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ANÁLISE DE CASOS CLÍNICOS 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Renato Staevie Baduy 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
 A psicanálise sustenta uma posição única e uma diferença radical em 
relação a outras modalidades de fazer clínico. Inclusive, o fazer clínico postulado 
por diversas abordagens da psicologia é credor da invenção freudiana de escuta 
e tratamento pela via da palavra. Porém, ainda se ouve em diversos círculos 
sociais certa caricatura e visão estigmatizada de como a clínica psicanalítica 
acontece na prática. 
 Esse cenário, embora nos seja contemporâneo, não nos é em nada novo. 
Muitos foram os esforços de Freud para fundamentar uma teoria, defender, 
demonstrar e apresentar à comunidade médica e aos interessados pela 
psicanálise de sua época, como realizar um trabalho clínico de cunho 
psicanalítico. De certa forma, somos herdeiros dessa tarefa. 
Esse esforço percorre toda a obra freudiana e é claramente observável 
em seus textos. Durante o período de 1911 a 1915 (em especial, mas não 
unicamente), Freud irá se debruçar sobre trabalhos que delineiam e direcionam 
a clínica. Esses textos compreendem o que foi nomeado como Escritos sobre a 
técnica e se apresentam como fundamentais para o trabalho do psicanalista 
ainda hoje. 
Para iniciarmos este estudo, vamos nos deter sobre um texto freudiano 
escrito em 1913 e intitulado Sobre o início do tratamento. Para tanto, partiremos 
de uma vinheta clínica – dinâmica textual que encontrarão em todo texto –, que 
objetiva oferecer maior visibilidade ao texto, ilustrá-lo, de alguma forma. Como o 
texto desenvolvido nesta etapa apresenta diversos elementos da clínica 
freudiana, a vinheta irá se debruçar sobre um ponto com maior profundidade, a 
saber: o dinheiro. Mas, antes disso, nos deteremos passo a passo do texto, 
abordando o seu todo para depois pinçar a parte que nos interessa para a 
vinheta. 
Assim, o retorno a Freud se demonstra fundamental por dois motivos. 
Estar atento ao seu texto, à sua tinta, à história da psicanálise, é postura ética 
do psicanalista. Além disso, veremos que muitas de suas elaborações se 
mantêm vivas, atuais e se apresentam como questões importantes em nossa 
clínica atual. 
 
 
 
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TEMA 1 – VINHETA CLÍNICA 
A paciente busca o analista, via Whatsapp, com um pedido de análise. Na 
sequência, o analista retorna o seu pedido com uma ligação, em que busca 
compreender, sucintamente, o que a candidata à análise traz como demanda. 
Já nesse momento, a ligação se encerra com um horário e com o valor das 
sessões contratados. 
Bom, o trabalho se inicia e, ao final de cada mês, a paciente sempre 
pergunta ao analista o número de sessões realizadas e o valor total a ser pago, 
ao que o analista responde com seu silêncio. Na sequência, a paciente pagava. 
Após algumas cenas como as narradas acima, a paciente demonstra 
certo incômodo, e começam a surgir falas como “Você deve ter algum controle 
das sessões, né?!”, “Me avise se eu paguei errado, se algo tiver faltando”, “Você 
tem um caderninho em que anota as sessões?”, até tomar uma decisão, “Bom, 
eu vou cuidar dos pagamentos e qualquer coisa você me avisa”. Na sequência, 
ela falta duas semanas seguidas por conta de um problema de saúde de seu pai. 
Aqui, é importante narrar que a paciente faz uma demanda de análise 
após ir trabalhar com o pai em uma empresa familiar e, nessa experiência, ela 
narra ter sofrido muito, não ter sido levada a sério pelo fato de ser mulher, ter 
desenvolvido muitas dores nas costas - que, inclusive, a levam duas vezes à 
mesa de cirurgia – até pedir demissão e ir embora da cidade. 
Ela narra que as dores, embora fossem muito intensas, quase 
incapacitantes, não a impediam de trabalhar: “precisava mostrar que conseguia 
fazer o trabalho”. A sua segunda cirurgia, disse o médico a ela, ocorreu por 
negligência na recuperação, quando ela não respeitou o período de repouso e 
retornou ao trabalho. 
Mesmo após a sua demissão e mudança da cidade de origem, as dores 
seguiram e, muitas vezes, demandando infiltrações, fortes remédios e dias de 
cama. Contudo, é a partir desse movimento que algo de seu sintoma claudica e 
ela busca a análise. 
Já em sua primeira sessão, ela conta que na construção de sua vida 
profissional visava honrar seus pais e que sempre esteve no seu horizonte 
(planos de futuro), retornar à empresa familiar na cidade de interior, depois de ir 
estudar na capital. Diz, então, que a partir da demissão as bases sobre as quais 
 
 
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se construiu ficaram muito confusas e que tinha a sensação de que nada mais 
fazia sentido. 
 Enfim, retornamos ao momento das duas faltas. A paciente, então, 
procura o analista via Whatsapp perguntando o número de sessões realizadas, 
diz que não gostaria de gerar prejuízos, que achava injusto desmarcar e que 
gostaria de pagar as sessões a que faltou e também repô-las. Neste momento, 
o analista pontua que parecia haver uma questão aí em relação ao dinheiro e 
que eles poderiam conversar disso em sessão. 
 Na sessão seguinte, ela falta novamente. Dessa vez, porque bateu o carro 
a caminho da sessão. Outro ponto importante de ressaltar é que a paciente 
costumeiramente atrasava mais ou menos cerca de 15 minutos, ao que o 
analista sempre indagava: o que aconteceu? Isso gerou importantes 
associações, em que ela relembra a máxima “eu sempre atraso”, importada das 
falas da mãe sobre ela, o que a levou a investigar a relação com sua mãe. Nesse 
momento, ela tem uma lembrança da infância, em que sua mãe a puxa pelo 
braço para ir ao balé quando ela já estava atrasada mas gostaria de permanecer 
assistindo à televisão, e, com o puxão, o seu braço quebra. 
 Após a sessão que falta por conta da batida de carro, ela solicita vir ainda 
na mesma semana. Ela vem e conta que ficou muito pensativa com a questão 
do dinheiro e que, estava vindo com muita pressa para a sessão, por estar 
atrasada, até que bate o carro. Ela conta que resolveu a situação com a outra 
motorista dizendo que iria pagar tudo, que a terceira não precisava se preocupar 
com nada. Nesse instante, ela percebe que isso sempre aconteceu em sua vida, 
que sempre tenta resolver, pagar, fazer coisas pelos outros e que isso atrasa 
sua vida e que percebia que repetia isso em relação ao dinheiro em sua análise. 
 Após sua associação, o analista indaga com uma construção: isso tem 
algo a ver com a vez em que seu braço foi quebrado por estar atrasada? E o que 
o honrar tem a ver com isso? 
Essas perguntas abriram um outro campo de trabalho, que dizia respeito 
à relação com a irmã, alguns anos mais nova. Isso se relacionava o fazer coisas 
pelos outros com base nessa cena familiar, que ficava num ponto de intermédio 
entre os pais e a irmã. Daí ela passa a recolher certa posição subjetiva. 
Com o decorrer do trabalho e dessas associações, uma nova pergunta 
pôde ser colocada sobre a questão de ter saído da casa dos pais na 
adolescência e vindo pra capital, que agora se repete na vida adulta, após a 
 
 
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demissão, fazendo vacilar a ideia de “honrar pai e mãe”: por que saiu da casa 
dos pais, ainda na adolescência, para vir à capital estudar? Sua resposta de que 
“lá não tinha nada para mim” assinalou uma separação em relação às 
identificações familiares, apontando algo do seu desejo e abrindo um caminho 
para sua análise, que segue. 
TEMA 2 – SOBRE O INÍCIO DO TRATAMENTO: QUEM RECEBER? 
No texto de 1913, sobre o Início do tratamento, Freud oferecerá diversas 
recomendações a respeito do que está em jogo para que um trabalho 
psicanalítico possa se iniciar e se desenvolver visando uma cura. 
No parágrafo de abertura do texto, Freud faz uma metáfora, comparando 
o trabalho de uma análise ao jogo de xadrez. Especificamente, sua metáfora visa 
demonstrar como, para aquele que pretende iniciar a prática do xadrez, ficará 
claro que no jogo só é possível reconhecer certaconstância nas jogadas de 
abertura e de finalização. Restando ao meio do caminho combinações 
diversificadas, e que custariam muito estudo, por aquele que se inicia no jogo, 
para a apreensão do que ali se passa. 
Com isso, Freud nos orienta que algo semelhante acontece em um 
trabalho de psicanálise, e nos apresentará o que agrupou, a partir de sua 
experiência e também pelo reconhecimento dos pares, como recorrente, 
constante e necessário ao início do tratamento. 
No entanto, ele nos adverte de que sua apresentação tem o caráter de 
recomendação. Em suas palavras: 
Mas faço bem em apresentar essas regras como “recomendações”, 
não querendo advogar para elas uma obrigatoriedade absoluta. A 
diversidade extraordinária de constelações psíquicas em questão, a 
plasticidade de todos os processos anímicos, e a riqueza de fatores 
determinantes também se opõem a uma mecanização da técnica e 
permitem que um procedimento usualmente justificado por vezes se 
torne sem efeito, assim como um procedimento costumeiramente 
errôneo algumas vezes possa levar ao objetivo esperado. No entanto, 
essas condições não impedem que se estabeleça uma postura 
razoavelmente adequada ao médico (p. 121-2). 
A primeira questão levantada por Freud é se o paciente que chega é 
elegível ao tratamento psicanalítico. Aqui, encontramos dois pontos: o primeiro 
diz respeito à singularidade da pessoa Freud, a forma que ele encontrou para 
conduzir sua clínica. A saber: Freud recebia seus pacientes por uma ou duas 
semanas, como forma de sondagem para decidir se o caso é adequado à 
 
 
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psicanálise e, também, caso haja interrupção na continuidade do tratamento, 
ninguém se prejudique numa tentativa fracassada de cura. 
Embora encontremos aqui a precaução freudiana e sua forma de 
trabalhar, neste ponto localizamos ainda hoje seus efeitos no que ficou 
conhecido como entrevistas preliminares em psicanálise e a forma de trabalho 
do psicanalista nesse instante. 
O segundo ponto para decidir se a pessoa que chega é elegível à 
psicanálise, levantado por Freud, gira em torno da questão diagnóstica: 
O início do tratamento com esse período probatório estipulado em 
algumas semanas, aliás, também tem uma motivação diagnóstica. 
Muitas vezes, quando estamos diante de uma neurose com sintomas 
histéricos ou obsessivos sem manifestação excessiva e de curta 
duração, ou seja, justamente aquelas formas que seriam vistas como 
adequadas ao tratamento, precisamos dar espaço para nos 
questionarmos se o caso não corresponde a um estágio prévio de uma 
chamada dementia praecox (esquizofrenia segundo Bleuler, parafrenia 
segundo a minha proposta) e que depois de um período breve ou mais 
longo evidenciará um quadro mais claro dessa afecção. Eu contesto 
quando dizem que é sempre fácil estabelecer a diferença. Sei que há 
psiquiatras que oscilam mais raramente ao estabelecerem o 
diagnóstico diferencial, mas eu me convenci de que eles também se 
equivocam com a mesma frequência. Ocorre que o erro é mais 
carregado de consequências para o psicanalista do que para o 
chamado psiquiatra clínico. Pois este último nem em um caso nem no 
outro empreende algo frutífero; ele apenas corre o risco de cometer um 
erro teórico, e o seu diagnóstico tem apenas interesse acadêmico. Mas 
o psicanalista, em um caso desfavorável, terá cometido uma falha 
prática e causado um esforço inócuo, desacreditando o seu processo 
de cura. Ele não pode manter a sua promessa de cura se o doente não 
sofrer de histeria ou neurose obsessiva, mas sim de parafrenia, e, por 
isso, terá fortes razões para evitar o erro no diagnóstico. Em um 
tratamento probatório de algumas semanas, ele muitas vezes irá ter 
percepções e suspeitas que o levem a não continuar a experiência. 
Infelizmente, não posso afirmar que tal experiência regularmente 
possibilite uma decisão segura; é apenas uma boa precaução 
suplementar. (Freud, 2019, p. 122-3) 
 Nesta altura, podemos pinçar algumas perguntas que, mesmo não sendo 
a hora de desenvolvê-las, mostram-se essenciais para entendermos a clínica 
freudiana: a psicanálise freudiana limitou-se à clínica das neuroses? Como 
Freud conduzia os casos de psicoses? Ele atendia? 
O debate é importante e rendeu muitos capítulos para a psicanálise, mas 
parece-nos que nessa passagem Freud é bastante prudente em relação a 
pensar a possibilidade de análise e cura com psicoses paranoicas, chegando até 
a restringir o trabalho às neuroses obsessivas e histéricas. 
De qualquer forma, o que mais nos é pertinente para este estudo 
restringe-se ao que o psicanalista dirige sua escuta nessas primeiras sessões: a 
 
 
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dinâmica do discurso do sujeito e como ela compreende uma estrutura que nos 
orienta para um psicodiagnóstico que baseará a direção do tratamento. 
 Freud é muito enfático quando recomenda que o psicanalista exerça um 
papel muito cauteloso neste “período probatório” do tratamento e compareça 
somente o necessário para fazer com que o sujeito continue falando, a fim de se 
localizar diagnosticamente no discurso do sujeito que chega. 
No que diz respeito a quem e como receber pacientes, Freud ainda 
elencará diversas outras situações que podem ocorrer, que escapam às 
demandas comuns de tratamento e que geram ao psicanalista atenção e 
manejos específicos: o caso de pessoas que já passaram por outros tratamentos 
anteriormente; pessoas com concepções positivas ou negativas em relação à 
psicanálise; pacientes que chegam por recomendação de pessoas próximas ao 
analista; pretendentes à análise que desmarcam as primeiras sessões; e, por 
fim, pacientes que também exercem a psicanálise. 
TEMA 3 – TEMPO 
Outro ponto de importância a ser acordado no início do tratamento, 
segundo Freud, é a questão do tempo. Em um primeiro momento, ele afirma que 
se atém a ceder à sessão uma hora determinada. Ou seja, para cada paciente é 
destinada uma hora específica de seu dia de trabalho, e esse lapso temporal é 
considerado de responsabilidade do paciente, ainda que este não o utilize. 
Freud sustenta que fazer o paciente responder por uma hora não utilizada 
de sessão parece ser um acordo rígido em se tratando de psicanálise, ainda que 
assim não o soe se pensarmos que tal acordo é facilmente aceito em outros 
ramos de serviço. Nesse sentido podemos questionar: quanto vale o tempo 
destinado à escuta? E também nos cabe interrogar: a quem pertence o tempo 
dirigido à sessão – ao analista ou ao analisante? 
No decorrer do tratamento analítico, Freud nos adverte para as inúmeras 
faltas em que o paciente tenderá a incorrer, e que ele não encontra outra maneira 
praticável ao andamento do tratamento senão justamente que esse combinado 
seja tido como rigoroso, uma vez que o afrouxamento disso propicia o aumento 
das faltas casuais do paciente: 
No caso de uma prática mais complacente, os cancelamentos 
“eventuais” acabam se acumulando tanto que o médico verá a sua 
existência material ameaçada. Se nos ativermos estritamente àquela 
determinação, no entanto, verificamos que acasos que impedem a sua 
 
 
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presença são inexistentes, e as doenças intercorrentes, muito raras. 
Dificilmente teremos a situação em que fruiremos do ócio, do qual 
teríamos que nos envergonhar pela respectiva remuneração; podemos 
continuar o trabalho sem sermos incomodados e evitamos a 
experiência desagradável e confusa de que justamente quando o 
trabalho prometia ser muito importante e rico em conteúdo entra uma 
pausa involuntária. (Freud, 2019, p. 126) 
Aqui, Freud adiciona uma camada relevante ao não comparecimento do 
paciente às sessões. Segundo ele, tanto o tempo de análise pertence ao 
paciente que este evita utilizar do que é seu como negação aos momentos 
cruciais do tratamento. Tendo isso em vista, podemos relacionar que quem 
responde ao comparecimento, ou não, das sessões, se pensarmos em um 
setting analítico com transferência estabelecida, é o sujeito do inconsciente: “Só 
nos convencemosplenamente da importância do fator psicogênico no cotidiano 
das pessoas, da frequência das ‘doenças escolares’ e da nulidade do acaso 
quando praticamos a Psicanálise durante anos, seguindo estritamente o 
princípio da remuneração por hora” (Freud, 2019, p. 126). 
 Freud, em sua clínica, trabalhava com seus pacientes todos os dias, 
exceto aos domingos e feriados, totalizando seis dias por semana. Em casos 
chamados por ele de “leves” ou de “tratamento avançado”, operava durante três 
dias na semana. Isso nos parece distante da realidade de tratamento atual, em 
que, quando muito, o atendimento se dá duas vezes na semana; acontecendo, 
via de regra, com frequência de uma vez; e, até, acontece de certos casos, 
quinzenalmente. 
O que extraímos dessa recomendação é que há que se atentar para a 
frequência de comparecimento acordada com o paciente, como fator importante 
no desenrolar da eficácia do tratamento. Lapsos temporais excessivos não se 
dão sem implicação em uma análise e, ao que nos indica Freud, o 
estabelecimento da frequência é direção a ser lapidada pelo analista, e não pelo 
analisante. 
Freud nos adverte da probabilidade de quem inicia uma análise interpelar 
o analista com questionamentos como: quanto tempo durará o tratamento? Ou 
ainda: de quanto tempo o senhor precisará para aliviar-me de meu problema? 
A essas perguntas Freud orienta que, a exemplo da resposta do Filósofo 
ao Caminhante, na fábula de Esopo, quando o caminhante indaga quanto tempo 
durará a jornada, o filósofo responde: “anda!” (Freud, 2019, p. 127). É dever do 
analista não corresponder a essa demanda, devolvendo o questionamento 
porque isso importa ao paciente. 
 
 
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Contudo, ele orienta que deveria o psicanalista advertir o paciente de que 
“a psicanálise é sempre questão de longos períodos de tempo, semestres ou 
anos inteiros, sempre períodos mais longos do que aqueles esperados pelo 
paciente” (Freud, 2019, p. 129) e, portanto, uma vez ciente de se tratar de um 
tratamento de longa duração, o paciente pode decidir se inicia ou não o 
tratamento. 
Pensar a duração do tratamento também levou Freud a pensar sua 
interrupção: 
Recuso-me a obrigar os pacientes a perseverarem no tratamento 
durante um determinado período e faculto a todos interromperem o 
tratamento quando lhes aprouver, mas não escondo deles que uma 
interrupção depois de um curto período de tempo não terá sucesso 
algum, e que isso facilmente poderá colocá-los numa situação 
insatisfatória, tal como de uma cirurgia não concluída. (Freud, 2019, p. 
129-130). 
A última questão trabalhada por Freud nesse quesito é o desejo de 
abreviação do tratamento analítico. Segundo ele, seria justificável em oposição 
à sua indeterminação temporal deste, ou seja, “o vagar com que as 
transformações psíquicas profundas transcorrem, em última análise, 
provavelmente a ‘atemporalidade’ de nossos processos inconscientes” (Freud, 
2019, p. 130). 
TEMA 4 – DINHEIRO 
O próximo ponto levantado por Freud acerca do início do tratamento é 
sobre o dinheiro. Para ele, ao analista não deve haver dúvida quanto à 
importância do dinheiro, seja como meio de autopreservação, subsistência e de 
obtenção de poder, seja em relação aos fatores sexuais envolvidos no valor que 
lhe são atribuídos (Freud, 2019, p. 131). 
O paciente, ao tratar de dinheiro, possivelmente levantará sobre ele 
questões civilizatórias como as levantadas em relação ao sexual, com 
incoerência e pudor de hipocrisia. E, ao analista, cabe responder desde outro 
lugar, que não coadune com tal posição: “desde o início ele está decidido a não 
participar disso, mas a tratar de questões financeiras diante do paciente com a 
mesma e óbvia honestidade para a qual ele quer educá-lo para a vida sexual” 
(Freud, 2019, p. 132). 
 
 
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Nesse sentido, o analista rejeita a posição embaraçosa que pode surgir 
desse acordo, dizendo voluntariamente o preço que considera valer seu tempo 
e sua escuta. 
Aqui, podemos retornar ao caso e a pontuação do analista (“parece que 
há uma questão aí”) quando observa o embaraço da paciente quanto ao 
pagamento. 
Diante da pontuação, a paciente ainda atua e fica atordoada: faltas, 
atraso, acidente de carro. Algo da dinâmica econômica libidinal, do com o que 
ela paga, é convocada à fala com base na pontuação do analista. Inicialmente, 
a paciente sinaliza sua dificuldade por via de atuações, como se não 
pudesse/conseguisse associar, mas, no momento seguinte, é capaz de lembrar. 
Mas o que é dado a ver em suas atuações decorrentes da pontuação do 
analista e que permitem a ela se lembrar? Essa é a própria forma singular que 
estabeleceu e se inscreveu para se relacionar com o Outro. Dessa forma, o 
manejo deu visibilidade a uma outra economia, que não dizia respeito 
exatamente ao dinheiro, embora estivesse cifrado nele, mas aos próprios 
impasses estruturais de subjetivação em relação ao Outro: desencadeando a 
possibilidade de uma abertura ao desejo, e à separação do objeto no campo da 
demanda que, até então, a inscreviam em um regime de gozo relativamente 
autodestrutivo: do braço quebrado, às dores nas costas incapacitantes, até o 
acidente de carro. 
Freud, ainda, alerta para alguns fatos: 
1. O analista não deve deixar acumular grandes somas de dinheiro, 
solicitando o pagamento das sessões em intervalos curtos de tempo, 
como o de um mês; 
2. Os valores estipulados a menor, ou seja, um “tratamento barato”, tende a 
não implicar o paciente; 
3. O analista deve operar como um cirurgião, “que é sincero e cobra e cobra 
caro, pois ele dispõe de tratamentos que podem ajudar”; 
4. Por mais que trabalhe, o analista deve considerar que não ganhará tanto 
quanto outros especialistas médicos (Freud, 2019, p. 132). 
Pelas razões acima descritas, neste momento de sua obra, Freud enfatiza 
que o analista não deve fornecer tratamento gratuito ou práticas em que abre 
exceções para colegas e suas famílias. 
 
 
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Freud justifica ter chegado a tal raciocínio por ter destinado, em sua 
clínica, de uma a duas horas para tratamentos gratuitos, sob a hipótese de que, 
ao trabalhar com as neuroses, estaria assim frente à menor resistência. Contudo, 
o que se operou nesses casos foi o oposto, chegando Freud à conclusão de que 
“algumas das resistências dos neuróticos aumentam enormemente no 
tratamento gratuito” (Freud, 2019, p. 133). 
TEMA 5 – DEMAIS SITUAÇÕES SOBRE O INÍCIO DO TRATAMENTO 
Dentre outras situações relevantes sobre o início do tratamento, Freud 
assinala o protocolo, ou rito, no qual é conduzido o tratamento. Na sala de 
análise, um divã, que deve ser oferecido ao paciente para se deitar, e uma 
poltrona logo atrás do divã, onde se senta o analista, sem que o paciente o veja. 
O divã é tido por Freud como dispositivo ou ferramenta de trabalho, tanto por seu 
aspecto histórico, que remete ao tratamento hipnótico, quanto pelo seu caráter 
prático, que, ao elevar o olhar do paciente, suspende a relação especular e 
permite que o sujeito do inconsciente emerja: 
O paciente geralmente entende a situação que lhe é imposta como 
privação, resistindo a ela, especialmente quando a pulsão de olhar 
[Schautrieb] (o voyeurismo) tiver um papel importante na sua neurose. 
Mas me mantenho irredutível quanto a essa medida, que tem a 
intenção e o efeito de prevenir a mistura imperceptível da transferência 
com aquilo que ocorre ao paciente, de isolar a transferência e, no 
tempo certo, deixá-la aflorar como resistência, descrita de forma clara 
e precisa. (Freud, 2019, p. 135) 
Em função disso, Freud coloca a questão: em que ponto e com que 
material deve-se iniciar o tratamento? Ao que esclarece que o material é 
indiferente, podendo ser a história de vida, da doença, lembranças da infância, 
enfim, o que o paciente deseje falar, ficando a cargo deste a escolha do ponto 
inicial (Freud, 2019, p. 136). 
Freud adverte, contudo, que cabe ao analista informaro paciente acerca 
da regra fundamental da psicanálise, a qual ele vai chamar de associação livre 
ou livre associação: 
Fazemos uma exceção apenas para a regra fundamental da técnica 
psicanalítica a ser observada pelo paciente. Apresentamos a ele esta 
regra desde o início: “Mais um detalhe, antes de começar. A sua 
narrativa deve diferenciar-se em um ponto de uma conversa comum. 
Enquanto normalmente e com razão procuraria achar o fio da meada 
no contexto geral da sua narrativa, rechaçando todas as ocorrências e 
pensamentos adjacentes para não se perder em digressões, proceda 
de outro modo aqui. Você observará que lhe ocorrerão vários 
 
 
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pensamentos que você quer rechaçar com certas restrições críticas. 
Você ficará tentado a dizer a si próprio: isto ou aquilo não vem ao caso, 
ou é absolutamente sem importância, ou não faz sentido e por isso não 
precisa ser dito. Nunca ceda a essa crítica, diga-o mesmo assim, 
justamente porque você sente uma rejeição diante disso. A razão 
dessa prescrição – na verdade, a única que você deverá seguir – você 
conhecerá mais tarde e aprenderá a entendê-la. Portanto, diga tudo o 
que lhe passa pela mente. Comporte-se, por exemplo, como um 
viajante sentado à janela do trem que descreve para quem está dela 
mais afastado, do lado de dentro, como a paisagem vai mudando 
diante de seus olhos. E, por fim, nunca se esqueça de que você 
prometeu sinceridade plena, e nunca passe por cima de algum fato só 
porque por algum motivo essa informação lhe é desagradável”. (p. 136) 
Afastando, então, a idealização de uma narrativa sistemática, Freud 
antecipa que haverá pacientes que irão se esforçar em preparar narrativas a 
serem ditas em sessão, e que esse recurso nada mais é do que resistência, 
orientando que o analista marque ao paciente que tal esforço “serve apenas de 
proteção contra o surgimento de ocorrências indesejadas” (Freud, 2019, p. 138). 
As tentativas de resistência do paciente, segundo Freud, podem se 
apresentar também por meio do escoamento da narrativa para além das 
sessões, com amigos, por exemplo, e que ao analista cabe, novamente, chamar 
o paciente para que encare o tratamento analítico ao que se desenrola no 
estabelecimento da transferência. 
Há ainda, para Freud, aqueles pacientes que frequentemente aparecem 
na clínica sob condição de que nada têm a contar, que não sabem o que dizer 
ou por que vieram à análise. Ao analista não cabe ceder o desejo do paciente de 
que fale por ele, mas sim encare tal comportamento como defesa neurótica, o 
qual deve ser enfrentado. 
NA PRÁTICA 
No caso apresentado pela vinheta, pudemos observar como um elemento 
específico das contratações iniciais de uma análise podem se desdobrar durante 
o tratamento. 
Embora a recomendação freudiana para o manejo do dinheiro seja não 
tratá-lo como embaraçoso, observamos nesse caso como o analista precisa 
adentrar ao embaraço da paciente, com base na relação transferencial, para dali 
extrair um importante conteúdo de trabalho. Mesmo com a pactuação de um 
valor e forma de pagamento, já no primeiro contato, antes mesmo da primeira 
sessão, algo reapareceu como questão por meio do dinheiro. 
 
 
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 É importante dizer que o embaraço não era do analista, ele não se 
posiciona coadunando com os pudores civilizatórios referentes ao dinheiro, 
como orienta Freud, mas ele se empresta à transferência, que faz emergir, pela 
via do dinheiro e do horário da sessão, uma outra economia, como debatemos 
acima. 
Dessa forma, relembramos o que trabalhamos lá no segundo tópico: 
precisamos tomar esse texto freudiano não com um caráter definitivo, mas como 
recomendações, pois se trata de pontos de base para o trabalho acontecer, 
tendo em vista que eles já são parte do tratamento. 
Por fim, ressaltamos como o analista se apropria dessas recomendações, 
adicionando seu estilo, sua forma de abordar a problemática apontada por Freud 
em relação ao dinheiro, podendo fazer dela, assim, uma questão de análise. 
FINALIZANDO 
É importante recolher desta etapa que ao analista cabe estar atento às 
diferentes formas de expressão de conteúdos que os pacientes dão a ver. Em 
relação às recomendações freudianas em Sobre o início do tratamento, muito 
mais do que tomá-las como regras, ou até se deter de forma prescritiva para que 
uma análise possa advir, precisamos compreender que o que é (con)tratado nas 
primeiras sessões e as entrevistas preliminares já fazem parte do tratamento e 
compõem o caso. 
 Com a vinheta clínica, tentou-se demonstrar isso em relação ao dinheiro: 
como as contratações econômicas foram sendo manejadas até o ponto de uma 
construção feita pelo analista, mas não sem as atuações e lembranças da 
analisante. 
 Dessa forma, podemos observar como a obra freudiana permanece viva 
e nos dá subsídios para o nosso fazer. 
 
 
 
 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
FREUD, S. Sobre o início do tratamento (1913). In: _____. Obras Incompletas 
de Sigmund Freud – Fundamentos da Clínica Psicanalítica. São Paulo: 
Autêntica, 2019.

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