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MANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA uma re-visão David E. Zimerman Médico psiquiatra. Membro efetivo e psicanalista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). Psicoterapeuta de grupo. Ex-presidente da Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Versão impressa desta obra: 2004 artmed® 2008Sumário Uma conversa inicial com os leitores 7 PARTE I evolução da técnica analítica 1. As transformações no perfil do paciente, do analista e do processo analítico. Para onde vai a psicanálise? 17 2. Os principais autores das sete escolas de psicanálise e sua contribuição à técnica. Méritos e críticas 31 3. Como agem as terapias analíticas? 43 PARTE II Os fenômenos no campo do vínculo analítico 4. primeiro contato. A entrevista inicial. Os critérios de analisabilidade. contrato 57 5. setting: a criação de um novo espaço 67 6. Uma re-visão das "regras técnicas" recomendadas por Freud 73 7. A pessoa real do analista no processo psicanalítico 85 8. Resistências. A reação terapêutica negativa 95 9. Contra-resistência. Os conluios inconscientes 105 10. contra-ego: uma estrutura resistencial patológica 113 11. Transferências. Transferência de impasse. Psicose de transferência 127 12. Contratransferência 141 13. A comunicação verbal e a não-verbal na situação analítica 155 14. As atuações (actings) 169 15. A atividade interpretativa 177 16. Normalidade e patogenia dos estilos de interpretar. uso de metáforas 195 17. Análise do consciente. A função do pensar 203 18. Insight elaboração crescimento mental 211 19. término de um tratamento analítico 223 20. Condições necessárias para um analista 2316 SUMÁRIO PARTE III Características clínicas e manejo técnico das diferentes psicopatologias 21. Psicoses. Pacientes borderline. A parte psicótica da personalidade 243 22. Transtornos narcisistas 253 23. Perversões 267 24. Homossexualidades 275 25. A clínica do vazio 289 26. Transtornos ansiosos 295 27. Estados depressivos 299 28. Fobias 305 29. Transtornos obsessivo-compulsivos (TOC) 311 30. Histerias 315 31. Pacientes somatizadores 323 32. Uma forma patológica de amar: o vínculo tantalizante 333 PARTE IV Terapias analíticas especiais 33. Psicanálise com crianças 347 34. Terapia psicanalítica com púberes e adolescentes 357 35. Terapia com casais e famílias 367 36. Terapia com a família 375 37. Grupoterapia psicanalítica 383 PARTE V Situações específicas 38. Vínculos e configurações vinculares 397 39. Reflexões sobre a supervisão psicanalítica 407 40. Sonhos: manejo técnico 421 41. Glossário de conceitos e termos propostos pelo autor 433 Palavras finais 453 Referências bibliográficas 461 Índice remissivo 4673 Como Agem as Terapias Analíticas? Todos nós acabamos nos acostumando com uma coisa extraordinária: esta conversa esquisita, que denominamos [...] psicanálise, funciona. É inacreditável, mas ela funciona. Bion (Conversando com Bion, p. 127) ALGUNS QUESTIONAMENTOS mação e competência? Os conhecimentos mais amplos e aprofundados que psicanalista con- Uma das perguntas mais freqüentes que temporâneo possui acerca da gênese e da dinâ- tanto pacientes quanto alunos e, de certa for- mica do psiquismo implicam na necessidade de ma, todos nos fazemos refere-se diretamente que também os analistas realizem mudanças téc- à incerteza de qual é ou de quais são os fatores nicas? Os recentes avanços das neurociências que determinam que é a meta maior de qual- representam alguma contribuição para a técni- quer terapia analítica: a obtenção de verdadei- ca analítica? O que fazer com "pacientes que ras mudanças no psiquismo, logo, na conduta não querem mudar"? Com vistas a perspectivas do paciente. Até pouco tempo atrás, a resposta futuras, "para aonde vai a técnica que devemos era mais simples, e fundamentava-se nos efei- utilizar nos tratamentos psicanalíticos"? Pela re- tos das interpretações do analista, dirigidas ao levância que estas questões merecem, este ca- inconsciente do paciente, levando à obtenção pítulo pretende encaminhar algumas reflexões de insights, os quais, passando por um proces- e tentativas de respostas. so continuado de elaborações, conduziriam à cura analítica. Na atualidade, com o reconhecimento de BREVE EVOLUÇÃO HISTÓRICA que muitos outros fatores possam intervir no processo de aquisição de mudanças psíquicas, Na época pioneira de Freud e seus segui- as coisas não são mais tão simples, de sorte que dores imediatos, o tratamento psicanalítico era nos instiga a refletir sobre uma série de ques- de breve duração, porquanto 0 objetivo maior tões, tais como, entre outras: continua válida a da análise consistia basicamente na remoção idéia de que a interpretação seja virtualmente o de sintomas inerentes a determinadas patolo- único instrumento técnico que efetivamente fun- gias clínicas. Na obra de Freud, a técnica em- ciona? Nesse caso, ela deve ficar restrita à in- pregada para que o analista conseguisse ter terpretação dirigida unicamente ao plano da acesso ao inconsciente do paciente fundamen- "neurose da Toda interpretação tava-se no emprego da "regra da livre associa- correta é eficaz? Além da interpretação, a "pes- ção de idéias", especialmente no que tange à soa real do analista" também merece ser consi- "interpretação dos sonhos" (um único sonho derada um importante fator no processo de mu- poderia ser analisado, nos mínimos detalhes danças? Cabe falarmos de "análise do cons- associativos, durante semanas ou meses), con- ciente"? Existe a possibilidade de que um mes- siderada "a via régia do inconsciente". mo paciente possa evoluir mal com determina- Para atingir um resultado analítico, do analista, mas muito bem com outro, mesmo Freud preconizou uma série de recomenda- que ambos tenham uma igualdade na sua for- ções técnicas aos analistas, que foram se trans-44 DAVID E. ZIMERMAN formando no curso de sua longa obra, e, de da existência de mecanismos defensivos do ego, forma muito resumida, as referidas transfor- muito primitivos (controle onipotente, dissocia- mações podem ser sintetizadas nos seguintes ções, identificações projetivas e introjetivas, quatro lemas, específicos de cada uma de suas idealização e denegrimento); uma valoração quatro grandes teorias concernentes ao psi- das inatas e permanentes relações objetais; a quismo: atribuição de uma especial importância à exis- tência das arcaicas fantasias inconscientes; e, 1. Na vigência da "Teoria do Trauma", igualmente, fenômeno psíquico que M. Klein partindo de sua concepção de que denominou Posições (as "esquizoparanóides" e "as histéricas sofrem de reminiscên- as "depressivas"). cias que estão recalcadas", lema Tais descobertas permitiram um aprofun- analítico era: "aquilo que estiver es- dado conhecimento do desenvolvimento emo- quecido, lembrado deve ficar". cional primitivo, de modo que as portas da psi- 2. Após alguns anos, Freud concebeu canálise foram abertas para pacientes psicó- a "Teoria pela qual ticos, crianças e os seriamente regredidos, em configurou o psiquismo com três re- geral. O principal instrumento da técnica psi- giões o Consciente, Pré-Conscien- canalítica continuou sendo o uso da interpre- te e o Inconsciente -, cujo lema pas- tação, porém, indo muito além de Freud, os kleinianos preconizavam um emprego sistemá- sou a ser: que estiver no incons- tico da interpretação no "aqui-agora-comigo, ciente, no consciente deve ficar". como lá e então" na transferência com o analis- 3. Segue a concepção e a formulação ta, com uma tendência (que está sendo redu- da "Teoria Estrutural", com respec- zida na atualidade) de relacionar a interpreta- tivo lema analítico: "onde estiver o ção em termos de objetos parciais e primitivos Id (e o superego), Ego deve estar". ("seio ou pênis, bom ou mau", etc.). 4. Creio que pode ser acrescentado um Ademais, o enfoque kleiniano incidia de quarto lema, se lembrarmos que foi forma enfática no tripé da "agressão" real ou Freud quem plantou as sementes da fantasiada, seguida de inevitáveis "culpas" fundamental concepção do "narci- persecutórias ou depressivas, com a necessi- de maneira que lema pode dade de o paciente atingir a posição depres- ser este: "onde estiver Narciso (día- siva, que permitiria adquirir um sentimento de), Édipo (triângulo) deve ficar". de "gratidão" e vir a fazer "reparações verda- O principal talvez único ins- deiras". Ainda persiste, por parte de muitos trumento técnico consistia no uso da analistas, uma posição (na verdade, uma acu- interpretação, principalmente dos sação) de que o terapeuta que não estiver tra- simbolismos contidos nos sonhos e balhando na transferência sistemática do aqui- dos conflitos que se reproduziam na agora... está fazendo uma verdadeira psi- "neurose de canálise". Como se pode notar até há pouco tempo A psicanálise deu um salto de qualidade a crença vigente era a de que a terapia psica- a partir do trabalho Análise do caráter, de nalítica agia quase que exclusivamente por Wilhelm Reich (1933), seguidor inicial de meio do efeito das interpretações do analista, Freud que, mais tarde, veio a abrir uma dissi- centradas na neurose de transferência do pa- dência, pelo fato de que esse autor, indo muito ciente, com uma gradativa valoração da contra- além do objetivo de remoção de sintomas, pre- transferência, de modo que predominava no conizou condutas técnicas, pelas quais ana- setting analítico a ligação de duas pessoas: a lista poderia modificar a "couraça caracteroló- do analisando, deitado no divã, cuja função era gica" dos pacientes. trazer seu "material"; e a do analista, como- Com o advento e o crescimento da escola damente sentado em sua poltrona, cujo papel kleiniana, a psicanálise adquiriu novas concep- era da pessoa sadia, que deveria saber inter- ções metapsicológicas, como, por exemplo, as pretar. Aos poucos, alguns autores (principal-MANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA 45 mente o casal Baranger e Bion) foram propon- analítico" designa uma profunda modificação do a relevância da noção de "campo da estrutura psíquica do paciente, a partir de ou seja, a de uma recíproca e permanente uma transformação das relações objetais inter- interação entre paciente e analista. nas, com as respectivas identificações, e com Assim, na psicanálise contemporânea, maiores possibilidades de as mudanças adqui- sobretudo a partir das importantíssimas con- ridas serem estáveis e permanentes. tribuições de Bion, relativas ao seu paradigma técnico, que podemos denominar "vincular- dialético": "vincular" porque em toda relação INTERPRETAÇÃO E humana sempre estão presentes, sendo indisso- ATIVIDADE ciáveis, os vínculos de amor, ódio e conheci- mento, enquanto o termo "dialético" alude ao Na psicanálise contemporânea, poucos fato de que, continuadamente, integrantes são os analistas que ainda permanecem em do par analítico estão em uma permanente uma atitude unicamente concentrada no uso interação dialética, ou seja, à tese do paciente exclusivo de interpretações formais, sistemati- ("...ninguém gosta de mim..."), analista pro- camente transferenciais, formuladas ao pacien- põe uma antítese (convida o paciente a escla- te como sendo uma espécie de "verdade final". recer e fundamentar essa sua forma de perce- Pelo contrário, a tendência atual é que o ana- ber e pensar, e, após, levanta outras teses pos- lista considere a interpretação como não mais síveis, em torno dos mesmos fatos, a serem do que uma "hipótese" que está sendo levan- pensadas por aquele); a síntese do tripé dia- tada por ele, cabendo ao paciente aceitá-la ou lético é representada pela aquisição do insight. refutá-la, porém o mais importante é que ele Cabe enfatizar, como uma decorrência do "reflita" sobre ela. que está sendo dito, que a psicanálise moder- Levando em conta tal objetivo, a técnica na está fundamentalmente baseada no exercí- analítica dos nossos dias dá uma grande im- cio da dúvida permanente, atitude essa que se portância ao que se está denominando "ativi- opõe àquela de que tanto paciente como dade a qual designa uma liber- analista abriguem-se em um saber congelado. dade para terapeuta intervir com maior fre- Assim, o constante perguntar-se é considera- qüência toda vez que ele julgar ser útil fazer do um forte aliado do processo analítico. um "clareamento" daquilo que esteja ambíguo no relato do paciente; um "confronto", por exemplo, entre que o paciente diz e desdiz, BENEFÍCIO TERAPÊUTICO entre que diz e faz; um assinalamento de atos E RESULTADO ANALÍTICO falhos, lapsos, contradições, paradoxos, den- tre outros, e, sobretudo, o uso de "perguntas", Uma importante variável que deve ser não as unicamente voltadas à coleta de dados levada em conta no que diz respeito a como nem, tampouco, aquelas que guardam uma agem as terapias analíticas é aquela que refere natureza inquisitória, mas, sim, perguntas insti- mais precisamente a quais objetivos o analista gantes, que possibilitem o levantamento de e o paciente pretendem; qual é a "teoria de "novos vértices" de percepção e reflexão de um cura" de cada um deles. Assim, não obstante a mesmo suceder psíquico. essência do comportamento técnico do analis- Partindo dessa posição técnica, pode-se ta se conserve a mesma, alguns detalhes de ma- deduzir a importância que estamos conferin- nejo técnico modificam-se no caso de a pre- do às funções de perceber e pensar, o que per- tensão ficar restrita à obtenção de "benefícios mite induzir a necessidade de o analista "cons- perfeitamente válidos e impor- truir um clima de levando em tantes, considerando que eles promovem a re- conta que nem sempre um determinado paci- solução de crises agudas, esbatimento de sin- ente está em condições de receber uma carga tomas, uma melhor adaptação familiar e so- de interpretações no "aqui-agora-comigo" da cial, porém os resultados podem ser instáveis, transferência, na hipótese de que ele ainda não sujeito a possíveis recidivas. Já um "resultado se sinta "aí" com seu analista.46 DAVID E. ZIMERMAN DOIS EIXOS TÉCNICOS: do das interpretações (muitas delas esdrúxulas INTERPRETAÇÃO E "ATITUDE e altamente intelectualizadas), mas, sim, ao PSICANALÍTICA INTERNA" fato de que eles não tinham medo ou repulsa pelo paciente em estado de alto grau de re- A partir da de que a interpre- gressão; pelo contrário, a atitude analítica des- tação, por si só, não é único fator terapêutico sas figuras mais notáveis da psicanálise era de analítico, e que a sua eficácia está intimamen- coragem, continência, amor ao trabalho, ao pa- te ligada a uma concomitante e autêntica "ati- ciente e à verdade, além de outros atributos tude psicanalítica interna", convido o leitor a equivalentes. imaginar um sistema cartesiano, em forma da letra "L", composto por um eixo vertical, que vamos denominar "eixo das interpretações", e UM CONCEITO MAIS AMPLO um outro, horizontal, considerado "eixo da DE "INTERPRETAÇÃO" atitude psicanalítica interna". Este último alu- de ao fato de um "algo mais" que, indo além A noção mais clássica de "interpretação" da interpretação formal, transmite ao pacien- visava essencialmente a atingir o conflito psí- te uma sensação de que ele está sendo com- quico resultante do embate entre mecanis- preendido, acolhido, contido, acompanhado e mos defensivos do ego contra as pulsões pro- respeitado pelo seu terapeuta, com quem co- vindas do id, ou das ameaças e mandamentos meça a estabelecer um vínculo de uma recí- emanadas por um superego tirânico e puniti- proca confiança e esperança, situação analíti- vo, ou, ainda, das fantasias inconscientes de ca essa que somente se estabelece com solidez toda natureza, especialmente as destrutivas, quando os referidos sentimentos despertados além da configuração interna de uma conse- no paciente correspondam, de fato, a sentimen- qüente constelação de identificações patóge- tos que, verdadeiramente, o analista nutre em nas. Todos esses fenômenos psíquicos conti- relação a ele. nuam plenamente vigentes e requerem ser ana- Creio que quanto maior for a organiza- lisados em profundidade, de acordo com as téc- ção do self do paciente, maior será a importân- nicas habituais. cia do eixo da interpretação; em contrapartida, No entanto, além desses aspectos, impõe- quanto maior for a sua desorganização, com se agregar outros que representam um gran- um estado de regressão do paciente a níveis de avanço para o objetivo analítico de pro- primitivos (estados psicóticos, borderline, etc.), mover transformações mais amplas, intensas mais cresce a relevância do eixo horizontal da e extensas: refiro-me às concepções de "re- atitude analítica, a ponto de, muitas vezes, so- presentações, identificações patógenas e signi- brepujar a ação direta da interpretação formal. ficações", seguidas da tarefa analítica de, res- Deve ficar claro que um eixo não exclui ou- pectivamente, serem transformadas, em um tro; pelo contrário, eles se complementam e primeiro momento, em uma desocupação são indissociáveis, porém cabe ao analista ter ("des-representações"; "desidentificações" e a sensibilidade para perceber qual a propor- "dessignificações") do enorme espaço que, de ção que, para um determinado paciente, deve forma patogênica, ocupam no psiquismo do ser conferida para um ou outro eixo. paciente; como um segundo passo, que esse A partir deste ponto de vista, fica mais espaço, agora já liberado, seja ocupado por fácil entender por que muitas condutas técni- "neo-representações", "neo-identificações" e cas que, conforme trabalhos publicados, foram "neo-significações". utilizadas pelos nossos maiores mestres, como Talvez uso de breves vinhetas clínicas Freud, M. Klein e Bion para mencionar uni- possa esclarecer melhor o que estou preten- camente os três gênios da psicanálise -, con- dendo transmitir. dutas essas que, vistas com a óptica de hoje, Assim, em relação às representações, re- permitiriam acerbas críticas, em contraste com cordo-me de uma paciente que, não obstante o fato de que, na maioria das vezes, eles obti- ser muito bonita, fato reconhecido por todos veram excelentes resultados clínicos. Creio que que a conheciam, mantinha uma absoluta con- a eficácia terapêutica não se deveu ao conteú- de que era muito feia, e que a opiniãoMANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA 47 contrária de todos os outros devia-se a uma Virgem Maria". O alívio só veio com o trabalho "pena" que sentiam dela. Argumentos basea- analítico de uma neo-significação do mesmo dos na lógica não surtiam menor efeito, até fato masturbatório, ou seja, a gradual retirada uma sessão na qual a paciente acendeu uma dos significados de pecado diante de Deus e "luz", ocasião em que deu a entender que seus de crime hediondo cometido contra "Nossa pais, no seu processo de educação, seguida- Senhora, sua mãe", seguido de novos signifi- mente usavam expressões como: "criança que cados, mais centrados no aspecto sadio da não se comporta bem, que incomoda, é feia", masturbação infantil, como um despertar do além de outras tantas recriminações análogas. erotismo natural, com uma sadia busca de sa- O prosseguimento da análise comprovou que, ciar a curiosidade pelo conhecimento de seu pelo fenômeno do imprinting, tais significados corpo. Recordo que, ao utilizar o recurso téc- ficaram impressos na mente inconsciente da nico de abrir um outro "vértice" de percepção paciente, de sorte que os seus sentimentos e compreensão dirigida ao seu lado adulto, não "menos nobres" que habitavam o seu psiquismo lhe ocorria a possibilidade de que o padre, ain- (ódio, inveja, ciúme, rebeldia e outros) eram da que bem-intencionado, pudesse ter dito para automaticamente significados por ela como os alunos nada mais do que uma "besteira", o sendo uma "pessoa feia", situação que, a par- que fez rir demoradamente. tir daí, permitiu uma neo-representação do seu verdadeiro corpo. Quanto às identificações patógenas, tanto AMPLIAÇÃO DA NOÇÃO as que resultaram da introjeção de pais que DE ESPAÇO PSÍQUICO realmente foram muito complicados, ou devi- do às intensas distorções da figura real dos pais, Classicamente, o espaço mental de qual- conseqüentes das fantasias inconscientes das quer pessoa é descrito como ocupado pelas ins- crianças (todos temos a experiência clínica de tâncias psíquicas do id, ego e superego, acres- que, decorridos alguns anos de análise, a des- cido das representações e, especialmente, por crição que certos pacientes faziam dos pais fi- objetos que, desde sempre, foram introjetados cam, após, quase que totalmente irreconhe- ou reintrojetados, em um "vaivém" entre iden- cíveis), o que cabe realçar é a especial impor- tificações projetivas e introjetivas. tância que adquire a pessoa do analista, como Atualmente, cabem alguns acréscimos um novo (neo) modelo de identificação, de que possibilitam ao analista uma visão mais modo a favorecer o fenômeno que Kohut ampla a ser trabalhada nos distintos aspectos (1977) denominou internalização transmuta- do psiquismo do paciente, que tanto podem dora, ou que Bion (1992) considerava uma estar em harmonia e complementação como, importante internalização do paciente de uma também, é provável que essas distintas facetas função psicanalítica da personalidade. convivam em desarmonia, com manifestações Relativamente às significações, vou ilus- contraditórias, ou em oposição, ou em forma trar com uma vinheta clínica trivial: um pa- de "conluio perverso" entre si. Dentre os alu- ciente, em um estado psicótico, repetia com- didos aspectos intrapsíquicos que merecem ser pulsivamente que ele não prestava, não mere- agregados, entre outros mais, cabe destacar os cia a atenção e o afeto das pessoas, que mere- seguintes: cia, isso sim, que Deus castigasse, etc. Com o decorrer das sessões, relatou que tudo isso se 1. A existência de um grupo interno. Par- devia ao "abuso excessivo da prática da mas- to da noção de que "todo indivíduo é um gru- turbação" quando era criança. Questionado pe- po", porquanto habita no interior de seu psi- lo terapeuta sobre qual o mal que ele via na quismo um conjunto de personagens, como masturbação, narrou que sua memória estava mãe (tanto a "boa" quanto a "má"), pai (idem), obcecada com a lembrança de uma frase dita irmãos, avós e outros, que não estão em um pelo padre-professor durante uma aula de ca- estado meramente passivo, mas, sim, em per- tecismo: "Cada gota de esperma derramado no manente e intensa interação de características crime do onanismo corresponde a uma gota singulares e peculiares para cada um. Assim, de sangue que se esvai de Nossa Senhora, a pode-se dizer que, mais do que objetos sim-48 DAVID E. ZIMERMAN plesmente introjetados, o que na realidade re- tenção de um estado de completude, com às leva é o fato de que se trata de uma interiori- conseqüentes falhas na aceitação de qualquer zação de objetais". A importância tipo de frustração. ideal do ego, por sua disso na técnica analítica fundamenta-se no vez, alude a um estado psíquico no qual o fato de que as referidas relações objetais inter- sujeito sente-se coagido a corresponder aos nas são projetadas para mundo exterior, de seus próprios ideais e aos que foram agrega- modo a determinar, inconscientemente, a es- dos, oriundos das expectativas intensamente colha das novas relações com pessoas com as idealizadas que os pais através dos seus dis- quais poderemos viver o resto da vida e que cursos e desejos, ocultos ou manifestos de- muito possivelmente podem estar reeditando positaram nele, nosso paciente, que, assim, nada mais do que aquelas primitivas relações, se sente obrigado a corresponder, pois, caso produzindo configurações vinculares, normais contrário, ele é invadido por uma sensação ou patológicas. de fracasso, vergonha e humilhação. Também 2. conceito do fenômeno de imprinting, é útil acrescentar a noção de "alter-ego", que observado pelos etólogos em relação ao reino se refere ao fenômeno do "duplo" (uma parte animal, permite valorar o impacto de determi- dissociada, não-assumida por um certo sujei- nadas sensações e experiências emocionais pri- to, é projetada numa outra pessoa, que assu- mitivas, quer sejam as traumáticas e estres- me este papel, como se fosse um dublé do santes, quer as prazerosas, que ficam impres- outro); como, por exemplo, na política brasi- sas em algum canto do self, sob a forma de leira, em certa época, P. C. Farias funcionou representações (de "coisa" ou de "palavra", se- como alter-ego correspondente à, oculta, gundo Freud), acompanhadas com as devidas parte perversa do então presidente Collor. significações, determinadas pelas fantasias in- Ademais, na psicanálise contemporânea, ga- conscientes da própria criança ou pelo discurso nha um relevo especial a instância de uma "or- dos pais, veiculando ameaças, mandamentos ganização a possível existência e expectativas. de um "contra-ego", que funciona como um 3. As instâncias psíquicas, na psicanáli- sabotador da parte sadia do paciente que de- se clássica, sempre foram consideradas como seja crescer. Por fim, o espaço psíquico tam- de natureza tripartide, compostas pela pre- bém pode abrigar uma outra instância, ocupa- sença de id, ego e superego, sendo útil regis- da por um "supra-ego" constante da parte trar que Freud empregava os termos "ego ideal" psicótica da personalidade -, o qual, indo além e "ideal do ego" com um significado pratica- dos mandamentos e das ameaças do superego, mente idêntico ao de superego. Hoje em dia, cria a ilusão no sujeito de que, tal qual "sua poucos contestam a necessidade de fazer uma majestade, o bebê", seja ele quem faz as leis, nítida distinção conceitual entre estes três ter- e os demais, que são vistos como súditos dele, mos. Assim, o termo "superego", que, na con- devem lhe obedecer fielmente, caso contrá- cepção de Freud, forma-se como o herdeiro di- rio ele fica possuído por um ódio violento. reto de Édipo, continua designando a instân- cia psíquica encarregada de impor normas, Uma atenção especial por parte do ana- mesmo que sejam sob a forma de mandamen- lista para cada uma dessas instâncias e su- tos, ameaças, terrorismo e punições, às vezes binstâncias que habitam o psiquismo de nos- de forma cruel, embora deva ser feita a ressal- so paciente, com o respectivo manejo técnico va de que é indispensável a presença de um apropriado, representa um importante enten- superego normativo, que podemos chamar de dimento de como agem as terapias analíticas. "ego auxiliar" ou "superego bom", o qual im- põe os necessários limites, contato com a rea- lidade exterior e obediência às leis culturais e MAPEAMENTO DO PSIQUISMO legais, além da conduta dentro de princípios éticos. Em termos psicanalíticos, não é mais con- 4. Já "ego ideal" é considerado her- cebível que um analista encare psiquismo deiro de Narciso, de sorte que essa instância de um paciente como um bloco unívoco e uni- emana aspirações ilusórias que visam à ob- forme; muito pelo contrário, a mente de todaMANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA 49 e qualquer pessoa comporta-se como um mesmo paciente com determinada psicopa- "mapa-múndi" que de tempos em tempos tologia pode evoluir analiticamente bem com apresenta novos desenhos geográficos, isto é, um analista, mas mal com outro, consideran- também a geografia do psiquismo de cada do que ambos sejam filiados a uma mesma cor- sujeito vai sofrendo transformações com rente psicanalítica e sejam igualmente compe- correr do tempo, sobretudo após sérias tur- tentes, enquanto pode acontecer o inverso com bulências e "guerras internas". Igualmente, outro paciente. existem pontos cardeais psíquicos que apon- Isso estaria atestando que um "algo mais" tam para uma direção ou outra; a presença de forma-se no campo analítico, além do cumpri- zonas pacíficas e outras turbulentas; superfí- mento formal e correto que demanda uma aná- cies planas e montanhas íngremes; regiões po- lise séria e bem-feita, da mesma forma como lares glaciais e equatoriais tórridas, etc. se passa na vida real, quando certos casais, sem importante a ser destacado é que o alu- que saibam por que, unem-se e se amam por dido mapeamento do psiquismo de cada pa- alguma "química especial". ciente (para tanto, o analista já deve ter feito, suficientemente bem, o seu próprio mapea- mento) funciona como um forte fator terapêu- ANALISTA COMO UM NOVO tico da terapia analítica, pois facilita um "en- MODELO DE IDENTIFICAÇÃO tendimento" entre as distintas e contraditórias partes da personalidade de cada um, levando Penso que este fator seja um dos mais re- o paciente a dialogar consigo mesmo, assim levantes em relação ao presente tema de "como minimizando reações imprevisíveis e parado- agem as terapias analíticas?". De fato, da mes- xais, bem como poupando energia psíquica que ma forma como uma criança desenvolve-se psi- pode ser muito mais bem aproveitada. quicamente por meio das identificações, sadi- Para completar a metáfora com o mapa as e/ou patógenas, que, silenciosamente, ele do globo terrestre, cabe afirmar que, da mes- vai erigindo com seus pais, também o pacien- ma forma como um navegador necessita de te, à parte do inconteste valor das interpreta- uma bússola para percorrer e explorar as di- ções, igualmente vai construindo novos valo- versas latitudes do mundo, também analista res e posições advindas de novas identificações e o paciente necessitam desenvolver uma "bús- com a pessoa do seu analista, as quais, como sola para evitar que fiquem nave- um processo de osmose, vão se incorporando gando a esmo, perdidos e angustiados, sem ao seu self. rumo definido, na análise e na vida. Assim, de forma insensível, o paciente capta a maneira como o seu analista enfrenta situações de angústia, como ele utiliza a sua A PESSOA REAL DO ANALISTA forma de perceber e de pensar; ele nota a per- manente atitude de amor às verdades, demons- Trata-se de um tema polêmico e contro- trada pelo terapeuta, além das evidências de vertido que divide analistas. Alguns consi- como seu analista discrimina os fatos e senti- deram que, independentemente da pessoa do mentos, respeita e tolera as diferenças e as ine- analista, com seus reais atributos e valores pes- vitáveis limitações, impõe limites sem arrogân- soais, o que importa é a vivência transferencial cia, concede liberdade sem licenciosidade e, so- que o paciente desloca e projeta nele; enquan- bretudo, acredita nele, paciente. to outros analistas entre os quais me incluo Este processo vale para todos os pacien- pensam de modo diferente, atribuindo à pes- tes, porém, sem dúvida, ele é sobremaneira soa real do terapeuta um papel de alta rele- importante para aqueles que são portadores de vância no curso da análise. fortes identificações patógenas ou para aqueles Um grupo de psicanalistas norte-ameri- que apresentam "vazios", cognitivos e afetivos, canos (Kantrowitz, 1989) desenvolveu con- que os pais não conseguiram preencher, sendo ceito de match, palavra que pode ser traduzida que, às vezes, com grande perplexidade, esses por "encontro", segundo qual, mercê de com- pacientes percebem que existem modelos bas- provações de fundamentação científica, um tante diferentes daqueles que desde pequenos50 DAVID E. ZIMERMAN habituaram-se a acreditar como sendo os úni- NOVAS TÁTICAS NA TÉCNICA cos existentes na espécie humana. Na atualidade não custa repetir -, um importante fator terapêutico consiste em uma ANÁLISE DO CONSCIENTE participação mais interativa do paciente em relação à tarefa analítica e ao analista, opinan- Estou entre aqueles que pensam que a do, contestando, lembrando fatos e sentimen- psicanálise deu uma justa e adequada impor- tos e, sobretudo, pensando, refletindo sobre tância ao acesso às áreas do inconsciente do que escuta do analista e de como este o escu- psiquismo do paciente. No entanto, tenho difi- ta. Para tanto, cabe ao terapeuta propiciar uma culdades de entender por que sempre tem ha- atmosfera analítica que, parodiando Winnicott vido um notório descaso à "análise do cons- em relação ao seu conceito de "jogo do rabis- ciente", talvez pela razão de que os autores co" (squiglle game), podemos chamar de "ra- creiam que toda e qualquer manifestação cons- bisco verbal", ou seja, o paciente traz alguma ciente sempre encontra alguma forma de par- informação, ou associação, a qual o analista ticipação do inconsciente. faz alguma intervenção, propiciando ao pa- Tal como está explicitado em capítulo es- ciente algum novo acréscimo de seus pontos pecífico, alguns dos fatores conscientes do de vista, de modo que, em um verdadeiro jogo paciente que influenciam sobre curso da aná- dialético, ambos estão empenhados em uma lise e funcionam como agentes terapêuticos construção conjunta, cada um colaborando são: 1) o de que o paciente venha a exprimir com os respectivos "tijolos", um por um. verbalmente, com palavras diferentes, senti- Assim, o analista tem o recurso de utili- mentos diferentes, de modo a desenvolver as zar táticas que instiguem o paciente a refletir, capacidades conscientes de discriminação, sín- como é o caso de formular perguntas que se- tese e nomeação das experiências emocionais; jam de natureza as- 2) desenvolver nele a capacidade de reconhe- sim como também é bastante útil que o cer o seu quinhão de responsabilidade conscien- terapeuta abra novos vértices de percepção dos te, por tudo aquilo que ele pensa, diz e faz!; 3) mesmos fatos, de como o paciente os relata, é importante que o paciente se comprometa percebe e sente. afetivamente com tudo o que narra e compre- Os exemplos seriam intermináveis, po- ende de forma intelectualizada; 4) existe um rém, a título de ilustração, cabe lembrar aque- movimento crescente de valoração da função las situações comuns nas quais o paciente tem cognitiva do paciente, isto é, de ele querer co- a sua "tese" de que o analista esteja impacien- nhecer os fatos e os fenômenos que cercam a te e irritado porque estaria "gritando" com ele, sua vida, e a importância de sua vontade ao que o analista pode contrapor uma outra volitiva em mudar certos hábitos e conduta; possibilidade (para tanto, ele deve ser sincero 5) tudo o que está sendo dito em relação ao com que realmente sente), como a hipótese paciente também é válido para o analista, e um de que aquilo que lhe pareceu "grito" não foi bom exemplo disto é o da utilização da "capa- nada mais do que uma modulação vocal para cidade negativa", ou seja, mercê de um esfor- enfatizar certo aspecto significativo. ço consciente, analista pode conter os senti- Outro exemplo: diante de um assinala- mentos "negativos" resultantes de uma difí- mento importante de algum aspecto negado cil contratransferência que, por vezes, inva- pelo paciente, esse costuma dizer "só se for in- dem a sua mente; 6) também é inerente à "aná- consciente", como se ele nada tivesse a ver com lise do consciente" a tarefa analítica de propi- que lhe foi mostrado, ao que o analista pode ciar ao paciente o desenvolvimento de impor- redargüir: "Mas a quem pertence o seu incons- tantes funções que, em grande parte, são da ciente?". Outro exemplo banal: com pacientes órbita do ego consciente, tais como percepção, que, diante de qualquer fato adverso que acon- pensamento, conhecimento, juízo crítico, dis- teça, mesmo que sejam insignificantes, costu- criminação, comunicação, responsabilização e mam se lamuriar: "Por que é comigo que essas ação, entre outros. coisas sempre acontecem?", justifica que o ana-MANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA 51 lista lhe pergunte: "E por que não também com vo no que se refere à questão de como agem as você?". Até mesmo quando certos pacientes terapias analíticas sinalizam claramente que estejam manifestan- do significativas melhoras analíticas, porém, por razões diversas, estejam negando essa evi- dência, embora façam relatos que demais pes- soas com quem ele convive comentem de mu- Intimamente ligada às descobertas das danças positivas, cabe fazer aquela singela neurociências ou da "neuropsicanálise", como perguntinha: "Quer dizer que todos à sua vol- muitos estão denominando -, deve ser dado ta se combinaram para dizer a mesma coisa um destaque especial à moderna psicofarmaco- sobre você, ou todos eles mudaram, menos logia, como os antidepressivos, por exemplo, você?". E assim por diante, de forma mais su- os quais, fazendo a ressalva que freqüentemen- perficial ou profunda, é importante estimular te têm sido usados de forma inadequada, re- a capacidade para o paciente fazer reflexões presentam um enorme avanço no arsenal conscientes. terapêutico de transtornos mentais, inclusive em pleno andamento de algum processo ana- lítico clássico. A propósito, é útil lembrar que NEUROCIÊNCIAS até pouco tempo os psicanalistas advogavam a posição de não usar medicamentos na vigên- O moderno rigor científico que está ca- cia da análise, pois desapareceria a necessária racterizando as profundas pesquisas no cam- presença de angústia no paciente, além de des- po da neurobiologia vem permitindo que mui- virtuar os princípios básicos de uma análise; tos fenômenos psíquicos que exigiam explica- na atualidade, são poucos os que contestam ções metapsicológicas estejam encontrando um que o uso apropriado da medicação, emprega- entendimento por meio de circuitos neuronais, do concomitantemente com a terapia analítica das sinapses que ligam as vias de condução formal, pode ser um excelente aliado do entre os neurônios, e estes, com uma estreita terapeuta e, pelo menos em minha experiên- conexão e recíproca influência com o sistema cia, auxilia uma melhor evolução da própria hipófise, hipotálamo e supra-renal, e também análise. com primitivas áreas cerebrais subcorticais. Da mesma forma, tais investigações científicas es- tão possibilitando comprovar o fato de que os PATOGENIA DE MUDANÇAS fatores ambientais muito especialmente os PSÍQUICAS NA TERAPIA ANALÍTICA que determinaram o fenômeno do imprinting possam modificar os hereditários, e vice-ver- Nem sempre as mudanças efetuadas no sa. A importância direta disso na prática analí- curso de uma terapia analítica, ou após o seu tica é que os analistas, podendo ter um conhe- término, correspondem a verdadeiras mudan- cimento consciente dos fenômenos com raízes ças analíticas, no sentido de um significativo inconscientes, com as devidas explicações das crescimento mental, mesmo na hipótese de que causas orgânicas, podem nomear, para si e oca- tanto o paciente quanto também o analista sionalmente para paciente, as arcaicas sen- mostrem-se satisfeitos com resultados alcan- sações e experiências emocionais primitivas çados. Aliás, alguns importantes autores, como que até então não tinham nome. Por exemplo, Winnicott e Bion, chamavam a atenção para o surgimento, muitas vezes inexplicável, de ter- esta possibilidade de resultados analíticos fal- ríveis sensações de angústia, que hoje adqui- ou incompletos. riu uma compreensão consciente, um nome Assim, Winnicott (1969) alertou para a "síndrome do pânico" e, portanto, um mane- possibilidade de que muitas análises são apa- jo clínico analítico e farmacológico (igual- rentemente bem-sucedidas porque tanto o pa- mente poderia servir de exemplo, o quadro ciente, seus familiares e o próprio analista es- psicopatológico da "depressão endógena"), que tão satisfeitos com as "melhoras", porém, do se constitui em um fator altamente significati- ponto de vista psicanalítico, tudo não passou52 DAVID E. ZIMERMAN de um faz-de-conta, assentado em idealizações, mais, talvez parados no mesmo lugar, "com analista e paciente coniventes na for- sem um rumo certo a prosseguir. Uma mação de um fracasso analítico" (Winnicott, vez despertado para esse fato, é útil p.275). que crie uma certa "turbulência" no Bion, por sua vez, refere a possibilidade andamento da terapia. O termo "tur- de uma "cura cosmética" e também utiliza duas bulência" é de Bion, que, para escla- metáforas para esclarecer a possibilidade de recê-lo, utiliza a metáfora de um lago um "crescimento mental negativo": em uma das de águas que estão tão paradas que é metáforas, compara com "crescimento de um necessário que se jogue uma pedrinha, tumor"; na outra, faz menção ao "crescimento a qual provocará um pequeno rede- para baixo, tal como a cauda de um cavalo". moinho, que, por sua vez, então, per- Cabe assinalar algumas das formas que as mitirá a comprovação da existência da referidas "pseudomudanças" podem adquirir: água. 1. Uma análise estagnada ou que teve re- b) Um conluio do tipo de uma recíproca sultado muito incompleto. Geralmente, tais si- fascinação narcisista, em cujo caso ana- tuações resultam da contração de alguns tipos lista e paciente estão mutuamente tão de conluios inconscientes, entre paciente e ana- deslumbrados (vem de des + lumbre), lista, do que de "pontos cegos" em ambos, tor- ou seja, a luz do narcisismo é tão for- nando impossível enfoque analítico de cer- te que tira (des) a luz (lumbre), isto tos aspectos importantes, como é, por exem- é, cega ambos, de sorte que não se plo, a análise da "parte psicótica da personali- forma um espaço para analisar aspec- dade" que, em algum grau, todos somos por- tos agressivos e, muito menos, os as- tadores. Dentre esses conluios, vale mencio- pectos narcisistas. nar dois deles: 2. Formação de um falso self. Situação nada a) Um conluio de acomodação. Nesses ca- rara de acontecer, quando o paciente repete sos, ambos do par analítico estão em com o analista uma modalidade de configura- um clima de aparente harmonia, já ção vincular análoga a que ele teve quando não acontece nenhuma turbulência, criança pequena com os seus pais, com os quais, nem agressiva ou erótica, paranóide desde muito cedo, aprendeu a adivinhar os ou depressiva, etc., tudo parece estar desejos deles (por exemplo, ser obediente, bem em grande paz, com o paciente sen- comportado, aluno exemplar, presenteando tindo-se gratificado com analista por com sucessivas gratificações às expectativas dos ele idealizado, e vice-versa. No entan- pais em relação a ele, etc.) para garantir o amor to, é bastante possível que essa calma- desses pais (ou o do analista, no caso da tera- ria (em situações mais extremadas, pia analítica). Bion denomina "calma do desespero") 3. Crescimento acromegálico. Justifico a razão pela qual proponho esse termo: a pala- possa estar indicando que o processo vra "acromegalia" designa, em medicina, uma analítico esteja estagnado, com mui- doença da glândula hipófise, de cuja disfunção tas lacunas importantes não-analisa- resulta um crescimento disforme do corpo, das, e que o tratamento prossegue pela que é feito às custas de que as extremidades razão maior de que os dois estão aco- (acros) corporais, como nariz, queixo, mem- modados, pelas suas respectivas ra- bros, sofram um gigantismo (megalo). De for- zões pessoais, dentre elas a de evitar ma equivalente, pode acontecer que um de- as angústias que resultariam de uma terminado paciente possa crescer efetivamen- separação entre eles. Nesses casos, é te em áreas importantes de sua vida adulta recomendável que o analista desperte (conseguiu casar, ter filhos, sucesso profissio- de sua acomodação, perceba que es- nal...), porém seu lado infantil, que está tão navegando em águas calmas de- subjacente, não acompanhou crescimentoMANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA 53 do seu lado adulto. Nesses casos, mais pro- fletem a reprodução de uma criança que men- vável é que esse paciente, embora bem-suce- te para não decepcionar e apanhar dos pais, dido na vida real, carregue permanentemen- ou, ainda, a possibilidade de que as mentiras te consigo uma sensação de fragilidade, de- sejam de natureza algo maníaca, para aparen- samparo, ameaça de perder tudo o que con- tar que ele seja, ou possui, algo valorizado, que seguiu, além de uma instabilidade de humor, na realidade não possui e, tampouco, ele é, em porquanto há uma alternância entre predo- cujo caso ele mente como recurso para negar mínio do lado adulto e do lado da criança tí- seus vazios e depressão subjacente. mida, assustada e depressiva, que não foi su- Lembro-me de uma entrevista inicial em ficientemente analisado. que pretendente ao tratamento analítico, 4. Iatrogenia. A etimologia deste termo diante de minha pergunta que visava a avaliar (originário do grego yatros, que significa "mé- a sua motivação para a análise, prontamente dico", acrescido do étimo que designa gênese) respondeu-me: "E que sei que sou um grande dá uma clara noção de que alude àquelas do- mentiroso", e deu-me exemplos do exagero enças que têm origem numa inadequada con- com que ele me pintou algumas das situações duta médica. Igualmente, os analistas que, por que um pouco antes relatara. Voltei a pergun- definição, em grande parte, trabalham em uma tar se, de certa forma, ele estava orgulhoso de larga faixa de sentimentos ocultos e abstratos, sua "esperteza". Como resposta afirmou que também podem, involuntariamente, contribuir até pouco tempo, sim, mas começou a cansar para um resultado patogênico ao psiquismo do e queria (pareceu-me sincero) mudar! Sensi- paciente. São exemplos disso, os casos em que bilizado pelo seu lado honesto que poderia ser o terapeuta envolve-se em conluios "perversos" um importante auxiliar na formação de uma (como envolvimento sexual, feitura de negó- "aliança decidi aceitar o compro- cios, etc.) ou que, por meio de maciças identi- misso de uma terapia analítica. Decorridos al- ficações projetivas na mente do paciente, guns anos, não me arrependi. analista pode usá-lo como uma espécie de "du- Os principais recursos técnicos para es- plo" dele, terapeuta, de sorte que o paciente ses casos de pacientes que mentem são dois: vai praticar actings (eróticos, por exemplo) que, tornar egodistônico para o paciente o seu uso manifestamente, o analista não tinha como de mentiras, toda vez que prevalece nele uma praticar. Muitas outras ações iatrogênicas de- egossintonia com essa sua caracterologia. A letérias poderiam ser mencionadas, como a já segunda recomendação técnica é o analista aludida construção de um "falso a libera- manter uma visão binocular, ou seja, enfocar, ção, no paciente, de um lado "perverso" ou de forma concomitante, tanto os aspectos in- psicopático; e, ainda, uma deficiência técnica conscientes que geraram a necessidade com- que induza a depressões, idéias obsessivas de pulsiva de mentir quanto a necessidade de o homossexualidade, aumento de culpas com paciente assumir a responsabilidade conscien- baixa da auto-estima, fracassos analíticos que te dos danos que essa sua conduta produz nos reacendem e robustecem, no paciente, uma outros e, especialmente, contra si mesmo. penosa de que ele fracassa em tudo 6. que fazer com um paciente que não o que tenta fazer, fato esse que fica muito am- quer mudar? Quase todos os analistas mais pliado nos casos que culminam com o surgi- experientes já tiveram pessoas em análise que, mento de uma (ou "relação"?) tera- embora cumpram bastante bem as combina- pêutica negativa". ções analíticas, sejam assíduos, pontuais e 5. É possível analisar um paciente menti- manifestamente colaboradores, ainda assim, roso? Esta instigante pergunta foi formulada decorrido um certo tempo, às vezes longo, po- por Bion. Em minha experiência, creio que não dem surpreender o terapeuta quando esse dá- existe uma resposta única, pois cada paciente se conta de que não estão acontecendo mu- mentiroso apresenta suas singularidades espe- danças significativas, embora ele tenha a con- cíficas, com variações de qualidade, grau e, de que está realizando a tarefa psicana- sobretudo, se as mentiras desonestas estão a lítica dentro da adequação das normas habi- serviço de uma intenção psicopática ou se re- tuais. Por que, então, esse paciente, mesmo sen-54 DAVID E. ZIMERMAN do uma pessoa inteligente, culta e com boa ca- pécie de "juramento" de nunca mais se apegar pacidade de reflexão, não faz mudanças ver- ou depender de alguém e, muito menos, "dar dadeiras? braço a torcer" para quem quer que seja Na maioria das vezes, trata-se de pacien- logo, analista, obviamente, está incluído. tes que, inconsciente e seguidamente, com uma intencionalidade consciente, não querem mudar! Cabe a recomendação técnica de que o Isso se deve a uma série de fatores, variáveis analista deve evitar a manutenção de uma dis- de um paciente para outro, como pode ser sociação do tipo que ele é quem se empenha e de uma forte couraça de defesas narcisistas (em faz questão que paciente melhore, cresça e situações mais extremas, existem aqueles pa- mude, enquanto esse, inconsciente ou cons- cientes que "entram em análise com um obje- cientemente, continua, de forma sutil, aferra- tivo definido de provar que a análise e ana- do à sua posição de nunca mudar (lembra o lista não podem com ele"). Outras couraças paciente "antianalisando", tal como foi descri- defensivas rigidamente estruturadas podem ser to por J. M. Dougall, 1972). Diante desses ca- tecidas com defesas obsessivas, maníacas, pa- sos, costumo usar recurso de convidar o pa- ranóides, fóbicas, perversas, etc., que, ilusoria- ciente a refletir e a assumir conscientemente mente, protegem o paciente de um temor muito se ele deseja, de verdade, fazer mudanças. Não ameaçador, como a de que ele venha a sofrer poucas vezes, o analista poderá se surpreen- novas decepções (rejeição, traição, humilha- der que paciente admita francamente que, ção...) iguais às que sofreu no passado, ou que de fato, não deseja fazê-las. A partir dessa pre- mergulhe em uma terrível depressão, ou psi- missa, dando a liberdade de ele permanecer cose, sem que haja volta à superfície, ou, ain- como está, se assim deseja e assume, fica mais da, inúmeras situações equivalentes a essas. Em fácil ao analista trabalhar com as razões in- alguns pacientes, se pesquisarmos atentamen- conscientes que o levaram a adotar essa atitu- te, vamos perceber que eles fizeram, em um de consigo mesmo e com a vida em geral. certo momento sofrido de suas vidas, uma es-

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