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FUNDAMENTOS DA TÉCNICA PSICANALÍTICA I Professora: Marisa Casagrande Docente:_____________________________ APRESENTAÇÃO Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 2 I – O Processo Psicanalítico 1– O que é? 2– Analisabilidade 3– O Par Analítico II – Passos do Processo Psicanalítico 1– Ambiente – Disposição de um consultório 2– Anamnese 3– Entrevista 4– O Contrato Analítico: – A questão das anotações – Uso do Divã – Intercâmbio de tempo e dinheiro – Freqüência e duração das sessões – Tempo provável para um tratamento psicanalítico – Férias – Regra da Livre Associação – Pagamento das faltas – Mudança de horários – O material onírico – Regra de abstinência 5 – Postura do Psicanalista III – A Livre Associação 1- Definição Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 3 2- O processo 3- Um exemplo detalhado de Associação de Idéias 4- Questionário para atuação do Psicanalista IV – Aliança Terapêutica V – Transferência VI – Contra-transferência VII – Resistência: 1- Definição 2- Resistência Consciente 3- Resistência Inconsciente VIII – Os Mecanismos de Defesa – Tipos sublimados de Resistências IX – Angústia da Separação X – A Interpretação XI - Etapas da Análise XII – Vicissitudes do Processo Psicanalítico Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 4 XIII – Leitura para reflexão: Essência e regra de auto-análise sistemática (Karen Horney) Anexo I Anexo II XIV – Leitura para reflexão: Psicanálise e Paciente Psiquiátrico Anexo III XV – Bibliografia I – O PROCESSO PSICANALÍTICO Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 5 1- O que é? Embora lidando com uma palavra aparentemente simples, quando contextualizamos a mesma à Psicanálise observamos que começa a ser objeto de polêmica. Entretanto, vamos nos prender à significação mais simples, embora encontremos mesmo assim uma possível dificuldade, quando se trata de sua semelhança com Situação Analítica. Por enquanto consideraremos Processo como sinônimo de Situação Analítica. Pretendendo definir Processo Psicanalítico, queremos dizer que o tratamento psicanalítico tem um sítio, um lugar, e esse lugar é encontrado dentro da Situação Analítica. O processo é então o conjunto de fases sucessivas dentro da situação como um todo. E, em particular, a Situação fica sendo “a configuração total das relações interpessoais que se desenvolvem entre o Psicanalista e seu paciente.” Podemos criar um conceito mais simples ainda, se dissermos que o Processo inclui todos os procedimentos havidos entre Psicanalista e paciente, desde a escolha do primeiro até a RTN (reação terapêutica negativa) que o paciente experimenta quando de fato seu tratamento já está encerrado. 2- Analisabilidade Segundo os didatas mais famosos, toda vez que não existir uma contra- indicação específica e irrecusável, a Psicanálise é indicada. Entretanto, falando das contra-indicações, podemos relacionar as de natureza familiar, religiosa, amizade etc... Mas, seriam todos os pacientes Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 6 analisáveis? Seriam todos os pacientes analisáveis por quaisquer Psicanalistas? I – O PROCESSO PSICANALÍTICO O que é? Há enfermidades do universo psíquico que não são analisáveis? Outras perguntas poderiam ser levantadas, contudo tentaremos responder estas que nos parecem mais prementes. Seriam todos os pacientes analisáveis? Embora do ponto de vista etiológico, da natureza da enfermidade, o sejam, há pacientes que não preenchem os requisitos para tal. E nesse caso, até os fatores inteligência, cultura, universo religioso etc. podem contra- indicar. Nesse caso o paciente não produzirá o suficiente para o processo de interpretação ou não acompanhará o raciocínio sempre avançado do Psicanalista. Um outro fator que não podemos descartar é a idade. Seriam todos os pacientes analisáveis por quaisquer Psicanalistas? Quando estivermos diante de um paciente analisável, precisamos ainda considerar a possibilidade do tal não ser analisável por nós. Há sempre a incidência de fenomenologia que pode contra-indicar. Por exemplo: A Contra-transferência Negativa Imediata. Além deste fator, pode o paciente apresentar uma postura e característica de personalidade Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 7 desfavoráveis à constituição do Par Analítico. Isto exige muito cuidado na fase das entrevistas. Há enfermidades do psiquismo que não são analisáveis? Certamente, todas as enfermidades psicogênicas, em princípio, não oferecem condições. É claro que estamos agora lidando com o conceito de estrutural. Entretanto, há certos casos de esquizofrenias que parecem responder a uma análise profunda. Diante dessas considerações, uma outra pergunta se levantará: Quais são os pacientes tributários da psicanálise? Os Neuróticos. Só existe um tratamento eficaz para as neuroses – Psicanálise. O tratamento psiquiátrico para as neuroses é apenas sintomático. É como tirar a febre de alguém com infecção. Entretanto incluímos neste roteiro um capítulo sobre Psicanálise e Paciente Psiquiátrico. Por outro lado, temos ainda duas outras questões a considerar nesta parte: - A Psicanálise pode contribuir para os pacientes não indicados? Sim. A Psicanálise cura as neuroses, ajuda aos psicóticos e não agrava quaisquer enfermidades. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 8 - Os Psicanalistas têm que ser rigorosos na questão da analisabilidade? Em princípio sim. Pelo menos nos casos de contra-indicação familiar, de amizade etc... Contudo não será fácil recusar um paciente, especialmente se levarmos em conta as necessidades financeiras e a natureza sacerdotal de que nossa profissão se reveste. Não deve, contudo, forçar uma situação que saiba ser improdutiva. Vamos dar, ainda que resumidamente, os critérios da Dra. Zetzel de analisabilidade: - A capacidade de manter a confiança básica em ausência de uma gratificação imediata; - A capacidade de manter a discriminação entre o objeto e o self na ausência do objeto necessitado; - A capacidade potencial de admitir as limitações da realidade. Finalizando, teremos sempre bastante dificuldade com os pacientes que tendem a desenvolver prematuramente uma intensa transferência erótica desde as entrevistas face a face. 3 – O Par Analítico Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 9 A figura do Par Analítico surge em decorrência da analisabilidade. Se os requisitos para a situação analítica forem atendidos, há uma dupla de trabalho. Queremos afastar desde já a idéia de que o Par Analítico engloba aspectos transferenciais. Não engloba, mas predispõe ao surgimento da mesma. E, se não ocorrer a transferência, o trabalho será inútil, não haverá cura. Assim, para entender o mesmo, temos que considerar se um determinado paciente vai responder melhor a um analista do que a outro, ou que um analista pode tratar melhor uns pacientes do que outros. Par Analítico, é, portanto, o melhor analista para determinado paciente e o paciente adequado para determinado analista. Vale ainda considerar que essa figura não surge comimediatismo, sendo necessário um tempo determinado de contato para se ter idéia de sua medida. Isto torna fundamentais as entrevistas. II – PASSOS DO PROCESSO PSICANALÍTICO 1 – O AMBIENTE Do ponto de vista metodológico, ambiente não faz parte do processo. Entretanto, se precisamos dele para tal, não podemos ignorar a sua importância. É claro que existe ambiente e ambiente. Também sabemos que as pessoas se sentem melhor em função de certas disposições, cores etc... Assim, pensemos um pouco sobre um ambiente adequado para a prática psicanalítica. Disposição de um Consultório ou Gabinete: Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 10 - A sala não deve ser pequena em demasia; - Deve possuir os móveis apenas necessários; - Não deve ter nas paredes nada que chame a atenção; - Deve ser ambiente de pouca claridade; - A cortina deve ser de cor neutra; - Deve-se evitar enfeites sobre a mesa ou coisas que pareçam ostentação; - Se tiver estante, nela devem ter apenas livros; - Deve ser ambiente afastado de ruídos sistemáticos; - A limpeza e disposição dos móveis e demais pertences deve ser rigorosa; - O divã deve ser confortável e suficientemente largo para acomodar quaisquer pacientes; - A cadeira do analista deve estar disposta por detrás do divã, de maneira que o analista não seja visto pelo paciente enquanto livremente associa; - Não deve ter telefone nem campainha que soe dentro dessa sala, etc...; - Deve existir uma ante-sala levemente decorada. O ambiente deve oferecer ao paciente oportunidade de bem estar. Ele deve ter a sensação de que aquele local é o mais agradável possível para os 50 (cinqüenta) minutos a que tem direito. 2 – ANAMNESE Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 11 Em Psicanálise, anamnese não é entrevista. Reservamos para a entrevista um caráter formal de oportunidade para termos uma visão anímica do paciente. A anamnese é o primeiro, contato. É a ocasião em que o paciente chega ou é trazido, e neste caso já temos uma forte contra- indicação para a análise. O ideal é que o paciente venha de livre e espontânea vontade. Se bem que às vezes necessite de apoio, do encorajamento de alguém, da família ou não. Na anamnese primeiramente ouvimos as razões de nossa procura, e, em certos casos já podemos refugar um paciente neste estágio, se constatarmos tratar-se de psicótico, de alguém que já conhecemos, se já tivemos algum tipo de negócio com o mesmo, enfim. Mas, como proceder na anamnese? Fazer a ficha do paciente. Esta ficha deve ter: - Nome completo; - Data de nascimento; - Filiação; - Estado Civil; - Nível cultural; - Condição sócio-econômica; - Condição sócio-econômica e cultural da família (pais); - Número de irmãos; - Relação com os irmãos; - Desempenho escolar; - Como se relaciona na sociedade; - Religião e como pratica essa religião; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 12 - Grau de conhecimento da psicanálise; - Enfermidades que possui; - Enfermidades de que padeceu, inclusive as doenças próprias da infância; - Lesões provocadas por enfermidades; - Acidentes que padeceu; - Cirurgias que padeceu; - Quantidade de amigos; - Hábitos; - Passatempo preferido; - Medos, etc. De posse dessas informações e outras que poderão ser obtidas com as respostas a certas perguntas do chamado “Interrogatório forçado”, o psicanalista terá uma visão da analisabilidade e das possibilidades de formação do par analítico, bem como das condições econômicas que darão sustentação ao processo. Na anamnese o Psicanalista não deve prometer nada, além de sua boa vontade para com o caso, mas deixando claro que tudo vai depender do processo de entrevista. Não podemos garantir cura, nem mesmo se poderemos continuar com o caso, se bem que isto é mais teórico do que prático. 3 - A ENTREVISTA Já disse que em Psicanálise anamnese não é entrevista. Entrevista é um termo reservado para algum encontro de tipo especial, não para Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 13 contatos regulares. Trata-se, portanto, do que se faz antes de empreender um tratamento psicanalítico. Sua finalidade é, de modo mais amplo que na anamnese, decidir se a pessoa que consulta deve realizar um tratamento psicanalítico ou de outra natureza. Também nela se terá uma visão profunda das contra-indicações. Na entrevista devemos facilitar ao entrevistado a livre expressão de seus processos mentais, o que nunca se consegue com um enquadre formal de perguntas e respostas, embora durante a mesma possamos submeter algumas perguntas ou pedir que o futuro paciente fale sobre algo específico. Algumas considerações resumidas sobre a entrevista: - Tanto melhor será o campo da entrevista quanto menos participe o entrevistador; - É comum observarmos pacientes com forte dose de ansiedade e/ou angústia já na entrevista; - O analisado deve ser informado que a entrevista tem a finalidade de responder a uma consulta sobre sua análise mental e seus problemas, para ver se necessita de tratamento. - A entrevista se realiza sempre face a face e o uso do divã está formalmente afastado; - A entrevista não se baseia nas regras de Livre Associação, embora já se inicie uma espécie de ensaio da mesma; - O Psicanalista deve influenciar com atitudes não-verbais; - O Psicanalista deve anotar ao máximo, de modo elegante e não acintoso, tudo que interesse à decisão quanto a analisabilidade; - O Psicanalista não deve interpretar nem fazer diagnóstico durante a entrevista. Suas palavras devem induzir apenas; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 14 - O Psicanalista não deve recorrer a procedimentos que evitem a ansiedade, como o apoio ou a sugestão, e tampouco resolvê-la com o instrumento específico da interpretação; - No fim de cada entrevista já predomina a angústia de separação, que será fortalecida no curso da análise; - A entrevista deve ter tempo limitado, como duas, três ou mais sessões, não deve ser arrastada indefinidamente; - Deve ser distinta do processo de Psicanálise formal, de maneira que o paciente saiba onde terminou uma e começou a outra; - A entrevista informa sobre fatos fundamentais, não como objeto de análise, mas como para definir se será ou não possível o trabalho de análise; - Na entrevista, também, o paciente poderá chegar a conclusão de que esse Psicanalista não lhe é indicado, sem, contudo, abrir mão do tratamento com um outro (é comum pacientes que vão de analista em analista, até encontrar um indicado, embora isso já possa ser estudado como uma busca de um profissional que satisfaça suas fantasias à priori), etc. 4. O CONTRATO ANALÍTICO Vamos tomar um termo das relações civis para designar certo procedimento necessário à prática psicanalítica. Antes de definirmos o Contrato Psicanalítico, precisamos entender que uma das estratégias da Entrevista é preparar o futuro paciente para subscrever o metafórico Contrato Psicanalítico. Esta expressão deve ficar circunscrita ao jargão dos psicanalistas, sem conotações legais. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 15 - Mas, o que é? É um acordo sobre as bases ou as condições do tratamento. “Vale a pena assinalar, ... que o contrato psicanalítico não só implica direitos e obrigações, mas também riscos, os riscos inerentes a todo o empreendimento humano”. O Contrato Psicanalítico poderá ser democrático ou autoritário. Aquele é o que tem em conta as necessidades do tratamento e as harmoniza com o interesse e a comodidade de ambas aspartes (paciente e analista). Lembremos que a cada obrigação do analisado corresponde simetricamente uma do analista. No contrato autoritário, temos a busca da conveniência do analista antes que preservar o desenvolvimento da tarefa. Há também um tipo menos comum, que é o demagógico, em que o psicanalista satisfaz o paciente em prejuízo do processo. Surge naturalmente, a pergunta: Quando deve ser formalizado o Contrato Psicanalítico? Na fase inicial das entrevistas. Pode mesmo ser alinhavado durante as entrevistas, entretanto, deve haver um momento em que se trate apenas dele. Um momento quando o paciente se veja de frente com obrigações definidas, com algo que ele terá que respeitar, uma vez que pretende a cura, o seu bem-estar. Generalidades sobre o Contrato Psicanalítico: - Não é um documento formal, escrito; - Deve incluir os elementos tradicionais, que veremos, bem como a possibilidade de sua alteração; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 16 - Deve prever uma certa flexibilidade que não comprometa o andamento do processo nem do tratamento; - Deve frisar bem a responsabilidade do Psicanalista; - Deve esclarecer que tudo que o paciente faça, não faça, falte etc., será objeto de interpretação, etc. Principais itens do Contrato Psicanalítico: A questão das anotações Devemos informar ao paciente que temos o direito de anotar elementos colhidos da Livre Associação que considerarmos necessários para interpretações futuras ou para dirimir dúvidas quando de resistências contumazes apresentadas pelo paciente. Mas é preciso constar que as anotações não são obrigatoriedade, uma vez que há psicanalistas que simplesmente não anotam nada. Aconselhamos, contudo, que todos anotem determinadas coisas, porque a pura e simples postura audível, por melhor que seja a memória do Psicanalista, poderá provocar uma sensação de inutilidade das suas palavras, com acentuado descrédito pelo nosso trabalho. Uso do Divã O divã não é um sofá, onde o paciente senta se quiser. Trata-se de um instrumento do nosso trabalho. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 17 Entretanto, não devemos impor ao paciente como algo obrigatório, com pena de nosso Contrato tornar-se autoritário, o que deve ser evitado. Devemos, isto sim, esclarecer quanto a sua utilidade, o seu emprego histórico desde o mestre, Freud. Qual a razão do Divã? Freud o concebeu para possibilitar o maior relaxamento possível ao paciente enquanto fala. Ele tem por objetivo tirar o paciente da rotina de atividades musculares, diminuir as tensões, afastar as responsabilidades com equilíbrio e outras que consomem bastante energia. O divã é fundamental também porque permite ao psicanalista posicionar- se em relação a ele de modo a ficar menos exposto, diminuindo assim a carga transferencial e o constrangimento dos olhares insinuativos, que são responsáveis pela contra-transferência, fenômeno que pode ameaçar todo o trabalho. No contrato deve ficar claro que o divã é para o Psicanalista como a cadeira do equipo de um dentista, e tantas outras. Sem o divã, fazemos vários tipos de psicoterapias, menos psicanálise. Intercâmbio de tempo e dinheiro O dinheiro da psicanálise tem uma função econômica por excelência. Pode parecer absurdo esta afirmação, uma vez que dinheiro é sempre fator econômico. Só que o termo econômico em psicanálise tem outro significado. É uma carga de valores que domina uma relação. O dinheiro tem aqui importância diferente dos demais atendimentos médicos ou paramédicos. E tanto assim que empregamos o nome sessão em vez Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 18 de consulta. Além do mais, o paciente de psicanálise gasta muito mais e durante muito tempo, do modo como não despende recursos quaisquer outros pacientes, excetuando os casos de internação e cirurgias. Deve ficar claro que o paciente precisa do analista para resolver os seus problemas e este tem um preço e uma competência que lhe coloca ao dispor. O Psicanalista deve ser rígido na questão dos honorários, não atendendo de graça, sob nenhuma hipótese. -E por quê? Quem não pode pagar pela análise também não será beneficiado por ela. Sem falar nos complexos que seriam plasmados, dentre eles o de inferioridade, o de devedor eterno etc... O Psicanalista informará que aqueles 50 (cinqüenta) minutos lhe pertencem (ao paciente), que deve pagar por eles. Quanto à questão do valor (axiologia), é inversamente proporcional aos problemas enfrentados e às dificuldades deles advindas. No contrato, o Psicanalista deve fixar o seu preço, o modo de pagamento, podendo ser por sessão, semanal ou mensal, sendo este o preferido. Podemos também ter preços diferenciados, de acordo com as condições do paciente e a quantidade de sessões semanais. Entretanto, que nunca um paciente saiba o quanto os demais estão pagando. Não devemos ter uma tabela de preços afixada. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 19 Finalizando, o Psicanalista não deve ter como fonte de preocupação as alegações financeiras do paciente, ter pena, ou mesmo trocar idéias sobre tais problemas. Quanto a isto, ouvimos, como a qualquer outro problema. Não nos esqueçamos de que tudo deve ser interpretado. Freqüência e duração das sessões Freud psicanalisava com cinco (05) sessões semanais, dando folga apenas nos fins de semana e feriados. Com o passar do tempo as condições econômicas e do próprio tempo de que se dispõe têm mudado. Nos últimos anos temos encontrado uma situação intermediária que satisfaz – três sessões por semana. Mesmo assim é muito difícil encontrar quem possa arcar com tamanha despesa. E por causa desses complicadores, tem-se optado por duas sessões e, não havendo outra maneira, uma sessão. -Mas seria isto um barateamento da Psicanálise? - Não. É uma adaptação da ciência de Freud aos tempos bicudos em que vivemos. Mas, não enganemos os nossos pacientes – é muito difícil trabalhar assim. A Psicanálise acaba virando uma psicoterapia comum, com pequeno alcance material reprimido. -O que fazer? O Psicanalista precisa, ao menos neste caso, forçar um pouco para que o paciente entenda a necessidade de uma freqüência mais amiúde, pelo Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 20 menos duas vezes por semana, mesmo que isto sacrifique suas economias e obrigue a uma mudança radical nas suas contas pessoais. Quanto à duração das sessões, é igualmente histórico e comprovado que um período de cinqüenta minutos é adequado. É tempo suficiente para o paciente relaxar e começar a falar. Não devemos diminuir o tempo com a desculpa de abaixar o preço. Não devemos aumentar igualmente por qualquer hipótese. Vale a pena tomar cuidado com certas correntes modernas de psicanálise que pregam a possibilidade de gasto de tempo menor. Os Lacanianos têm imaginado sessões de até cinco (05) minutos, o que é um absurdo. Tempo Provável de um Tratamento Psicanalítico Embora haja psicoterapias rápidas, algumas até com fundamentação psicanalítica, vale lembrar que psicanálise não se preocupa com o fator tempo. Não podemos submeter ao tempo fatores ponderáveis e que dependerão de circunstâncias mil para virem à tona. O próprio processo psicanalítico está sujeito a vais-e-vens que cada caso determina. Além disso, existe o problema potencial da relação: Neurose – profundidade – conseqüências – personalidade – caráter – psicanalista – questões do par analítico – intensidade da transferência – Licenciado para - F ernanda santos- 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 21 complicação da contra-transferência – inteligência do paciente – idade – RTN etc. Tudo isto acena para a impossibilidade de fixação de prazos. Contudo, a experiência tem mostrado que, em média, um tratamento completo dura cerca de cinco anos. Pode ir até dez anos. Em alguns casos é interminável. Quando falamos na possibilidade de uma análise interminável, quase sempre causamos um bom susto. Mas não é difícil argumentar. Basta lembrar que muitas enfermidades somáticas são mais ou menos assim: cardiopatias, diabetes, neuropatias, reumatismo etc., têm que ser tratadas a vida toda. Não há cura do ponto de vista do banimento da enfermidade do organismo. Sem falar nos casos renais crônicos que obrigam o paciente à hemodiálise três vezes por semana, permanecendo ali cerca de quatro horas. E ninguém desiste por causa disto. Férias O Psicanalista deve contratar também o seu período de descanso semanal, nos feriados e anual. Estas férias devem atender também às necessidades de descanso financeiro do paciente quando de um período Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 22 de cessação de trabalho, que funciona bem para realimentar as esperanças e fortalecer a transferência, quando for o caso. Podemos optar por trinta dias corridos ou dois períodos de quinze dias. Entretanto, esses períodos devem ser fixados de antemão. Muito raramente se admite alteração nessa cláusula. O trabalho ininterrupto, sem a observância do período de descanso, é contra-indicado por todos os motivos. Regra da Livre Associação No contrato fixamos também que o nosso trabalho tem uma metodologia rígida, não por uma questão de intransigência, mas de princípio, de doutrina. A regra áurea é Livre Associação de Idéias. Psicanálise é isto. Fora dessa regra o que existe é método catártico, apoio, papoterapia, condutoterapia, menos Psicanálise. Nosso objetivo, o da Psicanálise, é tornar o inconsciente, o Id, consciente. Pretendemos e conseguimos trazer todo material recalcado no Id para a superfície, para o consciente, para o ego. Uma vez à tona, interpretamos e o próprio paciente se dará conta dos problemas, suas causas e aprenderá a conviver com os tais, e, se for o caso, promoverá a catarse. Naturalmente que o paciente não se envolverá tão facilmente assim. Leva algum tempo para entender e conseguir falar o que vai passando pela mente. Durante bom tempo ele vai tentar dialogar com o psicanalista, o que evitamos, com o silêncio absoluto. Será necessária uma ligeira palestra do psicanalista ensinando ao paciente o que é Livre Associação. Pode ser recomendável que se dê alguma coisa a respeito para o paciente ler. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 23 Podemos fazer certos exercícios que introduzam no método etc... De qualquer maneira, tratamento psicanalítico não é um papo em dias e horas e local marcados. Pagamento das Faltas Embora este critério não seja exclusivo da psicanálise, tem para nós uma importância capital. O paciente às vezes foge das sessões por motivos conscientes ou inconscientes. De qualquer maneira tais motivos são resistência. Mesmo quando diz que não tinha dinheiro, razão pela qual optamos pelo pagamento mensal, para evitar esta desculpa. Deve ficar claro que a sessão agendada é dele e ele paga, quer compareça ou não. Isto aumenta a responsabilidade do tratamento. Devemos ser rígidos nesta cláusula, dado à fenomenologia presente e intensa. Não devemos estender também o aumento inesperado de sessões semanais, fora do que se contratou, a não ser por motivos bem claros e discutidos, pois pode tratar-se de necessidade transferencial que não deve ser alimentada ou fortalecida. O processo deve ter a necessária rigidez, porque tudo é tratamento. Mudança de Horários Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 24 É bastante comum ser solicitada em pacientes fóbicos, ansiosos ou limítrofes (especialmente esquizofrênicos). Não deve ser de tudo proibida nem incentivada. Damos bom exemplo quando subordinamos toda a nossa vida aos compromissos da psicanálise. Se o psicanalista hoje e amanhã troca o horário das sessões por motivos fúteis, é claro que o paciente vai se sentir no mesmo direito, e isto nos é adverso. O Material Onírico Psicanalista que se preza não pode fugir dos sonhos nem possuir deles idéia mística, fantástica, sobrenatural, religiosa ou banal. O sonho é o melhor material que a mente fornece. No sonho as informações são completas e livres de bloqueios. Vêm, contudo, revestidas de simbolismos aparentemente intransponíveis. O que fazer com os sonhos? Interpretá-los à luz da técnica freudiana, fartamente estudada. Não se interpreta sonhos sob a ótica da astrologia, ou do jogo do bicho. CUIDADO! Lembremos também que os sonhos são reconhecidos até mesmo na Bíblia como material merecedor de crédito. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 25 Todo sonho é satisfação de uma necessidade. É claro que não estamos falando dos sonhos proféticos, mas daqueles produzidos pelo inconsciente para romper a barreira do superego, das censuras. A interpretação dos sonhos será estudada à parte. Regra de Abstinência Por abstinência entendemos o não envolvimento do psicanalista com os afetos ou os problemas do paciente. É claro que existe a contra- transferência que cada analista terá que trabalhar, embora não ocorra com a mesma intensidade com todos os pacientes, e nem mesmo durante toda a nossa vida. CUIDADO! É de Freud esta máxima: “Se quisermos que alguém nos abra o coração, devemos começar por abrir o nosso”. -Ela serve para tudo, menos para a prática psicanalítica. À primeira vista poderia parecer justo que o psicanalista permitisse, da parte do paciente, a visão de seus próprios defeitos e de seus próprios conflitos anímicos, abrindo a sua vida íntima aos olhos do analisado. Mas esse modo de proceder não carreta nenhuma vantagem ao tratamento, pelo contrário. Incapacita o paciente no sentido de vencer as suas resistências profundas, provocando-lhe, cada vez mais e mais, uma Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 26 curiosidade insaciável, chegando mesmo a encontrar na análise do psicanalista encantos e atrativos bem mais interessantes que a sua própria análise. Sem falar no fato de que o analista informaria sobre sua contra-transferência, seus afetos pelo paciente. Nessa linha de raciocínio, também o psicanalista não se interessa pelo paciente. Não existimos para satisfazer o paciente. Não temos como satisfazer e não nos deve interessar nem mesmo como é que o paciente o conseguirá. 5 – POSTURA DO PSICANLISTA O Psicanalista não deve provocar distanciamento com a máscara de semideus ou super-homem. Deve ser uma figura natural, que inspire confiança e não provoque especulação além das fenomenológicas naturais. O Psicanalista deve vestir-se bem, sem ostentação. Não deve usar roupas anacrônicas nem modismo demasiado. Deve, contudo, ser uma pessoa agradável, quer pela indumentária, quer pela higiene geral. Precisa ouvir sem manifestar susto com o conteúdo comunicado. Não pode manifestar escrúpulo nem qualquer espécie de julgamento. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 27 Na recepção do paciente, deve estender-lhe a mão para um bom- dia, boa-tarde ou boa noite, sem exageros. Nada de beijinhos ou tapinha – essas coisas serão interpretadas pelo pacientecomo afetividade e favorecerão ou fortalecerão a transferência. Quando o paciente falar algum gracejo, devemos rir de leve. Se não o fizermos, provocaremos o constrangimento inibitório. Não devemos rir às gargalhadas com o paciente – o paciente é que está em análise, não nós. Não podemos dar ao paciente a idéia de que a sessão nos interessa de modo pessoal, que nos sentimos bem com ela etc. -E quando de encontros fora do consultório? Cumprimentamos, sem fazer qualquer referência à condição de paciente e psicanalista. Não devemos apresentar o paciente a outros como tal. Não devemos “nos abrir”, nem mesmo nesta situação. Paciente é paciente, em qualquer lugar que esteja. III – LIVRE ASSOCIAÇÃO 1 - Definição Como definição, podemos dizer que é o caudal de idéias que se relacionam entre si e que são verbalizadas sem preocupação lógica ou estilo. A Livre Associação é parte fundamental do Processo Psicanalítico. Sem ela não existe Psicanálise, porém monólogo ou diálogo. O Processo Psicanalítico não consiste em um paciente falando o que consegue lembrar ou simplesmente ocupando os ouvidos da analista. Na Livre Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 28 Associação fala-se do que vem naturalmente à cabeça e não daquilo que procuramos no material mnético. Podemos afirmar que leva algum tempo para um paciente Associar Livremente. Quando muito, começa falando desembaraçadamente, o que não é o mesmo. Para a Livre Associação é fundamental o uso do Divã. Ali o paciente encontra uma posição de conforto que favorece essa manifestação do inconsciente mais naturalmente. Lembremos que todo material recalcado ao inconsciente está ali como que colado, arraigado. Não é fácil desprendê-lo. Certas condições mínimas são necessárias. A mais eficiente é aquela em que o indivíduo é convidado para falar em uma posição que normalmente não utiliza para tal, e sim para dormir. Há uma predisposição mental ao relaxamento próprio do sono e à capacidade de verbalizar. 2 – O processo da Livre Associação É indiferente o tipo de material que se tenha, que o paciente apresente: pode ser a história de analisado, as recordações infantis ou mesmo a história da enfermidade; Não é um interrogatório nem um diálogo travado entre Psicanalista e paciente. Algumas vezes fazemos perguntas, mas não sistematicamente. Aliás, procedemos melhor quando as nossas perguntas induzem uma compreensão e praticamente não exige resposta; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 29 A Psicanálise visa sondar o inconsciente para trazer à tona da consciência as idéias que aí se acham recalcadas e libertá-las através da compreensão. É verdade que tal libertação é, de certa forma, um pouco de aplicação do método catártico. Outrossim, quem traz à tona tais idéias latentes é o paciente, não o analista. O Psicanalista não é escafandrista, um mergulhador. No máximo atua dando corda à imaginação mnética. O paciente escolhe o ponto de partida de sua conversação. Entretanto, cabe ao Psicanalista perceber se sua conversa não passa de “um contar do dia a dia”. Às vezes o paciente fala muito exatamente para não falar o pouco que deve. A conversa funciona muitas vezes como bloqueio, resistência. Desse modo, o psicanalista pode alertar sobre a improdutividade do material verbalizado, mas isto com muito cuidado. Devemos ensinar que o paciente deve falar o que apareça sem esforço de recordação na mente, e não falar por falar; O paciente não deve raciocinar sobre o que está dizendo; quando ocorre o raciocínio, o que há de fato é uma seleção, como se o paciente pudesse definir o que é importante e o que não é. Na base dessa seleção é encontrada a resistência. Uns dizem: “Lembrei de algo, mas isso não é importante, não tem nada a ver”. É exatamente aí que temos que trabalhar e fazê-lo entender a presença de uma resistência, de um bloqueio. O paciente não deve se preocupar com o que está dizendo. Deve agir como que estando a “pensar em voz alta”. Transmite todas as idéias que forem surgindo, mesmo que sejam agressivas, pareçam vergonhosas, banais, conflitem com os seus costumes. Aliás uma das coisas mais responsáveis pelo recalque é exatamente o “pensar de um modo e falar de outro”. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 30 Isto é cometido pelos padrões culturais e pela hipocrisia das religiões etc. Sintetizando: “Coloque-se diante do Psicanalista como um passageiro olhando da janela de um trem, em velocidade, e, vá narrando o que se passa na tela da sua imaginação”. (Dr. Gastão Pereira da Silva) 3 – Um exemplo detalhado de Associação de Idéias Uma aula sobre como trazer à tona as idéias recalcadas. Obs.: O conteúdo que incluímos sob este título foi extraído do livro de J. Ralph, “Conhece-te pela Psicanálise”. Vou ensinar ao aluno como se deve pescar. E não só como pescar, mas também, o lugar bom para uma boa pescaria. Mas não se trata de peixes, trata-se de pescar idéias. Não as alheias, mas as suas próprias idéias. É verdade que, sob certas condições, precisamos pescar as idéias dos outros; mas, comumente não há necessidade disso. Há muitos indivíduos, com efeito, que com a maior sofreguidão, nos oferecem as suas, graciosamente, sob a forma de convicções e de preconceitos. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 31 A média dos indivíduos recusa-se a admitir qualquer associação com sua última atitude mental; e com que energia procuram demonstrar que suas idéias são próprias, espontâneas e desinteressadas. Não, o que pretendo agora é ensiná-lo a pescar as próprias idéias. Naturalmente, elas lhe interessam muito. Mas vai uma grande distância entre interessar-se por uma coisa e possuí-la e gozá-la integralmente. De nada nos vale uma ótima coisa, que apreciamos muito e pela qual muito nos interessamos, se não podemos utilizá-la justamente quando e como queremos. E se não o podemos fazer, é porque a coisa não nos pertence de fato, e, se por acaso a consideramos nossa, somos, positivamente, vítimas de uma ilusão. Nesta pescaria, que empreenderemos juntos, vamos adotar um anzol mental. Será uma pesca extremamente prática e de grande proveito para a sua personalidade. Quero ensiná-lo a trazer à consciência (de modo que se possam confrontar) as idéias responsáveis pelo seu temperamento: as boas e as más, as fortes e as fracas. Nas profundezas do inconsciente há um grande sortimento de idéias e lembranças que a gente supõe serem próprias, originais; na realidade, a natureza e as tendências do procedimento consciente são condicionadas por esses elementos mentais submersos. Poucas, entretanto, são as pessoas que têm a noção exata de suas próprias reservas mentais, ou uma noção inteligente dos alicerces Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 32 inconscientes sobre as soterradas (idéias). E, quando afluem, escolhemos as que são utilizáveis, rejeitando as restantes para as profundidades do espírito. O nosso equilíbrio mental depende do critério de seleção: se o critério na escolha é bom, será o nosso benefício; se mau, o nosso bem-estar sofrerá os prejuízos resultantes. Há, ainda, uma outra maneira de pensar, a que devemos referir, de passagem: é o sonho acordado, o devaneio. É um modo de pensar que não dá vantagens ao indivíduo na luta pela vida. Com efeito, a atenção em vez de se dirigir, intencionalmente, a um objeto mental definido, é atraída, nesse caso, pelas idéias – desejos. Representa um esforço para alcançar uma via imaginária e que não se consegue na vida real. Sendoum meio de se fugir às realidades da vida, constitui uma espécie de ópio mental, que devemos, portanto, evitar a todo o custo. O que o aluno vai conhecer agora é uma outra atitude mental, onde a atenção não é, nem dirigida, nem atraída, mas assiste, como um espectador passivo, ao desfile das idéias que, sob certas condições, aparecem no horizonte da consciência. Essa atitude é conhecida, tecnicamente, sob o nome de Livre Associação de Idéias. Na Livre Associação as idéias fluem e se sucedem sem intervenção consciente, sejam agradáveis ou desagradáveis, importantes ou não, na aparência. O que não significa que basta levantar a tampa do caldeirão do inconsciente para que transborde uma variada procissão de idéias e, com isso, se obtenha um resultado proveitoso. Não. O resultado pode ser inteiramente outro. Sabemos que toda idéia que surge na consciência tem suas raízes nas profundidades do espírito; e sabemos, também, que se pudéssemos Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 33 seguir essas raízes, desde a consciência até as suas origens no inconsciente, haveríamos de chegar à origem dessa idéia, isto é, às lembranças soterradas das quais ele não é mais do que a expressão. Tomemos uma determinada idéia; coloquemo-la, como se fosse uma isca, na consciência. Abstenhamo-nos de qualquer análise consciente; afastemos toda a crítica, todo o juízo, toda a coordenação, enfim, toda e qualquer forma de intervenção consciente; deixemos que outras idéias venham juntar-se à primeira, que faz o papel de isca, apenas por uma associação puramente simpática, que entre elas possa existir. Vamos obter, assim, uma Livre Associação de Idéias. Nesse processo, a idéia que ocupa em um determinado momento o campo da consciência, liberta-se atraindo para si a idéia imediata, exclusivamente em virtude de uma associação simpática que as une. Não entra no processo nenhuma interferência intelectual. O pensamento consciente, ao contrário, é um processo essencialmente de seleção; somos nós que atraímos as idéias para a consciência e, então, depois de analisá-las, julgá-las, medi-las, retemos as que nos convêm e rejeitamos as que não nos interessam. Para se obter uma boa associação de idéias é necessário afastar completamente esses esforços intelectuais e assumir, perante a consciência, a atitude de simples espectador do que vai acontecer. Deve- se assistir à procissão de idéias sem interpor nenhuma influência intelectual. Essa atitude mental não é difícil de se obter. É antes uma questão de habilidade. E, uma vez conseguida, basta um pouco de prática para repeti- la, sempre que se entender ser útil e necessária. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 34 Lembre-se sempre que nenhuma idéia penetra na consciência por ação do acaso. Toda idéia que, mesmo que seja por um tempo mínimo, ocupa o centro da consciência, aí não entrou por acaso. Ou foi empurrada pelas influências subjacentes, ou foi atraída pelas condições de superfície. Se, como no exemplo da idéia – isca, nos abstivermos de qualquer influência intelectual sobre ela, vai se operar uma associação livre de idéias, constituída das lembranças que são as suas próprias raízes; e deixando que essas associações se realizem livremente, num fluxo ininterrupto e contínuo, a consciência há de reconhecer, por fim, a lembrança exata que constitui a sua origem. Na Livre Associação, a idéia estimuladora (isca), que se encontra na consciência, está presa, por laços bem definidos, a um conjunto de lembranças localizado em algum ponto da vasta região do inconsciente; e se pudéssemos seguir a linha de associações que une entre si estes dois fatores, haveríamos de conhecer, rápida e nitidamente, a influência que as memórias soterradas exercem sobre a nossa conduta consciente. E isso porque teríamos assim conseguido ligar o efeito à causa. Resumindo: A Livre Associação de Idéias é a VIA RÉGIA que conduz à compreensão do processo pelo qual a conduta é controlada pelo espírito inconsciente; se o método for bem aplicado, pode-se, mesmo, reconstruir a personalidade consciente, abrindo-se aos nossos olhos perspectivas de maravilhosas possibilidades. IV – ALIANÇA TERAPÊUTICA Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 35 Na primeira parte deste estudo abordamos o chamado Par analítico. Vimos na ocasião que o par analítico constitui a combinação do melhor Psicanalista para determinado paciente, e vice-versa. Na seqüência e combinação de fatores, em decorrência desde par, surgem a transferência e a contra-transferência, que estudaremos dentro em pouco. Antes, porém, aparece este delicado assunto, a Aliança, por muitos confundida com transferência. Mas não confundamos – a transferência ocupa uma parte definida do universo psicanalítico. Nem tudo que ocorre na situação analítica é transferência. Temos, contudo, que reconhecer que a linha divisória entre a Aliança Terapêutica e a Transferência é muito tênue. - Como defini-la? Segundo Zetzel, Aliança Terapêutica é uma espécie de transferência racional. Essa transferência racional se caracteriza, sobretudo, por não ter o aspecto de neurose, o que chamamos de neurose de transferência. A diferença está na intensidade, racionalidade, consciência de que os afetos que surgem não são frutos de paixão mas do relacionamento. Por outro lado, a transferência se reveste da irracionalidade, envolvimento afetivo que não permite ao paciente distinguir os níveis de sentimentos. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 36 Podemos situar melhor a Aliança Terapêutica em relação à Transferência, do seguinte modo: A Aliança Terapêutica é favorável, colaboradora do processo, enquanto que a transferência, embora fundamental para a cura, em princípio opera negativamente, tende a atrapalhar. Aparece como embaraço que deve ser interpretado, caso contrário inviabiliza o tratamento, isto se perpetuará. A experiência tem-nos ensinado também outra coisa: a Aliança Terapêutica não necessita de interpretação, nem teríamos como fazê-lo. Precisamos confessar, entretanto, que a diferença entre a neurose de transferência e a aliança não é absoluta. É mais uma diferença de compreensão do paciente do que de natureza de sentimentos. Em suma, o que o paciente sente, em ambos os casos, é a mesma coisa. Mas a posição e análise pessoal do paciente difere. Uma outra situação interessante, é que na transferência a luta do psicanalista é para interpretá-la, afastá-la, dando lugar à possibilidade de instalação da dinâmica interpretativa. Na aliança terapêutica ocorre exatamente o contrário: o Psicanalista a reforça. Ele precisa da manutenção desse clima para sustentar a confiabilidade. Finalizando, diríamos que o ideal da transferência é que se transforme ou evolua para a Aliança Terapêutica. Uma coisa não se encontrará ao mesmo tempo em um paciente. Outra coisa se discute: Pode existir Aliança Terapêutica sem o processo inicial da transferência? Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 37 V – TRANSFERÊNCIA Definição: Atitudes, sentimentos e fantasias que um paciente experimenta, na situação analítica, em relação ao seu Psicanalista, muitas das quais emergem, de modo aparentemente irracional, de suas próprias necessidades inconscientes e conflitos, em vez de circunstâncias reais de suas relações com o analista. Assim, o paciente atribui, inconscientemente, características de seu pai, mãe, irmãos etc. ao analista, enquanto este representará qualquer dessas pessoas em relação ao paciente. A teoria da transferênciaé uma das maiores contribuições de Freud à ciência e também o pilar do trabalho psicanalítico. A transferência precisa ser entendida como um falso enlace, que tem, em princípio, dois objetivos, ambos inconscientes: a- Satisfazer as necessidades propriamente incons-cientes, confundindo a pessoa do Psicanalista com as pessoas que faltaram ou faltam na vida do paciente; b- Evitar a subida do mundo inconsciente ao consciente, funcionando desse modo como resistência, como dissimulação, com o fim de direcionar as energias mentais para um lado que embargue a manifestação do universo inconsciente. Em ambos os casos, “a transferência que se destina a ser maior obstáculo para a Psicanálise, se converte em seu auxiliar mais precioso, quando se Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 38 consegue detectar em cada caso (e manifestação) e traduzi-la para o enfermo”. Em qualquer caso, a transferência jamais poderá ser entendida como uma fraqueza de caráter, como “safadeza” do paciente, mas como algo inevitável às pessoas mais sérias. É sempre um problema da personalidade no que diz respeito às neuroses, carências etc. As pessoas que sufocam as manifestações transferenciais, o que conseguem é plasmar mais uma carência, fortalecendo assim o patrimônio neurótico. Não nos esqueçamos também que a transferência não é fenômeno exclusivo das relações psicanalíticas, mas acham-se presentes em todo trabalho relacional. E é pior nas outras profissões e contatos, porque os envolvidos não têm o conhecimento científico do que está ocorrendo, tomando, de acordo com o lado, como oportunidade de satisfação. A confusão que segue será sem precedentes nessas vidas. VI – CONTRA-TRANSFERÊNCIA Definição: As atitudes, sentimentos e fantasias que o psicanalista experimenta, muitas das quais provêm, aparentemente de modo irracional, de suas próprias necessidades e conflitos psíquicos, e não de circunstâncias reais de suas relações com o paciente. A contra-transferência pode ser, como deduzimos da definição, conseqüência de carências do Psicanalista, de problemas não resolvidos desse profissional. Pode também ser conseqüência da situação psicanalítica em si. Nesse caso, é, “uma resposta emocional do Psicanalista aos estímulos que provêm do paciente, como resultado da Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 39 influência do analisado sobre os sentimentos inconscientes do profissional” (Etchegoyen). Se na transferência temos que estar atentos para interpretá-la, de igual maneira precisamos estar atentos aos nossos sentimentos e sempre dispostos à auto-interpretação, com pena de ficarmos vencidos no relacionamento e impedidos de trabalhar em benefício do paciente. Quando falamos na Aliança Terapêutica que deve ser uma evolução da transferência, a própria transferência racional, de certa forma postulamos o mesmo para a contra-transferência. Nesse caso, quando nos interpretamos, quando identificamos os motivos dessa afetividade etc., transformamos esse sentimento intenso no correspondente à Aliança Terapêutica, a que chamamos descendente. Essa Aliança Terapêutica Descendente, que vem do Psicanalista, é igualmente um importante instrumento do processo, porque liga o psicanalista ao paciente, sem interdependência ao nível de sentimento. VII – RESISTÊNCIA 1 - Definição É a oposição a qualquer tentativa de revelação de um conteúdo inconsciente. A maior ou menor intensidade da luta travada pelo paciente contra o analista que ameaça pôr a descoberto esse conteúdo oculto constitui sempre uma medida de força repressora, isto é, de resistência. Temos, como grande objetivo da resistência, manter a neurose. A razão desse procedimento inconsciente reside no mal-estar que a revelação da neurose ocasiona. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 40 O paciente, também inconscientemente, opta pelo desprazer de manutenção do recalque, com o qual já está acostumado. 2 - Tipos de Resistências: a- Resistência consciente – é a retenção intencional de informações por parte de um paciente, causada pela vergonha, medo de rejeição, temor de perder a consideração do analista. Aceita-se que, subentendida na resistência consciente, haja sempre motivos inconscientes; b- Resistência inconsciente – aquela produzida pelo inconsciente de modo defensivo, sem que o paciente perceba. Tão somente atua ou deixa de atuar. O tipo mais conhecido é denominado atos falhos (falhados). 3 - Generalidades sobre resistências: • Os atos falhos ou lapsos são os esquecimentos, os cortes, as “evitações” que o inconsciente pratica com uma intenção definida. Aparece nos erros de leitura, de escrita, nas trocas de nomes, empregos de palavrões em momentos de solenidades e até em discursos e sermões; • A própria transferência é um tipo de resistência, porque visa cercear o processo e redirecionar os contatos; • Resistência é tudo aquilo que impede que o sujeito transfira o material reprimido para o consciente; • A resistência pode manifestar-se no paciente que fala muito, colocando o seu dia-a-dia para servir de manto sobre o seu passado; • A resistência pode ser encontrada no silêncio. Em todo caso precisa ser interpretada; • A crítica a todo comentário do analista é sempre uma resistência; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 41 • Também a aceitação de tudo que o profissional fale pode ser resistência, na medida em que limita o avanço do mesmo, é a cortesia que protege a necessidade de reviver seus conflitos instintivos. VIII – OS MECANISMOS DE DEFESA Tipos sublimados de resistências Em alguns casos, os mecanismos de defesa podem ser interpretados como resistências. Também podem ser tratados como mecanismos de adaptação do Ego. São atuações que visam dar um tratamento sintomático aos complexos e aos deslizes, quando a consciência se sente desequilibrada. Segundo Otto Fenichel, eis os principais encontrados na situação analítica: 1- Sublimação – Ocorre quando os impulsos neuróticos são canalizados para um fim nobre, sadio; 2- Negação – É, como o termo designa, a negação de um impulso, quando a pessoa mascara um determinado instinto; 3- Projeção – Quando o paciente transfere para outrem os seus sentimentos, impulsos e padecimentos, quando sentimos e dizemos que o outro é que sente; 4- Introjeção – É uma espécie de incorporação, o ato de tragar, engolir o problema. Ocorre quando o paciente padece e incorpora como seu, só seu, e de certa forma há um contentamento com esse ato, sem ainda tratar-se de masoquismo; 5- Repressão – É uma tentativa de ignorar os problemas sentidos, normalmente dizendo que não tem problema algum; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 42 6- Formação reativa – toda tentativa de defender a personalidade de algum perigo iminente; 7- Mecanismos secundários – Anulação, aleamento, regressão, bloqueios de afetos, protelação de afetos, desprezo de afetos; 8- Racionalização – Talvez o mais nobre dos mecanismos, que se trata da tentativa de auto-justificação de todos os atos, posições e cometimentos. É o esforço que o indivíduo faz para não se sentir culpado jamais. IX – ANGÚSTIA DA SEPARAÇÃO Fenômeno que percebemos, em alguns casos, desde as entrevistas, onde o paciente apresenta uma sensação de abandono, quando o seu tempo vai terminando, como se estivesse para perder algo muito caro. Na Angústia de Separação aparece um suave quadro de depressão situacional. A Angústia de Separação é diretamente proporcional à transferência e à Aliança Terapêutica. No caso de pacientes com forteresistência, que retardam ao máximo a instalação desses fenômenos, também se notará uma frieza, um corte do cordão umbilical indolor. Em caso de pacientes psicóticos, não-tributáveis da psicanálise, junto aos quais se esteja praticando uma psicoterapia de fundamentação psicanalítica, notar-se-á que a angústia de separação pode incluir certos tipos agressivos de evite. Pode também o paciente insistir em continuar, ter surtos na saída, simular insegurança, quadros fóbicos etc. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 43 X – A INTERPRETAÇÃO A interpretação é o instrumento mais nobre da psicoterapia. Entendemos por interpretação o método de deduzir o que o paciente tem em sua alma e lhe comunicarmos. A interpretação, é, portanto, a aplicação da racionalidade ao material que nos é oferecido através da Livre Associação. É quando o psicanalista entende e junta os fatos, montando o quebra-cabeça com o material mnético apresentado. A interpretação se dá sobre coisas lógicas apresentadas pelo paciente que, entretanto, não se vê com lógica alguma quando fala. Entretanto, em face do arrazoado do psicanalista, há a compreensão, a clareza. E, com o passar do tempo, à medida que o tempo de análise aumenta, o paciente já vai percebendo, e em algumas vezes se antecipa à interpretação. Mas, nesse caso, algumas vezes erra. Quando o paciente se antecipa na interpretação, o que temos nem sempre é insight, mas a inveja do psicanalista e a tentativa de tomar o seu lugar. Na interpretação o psicanalista precisa ser curto e educado. Não deve se estender em uma palestra longa, que dê lugar a divagações. Sempre que possível deverá interpretar com linguagem indagativa, fazendo perguntas que induzam uma resposta. Esse caso é aparentemente melhor, porque o paciente fica com a sensação de ter concluído a respeito. Tem mais facilidade de aceitar do que se tivesse recebido uma idéia pronta. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 44 Na interpretação o Psicanalista tem um aliado – o insight. Este termo tem, em psicanálise, uma significação maior do que a terminológica. O insight acontece no paciente, e será proporcional à inteligência dele e à disposição ou vontade de descobrir a sua verdade. Depende também de uma boa aliança terapêutica. Nele o paciente vê claramente, em um momento, toda a verdade da interpretação. Normalmente o insight desencadeia uma aceleração no processo associativo, em alguns casos fazendo o paciente calar, para, por algum tempo, desfrutar das memórias ligadas à verdade da interpretação. XI – ETAPAS DA ANÁLISE Quando dizemos que há etapas, o que queremos dizer é que na evolução do processo psicanalítico, há momentos característicos, definidos, distintos de outros, momentos com uma dinâmica especial que os distingue. Aliás, tudo nesta vida tem princípio, meio e fim. Vejamos as três etapas clássicas da análise: - Primeira etapa – A abertura da análise. Vai da primeira sessão (anamnese) até mais ou menos uns três meses, quando estamos com contrato de duas a três sessões semanais. Nessa fase temos os ajustes necessários, o início da transferência etc.; - Segunda etapa – O mesmo que etapa média. É a menos típica e mais longa e criativa. Começa quando o analisando compreendeu e aceitou as regras do jogo, como Livre Associação, interpretação, ambiente permissivo etc.. Prolonga-se por um tempo variável até que a enfermidade originária (ou sua réplica, a neurose de transferência) haja desaparecido ou tenha-se modificado substancialmente; - Terceira etapa – O término da análise. Não se prolonga por muito tempo. Deve durar, contudo, o suficiente para que a Reação Terapêutica Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 45 Negativa (RTN) seja vencida, para que a angústia da separação definitiva seja igualmente interpretada e assumida. Como vemos, a análise, que vem de resolver problemas, no fim, por causa do intenso e duradouro relacionamento, acaba tornando-se um problema. Entretanto, o tal não será enfermidade e tem caráter gratificante. Em alguns casos – Freud mesmo já o considerou – nos deparamos com o caso de Análise interminável, sem que o paciente seja um psicótico. São pessoas que, embora tenham os problemas resolvidos, não conseguem suficiente força e independência. O mais comum é que sejam pessoas submetidas a uma intensa carga de neuroses atuais, neuroses estas que, com o tempo e complexibilidade da vida vão aumentando. Algumas pessoas precisam de apoio, uma espécie de muleta, tornando a análise interminável. XII – VICISSITUDES DO PROCESSO PSICANALÍTICO Toda ciência, bem como todo relacionamento, apresenta suas dificuldades naturais. Precisamos estar conscientes de que há fatores que dificultam sobremaneira a análise: idade avançada, condições econômicas, religiosidade, inteligência de menos. Por outro lado, a inteligência de mais também pode dificultar. Entre as principais vicissitudes, temos: Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 46 - Insight – Tanto a sua ausência, nos “desinteligentes”, quanto a sua fartura, podem atrapalhar. Além do mais, em termos de interpretação, quantas vezes o paciente vê uma coisa e o psicanalista vê outra. - Elaboração – É o tempo que o paciente gasta para se organizar e reagir à postura do Psicanalista. É o conjunto de fatores que diz que o paciente assumiu a sua condição, compreende o papel do profissional e pratica as partes que lhe cabe; - Acting-out – Problema difícil de explicar. Poder-se-ia dizer que se trata de uma ação fora da situação analítica ou que tem por objetivo afastar o paciente ou o Psicanalista de seu suporte. Mas para simplificar, é quando o paciente faz uma coisa em vez da outra. CONCLUSÃO Todo esse nosso trabalho não visa esgotar nem reunir toda problemática que nos envolve, mas alinhar as situações mais comuns. Cresçamos em Freud. Leitura para reflexão Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 47 XIII – ESSÊNCIA E REGRA DA AUTO-ANÁLISE SISTEMÁTICA (Karen Horney) Visto como já examinamos o trabalho psicanalítico sob diversos pontos de vista, e vimos, através de um exemplo extenso, o processo geral por que uma pessoa se psicanalisa a si mesma, dificilmente será necessário – e parecerá mesmo redundante – discutir sistematicamente a técnica da auto-análise. Os comentários a seguir, portanto, apenas ressaltarão certas considerações, muitas das quais já mencionadas a outros respeitos, que merecem atenção especial quanto se atua sobre o próprio eu. Conforme vimos, o processo de livre associação, de auto-expressão franca e sem reservas, é o ponto de partida e a base permanente de todo o trabalho analítico – auto-análise ou análise profissional -, mas não é, de maneira alguma, uma proeza fácil. Poderia imaginar-se que este processo fosse mais simples quando se trabalha sozinho, porquanto, nesse caso, não há ninguém para interpretar mal, criticar, intrometer-se ou revidar; além disso, não é tão humilhante manifestar-se a respeito de coisas de que a gente possa envergonhar-se. Até certo ponto isso é verdade, embora também seja verdade que uma pessoa de fora, pelo simples fato de estar escutando, proporciona estímulo e encorajamento. Não há dúvida alguma, porém, que quer se esteja trabalhando só ou com um analista, os maiores obstáculos à livre expressão estão sempre dentro da pessoa. Esta anseia tanto por ignorar certos fatores, e por manter a imagem que tem de si própria, que, sozinha ou não, o máximo que pode esperar é uma certa aproximação do ideal das associações livres.Em vista destas dificuldades, a pessoa que trabalha só deve lembrar-se, de tempos em tempos, que estará agindo contra seus verdadeiros interesses se deixar de lado ou eliminar qualquer idéia ou sentimento que venha à tona. Deve lembrar-se, igualmente, de que a responsabilidade é exclusivamente sua: não há ninguém senão ela para adivinhar um elo que esteja faltando ou para investigar acerca de um vácuo deixado em suspenso. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 48 Este escrúpulo é particularmente importante com referência à expressão de sentimentos. A este propósito, há dois preceitos que deve-se ter em mente. Um, é o de que a pessoa deve procurar exprimir o que sente realmente, e não o que deve sentir por força de tradições ou de seus próprios padrões morais. Deve, ao menos, dar-se conta de que pode haver um hiato imenso e significativo entre os sentimentos genuínos e os adotados artificialmente, e deve perguntar-se, às vezes – não enquanto estiver associando, mas posteriormente – o que sente deveras sobre o assunto. A outra regra é que deve dar rédeas tão largas quanto possível a seus sentimentos. Isto, também, é mais fácil de dizer do que de fazer. Pode parecer ridículo sentir-se tremendamente magoado por uma ofensa aparentemente banal. Pode ser incrível e desagradável desconfiar e odiar alguém que nos é muito chegado; pode-se não ter dúvidas em admitir um esboço de irritação, mas achar-se assustador constatar que a ira está deveras presente. Deve lembrar-se, contudo, que, no que toca às conseqüências externas, nenhuma situação é menos perigosa do que a da análise, para uma expressão real dos sentimentos. Na análise só importa a conseqüência interior, e esta consiste em identificar-se a intensidade total de um sentimento. Na análise só importa a conseqüência interior, e esta consiste em identificar-se a intensidade total de um sentimento. Pois, em questão psicológica, também, não se pode enforcar quem ainda não foi capturado. Evidentemente, ninguém é capaz de desentocar à força sentimentos que estão reprimidos. Tudo o que qualquer um pode fazer é não refrear o que está ao seu alcance. Com toda a boa vontade do mundo, Clara, no início de sua análise, não teria podido sentir ou exprimir mais ressentimento contra Peter do que o fez, mas, à medida que a análise progrediu, tornou- se capaz de perceber a intensidade real de seus sentimentos. Sob um certo ponto de vista, toda a evolução por que ela passou pode ser descrita como uma liberdade crescente para perceber o que de fato sentia. Mais uma palavra quanto à técnica da livre associação: é indispensável abster-se de raciocinar enquanto se estiver associando. O raciocínio tem Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 49 seu lugar na análise e são muitas as oportunidades para utilizá-lo – depois. Mas, segundo já foi acentuado, a essência mesma da livre associação é sua espontaneidade. Por conseguinte, a pessoa que estiver tentando fazê-la, não deve procurar chegar a uma solução raciocinada. Suponha- se, por exemplo, que você está tão cansado e bambo que gostaria de arrastar-se até a cama e declarar-se doente. Aí você olha para fora, da janela de um segundo andar, e dá tento de que está pensando que se você caísse no máximo quebraria um braço. Isto o espanta. Você não sabia que estava desesperado, tão desesperado a ponto de querer morrer. A seguir, você ouve um rádio tocando no andar de cima, e pensa, com uma certa irritação, que gostaria de dar um tiro no sujeito que está ouvindo o rádio. Você conclui, com razão, que deve haver raiva, além de desespero, no fato de sentir-se doente. Até aqui você vai indo bem. Você já se sente menos paralisado, porquanto se está furioso com alguma coisa talvez possa encontrar a razão para isso. Mas, aí você começa a pesquisar conscientemente, num frenesi, o que é que pode tê-lo enfurecido. Examina todos os incidentes que ocorreram antes de sentir- se tão cansado. É possível que você atine com a provocação, mas o mais provável é que toda sua busca consciente dê em nada – e que a causa real lhe ocorra meia hora mais tarde, depois de você ter desanimado ante a futilidade de suas tentativas e de ter desistido da investigação consciente. Tão improdutivo quanto essas tentativas de forçar uma solução é o procedimento de uma pessoa que, mesmo quando deixa a mente trabalhar em liberdade, procura descobrir o significado de suas associações, ligando-as umas às outras. Seja o que for que o leva a fazer isso, quer se trate de impaciência, de uma necessidade de ser inteligente ou de um receio de dar saída a idéias e sentimentos incontroláveis, esta intromissão do raciocínio propende a perturbar a situação de repouso necessária à livre associação. É verdade que o significado de uma associação pode surgir espontaneamente. A série de associações de Clara, que terminou com a letra do cântico religioso, é um bom exemplo disto: as associações dela mostraram um grau crescente de lucidez, apesar de não ter sido feito nenhum esforço consciente para entendê-las. Por outras palavras, os dois processos – auto-expressão e compreensão Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 50 – as vezes podem coincidir. Sem embargo, no que toca a esforços conscientes, eles devem ser conservados rigorosamente separados. Se estabelecermos assim uma distinção clara entre a livre associação e a compreensão, quando é que se pára de associar e tenta-se compreender? Felizmente, não há regra alguma para isso. Enquanto os pensamentos estiverem fluindo livremente, não há motivo para detê-los artificialmente: mais cedo ou mais tarde, serão contidos por algo mais forte do que eles mesmos. Quiçá a pessoa chegue a um ponto onde se sinta curiosa de saber o que é que tudo aquilo significa; toque, de repente, em uma corda emocional que prometa lançar luz sobre algo que a incomoda; fique, simplesmente, sem idéias, o que pode ser um sinal de resistência, mas também pode indicar que esgotou o assunto, por enquanto; ou pode apenas dispor de tempo limitado e queira ainda tentar interpretar suas anotações. Quanto à compreensão das associações, é tão infinita a gama dos temas e combinações de temas que pode apresentar-se, que não é possível fixar quaisquer regras a respeito do significado dos elementos individuais dos contextos individuais. Certos princípios fundamentais foram estudados no capítulo relativo à participação do analista no processo analítico; entretanto, forçosamente muito é deixado a cargo da habilidade, presença de espírito e capacidade de concentração de cada um. Por isso, limitar- me-ei a ampliar o que já foi dito, acrescentando algumas observações sobre o intuito que deve presidir à interpretação. Quando uma pessoa pára de associar e começa a examinar suas anotações, com o fim de compreendê-las, seu método de trabalho deve mudar: em lugar de ficar inteiramente passiva e receptiva ante tudo o que aparecer, tornar-se ativa. Agora, o raciocínio dela entra em ação. Prefiro exprimir isso, entretanto, de forma negativa: ela não mais exclui o raciocínio, pois mesmo agora ela não o emprega com exclusividade. É difícil descrever exatamente a atitude que deve ser adotada ao procurar apreender o significado de uma série de associações. Por certo, o Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 51 processo não deve degenerar em um mero exercício intelectual. Se quiser isso, será melhor jogar xadrez, prever a evolução da política mundial, ou dedicar-se a palavras cruzadas. Um esforço para conceber interpretações perfeitamente escorreitas, sem perder nenhuma conotação possível, talvez gratifique-lhe a vaidade, demonstrando a superioridade de suainteligência, mas dificilmente o levará mais próximo de uma verdadeira compreensão de si mesma. Um esforço assim chega mesmo a oferecer algum perigo, pois pode impedir o progresso ao produzir uma confortável impressão de “eu-sei-tudo”, enquanto, de fato, ela apenas catalogou dados isolados sem ter sido tocada por coisa alguma. O outro extremo, um “insight” meramente emocional, é bem mais valioso. Se não for posteriormente aperfeiçoado, tampouco é o ideal a atingir, porquanto deixa fugir muitas pistas significativas, malgrado não estejam ainda nítidas de todo. Mas, consoante vimos na análise de Clara, um “insight” deste gênero pode pôr alguma coisa em marcha. No início do trabalho, ela teve uma sensação intensa de estar extraviada, decorrente do sonho com a cidade estrangeira; foi mencionado, então, que embora seja impossível verificar se essa experiência emocional teve qualquer repercussão ulterior na análise, a inquietação resultante pode ter afrouxado o tabu rígido que ela possuía face aos vínculos complexos que a prendiam a Peter. Outro caso ocorreu durante a batalha final de Clara contra sua dependência, quando sentiu sua franca resistência a governar a própria vida; ela, então, não tinha a menor noção intelectual do significado deste “insight” emocional, e, no entanto, ajudou-a a sair de um estado de impotência letárgica. Em vez de desejar produzir uma obra-prima científica, a pessoa que está trabalhando sozinha deve deixar sua interpretação ser dirigida por seu interesse. Deve simplesmente ir empós daquilo que lhe atrai a atenção, que lhe desperta a curiosidade, que toca uma corda emocional em seu íntimo. Se for suficientemente flexível para deixar-se guiar por seu interesse espontâneo, pode ficar razoavelmente certa de que intuitivamente escolherá os assuntos que, no momento, lhe forem mais Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 52 acessíveis à compreensão, ou que se enquadrarão no problema em que ela estiver trabalhando. Presumo que este conselho suscitará algumas dúvidas. Não estarei advogando uma excessiva tolerância? Será que o interesse do indivíduo não o levará a escolher assuntos com os quais está familiarizado? Não significará isto ceder ante as resistências? Examinarei em um capítulo à parte como lidar com as resistências; basta dizer, aqui, que é verdade que deixar-se levar pelos próprios interesses significa adotar o caminho de menor resistência. Mas, a menor resistência não quer dizer a mesma coisa que nenhuma resistência. O princípio significa, essencialmente, a busca dos assuntos que, no momento, são os menos reprimidos. E é este, exatamente, o princípio que o analista aplica quando apresenta suas interpretações. Ele, como já foi salientado, escolhe para interpretar os fatores que, segundo crê, o paciente pode apreender perfeitamente na ocasião, e renuncia a aventurar-se por problemas que ainda estão muito reprimidos. Toda a auto-análise de Clara ilustra a validade deste procedimento. Aparentemente sem querer, nunca se deu ao trabalho de atacar nenhum problema que não evocasse uma reação nela, mesmo que estivesse praticamente “na cara”. Sem nada saber acerca do princípio de orientação pelo interesse, intuitivamente o aplicou através de todo seu trabalho, e isso foi-lhe muito útil. Um exemplo pode representar muitos. Na série de associações que concluiu com o primeiro aparecimento do devaneio sobre o grande homem, Clara identificou somente o papel desempenhado em sua relação pela necessidade de proteção. As sugestões referentes a suas outras expectativas dos homens, foram por ela postas de lado inteiramente, malgrado fossem óbvias e se destacassem no devaneio. Esta escolha intuitiva levou-a a adotar a melhor linha de ação possível. Ela absolutamente não avançou por terreno conhecido: a descoberta de que a necessidade de proteção era parte integrante de seu “amor”, foi uma descoberta de um fator até então desconhecido. Outrossim, conforme deve estar ainda na lembrança do leitor, esta descoberta constitui a primeira incursão contra sua ilusão querida de “amor”, o que foi, por si Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 53 mesmo, um passo penoso e incisivo. Tomar, ao mesmo tempo, o problema agravante de sua atitude parasitária com relação aos homens, teria sido certamente por demais árduo, a menos que o tratasse de forma superficial. Isto leva-nos a um último pormenor: não é possível absorver mais do que um “insight” importante de cada vez. A tentativa de fazê-lo será nociva a ambos, ou a todos eles. Qualquer “insight” relevante requer tempo e concentração total, para que possa “assentar” e enraizar-se. A compreensão de uma série de associações exige flexibilidade, não só na direção do trabalho, como acabamos de ver, mas também no modo de abordar. Por outras palavras, na seleção de problemas a gente deve orientar-se pelos interesses emocionais espontâneos, bem como pela inteligência; também no estudo dos problemas que aparecem, deve-se passar com facilidade do pensamento deliberado para a apreensão intuitiva das ligações. Este último requisito pode ser comparado à atitude necessária quando se estuda uma pintura: pensamos a respeito da composição, da combinação de cores, das pinceladas e de coisas do mesmo jaez, mas também levamos em conta as reações emocionais provocadas em nós pela pintura. Isto corresponde, igualmente, à atitude que o analista adota face às associações de um paciente. Enquanto estou escutando o que o paciente me diz, às vezes medito intensamente sobre possíveis significados, chegando a uma conjetura só por deixar a conversa do paciente agir sobre minhas faculdades intuitivas. A verificação de qualquer conclusão, contudo, não importa como se tenha chegado a ela, sempre impõe completa atenção intelectual. Uma pessoa pode achar, naturalmente, que em uma série de associações nada lhe desperta o interesse em particular; ela apenas vê uma ou outra possibilidade, mas nada de esclarecedor. Ou, no extremo oposto, pode achar que mesmo que se detenha em uma conexão, certos outros elementos também a impressionam. Em ambos os casos, será bom que anote à margem as questões deixadas em suspenso. Talvez no futuro, ao recapitular suas anotações, as possibilidades meramente teóricas tenham algum significado para ela, ou as perguntas guardadas possam ser agora examinadas em maior detalhe. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 54 Há, ainda, um último escolho a ser citado: nunca aceite mais do que você pode acreditar deveras. Este perigo é maior na análise regular, especialmente se o paciente é daqueles que tendem a concordar com afirmações peremptórias. Mas também pode desempenhar um papel quando a pessoa confia em seus próprios recursos. Ela pode sentir-se obrigada, por exemplo, a aceitar o que quer que de “mau” surja a seu respeito, e a desconfiar de uma “resistência” caso hesite em fazê-lo. Ficará mais garantida, porém, se encarar sua interpretação como simples tentativa, sem procurar convencer-se de que é definitiva. A essência da análise é a verdade, e isto deve aplicar-se igualmente à aceitação ou não das interpretações. O perigo de fazer uma interpretação desorientadora, ou pelo menos improfícua nunca pode ser eliminado, mas não se precisa temer isso excessivamente. Se a pessoa não baqueia, mas prossegue dentro da mentalidade certa, mais cedo ou mais tarde aparecerá uma trilha mais proveitosa, ou então se dará conta de estar em um beco sem saída e talvez até aprenda alguma coisa com essa experiência. Clara, por exemplo, antes de empenhar-se na análise de sua dependência, passará uns dois meses escavando à procura de uma suposta necessidade de impor sua vontade. Graçasaos dados que surgiram posteriormente, podemos entender porque ela se deixou arrastar naquela direção. Ela me contou, todavia, que durante essas tentativas nunca tivera uma convicção nem de longe semelhante às que sentiu mais tarde, durante o período relatado. Ademais, a razão definitiva pela qual seguirá aquele caminho fora o fato de Peter censurá-la freqüentemente por ser dominadora. Isto ilustra dois pontos acima assinalados: a importância de seguir os próprios interesses, e a de não aceitar nada sem plena convicção. Conquanto esta busca inicial de Clara tenha se traduzido por um desperdício de tempo, deu em nada sem prejuízo algum, e não a impediu de realizar trabalho altamente construtivo mais tarde. O caráter construtivo do trabalho de Clara deveu-se não só à conexão intrínseca das interpretações dela, mas igualmente ao fato de sua análise, Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 55 naquele período, mostrar um notável grau de continuidade. Sem pretender concentrar-se em um problema – por longo tempo ela nem soube qual era – tudo em que ela se embrenhava acabava sendo uma contribuição para o problema de sua dependência. Esta constante concentração inconsciente em um único problema, que a levou a abordá-lo inexoravelmente de ângulos sempre novos, é conveniente, mas raramente conseguida na mesma medida. Podemos explicá-la, no caso de Clara, por estar ela vivendo, na época, sob uma pressão formidável – cuja intensidade só reconheceu perfeitamente mais tarde – e, daí, inconscientemente, aplicar todas suas energias na resolução de problemas que contribuíam para esta. Uma situação assim compulsória não pode ser criada artificialmente; quanto mais absorvente for o interesse da pessoa em um problema, porém, tanto mais próxima desta será a concentração conseguida. A auto-análise de Clara ilustra muito bem as três etapas examinadas no Cap. III: identificação de uma tendência neurótica, compreensão de suas implicações, e descobrimento de suas inter-relações com outras tendências neuróticas. Na análise de Clara, como sói ocorrer muitas vezes, as etapas recobriram-se até certo ponto: ela identificou muitas das implicações, antes de finalmente localizar a própria tendência. Tampouco fez qualquer esforço para executar qualquer etapa definida em sua análise: ela não se dispôs deliberadamente a descobrir uma tendência neurótica, nem examinou deliberadamente as ligações entre sua dependência e sua modéstia compulsiva. A identificação da tendência veio por si mesma; e, analogamente, os elos de conexão entre as duas tendências tornaram-se cada vez mais visíveis, quase que automaticamente, à proporção que o trabalho analítico foi progredindo. Por outras palavras, Clara não escolheu os problemas – pelo menos conscientemente – mas os problemas vieram a ela, e ao se exibirem revelaram uma continuidade orgânica. Houve, na análise de Clara, uma continuidade de outra espécie, ainda mais importante, e mais possível de ser emulada; em nenhum momento houve qualquer “insight” que ficasse isolado ou desligado. O que vimos Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 56 desenvolver-se, não foi um acúmulo de “insights”, mas sim uma configuração estrutural. Mesmo que cada “insight” de per si, que o indivíduo obtenha esteja certo, ele ainda pode privar-se dos maiores benefícios do trabalho se os “insights” permanecerem dispersos. Portanto, Clara, após reconhecer que se deixará afundar na desgraça porque secretamente acreditava que com isso poderia obter ajuda, podia ter-se limitado a localizar a origem dessa tendência na infância e a encará-la como uma crença infantil persistente. Isso talvez lhe ajudasse um pouco, por que ninguém gosta realmente de ser desgraçado sem uma boa razão; na vez seguinte em que se visse sucumbindo ante uma crise de desgraça, talvez se sentisse desprevenida. Mas, na melhor hipótese, essa sua maneira de tratar o “insight” teria diminuído, com o passar do tempo, os ataques flagrantes de infelicidade exagerada. E esses ataques não eram a expressão mais importante da tendência. Ou então, ela poderia não ter ido além da etapa seguinte, de ligar sua descoberta com sua real falta de agressividade e de reconhecer que sua crença em ajuda mágica podia substituir uma forma ativa de enfrentar as dificuldades da vida. Isto, embora ainda inadequado, teria auxiliado bem mais, porque teria aberto um novo incentivo para pôr fim a toda atitude de impotência que se ocultava por detrás daquela crença. Mas, se ela não tivesse associado a crença na ajuda mágica com sua dependência, e visto uma como parte integrante da outra, não teria podido superar completamente a crença, porque faria sempre a restrição inconsciente de que se ao menos pudesse encontrar o “amor” permanente, sempre poderia contar com ajuda. Foi só porque viu essa conexão, e reconheceu a falácia de uma tal expectativa e o tremendo preço que tinha de pagar por ela, que a introvisão teve o efeito radicalmente libertador. Assim, não é absolutamente uma questão puramente de interesse teórico uma pessoa descobrir como um traço de personalidade está implantado em sua estrutura, com múltiplas raízes e efeitos; também é da máxima importância terapêutica. Este requisito pode ser expresso em termos familiares de dinâmica: é preciso conhecer-se a dinâmica de uma tendência antes de poder mudá-la. Mas, esta palavra é como uma moeda Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 57 que com o uso vai ficando fina e um tanto gasta. Além do mais, sugere comumente a idéia de forças impulsoras, e pode ser interpretada aqui como significando que se deve apenas procurar essas forças, quer nos primeiros anos da infância quer no presente. Neste caso, a noção de dinâmica seria enganosa, porquanto a influência que uma tendência exerce na totalidade da personalidade é tão importante quanto os fatores que determinam sua existência. Não é de modo algum somente em questões psicológicas que é essencial esta percepção das inter-relações estruturais. As considerações por mim salientadas aplicam-se com o mesmo peso, por exemplo, às questões de doença orgânica. Nenhum bom médico considerará uma doença do coração como um fenômeno isolado. Ele também levará em conta como o coração é influenciado por outros órgãos, como os rins e os pulmões. E ele deve saber que o estado do coração, por sua vez, afeta outros sistemas do corpo: por exemplo, a circulação do sangue ou o trabalho do fígado. Seu conhecimento das influências dessa ordem irão auxiliá-lo a entender a intensidade da perturbação. Se é assim essencial, no trabalho analítico, não perder-se em detalhes dispersos, como se pode conseguir a desejada continuidade? Teoricamente, a resposta está implícita nos parágrafos precedentes. Se uma pessoa fez uma observação pertinente ou conseguiu um “insight”, deve examinar como a peculiaridade desvendada manifesta-se em várias áreas, quais as suas conseqüências e quais os fatores de sua personalidade por ela responsáveis. Isto, porém, pode ser encarado como uma afirmação assaz imaginária. Deve-se ter em mente, entretanto, que qualquer exemplo sumário necessariamente dá a impressão de uma clareza e simplicidade que na realidade não existem. Ademais, um exemplo desses, destinado a mostrar a variedade de fatores a serem identificados, não pode indicar as experiências emocionais que a pessoa tem ao analisar-se e, por conseguinte, só dá uma imagem unilateral e supra-racionalizada. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 58 Tendo em mente estas restrições, suponhamos uma pessoa que observou que, em dadas situações em que gostaria de participar de discussões, fica coma língua presa porque receia as possíveis críticas. Se ela permitir esta observação arraigar-se em si, começará a matutar acerca do receio em questão, visto como não é proporcional a qualquer risco real. Pensará por que o medo é tão grande que lhe impede não só de exprimir suas idéias, mas também de pensar claramente. Perguntar-se-á se o medo é maior do que sua ambição, e se é maior do que quaisquer considerações de ordem prática, que, pelo bem de sua carreira, tornem conveniente causar uma boa impressão. Tendo obtido assim um interesse pelo problema, procurará verificar se dificuldades semelhantes fazem-se sentir em outros setores de sua vida e, em caso afirmativo, de que forma se revestem. Examinará suas relações com mulheres: será que ele é tímido demais para aproximar-se delas receando que encontrem defeitos nele? E que dizer de sua vida sexual? Esteve impotente durante algum tempo por não poder esquecer- se de um insucesso? Reluta em ir a festas? Como é que age quanto a compras? Dá gorjetas exageradas porque teme que, de outra forma, o vendedor o considere sovina? Ainda mais, quão vulnerável é ele exatamente com relação a críticas? O que basta para deixá-lo embaraçado ou para fazê-lo sentir-se melindrado? Ele fica magoado quando sua esposa critica abertamente sua gravata ou fica incomodado quando ela apenas elogia João por combinar sempre a gravata com as meias? Essas considerações dar-lhe-ão uma impressão da intensidade e extensão de sua dificuldade e de suas várias manifestações. Quererá saber, então, como é que ela afeta sua vida. Já sabe que o deixa inibido em muitos setores. Ele não pode afirmar-se; é muito complacente com o que os outros esperam dele; portanto, nunca pode ser ele mesmo, mas sim tem que desempenhar automaticamente um certo papel. Isto o deixa ressentido contra os demais, pois parecem dominá-lo, além de rebaixar seu amor-próprio. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 59 Finalmente, procura os fatores responsáveis pela dificuldade. O que o deixou tão receoso de críticas? Pode recordar-se de que seus pais fizeram-no apegar-se a padrões muito severos, e pode lembrar-se de uma série de incidentes em que foi repreendido ou em que o fizeram sentir-se deslocado. Mas também terá de pensar em todos os pontos fracos de sua verdadeira personalidade que, em sua totalidade, tornam-no dependente dos outros e, por isso, fazem-no considerar a opinião que fazem dele como da máxima importância. Se puder encontrar respostas para todas essas perguntas, seu reconhecimento de que teme as críticas não mais será um “insight” isolado, mas verá a relação deste traço com toda a estrutura de sua personalidade. Pode bem ser perguntado se com este exemplo eu quero dizer que uma pessoa que haja descoberto um novo fator deve deliberadamente esquadrinhar suas experiências e seus sentimentos das várias maneiras indicadas. Por certo que não, pois um procedimento desses envolveria o mesmo perigo de um domínio meramente intelectual, que já foi discutido. Pelo contrário, ela deve assegurar-se um período de contemplação. Deve meditar sobre sua descoberta mais ou menos da forma que um arqueólogo que descobriu uma estátua enterrada, muito mutilada, olha seu tesouro de todos os ângulos até que as formas originais revelem-se à sua mente. Qualquer fator novo que a pessoa identifique é como a luz de um projetor voltada para certos domínios de sua vida, iluminando pontos que até então haviam permanecido no escuro. Ele quase que é obrigado a vê-los, se ao menos estiver verdadeiramente interessado em conhecer- se. Este são pontos em que a orientação de um especialista seria particularmente útil. Nessas ocasiões, um analista ajudaria efetivamente o paciente a ver o significado da descoberta, fazendo uma ou outra pergunta sugerida por ela e ligando-a a descobertas anteriores. Quando não se dispõe de um auxílio exterior desses, a melhor coisa a fazer é abster-se de prosseguir correndo na análise, recordando que um novo “insight” significa a conquista de território novo, e procurando beneficiar- se dessa conquista consolidando a vantagem obtida. Em cada um dos exemplos dados no capítulo sobre auto-análise esporádica, citei perguntas que poderiam ter sido lembradas pelo “insight” obtido. Podemos estar bem certos de que a razão pela qual as pessoas interessadas não Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 60 atinaram com essas perguntas, foi somente por ter o seu interesse acabado com o afastamento de suas dificuldades imediatas. Se perguntássemos a Clara como foi que conseguiu tão notável continuidade em sua análise, provavelmente ela daria a mesma resposta dada por uma boa cozinheira quando lhe é pedida uma receita: a resposta, em suma, é que segue seu “instinto”. No caso da análise, contudo, essa resposta não é tão satisfatória como no de uma omeleta. Ninguém pode tomar por empréstimo os “instintos” de Clara, mas todos possuem seus “instintos” próprios pelos quais se podem guiar. E isto traz-nos de volta a algo que foi discutido acima, ao tratarmos da interpretação de associações: é útil ter uma noção daquilo que se está procurando, mas a procura deve ser dirigida pela iniciativa e pelo interesse da própria pessoa. Deve-se aceitar o fato de que se é um ser humano, movido por necessidade ANEXO I Processo Didático de Estágio – Análise Didática com Paciente-Piloto 1 – O que é? Trata-se do processo didático eleito pela SPBM para substituir com eficácia o velho sistema de Análise Didática empregado desde os primórdios da Psicanálise. A SBPM entende que a Análise Didática nos velhos moldes, tanto acrescenta e resolve os problemas pessoais do futuro Psicanalista, como Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 61 pode ser usada como meio de manipulação e exploração do futuro Psicanalista por Profissionais Didatas e/ou instituições (Sociedades Psicanalíticas) que buscam mais a obtenção de meios do que propriamente a formação e a ciência. Assim, aliando o conhecimento já transferido à história e às técnicas direcionais que ministramos, além de toda Teoria necessária, implantamos um processo que propiciará o estágio, o auto-conhecimento, o amadurecimento como profissional e o meio com suas adversidades e gratificações todos necessários ao engajamento definitivo nesta ciência/arte. 2 – Precedentes do Processo Este processo vem sendo utilizado no Brasil através da ABPC (Academia Brasileira de Psicanálise Clínica) especialmente com os alunos de outras cidades, isto é, fora de sua sede, com resultados exuberantes. Processo semelhante foi empregado com sucesso pela Escola Superior de Psicanálise de São Paulo, que orientava imediato trabalho de estágio, com credenciamento precário de todos os Psicanalistas em Formação. Temos também, fartos relatos dos mais modernos institutos de formação de Psicanalistas ou Terapeutas Europeus, tanto na área de Instrução Sistemática (Universidades Regulares), quanto na área de formação livre ou à distância, que empregam semelhante sistemática, sempre sob avaliação direta do órgão para isto constituído. Podemos acrescentar também que a Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, vem empregando tal processo (ligeiramente adaptado) nos Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 62 Cursos de Mestrado e Especialização nas áreas de Psicanálise, com ótimo aproveitamento. Precisamos levar em conta também que o advento das universidades à distância vem impondo novas formas de amadurecimento profissional diferentes das tradicionais, e que isto é marca de desenvolvimento e de novos tempos. Não é possível que só na Psicanálise tenhamosque manter um processo rígido e eterno, imutável, quando tudo o mais sofre aperfeiçoamento. Se é verdade que o Psicanalista em Formação vai deparar com situações embaraçosas, não é menos verdade que sendo exaustivamente analisado só tenha visto mesmo o seu próprio caso, que não ajuda tanto diante dos casos dos outros, totalmente diferentes. 3 – A eficácia O nosso processo é eficaz por oferecer oportunidade de ver casos enquanto o Psicanalista em Formação avança no estudo das teorias e das técnicas. O aluno, em estágio laborativo, terá, por isso mesmo, o privilégio de submeter as teorias à prova enquanto nelas amadurece. Neste terreno, vale pensar ainda no fato do aluno em estágio estar muito atento às ligações com sua própria história. É oportunidade para ab- reação provocada de seus próprios recalques, uma vez que o material externalizado pelos pacientes passam a funcionar como isca dentro do Psicanalista em Formação. Levamos em consideração ainda que o processo dá ensejo a que o Psicanalista em questão tenha uma melhor mensuração de sua fragilidade, o que é fundamental para respeitar o próximo. É muito comum Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 63 Psicanalistas que assumem ares de onipotente. Temos constatado alguns, até exaustivamente analisados, que só viram mesmo seu próprio caso, fazerem, a partir de sua análise, uma projeção desenfreada – vêem todos os pacientes como sendo eles ontem. ANEXO II IDÉIAS SOBRE O FORMATO DE UM DIVÃ O PAPEL DO PSICANALISTA NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO Thomas Freeman Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 64 A psicanálise é geralmente considerada como um método de tratamento que tem sua melhor aplicação em certos tipos de neurose. Tais estados se encontram em contraste com os que são mais comumente encontrados nos hospitais psiquiátricos. Os casos de neuroses que lá encontramos são caracterizados por sintomas tão graves, que impedem o paciente de levar uma vida normal, com seus compromissos em relação ao lar e ao trabalho. Os hospitais psiquiátricos são também ocupados por pacientes que sofrem de formas diferentes de perturbação mental – as psicoses orgânicas e funcionais. Tais pacientes não se consideram enfermos. O observador imparcial pode, justificadamente, perguntar: o que pode um psicanalista fazer de útil se estiver trabalhando num hospital psiquiátrico, confrontado com várias centenas de pacientes cujas condições são geralmente consideradas inadequadas para seu método de tratamento? Que contribuição pode ele prestar à terapia e ao tratamento? O propósito desta palestra é tentar responder a estas perguntas. Antes de fazê-lo, contudo, é necessário relembrar que, para desordens mentais graves, não dispomos, até o momento, de nenhum tratamento etiologicamente fundamentado. Os atuais métodos físicos de tratamento, que incluem a terapia de eletrochoque e as várias drogas tranqüilizantes e anti-depressivas, são medidas sintomáticas. Não combatem as causas do funcionamento mental anormal, mas apenas mantêm sob controle as manifestações clínicas mais perturbadoras. É quase impossível predizer seu efeito no caso individual, e o tratamento do paciente não pode se basear inteiramente em sua aplicação. Isto implica em que estas medidas físicas só podem ser encaradas como um dos aspectos da abordagem terapêutica. Outras considerações devem ser levadas em conta quando se planeja o tratamento de um paciente. É aqui que a psicanálise tem um papel a desempenhar. Antes de apresentar um relato acerca do que a psicanálise e o psicanalista tem a oferecer à clínica do hospital psiquiátrico, ou de detalhar as dificuldades que tais empreendimentos acarretam, é necessário oferecer uma definição operante da psicanálise. Não é ela apenas um método especial de psicoterapia, mas oferece uma série de conceitos e hipóteses, Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 65 cujo propósito é explicar como e porque surgem os sintomas e sinais das diferentes doenças mentais. Os conceitos psicanalíticos são de dois tipos: primeiro, os conceitos descritivos que identificam os fenômenos clínicos específicos; segundo, os conceitos explanatórios que fornecem uma descrição de como surgem certos fenômenos. Exemplo dos primeiros é o fenômeno da resistência, que inevitavelmente aparece no tratamento de uma doença psiconeurótica; uma ilustração do segundo é fornecida pelo conceito das repressões. Este conceito oferece uma explicação de porque certos pensamentos, desejos ou lembranças são automaticamente afastados da consciência e não podem ser trazidos de volta quando se quer. O emprego desse tipo de conceitos permite que se realize uma comunicação entre aqueles que se acham diretamente interessados no cuidado e no tratamento do paciente. Uma apreciação completa do modo pelo qual o psicanalista pode influenciar beneficamente a doença de um paciente é inteiramente impossível, sem que se tenha uma certa familiaridade com as principais características da teoria psicanalítica da formação de sintomas. A psicanálise oferece uma teoria desenvolvimental do funcionamento mental. Os processos mentais são encarados como simples e não organizados ao nascimento, mas, à medida que o indivíduo cresce, eles se tornam complexos e integrados. Na doença mental, há uma perda das capacidades psicológicas mais avançadas e estas são substituídas por funções que foram outrora apropriadas para um estágio primitivo do desenvolvimento mental. É muito comum, por exemplo, que a criança fique com medo quando está sozinha. Há certas formas de neurose nas quais o paciente se sente aterrorizado por ser deixado sozinho em casa ou por achar-se só na rua. Aqui, pareceria que a capacidade adulta de independência e autoconfiança foi perdida e substituída por um estado mental que fora outrora apropriado para a infância. Esta teoria que tenta explicar os sintomas mentais como sendo, primeiro, a perda das capacidades adultas e, segundo, a sua substituição por atividades apropriadas a estágios primitivos da vida mental, baseia-se principalmente em idéias apresentadas por Hughlings Jackson, médico inglês do século XIX, a fim de explicar a modalidade de origem dos sintomas da doença neurológica. Ele, por sua vez, derivava sua teoria da evolução e Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 66 dissolução do distúrbio nervoso da obra do filósofo inglês Herbert Spencer. Em termos simples, então, os sinais e sintomas das moléstias neuróticas e psicóticas são de dois tipos. Uma das categorias consiste nas capacidade e habilidades que foram perdidas. A segunda categoria abrange todos os pensamentos, idéias, emoções e experiências subjetivas inapropriadas e irracionais, que se achavam ausentes antes do desencadeamento da doença. Em perturbações mentais como a esquizofrenia e as melancolias, o paciente perdeu o uso de várias das funções mentais necessárias a uma adaptação ambiental satisfatória. A fala, o pensamento voltado para a realidade, a capacidade de concentração, os poderes perceptivos e a memória podem estar desorganizados. A psicanálise descreveu todas estas funções cognitivas altamente desenvolvidas, tal como operam no indivíduo sadio, juntamente com o conceito de ego, e contrastou-as com os processos inorganizados e indiferenciados do id. Os pacientes psicóticos perdem a capacidade se relacionar com os outros, e esta perturbação nos relacionamentos é uma característica marcante de tais estados. O paciente pode tornar-se insensível, abstraído e indiferente quanto aos que o cercam. Além dessas mudanças, o paciente apresenta um grande númerode manifestações novas e fora do comum. Nutre idéias irracionais que insiste serem corretas, apesar das contradições apresentadas pela realidade. Pode experimentar falsas percepções (alucinações) e seu pensamento assume uma qualidade mágica; os desejos, bons ou maus, tornam-se realidade. Esses fenômenos delirantes e alucinatórios assumem agora, para o paciente, uma importância maior que o mundo da realidade. Os objetos fantasiosos dos delírios e das alucinações parecem substituir as antigas relações com pessoas reais. Há breves ocasiões, entretanto, em que o paciente parece recuperar sua antiga capacidade de relacionar-se com os outros, e isto proporciona uma oportunidade para a intervenção terapêutica. Os psicanalistas acreditam que a nova realidade do paciente é a expressão de uma realidade psíquica exposta pela doença. Sua segunda realidade, ou realidade psíquica, permanece reprimida no indivíduo sadio. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 67 Novas manifestações aparecem também na vida instintiva do paciente. Em situações onde antes pode ter sido gentil e atencioso, torna-se agora impulsivamente agressivo. Muito amiúde há uma grande ansiedade quanto à sua identidade sexual. Teme estar mudando de sexo; pode notar sinais disso em seu corpo e obter confirmação nas atitudes dos que o cercam. Torna-se preocupado com o homossexualismo e pode realmente experimentar sentimentos homossexuais. Surgem também outros fenômenos que não se necessita examinar aqui. No caso das neuroses graves, os pacientes não apresentam a ampla perda das funções mentais característica do paciente que sofre de uma psicose. Eles mantêm a capacidade de se comunicar através da fala e, assim, podem adaptar-se facilmente ao ambiente hospitalar, sabendo-se doentes. Acham-se perturbados, primordialmente, em seu relacionamento com os outros. Entretanto, a natureza desse distúrbio é quase qualitativamente distinta daquela do paciente psicótico. O paciente neurótico não se afasta dos outros, nem usa como substituto uma realidade falsa constituída por objetos de delírio, como faz o paciente psicótico. Ele se apega ainda mais às pessoas que o cercam, mas este apegamento é de um tipo muito especial. Ele não pode existir sem seus objetos (empregando um termo psicanalítico) e lhes faz grandes exigências. É aqui que se pode notar indicações de atitudes mentais que, embora novas na vida adulta, caracterizaram outrora o comportamento da primeira infância posterior. É esta perturbação das relações interpessoais que freqüentemente conduz à hospitalização, uma vez que os que cercam o paciente são incapazes de fornecer-lhe a segurança e a satisfação pelas quais está se esforçando. A posição psicanalítica é a de que em ambas as categorias de enfermidade – na neurose e na psicose – há, em diferentes graus, uma perda das funções mentais adultas e sua substituição por atitudes, sentimentos, desejos e idéias apropriados a fases iniciais do desenvolvimento infantil. A psicanálise utiliza o conceito de regressão para descrever este movimento para trás da vida mental, de um estado mais Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 68 adiantado para outro menos adiantado. Na psicose, ocorre também algo mais. A forma pela qual o mundo e os que nele se acham são percebidos pelo paciente não é semelhante a nada que já tenha sido experimentado, mesmo na infância. É como se uma espécie de função mental irrompesse na consciência, possuindo características semelhantes aos sonhos do indivíduo sadio. No entanto, o fato decisivo para o psicanalista é que, mesmo na psicose, a totalidade da vida mental não é desorganizada pela doença. A regressão – o movimento para trás – do funcionamento mental e a desorganização do ego não são completas. Há sempre uma certa capacidade para estabelecer relacionamentos e resquícios de um funcionamento cognitivo sadio, mesmo nos pacientes mais perturbados. No caso da neurose, o problema é diferente. O paciente pode relacionar- se com o psicanalista, psiquiatra ou enfermeiro, mas a qualidade do relacionamento nem sempre auxilia os esforços terapêuticos. Quando a psicanálise pela primeira vez se defrontou inicialmente com desordens mentais que exigiam hospitalização, o principal interesse dos clínicos foi descobrir até que ponto o método era aplicável a tais condições. Relatos de esforços terapêuticos surgem na literatura psicanalítica inicial. Em 1926, foi criado na Alemanha um hospital psicanalítico, onde pacientes psicóticos, viciados em drogas e neuróticos graves podiam ser tratados. Logo tornou-se aparente (Simmel, 1929) que o tratamento psicanalítico de pacientes gravemente enfermos era um empreendimento muito mais complicado e difícil que a psicanálise das neuroses. Era necessário fornecer condições que assimilassem prontamente os concomitantes afetivos da doença e da terapia, os quais se entrelaçavam rapidamente. As reações ao psicanalista, descritas através do conceito de transferência, não se confinavam ao consultório, apesar da interpretação, mas estendiam-se facilmente a outros membros da equipe hospitalar e a outros pacientes. Vínculos intensos e ambivalentes desenvolviam-se com a equipe de enfermagem, vínculos excluídos da situação de tratamento. A fim de lidar com esses problemas, teve que ser estabelecido um estreito contato entre o psicanalista e a equipe de enfermagem. O intercâmbio de Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 69 informações que se realizava em tais reuniões possuía o efeito de fazer o pessoal do hospital compreender que a conduta do paciente no hospital era, acima de tudo, devida à repetição de relacionamentos infantis emocionalmente carregados, isto é, transferências. Este conhecimento possibilitou que atendentes e enfermeiros encarassem o paciente e suas reações com o hospital sob um novo ângulo. A possibilidade de utilizar o método psicanalítico com pacientes hospitalizados foi rapidamente aproveitada por psiquiatras americanos. De fato, Sullivan (1932), no Sheppard and Enoch Pratt Hospital, em Baltimore, estava tratando de pacientes esquizofrênicos através de uma psicoterapia baseada na psicanálise, contemporaneamente às tentativas que se faziam na Alemanha. Sullivan reconheceu a necessidade de a equipe de enfermagem receber um treinamento especial, se é que se pretendia que seus membros fizessem uma contribuição máxima ao regime de tratamento. Ele se achava à vanguarda daqueles que não apenas discerniam o potencial terapêutico do enfermeiro, mas também reconheciam a necessidade de tornar explícita a maneira pela qual este potencial deveria ser objetivado. Poucos anos mais tarde, esforços sérios de tratar pacientes esquizofrênicos por meio da psicanálise foram colocados em prática na Menninger Clinic, em Chericolt Lodge, e em um ou dois outros hospitais psiquiátricos norte-americanos. Desde então, criou-se uma literatura ampla, que fornece detalhes acerca dos meios pelos quais os pacientes podem ser psicanaliticamente abordados. Foi dada atenção às modificações da técnica de tratamento e dispensou-se consideração especial aos modos pelos quais os pacientes devem ser manejados no decurso do tratamento. Foi no decorrer desses esforços pioneiros que se tornou aparente o potencial terapêutico da comunidade hospitalar. O efeito benéfico da hospitalização fora observado em ocasiões anteriores, mas foi somente durante o tratamento psicanalítico de pacientes internados que se tornou Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 70 possível conceptualizar, ou seja, tornar explícito, o que conduzia à melhora clínica. Achava-se agora ao alcance do psiquiatra identificare descrever as causas daquilo que antes se pensava serem recuperações espontâneas e, além disso, criar as condições que facilitassem tais desenvolvimentos. Já em 1936 William Menninger propunha que programas especiais de terapia ocupacional fossem preparados para cada paciente, programas esses baseados nos problemas centrais que haviam formado a predisposição à doença. Tais programas baseavam-se num reconhecimento da influência terapêutica que o enfermeiro e terapeutas ocupacionais e recreacionais podiam exercer sobre o paciente, em resultado do relacionamento surgido da missão instrutiva. Eles foram entusiasticamente adotados por um certo número de hospitais americanos antes de 1939, e demonstraram que a introdução da psicanálise no hospital psiquiátrico possuía implicações muito mais amplas do que simplesmente o tratamento intensivo de um pequeno número de pacientes. Demonstraram, de maneira notável e dramática, de quão grande ressonância podia ser a influência terapêutica da psicanálise. Nos hospitais psiquiátricos britânicos a psicanálise seguiu uma evolução inteiramente diversa. Embora seu efeito tenha sido profundo, ele foi menos evidente e direto que nos Estados Unidos. Antes de 1939, a psicanálise não desempenhava papel algum nos hospitais psiquiátricos britânicos. Talvez houvesse umas poucas exceções nos casos em que as teorias psicanalíticas eram discutidas e se faziam algumas tentativas de experimentar o método psicanalítico. A tradição do tratamento psicanalítico de pacientes individuais no hospital psiquiátrico não surgiu da mesma maneira que nos Estados Unidos. Após 1945, o impacto da psicanálise apresentava-se menos concentrado que no hospital psiquiátrico americano e, sendo mais difuso, sua influência deveria fazer- se sentir mais na esfera da clínica do hospital psiquiátrico do que no caso individual. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 71 Os fundamentos para o emprego das idéias psicanalíticas nos hospitais psiquiátricos britânicos foram estabelecidos durante os anos de guerra. No Hospital Militar de Northfields, métodos de tratamento em grupo baseados em princípios psicanalíticos foram introduzidos por Bion, Rickman e Foulkes. Main (1946) e outros estenderam esta atividade, a fim de incluir grupos de enfermaria e grupos recreacionais. Em todos os pontos de contato entre pacientes e equipe, estabeleceram-se canais de comunicação, de modo a facilitar a troca de informações referentes ao status do grupo e dos indivíduos que o formavam. Este trabalho preparou o palco para a introdução da abordagem da comunidade terapêutica. Foi Jones (1952) quem reconheceu, com base na compreensão psicanalítica, que os vínculos transferenciais que os pacientes e com a comunidade hospitalar em geral podiam ser explorados para fins terapêuticos. Achou ele que os conflitos subjacentes aos sintomas e as dificuldades comportamentais poderiam vir a se manifestar através do veículo de comunicação de seus pensamentos, sentimentos e fantasias acerca de suas experiências enquanto se achavam no hospital. As discussões, tanto em grupos pequenos como em grandes, permitiria a expressão dessas reações e, ao mesmo tempo, daria à equipe médica e de enfermagem a oportunidade de oferecer ao paciente uma avaliação baseada na realidade dessas reações. Deste modo, Jones esperava realizar uma análise do conflito do paciente, não na terapia individual, mas no grupo. Acreditava que, através desse processo, o paciente viria a se identificar mais facilmente com os valores do grupo e do hospital, o que o fortaleceria e suplementaria o efeito benéfico resultante da análise de um ou mais conflitos conscientes, pré- conscientes e inconscientes. O trabalho de Jones apresenta uma aplicação de conceitos psicanalíticos que tem como objetivo o fornecimento de uma estrutura hospitalar que possa influenciar positivamente os pacientes. A aproximação dele ao paciente se dá através do ambiente hospitalar e não diretamente pelo Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 72 tratamento psicanalítico, como ocorre nos hospitais americanos. Embora as idéias de Jones tenham sido entusiasticamente adotadas em muitos lugares, a base teórica de tais desenvolvimentos foi amiúde negligenciada, tornando assim a técnica excessivamente empírica. São consideráveis os problemas que tal situação engendra. Eles podem corromper o potencial terapêutico e pôr em risco a viabilidade da comunicação hospitalar. Até este ponto, apresentou-se um breve esboço das maneiras pelas quais a psicanálise contribuiu para a psiquiatria hospitalar na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. O tratamento intensivo de casos individuais, que ocorre nos hospitais americanos menores e melhor equipados, nunca constituirá um empreendimento prático na Grã-Bretanha, mesmo que se pensasse que este fosse um curso de ação desejável. Que lugar a psicanálise deveria ocupar no hospital psiquiátrico britânico, e que papel deveria o psicanalista assumir? O psicanalista tem um duplo objetivo quando empreende o tratamento psicanalítico de uma neurose. Espera compreender a sintomatologia, transmitir este conhecimento ao paciente e, no processo, colaborar para a melhora ou remoção dos sintomas. Suas ambições não são menores quando decide intervir no caso de um paciente de hospital psiquiátrico. Neste caso, infelizmente, acha-se privado do aliado que a parte sadia e integrada da personalidade fornece no caso do paciente psiconeurótico considerado adequado para o tratamento psicanalítico normal. No caso do paciente hospitalizado, a capacidade de cooperação é limitada, e ele não pode estabelecer um relacionamento suficientemente forte para tolerar os desapontamentos, demoras e ansiedades que, inevitavelmente, acompanham o tratamento psicanalítico. As dificuldades são ainda maiores no caso de um paciente psicótico, que possui apenas a mais limitada capacidade para se relacionar. O psicanalista reconhece que será incapaz de conduzir um tratamento psicanalítico porque não há tempo para tal empreendimento e porque a tentativa estaria quase fadada a revelar-se infrutífera. Entretanto, ele retêm seu objetivo original de tentar compreender o sentido e a significação dos fenômenos clínicos e, tendo Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 73 por base esta compreensão, prescrever o procedimento que será útil para o manejo e tratamento. Talvez o modo mais fácil de transmitir como o psicanalista pode intervir beneficamente no caso de um paciente internado seja apresentar uma série de ilustrações clínicas extraídas de pacientes com psicoses esquizofrênicas. O primeiro paciente era um jovem de vinte anos de idade, que progressivamente se alienara daquilo que o cercava. Expressava idéias de estar sendo espionado; ficava imóvel durante horas, sentado numa cadeira; adotava posturas fora do comum. Quando foi admitido no hospital, mostrava-se incooperativo, não se misturava com os outros pacientes e era virtualmente inacessível. Não melhorava com a administração de drogas do tipo fenotiazina. Descobriu-se considerar ele os enfermeiros como perseguidores, acusando-os de serem inimigos disfarçados. Identificava erroneamente, isto é, confundia visualmente, os enfermeiros com um ou outro desses perseguidores. O resultado disso foi que se tornou menos acessível a enfermeiros e médicos. Por sorte desenvolveu um apreço por uma terapeuta ocupacional, e foi através dela que pôde-se obter informações acerca das atitudes do paciente para com a equipe médica e de enfermagem. Mesmo aqui, entretanto, havia momentos em que acreditava ser ela uma outra pessoa, e gritava e praguejava contra ela. Um desapontamento muito leve em suasrelações bastou para que ele se recusasse a vê-la de novo. Este caso foi mencionado porque ilustra duas características dos pacientes psicóticos seriamente perturbados. Primeiro, mostra como a capacidade do paciente de conhecer a realidade do meio ambiente através das funções de seu ego ( percepção, fala, pensamento, memória) acha-se submersa sob uma realidade psicótica, a qual, incluindo suas fantasias irracionais, altera-lhe de tal modo o julgamento que pessoas reais como enfermeiros e médicos vêm a ser confundidas com figuras de seus delírios. Isto leva o paciente a opor-se aos enfermeiros e aos médicos, e resulta em agir ele de maneira autoprejudicial. Neste caso, os próprios meios empregados para ajudar o paciente atuam como fonte de agravamento da doença. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 74 A segunda característica ilustrada por este exemplo é que o paciente não perdeu inteiramente a capacidade de se relacionar com figuras reais. Esta capacidade, porém, é limitada e fraca em sua expressão. Ninguém pode dizer, a princípio, com quem o paciente será capaz de estabelecer um vínculo. Neste caso, foi com a terapeuta ocupacional. O vínculo era fraco e foi fácil e irrecuperavelmente rompido pelo desapontamento. O fato de que vínculos emocionais possam ocorrer nas doenças psicóticas significa que a influência terapêutica é possível. A tarefa do psicanalista, portanto, é descobrir se tal capacidade existe e para onde é dirigida. Isto só pode ser feito por sua comunicação direta com a equipe de enfermeiros e auxiliares. É inevitável que alguns pacientes, para sua própria segurança, tenham de ser confinados, e, então, a realidade psicótica amiúde resulta numa piora do seu estado, levando-os a crer que se acham cercados por perseguidores. O confinamento com pacientes do mesmo sexo pode ter resultados adversos, por outra razão. Se um paciente se encontra preocupado com problemas de identidade sexual, e, em conseqüência da doença, experimenta a sensação de que seu corpo é parcial ou inteiramente feminino, pode acreditar que está atraindo ou será sexualmente atraído pelos outros pacientes. Com muita freqüência, o comportamento incooperante, agressivo ou aterrorizado de pacientes pode ser remontado a estas causas: a intrusão da realidade psicótica ou o surgimento de tendências homossexuais na consciência. Os psicanalistas, compreendendo que ambos os tipos de experiência podem surgir na psicose, acham-se alertas quanto à sua ocorrência. Quando fazem sua aparição, medidas apropriadas devem ser tomadas, a fim de aliviar os temores do paciente, transferindo-o para uma situação em que sua liberdade não seja restringida. Quando pacientes psicóticos são tratados psicote-rapeuticamente, podem surgir certos problemas que, no caso de um paciente psiconeurótico que se submete a tratamento psicanalítico, podem ser superados. Uma jovem paciente que sofria de uma moléstia esquizofrênica estava sendo vista várias vezes por semana. Era filha única e sua doença começara quando Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 75 a mãe morrera de câncer. Vivia com o pai. Quando a doença começou, a paciente ficou preocupada com uma série de idéias irracionais. Julgava que seu pai fosse homossexual e estava convencida de que ela própria também o era. Ouvia as pessoas dizendo isto no trabalho, nas ruas, e mesmo em casa, quando ali não havia ninguém. Acabou por fugir de casa, em pânico, temendo que o pai fosse atacá-la sexualmente. Posteriormente, no hospital, revelou que experimentara sentimentos sexuais em relação ao pai. Durante o curso da psicoterapia, manifestaram-se tendências eróticas em relação ao analista, tal como havia ocorrido com o pai. No caso de uma paciente neurótica que desenvolve fantasias sexuais com relação ao analista, seria possível apelar para a sua parte razoável e sadia e demonstrar que estas manifestações constituíam uma repetição do relacionamento com o pai, que agora atuavam como uma resistência ao progresso do tratamento e esta resistência dissipar-se-ia com o tempo. No presente caso, a paciente achava-se envolvida demais com suas idéias, não havia um ego razoável a quem apelar e seus controles eram deficientes. O conhecimento de que fora a perda da mãe que a levara ao movimento para trás (à regressão) da vida mental e ao surgimento de atitudes instintivas infantis fez com que o tratamento fosse temporariamente abandonado e que os cuidados com a paciente fossem continuados pela encarregada da enfermeira, sob a supervisão do analista. Nestas circunstâncias, a enfermeira, “in loco”, pode ajudar a paciente a recuperar o controle. A continuação do tratamento com o analista teria apenas exaltado a sexualidade e as ansiedades que esta originava. Sob circunstâncias ideais, seria necessário, nos hospitais psiquiátricos, decidir quem é a pessoa mais indicada para ter contato com o paciente, se deve ser homem ou mulher, moço ou velho. A melhora ou a deterioração do estado mental amiúde se devem aos fatores que foram descritos. O psicanalista se encontra em posição de cuidar que o manejo do paciente seja de tal ordem, que não vá de encontro ao efeito benéfico do tratamento por drogas ou psicoterapia. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 76 O psicanalista pode também ajudar os pacientes diretamente, através do emprego de métodos de grupo. Ele encontra-se numa posição favorável para empreender esta espécie de tratamento, devido a seu conhecimento de que as formas de relacionamento que se realizarão no grupo serão repetições de relacionamentos que estão ocorrendo na enfermaria do hospital, que ocorreram em casa, ou na infância. Pacientes com neuroses graves e estados depressivos podem ser tratados através da terapia de grupo, mas, nesta, tal como no tratamento individual, a natureza divergente da capacidade de se relacionar conduz a sérias dificuldades, Entretanto, mesmo quando a influência terapêutica positiva é limitada, o analista obtém um quadro muito claro da doença do paciente e da maneira de seu desenvolvimento. A terapia de grupo, tal como, na realidade, todas as espécies de intervenção terapêutica, requer a mais íntima cooperação com a equipe de enfermagem e com todos os médicos que estejam diretamente ligados aos pacientes. Já fizemos referência à maneira pela qual as reações dos pacientes tendem a transbordar do consultório para a enfermaria, onde encontram expressão com relação aos outros pacientes e à equipe de enfermagem. Isto significa que enfermeiros e médicos devem achar-se especialmente informados acerca dos pacientes individuais e, particularmente, conhecedores de maneira pela qual os pacientes transferem para eles suas atitudes e comportamentos com referência a maridos, esposas, pais e irmãos. O psicanalista tem como tarefa revelar o potencial terapêutico que existe em todos aqueles que têm contato com o paciente. A teoria psicanalítica fornece os conceitos que ajudam a descrever os processos que atuam nestas relações interpessoais e, com seu auxílio, o que era latente passa a ser manifesto e comunicável. Caso se pretenda que tal abordagem obtenha sucesso, entre os membros da equipe de médicos e enfermeiros os canais de comunicação devem estar abertos. A forma que tomarão, isto é, se deve haver reuniões estabelecidas ou discussões informais é secundária quanto à criação de um meio pelo qual todos possam relatar Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 77 suas experiências com os pacientes. Deste modo, o amplo conhecimento que enfermeiros e terapeutas ocupacionais acumularam através dos anos pode tornar-se aproveitável. Tais informações revelamquão numerosas são as influências que atuam sobre um paciente durante sua estada no hospital e impedem que o psiquiatra ou o psicanalista acredite ter sido uma pílula especial ou uma interpretação específica que conduziu a uma mudança nos sintomas do paciente. A questão é: como psiquiatra e enfermeiro vêm a reconhecer que os sintomas do paciente e a maneira pela qual se relaciona (isto é, com o médico, com o enfermeiro e com outros pacientes) são, em essência, uma repetição do modo pelo qual outrora se relacionou com os outros? No que concerne à equipe médica, não pode haver melhor maneira de aprender a reconhecer os fenômenos em questão que o tratamento, sob supervisão, de um ou mais pacientes psiconeuróticos através de uma psicoterapia deve começar com a seleção de pacientes apropriados. Se não for possível encontrá-los no hospital psiquiátrico, procuram-se casos adequados nos ambulatórios. A relação médico-paciente torna-se o centro do programa de instrução. Isto é particularmente vital, uma vez que o psiquiatra em formação subestima a potência do efeito das forças emocionais que atuam nesta relação, seja na psicoterapia, seja em outra forma de tratamento. Muito rapidamente o psiquiatra em formação descobre que as dificuldades de comunicação do paciente são devidas a pensamentos e sentimentos pré- conscientes a respeito do terapeuta. Dá-se conta das alusões à situação de tratamento que o paciente faz constantemente, as quais torna manifestas e utiliza para fortalecer a confiança do paciente em sua capacidade terapêutica. O objetivo da instrução é permitir que o psiquiatra em formação observe as resistências, a transferência e os conflitos subjacentes aos sintomas. O psiquiatra pode utilizar o conhecimento que obteve em muitas situações diferentes, o que o impede de ignorar as influências psicológicas que atuam na terapia orgânica, ao mesmo tempo em que reconhece os sinais indicadores de que um paciente que não estpá em psicoterapia estabeleceu espontaneamente um relacionamento Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 78 com ele. Com este conhecimento, acha-se apto a explorar o relacionamento para fins terapêuticos, o que é particularmente valioso com pacientes psicóticos. Uma tarefa mais difícil é transmitir esse conhecimento à equipe de enfermagem, mas tal pode ser feito se tomar-se em consideração as resistências dos enfermeiros e se elas forem manejadas com bastante tato e paciência. Somente quando enfermeiro e atendentes vêm a reconhecer que os sintomas e o comportamento são, em larga escala, o resultado da regressão, é que estão aptos a adotar uma atitude mais objetiva e menos emocional com relação a seus pacientes. O psicanalista também pode contribuir para a pesquisa. Seu treinamento alerta-o para a complexidade dos estudos clínicos e seu conhecimento acerca da realidade psíquica e da transferência impede-o de super- simplificar as dificuldades metodológicas que assediam a pesquisa clínica. Os psicanalistas reconhecem que a coleta de dados primários não é tão simples quanto na doença física. A variabilidade de reação do paciente fisicamente enfermo é muito menor que a do doente mental. Esta variação se deve a numerosos fatores, entre os quais as atitudes para com o médico se acham altamente colocadas. Além da relutância dos pacientes em revelar algo de importante a quem mal conhecem, essas influências, usualmente pré-conscientes ou inconscientes, podem deformar a atitude do paciente com respeito à comunicação por longos períodos. A situação experimental também pode vir a ter um significado inconsciente para o paciente. Quando técnicas terapêuticas são empregadas para registrar dados clínicos, o psicanalista pode participar diretamente da pesquisa. Sua formação qualifica-o particularmente bem para esta tarefa. Contrariamente a uma crença comumente sustentada, a psicanálise sempre manteve um sério interesse pela forma que os sintomas e sinais assumem na doença mental. A situação psicoterapêutica é especialmente adequada para a observação das comunicações dos pacientes, sejam elas verbais ou não-verbais. Sua preservação e manutenção não dependem, como alguns podem pensar, de o médico constantemente Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 79 apresentar “interpretações” ao paciente. A situação permanecerá viável enquanto as ansiedades do paciente com relação às intenções do médico se acharem adequadamente ventiladas. Embora a educação e a pesquisa constituam campos importantes para o psicanalista, deve-se dar prioridade ao tratamento de pacientes. Não é apropriado, e, parafraseando as palavras do Imperador Trajano, “contrário ao espírito dos tempos”, encarar ou designar o psicanalista como uma “avis rara”, cuja tarefa exclusiva é a de fazer a psicoterapia o dia todo. O psicanalista deve estar apto a participar de tarefas hospitalares de rotina, bem como empreender o tratamento psicanalítico de pacientes selecionados, quando se acha que isto é necessário. Ele deve ter plena responsabilidade clínica por casos de todas as naturezas, inclusive aqueles cujo estado mental é basicamente devido a causas orgânicas. Desse modo, o psicanalista fica mais próximo do psiquiatra comum, através de uma melhor compreensão dos problemas e dificuldades que o último tem de enfrentar. Não há nenhum campo de trabalho psiquiátrico hospitalar para o qual o psicanalista não possa contribuir, nem tampouco existe nenhuma atividade de hospital psiquiátrico da qual não possa beneficiar-se. Na Grã-Bretanha, a separação entre a psicanálise e a psiquiatria clínica teve efeitos nocivos para ambas as disciplinas. Deu aos psiquiatras uma impressão errônea a respeito da psicanálise e cegou-os para as possibilidades terapêuticas que são inerentes às medidas psicoterapêuticas nela baseadas. Impediu-os também de reconhecer a importante contribuição que a psicanálise pode fazer à investigação clínica em psiquiatria. Por outro lado, a experiência clínica de muitos psicanalistas permaneceu limitada, devido à sua falta de contato com a psiquiatria hospitalar. Isto ocasionalmente levou, por parte de certos psicanalistas, a uma recusa em reconhecer os limites terapêuticos do tratamento psicanalítico e facilitou também a preservação de certas teorias psicanalíticas que certamente teriam sido modificadas se houvessem sido expostas ao campo de provas do hospital psiquiátrico. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 80 É pena que tantos psiquiatras sejam perturbados por temores irracionais com respeito à psicanálise, com resultantes suspeita e preconceito. Isto causou, e continuará a causar, conseqüências desafortunadas para a psiquiatria e para a psicanálise. Os psiquiatras que trabalharam com psicanalistas sabem que esses temores são infundados. Talvez o futuro conduza a uma cooperação maior, de modo que a psicanálise possa, como um sócio com iguais direitos, participar dos cuidados e do tratamento do doente mental. LEITURAS RECOMENDADAS JONES, M. S. (1952) Social Psychiatry ( Londres, Tavistock). MAIN, T. F. (1946) “The Hospital as a Therapeutic Institution”. Bull. Menninger Clinic, 10, 66. MENNINGER, W. C. (1936), “Psychoanalytical Principles Applied to the Treatment of Hospitalized Patients”. Bull. Menninger Clinic, 1, 35. SIMMEL, E. (1929) “Psychoanalytic Treatment in a Sanatorium”, Int. J. Psychoanal., 10, 70. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 81 ANEXO III Controle de Análise Didática – Paciente/Piloto: Turma de: _______________ Pseudônimo: _______________________ Psicanalista em Formação:_____________ n.º: _____ Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 82 I – Das Sessões: 1-____-____-____hora______ 31-____-____-____hora______ 2-____-____-____hora______ 32-____-____-____hora______ 3-____-____-____hora______ 33-____-____-____hora______ 4-____-____-____hora______ 34-____-____-____hora______ 5-____-____-____hora______ 35-____-____-____hora______ 6-____-____-____hora______ 36-____-____-____hora______ 7-____-____-____hora______ 37-____-____-____hora______ 8-____-____-____hora______ 38-____-____-____hora______ 9-____-____-____hora______ 39-____-____-____hora______ 10-____-____-____hora______ 40-____-____-____hora______ 11-____-____-____hora______ 41-____-____-____hora______ 12-____-____-____hora______ 42-____-____-____hora______ 13-____-____-____hora______ 43-____-____-____hora______ 14-____-____-____hora______ 44-____-____-____hora______ 15-____-____-____hora______ 45-____-____-____hora______ 16-____-____-____hora______ 46-____-____-____hora______ 17-____-____-____hora______ 47-____-____-____hora______ 18-____-____-____hora______ 48-____-____-____hora______ 19-____-____-____hora______ 49-____-____-____hora______ 20-____-____-____hora______ 50-____-____-____hora______ 21-____-____-____hora______ 51-____-____-____hora______ 22-____-____-____hora______ 52-____-____-____hora______ Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 83 23-____-____-____hora______ 53-____-____-____hora______ 24-____-____-____hora______ 54-____-____-____hora______ 25-____-____-____hora______ 55-____-____-____hora______ 26-____-____-____hora______ 56-____-____-____hora______ 27-____-____-____hora______ 57-____-____-____hora______ 28-____-____-____hora______ 58-____-____-____hora______ 29-____-____-____hora______ 59-____-____-____hora______ 30-____-____-____hora______ 60-____-____-____hora______ II – Das Observações: 1- Desempenho do Analisando na anamnese: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 2- Desempenho do Analisando nas entrevistas: ________________________________________ Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 84 ________________________________________ ________________________________________ 3- Postura do analisando perante o Contrato Analítico: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 4- Desempenho do analisando na formação do Par Analítico: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 5- Aparecimento da Transferência: ________________________________________ ________________________________________ 6- Fatores predisponentes à Contra-transferência: ________________________________________ ________________________________________ Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 85 7- Poder de Insight: __________________________________________________________ ___________________________ 8- Existência de Neuroses: ________________________________________ ________________________________________ 9- Presença de problemas Estruturais: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 10- Analisabilidade: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 11- Aceitação das Interferências Interpretativas: Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 86 ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 12- Resistências: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 13- Atos Falhos: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 14- Fim da Análise: __________________________________________________________ ___________________________ ________________________________________ 15- RTN: Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 87 ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 16- Parecer pessoal do Psicanalista em Formação: ________________________________________ ________________________________________ ________________________________________ 17- Parecer Final do Conselho Acadêmico: ________________________________________ BIBLIOGRAFIA 1- Fundamentos da Técnica Psicanalítica, Etchegoyen – Artes Médicas. 2- Self - Analysis – Karen Horney – Editora 3- Fundamentos da Psicanálise - Franz Alexander - Zahar Editores. 4- Chaves da Psicanálise – Georges P. Brabant - Zahar Editores. 5- Técnica Psicanalítica e Interpretação – Heinrich Racker - Artes Médicas. 6- Impasse e Interpretação – Herbert Rosenfeld - Imago; Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com 88 7- Novos Fundamentos para a Psicanálise - J. Laplanche - Martins Fontes. 8- Para Compreender Freud – Gastão Pereira da Silva - Itatiaia 9- A Técnica e a Prática da Psicanálise – Ralph Greenson – Imago. Licenciado para - F ernanda santos - 29024185823 - P rotegido por E duzz.com