que altera as responsabilidades dos empregados e a revogação da NR2, NR27. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 A legislação brasileira ainda permite que estados e municípios estabeleçam uma legislação aplicada à Segurança do Trabalho desde que não alterem a legislação Federal (BARSANO & BARBOSA, 2018). Consultando o site do ENIT, você encontrará na íntegra todas as normas regulamentadoras vigentes, com suas devidas alterações textuais. Importante O Brasil não é o primeiro país a flexibilizar a legislação aplicada à segurança. Outros países buscam essa flexibilização decorrente do processo de globalização, mas sem alterar os direitos absolutos relativos à segurança e saúde do trabalho. F I G U R A 4 N o r m a s R e g u l a m e n t a d o r a s F O N T E Elaborada pela autora. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Evolução da engenharia de segurança Capítulo 1 Resumindo Conhecer as raízes, ou seja, a história da origem de determinados temas sempre nos enriquece de conhecimentos. E foi o que esta unidade lhe proporcionou, através de uma viagem no tempo sobre SST. Vimos que a gestão é elemento essencial para a gestão de Segurança do Trabalho. Em um contexto global, as relações de trabalho se modificaram frente a modificações sofridas no mercado, em destaque o neoliberalismo, com uma busca por produtividade e lucro, além da terceirização dos serviços. @faculdadelibano_ 2 Aspectos econômicos, políticos e sociais Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Capítulo 2 Aspectos econômicos, políticos e sociais Objetivos Ao término deste capítulo você será capaz de conhecer os aspectos econômicos, políticos e sociais que estão envolvidos com os eventos históricos do prevencionismo. Como você imagina que viviam as pessoas que tiveram que migrar do campo (área rural) para as cidades (área urbana)? Como era a distribuição de renda entre a população? E a política? Existia direita e esquerda? Como a política afeta o desenvolvimento do prevencionismo? Entender os aspectos políticos, sociais e econômicos é necessário para entender os surgimentos das leis e dos procedimentos de segurança, e é isso que faremos neste capítulo. Vamos viajar juntos pelo tempo. Contexto histórico Como vimos no capítulo anterior, o trabalho existe na história da humanidade acompanhando a formação e o desenvolvimento das sociedades e suas relações com o meio. Inicialmente, temos uma relação harmônica entre os povos nômades e coletores, que depois desenvolveram a capacidade de confeccionar peças de forma artesanal até a chegada da Revolução Industrial, na qual nos dedicaremos mais detalhadamente no capítulo seguinte. A Revolução Industrial pode servir de marco, onde o conhecimento técnico se torna um diferencial nas relações de trabalho (VIERA, 2019). As relações de trabalho na idade média foram a responsável pela formação da escravidão. “Um homem poderia se tornar escravo como resultado de guerras, de condenações penais, do nascimento etc.” (VIERA, 2019, s.p.). E hoje ainda existe trabalho escravo ou em condições semelhantes a que era imposta aos escravos? Como você definiria essas condições ou as exemplificaria vivenciadas pelos diferentes tipos de Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 escravos desde a história antiga, no Egito, na Grécia, em Roma e até os negros africanos escravizados pelos os navegadores europeus? Para respondermos questões como essas, vamos conhecer um pouco mais sobre os aspectos econômicos, políticos e sociais. Aspectos econômicos Como descrever os aspectos econômicos que envolvem a relações de trabalho e a Segurança do Trabalho? É simples, precisamos analisar as perdas e os custos com os afastamentos por acidentes e doenças ocupacionais. Mas será que esses valores sempre foram levados em consideração ou podemos apontar que quando investir na segurança é mais lucrativo que pagar pelos custos dos afastamentos? Podemos dividir os aspectos econômicos em dois períodos, o período pré-industrial e pós-industrial, por isso é tão importante nos dedicarmos ao estudo da Segurança do Trabalho após a Revolução Industrial. No período pré-industrial, a morte ou os acidentes nos ambientes de trabalho eram comuns devido aos inúmeros perigos enfrentados pelos trabalhadores que eram tratados com fatos corriqueiros, sem grande impacto econômico. As políticas econômicas da época estavam mais preocupadas com os prejuízos gerados pelas guerras e pelas doenças por falta de condições básicas de saúde. Mesmo em condições precárias de trabalho, exposição a condições de risco eminente, como o trato com animais e epidemias que assolavam as cidades, era vital para a economia que o trabalho não parasse, muito menos era possível ter gasto com a prevenção dos acidentes ou com a qualidade de vida. O período industrial iniciou-se com a produção de teares para a indústria têxtil e a máquina a vapor, espalhando-se por toda a Europa, América do Norte e, posteriormente, na segunda metade do século XX, nos países da Ásia, África e América do Sul. Porém, embora temporalmente separadas, as condições relacionadas à Segurança do Trabalho Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 são muito semelhantes, pois foi apenas após a Revolução Industrial que a Segurança do Trabalho ganha inquietação e significado em função do sistema econômico. Mas o que mudou na economia após a Revolução Industrial? Por que agora era economicamente viável investir em segurança? Como você profissional de Segurança do Trabalho explicaria as vantagens de investir em condições mais seguras de trabalho e qualidade de vida? Essa resposta pode ser dada entendendo que os investimentos feitos pelo poder público no processo de industrialização tinham como finalidade tirar os países da condição de subdesenvolvimento, que requer além das indústrias uma sociedade com um poder de compra, ou seja, o aumento da renda per capita e melhores condições de vida. Uma sociedade industrializada que não investe nas condições de trabalho é uma sociedade com saldo negativo em relação aos custos com acidentes e doenças do trabalho. Quando um trabalhador era afastado dosistema de produção, havia uma redução na produção da empresa e consequentemente dos lucros, além da paralisação da produção pelo tempo que levasse o afastamento do acidentado ou que fosse treinado outro para ficar em seu lugar. Para o trabalhador, o afastamento também era economicamente prejudicial, pois mesmo com as legislações já implementadas, que garantiam o direito à previdência social, as indenizações não eram suficientes para manter o padrão de vida. Fica claro que obtemos um resultado negativo com os custos dos acidentes e das doenças ocupacionais, que superam os benefícios do processo industrializado. Por isso, a saúde e a segurança do trabalhador estão ligadas ao triângulo Empresa, Estado e Explicando Melhor Para entender melhor, vamos assistir a um clássico do cinema “Tempos modernos” do autor e diretor Charles Chaplin. No filme podemos observar que o trabalhador é quase parte da máquina, parte da engrenagem da produção. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 Trabalhador (BARSANO & BARBOSA, 2018). Atualmente, a comissão tripartite tem a função de avaliar e propor medidas para implementação da Convenção nº 187 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no país (PANTELÃO, 2009). Aspectos políticos Ao analisar os diversos aspectos que envolvem a segurança do trabalho, percebemos a evolução dos valores morais e sociais dentro da cultura organizacional. Grande parte das mudanças organizacionais foi impulsionada por pensamentos políticos, atendendo as pressões de diversos fatores e agentes sociais, principalmente os aspectos econômicos. Não diferente da abordagem econômica capitalista, que em princípio trata o trabalhador como a parte do processo produtivo, sem direitos legais trabalhistas ou sociais, após a Revolução Industrial, junto com os pensamentos marxistas, o trabalho ganha valor político e social, podendo acompanhar os movimentos operários que lutam contra a sociedade industrializada capitalista. No entanto, ambos, capitalismo e socialismo, falharam na construção de uma política prevencionista e protetiva ao trabalhador. Podemos definir tecnicamente o ambiente ocupacional como um local que expõe os trabalhadores aos riscos inerentes às suas atividades, como os riscos químicos, físicos e biológicos, causadores de acidente e doenças ocupacionais, além daqueles relacionados ao ambiente de trabalho que podem induzir ou estimular o aparecimento de doenças do trabalho, cabendo ao Estado regulamentar os requisitos legais para F I G U R A 5 Comissão tripartite F O N T E Elaborada pela autora. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 garantir aos trabalhadores o direito de exercer suas atividades de forma segura e com qualidade de vida. A Revolução Francesa era baseada nos ideais de liberdade e igualdade que tinha a burguesia e os trabalhadores lutando contra um governo monarquista. O conceito de igualdade deveria ser concedido por um político constituinte com representes da burguesia e do povo (SILVA, 2019). Foi nesse cenário que aconteceu a criação do conceito de direita. Aqueles que defendiam a monarquia sentavam-se à direita da câmara, e os que defendiam a burguesia e trabalhadores sentavam-se à esquerda da câmara. Atualmente, ainda usamos na política os conceitos de direita e esquerda, mas não mais pelo local que se encontram posicionados no plenário, mas pela posição que assumem diante da sociedade, a favor ou contra as governantes, sem que necessariamente estejam do lado dos direitos dos trabalhadores. No Brasil podemos acompanhar os movimentos econômicos, políticos e sociais que levaram a um posicionamento político em prol dos direitos dos trabalhadores. Ainda no tempo do Brasil Colônia, com a sociedade que aceitava o trabalho escravo com naturalidade, com as atividades econômicas concentradas nos engenhos de açúcare mineração, assim como o poder político que era orquestrado pelos senhores de engenho juntamente com os remanescentes da corte imperial, não havia espaço para uma política voltada para a igualdade social e direitos iguais. Mesmo após a abolição, as desigualdades sociais se mantiveram, fruto de uma política formada por uma burguesia latifundiária. A Revolução Industrial no Brasil era estimulada por políticas latifundiárias e uma burguesia que entendiam que esse era o caminho para ultrapassar a posição de país subdesenvolvido, no qual vemos uma sociedade massacrada pelo mercado, sem Reflita A pergunta agora é: o estado é capaz de garantir o valor da vida humana? Para responder a essa pergunta é preciso analisar os diferentes cenários políticos que nos são apresentados no passado e na atualidade. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 direitos trabalhistas, mesmo já havendo um movimento protecionista na Europa. Vemos trabalhadores brasileiros, homens, mulheres e crianças trabalhando em condições insalubres e precárias. Apenas após a Segunda Guerra Mundial surgem no Brasil leis de proteção ao trabalhador no governo de Getúlio Varga (1945), sem muitas portarias regulamentadoras. Após esse período, podemos destacar a Portaria nº 3.237/72, que regulamenta a obrigatoriedade do SESMT, baseada na Recomendação OIT 112, e a Portaria nº 3.214/78, que instituiu, junto ao extinto Ministério do Trabalho e Emprego, as Normas Regulamentadoras. Até a Constituição Federal de 1988, as empresas encontravam dificuldades em implementar as ações que atendessem aos requisitos legais constituintes das NRs, assim como o governo em fiscalizar. Na década de 1990, temos a publicação da Portaria MTE 02/92, constituindo um sistema tripartite constituído por cinco representantes do governo, cinco dos empregadores e cinco dos empregados, incluindo a participação dos poderes políticos representados pelo Ministério da Saúde, Previdência e Assistência Social. Foram longos anos até chegarmos nas últimas atualizações propostas pelas forças políticas atuais que propuseram fortes mudanças nos direitos trabalhista e previdenciário, incluindo alterações textuais e revogação de algumas NRs. Isso muito se deve à existência de forças políticas conservadoras, muito influenciadas pelos efeitos econômicos e seus representantes. Aspectos sociais Os estudos socioeconômicos nos mostram que a Revolução Industrial gerou mais que uma sociedade mecanizada, mas também abriu novas fontes de trabalho, emprego melhorias e soluções tecnológicas. Mas como toda mudança, ela também apresenta aspectos negativos em relação à industrialização que envolve problemas sociais. Isso porque os trabalhadores muitas vezes eram tratados piores que escravos, já que os escravos tinham seus senhores para comercializá-los e, por isso, tinham valor monetário. Já o trabalhador custava pouco e poderia ser facilmente trocado por um mais acessível Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 economicamente. Não era socialmente e muito menos economicamente viável cultivar políticas prevencionistas. Vemos então que o trabalho tinha suas regras estabelecidas pelo empregador, que se beneficiava da lei da oferta e da procura para modificar as regras dos contratos de trabalho. Por isso, foi preciso o posicionamento político do Estado para estabelecer regras às condições de trabalho, mas que ainda não preconizava um visão de segurança no trabalho e sim uma ordem econômica e social (MATOS & MASCULO, 2011). Podemos destacar diversos aspectos encontrados no ambiente de trabalho que impactavam diretamente na saúde e segurança e também no ambiente e suas relações sociais como: falta de saneamento básico, ausência de higiene e organização, inexistência de proteção jurídica do trabalhador e degradação ambiental (MORAES, 2009). As pressões sociais levaram a manifestações públicas contra o trabalhodesumano, levando ao surgimento da Lei de Prevenção da Saúde e da Moral (1802), que estabelecia a proteção dos trabalhadores, porém não teve efeitos práticos por falta de instrumentos para a sua aplicação efetiva. A legislação limitava a um máximo de doze horas de Reflita Supondo que um homem vivesse cerca de 50 a 60 anos na primeira Revolução Industrial. Se ele trabalhasse dos 15 aos 50 anos seriam 35 anos de trabalho, considerando que crianças e idosos apresentam produtividade negativa, seriam 35 anos de vida produtiva. Agora, considere que essa mesma pessoa sofresse um acidente e ficasse incapacitado aos 30 anos de idade, seriam menos 15 anos de produção. Sem contar os acidentes que levavam a morte. Então eu te pergunto, quanto vale a vida humana? Não muito diferente do cenário atual, valia o quanto podia produzir, portanto era aceitável o trabalho infantil nas fábricas. Atualmente não existente em termos oficiais, mas ainda sendo combatido tanto para o cumprimento dos dispositivos legais como por uma parte da sociedade. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 trabalho diário e proibia o trabalho noturno, a limpeza das paredes e a ventilação dos dormitórios, mas não estabelecia restrições quanto à idade mínima de admissão. Ou seja, a política prevencionista vem atrelada aos valores morais da sociedade. O direito do trabalho foi gradativamente estabelecendo critérios de segurança no trabalho, passando a viver com outras normas, muitas delas de origem sindicalistas, como a proteção ao desemprego e negociaçõe s coletivas. Aquele que é considerado um marco na legislação prevencionista da era industrial “Lei da fábrica” (FACTORY ACT, 1833), proibia o trabalho noturno aos menores de 18 anos; as fábricas deveriam ter escolas, que deveriam ser frequentadas por todos os trabalhadores menores de 13 anos; a idade mínima para o trabalho era de 9 anos e um médico deveria atestar que o desenvolvimento físico da criança correspondia a sua idade cronológica, além de definir uma jornada de trabalho diária de 12 horas. A lei foi ainda ampliada em 1867, estipulando a proteção de máquinas e controle de poeiras nocivas. A inspeção médica nas fábricas iniciou em 1897, com a adoção de leis de compensação (MATOS & MASCULO, 2011). No século XX vemos um movimento globalizado na busca de unificar conceito relativos à responsabilidade social e segurança. A criação da OIT teve um papel relevante contra as questões do trabalho, tanto no âmbito humanitário, lutando contra as situações injustas e degradantes de trabalho, quanto econômicas e políticas. Assim como os demais países que tiveram uma Revolução Industrial mais tardia, o Brasil ainda esbarra em fatores sociais, políticos e econômicos que limitam a aplicação e o cumprimento das exigências legais e políticas do prevencionismo. Como consequência, a sociedade ainda se faz valer dos seus direitos trabalhistas por vias civis e criminais mediante ações judiciais. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Aspectos econômicos, políticos e sociais Capítulo 2 Resumindo Quando se contextualiza a Segurança do Trabalho, não podemos apenas abordar os aspectos físicos do trabalhador, pois envolvem também aspectos econômicos, políticos e sociais, como vimos neste capítulo. As legislações trabalhistas precisam garantir a segurança física do trabalhador, evitando os acometimentos de acidentes e doenças ocupacionais e combater o desemprego e as desigualdades sociais. Não somente é uma forma de garantir direitos para o trabalhador e sua família, mas também seu papel na sociedade, não podendo ser tratado como produtos descartáveis, valendo-se da lei da oferta e da procura. Além disso, ainda podemos citar inúmeros aspectos econômicos envolvidos na mão de obra como um todo. As questões econômicas, de certa forma, impulsionaram o avanço protecionista no intuito de reduzir os custos com acidentes e doenças ocupacionais. @faculdadelibano_ 3 História do prevencionismo Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Capítulo 3 História do prevencionismo Objetivos Ao término deste capítulo você conhecerá alguns marcos importantes da caminhada prevencionista, mostrando sua relevância econômica, política e social até chegarmos ao século XX com suas modernidades na revolução 4.0. Sintetizando a história A história prevencionista pode ser descrita como envolvente e reveladora, que nos motiva cada vez mais conhecer e entender os processos que envolvem um contexto histórico e social, principalmente quando evidenciamos saltos que envolvem os conhecimentos técnicos científicos e transformações tecnológicas inovadoras. O advento das máquinas foi apenas o primeiro marco dessa longa jornada. Depois da primeira Revolução Industrial, tivemos ainda o descobrimento do poder energético dos combustíveis fósseis, o surgimento dos bancos e processadores de dados até a incrível habilidade de transformar uma imagem digital em produtos 3D, que atrelados à inteligência artificial proporcionam ao mundo um avanço nas relações do homem com o meio. O vice-presidente da CNI, Paulo Afonso Ferreira, afirma em seu artigo para a agência de notícias CNI, no portal da indústria, que o Brasil precisa estar preparado para enfrentar os avanços tecnológicos, e destaca a evolução das máquinas e os impactos na humanidade: Por muito tempo temia-se o avanço tecnológico e não tínhamos a noção de onde poderíamos chegar. Falava-se em substituir o homem pela máquina, mas o que podemos perceber é que houve uma integração entre eles. O maior patrimônio das empresas é seu capital intelectual e de seus colaboradores. O ser humano, principalmente dotado Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 de conhecimento, será sempre necessário na concepção de produtos, serviços e na interface com a máquina. (FERREIRA, 2017, on-line) Como antecipar, reconhecer avaliar e prevenir os novos riscos presentes nos ambientes de trabalho transformados pelas as inovações tecnológicas? Esse é o grande desafio do profissional prevencionista no mercado atual. Há uma necessidade em desenvolver novas habilidades e competências para adequar os novos postos de trabalho, automatizados, conectados, globalizados sem abrir mão da humanização desses setores. F I G U R A 6 Globalização tecnológica F O N T E pixabay Reflita A NR 24 trata das condições sanitárias e do conforto nos locais de trabalho, estabelecendo condições mínimas de higiene e conforto no ambiente ocupacional. Logo no item 24.2.1 é estabelecido que as instalações sanitárias devem ser dotadas de lavatórios (local para lavar as mãos e fazer assepsia). Com a tecnologia, esse lavatório atualmente pode ser dotado de torneiras com acionamento automático e secadores com sensores de presença e secagem por circuito de ventilação de ar. Todo esse sistema evitaria a contaminação dos colaboradores ao tocar nos dispositivos de acionamento dos lavatórios e secadores. Vejam como a tecnologia pode ser positiva para o prevencionismo. E você? Como você adequaria a NR24 aos avanços tecnológicos em prol do prevencionismo? Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 Agora que já exercitamos nossas habilidades e competências na gestão de SST, vamos embarcar no conhecimento dos marcos históricos que separamos para vocês antes, durante e depois da Revolução Industrial até chegarmos aos dias de hoje. Prevencionismo pré-Revolução Industrial Assim como a história do trabalho está diretamente ligada à história do homem, o mesmo podemos dizer que os acidentes de trabalho fazem para da humanidade, assim como as doenças ocupacionais fazem parte da história do trabalho e consequentemente do homem. Ao longo da história o trabalho, o causador de acidentes tem sido como o trabalho dos escravos, que era exigido o exercício até a exaustão na construçãode cidades e monumentos, greco-romanos ou os antigos artesãos medievais, que tinham suas mãos lesionadas na confecção e modelagem de peças. Nesse mesmo período, podemos pontuar o registro em papiros egípcios e greco-romanos a ocorrências de doenças ocupacionais, algumas ligadas aos agentes químicos e trabalhos manuais e as tentativas de preveni-las. Os avanços nos conhecimentos científicos à aplicação de técnicas não ocorreram em um único momento, muitos desses avanços estão ligados a filósofos e pensadores. Alguns marcos que podemos destacar são os escritos de Hipócrates, Aristóteles e Platão, referindo- se a trabalhadores das minas de estanho, doenças de corredores e deformações do esqueleto em certas profissões, respectivamente. Chumbo, zinco e F I G U R A 7 Doenças ocupacionais F O N T E pixabay Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 mercúrio eram alguns dos elementos tóxico presente nas minas e causador de doenças ocupacionais. Seus conhecimentos científicos também eram usados para solucionar problemas com os artefatos produzidos, baseados em seu funcionamento, fenômenos físicos e químicos até chegarmos à construção de máquinas que aplicavam todo esse conhecimento adquirido para otimização dos recursos e do meio. No entanto, não vemos o prevencionismo seguir a mesma linha temporal na história, considerando a higiene e segurança ocupacional um estudo recente, levando a acreditar que o prevencionismo tomou importância na era moderna, apenas no período pós- Revolução Industrial. A idade média chega e a ausência prevencionista na sociedade europeia no período pré-revolução, que estava mais preocupada com as perdas e mortes ocorridas em função de guerras e epidemias, também. O fato é que os trabalhadores das minas continuaram morrendo por intoxicação ou que os operadores da imprensa sofreram lesões ou perda total dos membros nas prensas não era um assunto relevante. Você Sabia? O prevencionismo aparece nos escritos do filósofo Galeno no século II, fazendo menções de contaminação por substâncias tóxicas presentes nas minas e recomenda o uso de máscaras de bexigas. Você Sabia? O chapeleiro louco de Alice no País das Maravilhas era exposto ao mercúrio durante a confecção de feltro, que resultava na instabilidade emocional e irritabilidade (SILVEIRA; VENTURA; PINHEIRO, 2004). Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 A idade moderna é marcada por importantes acontecimentos históricos, com a queda da Bastilha e a Revolução Francesa, mas na história prevencionista ela se destaca pela obra de Bernadino Ramazzini, que em seu livro De Morbis Artificum Diatriba descreve os agravos à saúde do trabalhador, sendo o primeiro a descrever detalhadamente sobre doenças ocupacionais. O destaque para esse estudo era a forma que o autor usou para coletar seus dados clínicos, perguntando a cada paciente: “Qual seu trabalho?”, o que lhe possibilitou medidas preventivas (MACEDO, 2012). Mas afinal, o que leva os empregados e empregadores a se importarem efetivamente com a saúde e segurança no trabalho? Isso nós iremos descobrir estudando os eventos que ocorreram após a Revolução Industrial. Prevencionismo pós-Revolução Industrial Historicamente podemos definir que a Revolução Industrial ocorre no século XVIII, na Europa e depois segue para a América do Norte. Como marco histórico, podem destacar a invenção da máquina a vapor (1784), que trouxe um grande aumento da produtividade e ampliando o consumo de bens. Porém, não apenas benefícios foram gerados pela revolução, mas também um grande custo para os trabalhadores, principalmente os acidentes causados pela falta de treinamentos e proteção para as máquinas, agora tão importantes para o processo produtivo, e que muitas vezes levavam à morte. Quando não era o óbito o produto do ambiente de trabalho insalubre, era a perda da audição devido aos elevados níveis de ruído, sem contar os problemas de saúde pública gerada pela má condição de higiene nos ambientes. Respondendo à pergunta do item anterior: mas afinal, o que leva os empregados e empregadores a se importarem efetivamente com a saúde e segurança no trabalho? A chegada das máquinas torna mais visível a até então distorcida linha que separava as classes sociais, de um lado os trabalhadores, pobres e de outro os empregadores, ricos. Para o pobre, a máquina é um competidor de sua força de trabalho, enquanto que para os ricos ela era a fonte de mais lucro e menos gastos. A falta de uma legislação protecionista e o aumento da concentração populacional urbana gerou uma pressão social que obrigou políticos e legisladores, primeiramente na Inglaterra, com a lei de “saúde Moral dos aprendizes” e depois em outros países europeus introduzirem normas Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 jurídicas, com a lei que protegiam os acidentados e seus dependentes criados na Alemanha em 1884. À medida que as fábricas ganhavam novas proporções, o acometimento de doenças ocupacionais e não ocupacionais cresciam, até que em 1832 John Marshall contratou o primeiro médico a atuar em suas fábricas. Logo após, em 1833, foi decretado o Factory Act, considerada a primeira legislação abrangendo as condições de trabalho nas fábricas. Somente em 1844 é que foram acrescentados os itens referentes às proteções com máquinas e o registro de acidentes (MORAES, 2009). Com o surgimento de novos pensamentos, os chamados pensamentos liberais, faz aparecer novos estudos que incluíam a Ciência Social (1833) e Higiene Social (1838), que estimulam a ampliação legal da Segurança do Trabalho e proporcionam as modificações em leis já existentes, como a proteção para máquinas e a ventilação mecânica para controlar a poeira dos ambientes. No Brasil, a grande frequência de acidentes acompanhada pelas doenças ocupacionais, ainda subnotificadas, é mais alta do que em outros países, principalmente quando comparado com os países europeus (FILGUEIRAS, 2017). Levando em conta que o processo industrial no Brasil iniciou tardiamente, quando os países europeus já adotavam medidas prevencionista, era de se esperar que o Brasil já despontasse para os avanços Reflita Você consegue relacionar o prevencionismo com os conhecimentos científicos? Pois é assim que podemos entender o surgimento das leis que irão criar uma cultura prevencionista. Elas surgem a partir de uma pressão social acompanhada pela evolução do conhecimento. No momento que o homem é pressionado, seja por condições de trabalho sub-humanas, no caso dos pobres, ou por cobranças da sociedade, no caso dos ricos, o homem se vê necessitado de buscar novos conhecimentos, esse conhecimento proporciona o surgimento de pensamentos prevencionistas que se materializam nas leis e posteriormente na constitucionalização desses direitos e deveres. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 industriais prevencionistas, mas como podemos ver, isso não aconteceu, como ainda não acontece. Embora as transformações europeias tenham influenciado o direito trabalhista, junto com a entrada na Organização Internacional do Trabalho (1919), foi apenas após a Segunda Guerra que as primeiras leis de proteção ao trabalhador surgiram. Os fatos marcantes foram a Consolidação das Leis Trabalhista (CLT, 1943), a criação da Associação Brasileira de Prevenção de Acidentes (ABPA, 1945), a Fundacentro (1966), a obrigatoriedade dos Serviços Médicos e de Higiene e Segurança do Trabalho (1972) e a publicação das primeiras Normas Regulamentadoras (1978) (MATOS & MASCULO, 2011). Revolução 4.0 Acompanhe o infográfico e descubra as principais características das Revoluções industriais ocorridas desde da primeira revolução no século XVIII até a Revolução 4.0, no século XXI. A revolução 4.0 é um movimento de desenvolvimento, que está transformandoos processos industriais tradicionais nos apresentando a indústria do futuro, a qual é de F I G U R A 8 E v o l u ç ã o d a i n d ú s t r i a F O N T E Elaborada pela autora. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 extrema importância a sua discussão, para que possamos nos adaptar a essa nova onda. A indústria 4.0 é o um conceito de “fábricas inteligentes” que desenvolvem estratégias que permitam alinhar as novas tecnologias aos meios de produção. O conceito da Indústria 4.0 está baseado no uso de tecnologia e automação que podem permitir máquinas a se adaptarem às mudanças nas etapas de produção, tornando cada etapa independente através de sistemas cibernéticos. Você deve estar se perguntando, qual a relação com a história do prevencionismo? Na revolução 1.0, foi preciso estabelecer os critérios de saúde e segurança nas indústrias; na revolução 2.0, o prevencionismo aparece voltado para ações globalizadas para atender às instituições internacionais OIT e ONU; na revolução 3.0, as ações prevencionistas se voltam para incorporação do cuidado com o meio ambiente por meio das políticas de SMS e desenvolvimento sustentável. E na Revolução 4.0? São os novos capítulos que deveremos escrever para adequar as mudanças nas relações de trabalho geradas pela Revolução 4.0. Haverá mudanças acompanhadas pordesemprego e queda dos salários em função da substituição e extinção de alguns cargos nas indústrias, mas também haverá a criação de novas empresas e novas indústrias, porém com um número reduzido de novos empregos, que surgiram principalmente para atender a demanda de criatividade e desenvolvimento de novas ideias. Torna-se então indispensável, para entrar na concorrência das inovações, as empresas entrarem em modelos de gestão que auxiliem a tomada de decisão e as estratégias de negócio, adotando medidas proativas em sua gestão de saúde e segurança que se inicia no processo de seleção e contratação de profissionais que demonstrem habilidades Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho História do prevencionismo Capítulo 3 Resumindo Quando se contextualiza a Segurança do Trabalho, não podemos apenas abordar os aspectos físicos do trabalhador, pois envolvem também aspectos econômicos, políticos e sociais, como vimos neste capítulo. As legislações trabalhistas precisam garantir a segurança física do trabalhador, evitando os acometimentos de acidentes e doenças ocupacionais e combater o desemprego e as desigualdades sociais. Não somente é uma forma de garantir direitos para o trabalhador e sua família, mas também seu papel na sociedade, não podendo ser tratado como produtos descartáveis, valendo-se da lei da oferta e da procura. Além disso, ainda podemos citar inúmeros aspectos econômicos envolvidos na mão de obra como um todo. As questões econômicas, de certa forma, impulsionaram o avanço protecionista no intuito de reduzir os custos com acidentes e doenças ocupacionais. @faculdadelibano_ 4 Entidades públicas e privadas Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Capítulo 4 Entidades públicas e privadas Objetivos Ao término deste capítulo você conhecerá o conceito de entidades públicas e privadas e os aspectos relevantes sobre a Saúde e Segurança do Trabalho, em especial sobre o SESMT. Conceitos legais Atualmente, a prevenção de acidentes de doenças do trabalho está presente em diferentes setores de trabalho, com inúmeras leis criadas para garantir as condições de higiene, e segurança do trabalho. Vários setores estão envolvidos no processo de prevencionismo, todos com o objetivo de garantir e gerar melhorias nas condições de trabalho no Brasil. Como é a aplicação dessas leis pelas entidades públicas e privadas? Existem diferenças no âmbito legal? E a administração e fiscalização dessas entidades? Para responder a essas perguntas, é preciso estabelecer os conceitos de entidades públicas e privadas. Hely Lopes Meireles explica que Entidade é a pessoa jurídica, pública ou privada. As entidades são classificadas em estatais, autárquicas, fundacionais e paraestatais, que podem atuar em vários setores, inclusive com entidades prevencionista (MAFRA, 2005). As entidades estatais e entidades autárquicas são pessoas jurídicas de direito público. As entidades fundacionais são pessoas jurídicas de direito público ou privado. As entidades fundacionais particulares podem ser criadas por autorização legal, enquanto que as fundações públicas são criadas por lei. As entidades empresariais são pessoas jurídicas de direito privado, sob a forma de economia mista ou empresas públicas. As entidades paraestatais são pessoas jurídicas de direito privado, são os conhecidos sistemas autônomos (SESI, SENAC, SENAI). Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 Vamos primeiro tratar dos deveres constituídos às atividades empregadoras, assim como seus direitos, conforme o estabelecido à legislação do trabalho. Por fim, meramente didático, abordaremos em uma segunda parte os direitos e deveres dos empregados. Direitos e deveres prevencionistas As entidades públicas e privadas, segundo a lei trabalhista vigente em nosso país, apresentam direitos e deveres para a segurança e da medicina do trabalho, destacando: Art. . 154 - A observância, em todos os locais de trabalho, do disposto neste Capitulo, não desobriga as empresas do cumprimento de outras disposições que, com relação à matéria, sejam incluídas em códigos de obras ou regulamentos sanitários dos Estados ou Municípios em que se situem os respectivos estabelecimentos, bem como daquelas oriundas de convenções coletivas de trabalho. Art. 155 - Incumbe ao órgão de âmbito nacional competente em matéria de segurança e medicina do trabalho: I - estabelecer, nos limites de sua competência, normas sobre a aplicação dos preceitos deste Capítulo, especialmente os referidos no art. 200; II - coordenar, orientar, controlar e supervisionar a fiscalização e as demais atividades relacionadas com a segurança e a medicina do trabalho em todo o território nacional, inclusive a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho; III - conhecer, em última instância, dos recursos, voluntários ou de ofício, das decisões proferidas pelos Delegados Regionais do Trabalho, em matéria de segurança e medicina do trabalho. Art. 156 - Compete especialmente às Delegacias Regionais do Trabalho, nos limites de sua jurisdição: I - promover a fiscalização do cumprimento das normas de segurança e medicina do trabalho; II - adotar as medidas que se tornem exigíveis, em virtude das disposições deste Capítulo, determinando as obras e reparos que, em qualquer local de trabalho, se façam necessárias; III - impor as penalidades cabíveis por descumprimento das normas constantes deste Capítulo, nos termos do art. 201. Art. 157 - Cabe às empresas: I - cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho; Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 II - instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais; III - adotar as medidas que lhes sejam determinadas pelo órgão regional competente; IV - facilitar o exercício da fiscalização pela autoridade competente. Art. 158 - Cabe aos empregados: I - observar as normas de segurança e medicina do trabalho, inclusive as instruções de que trata o item II do artigo anterior; Il - colaborar com a empresa na aplicação dos dispositivos deste Capítulo. Parágrafo único - Constitui ato faltoso do empregado a recusa injustificada: a) à observância das instruções expedidas pelo empregador na forma do item II do artigo anterior; b) ao uso dos equipamentos de proteção individual fornecidos pela empresa. Art. 159 - Mediante convênio autorizado pelo Ministro do Trabalho, poderão ser delegadas a outros órgãosfederais, estaduais ou municipais atribuições de fiscalização ou orientação às empresas quanto ao cumprimento das disposições constantes deste Capítulo. As entidades públicas e privadas devem assegurar aos trabalhadores o direito à igualdade no acesso ao emprego, no trabalho e na formação profissional, direito à igualdade e não discriminação, condições de trabalho, proibição de discriminação e assédio, além da aplicação dos instrumentos de regulamentação coletiva e regulamentos internos. O papel do serviço especializado em engenharia e medicina do trabalho (SESMT) Apesar de existir hoje no Brasil uma legislação prevencionista, que sofre atualizações e adequações às mudanças nas relações de trabalho, veremos a importância do SESMT e de sua constante busca pela melhoria das condições de saúde e segurança no ambiente de trabalho. Aqui destacamos a relação tripartite, governo, empresa e empregador que apesar de investirem na saúde e segurança do trabalho os trabalhadores ainda sofrem com as consequências da exposição aos agentes de riscos ocupacionais em ambientes laborais, assim como as condições inseguras que ainda são responsáveis por acidentes no trabalho. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 Não podemos ignorar as novas tecnologias e novas atividades- profissões que surgem continuamente e com elas condições de trabalho diferenciadas, porém não menos causadoras de doenças ocupacionais, como o estresse ocupacional, a síndrome de Bornout, os Distúrbios Osteomolecular Relacionadas ao Trabalho (DORTs). Para que os trabalhadores possam atuar em seu ambiente de trabalho que atenda às condições de saúde e segurança do trabalho, é necessário um constante processo de formação e informação acerca de direitos e deveres para evitar a falta de saúde e segurança em detrimento do lucro. Explicando Melhor Um motorista está direcionando sua carga por uma rodovia pública até seu destino, quando durante o trajeto ele nota que os comandos de frenagem não estão funcionando com 100% de sua capacidade. Nesse caso dizemos que o motorista está em uma condição insegura - situações presentes no ambiente de trabalho e que colocavam em risco a integridade física e/ou a saúde das pessoas, são defeitos, falhas, irregularidades técnicas e falta de recursos de segurança. Acontece sem a interferência do trabalhador, pois ele está vulnerável a essas condições – mesmo que ele chegue ao destino sem que ocorra um acidente. As condições inseguras podem ser agravadas por atos inseguros – relacionados à falha humana – caso o motorista tenha ingerido bebida alcoólica ou faça uma ultrapassagem em local proibido, por exemplo. Você Sabia? A NR04 determina a obrigatoriedade da implantação do SESMT em que não abrange a proteção de agentes públicos que atuam em uma relação de trabalho não celetista, ficando esses susceptíveis à falta de comprometimento do Estado em adotar políticas de saúde e segurança. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 Nossa legislação trabalhista é compostas de leis referentes à proteção à saúde do trabalho em esfera Federal, Estadual, Distrital e Municipal, não ficando as entidades desobrigadas ao cumprimento destas em detrimento a outras, entre elas podemos destacar a Constituição Federal, o Código Penal Brasileiro, a CLT, o Estatuto dos Servidores Públicos e a Portaria 3.214/78, que regulamenta as NRs, que entre outros requisitos legais estabelece que os empregadores implementem o SESMT estando este submetido às ordens da empresa e à fiscalização da Secretaria do Trabalho (extinto MTE). A normativa especifica em seu item 4.1: As empresas privadas e públicas, os órgãos públicos da administração direta e indireta e dos poderes Legislativo e Judiciário, que possuam empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, manterão, obrigatoriamente, Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho, com a finalidade de promover a saúde e proteger a integridade do trabalhador no local de trabalho. (BRASIL, 2016) Porém, a norma não estabelece que a implementação e manutenção do SESMT sejam apenas para empresas que possuem contrato de trabalho no que rege a CLT, desobrigando assim, de forma equivocada, a implementação do SESMT nos órgãos públicos da administração direta e indireta, e poderes Legislativo e Judiciário ficam desobrigados. Outra questão que fragiliza a implementação do SESMT é a terceirização permitida. Esse tendencioso pensamento por parte do Estado aumenta a importância do SESMT em empresas privadas que esperam que os profissionais ligados a este serviço realizem milagres prevencionistas em função de sua gestão, cobrando resultados mesmo mantendo o serviço provido de poucos investimentos ou mesmo mantendo-os apenas para atendimento à obrigação legal, ao invés de ampliar suas ações na implantação de uma política de segurança do trabalho, com ações que efetivamente previnam os trabalhadores de acometimentos de doenças e acidentes ocupacionais. O SESMT é composto por profissionais da área de Saúde e Segurança do Trabalho. a. Engenheiro de Segurança do Trabalho: engenheiro ou arquiteto portador de certificado de conclusão de curso de especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho, em nível de pósgraduação. b. Médico do trabalho: médico portador de certificado de conclusão de curso de Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 especialização em Medicina do Trabalho, em nível de pós-graduação, ou portador de certificado de residência médica em área de concentração em saúde do trabalhador ou denominação equivalente, reconhecida pela Comissão Nacional de Residência Médica, do Ministério da Educação, ambos ministrados por universidade ou faculdade que mantenha curso de graduação em Medicina. c. Enfermeiro do trabalho: enfermeiro portador de certificado de conclusão de curso de especialização em Enfermagem do Trabalho, em nível de pós-graduação, ministrado por universidade ou faculdade que mantenha curso de graduação em enfermagem. d. Auxiliar de enfermagem do trabalho: auxiliar de enfermagem ou técnico de enfermagem portador de certificado de conclusão de curso de qualificação de auxiliar de enfermagem do trabalho, ministrado por instituição especializada reconhecida e autorizada pelo Ministério da Educação. e. Técnico de Segurança do Trabalho: técnico portador de comprovação de registro profissional expedido pelo Ministério do Trabalho (BRASIL, 2016) Serviço especializado em engenharia e medicina do trabalho – entidades privadas Nos setores privados, os profissionais além de serem mal remunerados, muitos têm suas funções desviadas ou não é permitido que exerçam sua função com autonomia em relação ao empregador e aos trabalhadores e servem para que a empresa tenha alguém a quem possa delegar a responsabilidade pela falta de condições seguras na empresa. Para evitar essas práticas equivocadas em setores privados, o Estado, mediante fiscalização do trabalho, exercida pelas Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), orientam, notificam e até mesmo autuam as empresas de forma a garantir o real cumprimento da legislação. Serviço especializado em engenharia e medicina do trabalho – entidades públicas Não apenas os trabalhadores com contratos de trabalho regidos pela CLT são acometidos por acidentes e doenças ocupacionais. Os trabalhadores não celetistas que atuam em Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 entidades públicas são expostos a acidentes e doenças ocupacionais em total descaso do Estado para com seus servidores, que em diversos setores atuam em condições inseguras, inadequadas em exposição ao risco iminente de óbito. A ausência do SESMT aumenta o número de afastamento de servidores públicos acometidos por acidentes e doenças do trabalho, aumentandoo gasto previdenciário com auxílio-doença. Embora o Estado tenha consciência da responsabilidade pelos danos causados aos servidores, ainda há a omissão por parte das entidades públicas. Alguns passos vemos ser dados em função da disponibilidade de vagas em concursos públicos para profissionais do SESMT, que assim poderá realizar, como as entidades privadas, a implementação do SESMT. Essa nova conduta por parte do Estado contribuirá para a redução das estatísticas de acidentes de trabalho além da redução de gastos previdenciários em virtude dos afastamentos por acidentes e doenças ocupacionais. Podemos ainda, certamente, esperar um aumento na produtividade e eficiências dos serviços públicos, visto que por experiências das entidades privadas em seus resultados, o trabalhador mais saudável representa mais rendimento de suas atribuições. Terceiro setor Atualmente é uma realidade na economia global o aumento da atuação das organizações do terceiro setor, o que leva ao crescimento de trabalhadores atuando em organizações sem fins lucrativos. E como funciona a legislação trabalhista prevencionista no terceiro setor? Definição O terceiro setor é formado pelas organizações privadas que desenvolvem atividades em favor da sociedade, sem fins lucrativos, chamadas de ONGs, que atuam independente dos demais setores, mesmo que possam receber investimentos ou trabalhar em parceria com demais setores (ALBUQUERQUE, 2006). Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Entidades públicas e privadas Capítulo 4 Entre as entidades do terceiro setor podemos apresentar contratos trabalhistas que regem o trabalho de organizações obedecendo às regras da CLT, observando os elementos que caracterizam a relação de emprego, tais como pessoalidade, continuidade, remuneração e subordinação hierárquica. Devemos ter em mente que para a legislação brasileira são considerados trabalhadores também os contratos de trabalho por prazo indeterminado, contrato de trabalho por prazo determinado (contratação desde que a natureza e a transitoriedade do trabalho fundamentam a predeterminação do prazo, prevista na CLT), contrato de aprendizagem, prevista pela Constituição Federal, assim como a CLT autoriza a contratação de menores – entre 14 e 18 anos de idade –, desde que na condição de aprendizes, com contrato de trabalho especial e em consonância com os requisitos da Lei nº 10.097/2000 e o trabalho autônomo: realizado por pessoa física e em caráter de não exclusividade. O RPA é a maneira legal de realizar pagamento para qualquer pessoa física que preste serviço pontual a uma empresa ou organização e que não possua emissão de notas fiscais. O que nós precisamos agora é agregar as normas de saúde e segurança, unificando essa nova gestão às normas existentes. Resumindo As entidades podem ser divididas pelo direito administrativo em entidades públicas e privadas. Para a legislação prevencionista essa divisão abre um grande abismo na implementação de políticas de saúde e segurança prevencionista do trabalho, sendo as entidades públicas e privadas obrigadas por lei a constituírem o Serviço de Engenharia e Medicina do Trabalho (SESMT) para aquelas que estabelecem contratos de trabalho baseados na CLT, porém ficando desobrigadas as entidades públicas com contratos não estabelecidos pela CLT a constituírem o SESMT. No entanto, os servidores estatutários também estão expostos a acidentes e doenças ocupacionais, o que aumentam os ônus do Estado, que acaba tendo seus recursos previdenciários aplicados em benefícios a trabalhadores afastados por acidentes e doenças do trabalho. Introdução à Engenharia de Segurança do Trabalho Referências ALBUQUERQUE, A. C. Terceiro setor: história e gestão de organizações. São Paulo: Summus Editorial, 2006. 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