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HISTÓRIA DAS RELIGIÕES Mayara Joice Dionizio sa SOLUÇÕES EDUCACIONAIS INTEGRADASReligião e movimentos sociais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Caracterizar a teologia como movimento libertador. Identificar principais movimentos teológicos do século Descrever movimentos teológico evangélicos. Introdução Desde surgimento do cristianismo como religião e doutrina, a teologia desempenha um papel fundamental tanto na consolidação da religião quanto nos desafios apresentados em cada contexto cultural, histórico e temporal. Com passar dos séculos, podemos observar como a religião caminhou entre uma posição mais impositiva e, em outros momentos, uma postura mais solidária com as causas sociais. Isto é, a alteração do entendimento social se dá pelos movimentos teológicos, sejam eles de caráter mais teórico ou aliados, efetivados em movimentos sociais que têm em vista a práxis como ação ética-cristã. Neste capítulo, você vai conhecer os momentos da teologia na Amé- rica Latina, desde a colonização até a abertura da Igreja para se pensar uma ressignificação da instituição frente aos dilemas sociais. Além disso, vai ver que foi a teologia da libertação, bem como outros movimentos teológicos que ilustraram e contextualizaram século XX. Por fim, vai conferir como a teologia evangélica tem se modificado desde sua difusão no Brasil, a partir dos anos 1960 e 1970. 1 A teologia como movimento libertador Quando falamos sobre a teologia associada ao termo libertador, no contexto da América Latina, rapidamente pensamos no contexto das lutas sociais e da reforma da Igreja em nosso continente. O movimento da teologia da libertação2 Religião e movimentos sociais marcou a nossa história, nossa busca por uma dignificação decolonial mesmo em relação à instituição católica; ou seja, ressignificar a religião católica a partir dos costumes próprios de cada região, de cada país, de cada cultura. Assim, a religião passaria a ser um importante elemento formador de caráter crítico, reflexivo e prático em relação às mudanças estruturais sociais, econô- micas e políticas de que as sociedades latinas tanto precisam. Outro aspecto introdutório, que também será explicitado ao longo deste capítulo, é a ligação entre a teologia da libertação e os movimentos em busca da reforma agrária, tais como movimento dos trabalhadores sem-terra (MST). A teologia da libertação surgiu oficialmente em 1971, com a publicação do livro de um padre peruano, Gustavo Gutiérrez, A teologia da libertação. Contudo, a teologia da libertação é um movimento que já vinha acontecendo antes de sua oficialização, principalmente após o Concilio do Vaticano (1962) e da Conferência de Medellín (1968), que consistiram em encontros oficiais para discutir colaboração que as ciências humanas e sociais poderiam dar à Igreja em relação à teologia e ao acesso dos mais pobres (SANT'ANNA, 2004). Apesar da corrente mais conhecida ser a de viés marxista, outras correntes também se constituíram, mas com outras interpretações: antropológicas, relativistas, materialistas, entre outras. Todas se debruçaram sobre os mesmos problemas e sobre os ensinamentos de Jesus Cristo, mas com interpretações diferentes. Faz-se necessário, nesse contexto, retomar a história da religião enquanto instituição na América Latina, ainda que brevemente. Autores como Sant'anna (2004) resgatam a história do cristianismo na América Latina a partir de três marcos: (1492-1808) o cristianismo colonial; (1808-1960) o cristianismo novo; (1970-1978) a crise do cristianismo. primeiro momento de nossa história se refere ao período da colonização. Com a chegada dos portugueses e espanhóis em nosso continente, suas crenças passaram a ser impostas. No século XIV, Portugal e Espanha eram países hegemonicamente católicos; não obstante, a Igreja Católica era uma força predominante em toda a Europa. Nesse sentido, não se submetia às coroas de ambos os países nem de qualquer país europeu. Tal como se destacam as guerras que foram travadas por questões puramente institucionais e religiosas, nesse contexto, a Igreja tinha acesso às sociedades, a estratos sociais que nem mesmo a Coroa conseguia ter. A colonização se deu como uma difusão impositiva da exploração e do modo de vida europeu e, a partir de então, a Igreja empreendeu formas de legitimar a si enquanto instituição e religião e também os interesses monárquicos. Missões religiosas foram estabelecidas com vistas à catequização dos povos "selvagens" (os povos indígenas), em que muitos eram castigados por se recusarem a aderir às crenças cristãs, por demorarem para aprender asReligião e movimentos sociais 3 línguas portuguesa ou espanhola, entre outros motivos. Contudo, a Igreja foi se fragmentando enquanto instituição na América Latina. No ano de 1534, surge a chamada Companhia de Jesus, de origem francesa seu fundador foi Iñigo López de Loyola, de origem basca (entre França e a Espanha) e aluno da Universidade de Paris que tinha como fundamento o trabalho missionário em defesa dos povos oprimidos. A Companhia de Jesus passa a representar um risco aos interesses das Coroas portuguesa e espanhola, o que culmina, no século XVII, com a expulsão dos jesuítas, uma vez que representavam uma denúncia contra a união entre Estado e Igreja no processo de exploração. Já o segundo momento de nossa história latina (1808-1960) é caracteri- zado pela disputa imperialista entre a França e a Inglaterra a nível mundial (SANT'ANNA, 2004). O continente latino-americano passa a estar cada dia mais presente em meio às disputas territoriais, econômicas e aos movimentos emancipacionistas. Trata-se do período em que várias transformações acon- teciam no mundo e que acabaram por afetar o poder monárquico. Em 1789, aconteceu a Revolução Francesa e, após esse acontecimento, Na- poleão Bonaparte iniciou guerras contra diversos países em alianças. Portugal e Espanha, nesse contexto, encontravam-se enfraquecidos em seus regimes políticos, em suas monarquias. É nesse período que a América Latina passa a adquirir maior independência e apoio dos ingleses, e a Inglaterra passa a impor diversas mudanças estruturais nos países latinos, como fim do regime escra- vagista, imposições econômicas e um modelo industrial, visto que, há pouco, a Revolução Industrial vinha acontecendo no país tudo isso acaba contribuindo para o enfraquecimento da narrativa católica. Em 1870, surgem, na América Latina, os Estados oligárquicos (SANT'ANNA, 2004), já que, nesse período, não havia um conceito de país estável latino. Como exemplo dessas oligarquias, temos o governo mexicano, com José de la Cruz Porfirio Día Mory à frente; o governo peruano chefiado pelo partido civilista, e o governo argentino, que tinha Julio Argentino Roca como seu presidente. Tal momento ficou marcado por uma concentração de capital sob o domínio de uma restrita elite. Porém, é também em meio a tamanha desigualdade que os movimentos sociais e religiosos aparecem, assim como a Guerra de Canudos (1896-1897). De 1930 a 1960, vários acontecimentos influenciam o cenário latino. Em 1929, ocorre a queda da bolsa de Nova York e, com isso, o processo de industrialização se acelera, levando a fenômenos sociais negativos, tais como o êxodo rural. Nesse contexto, surgem movimentos com apelo populista, de caráter nacionalista e com pautas A Igreja se coloca em um entrelugar: por um lado, vê nesses novos movimentos uma oportunidade de romper com o oligarquismo e, de outro, a possibilidade de esses movimentos sufocarem os anseios da oposição,4 Religião e movimentos sociais dos movimentos sociais de caráter mais socialista na América Latina. É assim que, em 1960, inicia-se a crise do cristianismo. No Brasil, especificamente, ocorre em 1964 o golpe militar e a implementação de uma ditadura. Com isso, a aliança entre Igreja e Estado foi rompida, pois a ideologia militar, e de parte da sociedade que apoiava ao golpe, era incompatível com os ideais religiosos, principalmente com práticas como as de tortura. Contudo, diversos setores da Igreja passaram a se unir e instituíram como pauta de luta uma aliança que colocasse em prática movimentos de libertação pela América Latina (SANT'ANNA, 2004). Assim, setores mais conservadores da Igreja e que apoiavam os movimentos desenvolvimentistas e nacionalistas passaram a serem ineficazes socialmente, visto que a igreja passou a simbolizar a resistência aos governos opressores da América Latina. No Brasil, a adesão estudantil a esses movimentos foi grande. A Ação Popular (AP) de 1962 surgiu, em grande parte, da juventude cristã progressista. Tal ação conseguiu estabelecer um diálogo com os trabalhadores rurais e com a população mais distante dos grandes centros. Depois de ser perseguida pelo regime militar, em 1964, a AP, em 1965, assumiu um viés mais radical de caráter marxista. Para tanto, por mais que tivessem sido feitas tentativas de unir a ideologia política com a religião católica, a AP acabou por se desvincular da Igreja e por declarar-se mais próxima à revolução cultural chinesa de Mao Tse-Tung. Em 1972, a AP se incorporou ao Partido PC do B, e os que discordaram dessa associação acabaram por se organizarem como a AP-Socialista. Saiba mais Você sabia que uma das pautas de luta representada pela teologia da libertação se relaciona, na América Latina, à agricultura familiar? Sim, uma vez que teologia da libertação tem forte relação com MST e uma das fontes de renda do movimento vem da agricultura, movimento teológico da libertação representa também essa causa. Contudo, desdobra- mentos contemporâneos acerca da agricultura não estavam também previstos na teoria marxista. Vale lembrar que Karl Marx é teórico por excelência do movimento teológico em questão. Segundo Marx, a ampliação do sistema capitalista transformaria camponês no proletário agrário dependente de renda fundiária. Nesse contexto, Marx defende que a junção entre campo e a cidade, passando pelo mesmo processo de produção e divisão do trabalho em setores, seria a súmula da ampliação e da unificação do sistema capitalista, na medida em que a agricultura era último setor a garantir um laço ainda com trabalho mais primitivo. Desse modo, ocorreria a cisão na relação entre humano e a natureza, pois capitalismo industrial a recriaria, então, por meio da fabricação do mundo. Ou seja, eu não planto mais alimentos que consumo, eu compro que foram produzidos por outrem (BOFF; BOFF, 1986).Religião e movimentos sociais 5 Em 1955, ocorreu a Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Ame- ricano. Tal conferência se deu em grande parte porque a Igreja Católica não tinha atuação significativa na América Latina, apesar de seu grande número de fiéis. Nessa conferência, criou-se a Comissão para a América Latina, que, mesmo sediada em Roma, tratava dos problemas da Igreja no continente. Foi esse o marco para uma ruptura mais radical, a Conferência de Mendellín, em 1968, a partir da qual a Igreja assumiu um discurso anti-imperialista, decolonial e o papel de se tornar libertadora por meio de sua teologia. Surge, então, a telogia da libertação, que tinha como ideal unir a fé à conscientização dos povos oprimidos desde as colonizações. O teólogo Leonardo Boff se torna um dos protagonistas no movimento de liber- tação. Ao lado de Gutiérrez, Boff se engaja nas lutas sociais dos movimentos e os dois, buscam, juntos, pensar em uma forma de reestruturar a Igreja na América Latina, respeitando as características das sociedades e culturas que se formaram ao longo dos séculos em nosso continente. Para Boff e Boff (1986, p. 13-14): "[...] por detrás da Teologia da Libertação existe a opção profética e solidária com a vida, a causa e as lutas destes milhões de humilhados e ofendidos em vista da superação desta iniqüidade 2 Os principais movimentos teológicos do século XX Podemos dizer que, sendo a religião uma das dimensões mais significativas de uma sociedade e, em grande parte, da maioria doa indivíduos, a teologia é um estudo, como disciplina, que nos acompanha desde a instituição do cristia- nismo como prática religiosa. Se em relação ao cristianismo primitivo vemos a ideia de uma igreja por vir, por se consolidar, atualmente, após muito séculos, vemos a consolidação da Igreja, contudo, com tantos desafios quanto em seu início, salvaguardadas as distinções. Nesse sentido, a teologia foi atravessada por mudanças sociais e, em decorrência delas, por mudanças culturais; por outro lado, intercâmbios culturais também trouxeram mudanças culturais que levaram a avanços sociais. A teologia, sob esses aspectos, viu-se convidada, ou mesmo obrigada, a se atualizar para continuar a guiar o humano dentro da doutrina religiosa cristã mesmo com as mudanças temporais e contextuais. Em um breve panorama contextual do século XX, podemos observar que a teologia cristã foi fonte de distintas interpretações. Rompendo com o caráter medievo da teologia, a religião, já na Idade Moderna, deixa de ser protegida pelo status do sagrado. Ou seja, a religião cristã perde seu caráter imutável, eterno e indiscutível e começa a abrir espaço para as ciências humanas e6 Religião e movimentos sociais sociais, que, em seus estudos, voltam a teologia para uma dimensão episte- mológica. Assim, surgem movimentos teológicos em praticamente todos os continentes, ressaltando-se os movimentos europeus, que deram as bases para diversos outros: a teologia política de Karl Rahner (1968); a teologia dialética de Karl Barth (1919); a teologia existencial de Rudolf Bultmann (1941); até os movimentos da teologia da libertação latinos de viés marxista. Nesse contexto, tal como ressalta Rosino Gibellini (1998), a união entre a teologia e a libertação ressignificou a força do cristianismo aliado à história na América Latina. Nos Estados Unidos, em meados dos anos 1950, a influência dos avanços tecnológicos e científicos ressoam sobre a população, que, em grande parte, acreditava que, após a ciência, dificilmente as religiões cresceriam; ao contrário, perderiam força. Porém, nos anos 1970, o fundamentalismo religioso começa a crescer e, inesperadamente, as religiões passam a retomar muito de sua força. Muito disso é atribuído às ameaças que a ciência simbolizava à conservação da vida tal como ela era. Outro aspecto foram os movimentos de liberação sexual que acon- teceram e que reivindicavam uma aceitação maior do sexo para além das formas instituídas socialmente; outrossim, as revoluções farmacêuticas desse período também causaram um choque social para os mais conservadores com a difusão de medicamentos contraceptivos e a administração de hormônios. A indústria pornográfica também se encontrava em seu auge e muitos países lidavam com a problematização acerca de se criar uma legislação para esses profissionais ou não. Todo esse cenário fez a teologia repensar sobre como a Igreja poderia lidar com essas questões culturais e sociais para além da postura intransigente que defendeu até aquele momento da história. Para tanto, a teologia deixou o seu caráter mais hegemônico, ou seja, de uma visão mais restrita ao que dizia o papado, e passou a se dividir ainda mais em vertentes teológicas. Várias dessas vertentes se ligavam a movimentos sociais, outras buscavam adotar uma postura mais contida, ao passo que outras assumiam abertamente uma postura mais liberal. Rosino Gibellini (1998) defende que os movimentos teológicos e o pensamento cristão se constituíram a partir de quatro modos de pensar a religião, a sociedade e a cultura. Um dos grandes domínios da teologia, desde o período renascentista, é, sem dúvida, o trabalho interpretativo-filológico Quando os europeus decidiram sair em busca de novos territórios, o trabalho dos teólogos, em grande parte, consistia em fazer traduções e anotações. Porém, um dos grandes marcos se deu quando Lutero traduziu a bíblia para o alemão. No século XX, tal ideia permanece relacionada à teologia, e, nesse sentido, a teologia hermenêutica se mantém. A capacidade de traduzir, interpretar e compreender as Escritu- ras continua a fundamentar a teologia de acordo com o argumento de que aReligião e movimentos sociais 7 hermenêutica é uma forma de Deus se revelar pela palavra. Segundo Gibellini (1998), o trabalho do teólogo só se efetiva quando pode ele compreender e falar sobre o que compreendeu no Evangelho, assim, a relação com Deus se dá pela fé que só pode ser exercida depois que a sua palavra é compreendida. Outro movimento significativo na teologia do século XX se deu com base em uma possível teologia da cultura. Nesse contexto, um dos prin- cipais exponentes dessa vertente foi o teólogo Paul Tillich (1886-1965), que argumentava que a religião e a cultura poderiam ser movimentos, conceitos e esferas distintas a partir do conceito de teonomia: theos (Deus) e nomos (lei) (GIBELLINI, 1998). Mais do que um conceito, a teonomia também se caracterizava como uma ética e um regime político. Ou seja, segundo Tillich (apud GIBELLINI, 1998) o humano deve, em quaisquer tempos, submeter-se à lei superior. Isto é, sendo a lei divina uma lei trans- cendental, atemporal, trata-se da lei mais profunda; assim, para o teólogo, o humano que não é capaz de se submeter a essa lei, independentemente de sua cultura, não consegue se desenvolver eticamente. Do ponto de vista da legitimação teórica, Tillich (apud GIBELLINI, 1998) defendia que a história de Deus e do mundo transcendem a história do ser humano, portanto, não há como se refutar o que não se conhece. Contudo, apesar da grande crise que se iniciou na modernidade acerca da compreensão da realidade não mais pelo Evangelho, mas, sim, pela verdade científica, a teologia conseguiu ter um ganho teórico. Teólogos como Bultmann, Bonhoeffer e Moltmann teorizam a revelação de Deus como saída para a secularização da sociedade. Nesse sentido, a teologia recuperaria o sentido da explicação sobre a realidade ao propor o desafio na modernidade de compreender a revelação por meio dos atos contemporâneos àquele momento. Assim, os atos de Deus sempre reverberam em qualquer realidade, em qualquer tempo, e a tarefa do teólogo é a de reconciliação. Decorrente dessa ética reconciliadora, a teologia da secularização surge com o propósito de pensar tanto a continuidade quanto a descontinuidade: enquanto a descontinuidade se configura como o avanço histórico e, desse modo, a reivindicação do individuo por sua autonomia frente à tutela da Igreja; a continuidade se constitui como a história do cristianismo em sua contribuição para a formação do mundo e da sociedade. Segundo teólogos como Gogarten (apud GIBELLINI, 1998), há como conciliar os dois proces- sos, uma vez que a obra de Deus aceita o comportamento humano, e cabe ao humano se responsabilizar pelo mundo em que vive e pelas atitudes que escolhe. Assim, a ética teológica da secularização se colocaria em relação a promover a autonomia do individuo sem que isso o afaste de Deus.8 Religião e movimentos sociais Há, ainda, o movimento relacionado à história, chamado de teologia da história. Cabe ressaltar que o argumento histórico sempre se manteve como uma preocupação teológica. Nos primórdios do cristianismo, Paulo se mostrava demasiado preocupado com que a fé cristã fosse combatida com as verdades históricas e filosóficas. No século XX, a preocupação se mantém entre os teólogos, uma vez que esse embate entre realidade e verdade epistemológica ainda se coloca em contraposição à religião. A saída teológica se constrói sobre a narrativa interpretativa de que "Deus se mostra nos fatos". Seria, portanto, uma negação da verdade cristã não compreender a ação de Deus pela língua dos fatos em distintos períodos históricos, do mesmo modo, na realidade. Ressaltam-se também movimentos de caráter político (GIBELLINI, 1998). Nesse sentido, a teologia política surge com a função de fazer as instituições pensarem em si como importantes esferas da sociedade. À Igreja é reclamada a reflexão sobre o seu lugar no mundo atual. Para tanto, repensar os erros cometidos em nome da fé e o apoio institucional da instituição a diversos movimentos, por vezes massacres, é colocado em questão por essa vertente. A tarefa de voltar aos valores cristãos de fraternidade passa a ser pensada como motivação para a denúncia contra atos errôneos nas sociedades. Desse modo, muitos representantes da Igreja buscam repensar a missão pública do cristianismo de acordo com equívocos cometidos, como, por exemplo, o apoio da instituição à ditadura na Argen- tina, entre outros. É por meio dessa problematização acerca da conduta ética da instituição católica que também se dá a teologia da libertação, que se coloca em oposição aos movimentos conservadores da sociedade e dos poderes desiguais instituídos. Tal movimento acaba por contribuir para a emancipação do indivíduo e, portanto, da mulher dentro do estudo teológico. Ou seja, teologizar em decorrência da práxis passa a ser uma importante ferramenta no processo de emancipação feminina. Vale ressaltar que, no contexto da agricultura familiar assim como uma das bandeiras pela reforma agrária a mu- lher, em grande parte das famílias, mantém a todos e lidera o trabalho da agricultura. Contudo, um dos maiores desafios para as teólogas feministas é repensar os dogmas doutrinários e demonstrar o caráter sexista e patriarcal do cristianismo. Conclui-se, desse modo, que a teologia cristã e os contextos sociais são correlativos. Assim, cabe à teologia não somente acompanhar as mudanças para manter os fiéis, mas, antes, compreender a hermenêutica de determinado contexto de acordo com a obra de Deus. Para tanto, o diálogo e o debate entre distintas vertentes demonstram formas de pensar em Deus e em sua relação com a sociedade.Religião e movimentos sociais 9 3 Os movimentos teológicos evangélicos Corriqueiramente, quando tratamos de assuntos relacionados à teologia, de- dutivamente, os associamos à Igreja Católica. Contudo, desde o século XIX, a teologia protestante vem se intensificando e se relacionando estruturalmente aos modos de vida da sociedade. Já no contexto da Revolução Industrial, com o aumento da secularização, o protestantismo teve uma grande aderência, pois suas doutrinas, em grande parte, concordavam com o desenvolvimento econômico capitalista da sociedade. Nesse sentido, é importante ressaltar que, desde a Reforma Protestante, os protestantes vinham conquistando cada vez mais espaço nas sociedades europeias. Com a colonização da América do Norte, o continente se tornou hegemonicamente protestante, e isso guiou os valores sociais e culturais estadunidenses. Em relação ao Brasil, desde os anos 1980, as missões protestantes advindas dos Estados Unidos e da Inglaterra, chamadas de protestantismo de missão, não tiveram grande aderência social. Isso porque a missão evangélica era pensada apenas como pregação, para conversão dos indivíduos e para livrá-los dos pecados. Assim, os grupos evangélicos dessas correntes acabavam por se fechar em guetos culturais por rejeitarem tudo aquilo que era tido como mundano. Tais missionários acreditavam que a mudança do mudo se daria pela transformação das mentes e dos corações e, para tanto, a pregação da palavra, o estudo bíblico e a oração seriam capazes de transformar os indivíduos. Assim como Durkheim elucida em As formas elementares da vida religiosa (2005), a religião surge, antes de tudo, de uma forma elementar identitária. Tal reflexão durkheimiana se aplica ao corpo social evangélico formado durante as últimas décadas do século XX: os evangélicos, em sua grande maioria, não se identi- ficavam com a cultura, com o consumo de qualquer substancia entorpecente, mesmo as legalizadas, e não podiam praticar jogos de azar; além disso, não se posicionavam politicamente ou acreditavam em argumentos científicos. De acordo com Cavalcante (2010), todas essas práticas eram consideradas pelos grupos evangélicos como mundanas. Porém, à mesma época, alguns setores do movimento evangélico começaram a se envolver com questões públicas e culturais, o que, desde o censo realizado em 2010, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), vem de- monstrando uma forte presença evangélica em nossa sociedade que, sem dúvidas, intensificou-se nos últimos anos, respectivamente no século XXI. Autores como Giumbelli (2013) caracterizam a participação dos evangélicos no tecido social pelo termo "cultura pública". Tal expressão se refere à produção cultural evangélica, que se intensificou com o surgimento de canais evangélicos, com10 Religião e movimentos sociais a participação de evangélicos em programas de TV e outras mídias. Quando não assumem programas próprios como apresentadores, ou mesmo pastores, assumem também locais de pregações que vão desde praças públicas a presídios e hospitais, entre outros lugares nos quais as pessoas se encontram fragilizadas e descrentes de melhora; há também intervenção urbana, que se dá com a cons- trução de templos grandiosos. Desse modo, Giumbelli (2013) caracteriza essa cultura pública como uma cultura guiada por uma ética de domínio. Nesse sentido, observamos uma grande alteração no modo de interação evan- gélica com a sociedade. Se antes o corpo evangélico considerava o tecido social e as suas produções como mundanas, atualmente, esse mesmo corpo deixou de se setorizar em guetos para disputar o espaço social e cultural e ocupá-lo com a pregação de sua crença. Assim, o espaço público passa a ser entendido como um lugar de batalha espiritual, e o evangélico, como discípulo de sua igreja e do senhor, deve engajar-se. A ética do domínio, nesse contexto, atua em relação a uma prática de moralização dos costumes por meio dos princípios evangélicos e, assim, exerce significativo impacto sobre a esfera pública. Contudo, tal inserção também causou um impacto em grupos evangélicos que ressignificaram a religião. Esse grupo que opta por outra ética que não a do domínio é chamado de so- ciorreligioso. Ou seja, seu posicionamento ético é integrativo, pois almeja mudar a sociedade de acordo com os princípios democráticos, de direitos humanos e de justiça social. Tal grupo busca aproximar-se mais do que as Escrituras pregam no contexto dos valores cristãos. Portanto, os evangélicos sociorreligiosos são entendidos como progressistas, já que entendem a fé cristã como um canal de respostas aos anseios sociais, que envolvem, segundo Alencar (2019, p. 178): [...] desigualdade, violência urbana, pobreza, desemprego, corrupção, anal- fabetismo, mortalidade infantil, entre outros, e Alencar: Grupos protestantes e engajamento social ter como missão a concretização do Reino de Deus entendido como uma realidade de paz e justiça para todos temas econômi- cos, políticos e sociais. Podemos dizer, então, que os evangélicos progressistas não atuam no sentido de converter os indivíduos à sua religião, mas, sim, de alterar a consciência dos evangélicos mais intolerantes. Para tanto, seu exercício ético consiste muito mais na conciliação entre consciência religiosa, questões sociais e políticas nas quais a fé pode agir. Desde 1950, surgiram grupos e instituições de cunho progressista que buscam problematizar a relação entre fé, igreja e o contexto social, tais como a Visão Mundial, a Associação Evangélica Brasileira (AEVB) ea Rede Evan-Religião e movimentos sociais 11 gélica Nacional de Ação Social (RENAS), que tomam para si a missão de ressignificar a cultura e religião evangélica. Outrossim, de acordo com Conrado (2006), desde 1988, com o período de redemocratização brasileira, as redes evangélicas que prestam serviços de assistência à sociedade empreenderam fortes campanhas entre os fiéis, esclarecendo-os acerca das demandas sociais e solicitando que participassem das ações de ONGs, movimentos sociais, entre outras entidades que atuam auxiliando quem se encontra em qualquer situação de vulnerabilidade social, educacional, de saúde, etc. Assim, entre os anos 1990 e 2000, uma das maneiras de os grupos sociorreligiosos se integrarem à sociedade foi mediante ações sociais e filantrópicas. Existem alguns grupos que se destacam no cenário progressista, a começar pelo grupo surgido durante o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A Frente Evangélica Pelo Estado de Direito (FEED) é formada por líderes cristãos e coor- denada pelo pastor Ariovaldo Ramos, que se destacou por suas pregações adeptas da teologia da missão integral (TMI). Vale ressaltar que esse grupo se formou enquanto oposição ao impeachment e denunciando-o como um golpe de Estado. Já em relação à TMI, trata-se de uma teologia surgida nos anos 1970 que buscava modificar o ideal de missão protestante, tornando-o mais ligado aos problemas sociais e tendo como contexto originário a oposição entre dois grupos evangélicos: os fundamentalistas e os liberais. Enquanto os liberais defendiam agendas como os aspectos individuais da religião e os aspectos sociais que a instituição religiosa deve ter, os fundamentalistas defendiam o não envolvimento da religião com a questões da sociedade. Assim, a TMI surgiu para resolver esse antagonismo: "[...] eram pessoas comprometidas com a tradição protestante-evangélica, mas também com a realidade sócio-histórica e cultural da América Latina" (SANCHES, 2009, p. 55). Outro grupo a se destacar dentro dos movimentos evangélicos é o Entre.nós, liderado pelo pastor Henrique Vieira, que é conhecido no Rio de Janeiro, onde iniciou sua carreira, como um pastor progressista por tratar temas polêmicos entre os evangélicos como de forma contemporânea. Atualmente, Vieira atua como pastor na Igreja Batista do Caminho, que se tornou independente em 2012, justamente por lidar com questões tabus de forma distinta. pastor Henrique também é conhecido por seu cunho político e é filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (Psol), pelo qual foi vereador do RJ entre os anos de 2013 e 2016. Em 2017, foi assessor do vereador Marcelo Freixo e é também colunista do jornal Mídia Ninja. Já o Entre. nós surgiu em 2015 com a missão de ressignificar a imagem dos evangélicos no Brasil e, também, criar uma rede entre cristãos que apoiam a luta progressista. Por fim, podemos elencar o grupo Esperançar, que se fundamenta nos movi- mentos teológicos: a teologia da libertação e as teologias contextuais. Enquanto a primeira se associa às causas sociais ligadas à população de baixa-renda, a12 Religião e movimentos sociais segunda se refere a um desdobramento da primeira, ou seja, a teologia contextual, como seu próprio nome anseia, busca pensar o contexto em seu amplo aspecto e no qual os fiéis vivem. Assim, ao trazer o contexto para a reflexão teológica, a teologia contextual é matriz de outras correntes teológicas que interagem com ela: teologia negra, teologia queer, teologia feminista, teologia LGBTQ+. Ou seja, as pautas por uma teologia progressista também se difundem por meio de pautas identitárias, contudo, em oposição à agenda conservadora fundamentalista. Conclui-se que a presença evangélica no Brasil, desde os anos 1980, vem interagindo e movimentando peças na esfera social. Vemos que, assim como no catolicismo, a religião evangélica teve de se debruçar teologicamente sobre a realidade e os seus avanços para melhor compreendê-los. Nesse sentido, podemos observar que a mudança temporal e contextual sempre apresenta grandes desafios à sociedade. De acordo com as correntes mais progressistas, se a teologia não buscar compreender a obra divina por meio da realidade posta, não há como se manter como lugar de acolhimento e fraternidade entre fiéis. Referências ALENCAR, G. Grupos protestantes e engajamento social. Religião e Sociedade, V. 39, n. 3, 2019. Disponível em: -85872019000300173&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 13 ago. 2020. BOFF, L.; BOFF, Como fazer teologia da libertação. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1986. 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