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ANÁLISE DE CASOS CLÍNICOS AULA 1 Prof. Renato Staevie Baduy 2 CONVERSA INICIAL A psicanálise sustenta uma posição única e uma diferença radical em relação a outras modalidades de fazer clínico. Inclusive, o fazer clínico postulado por diversas abordagens da psicologia é credor da invenção freudiana de escuta e tratamento pela via da palavra. Porém, ainda se ouve em diversos círculos sociais certa caricatura e visão estigmatizada de como a clínica psicanalítica acontece na prática. Esse cenário, embora nos seja contemporâneo, não nos é em nada novo. Muitos foram os esforços de Freud para fundamentar uma teoria, defender, demonstrar e apresentar à comunidade médica e aos interessados pela psicanálise de sua época, como realizar um trabalho clínico de cunho psicanalítico. De certa forma, somos herdeiros dessa tarefa. Esse esforço percorre toda a obra freudiana e é claramente observável em seus textos. Durante o período de 1911 a 1915 (em especial, mas não unicamente), Freud irá se debruçar sobre trabalhos que delineiam e direcionam a clínica. Esses textos compreendem o que foi nomeado como Escritos sobre a técnica e se apresentam como fundamentais para o trabalho do psicanalista ainda hoje. Para iniciarmos este estudo, vamos nos deter sobre um texto freudiano escrito em 1913 e intitulado Sobre o início do tratamento. Para tanto, partiremos de uma vinheta clínica – dinâmica textual que encontrarão em todo texto –, que objetiva oferecer maior visibilidade ao texto, ilustrá-lo, de alguma forma. Como o texto desenvolvido nesta etapa apresenta diversos elementos da clínica freudiana, a vinheta irá se debruçar sobre um ponto com maior profundidade, a saber: o dinheiro. Mas, antes disso, nos deteremos passo a passo do texto, abordando o seu todo para depois pinçar a parte que nos interessa para a vinheta. Assim, o retorno a Freud se demonstra fundamental por dois motivos. Estar atento ao seu texto, à sua tinta, à história da psicanálise, é postura ética do psicanalista. Além disso, veremos que muitas de suas elaborações se mantêm vivas, atuais e se apresentam como questões importantes em nossa clínica atual. 3 TEMA 1 – VINHETA CLÍNICA A paciente busca o analista, via Whatsapp, com um pedido de análise. Na sequência, o analista retorna o seu pedido com uma ligação, em que busca compreender, sucintamente, o que a candidata à análise traz como demanda. Já nesse momento, a ligação se encerra com um horário e com o valor das sessões contratados. Bom, o trabalho se inicia e, ao final de cada mês, a paciente sempre pergunta ao analista o número de sessões realizadas e o valor total a ser pago, ao que o analista responde com seu silêncio. Na sequência, a paciente pagava. Após algumas cenas como as narradas acima, a paciente demonstra certo incômodo, e começam a surgir falas como “Você deve ter algum controle das sessões, né?!”, “Me avise se eu paguei errado, se algo tiver faltando”, “Você tem um caderninho em que anota as sessões?”, até tomar uma decisão, “Bom, eu vou cuidar dos pagamentos e qualquer coisa você me avisa”. Na sequência, ela falta duas semanas seguidas por conta de um problema de saúde de seu pai. Aqui, é importante narrar que a paciente faz uma demanda de análise após ir trabalhar com o pai em uma empresa familiar e, nessa experiência, ela narra ter sofrido muito, não ter sido levada a sério pelo fato de ser mulher, ter desenvolvido muitas dores nas costas - que, inclusive, a levam duas vezes à mesa de cirurgia – até pedir demissão e ir embora da cidade. Ela narra que as dores, embora fossem muito intensas, quase incapacitantes, não a impediam de trabalhar: “precisava mostrar que conseguia fazer o trabalho”. A sua segunda cirurgia, disse o médico a ela, ocorreu por negligência na recuperação, quando ela não respeitou o período de repouso e retornou ao trabalho. Mesmo após a sua demissão e mudança da cidade de origem, as dores seguiram e, muitas vezes, demandando infiltrações, fortes remédios e dias de cama. Contudo, é a partir desse movimento que algo de seu sintoma claudica e ela busca a análise. Já em sua primeira sessão, ela conta que na construção de sua vida profissional visava honrar seus pais e que sempre esteve no seu horizonte (planos de futuro), retornar à empresa familiar na cidade de interior, depois de ir estudar na capital. Diz, então, que a partir da demissão as bases sobre as quais 4 se construiu ficaram muito confusas e que tinha a sensação de que nada mais fazia sentido. Enfim, retornamos ao momento das duas faltas. A paciente, então, procura o analista via Whatsapp perguntando o número de sessões realizadas, diz que não gostaria de gerar prejuízos, que achava injusto desmarcar e que gostaria de pagar as sessões a que faltou e também repô-las. Neste momento, o analista pontua que parecia haver uma questão aí em relação ao dinheiro e que eles poderiam conversar disso em sessão. Na sessão seguinte, ela falta novamente. Dessa vez, porque bateu o carro a caminho da sessão. Outro ponto importante de ressaltar é que a paciente costumeiramente atrasava mais ou menos cerca de 15 minutos, ao que o analista sempre indagava: o que aconteceu? Isso gerou importantes associações, em que ela relembra a máxima “eu sempre atraso”, importada das falas da mãe sobre ela, o que a levou a investigar a relação com sua mãe. Nesse momento, ela tem uma lembrança da infância, em que sua mãe a puxa pelo braço para ir ao balé quando ela já estava atrasada mas gostaria de permanecer assistindo à televisão, e, com o puxão, o seu braço quebra. Após a sessão que falta por conta da batida de carro, ela solicita vir ainda na mesma semana. Ela vem e conta que ficou muito pensativa com a questão do dinheiro e que, estava vindo com muita pressa para a sessão, por estar atrasada, até que bate o carro. Ela conta que resolveu a situação com a outra motorista dizendo que iria pagar tudo, que a terceira não precisava se preocupar com nada. Nesse instante, ela percebe que isso sempre aconteceu em sua vida, que sempre tenta resolver, pagar, fazer coisas pelos outros e que isso atrasa sua vida e que percebia que repetia isso em relação ao dinheiro em sua análise. Após sua associação, o analista indaga com uma construção: isso tem algo a ver com a vez em que seu braço foi quebrado por estar atrasada? E o que o honrar tem a ver com isso? Essas perguntas abriram um outro campo de trabalho, que dizia respeito à relação com a irmã, alguns anos mais nova. Isso se relacionava o fazer coisas pelos outros com base nessa cena familiar, que ficava num ponto de intermédio entre os pais e a irmã. Daí ela passa a recolher certa posição subjetiva. Com o decorrer do trabalho e dessas associações, uma nova pergunta pôde ser colocada sobre a questão de ter saído da casa dos pais na adolescência e vindo pra capital, que agora se repete na vida adulta, após a 5 demissão, fazendo vacilar a ideia de “honrar pai e mãe”: por que saiu da casa dos pais, ainda na adolescência, para vir à capital estudar? Sua resposta de que “lá não tinha nada para mim” assinalou uma separação em relação às identificações familiares, apontando algo do seu desejo e abrindo um caminho para sua análise, que segue. TEMA 2 – SOBRE O INÍCIO DO TRATAMENTO: QUEM RECEBER? No texto de 1913, sobre o Início do tratamento, Freud oferecerá diversas recomendações a respeito do que está em jogo para que um trabalho psicanalítico possa se iniciar e se desenvolver visando uma cura. No parágrafo de abertura do texto, Freud faz uma metáfora, comparando o trabalho de uma análise ao jogo de xadrez. Especificamente, sua metáfora visa demonstrar como, para aquele que pretende iniciar a prática do xadrez, ficará claro que no jogo só é possível reconhecer certaconstância nas jogadas de abertura e de finalização. Restando ao meio do caminho combinações diversificadas, e que custariam muito estudo, por aquele que se inicia no jogo, para a apreensão do que ali se passa. Com isso, Freud nos orienta que algo semelhante acontece em um trabalho de psicanálise, e nos apresentará o que agrupou, a partir de sua experiência e também pelo reconhecimento dos pares, como recorrente, constante e necessário ao início do tratamento. No entanto, ele nos adverte de que sua apresentação tem o caráter de recomendação. Em suas palavras: Mas faço bem em apresentar essas regras como “recomendações”, não querendo advogar para elas uma obrigatoriedade absoluta. A diversidade extraordinária de constelações psíquicas em questão, a plasticidade de todos os processos anímicos, e a riqueza de fatores determinantes também se opõem a uma mecanização da técnica e permitem que um procedimento usualmente justificado por vezes se torne sem efeito, assim como um procedimento costumeiramente errôneo algumas vezes possa levar ao objetivo esperado. No entanto, essas condições não impedem que se estabeleça uma postura razoavelmente adequada ao médico (p. 121-2). A primeira questão levantada por Freud é se o paciente que chega é elegível ao tratamento psicanalítico. Aqui, encontramos dois pontos: o primeiro diz respeito à singularidade da pessoa Freud, a forma que ele encontrou para conduzir sua clínica. A saber: Freud recebia seus pacientes por uma ou duas semanas, como forma de sondagem para decidir se o caso é adequado à 6 psicanálise e, também, caso haja interrupção na continuidade do tratamento, ninguém se prejudique numa tentativa fracassada de cura. Embora encontremos aqui a precaução freudiana e sua forma de trabalhar, neste ponto localizamos ainda hoje seus efeitos no que ficou conhecido como entrevistas preliminares em psicanálise e a forma de trabalho do psicanalista nesse instante. O segundo ponto para decidir se a pessoa que chega é elegível à psicanálise, levantado por Freud, gira em torno da questão diagnóstica: O início do tratamento com esse período probatório estipulado em algumas semanas, aliás, também tem uma motivação diagnóstica. Muitas vezes, quando estamos diante de uma neurose com sintomas histéricos ou obsessivos sem manifestação excessiva e de curta duração, ou seja, justamente aquelas formas que seriam vistas como adequadas ao tratamento, precisamos dar espaço para nos questionarmos se o caso não corresponde a um estágio prévio de uma chamada dementia praecox (esquizofrenia segundo Bleuler, parafrenia segundo a minha proposta) e que depois de um período breve ou mais longo evidenciará um quadro mais claro dessa afecção. Eu contesto quando dizem que é sempre fácil estabelecer a diferença. Sei que há psiquiatras que oscilam mais raramente ao estabelecerem o diagnóstico diferencial, mas eu me convenci de que eles também se equivocam com a mesma frequência. Ocorre que o erro é mais carregado de consequências para o psicanalista do que para o chamado psiquiatra clínico. Pois este último nem em um caso nem no outro empreende algo frutífero; ele apenas corre o risco de cometer um erro teórico, e o seu diagnóstico tem apenas interesse acadêmico. Mas o psicanalista, em um caso desfavorável, terá cometido uma falha prática e causado um esforço inócuo, desacreditando o seu processo de cura. Ele não pode manter a sua promessa de cura se o doente não sofrer de histeria ou neurose obsessiva, mas sim de parafrenia, e, por isso, terá fortes razões para evitar o erro no diagnóstico. Em um tratamento probatório de algumas semanas, ele muitas vezes irá ter percepções e suspeitas que o levem a não continuar a experiência. Infelizmente, não posso afirmar que tal experiência regularmente possibilite uma decisão segura; é apenas uma boa precaução suplementar. (Freud, 2019, p. 122-3) Nesta altura, podemos pinçar algumas perguntas que, mesmo não sendo a hora de desenvolvê-las, mostram-se essenciais para entendermos a clínica freudiana: a psicanálise freudiana limitou-se à clínica das neuroses? Como Freud conduzia os casos de psicoses? Ele atendia? O debate é importante e rendeu muitos capítulos para a psicanálise, mas parece-nos que nessa passagem Freud é bastante prudente em relação a pensar a possibilidade de análise e cura com psicoses paranoicas, chegando até a restringir o trabalho às neuroses obsessivas e histéricas. De qualquer forma, o que mais nos é pertinente para este estudo restringe-se ao que o psicanalista dirige sua escuta nessas primeiras sessões: a 7 dinâmica do discurso do sujeito e como ela compreende uma estrutura que nos orienta para um psicodiagnóstico que baseará a direção do tratamento. Freud é muito enfático quando recomenda que o psicanalista exerça um papel muito cauteloso neste “período probatório” do tratamento e compareça somente o necessário para fazer com que o sujeito continue falando, a fim de se localizar diagnosticamente no discurso do sujeito que chega. No que diz respeito a quem e como receber pacientes, Freud ainda elencará diversas outras situações que podem ocorrer, que escapam às demandas comuns de tratamento e que geram ao psicanalista atenção e manejos específicos: o caso de pessoas que já passaram por outros tratamentos anteriormente; pessoas com concepções positivas ou negativas em relação à psicanálise; pacientes que chegam por recomendação de pessoas próximas ao analista; pretendentes à análise que desmarcam as primeiras sessões; e, por fim, pacientes que também exercem a psicanálise. TEMA 3 – TEMPO Outro ponto de importância a ser acordado no início do tratamento, segundo Freud, é a questão do tempo. Em um primeiro momento, ele afirma que se atém a ceder à sessão uma hora determinada. Ou seja, para cada paciente é destinada uma hora específica de seu dia de trabalho, e esse lapso temporal é considerado de responsabilidade do paciente, ainda que este não o utilize. Freud sustenta que fazer o paciente responder por uma hora não utilizada de sessão parece ser um acordo rígido em se tratando de psicanálise, ainda que assim não o soe se pensarmos que tal acordo é facilmente aceito em outros ramos de serviço. Nesse sentido podemos questionar: quanto vale o tempo destinado à escuta? E também nos cabe interrogar: a quem pertence o tempo dirigido à sessão – ao analista ou ao analisante? No decorrer do tratamento analítico, Freud nos adverte para as inúmeras faltas em que o paciente tenderá a incorrer, e que ele não encontra outra maneira praticável ao andamento do tratamento senão justamente que esse combinado seja tido como rigoroso, uma vez que o afrouxamento disso propicia o aumento das faltas casuais do paciente: No caso de uma prática mais complacente, os cancelamentos “eventuais” acabam se acumulando tanto que o médico verá a sua existência material ameaçada. Se nos ativermos estritamente àquela determinação, no entanto, verificamos que acasos que impedem a sua 8 presença são inexistentes, e as doenças intercorrentes, muito raras. Dificilmente teremos a situação em que fruiremos do ócio, do qual teríamos que nos envergonhar pela respectiva remuneração; podemos continuar o trabalho sem sermos incomodados e evitamos a experiência desagradável e confusa de que justamente quando o trabalho prometia ser muito importante e rico em conteúdo entra uma pausa involuntária. (Freud, 2019, p. 126) Aqui, Freud adiciona uma camada relevante ao não comparecimento do paciente às sessões. Segundo ele, tanto o tempo de análise pertence ao paciente que este evita utilizar do que é seu como negação aos momentos cruciais do tratamento. Tendo isso em vista, podemos relacionar que quem responde ao comparecimento, ou não, das sessões, se pensarmos em um setting analítico com transferência estabelecida, é o sujeito do inconsciente: “Só nos convencemosplenamente da importância do fator psicogênico no cotidiano das pessoas, da frequência das ‘doenças escolares’ e da nulidade do acaso quando praticamos a Psicanálise durante anos, seguindo estritamente o princípio da remuneração por hora” (Freud, 2019, p. 126). Freud, em sua clínica, trabalhava com seus pacientes todos os dias, exceto aos domingos e feriados, totalizando seis dias por semana. Em casos chamados por ele de “leves” ou de “tratamento avançado”, operava durante três dias na semana. Isso nos parece distante da realidade de tratamento atual, em que, quando muito, o atendimento se dá duas vezes na semana; acontecendo, via de regra, com frequência de uma vez; e, até, acontece de certos casos, quinzenalmente. O que extraímos dessa recomendação é que há que se atentar para a frequência de comparecimento acordada com o paciente, como fator importante no desenrolar da eficácia do tratamento. Lapsos temporais excessivos não se dão sem implicação em uma análise e, ao que nos indica Freud, o estabelecimento da frequência é direção a ser lapidada pelo analista, e não pelo analisante. Freud nos adverte da probabilidade de quem inicia uma análise interpelar o analista com questionamentos como: quanto tempo durará o tratamento? Ou ainda: de quanto tempo o senhor precisará para aliviar-me de meu problema? A essas perguntas Freud orienta que, a exemplo da resposta do Filósofo ao Caminhante, na fábula de Esopo, quando o caminhante indaga quanto tempo durará a jornada, o filósofo responde: “anda!” (Freud, 2019, p. 127). É dever do analista não corresponder a essa demanda, devolvendo o questionamento porque isso importa ao paciente. 9 Contudo, ele orienta que deveria o psicanalista advertir o paciente de que “a psicanálise é sempre questão de longos períodos de tempo, semestres ou anos inteiros, sempre períodos mais longos do que aqueles esperados pelo paciente” (Freud, 2019, p. 129) e, portanto, uma vez ciente de se tratar de um tratamento de longa duração, o paciente pode decidir se inicia ou não o tratamento. Pensar a duração do tratamento também levou Freud a pensar sua interrupção: Recuso-me a obrigar os pacientes a perseverarem no tratamento durante um determinado período e faculto a todos interromperem o tratamento quando lhes aprouver, mas não escondo deles que uma interrupção depois de um curto período de tempo não terá sucesso algum, e que isso facilmente poderá colocá-los numa situação insatisfatória, tal como de uma cirurgia não concluída. (Freud, 2019, p. 129-130). A última questão trabalhada por Freud nesse quesito é o desejo de abreviação do tratamento analítico. Segundo ele, seria justificável em oposição à sua indeterminação temporal deste, ou seja, “o vagar com que as transformações psíquicas profundas transcorrem, em última análise, provavelmente a ‘atemporalidade’ de nossos processos inconscientes” (Freud, 2019, p. 130). TEMA 4 – DINHEIRO O próximo ponto levantado por Freud acerca do início do tratamento é sobre o dinheiro. Para ele, ao analista não deve haver dúvida quanto à importância do dinheiro, seja como meio de autopreservação, subsistência e de obtenção de poder, seja em relação aos fatores sexuais envolvidos no valor que lhe são atribuídos (Freud, 2019, p. 131). O paciente, ao tratar de dinheiro, possivelmente levantará sobre ele questões civilizatórias como as levantadas em relação ao sexual, com incoerência e pudor de hipocrisia. E, ao analista, cabe responder desde outro lugar, que não coadune com tal posição: “desde o início ele está decidido a não participar disso, mas a tratar de questões financeiras diante do paciente com a mesma e óbvia honestidade para a qual ele quer educá-lo para a vida sexual” (Freud, 2019, p. 132). 10 Nesse sentido, o analista rejeita a posição embaraçosa que pode surgir desse acordo, dizendo voluntariamente o preço que considera valer seu tempo e sua escuta. Aqui, podemos retornar ao caso e a pontuação do analista (“parece que há uma questão aí”) quando observa o embaraço da paciente quanto ao pagamento. Diante da pontuação, a paciente ainda atua e fica atordoada: faltas, atraso, acidente de carro. Algo da dinâmica econômica libidinal, do com o que ela paga, é convocada à fala com base na pontuação do analista. Inicialmente, a paciente sinaliza sua dificuldade por via de atuações, como se não pudesse/conseguisse associar, mas, no momento seguinte, é capaz de lembrar. Mas o que é dado a ver em suas atuações decorrentes da pontuação do analista e que permitem a ela se lembrar? Essa é a própria forma singular que estabeleceu e se inscreveu para se relacionar com o Outro. Dessa forma, o manejo deu visibilidade a uma outra economia, que não dizia respeito exatamente ao dinheiro, embora estivesse cifrado nele, mas aos próprios impasses estruturais de subjetivação em relação ao Outro: desencadeando a possibilidade de uma abertura ao desejo, e à separação do objeto no campo da demanda que, até então, a inscreviam em um regime de gozo relativamente autodestrutivo: do braço quebrado, às dores nas costas incapacitantes, até o acidente de carro. Freud, ainda, alerta para alguns fatos: 1. O analista não deve deixar acumular grandes somas de dinheiro, solicitando o pagamento das sessões em intervalos curtos de tempo, como o de um mês; 2. Os valores estipulados a menor, ou seja, um “tratamento barato”, tende a não implicar o paciente; 3. O analista deve operar como um cirurgião, “que é sincero e cobra e cobra caro, pois ele dispõe de tratamentos que podem ajudar”; 4. Por mais que trabalhe, o analista deve considerar que não ganhará tanto quanto outros especialistas médicos (Freud, 2019, p. 132). Pelas razões acima descritas, neste momento de sua obra, Freud enfatiza que o analista não deve fornecer tratamento gratuito ou práticas em que abre exceções para colegas e suas famílias. 11 Freud justifica ter chegado a tal raciocínio por ter destinado, em sua clínica, de uma a duas horas para tratamentos gratuitos, sob a hipótese de que, ao trabalhar com as neuroses, estaria assim frente à menor resistência. Contudo, o que se operou nesses casos foi o oposto, chegando Freud à conclusão de que “algumas das resistências dos neuróticos aumentam enormemente no tratamento gratuito” (Freud, 2019, p. 133). TEMA 5 – DEMAIS SITUAÇÕES SOBRE O INÍCIO DO TRATAMENTO Dentre outras situações relevantes sobre o início do tratamento, Freud assinala o protocolo, ou rito, no qual é conduzido o tratamento. Na sala de análise, um divã, que deve ser oferecido ao paciente para se deitar, e uma poltrona logo atrás do divã, onde se senta o analista, sem que o paciente o veja. O divã é tido por Freud como dispositivo ou ferramenta de trabalho, tanto por seu aspecto histórico, que remete ao tratamento hipnótico, quanto pelo seu caráter prático, que, ao elevar o olhar do paciente, suspende a relação especular e permite que o sujeito do inconsciente emerja: O paciente geralmente entende a situação que lhe é imposta como privação, resistindo a ela, especialmente quando a pulsão de olhar [Schautrieb] (o voyeurismo) tiver um papel importante na sua neurose. Mas me mantenho irredutível quanto a essa medida, que tem a intenção e o efeito de prevenir a mistura imperceptível da transferência com aquilo que ocorre ao paciente, de isolar a transferência e, no tempo certo, deixá-la aflorar como resistência, descrita de forma clara e precisa. (Freud, 2019, p. 135) Em função disso, Freud coloca a questão: em que ponto e com que material deve-se iniciar o tratamento? Ao que esclarece que o material é indiferente, podendo ser a história de vida, da doença, lembranças da infância, enfim, o que o paciente deseje falar, ficando a cargo deste a escolha do ponto inicial (Freud, 2019, p. 136). Freud adverte, contudo, que cabe ao analista informaro paciente acerca da regra fundamental da psicanálise, a qual ele vai chamar de associação livre ou livre associação: Fazemos uma exceção apenas para a regra fundamental da técnica psicanalítica a ser observada pelo paciente. Apresentamos a ele esta regra desde o início: “Mais um detalhe, antes de começar. A sua narrativa deve diferenciar-se em um ponto de uma conversa comum. Enquanto normalmente e com razão procuraria achar o fio da meada no contexto geral da sua narrativa, rechaçando todas as ocorrências e pensamentos adjacentes para não se perder em digressões, proceda de outro modo aqui. Você observará que lhe ocorrerão vários 12 pensamentos que você quer rechaçar com certas restrições críticas. Você ficará tentado a dizer a si próprio: isto ou aquilo não vem ao caso, ou é absolutamente sem importância, ou não faz sentido e por isso não precisa ser dito. Nunca ceda a essa crítica, diga-o mesmo assim, justamente porque você sente uma rejeição diante disso. A razão dessa prescrição – na verdade, a única que você deverá seguir – você conhecerá mais tarde e aprenderá a entendê-la. Portanto, diga tudo o que lhe passa pela mente. Comporte-se, por exemplo, como um viajante sentado à janela do trem que descreve para quem está dela mais afastado, do lado de dentro, como a paisagem vai mudando diante de seus olhos. E, por fim, nunca se esqueça de que você prometeu sinceridade plena, e nunca passe por cima de algum fato só porque por algum motivo essa informação lhe é desagradável”. (p. 136) Afastando, então, a idealização de uma narrativa sistemática, Freud antecipa que haverá pacientes que irão se esforçar em preparar narrativas a serem ditas em sessão, e que esse recurso nada mais é do que resistência, orientando que o analista marque ao paciente que tal esforço “serve apenas de proteção contra o surgimento de ocorrências indesejadas” (Freud, 2019, p. 138). As tentativas de resistência do paciente, segundo Freud, podem se apresentar também por meio do escoamento da narrativa para além das sessões, com amigos, por exemplo, e que ao analista cabe, novamente, chamar o paciente para que encare o tratamento analítico ao que se desenrola no estabelecimento da transferência. Há ainda, para Freud, aqueles pacientes que frequentemente aparecem na clínica sob condição de que nada têm a contar, que não sabem o que dizer ou por que vieram à análise. Ao analista não cabe ceder o desejo do paciente de que fale por ele, mas sim encare tal comportamento como defesa neurótica, o qual deve ser enfrentado. NA PRÁTICA No caso apresentado pela vinheta, pudemos observar como um elemento específico das contratações iniciais de uma análise podem se desdobrar durante o tratamento. Embora a recomendação freudiana para o manejo do dinheiro seja não tratá-lo como embaraçoso, observamos nesse caso como o analista precisa adentrar ao embaraço da paciente, com base na relação transferencial, para dali extrair um importante conteúdo de trabalho. Mesmo com a pactuação de um valor e forma de pagamento, já no primeiro contato, antes mesmo da primeira sessão, algo reapareceu como questão por meio do dinheiro. 13 É importante dizer que o embaraço não era do analista, ele não se posiciona coadunando com os pudores civilizatórios referentes ao dinheiro, como orienta Freud, mas ele se empresta à transferência, que faz emergir, pela via do dinheiro e do horário da sessão, uma outra economia, como debatemos acima. Dessa forma, relembramos o que trabalhamos lá no segundo tópico: precisamos tomar esse texto freudiano não com um caráter definitivo, mas como recomendações, pois se trata de pontos de base para o trabalho acontecer, tendo em vista que eles já são parte do tratamento. Por fim, ressaltamos como o analista se apropria dessas recomendações, adicionando seu estilo, sua forma de abordar a problemática apontada por Freud em relação ao dinheiro, podendo fazer dela, assim, uma questão de análise. FINALIZANDO É importante recolher desta etapa que ao analista cabe estar atento às diferentes formas de expressão de conteúdos que os pacientes dão a ver. Em relação às recomendações freudianas em Sobre o início do tratamento, muito mais do que tomá-las como regras, ou até se deter de forma prescritiva para que uma análise possa advir, precisamos compreender que o que é (con)tratado nas primeiras sessões e as entrevistas preliminares já fazem parte do tratamento e compõem o caso. Com a vinheta clínica, tentou-se demonstrar isso em relação ao dinheiro: como as contratações econômicas foram sendo manejadas até o ponto de uma construção feita pelo analista, mas não sem as atuações e lembranças da analisante. Dessa forma, podemos observar como a obra freudiana permanece viva e nos dá subsídios para o nosso fazer. 14 REFERÊNCIAS FREUD, S. Sobre o início do tratamento (1913). In: _____. Obras Incompletas de Sigmund Freud – Fundamentos da Clínica Psicanalítica. São Paulo: Autêntica, 2019.