Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

1
2
MARCO CORREA LEITE
PSICANÁLISE CLÍNICA:
PRIMEIROS PASSOS
3
4
MARCO CORREA LEITE
PSICANÁLISE CLÍNICA: 
PRIMEIROS PASSOS
Leia o QR Code e assista uma mensagem 
gravada pelo autor para você…
Literatura em Cena
2022
@literaturaemcena19
5
Editor: 
Eduardo Lucas Andrade
Capa:
Indries Andrade Simões
Diagramação e revisão:
Geralda Andrade Simões
Agosto/2022
158
L533P Leite, Marco Correa
2022 Psicanálise clínica : primeiros passos ; Marco Correa Leite 
; Capa Indries Andrade Simões ; revisão de Geralda Andrade 
Simões. Bom Despacho : Literatura em Cena, 2021.
 146p. 
 ISBN : 978-65-87220-56-7
 
 1. Psicanálise ; 2. Clínica . II.Título 
 CDD 158
	 Ficha	catalográfica:	Geralda	A.	Simões-CRB/MG	003693
6
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................... 7
CAPÍTULO I - A PRIMEIRA SESSÃO .................................. 13
A Psicanálise cura! ..........................................................................13
As Primeiras Sessões .....................................................................18
CAPÍTULO 02 - O MÉTODO CLÍNICO ............................... 39
Adendo Sobre a Problemática da Técnica em Nosso Campo .39
As Primeiras Sessões: Tempo de Ver ...........................................46
A Terapia de Ensaio e o Diagnóstico ...........................................56
As Entrevistas Preliminares e a Entrada em Análise ...............65
Um Pouco Sobre a Clínica Contemporânea ...............................73
CAPÍTULO 03 - ÉTICA, DINHEIRO E TEMPO EM 
PSICANÁLISE: AS SESSÕES, O PAGAMENTO 
E NOSSA ÉTICA .......................................................................81
Tempo, Dinheiro e a Ética da Psicanálise ....................................85
O Pagamento e a Realidade: RSI ..................................................98
O Tempo .........................................................................................105
O Tempo da Sessão: Método Clínico .........................................114
Olhar, Compreender e Concluir a Lógica de Uma Sessão de 
Análise ............................................................................................121
CAPÍTULO 4 - A FORMAÇÃO DO ANALISTA...............127
Considerações Finais .............................................................137
Referências	bibliográficas ............................................................142
7
8
INTRODUÇÃO
 
O que realmente me cabe acentuar é que, ao se 
oferecer ao ensino, o discurso psicanalítico leva 
o psicanalista à posição de psicanalisante, isto é, 
a não produzir nada que se possa dominar, mal-
grado a aparência, a não ser a título de sintoma 
(LACAN, 1970/2003d, p. 310).
 
“Os primeiros passos da clínica” é um livro que pretende 
funcionar como um interlocutor para o analista em formação, 
que inicia sua jornada como psicanalista. Não foi pensado com 
a pretensão de ser passo-a-passo de como proceder na clínica, 
porque é impossível construir um manual, ou uma cartilha so-
bre a prática psicanalítica, uma vez que a universalização de 
seus postulados é inviável. 
Suas páginas contêm uma exposição teórica, recortada 
de testemunhos de ordem prática, sobre noções que são funda-
mentais quando pensamos sobre o fazer do psicanalista, quan-
do este se ocupa em oferecer uma análise àquele que o procura 
para	dar	fim	a	um	sofrimento	psíquico.	E	traz,	de	carona,	as	in-
quietações que implicam bancar um trabalho assentado sobre a 
ética da psicanálise. Essa ética, insistente, aponta para o desejo e 
– consequentemente – para a falta. É preciso não perder de vista 
esse farol ético, quando se escreve para quem está iniciando na 
prática clínica. 
O autor, por isso, teve o cuidado de dividir sua obra em 
temas norteadores, que vão desde a exposição teórica sobre o 
começo de uma análise e a posição ética que um analista precisa 
ocupar até questões práticas, como a função das entrevistas pre-
9
liminares, o pagamento das sessões e o manejo do tempo com 
os analisantes, um a um. A cada capítulo encontramos a cons-
trução de um testemunho teórico-clínico de um psicanalista que 
não cessa de pensar, re-pensar, ensinar e aprender a psicanálise. 
A verdadeira psicanálise, calcada na ética de produzir a mais 
pura diferença pela positivação da experiência com o unheimli-
ch, esse estranho tão familiar que nos habita.
O livro caminha na direção de co-laborar criativamente 
com o leitor, a partir do que seu autor testemunha como ana-
lista, analisando e professor. Dessa maneira, na sustentação de 
uma escrita que promove um ensino, também aposta que ocor-
ra a transmissão. Tal aposta por intermédio de um livro, foge 
de um ideal pedagógico para, justamente, sustentar a possibili-
dade da transmissão da psicanálise. Ser analista é ocupar uma 
posição de se mostrar habitado por um desejo mais forte do que 
o desejo de ser mestre. 
Phillipe Julien (2006, p. 245) escreve que “o que um ana-
lista já sabe não lhe serve de nada [...]”, porque é a prática que 
não cessa de fundar, e furar, a teoria. Não é a teoria, única e 
somente, que determina o trabalho psicanalítico, mas o real da 
experiência com a psicanálise. São as questões, os embaraços, 
os “não saberes” que movimentam e renovam a psicanálise. E, 
para tanto, é preciso “[...] sustentar radicalmente a experiência 
limite da morte indicada pela dor do desamparo, acreditando 
que, da fronteira com o horror do impossível, o sujeito vai ad-
vir”. (Birman, 2016, p. 49) O que “hominiza” os seres é carregar 
consigo a questão que não tem resposta, e nunca terá. Donde 
nos habilita a entender que o dito do Inconsciente é uma respos-
ta pelo fato de ser o que estimula qualquer pergunta.
Encarar	esse	desafio	não	é	para	os	fracos	de	coração.	E	se	
você está com esse livro nas mãos, deduzo que você tem esse 
10
desejo. O que posso dizer é que o livro discorre sobre o início da 
clínica com coragem e criatividade. Criação e desejo: encontro 
potente que sustenta cada psicanalista, responsável por fazer 
perdurar a psicanálise nos nossos consultórios e na cultura, des-
de sempre tão resistente aos seus princípios. 
Lacan diz, em Nota Italiana, que só existe analista se esse 
desejo	lhe	advier	e,	na	sustentação	de	tal	desejo,	ele	se	fizer	re-
botalho da humanidade. Mas atenção: saber ser um rebotalho 
vem junto com o entusiasmo gerado pelo encontro com o gaio 
saber, ensina.
Só existe analista se esse desejo lhe advier, que já 
por isso ele seja rebotalho da dita humanidade. 
Digo-o desde já: essa é a condição da qual, por 
alguma faceta de suas aventuras, o analista deve 
trazer a marca. [...] É justamente aquela que lhe 
imputo, de haver transmitido unicamente aos re-
botalhos da douta ignorância um desejo inédito. 
O	qual	se	trata	de	verificar:	para	fazer	o	analista.	
[...] A partir daí, ele sabe ser um rebotalho. Isso é 
que o analista deve ao menos tê-lo feito sentir. Se 
ele não é levado ao entusiasmo, é bem possível 
que tenha havido análise, mas analista, nenhuma 
chance. (p. 313)
 Trata-se, então, de uma relação muito particular com esse 
saber que passa em ato. O analisando passado a analista se en-
contra com o entusiasmo e reescreve com a mesma “pena” o 
que de pena não há mais. Posiciona-se como objeto resto, objeto 
a,	refugo	da	operação	de	divisão	do	sujeito.	Retifica	o	sentido	
da sua existência para fazer surgir daí um trabalho intrínseco à 
dimensão da verdade e que, por estar aí situado, toca o real, a 
causa do desejo. 
Esse trabalho de se formar analista, então, só pode ser re-
alizado em um tempo sem pressa, de paciência artesã, de tra-
11
dução de línguas estrangeiras, de espera e de repetição. É um 
tempo de elaborações tão intensas que precisam ser ditas deva-
gar, porque trazem a verdade não-toda sobre si mesmas. Nesse 
sentido, a direção é mais importante que a velocidade e consta-
tamos	diariamente	que	os	meios	se	adaptam	ao	destino,	fincado	
no desejo incansável de exercer o ofício do psicanalista.realmente aconteceu 
ou não e, não fazer uma anamnese ou um questionário, pois a 
ideia central é permitir que o paciente diga o máximo possível 
daquilo que o faz sofrer e que, de alguma forma, o fez pedir 
ajuda. O analista intervém para que o paciente continue falando 
com questões não de sua curiosidade, mas que revele ao pacien-
te que ali, no que ele disse, talvez haja algo mais a ser dito, haja 
um maldito que pode ser bendito no decorrer da análise.
Durante esta espécie de ensaio temos que, nos primeiros en-
contros, ofertamos ao paciente um espaço para que ele fale e, no 
decorrer	dos	encontros	vamos	verificando	sessão	após	sessão	se	
uma análise é mesmo necessária ou recomendada naquele caso. 
Freud	 (1913)	nos	 escreve	um	 texto	magnífico,	 simples	 e	
muito coerente com a prática clínica ainda nos dias atuais. A 
disposição do analista ao receber os pacientes, principalmente 
nas primeiras sessões, passa pela ética da Psicanálise em que 
Lacan	irá	posteriormente	trabalhar	com	afinco	ao	enunciar	que	
o analista deve sempre se ocupar de receber cada novo paciente 
atentando-se para o caso a caso. 
Para Freud (1913), a indicação é muito clara, devemos re-
ceber cada paciente como se nada soubéssemos de outros casos, 
deixar	nossa	atenção	fluir	sobre	a	fala	do	paciente,	não	tomar	
notas, não explicar nada até que a transferência esteja bem es-
tabelecida. 
A recomendação de Freud e de Lacan não são divergentes 
e nem excludentes. O que Lacan (1960) pensa como a ética da 
Psicanálise, se opõe à ética do bem comum, como havia engen-
drado Aristóteles em Ética a Nicômano. Ao avançarmos no tem-
po	temos	uma	série	de	filósofos	que	se	detiveram	a	respeito	da	
ética, como Bentham e Mill, que propunham que a ação do ho-
50
mem deveria propiciar o máximo possível de bem-estar a partir 
de uma ética utilitarista. Estes modelos e pressupostos de como 
agir e quando agir, de dispositivos inatos ou sociais que asse-
gurariam um bem a todos e, na medida do possível, para todos, 
é o oposto do que Freud descobriu em sua prática e que Lacan 
sustentou	até	o	fi	m	de	sua	vida	ao	enunciar	que	a	Psicanálise	é	
uma	ética,	mais	precisamente	uma	ética	do	desejo.	Como	afi	r-
ma Dunker (2016) a ética da psicanálise se distancia inclusive 
da moral que pode ser pensada como o con-
junto de regras impostas pela sociedade no 
intuito de cercear a subjetividade humana.
Esta questão da ética é justamente a 
disposição que o analista deve ter, ao receber 
um paciente, de reconhecer que o analista não 
sabe o que é bom para o sujeito que irá se produzir a partir das 
entrevistas preliminares. O bom, o bem e o belo, como propunha 
Aristóteles, segundo Lacan (1960) não o são para todos. Isso im-
plica em dizer que o objeto o qual o ser humano aspira não está 
pré-determinado e, rigorosamente falando, sequer pode ser en-
contrado em coisa alguma que a sociedade e a história oferecem. 
O bom, para cada um, o belo para cada um e o bem de cada um. 
Esta postura inicial no início do tratamento é aquilo que faz uma 
cisão nos modelos terapêuticos tradicionais onde haveria um 
“padrão” de saúde, ou de bem-estar a ser alcançado a partir de 
determinados índices ou daquilo que naquela cultura é esperado. 
Ora, se não há um bem, um bom e um belo para todos, 
por que deveríamos pensar um mal para todos? O analista, ao 
receber cada paciente novo em seu consultório deve reconhecer 
que daquilo que o paciente sofre, somente é possível saber pe-
quenos recortes que aparecem na fala de cada um que procura 
por ajuda. Vejam que não há um saber prévio.
51
Para	 exemplifi	car	 isso,	 tomemos	 as	depressões	 que	 tem	
sido, de alguma maneira, o equivalente da histeria no tempo de 
Freud, da paranoia para Lacan e da bipolaridade e borderline 
na	década	de	1990/2000.	Podemos	afi	rmar	que,	de	acordo	com	
os dados alarmantes da OMS, a depressão pode ser o grande 
paradigma das psicopatologias contemporâneas. 
Dentro de minhas últimas pesquisas tive o privilégio de 
encontrar um artigo que, ao procurar um biomarcador que 
comprovasse que a depressão é um transtorno mental de ori-
gem orgânica, Kennis, M., Gerritsen, L., van Dalen, M. et al. 
(2020), chegaram à conclusão que não existe até o momento ab-
solutamente nenhum indicador que comprovasse essa hipótese. 
Já em artigo recente publicado na revista Nature em julho de 
2022 com o título The serotonin theory of depression: a systematic 
umbrella review of the evidence,	os	autores	chegam	a	afi	rmar	vee-
mentemente que a depressão não tem relação 
direta com a concentração de serotonina no 
cérebro. Inclusive, desde a década de 90, esta 
tem sido uma das maiores propagandas das 
indústrias farmacêuticas que apoiam a cons-
trução e a utilização do DSM. 
Se	isso	não	for	sufi	ciente,	ao	acessar	o	site	da	Organização	
Mundial da Saúde (OMS) veremos que a sua causa é indetermi-
nada. Ora, Freud (1913) em seu artigo A dinâmica da transferência, 
em uma nota de rodapé, já nos atentava que o adoecimento não 
depende apenas de uma falha ou de um evento no corpo. Freud 
(1913)	é	muito	específi	co	ao	dizer	que	o	adoecimento	depende	de	
uma predisposição orgânica, histórica e acidental. Curiosamen-
te, essa é a proposta da Epigenética, uma ciência que estuda a 
maneira como os genes são “lidos” pelas estruturas celulares e a 
partir desta leitura as proteínas são sintetizadas e o corpo, como 
52
um todo, passa pelos efeitos desta produção de síntese proteica. 
Um acidente, a exposição a determinados químicos, situações 
corriqueiras de estresse, muitas são as possibilidades de intera-
ção entre nossa genética e o meio que nos afeta cotidianamente. 
Fiz essa volta para que possamos nos abrir um pouco à hi-
pótese de que também aquilo do que nossos pacientes se quei-
xam, por mais que possam ser categorizados como depressão, 
jamais será uma mesma patologia. Dunker (2021) trabalha esta 
questão de forma muito precisa. Não se trata de uma mesma 
entidade para todos os diagnosticados com este mal, mas de vá-
rias	depressões	que,	quando	os	sintomas	são	lidos	e	classifica-
dos por um médico (para dar o exemplo) fecha-se o diagnóstico 
com um nome. Ocorre que este nome diz pouco, ou quase nada 
sobre a coisa em si mesma. Então, cabe-nos perguntar, como pa-
dronizar o tratamento sabendo que são histórias, vidas, pessoas 
tão diferentes? O analista aqui, apoiado pela ética do um a um, 
do caso a caso, parece ter certa vantagem frente a outros mode-
los de tratamento no campo da saúde mental como um todo. 
Continuando com a questão da ética da Psicanálise, o 
bem, o bom e o belo em Aristóteles podem ser vistos como ide-
ais culturais em que o Eu tem como norte para se agarrar a uma 
direção que, na grande maioria das vezes, vai na direção oposta 
da satisfação pulsional do sujeito do inconsciente. Essa direção, 
podemos chamar de um ideal, Eu Ideal, como nos ensina Freud 
(1914) em Introdução ao narcisismo, um Eu que se busca ser para 
um outro que deseja que ele seja isso. Isso o quê? Isso que falta 
ao Outro para sua completude. 
Notem que aquilo que falta ao Outro é sempre suposto, 
não podendo jamais ser o mesmo para duas pessoas diferentes 
pois as histórias, as privações, as frustrações, tudo isso compor-
ta o plano da história que se constrói sobre a questão “o que e 
53
como ser para que alguém me ame?” de cada um.
Freud (1913) já nos atentava sobre estas questões quando 
afirma	que	“nem	mesmo	longas	conversas	e	perguntas”	(p.	122)	
poderiam substituir o “tratamento de ensaio” (p. 122). O que 
Freud denominou de tratamento de ensaio em O início do trata-
mento tem relação direta com o que Lacan chama de entrevistas 
preliminares. 
Para Freud, o tratamento de ensaio seria, antes de mais 
nada,	importante	para	“conhecer	o	caso	e	verificar	se	é	adequa-
do à Psicanálise” (p. 122). Outro ponto a que um tratamento de 
ensaio se presta é com relação ao diagnóstico. Notem que não 
são todos os tipos de sofrimentos que podem ser trabalhados 
em análise. Isso sempre foi muito claro dentrode nosso cam-
po. Os analistas clássicos nunca abriram mão disso, embora 
em nossos dias alguns charlatães insistam que a Psicanálise é 
para	todo	mundo,	isso	não	se	verifica	pois	nem	todas	as	pessoas	
apresentam um sofrimento cuja determinação é inconsciente e é 
endereçável a um terceiro. 
Estamos aos poucos entrando na questão das entrevistas 
preliminares	e	já	verificamos	até	aqui	três	funções	que	se	com-
plementam,	a	primeira	é	a	de	verificar	se	aquele	paciente	e	aquilo	
de que ele se queixa é da ordem do tratável pela via da palavra, 
é da ordem de um maldizer que pode, com o trabalho, tornar-se 
um bem-dizer. A segunda é com relação ao diagnóstico que está 
imbricado com a primeira questão. A terceira e, talvez aquilo que 
nos permita chamar de uma entrada em análise propriamente 
dita, é quando se produz a partir do sofrimento uma demanda 
a um outro que está na posição de objeto causa do mal-estar. 
Freud nomeou este terceiro momento como “neurose de trans-
ferência”. Podemos dizer que é muito próximo da demanda de 
análise em Lacan, mas que, ainda assim não é a mesma coisa. 
54
Sobre	a	Terapia	de	Ensaio	de	Freud
 
O que é um ensaio?
Na	 língua	 portuguesa	 temos	 ao	menos	 duas	 definições	
possíveis	para	significar	esta	palavra.	A	primeira	é	com	relação	
ao que nos parece mais diretamente ligado ao texto de Freud 
(1913), um ensaio pode ser um “período probatório” (p. 122) 
em que ensaiamos com o paciente os primeiros passos como 
em uma peça, em uma dança, em uma apresentação. Temos 
também que Ensaio é um ato de ensaiar, pôr à prova, testar as 
coisas	para	verificar	o	que	é	possível,	treinar,	etc..	O	período	de	
ensaio seria então um período predeterminado em que organi-
zaríamos as regras do jogo, o que é esperado do paciente, o que 
o paciente pode esperar de nós, os acordos com relação ao tem-
po das sessões, horários, valores, bom, as regras todas seriam 
postas	e	verificaríamos	a	construção	da	transferência	a	partir	daí	
apostando em tão somente uma única coisa, na fala do paciente. 
“Quer se pretenda agente de cura, de formação 
ou de sondagem, a Psicanálise dispõe de apenas 
um meio: a fala do paciente. A evidência desse 
fato	 não	 justifica	 que	 se	 o	 negligencie.”	 Lacan	
(1953 - função e campo da fala e da linguagem)
No afã dos resultados para comprovar seu trabalho ou 
justificar	o	valor	gasto	com	o	tratamento,	muitos	profissionais	
que se colocam em nosso campo acabam por recorrer a outras 
“técnicas” terapêuticas no intuito de darem ao paciente aquilo 
que eles dizem querer. Isso não inviabiliza a Psicanálise apenas 
pelo fato de que são práticas eticamente opostas e que os méto-
dos utilizados também não são complementares, mas pela posi-
ção	que	o	profissional	ocupa	desde	as	primeiras	sessões.	Apos-
tar única e exclusivamente na fala do paciente é colocar-se em 
55
uma posição de acolhimento pela escuta de maneira irredutível. 
Se o sofrimento do paciente, o sintoma que ele se queixa, seus 
impasses,	 suas	 dificuldades,	 etc.	 são	 efeitos	 de	 um	maldizer,	
não será por outra via que não a do dizer, que encontraremos 
alguma possibilidade de cura. O que acolhemos, então, é a fala. 
Neste acolhimento, elevamos a fala à sua dignidade de criação. 
Devolvemos ao falante a possibilidade de transformar-se a par-
tir do momento em que conseguimos articular o maldizer em 
um	bem-dizer	o	sintoma.	Com	isso,	verificamos	que	ocorre	uma	
cura no decorrer do tratamento na medida em que o paciente 
fala e endereça essa fala a alguém que a acolhe. Isso só é possí-
vel quando o mal-estar é decorrente do inconsciente que, como 
afirma	Lacan	(1953),	é	estruturado	como	uma	linguagem	e	que	
encontra na fala a possibilidade de se revelar.
Essa possibilidade de transformação provém da posição 
que o analista ocupa na relação transferencial. O endereçamen-
to	de	uma	demanda	de	cura	é	realizado	a	qualquer	profissional	
no campo da saúde, mas ocupar o lugar de analista, isso é so-
mente possível a quem já passou pelo percurso em sua análise 
até o ponto do des-ser4. Oferecemos aos nossos pacientes a cura 
que nos foi ofertada. 
Devemos ter sempre em conta a ideia de que se nosso so-
frimento fosse de outra ordem, também uma análise não seria 
indicada. E ainda mais, a ideia que Lacan traz a respeito de uma 
análise levar até o ponto do des-ser não é por qualquer razão. 
Enquanto acreditamos ser o que o paciente quer e/ou precisa, 
enquanto apostamos no ser, jamais conseguiremos ocupar o lu-
gar	de	objeto	para	que	uma	análise	possa	se	produzir.	Afinal,	
como já vimos aqui sobre a ética da Psicanálise, o objeto do ana-
4 Este ponto será mais trabalhado no capítulo deste livro que versa sobre a forma-
ção do analista. 
56
lisante não é o analista e, muito menos, o objeto suposto satisfa-
zer o analista em sua posição de sujeito. 
Freud em A dinâmica da transferência é muito criterioso 
neste	 ponto	 quando	 afirmou	 que	 os	 pacientes	 procuram	 nos	
analistas,	tal	qual	procuram	em	médicos,	professores	e	outras	fi-
guras de autoridade, não apenas uma cura, mas principalmente 
estabelecer uma relação de amor em que seja possível satisfazer 
uma demanda pulsional insatisfeita. Aí está uma direção quan-
to à posição que o analista deve ocupar. Enquanto outros pro-
fissionais	acreditam	poder	ser	isso	que	o	paciente	busca,	o	ana-
lista interroga o paciente para que ele perceba que a satisfação 
almejada é impossível. Começa aqui um trabalho de orientar o 
amor em direção ao saber que o paciente porta e também que 
ele irá construir na falta de sentido que sua própria fala acaba 
revelando sessão após sessão. 
Segundo Lacan em A agressividade em Psicanálise (1948).
“Sublinhei que o analista curava pelo diálogo, 
e curava loucuras igualmente grandes; que vir-
tude, portanto, acrescentou-lhe Freud? A regra 
proposta ao paciente na análise deixa-o avançar 
por uma intencionalidade cega para qualquer 
outro	 fim	 que	 não	 sua	 libertação	 de	 um	 sofri-
mento ou de uma ignorância dos quais ele nem 
sequer conhece os limites.” (p. 109).
Notem como Lacan, em diversos momentos de sua obra 
repensa Freud articulando seus conceitos com o que Freud já 
havia desenvolvido. 
Quero deixar claro essa posição, demarcá-la de forma 
muito contundente, o analista opera com as palavras que saem 
da boca do paciente, funcionamos como uma caixa de ressonân-
cia. Quando realizamos qualquer intervenção não damos nossa 
opinião a partir de nossas ideias e ideais, mas a partir daquilo 
57
que ouvimos da boca do próprio paciente. 
Se um ensaio tem como premissa um ato, uma espécie de 
teste, nossas interpretações ganham força quando saímos do 
tempo do ensaio e entramos na dinâmica do circuito pulsional 
como objetos. Agora, para que isso aconteça, é preciso que o 
analista oferte ao paciente o seu não saber sobre o que quer que 
seja que ele tem a dizer para, só depois, ao retornar o dizer ao 
paciente, o faça de uma posição, de um lugar que não é o dele, 
mas interpretando, como em uma peça de teatro, como em uma 
cena, sabendo de antemão que ele, enquanto sua pessoa, não é 
isso, mas que precisa permitir que o analisante o faça ser para 
que o tratamento seja possível.
Neste	 tempo	de	ensaio,	de	 teste,	vamos	verificando	que	
algo se produz endereçado ao analista. Notem que das três con-
dições	colocadas	até	aqui	verificamos	apenas	a	primeira,	que	é	
o saber se aquilo de que o paciente se queixa é realmente algo 
passível de ser tratado pela via da psicanálise, pela via da pala-
vra em uma relação transferencial. 
Seguiremos agora para o diagnóstico que será a porta de 
entrada na análise e, como toda porta, para entrar em qualquer 
lugar	é	preciso	atravessá-la,	não	se	entra	em	lugar	nenhum	fi-
cando parado sobre a segurança dos batentes.
 
A	Terapia	de	Ensaio	e	o	Diagnóstico
A questão do diagnóstico é um tanto quanto complexa em 
nosso campo, vale retornar aos textos centrais para ler e reler e 
repensar o que fazemos a todo instante. Nossa intenção aqui 
não é um aprofundamento muitomenos um esgotamento da 
temática. Pretendo, ao abrir este subtítulo neste capítulo, ape-
nas retomar algumas orientações sobre nosso fazer clínico que 
58
podem auxiliar quem está começando e quem já está há mais 
tempo na clínica. 
Primeiro ponto, em Freud, o diagnóstico se dá durante a 
terapia de teste no decorrer do início do tratamento. No entan-
to,	é	inviável	a	ideia	de	uma	definição	pontual	do	que	seria	a	
terapia de teste, o tratamento e o diagnóstico como momentos 
separados. Podemos separar didaticamente para teorizar so-
bre, mas na clínica essa separação não é muito bem delimitada. 
Posteriormente com Lacan veremos que existe uma entrada em 
análise propriamente dita, mas que, ainda assim, no dia a dia do 
consultório, isso não se dá de uma maneira unívoca ou pronta e 
acabada. Por vezes a dúvida permanece ainda por algum tempo 
e	isso	é	normal,	faz	com	que	nós,	no	lugar	de	analistas,	verifi-
quemos que nossa teoria não dá conta de tudo que acontece na 
vida e do que chega em nossa clínica. Tal qual os analistas tem 
seus limites, nossa prática e a teoria que a sustentam também 
tem.
Começo então com uma questão central que norteará o 
trabalho:	o	que	significa	a	palavra	diagnóstico?
O diagnóstico, é uma espécie de conhecimento estrutura-
do que se tem e se formaliza a partir de um ou mais fenômenos. 
O diagnóstico por exemplo, pode ser de uma planta a qual ire-
mos catalogar dentro de uma espécie de rol que contenha ou-
tras	plantas,	ou	ainda,	para	afirmar	que	aquilo	que	está	sendo	
estudado é uma planta e não um animal.
Todo diagnóstico serve para orientar uma conduta, não 
importa se este diagnóstico é no campo da saúde, da informá-
tica,	de	uma	 leitura	de	um	 texto	onde	se	procura	verificar	os	
erros, equívocos, etc.. É um grande equívoco dizer que o diag-
nóstico é um campo ou saber médico. O diagnóstico é uma pa-
lavra que tem uma amplitude muito maior, como a palavra cura 
59
que pode ser utilizada para dizer de um processo, por exemplo, 
com relação ao queijo. Ora, um queijo curado não estava doen-
te, mas passou por um processo de cura. A cura, deixa de ser 
um	fim	e	torna-se	um	meio.	Com	a	palavra	diagnóstico	temos	
a mesmíssima aplicação. O diagnóstico, independentemente de 
ser	ou	não	realizado	no	campo	da	saúde	não	é	a	palavra	final,	
mas	um	meio	para	se	atingir	um	fim.	
Grosso modo, um diagnóstico pode ser então uma ação 
de conhecer e produzir um saber sobre o fenômeno investigado 
e	que	tem	como	objetivo	uma	classificação	para	realizar	um	de-
terminado tratamento. Tratamento aqui que pode ser inclusive 
simplesmente	classificar	o	objeto	estudado	como	animal	ou	ve-
getal. Tratamento pela via de uma demarcação de semelhanças 
e diferenças a partir do observador que permitem a categoriza-
ção daquilo que está sendo estudado. 
No campo da saúde mental, temos um problema impor-
tante. Friso aqui que as semelhanças e diferenças de determina-
dos fenômenos ou objetos estão intrinsecamente relacionadas 
com o observador. Um médico ao ver uma determinada ferida 
vai dar um diagnóstico, um xamã por outro lado irá dizer de 
outra coisa, um líder religioso uma terceira. O diagnóstico então 
depende de uma teoria que esteja constituída como saber em 
quem diagnostica. No campo da saúde mental não é raro que 
uma pessoa passe por diferentes psiquiatras e receba mais de 
um diagnóstico e, em seguida, mais de um plano de tratamento.
Pensemos o seguinte, um diagnóstico de hanseníase há 
muitos anos era um tipo de sentença de morte. Hoje, ainda que 
exista muito preconceito, há tratamento e é possível a cura. O 
que mudou? Simples, o entendimento do agente patógeno e 
também	a	evolução	no	conhecimento	científico	e	no	fazer	mé-
dico que permitiram a criação de determinados medicamentos 
60
que podem ser utilizados para o tratamento e cura do problema.
E	no	campo	da	saúde	mental?	É	possível	verifi	car	um	ca-
minho	de	evolução	científi	ca	e	no	saber	para	tratarmos	as	pato-
logias concernentes a nosso trabalho?
A resposta a essa questão é um tanto quanto complexa. Se 
tomarmos como base a melancolia que é descrita desde Hipócra-
tes como uma perturbação na quantidade da bile negra que afeta 
a alma, produzindo pensamentos, comportamentos destoantes, 
etc., podemos dizer que houve uma evolução teórica a esse res-
peito. Hoje, em pleno século XXI, temos o DSM que, em sua pri-
meira edição trabalhou com a melancolia e, nas edições seguintes 
trocou o termo por Psicose maníaco depressiva e, atualmente, 
Transtorno do humor afetivo bipolar. O que se pensava que se-
ria de causalidade orgânica com a teoria da bile negra, nunca foi 
comprovado empiricamente. Mesmo porque sequer as quatro 
qualidades de bile descritas por Hipócrates 
foram	 verifi	cadas	 nos	 corpos	 dos	 pacientes.	
Ocorre que no transtorno do humor afetivo bi-
polar, também nos dias atuais, não temos uma 
causalidade	orgânica	defi	nida.	De	acordo	com	
Sagar	&	Patt	anayak	(2021)	
Na prática clínica atual, o diagnóstico de trans-
torno afetivo do humor bipolar é feito pela 
anamnese, entrevista e observações comporta-
mentais, carecendo, portanto, de uma valida-
ção biológica objetiva.
Embora existam uma série de estudos e pesquisas ten-
tando	 localizar	biomarcadores	específi	cos	para	os	 transtornos	
mentais, de uma forma geral, até o momento não se encontrou 
nada que apoiasse a teoria da causalidade orgânica dos respec-
tivos transtornos. Podemos dizer que por mais de dois mil anos, 
61
no caso da melancolia, a ciência continua apostando em uma 
causalidade orgânica sem muito sucesso. De Hipócrates até os 
dias atuais, o que temos como padrão para diagnosticar é tão 
somente o relato dos pacientes e, em alguma medida, a obser-
vação comportamental e a fala das pessoas mais próximas. A 
partir	dos	dados	teremos	então	a	classifi	cação	de	determinada	
pessoa em um tipo de rol, de prateleira de mercado em que se 
encontram não apenas o nome da doença, mas também as pos-
sibilidades de tratamento e de cura. 
Ocorre que um psiquiatra que aposta na disfunção orgâni-
ca e tenta por essa via, como foi muito comum na década de 90 e 
nos anos 2000, uma homeostase, um retorno ao estado anterior 
do	organismo	sem	um	trabalho	conjunto	com	outros	profi	ssio-
nais, não terá resultados muito promissores. Hoje em dia já se 
sabe inclusive que o tratamento somente com antidepressivos 
não alcançam o efeito esperado a longo prazo na grande maio-
ria dos pacientes. Para citar um exemplo, em artigo publicado 
em 2020, na BMJ evidence based medicine, os autores chegaram a 
até	mesmo	afi	rmar	categoricamente	que	
“The	benefi	ts	of	antidepressants	seem	to	be	mi-
nimal and possibly without any importance to 
the average patient with major depressive di-
sorder. Antidepressants should not be used for 
adults with major depressive disorder before 
valid evidence has shown that the potential be-
nefi	cial	eff	ects	outweigh	the	harmful	eff	ects.”.	
Esta discussão está longe de acabar, o foco do subtítulo 
em que estamos é apenas para problematizarmos a questão do 
diagnóstico	e	do	tratamento	e	a	partir	daí	verifi	carmos	como	po-
demos operar com o diagnóstico em Psicanálise enquanto uma 
teoria que sustenta uma, entre tantas outras, práticas no campo 
62
da saúde mental. Utilizo esse exemplo da psiquiatria que apos-
ta na causalidade orgânica para que possamos problematizar 
que um tratamento implica necessariamente, em um primeiro 
momento, em saber sobre aquilo que nos propomos a tratar. A 
crítica aqui não é aos psiquiatras ou aos médicos, mas a uma ló-
gica que tende a colocar a causalidade orgânica dos transtornos 
mentais como uma verdade mesmo que empiricamente falando 
não há qualquer evidência disso no campo da ciência.
Segundo Freud (1915) 
“a psiquiatria dá nomes às diferentes obses-
sões, mas não diz nada mais acerca das mes-
mas. Por outro lado, insiste em que são ‘dege-
nerados’ aqueles que sofrem desses sintomas. 
Isto proporciona pouca satisfação; de fato, é 
um julgamento de valores - uma condenação”.Ora, o que temos desde a época de Freud até os dias atuais 
é uma tentativa de diagnosticar aquilo que os nossos pacien-
tes	nos	relatam	a	partir	de	teorias	que	justificam	determinados	
tratamentos. Agora, se a teoria não dá conta de acolher a quem 
nos	procura	e	não	se	encontram	a	partir	de	pesquisas	científicas	
dados	empíricos	confiáveis	de	que	o	tratamento	seja	eficaz,	es-
taríamos no campo do tratamento baseado em evidências ou no 
campo	do	achismo,	em	que,	será	o	profissional	partindo	de	sua	
interpretação	que	dirá	se	alguém	pode	ou	não	se	beneficiar	do	
tratamento que ele oferece?
Para dar um exemplo, por mais que tratemos a covid-19 
com pílulas de farinha, chás ou outros medicamentos no mí-
nimo “duvidosos” não teremos nem a cura e nem a remissão 
dos sintomas, no máximo alcançaremos algum tipo de benefício 
terapêutico vinculado ao efeito placebo que, em se tratando do 
campo da saúde mental é muito maior do que quando com-
paramos com tratamentos de infecções com um antibiótico por 
63
exemplo. O que está em jogo é que o tratamento depende de 
uma	teoria	que	o	sustente,	e	que,	em	última	análise,	será	a	eficá-
cia do tratamento que poderá validar ou refutar a teoria.
Voltando agora para o diagnóstico em Psicanálise, Freud 
(1913)	 afirmou	 que	 quando	 erramos	 no	 diagnóstico,	 o	 psica-
nalista “terá cometido uma falha prática e causado um esforço 
inócuo, desacreditando o seu processo de cura.” (p. 123). Errar 
no diagnóstico põe em cheque a possibilidade de validação da 
teoria	no	sentido	de	que	a	eficácia	terapêutica	terá	menos	chan-
ces de ser alcançada com o tratamento ofertado.
Este esforço para diagnosticar não é algo paralelo ao tra-
tamento em si, o problema é que, justamente, o diagnóstico em 
Psicanálise não se dá apenas pela fala do paciente no sentido de 
que o analista deveria recolher o máximo de informações possí-
veis, como ocorre em outras práticas no campo da saúde men-
tal, muito menos através da observação comportamental, mas 
antes, a partir daquilo que se produz na relação com o analista.
Segundo Dunker (2011) 
“Em	vez	de	 uma	 classificação	 exaustiva	 e	 de	
uma descrição objetivante, Freud reintroduz 
uma homogeneidade entre tratamento e diag-
nóstico, abolida na clínica psiquiátrica”. (p. 
456-457). 
Ainda	no	mesmo	livro,	Dunker	afirma	que	“o	diagnóstico	
é feito não apenas através da transferência, mas da transferên-
cia” (p. 457) e ainda “A diagnóstica em Psicanálise se exerce da 
primeira até a última sessão da experiência” (p. 458.). Ora, isso 
é muito importante pois aqui temos que considerar que o ana-
lista em seu saber fazer, com suas intervenções, produzirá como 
efeito o sujeito no instante em que ele mesmo será submetido 
à condição de objeto para que o tratamento propriamente dito 
64
se inicie. Note bem que a terapia de ensaio aqui é alçada a um 
outro patamar, ela mesma é, ao mesmo tempo o início do trata-
mento, a possibilidade de entrada em análise e aquilo sobre o 
qual poderemos, ao diagnosticar, operar na condução da cura. 
Quero sublinhar isso, o tratamento de ensaio, ou terapia 
de ensaio, como queiram5, é ao mesmo tempo e de uma só vez 
uma	verificação	 sobre	a	possibilidade	de	uma	análise	na	me-
dida em que se realiza um diagnóstico não do paciente, mas 
do que se produz em transferência. Aqui, podemos ter um vis-
lumbre dos motivos para que Freud propusesse a ideia de um 
tratamento de ensaio. Não há na leitura mais rigorosa dos textos 
freudianos uma clara distinção que determina o exato momento 
em que um tratamento de ensaio se encerra e o tratamento pro-
priamente dito se inicia. Ao invés disso, encontramos coordena-
das que orientam nosso fazer clínico. 
Assim não há um melhor caminho do que aquele que La-
can propôs para pensarmos a prática clínica partindo da supo-
sição de que seria possível formalizar a experiência analítica. 
Antes de entrarmos nas entrevistas preliminares propostas por 
Lacan, convém que retomemos que o diagnóstico então depen-
de	necessariamente	do	saber	do	profissional	e	que,	em	se	tratan-
do de Psicanálise, o diagnóstico da transferência só é possível 
com o avanço do tratamento, não antes e nem depois, mas no 
decorrer do mesmo. 
Diagnosticamos uma neurose, uma perversão ou uma psi-
cose para decidir como intervir em cada caso. Não por acaso 
Freud deu o nome de “Neurose de transferência” para aquilo 
que se produzia na relação com o analista. Por esta via nos é 
5	A	meu	ver	nesse	ponto	em	específico	não	 importa	 tanto	o	nome	que	se	dê	à	
experiência, como Lacan irá depois repensar isso e nomear de entrevistas prelimi-
nares, o que importa é saber sobre o processo, como ele ocorre e o que esperamos 
dele. 
65
possível pensar uma psicose de transferência e uma perversão 
de transferência. Ou seja, o diagnóstico é a leitura que é feita 
da maneira como o sujeito se defende da castração, de sua mo-
dalidade de gozo, de sua relação com Outro, etc.. Não caberia 
aqui, mais uma vez, uma exaustiva descrição do que seria uma 
neurose, uma psicose ou uma perversão. Também não pretendo 
dizer como os analistas devem seguir em cada estrutura. Este 
livro, por ser um trabalho para quem está iniciando, deve ao 
menos incitar a, em suas limitações, produzir no leitor um senti-
mento de ... “mais ainda...” desejar saber mais, ir atrás de outras 
leituras, supervisões e trabalhos para amparar sua prática. 
Que se saiba, no entanto, que uma clínica das psicoses não 
é o mesmo que uma clínica das neuroses que também não é a 
mesma coisa que uma clínica das perversões. Cada estrutura tem 
seus	impasses,	limites,	desafios	e,	por	que	não,	possibilidades.	
Outro ponto que não pode deixar de ser dito é que o sujei-
to com o qual operamos não é a pessoa, mas, antes, o sujeito do 
inconsciente. Sobre essa questão precisaríamos de um capítulo 
inteiro	para	verificar	as	coordenadas	dessa	afirmação,	mas	su-
giro,	a	princípio	que	o	leitor	verifique	os	textos	O inconsciente, 
de Freud e também A ciência e a verdade, de Lacan para ter uma 
melhor apreensão desta ideia. Diagnosticar o sujeito não é nem 
de	longe	o	mesmo	que	predicá-lo,	mas	verificar	a	partir	do	que	
se produz na clínica uma maneira muito particular e própria de 
funcionar dentro de uma estrutura universal que chamamos de 
linguagem. 
Neste sentido, o sujeito não é neurótico, psicótico ou per-
verso. Interessante ponto que propõe o sujeito como efeito do 
discurso que se produz em análise. A maneira como este sujeito 
consegue se relacionar com o objeto que o causa seria propria-
mente neurótica, perversa ou psicótica.
66
Vemos então que o analista, no lugar de objeto, pode in-
terpretar o que está se passando na clínica quando percebe que 
está não apenas dentro do jogo, mas antes, como aquilo que 
causa o jogo propriamente dito. Se Freud nomeou de Neurose 
de Transferência e em diversos textos nos trouxe que o paciente 
transfere ao analista, ou ainda, que o paciente se aproxima do 
analista com expectativas, ou ainda que o analista ocupa um 
lugar privilegiado na relação transferencial, como não ver aí 
Freud nos dizendo de diversas formas que o analista está im-
plicado no jogo de tal maneira que o jogo mesmo não se daria 
sem o analista?
Para encerrar esta parte, e eis o ponto que talvez seja o 
principal. Sabe o analista o que é uma neurose de transferência 
para diagnosticá-la? Sabe o analista como produzi-la na relação 
com o paciente (não o sujeito) que o procura em sofrimento? 
Para responder a estas questões, proponho avançarmos no que 
Lacan chamou de entrevistas preliminares. 
 
As	Entrevistas	Preliminares	e	a	Entrada	em	
Análise 
“... os analistas nem sempre sabem tanto quan-
to deveriam pela simples razão de que muitas 
vezes eles não fazem porra nenhuma. Isso não 
muda absolutamente nada no fato de que o sa-
ber é pressuposto à função do analista e que é aí 
que os fenômenos da transferência repousam.” 
(Lacan, 1971 p. 30).
 A partir de agora vamos trabalhar ao lado dos textos de 
Lacan para compreender e reinterpretara obra freudiana. Em 
O saber do psicanalista, um dos seminários ainda não publicados 
oficialmente,	Lacan	(1971)	abre	o	seminário	trazendo a questão, 
67
talvez única em todo seu ensino, da importância deste momen-
to na abertura das análises. Segundo Lacan:
Cada um de vocês conhece – muitos ignoram – a 
insistência que faço junto aos que me pedem con-
selho, sobre as entrevistas preliminares em Psica-
nálise. Certamente, elas têm uma função essencial 
para a análise. Não há entrada possível em análise, 
sem entrevistas preliminares. (Lacan, 1971, p. 27)
A Psicanálise de orientação lacaniana não é a única pos-
sível. Fosse assim, Freud não seria psicanalista. Nem Lacan, 
visto que ele mesmo não fez uma análise lacaniana. É preciso 
um pouco de lenha na fogueira quando falamos disso, mas com 
cuidado de não ser demais e o fogo se apagar muito depressa 
por falta de combustível. Que Lacan não tenha feito uma análise 
lacaniana	isso	é	um	fato,	afinal,	sua	análise,	dentro	dos	moldes	
da IPA, com Loweinstein a partir de 1932, teve como efeito sua 
entrada na IPA, instituição que posteriormente o reconheceria 
oficialmente	como	analista	didata.	Em	outras	palavras,	Lacan	
não apenas fez análise e foi formado no seio da IPA como ocu-
pava o lugar de analista didata. Estar como analista didata era o 
reconhecimento institucional de que ele trabalhava na formação 
dos analistas como analista didata e, também, ministrando se-
minários dentro das instituições associadas à IPA.
Esse ponto é importante, pode parecer um desvio, mas 
não é, principalmente para quem está iniciando na clínica. Vi-
mos até o momento sobre a terapia de ensaio em Freud e isso 
deve	ser	o	suficiente	para	que	alguém	receba	pacientes	em	seu	
consultório e trabalhe bem desde que saiba o que está fazendo. 
Agora, aqui entramos na questão das entrevistas prelimi-
nares a todo tratamento psicanalítico, alguém que se ocupe de 
trabalhar com a Psicanálise a partir das orientações de Jacques 
Lacan,	requer	que	siga	as	orientações	de	tal	maneira	a	ser	fiel	ao	
68
que está proposto.
Este termo “Entrevistas preliminares” deve nos fazer pen-
sar como uma série de encontros em que o analisante e paciente 
trabalham de forma preliminar à análise propriamente dita.
Em nenhum momento Lacan propõe algo que vá contra o 
proposto	por	Freud	na	terapia	de	ensaio.	Isso	é	muito	significa-
tivo. Mesmo que Lacan tenha formalizado a análise, as entrevis-
tas	preliminares,	a	entrada	em	análise,	o	fim	de	análise,	etc.,	isso	
não	significa	que	ele	abandonou	o	que	Freud	havia	proposto.	
Na obra de Lacan, encontramos pouca coisa estruturada 
que nos sirva para uma orientação de como fazer em nossa clí-
nica. No entanto, desde o seminário 1 ele nos remete a um pon-
to crucial da clínica de que há uma entrada em análise, ou seja, 
não se dá automaticamente. 
“Sabemos que a dimensão da transferência existe 
de cara, implicitamente, antes de qualquer come-
ço de análise, antes que a concubinagem que é a 
análise a desencadeie. Ora, essas duas possibili-
dades do amor e do ódio não vão sem essa tercei-
ra, que se negligencia, e que não se nomeia entre 
os componentes primários da transferência – a 
ignorância enquanto paixão. O sujeito que vem 
para a análise se coloca entretanto, como tal, na 
posição daquele que ignora. Nenhuma entrada 
é possível na análise sem essa referência – não se 
diz isso nunca, não se pensa nisso nunca, quando 
ela é fundamental”. LACAN, 1986, p. 309.
Tomei a liberdade de marcar em negrito essa parte que 
diz que quem vem para a análise se coloca em uma posição de 
ignorância. Pois que desde o primeiro seminário de Lacan, até 
o seminário 17 onde ele formaliza os quatro discursos, o que te-
mos é que há na entrada da análise uma construção de um laço 
social que chamamos de um discurso em que o sujeito ignora a 
69
verdade que o causa. 
Nos	 artigos	 sobre	 a	 técnica,	 mais	 especificamente,	 em	
Sobre o início do tratamento, Freud (1913) faz uma série de re-
comendações aos analistas de seu tempo. Importante que logo 
na primeira página ele traz uma advertência de que o que ele 
escreve e suas orientações são RECOMENDAÇÕES, insistindo 
que existe apenas uma regra que fundamenta o tratamento. A 
regra, a da associação livre de ideias, e sua correspondente pelo 
lado	do	analista,	a	atenção	igualmente	flutuante	seriam	aquilo	
sem o qual uma análise seria impossível. Todo o restante das 
recomendações tem como objetivo sustentar a regra do início 
ao	fim	do	trabalho.	
Lacan não abre mão disso, mas propõe uma formaliza-
ção do percurso de análise. Notem que entre uma regra e uma 
formalização	existe	muita	diferença.	Formalizar	significa	criar	
regras e encontrar um padrão que possa ser seguido, transmiti-
do, ensinável. E aí está um grande problema. Como formalizar 
o percurso de análise tendo em vista que a análise propriamente 
dita é sempre uma e única? A sacada genial talvez tenha sido 
a de propor uma construção teórica universal que dê conta da 
particularidade de cada caso. Formalizar também pode ser pen-
sado como colocar em fórmulas, executar uma ação a partir de 
determinadas fórmulas. 
A formalização da Psicanálise proposta por Lacan tem 
mais a ver com produzir sobre a experiência analítica não ape-
nas	algo	da	ordem	do	verificável	na	medida	em	que	se	coloca	a	
regra fundamental para funcionar dentro do dispositivo clínico, 
mas também uma maneira de pensar o próprio dispositivo en-
quanto algo passível de ser transmitido de maneira lógica. Em 
outras palavras, a formalização segue, partindo da regra funda-
mental,	aquilo	que	é	verificável	em	uma	análise	a	todos	que	se	
70
submetem ao dispositivo clínico. 
Temos alguns problemas com isso. Por exemplo, ao pro-
por os quatro discursos como uma maneira de pensar o jogo 
clínico,	as	psicoses	ficam	de	fora	deste	modelo.	É	preciso	outro	
modelo para pensar a análise com psicóticos que, via de regra, 
é impossível de articular uma psicose nos quatro discursos pois 
o discurso, tal qual propõe Lacan, é uma modalidade de laço 
social e os psicóticos, a partir de seu ensino, não estão subme-
tidos a esta modalidade de enlaçamento com o outro. Ora, isso 
não faz da formalização algo prescrito, a meu ver, é justamente 
o oposto disso. É preciso pensar a Psicanálise com psicóticos a 
partir de um outro modelo, o que não quer dizer que este não 
seja válido em absoluto. Um outro modelo proposto por Lacan, 
lembrem-se da metáfora do caleidoscópio do capítulo anterior, 
é o nó borromeano que será desenvolvido a partir do seminá-
rio 20. Com o nó borromeano é possível pensar não apenas a 
psicose como também a neurose, no entanto, mais uma vez, ele 
não dá conta de todo o percurso de uma análise, tornando-se 
assim, ao analista de orientação lacaniana, mais um, dentre vá-
rios, elementos que possibilitam pensar a prática e dirigir um 
tratamento.
Posto isso, vamos ao que interessa, como são as entrevis-
tas preliminares a partir de Lacan?
Muitos mitos atravessam a formação de quem começa a 
receber	pacientes	na	clínica	e	dificilmente	vamos	esgotar	todos	
eles em um livro “introdutório”. Alguns desses mitos, como o en-
contro entre inconscientes, são facilmente dissolvidos na medida 
em que a leitura teórica avança e quando o estudante se dá conta 
de que há apenas um sujeito em análise e, principalmente, que o 
sujeito em análise é o do inconsciente enquanto efeito de um dis-
curso. Não haveria assim a menor possibilidade de sustentar um 
71
inconsciente “dentro” ou “fora” ou um inconsciente do paciente 
e outro do analista e assim por diante. Há que ler o que Freud 
escreveu como um ato exegético e sempre articulando o que está 
no texto com o momento histórico em que aquele texto foi escrito 
e também com o público ao qual Freud estava se dirigindo. É 
preciso, especialmente ao ler Freud, recuperar o contexto. Lem-
bremos que os termos utilizados por ele de forma muito livre 
eram termos corriqueiros da língua alemã. Falar que a atenção 
flutuante	era	escutar	atentamenteo	que	os	pacientes	dizem	já	é	
dizer que não há um inconsciente em funcionamento na escuta 
mas uma atenção ao que manca, ao sentido que escapa, à possi-
bilidade de que um dizer revele ainda mais do que se esperava. 
Um dos elementos que gosto de trabalhar para pensar a 
entrada em análise é com relação aos quatro discursos. Seja com 
Marco Antonio Coutinho Jorge, Marcio Peter de Souza Leite, 
Antonio Quinet, Isidoro Vegh, ou qualquer outro analista que 
transmita a teoria em seminários e livros, o que encontramos 
é um ponto em comum de que a entrada em análise se dá quando é 
possível	produzir	um	discurso	específico	que	chamaremos	de 
discurso da histérica
Essa proposta de entrada em análise é articulada com a 
criação de uma demanda de análise, do diagnóstico e da orga-
nização dos elementos em jogo para a construção de um, dentre 
quatro, discursos possíveis a partir de nossa práxis. 
Ao procurar um analista com uma ou mais queixas, o que 
os pacientes ignoram é que geralmente essas queixas são ape-
nas secundárias, são uma tentativa de fazer cessar um tipo de 
sofrimento que, de tempos em tempos retorna. O analista em 
sua posição de escuta deve produzir no analisante uma espécie 
de curiosidade sobre sua vida, sobre sua história e encaminhar 
ele para uma perspectiva de reconhecer que ele conta sua vida 
72
assim para um Outro o tempo todo. Um pouco mais aqui, que 
ele se faz disso que ele relata para um Outro que assegure seu 
lugar em uma relação de amor e reconhecimento. 
Ao interrogar o paciente nas primeiras sessões, o que va-
mos produzindo é um tipo de estranhamento onde por mais 
que os sofrimentos cessem, de tempos em tempos, alguma coi-
sa persiste. Aos poucos, vemos se transformar diante de nossos 
olhos, através das intervenções do analista, sempre sustentados 
na ética da Psicanálise, um paciente em um analisante. 
Há uma clara mudança de posição subjetiva que pode ser 
recolhida na fala de alguns pacientes. Nem sempre eles dizem 
isso expressamente, ocorre que os pacientes começam não mais a 
interrogar o analista sobre suas dores e sofrimentos, mas interro-
gam a si mesmos, interrogam o seu sintoma. Revela-se assim uma 
estrutura de discurso que Lacan chamou de discurso da histérica.
O discurso da histérica, ou discurso do analisante, segun-
do Vegh (2001), ocorre quando o paciente, no lugar de agente 
questiona	o	Outro,	o	Significante	mestre	aqui	está	no	lugar	do	
Outro, mas ao ouvir o silêncio do Outro, no sentido de que o 
analista deve não dizer a partir de si como se fosse para direcio-
nar a consciência ou as escolhas do paciente, percebe que será 
na sua própria fala que se produzirá um saber sobre uma verda-
de que causa seu sofrimento. 
Geralmente os pacientes chegam diante do analista e o 
que temos nas primeiras sessões é a estruturação de um “dis-
curso	do	mestre”,	ou,	como	afirma	Wainsztein	(2001)	“O	discur-
so do mestre é chamado também de discurso do inconsciente”. 
O	que	vemos	é	que	o	S1,	o	significante	mestre	está	produzindo	
sentido sobre o sofrimento. Nas primeiras sessões parece que o 
sofrer já está articulado de tal forma que há um saber sobre o so-
frer, aquele saber dos motivos pelos quais a gente sofre, já está 
73
dado, ou seja, o saber é sempre consciente aqui, como se fosse 
um outro que garante este lugar de sofrimento. Para dar alguns 
exemplos, isso pode aparecer na fala dos pacientes como: “isso 
é genético”, “eu sofro por isso”, “porque sou brasileiro”, “por-
que sou depressivo”, “porque assim diz o meu mapa astral”, 
etc. O que se revela é um sentido sobre o sofrimento que não 
permite que o paciente questione a razão pela qual ele sofre, 
uma vez que a razão já está determinada por um Outro.
Notem que há uma certa poesia na leitura que Lacan faz 
da clínica e quando a formaliza em quatro discursos. No discur-
so do mestre, o que encontramos é que o sofrimento tem uma 
causa “consciente” que o paciente sabe e, que este saber, vai sus-
tentar a permanência do paciente neste lugar de sofrimento. O 
analista aqui é levado a fazer “furo no saber”. Mas o que isso 
significa?	Na	realidade	é	bem	simples,	se	estamos	trabalhando	
desde as primeiras sessões com questões que devolvam ao pa-
ciente a possibilidade de falar sobre suas dores e suas queixas, 
aos	poucos,	um	paciente	que	afirma	que	porta	uma	doença	que	
é hereditária e genética, percebe que mesmo sendo genética não 
são	todos	de	sua	casa	que	a	tem.	Já	vi	alguns	filhos	adotivos	que	
ainda não sabiam da adoção, portando doenças hereditárias 
dos pais adotivos. Já pude testemunhar pacientes que traziam 
doenças genéticas e que quando se aprofundam nos exames 
médicos “descobrem” que a doença deles não é a mesma doen-
ça que a de seus pais. Aqui surge a possibilidade de interrogar o 
S1 enquanto essa verdade absoluta que, aos poucos, vai ruindo 
sessão após sessão de análise em um movimento de ver-se ven-
do-se, para usar a expressão de Lacan (1964) no seminário 11. 
Esse movimento que percebemos na clínica desde as pri-
meiras entrevistas depende necessariamente das intervenções 
do analista para que os pacientes possam, ao interrogarem-se, 
74
não	apenas	desconfiar	de	que	há	mais	naquilo	que	eles	dizem	
do que eles querem dizer, mas que lhes revele uma e outra vez 
e tantas quantas forem necessárias que “no começo o analisante 
se encontra dividido entre o que diz e o que sabe do que diz” 
(Vegh, 2011 p. 142).
Vegh em Os discursos e a cura precisa que uma análise se 
inicia a partir de “Uma insolência, que é atribuída ao destino: – 
Por que tenho que sofrer deste sintoma? Ou uma insolência que 
o analista provoca.” (p. 146).
Haveria muito mais a dizer sobre os quatro discursos e o 
manejo clínico, mas a princípio, pontuando o lugar que o analis-
ta	ocupa	e	suas	intervenções,	já	podemos	verificar	que	a	análise	
em si mesma depende de como o analista maneja a transferência 
que se produz como uma demanda de amor para transformá-la 
em uma demanda de saber.
Espero	que	tenha	ficado	claro	que	as	entrevistas	prelimi-
nares em Lacan retomam os elementos da terapia de ensaio de 
Freud e vai um pouco mais além, nos trazendo uma formaliza-
ção em que seja possível pensar a clínica de uma maneira mais 
lógica e menos intuitiva.
Um	Pouco	Sobre	a	Clínica	Contemporânea
 
Nos dias atuais, não é incomum a gente receber na clínica 
pessoas medicadas, muito bem medicadas, mas que dizem que 
continuam com um mal-estar, continuam com uma culpa, con-
tinuam com uma sensação de acusação, de como se tudo que 
fizessem	estivesse	errado.	Veja,	a	medicação	torna	a	vida	mais	
suportável, em algum momento podemos dizer que dependen-
do da pessoa, dependendo do trabalho, chega a ser necessário, 
não se trata de dizer ou medicação ou Psicanálise, em nenhum 
75
momento, mas nós sabemos que muitas pessoas preferem a me-
dicação porque é mais fácil e muito mais acessível (acessível no 
sentido de que basta comprar e tomar sem qualquer posição 
crítica frente ao estado afetivo do paciente). E sabemos também 
que pouquíssimos médicos ou trabalhadores do campo da saú-
de mental, indicam o tratamento psicanalítico, acreditando não 
se tratar de uma ciência passível de ser comprovada empirica-
mente, o que é uma grande bobagem. Atualmente existe uma sé-
rie de pesquisas que não apenas comprovam 
a	efi	cácia	de	nosso	 trabalho	como	 também	a	
comparam com outros tratamentos no campo 
da saúde mental. Para quem se interessar, su-
giro o artigo A cura em Psicanálise: efeitos orgâ-
nicos e subjetivos de uma análise. (Leite, 2021)
Em 2021, participei de uma mesa sobre 
a	efi	cácia	da	Psicanálise,	com	o	 tema:	Psicanálise e Ciência, em 
que tive o prazer de estar com Alexandre Starnino, Daniel Omar 
Perez e Richard Simanke pelo Instituto ESPE. Na ocasião, apre-
sentei	sobre	a	efi	cácia	da	Psicanálise	trazendo	dados	objetivos	
de	nossa	prática,	daquilo	que	conseguimos	verifi	car	empirica-
mente a respeito do tratamento psicanalítico. 
No entanto a psicanálise, como vimos até o momento, não 
é para todos.Em meu livro Psicanálise nas redes há um breve 
texto que trabalha de forma muito direta sobre quem pode se 
benefi	ciar	de	uma	análise.
A Psicanálise é para os desesperançados, que caíram na 
midiática oferta de vida feliz que outros prometeram e que, ao 
se darem conta, continuaram miseráveis e mais podres, em todo 
sentido que esse termo alcança. A Psicanálise é para quem não 
crê mais na possibilidade de ser feliz. A estes, recebo em meu 
consultório com empolgação, pois perceberam que ela não se 
76
compra, com estes é possível um trabalho em que a felicidade 
seja efeito, não o objetivo e que, para vivê-la, mais do que criar 
um caminho é preciso criar o que mais tarde se chamará de feli-
cidade. A felicidade de cada um. (LEITE, 2022)
A partir deste texto, retomo a questão das entrevistas pre-
liminares	pela	via	da	ética	da	psicanálise	e	da	cientificidade	da	
nossa prática. É preciso transmitir empiricamente aquilo que é 
da ordem do singular e que é passível de ser generalizável. Tal-
vez o primeiro analista que fez isso de fato, utilizando-se do 
estruturalismo e depois da matemática, da topololgia, etc, foi 
Jacques Lacan, que formaliza em seu seminário a distinção en-
tre linguística e linguisteria. Para Lacan (1972), a Linguisteria 
seria o que nós estudamos, que é algo da ordem do coletivo que 
é passível de ser subjetivado. 
“...	 se	 considerarmos	 tudo	 que,	 pela	 definição	
da linguagem, se segue quanto à fundação do 
sujeito, tão renovada, tão subvertida por Freud, 
que é lá que se garante tudo que de sua boca se 
afirmou	como	o	inconsciente,	então	será	preciso,	
para deixar a Jakobson seu domínio reservado, 
forjar alguma outra palavra. Chamarei a isto de 
linguisteria.“ (p. 25). 
Ainda na mesma página, alguns parágrafos abaixo, Lacan 
(1972)	afirmou	que	“Meu	dizer	que	o	inconsciente	é	estruturado	
como uma linguagem não é do campo da linguística” (p. 25). 
Retomo esses dois trechos para que possamos compreen-
der que é possível sim formalizar um percurso de análise do co-
meço	ao	fim.	Ou	seja,	uma	análise	não	é	mais	ou	menos	aquela	
ideia de “eu acredito que eu estou em análise”, uma análise é 
um	percurso	passível	de	ser	verificável	uma	vez	que	consegui-
mos colher alguns efeitos, não somente terapêuticos, óbvio, mas 
analíticos desde que tenhamos uma base teórica muito bem esta-
77
belecida, desde que tenhamos na teoria uma bússola que nos per-
mite seguir. No entanto, muitas das coordenadas que sustentam 
a psicanálise podem ser encontradas em outras ciências. Lacan 
utilizou-se de outras ciências para poder formalizar a psicanálise. 
Em O saber do psicanalista Lacan, (1971) chamou de entre-
vistas preliminares, retomando da Psiquiatria clássica o termo 
de entrevistas preliminares ao tratamento propriamente dito, 
que faz uma ligação direta com o que Freud (1913) chamava de 
terapia de teste ou seja, Freud, Lacan, Dolto, Ferenczi inclusive, 
eram muito avessos à ideia de que a Psicanálise era para todos, 
de	que	todo	mundo	se	benefi	ciaria	do	tratamento	analítico,	de	
que todo mundo deve fazer terapia, ou então de que qualquer 
um poderia se tornar analista. 
Ao receber um paciente pela primeira vez, precisamos ve-
rifi	car	se	isso	que	o	paciente	traz	é	tratável	no	campo	da	Psica-
nálise. Depois, se quem procura tratamento é analisável. 
Esta questão de ser ou não analisável pode ser pensada 
como o que aconteceu em uma entrevista minha com Daniel 
Omar Perez no ESPECAST é possível que essa pessoa associe 
minimamente algumas ideias? Ele tem uma boa relação com o 
inconsciente no sentido de que quando alguma coisa atraves-
sa a fala racional, ele acolhe isso como possibilidade, ou nega 
veementemente, sendo impossível associar qualquer coisa que 
apareça na fala. Para quem quiser saber um pouquinho mais 
sobre o método da associação livre de ideias, sugiro muitíssimo 
o ESPECAST com Daniel Omar Perez sobre 
esse tema. Ao aparecer a palavra “dramática”, 
alguma coisa veio ali no lugar e se colocou, e a 
gente teve a percepção daquilo que de fato se 
produz numa análise, alguma coisa que rom-
pe, que aparece em um lugar que não deveria, 
78
esse seria o segundo ponto. Segundo Lacan (1964) “Tropeço, 
desfalecimento, rachadura. Nume frase pronunciada, escrita, 
alguma	coisa	se	estatela.	Freud	fica	siderado	por	esse	fenômeno,	
e é neles que vai procurar o inconsciente” (p.32). Este efeito de 
ficar	boquiaberto,	aqui	podemos	pensar	que	alguém	tem	uma	
boa relação com o inconsciente.
E o terceiro ponto é algo muito estranho, mas necessário, 
e que acredito que as pessoas não dão o devido valor a ele: Isso 
que essa pessoa se queixa é tratável de outra forma, de outra 
maneira? 
Começarei pelo terceiro ponto, o diagnóstico diferencial 
no campo da Psicanálise. Um hipertireoidismo pode ser con-
fundido com uma crise de paixão ou de pânico, há que saber 
o que se passa para, inclusive, quando necessário, encaminhar 
o paciente a um especialista. Não se trata do analista saber o 
que	é	um	hipertireoidismo	ou	um	tumor	na	hipófise,	ou	então	
na	reumatologia	a	diferença	de	um	diagnóstico	de	fibromialgia	
com uma artrite reumatoide. Para um médico, em especial um 
reumatologista, não é difícil fazer o diagnóstico diferencial. A 
maioria dos psicanalistas não são médicos, então, a que nos in-
teressa o diagnóstico diferencial? O que nos interessa aqui não 
são os exames ou o nome da doença, antes, como o paciente se 
relaciona consigo mesmo, com o que faz sofrer, como ele cuida 
ou não de si. Nesta relação consigo e com os outros é que reside 
a possibilidade de um tratamento psicanalítico.
Atualmente estamos em uma certa crise global em decor-
rência da pandemia. Quantas pessoas não perderam seus em-
pregos? Será que toda crise de ansiedade tem a ver com uma de-
terminação inconsciente? Sinceramente, não acredito nisso. Ou 
então as tristezas e lutos mais duradouros, seriam elas sempre 
efeitos	de	um	conflito	inconsciente?	Acredito	que	todos	que	le-
79
rem essas páginas irão duvidar disso quando se lembrarem da 
experiência que vivemos recentemente em que famílias inteiras 
foram dizimadas pelo coronavírus. Vou dar aqui um exemplo 
de	um	caso	e	tudo	ficará	muito	mais	claro.	
Paciente me procurou com indícios de depressão, um can-
saço extremo, vontade de chorar e dormir, não conseguia mais 
ir ao trabalho, não tinha mais forças para continuar e, para pio-
rar,	ela	mesma	verificou	a	possibilidade	de	um	diagnóstico	de	
Burnout. Essa paciente trabalhava na área da saúde e estava na 
linha de frente do combate ao covid-19. Quantos analistas tam-
bém não receberam pessoas assim e foram, assim como eu, inca-
pazes de assegurar um diagnóstico de depressão, de ansiedade 
ou de Burnout? Ora, quem da área da saúde que não estivesse 
com elevados níveis de estresse, podemos dizer que estava fa-
zendo alguma coisa errada? Notem que temos, por assim di-
zer, a possibilidade de acolher, de escutar, de ofertar um espaço 
para que o paciente fale de suas dores, de seu sofrimento, de 
sua vida, de seus problemas, mas nem por isso se trata de algo 
a ser tratado com Psicanálise. Fato é que quando as coisas co-
meçaram a melhorar a paciente saiu. Não houve a interrupção 
de um tratamento pois não havia um tratamento propriamente 
dito sendo feito, a despeito de minhas intervenções que tinham 
efeitos interessantes, nunca foi um caso para um tratamento 
analítico embora foi possível alguns efeitos terapêuticos que 
auxiliaram a paciente a seguir com seu trabalho e com sua vida.
A que se destina uma análise, de fato? Ao tratamento do 
sujeito. Não da pessoa, não do indivíduo, mas do sujeito. O su-
jeito que é constituído através da linguagem, na relação com 
a fala. Vejam então que eu estou colocando aqui para vocês já 
uma distinção muito importante de que nas entrevistas preli-
minares do tratamento psicanalítico, o que nós vamos procurar 
80
é	localizar	qual	significante	representa	esse	sujeito	e	a	posição	
que	esse	sujeito	ocupa	na	relação	com	outros	significantes	quepodem ser causa de mal-estar e sofrimento.
A Psicanálise trata aquilo que é da ordem de uma deter-
minação inconsciente, desde de Freud (1905) isso não mudou. 
Se quisermos pensar nos dias atuais, podemos nomear o sujei-
to com o qual operamos como o ponto de indeterminação da 
epigenética. Aquilo que é da força de vontade, aquilo que você 
consegue mudar com uma medicação, com força de vontade, 
com uma terapia, com exercício físico, não é o que nos interessa 
em um percurso de análise. Agora, quando tudo isso fracassa, 
talvez a análise possa ajudar, não há uma garantia prévia. O que 
temos é um trabalho a ser ofertado e esta oferta de um espaço de 
fala é realizado sessão após sessão.
Nas entrevistas preliminares, ao acolher o paciente, va-
mos	interrogando-o	no	sentido	de	tentar	verificar	qual	a	posi-
ção que esse paciente ocupa na relação com os outros, consigo 
mesmo, com isso que ele diz que é aquilo que o faz sofrer. A 
partir do momento que nós começamos a localizar essa posição, 
(isso pode durar semanas ou anos) percebemos um efeito inte-
ressante que o analista passa a ocupar, o lugar de objeto causa-
dor do mal-estar. O analista não está mais lá como alguém que o 
paciente supõe um saber nele, um saber tratar o meu mal-estar, 
um saber tratar aquilo que me machuca, um saber tratar aquilo 
que me faz mal, mas está na jogada como alguém que consegue, 
de alguma maneira, localizar a ferida. 
Esse ponto é muito interessante, alguns pacientes desis-
tem do trabalho e dizem literalmente que as sessões estão dei-
xando-os piores. Cuidemos com essas falas, não estamos traba-
lhando para piorar a vida de ninguém, podemos fazer o mesmo 
trabalho sem necessariamente produzir tanto sofrimento?
81
Localizar	a	 ferida	é	muito	diferente	de	enfiar	o	dedo	na	
ferida, é preciso muito cuidado. O analista não tem o direito de 
machucar ainda mais alguém que já está em sofrimento, muito 
pelo contrário, ele tem o dever ético de acompanhar o paciente, 
visto que ele pode, passar de paciente à analisante, no tempo 
em que ele pode, em que ele dá conta, que é possível para ele. 
Este processo todo só é possível na medida em que o ana-
lista fala com o analisante, não faz isso quieto, anotando, mas, 
conversando, interrogando, mostrando ao paciente que “olha 
que engraçado, quer dizer que você se queixa disso e, ao mesmo 
tempo, é isso que você fez com ele, ou com ela, como assim?” 
esses equívocos de interpretação, os lapsos, a produção de sen-
tido aonde não havia sentido, as interpretações equivocadas da 
vida, do cotidiano, as interpretações que demonstram que mais 
se repete na vida do paciente uma leitura que ele faz da realida-
de do que “fatos objetivos” vai produzindo o analisante como 
um efeito. Isso aparece quando escutamos “estou apaixonado 
de novo”, vejam o que há nessa ideia de apaixonado de novo, ao 
mesmo tempo que há algo que se repete, há algo que se abre à 
diferença, mas por alguma razão interpreta-se o diferente como 
igual ou similar. E o analista deve interrogar: “mas são pessoas 
diferentes, como podem ser iguais?”, “Teu pai não é teu marido, 
teu marido não é teu pai”. “Ah é igualzinho, ah é?” “É muito di-
ferente, não existem pessoas iguais”. No entanto, é preciso que 
fique	 claro	que	uma	 intervenção	para	um	paciente	não	 serve	
para um outro paciente. Isso veremos no próximo capítulo em 
que trabalharemos a respeito da Ética da psicanálise.
82
CAPÍTULO 03
ÉTICA, DINHEIRO E TEMPO EM 
PSICANÁLISE: AS SESSÕES, O 
PAGAMENTO E NOSSA ÉTICA
Neste terceiro capítulo trabalharemos a respeito do preço 
e tempo da sessão, e da análise, de uma forma a articular com a 
ética que sustenta nossa práxis. A ideia é que seja possível levar 
isso até as últimas consequências, através da aplicação da teoria 
na clínica de cada um. Todo este capítulo retomará a questão do 
método por essas três vias.
Para que possamos aplicar qualquer coisa em nossa clí-
nica, sempre sugiro que seja preciso vivenciar o que se vai fa-
zer, em análise. Quem não passou por uma análise de orien-
tação	lacaniana	propriamente	dita,	difi	cilmente	(o	que	não	é	o	
mesmo que impossível) vai conseguir sustentar isso na clínica, 
primeiro por que angustia demais, se você não tem nenhuma 
base, nenhuma referência do que é um tratamento de orientação 
lacaniana propriamente dito, que se difere àquela ideia de 50 
minutos,	de	preço	de	sessão	fi	xo,	de	uma	tabela,	etc..	Pretendo	
trabalhar estas e outras questões neste capítulo. E segundo que, 
aquilo que é esperado do analista, enquanto algo que condiz 
83
com	a	teoria,	se	não	vivemos	isso	na	prática,	na	pele,	dificilmen-
te teremos êxito trabalhando dessa maneira pois estaríamos na 
posição de cegos guiando cegos. 
Para	exemplificar	isso,	trago	um	recorte	das	supervisões	
que dei quando era docente universitário. Muitos alunos me 
perguntavam sobre o momento do corte e a primeira pergunta 
que eu fazia, que parece que é ridícula é: O que você chama de 
corte? 
Estas perguntas bobas, revelam na maioria das vezes um 
não saber, o que pode levar a um trabalho intuitivo e não a um 
trabalho lógico. O corte é tão somente uma dentre várias possi-
bilidades de intervenções possíveis do analista e boa parte das 
pessoas	confundem	o	corte	com	o	fim	da	sessão,	o	que	não	quer	
dizer a mesma coisa. Pode ser que em algumas sessões o corte 
tenha	a	ver	com	o	fim	da	sessão,	o	corte	analítico.	Mas	corta	o	
quê?	Corta	a	sessão?	Não,	o	fim	de	uma	sessão	não	é	o	mesmo	
que uma intervenção do analista, embora possam se dar de ma-
neira articulada. O corte é uma determinada intervenção do ana-
lista que deve ser realizada no discurso para que seja possível a 
emergência do sujeito na medida em que conseguimos separar o 
sujeito	do	significante	que	o	representa	para	outro	significante.
Tem muitas coisas que se trabalha na clínica, bem no co-
meço de nossa prática, que são de maneira mais intuitiva do 
que lógica. Esse é um dos pontos que eu tenho trabalhado em 
minhas redes sociais. Trabalhar de forma intuitiva não é fazer 
Psicanálise.	Para	exemplificar	isso,	proponho	uma	analogia:
O esforço de alguém para levantar um edifício inteiro não 
o faz levantar um edifício inteiro, embora por vezes possa en-
contrar algumas coisas a partir de seu saber prévio de como fa-
zer isso acontecer, nem por isso irá conseguir levantar o edifício. 
Agora,	se	a	pessoa	estudar	com	afinco	e	tiver	os	materiais	à	sua	
84
disposição para essa empreitada, ele provavelmente irá conse-
guir elevar o edifício inteiro. Não basta que se tenha a teoria da 
alavanca de Arquimedes para erguer o edifício, é necessário ter 
também os materiais para a empreitada. 
Trabalhar com Psicanálise passa um pouco por aí. Não 
basta que tenhamos apenas a teoria de como fazer ou o que 
fazer, mas, principalmente ter o material para operar com ele. 
Saber fazer com o material, isso não passa pela intuição, pas-
sa	antes	pelo	estudo	e	pela	análise	pessoal	quando	se	verifica	
que o analista, como vimos no capítulo anterior, se coloca como 
objeto poderá produzir uma análise. No percurso de análise, 
nas sessões de análise, o modelo teórico que nós seguimos, por 
exemplo, tempo de ver, compreender e concluir, para dar um 
exemplo, ou então a respeito dos quatro discursos, trabalhados 
em concomitância com a teoria que versa sobre a entrada em 
análise,	no	capítulo	anterior.	Como	podemos	verificar	se	de	fato	
houve ou não houve uma entrada em análise, será que de fato 
aqui está acontecendo aquilo que Lacan chamou de histericiza-
ção do discurso, que é a produção do discurso da histérica? To-
das essas questões não passam apenas pela teoria e pela análise 
pessoal, mas também pela supervisão que nos ajudará por onde 
fazer, e é o que iremos trabalhar neste capítulo.
O tempo e o preço não são meras formalidades, mas fa-
zem	parte	do	método	e	eles	também	têm	uma	parcela	signifi-
cativa no percurso de análise e na direção da cura de todos os 
pacientes. 
 
Tempo,	Dinheiro	e	a	Ética	da	Psicanálise
 
Para avançarmos nestepercurso de quem pretende iniciar 
ou está no início do trabalho clínico, faz-se necessário um resga-
85
te do que seria essa tal de ética da Psicanálise. Será que existem 
outras éticas, que não essa? 
Começo pela ética da Psicanálise, pelo simples fato de que 
é impossível um tratamento psicanalítico se essa questão não 
estiver muito clara. Em Psicanálise nas redes propus a discussão 
sobre a Psicanálise ser elitista quando o analista não sustenta 
sua ética. 
O valor e o tempo têm uma lógica própria em nosso cam-
po,	mas	isso	não	significa	absolutamente	nada	se	não	tomarmos	
a ética como ponto comum e a base de todo nosso fazer clínico.
Não por acaso em 1959, quando Lacan estava como ana-
lista da IPA, após fazer conferências importantes como o dis-
curso de Roma e também “situação da Psicanálise e a formação 
do analista”, dedica um seminário inteiro à temática da ética da 
Psicanálise. 
No seminário de número 7, Lacan dialoga com Aristóte-
les, Kant, Sade e outros, tendo como base a obra freudiana que 
era sustentada em seu retorno a Freud. Uma leitura mais atual 
de Freud, utilizando-se de outros saberes e se aproximando das 
matemáticas, da lógica, de outros autores de forma mais direta, 
conversando com os artistas do surrealismo, com os linguistas 
que,	 alguns	 deles,	 além	 de	 eminentes	 filósofos,	 participavam	
dos seus seminários ativamente como foi o caso de Jacobson en-
tre outros expoentes de sua época.
Neste	caldo	cultural,	podemos	verificar	que	Lacan	não	es-
tava em seus melhores anos ainda. Em se tratando de formar 
analistas, ele ainda estava preso à institucionalização da Psica-
nálise que fora promovida pela IPA devendo a ela uma certa 
espécie de respeito e também submissão. Vemos isso muito cla-
ramente em sua fala no seminário 11 e também no seminário 20 
onde	ele	afirmou	claramente	que	“Me	aconteceu	não	publicar	A 
86
ética da Psicanálise. Naquele tempo era em mim uma forma de 
polidez... Com o tempo, aprendi que podia dizer sobre isso um 
pouco mais.” (p. 9).
O que havia neste seminário, de tão especial que produziu 
um mal-estar contundente não apenas na IPA como também em 
Lacan? Lacan, em diversas vezes se ocupou de distanciar a Psi-
canálise	das	psicoterapias.	Chegou	a	afirmar	em	diversos	mo-
mentos que estava acontecendo um movimento de psicologiza-
ção da Psicanálise. Tomem nota que na década de 60 tínhamos 
nos Estados Unidos nada mais e nada menos que a criação da 
teoria cognitivo comportamental por um psicanalista formado 
na IPA.
Se Lacan em diversos momentos sustentou uma crítica 
assídua no coração das instituições psicanalíticas, não era por 
um	tipo	de	preciosismo,	mas	por	verificar	que	o	caminho	que	
os analistas estavam seguindo levariam a um desfecho que não 
era favorável à própria Psicanálise. 
Hoje, temos diversas pesquisas que apontam os efeitos de 
um tratamento psicanalítico comparando com outras práticas 
no campo da saúde mental. Os resultados destes trabalhos são 
interessantes.	A	eficácia	da	Psicanálise	não	só	pode	ser	empi-
ricamente	comprovada	como	também	é	possível	verificar	que	
seus efeitos duram mais do que outras práticas terapêuticas, 
inclusive quando comparadas com as chamadas “Psicoterapias 
Psicodinâmicas” ou ainda “Psicoterapias Psicanalíticas”. As 
evidências empíricas só são possíveis quando se reconhece que 
Psicanálise e Psicoterapia são práticas distintas. Uma das pes-
quisas inclusive revela que os efeitos de uma análise continuam 
a produzir mudanças perceptíveis e mensuráveis mesmo após 
o	fim	do	tratamento.	O	que	não	se	verificou	com	as	outras	prá-
ticas psicoterapêuticas. 
87
Segundo Leite (2021) a Psicanálise produz uma série de 
modificações	orgânicas	e	subjetivas	que	podem	ser	verificadas	
com os mesmos testes e exames que são utilizados para medir a 
eficácia	de	todos	os	outros	tratamentos	na	saúde	mental	de	uma	
forma geral. O que está em jogo não é apenas uma prática e uma 
teoria, o que está em jogo é que a Psicanálise é empiricamente 
mais	eficaz	e	seus	efeitos	terapêuticos	mais	duradouros	do	que	
outras práticas no campo da saúde mental. O que está em jogo 
com a defesa da Psicanálise feita por Lacan é a saúde mental de 
toda uma população que não encontra outro remédio para o 
tratamento das dores da alma. Veremos a seguir os três elemen-
tos deste capítulo que nos permitirão diferenciar a Psicanálise 
das práticas de psicoterapia de uma forma geral.
Para	que	uma	Psicanálise	seja	eficaz	é	necessário	um	psi-
canalista, para que haja um psicanalista é necessário que al-
guém tenha vivido na carne a ética que foge da proposta da 
Ética de um bem comum, de um bem, de um bom e de um belo 
para todos. Curiosamente esta ética aristotélica que propõe uma 
coisa para todas as pessoas é a mesma ética do capitalismo. Não 
obstante	é	possível	identificar	essa	mesma	ética	dentro	do	dis-
curso da saúde mental quando se pensa que devemos extirpar 
o	sofrimento	a	qualquer	custo.	A	dor,	o	sofrimento,	as	dificul-
dades e tristezas da vida e até mesmo aqueles impulsos de fe-
licidade extrema, tendem a serem vistos como patológicos em 
uma	lógica	de	que	todos	podem	se	beneficiar	de	algum	tipo	de	
droga para estarem mais estáveis, pra produzirem mais, para 
transarem mais, para gastarem e consumirem mais, para fazer o 
dinheiro circular. O que está em jogo aqui é uma ética que pro-
põe o consumo como um bem para todos. É preciso um pouco 
de esforço para sair da lógica da apresentação de objetos, como 
seria o caso de desejar muito um Iphone ou um Galaxy. Não 
88
importa a marca, não importa o produto, o que importa é que se 
possa trabalhar, produzir e consumir. A dúvida raramente é da 
ordem de uma necessidade, se isso me faz falta ou não, a dúvida 
é apresentada em um nível de “qual desses eu vou comprar?” 
Em Ainda há amor?	fiz	um	trabalho	que	articula	a	Psicaná-
lise com a teoria crítica para pensar a construção da subjetivi-
dade contemporânea. O resultado do texto, que é bem sugesti-
vo, é de uma aposta na transferência para fazer uma espécie de 
frente a um ideal capitalista que produz pessoas como merca-
dorias para o consumo. Naquela época me faltavam elementos 
para, talvez, ir mais a fundo no ponto que foi discutido. Como a 
transferência, a Psicanálise, mesmo com seus limites, pode fazer 
frente a este esquema de produção de subjetividades? 
A resposta pode ser encontrada em uma leitura atenta do 
seminário de Lacan sobre a “Ética da Psicanálise”. O que en-
contramos neste seminário de Lacan nos auxilia muito nos dias 
atuais com relação às questões propostas neste capítulo. O pre-
ço a ser pago em análise, de que ordem é isso? Seria o dinheiro? 
Seria um bem para consumo? O que seria produzido em uma 
análise? A saúde mental é vendida como um objeto de consu-
mo, podemos arriscar dizer, um objeto de luxo nos dias de hoje, 
a Psicanálise vai por esta via? Ao pensar a máxima “tempo é 
dinheiro” com as sessões de tempo curto ou variável, estaria a 
Psicanálise nesta lógica de consumo e produção? 
Certa vez, ao estudar sobre o conceito de práxis me depa-
rei com uma possibilidade de que a práxis, propriamente dita, 
não tinha como objetivo a produção de um bem. Isto me to-
cou demasiadamente quando me dei conta de que a Psicanálise 
também não produz um bem, apenas produz um analista, que, 
a	rigor,	é	alguém	que	foi	até	o	fim	e	pode	sair	de	uma	posição	
para ocupar outra. Nenhum objeto foi produzido, nada se ga-
89
nhou em termos de bens consumíveis, mas, ao mesmo tempo, 
esta outra posição, desejante, amante, por assim dizer, permite 
a	quem	chegou	ao	fim	de	análise	um	certo	tipo	de	re-visão	sobre	
aquilo que lhe causa. O efeito disso, podemos mensurar com 
diminuição de internações e uso de psicotrópicos, diminuição 
de procura pelo pronto socorro, diminuição de doenças psicos-
somáticas e de crises recorrentes, entre outras coisas que foram 
mensuradas e catalogadas por De Maat e colaboradores (2007).
Verificamos	então	ganhos	terapêuticos	importantes	no	de-
correr	e	após	o	fim	deuma	análise	mesmo	que	esse	não	seja	o	
objetivo de uma análise propriamente dito. O que diferencia a 
Psicanálise de outras modalidades de tratamento é justamente 
e, talvez, principalmente a ética que a sustenta. 
Temos nos dias atuais uma série de pesquisas que apon-
tam para a tentativa de psicologizar o método psicanalítico a 
partir de bases epistemológicas distintas. Essas práticas, por 
mais que se baseiem na transferência, na relação com o outro, 
no tratamento pela via da fala, ainda tendem a tomar o paciente 
como alguém a ser ensinado, ou ainda, como alguém que porta 
determinado transtorno a ser curado, a ser extirpado. O que ve-
mos então é o paciente no lugar de demandar e receber do outro 
um saber sobre si e sobre sua condição. Não há nestes tratamen-
tos a menor possibilidade de um trabalho com o sujeito uma 
vez que o sujeito é apagado da equação em prol de uma medida 
comum que possa abarcar uma dita normalidade dentro de um 
padrão cultural e socialmente estabelecido. 
Para que possamos vislumbrar isso mais claramente, po-
demos pegar o exemplo da psiquiatria em que seu campo 
“se constituiu, a partir do manicômio, buscan-
do elaborar um saber e uma práxis clínica so-
bre	a	loucura,	poderemos	verificar,	nos	últimos	
40 anos, através de algo que chamaríamos de 
90
diluição da loucura, como o domínio da psi-
quiatria se expandiu, abarcando desde a esqui-
zofrenia até a gestão cosmética das performan-
ces cotidianas dos indivíduos”. (Laia e Aguiar, 
2017 p. 23). 
Uma ciência médica, a favor da performance, da produ-
ção de indivíduos funcionais.
Tomemos como exemplo o que aconteceu com o autis-
mo como um diagnóstico que, a partir do DSM-V, fagocitou o 
que antes era chamado de Transtorno de Asperger. Milhões de 
pessoas deixaram de serem Asperger do dia para a noite com 
uma canetada que autorizava institucionalmente a mudança 
nos critérios de diagnóstico em todo o mundo. Segundo a OMS 
“Com base em estudos epidemiológicos realizados nos últimos 
50 anos, a prevalência de TEA parece estar aumentando glo-
balmente. Há muitas explicações possíveis para esse aumento 
aparente, incluindo aumento da conscientização sobre o tema, 
a expansão dos critérios diagnósticos, melhores ferramentas de 
diagnóstico e o aprimoramento das informações reportadas.” 
Reitero que esta “expansão dos critérios diagnósticos” produ-
zem consumidores para um mercado multibilionário de saúde 
que vai desde à medicação até a atenção à saúde mental com es-
colas especializadas e caríssimas para atender a uma demanda 
que, até certo ponto, foi fabricada. Não que o autismo não exis-
ta, e que não seja necessária uma atenção diferenciada. Agora, 
é diferente dizer que TODOS os autistas demandam o mesmo 
tratamento, as mesmas intervenções, para quê? Para termos um 
indivíduo funcional na sociedade, mas perguntamos ao autista, 
à pessoa, o que ele quer ou deseja? Raramente, todo o maqui-
nário de saúde mental se projeta sobre o autista para formá-lo 
de acordo com suas expectativas de como ele deve agir, pensar, 
sentir, fazer, etc.
91
Para se ter uma noção de como uma suposta “ciência” cria 
uma ideia de padrão e normatividade, basta que pensemos na 
suposição de que um índice, por exemplo o da glicemia, para 
que um paciente seja considerado pré-diabético e exigir cuidados 
com	nutricionista	 e	 outros	 profissionais	 que	 passarão	 a	 acom-
panhar o paciente – repito que isso é uma suposição –, esse ín-
dice caia de 100 para 99. O que teríamos como efeito? Simples, 
milhões de pessoas seriam enquadradas no “pré-diabético” da 
noite para o dia. Isso parece besteira, mas não é. Sabemos mui-
to bem que para que um determinado índice seja estabelecido, 
principalmente no campo da medicina, são necessários muitos 
estudos e pesquisas antes de qualquer tomada de decisão. No 
entanto, como qualquer prática humana, há algo da ordem de 
uma política que envolve mais do que a pesquisa em si mesma. 
Vimos isso com muita clareza no decorrer da pandemia de co-
vid-19. Qual a distância segura entre uma pessoa e outra? Quanto 
tempo	de	isolamento	uma	pessoa	precisa	ficar?	Essas	questões,	
embora seja possível pensar cada uma delas por uma via prática, 
lembremos que em nosso país o ministério da saúde foi contra, 
diversas	vezes,	o	que	diziam	as	pesquisas	científicas	sobre	esta	
temática. Mais recentemente, temendo o colapso econômico e 
diante de uma quarta onda, o que tivemos foi um afrouxamento 
não apenas das medidas protetivas como também da diminuição 
do período de afastamento de trabalho que passou de 10 a 15 dias 
no começo da pandemia para de 7 a 10 dias em um período em 
que sabidamente enfrentávamos uma cepa mais transmissível. 
Meu intuito aqui não é o de uma crítica ao governo, mas de 
demonstrar com dados de nosso tempo como um índice pode 
ser politicamente e estrategicamente forjado para que possamos 
produzir o que socialmente é entendido como um padrão, ou 
ainda, o normal.
92
Outro exemplo importante que não deve ser esquecido é 
com relação à homossexualidade. Foi apenas no dia 17 de maio 
de 1990 que a Organização Mundial da Saúde retirou do rol de 
doenças a homossexualidade. Anteriormente, no início do sé-
culo XX, Freud considerava a homossexualidade não como um 
crime ou uma perversão, mas como uma das possibilidades en-
contradas nas relações humanas. Até recentemente alguns “pro-
fissionais”	e	 sublinho	aqui	as	aspas,	movidos	por	uma	moral	
muito questionável, continuavam a propagar entre seus grupos 
uma suposta “cura gay”, indo contra todo um movimento po-
lítico e social que regulamentou a vida de milhões de pessoas 
como normal. Coloco aqui este ponto para demonstrar que a 
“patologização” passa muito mais por aspectos políticos e eco-
nômicos do que por fatos e evidências e que, embora sei que 
possa gerar algumas críticas, o que chamamos de patológico ou 
de normal hoje, pode não ser mais assim amanhã. 
Neste	cenário,	fica	impossível	definir	o	que	seria	o	padrão,	
ou ainda, a normalidade, partindo de uma dada perspectiva na-
tural para o ser humano. Podemos dizer, no entanto, que o que 
acreditamos ser normal segue um viés histórico e cultural. Por 
esse motivo a Psicanálise, ao se ocupar do sujeito e não do Eu, 
precisa estar atenta não apenas às mudanças subjetivas possí-
veis em cada tempo histórico, mas também àquilo que de algu-
ma forma permanece, àquilo que é invariável. Neste sentido, 
a ética da Psicanálise nos dirige para este ponto nodal que se 
articula com a cultura, com o corpo, com a história de cada um 
e tem no sujeito e nas leis de sua constituição algo da ordem de 
um invariável, algo que encontraremos em todas as culturas e 
em todos os tempos desde que o humano se reconhece e se pen-
sa como humano. 
A proposta de Freud e, posteriormente de outros analis-
93
tas, como Lacan, não era de cunhar uma experiência para todos. 
Enquanto nas mais diversas terapias temos sempre um benefí-
cio para todos, a Psicanálise vai na contramão desta proposta. 
Notem que um diagnóstico em psiquiatria, por exemplo, toma 
a fala da pessoa e, a partir de sua narrativa e de seus compor-
tamentos, tenta alçar esta pessoa a uma categoria mais geral. 
Passa-se do ponto da escuta do paciente para a construção de 
uma categoria para todos que dizem sofrer as mesmas coisas. Aí 
temos a possibilidade de pensar as psicopatologias como aquilo 
que se diagnostica retirando os elementos subjetivos, descartan-
do os dados que comporiam a história de cada pessoa e que 
revelariam	algo	do	particular.	As	patologias	são	classificações	
que tendem ao enquadramento da pessoa em uma categoria e 
o tratamento será assim para todos, ou ainda para uma grande 
maioria a partir de um determinado consenso politicamente es-
tabelecido. De acordo com Laia e Aguiar (2017): 
Sustentamos que tanto o DSM-V quanto o RdoC 
reiteraram o esmagamento do sujeito afetado pelo 
dito “transtorno mental”, ou pelo ainda prometi-
do “transtorno cerebral”. Eles também anulam 
- por suas pretensões globalizantes,Portanto, quando alguém decide nomear-se psicanalista 
e trabalhar com psicanálise, essa decisão não vem sem algumas 
escolhas e, consequentemente, renúncias éticas. Escolhe-se a 
dedicação a um processo de formação que não possui etapas 
verificáveis	 e	não	é	 regulamentado.	Também	a	produzir	uma	
modalidade de trabalho que não se encaixa como uma presta-
ção de serviço. E, no exercício da clínica, a renunciar as certezas 
terapêuticas para colocar em causa sempre uma aposta. Quem 
faz essa escolha depara-se com uma prática que é orientada pela 
produção singular de cada pessoa que busca um psicanalista e 
empreende uma análise. 
A maioria dos estudantes de psicanálise conhece a pas-
sagem	 do	 artigo	 “Análise	 finita	 e	 infinita”,	 na	 qual	 Freud	
(1937/1980) coloca a psicanálise como uma prática impossível, 
juntamente com a arte de educar e de governar. 
Detenhamo-nos aqui por um momento para ga-
rantir ao analista que ele conta com a nossa sin-
cera simpatia pelas exigências muito rigorosas 
a que tem de atender no desempenho das suas 
atividades. Quase parece como se a análise fos-
se	 a	 terceira	 daquelas	 “profissões	 impossíveis”	
quanto às quais se pode de antemão estar se-
guro de chegar a resultados insatisfatórios. As 
outras duas, conhecidas há muito mais tempo, 
são a arte de educar e de governar. (FREUD, 
1937/1980: 224)
12
 Nesse mesmo parágrafo, Freud chama de “pobre infe-
liz”	a	pessoa	que	busca	as	qualificações	para	se	formar	psica-
nalista. Essa passagem sempre me causa graça e me lembra a 
frase de uma ex-aluna que recebi como estagiária, quando eu 
era supervisora de estágio e lecionava no curso de psicologia 
que fui docente por mais de uma década: “Não tem como 
ser feliz estudando psicanálise”. Eu concordo, a inquietação 
do encontro com a teoria nos transporta muitas vezes para 
a angústia de não entender. Para tanto, costumo dizer que é 
preciso dar as boas-vindas ao fato que estudar psicanálise é 
uma desaprendizagem. Aqui a regra não é acumular conhe-
cimento, porque trata-se de uma outra relação com o saber. 
Certa vez, em Vincennes - centro universitário 
experimental na França -, Jacques Lacan, psica-
nalista francês, nos tempos da crise universitá-
ria de 1969, em meio a uma discussão acalorada 
com os estudantes, quando perguntado sobre 
por	que,	ao	final	do	ensino	que	recebem,	não	po-
deriam tornar-se psicanalistas, responde que “a 
psicanálise não se transmite como qualquer ou-
tro saber”. (MAURANO, 2009, p. 149)
 Na formação de uma analista, além da travessia de sua 
análise pessoal, é preciso suportar também uma travessia da 
teoria. Não há como se eximir de experimentar os percalços te-
óricos. É preciso que o estudante se transforme em um investi-
gador da teoria da mesma maneira que investiga seus próprios 
processos subjetivos: abrindo-se para as ressonâncias do texto e 
para o que a tal teoria aponta sobre seu próprio funcionamento 
íntimo.
Então, tendo em conta toda labuta e insistência que envol-
ve esse processo, é muito justo e compreensível alguém se per-
guntar: por que uma pessoa escolhe trabalhar com psicanálise? 
13
Para essa pergunta, cada um dos leitores desse livro terá que 
construir sua própria resposta. Eu construí a minha. Marco Lei-
te também. E garanto a você que o livro que você tem em mãos 
é efeito e parte da resposta dele.
Fernanda Samico
14
CAPÍTULO I 
A PRIMEIRA SESSÃO
A	Psicanálise	cura!
	 Em	 1905	 Freud	 afi	rmou	 que	 a	 Psi-
canálise é um procedimento de cura para 
aqueles que não encontraram, em outros 
tratamentos,	 um	 alívio	 signifi	cativo	 para	
seus sofrimentos.
Pessoas que estavam incapacitadas de viverem uma vida em 
que fosse possível amar e trabalhar de forma satisfatória. (LEI-
TE, 2021 p. 27) 
Sendo a Psicanálise um tratamento, como tal produz e 
promove algo que podemos nomear de uma cura. No entanto, 
para	que	alguém	possa	se	benefi	ciar	do	 tratamento,	é	preciso	
padecer	de	um	certo	mal-estar,	que	confi	gure	um	estado	em	que	
o paciente necessite desse tratamento. Não é qualquer pessoa 
que	vai	se	benefi	ciar	de	um	tratamento	psicanalítico,	portanto	
a Psicanálise não é indicada para todas as pessoas, e essa é a 
proposta deste livro, abordar sobre diagnóstico diferencial, en-
trevistas preliminares e início do tratamento.
Na era dos diagnósticos e tratamentos ultrarrápidos, a 
Psicanálise ainda acolhe os que tentaram livrar-se de algum 
tipo de sofrimento e que fracassaram. As tentativas são as mais 
variadas	 possíveis.	 Desde	 igrejas	 a	 psiquiatras,	 fl	orais,	 mas-
sagens, yoga, entre outras terapias que, embora tenham seus 
15
efeitos, não produzem o resultado esperado, não apresentando 
melhora	significativa	na	condição	de	saúde	mental	que	pode	ser	
mínima ou nem existir. (LEITE, 2022)
Não temos como garantir que a partir dos primeiros en-
contros teremos uma análise propriamente dita. Em um primei-
ro momento é necessário pensar no encontro entre o paciente e 
o analista como uma oferta de um lugar para que uma pessoa 
em	sofrimento	possa	falar,	diferente	de	um	trabalho	de	florais,	
de um trabalho medicamentoso ou de um trabalho de psicote-
rapia. Nestes primeiros encontros, o analista é alguém que re-
cebe um outro e que lhe oferta um espaço de fala, alguém que 
convida o paciente a dizer. Tem-se que considerar alguns pon-
tos, primeiro é importantíssimo que o paciente fale, para que 
em um segundo momento seja possível uma escuta ou, melhor 
dizendo, uma intervenção que permita ao analisante escutar o 
que ele mesmo acabou de dizer e que, em outros espaços, isso 
dificilmente	seria	possível.
O analista oferta um espaço para que o paciente fale, mas 
como isso se dá? O início do tratamento é muito simples. Espe-
ra-se que o analista pergunte ao paciente, desde as primeiras 
sessões, sobre os motivos que o levaram a procurar ajuda. Para 
dar alguns exemplos, pode-se perguntar: “O que está acontecen-
do?”, “por que me procurou?”, “o que espera do tratamento?”. 
É interessante ressaltar que, em algumas instituições, o analista 
ou fala muito mais do que o paciente, ou não diz absolutamente 
nada. Para não incorrer neste erro que, geralmente tem como 
consequência o silenciamento do paciente e, com isso, a impos-
sibilidade de se produzir uma transferência analítica, deve-se 
ter em mente que o espaço ofertado é o de fala, ou seja, intervir 
de forma a fazer com que o paciente diga o que quer que ele te-
nha a dizer sem se preocupar com as intervenções, com o tempo 
16
ou com o que ele está dizendo. 
Nos primeiros encontros, procura-se fazer com que as in-
tervenções tenham o efeito de produzir algo que seja uma de-
manda analítica, que aponte para um sofrimento que insiste e 
que, por mais que se conheça o sentido, ou que se diga sobre, ou 
que se saiba os motivos, não cessa. É como se o paciente fosse 
levado a reconhecer uma certa impotência diante deste mal-es-
tar. Isso, é claro, em se tratando da clínica das neuroses. Reco-
nhecer sua impotência não é o mesmo que reconhecer a impos-
sibilidade.	O	que	deve	ficar	evidente	é	que	o	paciente	possa	se	
descobrir como alguém e o analista deve sempre apontar para a 
singularidade, retirando os excessos pela via do dizer, como nos 
aponta Freud (1905), ao comparar a psicanálise com a nobre arte 
do escultor em oposição à nobre arte do pintor.
Outro ponto que deve ser trabalhado com muito cuidado é 
saber se o paciente já passou por outros tipos de tratamento. Ge-
ralmente, os pacientes procuram o psicanalista depois de passar 
por psicólogos, médicos, religiosos, etc.. Há que considerar que 
uma análise só é possível quando outros tratamentos fracassam 
e levar em consideração que uma análise, propriamente dita, 
não dá conta de tudo e nem de todos, ou seja, ela também pode, 
e em certas circunstâncias fracassa. Este aspecto é muito impor-
tante e deve ser observado por quem está na clínica: trabalhar 
para que a castração seja efetiva e produza os efeitos que dela se 
espera. Agora, dizer que a castração seja efetiva,estatísticas e 
biologizantes – quem decide por um diagnóstico 
e se faz responsável pela direção do tratamento. 
Reforçam, assim, como um mero “agente distri-
buidor” aquele que deveria praticar a clínica e se 
apresentam, portanto, como o avesso do que se 
processa na experiência psicanalítica... (p. 30) 
Esta modalidade de estabelecer um consenso e determi-
nar sobre a vida de alguém é justamente o oposto do que faze-
mos em um percurso analítico. 
Lacan, ao retomar os textos freudianos desde o “Proje-
to...” de 1895, nos demonstra em seu seminário 07 que o objeto 
94
de desejo é sempre algo da ordem do particular. Esse objeto que 
ele irá denominar, em um primeiro momento de “DAS DING” 
retomando os textos de Freud, será ao mesmo tempo o que irá 
causar o sujeito e produzir um efeito ponto de gravidade sobre 
o	qual	irá	girar	toda	a	cadeia	de	significantes	que	nos	constitui.	
A construção da teoria do objeto, então, não permite ao psicana-
lista pensar um mesmo objeto para todos. Temos então, uma te-
oria que parte do geral quando se pensa a constituição subjetiva 
para todos, mas que vai se dirigindo ao particular de cada um 
quando	acolhe	a	cada	pessoa	em	sua	relação	com	o	significante	
que o causa. Esta diferença é a base da ética com que trabalha-
mos. 
Ao invés de acolher alguém em nosso consultório tentan-
do enquadrar esse paciente em uma certa categoria diagnóstica, 
apostamos na escuta do particular, sempre atentos às surpresas, 
àquilo que escapa do “comum”, do ordinário. Independente do 
diagnóstico pela via do DSM, ou de outro manual estatístico, o 
que nos importa é como aquela pessoa se relaciona com aquilo 
que ela mesma diz, com aquilo que ela constrói em transferên-
cia. Nosso diagnóstico, como já vimos no capítulo anterior se 
dá na relação transferência a partir do dispositivo clínico. Isso 
impossibilita pensar um mesmo “ser” para todos.
Para dar um exemplo, certa vez recebi um paciente em 
minha clínica que me dizia que estava em plena crise de pânico 
e que tinha ido a psiquiatras e todos disseram que deveria fazer 
terapia. Eu perguntei como era a crise de pânico dele, eis que ele 
me disse atônito: “Como você não sabe o que é e como é uma 
crise de pânico?”. Ao que prontamente respondi: “Por isso eu 
perguntei como é a sua.”. 
Essa diferença parece pouca coisa, mas quando estamos 
na clínica e começamos a escutar nossos pacientes, o trabalho 
95
que	geralmente	temos	é	o	de	uma	desidentificação	com	um	lu-
gar que o paciente ocupa na relação com o outro. Isso passa 
também pelos diagnósticos recebidos na vida de uma forma 
geral. Precisamos ir retirando “os excessos” para usar uma ex-
pressão de Freud (1905) quando falou sobre o método psicana-
lítico. Excessos de quê? Excessos de dizeres que colamos em nós 
como uma espécie de pele feito colcha de retalhos. Chamamos 
essa pele de Eu. O Eu, desde Freud, pode ser visto de diversas 
maneiras,	mas	mais	especificamente	como	aquilo	que	um	Outro	
investe libidinalmente e se constitui nessa relação com o Outro 
no lugar de objeto deste Outro. O Outro, grande Outro como di-
zemos a partir de Lacan, irá nomear, palavrear este sujeito, que 
aos poucos vai se constituindo para se produzir, fazer-se aquilo 
que ele supõe faltar ao outro.
Neste jogo de suposição e de lugares, temos que aquilo 
que é o bem, o bom e o belo para um não é para outro, em outras 
palavras, a ética com que trabalhamos não é a ética aristotéli-
ca que sustenta a ética das terapias de uma forma geral. Nossa 
Ética	é	a	ética	do	desejo	e	o	desejo,	como	afirma	Lacan	(1964)	
em Do Trieb de Freud e do desejo do psicanalista, “Assim, é antes, a 
assunção da castração que cria a falta pela qual se institui o de-
sejo” (p. 866). Essa dinâmica do que falta ao Outro enquanto um 
significante	que	será	aquilo	que	irá	me	representar	como	sujeito	
para	outro	significante	qualquer,	aí	temos	a	impossibilidade	de	
um mesmo objeto para todos. Notem que a lógica da construção 
do desejo pode ser pensada como uma invariante de maneira 
global, mas o que teremos como objeto causa, e as consequên-
cias disso, é apenas no plano do particular que poderemos ter 
notícias disso. A esse respeito, o objeto é sempre um, como o é 
o sujeito que se produz no dispositivo clínico que chamamos de 
Psicanálise.
96
 O	Dinheiro
 
Falar sobre o dinheiro em nosso campo sem situar mui-
to bem nossa ética me pareceu um tanto quanto estranho. Por 
isso essa volta toda para dizer que não é possível tabelar uma 
análise visto que não temos ideia da realidade do que é possível 
ao paciente e, mais ainda, de que o próprio valor e pagamento 
serão questões a serem trabalhadas mais cedo ou mais tarde em 
uma análise. 
A princípio quero propor uma disjunção de valor, preço 
e dinheiro. Notem como um pedaço de papel com alguns escri-
tos podem custar. Em 2021 uma cópia rara da constituição dos 
Estados Unidos foi leiloada por cerca de 20 milhões de dóla-
res. Quanto custa para uma criança esse pedaço de papel velho 
com alguns escritos? Notem que o preço sempre será o mesmo, 
socialmente estabelecido, mas não terá o mesmo valor que um 
objeto transicional, uma chupeta ou o colo de seus pais. Repa-
rem	nas	análises	como	os	objetos	tornam-se	supérfluos	na	fala	
de cada um de nós em detrimento do olhar, do carinho, do tom 
de voz. Aí está o valor, que deverá ser de caráter subjetivo. Já o 
dinheiro,	esse	é,	como	afirma	Zizek	(2006),	o	papel	que	simboli-
za uma troca vazia. Temos então que o pagamento das sessões 
passa por essa tríade entre preço, valor e dinheiro. 
 Quem nunca se viu se sentindo em dívida com um ana-
lista e teve aquele ímpeto de pagar mais sem se dar conta? Ou 
ainda, quem nunca pensou que pagava muito ao analista pelo 
“serviço prestado”? Não devemos nos levar pelo lado do ana-
lista aqui, mas poder acolher estas questões na própria análise. 
Uma das recomendações que fazia a meus alunos nas uni-
versidades era justamente para que eles prestassem atenção se 
haveria alguma mudança em sua maneira de acolher e intervir 
97
quando eles já tivessem cumprido toda a carga horária do cur-
so. Fato é que a grande maioria deles diziam que, ao se verem 
livres das marcações de horas para que eles pudessem passar 
na	disciplina	de	estágio,	a	escuta	fluía	muito	mais.	E	isso	não	é	
muito difícil de teorizar sobre, na realidade, pouco se faz nesse 
sentido pois há muitas questões políticas em jogo. Ocorre que 
em um primeiro momento os alunos tem os pacientes como 
seus objetos de trabalho. Não é possível a eles terem liberda-
de de escuta e de intervenção quando os próprios alunos estão 
com “uma arma apontada para suas cabeças”. Se os pacientes 
não	ficam,	eles	não	se	formam.	As	demandas	criam	um	emara-
nhado	que	dificulta	muito	a	nossa	prática.	A	demanda	da	ins-
tituição com os horários, a demanda dos pacientes com uma 
certa pressa para ter algum efeito terapêutico, a demanda dos 
supervisores (esses costumam ser os piores, apenas aguardam 
pacientemente o momento para tirar o chicote de algum lugar 
que	estava	enfiado	para	então	estralar	no	lombo	dos	coitados.	
Seria cômico se não fosse trágico) para ensinar os alunos como 
fazer para manter os pacientes na clínica, notem que os alunos 
de psicologia estão de fato em maus lençóis. Isso que ainda nem 
sequer tocamos na questão da insegurança do aluno que tem no 
supervisor a expectativa de uma pessoa que o aluno possa con-
tar.	Enfim,	são	muitas	demandas	que	mais	prejudicam	a	escuta	
do que ajudam.
Por que resolvi contar esse caso aqui? Simples, pelo fato 
de que enquanto o analista estiver tomando o paciente como 
objeto para o pagamento de suas contas, a análise passará por 
um período tenebroso. Agora, o analista feliz, de barriga cheia, 
com a conta de luz e internet pagas tem uma certa tranquilida-
de maior nos atendimentos que permite certas extravagâncias 
como, por exemplo, pagar um supervisor que ele escolheu, au-
98
mentar o valor da análise, comprar livros, etc.. O dinheiro faz 
parte de nossas vidas e temoque boa parte dos próprios analis-
tas falem mais de sexo do que do dinheiro. É uma verdadeira 
pena isso. Nas questões mais práticas do dia a dia de nossa clí-
nica aparece sempre um vácuo pronto a sugar qualquer tipo de 
discussão séria e transparente sobre o tema. Existe então uma 
questão de ordem prática que podemos nomear de realidade e, 
ao mesmo tempo, questões de ordem subjetiva.
Freud certa vez disse que o dinheiro se assemelha às fezes 
no sentido de que as fezes seriam os primeiros objetos produzi-
dos pelo bebê em uma relação de troca com a mamãe, com este 
Outro que demanda do bebê e ele lhe entrega. Ocorre que o que 
está em cena aqui é a estrutura da troca onde um demanda e o 
outro entrega, mas notem que há também uma outra dimensão 
um pouco menos evidente, quando um oferece e o outro recebe. 
É a partir desta dimensão que costumo trabalhar com a maioria 
de meus pacientes. 
Receber na quantidade que o paciente pode pagar, rece-
ber o que ele pode oferecer simbolicamente como troca para o 
analista é muito importante. Não demandar demais do pacien-
te e nem de menos. Demandar mais do que ele pode tem seus 
riscos de a análise ser interrompida antes mesmo de seu início. 
Demandar de menos pode ocorrer do paciente não dar valor ao 
trabalho. As conjecturas aqui e as possibilidades são inúmeras, 
falaríamos eternamente do que é ou não é possível. Minha re-
comendação	é	seguir	Freud	(1913)	que	nos	afirmou	que	trata	o	
dinheiro com toda a honestidade como tratamos com qualquer 
outra coisa em análise. 
Esbarramos em algo do social, do pudor, cobrar o que e 
como. Essa perspectiva freudiana nos serve de recomendação, 
como tantas outras. Mas será a partir de um norte lacaniano que 
99
esta questão poderá ser melhor pensada. Respeitar a realidade 
do paciente é imprescindível, mas sabemos de que realidade se 
trata? 
 
O	Pagamento	e	a	Realidade:	RSI
 
Fato é que pouquíssimo se escreve a respeito do dinheiro, 
do preço e do valor de uma sessão. Neste aspecto em especí-
fico	temos	um	problema	muito	pontual.	Ora,	se	nossa	prática	
deve	ser	sustentada	teoricamente,	por	que	o	pagamento	ficaria	
de	fora	disso?	A	resposta	é	que	não	fica,	mas	ao	mesmo	tempo,	
o	pagamento	das	sessões	fica	em	uma	espécie	de	limbo	em	que	
os analistas mais experientes transmitem mais a partir de um 
“como eu faço” do que um “como podemos fazer a partir da 
teoria”. Nos próximos parágrafos farei uma espécie de ensaio 
trabalhando com alguns conceitos para que possamos pensar o 
manejo em nossa clínica.
Para Lacan, a realidade tal qual a concebemos é Real, Sim-
bólica e Imaginariamente constituída. No entanto, até que pos-
samos pensar o pagamento articulado com o Imaginário e com 
o Real, temos a princípio aquilo que o paciente pode ou não 
pode. Notem que esta primeira perspectiva de realidade nem 
sempre é evidente em textos que versam sobre o pagamento e 
sobre o tempo. 
Se vamos trabalhar com a Psicanálise de orientação laca-
niana, não se trata tão somente de tomar tudo a partir do RSI, 
mas antes, de poder formalizar a própria estrutura do sujeito 
pela via daquilo que se entrega, daquilo que faz sintoma e da-
quilo que escapa na fala dos pacientes e aparece como uma atu-
ação em transferência. 
O dinheiro como aquilo que se entrega carregado de sen-
100
tido é da ordem do imaginário. O que eu entrego para pagar mi-
nhas contas? Folhas de papel que, se não fosse pelo valor atribu-
ído socialmente (Outro) não teria nenhum valor, aqui estamos 
no campo do simbólico sendo que é uma cultura que estabelece 
para cada nota um valor de troca, mas ainda assim, escapa o 
valor que a pessoa dá ao estruturar aquela quantia, aquela cifra, 
de maneira a retornar para ele o investimento que ele fez para 
ter aquilo e, depois, para abrir mão no sentido de uma troca. 
Notem que isso que eu dou em forma de dinheiro, Freud cha-
mava de libido, por que não dizer dessa dimensão do amor? O 
amor, em si mesmo, a princípio está localizado no registro do 
imaginário, ele faz consistir, ou seja, ele organiza as coisas de 
maneira a produzir um sentido. O homem dos ratos nos ajuda 
muito	aqui.	“Tantos	ratos,	tantos	florins...”	é	mais	ou	menos	isso	
que ele diz quando paga as sessões com Freud. O dinheiro pode 
ser lido de forma RSI.
Segundo	Zizek	(2010)	
“A ordem simbólica emerge de um presente, 
uma oferenda, que marca seu conteúdo como 
neutro para fazer-se passar por um presente: 
quando um presente é oferecido, o que impor-
ta não é seu conteúdo, mas o vínculo entre o 
que presenteia e o que recebe estabelecido 
quando o que recebe aceita o presente.” (p. 20).
Quero frisar essa dimensão vazia que o simbólico porta. 
Quando	Lacan	trabalha	sobre	o	conceito	do	significante,	o	que	
temos	é	que	o	 significante	 é	 suporte	de	um	significado,	 ele	 a	
rigor	não	significa	nada.	E	talvez	isso	é	o	que	seja	mais	difícil	
em nosso campo, tomar o que é da ordem do pagamento e do 
tempo como coisas elementares e que, ao mesmo tempo, são 
intrínsecas entre si. O dinheiro	como	significante	permite	que	
101
o analista ao receber o pagamento não saiba sequer por que o 
recebeu ou quanto recebeu visto que aquilo que o pagamento 
significa	 (dimensão	 imaginária)	para	um	não	significa	o	mes-
mo para o outro. Podemos dizer que Lacan nos ajuda a pensar 
que as trocas são sempre vazias pois, caso contrário, estaríamos 
dizendo ao outro o que e quanto custa aquela sessão, aquela in-
tervenção, aquele desfecho, mas somente o paciente pode dizer 
do que se passa em seu ser durante o percurso de uma análise.
Há então um outro preço que se paga em uma análise. 
O preço do des-ser. Veremos isso no próximo capítulo sobre a 
formação do analista. No entanto, cabe dizermos que existe um 
preço para o pagamento da sessão, e existe um outro tipo de 
preço que estará articulado com o valor que a a análise terá para 
cada um que passa pelo percurso. 
Não	sei	se	está	ficando	claro	essa	questão	do	dinheiro	e	
sua articulação com a ética da Psicanálise. Precisamente por não 
ser possível dizer o valor que aquilo tem para o paciente, não 
podemos dar de antemão um “preço” como seria em uma troca 
comercial em que todos pagam o mesmo preço pelo mesmo re-
lógio ou pelo mesmo tempo. Aqui, ao resgatar a dimensão ética, 
proponho tomarmos articulado com o RSI o que é da ordem da 
oferta, e não apenas da ordem da troca. Que haja trocas, isso não 
tem nenhum problema, visto que o analista também pode ser 
pego, vez ou outra por alguma questão sua e colocar novamente 
o paciente no lugar de objeto. Neste momento, urge a necessi-
dade de supervisão e retorno às bases teóricas que compõem a 
formação permanente. Agora, sabemos que nem toda oferta é 
aceita e nem toda demanda deve ser acolhida em análise. 
Existe um outro registro da realidade que está em jogo 
desde o primeiro momento e que articula Simbólico e Imaginá-
rio. O registro do Real. Seu conceito parece ser mais difícil do 
102
que realmente é. Se tratarmos o real não pela via do negativo, é 
possível um trabalho no mínimo interessante. 
Lacan no início de seus seminários tomou o Real como o 
que não se inscreve no simbólico e nem no imaginário, o que 
está de fora do simbólico, o que não cessa de não se inscrever, 
mais	para	o	fim	afirma	que	“não	há	relação	sexual”,	etc..	Notem	
como temos uma espécie de negativo para dizer do Real. Em di-
versos	momentos	da	obra	de	Lacan	vamos	encontrando	defini-
ções que não se excluem. A cada tempo do ensino de Lacan ele 
vai privilegiando alguns instrumentos, como no caso da lingua-
gem,	para	dizer	daquilo	que	fica	de	fora	do	simbólico,	ou	então	
no caso da fórmula da sexuação onde ele retorna várias vezes 
na máxima de que “não há relação sexual”. A conceituação do 
Real e, por conseguinte, do Imaginário e do Simbólico depende 
necessariamente do arcabouço teórico utilizado naquele mo-
mento da elaboração teórica para que tenha uma sustentação 
maior e ganhe peso dentro da teoria com uma direção prática.
Na clínica, o Real aparece quando o acasose manifesta. 
Quando estamos tão fechados em nosso cálculo do que fazer e 
sabemos como fazer com nossas miseráveis vidas, uma ligação 
telefônica, uma mensagem, um som, uma voz, um olhar, pode 
mudar tudo. O inesperado toma conta e somos obrigados a nos 
rearranjar de tal maneira que inclua aquilo que se passou em 
nossa história. Segundo Lacan (1964) o Real pode ser pensado 
como “aquilo que retorna sempre ao mesmo lugar – a esse lugar 
onde o sujeito, na medida em que ele cogita, onde a res cogitans, 
não o encontra.” (p. 55). Um pouco mais à frente no mesmo se-
minário	Lacan	o	define	 como	“O	Real	pode	 ser	 representado	
pelo acidente, pelo barulhinho, a pouca-realidade, que testemu-
nha que não estamos sonhando.” (p. 64). Notem que em ambas 
as	afirmações,	e	também	em	muitas	outras,	temos	que	é	sempre	
103
uma representação do Real que se pode formalizar. Não temos 
a menor possibilidade de pensá-lo sem o Imaginário e sem nos 
utilizarmos	 dos	 significantes	 que	 o	 simbólico	 nos	 presenteia.	
Com esse exemplo, espero que possamos caminhar na ideia de 
que não há Real puro, assim como não há puro simbólico ou 
puro imaginário. O nó borromeano nos permite ver isso de for-
ma muito concreta. RSI se entrelaçam, estão articulados, não há 
nó borromeano sem os três, não há sujeito sem a articulação dos 
três registros.
Não tenho intenção de realizar uma introdução ao RSI 
que foi trabalhado por Lacan desde o seu primeiro seminário 
até o último, muito menos esgotar o assunto. Agora, se estamos 
orientados por uma teoria, creio que seja possível pensarmos a 
questão do preço da sessão, do dinheiro, de seu valor, por essa 
via. Lembremos que o pagamento mesmo pode ser um dos ele-
mentos em que a repetição representa um Real em jogo.
Colocarei agora alguns exemplos no intuito de auxiliar 
um como fazer a partir da teoria. 
Ao receber um paciente pela primeira vez, convido-o a di-
zer o que se passa para que tenha me procurado. Sem nenhuma 
intenção de que haja ali um enigma a ser desvendado, ofereço 
ao paciente um espaço de fala para que ele possa me ofertar em 
troca aquilo que demando dele, a saber, suas palavras. É óbvio 
que não se pensa assim na prática do dia a dia, mas podemos 
articular isso teoricamente para sustentar a cada vez, como se 
fosse a primeira, os encontros na sua máxima particularidade.
Neste primeiríssimo encontro, costumo estabelecer já, 
desde	o	início,	a	regra	do	jogo.	Sabendo	de	suas	dificuldades	e	
impasses, ou seja, que o paciente fale abertamente tudo o que 
vier à cabeça. Pretendo com isso produzir um efeito também na 
hora de acertar o valor de cada sessão. A sessão vai discorrendo 
104
de acordo com a fala do paciente e, no tempo propício de encer-
rar a sessão, explico como trabalho. Reitero a questão de que ali 
é para dizer tudo o que se passa em sua cabeça, independente-
mente	do	quão	difícil	isso	possa	ser.	Ao	final	de	tudo,	pergun-
to se o paciente tem alguma dúvida a respeito do tratamento. 
Geralmente antes mesmo de dizer o preço das sessões. Ocorre 
que na grande maioria das vezes os pacientes perguntam so-
bre o pagamento. Isso é extremamente importante, façamos um 
giro aqui, isso é uma pergunta ou uma demanda? O paciente 
perguntar sobre o valor, o preço, o quanto terá de pagar pela 
análise é uma pergunta ou uma maneira de fazer um laço com 
o analista? 
Percebam que esta maneira de fazer um laço está de acor-
do com a pergunta “Que deseja?”, “Che Vuoi” que Lacan coloca 
na parte superior do grafo do desejo. Aqui a pergunta se torna 
uma demanda, mas nem sempre é assim. Cabe ao analista saber 
manejar quando o pagamento está atrelado a uma demanda e 
é	mais	um	dos	significantes	a	serem	trabalhados	em	análise	no	
tempo de cada paciente.
Voltando ao RSI, não temos a menor possibilidade de ve-
rificar	tudo	isso	nos	primeiros	encontros,	por	isso	a	importância	
das entrevistas preliminares. O paciente ainda não está lugar 
de analisante, para pensar a função do dinheiro, embora isso 
possa acontecer em alguns casos. Nas primeiras sessões cabe ao 
analista dar um norte, dizer um quanto, entrar no jogo da troca 
vazia dizendo um valor que lhe seja interessante a partir de suas 
necessidades e do quanto acha que vale o seu trabalho. Aqui 
lhes apresento uma segunda realidade paralela à realidade do 
analisante.
Temos duas realidades paralelas que, embora não se to-
quem, uma sofre os efeitos gravitacionais da existência da outra. 
105
Há a realidade subjetiva de nossos pacientes que será analisada 
e há, em outra linha, a realidade subjetiva do analista que será 
analisada na análise dele. Podemos dizer que são realidades 
distintas e que, se o analista não abrir mão de sua realidade, de 
seu eu, de suas necessidades para fazer uma função, sustentado 
na ética da Psicanálise, a análise se torna impossível. No entan-
to, não há realidade objetiva, por mais que haja um esforço em 
direção a ela, nos cálculos de “principiantes” de quanto custa 
uma sessão e quanto se paga por um aluguel de sala, pelo curso, 
pelo	livro,	como	se	possível	fazer	um	balanço	para	verificar	se	
a clínica é ou não é lucrativa. É preciso deixar a realidade (RSI) 
do analista de fora para poder operar com e sobre a realidade 
do paciente. 
Na maioria dos primeiros atendimentos, pergunto aos pa-
cientes qual o valor que eles pensaram, qual o máximo que eles 
podem pagar naquele momento, notem que não dar um valor 
fixo	faz	com	que	aos	poucos	a	gente	saia	da	“ordem”	de	uma	
suposta realidade compartilhada para entrar na realidade do 
um a um. Reforço aqui que isso é uma estratégia que para mim 
é útil, talvez não seja em outro momento e nem para outros ana-
listas.	Esta	estratégia	é	útil	pois	consigo,	a	partir	disso,	verificar	
com o paciente algo que ele pode, algo que não pode, como ele 
se sente com isso, consigo tatear já nas primeiras sessões um 
esboço de RSI.
Acredito	que	tenha	ficado	muito	claro	que	na	questão	do	
dinheiro, do pagamento, é possível operar com algo do particu-
lar, saindo da lógica do “cobro tanto para todos” ou ainda, que 
eu acredito ser muito pior “para você eu faço esse preço”. Desde 
as primeiras sessões podemos convocar o particular ao concor-
dar que nos colocamos para acolher o particular inclusive na 
questão do pagamento. 
106
Antes de encerrar essa parte, há que considerar que nem 
sempre o pagamento é feito de dinheiro. Talvez, o mais sur-
preendente	 é	 que	 o	 dinheiro	mesmo,	 torna-se	 algo	 supérfluo	
na medida em que o analisante vai pagando a análise com seu 
próprio ser. Há no percurso de análise uma coisa muito distinta 
das outras práticas justamente por trabalhar com o um a um. 
Em casos de crianças, psicóticos graves, autistas, considera-se 
que os pacientes paguem as sessões como eles podem pagar. 
Um desenho, um presente, seu olhar, uma pedrinha. Em mi-
nha experiência com um psicótico o pagamento era feito por 
ele andando mais de 10km para chegar à clínica. Devemos nos 
perguntar se enquanto analistas estamos dispostos a receber o 
que o paciente pode e como ele pode pagar, ou se estamos mer-
cantilizando nossa prática que, embora esteja no mercado como 
um tratamento, não se confunde nem se submete a esta razão.
Poderia escrever muito mais sobre o dinheiro e os paga-
mentos das sessões, mas a ideia deste livro não é esgotar os te-
mas, mas apresentá-los para que os leitores possam encontrar 
outras referências e seguir com sua formação. No próximo pon-
to articularemos a questão do tempo.
 
O	Tempo
 
O tempo é algo que sempre nos falta, mas a Psicanálise 
nos auxilia (e muito) a lidar com ele e nos utilizarmos dele para 
nos amparar. Mesmo que neste pequeno livro eu traga alguns 
recortes a respeito da temática, não esgotarei tudo o que é pos-
sível pensar a respeito da noção do tempo em psicanálise.
Freud trabalhava com seus pacientes ao menos uma vez 
por dia durante cinco dias na semana. Reservava aos pacientes 
uma hora por dia e dizia que esta hora era de responsabilida-
107
de dos pacientes. Certavez, dizem que ao receber um paciente 
Freud	resolveu,	seguindo	o	conselho	de	sua	filha,	tirar	10	mi-
nutos de cada paciente para poder receber mais um paciente, 
ficando	assim	determinado	o	período	de	50	minutos	por	sessão	
na Psicanálise. Nada mais arbitrário que isso. Ao mesmo tempo, 
ele atendia, em algumas situações, pacientes por mais de uma 
vez por dia. Em outras situações por um período menor de tem-
po do que aquilo que ele recomendava em virtude de alguém 
que vinha de fora para se consultar com Dr. Freud. A recomen-
dação orienta, mas deve ser tomada como orientação para um 
fazer clínico que não se limita à mesma. O analista deve se ser-
vir do tempo e não o tempo se servir do analista.
Eu costumo me divertir muito quando questiono os alu-
nos de psicologia, sejam eles orientados por um psicanalista 
ou um cognitivo comportamental, ou qualquer outro tipo de 
linha teórica (não abordagem) que trabalha com 50 minutos, 30 
minutos, 1 hora, se eles têm ideia do por que eles determinam 
este período para os atendimentos. É hilário ver que os que su-
postamente	defendem	que	a	sua	prática	é	científica	não	sabem	
dizer as raízes históricas ou o real motivo de utilizar esse deter-
minado tempo com o paciente. O mais cientista de todos segue 
ignorando	que	seu	“trabalho”	cientificamente	comprovado	“?”	
segue a indicação de uma suposição e de uma determinação so-
cial	em	nada	científica.
Ora, o tempo de uma sessão em Psicanálise, ou o tempo 
do tratamento, a duração daquilo que chamamos de Psicanálise 
é possível de ser pré-determinado?
Já trabalhamos sobre a ética que rege o nosso campo, será 
que determinar um tempo igual para todos, acordar um núme-
ro de sessões, como por exemplo 5 sessões por semana como 
fazia Freud, ou então 3 anos de análise, como ainda fazem al-
108
gumas instituições psicanalíticas, não seria justamente ir contra 
essa ética? Sim e não. 
Na época de Freud, era comum que o médico reservasse 
um tempo pré-determinado para o tratamento de seus pacien-
tes. Os médicos agendavam de hora em hora seus pacientes e 
cobravam aquilo que era usual em seu ofício. Tenho pra mim 
que a era vitoriana foi o auge da hipocrisia em todos os senti-
dos. Temos muito mais liberdade nos dias de hoje.
Vou contar uma piada aqui para demonstrar que o tempo 
tem uma espécie de outra face que não aquele medido em mi-
nutos. 
Certa vez Jesus decidiu vir atender alguns pacientes no 
SUS	pois	a	fila	estava	enorme	e	não	haviam	médicos	suficientes	
para dar conta daquele mundaréu de gente. Uma senhora que 
estava	no	fim	da	fila,	vendo	entrarem	idosos	aleijados,	paralí-
ticos e cegos e todos saírem curados, perguntou ao último que 
saiu se o médico realmente era bom daquele jeito. Eis que um 
senhorzinho responde mal-humorado: — Igual todos os outros, 
nem	olha	pra	nossa	cara,	não	fica	mais	que	10	minutos	com	a	
gente, nem quer saber da nossa história...
A questão que coloco com esta anedota é de que o tempo 
mesmo deveria estar a serviço do tratamento e não o tratamento 
submetido a ele. Freud, quando inaugura a Psicanálise, escuta-
va seus pacientes pelo tempo que fosse necessário, independen-
temente de a análise ter um período (alguns anos) pré-determi-
nado ou não. Inclusive ele nunca disse que as análises deveriam 
ter uma duração x de tempo. Freud se servia desta hora com 
seus	pacientes	para	escutá-los	e	verificar,	através	do	dispositivo	
clínico que ele criou com o nome de Psicanálise, uma série de 
elementos que apareciam na fala dos pacientes e que ele de-
nominou de formações do inconsciente. Ao falarem sobre si e 
109
sobre qualquer coisa que lhes vinha à cabeça, os pacientes de 
Freud e dos demais psicanalistas não apenas produziam ma-
terial a ser analisável pela via da palavra, mas principalmente 
pela via da repetição em transferência. 
Submeter os pacientes às recomendações de tempo e de 
pagamento não era sem uma lógica. Ocorre que esta lógica não 
se dava pela via da lógica do inconsciente, mas antes de uma 
lógica social, uma ordem de Cronos, por isso, cronológica. 
Muito me admira ler Freud em Recomendações e ver que 
as pessoas ainda tomam aquelas recomendações como regras e, 
mais ainda, algumas instituições, ao não pensarem as mudan-
ças subjetivas de nossa época, tentam manter o “tradicional” em 
um tempo em que a pressa dita as regras e coordena a formação 
das subjetividades. 
Em 1905, Freud escreveu 
“As indicações e contraindicações desse trata-
mento	não	podem	ser	postas	de	forma	definiti-
va, em decorrência das muitas limitações prá-
ticas que afetaram a minha atividade.” (p. 71). 
Em 1913, Freud, ao escrever um belo texto intitulado Sobre 
o início do tratamento nos deixa novamente explícito o seguinte 
“Daqui em diante, tentarei reunir algumas des-
sas regras para o início do tratamento... Mas faço 
bem em apresentar as regras como “recomenda-
ções”, não querendo advogar para elas uma obri-
gatoriedade absoluta”. (p. 121)
No mesmo texto, de 1913, Freud nos convida a responder 
à pergunta que os pacientes nos fazem, geralmente no início do 
tratamento. “Quanto tempo dura o tratamento?” eis que Freud 
nos auxilia dizendo que não temos como saber. Creio que isso é 
de uma importância ímpar. Nos tempos de hoje em que a pres-
110
sa tende a ser a bola da vez, Huber e colaboradores realizaram 
uma	pesquisa	apontando	que	a	Psicanálise	é	mais	efi	caz	e	seus	
efeitos duram mais que as psicoterapias de base psicanalíticas. 
Em se tratando de uma comparação direta entre outras práticas 
no campo da saúde mental, temos o traba-
lho	de	Zimmermann	(2014)	que	aponta	que	a	
Psicanálise	é	mais	efi	caz	do	que	a	Psicotera-
pia Cognitivo Comportamental quando tra-
tamos pacientes com depressão maior.
O que vemos em nossa clínica é que 
muitos pacientes nos chegam questionando o tempo do trata-
mento e alguns são iludidos por promessas midiáticas que não 
retratam a realidade de nossa prática no dia a dia. Fato é que 
muitos psicoterapeutas cognitivos, comportamentais, humanis-
tas, fazem análise. Médicos, psiquiatras, entre outros, também 
fazem análise. Ora, já trabalhamos sobre a causalidade incons-
ciente sobre a qual a Psicanálise opera. Neste sentido, os efeitos 
terapêuticos vividos por nossos pacientes durante e após o tra-
tamento são benefícios secundários, embora mensuráveis e pas-
síveis	de	comparação	como	afi	rma	Zimmermann	(2014)	e	ocor-
rem em um tempo muito próprio de cada 
um. Embora tenhamos pesquisas que reali-
zam interessantes comparações entre a psi-
canálise e outros métodos de tratamento no 
campo da saúde mental, como a de Hubber 
e colaboradores (2014) em que faz uma com-
paração direta entre a psicanálise e a psico-
terapia cognitivo comportamental, ou então 
a pesquisa realizada por Kappelmann (2020) 
que compara a o tratamento psicoterapêuti-
co de forma geral com o uso de substâncias 
111
psicotrópicas, o que nos importa de fato é que consigamos sus-
tentar o tempo do percurso de cada um para alcançar não ape-
nas os resultados terapêuticos, mas antes de qualquer coisa, os 
efeitos analíticos que iremos trabalhar logo mais à frente neste 
capítulo.
Um pouco de história aqui. Lembro-me de meus anos 
como estudante de psicologia em que eu procurava um trata-
mento	que	fosse	rápido	e	eficaz	para	ajudar	as	pessoas.	Nenhum	
professor recomendava a Psicanálise pois ela “demorava”, eis aí 
um mito que escutamos até os dias de hoje nas cadeiras univer-
sitárias. Quando Freud cita a fábula de Esopo ele sustenta com 
uma precisão sem igual que a ética do inconsciente não é a ética 
do bem comum, mas do passo a passo de cada um. Temos uma 
teoria que não apenas nos serve de suporte para aquilo com que 
trabalhamos como também, quando corretamente aplicada, nos 
permite alcançar resultados tão rápidos quanto outras práticas 
no campo da saúde mental.
Sabem os analistas que o seu trabalho não demora mais 
que outros trabalhos para alcançar efeitos terapêuticos? Insisto 
nesta questão de que os efeitos terapêuticos, não são objetivos 
terapêuticos.Segundo Freud (1912) 
“A ambição educativa é tão pouco adequada 
quanto a terapêutica. Além disso, considere-se 
que muitas pessoas adoeceram justamente na 
tentativa de sublimar suas pulsões para além da 
medida autorizada por sua organização...” (p. 
103). 
Neste trecho de Recomendações aos médicos... Freud (1912) 
nos traz à tona aquilo que escutamos de diversos pacientes que 
passaram por outros tratamentos e, até mesmo, por outros ana-
listas menos experientes que acreditaram que as queixas, que os 
112
sintomas, que o mal-estar deveriam ser curados, a cura deveria 
ser o objetivo do tratamento psicanalítico. Ora, o que se passa 
em nosso ofício é que o mal-estar é uma carta a ser lida, e, acre-
ditem ou não, repetidas vezes. 
Tenho pra mim uma experiência de um jovem ou uma jo-
vem que lê uma carta de adeus de seu amado ou de sua ama-
da. Quantas vezes aquela carta deverá ser lida até que o luto 
se faça? Ou então, para quem como eu tenho algum hábito de 
leitura e de escrita, quantas vezes precisamos ler a mesma coisa 
para entender alguma coisa? E repito, alguma coisa não é tudo. 
É preciso retornar o tanto quanto for necessário no mesmo lu-
gar, caso contrário, melhor seria se tirassem nossas vidas. Opa, 
às vezes parece que é exatamente isso que nossos pacientes nos 
pedem, mesmo que não saibam disso. Aí está uma demanda de 
análise que somente o caminhar, somente as releituras, somente 
sessão após sessão podem nos fazer alcançar algum resultado. 
O sintoma é uma carta cifrada endereçada a um Outro, é para 
ser lido e a análise é uma possibilidade de leitura disso que está 
escrito e se manifesta enquanto um dizer. 
O início de uma análise geralmente se dá com o luto de 
um	Eu	que	não	deu	certo,	que	não	foi	suficiente,	que	não	en-
contra a menor possibilidade de ser o ideal de si mesmo ou do 
Outro.	No	começo	da	análise,	mais	especificamente	na	entrada,	
podemos	verificar	que	há	um	dizer	que	revela	que	“isso	 fala:	
um sujeito no interior do sujeito, transcendente ao sujeito...” (p. 
438). É quando “isso fala” que o paciente se dá conta de uma 
divisão entre aquilo que ele supõe ser e aquilo que o habita. As 
depressões, pânicos, fobias, sintomas, etc., podem ser efeito de 
algo da ordem de uma determinação inconsciente – disso fala 
- e, se forem isso mesmo, somente a Psicanálise poderá ser um 
tratamento	eficaz	uma	vez	que	somente	a	Psicanálise	opera	este	
113
objeto que nos causa enquanto sujeito. 
Temos então que compreender que o percurso de análise 
tem um tempo, mas a sessão também tem um tempo próprio. 
Para dar um exemplo, peguemos uma cirurgia cardíaca, 
quanto tempo demora? Não há, a princípio um tempo determi-
nado de uma cirurgia, em Londrina, cidade onde eu moro, hou-
ve um procedimento cirúrgico em 2008 que demorou 51 horas 
quando a cirurgia em si mesmo não demorou mais que 3 horas. 
Notem bem que há uma diferença na questão do tempo. Existe 
um tempo para a intervenção cirúrgica e também outros tem-
pos, o de preparação, o de recuperação, o de monitoramento, 
são muitos tempos que num tratamento analítico costuma-se 
colocar como se fosse tudo uma coisa só. O que não é verdade. 
Há o tempo das entrevistas preliminares, há o tempo de análi-
se propriamente dita, há o tempo de produção do sintoma que 
dependerá das intervenções do analista que conta com a con-
tingência da vida. Seguindo esse raciocínio, a Psicanálise tem o 
seu tempo, isso não implica dizer que ela é demorada, mas que 
para alcançar aquilo que ela pretende enquanto tratamento, e 
que não é o efeito terapêutico, há uma série de elementos em 
jogo que nem sempre estão dispostos de maneira favorável ao 
tratamento.
Sobre os efeitos terapêuticos, uma noite romântica, um 
bom sexo, uma noite de bebedeira, uma leitura de um texto de 
Lacan	ou	de	Freud,	o	entendimento	de	Heidegger,	um	bom	fil-
me, uma pescaria, um momento com a família, tudo isso pode 
nos	trazer	algum	prazer	e	modificar	a	bioquímica	de	nosso	cé-
rebro	por	um	tempo.	Agora,	modificar	o	mecanismo	que	causa	
o adoecimento, somente se formos na fonte, na causa. Aí meus 
caros, o tempo, está sempre a nosso favor, se, e somente se, sou-
bermos utilizá-lo para tal. 
114
Para resumir este trecho, podemos dizer que o tratamento 
psicanalítico demora o tempo que for necessário. Agora, tam-
bém precisamos estar atentos por que alguns que se colocam 
como analistas tendem a demandar do paciente um tratamento 
sempre	a	mais,	fazendo	com	que	a	análise	seja	infinita.	Isso	vai	
na contramão de todo trabalho psicanalítico sério. Freud (1912) 
nos	atenta	para	este	fato	quando	afirmou	que	“No	processo	de	
dissolução dos entraves ao desenvolvimento, é natural que o mé-
dico aponte novos objetivos...” (p. 102). Quando isso acontece, 
saímos do campo da Psicanálise pois o paciente torna-se o objeto 
do analista e, como sabemos a ideia é tentar sustentar o oposto, 
que o analista seja o objeto causa, o que nem de longe é a mesma 
coisa que ser o objeto do paciente. Causa de quê? Causa do sujei-
to,	inaugurando	um	tempo	com	começo,	meio	e	fim	de	análise.	
Não cabe ao analista dizer ao analisante que ele deve elaborar 
mais coisas. É muito provável que nas análises que conduzimos 
em algum momento a gente diga ao analisante que é possível ir 
mais além, no entanto, é diferente de dizer que o paciente deve ir 
mais além, ou ainda o que ou onde é esse mais além. 
Certa vez na clínica, ao atender um paciente por alguns 
anos, me deparei com uma espécie de esgotamento do traba-
lho. Eu mesmo já não tinha a menor expectativa de que aquele 
paciente continuasse por mais tempo no divã. Então disse a ele 
que tínhamos feito um trabalho até aquele momento e que, es-
tava em dúvida sobre como a Psicanálise podia ainda ser útil 
para ele. Perguntei se ele queria mais coisas com o tratamento 
que ele ainda não tinha alcançado e eis que ele disse que sim, e 
começamos a trabalhar outros elementos que não tinham apa-
recido até então. 
Outro caso que pude acompanhar foi quando recebi uma 
paciente muito angustiada e desesperada. Logo nos primeiros 
115
meses convidei-a a vir ao menos duas vezes na semana. Ela es-
tava dizendo que falar estava piorando tudo, que não suportava 
mais, que não aguentava mais. Foi quando eu lhe perguntei: 
“Você precisa de análise ou quer fazer análise?”. Esta interven-
ção, depois de algum tempo, retorna de outra maneira quando 
ela diz que queria parar pois já estava muito bem. Se me recor-
do	bem,	em	torno	de	um	ano	depois	eu	fiz	outra	pergunta	com	
um teor completamente diferente: “Você alcançou bons efeitos 
terapêuticos, no entanto, se você quiser, a análise pode te servir 
muito para outras coisas”. Esta paciente decide sair da análise 
e tudo bem. 
Trago esses dois exemplos para ilustrar que o tempo de 
análise depende também de que o analisante se implique com 
isso. Não depende somente do desejo do analista, mas também 
da utilidade que uma análise pode ter para alguém. Acho isso 
muito importante. As pessoas não precisam se analisar, elas po-
dem encontrar outros meios, podem se ajustar na vida com seus 
sintomas, podem continuar no sofrimento a que estão habitua-
das, a análise vem como mais uma, entre outras, possibilidades. 
Depois de falar um pouco sobre o tempo da análise, va-
mos ao tempo das sessões, ou melhor dizendo, como trabalhar 
o tempo a partir de uma outra lógica que seja possível de sus-
tentar em nossa práxis.
 
O	Tempo	da	Sessão:	Método	Clínico
 
Cogitei	não	entrar	nos	pormenores	deste	ponto,	pela	difi-
culdade em apresentar as questões concernentes a um proble-
ma real em nosso campo de maneira prática. No entanto, julgo 
de extrema necessidade passar por aqui, principalmente quan-
do me recordo de meu início na clínica. Podemos pensar que, 
116
a princípio, nos dias atuais, temos três modalidades distintas 
de	pensar	o	tempo	da	sessão	na	psicanálise.	Tempo	fixo,	tempo	
curto e tempo variável. 
As	sessões	com	tempo	fixo	geralmente	são	trabalhadas	a	
partir de uma determinação social, institucionalou histórica. É 
o caso das universidades ou planos de saúde que determinam 
o tempo das sessões de atendimentos sem sequer terem uma 
noção de que nosso trabalho não está tão distante assim do tra-
balho	médico,	como	puderem	verificar	no	exemplo	que	dei	nas	
páginas anteriores. Em outras palavras, podemos muito bem ter 
uma sessão em que se chega em um determinado ponto e pron-
to, por que continuar? Quais os benefícios? O que poderemos 
ter	de	ganhos	mantendo	um	determinado	tempo	fixo?	Muitos	
psicólogos	trabalham	com	o	tempo	fixo.	O	que	a	grande	maioria	
não	consegue	fazer	é	sustentar	cientificamente	o	porquê	traba-
lham de 50 em 50 minutos, ou o porquê trabalham de 30 em 30 
minutos. Podemos dizer que há uma convenção neste ponto.
Historicamente Freud trabalhava, a princípio, com uma 
hora para cada paciente e, posteriormente, 50 minutos. Ocorre 
que Freud se utilizava deste tempo para colher do paciente tudo 
aquilo que pudesse em um determinado período de tempo pré-
-estabelecido seguindo a lógica socialmente acordada de que o 
médico dedicaria uma hora para seu paciente. A fala do paciente, 
mais do que informar a Freud sobre alguma coisa era o veículo 
sobre o qual se produzia a transferência enquanto uma relação 
de amor passível de ser analisada. Ao recuperarmos os textos de 
Freud veremos algumas coisas muito interessantes a respeito das 
sessões. Primeiro que ele recomendava, não obrigava, segundo 
que ele atendeu pessoas por cartas, terceiro, como foi o caso do 
pequeno Hans, que não considero ter sido uma Psicanálise pro-
priamente dita por diversas razões, houve ali alguma intervenção 
117
fora do dispositivo clínico, fora do tempo dos 50 minutos, fora 
da transferência. Costumo utilizar o caso do pequeno Hans para 
ilustrar como é uma “Psicanálise selvagem” e como nem mesmo 
Freud esteve imune a isso. Ou então peguemos o exemplo do 
caso Katarina onde ele está sentado de férias tomando seu café 
e a garçonete se achega para se consultar. Esses exemplos nos 
servem	para	pensar	que	o	tempo	fixo	poderia	ser	uma	recomen-
dação que, dadas as necessidades, pode ser descartada desde que 
o analista saiba o que está em jogo, o que está fazendo.
Um	tempo	de	sessão	fixo,	pré-determinado	não	é	algo	que	
nos permita muito operar com liberdade. Colocando em xeque 
inclusive as possibilidades de uma Psicanálise em instituições 
de saúde onde as coisas acontecem tal qual acontecem na vida, 
sem o controle do analista. Mas tem alguns benefícios. Ocorre 
que	os	benefícios	ficam	à	mercê	da	fala	dos	pacientes.	
No período em que eu estava na faculdade de psicologia, 
havia uma piada que dizia que se o paciente chegasse adianta-
do ele era ansioso, se chegasse atrasado era resistência. Impos-
sível não ver nessa piada um importante detalhe de nossa prá-
tica. Nós não diagnosticamos pelo fenômeno, mas por aquilo 
que se produz em transferência. Qualquer coisa que aconteça 
na clínica está submetida à regra fundamental, então seja um 
atraso, uma antecipação, um esquecimento, ou um “queria ter 
mais tempo para falar sobre isso”, não dispomos de outro ele-
mento que não seja a fala do paciente. Tempo e dinheiro, nesta 
lógica, tornam-se elementos analisáveis que entram no jogo e 
não	elementos	pré-determinados	que	ficariam	em	uma	posição	
“de fora” como se esses elementos de nossas vidas cotidianas 
não fossem passíveis de, dependendo do caso, serem alçados à 
dignidade de algo a ser analisado no divã.
Lacan, atento às questões do tempo, e, mais ainda, de que 
118
o inconsciente tem uma temporalidade diferente da lógica so-
cialmente estabelecida de segundos, minutos, horas, dias, etc., 
aposta que também as sessões de análise devam acontecer a 
partir desta temporalidade outra, de um tempo em que a lógica 
que se opera é a lógica do inconsciente e não a de Cronos que 
tudo devora. Na lógica do tempo do inconsciente temos uma 
certa atemporalidade onde o inconsciente pulsa e se abre a cada 
instante para tornar a se fechar. Segundo Lacan (1964) 
“O desejo indestrutível, se ele escapa ao tem-
po, a que registro pertence na ordem das coi-
sas? – pois o que é uma coisa senão aquilo que 
dura, idêntica, um certo tempo? Não haverá 
aqui lugar para se distinguir ao lado da dura-
ção, substância das coisas, um outro modo de 
tempo – um tempo lógico?...” (p. 39).
A apreensão deste tempo lógico não é das mais fáceis, mas 
também não é a das mais difíceis. Para continuarmos, será ne-
cessário um breve desvio na apreensão de alguns conceitos que 
estruturam radicalmente nossa prática. Os conceitos de incons-
ciente,	signifi	cado	e	signifi	cante,	pois	será	apenas	por	esta	via	que	
podermos pensar o tempo lógico do inconsciente estruturado 
como uma linguagem correspondente ao tempo lógico da sessão. 
Lacan (1964) propôs em sua obra que “O inconsciente é 
estruturado como uma linguagem” (p. 27). Falar que é estrutu-
rado como uma linguagem, como ele bem o faz e sustenta, em 
especial no seminário 11, é dizer que está determinado por uma 
lógica, por uma organização que tem como 
elemento o signo e, o signo, por sua vez, pode 
ser desarticulado em duas partes, a saber: 
signifi	cante	e	signifi	cado.	O	signo,	como	tal,	
pode	ser	pensado	como	um	efeito	do	signifi	-
cado que se produz a partir de um elemento 
119
mínimo	que	a	linguística	nomeou	de	significante.	
Lacan	define	que	o	signo	é	aquilo	que	significa	algo	para	
alguém.	Notem	bem	que	há	nesta	dimensão	algo	que	significa	
algo para alguém, existe um Outro aí neste ponto como destina-
tário	de	uma	mensagem.	O	significado,	por	sua	vez	é	o	efeito	da	
leitura do signo, uma interpretação. A fórmula seria a seguinte: 
 
											 	 				significadoSIGNO = _____________
					 	 				significante
 
O	Significante	para	Lacan	é	o	material	sobre	o	qual	é	pos-
sível produzir um efeito de sentido. O sentido depende de um 
significante,	mas	o	significante	não	depende	do	sentido,	ao	con-
trário,	o	significante	como	suporte	material	do	sentido,	permite	
que o sentido não seja arbitrário, mas tenha uma relação com o 
significante	que	o	suporta.	Segundo	Lacan	(1973).	
“...	o	significado	nada	tem	a	ver	com	os	ouvidos,	
mas somente com a leitura, com a leitura do que 
se	ouve	de	significante.	O	significado	não	é	aqui-
lo	que	se	ouve.	O	que	se	ouve	é	significante.	O	
significado	é	efeito	do	significante.”	(p.	39).
Tomemos uma palavra (imagem acústica) como um signi-
ficante,	a	palavra	carteira,	para	dar	um	exemplo,	permite	uma	
série de sentidos, pode ser a carteira de dinheiro, a carteira de 
clientes, a carteira de uma sala de aula. Notem que o sentido 
dependerá	de	uma	articulação	entre	o	significante,	o	contexto,	
os outros elementos em jogo.
No seminário 20 Lacan (1972) mantém sua posição de 
que	“o	significante	é	primeiro	aquilo	que	 tem	efeito	de	signi-
ficado”	(p.25).	Neste	mesmo	seminário	ele	nos	traz	a	 ideia	de	
um	significante	“à	beça”	ali	tem	carta	à	beça.	Podemos	pensar	
o	significado	está	determinado	socialmente	e	que	“à	beça”	seria	
120
o mesmo que “aos montes”. Ocorre que recentemente conheci 
um senhor que tem sobrenome Bessa, aqui de minha cidade. 
Vocês	não	têm	ideia	de	como	fiquei	lisonjeado	de	ver	a	minha	
frente	o	significante	em	sua	forma	mais	pura.	Percebi	que	pode-
ria escrever à beça. Esse equívoco que temos aí nesta frase, não 
se sabe com a minha fala a partir da imagem acústica se estou 
me referindo a um texto para o Sr. Bessa ou a escrita de muitos 
textos, livros, etc. Notem como o sentido não está pré-determi-
nado	ao	significante,	mas,	antes	de	qualquer	coisa,	se	apoia	no	
significante	para	fazer	signo,	para	significar	algo	para	alguém.
	Ao	operar	nesta	lógica	do	significante	e	não	da	significa-
ção,	 temos	a	possibilidade	de	 clinicamente	verificar	que	exis-
tem outros sentidos possíveis para uma mesma experiência na 
medida	em	que	se	modifica	o	olhar	do	paciente	sobre	qualquer	
coisa que esteja sendo dita em análise e que o analisante traz, 
com uma certa importância, como algo que faz marca. Isso só é 
possível	porque	o	significante	como	elemento	mínimo	é	sem-
pre	vazio	e	polissêmico.	O	significante	pode	ser	um	suspiro,	um	
gemido, um olhar, um gesto, qualquer coisa que possa ser pre-
enchida de sentido. Melhor dizendo, aquilo que permite uma 
leitura e, com ela, a interpretação de um acontecimento.
Operar com o tempo lógico é operar no tempo da abertu-
ra	e	fechamento	do	inconsciente,	onde	verificamos	com	nossas	
intervenções a possibilidade de que um corte na cadeia de sig-
nificantes	 foi	 feito	 e,	 a	partir	deste	 corte,	uma	nova	possibili-
dade de sentidos outros pode advir. Isso não é fácil, mas não 
é impossível. Acredito ainda hoje que o grande, talvez um dos 
maiores problemas no início de nosso ofício é menos em relação 
ao tempo e mais em relação ao manejo que permita com que 
operemos nesta outra lógica temporal.
O tempo que produzimos de uma descontinuidade. Lacan 
121
(1964) nos assegura que o inconsciente freudiano era da ordem 
de uma sincronia. “Vocês verão que, mais radicalmente, é na di-
mensão de uma sincronia que vocês devem situar o inconscien-
te” (p. 33). Ora, nossas intervenções tendem ao efeito de marcar 
a diferença, o novo, a abertura para o que não é sincrônico, para 
aquilo que aparece na fala de nossos pacientes como um outro 
sentido para além daquele que até então estava sustentando o 
ser de cada um deles.
Um dos problemas dos inícios de análises é que se con-
funde muito o sofrimento por aquilo que se é na relação com 
um Outro com o discurso de que sofro por causa disso ou da-
quilo. O que nos importa é o sofrimento por aquilo que se é, por 
aquilo que nos fazemos ser na relação com um Outro. 
Este Ser é desde sempre um problema, para resumir a coi-
sa toda e dar uma direção (não a única) de trabalho, no seminá-
rio 20 Lacan nos incita a pensar o ser a partir da predicatização 
do sujeito. O sujeito com o qual trabalhamos é aquilo (sim, aqui-
lo) que surge de maneira evanescente quando, a partir da inter-
venção	do	analista	um	significante	se	descola	do	sentido	prévio	
determinado	se	abrindo	para	um	outro	significante.	A	célebre	
frase	de	Lacan	de	que	um	significante	representa	o	sujeito	para	
outro	significante	não	é	algo	possível	de	ser	pensado	fora	dos	
efeitos do dispositivo de uma análise. Fora da intervenção do 
analista que abre o tempo entre um antes e depois, produzindo 
uma	hiância	temporal.	Analista	como	um	significante	qualquer	
que, a partir de suas intervenções, pode produzir como efeito em 
transferência	que	o	analisante	se	reduza	a	um	outro	significante	
permitindo	que	o	sujeito	seja	representado	pelo	significante	e	
não pelo sentido ou pelo ser. O ser será o sujeito predicatizado, 
colado a um predicado que se apega ao predicado para dizer 
Eu Sou. Já o sujeito, como nos ensina Lacan (1964) é sempre da 
122
ordem do indeterminado, o sujeito é ético e não ôntico.
Representar o sujeito, eis uma coisa que frequentemente 
passa desapercebida. Demorei muito tempo para compreender 
isso, talvez quem tenha mais ajudado aqui foi Jorge Sesarino nos 
seminários	e	nas	análises	de	controle	que	fiz	com	ele.	Certa	vez	
me disse que Lacan disse várias e várias vezes de formas diferen-
tes, mas a mesmíssima coisa, que não temos acesso ao sujeito em 
si, apenas a seu representante. Só é possível uma representação 
na	medida	em	que	o	sujeito	mesmo	não	está	lá.	O	significante	
se faz de elemento esvaziado de sentido para representar o que 
está ausente. Uma analogia que me ajudou muito foi quando 
ouvi Jorge Sesarino dizer que um porta-voz do presidente da 
república o representa, mas não o é. Só pode haver porta-voz 
quando o presidente não está presente. Só pode haver alguém 
que o represente se ele mesmo não estiver com sua presença no 
local	marcado.	Eis	que	 temos	então	que	um	significante	pode	
(esse pode faz toda a diferença) representar o sujeito para outro 
significante	somente	na	falta	do	sujeito	e	não	em	sua	presença.
Veremos	agora	como	essa	teoria	do	significante	é	de	suma	
importância para a condução do tratamento clínico a partir da 
direção proposta por Lacan com o tempo lógico.
Olhar,	Compreender	e	Concluir	a	Lógica	de	Uma	
Sessão	de	Análise
 
Nos Escritos de Lacan temos um texto que nos apresenta 
a lógica do tempo de uma sessão de análise que foi intitulado 
por Lacan de O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Não 
apenas este texto, mas principalmente este nos auxilia a pensar 
a sessão por uma via lógica. 
Dividindo o tempo em três períodos, Lacan cita que há “o 
123
instante de olhar, o tempo para compreender e o momento de 
concluir” (p. 204).
O instante de ver é algo que se dá num primeiro momento 
e que força o sujeito a, a partir de tentativas subsequentes de com-
preensão, concluir em algum momento sobre aquilo que foi visto. 
Ao acompanharmos Lacan no texto, teremos que o ver é um ins-
tante que força uma certa compreensão daquilo que se apresenta. 
Esta primeira compreensão, produz uma conclusão equivocada 
do que foi visto. A conclusão permite que o visto seja outra coi-
sa. A compreensão mesma dos dados objetivos é sempre falha, é 
preciso uma subjetividade que a interprete, que diga sobre, que 
formule sobre o fenômeno uma compreensão. Esta compreensão 
assume não apenas o papel de juízo de valor do objeto, mas de 
si mesmo. Ao tomar-se como objeto de investigação e dizer-se 
sobre si mesmo, notamos como o tempo de compreender permite 
que se formule um juízo sobre si mesmo, sobre a cena, sobre o 
que quer que se diga em análise. O momento de concluir é o mo-
mento do juízo que assegura ao sujeito sua posição e sua existên-
cia. Isso é muito importante. Quero salientar que o julgamento da 
cena, se dá a partir da fantasia constituinte de cada um. Ou seja, 
nossa compreensão sempre é forçada, como se a própria cena já 
estivesse compreendida antes mesmo de existir. 
O esquema é fechado de tal forma que o instante de ver já 
está sobredeterminado pelo que está compreendido que, tam-
bém já traz em si, o juízo que é anterior à fala do paciente. Ao 
fazer qualquer intervenção não miramos alcançar o sentido, 
mas	o	significante	com	sua	característica	polissêmica.	Agora,	e	
se	tomamos	que	o	sujeito	é	representado	por	um	significante,	
este	significante	que	representa	o	sujeito	para	outro	significante	
qualquer, que o analista deve representar, quando colocamos 
na cena analítica nos deparamos com o problema do tempo ló-
124
gico que está no fato de que o tratamento psicanalítico tende ao 
des-ser. Isso é de suma importância e veremos com mais pro-
fundidade no próximo capítulo. Articular o tempo lógico com o 
des-ser da experiência analítica nos levaria a uma compreensão 
mais	afinada	com	nossa	práxis.	Ao	invés	de	sou	isso	ou	aquilo,	
sou assim ou assado, o que tendemos com nossas intervenções 
é cortar no campo da linguagem pela função da fala o sujeito, 
separando-o	do	significante	que	o	 representa,	 revelando	ali	o	
sem sentido para alcançar o sujeito enquanto vir-a-ser.
Nos últimos parágrafos do texto Lacan traz o problema do 
“Eu	sou	homem”	como	uma	afirmação	que	pode	ser	posta	em	
análise. Convido a pensarmos tudo aquilo que aparece como 
“eu sou” na clínica. A proposta de Lacan segue que no instante 
de ver eu consigo formular que sou isso por saber (antecipada-
mente) o que não sou. 
1º - “Um homem sabe o que não é um homem” (p. 213). Neste 
primeiro momento não temos a asserção de ser um homem, 
antes temos a possibilidade de ver tudo aquilo que não é um 
homem, mas o ser ainda escapa. É compreendendo não ser 
nada daquilo que se apresenta no instante de ver que posso 
formular uma compreensão de ser alguma outra coisa. 
2º - “Os homens se reconhecem entre si como sendo homens” (p. 
213). No tempo de compreender o que temos é justamente 
uma espécie de Outro que me diz o que sou por aproxima-
ção, uma vez que a diferença já fora estabelecida no instante 
de ver. Como não ver neste tempo de compreender que o 
momento de concluir é justamente que se conclui, quando 
se	reafirma	em	si	mesmo	aquiloque	veio	do	Outro	impu-
tando predicados sobre o meu ser?
3º	-	“Eu	afirmo	ser	homem,	por	medo	de	ser	convencido	pelos	
homens de não ser homem”. (p. 213). Aqui a asserção da 
125
certeza, uma conclusão que encerra o tempo de compreen-
der. A conclusão, o momento de concluir para Lacan é aqui-
lo que fundamenta o ser a partir da relação com o Outro. 
Nesta lógica, Perez (2018) nos esclarece que 
“O campo do Outro não encerra um saber 
pronto,	capaz	de	defini-la.	 Isso	equivale	a	di-
zer que nem a percepção nem o saber que a 
sociedade oferece podem dizer muito sobre a 
identidade de um sujeito”. (p. 187).
A partir desses elementos proponho agora uma retomada 
destes conceitos para pensarmos a prática clínica.
O que temos no instante de ver é, no sentido de que al-
guém	se	objetifica	pensando-se a partir de seus comportamen-
tos, de seus atos, de seus sentimentos, é ao mesmo tempo car-
regado pelo tempo de compreender que força uma conclusão 
sobre o que se é. Notem que tudo torna-se analisável através da 
fala. A análise não é do comportamento mesmo, mas das pala-
vras que são utilizadas e encadeadas de tal modo a tentar des-
crever o que acontece. Onde está o agente? O agente é aquele 
que diz, ou aquele que está na história contada? Lacan faz uma 
diferença entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação 
que nos ajuda aqui. Devemos procurar sempre alcançar aquele 
dizer	que	fica	esquecido	por	trás	do	que	se	ouve.	Há	um	dizer	
que se produz na análise e não é homólogo à história que se 
conta. A história que se conta, está lá apenas para que possamos 
verificar	este	dizer	e	intervir	aí	nisso	que	diz.
Seguindo por este caminho, temos como uma proposta 
em que o analista não irá dizer ao paciente o que ele é ou deixa 
de ser. Com isso, fazemos uma escansão no tempo de compre-
ender e também impedimos uma conclusão precipitada que se 
baseia no dizer do Outro para saber “quem sou”. 
126
Isso tudo pode parecer muito teórico, mas suponhamos 
um paciente que se diz bipolar. Ao analisar sobre sua vida, so-
bre	seus	problemas	e	a	forma	como	ele	lida	com	suas	dificulda-
des, temos uma categoria criada por um Outro que o forçaria 
a uma compreensão sobre si mesmo. O médico ou o psicote-
rapeuta reforça assim aqui o que ele viu e compreendeu, dan-
do	argumentos	que	sustente	e	justifique	o	seu	ser	como	aquilo	
mesmo que ele é. Conclusão, nenhuma mudança possível aqui 
visto que o sujeito continua determinado pelo dizer do Outro 
representado	nas	figuras	de	autoridade.
Em uma análise a operação é um tanto mais complexa pois 
exige que o analista não compreenda pelo paciente. Neste sen-
tido, o vazio de um dizer de fora sobre o analisante tende a ser 
angustiante. Compreender por si mesmo é um tanto quanto com-
plexo quando na realidade o que temos é que nossa própria com-
preensão de quem somos se dá por uma relação com o fantasma 
($ a) que coloca o Outro como elemento garantidor do que sou. 
Sem esse elemento garantidor, o que se revela em análise é a pró-
pria construção fantasmática do que sou para o Outro em transfe-
rência. Em outras palavras, vou me fazer disso que digo ser para 
que	o	analista	(o	significante	qualquer)	me	suporte	nesse	lugar.	
Freud, ao criar o dispositivo da Psicanálise, coloca o ana-
lista não a partir do seu ser, mas como alguém que consegue 
devolver ao analisante sua fala, estamos ocupando uma função 
que tende a demonstrar ao paciente em ato que o Outro é produ-
to e não causador de si mesmo. Aquilo que sou, o sou por minha 
própria relação com o Outro. Tomemos a constituição psíquica 
em seu momento mais primitivo. O Outro é representado pela 
mãe. Notem que a mãe é e sempre será a mãe desse sujeito, mes-
mo que ele tenha irmãos, irmãs, etc., nunca será a mesma mãe. 
O tempo lógico então, criado por Lacan, respeitaria não 
127
apenas o inconsciente freudiano, mas também a fantasia consti-
tuinte do sujeito (Perez, 2018).
Nesta questão de produzir a conclusão, de concluir a partir 
dos elementos já dados pelo Outro no tempo de compreender 
aparece uma certa decisão tomada a partir do ato sem garantia 
alguma. Como em um salto o sujeito se alça ao abismo autorizan-
do-se por si mesmo, por seu próprio movimento, o que nos leva 
ao último capítulo deste livro que é sobre a formação do analista. 
O tempo lógico então pode ser pensado não apenas para 
as sessões de análise mas para todo o percurso que, no decorrer 
do tratamento, deve produzir como efeito o analista que somen-
te pode se autorizar de si mesmo não sem contar com aquilo 
que lhe chega dos outros e do Outro. Eis aí o que podemos com-
preender que o analista precipita o tempo de concluir. Através 
das	intervenções	do	analista,	o	corte	na	cadeia	de	significantes	
produz	como	efeito	a	separação	entre	significado	e	significante,	
abrindo	espaço	para	que	o	sujeito	possa	advir	entre	os	signifi-
cantes da cadeia (S1 – S2). 
Em um primeiro momento, anterior ao Eu sou, temos o “Eu 
não	sou”	que	é	a	base	da	relação	intrínseca	de	significantes	que	
marcam a diferença. Em um segundo momento, por não ser, há 
uma possibilidade de cópula a partir do sentido dado por um 
Outro. Eu sou homem por não ser outra coisa, ainda aqui o sujei-
to deverá se dizer, se reconhecer a partir dos signos que o Outro 
lhe	oferta.	Ao	afirmar-se	como	homem,	como	bipolar,	como	de	
aquário,	ou	seja,	ao	afirmar	ser,	 temos	então	que	se	concluiu	o	
tempo de compreender. Talvez aqui esteja uma das pérolas de 
nosso	 ofício,	 afirmar-se	 como	 analista	 significa	 qualquer	 coisa	
menos ser alguma coisa já dada de antemão. Colocar-se como 
analista mais tem a ver com sustentar o não sou, do que sustentar 
um ser pressuposto e carregado de sentidos dados por um Outro. 
128
 CAPÍTULO 4
A FORMAÇÃO DO ANALISTA
Pois minha tese, inaugural ao romper com a prá-
tica a qual pretensas Sociedades fazem da análise 
uma agregação, nem por isso implica que qual-
quer um seja analista. Pois, no que ela enuncia 
que é do analista que se trata, supõe que ele exis-
ta. Autorizar-se não é auto–ri (tuali)zar-se” (LA-
CAN, 1974/2003).
 Em se tratando de um trabalho como este, de minima-
mente orientar os leitores e interessados na Psicanálise sobre 
como as coisas são e funcionam, o que se segue não será uma 
exposição muito minuciosa e detalhada sobre este ponto funda-
mental e tão problemático que perpassa a história da Psicanáli-
se desde seu princípio.
Em um dos primeiros textos psicanalíticos denominado 
Sobre a psicoterapia, Freud (1905/2017) nos chama a atenção para 
o fato de que, alguém despreparado não vai conseguir alcançar 
aquilo que um analista pode alcançar com a Psicanálise. Com-
parando	o	psicanalista	a	um	cirurgião,	afi	rma	que	ninguém	vai	
pedir que um cirurgião inexperiente realize a extirpação de um 
tumor sem saber o que está fazendo. 
Já em 1910, Freud (1910/2017) escreve um texto peque-
no	e	conciso,	mas	magnífi	co,	traduzido	como	Sobre Psicanálise 
selvagem, e ali nos adverte que ninguém se torna analista por 
ter lido algo ou ouvido falar sobre a Psicanálise. Ninguém 
pode se nomear psicanalista a partir de sua própria vontade, 
129
e isso também foi para Lacan	até	o	fim	de	 sua	vida.	Neste	
trabalho Freud (1910/2017) nos dá um pequeno vislumbre de 
alguns motivos do porquê consentiu a criação da Associação 
Psicanalítica Internacional. 
A formação em Psicanálise se iniciou com Freud e al-
guns colegas nas chamadas reuniões de quarta-feira. Somen-
te em 1932 é que houve dentro da IPA o início da formação 
tal qual a conhecemos, institucionalizada. Naquela época, 
as críticas de Reik, Tausk, Ferenczi, eram muito conhecidas 
e pouquíssimas destas críticas chegaram até nós. Enquanto 
Reik criticava 
“A recomendação de seguir a cadeia: análise pes-
soal, estudo da literatura e análise de controle é 
um	esquema	grosseiro	e	insuficiente.	Ficam	mui-
tas dúvidas quanto à melhor maneira de apren-
der a Psicanálise.” (Martinho, 2005)
Tausk, foi mais a fundo, criticando uma suposta criação 
de um grupo religioso comseus rituais e com um certo dog-
matismo e misticismo sobre quem seria analista e sobre o que 
seria	um	fim	de	análise.	
A questão é que desde o início das divulgações dos 
efeitos da Psicanálise haviam médicos que diziam aplicar a 
Psicanálise	em	pacientes	sem	sequer	saberem	afinal	o	que	re-
almente era a Psicanálise, seu método, sua ética e seus obje-
tivos. 
A Psicanálise já estava sendo ofertada em diversas ins-
tituições hospitalares, no entanto, pouquíssimos eram os 
psicanalistas que haviam feito análise ou sequer estavam ao 
lado de Freud neste tempo. O efeito foi que em pouco tempo 
haviam médicos ofertando o tratamento psicanalítico sem re-
almente de fato saber do que se tratava produzindo assim o 
que Freud denominou de “Psicanálise Selvagem”.
130
Freud (1910/2017), somente reconhecia como psicanalis-
ta aqueles que estavam ao seu lado, ou seja, os que estavam de 
fato trabalhando pela causa analítica e não aqueles que leram 
seus textos, ou que escutaram algo a respeito do tratamento e 
faziam tentativas de praticar a Psicanálise. Curiosamente me 
parece muito comum esse ponto com o que vivemos nos dias 
atuais. Quantas e quantas pessoas só são reconhecidas den-
tro das “instituições” que as formaram e em outros institutos 
não passam pelo crivo dos “psicanalistas didatas”? 
Fato é que Freud propôs em sua obra o que seria a con-
dição necessária para a formação do analista. Em nenhum 
momento mudou de ideia a respeito disso. Ocorre que hoje 
em dia, parece que grande parte das instituições tentam ludi-
briar os pobres coitados aspirantes, tentando vender o “me-
lhor e mais completo curso de Psicanálise com direito a car-
teirinha e registro em nosso rol de psicanalistas licenciados”. 
Neste último capítulo, após abordar uma série de tex-
tos que versam sobre a importância do método clínico, não 
poderia	ficar	de	fora	talvez	aquilo	que	devemos	cuidar	com	
mais atenção: o analista de fato, sua formação, seu percurso. 
Em diversas oportunidades reiterei que seguir religio-
samente o tripé, como nos adverte Lacan (1973/2003) em Nota 
Italiana,	não	significa	absolutamente	nada.	Prova	disso	é	que	
diversas instituições que oferecem o tripé trabalham com mo-
delos teóricos extremamente duvidosos, confundem o sujeito 
do inconsciente com o indivíduo, falam de um tratamento 
psicoterapêutico que deva elevar o Eu às suas potencialida-
des, fortalecer o Eu dos pacientes, alcançar a felicidade e o 
autoconhecimento e por aí vai. Isso não quer dizer que o tripé 
não seja a base da formação em Psicanálise, mas que apenas 
dizer que se segue o tripé não necessariamente irá ter como 
fim	a	produção	de	um	analista.
131
A ideia central do tripé para a formação do analista foi 
algo muito discutido dentro da IPA e foi aplicado de forma 
compulsória a quem queria ser analista somente muitos anos 
depois. Segundo Martinho (2005) 
“Em 1948, Balint escreve que a atmosfera das as-
sociações psicanalíticas lembra a das cerimônias 
primitivas de iniciação. Foca este aspecto tribal 
porque observou de perto que os psicanalistas 
didatas tinham um espírito de sociedade secre-
ta, com conhecimentos esotéricos, proclamações 
dogmáticas e técnicas arbitrárias; e que os inicia-
dos aceitavam ritualmente as mesmas fábulas, 
ao mesmo tempo que se submetiam com docili-
dade a um tratamento bastante autoritário.” 
O que estava em jogo não era apenas uma formação de 
analista, mas uma certa política interna da IPA, política esta 
que, anos depois seria duramente criticada por Lacan, mas, 
e	isso	deve	ficar	muito	claro,	Lacan	não	foi	nem	o	primeiro	e	
nem o último a fazer estas críticas, talvez tenha sido o primei-
ro a realmente pagar o preço por sua posição ética. 
Nos dias de hoje em nosso país, algumas instituições 
tendem a se utilizar de um determinado número de sessões 
para que alguém comece a atender na clínica, o que, como já 
vimos até então, fere a ética da Psicanálise e não respeita o 
tempo lógico de cada um em seu percurso. Notem que em-
bora esteja contido no tripé a análise pessoal, dar um tempo 
pré-determinado para um percurso que desde seu princípio 
não estabelece um número ou um prazo, é uma atitude im-
posta de forma arbitrária pelas instituições que, a meu ver, 
mais parece uma tentativa de sustentar os bolsos dos donos 
das instituições do que uma preocupação com a Psicanálise 
e sua ética.
132
Faz-se da análise pessoal, ou ainda, da chamada análi-
se didática mais um ritual do que um tratamento do sujeito 
que,	ao	final,	pode	advir	um	psicanalista,	não	há	garantias	
que isso aconteça. Ou seja, não importa se você assinou um 
contrato com a instituição ou não, o que importa é o que se 
verifica	no	percurso	de	 análise	 e	 não	o	 que	 está	 escrito	no	
certificado.	Dizer	que	o	 tripé	é	a	base	da	formação	do	ana-
lista não deixa de ser verdade, mas de qual análise estamos 
falando? Seria mesmo uma Psicanálise? Seria um tratamento 
do	sujeito?	Seria	possível	verificar	ao	fim	a	produção	de	um	
analista? Questões que raramente são colocadas dentro das 
instituições que dizem “formar” psicanalistas. 
Desde o início de seus trabalhos a questão da formação 
do analista, para Freud, nunca foi tratada de forma tecnicista 
no sentido de modelar o comportamento de alguém para que 
este alguém consiga exercer a Psicanálise. Tampouco a ques-
tão do treinamento entra como possibilidade na formação em 
Psicanálise uma vez que jamais saberemos o que vamos escu-
tar de cada novo paciente que entra por nossa porta.
Em Recomendações ao médico para o tratamento psicanalíti-
co, publicado em 1912, Freud escreveu o seguinte: 
“Considero parte dos muitos méritos da Es-
cola	de	Zurique	o	 fato	de	 ter	 enfatizado	essa	
condição, concretizando-a na exigência de que 
todo aquele que quiser executar uma análise 
dos outros deverá primeiro submeter-se a uma 
análise junto a um especialista. Quem levar a 
tarefa a sério deveria optar por este caminho” 
(FREUD, 1912/2017, p. 100).
Em um de seus últimos textos publicados, A análise fi-
nita e a infinita, Freud(1937) retoma a questão da formação 
do analista sendo um pouco mais taxativo, mas, ainda assim, 
133
mantendo sua posição de forma a não deixar nenhuma dú-
vida. “Onde e como o pobre coitado poderá adquirir aquela 
habilitação	 ideal,	necessária	para	sua	profissão?	A	resposta	
será: na própria análise” (FREUD, 1937/2017, p. 356).
Historicamente falando, temos então, uma instituição 
constituída para zelar pela Psicanálise e sustentar a formação 
que	desde	o	início	se	verificou	como	condição	necessária	para	
que alguém exerça o ofício de analista. No entanto, desde antes 
da criação da IPA até mesmo em 1937, quando a IPA já estava 
fortalecida e com um notável número de psicanalistas, não há 
um só registro na obra de Freud de que o analista seria fruto de 
um curso, ou um tipo de graduação em que alguém entraria e, 
após um determinado período de tempo de curso e de número 
de sessões, a pessoa estaria apta a exercer a Psicanálise. 
O	que	me	chama	a	atenção	é	verificar	em	seus	textos	uma	
coisa que aparentemente era contrária ao que estava instituído 
na única instituição que formava psicanalistas em sua época: a 
Associação Internacional de Psicanálise (IPA). 
Se por um lado Freud, Reik, Lacan, entre outros, aposta-
vam que o analista era produto de uma análise levada até às 
últimas consequências, por outro lado aparentemente havia al-
guns	analistas	que,	como	afirma	Lacan	(1956/1998),	pretendiam	
uma Psicanálise para os que queriam tornarem-se analistas e 
outra para os que não queriam. Aos que pretendiam ser ana-
listas	ficava	reservado	a	análise	didática	no	sentido	de	ensinar	
ao aspirante a aplicar a técnica sobre ele mesmo. Aos outros, a 
Psicanálise como um tipo determinado de psicoterapia que pre-
tendia dar um tratamento ao mal-estar. 
No entanto, para Lacan (1956/1998), toda análise deveria 
ter como objetivo produzir um analista. Para além da terapêuti-
ca sentida pela pessoa, o tratamento ofertado por um analista é 
134para o sujeito, e não para a pessoa. Sujeito esse que se produz no 
dispositivo clínico engendrado por Freud. Aqui cabe a obser-
vação que se trata do sujeito do inconsciente, importante frisar 
esse ponto, pois a Psicanálise não se ocupa de tratar consciente-
mente, através de ferramentas que permitam que o paciente se 
dê conta de um suposto “inconsciente” como se fosse possível 
algo assim, como um inconsciente individual. 
Retomo Freud (1910/2017) em Sobre Psicanálise selvagem 
quando	ele	afirma	com	todas	as	letras	que,	apenas	trazer	para	a	
consciência os aspectos supostamente patológicos não resolve o 
problema, ao contrário, o efeito tende sempre a ser experimen-
tado no a posteriori. “Tende a ser no a posteriori”,	não	significa	
que sempre será desse jeito.
Podemos pensar que essa questão do analista mesmo, da 
passagem de analisante para analista, da formação do analista 
propriamente dita, não é algo que possamos determinar “pron-
to, agora sou analista”. Em suma, uma análise dita didática não 
produz um analista no sentido de um determinado treinamento 
realizado pelo analisante na presença do analista, como em um 
laboratório ou em uma fábrica em que o divã seria a linha de 
produção. Entra-se na fábrica como gente e sai dela como ana-
lista, seria muito mais fácil se fosse assim.
Segundo Lacan (1967/2003) “O término da Psicanálise 
superfluamente	didática	é,	com	efeito,	a	passagem	do	psicana-
lisante a psicanalista” (Lacan, 1967/2003, p. 257). Então, temos 
que a análise e tão somente a análise pessoal, é aquilo que pro-
duz um analista. Esse ponto dado como certo, desde os primei-
ros textos de Freud, temos um novo problema, a saber: o que é 
o psicanalista.
Lacan (1967/2003), nos ensina que o analista é aquilo que 
resta de uma análise após ver soçobrar diante de si todas as 
135
suas	certezas.	É	antes	de	mais	nada	um	significante	que	se	co-
loca	em	relação	a	outro	significante,	para	que	o	sujeito	apareça	
como efeito e, através disso, seja possível um tratamento. Por 
isso insisti nos capítulos anteriores em retomar a questão da 
linguagem, da fala e do percurso de análise a partir do tempo 
lógico tendo o inconsciente estruturado como uma linguagem. 
A	teoria	nos	ajuda	a	verificar	o	que	se	produziu	em	análise	mas,	
também, a teoria não dá conta de dizer tudo.
Analista	 como	produto,	 como	 significante,	 como	 aquilo	
que	se	pretende	enquanto	fim	de	uma	análise,	mas	que,	mesmo	
depois desta passagem, é preciso ainda mais. Um analista não 
existe e não se sustenta sozinho. A Psicanálise, e digo isso sem 
vergonha alguma, não pode ser solitária. Aprendi em um cartel 
com Josiane Orvatich que não há solipsismo em nosso campo, e 
que belo isso. Se temos em conta que sua ética pressupõe mais 
de um corpo, de encontros, de sessões, o outro está sempre aí. 
Aquele que pretende se ocupar de exercer o ofício de analista 
não pode simplesmente se dar como pronto após a análise pes-
soal. Em outras palavras, é isso que gosto muito nas escolas de 
orientação lacaniana, o analista não é um título, nem um mérito, 
nem um ser, mas antes, algo da ordem de uma função para que 
o dispositivo funcione. 
Partindo deste pressuposto a formação teórica e continu-
ada, o laço com outros analistas, o reconhecimento e também à 
afiliação	a	uma	escola,	a	um	cartel,	que	é	um	dos	mais	impor-
tantes dispositivos na formação proposto por Lacan, à supervi-
são, os congressos, aos grupos, aos seminários, às pós-gradua-
ções, tudo pode ser utilizado para que o analista se sirva desse 
conhecimento adquirido para sustentar sua prática. 
A princípio o analista é aquilo que se produz em análise. 
Depois, ou durante a análise, ou até mesmo antes, podemos ir 
136
nos formando com o corpo teórico que irá sustentar nossa práti-
ca. Agora, enquanto não conseguirmos nos sustentar enquanto 
um	significante	qualquer,	de	nada	vale	a	teoria.
Lacan estava muito atento a esta questão de que a teoria 
sustenta nossa prática, quando escreveu em 1956: 
“Pois,	se	pudermos	definir	ironicamente	a	Psica-
nálise como o tratamento que se espera de um 
psicanalista, é justamente a primeira, no entanto, 
que decide sobre a qualidade do segundo” (LA-
CAN, 1956/1998, p. 462). 
Vemos claramente que, embora o analista seja efeito da 
análise, ele depende de uma teoria que oriente o tratamento.
Longe de esgotar a temática, pretendi com esse capítulo 
final	apresentar	o	mínimo	necessário	para	que	o	leitor	possa	
se orientar quando houver o desejo de se colocar para exercer 
esta função. Encerro aqui este percurso na esperança de dei-
xar um gostinho de quero mais para as próximas publicações 
e para outros autores. 
137
138
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Paulo Roberto Ceccarelli*
Há alguns anos [Conferência 3 - apresentada em 1909 
na Clark University], dei como resposta à pergunta de como 
alguém pode se tornar analista: ‘Pela análise dos próprios 
sonhos’.	Esta	preparação,	 fora	de	dúvida,	 é	 suficiente	para	
muitas pessoas, mas não para todos que desejam aprender 
análise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus 
próprios sonhos sem auxílio externo (FREUD, 1912/1969, p. 
155).
Escrever	as	considerações	finais	sobre	o	livro	de	Marco	
Correa Leite— Os primeiros passos da clínica — é uma em-
preitada difícil, pois, em certa medida, todo analista está nos 
primeiros	passos.	Além	disso,	uma	das	reflexões	centrais	de	
Freud, citada direta e indiretamente ao longo do livro, diz 
respeito ao analista ter sempre presente no horizonte a máxi-
ma segundo a qual cada análise deve ser entendida, em sua 
particularidade, como se fosse a primeira. 
Já no primeiro parágrafo, apoiado em uma citação de 
Freud de 1905, o autor lança a dimensão de sua empreitada: 
“a Psicanálise é um procedimento de cura para aqueles que 
não	encontraram,	em	outros	tratamentos,	um	alívio	signifi-
cativo para seus sofrimentos”. Citação de peso e que dá sen-
tido — tanto como uma direção quanto como propósito — à 
escrita que se segue. 
Como Freud (1913) em Sobre o início do tratamento, o au-
tor deixa claro que o que escreve não são regras, mas, antes, 
139
recomendações para os que estão começando a prática ana-
lítica; recomendações sobre os primeiros passos da clínica. 
O que existe é a regra fundamental, isto é, a associação livre 
de ideias que, sabemos, não é em nada livre. O que a coman-
da são as leis de um processo — o primário — que fogem a 
qualquer apreensão direta, pois sujeitas às regras de uma di-
mensão psíquica que o sujeito desconhece, e sentidas, muitas 
vezes, como algo estranho (Unheimlich). Quanto ao analista, 
cabe-lhe	apenas	exercer	a	atenção	flutuante,	sustentada	por	
aquilo	que	Piera	Aulagnier	chama	de	“teorização	flutuante”,	
voltando 
“seu próprio inconsciente, como um órgão re-
ceptor, na direção do inconsciente transmissor 
do paciente” [e] “a partir dos derivados do in-
consciente que lhe são comunicados, recons-
truir o inconsciente, que determinou as associa-
ções livres do paciente” (Freud, 1912, p. 154).
O autor explora aquilo que a resposta de Freud, citada em 
epígrafe, condensa: só é possível analisar seus próprios sonhos 
através de uma análise pessoal; e a análise dos sonhos, via régia 
para o inconsciente (FREUD, 1900), condensa a metapsicologia, 
conferindo ao sonho o estatuto de analisável, e dando-lhe signi-
ficação (Deutung). É neste sentido que podemos dizer que toda 
análise, assim como toda formação, é interminável.
Posto que ser analista é fazer de sua subjetividade obje-
to de investigação, a análise dos sonhos permite este contato: a 
partir da alteridade interna que surpreende e interpela o sujeito 
gerando angústia, um campo de fala em busca de sentido em si 
próprio e no outro é aberto. Ademais, a análise pessoal leva o 
sujeito, futuro analista, tanto a sentir na própria pele a potência 
da teoria, quando reconhecê-la em seus analisandos. 
140
Outro	ponto	importante,	diz	respeito	à	ineficácia	de	toda	
e qualquer forma de ingerência externa na tentativa de regular 
o processo de formação;não é o mesmo 
que dizer que todos os pacientes devem recuar no mesmo ponto 
ou que todas as análises devem fracassar no mesmo momento. É 
necessário respeitar o tempo, o percurso, as possibilidades e os 
limites	de	cada	um,	afinal,	a	Psicanálise	é	a	clínica	do	um	a	um.
No tratamento psicanalítico, a singularidade é um fator 
de extrema importância, tudo aquilo que um paciente diz deve 
17
ser escutado na sua particularidade, no caso a caso, sempre 
atentando que a fala está sendo dita e dirigida a um analista 
pela primeira vez e que muitos pacientes usam as mesmas pa-
lavras para dizer a mesma coisa, ainda assim, nota-se que há 
algo de diferente ali. Tenhamos como exemplo o pensamento de 
que existem Psicanálises e Psicanálises. Neste exemplo, mesmo 
que	esteja	nomeando	uma	prática	qualquer	de	Psicanálise,	fica	
evidente que não estou falando da mesma coisa. Coisas dife-
rentes que insistem, na maioria das vezes, de serem ditas da 
mesma forma. Ou ainda, a mesma coisa que se repete em outros 
dizeres. O analista deve estar atento a esses movimentos que o 
léxico nos possibilita.
Freud, em seus artigos sobre a técnica, recomendava a to-
dos os analistas que tomassem cada paciente como o primeiro, 
se esquecendo de tudo aquilo que já viveu, tudo aquilo que já 
ouviu, tudo aquilo que sabe de antemão de um paciente. Isso 
é importante porque na medida em que o analista supõe saber 
qualquer coisa sobre o paciente, ele estará fazendo outra coisa e 
não Psicanálise. 
Podemos tomar por exemplo a questão da empatia. Al-
gumas	 pessoas	 afirmam	 que	 o	 comportamento	 de	 empatia	 é	
importante para o terapeuta, mas na Psicanálise isso é contra o 
método psicanalítico pois, quando me coloco no lugar do outro, 
estou me colocando como o quê? Como objeto a ser endereçado 
uma fala e, posteriormente uma demanda de cura, ou como su-
jeito a ser analisado? Segundo Freud em “Recomendações aos 
médicos...”:
“Certamente é tentador para o jovem e ambicioso 
analista o fato de investir muito da própria indi-
vidualidade para levar o paciente consigo e içá-
-lo, com esse impulso, por sobre as barreiras de 
sua personalidade. Devíamos crer ser totalmente 
18
aceitável e até útil para superar as resistências 
existentes no doente quando o médico lhe ofere-
ce uma visão de seus próprios defeitos psíquicos 
e	 conflitos,	 possibilitando	 a	 ele	 uma	 igualdade	
de posições quando lhe dá informações sigilosas 
de sua vida” (Freud, 1912 p. 101).
Ora, a análise deve ser feita a partir do discurso que se 
produz na relação de um que fala a outro que se coloca no lugar 
de objeto. Esse pequeno esquema, quando aplicamos na relação 
transferencial nos dá a oportunidade de analisar a transferência 
mesmo, ou seja, aquilo que se produz e que tem como efeito a 
possibilidade da reedição do que faz o paciente sofrer. Neste 
sentido, o analista não está ali como igual, mas como aquilo que 
possibilita que uma análise aconteça.
O analista faz mais função de caixa de ressonância, no 
sentido de que ele escuta alguma coisa e aquilo reverbera nele 
e volta para o paciente, do que dizer o que ele pensa, o que ele 
sabe e o que ele acha. Essa é uma diferença no campo da Psica-
nálise para todos os outros modelos psicoterapêuticos que te-
mos à nossa disposição. A linha de raciocínio em outras práticas 
terapêuticas costuma ser a seguinte: conforme vai escutando o 
paciente, já vai pensando no diagnóstico, no prognóstico, nas 
possibilidades de tratamento. No campo da Psicanálise escu-
tamos os pacientes com a atenção voltada àquilo que eles estão 
tentando dizer e toda a história construída a partir da narrati-
va se desfaz com um lapso, um ato falho, um chiste. Segundo 
Freud (1912), nem sequer devemos tomar anotações ou então 
tentar guardar na memória aquilo que foi dito durante as ses-
sões, devemos estar atentos ao aqui e ao agora. O método psi-
canalítico consiste em nos atentarmos para aquilo que se pro-
duz em transferência, na forma de uma escrita a ser lida pelo 
analisante. Podemos ainda dizer que, quando muito, o analista 
19
ensina o paciente a ler o que o inconsciente, como um escriba, 
escreve com palavras, chistes, silêncios, tons de voz, etc.. 
Seguindo no campo da singularidade, do caso a caso, ten-
tamos fazer com que este que nos chega à clínica, desde o pri-
meiro momento, se interesse pela sua história, compreendendo 
que aquilo que ele sabe sobre sua própria história é tão somente 
um vislumbre de algo muito maior, que ele ignora, e que, de 
alguma maneira, pode fazê-lo feliz, mas também pode fazê-lo 
sofrer. A história que ouvimos na clínica é sempre uma narra-
tiva permeável pelo acontecimento presente. Cabe ao analista, 
ao escutar, apontar para que o paciente diga o que do passado 
está no presente e o que do presente ele coloca no passado. O 
que quero dizer é que tanto o presente, o passado e o futuro são 
atualizados na fala do paciente, no aqui e no agora. A história 
que ouvimos está sempre em construção, nunca vem pronta, 
nunca está terminada. Neste sentido, enquanto analistas, “não 
oferecemos nunca a cura, mas um espaço de escuta, escuta de si 
mesmo sem o julgamento de um Outro”. (LEITE, 2022)
As		Primeiras	Sessões
 
Quando um paciente procura um tratamento, será que já 
não tem alguma coisa ali para além de um sofrimento, que de 
alguma	maneira	faça	com	que	ele	pense	que	esse	profissional	
vai resolver o seu problema, vai resolver a sua vida?
O analista tem que tomar muito cuidado, por que se quer 
de fato que seja possível um trabalho, a primeira coisa que se 
tem a fazer é sair deste lugar e para sair deste lugar é preciso, 
antes, ocupá-lo. 
Freud perguntava, questionava, colocava as coisas nos 
seus devidos lugares com seus pacientes e, Lacan, da mesma 
20
forma, questionava, interrogava, apontava. De alguma maneira 
temos o dever de elevar a fala à dignidade que ela merece, o 
paciente deve entender que o que ele diz nunca é sem senti-
do, sem direção, mas que essa direção segue um destino dado
a priori e, o analista, vai intervir para que se chegue a um outro 
lugar, para que perceba que naquilo que ele diz há algo a mais, 
não oculto, mas de uma ou muitas possibilidades. A questão é 
que o analista ao perguntar sobre a vida do paciente deve ser no 
intuito de revelar a divisão subjetiva, não por mera curiosidade 
e para puxar assunto, como faríamos em uma roda de amigos 
ou em uma mesa de bar.
Essas questões que levantamos para que o paciente res-
ponda, em um primeiro momento da análise, que chamaremos 
teoricamente de entrevistas preliminares, tendem a revelar uma 
maneira de ser em relação ao outro, ao mundo, uma manei-
ra muito peculiar de ocupar um lugar que, ao mesmo tempo 
que supostamente “garante” imaginariamente o amor do ou-
tro, causa sofrimento. Em suma, pretendemos com as questões 
verifi	car	se	aquele	paciente	padece	de	algo	da	ordem	de	uma	
determinação inconsciente. A determinação inconsciente é algo 
muito simples, na realidade é quando nos damos conta de que 
qualquer coisa que a gente faça em nossas vidas tendem a um 
mesmo resultado. É como se o destino já estivesse traçado, inde-
pendente dos caminhos que a gente procure. Podemos pensar 
com Freud (1930) quando cita seu passeio por uma cidade e que 
independente do caminho que ele pegasse sempre caía no lugar 
que ele, conscientemente, pretendia evitar. 
Segundo Eidelsztein se você já tentou to-
das as maneiras terapêuticas, já tentou com a 
vontade, com o fortalecimento do ego, fazen-
do treinamento, fazendo recomendações, leu 
21
livro de autoajuda, e mesmo assim não encontrou um mínimo 
de alívio para seu sofrimento, talvez seja interessante consultar 
um analista pois, pode ser que este mal-estar seja efeito de uma 
determinação inconsciente. Durante as primeiras sessões, pre-
tendemos enquanto analistas, fazer com que o paciente perceba 
que a vontade fracassa, ou seja, que ele não é determinado por 
sua vontade nem por sua força de vontade, nem por sua fé, mas 
que tem algo quecomo se fosse possível, a priori, ditar 
regras e determinar as condutas e as diretrizes de como este 
processo deva ocorrer: cada análise tem sua própria trajetória, 
pois é a transferência, sustentada pelo desejo da dupla analista/
analisando, que permite que o processo se desenrole e as resis-
tências sejam superadas. Ainda que, sem dúvida, as instituições 
psicanalíticas sejam unânimes quanto à pertinência do tripé 
proposto por Freud em 1919, e cuja importância foi sublinhada 
por Lacan (1966/1998), isto é, a análise pessoal, estudo da teoria 
e supervisão, ou controle clínico, não há como garantir, e menos 
ainda, regulamentar, subjetividades e desejos.
Cada instituição tem um modelo diferente sobre como 
este tripé deve ocorrer, o que não pode ser separado do discur-
so de poder e da ideologia, que sustenta a instituição, e tam-
pouco entendido fora do sistema de valores, ideais, materiais e 
econômicos, que subjaz o ideário da instituição. Tudo isso pode 
provocar,	via	transferência,	a	infiltração	de	um	imaginário	que	
transforma as discussões sobre a formação em um diálogo sem 
fim,	levando	a	um	comprometimento	do	processo	analítico.
Marco Leite aborda, sem rodeios, um dos eixos centrais da 
formação: a supervisão que, justamente, permite ao futuro ana-
lista, situar-se na intersecção entre a análise pessoal e o eixo teó-
rico. A atividade supervisionada, chamada em francês de analy-
se de contrôle (análise de controle), permite o estabelecimento de 
um diálogo com outro analista no qual os ruídos que impedem 
uma escuta limpa – quiçá as resistências do próprio analista? 
– sejam desbloqueados e a escuta ampliada: “nenhum psicana-
lista avança além do quanto permitem seus próprios complexos 
e resistências internas” (FREUD, 1910, p. 150). Ou seja, a escuta 
141
do analista só vai até onde sua própria análise o levou. O analis-
ta procura supervisão como uma forma de cuidar de seu atendi-
mento: a primeira supervisão foi a de Breuer/Freud.
O trabalho do autor é altamente enriquecido através de ci-
tações	clínicas	que	exemplificam	suas	premissas.	Isso	traz	uma	
intimidade agradável à leitura do texto, além de mostrar que o 
sujeito que o analista trabalha, é o do inconsciente e não aquele 
que está ali à sua frente. Discute-se importantes considerações 
tanto sobre o falar do analista, quanto o seu silêncio, assim como 
as particularidades inerentes à análise freudiana e a lacaniana. 
As	considerações	finais	de	Marco	Leite	sobre	a	formação	
do analista fecham o livro de forma exemplar. Quando levamos 
em conta que o inconsciente produz formações (Lacan, 1957), a 
formação de analista traduz um projeto ético pessoal (só o psica-
nalista se autoriza) que, longe de ser técnico passa pela metabo-
lização, via transferência, de questões teórico-clinicas, levando 
a uma experiência do sujeito com seu próprio inconsciente, ou 
seja, com o modo como ele encarna a sua função. Transladar-se 
do divã e para a poltrona é bem próximo da travessia do fantas-
ma, fazendo com que a intervenção institucional neste percurso 
seja problemática. 
A formação do analista passa pelo reconhecimento do 
grupo: é o lugar de desejo e o reconhecimento pelo grupo, que 
sustenta	a	sua	formação.	Trata-se	da	célebre	afirmação	segundo	
a qual o analista só se autoriza de si mesmo: 
“aquilo que ele tem de cuidar é que, a autori-
zar-se por si mesmo, haja apenas o analista (...) 
Somente o analista, ou seja, não qualquer um, 
autoriza-se apenas por si mesmo” (LACAN, 
2003, p. 314). 
Porém, autorizar-se a si mesmo é, para além de um ato, 
142
ter	o	reconhecimento	de	alguém	e/ou	pela	sociedade	de	fi	liação	
do analista. 
A transferência de trabalho, que a ideia lacaniana do car-
tel propõe, representa o lugar apropriado de acolhimento dessa 
transferência, mas, igualmente, a unidade de base de um modo 
de organização social. 
Ocupar o lugar do “objeto a” é sustentar um enigma, con-
duzindo o analisando a responder questões fundamentais sobre 
a constituição de sua subjetividade. 
A análise leva a uma transformação experimentada, pelo 
sujeito,	 como	 uma	 ressignifi	cação	 subjetiva.	Opera-se	 um	 sa-
ber: “wo es war, soll ich werden. (Onde era Isso, Eu apareço” )
Freud, 1933
*Psicólogo; Psicanalista; Doutor em Psicopatologia fundamental e Psica-
nálise – Universidade de Paris 7 – Diderot; Pós-doutor – Universidade de 
Paris 7; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia 
Fundamental; Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG); Sócio 
Fundador do Círculo Psicanalítico do Pará (CPPA); Membro da Société de 
Psychanalyse Freudienne – Paris, França; Professor e orientador de pesquisas 
na Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Professor e orientador de pesquisas 
do Mestrado de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência/MP, da Facul-
dade de Medicina da UFMG; Membro do Corpo Docente do Contemporâneo: 
Instituto de Psicanálise e Transdisciplinaridade – POA, RS; Professor na pós 
em Psicanálise do Hospital Santa Catarina, Blumenau, SC. Coordenador e 
professor da pós em Sexualidade Humana, da Fac. Santa Casa, BH; Pesquisa-
dor Associado do LIPIS (PUC-RJ). Membro do Programa Antártico Brasileiro. 
Diretor	científi	co	da	Clínica	Ampliada	de	Saúde	Mental.	(CASM:	htt	ps://casm.
bhz.br). Coordenador do Instituto Mineiro de Sexualidade (IMSEX: www.
imsex.com.br).
143
Referências	Bibliográficas
ALMEIDA, Wilson Castello de. Elogio a Jacques Lacan (recur-
so eletrônico). São Paulo: Summus, 2017. Formato: e-pub
DUNKER. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica. 
Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamen-
to. pp.456-457
FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável. Tradução 
sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 23, pp. 247-290). 
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psica-
nálise (1912). ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XII. 
FREUD, Sigmund. (1905[1904]). Sobre psicoterapia. In: FREUD, 
Sigmund. Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamen-
tos da Clínica Psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 
2017, pp. 63-79.
FREUD, Sigmund. (1905[1904]). Sobre psicoterapia. In: FREUD, 
Sigmund. Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamen-
tos da Clínica Psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 
2017, p. 71.
FREUD, Sigmund. (1910). Sobre Psicanálise selvagem. In: 
FREUD, Sigmund. Obras Incompletas de Sigmund Freud: 
Fundamentos da Clínica Psicanalítica. Belo Horizonte: Autên-
tica Editora, 2017, pp. 81-91.
FREUD, Sigmund. (1912). Recomendações ao médico para o 
tratamento psicanalítico. In: FREUD, Sigmund. Obras Incom-
pletas de Sigmund Freud: Fundamentos da Clínica Psicanalí-
144
tica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017, pp. 93-106.
FREUD,	Sigmund.	(1937).	A	análise	finita	e	infinita.	In:	FREUD,	
Sigmund. Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamen-
tos da Clínica Psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 
2017, pp. 315-364.
FREUD,	Sigmund.	(1937).	A	análise	finita	e	infinita.	In:	FREUD,	
Sigmund. Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamen-
tos da Clínica Psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 
2017, pp. 315-364.
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias sobre a psicaná-
lise. Rio de Janeiro: Imago, 1916b/2016. In: FREUD, Sigmund. 
Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sig-
mund Freud, v. XVI. p. 15
FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento. 1913. pp. 121-
122
http://www.acfportugal.com/index.php/textos/textos-de-orien-
tacao/140-sobre-a-formacao-dos-psicanalistas
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28574009/
https://www.amazon.com.br/Como-ler-Lacan-Slavoj-Zizek/
dp/8537802433
https://www.amazon.com.br/Psicanalise-Lacaniana-Marcio-Pe-
ter-Souza/dp/8573211180
LACAN, J. (1985a). Seminário 20, Mais, ainda. (Magno, M.D., 
Trad.).	Rio	de	Janeiro:	Jorge	Zahar	Ed.	(Original	pub.	em	1975).
LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicana-lista da Escola. In: Outros Escritos.	Rio	de	Janeiro:	Jorge	Zahar	
145
Ed., 2003, p. 259.
LACAN, J. A verdade surge da equivocação. In: O Seminário, 
livro 1: Os Escritos Técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janei-
ro:	Jorge	Zahar,	1986,	p.	309.
LACAN, J. Nota Italiana. Outros Escritos.	Rio	de	Janeiro:	Zahar,	
2003, pp. 311-31
LACAN, J. Situação da psicanálise e formação do psicanalista 
em 1956. In: Escritos. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jor-
ge	Zahar	Editor,	1998.
LACAN, Jacques, 1901-1981. Escritos. Tradução: Vera Ribeiro. 
Rio	de	Janeiro:	Jorge	Zahar	Ed.,	1998,	p.	131
LACAN, Jacques. (1956). Situação da Psicanálise e formação do 
psicanalista em 1956. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Ja-
neiro:	Jorge	Zahar,	1998,	p.	109.
LACAN, Jacques. (1956). Situação da Psicanálise e formação do 
psicanalista em 1956. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Ja-
neiro:	Jorge	Zahar,	1998,	p.	462.
LACAN, Jacques. (1956). Situação da Psicanálise e formação do 
psicanalista em 1956. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Ja-
neiro:	Jorge	Zahar,	1998,	pp.	461-495.
LACAN, Jacques. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 
sobre o psicanalista da Escola. In: LACAN, Jacques. Outros Es-
critos. Rio	de	Janeiro:	Jorge	Zahar,	2003,	pp.	248-264.
LACAN, Jacques. (1973). Nota Italiana. In: LACAN, Jacques. 
Outros Escritos.	Rio	de	Janeiro:	Jorge	Zahar,	2003,	pp.	50-53.
LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge	Zahar	
Ed. 2003, pp. 311-315
146
LACAN, Jacques. Seminário 11. Os quatro conceitos funda-
mentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Aiain 
Miller.	3.	ed.	Rio	de	Janeiro:	Jorge	Zahar.
LACAN, Jacques. Seminário 19. O saber do psicanalista. (1971-
72). pp. 27-30.
LACAN, Jacques. Seminário 20.	Rio	de	Janeiro:	Zahar	editores,	
1985. p. 25
LAIA, S., & AGUIAR, A. A. (2017). Enigma, objetivação e di-
luição da loucura. In A. Teixeira, & H. Caldas (Orgs.). Psicopa-
tologia lacaniana I: semiologia. Belo Horizonte: Autêntica, pp. 
27-30
LEITE, Marco Correa. Psicanálise nas redes. Bom Despacho: 
Literatura em Cena, 2021.
Livro	Zero. Revista de Psicanálise. RSI na clínica e no social 
/ Fórum do Campo Lacaniano em São Paulo/Escola de Psica-
nálise do Campo Lacaniano. Nº 11 (2020). São Paulo: FCL-SP: 
EPCL-SP, 2020
MARTINHO, José. (2005), Ditos III, Conferências Psicanalíti-
cas. Lisboa: Fim de Século.
MAURANO, D. Um estranho no ninho ou a psicanálise na uni-
versidade. In: JORGE M. A. C. (org). Lacan e a formação do psi-
canalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006.
PEREZ,	 Daniel	 Omar. O inconsciente: onde mora o desejo. 
2018. p. 187.
Temas contemporâneos em Psicologia: ensino, ciências e pro-
fissão. Vol. 2 (livro eletrônico). Organização João Roberto de 
Sousa-Silva. 1.ed. Curitiba: Bagai, 2022, p. 89. E-book
147
VEGH, Isidoro. O discurso e a cura. Companhia de Freud. 2001. 
pp. 142-146
148o causa, que o determina e que escapa das 
suas forças, escapa entre os dedos. Lacan (1957) em A Psicanálise 
e seu ensino nos aponta que 
“No inconsciente, que é menos profundo do 
que inacessível para o aprofundamento cons-
ciente, isso fala: um sujeito no sujeito, trans-
cendente ao sujeito...” (p. 438)
Em outras palavras, nós podemos dizer que essas primei-
ras sessões são extremamente importantes para que possamos 
identificar	se	isso do qual o paciente se queixa é da ordem de 
uma determinação inconsciente ou de outra coisa. Basta que se 
entenda que uma análise é impossível se o problema não é de 
determinação inconsciente, se o problema é orgânico, se o pro-
blema	é	moral,	por	exemplo.	Afinal	de	contas,	 se	o	problema	
for falta de algum hormônio como cortisol ou testosterona no 
corpo, podemos perder tempo e prestígio insistindo em um tra-
tamento	que	não	terá	qualquer	eficácia,	pois	o	paciente	precisa	
de um médico e não de um psicanalista. 
Muitas vezes os analistas mais jovens acabam por con-
fundirem a questão da demanda de análise com uma outra 
demanda qualquer. A rigor, ninguém chega a um analista com 
uma demanda de análise, ninguém sabe que vai dar uma análi-
se, nem mesmo o analista sabe se aquele paciente vai tornar-se 
analisante ou não.
22
O que chega ao consultório, geralmente são pessoas que 
querem	dar	fim	a	um	e,	em	alguns	casos,	a	vários	problemas	
que causam sofrimento. A demanda aqui é uma demanda pelo 
alívio de um sofrimento. Mas, o que é uma demanda? 
No português a palavra demanda tem alguns sentidos 
possíveis. Trabalhar com a teoria psicanalítica é trabalhar lado a 
lado	com	o	dicionário.	Demanda	significa	um	pedido,	uma	exi-
gência, uma solicitação. Também tem o caráter de manifestação 
de um desejo. Ocorre que o desejo, no senso comum, não é o 
mesmo	que	o	desejo	para	a	Psicanálise.	Podemos	então	afirmar	
que os pacientes, ao procurarem a clínica, não demandam uma 
análise, mas solicitam um tratamento, nos fazem um pedido de 
ajuda e, por conseguinte, exigem de nós algum resultado. Deve-
mos cuidar muito bem para saber se o que nos pedem é ou não 
possível – ainda que não haja garantias – de ser alcançado com 
um tratamento psicanalítico.
Colocarei a questão da demanda e da oferta por duas vias. 
Primeiro, vamos tentar compreender um pouco do que os pa-
cientes demandam ao analista, depois veremos o que oferta o 
analista no sentido do que seria o objetivo de uma análise.
O que nos pedem os pacientes que nos procuram? Seria 
em vão tentar resumir as queixas apresentadas nas primeiras 
sessões como se pudessem ser categorizadas. Pegarei como 
exemplo o tratamento da depressão. Dentro do DSM-V (Ma-
nual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais) temos, 
segundo Dunker (2021), onze tipos diferentes de depressões 
categorizadas e que podem facilmente enquadrar qualquer pa-
ciente e até nós mesmos, dentro de um desses tipos.
Em seu livro, Dunker (2021) não apenas faz uma crítica, 
mas aponta para o que tem se apresentado como uma modalida-
de diagnóstica que se não fosse trágica, seria certamente cômica.
23
Ninguém, repito, ninguém escapa de algum enquadre 
quando	se	lê	com	atenção	o	DSM-V.	O	que	verificamos	no	dia	a	
dia de nossa experiência é que um paciente diagnosticado com 
depressão nunca vai se localizar, se dizer, se apresentar da mes-
ma forma que um segundo que chega com o mesmo diagnósti-
co. Por mais que os fenômenos descritos possam ser semelhan-
tes, a relação do paciente com o sintoma toca também em sua 
história de vida, produzindo algo totalmente singular e único. É 
a este singular que nos atentaremos no decorrer das entrevistas 
preliminares e da análise propriamente dita. Embora possa ter 
alguns (não é necessário preencher todos os requisitos) sintomas 
parecidos com outros pacientes, estamos diante de uma pessoa, 
de alguém vivo, e este alguém não é resumível a uma condição. 
Portanto, todos os pacientes que recebemos na clínica com 
esse diagnóstico querem a mesma coisa? Não. E isso não é uma 
constatação de que o diagnóstico é falho, mas que o tratamento 
não deve seguir a ideia de retirar o paciente da condição de de-
pressivo. Sair ou não desta condição, deste lugar, será efeito do 
tratamento e não o objetivo principal de um tratamento analíti-
co. Ocorre que o paciente pode não saber disso. 
Para	 simplificar	 as	 coisas,	 imaginemos	 a	 seguinte	 situ-
ação	que	 talvez	 simplifique	as	 coisas.	Um	paciente	 com	cárie	
que	procura	um	dentista	com	uma	demanda	muito	específica	
de “pelo amor de tudo o que é mais sagrado arranca fora o que 
for preciso para que a dor passe”, será o dentista que irá avaliar 
o objetivo do tratamento. Talvez apenas uma obturação já dê 
conta de sanar o problema do paciente, mas, às vezes, é preciso 
fazer um tratamento de canal. Dentista e paciente teriam então 
objetivos distintos e nem por isso um objetivo anula o outro. 
Fato	 é	 que	 será	 o	dentista	 que,	 com	 seu	 saber,	 irá	 verificar	 o	
provável problema após examinar o paciente. O diagnóstico 
24
não é prévio ao exame, ao encontro. E ainda mais, dependendo 
das ferramentas que o dentista tiver, o diagnóstico poderá ser 
equivocado e a dor, por mais que em um primeiro momento 
passe, pode tornar-se ainda pior em um momento posterior. 
Chamo	a	atenção	para	este	ponto.	O	profissional	tem	um	saber	
que opera concomitante com o que o paciente relata que sente, 
mas será em conjunto, com os procedimentos de investigação, 
que as hipóteses diagnósticas vão sendo testadas e, uma após 
uma, vão sendo refutadas até encontrar o verdadeiro problema 
a ser tratado. 
Quero deixar claro que o que descrevi no parágrafo an-
terior	 se	 trata	de	um	recurso	para	exemplificar	 certas	 coisas	 e	
que, por isso mesmo, pode conter equívocos no caso de um trata-
mento dentário, porém necessário para introduzir de forma mais 
prática os conceitos a seguir. No caso de um tratamento psica-
nalítico, Freud (1905) já nos orientava para o fato de que a Psi-
canálise “foi criada a partir de e para doentes com incapacidade 
duradoura de viver, e o seu triunfo é que torna um número sa-
tisfatório deles capazes de viverem a sua existência...” (p. 71). Se 
pelo lado dos pacientes temos que uma queixa pode ser acolhida 
em um primeiro momento, não necessariamente ela será tratável 
com nossas ferramentas. É preciso ainda um pouco mais. Freud 
(1913) em Sobre o início do tratamento nos recomenda que, ao re-
ceber o paciente em nosso consultório, façamos um tipo de “te-
rapia	de	teste”,	um	período	probatório	onde	iremos	verificar	se	
aquelas queixas são mesmo tratáveis ou não com a Psicanálise.
Voltando à questão da depressão, devemos levar em con-
ta que o luto de um emprego, de uma pessoa querida, de uma 
posição social ou como efeito de uma experiência traumática 
pode desencadear uma sintomatologia que, se não for bem ob-
servada,	o	profissional	da	saúde	incorrerá	no	erro	de	diagnosti-
25
car como depressão e iniciar um tratamento que, talvez, com a 
indicação de um novo trabalho ou com o encontro de um novo 
amor tudo já estaria resolvido. Entretanto, as coisas não são tão 
simples assim e, mesmo nesses casos, há benefícios neste perí-
odo anterior à análise, propriamente dita. Estes primeiros mo-
mentos é a fase de conhecer o paciente, de investigar o histórico 
da queixa, de questionar sobre sua vida de uma forma geral, de 
saber sobre o uso de medicações que podem confundir, (isso é 
um tanto quanto comum nos dias de hoje) simulando sintomas, 
ou seja, é um tempo para que o paciente se dê conta de que sua 
vida importa. 
Essa terapia de teste ou, melhor dizendo, as entrevistas 
preliminares	ao	tratamento	não	servem	apenas	para	fins	diag-
nósticos, mas, antes, servem para o estabelecimento de uma 
transferência a partir da criação de uma demanda de análi-
se. Freud (1913) e Lacan (1958) em relação à direção do trata-
mento nos atentam para o fato de que devemos nos utilizar 
das mais variadas estratégias para que o analisante continue 
falando,para que a associação livre de ideias se produza e 
dessa	 forma	 seja	 possível	 verificar	 se	 há	 ou	 não	 outra	 cena	
que determine as escolhas, a vida e o sofrimento do qual o 
paciente se queixa. 
É muito comum acontecer que alguns pacientes resolvam 
em pouquíssimo tempo algum problema pontual que tragam 
como queixa. Isso pode fazer com que o tratamento nem come-
ce e eles vão embora mas também pode apontar alguma coisa 
que aparece, quase que como consequência da dissolução da-
quele problema pontual. 
Voltando ao exemplo da depressão, pode ser que uma das 
queixas do paciente seja então que ele não saia da cama, não 
tome banho, não coma, não consiga trabalhar e que, depois de 
26
um curto período de tempo, ainda nas entrevistas preliminares, 
ele comece a fazer tudo isso e se dê conta que algo insiste. Resol-
ver a queixa não é o mesmo que resolver o problema. Tirar a dor 
não é tirar a cárie, usando a analogia com o tratamento dentário. 
Reduzir a depressão a um conjunto de fenômenos observáveis e 
pensar a cura ou o tratamento como a extinção dos fenômenos 
é como acreditar que a água é potável somente por que não se 
enxerga mais os germes e metais pesados presentes nela. 
Algo insiste.
Farei aqui um recorte clínico que irá ilustrar muito bem 
essa situação. {Paciente homem, cerca de 30 anos, depois de 
uma série de namoradas e casos com outros homens, que não 
deram certo, resolve procurar uma mulher que ele possa dizer 
que é sua cara metade e estabelece que, com essa, não haverá 
mais	traição	e	ele	não	irá	implicar	mais	com	qualquer	coisa,	afi-
nal de contas, ela será a mulher com quem ele irá se casar, ter 
filhos	e	construir	uma	família.	Ele	a	encontra,	coisa	do	destino,	
começam a se relacionar e, passado um tempo, ele encontra-se 
novamente na mesma situação. Por que este homem nos procu-
ra? Ele poderia resolver esse problema se controlando? Toman-
do uma medicação que diminuísse sua libido? Resolveria algo 
do que lhe falta e que ele ainda não se deu conta do que é, com 
uma readequação comportamental ou moral? Pode ser que em 
alguns casos sim, mas este não é o caso de todos. 
Foi a partir de perceber que nenhuma mulher ou nenhum 
homem poderia ser aquilo que ele esperava que fosse, que foi 
possível iniciar uma análise. Há aí uma coisa que se repete para 
além da vontade, para além dos treinamentos, para além dos 
tratamentos já ofertados e que ele mesmo já tinha tentado, tam-
bém o analista não oferece ao paciente um resultado no sentido 
de que ele será aquilo que ele espera, o que ofertamos é o espaço 
27
para que ele fale. Nesse falar sobre si, sobre sua vida, sobre sua 
história, um dizer vai se construindo e as queixas vão sendo 
dissolvidas uma a uma, até que algo apareça e, somente então, 
podemos dizer que estamos em um tratamento psicanalítico. 
 Já pelo lado do analista, Freud (1937) nos orienta em 
Construções em análise que “Como se sabe, o objetivo do traba-
lho analítico é fazer com que o paciente volte a suspender os re-
calques” (p. 366). O que isso quer dizer? Via de regra, o objetivo 
de uma análise é a suspensão do recalque, ou seja, que o pacien-
te,	ao	dizer,	identifique	no	dizer	algo	a	mais	do	que	ele	mesmo	
gostaria ou pensou ter dito. Encontramos no mesmo texto de 
Freud alguns exemplos disso, mas podemos usar a experiência 
na	clínica	para	exemplificarmos.
Quando um paciente diz uma coisa e o analista intervém 
e logo depois de alguns segundos o paciente tenta remediar di-
zendo “eu não queria dizer isso”, remete-nos a uma série de 
conceitos que estão na base do tratamento psicanalítico. Primei-
ro que o Eu tenta de todas as formas possíveis manter algumas 
coisas longe da consciência. Segundo que o que está na condi-
ção de suprimido tenta mostrar-se. O Eu do paciente é obriga-
do a reconhecer isso que disse, mesmo a contragosto. Em um 
texto sobre a negação, de 1925, Freud demonstra que em alguns 
momentos o que estava recalcado pode ser dito de forma su-
portável pelo paciente. Devo advertir que nem tudo que é ne-
gado em análise deva ser tomado como efeito do recalque. Em 
1937 Freud se atentou a corrigir essa “imprecisão” teórica que 
muitos tinham e pela qual a Psicanálise era criticada. Há que 
saber então que no “Eu não queria dizer isso” o que temos aí 
é algo de uma verdade. O Eu não queria dizer isso, mas o que 
ou quem quis? Ou melhor dizendo, o que escapou e o Eu teve 
que se rearranjar para dar conta do dito? Ora, algo da ordem 
28
do inconsciente. O analista e o analisante somente irão saber 
se estão diante de algo da ordem do inconsciente quando, na 
fala	do	paciente	e,	no	decorrer	do	tempo,	aquilo	for	confirmado	
com algum efeito na vida do paciente, podendo ser algo da or-
dem de um efeito terapêutico, mas o que visamos a rigor é o ato 
analítico, o efeito analítico que denuncia que no dizer há muito 
mais do que se acredita estar falando. 
Para Lacan, uma análise se diferencia de uma psicoterapia 
na medida em que esta tem um objeto, uma ética e um método 
muito distintos e, talvez o mais importante, o que é esperado 
como	finalidade	de	uma	análise.	A	este	respeito,	Lacan	(1964)	
em seu texto Do trieb de Freud e do desejo do Psicanalista nos dá 
uma	direção	 afirmando:	 “Então,	 qual	 a	finalidade	da	 análise,	
para além da terapêutica? Impossível não a distinguir desta 
quando se trata de produzir um analista.” (Lacan, 1964, p. 868). 
Que a análise produza um analista, é para isso que trabalhamos, 
esse	é	o	objetivo	final	de	uma	análise,	segundo	a	orientação	la-
caniana. 
Sobre esta questão do objetivo da análise, trabalharemos 
no último capítulo a respeito da formação do analista de uma 
forma	 mais	 pormenorizada.	 Para	 este	 momento,	 é	 suficiente	
que nos atentemos que por alguma razão existe muita confu-
são em nosso próprio campo no que concerne à teoria e talvez, 
também, à ânsia de responder a um imperativo mercadológico 
que determina que todos devem fazer análise, gozarem, serem 
felizes, a melhor versão de si mesmos, etc. e que o analista tem 
a obrigação de levar as pessoas a alcançarem isso tudo, bom, o 
que vemos nos dias de hoje é uma confusão com relação à quei-
xa,	à	demanda,	à	formação	do	analista	e	aos	objetivos	e	finalida-
de de uma análise propriamente dita.
Retomando a questão da depressão, muitos que se colo-
29
cam para receber outros em seu consultório tendem a escor-
regar justamente quando tomam a depressão como objeto de 
trabalho, esquecendo-se que uma análise não serve para isso, 
embora o paciente, uma vez que se submete a uma análise, pos-
sa sim ser curado de uma depressão, não por que a cura para 
esse mal fosse o objetivo, mas por que no percurso de uma aná-
lise foi possível alguns ganhos secundários, alguns efeitos que 
são	 verificáveis	 no	 transcorrer	 do	 tratamento.	Agora,	 o	 trata-
mento	em	si	mesmo	é	uma	operação	que,	do	começo	ao	fim	visa	
o Sujeito do inconsciente.
Tomemos então que, nas primeiras sessões, alguém che-
ga com a queixa de uma depressão, demandando um trata-
mento, seja lá qual for. Esta pessoa será convidada a falar tudo 
o que lhe ocorre, sobre sua vida, sua história, suas relações, 
seu sofrimento e sobre isso que lhe disseram se tratar de uma 
depressão. Ao escutar o paciente, vamos colocando as regras 
do	jogo	e	verificando	se	existe	alguma	possibilidade	do	enca-
minhamento a uma Psicanálise. Enquanto conversamos com o 
paciente, nossas intervenções tendem a ser aquilo que fará com 
que o paciente irá ou não se dar conta de que há algo sendo dito 
e que lhe escapa às palavras, ou ainda, de que existe alguma 
coisa entre o querer dizer e o que fora dito que encobre uma 
verdade, que ofusca a causa de seu mal-estar. Para usar uma 
analogia, é como se o próprio paciente fosse, sem se dar conta, 
abrindo um mapa em que fosse pouco a pouco revelando com 
o que estamos lidando.
O	analista	deve	identificar	se	o	que	chega	como	sintoma	
de depressão é da ordem de uma inibição, de um sintoma, ou 
apenas	de	um	traço	de	identificação	quepermite	a	esta	pessoa	
existir na relação com um outro. Com a escuta, não estamos ou-
vindo somente a história contada, mas estamos tentando cons-
30
truir	o	mapa	e,	com	isso,	verificar	o	que	se	endereça	ao	analista	
como	uma	demanda	muito	específica	e	que	será,	do	começo	ao	
fim,	aquilo	em	que	iremos	trabalhar	primeiro	para	aparecer,	de-
pois	para	fazer	des-ser.	A	rigor,	um	significante	qualquer	que	
represente	o	sujeito	para	outro	significante	(analista).	Segundo	
Lacan	(1967),	o	analista	encarna	esse	significante	qualquer.
Se tomarmos que o sujeito do inconsciente pode ser re-
presentado	por	um	significante	em	relação	a	outro	significante	
(Lacan seminário XI), nossa escuta tende a ser direcionada para 
o que se produz na relação com o analista e que, cada vez mais, 
estou seguro de se tratar do que Freud em A dinâmica da trans-
ferência nos permitiu já, muito antes de Lacan, entrever, quando 
afirmou	que	as	pessoas	se	aproximam	do	médico	com	expecta-
tivas libidinais insatisfeitas. 
O analista trabalha com o sujeito do inconsciente, não tra-
balha com a pessoa, não trabalha com o indivíduo, não trabalha 
com a patologia, não trabalha com o diagnóstico. É preciso, an-
tes de qualquer coisa, que o paciente se coloque a falar tudo que 
lhe vier à cabeça. E é esse o ponto fundamental, o analista que 
vai, a partir de suas intervenções, fazer com que o analisante 
entre no jogo e respeite as regras. Não há análise se não houver 
analista. Não há dispositivo clínico sem que a regra fundamen-
tal seja não apenas citada mas também seguida com o máximo 
de rigor possível.1
Sobre a regra fundamental da Psicanálise que comumente 
escutamos como sendo a de “falar tudo o que vier à cabeça”, é 
necessário fazer algumas correções com relação a esse imperati-
vo que não é o mesmo que fazer associação livre de ideias.
Você pode falar o que você quiser no bar, bêbado, numa 
1 Aqui sabemos o quão árduo é esse trabalho por parte do analista e também 
do analisante. Em último aspecto, dizer TUDO O QUE VIER À CABEÇA ASSO-
CIANDO LIVREMENTE só é possível ou nos sonhos ou na psicose. 
31
briga, falar livremente, isso não é associação livre de ideias, in-
clusive, o que chamamos de regra fundamental em Psicanálise e 
nem a análise, é algo natural no homem, ambas são experiências 
artificiais.	Geralmente,	o	que	se	vê	na	clínica,	que	é	um	exemplo	
da associação livre de ideias, é quando o paciente vai falar algu-
ma coisa e de repente entra outra coisa no meio, alguma coisa 
se rompe, alguma coisa atravessa e o que a gente faz geralmen-
te no nosso dia-a-dia? Simplesmente deixa isso pra lá, mas o 
analista pega o que o paciente fala e pergunta: “o que tem a ver 
isso?” – Nada não. “Pode ser que não seja nada, mas e se for, 
isso te lembra alguma coisa?” Ou então: “ah, que interessante, 
parece que você respondeu o que você trouxe de pergunta no 
início da sessão”.2
Ainda sobre as primeiras sessões, é necessário falar um 
pouquinho a respeito do acolher com o silêncio do analista. É 
esperado que se produza no paciente uma fala, precisamos mais 
do que abrir esse espaço para a fala e, posteriormente, a escuta 
de um acolhimento com nosso silêncio. O silêncio do analista 
é, dentre outras estratégias, aquilo que permite que o paciente 
possa se escutar.
O silêncio do analista não é o mesmo que dizer qualquer 
coisa	ou	ficar	com	a	boca	cerrada.	Freud	e	Lacan	já	haviam	rom-
pido com essa ideia. Esse estereótipo é muito mais uma leitura 
equivocada do que de fato seja uma postura do analista. Que o 
analista fale quando é conveniente é o que podemos esperar de 
alguém que ocupa essa função. 
Um ponto decisivo nas análises é que silenciar-se tem 
2 Esta parte é mais inteligível para quem já leu “A negação” e “A repressão” de 
Freud, contudo, basta que se compreenda que a negação não é sinal de que houve 
uma associação com alguma representação reprimida e que, associar livremente 
pode produzir o efeito de negação do que apareceu na consciência. 
32
mais	a	ver	com	intervir	para	que	o	paciente	se	escute	do	que	fi-
car calado. Essa abertura que se dá ao paciente não é sustentada 
pelo silêncio no sentido de não dizer nada, mas do silêncio que 
convida o paciente a falar. Em nossas vidas estamos cercados de 
pessoas e, no entanto, temos aquele sentimento de que quando 
falamos, falamos ao vazio. Em uma análise, o efeito deve ser o 
oposto. O silêncio do analista, ou seja, o analista que silencia 
suas ideias, seus ideais e suas vontades – para ainda não aden-
trarmos na dimensão do desejo e de sua função – fala para que o 
analisante não apenas continue a narrar uma história, mas para 
que ele se perceba como narrador e construtor, para que ele se 
implique com aquilo que diz e, em especial, com os efeitos do 
dizer sobre seu ser.
Nas primeiras sessões, o analista tem que estar muito 
atento a um problema típico no começo do trabalho. O dizer 
enquanto analista deve se orientar para que o paciente se dê 
conta de sua fala e não para que ele se dê conta do que a gente 
pensa enquanto pessoa, enquanto alguém. Na melhor das hipó-
teses quando isso acontece, o paciente desconsidera e procura 
outro analista que o escute. Na pior das hipóteses, toma a fala 
do analista como verdade absoluta, transformando aquelas ses-
sões que deveriam estar orientadas para uma análise em uma 
psicoterapia. O terapeuta aqui, perde a oportunidade de ocupar 
um lugar privilegiado e repete com o paciente as relações de po-
der em que um sabe mais sobre o outro e vai incidir sobre este 
outro que fala e que sofre uma série de “como fazer” e “o que 
fazer”. Neste sentido, podemos dizer que o paciente encontrou 
mais um para sustentar seu sofrimento pois, ao escutar da boca 
de outro as respostas, continua ignorando que a verdade de seu 
sofrimento habita nele de forma recalcada e só há acesso a ela na 
medida em que ele mesmo se põe em questão.
33
Do	Lugar	de	Objeto	e	do	Começo	da	Análise
 
Quando lecionava nas universidades, de uma forma ge-
ral, na graduação, e os alunos iniciavam o estágio clínico, eu fa-
lava a eles que só seria possível que tivessem um pouquinho da 
experiência do que seria um tratamento psicanalítico, quando 
não tivessem que atender para cumprir a carga horária no curso 
de graduação.
Outro ponto é quanto ao pagamento das sessões. Isto é 
algo muito delicado. Só conseguimos sustentar um trabalho 
analítico digno deste nome, quando estamos dispostos a passar 
fome	em	nome	de	nosso	trabalho.	Parece	que	algo	nessa	afirma-
ção não está muito correto, mas vou me utilizar de um poema 
de Bukowsky para ilustrar melhor a questão:
 
if you’re going to try, go all the
way.
otherwise, don’t even start.
 
if you’re going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.
 
go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
34
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be bett er than
anything else
you can imagine.
if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will fl ame with
fi re.
do it, do it, do it.
do it.
all the way
all the way.
you will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fi ght
there is.
“Roll the Dice” by Charles Bukowski 
from	What	Matt	ers	Most	Is	How	Well	You	Walk	
Through The Fire.
35
Tomei a liberdade de repensar a questão através da poesia 
de Bukowsky pois ela nos mostra uma vertente do desejo que 
devemos apreender no percurso de uma análise. Lacan (1967) 
em sua proposição nos demonstra isso de várias maneiras, mas 
que apontam para a mesma problemática. O analista só pode 
existir na condição de objeto e não na condição de ser, ou de 
alguém, ou de uma pessoa que tem contas parapagar. Isso tudo 
tem a ver com a ética da Psicanálise e, talvez, eis um dos pro-
blemas da Psicanálise enquanto uma “graduação” não se pode 
nem ser analista e nem ir ao divã só para cumprir tabela. 
Em Nota Italiana temos uma frase de Lacan que me mar-
cou demasiadamente no meu percurso de formação num mo-
mento em que eu fazia o cartel sobre a formação de analista. 
“Autorizar-se não é auto-ri-(tuali)zar-se.” (p. 312). Neste texto, 
vemos	logo	abaixo	desta	afirmação	que	somente	a	análise	não	
é	suficiente	para	que,	mesmo	que	se	tenha	produzido	um	ana-
lista, ocupar este lugar demanda outras coisas que complemen-
tam a formação. 
Retornando ao nosso ponto sobre o analista no lugar de 
objeto, há aqui muito conteúdo denso para trabalharmos, o que 
não é a proposta deste livro. No entanto, podemos avançar um 
pouco	e	afirmar	que	só	é	possível	ter	uma	experiência	do	que	é	
a Psicanálise na medida em que o paciente não é tomado como 
objeto pelo analista e, que, o analista, consegue se sustentar en-
quanto objeto causa do dispositivo clínico inventado por Freud.
Esta prorrogativa vai na contramão de uma série de insti-
tuições que “formam” psicanalistas, embasadas apenas em nú-
meros de atendimentos, colocando um número x de pacientes 
a serem atendidos, ou um número x de horas de “análise pes-
soal”, como requisito de formação. Notem como, em nome de 
uma suposta “formação” temos uma inversão grave nos lugares 
36
que deveriam ocupar o paciente e o analista nas primeiras ses-
sões.
Mas qual a ética e em que se baseiam estas instituições 
quando, na verdade, não encontramos em nenhum texto clás-
sico ou documento das instituições sérias um número x ou um 
número mínimo de sessões para que alguém se torne psicana-
lista? Onde está escrito em Freud, em Lacan? Não tem que aten-
der ninguém para ser psicanalista, muito pelo contrário, tem 
que fazer análise, levar até as últimas consequências e conseguir 
sustentar, na hora que receber alguém, esse lugar de objeto, não 
de sujeito. Aí a poesia de Bukowsky nos ajuda a interpretar a 
teoria lacaniana.
Então, a ideia é essa, até que ponto nós, enquanto analis-
tas, estamos tomando o nosso paciente como objeto? E no co-
meço da clínica é muito difícil fazer isso, parece que a análise 
só é possível de se dar nos momentos em que, o analista em 
formação, consegue com sua intervenção fazer um giro e se co-
locar no lugar de objeto causa de alguma coisa3. E o que, na 
grande	maioria	das	vezes,	a	gente	vê	é	essa	fixação	em	que:	“Eu	
estou com cinco pacientes e tenho a conta do carro para pagar, 
por que eu fui comprar o carro? Eu estou com consultório para 
pagar, por que eu aluguei o consultório, se hoje é tudo on-line? 
Eu tenho que comprar ovo porque o bife está caro. Eu não devia 
ter comido um lanche.” Em suma, devemos ter cuidado com 
estas questões pois o analista também tem que comer, pagar 
3 Neste ponto estou me referindo aos quatro discursos de Lacan. Não me parece 
apropriado colocar este material aqui neste capítulo, mas existem muitos textos 
que podem orientar a esse respeito. No momento inicial de quem quer praticar 
a Psicanálise a supervisão ajuda muito aqui. Intervir para que o paciente possa, 
ao experimentar do dizer, revelando-se dividido, fazer a entrada em análise que 
pode se dar de uma só vez ou aos poucos. O que quero registrar aqui é que para 
que haja análise é preciso que o analista intervenha no lugar de objeto “a” causan-
do a divisão subjetiva e ordenando o discurso de forma a montar o discurso da 
histérica. A isto damos o nome de histericização do discurso. 
37
suas contas, isso tudo será retomado a partir do capítulo 3. A 
ideia aqui é acolher as tensões intrínsecas a nosso ofício desde 
os primeiros atendimentos clínicos, mostrando que é possível 
uma análise quando e somente quando há um analista.
Retomando uma das questões propostas por Lacan (1967) 
na proposição, um dos pontos a que uma análise deve nos levar 
é a do “des-ser”. No entanto, essa ideia, do des-ser, pode ser 
compreendida de forma equivocada se não nos atentarmos que 
o ser do qual pretendemos nos livrar é aquele produzido pela 
predicação	do	sujeito.	Lacan,	no	seminário	20,	afirmou	que
“O ser é exatamente o que sustenta todo o dis-
curso, que carrega o discurso, na medida em que 
o discurso é o que se produz nas bordas do bu-
raco que ele constitui. O ser é, pois, ao mesmo 
tempo, aquilo que está antes do discurso, que 
carrega	o	discurso	e	que	está	depois,	no	fim	de	
todo discurso, seu ponto de convergência, seu 
limite.” p. 64 (versão da Escola Letra Freudiana).
Ora, se o analista está ainda apenso ao ser, no sentido de 
um	 sujeito	 que	 se	 confunde	 com	um	predicado,	 significando	
quem ele é a partir de uma série de predicados que ele colou em 
si e que agora chama de Eu, ele não poderá ocupar o lugar de 
objeto	que	é	justamente	isso	que	aparece	como	um	significante	
vazio na relação com o paciente e que causa sua divisão, fazen-
do surgir o sujeito do inconsciente. Esse esquema será trabalha-
do mais à frente quando falarmos da formação do analista.
A questão aqui é o seguinte: até que ponto o analista con-
segue se desvencilhar de si mesmo para escutar o outro? Haja 
análise para isso. Então, nas primeiras sessões de análise, o mais 
importante é levar a análise o mais longe possível, chegando 
àquele des-ser em que Lacan (1967) escreveu como “a passagem 
de analisante a analista” (p. 259) que se dá na medida em que 
38
“o sujeito vê soçobrar a segurança que extraía da fantasia em 
que se constitui, para cada um, sua janela para o real, o que se 
percebe é que a apreensão do desejo não é outra senão a de um 
des-ser.” (p. 259). 
Continua Lacan
“Nesse des-ser revela-se o inessencial do sujeito 
suposto saber, donde o futuro psicanalista entre-
ga-se ao agalma da essência do desejo, disposto 
a pagar por ele em se reduzindo, ele e seu nome, 
ao	significante	qualquer.”	(p.	259).
O que temos então como analista é antes de mais nada 
alguém	que	pagou	o	preço,	que	foi	até	o	fim	da	análise,	ou	seja,	
que	viveu	na	 carne	a	 sua	finalidade	que,	 segundo	Lacan,	 é	 a	
produção do analista que passou pela experiência radical de 
des-ser.
Seguindo esta lógica, só consegue sustentar uma análise 
quem levou sua análise até um determinado ponto mínimo, po-
demos dizer, dessa dobradiça que Lacan vai chamar de passa-
gem de analisante à analista da própria experiência. 
Nas primeiras sessões, o que mais conta é: Primeiro, que 
você tenha certeza absoluta de que pouco importa se este pa-
ciente volta ou não volta. E eis o segredo, não estamos lidando 
com pessoas, mas com o desejo de analista de que haja análise. 
E se quer realmente se enveredar no caminho da Psica-
nálise, quer começar a atender, primeiro análise pessoal, isso é 
imprescindível, durante... não é datado, não são 30 sessões, 50 
sessões, 100 sessões, isso é balela, isso não garante nada, pelo 
contrário, só põe pressão na cabeça das pessoas. Como vimos, 
não se trata de um número, mas de um efeito do percurso. De-
pois, ao receber alguém, convide-o a falar, neste falar, que se 
atente a dizer somente o que for necessário para que o paciente 
39
comece	a	se	escutar.	Ao	fim,	o	convite	para	retornar	em	um	ou-
tro dia, na outra semana, dependendo do caso e da gravidade, 
por que não, amanhã mesmo.
Nem todos voltam. Me deem uma prática no campo da 
saúde	que	seja	100%	eficaz,	ou	80%	que	seja,	algum	tratamento	
que de 100 pessoas, 90 pessoas saem absolutamente curadas, 
todas iguais, sem resquícios, bem, não vão ter mais dor. Em 
conversa com uma colega ortodontista, eu disse: “Psicanálise 
é igual cárie, não é porque você curou uma vez que você não 
tenha uma nova, mas vai ser outra cárie. Ela falou: é Marco, exa-
tamente, é bem por aí, vai ser outra cárie, em outro momento, 
em outro tempo”. 
Termino este capítulo sobre as primeiras sessões, partin-
do da premissa que a Psicanálise inaugura para o paciente um 
outro tempo e, talvez isso soe estranho agora, irei retomara isso 
depois, o tempo em que se entra em análise e passa-se da posi-
ção de paciente para analisante, ou ainda, da posição de quei-
xante para demandante, não sem a presença do analista que se 
atualiza	 em	 transferência	 como	um	significante	qualquer	que	
permite que a análise se produza.
 
 
 
 
 
 
40
CAPÍTULO 02
 
 
 
O MÉTODO CLÍNICO
 
Enquanto analistas, temos que entender que 
não é todo mundo que quer se livrar desta par-
te podre que a gente carrega, achando que está 
expiando algum pecado. Ou desta forma de ser 
que	 ajuda	 a	 pessoa	 a	 ter	 justificativas	 para	 ela	
continuar sendo o doente mental que ela é. (LEI-
TE, 2022)
 
Adendo	Sobre	a	Problemática	da	Técnica	em	Nosso	
Campo
 
Neste capítulo, pretendo abordar alguns elementos do 
percurso inicial de uma análise. Desde as entrevistas prelimina-
res articuladas com diagnóstico até a entrada em análise, pro-
priamente dita. Vamos percorrer um caminho mais no sentido 
de um ensaio, tendo como base os escritos sobre a técnica de 
Freud e alguns textos de Lacan como uma espécie de norte.
Em meu livro “Psicanálise nas redes” (Leite, 2022) há uma 
série de pequenos textos que tocam na questão da entrada em 
análise e, em sua grande maioria, trazem a entrada em análise 
neste imbricamento entre diagnóstico e entrevistas prelimina-
res. 
Muita coisa teórica já foi produzida sobre isso, Quinet 
(1991) foi um dos autores responsáveis, em meu tempo de gra-
duação, a trazer aos aspirantes a psicanalistas uma leitura mais 
41
próxima e atual das condições necessárias para que uma análise 
possa acontecer. Ao escrever sobre as entrevistas preliminares, 
Quinet (1991) traz a ideia de três funções das entrevistas preli-
minares: função sintomal, função diagnóstica e função transfe-
rencial.
Quinet vai nos orientando sobre a entrada em análise na 
medida	em	que	se	verificam	as	condições	de	possibilidade	para	
que uma análise se inicie.
Outro analista que trabalha com estas questões por uma 
outra via, não menos importante e, a meu ver, talvez mais inte-
ressante, é Isidoro Vegh em seus livros que versam sobre a cura 
em Psicanálise. Para Vegh em Os discursos e a cura a entrada em 
análise deve se dar a partir de uma construção lógica que se 
verifica	a	partir	dos	quatro	discursos	engendrados	por	Lacan	a	
partir do seminário 19. 
Segundo Vegh (2001) “A análise começa com uma de suas 
condições: requer que no começo o analisante se encontre divi-
dido entre o que diz e o que sabe do que diz” (p. 142). É como se 
conseguíssemos, por nossas intervenções, revelar não o sentido, 
mas o sem sentido da explicação dada para aquilo que o pacien-
te nos apresenta. Este momento que se espera produzir nas en-
trevistas preliminares, o que nem sempre acontece, e não acon-
tecendo, não há a possibilidade da análise, a ele chamamos de 
histericização do discurso. A entrada em análise, a nomeação de 
um paciente em analisante se dá apenas quando isso acontece. 
Marco Antônio Coutinho Jorge (2017) nos remete a Freud 
em seu livro Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, em es-
pecial	no	volume	3,	quando	afirma	que,	para	Freud,	o	início	de	
uma análise deve se dar “pela entronização (que deve ser feita 
desde o início) da regra fundamental da Psicanálise, a associa-
ção livre...” (p. 87). Este livro é o terceiro de uma série que versa 
42
sobre a Psicanálise, seus conceitos, sua técnica e seus efeitos e 
que considero importantes em nosso tempo.
O que está em jogo aqui, em especial neste capítulo, é jus-
tamente podermos pensar que a entrada em análise, antes de 
obedecer a um padrão diretivo e muito bem determinado, pode 
ser por algumas vias que encontram sustentação na teoria. Po-
deria compor neste começo de capítulo ainda mais autores que 
abordam a temática e que nos trazem um pouco do como fazer 
que se depreende da prática e do estilo de cada um, quando 
atravessado pela teoria e por sua história pessoal de análise, es-
tudos e laços com os pares. 
Em Psicanálise Lacaniana, Leite (2000) traz um capítulo in-
teiro sobre as entrevistas preliminares e a entrada em análise. 
Logo no começo uma posição um tanto quanto interessante que 
nos orienta para um fato: “Uma análise nem sempre existe de 
entrada, ela apenas existirá a partir da instauração do discurso 
analítico, que nunca é anterior ao encontro com o analista, mas 
a transferência pode ser.” (p. 203). Ora, qual é o fato? Simples, 
uma análise deve ser produzida e não é possível uma análise 
sem um analista. 
No mesmo capítulo, Leite (2000) traz um trecho de Romeu 
e Julieta para comparar a Psicanálise às psicoterapias e outras 
práticas. Pouco importa o nome que se dê, o que importa é o 
fazer e os efeitos deste fazer. Se alguém se diz psicanalista e 
orienta o paciente dizendo a ele o que fazer ou não fazer a partir 
de sua moral, de seus desejos, de sua história, de seu saber, isso 
não é uma Psicanálise, embora possa ser chamada assim por 
quem a venda como tal. Agora, quando invertemos a coisa, to-
camos no âmago das primeiras sessões com quem nos procura. 
Os pacientes que nos procuram para fazer uma terapia, uma 
psicoterapia, ou qualquer outra coisa, o que ofertamos a eles? 
43
Como dirigimos o trabalho? Qual a posição que ocupamos? 
A	resposta	a	essas	questões	podem	ou	não	configurar	o	trata-
mento ofertado como uma Psicanálise ou outra coisa. Notem 
que uma rosa, se não se chamasse rosa, teria o mesmo perfume 
como disse Romeu à Julieta. Podemos saber se é ou não análise 
pelo cheiro, digo isso de forma metafórica. 
Mais à frente no mesmo capítulo, Leite (2000) 
escreveu: “Entre os leitores de Lacan, notam-se 
grandes divergências em relação ao estilo de 
cada um quanto à forma de se conduzir peran-
te a clínica – o que, muitas vezes, revela atitu-
des até mesmo paradoxais...” (p. 204). 
Isso tudo não implica em dizer que há na Psicanálise, em 
especial de orientação lacaniana, um oba-oba no sentido de que 
qualquer um faz o que bem entender. É precisamente o contrário 
disso, é necessário “que o analista sustente sua posição” (p. 204). 
Sustentar sua posição não se trata apenas de um pensa-
mento de posição teórica que irá ser a referência do fazer clínico, 
mas também a posição de analista, o lugar que ocupamos na 
relação com o analisante e que nos permite chamar uma prática 
de Psicanálise. Esta imbricação entre a prática e a teoria fez com 
que Lacan, em alguns momentos, nomeasse a Psicanálise como 
uma práxis. 
O próprio termo práxis pode ter muitos sentidos, então, 
acho por bem retomar o termo onde ele aparece no texto de La-
can, mais precisamente em seu seminário de 1964 onde versa 
sobre os quatro conceitos fundamentais. Ali, Lacan interroga 
seu público: “O que é uma práxis?” (p. 14). Tenham em mente 
que o sentido que Lacan dará para esse termo é diferente do que 
encontramos em Aristóteles, em Marx e também nos dicioná-
rios de hoje em dia. 
44
Lacan	(1964)	define	a	Psicanálise	como	uma	práxis	e	sus-
tenta que uma práxis é, a seu modo, “o termo mais amplo para 
designar uma ação realizada pelo homem, qualquer que seja, 
que põe em condição de tratar o Real pelo Simbólico” (p. 14). É 
preciso compreender que o que Lacan chama de Real e de Sim-
bólico são conceitos que durante toda sua obra foram tratados 
e elaborados de forma a articular com o Imaginário uma teoria 
que dê conta da realidade, do humano e, principalmente que 
permita uma clínica psicanalítica para o tratamento do sujeito. 
Mais do que apontar um caminho unívoco sobre o mé-
todo psicanalítico, proponho com esta abertura que os leitores 
estejam advertidos e atentos de que a Psicanálise não é uma ci-
ência em que a metodologia seja passível de uma única leitura 
tal qual nos propomos com a matemática quando, ao apreen-
dermos os conceitos básicos, conseguimos, em qualquer parte 
do mundo, resolver uma equação, por exemplo: 2 + 2 = x.
Ao citar Quinet, Vegh, Jorge e Leite, o que pretendo com 
isso é demonstrar como é possível pensar a questão do que é a 
Psicanálise, suaentrada, os primeiros momentos, seu percur-
so	e	seu	fim,	não	como	uma	experiência	em	que	seja	possível	
um passo a passo metodológico muito bem estruturado que dê 
conta de todas as Psicanálises. Tampouco quero, ao apontar as 
diferentes leituras, incentivar uma percepção de que a Psicaná-
lise seria algo como uma experiência a ser articulada a partir do 
achismo de cada um. Justamente, as diversas modalidades de 
formalizar a Psicanálise, desde Freud, passando pelos quatro 
discursos engendrados por Lacan até sua última proposta com 
o nó borromeano nos afastam dessa possibilidade de que a Psi-
canálise seria uma espécie de método intuitivo.
Para resolver esse problema, pretendo que o leitor com-
preenda que a Psicanálise pode ser vista como um caleidoscó-
45
pio que permite algumas – não todas – possibilidades e também 
algumas maneiras de clinicar, mas que dependem necessaria-
mente da teoria para que isso possa acontecer. 
Em A Ciência e a Verdade,	Lacan	afirma	que:	“Por	nossa	po-
sição de sujeito, somos sempre responsáveis” (p. 873). Muitos se 
utilizam	desta	afirmação	de	Lacan	sem	retomar	todo	o	contexto	
do parágrafo e, mais ainda, do texto em que está inserido. O que 
Lacan estava fazendo em 1966 ao abrir o seminário sobre “O 
objeto	da	Psicanálise”	era	afirmar	categoricamente	que,	primei-
ro, a Psicanálise é uma ciência e não uma religião, reiterando o 
que havia trabalhado um ano antes em 1964, bem no início de 
seu seminário sobre os quatro conceitos fundamentais. E, talvez 
o mais importante, que nós, psicanalistas, somos responsáveis 
por nossa prática e, ao mesmo tempo, se me permitem a metáfo-
ra, reféns da teoria que orienta nosso fazer clínico. A prática do 
psicanalista depende necessariamente da teoria, e, se pensamos 
a Psicanálise como uma operação sobre o sujeito, deveríamos 
sustentar minimamente de que sujeito estamos falando para, 
somente depois, nos colocarmos como analistas a receber ou-
tros em nossos consultórios. 
Certa vez atendi a um cirurgião plástico que me disse que 
sua técnica era perfeita, e que estava extremamente angustiado 
porque uma paciente sua queria processá-lo por não ter tido o 
resultado que ela esperava. Ela estava na consulta com sua mãe 
e o médico mediu os seios da paciente dizendo que estavam 
perfeitos, a quantidade acordada de silicone, o aspecto, estava 
tudo de acordo com aquilo que a medicina podia propiciar. Eis 
que ele escuta da boca da mãe que estava ótimo, que os seios 
estavam lindos, e a paciente diz em alto e bom tom: “não estão 
perfeitos como eu imaginava”.
Esse recorte clínico presta aqui para que retomemos um 
46
ponto antes de entrarmos no método clínico propriamente dito. 
Uma coisa é o ideal, outra coisa é aquilo que é possível. 
Lacan (1956) já nos atentava para uma Psicanálise pratica-
da e ensinada muito mais como uma mística em que os aspiran-
tes	a	psicanalistas	ficavam	à	mercê	do	seu	“analista	didata”	que	
orientava a prática de cada um muito mais a partir do que fazia 
do que a partir de uma formulação teórica que fosse possível 
não um ideal, mas uma certa espécie de convenção mínima que 
pudéssemos dizer que uma prática seria ou não uma Psicanálise. 
Em Variantes do tratamento padrão Lacan (1955) retoma 
a questão que fora trabalhada por ele em 1953 na ocasião de 
escrever para a Enciclopédia médico-cirúrgica. Faz-se necessário 
compreender que o texto, anterior ao de 1956, traz como que 
uma crítica de maneira geral dirigida aos psicanalistas, mas en-
dereçado para fora da comunidade analítica. O texto de 1956 
denominado A situação da Psicanálise... foi escrito e endereçado 
para a comunidade psicanalítica em razão do centenário do 
nascimento de Freud. No entanto, em ambos os textos, a mesma 
crítica se impõe. 
Os analistas didatas e as instituições psicanalíticas não 
estavam de acordo sequer sobre o que era a Psicanálise e seu 
método nesta época. A esse respeito Lacan (1955), citando Glo-
ver (1954) nos demonstra explicitamente na página 329 de seus 
Escritos que dentro da sociedade psicanalítica havia diversos 
grupos que tentavam “manter a aparência de uma frente unida 
perante	o	público	científico	e	psicológico,	é	evidente	que,	sob	
certos aspectos fundamentais, as técnicas praticadas pelos gru-
pos opostos são tão diferentes quanto a água e o vinho.” (p. 329).
Seguindo	mais	adiante	Lacan	irá	afirmar	que	
“a condição do mal-entendido que assinalamos 
entravar a Psicanálise no caminho de seu reco-
47
nhecimento revela-se, pois, reforçada por um 
desconhecimento que é interno a seu próprio 
movimento” (Lacan, 1955 p. 331).
Para	prosseguir,	espero	que	tenha	ficado	muito	claro	a	pro-
posta de que independentemente do fazer de cada um, há que 
estar muito bem orientado pela teoria e não por sei lá que senti-
mentos ou intuições do que fazer, como fazer ou quando fazer. 
Nas páginas seguintes a ideia não é apresentar um seio ideal, 
mas	um	seio	bom,	uma	mãe	suficientemente	boa	para	retomar	
com alguma ironia conceitos que nos permitem um certo chiste. 
Atento ao que fora trabalhado até aqui, espero que você 
não acredite em mim e, por obséquio, não me ame a ponto de 
não	verificar	aqui	as	 inconsistências	e	 falhas	que	 todo	 texto	e	
todo ensino necessariamente tem. Recorro à abertura que certa 
vez ouvi de Eidelsztein em sua aula sobre a formalização da Psi-
canálise pelo Instituto ESPE, não acreditem em mim, não vim 
trazer a vocês uma verdade, mas o resultado de anos de estudos 
e	pesquisas,	confiram	as	fontes,	leiam,	pesquisem	a	partir	das	
referências aqui citadas e, se possível, de outras, a Psicanálise 
carece	desse	tipo	de	profissional.	
 
As	Primeiras	Sessões:	Tempo	de	Ver
 
Ao receber um paciente novo na clínica, as coordenadas 
nunca estão muito bem estabelecidas para quem está começando. 
Analistas que querem iniciar na clínica e vieram de clíni-
cas-escolas geralmente passam por uma espécie de desorienta-
ção teórica por não terem tido nas universidades, durante os 
estágios, uma prática real do que ocorre na clínica particular de 
cada um. 
48
A começar pela documentação que devemos ter, dar re-
cibos a cada pagamento, abrir uma empresa para pagar menos 
impostos, pagar INSS, ISS, entre outros impostos, tudo isso pas-
sa por uma questão importante e burocrática que é de fácil com-
preensão e aprendizado. Para essas questões burocráticas e, de 
certa forma, prática, sempre sugiro que o psi procure contador 
competente para auxiliar nesse início. Pode parecer besteira, 
mas	essa	parte	é	extremamente	importante	para	o	profissional	
para	que	fique	em	acordo	com	a	Lei	e	tenha	os	benefícios	que	
ela pode trazer como o auxílio do INSS, caso tenha que parar de 
trabalhar por um tempo. 
Agora e sobre as questões práticas do início da psicanálise 
propriamente dita? Vamos direto na fonte resgatando os textos 
de Freud e posteriormente de Lacan para nos auxiliar a pensar 
nossa clínica nos dias de hoje.
Nos artigos sobre a técnica, Freud (1913) nos dá uma de-
monstração do fazer do analista em Recomendações... e isso é 
muito importante. Recomendações não diz de regras gerais a se-
rem seguidas à risca. O que aparentemente deveria trazer algu-
ma luz nos lança numa espécie de tentativa de apreender como 
o	outro	faz	para	mimetizar	a	partir	de	uma	série	de	identifica-
ções com outros analistas mais experientes. Esse processo, nem 
sempre de todo consciente, tende a não observar com a devida 
importância a lógica da teoria que sustenta a prática de cada um 
como já vimos nos parágrafos anteriores. 
A proposta de Freud (1913), nos artigos sobre a técnica, 
pode ser resumida em que o analista, ao receber os pacientes 
tentem,	no	início	do	tratamento,	verificar	se	é	ou	não	possível	
uma análise. O nome para este momento inicial do tratamento 
foi denominado de terapia de teste. Aqui, algumas recomenda-
ções importantes são feitas como por exemplo, não tomar notas 
49
durante os atendimentos, não tentar focar na história que o pa-
ciente nos conta, não tentar saber se aquilo

Mais conteúdos dessa disciplina