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<p>Ecumenismo e Diálogo</p><p>Inter-Religioso</p><p>Professora Ma. Laís Azevedo Fialho</p><p>Professora Ma. Mariane R. Emerenciano da Silva</p><p>Professor Me. Leonardo Henrique Luiz</p><p>Reitor</p><p>Prof. Ms. Gilmar de Oliveira</p><p>Diretor de Ensino</p><p>Prof. Ms. Daniel de Lima</p><p>Diretor Financeiro</p><p>Prof. Eduardo Luiz</p><p>Campano Santini</p><p>Diretor Administrativo</p><p>Prof. Ms. Renato Valença Correia</p><p>Secretário Acadêmico</p><p>Tiago Pereira da Silva</p><p>Coord. de Ensino, Pesquisa e</p><p>Extensão - CONPEX</p><p>Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza</p><p>Coordenação Adjunta de Ensino</p><p>Profa. Dra. Nelma Sgarbosa Roman</p><p>de Araújo</p><p>Coordenação Adjunta de Pesquisa</p><p>Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme</p><p>Coordenação Adjunta de Extensão</p><p>Prof. Esp. Heider Jeferson Gonçalves</p><p>Coordenador NEAD - Núcleo de</p><p>Educação à Distância</p><p>Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal</p><p>Web Designer</p><p>Thiago Azenha</p><p>Revisão Textual</p><p>Kauê Berto</p><p>Projeto Gráfico, Design e</p><p>Diagramação</p><p>Carlos Eduardo Firmino de Oliveira</p><p>2021 by Editora Edufatecie</p><p>Copyright do Texto C 2021 Os autores</p><p>Copyright C Edição 2021 Editora Edufatecie</p><p>O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correçao e confiabilidade são de responsabilidade</p><p>exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permi-</p><p>tidoo download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem</p><p>a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais.</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP</p><p>F438e Fialho, Lais Azevedo</p><p>Ecumenismo e diálogo inter-religioso / Lais Azevedo</p><p>Fialho, Mariane Rosa Emerenciano da Silva, Leonardo</p><p>Henrique Luiz. Paranavaí: EduFatecie, 2022.</p><p>91 p.: il. Color.</p><p>1. Movimento ecumênico. 2. Pluralismo religioso. 3. Religiões -</p><p>Relações. I. Silva, Mariane Rosa Emerenciano da. II. Luiz</p><p>Leonardo Henrique. III. Centro Universitário UniFatecie. IV.</p><p>Núcleo de Educação a Distância. V. Título.</p><p>CDD : 23 ed. 658.3</p><p>Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577</p><p>UNIFATECIE Unidade 1</p><p>Rua Getúlio Vargas, 333</p><p>Centro, Paranavaí, PR</p><p>(44) 3045-9898</p><p>UNIFATECIE Unidade 2</p><p>Rua Cândido Bertier</p><p>Fortes, 2178, Centro,</p><p>Paranavaí, PR</p><p>(44) 3045-9898</p><p>UNIFATECIE Unidade 3</p><p>Rodovia BR - 376, KM</p><p>102, nº 1000 - Chácara</p><p>Jaraguá , Paranavaí, PR</p><p>(44) 3045-9898</p><p>www.unifatecie.edu.br/site</p><p>As imagens utilizadas neste</p><p>livro foram obtidas a partir</p><p>do site Google.</p><p>AUTORES</p><p>Professora Ma. Laís Azevedo Fialho</p><p>● Doutoranda em História, Cultura e Narrativas (Universidade Estadual de Maringá).</p><p>● Mestre em História, Cultura e Narrativas (Universidade Estadual de Maringá).</p><p>● Especialista em História da África e Cultura Afro-brasileira (Universidade Esta-</p><p>dual de Maringá).</p><p>● Licenciada em História (Universidade Estadual de Maringá).</p><p>● Professora Conteudista na UniFatecie.</p><p>● É integrante do Grupo de Pesquisa “História das crenças e das ideias religiosas”</p><p>(HCIR/DHI/UEM) .</p><p>● Áreas de concentração: História das Religiões e Religiosidades com ênfase nas</p><p>Práticas Afro-brasileira; História Cultural, Epistemologias Antirracistas.</p><p>CURRÍCULO LATTES</p><p>Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/8724898233397030</p><p>Professora Ma. Mariane Rosa Emerenciano da Silva</p><p>● Doutoranda em História, Cultura e Narrativas (PPH-Universidade Estadual de</p><p>Maringá)</p><p>● Mestra em História, Cultura e Narrativas (PPH-Universidade Estadual de Maringá).</p><p>● Licenciada em História (DHI-Universidade Estadual de Maringá).</p><p>● Possui o curso profissionalizante Formação de Docentes (Colégio Estadual</p><p>Morumbi)</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista Araucaria 2014-2015.</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista CNPq 2015-2017.</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista CAPES 2018-2020.</p><p>● Organizou diversos Projetos de Extensão abordando as crenças e ideias</p><p>religiosas pelo Grupo de Pesquisa em História das Crenças e Ideias Religiosas</p><p>entre 2020-2021.</p><p>● É integrante do Grupo de Pesquisa em História das Crenças e Ideias Religiosas</p><p>(HCIR/UEM).</p><p>● É integrante do Laboratório de Religiões e Religiosidades da Universidade Es-</p><p>tadual de Maringá (LERR/UEM).</p><p>● Áreas de concentração: História das Religiões e Religiosidades com ênfase em</p><p>catolicismos, juventude e movimentos leigos.</p><p>Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/5486118308694201</p><p>Professor Me.Leonardo Henrique Luiz</p><p>● Doutorando em História, Cultura e Narrativas (PPH – Universidade Estadual</p><p>de Maringá)</p><p>● Mestre em História Social (PPGHS-Universidade Estadual de Londrina).</p><p>● Licenciado em História (Universidade Estadual de Londrina).</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista PIBID 2014-2014.</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista UEL 2014-2016.</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista Fundação Araucária 2017-2019.</p><p>● Atuou como Pesquisadora Bolsista CAPES 2019-..</p><p>● Organizou diversos Projetos de Extensão abordando as crenças e ideias religio-</p><p>sas pelo Grupo de Pesquisa em História das Crenças e Ideias Religiosas entre</p><p>2020-2021.</p><p>● É integrante do Grupo de Pesquisa em História das Crenças e Ideias Religiosas</p><p>(HCIR/UEM).</p><p>● É integrante do Laboratório de Pesquisa sobre Culturas Orientais (LAPECO/UEL)</p><p>● É integrante do Centro de Estudo de Religiões Alternativas de Origem Oriental</p><p>(CERAL-PUC/SP).</p><p>● Áreas de concentração: História das Religiões e Religiosidades com ênfase nas</p><p>religiões orientais, especialmente budismo e xintoísmo</p><p>CURRÍCULO LATTES</p><p>Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/2631768416351670</p><p>APRESENTAÇÃO DO MATERIAL</p><p>Seja muito bem-vindo (a)</p><p>Prezado(a) aluno(a), esse material foi produzido a fim de oportunizar a você uma apren-</p><p>dizagem sobre a relação das religiões na contemporaneidade. As religiões são manifestações</p><p>culturais de suma importância nas formas de significação, construção e visões de realidade</p><p>individual e coletiva. Por constituírem dogmas, ritos, celebrações, formas de crenças e fé parti-</p><p>culares que buscam se manter enquanto maneiras explicativas verdadeiras sobre a realidade,</p><p>ao longo da história diversos foram os conflitos e violências ocasionados em decorrência do</p><p>encontro entre as diferentes culturas religiosas, principalmente as religiões monoteístas.</p><p>Para amenizar tais conflitos e promover uma cultura que busque a paz, movimen-</p><p>tos como o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso surgem enquanto alternativas de uma</p><p>união entre as diferenças. Desse modo, convidamos você a estudar sobre a história desses</p><p>movimentos, os conceitos e problemáticas que são levantados em busca da promoção de</p><p>uma sociedade que se inspire na Cultura da Paz.</p><p>Na Unidade I começaremos com o conceito e história do ecumenismo, percebere-</p><p>mos que ao longo do tempo seu significado foi se modificando até chegar no sentido religio-</p><p>so. Observaremos que a ideia de ecumenismo está atrelada principalmente ao cristianismo</p><p>e começou a ser utilizado de forma mais intensa pelos protestantes, que buscavam a união</p><p>cristã. Posteriormente, o conceito é utilizado enquanto sinônimo de paz. Para elucidar me-</p><p>lhor a ideia e a prática do ecumenismo traremos manifestações ecumênicas pelo mundo.</p><p>Na Unidade II direcionamos nosso estudo a perceber a diversidade e a atuação</p><p>das religiões para o diálogo ecumênico. Perceberemos que com o advento da globalização</p><p>a religião é marcada pela pluralidade, o que se desdobra na necessidade de compreender</p><p>a relação entre o eu e o outro na construção de identidades. Abordaremos o conceito de</p><p>alteridade, que permite colocar-se no lugar do outro, o que é essencial para a convivência</p><p>de uma diversidade na unidade.</p><p>Depois na Unidade III nos atentaremos a diversidade religiosa no cotidiano. Bem</p><p>como os conceitos de tolerância e intolerância. Veremos que em tese constitucionalmente</p><p>o Estado brasileiro garante a proteção da diversidade religiosa, mas que ainda</p><p>repetir que fabricaram seus ídolos e que, por</p><p>consequência, os mesmos são verdadeiras divindades. Zombarias, escárnio,</p><p>aversão dos portugueses frente a tanta má fé. (LATOUR, 2002, p. 15-16).</p><p>Para designar essa cena que para os portugueses muito católicos, teriam utilizado</p><p>o adjetivo de feitiço, que é originário de feito, particípio passado do verbo fazer, forma, con-</p><p>figuração, mas também artificial, fabricado, fascinado, encantado. E vejamos, estudante,</p><p>seria interessante que os africanos tivessem devolvido o elogio sobre a artificialidade de</p><p>seus fetiches aos amuletos da Virgem em seus pescoços.</p><p>36UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 36UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Trouxemos tal narrativa para pontuar que a visão ocidental é influenciada pelo</p><p>pensamento cristão e europeu que parte também da noção de dualidade de bem e mal,</p><p>verdadeiro e falso.</p><p>Isso não significa que seja uma tarefa fácil, enunciar o outro. François Hartog (1999)</p><p>ao problematizar a enunciação da alteridade, parte da premissa que “entre o narrador e o</p><p>destinatário existe, como condição para tornar possível a comunicação, um conjunto de</p><p>saberes semântico, enciclopédico e simbólico que lhes é comum” (HARTOG, 1999, 49). O</p><p>que significa que a cultura a ser descrita/decodificada passa por uma interpretação confor-</p><p>me o mundo do narrador.</p><p>Segundo Hartog (1999) a enunciação do Outro na “retórica da alteridade” são figuras</p><p>postas em movimento pelo narrador, tanto no que significa persuadir aos destinatários, para</p><p>enunciar o Outro como diferente, para compará-lo, classificá-lo ou enfim para excluí-lo.</p><p>A noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, e essa noção é</p><p>efetivada através das dinâmicas sociais. Desse modo, a diferença é, simultaneamente,</p><p>a base social e fonte permanente de tensão e conflito (VELHO, 2008). Nesse sentido,</p><p>um conceito importante na busca de compreender o outro é a “alteridade”. O exercício</p><p>da Alteridade, é muito mais que um conceito, é uma prática. A alteridade é colocar-se no</p><p>lugar do outro. Alteridade também é reconhecer que existem culturas diferentes e que elas</p><p>merecem respeito em sua integridade.</p><p>A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a</p><p>ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade</p><p>em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que con-</p><p>sideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos compor-</p><p>tamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente</p><p>nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz</p><p>respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da</p><p>nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas;</p><p>e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre</p><p>tantas outras, mas não a única. (LAPLANTINE, 2000, p. 21).</p><p>O conceito de alteridade na Psicologia refere-se ao “o conceito que o indivíduo tem</p><p>segundo o qual os outros seres são distintos dele. Contrário a ego”. Já para a filosofia: (DA</p><p>PIEVI, 2014, Docência e alteridade, [documento online]). Assim,</p><p>A nossa constituição como um “outro” passa, necessariamente por um pro-</p><p>cesso de identificação positiva ou negativa com os outros. É como confirmar</p><p>ou negar o outro que existe em nós. Quando negamos o outro, revelamos, de</p><p>forma subjacente, o desejo de eliminar a alteridade presente no próprio eu,</p><p>que quer se afirmar como uno em um mundo fragmentado, onde o reconhe-</p><p>cimento da diferença parece ser uma perigosa ameaça. O outro questiona e</p><p>julga, a todo momento, aquilo que somos, nossas convicções, nossos modos</p><p>de agir, tal como procedemos em relação a ele. É através da superação des-</p><p>sa resistência que nos tornamos nós mesmos através dos outros. O outro</p><p>que me “ameaça” é o mesmo que me “liberta”. (DA PIEVI, 2014, Docência e</p><p>alteridade, [documento online]).</p><p>37UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 37UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Dito isso, a metodologia para o estudo das religiões proposta por Wilfrede Cantwell</p><p>Smith (1967) é importante na busca de se colocar no lugar do outro. Não é apenas observar,</p><p>é também ouvir e deixar que o outro fale.</p><p>FIGURA 2 - OUVIR E COLOCAR-SE NO LUGAR DO OUTRO</p><p>Fonte: https://i.pinimg.com/564x/4b/97/03/4b9703e19e6b99ee5a64fff769220fd0.jpg</p><p>Smith (1967) já atenta a essa relação sobre os relatos dos encontros entre euro-</p><p>peus, quando o cristianismo ocidental se estendeu a outros lugares do mundo para indagar,</p><p>explorar e tomar gradualmente a consciência dos povos e lugares. Esses relatos sob a ótica</p><p>dos viajantes europeus são importantíssimos para os estudos nas universidades, já que nos</p><p>possibilita conhecer sobre as crenças de outros povos, sendo essa uma primeira fase de</p><p>estudos sobre as crenças. Já na contemporaneidade inaugura uma segunda fase, onde os</p><p>povos antes estudados estão presentes, a partir da Segunda Guerra Mundial o contato entre</p><p>os povos e crenças diversas tomou grandes escalas, uma reunião cara a cara. (SMITH,1967).</p><p>Assim, ao propor o estudo sobre crenças que não fazem parte da realidade do</p><p>pesquisador e que facilmente possui um contato com os praticantes, há de se recordar os</p><p>cuidados para não se fazer caricaturas, caso contrário estaríamos fazendo um estudo e um</p><p>juízo de valor de nós mesmos e não das culturas que se pretende estudar.</p><p>38UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 38UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Desse modo, o primeiro passo é absolutamente fundamental: consiste em reco-</p><p>nhecer que o estudo de uma religião é o estudo de pessoas. Dificilmente outro ramo da</p><p>investigação humana se ocupa de uma área tão pessoal como esta. Assim, é necessário</p><p>ressaltar que a fé é uma qualidade de vida para os indivíduos.</p><p>Caro (a) estudante, quando se trata das questões transcendentais, elas são ma-</p><p>nifestações reais, como cita Smith (1967, p.58, tradução nossa), “Uma galáxia pode ser</p><p>maior, mas argumento que o valor do transcendente não somente é mais importante, senão</p><p>ao menos igualmente real e em alguns sentidos mais real”. E como devemos lidar com</p><p>os estudos sobre as crenças do outro? Metodologicamente, “Uma das diversas formas</p><p>de descobrir o significado que algo tem para uma pessoa envolvida com uma crença é</p><p>perguntar a ela mesma” (SMITH, 1967, p.63, tradução nossa).</p><p>39UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 39UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>4. O MUNDO, A GLOBALIZAÇÃO E AS MANIFESTAÇÕES DE FÉ</p><p>É sabido que durante o século XIX e XX, houve diversos debates sobre o declínio da</p><p>religião, ou da fé religiosa, ou ainda, o desencantamento do mundo. Mas como observamos</p><p>na unidade anterior, a maioria da população do globo possui uma identificação religiosa. O</p><p>que ocorre no cenário atual é uma pluralização de crenças.</p><p>Tradicionalmente a literatura sociológica tem distinguido entre religiões universais</p><p>(judaísmo, confucionismo, bramanismo, budismo, cristianismo, islamismo) e religiões</p><p>particulares. O primeiro está associado à ideia de mobilidade enquanto o particular tenderia</p><p>ao enraizamento. Mas tal como aponta Ortiz (2001), o processo de mundialização da cultura</p><p>transforma completamente as noções de internacional, nacional e local.</p><p>Nesse sentido, as religiões “particulares” têm também seu estatuto altera-</p><p>do pela globalização (penso, por exemplo, na mobilidade dos candomblés e</p><p>dos vaudous que podem hoje ser encontrados em Paris, Buenos Aires, Nova</p><p>York, distantes de seu núcleo de origem). (ORTIZ, 2001, p. 59).</p><p>Nas ditas religiões universais, a ideia estaria associada à “civilização”, isto é, uma</p><p>cultura fixada numa territorialidade ampla, integradora, capaz de se expandir a partir de um</p><p>núcleo comum, no qual descontextualiza os indivíduos e grupos sociais de suas situações</p><p>historicamente demarcadas. Assim, quando essas religiões são tratadas em contraposição</p><p>ao pensamento mítico surgem como um bloco</p><p>homogêneo, mas que ao observar mais de</p><p>perto apresentam diferenças substanciais no destino de cada uma delas. (ORTIZ, 2001).</p><p>Se de um lado mencionamos essa noção de universalidade, devemos recordar que</p><p>há dentro dessas religiões uma restrição de ordem doutrinária.</p><p>40UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 40UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Pensemos, por exemplo, no bramanismo, que pressupõe a existência de castas, em</p><p>moldes encontrados apenas na Índia, o que torna sua migração comprometida de antemão.</p><p>Entretanto, a expansão das religiões universais não repousa apenas em aspectos</p><p>doutrinários, elas se adequam às exigências da história. O catolicismo e islamismo, para</p><p>se universalizarem, promoveram o que denominaram enquanto guerras santas e pelos</p><p>interesses concretos de dominação dos impérios e das civilizações. (ORTIZ, 2001).</p><p>Todavia, caro (a) estudante, é necessário ressaltar que o mundo globalizado é</p><p>demarcado pelo fim do monopólio religioso, que coincide justamente com a pluralidade,</p><p>diversidade religiosa, que pode ser tanto no ponto de vista individual, quanto coletivo. Vive-</p><p>mos numa sociedade multirreligiosa, e com maior autonomia individual.</p><p>Como se encontram mais libertos das tradições, embora constantemente</p><p>constrangidos a se posicionar identitariamente, o efeito não poderia ser outro</p><p>que não a explosão da “diferença”, o pluralismo identitário que afeta todas as</p><p>esferas da cultura aí incluída a religião. Mas se há processos pelos quais no-</p><p>vas identidades-diferenças são criadas à margem de padrões institucionais</p><p>mais fortes e alimentadas, moldadas e/ou abandonadas a partir de compor-</p><p>tamentos até então inusitados, há também outros processos pelos quais di-</p><p>ferenças tradicionais institucionalizadas enfrentam dilemas da mesma forma</p><p>inusitados. (JUNGBLUT, 2014, Scielo, [documento online])</p><p>Mas o advento da globalização apresenta uma dificuldade em conviver pacificamente.</p><p>Como observamos no tópico anterior com Smith (1967) após a Segunda Guerra o contato</p><p>entre nações tornou-se maior, o que também implica num contato mais intenso entre as</p><p>diferenças. O processo de integração social, econômica e cultural entre diferentes regiões</p><p>do planeta é denominado de globalização. E tal como Renato Ortiz aponta: “na medida em</p><p>que o mundo se expandiu e encolheu, ele tornou-se um “lugar””. (ORTIZ, 2001, p.59). Esse</p><p>processo tem implicações sobre os universos religiosos.</p><p>No mundo globalizado o desenvolvimento da informática e das tecnologias de</p><p>comunicação, possibilitam que as pessoas estejam conscientes de muitos acontecimentos,</p><p>além de criar condições para a “sensação de se viver em um mundo” (LIEVEN; SAUER,</p><p>1998, p.286).</p><p>O acesso à informação e a comunicação global, associados a fatores como</p><p>facilidade de deslocamento, transporte de massa e a globalização dos produ-</p><p>tores, aproximaram como nunca antes a interdependência entre o global e o</p><p>cotidiano, entre o mundial e o local. (LIEVEN; SAUER, 1998, p.287).</p><p>É importante, caro (a) aluno (a), sublinhar os debates para compreender a relação</p><p>sobre a globalização e a religião. A primeira questão é a separação entre Estado e Igreja</p><p>e a secularização das instituições e relações sociais, a emergência da ciência e da técnica</p><p>de saberes secularizados.</p><p>41UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 41UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Outro ponto é o debate de nação e modernidade, na qual ocorre uma redefinição</p><p>de classes, surgimento de políticas distintas.</p><p>Há nesse processo uma integração econômica, territorial, política, linguística e</p><p>cultural, que se faz em torno de um outro tipo de formação social: a nação. A organização</p><p>da nação tem a capacidade de aglutinar os indivíduos em uma consciência coletiva que os</p><p>envolve e transcende.</p><p>Em tese, o Estado-nação não é baseado em valores predominantemente religiosos.</p><p>Os valores iluministas e as revoluções políticas subsequentes (francesa e a norte-americana)</p><p>concebem como “universal” – que se difere do universo religioso - um conjunto de princípios:</p><p>democracia, igualdade, liberdade e cidadania. Mas, essa universalidade apenas surge</p><p>enquanto particularidade, ou seja, cada nação seria um “universal” em miniatura. (ORTIZ,</p><p>2001, p.63). A noção de nação, do ponto de vista cultural, deixa de ser considerada algo</p><p>“para o todo” e se torna uma “diferença”.</p><p>Muitas são as ações de diversas religiões em incluir a pauta sobre a democracia</p><p>e cidadania ao seu discurso. A defesa dos direitos torna-se uma premissa. As instituições</p><p>religiosas e empresas transnacionais, por se definirem como “além das fronteiras”, dispõem</p><p>de possibilidades favoráveis para agir em escala globalizada e minimizar os conflitos e</p><p>violências, principalmente religiosas.</p><p>Em suma, estudante, uma das principais problemáticas da humanidade é com-</p><p>preender a relação entre diversidade e unidade. Como argumenta Edgar Morin (2013),</p><p>sociólogo e filósofo francês, a diversidade é a manifestação da unidade. Assim, ao pensar</p><p>na Cultura, um conceito universal, não existe uma única cultura. Podemos dizer, que a reli-</p><p>gião enquanto uma manifestação cultural também é diversa e a percepção de uma cultura</p><p>ocorre por meio das diversas culturas. Então, o que podemos pensar é que o conhecimento</p><p>sobre o eu ocorre na diferença. Só estamos aptos a nos relacionarmos com a humanidade</p><p>quando deixamos de homogeneizar.</p><p>42UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 42UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Segundo dados de 2013, última estimativa, foram 21.205 páginas denunciadas à ONG</p><p>Safernet por divulgar conteúdos de intolerância racial, religiosa, neonazistas, xenofobia e</p><p>homofobia ou por fazer apologia e incitação a crimes contra a vida. Dessas, 11.004 esta-</p><p>vam no Facebook, a rede social mais usada pelos brasileiros. Os crimes de ódio migraram</p><p>para a web, mas não deixaram de acontecer no mundo real. Por exemplo, a taxa de femi-</p><p>nicídio no Brasil foi a quinta maior do mundo no ano passado, de acordo com a ONU, e o</p><p>nosso país é o que mais mata transexuais no mundo, segundo a pesquisa da organização</p><p>não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), realizada em 2015.</p><p>Fonte: RESPEITO às Diferenças. Unisinos, 2021. Disponível em:</p><p>http://unisinos.br/ideiasagora/respeito-as-diferencas/. Acesso em: 08 nov. 2021.</p><p>REFLITA</p><p>“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que</p><p>eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos</p><p>outros: e o outro dos outros era eu.”</p><p>(Clarice Lispector.</p><p>43UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 43UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Cara(o) estudante, nesta unidade você viu como as ações ecumênicas podem ser</p><p>promovidas em diferentes momentos das nossas vidas. Tivemos exemplos de religiões que</p><p>se organizaram para preservar o meio ambiente, movimentos de combate a homofobia e</p><p>a exclusão com foco na valorização dos direitos humanos. As religiões, por intermédio da</p><p>prática ecumênica, podem contribuir significativamente no convívio com as diferenças e na</p><p>promoção da diversidade enquanto característica humana. Para isso, é necessário conhe-</p><p>cermos os mecanismos legais como leis e normas que regulamentam o ensino religioso,</p><p>compreender os elementos peculiares das religiões e promover a alteridade.</p><p>Vimos como a ideia de diferença é exercida a partir do olhar do narrador que</p><p>descreve e interpreta a cultura do outro a partir de suas próprias experiências e vivências,</p><p>nesse sentido, a visão ocidental, influenciada pelo pensamento cristão europeu, pode</p><p>partir de dualidades de bem e mal. Entretanto, ao explorarmos a relação entre unidade e</p><p>diversidade percebemos que não existe uma única cultura, nem mesmo fiéis da mesma</p><p>religião pensam de maneira idêntica, dessa forma, a religião enquanto manifestação cultural</p><p>também é plural e diversa.</p><p>Embora durante os séculos XIX e XX</p><p>tenha sido divulgada a ideia de que as reli-</p><p>giões teriam cada vez menos espaço na sociedade, observamos que o papel das crenças</p><p>(na esfera pública e privada) tem ganhado cada vez mais destaque. Além disso, a maioria</p><p>da população mundial tem algum tipo de prática religiosa e longe de ser um monopólio</p><p>religioso, o que se nota é a pluralidade de crenças e a diversidade religiosa. Dessa forma, a</p><p>ciência da religião tem papel fundamental nesse desafio de estudar, consolidar e preservar</p><p>a diversidade por meio de ações de esclarecimento da importância da prática ecumênica.</p><p>Muito obrigado e até a próxima unidade!</p><p>44UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 44UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>● HALL, Stuart. O Ocidente e o Resto: Discurso e Poder. Projeto História, n. 56,</p><p>2016, p. 314-361.</p><p>Nesse artigo Stuart Hall discute como as definições de Oriente e Ocidente foram</p><p>construídas não apenas como noções geográficas, mas também culturais providas de mi-</p><p>tos e fantasias na caracterização do outro. Para o autor, a identificação de conceitos como</p><p>“Europa”, “Cristianismo” e “Ocidente” tem implicações no estabelecimento de uma história</p><p>linear que desconsidera importantes desenvolvimentos históricos, como por exemplo, as</p><p>atividades cristãs no próprio Oriente. Além disso, essa divisão é uma forma de deslegitimar</p><p>o outro por meio de uma construção discursiva que separa o “nós” ocidentais dos “outros”</p><p>orientais, desconsiderando toda a pluralidade presente nessas classificações.</p><p>● ELIADE, Mircea. História das Crenças e Ideias religiosas. Rio de Janeiro:</p><p>Zahar Editores, 1978.</p><p>A obra é um dos trabalhos mais significativos elaborada por Mircea Eliade, conta</p><p>com três volumes que buscam traçar os aspectos das diversas religiões ao longo da his-</p><p>tória. O primeiro volume é dedicado às crenças que vão desde a pré-história até o culto</p><p>grego a Dionísio. O segundo volume versa desde a história das crenças chinesas até o</p><p>surgimento do Cristianismo e da própria Igreja Católica. Por fim, o terceiro volume parte do</p><p>Islamismo e é finalizado com os processos da Reforma Protestante. Ao longo dos volumes,</p><p>Eliade analisa religiões com diferentes características, espaços de atuação, rituais e ideias.</p><p>Os livros carregam muitos conceitos que foram elaborados por Eliade ao longo de sua vida</p><p>como: sagrado, profano, o terror da história, entre outros.</p><p>45UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 45UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título. Emmanuel Levinas: Um estudo sobre a ética da alteridade</p><p>Autor. Abimael F. do Nascimento.</p><p>Editora. Brazil Publishing.</p><p>Sinopse: Emmanuel Levinas é um daqueles filósofos que fez o</p><p>seu itinerário praticamente sozinho. Seu contato com Husserl e</p><p>Heidegger lhe renderam o prêmio de “inaugurar” a fenomenolo-</p><p>gia na França. Sua experiência de cativeiro, durante a Segunda</p><p>Guerra Mundial foi um duro momento de amadurecimento de seu</p><p>pensar filosófico. Ali, no cativeiro, enquanto parte de sua família</p><p>era exterminada pelo Nacional Socialismo, Levinas amadureceu</p><p>a necessidade de saída de ser, com fim de desenvolver a ética</p><p>da alteridade. Sua ética chegava aos primeiros ensaios, propondo</p><p>uma responsabilidade pelo outro. O outro, que se manifesta como</p><p>rosto, vulnerável e exposto à morte, tem uma primeira e impera-</p><p>tiva fala: não matarás. A verbalização do rosto, o seu imperativo,</p><p>incube o sujeito (tido por ele mesmo), a não matar, a não explorar,</p><p>a não exterminar o outro. Sua ética, desenvolvida em um percur-</p><p>so solitário, chega à radicalidade da substituição ética, algo que</p><p>se pode imaginar a partir da figura da maternidade, que não se</p><p>restringe ao feminino, mas se faz linguagem metafórica de uma</p><p>responsabilidade qual a mãe, que coloca a cria em primeiro lugar,</p><p>não é apenas colocar-se no lugar do outro, é colocar o outro em</p><p>seu lugar, é substituição ética. É uma ética infinita, quanto mais me</p><p>faço responsável, mais responsável sou. Não se esgota, ela apon-</p><p>ta para uma alteridade transcendente, do qual o rosto é vestígio,</p><p>o Outro absolutamente. Na “infinição” do rosto do outro me vem</p><p>a ideia de infinito, a ideia de Deus, que é testemunhado na ética.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título. E Agora, Onde Vamos?</p><p>Ano.2011.</p><p>Sinopse: Numa aldeia remota do Líbano vive uma comunidade</p><p>dividida entre a religião cristã e a islâmica. O lugar, rodeado por</p><p>minas terrestres, tem apenas uma velha ponte que o liga às outras</p><p>comunidades da zona. À medida que a guerra se agudiza no país,</p><p>as mulheres da aldeia, fartas de fazer o luto pelos seus maridos e</p><p>filhos, decidem boicotar a informação que lhes chega, destruindo</p><p>o rádio e televisão comunitários. Porém, até então, e apesar das</p><p>divergências religiosas, os seus habitantes vivem pacificamente a</p><p>sua fé. Contudo, um evento vem contrariar aquela tranquilidade e</p><p>os homens começam a disputar direitos e deveres, criando uma</p><p>divisão entre os dois grupos religiosos num ambiente de tensão</p><p>que cresce de dia para dia. É então que as mulheres, habituadas</p><p>a conduzir os seus homens de uma maneira peculiar, de forma a</p><p>desviar a sua atenção daqueles conflitos que ameaçam pôr em</p><p>causa as boas relações entre todos, decidem contratar um grupo</p><p>de dançarinas ocidentais e drogá-los com bolinhos de haxixe en-</p><p>quanto escondem todas as armas da aldeia.</p><p>46UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 46UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>WEB</p><p>Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, argumenta que a grande</p><p>fronteira da contemporaneidade é a compreensão da relação entre</p><p>diversidade e unidade. Segundo Morin, diversidade é a manifes-</p><p>tação da unidade. Para saber mais acesse o link: https://www.</p><p>youtube.com/watch?v=u8f-kiPG_LI</p><p>47</p><p>Plano de Estudo:</p><p>● A importância da Diversidade religiosa;</p><p>● Conceitos e Definições de Tolerância X Intolerância;</p><p>● O movimento ecumênico e o cotidiano;</p><p>● Ações práticas para a vivência social.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>● Conceituar e contextualizar os conceitos de tolerância e intolerância;</p><p>● Compreender os tipos de diversidade;</p><p>● Estabelecer a importância da prática cotidiana ecumênica.</p><p>UNIDADE III</p><p>Teoria Ecumênica e</p><p>a Prática Cotidiana</p><p>Professora Ma. Laís Azevedo Fialho</p><p>Professora Ma. Mariane R. Emerenciano da Silva</p><p>Professor Me. Leonardo Henrique Luiz</p><p>48UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Olá, bem-vindo(a) à Unidade III. Aqui você vai estudar um pouco mais a respeito</p><p>da diversidade cultural e o papel do ecumenismo para a promoção de valores que estão</p><p>instituídos na sociedade brasileira, vamos ver também como diversas atividades podem ser</p><p>empregadas com o objetivo de reconhecer e promover a diversidade religiosa. Como um</p><p>valor fundamental para a humanidade a existência de diferenças entre grupos e indivíduos</p><p>possui intrínseca relação com o ecumenismo, pois só é possível falar em atividade ecumê-</p><p>nica em meio a diversidade de pensamento, crença, ideias e práticas religiosas.</p><p>A partir do entendimento de que a diversidade cultural deve ser preservada, o</p><p>Estado democrático instituiu uma série de leis e diretrizes para efetivação desse valor na</p><p>sociedade brasileira. Assim, a Constituição Federal garante a liberdade religiosa, a plurali-</p><p>dade de pensamento e o combate às formas de opressão. Entretanto, esses mecanismos</p><p>institucionais não devem ser as únicas formas de promoção da diversidade, é preciso que</p><p>na vida cotidiana através de práticas concretas os comportamentos, vocabulários e atitudes</p><p>se alinhem para construção de um mundo mais justo.</p><p>Ao lidar com outras formas de práticas culturais muitos conflitos podem surgir dentro</p><p>das sociedades, mas é dever dos cidadãos combater a intolerância e agir com solidariedade</p><p>para com as vítimas. Nesse sentido, a religião tem um grande papel a contribuir, pois ela</p><p>não ocupa um espaço restrito no âmbito privado. Os praticantes das mais diversas religiões</p><p>são também atuantes na sociedade e transformam o meio social,</p><p>para essa transformação</p><p>é necessário o conhecimento e o respeito mútuo diante das diferentes, só assim é possível</p><p>a efetivação de atuações práticas.</p><p>Esperamos que você aproveite a discussão. Bons Estudos!</p><p>49UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>1. A IMPORTÂNCIA DA DIVERSIDADE RELIGIOSA</p><p>Como você viu nas unidades anteriores, a defesa da pluralidade está presente em</p><p>diversos momentos da história do movimento ecumênico em diferentes partes do mundo.</p><p>Nesse sentido, tendo principalmente a promoção dos direitos humanos, muitas religiões se</p><p>colocaram como defensoras dos excluídos visando a contribuir com um mundo mais justo</p><p>e igual. Na história do Brasil, o ambiente democrático foi e é fundamental para isso ocorrer,</p><p>pois a própria democracia é entendida como um princípio que fomenta a diversidade, seja</p><p>ela de gênero, etnia ou religião.</p><p>De acordo com o antropólogo Clifford Geertz (2008), a cultura é produto das vivências</p><p>históricas que possibilita aos indivíduos simbolizar, organizar a vida social e estabelecer</p><p>relações de poder com as demais pessoas e entre os grupos. Assim, para o autor a diversidade</p><p>cultural opera como rede de significados na vida dos indivíduos e de um grupo social; através</p><p>dessas redes são estabelecidos valores, regras e normas socialmente partilhados que</p><p>permitem a troca de informações a partir de entendimentos comuns. Portanto, a ideia de</p><p>diversidade cultural e, consequentemente, de diversidade religiosa, são formas de construir</p><p>relações que ampliem nosso entendimento sobre o mundo a partir do relacionamento com</p><p>novas informações de outras pessoas e grupos. De fato, o significado etimológico da palavra</p><p>diversidade está relacionado com a diferença, variedade, portanto, heterogeneidade.</p><p>50UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>Ao pensarmos a diversidade religiosa devemos ter em mente as diferenças entre</p><p>as crenças e heterogeneidades de práticas que podem ser encontradas ao nosso redor.</p><p>Na história brasileira, a institucionalização da laicidade foi um passo fundamental para a</p><p>promoção da diversidade religiosa. A existência do Estado Laico é um regime legitimado</p><p>pela soberania popular que vê a necessidade da separação entre religião e Estado. Portan-</p><p>to, seu fundamento de organização não está no direito divino, mas isso não significa que</p><p>ele seja contrário à religião. A perspectiva fundante do Estado Laico é a não discriminação</p><p>por motivos religiosos assim como o combate à hierarquização das crenças proferidas no</p><p>país, visando uma relação de imparcialidade e igualdade no trato com os cidadãos. Como</p><p>princípio de fomento da diversidade, a laicidade relega aos cidadãos a escolha religiosa.</p><p>Em um Estado laico o reconhecimento da diversidade religiosa, o esforço para sua</p><p>promoção é fator importante e o combate a todas as formas de discriminação são fatores</p><p>importantes para a promoção dos seus princípios. Como produto do desenvolvimento histó-</p><p>rico, a diversidade religiosa se consolida pelas trocas e fluxos de diferentes grupos sociais</p><p>e identidades, sendo também uma característica essencial da humanidade. A diversidade</p><p>deve ser conhecida, preservada e examinada visando o respeito para com o outro. Existem</p><p>inúmeros documentos oficiais no Brasil que respaldam a diversidade religiosa, seja em</p><p>ambiente escolar, público ou privado. O mais importante deles é o artigo 5° da Constituição</p><p>Federal brasileira de 1988 que diz o seguinte:</p><p>Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,</p><p>garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a</p><p>inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à</p><p>propriedade, nos termos seguintes:</p><p>[...]</p><p>VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado</p><p>o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção</p><p>aos locais de culto e a suas liturgias;</p><p>[...]</p><p>VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou</p><p>de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de</p><p>obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa,</p><p>fixada em lei;</p><p>[...] (BRASIL, 1988).</p><p>Os incisos destacados são os que tratam especialmente sobre a liberdade religiosa.</p><p>Neles podemos notar que o Estado assume a defesa da liberdade de crença e culto a todas</p><p>as religiões. Além disso, complementarmente a sociedade brasileira criou o entendimento</p><p>de que para a promoção da diversidade, a escola tem um papel fundamental.</p><p>51UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>A disciplina de Ensino Religioso enquanto componente curricular é entendida</p><p>como forma de contribuir para a formação do cidadão brasileiro visando a promoção</p><p>da diversidade religiosa, isso é particularmente presente no artigo 33 da LDB (Lei de</p><p>Diretrizes Básicas da Educação):</p><p>Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da</p><p>formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das</p><p>escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversida-</p><p>de cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.[...]</p><p>(BRASIL, 1996).</p><p>Dessa forma, a própria educação tem papel fundamental ao formar cidadãos cons-</p><p>cientes das exclusões, preconceitos, discriminações e perseguições das religiões presentes</p><p>em nossa sociedade. Entretanto, isso não evita que existam debates que apontam para</p><p>contradições e ambiguidades para com a presença das religiões em mecanismos institucio-</p><p>nais, exemplo disso é a própria Constituição Federal que em seu preâmbulo foi promulgada</p><p>“sob a proteção de Deus” (BRASIL, 1988). Embora não tenham força normativa, essas</p><p>presenças causam incômodos naqueles que não professam esses valores.</p><p>FIGURA 1: ABERTURA DA 3° SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA NA CÂMARA DOS</p><p>DEPUTADOS EM 2021 COM A PRESENÇA DOS TRÊS PODERES, AO FUNDO PODEMOS</p><p>VER A PRESENÇA DO CRUCIFIXO.</p><p>Fonte:commons.wikimedia.org/wiki/File:Abertura_dos_trabalhos_legislativos_2021_(50905990636).jpg.</p><p>Acesso em: 30 de set. de 2021.</p><p>52UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>O papel do profissional que trabalha com o tema em sala de aula é superar o</p><p>senso comum e assegurar a igualdade sem diluir as diferenças, pois como já vimos,</p><p>a diversidade religiosa e o ecumenismo só ocorrem a partir da pluralidade cultural e</p><p>de bases sólidas na própria crença. Podemos também retomar o significado da palavra</p><p>religião no sentido de religar: com o sagrado, mas também com os outros. Nesse sentido,</p><p>de acordo com Sérgio Junqueira,</p><p>É certo que ao se apresentar a diversidade cultural religiosa, favorece-se o</p><p>desenvolvimento de uma liberdade da identidade pessoal, mas um aspecto</p><p>a ser ressaltado nesse sentido, é que isso não fique restrito somente em</p><p>informações e curiosidades, porém alcance a educação para a ação transfor-</p><p>madora. (JUNQUEIRA, 2018, p. 16)</p><p>Isso porque, a própria sala de aula é um ambiente de diversidade heterogênea,</p><p>plural e em constante transformação pela individualidade de cada aluno a partir de suas</p><p>crenças, valores, hábitos, conhecimentos que possibilitam a interação com o conteúdo.</p><p>Além desses respaldos legais que preservam e garantem a diversidade religiosa,</p><p>devemos compreender que a diversidade é algo inerente ao ser humano. Se analisarmos a</p><p>fundo categorias e grupos sociais que aparentemente dão a impressão de um todo unifica-</p><p>do e homogêneo perceberemos uma série de diferenças internas. Por exemplo, ao escutar</p><p>o termo Ocidente, você pode pensar em países como os Estados Unidos da América, a</p><p>Europa e, talvez, o Japão. Entretanto, dentro de cada um desses países temos histórias</p><p>nacionais que diferem muito entre si, mesmo dentro dessas nações não é possível falar em</p><p>homogeneidade (HALL, 2016).</p><p>Esse mesmo pensamento vale para refletirmos sobre as religiões: os budistas,</p><p>católicos, protestantes, islâmicos, candomblecistas, hinduístas, xintoístas,</p><p>umbandistas,</p><p>judeus, etc. não são todos iguais. Portanto, dentro da diversidade religiosa, também há</p><p>diversidade. Como cidadãos e cientistas da religião que atuam na formação escolar temos</p><p>que conhecer essas diversidades e aprender formas de promovê-las visando o respeito, o</p><p>diálogo e a atuação por um mundo melhor e mais diversos.</p><p>53UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>2. CONCEITOS E DEFINIÇÕES DE TOLERÂNCIA X INTOLERÂNCIA</p><p>A imagem desse tópico é de 21 de janeiro de 2021, no qual membros do Candom-</p><p>blé participaram de um ato em Salvador, na Bahia. As religiões de matriz afro-brasileira são</p><p>um dos maiores alvos da intolerância religiosa, sendo necessárias políticas públicas para a</p><p>proteção da liberdade dos adeptos.</p><p>No caso das religiões, as pessoas em diferentes lugares e períodos recorreram</p><p>a diversas formas de respostas para as grandes questões a partir de suas organizações</p><p>sociais particulares. Assim, a humanidade construiu e constrói múltiplas respostas para</p><p>questões como as razões da existência e criação. No processo de convivência com res-</p><p>postas diferentes houve muitos conflitos que podem ser observados pela história de cada</p><p>movimento religioso: entre cristãos e islâmicos, judeus e cristãos, budistas e islâmicos,</p><p>católicos e protestantes, islâmicos e judeus, entre outros que constituem em barreiras para</p><p>a diversidade e o ecumenismo. Esses conflitos não carregam apenas motivações religiosas,</p><p>cada um deles tem particularidades sociais e históricas da ordem econômica e política que</p><p>se somam à questão religiosa. Dessa forma, estudar esses processos é um primeiro passo</p><p>para conseguir pensar em soluções para tais conflitos.</p><p>Mas a ideia de intolerância não se resume à ordem religiosa. Como você deve saber,</p><p>a intolerância se expressa diante de várias formas de diversidade, podendo ser de idade,</p><p>gênero, orientação sexual, padrão físico, nacionalidade, etnia e também religiosidade. En-</p><p>tão como entender a intolerância? De uma maneira simples, podemos definir a intolerância</p><p>como estar além dos limites aceitáveis da tolerância, mas afinal, o que é tolerância?</p><p>54UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>O conceito de tolerância em si é ambivalente e, ao longo do tempo, foi alvo de usos</p><p>políticos, no qual os indivíduos e grupos tentaram se afirmar como tolerantes e colocaram</p><p>o outro na posição de intolerante. O filósofo alemão Rainer Forst formula uma resposta</p><p>que embora seja aparentemente simples é a de que “[...] os limites da tolerância devem ser</p><p>postos onde a intolerância começa. A tolerância só pode ser exigida em face daqueles que</p><p>são tolerantes; é uma questão de simples reciprocidade.” (2009, p. 16).</p><p>Essa resposta também estaria respaldada nos clássicos da história da tolerância</p><p>como Pierre Bayle, John Locke, Rousseau e Voltaire. Em sua perspectiva, não devemos</p><p>colocar no mesmo patamar de “intolerância” os intolerantes que se colocam além dos limites</p><p>da tolerância e os que não querem tolerar a recusa da norma.</p><p>Podemos traçar um paralelo com a liberdade de expressão. No Brasil, a Lei</p><p>7.716/89 que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, em seu Art.</p><p>20, parágrafo 1°, estabelece como crime “§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular</p><p>símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica</p><p>ou gamada, para fins de divulgação do nazismo.” (BRASIL, 1989). Dessa forma, será que</p><p>podemos falar que essa Lei é intolerante contra aqueles que portam esses símbolos?</p><p>FIGURA 2: GRUPOS DE EXTREMA-DIREITA REALIZARAM MANIFESTAÇÕES EM</p><p>PROTESTO CONTRA A REMOÇÃO DA ESTÁTUA DE ROBERT E. LEE NA CIDADE DE</p><p>CHARLOTTESVILLE NOS ESTADOS UNIDOS NO ANO DE 2017. O PROTESTO FOI</p><p>DECLARADO COMO ILEGAL.</p><p>Fonte: commons.wikimedia.org/wiki/File:Charlottesville_”Unite_the_Right”_Rally_(35780274914).jpg.</p><p>Acesso em: 30 de set. de 2021.</p><p>55UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>Diante desse paradoxo devemos ter em mente que o conceito de tolerância não</p><p>pode ser reduzido a uma concepção permitivista, isto é, uma autoridade que permitiria o ou-</p><p>tro (diferente). Essa ideia permitivista carrega a condição de que esse outro aceite a posição</p><p>de autoridade/dominante que lhe é imposta, ou seja, está submissa, dependente e só pode</p><p>atuar dentro das condições e interesses dessa autoridade. Em vez disso, Forst argumenta</p><p>que a tolerância é recíproca em que, embora tenham modos de vida incompatíveis, práticas</p><p>e convicções diferentes, as visões se respeitam mutuamente e se consideram iguais moral</p><p>e politicamente. O autor chama isso de “tolerância como respeito”, que reconhece direitos</p><p>e liberdades como normas iguais, não podendo ser negadas aos outros. Dessa forma, “Os</p><p>limites da tolerância são, portanto, atingidos quando um grupo tenta dominar os demais</p><p>fazendo de suas visões rejeitáveis a norma geral.” (FORST, 2009, p. 23). Não bastando,</p><p>porém o simples tolerar, é preciso compreender e nutrir empatia para com o outro.</p><p>Nessa definição, os que violam o limite do respeito não podem querer ser tolerados,</p><p>pois “[...] traçar os limites do tolerável daquele modo não é apenas uma outra forma de in-</p><p>tolerância, mas um exercício do dever moral para com as vítimas daqueles atos.” (FORST,</p><p>2009, p. 27). A partir desse entendimento caberia aos cidadãos como agentes soberanos do</p><p>Estado democrático demarcar e defender os limites da tolerância, combatendo as formas</p><p>de intolerância e agindo solidariamente com as vítimas dessa intolerância.</p><p>56UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>3. O MOVIMENTO ECUMÊNICO E O COTIDIANO</p><p>Como vimos, pelas definições dos conceitos de intolerância e tolerância a</p><p>sociedade tem papel fundamental para garantir as liberdades da coletividade. No âmbito</p><p>das religiões, há a intolerância religiosa que se expressa em grandes conflitos ou situações</p><p>de hostilidade, mas também não podemos esquecer dos “pequenos” conflitos cotidianos,</p><p>quando as religiões são desrespeitadas, templos e símbolos são atacados ou ainda quando</p><p>são desqualificadas ao serem referidas de maneira pejorativa.</p><p>Muitas vezes, por estarmos inseridos em uma realidade específica, não nos damos</p><p>conta das situações adversas em que muitas pessoas vivem na mesma cidade ou bairro</p><p>que nós. Além disso, também é possível que algumas de nossas posições individuais,</p><p>opiniões, atitudes e das pessoas que convivem conosco reforcem certos estereótipos e</p><p>preconceitos que não nos damos conta. É preciso cuidados para que os estereótipos não</p><p>sejam reproduzidos no dia a dia. Para isso, o conhecimento é um elemento fundamental.</p><p>Ao conhecermos os valores, as ideais, rituais, enfim, a forma de expressão do</p><p>sagrado das outras religiões podemos ter condições para o exercício do convívio com a</p><p>diversidade. De acordo com um levantamento realizado em 2019, pelo Jornal Agora, ligado</p><p>ao Grupo Folha, a Polícia Civil da cidade de São Paulo recebeu mais de 562 notificações</p><p>de crimes de intolerância religiosa entre janeiro e abril daquele ano. Comparativamente,</p><p>em 2018, no mesmo período, foram 280 notificações (CARDOSO, 2019). Esse aumento</p><p>significativo é uma evidência de como os comportamentos devem ser repensados, pois</p><p>entre os crimes, o de injúria teve a maior ocorrência, com 246 registros.</p><p>57UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>Dessa forma, temos uma situação em que a dignidade e a honra da pessoa foram</p><p>ofendidas por conta de sua vivência religiosa. Como teólogos e/ou cientistas da religião</p><p>atuantes, temos um papel fundamental para modificar esse quadro, pois no Brasil diversas</p><p>religiões são atingidas pela intolerância que advém dos desconhecimentos.</p><p>Então, ao esclarecermos, entendermos e dialogarmos sobre como são as práticas</p><p>e fundamentos das religiões, podemos contribuir para a aceitação, respeito e a paz.</p><p>Na Unidade II vimos uma série de ações ecumênicas que podem e são promovidas</p><p>a partir de objetivos</p><p>comuns como a preservação da natureza, a luta antirracista, o combate</p><p>ao sexismo, as violências de gênero, enfim, formas de melhorar a vida em sociedade.</p><p>Muitas dessas ações são também práticas cotidianas que se somam à atuação coletiva ou</p><p>individual e devem ser motivo de reflexão entre as religiões e seus praticantes.</p><p>No âmbito do catolicismo, Elias Wolff (2007) mostra como a atuação ecumênica</p><p>junto a pastoral migratória pode atuar no cotidiano para melhorar a vida dos imigrantes e</p><p>refugiados. Os fluxos de pessoas permitem a formação de uma sociedade mais diversa e</p><p>plural, pois ao sair de sua localidade para a de outro país, estado ou cidade o migrante leva</p><p>consigo valores, credo e tradições religiosas que são fundamentais para seu estabeleci-</p><p>mento na nova localidade. Nesse novo ambiente há constantes desafios enfrentados, pois</p><p>“No Ocidente, mesmo nas Regiões onde se afirma a separação entre Estado e religião, há</p><p>nações que se identificam também pela tradição religiosa, na perspectiva cristã: ortodoxa,</p><p>ou católica, ou protestante ou anglicana.” (WOLFF, 2007, p. 130). Quando o estrangeiro</p><p>se fixa e conquista estabilidade social, a busca religiosa e a afirmação de suas tradições</p><p>religiosas é algo comum. Dessa forma, essas religiões tem um trabalho humanitário em</p><p>acolher essas pessoas, assim como promover ações para que as crenças delas também</p><p>tenham espaço na nova sociedade.</p><p>58UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>FIGURA 3: O DIA 20 DE JUNHO É COMO O DIA MUNDIAL DO REFUGIADO, ESSA</p><p>DATA É DEDICADA À CONSCIENTIZAÇÃO DA SITUAÇÃO ENFRENTADA POR MUITAS</p><p>PESSOAS NO MUNDO.</p><p>Entretanto, o que notamos é que no cotidiano essas novas formas de religiosidade</p><p>são deslegitimadas, desrespeitadas e atacadas como invasoras. Para Wolff (2007),</p><p>acolher a religião do migrante é acolher o próprio migrante, por isso, é fundamental a</p><p>postura ecumênica orientando encontros e desenvolvendo ações em comum. Para isso,</p><p>o autor aponta que no caso específico da Igreja Católica se deve: 1 – eliminar palavras e</p><p>ações que desrespeitem as diferentes religiões e igrejas. 2 – Construir um diálogo,</p><p>sem relativizar a fé e nem apresentar como exclusiva; 3 – engajar em iniciativas de</p><p>cooperação no campo social; 4 – rezar juntos para um mundo melhor.</p><p>Essas orientações não podem depender apenas das iniciativas oficiais das ins-</p><p>tituições religiosas, muitas só são construídas no dia a dia pela vontade e respeito das</p><p>comunidades e indivíduos inseridos. De fato, seja como membros das religiões ou não,</p><p>podemos modificar a nossa forma de atuação no cotidiano e possibilitar um mundo mais</p><p>justo. O mais importante no caso é a promoção do bem-estar e a partilha da cooperação</p><p>através de ações concretas de solidariedade que permitam a acolhida e a solução dos</p><p>problemas diante da necessidade imposta.</p><p>59UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>4. AÇÕES PRÁTICAS PARA A VIVÊNCIA SOCIAL</p><p>A vida em sociedade compõe uma série de aprendizagens que são inerentes ao</p><p>processo socializador, isto é, no qual se aprende hábitos, valores, comportamentos e cren-</p><p>ças compartilhadas com o grupo em que estamos inseridos. Espaços como a família, a</p><p>relação com os amigos, a igreja e a escola são constantes momentos em que a identidade</p><p>é moldada e estabelecida continuamente durante a vida.</p><p>Esse processo é denominado pelo sociólogo Pierre Bourdieu (2012) de habitus, que</p><p>é definido pelo processo de incorporação dos discursos e práticas socialmente partilhadas</p><p>entre os indivíduos de determinado grupo. Essa noção de habitus é importante para que</p><p>lembremos que os comportamentos têm uma historicidade (variam com o tempo), estão</p><p>associados a uma educação (formal ou informal) e, portanto, estão condicionados com as</p><p>experiências com as quais entramos em contato.</p><p>Dessa forma, a religião como agente de socialização é um meio extremamente</p><p>impactante para empregar ações práticas na vida dos adeptos com o objetivo de uma vivên-</p><p>cia social harmoniosa. Nesse sentido, Regina Novaes (2012) demonstra como os valores</p><p>religiosos não só atuam dentro das igrejas como também adentram outras atividades do</p><p>espaço público que nos levam a reflexões diversas sobre o papel da religião na sociedade.</p><p>A autora destaca diversas atividades que demonstram o papel das religiões em setores</p><p>inesperados, por exemplo, dentro das periferias e da cultura do Hip Hop surgem tendências</p><p>do “rap gospel”. Esse tipo de música realiza denúncias sociais visando a conscientização</p><p>dos jovens, e ao mesmo tempo, as letras são carregadas de valores religiosos construídos</p><p>a partir de vivência dentro das religiões com o objetivo de promover a paz.</p><p>60UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>Esse caso particular é um exemplo onde podemos observar que há uma integração</p><p>de diferentes elementos na identidade das pessoas. Esse tema, longamente discutido por</p><p>Stuart Hall (2004), é fundamental para percebermos como há intersecções mesmo den-</p><p>tro das religiões aparentemente homogêneas. Isto é, a partir das religiões os indivíduos</p><p>exercem novas atividades para outras áreas da vida pública, formando novos espaços de</p><p>práticas e atuação social. Por isso, se faz necessário a reflexão de como abordar essas</p><p>atividades visando integrar diferentes formas de encarar o mundo tendo como objetivo</p><p>ações práticas para fortalecimento do diálogo.</p><p>Podemos citar como exemplo o âmbito da saúde, em que as religiões podem ajudar</p><p>muito nos ambientes hospitalares, tanto junto aos pacientes como os profissionais de saúde.</p><p>De forma complementar aos tratamentos biomédicos, as religiões atuam para dar novos</p><p>significados ao processo de tratamento e cura. A doença não é apenas uma experiência</p><p>individual de dor e sofrimento, ela também é coletiva e, portanto, quando o doente emite uma</p><p>descrição dos sintomas muitos elementos socialmente compartilhados estão presentes.</p><p>Dessa forma, as religiões devem se fazer presentes através da atuação como rede</p><p>de apoio para os doentes e suas famílias em diferentes casos. Sendo que</p><p>[…] a resposta religiosa a problemas como perturbações mentais, dificuldades</p><p>afetivas, doenças físicas etc. não se resume à solução para questões especí-</p><p>ficas e facilmente identificáveis. Muitas vezes, quando se busca uma religião,</p><p>percebemos que se quer algo de difícil definição, se quer uma explicação, aco-</p><p>lhimento, conselhos, enfim, “um algo mais” como resposta e cura para as doen-</p><p>ças, inquietações e angústias. (MELLO; OLIVEIRA, 2013, p. 1031).</p><p>O cuidado com a saúde no meio religioso exige empatia e o rompimento com</p><p>divisões que levem a extremos entre a adesão aos tratamentos biomédicos e a postura</p><p>religiosa. Ao abrir espaço para o acolhimento e suporte da situação do enfermo, melhores</p><p>respostas podem ser alcançadas em prol do bem-estar, pois o alívio do sofrimento depende</p><p>de uma série de fatores que o tratamento medicamentoso/farmacológico não dá conta</p><p>sozinho, portanto, pode ter um importante aliado na religião.</p><p>61UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>FIGURA 4: MÉDICA REZA SEGURANDO UM CRUCIFIXO. DEVIDO ÀS PRESSÕES</p><p>DO AMBIENTE DE TRABALHO AO LIDAR COM A SAÚDE DAS PESSOAS, MUITOS</p><p>PROFISSIONAIS DA SAÚDE RECORREM À RELIGIÃO COMO FORMA DE CONFORTO.</p><p>Como exemplo desse tipo de ação, podemos citar a Pastoral da Saúde ligada à</p><p>Igreja Católica, que tem atuação ampla visando as dimensões solidária, comunitária e</p><p>político-institucional. Junto a essa Pastoral são realizados trabalhos de acolhimento com</p><p>pessoas que enfrentam enfermidades crônicas, dependência tóxica, vítimas de exclusão</p><p>social, ações de educação e prevenção para a saúde e atuação junto a órgão e instituições</p><p>para a humanização dos tratamentos de saúde.</p><p>Esses elementos de atuação das religiões em diferentes esferas da vida que se</p><p>mesclam com lugares inusitados como o Hip Hop e até os tradicionais como a saúde, são</p><p>exemplos das ações práticas da crença na dinâmica social. Como cientistas</p><p>da religião</p><p>que têm a possibilidade de atuar em áreas como a docência por meio de abordagens</p><p>interdisciplinares e ecumênicas, é preciso ter em vista essas diferentes dinâmicas para</p><p>que se entenda a pluralidade que constitui a sociedade. Por exemplo, no ambiente es-</p><p>colar de uma mesma sala de aula, diferentes crenças, valores e visões de mundo estão</p><p>presentes, mesmo que adeptos de uma mesma crença os alunos têm formas diferentes</p><p>de se relacionar com as especificidades da religião. Nesse sentido, cabe ao docente a</p><p>valorização das diferenças e o esclarecimento de como os valores plurais contribuem</p><p>para uma sociedade mais igualitária tendo como base o diálogo, do qual o ecumenismo</p><p>contribui de maneira significativa.</p><p>62UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Em 2020 o Comitê Nacional para os Refugiados no Brasil (CONARE) reconheceu que</p><p>havia 57.099 oficialmente reconhecidas como refugiadas no Brasil.</p><p>Fonte: SILVA, G. J; CAVALCANTI, L; OLIVEIRA, T; COSTA, L. F. L; MACEDO, M. Refúgio em Números,</p><p>6ª Edição. Observatório das Migrações Internacionais; Ministério da Justiça e Segurança Pública/ Comitê</p><p>Nacional para os Refugiados. Brasília, DF: OBMigra, 2021. Disponível em: https://www.acnur.org/portu-</p><p>gues/wp-content/uploads/2021/06/Refugio_em_Numeros_6a_edicao.pdf. Acesso em: 08 nov. 2021.</p><p>REFLITA</p><p>“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por</p><p>sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar,</p><p>elas podem ser ensinadas a amar.”</p><p>(Nelson Mandela)</p><p>63UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Ao longo da unidade você estudou como a diversidade, inclusive a religiosa, é</p><p>construída dentro do ambiente democrático. Para promover essa heterogeneidade de</p><p>formas de pensar, a institucionalização do Estado laico foi um importante marco histórico,</p><p>através dele diversos documentos como a Constituição Federal e as Leis da educação</p><p>fomentam a preservação, o reconhecimento e a defesa da diversidade cultural visando o</p><p>respeito para com o outro.</p><p>A diversidade é algo inerente aos seres humanos, sendo que nas religiões existem</p><p>diferentes formas de pensar as questões que norteiam a vida. Diante dessas diferenças,</p><p>muitas atitudes de intolerância podem ser constatadas. Ao definirmos a tolerância como o ato</p><p>de compreender e nutrir empatia para com o outro, podemos entender o papel da sociedade</p><p>como forma de combater as injustiças. É pela conscientização dos cidadãos e sua atuação</p><p>que o Estado democrático demarca as fronteiras entre tolerância e intolerância.</p><p>No âmbito do cotidiano das religiões, podemos notar como a mudança de hábitos,</p><p>palavras, comportamentos e atitudes podem produzir um mundo mais justo e igualitário.</p><p>Para isso, é fundamental o conhecimento de como as diferentes religiões operam suas</p><p>atividades. Ao percebermos o papel da religião como agente de socialização é possível</p><p>organizar iniciativas e fomentar ideias tanto no âmbito institucional como não-institucio-</p><p>nal, pois, embora a religião seja uma atividade de escolha pessoal suas contribuições na</p><p>sociedade não se limitam aos templos, igrejas e santuários. Nesse sentido, o indivíduo</p><p>pertencente a determinada religião tem diversas outras características que compõem sua</p><p>identidade e seus valores de atuação em sociedade. Compreendê-las é também contribuir</p><p>para o estabelecimento e promoção da diversidade na vida cotidiana.</p><p>Até a próxima unidade!</p><p>64UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>NOGUEIRA. Sidnei. Intolerância Religiosa. São Paulo: Editora Jandaíra, 2020.</p><p>O livro escrito pelo linguista e babalorixá Sidnei Nogueira discute o histórico da</p><p>intolerância religiosa. Embora tenha o foco no Brasil, o autor descreve eventos importantes</p><p>como o Nazismo, a Idade Média e o Império Romano como momentos onde a intolerância</p><p>religiosa se fez um marco significativo. A partir disso, o autor discute a intolerância como</p><p>atitudes ofensivas a crenças, rituais e práticas religiosas. Para o autor, além de crimes de</p><p>ódio e contra a dignidade humana, a intolerância revela a falta de habilidade social em</p><p>reconhecer e respeitar a diferença.</p><p>MANOEL, Ivan Manoel; ANDRADE, Solange Ramos de (orgs.). Tolerância e into-</p><p>lerância nas manifestações religiosas. 1. ed. Franca: UNESP-FRANCA, 2010.</p><p>O livro é resultado do II Encontro Nacional do GT de História das Religiões e</p><p>Religiosidades – ANPUH de 2008. Nele são reunidos 14 capítulos de diferentes autores</p><p>que participaram do desafio de discutir o tema da intolerância e tolerância nas religiões.</p><p>O livro passa por temas como o cenário da América Latina, as discussões bioéticas,</p><p>os discursos de intolerância e preconceito contra as religiões afro-brasileiras, entre</p><p>outros temas. Ao mostrar uma variedade de abordagens e ocorrências de casos de</p><p>intolerância, o livro aponta para a necessidade de novas pesquisas e políticas públicas</p><p>como forma de aprofundar no tema.</p><p>65UNIDADE III Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título: Introdução às religiões chinesas</p><p>Autor: Mario Poceski</p><p>Editora: Unesp</p><p>Sinopse: Embora existam muitos estudos especializados sobre</p><p>diversos aspectos da história religiosa, literatura, doutrina e prática</p><p>chinesa, há uma escassez de livros que ofereçam um tratamento</p><p>amplo das religiões chinesas e que abordem o contexto mais</p><p>abrangente. Este volume se destina a atender a uma necessidade</p><p>evidente de apresentações gerais ou livros que cubram todo o</p><p>campo das religiões chinesas. Com esse objetivo, empreende-se</p><p>cobertura abrangente, detalhada e acessível das principais tradi-</p><p>ções religiosas que, ao longo dos séculos, se desenvolveram e</p><p>floresceram na China.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: Um Ato de Esperança</p><p>Ano: 2019</p><p>Sinopse: Fiona Maye (Emma Thompson) é uma eminente juíza</p><p>da Alta Corte, que preside casos eticamente complexos do direito</p><p>familiar. Com o serviço pesado, sua carga horária acaba exigindo</p><p>um desgaste pessoal de Fiona. Em meio ao seu precário relacio-</p><p>namento com um professor (Stanley Tucci), ela precisa decidir so-</p><p>bre o caso de Adam (Fionn Whitehead), um garoto diagnosticado</p><p>com leucemia que se recusa em fazer a transfusão de sangue que</p><p>salvará sua vida, devido a uma crença religiosa.</p><p>66</p><p>Plano de Estudo:</p><p>● Promoção da Cultura de Paz;</p><p>● O poder do diálogo;</p><p>● A aceitação do outro como o ser semelhante;</p><p>● Um mundo em paz.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>● Compreender que o que é a Cultura da paz e como promovê-la;</p><p>● Estabelecer a importância do diálogo inter-religioso</p><p>na percepção da semelhança na diferença;</p><p>● Enfatizar a educação é um instrumento</p><p>para o desenvolvimento da cultura.</p><p>UNIDADE IV</p><p>Diálogo Inter-Religioso</p><p>Professora Ma. Laís Azevedo Fialho;</p><p>Professora Ma. Mariane R. Emerenciano da Silva;</p><p>Professor Me. Leonardo Henrique Luiz</p><p>67UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Olá estudante,</p><p>Chegamos a última Unidade da nossa disciplina de Ecumenismo e Diálogo Inter-</p><p>-religioso. Durante o percurso de nossas aulas já estudamos sobre o ecumenismo como</p><p>sinônimo de paz, suas representações, como a relação global desenvolve a pluralidade,</p><p>todavia, inflama conflitos e intolerância. Daí a necessidade de pensar a alteridade, de se</p><p>colocar no lugar do outro. Vimos, também, que mesmo um Estado laico, baseado na demo-</p><p>cracia carrega questões religiosas intrínsecas à sua história.</p><p>Pensando em todas as problemáticas vistas até o momento, nesta Unidade veremos</p><p>como confrontar uma Cultura de Violência já institucionalizada e desenvolver, educar nossa</p><p>sociedade para uma Cultura da Paz. Será que é mesmo impossível vivermos em paz? As</p><p>religiões possuem alguma influência na manutenção de paz e/ou violência? É possível es-</p><p>tabelecer um diálogo? E quanto aos professores, qual o papel ao ensinar sobre diversidade</p><p>religiosa? As práticas, costumes e ideias não mudam ao longo do tempo? Vamos ver</p><p>juntos</p><p>possibilidades de diálogo e sua contribuição social.</p><p>Desejamos bons estudos!</p><p>68UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>1. PROMOÇÃO DA CULTURA DE PAZ</p><p>Diversas vezes assistimos aos noticiários, ou observamos no nosso cotidiano uma</p><p>competitividade impregnada no contexto social, com base numa lógica destrutiva e violenta.</p><p>Para Gomes (2017), cotidianamente a humanidade experimenta uma situação de guerras,</p><p>violências e exclusão social. Nesse sentido, desde colocar-se no lugar do outro, dialogar,</p><p>pretende-se muitas vezes tomar seu lugar, anular e vencer o outro. Sabe-se que conflitos</p><p>e tensões entre culturas distintas não são recentes, ao longo da história muitas são as</p><p>violências ocasionadas. A globalização, nesse contexto pode aflorar os desastres entre as</p><p>diversas nações, culturas e etnias, pois como já enfatizado na Unidade II a globalização</p><p>intensificou a identificação das diferenças.</p><p>Ao considerar os fenômenos de imigração, a crescente mobilidade e comunicação</p><p>globais, é possível dizer que é um processo que desafia profundamente cada sociedade</p><p>no que tange a construção de um espaço verdadeiramente intercultural. Só no ano de</p><p>2001, 64 mil pessoas perderam a vida em 31 guerras: 22 internas e 9 envolvendo países</p><p>soberanos. Conforme Cristina Von (2014), se olharmos a história de forma mais esmiuçada,</p><p>perceberemos que nunca, no mundo, houve paz completa.</p><p>A cultura da violência foi ao longo do tempo institucionalizada com diferentes</p><p>manifestações em épocas históricas e contextos geográficos distintos. Para Vicenç Fisas</p><p>(1998), a violência institucionalizada começou com a revolução agrícola há mais de 7.000</p><p>anos, e com a revolução industrial, adquiriu novos elementos, institucionais e tecnológicos,</p><p>que adotaram meios de destruição antes não imagináveis.</p><p>69UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Na antiguidade essa violência, chamada de primitiva ou selvagem por Lipovetsky,</p><p>tinha uma lógica social e era regulada pela honra e vingança, resultante da subordinação</p><p>do interesse pessoal ao interesse do indivíduo grupo. Posteriormente, com a formação do</p><p>Estado, a guerra torna-se meio de conquista, expansão ou captura, sendo essa instituição</p><p>a principal a apropriar-se da guerra, glorificá-la e torná-la um direito, criando instituições</p><p>especializadas para prepará-la e realizá-la. Nesse sentido, a violência passa a ser um</p><p>meio de afirmação e reconhecimento do indivíduo; “a vida e a individualidade tornam-se</p><p>valores supremos e o Estado é o responsável por garantir a nossa segurança” (FISAS,</p><p>1998, p. 35, tradução nossa).</p><p>Esse processo, legitimou estruturas profundamente violentas e comportamentos</p><p>individualistas. O fortalecimento da sociedade civil e de uma camada social responsável,</p><p>pode mudar essa situação. A Unesco visava assim, passar da guerra para paz, ou seja,</p><p>passar de uma sociedade dominada unicamente pelo Estado, que era o único a garantir a</p><p>segurança, para uma participação da sociedade civil, na qual as pessoas trabalham, criam</p><p>e desenvolvem sua realidade em comunidades livres dos medos inerentes a uma cultura</p><p>de guerra (FISAS, 1998).</p><p>REFLITA</p><p>“A violência é o comportamento de quem não consegue imaginar outra solução para um</p><p>problema que o atormenta.”</p><p>(BETTELHEIM)</p><p>Todavia, percorremos caminhos dos quais ainda conseguimos vislumbrar a imagem</p><p>de um mundo fraterno, que está em nossas mentes, mas que dificilmente conseguimos</p><p>transportá-la à realidade, para o cotidiano.</p><p>Desde 1995 as discussões sobre a necessidade de uma educação para a paz se</p><p>intensificaram, baseada em princípios que garantam a dignidade humana, e que abordam</p><p>o respeito às diferenças. Além de exprimir o desejo de superação da exclusão, e ter como</p><p>base a solidariedade entre os povos tendo o diálogo como instrumento de negociação.</p><p>Essas discussões são expressas na Conferência Geral da Unesco, de 25 de outubro a 16</p><p>de novembro de 1995, em Paris.</p><p>70UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Ao reconhecer a necessidade de eliminar todas as formas de discriminação e</p><p>intolerância, incluindo as de raça e cor, sexo, idioma, religião, étnica ou social, no ano 2000</p><p>a Unesco proclamou o “Ano Internacional para Cultura de Paz”, pela Resolução 52/15,</p><p>de 15 de janeiro de 1998. Além disso, o período de 2001-2010, a “Década Internacional</p><p>para uma Cultura de Paz e Não Violência para as Crianças do Mundo”. As Nações Unidas</p><p>ao declarar que a paz é sempre possível e que a violência é evitável, colocaram-se em</p><p>oposição à inevitabilidade da força e da política de poder como vias únicas. (VON, 1994;</p><p>PUREZA, 2000).</p><p>SAIBA MAIS</p><p>No ano de 2001, a ONU, definiu que o dia 21 de setembro como o Dia Internacional da</p><p>Paz, na referida data ocorreu a abertura das sessões da Assembleia Geral da instituição,</p><p>que teve como principal objetivo lembrar os países participantes, sobre a importância da</p><p>paz. Como parte deste ato, foi lançada a resolução 55/282, estabelecendo que todas as</p><p>nações devem prezar e comemorar a paz, e garantir sua manutenção.</p><p>Fonte: 21 de Setembro - Dia Internacional da Paz. ESAB, 2016. Disponível em: https://esab.edu.br/21-de-</p><p>-setembro-dia-internacional-da-paz/. Acesso em: 08 nov. 2021.</p><p>FIGURA 1: DIA INTERNACIONAL DA PAZ, 21 DE SETEMBRO</p><p>Para Fisas (2011) a paz não é apenas a ausência da guerra, tem a ver com a su-</p><p>peração, redução e formas de evitar todo tipo de violências, físicas, culturais e estruturais,</p><p>e com a nossa capacidade e habilidade para transformar os conflitos, para que em vez de</p><p>termos expressões violentas e destrutivas, as situações de conflitos sejam oportunidades</p><p>criativas de encontros, comunicação, mudança, adaptação e troca. Este novo enfoque é o</p><p>que persegue a “cultura da paz”, ou “cultura para paz” (FISAS, 2011).</p><p>71UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>A virada do Milênio, também foi marcada pela Declaração e programa de ação para</p><p>uma Cultura de paz (ONU), na qual serve de guia para, “que os governos, organizações</p><p>internacionais e sociedade civil possam planejar sua atividade e tomar providências para</p><p>promover e fortalecer uma cultura de paz” (VON, 2014, p. 13). A 53/243 - Declaração e</p><p>Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz foi concebida no ano de 1999, vários artigos</p><p>foram formulados para a busca de uma sociedade com bases na Cultura da paz. A seguir,</p><p>citamos o Artigo 1º da Declaração 53/243 - Uma Cultura de Paz é um conjunto de valores,</p><p>atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados:</p><p>● No respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não-violência</p><p>por meio da educação, do diálogo e da cooperação;</p><p>● No pleno respeito aos princípios de soberania, integridade territorial e indepen-</p><p>dência política dos Estados e de não ingerência nos assuntos que são, essen-</p><p>cialmente, de jurisdição interna dos Estados, em conformidade com a Carta das</p><p>Nações Unidas e o direito internacional;</p><p>● No pleno respeito e na promoção de todos os direitos humanos e liberdades</p><p>fundamentais;</p><p>● No compromisso com a solução pacífica dos conflitos;</p><p>● Nos esforços para satisfazer as necessidades de desenvolvimento e proteção</p><p>do meio-ambiente para as gerações presente e futuras;</p><p>● No respeito e promoção do direito ao desenvolvimento;</p><p>● No respeito e fomento à igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens;</p><p>● No respeito e fomento ao direito de todas as pessoas à liberdade de expressão,</p><p>opinião e informação;</p><p>● Na adesão aos princípios de liberdade, justiça, democracia, tolerância, solida-</p><p>riedade, cooperação, pluralismo, diversidade cultural, diálogo e entendimento</p><p>em todos os níveis da sociedade e entre as nações;</p><p>A busca pela cultura da paz é uma ação constante, para muitos é considerada</p><p>impossível, mas assim como a violência é apresentada em variadas feições, as iniciativas de</p><p>paz também devem estabelecer e criar espaços de ações múltiplas e transformadoras. Isso</p><p>significa que a paz é uma prática cultural que necessita ser aprendida, cultivada e ensinada.</p><p>REFLITA</p><p>O mundo está dominado por uma cultura de guerra e de violência: é preciso transformá-</p><p>la numa cultura de paz.</p><p>(Frederico Mayor)</p><p>72UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>2. O PODER DO DIÁLOGO</p><p>Vimos no tópico anterior, as diversas pautas das Nações Unidas, com o intuito de</p><p>promoção da paz. Um ponto a ser considerado é que é impossível desconhecer a respon-</p><p>sabilidade das religiões na atual dinâmica de conflito contemporânea, que ocorre justa-</p><p>mente em razão da desconfiguração ou abuso teórico e prático. Esse terreno é propício à</p><p>intolerância, com a fomentação de verdades absolutas, ortodoxias e proselitismos, o que</p><p>contraria o valor de humanismo que as religiões significam (TEIXEIRA, 2003). Há de se</p><p>ponderar que a alternativa mais eficaz para concepções que advogam o fundamentalismo</p><p>é o diálogo intercultural.</p><p>FIGURA 2: GUERRA NO AFEGANISTÃO EM 2021, GRUPO EXTREMISTA – TALIBÃ- TOMA O PODER</p><p>Fonte:https://br.sputniknews.com/20210726/eua-gastaram-trilhoes-em-guerras-no-iraque-e-afeganistao-e-</p><p>-nao-alcancaram-nada-diz-ex-agente-da-cia-17823538.html</p><p>73UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Sobre o fundamentalismo, José Araújo de Lima (2011, p.97) aponta o seguinte:</p><p>Embora um fundamentalista seja todo aquele que na religião atém-se (inflexível ou</p><p>intransigentemente) a um texto sagrado assumido por infalível e autoritativo como</p><p>fundamento único de seus pensamentos (crença) e conduta (prática), tal autoridade do</p><p>texto sagrado não se dará [...] em todos os campos de sua vida social. [...]</p><p>Na modernidade tardia contemporânea, as pessoas são (ou poder ser), além de adeptas</p><p>de uma religião, adeptas de outros vários grupos de adesão difusa e experienciam diversas</p><p>redes de sociabilidade nas e por meio das várias instituições sociais da modernidade. Não</p><p>existe a suposta “adesão subjetiva total” na modernidade, todos os sujeitos encontram-</p><p>se dispersos, submersos em diversos grupos e instituições de “lógicas” não somente</p><p>concorrentes como também contraditórias. Das diversas lógicas, conflitantes e em disputa,</p><p>das instituições e grupos com os quais os sujeitos se relacionam, eles elaboram a sua</p><p>síntese pessoal por meio da qual definem a sua situação no “mundo da vida”.</p><p>A busca por uma cultura da paz não é algo simples, o conhecimento sobre a di-</p><p>ferença, o desenvolvimento de uma cultura pluralista, o contato com o diferente envolve</p><p>principalmente conflito e estranhamento.</p><p>Todavia, tal como ressalta Joana Viana Lopes e Filipe Avillez (2011) é:</p><p>A consciência plural convoca a liberdade e o respeito mútuo como valores na</p><p>base da relação e interação entre os povos, na medida em que evidencia a</p><p>existência não apenas de uma visão e tradição, mas de várias, que devem</p><p>aprender a coexistir pacificamente. Desta forma, vemos que nunca como antes</p><p>foi tão pertinente falar e refletir sobre o diálogo intercultural, questionando as</p><p>formas como se constrói, os objetivos que acompanham o seu desenvolvimen-</p><p>to ou as razões que pautam o seu crescimento. (LOPES; AVILLEZ, 2011, p. 6)</p><p>É necessário pontuar que de forma equivocada se dissemina a ideia de que a</p><p>religião seria o único fator de origem de guerras ou conflitos, isso é uma visão simplista</p><p>desses fenômenos, “formas de fundamentalismo antirreligioso, que perspectivam a religião</p><p>como fonte de discórdia, não considerando seu potencial espiritual e relacional” (LOPES,</p><p>AVILLEZ, 211, p.7). Assim, no que tange a perspectiva para uma cultura de paz e de respeito</p><p>pelos direitos humanos, é que se faz fundamental o diálogo intercultural, é desse âmbito</p><p>que também se enquadra o diálogo inter-religioso.</p><p>A diversidade religiosa é um aspecto cultural, observamos na Unidade III que é um</p><p>tema que está nos documentos oficiais e educacionais do Brasil, e deve ser trabalhada</p><p>na educação, com o intuito de formar cidadãos multiculturais e superar a discriminação, o</p><p>preconceito, a exclusão e a perseguição religiosa.</p><p>74UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Mesmo em um Estado laico, ainda observamos as dificuldades em aceitar e res-</p><p>peitar a diversidade religiosa no Brasil. E ainda há uma deficiência ao inserir o tema sobre</p><p>religião nas escolas, que é marcada pela tensão entre homogeneização e diversidade</p><p>(TEIXEIRA, 2003).</p><p>Cientes da divergência entre a prática e teoria educacional, como professores</p><p>e futuros professores é necessário partir em direção às perspectivas que contemplem</p><p>a diversidade nas escolas, pois ela é indispensável, para assegurar a igualdade sem</p><p>aniquilar as diferenças.</p><p>O Brasil é um país com diferentes grupos existentes, e essa diversidade se estende</p><p>para as religiões, que fazem parte da cultura humana, presentes em todos os povos e</p><p>em distintas épocas. Assim, há a necessidade de incorporar mais sobre essa temática na</p><p>educação escolar brasileira.</p><p>Embora exista uma diversidade, Teixeira (2003) ressalta que,</p><p>em quase todas as religiões, como fenômenos individuais e sociais, se encon-</p><p>tram as seguintes características: crenças no sobrenatural, no Sagrado (Deus,</p><p>Ser Supremo), os quais são evocados por meio de rituais ou celebrações, (utili-</p><p>zando-se vestimentas, instrumentos, livros sagrados, etc., que são dotados de</p><p>simbolismo, ou seja, de significado religioso), realizadas em lugares Sagrados</p><p>como igrejas, templos, terreiros, mesquitas etc. (TEIXEIRA. 2003, p. 11)</p><p>Considerando que cada religião é peculiar, pois são expressadas por diferentes:</p><p>linguagens; formas de acreditar; celebrações; rezas; de relacionarem-se com a Alteridade;</p><p>de simbolizar a realidade. Assim, não há espaço para uma hierarquização e discriminação,</p><p>“uma vez que as culturas não podem ser comparadas” (TEIXEIRA, 2003, p.11).</p><p>Tal como recorda Teixeira (2003), essa dinâmica de comunicação global, como</p><p>apresentamos na linha do tempo, traz a necessidade do exercício de uma comunicação</p><p>dialógica, que implica necessariamente um deslocamento de fronteiras. A “conversação”</p><p>inter-religiosa é uma realidade possível e fundamental na contemporaneidade, pois ela</p><p>propicia uma abertura à mútua transformação. “Exige ainda a capacidade de reconhecer</p><p>‘semelhanças na diferença”. (TEIXEIRA, 2003, p.23). Assim, estudante, percebemos que</p><p>o diálogo, ou tal como menciona Teixeira sobre a conversão propicia a auto-compreensão,</p><p>é por meio desse método que se constitui um dos mais fundamentais imperativos de manu-</p><p>tenção de sentido para os sujeitos.</p><p>Diante das questões apontadas até o momento apresentamos o quão importante</p><p>é compreender que vivemos em uma sociedade plural e como coexistir com a diferença.</p><p>75UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Enquanto professores e/ou futuros professores diversas situações sensíveis percor-</p><p>rerão as temáticas de suas aulas, e ao considerar que somos tomados por uma influência</p><p>cultural é necessário estarmos atentos aos desafios de ensinar.</p><p>Esse ato deve levar em consideração a diversidade cultural de nossos alunos - de</p><p>forma específica, aqui nos atentamos à religião. Segundo Vilma Tereza Rech (2019, p. 66 e</p><p>67) o professor habilitado em ensino religioso deve aperfeiçoar suas práticas políticas-pe-</p><p>dagógicas em aspectos como:</p><p>- acolher a própria diversidade pela reverência na alteridade;</p><p>- articular e facilitar o diálogo a partir das questões suscitadas nos processos de</p><p>ensino aprendizagem dos educandos;</p><p>- considerar a família e a comunidade religiosa como espaços privilegiados para a</p><p>vivência religiosa e para as opções dos educandos;</p><p>- colocar seu conhecimento e sua experiência pessoal a serviço da dignidade do</p><p>educando, incluindo a questão da liberdade religiosa, subsidiando o no entendimento do</p><p>fenômeno religioso e a sua relação com a pluralidade e especificidades culturais;</p><p>- reconhecer a pluralidade cultural da comunidade onde atuará e assumir a diversi-</p><p>dade nos seus múltiplos aspectos;</p><p>- compreender o fenômeno religioso, como parte do fenômeno humano contextua-</p><p>lizado no espaço e no tempo cultural, social, religioso e noutras dimensões;</p><p>- habilitar-se na capacidade de interpretar o fenômeno religioso, com diferentes lei-</p><p>turas, através das ciências, religião, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, teologia e</p><p>outras áreas de conhecimento;</p><p>- reconhecer as manifestações do fenômeno religioso nas diferentes tradições</p><p>religiosas e suas teologias;</p><p>- analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e manutenção das dife-</p><p>rentes culturas e manifestações sociais dos diferentes grupos religiosos;</p><p>- habilitar-se a ser capaz de diferentes leituras, na perspectiva hermenêutica dos</p><p>textos e narrativas sagradas advindos das diferentes matrizes religiosas presentes na cul-</p><p>tura brasileira (africanas, indígenas, ocidentais e orientais);</p><p>- perceber o sentido da atitude moral, como uma das consequências do fenômeno</p><p>religioso sistematizado pelas tradições religiosas nas diferentes matrizes religiosas e como</p><p>expressão da consciência e resposta pessoal ou comunitária das pessoas envolvidas nos</p><p>respectivos fatos.</p><p>76UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>FIGURA 3: A EDUCAÇÃO CRIA PONTES</p><p>Apresentar uma realidade plural, na qual seja possível o diálogo, inspira a acei-</p><p>tação da diferença, o respeito à liberdade e a consciência de religião. Isso também sig-</p><p>nifica que ter como base o diálogo inter-religioso no ensino pressupõe o reconhecimento</p><p>da integridade da fé dos envolvidos nessa relação. Uma medida essencial para uma</p><p>formação formal e pessoal dos indivíduos, que contribui para uma vivência coletiva mais</p><p>harmoniosa e menos intolerante.</p><p>77UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>3. A ACEITAÇÃO DO OUTRO COMO O SER SEMELHANTE</p><p>Na Unidade II estudamos sobre a necessidade de colocar-se no lugar do outro</p><p>por meio do exercício da alteridade. Um dos mais importantes filósofos da alteridade foi</p><p>Emmanuel Levinas (1906-1995), nascido na Lituânia. Viveu e foi preso durante a Segunda</p><p>Guerra Mundial. Conforme Tonatto et al (2016) as obras de Levinas expressam a memória</p><p>do holocausto, e que o levou em direção ao Outro. Viemos até o momento enfatizando uma</p><p>relação de estranhamento, bem como a busca pelo respeito mútuo. Assim, o pensamento</p><p>levinasiano, identifica que o Outro é infinito, o desconhecido. Para garantir uma a incessante</p><p>busca por satisfação, através das inovações científicas e tecnológicas, do poder, consumo</p><p>e dominação é necessário neutralizar o Outro, por meio da posse:</p><p>A relação com o ser, que atua como ontologia, consiste em neutralizar o ente</p><p>para o compreender ou captar. Não é, portanto, uma relação com o outro</p><p>como tal, mas a redução do Outro ao Mesmo. Tal é a definição da liberdade:</p><p>manter-se contra o outro apesar de toda a relação com o outro, assegurar a</p><p>autarquia de um eu. A tematização e a conceptualização, aliás inseparáveis,</p><p>não são paz com o Outro, mas supressão ou posse do Outro. A posse afirma</p><p>de facto o Outro, mas no seio de uma negação da sua independência. <></p><p>redunda em <> - numa apropriação daquilo que é, numa exploração da reali-</p><p>dade. A ontologia como filosofia primeira é uma filosofia do poder (LEVINAS,</p><p>1980, p. 33 apud TONATTO et al, 2016. p. 7).</p><p>É nesse sentido, que ocorre uma supressão ou posse que transforma o Outro em</p><p>meu, sendo essa uma crítica do autor sobre a relação entre o eu e outrem. Assim, Levinas</p><p>critica o sujeito individualista e aponta a necessidade de se compreender a subjetividade</p><p>diante da diferença. “Ao acolher o Outro, o sujeito passaria a ter uma responsabilidade, inclu-</p><p>sive sobre o conhecimento da diferença, superando a ideia do Outro semelhante a si mesmo”</p><p>(TONATTO et al, 2016, p. 8), ou seja, a ideia de que existe apenas uma forma de ser.</p><p>78UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Visto a importância do reconhecimento do Outro, da pluralidade, a ética da alterida-</p><p>de parte desse reconhecimento do diferente, para então respeitar, não excluir ou agir com</p><p>indiferença diante do outro que se distingue do eu. Essa tomada de consciência é de suma</p><p>importância, quando consideramos as relações de guerra e violência ao longo da história</p><p>da humanidade, e acentuada por experiências de horror como as duas grandes guerras, os</p><p>regimes políticos extremistas, a convicção sobre “povos inferiores”, lançamentos de bomba</p><p>atômica sobre Hiroshima e Nagasaki.</p><p>No ano de 1945 em 26 de junho, líderes políticos das grandes potências vencedoras</p><p>da Segunda Guerra criaram a ONU, a essa organização foi confiada a tarefa de evitar uma</p><p>terceira guerra mundial além de promover a paz entre as nações. Segundo Giuseppe Tosi</p><p>(2004), consideraram que a promoção dos “direitos naturais” do homem fosse a condição</p><p>sine qua non (indispensável) para uma paz duradoura.</p><p>FIGURA 4: CRIANÇAS LENDO A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS</p><p>(DUDH), POUCO APÓS SUA ADOÇÃO</p><p>Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/91601-declaracao-universal-dos-direitos-humanos</p><p>Uma das primeiras ações da Assembleia Geral das Nações Unidas foi a procla-</p><p>mação, em 10 de dezembro de 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos,</p><p>cujo primeiro artigo é: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e em</p><p>direitos. São dotadas de razão e de consciência e devem agir em relação umas às outras</p><p>com espírito de fraternidade”.</p><p>79UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Conforme Tosi (2004), “A declaração não esconde, desde o seu primeiro artigo,</p><p>a referência e a homenagem à tradição dos direitos naturais: ‘Todas as pessoas nascem</p><p>livres e iguais’”. Mesmo com as contradições que envolvem a extensão real dos indivíduos</p><p>contemplados pelos direitos humanos, a Declaração é um importante acontecimento na</p><p>busca de proporcionar a dignidade humana, e ainda de diálogo entre as nações.</p><p>Lembremos, que somos seres dotados de sentimentos, choramos e rimos e tal</p><p>como enfatizamos na Unidade II por meio de Morin todos temos uma cultura, a cultura nos</p><p>assemelha ao outro – reforçamos que ela é plural - . Através dela criamos nossas identi-</p><p>dades, crenças, ideias, hábitos e costumes das quais buscamos respeito e compreensão.</p><p>O que é realizado essencialmente por uma recíproca, que se instaura entre dois pólos</p><p>de relação: o eu e os outros. Pressupõe sempre uma semelhança e uma diferença, uma</p><p>identidade e uma alteridade. [...] quando se reconhece o outro como sujeito portador de</p><p>uma liberdade e dignidade fundamentais”. (TEIXEIRA, 2003, p. 25).</p><p>80UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>4. UM MUNDO EM PAZ</p><p>Ilustre estudante, chegamos ao último tópico da Unidade IV, aqui estudaremos</p><p>meios de promover a cultura da paz, para vivermos em um mundo em paz. Viemos até o</p><p>momento demonstrando, como a cultura da paz só poderá ser promovida por intermédio do</p><p>diálogo. E é necessário perceber que esse método não é e nem deve ser apenas de caráter</p><p>institucional, ou de grandes organizações, entidades e personalidades, esse (o diálogo)</p><p>é uma ação cotidiana e deve ser responsabilidade de todos, como aponta o Artigo 8º da</p><p>Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz:</p><p>Desempenham papel-chave na promoção de uma Cultura de Paz os pais,</p><p>os professores, os políticos, os jornalistas, os órgãos e grupos religiosos,</p><p>os intelectuais, os que realizam atividades científicas, filosóficas, criativas e</p><p>artísticas, os trabalhadores em saúde e de atividades humanitárias, os traba-</p><p>lhadores sociais, os que exercem funções diretivas nos diversos níveis, bem</p><p>como as organizações não-governamentais (NAÇÕES UNIDAS, 1999).</p><p>Das formas que o diálogo inter-religioso pode promover a cultura da paz, antes</p><p>de mais nada, não se trata de comparar religiões; menos ainda de comparar doutrinas</p><p>religiosas. Para Francisco de Aquino Júnior (2012) trata-se de ver até que ponto e em que</p><p>medida as diferentes religiões, com seus ritos, símbolos, práticas, valores, suas doutrinas,</p><p>seu potencial humanizador e/ou opressor podem agir em interação e ser fermento de uma</p><p>cultura de paz. O autor enfatiza que é necessário atentar-se aos pobres, oprimidos, os</p><p>excluídos e fracos para se atingir</p><p>há um longo</p><p>caminho para garantir o respeito às práticas religiosas que se distinguem das cristãs.</p><p>Nesta Unidade também perceberemos como a religião é uma temática importante</p><p>na Educação.</p><p>Por fim, na Unidade IV nos debruçamos para compreender quais os passos que</p><p>podemos seguir para promover uma Cultura da Paz, e o que significa uma Cultura da Paz.</p><p>Desde modo, a educação e o diálogo inter-religioso serão apresentados enquanto proposta</p><p>que possibilite a formação de uma sociedade da paz.</p><p>Esperamos que essa jornada seja repleta de aprendizagem e que o material possi-</p><p>bilite o seu crescimento pessoal e profissional.</p><p>Muito obrigado e ótimos estudos!</p><p>SUMÁRIO</p><p>UNIDADE I ...................................................................................................... 4</p><p>Ecumenismo: O que é?</p><p>UNIDADE II ................................................................................................... 27</p><p>Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>UNIDADE III .................................................................................................. 47</p><p>Teoria Ecumênica e a Prática Cotidiana</p><p>UNIDADE IV .................................................................................................. 66</p><p>Diálogo Inter-Religioso</p><p>4</p><p>Plano de Estudo:</p><p>● Conceito de Ecumenismo;</p><p>● História do Movimento ecumênico;</p><p>● Representação do Ecumenismo pelo mundo;</p><p>● O ecumenismo como sinônimo de paz.</p><p>.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>● Conceituar e contextualizar ecumenismo;</p><p>● Compreender os tipos de ecumenismo;</p><p>● Estabelecer a importância do movimento para a acepção</p><p>de paz entre os diversos grupos étnicos.</p><p>UNIDADE I</p><p>Ecumenismo: O que é?</p><p>Professora Ma. Laís Azevedo Fialho</p><p>Professora Ma. Mariane R. Emerenciano da Silva</p><p>Professor Me. Leonardo Henrique Luiz</p><p>5UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Olá, estudante da disciplina “Ecumenismo e Diálogo inter-religioso”. Sabemos que</p><p>a religião é uma instituição importante para a maioria da população mundial, com apenas</p><p>uma minoria de 15% declarados como sem identificação religiosa. Podemos afirmar que o</p><p>ecumenismo foi desenvolvendo ferramentas de aproximação que há mais coisas que unem</p><p>os seres humanos, ou leva a reflexão dos motivos que levam os conflitos entre esses.</p><p>Talvez, você já ouviu a frase de Hans Küng que diz o seguinte: “Não há sobrevivência</p><p>sem uma ética mundial. Não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. Sem paz</p><p>entre as religiões não haverá diálogo entre as religiões” (KÜNG apud ZILLES, 2007, p.224).</p><p>Assim, ficamos felizes em compartilhar com você esse conteúdo que foi produzido pensando</p><p>unicamente no seu processo de formação.</p><p>Aqui, pensaremos a importância do movimento ecumênico e do diálogo inter-</p><p>religioso em nossa sociedade contemporânea, pois esse movimento foi significativo na</p><p>construção do diálogo e da convivência entre opostos. Desse modo, é um campo de grande</p><p>importância para as áreas da Teologia e da Ciência da Religião.</p><p>Nesta jornada, apresentaremos o conceito de ecumenismo, a sua constituição por</p><p>meio da confissão cristã, bem como as tensões e crises desse movimento. Além disso, o</p><p>movimento ecumênico colaborou na formulação de uma teologia/filosofia da alteridade, e</p><p>apesar dos conflitos que são presentes ao longo da história do movimento, ele colabora</p><p>para a concepção de um mundo mais justo, igualitário e pacífico.</p><p>Desejamos bons Estudos!</p><p>6UNIDADE I Ecumenismo: O que é?UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>1. CONCEITO DE ECUMENISMO</p><p>A palavra “ecumênico”, é antiga, vem do termo grego oikoumene, que está</p><p>relacionada com questões referentes à morada, ao assentamento e à permanência.</p><p>(DIAS, 1998, p. 131):</p><p>Inicialmente na Grécia Clássica os escritores gregos utilizavam o termo para</p><p>opor a realidade do mundo grego ao espaço onde os habitantes não eram conhecidos.</p><p>A partir das conquistas de Alexandre Magno, que estende a oikoumene grega (o mundo</p><p>helenizado) do Mar Egeu às margens do rio Indo, o conceito passa a ser usado num</p><p>sentido geográfico. Posteriormente,</p><p>O processo de helenização iniciado por Alexandre Magno abarca diferen-</p><p>tes povos e culturas, como os egípcios, babilônios, sírios, semitas, cal-</p><p>deus, persas, etc. Nessa diversidade de culturas, impunha-se o estabele-</p><p>cimento de algo que pudesse dar unidade a todas estas nações e povos</p><p>tão diferentes. Surge então o ideal do homem helênico como um elemento</p><p>unificador e totalizante (DIAS, 1998, p. 131).</p><p>Isso trouxe, entre o século III a.C., “o conceito de um indivíduo cosmopolita como</p><p>representante da verdadeira humanidade. Separado de suas raízes locais, pode chegar a</p><p>abarcar a totalidade do universo”. E no surgimento da “oposição entre helênico e bárbaro,</p><p>entre civilizado e inculto; a princípio o mundo da cultura correspondeu à oikoumene”. (DIAS,</p><p>1998, p. 131). Nesse período, portanto, o ecumenismo adquire um sentido cultural. Após a</p><p>morte de Alexandre e o desmembramento de seu império, o poder grego começa a fragilizar-</p><p>se. Desse modo, o Império Romano impõe seu poder sobre as terras que circundam a bacia</p><p>do Mar Mediterrâneo, e o termo adquiriu uma dimensão política, que deu complementaridade</p><p>à compreensão cultural, helenística, que havia sido dada ao ecumenismo.</p><p>7UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>As perspectivas geográficas, culturais e políticas aparecem no Novo Testamento.</p><p>Sendo empregado em quinze passagens “recuperando em algumas delas o sentido de</p><p>mundo (At. 11.28), de cultura helênica (Rm 10.18; Hb 1.6; Ap 12.9), de Império Romano (Lc</p><p>2.1)”. No que diz respeito à literatura eclesiástica, o termo é introduzido quando o Concílio</p><p>de Constantinopla (381) refere-se ao Concílio de Nicéia (325) como um “concílio ecumêni-</p><p>co” (DIAS, 1998, p. 132). É a partir desse momento que o termo ecumênico designará as</p><p>doutrinas e os usos eclesiais, dotados de uma validade universal em toda a Igreja católica.</p><p>Mas a dimensão religiosa da palavra só vai ganhar realmente sentido a partir do século</p><p>XVII, depois da Reforma Protestante, que ressaltou os conflitos e divisões dos cristãos.</p><p>Observemos a seguinte narrativa de Dias (1998) que inspirado na obra de Lucien Febvre,</p><p>Martinho Lutero: Um destino, Dias (1998, p. 128-129) escreve o seguinte:</p><p>Na noite de 27 de junho de 1538, o grande reformador jantava em Wittemberg</p><p>com seu companheiro de lutas e disputas, o douto mestre Felipe Melanch-</p><p>thon. Os dois homens estavam tristes. Falavam do futuro. Lutero interrogava:</p><p>“Quantos mestres diferentes seguirá o próximo século? A confusão será total.</p><p>Ninguém se deixará governar pela opinião ou a autoridade de outro. Cada</p><p>um procurará ser seu próprio Rabi (mestre): como já é o caso de Osiander,</p><p>de Agrícola. (...) e então quantos escândalos enormes, quantas dissipações!</p><p>O melhor seria que os príncipes, por meio de um Concílio, procurassem pre-</p><p>venir tais males; mas os papistas não aceitariam jamais isto; têm tanto medo</p><p>à luz (...)” Por sua vez, Melanchthon respondia no mesmo tom: “Oh! queira</p><p>Deus que os príncipes e os Estados possam encontrar num Concílio uma</p><p>fórmula de concórdia para a doutrina e as cerimônias, estabelecendo uma</p><p>proibição para ninguém se afastar dela temerariamente, para escândalo do</p><p>próximo. Sim, é três vezes lamentável o rosto de nossa Igreja mascarada sob</p><p>tal capa de debilidades e escândalos!”</p><p>O fragmento ilustra o desejo de uma unidade cristã quebrada. Podemos dizer que</p><p>o desenvolvimento do conceito de “ecumenismo” surge no seio do cristianismo que ao estar</p><p>fragmentado em confissões distintas, desejavam restabelecer a unidade quebrada (FRANCO,</p><p>2007, p.11). É necessário lembrar, que ao se tratar de manifestações humanas, organização</p><p>de ideias, hábitos e costumes há de se lembrar que estas não surgem de uma hora para</p><p>outra, o mesmo podemos dizer sobre a consciência ecumênica. Desse modo, o ecumenismo</p><p>é definido pelos indivíduos enquanto vivem sua própria história (DIAS A. C., 2007, p.13).</p><p>Isso significa que ao longo do tempo a ideia de ecumenismo passou por novas ela-</p><p>uma cultura da paz. Os critérios citados se relacionam</p><p>com todas as tradições religiosas. As religiões, em geral, são particularmente sensíveis às</p><p>situações de sofrimento e injustiça (AQUINO JÚNIOR, 2012, p. 373).</p><p>81UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>As mudanças culturais para uma ética da paz possuem uma relação entre o diálogo</p><p>e aprendizagem, ou seja, a alteração de um status quo só é possível por meio da educação,</p><p>daí a grande importância dos políticos, dos pais e professores. Fisas (2011) ao recorrer</p><p>a Jacques Delors que organiza quatro formas de aprendizagens, que norteiam enquanto</p><p>eixos para educação para a paz:</p><p>1. Aprender a conhecer, isto é, adquirir os instrumentos da compreensão</p><p>2. Aprender a fazer, para poder atuar sobre o entorno</p><p>3. Aprender a viver juntos, para participar e cooperar com os demais em todas as</p><p>atividades humanas</p><p>4. Aprender a ser, essa está relacionada às três aprendizagens anteriores.</p><p>FIGURA 5: CAPA DO LIVRO ESCREVER A PAZ DE ERIC CATTELAIN</p><p>Fonte: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000366734</p><p>A educação para a paz também significa educar para a indignação, a desobediên-</p><p>cia responsável, a eleição com o conhecimento e a crítica. Nesse sentido, significa analisar</p><p>esse mundo por uma crítica reflexiva que emanada dos próprios valores de cosmovisão</p><p>pacifista e lançar aos indivíduos um compromisso transformador, procurando, assim, a</p><p>emancipação de todos os seres humanos e de si mesmos (FISAS, 2011)</p><p>82UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>Para Fisas (2011, p.6) a educação é, sem dúvida, um instrumento crucial da</p><p>transformação social e política. É através da educação que podemos introduzir de forma</p><p>generalizada os valores, ferramentas e conhecimentos que formam bases de respeito pela</p><p>paz, pelos direitos humanos e a democracia, pois é ela um importante meio de eliminar a</p><p>ignorância, estereótipos, imagens de inimigos e ao mesmo tempo promover as ideias de</p><p>paz e respeito.</p><p>Diante das questões apontadas até o momento a seguir propomos alguns aponta-</p><p>mentos que podem ser trabalhadas nas escolas (VON, 2014, p.18):</p><p>- Promover atividades em grupo: a cooperação e o debate promovem o respeito</p><p>por opiniões diferentes, incentivam a discussão como forma de encontrar soluções para</p><p>problemas comuns e desenvolvem o espírito crítico e aberto.</p><p>- Dar poder de decisão aos estudantes: poder tomar decisões em grupo e assumir</p><p>suas consequências é um exercício de democracia que envolve proposição, deliberação,</p><p>ação, responsabilidade e justiça. A participação na elaboração das normas faz com que os</p><p>alunos estudantes se sintam livres para segui-las, diminuindo a sensação de que as regras</p><p>são impostas e melhorando a disciplina.</p><p>-Estimular a pesquisa: descobrir organizações locais e internacionais que trabalham</p><p>pelo bem comum e estar atualizado quanto à realidade mundial formam uma mentalidade</p><p>internacional, uma visão planetária e um sentimento humanitário.</p><p>- Promover a revisão dos currículos e dos materiais didáticos: qualquer mudança</p><p>exige tempo, mas a escola deve estar atenta quanto aos livros adotados, observando even-</p><p>tual forma de racismo, xenofobia, etc em seu conteúdo.</p><p>Por fim, tal como a Unesco propõe, a educação para paz e contra as concepções</p><p>de violência deve ser uma atitude que permeia a prática de ensino. As escolas devem dar</p><p>lugar ao diálogo e à partilha, tornando-se em um centro para vida cívica na comunidade.</p><p>83UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Na Unidade IV, Diálogo Inter-religioso observamos que a Cultura da Violência é</p><p>institucionalizada e normatizada, entretanto, novas concepções são trazidas à superfície,</p><p>principalmente após as Guerras Mundiais, desse modo, a ONU é criada em 1948, com o</p><p>intuído de evitar uma terceira guerra, e desenvolver ações que promovam a paz e a união</p><p>entre as distintas nações. Na atual conjuntura, pode dizer que a paz não é a ausência de</p><p>guerras, ela tem a ver com a busca pelo evitar e reduzir todo e qualquer tipo de violência, é</p><p>a habilidade de transformar os conflitos para que em vez de se ter uma expressão violenta e</p><p>destrutivas, possa se ter oportunidades de encontro comunicação e troca. Assim, devemos</p><p>lembrar que se para muito a Cultura da Paz é uma utopia, ela deve criar e ocupar os</p><p>espaços de ações múltiplas, pois como vimos a cultura não é algo imutável.</p><p>Ao considerar que a religião é uma expressão importante da cultura, que explica,</p><p>significa a realidade e costumes, percebemos que ela é um caminho expressivo para ma-</p><p>nutenção da paz. O diálogo inter-religioso que se faz no âmbito do diálogo multicultural é</p><p>fundamental para a transformação social, pois capacita o reconhecimento de semelhanças</p><p>na diferença, e reconhece a integridade da fé do outro. Vimos também que o principal</p><p>caminho para a paz é a educação, assim, trouxemos reflexões sobre a responsabilidade do</p><p>professor ao lidar com o pluralismo nas escolas, a importância de ser mediador do diálogo.</p><p>Esperamos que nossa discussão tenha ampliado sua percepção sobre o quão importante</p><p>é o diálogo inter-religioso para nossa sociedade.</p><p>Obrigado!</p><p>84UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>● ALMEIDA, Nadi Maria de; DIETRICH, Luiz José. Missão e diálogo inter-religioso:</p><p>desafios teológicos e avanços no diálogo inter-religioso com as religiões tradicionais africa-</p><p>nas. Revista Brasileira de Diálogo Ecumêncio e Inter-religioso, v.7, n.10. 2019.</p><p>O artigo pretende fazer uma abordagem teológico-pastoral da missão e do diálogo</p><p>inter-religioso com as religiões tradicionais africanas a partir de estudos bibliográficos de</p><p>teólogos pesquisadores que escrevem sobre o assunto. O trabalho tem três partes. A primei-</p><p>ra parte apresenta os desafios teológicos do diálogo inter-religioso. A segunda parte enfoca</p><p>a teologia cristã das religiões tradicionais africanas e a última parte aborda a teologia cristã</p><p>do pluralismo religioso com as religiões tradicionais africanas. O estudo pretende mostrar os</p><p>desafios e avanços teológicos da missão e do diálogo inter-religioso entre o cristianismo e</p><p>as religiões tradicionais na África que são obtidos não apenas do mundo abstrato dos livros,</p><p>mas especialmente a partir da inserção na realidade do povo e das religiões tradicionais.</p><p>Somente a partir da experiência se pode considerar os pontos de convergências e apreciar</p><p>a grandeza de Deus que se faz presente em todas as culturas e religiões.</p><p>● MILANI, Feizi M; JESUS, Rita de Cássia D, Pereira de. Cultura de paz: estraté-</p><p>gias, mapas e bússolas. – Salvador: INPAZ, 2003.</p><p>Solidariedade, participação comunitária, companheirismo, protagonismo juvenil e</p><p>respeito aos direitos humanos são os ingredientes básicos para uma receita de sucesso</p><p>que contribui na construção de uma cultura de paz e não-violência dentro das escolas.</p><p>Partindo desses princípios, em razão de uma iniciativa da própria sociedade, o Governo</p><p>Federal criou o Programa Nacional Paz nas Escolas, da Secretaria Especial dos Direitos</p><p>Humanos da Presidência da República, com a participação do Ministério da Educação.</p><p>85UNIDADE IV Diálogo Inter-Religioso</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título: A arte de Viver em Paz</p><p>Autor: Pierre Weil.</p><p>Editora: Gente.</p><p>Sinopse: Durante os quase sessenta anos de existência da</p><p>Organização das Nações Unidas, e mais particularmente da</p><p>Unesco, inúmeras pesquisas foram feitas sobre as origens da</p><p>guerra e os meios para estabelecer a paz no mundo. Inspirada</p><p>nessas conclusões e nos trabalhos de órgãos internacionais,</p><p>uma pedagogia da paz está em plena gestação. Em todo o lugar,</p><p>há educadores, cientistas. Trata-se de um livro publicado pela</p><p>UNESCO e divulgado em seus diferentes idiomas. Esse livro está</p><p>disponível em pdf, gratuitamente, no site <unipazdf.org.br>.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: Gandhi</p><p>Ano: 1982</p><p>Sinopse: África do Sul, 1893. Após ser expulso da 1ª classe de um</p><p>trem, o jovem e idealista</p><p>advogado indiano Mohandas Karamchand</p><p>Gandhi (Ben Kingsley) inicia um processo de auto-avaliação da</p><p>condição da Índia, que na época era uma colônia britânica, e seus</p><p>súditos ao redor do planeta. Já na Índia, através de manifestações</p><p>enérgicas, mas não-violentas, atraiu para si a atenção do mundo</p><p>ao se colocar como líder espiritual de hindus e muçulmanos.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: O que é Fundamentalismo</p><p>Ano: 2020</p><p>Sinopse: Para saber mais sobre a história do fundamentalismo.</p><p>Link: https://www.youtube.com/watch?v=oz_oY7fzHGM</p><p>86</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AQUINO JÚNIOR, Francisco de. Diálogo inter-religioso por uma cultura de paz.</p><p>Teocomunicação. Porto Alegre v.42 p.359-375 jul/dez.2012</p><p>BOURDIEU, Pierre; CHARTIER, Roger. O Sociólogo e o Historiador. Belo Horizonte:</p><p>Autêntica, 2012.</p><p>BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília,</p><p>DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.</p><p>BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito</p><p>de raça ou de cor. Brasília, DF, 1989.</p><p>BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da</p><p>Educação Nacional, LDB. Brasília, DF, 1996.</p><p>BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017.</p><p>CALVANI, Carlos Eduardo B. Protestantismo liberal, ecumênico, revolucionário e pluralista</p><p>no Brasil - um projeto que ainda não se extinguiu. Horizonte, v.13, n.40, p.1896-1926,</p><p>2015.</p><p>CARDOSO, William. Cresce registro de crimes de intolerância religiosa em São Paulo.</p><p>Jornal Agora, São Paulo, 19 de ago. 2019. Disponível em: https://agora.folha.uol.com.br/</p><p>sao-paulo/2019/08/cresce-registro-de-crimes-de-intolerancia-religiosa-na-capital.shtml.</p><p>Acesso em: 16 de ago. de 2021.</p><p>CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Nostra aetate: sobre a relação da Igreja com as</p><p>religiões não-cristãs. Editora Paulinas: 2007.</p><p>CUNHA, Magali do Nascimento. “Quero Trazer à Memória o que me Traz Esperança.</p><p>Movimento Ecumênico”: Avaliação e Perspectivas. Numen: revista de estudo e pesquisa</p><p>da religião, Juiz de Fora, v.13, n.1 e 2, p.103-135. 2010.</p><p>DA PIEVE, Maria da Graça Prediger. Docência E Alteridade. Revista do Seminário de</p><p>Educação de Cruz Alta - RS, [S.l.], v. 2, n. 1, p. 17-20, dec. 2014. ISSN 2595-1386.</p><p>Disponível em: <http://www.exatasnaweb.com.br/revista/index.php/anais/article/view/41>.</p><p>Acesso em: 03 aug. 2021.</p><p>87</p><p>DIAS, Agemir de Carvalho. O movimento Ecumênico no Brasil (1954-1994): a serviço da</p><p>Igreja e dos movimentos populares. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em</p><p>História, Universidade Federal do Paraná. Curitiba. 291 p. 2007.</p><p>DIAS, Zwiaglio M. O movimento Ecumênico: História e Significado. Numen: Revista de</p><p>estudo e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v.1, n,1 p,127-163. 1998.</p><p>DIAS, Zwinglio Mota. Sobre os empenhos ecumênicos na promoção e defesa dos direitos</p><p>humanos. 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Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do</p><p>Sul. Porto Alegre 2009</p><p>RIBEIRO, Cláudio de Oliveira. Religiões e paz: Perspectivas teológicas para uma</p><p>aproximação ecumênica das religiões. Horizonte, v.10, n.27, p.917-936, 2012.</p><p>SINNER, Rudolf von. “Felizes o que promovem a paz” (Mt 5,9) a contribuição do</p><p>ecumenismo para uma cultura da paz. Encontros Teológicos, n.40, p.5-24, 2005.</p><p>SMITH, Wilfred Cantwell. La religion comparada: ¿Donde y por que? In: Metologia de la</p><p>historia de las religiones. Mircea Eiade; Joseph M, Kitagawa (org). Trad, Saad Chedid e</p><p>Eduardo Masullo, Buenos Aires: Paidós, 1967, p.53 – 85.</p><p>SOUZA, Carlos Frederico Barbosa de. A Conferência Episcocal de Medellín: inspiração</p><p>para uma mística latino-americana e caribenha. Horizonte, v. 16, n. 50, p. 698-728, 2018.</p><p>TEEUWEN, Mark; BREEN, John. A New History of Shinto. Oxford: Wiley-Blackwell, 2010.</p><p>TEIXEIRA, Faustino. 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As religiões são importantes manifestações culturais, e</p><p>no decorrer do material percebemos que elas podem colaborar para uma união na diversidade.</p><p>Buscamos trazer aspectos históricos do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, o</p><p>que demonstra que não existe nenhuma realidade imutável, e que as ideias e práticas se</p><p>desenvolvem e se modificam conforme as problemáticas, tensões e realidades vivenciadas</p><p>pelas sociedades. Assim, se inicialmente a imposição de valores por meio da violência caso a</p><p>prática do outro fosse diferente era normativo, atualmente são diversas as entidades, organi-</p><p>zações, instituições e indivíduos que procuram promover o respeito, à diversidade religiosa e a</p><p>paz, baseados principalmente na Declaração dos Direitos Humanos, além disso, observamos</p><p>a importância do conceito de alteridade, no processo de compreensão da diferença.</p><p>A necessidade de se refletir a respeito desses movimentos dá-se ao pensarmos sobre</p><p>o contato entre as distintas nações. A globalização tem como uma de suas características</p><p>a pluralidade, todavia, esse processo trouxe também diversos conflitos, intolerâncias e</p><p>violências devastadoras para a humanidade. Desse modo, apontamos que o combate à</p><p>intolerância e a violência se faz na prática, no cotidiano. A religião tem muito a contribuir,</p><p>pois ela ultrapassa as fronteiras do privado e também atua no espaço público, ela regula</p><p>a realidade. O que é possível perceber em ambientes como o espaço escolar, que tem a</p><p>religião como tema demasiadamente debatido. As escolas são locais importantes para a</p><p>abertura ao diálogo inter-religioso, e na promoção de uma Cultura da Paz.</p><p>A partir de agora, acreditamos que você já esteja inserido suficientemente no tema</p><p>sobre a importância do diálogo inter-religioso em nossa sociedade. E esperamos que possa</p><p>desenvolver suas habilidades e valores da cultura da paz, do respeito tanto profissionalmen-</p><p>te quanto pessoalmente. Não esqueça, a fé e crença de todas as denominações religiosas</p><p>merecem respeito.</p><p>Até a próxima oportunidade. Nosso muito obrigado!</p><p>+55 (44) 3045 9898</p><p>Rua Getúlio Vargas, 333 - Centro</p><p>CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR</p><p>www.unifatecie.edu.br</p><p>UNIDADE I</p><p>Ecumenismo: O que é?</p><p>UNIDADE II</p><p>Unidade na Diversidade:</p><p>Desafios e Perspectivas</p><p>UNIDADE III</p><p>Teoria Ecumênica e</p><p>a Prática Cotidiana</p><p>UNIDADE IV</p><p>Diálogo Inter-Religioso</p><p>borações e concepções. Nesse sentido, Dias (2007), aponta que há graus de ecumenismo,</p><p>dos quais citamos os seguintes (DIAS A. C., 2007, p.14):</p><p>- No sentido restrito, podemos pensar na busca da unidade entre as diversas</p><p>denominações advindas da Reforma Protestante, no Brasil genericamente chamadas de</p><p>evangélicas;</p><p>8UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>- Também temos as organizações que incluíram a participação de outros cristãos</p><p>além dos protestantes, como os católicos romanos e ortodoxos;</p><p>- E por fim as organizações que se desvincularam de uma relação eclesial, mas que</p><p>promovem o ideal ecumênico de unidade.</p><p>Assim, há o entendimento do movimento ecumênico, no qual “todas as instituições</p><p>que de alguma forma procuram promover a unidade dos cristãos” (DIAS, 2018, p. 14). E o</p><p>que atualmente se impõe com maior plausibilidade, como ressalta Faustino Teixeira (2003),</p><p>A perspectiva de um ecumenismo planetário, que retoma o sentido mesmo do</p><p>termo “Ecumene”, ou seja, “toda a terra habitada”. Trata-se de assumir uma</p><p>nova consciência macroecumênica, da profunda unidade de toda a família</p><p>humana, capaz de pensar e trabalhar uma perspectiva singular de entrela-</p><p>çamento global, de mútuo enriquecimento e cooperação entre as culturas e</p><p>religiões em favor da afirmação de vida no mundo (TEIXEIRA, 2003, p. 24).</p><p>Ao considerar, que a organização do conceito de ecumenismo perpassa o</p><p>cristianismo, não é estranho pensarmos que,</p><p>A proposta macroecumênica e do diálogo inter-religioso encontra dificuldades</p><p>em determinados setores tanto da intelectualidade como das igrejas. Por ra-</p><p>zões distintas não se consegue vislumbrar o seu valor singular. Para alguns,</p><p>esse diálogo não passa de mera estratégia mercadológica, para “racionalizar</p><p>a própria competição na situação pluralista” [...]. Outros tendem a entender</p><p>esse processo como exigência estratégica de alargar as malhas da atuação</p><p>ética e relacional da Igreja católica em face da crise da eclesialidade eurocên-</p><p>trica e do vazio aberto com o ocaso do socialismo [...]. Em nível mais interno</p><p>da Igreja católica, outras questões são levantadas. Aponta-se, sobretudo, o</p><p>temor de que o diálogo inter-religioso acabe por esvaziar ou enfraquecer a</p><p>tônica missionária da Igreja, acentuando um indiferentismo religioso e um</p><p>relativismo problemático. (TEIXEIRA, 2003, p.24).</p><p>Mesmo as considerações sobre as táticas de aceitação desses movimentos inter-</p><p>religiosos e ecumênicos. Não podemos esquecer que as tentativas de manter uma relação</p><p>de diálogo e paz entre as religiões consiste em um requisito essencial entre as nações.</p><p>Conforme Teixeira (2003, p.25), “O verdadeiro diálogo inter-religioso deve ser globalmente</p><p>responsável e não pode admitir a continuidade do arbítrio, da violência e o sofrimento injusto</p><p>entre os seres humanos.</p><p>9UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>2. HISTÓRIA DO MOVIMENTO ECUMÊNICO</p><p>Para falar sobre o ponto de partida do movimento ecumênico, atentemo-nos às</p><p>missões protestantes e movimento leigo, ambos contribuem significativamente para o de-</p><p>senvolvimento e origem do movimento ecumênico (MENDONÇA, 2008). Assim, caro (a)</p><p>estudante, fique atento, pois estaremos a discorrer sobre um ecumenismo que visa uma</p><p>maior unidade cristã.</p><p>O movimento ecumênico chamado “moderno”, tem raízes nos movimentos de</p><p>diálogo e associação de igrejas e grupos cristãos, marcado pela expansão missionária</p><p>protestante no final do século XVIII até o século XX. (CUNHA, 2010) Isso não significa</p><p>que não houve anteriormente um desejo de unidade da Igreja de Cristo, como podemos</p><p>observar com a breve narrativa de Dias (1998)</p><p>FIGURA 1: SÍMBOLO QUE REPRESENTA O ECUMENISMO CRISTÃO</p><p>Fonte: https://www.nev.it/nev/2015/09/07/cose-il-cec/</p><p>10UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Segundo Mendonça (2008) desde o início das missões protestantes foi sentida</p><p>a necessidade de colaboração entre as diversas corporações eclesiásticas para levar a</p><p>mensagem cristã para os distintos lugares. Assim, William Carey, considerado fundador</p><p>das missões protestantes modernas, incentivou desde o começo a cooperação entre os</p><p>cristãos no campo missionário.</p><p>O movimento missionário levou os clérigos à formação de sociedades missioná-</p><p>rias interdenominacionais, como a Sociedade Missionária de Londres (1795) - a primeira</p><p>manifestação “ecumênica” protestante -, a Sociedade de Tratados Religiosos (1799), a</p><p>Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804), a Sociedade Bíblica Americana (1816), a</p><p>Sociedade Americana de Tratados (1825), e assim por diante.</p><p>Não podemos deixar de ressaltar que as missões, apesar de constituírem forte</p><p>elemento de aproximação das igrejas, concentraram suas forças,</p><p>Na mensagem conversionista “evangelical”, mas foram organizando os</p><p>convertidos em congregações denominacionais, levando para as áreas</p><p>de missão seus conflitos e suas tendências competitivas. Dessa maneira,</p><p>elas não conseguiam levar o cristianismo essencial, mas a denominação.</p><p>(MENDONÇA, 2008, Koinonia [documento online]).</p><p>No que diz respeito aos movimentos leigos, os jovens se destacam. A partir da</p><p>segunda metade do século XIX suas organizações influenciam no ecumenismo. A primeira</p><p>dessas instituições foi a Associação Cristã de Moços (ACM), fundada em Londres (1844),</p><p>por George William (1821-1905), que posteriormente se organizou mundialmente pela</p><p>Aliança Mundial das ACM, em 1855. Ainda podemos citar, o Movimento de Estudantes Vo-</p><p>luntários para Missões Estrangeiras (1886), influenciado por Dwight L. Moody (1837-1899),</p><p>e teve como organizador John R. Mott (1865-1955), um leigo metodista estadunidense, um</p><p>dos principais personagens do movimento ecumênico. Foi a partida da prática do diálogo</p><p>ecumênico no movimento de associações mundiais de jovens, que se atribui o uso, pela</p><p>primeira vez, da palavra “ecumênico” na acepção moderna. (MENDONÇA, 2008).</p><p>Como desdobramento dos processos mencionados acima, e sob o influxo da</p><p>Aliança Evangélica, o movimento ecumênico avançou e teve como marco decisivo o Con-</p><p>ferência de Edimburgo realizado em 1910, no qual abre caminho para a realização de</p><p>outras Conferências que desenvolveram uma teologia da missão e campo da missão. Ali na</p><p>Conferência, foram tratados temas como: a Igreja nos campos missionários; como levar o</p><p>Evangelho ao mundo; país de origem e país-missão; a formação de missionários; missões</p><p>e governos; mensagem missionárias e religiões não-cristãs; e cooperação e promoção da</p><p>unidade (CUNHA, 2010; MENDONÇA, 2008; DIAS, 1998). Nesse momento, o encontro</p><p>foi essencialmente protestante, o convite não se estendeu aos católicos-romanos, nem</p><p>ortodoxos (DIAS, Z., 1988).</p><p>11UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>As igrejas latino-americanas também não foram chamadas para a Conferência.</p><p>Para os promotores da Conferência, a América Latina era considerada um terreno cristão,</p><p>evangelizado pela Igreja Católica Romana. A atitude contrariou os missionários protestantes</p><p>que atuavam no território latino americano. (DIAS, Z., 1998). No ano de 1916, foi realizado</p><p>no Panamá, o Congresso de Obra Cristã na América Latina. Que resultou numa mensagem</p><p>missionária de conversão do catolicismo ao protestantismo.</p><p>A partir da Primeira Guerra Mundial, muitas igrejas do hemisfério norte mostra-</p><p>vam-se preocupadas com a paz e justiça no mundo. Foi fundada em 1914, na Alemanha a</p><p>Aliança Universal para a Amizade Internacional Através das Igrejas. Findada a guerra, foi</p><p>crescente as conferências mundiais sobre restabelecimento de paz e a busca em formular</p><p>uma resposta cristão à situação econômica, social e moral. Foi promovido assim a Confe-</p><p>rência sobre Cristianismo Prático, que deu origem ao Movimento de Vida e Ação, em 1925</p><p>em Estocolmo, na Suécia. Nesse período a Igreja católica declinou o convite que recebeu</p><p>para participar, os ortodoxos por sua vez, se mostraram interessados.</p><p>Ressaltamos ainda, que já no começo do século XX, as Igrejas ortodoxas se</p><p>pronunciaram a favor de uma colaboração com Igrejas não-ortodoxas, isso entre 1902-</p><p>1904 com o Patriarca de Constantinopla. Em 1920, esse Patriarcado, através de uma carta</p><p>de Monsenhor Strenopoulos Germanos, assinada pelos membros do Sínodo, criam a Liga</p><p>das Igrejas, nos moldes da Liga das Nações. Este projeto de convocação das Igrejas cristãs</p><p>num esforço de unidade, também é convocado na abertura do Santo Sínodo da Igreja</p><p>de Constantinopla em janeiro de 1919. Desde então, as Igrejas ortodoxas passaram a</p><p>participar de diferentes atividades junto com os cristãos não-ortodoxos, em 1961 se tornaram</p><p>membros do CMI, que já era integrado pela Igreja anglicana desde 1948. (DIAS, Z., 1998).</p><p>FIGURA 2: AMSTERDAM, HOLANDA, AGOSTO DE 1948, CRIAÇÃO DO CONSELHO</p><p>MUNDIAL DE IGREJAS – CMI</p><p>Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/582145-70-anos-do-conselho-mundial-de-igrejas-cmi</p><p>12UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Com o temor de que houvesse a constituição de uma “super-igreja”, ou a criação</p><p>de um setor que fosse normativo para as Igrejas, em 1938 foi formado um comitê, presidido</p><p>pelo arcebispo William Temple, que preparou bases para a formação do Conselho Ecumê-</p><p>nico de Igrejas. Durante esse período eclode a Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto,</p><p>A Aliança Mundial para a Amizade Internacional Através das Igrejas juntou-se</p><p>aos dois movimentos. Em 1946 foi fundado o Instituto Ecumênico de Bossey</p><p>(Genebra, Suíça). No dia 23 de agosto de 1948, os três movimentos reuniram-</p><p>-se em assembleia na cidade de Amsterdã (Holanda) e decidiram pela criação</p><p>definitiva do CMI, o Conselho Internacional de Missões e o Conselho Mundial</p><p>de Educação Cristã. Em Amsterdã 147 Igrejas Protestantes, Anglicanas e Or-</p><p>todoxas aceitaram reunir-se sob a seguinte base comum: “O Conselho Mundial</p><p>de Igrejas é uma associação fraterna de Igrejas que aceitam nosso Senhor</p><p>Jesus Cristo como Deus e Salvador.” (DIAS, 1998, 140-141, grifo do autor).</p><p>Em 1950, o Comitê Central do CMI ao se reunir em Toronto, no Canadá, elaborou</p><p>uma declaração intitulada A Igreja, as Igrejas e o Conselho Mundial de Igrejas, na qual</p><p>declara que o CMI não é e nem seria uma super-Igreja, isso também significa que ela não</p><p>deveria prejulgar a questão eclesiológica adotada por cada instituição. Foi na Declaração</p><p>de Toronto, que a Igreja católica passou a ter uma tímida colaboração (DIAS, Z., 1998).</p><p>Até aqui, percebemos que o movimento ecumênico foi idealizado e consolidado</p><p>pelos grupos protestantes, posteriormente com adesão dos cristãos ortodoxos. A Igreja</p><p>católica, nesse contexto, se manteve distante destas iniciativas, questão essa somente</p><p>alterada nos anos 60, principalmente com o Concílio Vaticano II (1962-1965), que estava</p><p>inteirado com a criação do Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (1960),</p><p>seguido da publicação do Decreto sobre Ecumenismo Unitatis Reintegratio (1965).</p><p>Em 1989, o Secretariado foi elevado à Categoria de Pontifício Conselho para a Pro-</p><p>moção da Unidade dos Cristãos. (CUNHA, 2010). A partir daí a Igreja católica passa a ser</p><p>membro de vários conselhos e de igrejas e organizações ecumênicas. Apesar de manter</p><p>uma proximidade, a Igreja católica não se tornou membro do CMI. É válido salientar, que os</p><p>segmentos mais tradicionalistas do catolicismo advogam fidelidade ao princípio de “única</p><p>igreja”, e de que essa unidade passa pelo papa, ou seja, são contrários ao ecumenismo. Já</p><p>os segmentos católicos mais abertos ao ecumenismo, ainda busca criar identidade própria,</p><p>e também alimenta uma certa tensão.</p><p>A seguir citamos um trecho de Cunha (2010), que ressalta não apenas a tensão</p><p>criada pelos católicos, sobre o cunho do “macroecumenismo” e o diálogo inter-religioso,</p><p>assim discorre Cunha (2010, p.115) sobre os segmentos católicos mais abertos ao ecu-</p><p>menismo, que,</p><p>13UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>ainda aprendendo desta história, e buscando criar identidade própria nela,</p><p>acabam também alimentando tensões quando defendem compreensões</p><p>de ecumenismo que terminam por minimizar a base da unidade cristã,</p><p>classificando-a indiretamente como “microecumenismo”, desde que foi</p><p>cunhado o termo “macroecumenismo” entre esses grupos para expressar</p><p>uma dimensão considerada mais ampla que inclui o diálogo inter-religioso.</p><p>(CUNHA, 2010, p.115)</p><p>A autora ainda complementa que o termo “macroecumenismo”</p><p>dificilmente entra no vocabulário dos grupos protestantes e ortodoxos, her-</p><p>deiros de Edimburgo e seus desdobramentos, que enxergam o princípio</p><p>ecumênico construído pela história como algo que foi sendo amplificado ao</p><p>longo da história e traz no seu sentido três dimensões: a unidade cristã, a</p><p>promoção da vida e o diálogo inter-religioso como testemunho da fidelidade a</p><p>Cristo. (CUNHA, 2010, p.115)</p><p>Dito isso, e considerando que o movimento ecumênico possui conflitos, crises,</p><p>tensões e a busca por diálogo, podemos concluir que ele está permeado por obstáculos,</p><p>mudanças e “novas” versões das velhas crises. É possível dizer que atualmente, é um dos</p><p>pontos centrais dos cristianismos, que em busca de garantir sua ação do campo religioso</p><p>opta pelo diálogo, pelo respeito e abertura para o outro.</p><p>A diversidade de expressões do movimento passa por grupos cristãos distintos,</p><p>desde aos contextos culturais e eclesiais, aos movimentos de mulheres, de jovens, pelo</p><p>meio ambiente, e encontra dificuldades também de reconhecimento e consolidação, frente</p><p>à expressiva dimensão institucional, considerando o CMI, por exemplo.</p><p>Dentro do movimento ecumênico, ainda há de se pensar que foram centenas</p><p>de projetos, organismos, grupos eclesiásticos e não eclesiásticos, que eram de países</p><p>diferentes, de sexos distintos, idade, etnias, cultura e confissões de fé. Esses partilhavam</p><p>suas ações, com linhas e motivações diversas como: Educação, gênero, teologia, meio-</p><p>ambiente, superação da violência, juventude, saúde, direitos humanos.</p><p>Visto isso, estudantes, recordemos que aqui estivemos a observar o ecumenismo</p><p>entre instituições cristãs. Mesmo que seja um movimento com suas particularidades</p><p>atendo-se majoritariamente a fé cristã, ela desdobra-se nas perspectivas de diálogo inter-</p><p>religioso, alteridade, e o “macroecumenismo”, que nos é muito importante, considerando</p><p>principalmente o processo de globalização e interação entre povos de distintas confissões,</p><p>como os Budismos, Islamismos, Xintoísmos, Hinduísmos, Cristianismos, e principalmente,</p><p>a violência e a intolerância que ocorre nesses encontros étnicos.</p><p>14UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>3. REPRESENTAÇÃO DO ECUMENISMO PELO MUNDO</p><p>Conforme você pôde perceber pela história do movimento ecumênico descrito</p><p>no tópico anterior, parte de sua proposta nasceu dentro do cristianismo principalmen-</p><p>te com o protestantismo. Entretanto, ao longo da história e nas diversas regiões do</p><p>mundo podemos encontrar experiências ecumênicas empreendidas por fiéis das mais</p><p>diversas denominações religiosas existentes. Essas atividades são realizadas tanto por</p><p>meios oficiais das instituições como por iniciativas próprias dos membros pertencentes</p><p>às crenças. Além disso, o ecumenismo pode ser desenvolvido tanto dentro da própria</p><p>denominação religiosa ou para com outras religiões.</p><p>Nesse sentido, diversas religiões que se ramificaram em várias correntes se uniram</p><p>em grandes associações visando a ajuda mútua. Por exemplo, no Brasil, diversas escolas</p><p>budistas de origem japonesa se organizam desde 1958 na Butsuren (Federação das Es-</p><p>colas Budistas do Brasil). Para além das diferenças na experiência religiosa de cada uma</p><p>dessas escolas budistas, elas se juntam para promover apoio às entidades assistenciais,</p><p>a memória dos imigrantes, e a prática da religião no Brasil. Paralelo a esse movimento,</p><p>os adeptos do Budismo realizaram atividades voltadas para o diálogo inter-religioso com</p><p>outras crenças em vários momentos da história. Na década de 1970 temos como exemplo a</p><p>Missão Ecumênica do Brasil (MEB) presidida pelo padre Francisco de Souza e pelo monge</p><p>budista Ricardo Mário Gonçalves, através dessa organização foram publicados</p><p>boletins,</p><p>realizado palestras e demais atividades celebrando o bem comum entre os homens.</p><p>15UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>O caso do Budismo no Brasil acima apresentado é um dos muitos exemplos pos-</p><p>síveis das faces do movimento ecumênico. Conforme mencionado, no meio protestante o</p><p>Movimento Ecumênico Internacional ganhou corpo com a criação em 1948 do Conselho</p><p>Mundial das Igrejas (CMI). Segundo o teólogo Zwinglio Mota Dias (2013), a formação do</p><p>CMI em 1948 é uma expressão significativa do compromisso das Igrejas com a sociedade.</p><p>Nesse mesmo ano foi promulgada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que</p><p>expressa a proteção individual e coletiva dos direitos fundamentais do ser humano. Dessa</p><p>forma, o CMI se propõe a lutar pelas garantias sociais e jurídicas como cerne da promoção</p><p>da vida em Cristo. Fundada por aproximadamente 147 organizações cristãs, atualmente</p><p>conta com mais de 349 Igrejas membros espalhados por todo o mundo. Juntas essas dife-</p><p>rentes denominações buscam o testemunho comum na fé em Cristo e o serviço às pessoas</p><p>necessitadas em prol da justiça e paz.</p><p>Um passo importante dessa história foi a aproximação da Igreja Católica Romana</p><p>com o CMI em 1965. Essa aproximação é fruto do esforço gradativo em observar que</p><p>os elementos de convergências são maiores do que os de divergências em relação às</p><p>outras religiões. No catolicismo, um marco fundamental desse processo foi a realização</p><p>do Concílio Vaticano II (1962-1965). De acordo com Elias Wolff (2011), de Constantino</p><p>no século IV ao Concílio Vaticano II, o catolicismo oficial se afirmou em autossuficiência</p><p>e autoridade de sua estrutura eclesiástica de maneira exclusivista. Dessa forma, partia</p><p>dos princípios de que a Igreja Romana representava a totalidade da fé cristã da qual</p><p>fora de suas estruturas não havia salvação. Essa perspectiva criava um ambiente de</p><p>rejeição às iniciativas ecumênicas, sendo o diálogo pensado em termos de conversão</p><p>para dentro de suas fronteiras.</p><p>Entretanto, esse distanciamento oficial não impediu iniciativas ecumênicas que aos</p><p>poucos penetraram e floresceram no seio da Igreja Católica. Temos como caso emblemáti-</p><p>co a atuação do bispo Angelo Giuseppe Roncalli, que em 1958 se tornaria Papa João XXIII,</p><p>mas que antes mesmo de ser eleito como papa realizou diversas missões de paz com mu-</p><p>çulmanos, minorias católicas, cristãos ortodoxos, contando inclusive com visita ao Patriarca</p><p>de Constantinopla, Basílio III, em 1927. Ao convocar o Concílio Vaticano II, João XXIII,</p><p>garantiu o convite a observadores ortodoxos, protestantes e anglicanos, além da remoção</p><p>das expressões antissemitas na liturgia da Sexta-Feira Santa. Esse empenho transformou</p><p>o Concílio em “[…] um ato ecumênico em si mesmo e não é possível compreendê-lo sem</p><p>considerar esse fato.” (WOLFF, 2011, p. 404).</p><p>16UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Decorrência dessa abertura foi promulgada pelo Papa Paulo VI em 1965 a Nostra</p><p>Aetate. Trata-se de uma declaração sobre a Igreja e as relações com as religiões não-cris-</p><p>tãs. No documento, é ressaltado a união e a caridade entre os homens e povos com vistas</p><p>a formar uma só família com a mesma origem em Deus. Buscando compreender a diversi-</p><p>dade religiosa, no documento é afirmado que as religiões seriam formas de responder aos</p><p>enigmas da condição humana de maneira diversa. Nominalmente o Hinduísmo, Budismo,</p><p>Islamismo e o Judaísmo são citados como diferentes maneiras de se promover a paz,</p><p>justiça social e liberdade não cabendo à Igreja a condenação de tais práticas. De maneira</p><p>mais significativa ainda é argumentado que “A Igreja reprova, por isso, como contrária ao</p><p>espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça</p><p>ou cor, condição ou religião.” (CONCÍLIO, 2007, on-line).</p><p>Essas bases construídas pelo Concílio Vaticano II fomentam até hoje o diálogo</p><p>inter-religioso católico permitindo aproximações diversas. Na América Latina, eventos como</p><p>a Conferência Episcopal de Medellín de 1968, atuaram justamente com base nas premissas</p><p>do Concílio Vaticano II, na formação de um modelo pastoral e espiritual da Igreja Católica.</p><p>De acordo com o cientista da religião Carlos Frederico Barbosa de Souza, Medellín foi além</p><p>do Vaticano II ao conseguir adaptar e transformar a Igreja para a realidade latino-america-</p><p>na. Dialogando com a comunidade cristã católica e não católica, a conferência propôs uma</p><p>concepção espiritual de experiência sagrada que fosse além dos aspectos religiosos como</p><p>a oração, o culto, etc. Foi enfatizado que toda experiência humana (pessoal e comunitária)</p><p>poderia ser diferentes formas de experimentar Deus e que os cristãos devem direcionar</p><p>seus esforços aos sofredores. Tendo como a centralidade em Jesus Cristo como modelo de</p><p>vivência cristã que se doou aos outros.</p><p>A proposta de Medellín era a superação do individualismo no qual</p><p>[…] pede todo esvaziamento das concepções que nascem da exclusão dos</p><p>pobres, sejam os pobres aqueles que são excluídos do poder econômico, se-</p><p>jam os excluídos de relações étnicas e de gênero igualitárias; seja a própria</p><p>natureza, que sofre com os desmandos e o espírito dominador e conquista-</p><p>dor do poder capitalista. (SOUZA, 2018, p. 713).</p><p>Nesse sentido, a denúncia a toda forma de opressão dos sofredores se torna</p><p>basilar para essa perspectiva. Em termos práticos, sua atuação se consolidou com as</p><p>Comunidades Cristãs de Base ou Comunidades Eclesiais de Base. Nessas, os festejos,</p><p>a leitura engajada da Bíblia e a ação de denúncia foram as formas de diálogo da fé com</p><p>a vida real dos sofredores.</p><p>17UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Aliada a essa interpretação teológica católica também podemos apontar a</p><p>atuação das Igrejas protestantes tradicionais, isto é, as Presbiterianas, Metodistas,</p><p>Batistas, Congregacionais, Luteranas e Episcopais-anglicanas, nas décadas de 1930 até</p><p>1970, como geradoras de movimentos ecumênicos envolvidas em causas sociais. Nesse</p><p>período, diversas Igrejas protestantes uniram forças em grupos como a Confederação</p><p>Evangélica do Brasil (CEB) em 1934, a União Latino-Americana de Juventude Evangélica</p><p>(ULAJE) em 1941 e outras que constituem grupos ligados a movimentos sociais e a uma</p><p>teologia da libertação. Dessa atuação surgiram novas gerações de importantes lideranças,</p><p>como Jorge Bertolaso Stella, “[...] um dos pioneiros do que hoje chamamos ‘Ciências da</p><p>Religião’ no Brasil.” (CALVANI, 2015, p. 1906).</p><p>Nesse sentido, o que temos em comum no movimento protestante e católico foi</p><p>a perspectiva bíblico-teológica em favor das condições básicas de existência como for-</p><p>ma de promoção dos direitos humanos. A partir da ideia de que toda pessoa é imagem</p><p>e semelhança de Deus o Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI) atuou com apoio</p><p>do Conselho Mundial de Igrejas na década de 1970 para socorrer vítimas de conflitos, na</p><p>defesa da dignidade humana e no processo de diálogo e pacificação de regiões como</p><p>Nicarágua, El Salvador e Guatemala. No Brasil, o projeto Brasil: Nunca Mais, do Rev. Jaime</p><p>Wright (pastor presbiteriano), D. Paulo Evaristo Arns (arcebispo de São Paulo) e Rabino</p><p>Henry Sobel, no mesmo período, foram formas materiais em que congregações diferentes</p><p>se apoiaram em ajuda aos perseguidos e injustiçados.</p><p>Ainda em âmbito cristão desde 2000 são organizadas, em média a cada cinco</p><p>anos, a Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) congregando diferentes denomina-</p><p>ções cristãs em nome do diálogo nas Igrejas. Na mais recente, realizada em 2021, o tema</p><p>foi “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”. A Campanha da Fraternidade (CF) é</p><p>realizada anualmente, no período quaresmal pela Igreja Católica no Brasil, estabelecida</p><p>pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).</p><p>Além dessas formas institucionais não podemos esquecer das iniciativas indivi-</p><p>duais de lideranças religiosas que se propõem ao diálogo com outras religiões. Nesse</p><p>sentido, podemos citar como exemplo a campanha Copa da</p><p>Paz lançada no Maracanã</p><p>em 2014 por diversas lideranças religiosas: representantes dos católicos, luteranos, islâ-</p><p>micos, candomblecistas, umbandistas, budistas e anglicanos.</p><p>18UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Ou aos encontros entre grandes representantes das diversas religiões, por exem-</p><p>plo, o que ocorreu entre o Papa Francisco e o líder xiita Ali al-Sistani em Bagdá, no ano de</p><p>2021, como forma de socorrer as minorias cristãs no Iraque.</p><p>Ainda nesse mesmo sentido, são importantes as intervenções de líderes contra vio-</p><p>lências às minorias. Por exemplo, em 2013, o Dalai Lama deplorou os ataques de budistas</p><p>contra muçulmanos no Myanmar. Longe de serem clamores e atividades isoladas, essas</p><p>formas de protestos e encontros são importantes representações da preocupação com o</p><p>outro e sua liberdade religiosa. Fausto Teixeira (2003) defende que as vozes das lideranças</p><p>contra os conflitos são pontos fundamentais das ações ecumênicas na vida real, sendo</p><p>o diálogo inter-religioso uma possibilidade da atuação das religiões na construção de um</p><p>mundo sem violência e pela paz.</p><p>19UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>4. ECUMENISMO COMO SINÔNIMO DE PAZ</p><p>Pensar a partir do pressuposto de que o diálogo inter-religioso é uma possibilidade</p><p>para a paz é uma das formas de compreender a importância das religiões no mundo. O</p><p>diálogo entre as crenças só é possível com a abertura mútua, a aceitação do outro, o exercício</p><p>de comunicação e o reconhecimento de semelhanças nas diferentes formas de lidar com o</p><p>sagrado. Isso só é possível por meio do conhecimento das distintas formações religiosas</p><p>presentes em nossa realidade. O teólogo Cláudio de Oliveira Ribeiro propõe a análise de</p><p>diferentes perspectivas teológicas para uma “Teologia ecumênica das religiões”: esta seria</p><p>pautada na preocupação com a paz e justiça. Para o autor, há uma importância pública das</p><p>religiões que está intimamente conectada com a abertura dialogal, pois “O diálogo aumenta</p><p>a capacidade humana de autorrealização e de realização do outro.” (RIBEIRO, 2012, p. 927).</p><p>Para isso, é fundamental que o outro tenha espaço para expressão de sua própria fé.</p><p>Esse é, inclusive, um dos pilares básicos da sociedade contemporânea, presente no Artigo</p><p>5° da Constituição Federal Brasileira de 1988, e também em convenções internacionais,</p><p>como no Artigo 18° da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Em ambos, o</p><p>direito à livre manifestação religiosa é defendido como preceito fundamental. A partir dessas</p><p>convenções, o ecumenismo tem muito a contribuir para a garantia da liberdade religiosa.</p><p>Da perspectiva do cristianismo, teólogos como Elias Wolff procuram apontar</p><p>as possibilidades de atuação ecumênica como forma de garantir a paz. Se valendo de</p><p>passagens bíblicas como Mt 25:31-46 a busca pela justiça são descritas como valor central</p><p>na prática do cristianismo, pois ali o Cristo está no desamparado, no estrangeiro, no doente,</p><p>no faminto, no preso, ou seja, nos injustiçados, necessitados e pobres.</p><p>20UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Essa forma teológica ganhou faces significativas com os movimentos e organiza-</p><p>ções protestantes e católicas descritas anteriormente.</p><p>Sozinhos e agindo isoladamente os grupos cristãos não conseguem superar os</p><p>desafios impostos pela fome, miséria, desigualdades e injustiças, mas pelo ecumenismo</p><p>e, portanto, o trabalho coletivo em prol dos desfavorecidos é possível ampliar as áreas</p><p>de atuação. Para Wolff, viver de acordo com o Evangelho é um motivo de união entre os</p><p>cristãos. Ao assumir sua responsabilidade histórica enquanto defensora dos oprimidos, as</p><p>Igrejas se aproximam da própria vontade expressa na Bíblia. Fruto de um amadurecimento</p><p>e conscientização de séculos, essa forma de pensar a união não significa abandonar as</p><p>especificidades de rito e teologia de cada denominação.</p><p>Longe do mito de uma religião universal, o ecumenismo não pretende apagar as</p><p>diferenças, pois um ponto fundamental se pauta no aprofundamento da própria fé indi-</p><p>vidual. Indo além de um conhecimento teórico das outras tradições religiosas, o diálogo</p><p>inter-religioso pode atuar de formas diversificadas. Entre as quais, temos os intercâmbios</p><p>teológicos, em que as singularidades das experiências íntimas com o sagrado são compar-</p><p>tilhadas. Nesse sentido, o monge trapista Thomas Merton buscou se aproximar do Budismo</p><p>como forma de aprofundamento de sua própria experiência religiosa cristã. Sem negar</p><p>sua tradição religiosa, Merton indicava métodos de contemplação da natureza próprios do</p><p>Budismo como adequados para a prática da Igreja Católica.</p><p>Outra forma de atuação do ecumenismo pode ser encontrada na cooperação reli-</p><p>giosa em prol da paz em que as religiões se unem tendo em vista um objetivo em comum.</p><p>Como exemplo, Rudolf von Sinner nos lembra do evento conhecido como Incidente de</p><p>Antioquia, no século I d.C., em que no cerne da Igreja primitiva, o alinhamento às normas</p><p>judaicas e a gradativa conversão dos gentios fez crescer disputas nas missões evangeliza-</p><p>doras. De acordo com o autor, esse evento chega ao fim com o acordo de Pedro e Paulo</p><p>de que o fundamental era a comunhão para com os pobres. Nesse sentido, tais momentos</p><p>em que divisões surgem dentro de perspectivas religiosas podem ser solucionados com a</p><p>prática que frisa o bem comum.</p><p>Como brasileiros que consomem notícias oriundas de um viés ocidental entramos</p><p>em contato com termos como terrorismo, perseguição religiosa, ataques a outras religiões</p><p>como fenômenos presentes em regiões como o Oriente Médio. Mas esse senso comum</p><p>carrega diversos estereótipos e preconceitos com as religiões majoritárias da região, como</p><p>o Islã, e também nos faz desviar o olhar para os casos de intolerância presentes no Brasil.</p><p>Sem precisar de muito esforço, podemos lembrar casos como o de 2020 no qual a 3a Vara</p><p>Criminal de Araçatuba-SP expediu uma decisão judicial que retirou de uma mãe a guarda</p><p>da sua filha por denúncias anônimas a respeito de maus tratos.</p><p>21UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>Na decisão do juiz, foi apresentada como prova uma imagem dos cabelos raspados</p><p>da menina. Entretanto, na ocasião, a menina passava por um ritual de iniciação no Can-</p><p>domblé no qual deveria ficar em recolhimento absoluto, passar por rituais de purificação,</p><p>entre os quais, a raspagem do cabelo. O caso é um dos muitos existentes de violência física</p><p>e simbólica contra as religiões de matriz afro-brasileiras. Afinal, no Estatuto da Criança e do</p><p>Adolescente (ECA) é garantida a escolha da religião à criança e também o direito dos pais</p><p>de transmitir aos filhos suas crenças e culturas.</p><p>Essa realidade vivida por praticantes de algumas religiões pode ser enfrentada</p><p>com a ajuda do ecumenismo por meio do esclarecimento da importância do convívio em</p><p>harmonia com as outras religiões. Nesse sentido, Sinner (2005) aponta para os projetos</p><p>ecumênicos ao longo do tempo que tiveram como base justamente a liberdade do outro.</p><p>Entre os quais, o movimento conhecido como Igreja Confessante atuou na resistência</p><p>ao Partido Nazista na Alemanha. Da mesma forma, também temos atuações de diversas</p><p>pessoas, sacerdotes ou não, que ajudaram a fuga de judeus da Alemanha e de países</p><p>ocupados durante a Segunda Guerra Mundial.</p><p>Seguindo os passos de Elias Wolff, no Brasil contemporâneo podemos pensar três</p><p>orientações do ecumenismo: a primeira entre as diversas denominações cristãs; a segunda</p><p>em termos de pluralismo religioso das crenças mais antigas como Budismo, Islamismo,</p><p>Judaísmo, Cristianismo, etc. e os movimentos religiosos modernos ligados a Nova Era,</p><p>as Novas Religiões Japonesas; e por fim, em terceiro, a sociedade em sua diversidade</p><p>de culturas, costumes, etnias e classe sociais. Como veremos nos próximos capítulos,</p><p>em cada um desses espaços há trabalhos específicos que podem ser realizados pelas</p><p>diferentes denominações religiosas em prol da paz.</p><p>22UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>SAIBA MAIS</p><p>O Conselho Mundial de Igrejas</p><p>(CMI) foi fundado em 1948, em Amsterdam, o Conse-</p><p>lho surgiu do movimento ecumenico, e atualmente possui uma atuação significativa no</p><p>mesmo. Para você saber quais são as instituições pertencentes e as ideias visite o site:</p><p>Fonte:https://www.oikoumene.org/</p><p>REFLITA</p><p>Caro(a) estudante, diante da diversidade religiosa existente no Brasil você já parou para</p><p>pensar nas religiões presentes em sua cidade?</p><p>(Os autores)</p><p>23UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Prezado(a) estudante, finalizamos aqui nossa incursão sobre o ecumenismo e a</p><p>presença do diálogo inter-religioso ao longo do tempo. No corpo do texto abordamos as de-</p><p>finições do ecumenismo, os desenvolvimentos históricos, as formas de atuação ecumênica</p><p>e a importância do movimento para a promoção da paz.</p><p>Ao buscar responder às suas questões mais profundas as pessoas podem expressar</p><p>diferentes formas de práticas religiosas. Entretanto, por vezes as religiões entraram em</p><p>conflito por motivos particulares de cada período. Mas a história do movimento ecumênico</p><p>nos mostra que gradativamente e em diversas religiões as pessoas têm notado que os</p><p>elementos que as aproximam são maiores do que os que as distanciam. Nesse sentido, as</p><p>religiões se colocam em uma situação atuante diante do mundo, tal forma de ação garantiu</p><p>a luta em busca de condições mais justas para todos os seres.</p><p>Em nossa sociedade marcada pela diversidade, as religiões têm um importante</p><p>papel a cumprir ao promover a defesa dos valores fundamentais dos seres humanos. A</p><p>promoção do ecumenismo é um fator importante por proporcionar que o outro tenha espaço</p><p>para expressar suas crenças. Isso não significa um abandono ou relativização da própria fé,</p><p>mas sim um fortalecimento, tanto em termos de aprofundamento no entendimento de sua</p><p>própria religião como em promover a paz, justiça, igualdade e liberdade no mundo.</p><p>Até uma próxima oportunidade. Muito Obrigado!</p><p>24UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>● TAVARES SILVA. Nilo. Do confronto ao Diálogo: o estilo Batista de ser e a questão</p><p>ecumênica no Brasil. Fonte. 2013.</p><p>Essa obra tem como proposta mapear histórica e criticamente a relação entre os</p><p>batistas no Brasil e a questão ecumênica, o que desafia e faz refletir. O autor traça um</p><p>caminho desde as raízes históricos do movimento ecumênico e o protestantismo brasileiro</p><p>indo até as questões mais particulares que se referem ao estilo de ser batista no Brasil,</p><p>identificando entre outras questões que a ausência do diálogo marca a presença batista no</p><p>Brasil desde suas origens. A importação do modelo cultural dos Batistas do Sul dos Estados</p><p>Unidos fechou as portas para a possibilidade de abrir diálogo com nossa própria cultura</p><p>brasileira, deixando marcas profundas na liturgia, eclesiologia e teologia batista praticada</p><p>pela maioria batista no Brasil. A tentativa de uniformização de um jeito de ser batista no</p><p>Brasil predominou historicamente contrariando o princípio maior de unidade na diversidade</p><p>que marca a identidade batista privando o povo batista brasileiro de contemplar e vivenciar</p><p>a beleza da diversidade do ser Batista já existente além-fronteiras.</p><p>● NETO, Luiz Longuini. O novo rosto da Missão. Ultimato, 2002.</p><p>O Novo Rosto da Missão compara os conceitos de pastoral e missão nos movimen-</p><p>tos evangelical e ecumênico no protestantismo latino-americano. Inicia com o Congresso</p><p>do Panamá, em 1916, indo até o CLADE IV, em Quito, Equador, no ano de 2000, e a</p><p>Assembleia Geral do CLAI, realizada na cidade de Barranquilla, Colômbia, em 2001.</p><p>Trata-se de um livro inédito por resgatar e incluir documentos de importantes</p><p>reuniões, como CELA (Conferência Evangélica Latino-Americana) I, II e III, CLADE (Con-</p><p>gresso Latino-Americano de Evangelização) I, II, III e IV, e as assembleias gerais do CLAI</p><p>(Conselho Latino-Americano de Igrejas).</p><p>O Novo Rosto da Missão também trabalha o significado real de ecumênico, ecu-</p><p>menismo e movimento ecumênico. E, por várias razões, o conceito original da palavra</p><p>“oikoumene” ampliou-se tanto que hoje ela serve para definir uma série de coisas e ao</p><p>mesmo tempo pode não significar nada.</p><p>Assim, os evangelicais — com medo de utilizar o termo “pastoral”, devido à forte</p><p>conotação católica e à relação com o marxismo —, preferiram utilizar o termo “missão”.</p><p>Surge, então, a pastoral como um novo rosto da missão, uma vez que, na confusão dos</p><p>usos e dos conceitos, os objetivos afinal eram os mesmos: a inserção dos cristãos na</p><p>sociedade, visando sua transformação.</p><p>25UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>● CALVANI, Carlos Eduardo B. Protestantismo liberal, ecumênico, revolucionário</p><p>e pluralista no Brasil - um projeto que ainda não se extinguiu. Horizonte, v. 13, n. 40, p.</p><p>1896-1926, 2015.</p><p>No artigo é desenvolvido a história do movimento protestante brasileiro voltado</p><p>ao pluralismo e ao ecumenismo. Esse movimento teve força significativa entre as dé-</p><p>cadas de 1930 e 1970 atuando junto à sociedade em defesa da inclusão social e dos</p><p>direitos das minorias perseguidas.</p><p>● SINNER, Rudolf von. “Felizes o que promovem a paz” (Mt 5,9) a contribuição do</p><p>ecumenismo para uma cultura da paz. Encontros Teológicos, n. 40, p. 5-24, 2005.</p><p>Neste artigo são apresentados os projetos ecumênicos desenvolvidos ao longo</p><p>do templo junto ao Conselho Mundial das Igrejas. É também ressaltado a importância da</p><p>paz como valor fundamental para os cristãos viverem em acordo com o Evangelho. São</p><p>também apresentados espaços onde a prática ecumênica tem desenvolvido importantes</p><p>contribuições no Brasil e no mundo.</p><p>26UNIDADE I Ecumenismo: O que é?</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título. Caminhos do ecumenismo no Brasil</p><p>Autor. Elias Wolff.</p><p>Editora. Paulinas.</p><p>Sinopse: O presente livro de Elias Wolff presta um relevante serviço</p><p>à causa ecumênica no Brasil. Explora o desenvolvimento do ecume-</p><p>nismo nas relações entre igrejas-membro do Conselho Nacional de</p><p>Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), ele o faz com um detalhamento e</p><p>profundidade que não se pode encontrar em nenhuma outra obra. E</p><p>não deixa de lado as implicações sociais e as dimensões teológicas,</p><p>que se devem observar. Mais ainda: metodologicamente, Elias Wolff</p><p>não se limitou a auscultar a literatura existente, mas pesquisou em</p><p>arquivos, atas e outras fontes análogas. Ou seja, o desenvolvimento</p><p>do ecumenismo entre essas igrejas é abordado detalhadamente em</p><p>seus aspectos históricos, teológicos e pastorais. Ao empregar no</p><p>proêmio a figura da colcha que vai sendo costurada com muitas</p><p>peças, mas que, à medida que vai sendo costurada, pode abrigar</p><p>as diferentes vertentes, Elias Wolff também reconhece que no ecu-</p><p>menismo há “muitos caminhos”, mas eles não precisam ser causa</p><p>de divisão e competição entre eles, mas devem ser descortinados</p><p>como “convergentes”. E a história que ele traça da relação entre as</p><p>Igrejas que integram o CONIC torna palpável que o empreendimen-</p><p>to não só vale a pena, como corresponde ao espírito evangélico que</p><p>anima essas mesmas Igrejas, unindo-as num espírito e propósito</p><p>em comum. “Que todos sejam um, como o Pai e o Filho o são, para</p><p>que o mundo creia.”.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título. Uma Chama na Escuridão</p><p>Ano. 1998.</p><p>Sinopse. William Carey navegou em 1793 com sua família para</p><p>a Índia para compartilhar a mensagem de Jesus. Lá ele enfrentou</p><p>tantos sofrimentos que é incrível que não tenha abandonado seu</p><p>chamado. Continuou na batalha e influiu na abolição do Sati, um</p><p>ato pagão onde viúvas eram queimadas vivas. Em 40 anos de</p><p>ministério, Carey traduziu mais versões da Bíblia do que em toda a</p><p>história do Cristianismo até aquela época. Ficou conhecido como</p><p>O Amigo da Índia e O Pai das Missões Modernas. Sua herança</p><p>traz para muitos cristãos até os dias de hoje.</p><p>Link: https://www.youtube.com/watch?v=4Qjoe7BuHyI</p><p>27</p><p>Plano de Estudo:</p><p>● Ações ecumênicas – como promover?;</p><p>● As religiões e a aceitação do próximo;</p><p>● O olhar sobre as diferenças;</p><p>● O mundo, a globalização e as manifestações de fé..</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>● Contextualizar as diversidades e as relações com as religiões;</p><p>● Compreender os tipos de ações ecumênicas;</p><p>● Estabelecer a importância da diversidade religiosa</p><p>UNIDADE II</p><p>Unidade na Diversidade:</p><p>Desafios e Perspectivas</p><p>Professora Ma. Laís Azevedo Fialho</p><p>Professora Ma. Mariane R. Emerenciano da Silva</p><p>Professor Me. Leonardo Henrique Luiz</p><p>28UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 28UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Olá, estudante da disciplina “Ecumenismo e Diálogo inter-religioso”. Na unidade</p><p>a seguir, vamos conversar sobre diversidade e a atuação das religiões para o diálogo</p><p>ecumênico. Retomando a unidade anterior, você deve se lembrar sobre as várias formas de</p><p>atuação do movimento ecumênico ao longo da história, mas como elas foram promovidas?</p><p>Para responder essa pergunta, juntos vamos aprender mais sobre como a diversi-</p><p>dade pode ser construída para fortalecimento da própria fé. Através do contato com o outro</p><p>e do exercício da empatia podemos abraçar aqueles que muitas vezes são excluídos, além</p><p>disso, diversas possibilidades de ecumenismo se tornam possíveis por meio da convivên-</p><p>cia, cooperação e do diálogo inter-religioso. Ao promover a diversidade, as religiões estão</p><p>fortalecendo a construção da cultura da paz e do respeito. Sendo fundamental, ao mesmo</p><p>tempo, a fidelidade com a própria crença e o respeito às convicções do outro, em um</p><p>processo de mútuos benefícios de enriquecimento da experiência na promoção de valores</p><p>e identidades. Esses também são fundamentos presentes nas normas e leis brasileiras, in-</p><p>clusive na BNCC que regulamenta o ensino religioso no Brasil, dessa forma, é um elemento</p><p>essencial para a atuação do cientista da religião na sociedade em que estamos inseridos.</p><p>Longe de um declínio da religião, o mundo globalizado atual é marcado pela pre-</p><p>sença da religião em grande parte da população do mundo, essa presença é também plural</p><p>e atravessa diferentes momentos de nossa vida. Em um mesmo bairro diversas religiões</p><p>têm seus espaços de atuação (institucionais ou não): compreender essas diferenças é uma</p><p>tarefa que requer o exercício de alteridade como uma prática de reconhecer as necessida-</p><p>des do outro e respeitar sua integridade.</p><p>Esperamos que aproveitem a discussão. Bons estudos!</p><p>29UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 29UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>1. AÇÕES ECUMÊNICAS – COMO PROMOVER?</p><p>Caro(a) estudante, como você observou na unidade I a história do movimento</p><p>ecumênico tem desdobramento em diferentes áreas de atuação. Vimos que no meio</p><p>cristão, tanto as diversas lideranças protestantes no Brasil das décadas de 1930 a 1970</p><p>como os clérigos católicos participantes da Conferência de Medellín de 1968 tiveram</p><p>a defesa dos direitos humanos como lemas fundamentais. A partir desse objetivo em</p><p>comum, passaram a promover ações ecumênicas visando auxiliar presos políticos, desa-</p><p>brigados e pobres que sofriam injustiças.</p><p>Dessa forma, a partir da própria história do movimento ecumênico podemos pensar</p><p>maneiras de promoção das ações entre as religiões. Pegando como exemplo o Japão, em</p><p>meio às diversas crises que as diferentes manifestações que os Xintoísmos foram envol-</p><p>vidos durante a Segunda Guerra Mundial, e posteriormente a percepção de diminuição</p><p>na quantidade dos frequentadores dos santuários, algumas atividades ecumênicas foram</p><p>organizadas visando atuações concretas na sociedade. Uma que tem grande importância</p><p>é a formação da Associação para o Estudo das Florestas Sagradas (em japonês Shasō</p><p>Gakkai), organização criada em 2002 por sacerdotes e sacerdotisas xintoístas e que conta</p><p>com a presença de estudiosos(as) de várias áreas do conhecimento com o propósito de se</p><p>envolver nas causas ambientais.</p><p>De acordo com John Breen e Mark Teeuwen (2010), essa associação busca cons-</p><p>cientizar para as ameaças ambientais enfrentadas pelas florestas e bosques no Japão que</p><p>muitas vezes são locais sagrados para o Xintoísmo, pois os kami (divindades) podem estar</p><p>presentes nas montanhas, rios, mar, árvores, etc.</p><p>30UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 30UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Por meio de pesquisas nessas florestas em todo o Japão são realizados treinamentos</p><p>para ajudar na conservação ambiental dessas localidades. Sozinho um santuário xintoísta</p><p>pouco conseguiria fazer para preservação ambiental, mas por meio da associação e com a</p><p>ajuda de vários pesquisadores e outros santuários de diferentes escolas, o Xintoísmo pôde</p><p>criar mecanismos de preservação de suas florestas.</p><p>Da mesma forma, as religiões podem somar esforços para o esclarecimento de</p><p>questões que cada vez mais são urgentes de serem debatidas em nossa sociedade como</p><p>a luta antirracista, o combate a xenofobia, ao sexismo, as violências de gênero, o trabalho</p><p>infantil, e demais questões que impossibilitam o pleno exercício da cidadania e da liberdade.</p><p>O movimento ecumênico pode atuar no desenvolvimento de que todos os seres são membros</p><p>de uma mesma família e, portanto, devem ter seus direitos assegurados. Nesse mesmo</p><p>sentido, podemos sugerir que em momentos de catástrofes, desastres naturais, ondas de</p><p>frio ou calor extremo, etc. são ocasiões em que o ecumenismo pode representar alguma</p><p>esperança para os que se encontram nessas situações extremas. Mais do que buscar a</p><p>conversão das pessoas, nesses momentos de calamidades as religiões podem unir esforços</p><p>e demonstrar sua missão de promover a paz para além das diferenças doutrinárias.</p><p>Além da união a partir de causas comuns, Tiago de Fraga Gomes (2017) elabora</p><p>modelos metodológicos para a promoção do ecumenismo. Em primeiro lugar, o autor crítica</p><p>o método da controvérsia apologética, pois essa busca um confronto teológico em que uma</p><p>religião busca mostrar a superioridade sobre a outra. Longe de ser uma forma dialogal</p><p>de ecumenismo, a apologética não busca a abertura e o enriquecimento da fé a partir do</p><p>conhecimento da experiência do outro, mas sim o convencimento.</p><p>Diante disso, Gomes afirma que o método comparativo tem possibilitado melhores</p><p>resultados. Nesse método é buscado o estudo da história, doutrinas, ritos e demais formas</p><p>de especificidades entre as diferentes denominações religiosas. O que se busca não é a</p><p>promoção de sua verdade, mas o entendimento de como o outro exercita a sua própria fé.</p><p>A partir desse conhecimento, podem ser feitas comparações que nos revelam importantes</p><p>trocas e influências históricas entre as religiões ao longo do tempo e ao mesmo tempo</p><p>reconhecer as especificidades de nossa crença frente a diversidade humana. Esses são</p><p>passos iniciais para o diálogo, pois apenas pelo conhecimento de como as outras religiões</p><p>atuam é que podemos nos posicionar com respeito para o diálogo.</p><p>Em um sentido mais profundo, o método contextual-relacional pode trazer contri-</p><p>buições ainda mais efetivas para a promoção do ecumenismo. Nas palavras de Gomes</p><p>Esse método promove uma perspectiva indutiva, dialógica e prática da reflexão</p><p>da fé, abordando cada doutrina em si mesma na forma como é proclamada e</p><p>vivida no interior de cada confissão, e em relação ao meio social e às outras</p><p>confissões, tendo como foco a práxis. (GOMES, 2017, p. 54)</p><p>31UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 31UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Isto é, como forma de proporcionar a aproximação entre as religiões, o autor argu-</p><p>menta que o envolvimento em práticas sociais pode ser mediado como maneira de aproxi-</p><p>mação com diferentes perspectivas religiosas. Com isso, é buscada uma “Hermenêutica da</p><p>Comunhão” por meio da qual a interpretação dos textos religiosos são direcionados para a</p><p>ação em comum superando as diferenças que dividem.</p><p>É também possível apontar três momentos decisivos para o ecumenismo: a</p><p>convivência, a cooperação e o diálogo. A convivência é a base para a aceitação mútua em</p><p>que pelo conhecimento as diferentes crenças compartilham suas formas de vivência da</p><p>fé.</p><p>A cooperação surge a partir da necessidade mútuas de traçar critérios e estratégias visando</p><p>um impacto significativo na sociedade, essa forma de ecumenismo prático é a maneira de</p><p>somar forças e transformar a realidade. Por fim, o diálogo ocorre quando “as diferenças já</p><p>não assustam mais” (GOMES, 2017, p. 55) e, portanto, é possível visualizar um projeto de</p><p>unidade na diversidade que oriente o agir com respeito.</p><p>Todas essas formas de promoção do ecumenismo não têm por objetivo a conversão,</p><p>o convencimento, o desapego com a própria fé ou a relativização dos valores religiosos. A</p><p>busca é pelo testemunho da vida em comunidade e do amor para com o próximo, essa só</p><p>é possível com uma prática libertadora que por meio do agir ecumenicamente ganha forças</p><p>ao aliar formas de atuação.</p><p>32UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 32UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>2. AS RELIGIÕES E A ACEITAÇÃO DO PRÓXIMO</p><p>Como você pode ter percebido, as religiões têm um importante papel social na</p><p>construção de uma cultura da paz e do respeito, no qual o ecumenismo ocupa um papel</p><p>fundamental. No Brasil, documentos como a Base Nacional Curricular ao instituir o en-</p><p>sino religioso frisam que o “O Ensino Religioso busca construir, por meio do estudo dos</p><p>conhecimentos religiosos e das filosofias de vida, atitudes de reconhecimento e respeito</p><p>às alteridades.” (BRASIL, 2017, p. 437). Dessa forma, um aspecto central é a ideia de</p><p>alteridade, ou seja, a percepção da diferença que possibilita a distinção entre o “eu” e o</p><p>“outro” através da qual a nossa própria identidade é construída.</p><p>Mas, conforme aponta Faustino Teixeira (2002), ao olharmos a alteridade não</p><p>devemos optar por uma dicotomia entre o “nós” e o “outro”. Para o autor, isso seria um</p><p>etnocentrismo que no caso das religiões tem o perigo de criar a sensação de uma autos-</p><p>suficiência e muitas vezes a insensibilidade e incomunicabilidade com as outras crenças.</p><p>A atitude etnocêntrica também leva a relativização da variedade cultural e religiosa pela</p><p>deslegitimação e demonização de outras práticas que não as nossas.</p><p>O esforço do ecumenismo é iniciado justamente com a superação desse entrave</p><p>etnocêntrico para permitir a abertura dialogal com o diferente. De acordo com Teixeira</p><p>(2002), o diálogo é um processo construído ao longo do tempo com etapas de tolerância,</p><p>coexistência, aprendizado com o diferente e, por fim, a promoção de ações em comum.</p><p>Para isso, em primeiro lugar é necessário olhar a diversidade religiosa existente ao</p><p>nosso redor.</p><p>33UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 33UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>Falando especificamente sobre o contexto latino americano no qual estamos inse-</p><p>ridos, o antropólogo Alejandro Frigerio (2018) nos mostra que a diversidade religiosa sem-</p><p>pre esteve presente nas Américas. O autor critica a visão “católico-cêntrica” (FRIGERIO,</p><p>2018, p. 2) que enxerga a diversidade religiosa como um fenômeno minoritário e recente,</p><p>que desloca a diversidade para categorias como “religiosidade popular”, “curandeirismo”</p><p>ou “esoterismo”. O uso dessas categorias são formas de deslocar práticas de seus senti-</p><p>dos religiosos, isto é, uma forma de desqualificar a prática do outro e pregar um suposto</p><p>monopólio cristão. Nesse sentido, embora exista uma diversidade religiosa, há também</p><p>uma estigmatização que implica um impedimento do pluralismo religioso (entendido como</p><p>valorização positiva da diversidade).</p><p>Tendo em vista essa diversidade e o desafio da defesa do pluralismo, é necessá-</p><p>rio reconhecer a convicção religiosa do outro e não tomá-la como falsa. Nas palavras de</p><p>Teixeira (2002, p. 158) “O diálogo exige humildade, abertura e respeito ao diferente. Não</p><p>basta, porém, abrir-se à diversidade, mas igualmente afirmar a liberdade e a dignidade</p><p>do outro, deixar-se interpelar por sua verdade.” Assim, o diálogo é construído a partir da</p><p>fidelidade à sua própria verdade acrescido do respeito às convicções do outro e vice-versa.</p><p>Em termos bíblicos, Teixeira nos lembra do livro do profeta Isaías: “Alarga o es-</p><p>paço da tua tenda, estende as cortinas das tuas moradas (…), alonga as cordas, reforça</p><p>as estacas” (Is 54,2). Por essa passagem, é argumentado que o diálogo inter-religioso é</p><p>justamente um compromisso com a própria fé (estacas reforçadas), mas também a dispo-</p><p>nibilidade e abertura do outro e seu mistério sagrado. Ao fazer isso, o indivíduo ultrapassa</p><p>as barreiras do etnocentrismo, no qual a diversidade religiosa pode ser reconhecida como</p><p>traço de valor e riqueza.</p><p>Em vez de suscitar o medo ou a aversão para com o desconhecido, a diversidade</p><p>pode nos mostrar caminhos ainda não percorridos que reforcem nossa própria identidade</p><p>religiosa. Nos últimos anos, com a crescente reivindicação de grupos que por séculos foram</p><p>marginalizados, vemos o papel da religião como importante ponto de apoio. Nesse sentido,</p><p>temos manifestações em que as religiões abraçam a diversidade por inúmeros meios, po-</p><p>demos citar como o exemplo o bloco Gente de Fé Contra a LGBTfobia presente na Parada</p><p>LGBTI+ da cidade de São Paulo em 2019. O bloco é formado por um grupo inter-religioso</p><p>que busca mostrar que a diversidade sexual não é um mal a ser enfrentado.</p><p>34UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 34UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>FIGURA 1: FOTO DA PARADA LGBTI+ DE SÃO PAULO EM 2019</p><p>Fonte:https://bit.ly/3oPPxcA</p><p>Constituído principalmente por católicos, budistas, mães de santo, evangélicos</p><p>e mórmons, eles buscam a inclusão nas igrejas. A presença desses religiosos é um</p><p>importante passo para afirmar a abertura ao diálogo entre as crenças assim como o</p><p>respeito para com a diversidade sexual. Vale destacar a atuação da reverenda Alexya</p><p>Salvador das Igrejas da Comunidade Metropolitana (ICM), como mulher trans que acolhe</p><p>a diversidade em sua crença.</p><p>Essa promoção da diversidade e aceitação do outro é o reconhecimento do papel</p><p>da religião enquanto importante espaço de produção de valores morais e identitários</p><p>que contribui para formar a consciência de seus praticantes. Como um dos grandes</p><p>meios de socialização humana, as religiões ao transmitir valores de solidariedade,</p><p>inclusão e respeito estão atuando enquanto agentes transformadores da realidade para</p><p>os sofredores e oprimidos.</p><p>35UNIDADE I Ecumenismo: O que é? 35UNIDADE II Unidade na Diversidade: Desafios e Perspectivas</p><p>3. O OLHAR SOBRE AS DIFERENÇAS</p><p>Iniciamos esse tópico com um fragmento de Bruno Latour (2002) sobre o encontro</p><p>dos portugueses e dos guineenses, o qual exemplifica um olhar sobre o outro, a qual é</p><p>dotado de acusação e inferiorização das crenças que diferem-se das suas próprias.</p><p>A acusação, pelos portugueses, cobertos de amuletos da Virgem e dos san-</p><p>tos, começa na costa da África Ocidental, em algum lugar na Guiné: os ne-</p><p>gros adoravam fetiches. Intimados pelos portugueses a responder a primeira</p><p>questão: “Vocês fabricaram com suas próprias mãos os ídolos de pedra, de</p><p>argila e de madeira que vocês reverenciam?”, os guineenses responderam</p><p>sem hesitar que sim. Intimados a responder a segunda questão: “Esses ído-</p><p>los de pedra, de argila e de madeira são verdadeiras divindades?”, os negros</p><p>responderam com a maior inocência que sim, claro, sem o que, eles não</p><p>os teriam fabricado com suas próprias mãos! Os portugueses, escandaliza-</p><p>dos, mas escrupulosos, não querendo condenar sem provas, oferecem uma</p><p>última chance aos africanos: “Vocês não podem dizer que fabricaram seus</p><p>fetiches, e que estes são, ao mesmo tempo, verdadeiras divindades, vocês</p><p>têm que escolher, ou bem um ou bem outro; a menos que, diriam indignados,</p><p>vocês não tenham miolos, e que sejam insensíveis ao princípio de contradi-</p><p>ção como ao pecado da idolatria”. Silêncio embotado dos negros que, na falta</p><p>de discernimento da contradição, provam, frente ao seu embaraço, quantos</p><p>degraus os separam da plena e completa humanidade... Pressionados pe-</p><p>las questões, obstinam-se a</p>

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