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Fenômeno Religioso na Contemporaneidade e Educação Professora Ma. Laís Azevedo Fialho Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga AUTORES Professora Ma. Laís Azevedo Fialho ● Mestra em História, Cultura e Narrativas (PPH-Universidade Estadual de Maringá). ● Especialista em História da África e Cultura Afro-brasileira (DCS- Universidade Estadual de Maringá). ● Licenciada em História (DHI-Universidade Estadual de Maringá). ● Tutora Educacional no Centro Universitário Cidade Verde (UniFCV). ● Professora Conteudista na UniFatecie. ● Experiência como professora de História da Rede básica de Educação em 2016. ● Atuou como Pesquisadora Bolsista Capes em 2018 e 2019. ● Coordenou e organizou diversos Projetos de Extensão abordando as Religiões e Religiosidades Afro-brasileiras, na Universidade Estadual de Maringá, entre 2015 e 2019. ● É integrante do Laboratório de Religiões e Religiosidades da Universidade Esta dual de Maringá (LERR/UEM). Áreas de concentração: História das Religiões e Religiosidades com ênfase nas Práticas Afro-brasileira; História Cultural, Epistemologias decoloniais. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/8724898233397030 Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga ● Doutorando em História, Cultura e Narrativas (PPH – Universidade Estadual de Maringá) ● Mestre em História, Cultura e Narrativas (PPH-Universidade Estadual de Maringá). ● Licenciado em História (DHI-Universidade Estadual de Maringá). ● Experiência como professor de História da Rede básica de Educação de 2018 a 2020. ● Pesquisador/discente no Laboratório de Estudos em Religiões e Religiosidades (UEM) e Laboratório de Estudos em Religiosidades e Cultura (UEM). Áreas de concentração: História das Religiões e Religiosidades com ênfase nas Práticas Afro-brasileira; História Cultural. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/2869647069753158 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Caros (as) estudantes, produzimos esse material com dedicação e comprometi- mento a fim de proporcionar para você uma oportunidade de aprendizado sobre fenômenos religiosos, a religião na contemporaneidade, as diversas manifestações religiosas e suas particularidades, além de pontuar as relações entre tais assuntos, a educação e o Ensino Religioso. A religião pode ser analisada a priori como um conjunto de crenças e ritos. Por outro lado, pode-se pensar que o essencial na religião só é compreendido como algo que emana do alto, de Deus. O ponto de vista analítico adotado importa pois o tema é complexo, não podemos perder isso de vista. Desse modo, o que priorizamos neste estudo são modos de enquadrar teoricamente as representações das religiões como experiências vividas e passíveis de observação, ou seja, os fenômenos religiosos. Iniciaremos nossa discussão com uma incursão teórica sobre fenômenos religio- sos e sociedade. Abordaremos diversos conceitos, definições e disputas analíticas para compreender nossa temática. Apresentaremos estudos inaugurais que influenciaram con- sideravelmente a Ciência das Religiões e alguns debates sobre modos de se perceber os fenômenos religiosos a partir de diferentes áreas do conhecimento. Destacaremos, também, algumas características dos fenômenos religiosos na contemporaneidade. Na segunda unidade, nos dedicaremos a pensar sobre como as pessoas se com- portam em relação à religião em nossa sociedade. Abordaremos o contato cultural como catalisador para formação e adaptação das religiões em diferentes sociedades no mundo e no tempo, bem como nos deteremos sobre as imbricações desse processo na história das religiões no Brasil com o poder e com o cotidiano. Posto isso, refletiremos sobre como o indivíduo contemporâneo se orienta em relação a multiplicidade de religiões, crenças e práticas presentes no mundo. Já em nossa terceira unidade, apresentaremos um debate teórico sobre fundamen- talismos religiosos. Analisaremos algumas manifestações desse fenômeno em diferentes tempos históricos e culturas religiosas, bem como a própria historicidade do termo. Apresen- taremos algumas características típicas desse fenômeno e contextualizamos o crescimento de fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo. Por fim, veremos na última unidade qual pode ser o papel do Estado em relação à religião. Lançaremos luz sobre o conceito de Estado laico e seu desenvolvimento histórico no Brasil. Em diálogo com tais discussões, pensaremos também sobre alguns tabus religio- sos. Esperamos que você possa se interessar pelas discussões aqui iniciadas! Bons Estudos! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 6 Fenômenos Religiosos e Sociedade UNIDADE II ................................................................................................... 24 As Religiões Contemporâneas UNIDADE III .................................................................................................. 49 Fundamentalismo Religioso UNIDADE IV .................................................................................................. 69 Religião e Políticas Plano de Estudo: ● Homem como um ser religioso e social. Objetivos da Aprendizagem: ● Definir o fenômeno religioso. ● Estabelecer as múltiplas vertentes conceituais em torno dos fenômenos religiosos. ● Apresentar algumas características dos fenômenos religiosos na contemporaneidade. 5 UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade Professora Me. Laís Azevedo Fialho Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga 6UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade 1. HOMEM COMO UM SER RELIGIOSO E SOCIAL 1.1 A religião e o fenômeno religioso A palavra “religião” vem do latim, significa “religare” e refere-se etimológicamente à uma confluência de pessoas em torno de algo que as conecta com o sobrenatural. Histori- camente, o termo se relaciona às crenças e práticas de um grupo. Esse aspecto da vida é essencial e permanente na humanidade, um fenômeno coletivo que gera a criação de laços solidários entre pares e consolida padrões éticos baseados na crença de um determinado grupo. Sobre a tentativa de indicar o que seria religião e porque é relevante enquadrá-la como um aspecto importante da vida humana, mesmo com todas as problemáticas envoltas em conflitos religiosos, Beter Berger (2003, p. 112) diz o seguinte: Pode-se dizer que a religião aparece na história quer como força que sus- tenta, quer como força que abala o mundo. Nestas duas manifestações, ela tem sido tanto alienante quanto desalienante. É mais comum verificar-se o primeiro caso, devido a características intrínsecas da religião como tal, mas há exemplos importantes do segundo. Trouxemos esse texto, porque é importante problematizar o modo como alguns discursos buscam atribuir à religião a origem dos problemas sociais. Será mesmo que ela não é só mais um modo por onde a existência humana se manifesta? A religião está atrelada aos princípios de moralidade e ética que circundam os indivíduos. É essa ética que determina o que é certo fazer e o que deve ou não ser feito. 7UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade Figura 1 - Tirinha sobre religião e ética. Fonte: https://www.satirinhas.com/wp-content/ uploads/2013/03/satirinhas-religi%C3%A3o-n%C3%A3o-define-car%C3%A1ter.jpg O autor Schiavo (s/d) diz que a religião é também cultura, pois atribui significados a questionamentos e respostas sobre a existência humana e o sentido da vida. Para ele, a religião não é patrimônio exclusivo das igrejas, mas dos povos que a construíram e cons- troem como aspecto importante de suas culturas. O autor postula que a religião “antes de ser a estruturação de certa experiência religiosa é, e representa, o anseio humano de se transcender e de se encontrar com aquele Ser, no qual a humanidade encontra respostas às suas perguntas profundas” (SCHIAVO. s/d, p. 77). Desse modo, prezado(a) estudante, o estudodas religiões é importante para compreendermos a condição humana em seus aspectos mais profundos e misteriosos. A religião contribui para a formação de estruturas imaginativas elementares sobre como nos orientamos ou deveríamos nos orientar no cosmos. A religião dá forma e ensaia no ritual nossos mais importantes laços, uns com os outros e com a natureza, e provê a lógica tanto ao porque destes laços serem importantes como ao o que significa estar comprometido com eles (NEVILLE; WILDMAN, apud NEVILLE, 2005, p. 37) Compreendemos que a religião está para além das instituições, mesmo que seja organizada por ela. É um aspecto da cultura e que organiza pessoas com as mesmas crenças. Mas então o que difere o fenômeno religioso do fenômeno social? O pesquisador 8UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade Zilles (2004) nos auxilia a pensar sobre a questão apontando que a estrutura especial do homem é definida por sistema de relações com os outros homens: No fundo de toda a situação verdadeiramente religiosa encontra-se a refe- rência aos fundamentos últimos do homem: quanto à origem, quanto ao fim e quanto à profundidade. O problema religioso toca o homem em sua raiz ontológica. Não se trata de fenômeno superficial, mas implica a pessoa como um todo. Pode caracterizar-se o religioso como zona do sentido da pessoa. Em outras palavras, a religião tem a ver com o sentido último da pessoa, da história e do mundo (ZILLES, 2004, p. 5-6). Assim, caro(a) estudante, a religião pode ser compreendida como uma dimensão pela qual as pessoas se unem e organizam um modelo de diversos aspectos sociais. A re- ligiosidade se mantém em nosso horizonte como um aspecto da cultura que funciona como lentes pelas quais os sujeitos religiosos veem o mundo. Muitos aspectos da vida social são diretamente orientados pelo filtro da religião, como o modo de vestir, se alimentar, cuidar do corpo, etc. A prática do Candomblé, por exemplo, é toda baseada em comidas. Os alimentos fazem parte dos rituais ligados às divindades africanas. Nos cultos, come-se para transmitir o axé às entidades às quais se reza – orixás e espíritos ancestrais. Logo, o alimento passa a figurar cotidianamente a mesa do adepto da religiosidade Afro-brasileira. É o caso do aca- rajé, historicamente relacionado à cozinha baiana, já que o estado figura o maior estado negro fora da África e possui uma grande população Afro-religiosa. Figura 2 - Baiana de Acarajé Fonte: https://veja.abril.com.br/gastronomia/acaraje-da-cira-e-eleito-o- melhor-de-salvador-pelo-juri-veja-comer-beber/ 9UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade Pensando na vestimenta, nós podemos citar uma série de elementos relacionados à indumentária necessária para o serviço religioso no Judaísmo. Quipá, talit, pejot, teflin são os nomes de alguns deles, todos com algum significado imaterial. As roupas para esse adepto, portanto, deixam de ter somente uma finalidade prática e passam a ter também um aspecto simbólico, que se relaciona intimamente ao rito. Figura 3 - Indumentária utilizada por alguns grupos de judeus Fonte: http://2.bp.blogspot.com/-4gqxH_9zJCs/ThkIzgZDm_ I/AAAAAAAAAvE/XcJzjqEUYD0/s1600/Roupas+de+Judeu.jpg Já sobre a relação que o homem religioso possui com o corpo, podemos citar o caso de alguns grupos indígenas em que tatuagens e marcações na pele são realizadas, como modo de comunicar e identificar um rito iniciático. Sobre o assunto, Vidal (1992, p. 13) diz o seguinte: Apenas recentemente a pintura, a arte gráfica e os ornamentos do corpo passaram a ser considerados como material visual que exprime a con- cepção tribal de uma pessoa humana, a categorização social e material e outras mensagens referentes à ordem cósmica. Em resumo, manifestações simbólicas e estéticas centrais para a compreensão da vida em sociedade Agora que nós já vimos alguns exemplos práticos de como essa dimensão da vida social comunica as práticas e modos com que o homem religioso significa o mundo, passa- 10UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade remos a apresentar alguns estudos que organizam de modo teórico a análise do fenômeno religioso. Para isso, apresentaremos alguns conceitos e autores que balizam as análises sobre o tema. Inicialmente, apresentamos um breve panorama sobre o estudo científico que apresenta o espaço delimitado para a Religião no Ocidente e organiza as bases utilizadas pela Antropologia, para pensar fenômeno religioso e sociedade. 1.2 Estudos inaugurais sobre o fenômeno religioso Max-Muller é reconhecido por ter criado a metodologia de religião comparada e por ter traduzido os Upanishads, textos sagrados da cultura hindu, em meados do século XIX (SILVA, 2009). Figura 4 - Friedrich Max-Müller, Junho de 1857 Fonte: National Portrait Gallery, London. Já o antropólogo britânico Edward Burnett Tylor influenciou consideravelmente a Ciência das Religiões, por ser o responsável pela criação da teoria animista. O intelectual utilizou-se de princípios próprios do evolucionismo de Darwin, para o estudo das culturas e das religiões. Tylor (1920) postulava que todos os seres humanos tinham uma única origem, portanto assumia uma postura “monogenista”, em confronto à teoria de que o ser humano não tem uma única origem, chamado portanto plurigenismo. Outro posicionamento que o coloca como importante intelectual do período é que ele negou a perspectiva degra- 11UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade dacionista. Esta corroborou uma sentença bíblica de que o homem foi criado perfeito, e ao longo da história foi se encaminhando para a degradação (SILVA, 2009). Desse modo, o intelectual defendia que o homem, ao longo da história, foi evo- luindo e se desenvolvendo. Ou seja, baseava-se na crença no progresso e universalidade do ser humano. Por outro lado, o fundador da antropologia britânica classificou todas as diferenças em uma escala evolutiva. Foi o primeiro pesquisador a publicar uma definição formal de cultura: Cultura ou civilização, tomada em seu mais amplo sentido etnográfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade” (TYLOR, [1871] 2005, p. 69). Figura 5 - Edward Burnett Tylor, Londres, Outubro de 1832 Fonte: Encicolpédia Britannica. Historicamente, não podemos perder de vista que o século XIX no Ocidente foi marcado pela consolidação do cientificismo. Um dos marcos principais desse momento foi a divulgação do estudo de Charles Darwin (1859), intitulado “A origem das espécies”. Desse modo, temos um grande distanciamento entre o sistema de pensamento religioso (judaico-cristão) e o sistema de explicação científico da época. Diversos fatores corrobora- ram esse afastamento, tais como a Reforma Protestante e o Iluminismo (BELLOTTI, 2011). O historiador Michel de Certeau (2002) indica que a Reforma Protestante enfra- queceu consideravelmente o poder do cristianismo como único sistema explicativo admitido 12UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade pela sociedade europeia. Ela instituiu a concorrência religiosa com a Igreja Católica, o que culminou nas guerras religiosas do século XVII. Sobre o assunto, a historiadora das Religiões Karina Kosicki Bellotti (2011, p. 16), diz o seguinte: Se até então religião e política formavam uma só instância de poder, a partir desse período a instância religiosa rivalizará com outras instâncias sociais e políticas, além da ciência, que surge cada vez mais distanciada de elemen- tos religiosos em suas explicações. Se na chamada revolução científica do século XVII muitos estudiosos buscavam aliar observações e experimentos a conceitos religiosos/filosóficos, explicando os mecanismos de funcionamento da “criação”, no Iluminismo houve um antagonismo ferrenho entrefilósofos e cientistas e a religião, seja a encarnada pelas instituições religiosas, seja a religião popular. Novos distanciamentos em relação à religião organizada também marcam o fim do século XIX, tais como: ● Deísmo, crença em uma inteligência divina que não se vincula a ritualismo ou dogma. ● Ateísmo, a negação de Deus. Todos esses acontecimentos contribuíram para demarcar um lugar limitado para a religião no Ocidente. Ou seja, esses acontecimentos corroboram a transformação da reli- gião em um objeto de pesquisa, enquadrável e analisável, como qualquer outro fenômeno humano. Sobre o assunto Bellotti (2011, p. 17) diz o seguinte: “para que o estudo científico da religião surgisse, foi necessário dessacralizá-la”. No entanto, não podemos assumir que houve um completo distanciamento en- tre os princípios religiosos ocidentais e a linguagem científica no campo da antropologia. Assim, assinalamos que o período foi marcado, também, por um enorme interesse dos pesquisadores para com as culturas consideradas “exóticas” ou “primitivas”. Influenciados por ideias de Darwin quanto ao mundo natural, cientistas europeus, como o próprio Tylor, já citado, preocuparam-se em classificar a espécie humana, a partir dos seus costumes e especificidades culturais e raciais. Precisamos, portanto, considerar que o estudo acadêmico das religiões foi inau- gurado por evolucionistas que, na segunda metade do século XIX, se empenharam em qualificar o desenvolvimento humano a partir de uma perspectiva a-histórica e atemporal. Da mesma forma que antropólogos criminais, frenologistas e eugenistas quiseram provar as diferenças “raciais”, hierarquizando diversos grupos étnicos que se tornaram conhecidos pela empresa imperialista antropólogos e etnólogos como Müller, Tylor e James Frazer (O Ramo de Ouro, 1890), par- tiram de premissas evolucionistas para hierarquizar os povos e suas crenças religiosas: comumente encontram-se nesses trabalhos classificações que atribuem aos povos “primitivos” o domínio da magia e aos povos “civilizados” a presença da religião institucionalizada. Povos que se atrasaram na escala evolutiva jamais poderiam alcançar o nível de organização religiosa dos povos ocidentais europeus, por estarem desprovidos de uma “verdadeira” e complexa cultura (BELLOTTI, 2011, p. 18). 13UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade No século XIX, diversas nações europeias conheceram povos não europeus. Es- ses foram tidos como o “Outro”, considerando que o homem branco olhava para si mesmo como a norma. Não estavam em jogo as perspectivas relacionais ou de alteridade, e sim de classificação hierárquica em que a cultura europeia era superior às demais. Isso gera um grande debate científico sobre o conceito de cultura. Os grupos não europeus eram classifi- cados como primitivos já que, sob o olhar do homem branco, eles não teriam desenvolvido, ainda, instrumentos suficientes para dominar a natureza (BELLOTTI, 2011). De acordo com Belotti (2011), o pensamento inglês da época solidificou a noção de “cultura civilizada” relacionada ao cultivo das faculdades humanas “superiores”, manifes- tada por meio da arte ou ciência. Essa seria a “alta cultura”, que se diferenciaria da “baixa cultura”, predominante nas esferas populares. Isso significa que, para os antropólogos que balizaram os estudos sobre fenômenos religiosos na época, não ter ciência significava não ter cultura, e ter religião significava ser inferior culturalmente à quem tem ciência. Se formos adiante no debate entenderemos como, além disso, na escala de evo- lução cultural, quem tinha religião, mas não tinha ciência, ainda era considerado superior à quem cultivava elementos “mágicos”. Assim, houve também uma tentativa de classificação e hierarquização entre religião e magia. Religião compreenderia uma organização social e hierárquica complexa de rituais e crenças, espelhando-se na experiência cristã europeia e norte-ame- ricana e na tradição judaico-cristã, monoteísta e patriarcal. Magia seria uma forma infantil e simplória de se acessar a(s) divindade(s), identificadas com elementos da natureza, sem grandes hierarquizações, dependentes da figura de um líder que dominaria o contato com as entidades naturais (BELLOTTI, 2011, p. 18). A definição apontava para uma perspectiva atemporal da evolução religiosa, e inferiorizava o homem religioso não europeu, desconsiderando as construções relacionais entre crenças e práticas religiosas, e suas sobreposições para usos sociais. Cabe des- tacar também, que a significação histórica da categoria “magia” relaciona-se ao contexto religioso ocidental cristão. A palavra era utilizada para designar algo negativo perante a Igreja Católica durante a Idade Média e a Idade Moderna, em especial durante o período da Inquisição. Desse modo, o termo foi empregado pelos antropólogos do século XIX com sentidos que inferiorizavam os outros não ocidentais. Pesquisadores do início do século XX que marcaram a relação entre antropologia e o estudo do fenômeno religioso, e se distanciaram da teoria evolucionista, foram B. Ma- linowski e Émile Durkheim. Os autores consideravam outros elementos da sociedade em que religião e magia seriam pesquisados. 14UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade Malinoswki (1884-1942) se difere pela teoria do “funcionalismo”, que admitia todos os elementos de uma cultura como funcionais. Conforme o autor, todas as sociedades desenvolvem conhecimentos científicos para transformar a natureza. Assim, ciência, magia e religião estariam presentes no início do desenvolvimento da cultura. Já Durkheim (2001) postulou que os primeiros sistemas de representação do mundo pertenciam a uma ordem religiosa, pois determinavam noções de tempo, espaço, número, causalidade, estabelecendo o que ele denomina como “ossatura da inteligência humana”. O autor considerava que sociedades primitivas e civilizadas pertenciam a etapas diferen- tes da mesma história. Ele distanciou-se do evolucionismo porque buscou compreender a religião como âmbito real, a qual expressa sentimentos, urgências, angústias, anseios e pensamentos reais. Partindo desse pressuposto, toda religião seria verdadeira à sua maneira e responderia a condições particulares de sociedades específicas. Agora que nós já temos conhecimento sobre os estudos que inauguraram e deli- mitaram a religião como objeto de estudos acadêmicos, podemos passar para um debate mais específico sobre o campo definido para o nosso capítulo. Vamos então apresentar algumas noções sobre o fenômeno religioso, presentes em diferentes linhas teóricas. 1.3 Debates teóricos sobre o fenônemo religioso O historiador Gerardus van der Leeuw [1933] (2009), nos traz contribuições im- portantes para pensar o fenômeno religioso, pois admite a importância do sentimento e do irracional como parte explicativa da religião. Para ele, essa seria uma das dimensões primordiais da experiência religiosa. Contudo, tal perspectiva se apresenta como um grande desafio para os estudiosos, já que a dimensão subjetiva, não é facilmente capturável em explicações racionais. O psicanalista Sigmund Freud (2006) também participou do debate acerca do fenômeno religioso, ao utilizar a psicologia para examinar as origens das religiões e sua relação com a consciência humana. “O futuro de uma ilusão” é a obra escrita em 1927 que demonstra como o pesquisador classificou a religião como um sistema de crenças falsas e infantilizadas. Para ele, o ser humano, impotente diante da natureza e das angústias da vida, cria a imagem de um deus onipotente, do mesmo modo que uma criança indefesa vê seu pai como o protetor. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza,reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-los pelos sofri- mentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs (FREUD, [1927] 2006, p. 26). 15UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade Para o psicanalista, a ideia de um deus humanizado é consequência da neurose psí- quica humana e do complexo paterno produzido pelo homem religioso. Isso seria negativo, pois seria fruto de delírios, imaginações e desejos de acreditar em algo transcendente além do que, resultaria na criação de dogmas, duelos e efeitos psicológicos e sociológicos ruins para a humanidade. Quando Freud (2005) indica que o fenômeno religioso é constituído por uma ilusão, não determina necessariamente que é falso, mas que existiria unicamente para contentar os desejos e as neuroses dos que creem . Desse modo, o pensador busca representar o homem moderno extinguindo a no- ção de transcendência e focando na ideia de imanência. Com isso, ele torna a religião um produto dispensável e coloca em dúvida a consciência religiosa transcendente e elaborando uma nova consciência vazia. Mircea Eliade (1989), por sua vez, busca compreender e explicar o fenômeno reli- gioso a partir das categorias sagrado/profano. Analisando a religião de diferentes culturas religiosas, o autor chega a conclusão de que em sociedades arcaicas e tradicionais existiria uma busca pela experiência sagrada, que acarretaria na sacralização de momentos e ocasiões do cotidiano. Somente a partir dessa consagração e portanto, dessa experiência religiosa, seria possível a existência do que ele chama de “homem total”, um sujeito que não é definido somente pela sua dimensão racional. [...] a experiência religiosa enquadra o homem na sua totalidade e, por conse- guinte, também afecta as zonas profundas do seu ser. Isto não quer dizer que se reduza a religião aos seus componentes irracionais mais simplesmente do que se reconheça a experiência religiosa tal como ela é: a experiência da existência total, que revela ao homem a sua modalidade de ser no Mundo (ELIADE, 1989, p. 12). Eliade (2008) buscou demonstrar como nas sociedades modernas, o homem reli- gioso vivencia um conflito entre resistir e renunciar ao sagrado. Desse modo, o pesquisador buscou analisar o lugar das religiões tanto nas sociedades antigas, como nas contemporâ- neas, a partir do método comparativo. O autor defende que: [...] um fenômeno religioso somente se revelará como tal com a condição de ser apreendido dentro da sua própria modalidade, isto é, de ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psico- logia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela linguística e pela arte, etc... é traí-lo, é deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e de irredutível, ou seja, seu caráter sagrado (ELIADE, 2008, p. 1). Não seria possível nos estender mais nesse levantamento, nosso esforço foi de selecionar alguns estudos e pesquisadores para demonstrar para você, caro(a) estudante, que o nosso tema de debate é muito complexo e pode ser visto de diferentes ângulos. É possível abarcar o discurso historiográfico, sociológico, antropológico, geográfico, psi- 16UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade canalítico e outros, e mesmo dentro de cada disciplina, teremos diferentes abordagens, que privilegiam uma ou outra dimensão do fenômeno religioso. Todos esses estudos são ferramentas que nos possibilitam olhar com maior criticidade para a complexidade desse objeto. Agora que temos uma compreensão teórica e analítica mais ampla sobre o assunto, passaremos a algumas características do fenômeno religioso na contemporaneidade. 1.4 Características do fenômeno religioso na contemporaneidade Para refletir sobre os fenômenos religiosos na contemporaneidade é importante que a gente considere a abordagem interdisciplinar. Não é possível admitir a ciência a partir de um método unicamente empírico, limitando o conhecimento ao nível da aparência. A complexidade da realidade social contemporânea exige uma reflexão sistemática e crítica. Filoramo e Prandi (2003, p.25) postulam: O interesse crescente pelas religiões vivas, por exemplo, obrigou sociólogos e psicólogos da religião a sair dos confins de uma sociologia e psicologia cristianocêntrica para confrontar-se com a globalidade do fenômeno religioso. Ou seja, estamos buscando elucidar que o nosso objeto de estudo exige um olhar crítico, científico, interdisciplinar ou transdisciplinar, que convoque várias ciências (filosofia, história, sociologia, psicologia, lingüística, física etc.) para a análise do fenômeno religioso na sua pluralidade. É importante situar historicamente a questão do desencantamento ocidental para compreender a difusão de um certo agnosticismo e rejeição da religião nos dias atuais. Essa passa a ser uma das estruturas básicas do que conhecemos como a modernidade. Os movimentos e modificações na esfera religiosa demandaram, a partir desse marco, um tipo de crítica, de distanciamento, de repulsa ou de reavaliação da religião fundante da civilização ocidental. As reformulações do campo religioso ou filosófico exigem uma compreensão das alterações que se dá também no campo cristão. Visto que a solução que apresentou-se por meio da elite constituída por céticos e agnósticos foi reformular radicalmente o que compreendia-se por cristianismo, sobretudo enquanto postura filosófica. Surgiram assim, no século XIX, vários cristianismos - heterodoxos, hereges, e por isso mesmo, modernos -, como os formulados por Schopenhauer, Kierke- gaard e Nietzsche. Além disso, outras tradições religiosas foram - talvez pela primeira vez na história do Ocidente - trazidas à discussão sem que fossem a priori consideradas inferiores; não necessariamente para ocupar o espaço do cristianismo, mas para qualificá-lo, se assim se pode dizer (CARVALHO, 1992, p. 138). 17UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade É importante também pensar em outro viés da religiosidade contemporânea, o mo- vimento esotérico. Reatualizado no século XIX em um contexto marcado pela crise histórica e cultural que convencionou-se chamar de desencantamento do mundo, o esoterismo esteve fundamentalmente ligado à elite intelectual européia. Contudo, paulatinamente, por meio de diversas mediações, influenciou uma parcela significativa de indivíduos e trouxe à tona questões relevantes sobre a religiosidade na era moderna como um todo. O esoterismo moderno pode ser compreendido como um grande movimento, intelectual e espiritual, que constitui a religiosidade contemporânea, e que trava com o cristianismo uma posição conflituosa. O esoterismo cresceu com base em uma crítica ao catolicismo, indicando que esse havia perdido o seu caráter iniciático, a dimensão do auto-conhecimento, além do seu aspecto político, que se distanciou da vida comunitária e legitimou o controle do Estado sobre o indivíduo. Sobre o assunto José Jorge de Carvalho (1992, p. 143) diz o seguinte: Talvez a maior consequência, para o cristianismo, dessa presença cada vez maior das tradições esotéricas e orientais, reside no fato de que começa a surgir um deslocamento da figura de Jesus Cristo, na medida em que crescem as propostas de diálogo inter-religioso: o Cristo passa a ser entendido como um princípio divino (como a natureza búdica, o Ishwara) e Jesus como uma encarnação, um avatar, uma manifestação histórica da divindade, equivalente ao Budha Shakya Muni, a Krishna, a Zoroastro, a Maomé, etc. Cabe salientar que esse processo de hibridização, sincretismos e deslocamento foi iniciado pelas tradições religiosas africanas no Brasil. Existem diversos pesquisadores que estudam sobre essas disputas no mercado religioso contemporâneo, como Reginaldo Prandi (2004). O autor indica que existemmanejos distintos de cada elemento simbólico, por parte de diferentes organizações religiosas, e por isso haveria enormes confrontos e tentativas de deslegitimar as práticas religiosas e crenças umas das outras. Esse campo de disputas não é recente. A partir do século XX, quando a Igreja Católica começa a perder sua posição hegemônica, inaugura uma abertura diplomática em relação aos “povos não-crentes” e passa a admitir o esforço pelo reconhecimento das religiões não ocidentais e de outros ramos do cristianismo. Desse modo, abandona a prática convencional de combate direto a outros cultos, o que já não tinha muita eficácia, criando aberturas para que outros cultos disputassem a legitimidade de sua presença no espaço social. Autores como Almeida e Monteiro (2000) postulam que o enfraquecimento da hegemonia católica possibilitou que a liberdade religiosa viesse a ser uma experiência social de mais amplo espectro. Outro elemento relevante para o estudo dos fenômenos religiosos na contempora- neidade é perceber o enfraquecimento dos papéis das instituições. Por mais que elas ainda 18UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade sejam expressivas, não podemos perder do horizonte a experiência de religiosidade não comportada em modelos tradicionais. O homem de hoje, que não se destina intimamente a uma religião [...] encon- tra-se diante deste fato em uma situação de indescritível inquietude. [...] No entanto, estas diferenças afetam unicamente os conteúdos da fé religiosa, mas não a posição da fé a respeito da realidade (SIMMEL, 2005, p.13). Simmel, (2005) identifica que a deterioração dos grandes sistemas religiosos está diretamente relacionada às instituições tradicionais. Nas palavras de Simmel, o que sub- sistiria “não seria a forma vazia da transcendência, que busca novo conteúdo com que se encher, mas algo muito mais profundo” (SIMMEL, 2005, p. 15). Simmel julgou possível pos- tular isso evocando a mudança de postura inaugurada por Kant (à qual se filiou), segundo a qual a religiosidade seria “uma íntima maneira de se conduzir a alma”. Avaliando as modificações recentes no campo religioso, Steil (2003) referencia os tipos ideais construídos por Troeltsch: igreja, seita e mística. O autor postula que para compreender a reconfiguração do fenômeno religioso na contemporaneidade, é imprete- rível olhar para um movimento histórico mais amplo da Igreja e da comunidade voltadas à mística. A mística indicaria formulações bastante variáveis, rápidas, congregando muitos, mas de forma instável, caracterizando-se por seus aspectos entusiastas e vibrantes em torno de uma figura carismática ou de um santo ( STEIL, 2003, p.148). Dessa forma, a secularização contribui para uma tendência de afastamento cada vez maior entre muitos indivíduos e as instituições religiosas, na contemporaneidade. Não significa necessariamente um esfriamento das religiões, mas sim um fortalecimento da autonomia individual sobre as escolhas religiosas. Podemos observar que no Brasil existe uma porcentagem crescente de pessoas que se declaram sem religião, mas que possuem crenças religiosas. Por isso, ao nos debruçarmos sobre o estudo das religiões enquanto conjunto de crenças e práticas, devemos manter em perspectiva tanto as crenças coletivas e individuais, quanto as práticas como definidoras de identidade. Conforme discussão sobre autonomia religiosa, as crenças religiosas são mantidas tanto pelas instituições religiosas, que assumem papel de autori- dade e de guardiãs de dogmas, doutrinas, teologias; quanto pelos sujeitos que se apropriam de tais crenças em seu cotidiano, podendo tanto reforçar o sentido recebido por meio da tradição familiar ou institucional como retra- balhá-lo e questioná-lo, especialmente em momentos de crise e de decisão pessoal (BELLOTTI, 2011, p. 300). Para concluir esse debate, que pretendemos nos aprofundar nas próximas unida- des, indicamos que a história do campo religioso brasileiro deve ser analisada como a do embate de dois vetores: a persistência do tradicional habitus flexibilizador, que pode levar a formas de sincretismo, e sua resistência às investidas das sucessivas racionalidades “modernas” (SANCHIS, 2003). 19UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade SAIBA MAIS Na história brasileira, e não só no campo religioso do Brasil, pesa a presença de uma predisposição estrutural à porosidade, mas não à confusão das identidades. Já que se trata de um habitus ancorado em sociogênese, o meio religioso, sobretudo o popular, mas não exclusivamente, vive e continua vivendo certo clima “espiritualista” que parece compartilhado – e modulado – por várias mentalidades segmentárias no Brasil. Orixás para alguns, mortos, santos ou entidades para outros, Nossas Senhoras que aparecem e vêm com homens, anjos, espíritos, forças cósmicas, demônios, ou tudo isso ao mes- mo tempo, espírito, enfim [...] A presença desta terceira dimensão do mundo está em toda a parte detectada (SANCHIS, 2003, p. 30). Fonte: SANCHIS, Pierre. A religião dos brasileiros. In: PEREZ, Léa Freitas; QUEIROZ, Rubem Caixeta de & VARGAS, Eduardo Viana (Orgs.). Teoria e Sociedade, Belo Horizonte, número especial: Passagem de milênio e pluralismo religioso na sociedade brasileira, p. 16-5, 2003. REFLITA Caro(a) estudante, você já havia parado para refletir sobre a relação da religiosidade com a pertença e notoriedade pública proporcionada por ela? Esse também é um as- pecto que constitui capital cultural individual e coletivo, pois possibilita a construção identitária e pertencimento a um grupo. Fonte: A autora. 20UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) estudante, concluímos aqui a incursão sobre Fenômenos religiosos e sociedade, proposto para a primeira Unidade. No corpo deste texto buscamos abordar diversos conceitos, definições e disputas analíticas para compreender nossa temática. Compreendemos que a religião representa o anseio do indivíduo de transcendência, no qual a humanidade encontra respostas às suas perguntas profunda. Postulamos que a religião contribui para a formação de estruturas imaginativas elementares sobre como nos orientamos ou deveríamos nos orientar no cosmos. Destacamos a importância desse estu- do porque ele revela a condição humana em seus aspectos mais profundos e misteriosos. Indicamos que o fenômeno religioso está para além das instituições, mesmo que por vezes seja organizada por elas. Abordamos a religiosidade como um aspecto da cultura que organiza pessoas com as mesmas crenças. Consideramos que muitos aspectos da vida social são diretamente orientados pelo filtro da religião, como o modo de vestir, se alimentar, cuidar do corpo, etc. Apresentamos estudos inaugurais que influenciaram consideravelmente a Ciência das Religiões, desde Max Müller, passando Tylor até Durkheim. Demonstramos também a existência de um debate teórico sobre modos de se perceber os fenômenos religiosos por parte de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, como o historiador Gerardus van der Leeuw, o psicanalista Sigmund Freud e o mitólogo Mircea Eliade. Por fim, destacamos algumas características dos fenômenos religiosos na con- temporaneidade, como a perda de centralidade da Igreja Católica, a abertura para outras filosofias que influenciaram o campo religioso, as disputas de diferentes religiões pelos elementos simbólicos e a diminuição da força das instituições. Com isso concluímos nossa proposta inicial e esperamos que o tema suscite seu interesse para buscar outras obras e autores que possibilitem o seu desenvolvimento inte- lectual e uma formação sólida e singular. Bons estudos! 21UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade LEITURA COMPLEMENTAR ● BERKENBROCK, Volnei J. A experiência dos Orixás. Um estudosobre a expe- riência religiosa no Candomblé. Petrópolis: Vozes, 1998. Frei Volney faz aqui um amplo e profundo estudo sobre o Candomblé: como é a cosmovisão que lhe está subjacente; a idéia da divindade; o que é orixá; o que significa o axé... Em seguida, procura esboçar uma resposta à pergunta: qual deverá ser a atitude de um cristão diante da experiência religiosa do Candomblé? Será possível um encontro fra- ternal e um diálogo frutuoso entre os seguidores de caminhos aparentemente tão díspares? ● MOREIRA, Alberto da Silva. O futuro da religião no mundo globalizado: painel de um debate. In: MOREIRA, Alberto da Silva; OLIVEIRA, Irene Dias (Organizadores). O futuro da Religião na sociedade global. Uma perspectiva multicultural. São Paulo – Goiânia: Paulinas – UCG, 2008, pp. 17-35. O tema gerador deste livro é a necessidade de um olhar multicultural para o futuro que a sociedade global reservada à religião. O debate sobre o presente e as tendências que se prospectam para o fenômeno religioso, no acelerado processo de globalização em que vivemos, envolve pesquisadores do mundo inteiro que, desde as especificidades de cada ciência e de cada país ou região, procuram compreender um fenômeno de alcance global. ● Jungblut, A. L. (2014). Globalização e religião: Efeitos do pluralismo global no campo religioso contemporâneo. Civitas - Revista De Ciências Sociais, 14(3), 419-436. https://doi.org/10.15448/1984-7289.2014.3.16483 Neste artigo discute-se alguns dos efeitos da globalização sobre a religião. São abordados as relações entre globalização e tradição e o efeito destradicionalizante deste processo ao favorecer a pluralização religiosa e, consequentemente, uma grande autono- mia identitária dos indivíduos em busca de bens religiosos. Para tanto, são analisados dois casos reveladores de dinâmicas distintas frente a esses processos todos. 22UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Expressões do Sagrado: Reflexões sobre o Fenômeno religioso Autor: Antonio Magalhães e Rodrigo Portella Editora: Santuário Sinopse: Embarcar no conhecimento das religiões pode tornar-se uma aventura prazerosa. Nessa obra, os autores perpassam, por meio de ensaios e reflexões, elementos básicos do universo religioso, descrevendo o caráter simbólico, antropológico e social da religião, além de tecerem considerações sobre identidades religiosas do povo brasileiro. FILME/VÍDEO Título: Uma Amizade Sem Fronteiras Ano: 2003 Sinopse: O dono de uma mercearia em Paris fica amigo de um garoto de 13 anos. O homem é muçulmano. O menino, judeu. Com o tempo, desenvolvem uma amizade transformadora para a vida dos dois. 23 UNIDADE II As Religiões Contemporâneas Professora Ma. Laís Azevedo Fialho Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga Plano de Estudo: ● A disseminação das religiões pelo mundo. ● As religiões no Brasil – do Catolicismo ao Islamismo Objetivos da Aprendizagem: ● Compreender o contato cultural como catalisador para formação e adaptação das religiões em diferentes sociedades no mundo e no tempo. ● Refletir como tal processo se deu na história das religiões no Brasil, suas ligações com o poder e com o cotidiano. ● Discutir como o indivíduo contemporâneo se orienta em relação a multiplicidade de religiões, crenças e práticas presentes no mundo. Plano de Estudo: ● A disseminação das religiões pelo mundo. ● As religiões no Brasil – do Catolicismo ao Islamismo Objetivos da Aprendizagem: ● Compreender o contato cultural como catalisador para formação e adaptação das religiões em diferentes sociedades no mundo e no tempo. ● Refletir como tal processo se deu na história das religiões no Brasil, suas ligações com o poder e com o cotidiano. ● Discutir como o indivíduo contemporâneo se orienta em relação a multiplicidade de religiões, crenças e práticas presentes no mundo. 24UNIDADE II As Religiões Contemporâneas INTRODUÇÃO Olá estudante da disciplina “Fenômeno Religioso na contemporaneidade e educa- ção”, na unidade a seguir, iremos conversar como as pessoas se comportam em relação à religião em nossa sociedade. Para retomarmos a unidade anterior, o debate começa com uma reflexão a partir de uma cena idílica, como a humanidade a milhares de anos atrás sentia a manifestação do sagrado e como esse sentimento se tornou as religiões que conhecemos hoje? Caso convivêssemos com determinada prática todos os dias, uma religião comple- tamente estranha aos nossos padrões, por quanto tempo permaneceria assim? Por que os conflitos religiosos, em pleno século XXI, ainda são um problema sério para vivermos melhor em sociedade? Como a história do Brasil pode nos ensinar a compreender a im- portância do poder, do tempo e do convívio nas transformações observadas em nossa sociedade? Perguntas difíceis que, de coração, espero contribuir para o aperfeiçoamento de sua interpretação sobre o assunto. Bons estudos! 25UNIDADE II As Religiões Contemporâneas 1. A DISSEMINAÇÃO DAS RELIGIÕES PELO MUNDO 1.1 Indivíduo, religião e poder. Você já se perguntou como foi a primeira vez que uma pessoa sentiu o que depois iríamos denominar de sagrado, a manifestação da presença divina na Terra? Imagine homens e mulheres na beira de uma caverna esculpida entre montanhas. Na sua frente, uma planície é ocupada por árvores espaçadas no meio da vegetação gramínea, paisagem que se estende ao horizonte, onde o céu anuncia a transição do dia para a noite em um espetáculo de cores quentes e frias de uma forma que nós, modernos e com a natureza bastante modificada por essa modernidade, talvez apenas em sonhos muito bons podemos imaginar. Um ambiente bastante seguro também, a caverna nas montanhas, além da vista maravilhosa, fornece proteção a predadores, abafa a conversa e a luz das fogueiras, dá visão para estrangeiros que se aproximarem. Depois de um dia de atividade intensa, cansa- das e seguras na caverna, poderia essas pessoas acalmar seus instintos de sobrevivência, e assim contemplassem um pôr-do-sol? Sem tantas preocupações, não que isso aconte- cesse sempre, mas basta uma ocasião pra começar, é possível que ali a humanidade, na forma de seus indivíduos, tenha se dado o espaço de se perguntar: quem sou eu? Qual a minha função nisso tudo? Quem me criou? Como indica Mircea Eliade (1992), em O Sagrado e o profano, o firmamento éo principal símbolo de diferentes culturas para se referir à morada dos deuses. Sioux, aborí- 26UNIDADE II As Religiões Contemporâneas genes, vikings, tupis ou fulanis, em cada canto do mundo a principal relação religiosa com o céu é que, além da abóbada, se encontra a divindade suprema e criadora do universo. Outro ponto em comum entre esses povos é que suas crenças datam de datas milenares em distância, sendo improvável estabelecer um ponto de início. A relação com o sagrado se perde no tempo e é possível que já tenha nascido com nós, uma genética de buscar enxergar o invisível. No entanto, quando passamos do possível para o provável, o tempo ainda tem mostrado a religião intrinsecamente ligada ao poder. Na unidade anterior já pudemos perceber tal configuração. Com o racionalismo do século XIX, a sociedade europeia buscou explicar cientificamente a superioridade cultural de certos povos sobre os outros. Para retomarmos, Edward Tylor, em Primitive Culture, publicado em 1871, compreende que as religiões evoluem em hierarquia, da mais simples e instintiva às mais complexas e racionais. Em linhas gerais, temos o animismo na base, a crença de que o mundo está repleto de deuses que se manifestam em todo tempo, até o topo onde se concentra o protestantismo monoteísta, que compreende que as formas da natureza não são deuses com vontade própria e por isso não deveriam adorá-los, pois o que vem adiante é o pensamento abstrato deum único deus, complexo, que não se encontra em lugar nenhum, mas está em todos os lugares. No Brasil, a visão de Tylor foi compartilhada em escritos de Raimundo Nina Ro- drigues ao final do século XIX no Brasil. Os dois cientistas concordavam em praticamente tudo, a não ser por uma diferença. Para Nina Rodrigues, o catolicismo com seus santos é que representavam a máxima evolução dos pensamentos religiosos na humanidade de seu tempo. Curiosamente, ambos os cientistas adotaram como superior algo muito próximo da religião que praticavam. Outra coincidência importante, é o fato de que no período que escrevem, elites da Europa e América crescem com a exploração de suas colônias ou ex-colônias. Ao mesmo tempo, nos países colonizadores aumenta em adeptos as ideias de que todo indivíduo tem o mesmo valor e portanto os mesmo direitos, como na Constituição Americana e no lema da Revolução Francesa. Como submeter a condições que você não gostaria, alguém que é igual a você? Para contornar este dilema, foi incentivado a crença na existência de indivíduos biológica e culturalmente superiores a outros. E isso poderia se medir por meio de avanços tecno- lógicos, nos costumes, na língua, entre outros. A religião foi um importante instrumento de classificação nessa análise, e era comum ser considerada superior a mesma religião 27UNIDADE II As Religiões Contemporâneas praticada pelo grupo de cientistas que a qualificou assim. Na II Guerra Mundial, a ideia de pureza racial e cultural culminou no extermínio de milhares de judeus, antes submetidos a condições de subnutrição, frio, tortura e trabalhos forçados. Foi mais do que suficiente para qualquer ideia como essa ser veemente combatida e considerada crime em muitos lugares. O pensamento de superioridade racial/cultural perde o sentido se seu grupo está para ser qualificado assim. 1.2 O espanto, o encanto e a distância.. Quando nos deparamos com a realidade de uma religião diferente, automaticamente comparamos com a nossa cultura. O fato do diferente existir, significa que existem pessoas indo para outras direções, o que coloca em cheque nossas visões de mundo e a coesão do grupo do qual pertencemos. Uma cultura diferente costumava causar mais estranheza a al- guns séculos atrás, quando os meios de comunicação quase não eram acessíveis. Quando alguém viajava para um lugar desconhecido não fazia ideia do que esperar. Algumas coisas espantavam, outras encantavam, mas dificilmente os primeiros registros de um viajante do período medieval, por exemplo, consideram uma cultura estrangeira superior à sua cultura de origem. O relato a seguir quase foge a essa regra. Jean de Léry, missionário calvinista francês, se estabelece no Brasil por dez meses, onde escreveria os relatos reunidos em História de uma viagem à terra do Brasil, publicada pela primeira vez em 1578. Sua narrativa tem as terras brasileiras como lindas e produti- vas, vastas e ricas em recursos naturais. Respeitoso, considerando os padrões da época, descreve os costumes dos tupinambás com bastante detalhes, constituindo-se uma das principais para o estudo das práticas religiosas indígenas no início da exploração europeia. No entanto a nudez dos tupinambás é tida como estranha e sedutora coisa não menos estranha e difícil de crer para os que não os viram, é que andam todos, homens, mulheres e crianças, nus como ao saírem do ventre materno. Não só não ocultam nenhuma parte do corpo, mas ainda não dão nenhum sinal de pudor ou vergonha (LÉRY, 1960, p. 112). quero responder aos que dizem que a convivência com esses selvagens nus, principalmente entre as mulheres, incita à lascívia e à luxúria. (…) Os atavios, arrebiques postiços, cabelos encrespados, golas de rendas, anquinhas, sobre-saias e outras bagatelas com que as mulheres de França se enfeitam e de que jamais se fartam, são causas de males incomparavelmente maiores do que a nudez habitual das índias, as quais, entretanto, nada devem às outras quanto à formosura (LÉRY, 1960, p. 171-172). Esta dinâmica de encanto e repulsa é percebida por François Hartog (1999), em O Espelho de Heródoto. Ao trabalhar com os relatos de Heródoto em suas viagens a povos vizinhos de sua nação, Hartog nota que o grego só consegue descrever aquilo que enxerga 28UNIDADE II As Religiões Contemporâneas por meio de uma tradução, ou seja comparando o que vê com palavras e objetos de sua cultura com o que conhecia nas jornadas. Por exemplo, na narrativa de uma viagem ao Egito, a tradução denominaria um deus do Olimpo para cada deus egípcio. Ao escrever para sua sociedade politeísta, o grego consideraria os povos que cultuavam um menor número de deuses, como menos desenvolvidos. O que nos lembra o caso de Tylor e Nina Rodrigues, pois partiram do cristianismo e considerando ignorantes aqueles politeístas, menos complexos conforme a maior quantidade de divindades de culto. Hartog também defende que a distância entre observador e observado é essencial para que se produza ou encanto ou espanto no processo de tradução para a própria rea- lidade. É uma distância material, geográfica, entre duas cidades, por exemplo. E trata-se de quão distante o observador se coloca diante da cultura e pessoas que ele observa. Se alguém é visto como inferior, tem ressaltada apenas características ruins. O pensamento de uma cultura superior, uma religião superior ou uma raça impedem um diálogo produtivo entre as partes. Visto que tudo que é produzido por quem é inferior, logo suas ideias e cultura, também é inferior. Com o distanciamento se justificam massacres religiosos como o imposto pelos romanos aos cristãos e, depois, o que os cristãos impuseram aos hereges. Nos dois casos aquilo que era diferente foi considerado inferior e perigoso. Principalmente para as autori- dades religiosas da época que lidavam com uma crença concorrente. Admitir a possibili- dade do outro crer em algo diferente, e conduzir uma vida comum, coloca em questão as estruturas e práticas de sua sociedade, lentamente podendo modificá-las. Uma mudança que põe em cheque não a vida do indivíduo, mas a saúde das instituições cujas normas são contraditas por uma nova visão de mundo. O cidadão ro- mano comum teria uma religião a mais para escolher com o cristianismo, nada mais, nem menos. O mesmo pode se dizer do camponês na Idade Média em relação aos conflitos entre protestantes e católicos. Depois de muita perseguição, nos dois casos foi o que aconteceu, uma ou várias religiões foram criadas. Mas como uma instituição que controla, como a Igreja ou o Império Romano podem ter falhado em combater crenças formadas nos calabouços e outros locais secretos, com cultos realizados quase em silêncio não por uma opção de prática religiosa, mas por sobrevivência? 29UNIDADE II As Religiões Contemporâneas 1.3 O contato e a fronteira. A partir de Hartog (1999), podemos compreender que a resposta é: o contato. Se o distanciamento provoca estranheza, medo, preconceito, a aproximação com o tempo tende a atenuar as diferenças e inclusive unir elementos que antes aparentavam irreconciliáveis. Para tanto, é necessário perceber o outro como um igual. Voltemos ao caso de Jean de Léry para ilustrar essa situação. Ele estava entre os colonos e dois ministros anglicanos enviados para abrir um braço da Igreja Reformada de Genebra na Baía de Guanabara, considerando igreja um pequeno grupo de fiéis reunidos, sem a necessidade de um templo ou local fixo, a primeira igreja protestante no Brasil fun- cionou por meio de Léry e seu grupo. Essas pessoas atendiam a um pedido de Nicolas Durand de Villegaignon, expe- dicionário francês que tentava conquistar parte do território da América Portuguesa. No entanto, Villegaignon que se dizia simpático ao protestantismo, não gostou das ideias dos missionáriose passou a acusá-los de heresia. O grupo de Léry viveu oito meses bem desconfortáveis na colônia e mais dois meses junto a índios tupinambás porque a convivência com o expedicionário-chefe tornou- se arriscada. Dez meses depois da chegada dos reformados franceses ao Brasil, o navio que os levaria de volta à França estava pronto, mas por falta de espaço, cinco homens precisariam aguardar a próxima embarcação. Dentro de algumas semanas foram presos, condenados na inquisição francesa e executados na fogueira após uma carta de confissão onde assinavam negando a fé católica. No período em que foi acolhido por tupinambás, os missionários e os índios se tornaram iguais. O francês descreve que todos foram o tempo todo muito bem tratados. Ou seja, na companhia dos nativos, de maneira geral considerados incultos, pagãos e transformados em escravos pela maioria que chegava ao Brasil, os franceses protestantes receberam mais respeito do que os franceses católicos. Não por acaso, em suas últimas páginas, Léry mostra sinais de que as diferenças culturais e de contato o fazem refletir. O missionário relativiza a violência dos ritos canibais dos tupinambás com os povos considerados inimigos, o trecho a seguir sucede a descrição dos preparos para o banquete do inimigo capturado Poderia aduzir outros exemplos de crueldade dos selvagens para com seus inimigos, mas creio que o que disse já basta para arrepiar os cabelos de horror. É útil, entretanto, que ao ler semelhantes barbaridades, não esque- çam os leitores do que se pratica entre nós [...] Não abominemos portanto demasiado a crueldade dos selvagens antropófagos. Existem entre nós criaturas tão abomináveis, se não mais, e mais detestáveis do que aqueles que só investem contra nações inimigas de quem tem vingança a tomar. Não é preciso ir à América, nem mesmo sair de nosso país, para ver coisas tão monstruosas (LÉRY, 1960, p. 203-204). 30UNIDADE II As Religiões Contemporâneas Se, em dez meses, Jean de Léry chegou a comentar que os tupinambás eram melhores companhias que seus compatriotas franceses, imaginem como um contato prolongado, de décadas, modificaria sua opinião. No mundo contemporâneo, cercado de informações, o indivíduo tem contato frequente com o diferente. Mas o que diz se ele vai olhar para aquela cultura como um igual ou sentir medos e preconceitos é a hierarquia, a distância com que enxerga o outro. Em Hibridismo Cultural, Peter Burke (2003) entende que é na fronteira que as tro- cas culturais acontecem. Essa região de fronteira pode ser pensada no seu sentido físico, quando o território de uma nação se encontra com o de outra. Mas também zonas de intensa movimentação de pessoas e mercadorias, como os portos e cidades turísticas. É em locais fronteiriços que os principais conflitos do mundo contemporâneo acon- tecem: a faixa de Gaza entre Israel e a Palestina, a divisa entre Norte e Sul nas Coreias, os muçulmanos que moram entre a China e o Afeganistão e Cazaquistão, os latinos e estadunidenses na América do Norte, a linha vermelha que separa favela e cidade no Rio de Janeiro. O encontro de dois governos, dois modos de vida, duas realidades. Se prolongado, no contato com o diferente todos os dias, a depender das circunstâncias, a violência dá lugar ao convívio de tolerância e, naturalmente, conforme relações de amizade, comércio, trabalho e amor são construídas, uma identidade nova surge que não é exatamente igual a nenhum dos lados do conflito. Mas o que dizer dos embates e preconceitos que se arrastam por décadas ou séculos? Nesses casos, é difícil não existir um interesse político que de alguma forma obtém vantagens dessa polarização. É o que podemos refletir ao olhar mais detidamente para a disseminação das religiões no Brasil. 31UNIDADE II As Religiões Contemporâneas 2. AS RELIGIÕES NO BRASIL DO CATOLICISMO AO ISLAMISMO. 2.1 Poder e fragmentação religiosa em Portugal e no Brasil. Durante o período europeu das Grandes Navegações, a Igreja Católica exerceu papel fundamental, visto que representava a postura diplomática interna e externa de um continente. Aqui destacamos algumas das funções que a instituição eclesiástica dispunha aos europeus: ● firmava tratados de exploração sobre as terras que recém-conheciam; ● atestava sua presença em determinado território (com a construção de templos destinados a santos ou ordens religiosas comuns àquela nação); ● registrava empréstimos e relações comerciais, condições de juros e consequên- cias de não pagamento de dívida. Por funções tão importantes, a Igreja Católica é personagem das narrativas primor- diais sobre o Brasil. Como na missa realizada em 1500 por frei Henrique de Coimbra, assim que os portugueses pisaram no solo que se tornaria nosso país. Logo que uma colônia apresentava sinais de crescimento, determinada ordem religiosa poderia ser requisitada para prestar serviços básicos de saúde, alimentação ou comunicação, por exemplo, algo que expressamente fazia parte da missão de angariar novos fiéis. Quando a escravidão passa ser adotada como principal mão-de-obra, o discurso católico define as diferenças entre a alma indígena, africana e europeia e os motivos de cada uma ocupar um papel desigual na hieraquia daquela sociedade (OLIVEIRA, 2007). 32UNIDADE II As Religiões Contemporâneas O catolicismo era a religião oficial, a única permitida de construir templos e reali- zar cerimônias públicas. Nas vilas e cidades que se formavam, o padre ou o bispo eram autoridades de grande poder e representavam a conexão entre os interesses das elites (membros da Coroa, grandes fazendeiros) e todo restante da população. Conforme, Lísias Nogueira Negrão (2008), no Brasil Colonial ser católico não era uma questão de escolha O catolicismo foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque. Já os judeus, sob a pressão de serem perseguidos pelos inquisidores, de perderem seus bens ou mesmo suas vidas, preferiram, em geral, tornar-se “cristãos novos’’. (NEGRÃO, 2008, p. 263). Para que uma coisa seja proibida é por que ela é usualmente praticada, certo? Não tem sentido proibir algo que ninguém faz. A prática de outras religiões em Portugal já era considerada um problema muito antes do descobrimento do Brasil. A península ibérica entre os séculos VIII e XI era território muçulmano, e não ca- tólico. Sob regime islâmico, os portugueses experimentaram algo próximo da liberdade religiosa, havendo relatos da presença das crenças católica, muçulmana, judia e dos povos chamados bárbaros que ali viviam, como godos e visigodos. Os muçulmanos fundaram as primeiras universidades da Europa, como a Universidade de Salamanca, em 1134. Sem o conhecimento produzido e compartilhado nesses locais, Portugal, Espanha não teriam sido os primeiros estrangeiros a colonizar a América, visto que tal feito apenas foi possível com a herança árabe das habilidades matemáticas de engenharia, tecnologia náutica e construção. Figura 1 – Mesquita de Córdoba, Espanha, construída entre os séculos X e XI sob domínio muçulmano Fonte: https://umpouquinhodecadalugar.com/europa/espanha/a-grande-mesquita-de-cordoba/ 33UNIDADE II As Religiões Contemporâneas Figura 2 - Catedral Sé de Lisboa, Portugal, fundada no século XII e construída a partir da antiga Mesquita de Lisboa. A arquitetura gótica de influência árabe foi adotada em templos católicos de todo o mundo. Fonte: https://www.cidadeecultura.com/se-de-lisboa/ Os judeus formaram grupos de habitantesna Europa, ao menos desde o século IX, e foram mais ou menos perseguidos, conforme a atmosfera política e religiosa. Com as Cruzadas, o contato entre católicos e judeus se tornou comum, sobretudo na atividade financeira. Da Europa Oriental, o povo israelita se desloca para diferentes regiões, confor- me oportunidades de comércio, trabalho e ambiente de tolerância religiosa. A Península Ibérica, mesmo conquistada pelos católicos, foi adotada como destino de judeus, pois além de serem mercados efervescentes, Portugal e Espanha conservaram certo nível de convi- vência entre religiões, até as Inquisições dos séculos XVI e XVIII. As rotas católicas estabelecidas com as Cruzadas e os caminhos islâmicos sobre a África do Norte foram também meios de acesso dos povos romani e tingi, depois a ambos se denominaria ciganos. Não sendo famosos por seu poder político ou econômico, tais povos formavam comunidades em diferentes regiões da Europa, seguindo critérios semelhantes aos dos judeus sobre onde se estabelecer. Não eram um grupo isolado e em Portugal, após o Descobrimento, muitas famílias ciganas se mesclaram à população local. Possuem até hoje práticas religiosas características onde, além de divindades próprias, adotaram preceitos e ideias cristãs, hinduísmo, zoroastrismo e islamismo. 34UNIDADE II As Religiões Contemporâneas No Brasil do final do século XIX, indícios apontam ciganos e africanos realizando juntos um culto de dimensão pública para Oxumaré, divindade símbolo da mudança e dos ciclos, representada pelo arco-íris e pelas serpentes. A sacerdotisa é uma portuguesa reforçada, que se chama Maria Matos da Sil- va.Só são permitidos pescadores na festa, e os pescadores vão de toda parte ao culto singular. A casa de Maria Silva fica mesmo no ponto dos bondes, e nos dias de festa está toda adornada de folhagens e galhardetes. Todos, lavados e de roupas claras, a dona da devoção manda buscar os negros feiticeiros para preparar os ebós e fazer a matança dos animais. Ela própria deita as cartas para saber quem deve ir levar os sacrifícios e os desejos sutis do Arco-íris. (RIO, 1906, p. 70). É possível que Maria Matos da Silva, a portuguesa sacerdotisa do mar, seja de descendência cigana. De bagagem cultural muito diferente do almejado pelos reinos de Espanha e Portugal, os ciganos possuíam práticas religiosas, roupas e inclusive um idioma próprio, tornando-os alvo de tentativas de normatização por meio de medidas integradoras. Logo, os ciganos não poderiam se comportar como tal. Entre as punições aos desvios estava o exílio nas colônias portuguesas, como o Brasil dos séculos XVI ao XVIII, fato que não impedia migrações voluntárias. Dado esse quadro, não é difícil imaginar um contexto social no Brasil Império e República Velha, no qual as duas culturas, afro-brasileira e cigana, partilham de ambientes comuns. Voltando a Portugal pré-descobrimento, os reinados oficialmente católicos escon- diam uma sociedade de identidade religiosa fragmentada. Onde hábitos e crenças cató- licas, muçulmanas, judias, ciganas e pagãs (o período dos godos e visigodos deixaram marcas na cultura religiosa, ainda que o cristianismo tenha sido adotado pelos reis góticos a partir de 240, a crença politeísta e suas práticas se embrenharam no cotidiano popular).e contrastavam com a pressão do Estado por uma religião e oficial. A partir do século XVI, com a exploração das Américas e com Estados que cami- nham para o Absolutismo, onde a Reforma Protestante não conseguiu chegar de maneira a desestruturar a instituição católica (caso de Portugal, Espanha e França, por exemplo), a Igreja se consolida como a grande representante da cultura. Para isso, contou com o apoio da nobreza e ao mesmo tempo a fortaleceu. 35UNIDADE II As Religiões Contemporâneas 1.2 A cultura nunca para, religiões proibidas e praticadas. Nas colônias, o catolicismo fazia parte irrestrita do dia-a-dia. Conforme Negrão (2008), a obrigação de ser católico fazia com que uma pessoa praticasse a mesma religião com diferenças marcantes conforme o setor da sociedade em que estava inserido. A Igreja trabalhava junto aos senhores de engenho e altos funcionários da Corte, o padre realizava cultos públicos nas residências e muitas vezes era responsável pela educação das crianças. Comportava-se como a voz calma e benevolente do patrão para seus funcionários, escravos e filhos, já que o patriarca deveria ser austero, o padre era quem negociava com palavras dóceis a tranquilidade do local. Este era o catolicismo dos portugueses. Indígenas, africanos e seus descendentes embora fossem católicos, ou forçados a assim dizerem, não abandonaram suas religiões de origem. Ao contrário, sempre que houve uma brecha no catolicismo, ela foi ocupada por uma prática religiosa africana ou indígena quando se relacionava com a cultura da grande população. Mais do que isso, muitos preceitos religiosos oriundos de culturas não-monoteístas foram absorvidos no comportamento brasileiro, independente de uma religião. Por exemplo ● a crença em espíritos; ● a crença em mal-olhado ou ‘olho gordo’; ● os rituais de fim de ano, como vestir-se de branco e pular sete ondas; ● o recurso de práticas divinatórias, como as cartas de tarô e os búzios; ● a presença das benzedeiras como autoridades religiosas que identificam e tratam problemas do dia-a-dia, doenças e partos. Neste universo religioso brasileiro, que Negrão (2008) identifica como catolicismo popular, as crenças se misturam e ganham particularidades conforme o povo que ali habita. Em Salvador, os africanos em sua maioria do povo iorubá, manteve certas caracte- rísticas tradicionais de sua terra natal, como os orixás, os ritos de iniciação e cânticos em língua iorubana, são os primeiros anos do que se chamaria depois de Candomblé. No Rio de Janeiro, o povo banto consistia na maior nação de pessoas escraviza- das, de seu culto aos ancestrais, onde os mortos estão sempre participando da vida dos vivos, se popularizaram os exus, caboclos, pombagiras, divindades que representavam personagens do cotidiano daquela época, o homem violento ou o malandro habilidoso, que sobreviviam no contexto urbano insalubre e perigoso, o indígena que lutava contra o 36UNIDADE II As Religiões Contemporâneas pretenso processo civilizatório, a mulher que por alguma razão foi posta à margem e pra existir precisava assumir uma postura impositiva, sem medo de se mostrar como ser dotado sexualidade ou de usá-la como bem entendesse. Em um processo de embranquecimento, como estudado por Ortiz (1978), os cultos cariocas serviriam de base para a Umbanda. Apesar de observarmos nuances regionais, o contato entre diferentes culturas africanas, indígenas e europeias produziu semelhanças. Por exemplo, a adoção de santos católicos para representar também os orixás é algo presente em religiões afro-brasileiras de todo país. A crença na reencarnação e na atividade dos espíritos na terra, bem como a elaboração de ritos que visam controlá-los (acalmar, ordenar, expulsar, proteger, entre outros). E a crença em Jesus Cristo e em um deus onipotente e onisciente é praticamente unanimidade. Diferente do que pode ser apontado na tradição africana, onde não existe um culto a Zambi ou Orunmilá, o Criador. Pois parte do pressuposto de que o culto é uma forma de ajudar a si mesmo e outras pessoas mas também de ajudar as divindades, Deus-Criador não precisaria dessa ajuda. Figura 3 – Altar identificado à Tenda Mãe Maria de Camargo, de Umbanda e Candomblé Fonte: https://maemariadecamargo.blogspot.com. Na foto podemos identificar entre outras representações, a de São Sebastião (à esquerda, dorso nu) que também é Oxóssi, Jesus (acima, em posição central), que é Oxalá, São Jorge (lateral inferior direita, montado em um cavalo), queé Ogum, os gêmeos São Cosme e São Damião (lado inferior esquerdo, não conseguimos identificar a figura entre os dois, mas por ser de tamanho menor, pode ser a representação de uma criança, um símbolo de Ibeji e da qual eles são protetores) também são Ibeji. 37UNIDADE II As Religiões Contemporâneas Essa atmosfera multipolarizada e a relação com a Igreja Católica, pode ser com- preendida também por meio de H. Bhabha (2005), onde constatamos a existência de duas realidades diferentes: a primeira, fundada na presença de uma tradição católica, na memória e nos escritos do país com uma abrangência, que teria como consequência “produzir autoridade sem a necessidade de uma ação imperativa” (BHABHA, 2005, p.182). Ou seja, chega um momento, depois de gerações de conversão compulsória, que um indivíduo nascido nessa sociedade simplesmente acredita naquilo que as instituições predominantes engenharam. Dessa forma, a relação entre Igreja e elite social, devido a presença maciça do catolicismo no dia-a-dia do Brasil Colônia e Império, produziu o efeito de realidade mencio- nado. Como consequência, o passado torna-se uma reprodução das intervenções dessas instituições. O mesmo efeito corrobora para que outras manifestações religiosas passem des- percebidas. Por exemplo, podemos concordar que há algum tempo atrás a cultura religiosa africana ou indígena não era nem mesmo mencionada em livros didáticos. Algo que só mudaria com a lei 10.639, que institui o ensino da história e cultura africana e indígena obrigatório nas escolas. Não se trata necessariamente de uma conversão, muito menos a vitória de uma crença sobre outra. Na verdade, é prudente questionar como diversas religiões/culturas religiosas que demoraram milênios para se desenvolverem, praticadas por milhões de indivíduos, desapareceram, em alguns casos por completo, em menos de 300 anos. No meio acadêmico, as respostas têm passado pela violência do Estado e perseguição social. Mas e as outras religiões, como islamismo, judaísmo e as próprias religiões protes- tantes, por exemplo, não adotaram os santos católicos ou algo do tipo? Esta é uma questão de difícil resposta. Ao pensarmos o Brasil Colônia e Império, comparado a africanos e indí- genas, o contingente de árabes e judeus que se estabeleceram aqui é bastante reduzido. A respeito dos protestantes, o período da Reforma coincide com os Descobrimen- tos, o que faria esperar um número considerável de fiéis chegando ao Brasil. No entanto, em Portugal, os questionamentos à Igreja Católica não surtiram as mesmas consequências como na Holanda, Alemanha e Inglaterra. Sendo assim, não há registros de portugueses protestantes no período colonial. Entretanto, havia franceses e holandeses calvinistas. A respeito do primeiro grupo relatamos seus desdobramentos no tópico 1, para pensar a importância do contato na disseminação de religiões pelo mundo. No caso holan- dês, o anglicanismo havia sido adotado como religião oficial dos Países Baixos. A Igreja 38UNIDADE II As Religiões Contemporâneas Reformada Potiguara, foi fundada entre 1624-1625 com o trabalho de europeus e indígenas. Inclusive, dois brasileiros nativos foram enviados para Holanda, a fim de que recebessem instrução teológica, assim que ajudaram a concluir as obras do templo. Fixados principalmente na região de Pernambuco, os holandeses permaneceram no Brasil até 1654, chefiados por Maurício de Nassau, quando o exército da corte portugue- sa pressionou ao ponto de rendição. Na colônia holandesa, a liberdade religiosa e política era garantida por lei. Assim foi possível criticar qualquer rei sem o risco da pena de traição, ou construir um templo para sua religião, agendar cultos sem a necessidade de aprovação prévia ou professar uma fé específica. Neste ponto a história do judaísmo se cruza no Brasil com o anglicanismo em ter- ras brasileiras. No contexto de tolerância religiosa, instituído nas colônias da Holanda, que a primeira sinagoga do Brasil foi fundada, a Sinagoga Kahal Zur Israel (‘Rocha de Israel’). Formada por judeus que vieram para América com a promessa de liberdade religiosa, logo que os portugueses reconquistaram Recife, os israelitas migraram de lá, desembarcando em Nova Amsterdã, colônia inglesa que depois se tornaria a cidade de Nova Iorque. Figura 4 – Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira do continente americano Fonte: http://senhorahistoria.blogspot.com/2010/07/ Porém essas não foram as únicas e nem as primeiras pessoas judias a se esta- belecerem no Brasil. Os chamados cristãos novos são os judeus portugueses e espanhóis que tiveram seus rituais e práticas proibidos, e imposta a obrigação de cultuar a fé cristã. 39UNIDADE II As Religiões Contemporâneas É provável que muitos continuaram com seus ritos em espaço íntimo, fora dos olhos da sociedade. Aqueles que eram vistos em práticas consideradas judaicas, como nunca comer carne de porco, jejuar em determinados períodos ou não frequentar as missas, seria denunciado e condenado na Inquisição. Deste contexto, não existem relatos de qualquer organização judia na América portuguesa antes do século XIX. As transformações ocorridas no mundo durante o século XIX (Rev. Francesa/ Rev. Industrial/ Independência dos Estados Unidos) afetam radicalmente a forma como a Igreja Católica tratam os praticantes de outras religiões. Entretanto, a Coroa Portuguesa embora cedesse em alguns aspectos, não reagiu com grandes mudanças. Somente com a passagem do Brasil para República, entre as décadas de 1870 e 1890 é que os primeiros templos não-católicos foram permitidos por lei. De início, vemos surgir as primeiras organizações religiosas, como os protestantes do Rio de Janeiro, à época capital do Império. Na cidade de Belém, a segunda sinagoga do Brasil, e a mais antiga ainda em funcionamento, é construída por judeus marroquinos, em 1824. Os muçulmanos organizaram em 1835 a Revolta dos Malês, um movimento de re- sistência liderado por africanos de regiões onde o Islã constituía uma das crenças principais. A devassa finda com com seus participantes mortos em batalha ou presos e deportados. No período, acompanhamos um desenvolvimento econômico mais acentuado no país, além de uma notável expansão das metrópoles. O aumento da população urbana e a concentração de pessoas na cidade fez com que a diversidade religiosa se tornasse impossível de disfarçar. 1.4 Brasil, entre as crenças plurais e a conversão. Logo no início do século XX, em 1906, As religiões no Rio, do escritor e jornalista João do Rio, descreve uma cidade com a presença de pelo menos quinze diferentes cultos bastante organizados. Com a imigração de europeus, japoneses e sírio-libaneses, a diversidade religiosa se torna uma característica brasileira. Templos budistas são erguidos no interior e na capital paulista. Variadas religiões cristãs, como a Congregação, surgem e formam suas sedes brasileiras nas duas primeiras décadas dos anos de 1900, quando percebem que a perse- guição do Estado brasileiro realmente foi amainada. No Sul, o luteranismo alemão surge, assim como o catolicismo ortoxo dos ucranianos, por exemplo. Mesmo em um Estado laico, de tolerância religiosa, aconteceram conflitos entre católicos e membros de outras crenças, muitas vezes apoiada pela própria instituição cató- 40UNIDADE II As Religiões Contemporâneas lica e autoridades públicas. Embora legalmente, todas religiões estivessem protegidas, leis específicas para ritos africanos ou tornavam seus praticantes criminosos ou os obrigavam a se adaptarem a um modelo melhor visto pela cultura cristã-ocidental. Por exemplo, o artigo 284 do código penal brasileiro delimita o seguinte: Exercer o curandeirismo: I – prescrevendo, ministrando ou aplicando, habitualmente, qualquer substância; II – usando gestos, palavras ou qualquer outro meio;III – fazendo diagnósticos: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. Ou seja, pais ou mães-de-santo, videntes, benzedeiras e até praticantes de qual- quer religião afro-brasileira podem ser enquadrados como criminosos, mesmo nos dias de hoje. Basta uma denúncia, o encaminhamento do delegado e a aceitação do juiz. No entanto, no cenário atual esta condenação caiu em desuso. E podemos dizer que ela serviria para quase toda prática religiosa, afinal são raras as práticas que não se utilizam da imposição das mãos ou mesmo uma oração, por exemplo, como mecanismos de cura. No entanto, como relata, Ortiz (1978) e Prandi (1990) são as lideranças de terreiros que na maioria das vezes cairam em um processo penal por esse crime. Os próprios tam- bores característicos dos ritos de matriz africana foram obrigados ao silêncio, perseguidos por denúncias de perturbação do sossego. A partir da década de 70, o cenário religioso se altera com uma nova onda de crescimento urbano. O processo de êxodo rural, sobretudo para as capitais, intensificou o fenômeno da diversidade religiosa. É considerada uma época de ouro para as religiões africanas que, mesmo durante a ditadura militar, assistiram a um processo de liberdade re- ligiosa e crescimento a partir da busca de uma identidade nacional. Nas rádios, as canções de Clara Nunes, Caetano Veloso, Martinho da Vila, entre outros, exaltam divindades do universo religioso afro-brasileiro, de orixás a entidades espirituais. Na década de 1980 as religiões evangélicas e pentecostais surgem e na década de 1990 se consolidam como uma realidade pujante. Período em que foram fundadas a Igreja Presbiteriana Renovada e a Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, além de um número não rastreável de templos independentes, com cultos que precisavam de um pastor e uma bíblia para acontecer, às vezes sem um público específico, em algum espaço movimentado das cidades. 41UNIDADE II As Religiões Contemporâneas Crenças que conquistaram a população por sua simplicidade nos ritos e na fala dos pastores, em oposição à vultuosidade da Igreja Católica, seus ritos repetidos missa após missa. O pentecostalismo ou neo-pentecostalismo dá ênfase à experiência individual e na manifestação do espírito santo. O que se mostrou mais adequado à dinâmica urbana e à realidade de cada lugar. Atualmente isso já sofreu algumas modificações, mas no período em questão, o pastor era uma pessoa do local, entendia melhor as necessidades materiais e espirituais de seus fiéis. Ao contrário, do padre que pode vir de um mundo completamente diferente do que encontra na paróquia a que foi destinado. Durante o século XX, apesar da diversidade religiosa destacada até aqui, a fé cató- lica era declarada por mais de 90% dos fiéis. Em 2007 esse número caiu para 64%. Como informa Negrão (2008), ao mesmo tempo, as religiões evangélicas estão com 22% dos adeptos declarados no período. Outras religiões se movimentaram pouco, com alternâncias de avanços e quedas de baixa variação nas últimas três décadas. Contudo, o autor chama atenção para um dado que não é revelado por pesquisas como essa, o da mobilidade e pluralidade religiosa em uma mesma pessoa. Nas pesquisas produzidas por Negrão (2008), verificou-se que 389 dos 1.064 moradores que declararam ser religiosos, ou seja, 38% do total, haviam mudado de religião ao menos uma vez. Quanto à não-exclusivi- dade, 122 (11%) declararam participação ou cultivo de culto de dois ou mais grupos religiosos (NEGRÃO, 2008, p. 269). Ao observar o cenário contemporâneo das religiões, Hervieu-Léger (2008) com- preende que, sobretudo após o século XIX, a Igreja Católica deixa de ser o ponto de refe- rência ao redor do qual se concentrava toda a comunidade, e as modalidades de crença passaram a poder assumir formas diferentes, inerentes a uma individualização do objeto do crer. O surgimento deste fenômeno pode ser compreendido sob a ideia de con- sequência ante os acontecimentos do período moderno, sobretudo a laicização dos aspectos políticos e econômicos da vida social. O discurso científico toma para si o papel de responder a todas as afirmações explicativas. O que poderia ser elucidativo, no sentido de buscar respostas objetivas, produziu na sociedade o sentimento de utopia e opacidade para o imaginário do crente, permitindo expansão e pluralidade às modalidades do crer. A participação religiosa tornou-se assunto de opção pessoal. A autora afirma que tal comportamento pode ser observado já em sociedades tradicionais ou pré-modernas, com as pessoas interagindo constantemente com a rigidez das leis religiosas, operando divergências sob a regência desses códigos 42UNIDADE II As Religiões Contemporâneas (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 34). Em seu estado atual, as instituições religiosas não mais possuiriam o direito de impor determinada crença a quem quer que seja. No entanto, o exílio sofrido pela religião no mundo moderno, devido à noção de superioridade, trouxe consigo o paradoxo das sociedades ocidentais terem retirado suas noções de mundo, representações, princípios de ação e, em certa medida, de seu próprio universo religioso. Assim, não há como se desenvolver um pensamento científico sem encontrar em suas raízes uma construção filosófica cristã. Por meio dessa ideia, Hervieu-Léger estabelece a existência de algo esca- tológico no estado de antecipação que a modernidade colocou aos seus protagonistas, no sentido de que se esperaria sempre por um horizonte mais adiante: uma nova descoberta capaz de sanar de uma vez por todas as questões surgidas, as descobertas que explicariam e curariam todos os problemas da vida. Consiste esse o aspecto utópico dos tempos modernos: um imperativo da mudança (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 39). Assistimos a um imaginário caracterizado pelo vazio que ocupa o espaço entre o mundo cotidiano ordinário e a promessa moderna de responder a tudo que parece misterioso à razão. Contudo, o resultado científico é, em pouco tempo superado por outro resultado quase sempre não alcançando a resposta definitiva almejada. Criadas desse vácuo religioso moderno, Hervieu-Léger destaca duas figuras diferentes: a do peregrino e a do convertido Na busca por respostas que deem conta de seus problemas cotidianos, a figura do peregrino pode ser o crente não-praticante, cuja fé se conjuga pela mobilidade religiosa, e surge da tensão extraconfessional, com a figura do religioso praticante e, com a figura do “sem religião” (HERVIU-LÉGER 2008, p. 82). O peregrino é uma pessoa que, independente de possuir uma religião ou não, frequenta cultos diferentes, adquire conhecimentos religiosos alternativos por meio da leitura ou de vídeos na internet. O peregrino emerge como uma figura típica do religioso que se movimenta em duplo sentido. Inicialmente ele remete, de maneira metafórica, à fluência dos percursos espirituais individuais, percursos que podem, em certas condições, organizar-se como trajetórias de identificação religiosa. Em seguida, corresponde a uma forma de sociabilidade religiosa em plena expansão que se estabelece ela mesma, sob o signo da mobilidade e da associação temporária. (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 89) Se o peregrino transita sem se identificar a uma religião específica, ou conserva uma fé principal, o convertido faria parte do grupo destacado por Negrão (2008) de pes- soas que disseram ter trocado efetivamente de religião. Se converter significa deixar outras 43UNIDADE II As Religiões Contemporâneas crenças de lado, para seguir somente uma. Normalmente com mais rigidez na observação de seus ritos e preceitos. Cruzando tais perspectivas, o fenômeno das religiões no Brasil pode ser interpre- tadono seguinte cenário. As manifestações que não são da Igreja Católica ou evangélicas, como islamismo, judaísmo, protestantismo metódico, luterano e o budismo tradicional, por exemplo, após as ondas de imigração que caracterizaram seu estabelecimento e expansão, tem se mantido estatisticamente com estabilidade. Assim como Candomblé e Umbanda, que atingiram seu ápice de declarantes entre os anos de 1990 a 2000, e agora parecem estacionados. Em outra perspectiva, vemos crescer o trânsito entre as religiões, a adesão de maneira simultânea a religiões diferentes e a escolha de ritos, ideias, práticas de uma série de culturas para a elaboração de uma religião individual. Fenômeno que ocorre devido a ausência deixada pelo catolicismo de uma religião que transmita uma mesma visão de mundo para toda sociedade. A ciência que poderia preencher esse espaço não tem o papel de garantir à população verdades absolutas, algo que inclusive seria bastante anti-científico. As religiões neopentecostais têm ocupado esta lacuna, em alguns casos se pro- pondo como a verdade que corrige a ciência com a Bíblia. Dentro da confusão de respostas que o mundo contemporâneo oferece, pelo menos no Brasil, os evangélicos construíram comunidades que pensam e agem a partir de perspectivas parecidas. Homogeneidade que a Igreja Católica tem perdido em fiéis e no próprio discurso, sobretudo em relação à juven- tude. Na perspectiva de Hervieu-Léger, os fiéis católicos têm se dividido entre peregrinos e convertidos. Aqueles que passam do catolicismo a uma religião evangélica, normalmente adotam uma postura mais enérgica, se envolvem efetivamente com sua igreja, comparti- lhando das opiniões do pastor e outros membros influentes. 44UNIDADE II As Religiões Contemporâneas SAIBA MAIS Se admitimos que as instituições religiosas disputam seus fiéis, a figura do convertido consiste no público que novas ideias religiosas procuram atingir. O processo de esva- ziamento de sentido do mundo é característico da globalização e do acesso à informa- ção, onde os jovens são aqueles que apresentam maior dificuldade na busca por uma identidade cultural que lhe dê sentido. O grande dilema parece o de ter sido criado com valores completamente diferentes daqueles que o mundo manifesta na ciência, na mídia e no entretenimento. A educação conservadora que muitos receberam entre os anos de 1960 e 2000 entra em conflito com a atmosfera de liberdade de expressão cultural, política ou sexual, por exemplo, propagados nos veículos contemporâneos. É como se você fosse obrigado a escolher entre a tradição que é seu berço e o mundo que te quer diferente, o que muitas vezes leva a radicalizações. Esse processo é um prato cheio para organizações criminosas, como o Estado Islâmico, que em suas propagandas procuram fazer cenas reais parecerem uma tela de jogo de tiro, evocando atributos de difícil acesso na vida das grandes metrópoles da Europa e da América, como o companheirismo e o sentido de comunidade: contam com a apropriação de produtos (como os jogos de tiro) para fortale- cer a rede que lhe servem de sustentação. A internet abre um espaço direto para postarem sobre missões, divulgarem fotografias, áudios, vídeos com declarações de líderes, além de registros audiovisuais de suas atividades. Sempre colocando em voga temas como respeito, orgulho, confiança, dig- nidade, reciprocidade e vingança, motivos de um instinto tribal poderoso e que conferem legitimidade às suas ações (COSTA, 2018, p. 77). Fonte: COSTA, Ana Carolina. A nova face do terror: uma interpretação da propaganda audiovisual do Es- tado Islâmico como fenômeno cultural na era da midiatização. 163 f. Dissertação (Mestrado em Comuni- cação). Programa de Pós Graduação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, 2018. 45UNIDADE II As Religiões Contemporâneas REFLITA Quantas pessoas você conhece que possuem uma religião diferente à da própria famí- lia? Um número menor ou maior que o das que seguem? Por que isso acontece? E o time de futebol? E o posicionamento político? Independente de experiências pessoais ou de ser um valor maior ou menor, muitas pessoas escolhem ou naturalmente caminham em direção aos valores e práticas fa- miliares. Essa herança é chamada de cultura. Mas nós não somos uma uma cópia da geração que nos criou. A cultura muda, o que a faz mudar? A difusão da internet e um maior acesso à tecnologia incentivaram alterações significati- vas no cotidiano e nas relações humanas, em consequência, altera-se a cultura. Mas não se trata apenas disso, aqui uma experiência pessoal para refletirmos sobre o assunto. Meu avô foi criado numa filosofia de que depois de 16 anos, o homem tinha que sair de casa e casar. Também foi criado na ideia de que um pai não podia mostrar muito afeto para o filho, um carinho, talvez quando bem criança, mas um “eu te amo”, ou fazer qualquer coisa nesse sentido era interpretado como sinal de fraqueza. Meu pai cresceu mais ou menos com essa mesma relação severa, mas ele ficou em casa até os 25 anos, quando casou. Na minha criação, ele foi bem mais dialogador, nunca falou sobre eu ter de sair de casa, mas eu saí aos 26, quando casei. Diferente deles não tive filhos e acabei me separando, mas penso que quando ter filhos vou conversar ainda mais com eles e ser carinhoso, faz bem. Com esse resumo, percebo uma mudança de valores de geração em geração. O que faz tal mudança acontecer? O que ela ensina sobre a relação que temos com a religião? 46UNIDADE II As Religiões Contemporâneas CONSIDERAÇÕES FINAIS Na Unidade II, As religiões contemporâneas, procuramos discutir a crença enquan- to fenômeno da atualidade. Para tanto, no tópico 1, “A disseminação das religiões pelo mundo” foi apresentada uma forma de olhar para religião como formadora de nossa visão de mundo. A base cultural com a qual julgaremos o que o mundo apresentar. Por meio de Hartog (1999), se demonstrou que o contato entre pessoas diferentes gera interesse e repulsa conforme nos aproximamos e distanciamos delas. Essa relação é material, no sentido de que quando convivemos muito com um costume, nos adaptamos e, muitas ve- zes, adotamos ele. Mas também é metafórica, no sentido de que é preciso se colocar como igual em relação a outra cultura para compreendê-la e conseguir se comunicar com seus indivíduos. Também foi lembrado que as religiões possuem uma ligação muito forte com o poder e procuramos relacionar tal fenômeno com a violência religiosa. As instituições mais fortes que conhecemos, a família, o Estado, a democracia, precisam de nossa crença para existirem. No tópico II, “As religiões no Brasil – do Catolicismo ao Islamismo” procuramos comprender o processo de disseminação das religiões no Brasil. Ao considerar que as mudanças culturais são ocasiões de contato, procuramos destacar na história brasileira a pluralidade de religiões protagonistas. Árabes, judeus, ciganos, católicos, protestantes, bantos, iorubás, nagôs e outros, procuramos discutir brevemente a trajetória e contribuições dessas culturas com o Brasil. Por fim, refletimos a contemporaneidade, sobretudo a partir das discussões de Herviu-Léger (1992) e Negrão (2008). Onde o avanço das comunicações acelera de forma abrupta e gera uma espécie de vácuo existencial, o mundo não é mais o mesmo. Procura- mos entender seus desdobramentos na cultura brasileira. 47UNIDADE II As Religiões Contemporâneas MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bf9-GiJfwog&ab_channel=gru- pofilmes Título: Santo forte Diretor: Eduardo Coutinho Documentário Sinopse: Uma abordagem sobre as formas de apropriação das religiões praticadas no Brasil. Acompanhe uma investiga do coti- diano popular por meio das experiências de moradores da favela Vila Parqueda Cidade, no estado do Rio de Janeiro. LIVRO Disponível em: http://fortalezas.org/midias/arquivos/1713.pdf Título: Viagem à terra do Brasil Autor: Jean de Léry Sinopse: Com esta obra, Jean de Léry pode ser colocado ao lado de José de Anchieta, Hans Staden, Claude d’Anbbeville e tantos outros viajantes, missionários e aventureiros que aqui residiram e escreveram sobre o Brasil. Trazendo uma contribuição utilíssima aos estudos dos indígenas e da natureza. Plano de Estudo: ● Guerras santas e a divisão do mundo. Objetivos da Aprendizagem: ● Apresentar um debate teórico sobre fundamentalismos religiosos. ● Contextualizar algumas manifestações de fundamentalismos religiosos. ● Refletir sobre o crescimento de fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo. 48 UNIDADE III Fundamentalismo Religioso Professora Ma. Laís Azevedo Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga 49UNIDADE III Fundamentalismo Religioso INTRODUÇÃO Olá, estudante da disciplina “Fenômeno Religioso na contemporaneidade e educa- ção”. Fico muito feliz em compartilhar com você esse conteúdo que foi produzido pensando unicamente no seu processo de formação. Esse material é significativo para a formação em Ciência das Religiões, pois visa inserir você no campo que toca as discussões teóricas sobre Fundamentalismos religiosos. Buscaremos apresentar para você um debate teórico que forneça lentes teóricas para a compreensão de diferentes fundamentalismos religiosos. Contextualizaremos algu- mas manifestações desse fenômeno em diferentes culturas e refletiremos sobre a presença de alguns fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo. Para isso, buscaremos em um primeiro momento abordar a origem sócio histórica do termo fundamentalismo religioso. Em um segundo momento, propomos um debate sobre as transformações históricas do fenômeno, bem como suas feições em diferentes contextos. Por fim, discutiremos um pouco sobre os delineamentos dos fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo. Proponho que esse seja um espaço de partilha e aprendizado sobre esse tema tão complexo, que demanda reflexões elucidativas e éticas. Esperamos que o material para sua apreensão e atuação na realidade social. Bons estudos! 50UNIDADE III Fundamentalismo Religioso 1. GUERRAS SANTAS E A DIVISÃO DO MUNDO Nos dias atuais os debates sobre o tema da religião ganham novos contornos e cenários. Observamos que existe um tipo de reformulação nas formas de crer e de ser religioso, em que manifesta-se fenômenos distintos, como convivência entre instituições religiosas, sincretismos praticados por indivíduos e grupos, além do seu avesso, o funda- mentalismo religioso. Os debates sobre esse esse último têm tomado a agenda das disciplinas de humanidades, principalmente a partir do crescimento de polêmicas midiáticas, em razão dos atentados do dia 11 de setembro de 2001 às duas torres do World Trade Center e a decorrente ideologia da segurança interna e externa dos Estados Unidos. No âmbito acadêmico, os estudos sobre o tema são realizados por diversos eixos temáticos que frequentemente dialogam com identidades modernas, pluralismo religioso, direitos das minorias, movimentos reacionários e temáticas da tolerância e da relativização cultural. As origens dos fundamentalismos religiosos se dão no campo religioso, especifi- camente com as religiões cristãs-protestantes. Contudo, seus desdobramentos em nosso tempo histórico ultrapassam esse ambiente e ocupam espaços na política, na economia, e diversas questões sociais sensíveis. Assim, os fundamentalismos religiosos apresentam- -nos um viés fortemente ideológico, desde comportamentos fanáticos, negação da ciência, até mesmo culminando em práticas de violência física. 51UNIDADE III Fundamentalismo Religioso O fundamentalismo religioso e o fundamentalismo político estão frequente- mente unidos porque, em última análise, são a consequência lógica de uma mesma ideologia e nós entendemos, aqui, por ideologia, a doutrina que pos- sui uma resposta para todas as questões que são e serão, eventualmente, postas no decorrer dos acontecimentos e das dificuldades de nossa vida individual e social (ROCHA, 2014, p. 764). Desse modo, reforçamos a necessidade de utilizarmos o vocábulo fundamentalis- mo no plural, considerando que existem diferentes fundamentalismos. Isso demonstra a importância de estudar, conceituar e contextualizar os fundamentalismos religiosos dentro e fora do ambiente religioso. Exposto isso, separamos o nosso debate em três partes: Nesse primeiro momen- to, discutiremos o fundamentalismo em sua origem, no contexto protestante dos Estados Unidos em finais do século XIX e início do século XX. Em um segundo momento, veremos alguns desdobramentos que revelam como o fenômeno vai se afastando paulatinamente de suas origens para se transformar em expressão de posições endurecidas e recrudescidas, demonstraremos, assim, a fisionomia dos fundamentalismos na contemporaneidade, em diálogo com referenciais teóricos que nos auxiliem nessa compreensão. Por fim, buscare- mos apresentar reflexões sobre a presença desse fenômeno no Brasil contemporâneo. 52UNIDADE III Fundamentalismo Religioso 1.1 - Fundamentalismo nas suas origens O papel da religião na política norte-americana influenciou o mundo todo dentro de um contexto globalizado. Por isso é importante que consideremos que os Estados Uni- dos, para se viabilizarem como nação, classificaram e combateram inimigos. Não havia no processo de independência dos Estados Unidos um sentimento de pertencimento. A identidade nacional foi construída aos poucos, pós independência e a guerra, o combate ao inimigo, foi fundamental para a construção desse pertencimento. Cabe destacar também que foi no contexto protestante dos Estados Unidos, espe- cificamente na Niagara Bible Conference, evento ocorrido em 1878, que o termo “funda- mentalismo” foi utilizado pela primeira vez em referência aos elementos fundamentais da fé cristã: O movimento fundamentalista remonta à Conferência Bíblica de Niágara, logo sendo elaborados os “cinco pontos” considerados fundamentais (o nascimento virginal de Jesus, sua ressurreição corpórea, a inerrância das Escrituras, a teoria substitucionária da expiação, e a iminente volta de Cristo). O rótulo “fundamentalista” foi cunhado por Curtis Lee Laws, batista, redator do Watchman Examiner, em 1920 (REILY, 1993, p. 305). A referida conferência pautava questões relacionadas à luta da teologia protestante ortodoxa para defender a infalibilidade da Bíblia, diante do crescimento e da difusão da teologia europeia, que dialogava em alguns aspectos com a ciência moderna. Para esses grupos religiosos refratários a essas aproximações entre religião e ciência, os fundamen- talistas eram adversários dos herdeiros do iluminismo que entendiam a fé somente a partir da esfera racional. Outro aspecto importante desse processo histórico é perceber que o fundamen- talismo foi a afirmação da tradição ortodoxa contra as narrativas críticas provenientes da modernidade. [...] na modernidade, o fundamentalismo estreito só podia virar um fenômeno protestante, porque, para ser fundamentalista, é preciso acreditar que o fun- damento da verdade reside na interpretação da Bíblia (ECO, 2000, p. 15-6). Em sua origem histórico-social, o vocábulo designa algo positivo, um tipo especí- fico de religioso que buscava as origens da religião, os fundamentos, manter as tradições. Aqueles que se enxergavam como “fiéis” aos fundamentos de sua religiosidade, isto é, ortodoxo, eram os fundamentalistas no sentido original do termo (LIMA, 2011). Paine (2010) indica que nesse contexto, a Igreja Católica se sentia ameaçada com o avanço do cientificismo e ateísmo surgidos com a modernidade. Sem modificar sua es- sência religiosa no que tangeao depósito da fé, a instituição buscou se atualizar e expandir 53UNIDADE III Fundamentalismo Religioso no decorrer dos séculos. Foi considerada, por isso, uma religião não fundamentalista por outras instituições, como a Igreja Batista. Essa mudança, não de crença, mas de perspectiva, na interpreta- ção, na aplicação, juntamente com a avaliação mais positiva do papel da filosofia na obra teológica, isentou o catolicismo, grosso modo, da etiqueta de fundamentalista. É, aliás, significativo que os próprios fundamentalistas protestantes, por vezes, tenham criticado a Igreja Católica por esta não ser fundamentalista (PAINE, 2010, p. 12). Durante o século XX, o termo fundamentalismo foi usado apenas dentro da co- munidade protestante para se referir a determinadas vertentes preocupadas com a inter- pretação literal da Bíblia e que frequentemente, se relacionavam à atitudes apocalípticas ou milenaristas. Por vezes, o termo “evangélico” foi usado como sinônimo, mas em geral haviam distinções significativas entre grupos fundamentalistas e grupos evangélicos. Até 1950, a palavra “fundamentalism” não integrava o Oxford English Dictio- nary, aparecendo somente na edição de 1989 (REILY, 1993). Contudo, essa inclusão, não correspondia aos acontecimentos relacionados ao protestantismo ou outras denominações cristãs, mas sim a outra grande religião abraâmica: o Islã. O contexto da década de 1970 foi marcado por diversos acontecimentos que cha- maram a atenção para os fundamentalismos religiosos. Em 1977, 1978, 1979 ocorreram mudanças consideráveis no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. ● No caso judeu, em 1977, os sionistas chegaram ao poder político e proclamaram um retorno ao pacto: Israel é o povo escolhido de Deus, ênfase religiosa contra o trabalhismo e o humanismo secular (VASCONCELLOS, 2008, p. 93). ● Em 1978, no catolicismo romano, foi eleito papa o cardeal polonês Karol Wojtyla (João Paulo II), cujo longo pontificado abriu espaço para os diferentes integris- mos católicos: retorno a conceitos e práticas anteriores ao concílio Vaticano II, contra o racionalismo, comunismo e religiões não católicas. Houve ainda o caso do cristianismo protestante dos anos 70, que resgatou nos EUA e poste- riormente na América Latina elementos morais e religiosos contra toda forma de racionalismo, possibilidade de socialismo e outras religiões, abrindo espaço para as grandes igrejas de caráter avivalista e para os pregadores eletrônicos e seus impérios de comunicação (VASCONCELLOS, 2008, p. 93). ● No islamismo, em 1979, a rebelião religiosa liderada pelo aiatolá Khomeini derrubou o regime político laico e o governo do xá Reza Pahlevi para estabe- lecer um regime teocrático e totalitário. Dada a reconhecida origem protestante 54UNIDADE III Fundamentalismo Religioso do termo fundamentalismo e da prática fundamentalista, por que os radicais islâmicos, por exemplo, são hoje chamados de fundamentalistas, se não são cristãos e nem estão preocupados em defender as doutrinas fundamentais do cristianismo, ao contrário? A resposta vem da história: “A confusão terminoló- gica veio à tona quando o aiatolá Khomeini derrubou o xá. Foi em 1979”. Em nome de Alá e Maomé, a rebelião religiosa derrubou o regime político laico e seu governo e estabeleceu um regime teocrático e totalitário. No Irã, país da revolução religiosa, e depois em outros países islâmicos, os textos do Corão passaram a ser interpretados e utilizados para legitimar o uso e o abuso da força pelos governantes contra opositores, fossem eles países, governos ou pessoas (VASCONCELLOS, 2008, p. 93). Tais desdobramentos nos revelam como o fenômeno vai se afastando paulati- namente de suas origens para se transformar em expressão de posições endurecidas e recrudescidas, seja no campo religioso, social, político, econômico ou na articulação de dois ou mais desses campos. 1.2 Fundamentalismos religiosos: suas fisionomias hoje Josep Ramoneda (2000) postula que o ocidente esforçou-se para criar a noção de um inimigo que deveria ser combatido. Esse medo tornaria os seus cidadãos mais depen- dentes e coniventes com o governo. Quando o inimigo é o Outro, o perigo pode ser real ou induzido, não importa. Ter medo de um outro, exterior, possibilita a união de uma nação e elenca a importância de um governo forte. Desse modo, a exigência de cidadania torna-se mais abrandada com os que governam, que são também os que hipoteticamente protegem a sociedade desse espectro de perigo. O fundametalismo islâmico foi eleito em um um determinado momento para ser esse inimigo que o ocidente precisava alimentar, em busca de coesão política. Os pre- núncios não se mostravam susbstanciais e sistematizados o bastante, para que a opinião pública comprasse por muito tempo essa ideia que que o islamismo representava esse novo inimigo. Assim, a figura desse inimigo foi significada de modo genérico, pela barbárie. Ou seja, aquele que rejeita o modelo democrático liberal, que não se adapta ao modelo hegemônico fica definitivamente fora da realidade político-social (RAMONEDA, 2000). Como o bárbaro não é uma alternativa e sim um atraso, restam apenas duas possibilidades: ou sua paulatina adaptação ou sua definitiva exclusão. Todavia, a coesão social pelo medo se mantém porque é necessário defen- der-se da especial maldade dos bárbaros: daí a necessária (quase sempre fundamentada) satanização daquele ao qual se atribui a condição de bárbaro (RAMONEDA, 2000, p. 22-23). 55UNIDADE III Fundamentalismo Religioso Essa ideia se fundamenta com o atentado às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Depois do ocorrido, o islamismo foi identificado com a barbárie, e como consequência tivemos a demonização desse universo religioso e essa imagem negativa universalmente aceita. “Fundamentalismo religioso, atraso, alteridade e exterioridade cristalizaram a nova figura da barbárie e, com ela, o cimento social e político trazido pelo medo” (CHAUÍ, 2006, p. 125). Chauí (2006) chama atenção para outro elemento importante que permeia o fenô- meno, o fato de que as grandes religiões monoteístas, tais como o judaísmo, cristianismo e islamismo, não enfrentam somente o desafio de explicar a realidade oferecida pelas ciências, mas também enfrentam a pluralidade de perspectivas religiosas competidoras, além da própria moral estabelecida por um Estado secular ou profano. [...] cada uma dessas religiões só pode ver a ciência e as outras religiões pelo prisma da rivalidade e da exclusão recíproca, uma oposição não tem como exprimir-se num espaço público democrático porque não pode haver debate, confronto e transformação recíproca em religiões cuja verdade é revelada pela divindade e cujos preceitos, tidos por divinos, são dogmas. Porque se imaginam em relação imediata com o absoluto, porque se imaginam porta- doras da verdade eterna e universal, essas religiões excluem o trabalho do conflito e da diferença e produzem a figura do Outro como demônio e herege, isto é, como o Falso e o Mal (CHAUÍ, 2006, p.132). A autora argumenta que nos dias atuais, via de regra, a política é entendida como guerra de amigos contra os inimigos. A decisão do soberano é incontestável, exatamente como acontece nas manifestações de fundamentalismos religiosos. Estes concebem a política como batalha entre o bem e o mal e a atividade soberana como missão sagrada por ser comandada por Deus. Chauí (2006) compreende que se as religiões fundamentalistas defendem que estão em relação direta com a vontade de Deus e se colocam como as únicas portadoras da verdade eterna e universal, nelas não restam lugares para as diferenças. Por isso, a figura do outro é olhada como se fosse a do demônio. As disputas políticas transformam-seem batalhas entre o bem e o mal e a autoridade política é concebida como uma missão sagrada orientada pelo próprio Deus. A política cede lugar à violência como purificação do mal e os políticos passam a assumir o papel de profetas, chefes infalíveis, intérpretes da vontade divina. Os discursos de Sharon, Bin Laden e Bush são as expressões mais perfeitas e mais acabadas da impossibilidade da política sob o fundamentalismo das religiões monoteístas reveladas. Com elas, a política cede lugar à violência como purificação contra o Mal, e os políticos cedem lugar aos profetas, isto é, aos intérpretes da vontade divina, chefes infalíveis (CHAUÍ, 2006, p. 132). 56UNIDADE III Fundamentalismo Religioso Outra questão relevante trazida por Cláudio de Oliveira Ribeiro (2013) é que os ideais fundamentalistas apresentam uma tendência em corroborar formas dualistas e ma- niqueístas de ver o mundo. Criam separações fáceis e artificiais entre sagrado e profano, não aprofundam as explicações sobre os dilemas e mistérios da vida, atribuem, por vezes, explicações religiosas retirando-as de seus contexto e valores fundantes. Hoje, dentro dos fundamentalismos religiosos, podemos identificar expressões religiosas judaicas, islâmicas, cristãs, (tanto evangélicas como católicas), entre outras. Pedro Lima Vasconcellos (2008) relaciona os fundamentalismos à defesa da ver- dade religiosa contra o que é percebido como perigos resultantes da Modernidade, como o caráter histórico e subjetivo da fé, assim como pela aversão ao socialismo e a busca da recuperação da base religiosa da sociedade. Para o autor, os fundamentalismos reagem à incapacidade demonstrada pela modernidade de cumprir as promessas de desenvolvi- mento, paz, liberdade, progresso e autonomia. Ou seja, se os avanços da modernidade se mostram insuficientes, surge um fenômeno em que é demonstrado os descontentamento com esses ideais que, na visão dos fundamentalistas, parecem trazer somente guerras, fome, devastação ecológica, e individualismo. Zeferino Rocha (2014) em “A perversão dos ideais no fundamentalismo religioso” adota perspectiva parecida com a de Vasconcellos (2008) indicando a crise da modernidade e seu projeto cultural como as principais raízes dos fundamentalismos. Rocha (2014) argu- menta que o contexto em que os fundamentalismos religiosos se intensificam é marcado pela contingência e pela efemeridade. Esses fatores seriam favoráveis para o retorno do fundamentalismo religioso, pois: apesar de ter renunciado às noções de eternidade e de necessidade, a visão de mundo do homem contemporâneo não deixou de procurar substitutos para essas noções. E elas reapareceram no fundamentalismo religioso, tanto na sua face religiosa quanto política, pois ele se engajou na construção de um imaginário, no qual as noções substitutas de necessidade e de eternidade foram fundamentadas em duas formas interligadas de transcendência: a trans- cendência divina da Palavra de Deus e a transcendência do poder político dos governos autoritários, como uma manifestação, no tempo, da vontade de Deus. Compreende-se, assim, que a crise contemporânea provocada pelo fracasso do Projeto Cultural de Modernidade tenha favorecido o retorno da religião sob a forma do fundamentalismo religioso, não somente como uma experiência individual, mas também como uma interpretação da vida e da ação política. Por esta razão, igualmente, o fundamentalismo religioso desdobra-se, quase sempre, em um fundamentalismo político (ROCHA, 2014, p. 763). Os fundamentalismos religiosos são compreendidos pelo autor como modos de ser, de pensar e de agir. Seriam eles frutos de uma crença e aceitação incondicional à um princípio religioso, sejam ele judaico, cristão ou islâmico. A questão é que nesse modo de pensar e agir, os seus fundamentos religiosos orientadores de mundo seriam os únicos 57UNIDADE III Fundamentalismo Religioso bons e verdadeiros. Sendo radicais e irredutíveis em seus posicionamentos, os fundamen- talistas religiosos consideram todas as outras forças (instituições, indivíduos, etc) que não comunguem com suas crenças e ideais, verdadeiros inimigos (ROCHA, 2014). Temos, portanto, algumas elaborações conceituais que nos demonstram como tipicamente se constitui esse fenômeno. Vasconcellos (2008, p. 137) também nos auxilia do ponto de vista didático, ao apontar seis pontos comuns aos fundamentalismos: 1. Rejeição da hermenêutica (interpretação), pois o texto sagrado deveria ser considerado objetivo e não histórico. 2. Negação do relativismo. 3. Negação do pluralismo. 4. Rejeição das teorias evolucionistas de matriz darwinista. 5. Postura escatológica, à espera do próximo fim do mundo. 6. O pragmatismo leva os movimentos fundamentalistas a utilizarem a Modernida- de para combatê-la, como no caso dos meios de comunicação. Vasconcellos (2008), postula que os fundamentalismos mostram-se como sintomas de males do individualismo excludente. O autor demonstra preocupação com a questão e indica que a busca por seguranças exclusivas e excludentes por parte de uma parcela da sociedade impossibilita o diálogo, o respeito à alteridade e a convivência pacífica. Segundo o autor, é preciso compreender as contradições da Modernidade, com ênfase no individualismo, para compreender as raízes dos fundamentalismos. Ao fazer uma balanço sobre o tema, o autor postula que os fundamentalismos relacionam-se às limitações do individualismo burguês, filho do Iluminismo do século XVIII. Os movimentos elitistas ocidentais defendem uma interpretação literal da Bíblia, tendo em vista a defesa explícita do status quo e da exploração de pobres e daqueles definidos como outros: os pecadores. Já os funda- mentalismos de massas empobrecidas exercem um papel de socialização excludente, na medida em que procuram criar uma comunidade homogênea e coesa, oposta àquela dos ímpios. Dentro de cada uma delas, há de comum o autoritarismo e a submissão, mesmo no interior do grupo fundamentalista (VASCONCELLOS, 2008, p. 138). Para Paine (2010, p. 14), os fundamentalismos que presenciamos hoje evidenciam, em alguma medida, uma anatomia com quatro características típicas: uma psicológica, uma epistemológica, uma hermenêutica e uma pragmática. Psicologicamente, quanto à atitude básica da mente: Subjetivismo fechado: re- sistente à correção, não inclinado ao diálogo, à simpatia e até à empatia com pessoas de posições contrárias ou alheias. Epistemologicamente, quanto às fontes de conhecimento: Fideísmo radical, fé ou submissão a uma autoridade religiosa como fonte exclusiva ou predominante 58UNIDADE III Fundamentalismo Religioso de certeza epistemológica: oposição ao enriquecimento pela filosofia e pelas ciências, à racionalidade, ao desenvolvimento crítico, e à possibilidade de uma dialética entre fé e razão. Hermeneuticamente, quanto à interpretação de seus dados fundamentais: Litera- lismo na interpretação de escrituras: contra exegese mais discernimento, in- terpretação, diferenciação de sentidos, complementação de perspectivas, reconhecimento do tamanho do ainda desconhecido. Pragmaticamente (ou até politicamente), quanto às consequências das con- vicções na vida prática: Tendência a medidas radicais, à militância e até ao terrorismo na busca efetiva dos seus fins: contra compromisso, suspensão de juízo, negociação, acomodação etc. 1.3 Fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo No Brasil, os fundamentalismos cristãos têm por alvo as expressões religiosas afro- -brasileiras, assim como a outras formas de manifestação que são associadas ao demônio, como o culto aos santos católicos, por parte de pregadores evangélicos fundamentalistas. Grupos humanos também têm sido vítimas desses fundamentalismos, como os homosse- xuais. Diversosautores têm analisado discursos fundamentalistas contemporâneos com enfoque no caráter antidemocrático da incidência das narrativas religiosas na política, e mais especificamente no que se relaciona aos retrocessos na agenda de direitos humanos. Figura 1: Tirinha de Carlos Latuff critica fundamentalistas homofóbicos. Entre ou- tras coisas, fundamentalistas têm defendido amplamente a cura gay e a demonização de sexualidades não normativas Fonte: https://www.geledes.org.br/conselho-de-psicologia-critica-discussao-de-cura-gay/ 59UNIDADE III Fundamentalismo Religioso No Brasil, ideias refratárias ao pensamento crítico e demais pilares da moderni- dade foram difundidas com os trabalhos de grupos missionários norte-americanos. Muitas denominações evangélicas se posicionaram firmemente contra à teologia liberal, ao ecu- menismo, à aplicação das ciências na interpretação bíblica, e se tornaram críticas da Igreja Católica. Embora militante, não se trata de um movimento unificado e acaba denomi- nando diferentes tendências protestantes do século XX. Todavia, podemos classificar como fundamentalismo qualquer corrente, movimento, ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos, desprovidos de visão dialógica (RIBEI- RO, 2013, p. 66). Tipicamente, os fundamentalistas brasileiros se caracterizam: 1. pela (a) inerrância da Bíblia, popularizada na expressão “ler a Bíblia ao pé da letra”, que não favorece uma leitura bíblica articulada com o contexto do texto e o contexto da vida. 2. por uma escatologia milenarista que, em certo sentido, nega o sentido salvífico descoberto e vivido na dinamicidade da história, e o dispensacionalismo, que prevê a história em etapas fixas e distintas e pré-determinadas. 3. por uma concepção unilateral e absoluta da verdade que tende ao dogmatismo, o que inibe, entre outras coisas, o diálogo entre a fé e as ciências. Nas religiões cristãs, tanto católico-romano como evangélicas, é visível as posturas contrárias ao diálogo no campo da sexualidade, por exemplo. Questões como o direito das mulheres ao próprio corpo, debates sobre os direitos dos homossexuais, lésbicas e trans- gênero despertam revolta nos fundamentalistas e demonstram as dificuldades no campo das relações humanas e institucionais em conviver com formas distintas de pensar e ser. Andréa Silveira de Souza (2019) utiliza o conceito “guerra de cultura” de Hunter (1991) para pensar fundamentalismos no Brasil contemporâneo. Para ela, esse conceito operado para analisar o contexto norte americano, também contribui na reflexão sobre o modo como esse movimento vem se delineando no Brasil, posto que oferece pontos de análise para a compreensão da forma como a religião se manifesta, no caso, como ela se manifesta na forma de fundamentalismo religioso. O conceito aponta para a hostilidade po- lítica e social pautada em sistemas de entendimento moral distintos. Os fundamentalismos seriam, portanto, pautados em crenças básicas que fornecem uma fonte de identidade, propósito e união para as pessoas que vivem de acordo com eles. Esse cenário de conflito cultural é a expressão da clivagem entre sistemas morais diferentes e tidos como inconciliáveis por seus adeptos. Constitui uma luta, uma verdadeira “guerra de trincheiras” entre sistemas de entendimento moral antagônicos, que disputam no espaço público a hegemonia de valores 60UNIDADE III Fundamentalismo Religioso morais e de suas emulações políticas, cujos adeptos consideram verdadeiras e legítimas para toda a sociedade. A guerra cultural dá-se em um novo con- texto, no qual o eixo das disputas deixa de ser prioritariamente teológico e eclesiástico e torna-se ideológico e político (SOUZA, 2019, p. 19). No Brasil contemporâneo, a guerra cultural acontece em um contexto marcado pelas disputas que deixam de ser fundamentalmente teológicas e eclesiásticas e tornam-se ideológicas e políticas. Conforme Souza (2019), as polarizações e consequentes embates políticos surgem por conta das diferentes visões de mundo que não pautam somente ques- tões doutrinárias particulares, mas também o modo de organizar nossas próprias vidas e nossas vidas juntos nesta sociedade. Dentro desta perspectiva, podemos ver o fundamentalismo religioso como um conflito atualmente constituído por uma disputa de caráter ético-político e moral-intelectual para se estabelecer os princípios últimos daquele que deveria ser o verdadeiro estar-junto coletivo [...] Estes impulsos polarizados são, por sua vez, institucionalizados e fazem parte de uma retórica pública que pretende ordenar a esfera pública e política. É no âmbito dessa retórica pública e institucionalizada que cada uma dessas polaridades leva para o espaço público discursos relacionados a sistemas de entendimento moral tidos por seus aguerridos defensores como inegociáveis (SOUZA, 2019, p. 20). As autoridades morais estabelecidas dentro de lógicas fundamentalistas se unem umas às outras e montam suas trincheiras defendendo, assim, suas próprias agendas. Entre elas, está a educação, e projetos moralizadores como o “Escola sem Partido”. É muito importante que a gente se atente para o modo como alguns setores da sociedade estão buscando associar o pensamento crítico à disputas partidárias. De fato, as escolas públicas têm uma grande relevância nessa guerra de cultura. Conforme Souza (2019), o “Escola sem partido” objetiva inibir um ensino plural que busque abarcar a diversidade, defendendo a difusão de uma única visão de mundo, proveniente de um único sistema de vida e entendimento moral em detrimento de outros. [...] a adesão de grupos religiosos a discursos políticos com características moralizantes e excludentes não é óbvia, e é também em razão dessa não obviedade que discursos como o do programa ESP, que se declara um programa não religioso, acaba por revelar paradoxalmente tendências funda- mentalistas religiosas (SOUZA, 2019, p. 28). Os fundamentalismos podem se tornar fenômenos e expressões religiosas do passado se houver diálogo, alteridade, intercâmbio cognitivo e abertura para rever e rea- tualizar conceitos. A escola pode ter um papel muito importante na transformação social e no combate aos fundamentalismos, desde que haja comunicação dialógica, pensamento crítico e alargamento das fronteiras. O ensino deve ser uma prática de transmissão de valores democráticos, que admita o pluralismo religioso e incentive à aceitação do outro. 61UNIDADE III Fundamentalismo Religioso SAIBA MAIS Ainda repercute o massacre que, na madrugada do dia 12 de Junho de 2016 vitimou cerca de 50 pessoas no interior da boate Pulse, em Orlando (EUA), frequentada princi- palmente pelo público LGBT. Considerado o maior ataque a tiros do país e o pior desde o 11 de setembro, o que parte da imprensa eufemisticamente chamou de “tiroteio” dei- xou ainda 53 feridos. Nas narrativas midiáticas, sobressai entre outras coisas a urgên- cia em fixar a identidade do assassino, Omar Mateen, e suas estreitas relações com o terrorismo islâmico como o principal motivador para o crime. E isso apesar de sua nacionalidade americana, que lhe garantiu o direito de comprar, legalmente, as duas armas – um rifle AR calibre 223 e uma pistola 9mm semiautomática – com que perpetrou o massacre. A estratégia é conhecida: atribuir o gesto extremo, a extrema violência, ao estrangeiro ou ao monstruoso, é uma forma de nos desresponsa- bilizarmos acusando a excepcionalidade do gesto e o caráter estranho de seu causador. Ao confundir a face do perpetrador com a do bárbaro, nós, os civilizados, ficamos em paz com nossa boa consciência. Se na atualidade os principais redutos de legislações com caráter abertamente discrimi- natório são os países asiáticos e africanos – 78 países ainda contamcom leis que crimi- nalizam práticas homossexuais, alguns com a pena de morte –, nem por isso o Ocidente tem razões para se orgulhar. Em países de tradição democrática e liberal como a Ingla- terra, por exemplo, a homossexualidade só deixou de ser crime em 1967. Em outros, como a Alemanha, passou-se de uma sociedade tolerante no começo do século XX, para a perseguição nazista, amparada no parágrafo 171 do Código Penal, que criminali- zava as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo, e que só foi revogado em 1969. Nos Estados Unidos, mesmo depois do levante de Stonewall em 1969 e de um crescen- te movimento de direitos civis que incluía parcialmente as reivindicações da comunidade gay, a ilegalidade só foi banida definitivamente em 2003 e o casamento, legalizado no ano passado, não sem uma aguerrida resistência conservadora. Em outro espectro nor- mativo, as legislações sobre saúde, foi preciso o século XXI bater à porta para a OMS retirar a homossexualidade da sua lista de doenças mentais, em 1990. No ano seguinte, a Anistia Internacional passa a considerar a discriminação contra homossexuais uma violação aos direitos humanos, uma medida cujos resultados práticos, como sabemos, são no mínimo relativos. A discriminação contra a comunidade LGBT, portanto, não se limita aos países e socie- 62UNIDADE III Fundamentalismo Religioso dades orientais nem, tampouco, tem matriz exclusivamente religiosa. Antes pelo contrá- rio, estamos a falar de práticas que reverberam ao longo da história, inclusive nos limites do que se convencionou chamar “civilização Ocidental”, e mesmo depois de consolida- das as democracias liberais, a laicidade do Estado e a cultura urbana e moderna. Saber disso é importante para não tomarmos como exceção o que, quase sempre, é parte da nossa normalidade cotidiana. Não se trata de negar o papel que o fundamentalismo religioso desempenha na disse- minação da homofobia. Mas também nesse caso, estamos a lidar com pelo menos três apenas supostas exceções. A primeira, ao atribuir apenas ao Islã uma característica que não lhe é exclusiva: apesar de muitas lideranças religiosas pregarem a tolerância e até mesmo o respeito pela diversidade, a recusa e o ódio para com os diferentes e a diferença estão no cerne das três grandes religiões monoteístas, a justificar as muitas apropriações fundamentalistas que, em nome da palavra sagrada, pregam as guerras santas contra seus inimigos. Sob esse ponto de vista, o fundamentalismo religioso pode tanto ajudar a entender o ataque na boate Pulse, perpetrado por um muçulmano fundamentalista, como as dé- cadas de assassinato de negros promovidas pelos membros da Klu Klux Klan ou o massacre, em junho de 2015, de nove crianças negras em uma igreja de Charleston, na Carolina do Sul, por Dylann Roof, um fundamentalista cristão. O problema é que a explicação religiosa não é suficiente, porque nem toda leitura fundamentalista de textos canônicos do passado é, necessariamente, religiosa. É o caso da segunda emenda à Constituição americana, a que afirma o “direito do povo de conservar e construir Armas”, necessário para a “segurança de um Estado livre”, e que está na origem da facilidade com que tantos assassinos adquirem justamente as armas com que executarão vítimas desarmadas, como os frequentadores da Pulse. Quando aprovada, em 1791, ela tinha a intenção clara de garantir ao povo de uma na- ção recém proclamada, com instituições ainda frágeis e prestes a enfrentar uma guerra para consolidar sua independência, o direito de empunhar armas para garantir sua au- tonomia. Hoje, para além dos interesses da indústria armamentista, uma das mais poderosas do mundo, nada justifica a defesa intransigente que muitos fazem do direito ao porte de armas, e não apenas nos Estados Unidos. Nesse caso em especial, a leitura fundamentalista do passado tem servido de esteio para justificar um indisfarçável apego à violência e a uma de suas faces mais visíveis, a 63UNIDADE III Fundamentalismo Religioso exibição narcísica dos comportamentos e condutas heteronormativas. Ameaçados em seus muitos e históricos privilégios e em sua hegemonia, resta aos defensores da “nor- malidade” mobilizarem principalmente o ressentimento, o medo e o ódio como seus prin- cipais afetos. É essa sensibilidade embrutecida que está na origem das muitas investi- das contra os poucos direitos que a comunidade LGBT vem conquistando a duríssimas penas. E se em uma sociedade como a americana onde, em tese, a igualdade formal e pública é uma conquista já relativamente consolidada, persistem ainda desigualdades concretas; a situação é ainda mais grave no Brasil. Em 1987, o irmão de José Celso Martinez Corrêa, o também diretor teatral Luís Martinez Corrêa, foi brutalmente assassinado, seu corpo amarrado, estrangulado e mutilado com 107 facadas. Para Zé Celso, a intenção do assassino era “matar algo que estava dentro dele mesmo e [ele] não conseguia”. Zé Celso se referia ao ódio, que está na origem das práticas e discursos que justificam a perseguição, o preconceito, a desqualificação e a violência, física e simbólica contra LGBTs. Independente da forma que esse sentimento toma – seja religiosa ou parlamentar –, ou onde ele se manifesta – em uma boate ou nas redes sociais –, estamos a falar de algo que se imiscuiu no cotidiano. A suposta excep- cionalidade da tragédia da Pulse disfarça sua insuportável normalidade. Fonte: https://revistaforum.com.br/noticias/o-excepcional-normal/ REFLITA Aqui nossa esfera pública é atravessada pela vontade religiosa e privada: nas escolas, estamos proibidos de discutir gênero; psicologias cristãs defendem a “cura gay”; e o Estado ameaça com um Estatuto que não reconhece como família outra que não a for- mada pela união entre um homem e uma mulher. Fonte: https://revistaforum.com.br/noticias/o-excepcional-normal/ 64UNIDADE III Fundamentalismo Religioso CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) estudante, chegamos ao fim desse debate bastante complexo e intenso sobre fundamentalismos religiosos. No corpo deste texto buscamos apresentar diversos conceitos, definições e categorias analíticas para abordar a nossa temática. Compreendemos que as origens sócio históricas do fundamentalismo religioso se deram no campo religioso, especificamente com as religiões cristãs-protestantes nos Esta- dos Unidos, no fim do século XIX e início do século XX. Indicamos que o fenômeno estava situado e significado de modo bastante diferente de suas feições posteriores. Apontava para um tipo de religioso que mantinha tradições e ia à fundo para observar os princípios bíblicos. Estudamos como os desdobramentos desse fenômeno em nosso tempo histórico ultrapassam o ambiente religioso e ocupam espaços na política, na economia, e se apre- sentam como pano de fundo de diversas questões sociais sensíveis. Identificamos algumas características comuns dos fundamentalismos religiosos, como o fanatismo, a negação da ciência e de outros valores da modernidade, a negação do relativismo e do pluralismo, a postura fechada ao diálogo, entre outras. Por fim, apresentamos algumas reflexões sobre fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo. Assinalamos que é possível analisar o tema sob o ponto de vista da “guerra cultural”, por se tratar de um fenômeno marcado pela hostilidade política e social pautada em sistemas de entendimento moral distintos. Vimos, também, que as polarizações e consequentes embates políticos surgem por conta das diferentes visões de mundo que, não pautam somente questões doutrinárias particulares, mas também o modo de organizar nossas próprias vidas e nossas vidas juntos nesta sociedade. Destacamos alguns elementos que figuram o fenômeno, como o ataque às religiões Afro-brasileiras, a defesa de projetos de educação acríticos como o “Escola sem partido”, e a negação dos direitos humanos,em favor de princípios ideológicos particulares de um grupo que não representa toda a sociedade. Tudo isso nos aponta a grande responsabilidade que a escola tem para a trans- formação social e o combate aos fundamentalismos religiosos. Assim, concluímos nossa incursão reforçando que o ensino deve ser uma prática de transmissão de valores demo- 65UNIDADE III Fundamentalismo Religioso cráticos, que admita o pluralismo religioso e incentive à aceitação do outro. Esperamos que o material tenha suscitado interesse e reflexões pertinentes para o seu desenvolvimento intelectual. Obrigada por nos acompanhar até aqui. Bons estudos! 66UNIDADE III Fundamentalismo Religioso LEITURA COMPLEMENTAR ● TEIXEIRA, Faustino. O diálogo em tempos de fundamentalismo religioso. Con- vergência, Rio de Janeiro, n. 356, p. 495-506, out. 2002. O artigo propõe um diálogo com as perspectivas teóricas do sociólogo Shmuel Noah Eisenstadt acerca da relação entre fundamentalismo e modernidade. Infere-se que a partir da contribuição decisiva e original de Eisenstadt ampliou-se o horizonte analítico de tal relação. ● VOLF, Miroslav. O desafio do fundamentalismo protestante. Concilium, Petrópo- lis, v. 241, n. 3, 1992, p.129. Neste artigo, Volf (1992) postula que o diálogo inter-religioso é um dos grandes desafios para o século XXI. Conforme o autor, as diversas tradições religiosas vêm pro- vocadas a perceber a importância vital de um relacionamento criativo e mútuo entre si mesmas, como condição essencial para um futuro mais harmônico para a humanidade. 67UNIDADE III Fundamentalismo Religioso MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Fundamentalismos Religiosos - Três Abordagens Distintas e Complementares Autor: Campos, Breno Martins - Salles, Walter Ferreira Editora: Fonte Editorial Sinopse: Dentre os temas em pauta na atualidade, o fundamenta- lismo é sem dúvida um dos mais instigantes. Sob a coordenação de Breno Martins Campos e Walter Ferreira Salles, estudiosos do assunto, este trabalho deve ser recebido como um interessante subsídio para o aprofundamento da reflexão e um ótimo material para o enriquecimento da discussão acadêmica. Tenho como re- ferência o desafio do fundamentalismo no contexto moderno, os autores analisam as possibilidades ou não do fundamentalismo no judaísmo, no catolicismo romano e no protestantismo, assumindo o fundamentalismo protestante original como moderno propício de comparação. O resultado desse esforço, fruto do trabalho conjun- to, é uma obra bem estruturada, cuidadosamente fundamentada e, ao mesmo tempo, didática e acessível sobre o tema. Obra que atende à necessidade de trabalhar melhor as respostas aos ques- tionamentos colocados pelos perturbados acontecimentos atuais. FILME/VÍDEO Título: First Reformed Ano: 2017 Sinopse: O ex-capelão militar Toller sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando faz amizade com a jovem paroquiana Mary e o marido dela, que é um ambientalista radical. Toller logo descobre segredos nebulosos de sua igreja com relação a empresas ines- crupulosas. 68 UNIDADE IV Religião e Políticas Professora Me. Laís Azevedo Fialho Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga Plano de Estudo: ● O estado laico brasileiro. ● Leis x Moral religiosa Objetivos da Aprendizagem: ● Compreender o conceito de Estado laico, como funciona e seu desenvolvimento histórico no Brasil. ● Refletir como os espaços do sagrado são formados e como a necessidade de produzir um mundo que condiga com suas próprias visões faz com que a religião se torne um importante fator para adoção de medidas públicas. ● Discutir tabus religiosos, como a legalização do aborto, ensino do evolucionismo nas escolas e a presença das religiões afro-brasileiras em uma atmosfera de conflito no passado e na contemporaneidade. 69 INTRODUÇÃO UNIDADE IV Religião e Políticas Olá estudante da disciplina “Fenômeno Religioso na contemporaneidade e educa- ção”, parabéns por ter chegado até aqui, a última unidade desta apostila. Já discutimos o ser humano como espécie religiosa, simbólica. De que maneiras as religiões se espalharam pelo mundo e sua ligação intrínseca com o poder. Levando-nos inclusive às chamadas guerras santas, um termo no mínimo contraditório. Este é o momento em que discutiremos qual pode ser o papel do Estado em relação à religião. Um ponto já foi definido pela modernidade: o ideal é que o governo seja laico. Ou seja, não dê preferência às concepções de uma religião específica, mas procure formular medidas que respeitem a liberdade individual. Que problemas a execução desse plano tem apresentado? Será que a ciência afasta as pessoas da religião? Para saber, basta ler e refletir. Bons estudos! 70UNIDADE IV Religião e Políticas 1. O ESTADO LAICO BRASILEIRO Segundo Carlos Roberto Cury (2018), a origem do termo laico remonta ao latim medieval, para o qual laós, o povo, se diferenciava dos sacerdos. Onde a leitura da Bíblia era praticamente exclusiva a clérigos e nobres, laós eram aqueles que não dominavam a habilidade de ler e interpretar as Escrituras. O que mais tarde se dividiria em duas palavras, a primeira leigo hoje tem o significado de uma pessoa que desconhece sobre determinado assunto. E laico, que poderíamos definir mais basicamente como sem-religião ou ausente de influência religiosa direta. Por que o direta? Indiretamente, um fator cultural tão impor- tante, como a religião, exerce poder sobre a sociedade. Esse poder se percebe muito maior conforme nos aprofundamos no passado. Práticas, ideias, dogmas e concepções sobre o religioso sempre exerceram poder na organização política e vida pública de diferentes sociedades. Figura 1 – Sala do Supremo Tribunal Federal, Brasília-BR. Os três únicos símbolos presen- tes são, a bandeira do Brasil, o brasão da República e o crucifixo cristão. Expressões da influência religiosa em um Estado que se pretende laico. Fonte: https://cdn.jornaldebrasilia.com.br/wp-content/uploads/2020/04/STF-1.jpg 71UNIDADE IV Religião e Políticas Para entender a relação entre espaço e religião, voltemos a Mircea Eliade (1992) em O sagrado e o profano. Para o autor, as religiões têm como praxe a definição de locais específicos para seus ritos. Templos, grutas, capelas, entre outros. Os estudos do geógrafo cultural, Yi-Fu Tuan (1983), em Espaço e lugar: a perspectiva da experiência, caminham no mesmo sentido. Os templos, mais altos e imponentes comparado às demais construções, estão ali para dizer que os deuses se erguem sobre os humanos e a eles vigiam. Deus mora no céu. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus foi às vezes identificado com o céu. [...]. Em arquitetura, os edifícios importantes são colocados sobre plataformas, e, quando existe tecnologia necessária, tendem a ser os mais altos. [...] isto é talvez sempre verdadeiro: uma pirâmide ou uma coluna de triunfo alta impõe maior estima do que uma baixa. (TUAN, 1983, p. 43). Em consonância aos dois autores citados, “O sagrado e o urbano: gênese e função das cidades”, de Zeny Rosendahl (2008) compreende que a relação entre espaço e religião constitui elemento inseparável na história de fundação já das primeiras cidades. Segundo Rosendahl, no mundo moderno ocidental, a geografia religiosa brasileira se estrutura sob uma forma triangular manifestada pelo poder do povo, da Igreja e Estado. A autora compreende que a relação entre espaço e sagrado é expressa na forma e função de como determinados lugares e prédios são construídos. A forma seria uma categoria geográfica fundamental de como as pessoas imprimem seus valores e crenças na arquitetura; assim como a função desempenhada por aquele local. O lugar sagrado se exprime por atributos qualificativos a partir da manifestação do sagrado em um determinado local,investindo esse espaço de lógicas funcionais e espaciais próprias. No caso da influência da religião sobre os espaços geográficos, Rosendahl enten- de que a exposição da fé no tempo e no espaço, modifica consideravelmente a paisagem de uma cidade, não se limitando apenas às características visíveis, mas se estendendo também à experiência da fé fornecida por meio de símbolos e mensagens. A compreensão da realidade sócio espacial deve ser observada enquanto construção e atribuição de significados (ROSENDAHL, 2008). Figura 2 – Fachada da Catedral de Notre Dame, Paris-FR. Observem a proporção entre o prédio e as pessoas, mesmo as portas devido sua altura forçam o olhar para cima. Exemplo de como a religião altera a paisagem urbana e reforça assim a mensagem, visão de mundo que procura transmitir Fonte: https://diariodenavegador.com/wp-content/uploads/2019/04/Catedral-de-notre-dame-de-paris-fachada.jpg 72UNIDADE IV Religião e Políticas Os indivíduos também formulam espaços do sagrado em casa, um cômodo ou cantinho que reservam para suas orações, a partir do intuito de reproduzir a visão de mundo estimulada por sua crença. Nas casas, o local pode ser marcado por divindades e seus símbolos. Para o Brasil, podemos imaginar um altar com as imagens de santos ou da Sagrada Família para os católicos, a Bíblia depositada em um lugar especial, às vezes aberta em uma passagem, prática ocasional entre cristãos católicos e evangélicos. A relação que as instituições e o indivíduo religioso mantêm com o espaço de- monstram a necessidade de viver em um mundo que se organize de acordo com suas crenças. Se a arquitetura é profundamente modificada pela religião, se os prédios públicos são decorados com símbolos de uma crença específica, é de se esperar que encontremos mecanismos semelhantes na gênese das leis e costumes sociais mais difundidos. A noção de um Estado laico é recente se comparada aos milhares de anos em que política e religião andaram juntas.Como reflete Cury (2018) É certo que, tanto o feudalismo monárquico, como o absolutismo do direito divino do poder tinham como fundamento ético-religioso a subordinação aos desígnios de Deus entre os quais a afirmação de que a lei divina era superior à lei natural e à lei positiva.Nesse sentido, o direito positivado, aquele inscrito no ordenamento jurídico, não pode ser contrário aos preceitos do direito natural (próprio da natureza do ser humano) e este, por sua vez, deve estar em consonância com o direito divino, exarado pelas Escrituras e interpretado pelo Magistério papal. Dentro desta concepção de uma ordenação teológica do mundo é que se tem a doutrina do direito divino do poder dos governantes (CURY, 2018, p. 43). Apenas com a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, durante o século XVIII, temos efetivamente uma separação entre poder político e religião no mundo ocidental. No Brasil, isto aconteceria em 1889, com a Proclamação da República. E pelo menos até 1990, com 90% de fieis declarados, a Igreja Católica se colocou como baluarte para delimitar o que seria moralmente correto ou não em relação às leis do Estado, por exemplo a legalização do aborto, da pílula do dia seguinte, união civil e adoção por casais homoafetivos, pesquisas com células-tronco. Atualmente, a bancada evangélica reúne principalmente representantes de igrejas pentecostais, e tem se colocado no lugar de um catolicismo que está recuado no âmbito político, assim como seu número de seguidores. Líderes religiosos opinam sobre questões importantes, elegem representantes saídos das igrejas com a missão expressa de tornar o Estado mais religioso e o apoio dessas religiões é importantíssimo para a eleição de um presidente. Essa é uma realidade brasileira e de tantos outros países. Acredito que a Unidade III tenha explicado, é comum a religião ser encarada com uma seriedade mortal. 73UNIDADE IV Religião e Políticas As pessoas transformam o mundo de acordo com o que consideram certo, a partir de suas visões, ideias e cultura. Reforçamos que a distinção entre Estado e religião é muito recente em termos históricos. O Brasil ainda é um caso especial, o país com maior número de cristãos e dentro disso, o maior número de católicos e de evangélicos. Os estudos aqui apresentados corroboram para a percepção de que Estado e religião não estão separados efetivamente. As instituições religiosas exercem influência direta na política e nas decisões mais importantes para a sociedade. Como prática científica, não é recomendado julgar esse fenômeno como alguma forma de atraso, ou condenar as pessoas que, por acreditarem em uma religião, gostariam que o território em que habitam seguisse essa regra. A proposta de um Estado laico visa justamente respeitar os limites pessoais de todo cidadão. Afinal, não existe apenas uma visão de mundo mesmo entre religiões cristãs. Com isso, é importante que nossas leis amparem o indivíduo independente de suas crenças e garantindo a liberdade de praticá-las. De geração para geração, as pessoas mudam. É importante que o Estado seja um organismo que serve ao interesse geral. Sem tentativas de disciplinar seus cidadãos a um comportamento específico. Todos devem ser livres, desde que as escolhas individuais não comprometam a liberdade de outra pessoa. A laicidade se propõe como neutra, ressalvando o espaço e a discussão pública como um território de respeito à diversidade cultural. Ao mesmo tempo que conserva a escolha individual e o direito de cada pessoa seguir seus próprios costumes e crenças. No Brasil, é possível que as mudanças políticas calcadas na ciência deixem parte da população pensando que o Estado está se afastando demais do cristianismo. Por que isso acontece? Talvez porque até agora, a relação entre as duas instituições tenha sido mais próxima do que pressupõe a neutralidade do Estado laico, como veremos a seguir, no tópico 2. 74UNIDADE IV Religião e Políticas 2. LEIS X MORAL RELIGIOSA Observamos que, por mais que oficialmente seja laico, a religião nunca deixou de ser parte atuante no Estado brasileiro. Quando as leis parecem se afastar da moral religio- sa, rapidamente reações enérgicas podem ser percebidas.O Brasil inclusive recentemente tem vivido momentos de maior calor entre o que prevê a legislação e o que idealizam as religiões. Iremos adiante comentar sobre casos relacionados à questão da liberdade sobre a decisão do aborto, o ensino do evolucionismo na História e a prática de religiões afro-brasileiras. Para Marya Lygia de Moraes, em “Política dos corpos e o fundamentalismo religio- so”, o Estado que se norteia pela religião pode se tornar perigoso para grupos sociais que não são protagonistas das crenças mais influentes. Caso das mulheres, por exemplo, que devido a influência religiosa em nossas políticas públicas, já no século XX, eram atestadas por lei como donas-de-casa (O Código Civil de 1916) estabelecia caber ao marido a chefia, vale dizer, administração dos bens, a manutenção material da família, o direito de fixar residência, enquanto à mulher era outorgada a função de ser a “companhei- ra, consorte e colaboradora do chefe da família, cumprindo-lhe zelar pela direção material e moral desta (MORAES, 2018, p. 96). A mulher não poderia se divorciar caso desejasse, era proibido pois quebrava um pacto sagrado para o cristianismo, o matrimônio. Ainda que o companheiro se comportasse muito mal, com traição, violência física, assédio psicológico, estupro. No máximo uma se- 75UNIDADE IV Religião e Políticas paração informal poderia acontecer e, caso acontecesse, o homem ficaria com todos bens adquiridos durante o casamento. A mulher teria direito a eles, caso fosse da benevolência do ex-marido compartilhar. Algo que se altera apenas72 anos depois, com a constituição de 1988. Moraes (2018) esclarece que uma série de obstáculos estão impostos às mulhe- res brasileiras ainda nos dias de hoje, como a intimidação sexual em espaços públicos, a diferença salarial, a baixa ocupação de cargos de chefia e, no caso da religião, o aborto. Um tabu muito sério em nossa sociedade, regulamentado em países como EUA, Cuba, Uruguai, Alemanha e muitos outros. Normalmente o período máximo para fazê-lo é até as 12 semanas de gestação, período onde os métodos de interrupção praticamente não representam risco para a mulher e o sistema nervoso do feto ainda não se formou. Em “Bioética laica: zonas de atrito com as religiões na prática de saúde’’, escrito por S. Rego, M. Palácios e P. Fortes (2018) são abordados três pontos importantes para compreender a questão do aborto: a posição das religiões hegemônicas no Brasil; os quadros de saúde pública com relação a essa prática e; o que a Constituição Brasileira conforma sobre essa questão. No primeiro aspecto, a posição cristã é de que a vida aconteceria no momento em que a primeira célula se formasse. Dessa forma, o aborto seria preterível em qualquer situação. Mesmo em situações limítrofes, como acompanhamos em 2020, no episódio do aborto legal de uma gravidez causada por estupro de uma menina de 10 anos. Grupos religiosos se organizaram em frente ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, em Recife –PE, onde o médico Olímpio Moraes Filho, que faria o procedimento autorizado pela justiça, foi alvo de protestos e insultos. Antes desse episódio, o obstetra já havia sido excomungado duas vezes pela Igreja Católica, por realizar a mesma prática em situações similares, o aborto de uma gravidez causada por estupro de vulnerável. Se casos como esses ainda mobilizam dezenas de pessoas a chamarem médicos e vítimas de assasinos, questionamos quão distante não está a possibilidade de que o aborto assistido seja integra- do ao conjunto de leis brasileiras. Não se trata de incentivar a prática, mas fazer isso de maneira segura e providen- ciar as orientações necessárias para que se evite uma recorrência. A decisão de ter um filho ou não, a visão religiosa por trás dessa escolha, não pode partir de cima para baixo, do Estado para o cidadão. Rego, Palácios e Fortes (2018) defendem que esta medida serviria para diminuir a quantidade de mulheres que, por abortarem clandestinamente, sofrem com complicações de saúde física e psicológica, levando em alguns casos à morte. 76UNIDADE IV Religião e Políticas Estima-se que 500 mil abortos clandestinos aconteceram em 2016 no Brasil. Ao contrário do que se pode imaginar, a maioria acontece com mulheres casadas, com pelo menos um filho e maiores de 20 anos. As mortes em razão da prática aconteceriam prin- cipalmente entre a população mais pobre. O que enfatizaria a necessidade de uma regu- lamentação pública. Afinal, os dados mostram que não houve qualquer retração na opção pelo aborto. Mas as mulheres que não podem pagar por assistência médica ou remédios mais caros, eficazes e seguros, acabam sofrendo mais com a proibição e o assédio. Dessa forma, a prática do aborto realizada de maneira segura e assistida por um profissional é uma realidade, porém apenas se possuir dinheiro suficiente. Figura 3 – anúncio encontrado em pesquisa rápida na internet. Exemplo do merca- do clandestino de abortivos no Brasil. A prática põe em risco a saúde da mulher e tira do Estado a possibilidade de um procedimento assistido, de acesso a psicólogos para tratar do assun- to e inclusive da reversão da decisão. No anúncio era informado que as cápsulas custariam R$600, um valor inacessível para muitas brasileiras, a que métodos elas recorrem então? Fonte: Banco de imagens do Google. Em teoria, a Constituição proíbe o aborto exceto em duas circunstâncias, quando a gravidez é resultado de estupro ou coloca a vida da mãe em iminente risco de vida. Os casos onde o diagnóstico de anencefalia obteve aprovação da prática se enquadram na segunda circunstância. As leis não especificam quando um embrião passa a ser visto como vida humana. Podemos dizer que os primeiros dias de gestação já não contam, visto que as pílulas-do-dia-seguinte podem ser compradas em qualquer farmácia e agem de maneira abortiva. Também as pesquisas de célula tronco se utilizam de embriões em estágio inicial. Do ponto de vista científico, um embrião não é considerado um indivíduo, do ponto de vista religioso sim. A partir dessa reflexão, os autores destacam que O argumento religioso de que a alma está presente desde a concepção e por isso o aborto deve ser considerado tão criminoso quanto tirar a vida de 77UNIDADE IV Religião e Políticas qualquer pessoa inocente, não pode ser razão para o Estado considerar um crime. Se é assim é, há a imposição de uma determinada crença religiosa sobre o conjunto da população, em franca colisão com os princípios consti- tucionais da laicidade e da pluralidade (FORTES; PALÁCIOS; REGO, 2018, p. 121). Ou seja, se vivêssemos em um Estado plenamente laico, as leis não seriam avalia- das conforme sua consonância com as religiões cristãs, mas a partir de critérios técnicos, como qual decisão representa menos riscos à saúde Mas não vivemos em um país cristão? Com tamanha adesão a uma visão religiosa, não era de se esperar que as pessoas discordassem com “coisas desse tipo”? Considerar o que a ciência diz ser o mais adequado não é ir contra os princípios de minha religião? A discussão presente em “Laicidade e ensino de ciências: reflexões sobre o es- tudo da vida no Ensino Médio”, de Eliane Brígida Falcão, pode nos auxiliar a responder tais questões. Em seu trabalho, a autora procura analisar a recepção de conteúdos das Ciências Naturais (Física, Química e Biologia) por alunos da rede pública e privada. Nos locais com menor material de trabalho (precaridade ou ausência de laboratórios, eventos de discussão científica, acesso a informação em casa), nota-se um conflito maior entre as ideias apresentadas nas matérias destacadas acima. O perfil religioso dos estudantes das cinco escolas era semelhante: em sua grande maioria eram crentes em Deus com ou sem adesão a uma religião. Entretanto, crenças religiosas associadas às explicações para origem e di- versidade da vida foram mais evidentes entre estudantes de escolas onde os recursos de ciência eram precários (FALCÃO, 2018, p. 170). É interessante que, apesar dos estudantes com melhor acesso a materiais didáticos e atividades extraclasse terem mostrado maior adesão às teorias científicas de origem da vida, isso não significou se tornarem menos religiosos. Quando compara essa recepção para alunos do curso de Ciências Biológicas também não diminui expressivamente o nú- mero de pessoas que acreditam em uma religião. Mesmo entre os cientistas de profissão, pesquisadores, aqueles crentes em alguma religião constituem maioria larga. O que se altera significativamente, dos alunos do Ensino Médio para aqueles da faculdade, e depois para os cientistas profissionais é a quantidade de pessoas que acreditam em uma instituição religiosa específica. O que nos leva a compreender que as pessoas não deixam de acreditar em Deus por considerarem as ideias científicas. Mas se tornam menos dogmáticas, menos apegadas a uma visão de mundo específica. Conceber a ciência como uma análise válida do mundo natural parece lançar questionamentos ao discurso do sacerdote. Pode ser que a ciência abale um pouco a condição doutrinária da religião, mas não a fé. 78UNIDADE IV Religião e Políticas Figura 4 – Alunos de um colégio católico de classe média-alta em uma aula de Bio- logia. Segundo Falcão (2018), os professores de locais como esse não relatam problemas em transmitir conteúdos científicos que “contestam”a visão religiosa. Quantas vezes ao ano uma aula assim aconteceria em escolas públicas? Uma reflexão. Fonte: https://horaextra.slz.br/wp-content/uploads/2020/11/IMG-20201123-WA0134.jpg Quando questionados sobre a aparente contradição entre o que ciência e religião apresentam, Falcão (2018, p. 1. 73) recebe afirmações tais qual: “A minha religião é uma coisa, as aulas de biologia são outra”. Basicamente este é o objetivo do Estado, separar a visão religiosa de mundo da discussão científica no sentido do que pode ser melhor para as pessoas, independente dos deuses que escolheram render culto ou não. Que análises demonstram melhores resultados e melhoram a qualidade de vida do maior número de pessoas. A rixa entre religião e ciência no Brasil e no mundo nem sempre foi uma realidade. Em certos momentos, as duas confluem para concordar com determinada estrutura de poder. Por exemplo, no caso da escravidão da população africana e seus descendentes, o discurso científico e religioso contribuíram um com o outro. Se do ponto de vista religioso, a escravidão era válida para catequização dos costumes bárbaros do negro, visto como idó- latra e concupiscente. A ciência entendia esta pessoa como boçal, inculta, pouco evoluída, 79UNIDADE IV Religião e Políticas assim o trabalho braçal e a vigilância constante daqueles que lhe eram superiores seria o melhor caminho para o desenvolvimento dos próprios africanos. Como destacado nas Unidades 1 e 2, o evolucionismo aplicado às culturas humanas foi um conceito recorrente para exercer poder sobre aqueles considerados não-evoluídos e sobretudo para desvalorizar ou mesmo criminalizar suas práticas, crenças e cultos. Na atualidade, a figura da mãe-de-santo, da macumba e do macumbeiro, ou seja quem pratica ritos religiosos de matriz africana provoca medo nas pessoas, mas também é motivo de risadas. Frases como “chuta que é macumba” ditas em tom jocoso são formuladas a partir de uma ideia preconceituosa sobre o valor religioso de culturas não-monoteístas. Essa concepção não tem suas origens no humor ou nas igrejas, mas na ciência. Augé (1994) ao escrever uma breve história sobre a relação entre o conceito de Magia e a Antropologia européia, do século XIX aos anos 1980, explica que o termo foi encarado, inicialmente, como uma forma degradada e individualizada de religião. Com efeito, as práticas mágicas encontrariam respaldo na ignorância e ingenui- dade do selvagem africano. Utiliza como exemplo o papel do feiticeiro-curandeiro nessas sociedades que cobriria as funções do médico para o mundo moderno, mas sem a eficácia do conhecimento científico. A magia seria uma tentativa pré-científica de ação concreta sobre o mundo, baseada em princípios infantis de similitude e contiguidade (por exemplo, imitar um pássaro permite acesso a seus poderes ou controle; o cabelo de uma pessoa pode servir para atingi-la espiritualmente). Embora pesquisas posteriores ao século XIX tenham rebatido suficientemente tais ideias, seus preconceitos sobreviveram e estão enraizados em nossa cultura e política, sobretudo devido ao reforço religioso que contribuiu para essa perseguição. Como mencionado na Unidade 2, ainda que pautadas no princípio da laicidade, as leis no Brasil colocam as religiões de matriz africana em xeque. Casos como o artigo 258 do Código Penal, sobre curandeirismo, o princípio-base do artigo é de que a crença na cura por métodos não-científicos resulta da ignorância, o que se aproxima da ideia de magia vigente no século XIX europeu sobre outras culturas. Um caso trazido por Yvonne Maggie (2001) exemplifica o que entendemos por uma sobrevivência do evolucionismo social oitocentista. A assimilação entre magia/feitiço e malefício reflete um posicionamento dos brasileiros. A autora narra o caso no qual um assassino é absolvido sob a ideia de que agira em legítima defesa. A vítima, conhecido pai-de-santo daquela região, havia discutido algumas vezes com o acusado por questões de disputa de terras. Júri e juiz se convenceram de que o fazendeiro se sentia 80UNIDADE IV Religião e Políticas ameaçado em sua integridade, devido a possibilidade da vítima lhe colocar um feitiço de morte. Na visão de Montero (2009), esse tipo de atribuição acontece, devido a uma participação determinante do pensamento religioso na institucionalização do espaço público. É preciso medir o quanto a religião pode penetrar no Estado. Não é possível rejeitar sua influência ou eliminá-la, acreditamos que algo do tipo não seria nem necessário, nem útil. A cultura faz parte do poder e a religião marca profundamente a cultura no Brasil. A proposta de laicidade política parece contemplar as duas coisas, crer e pôr suas crenças em prática, ao mesmo tempo que não se obriga um sistema religioso específico para todos. SAIBA MAIS No dia 28 de Março de 2019, o Supremo Tribunal Federal considerava inconstitucional o projeto de lei de elaboração da deputada Regina Becker, no estado do Rio Grande do Sul. Nos ditames a respeito da proteção ambiental, se proibia o sacrifício de animais em rituais religiosos. Uma proposta que se opõe nitidamente a práticas religiosas afro-bra- sileiras. A desinformação a respeito de como e porque tais sacrifícios ocorrem, reforçam precon- ceitos que em algumas ocasiões levam à violência e à morte. Sacrificar um animal na maior parte do tempo significa também se alimentar dele e dividir esse alimento com os frequentadores do terreiro. O que é oferecido frequentemente são partes do animal que as pessoas muitas vezes não comem, como a cabeça, as patas e o couro. A carne quando é ofertada, costuma ser em pequena quantidade. Esta não é uma regra entre todas as práticas religiosas de matriz africana. Ainda que o comum fosse não comer a maior parte do animal ofertado, a religião não pode ser considerada um motivo mais ou menos válido do que práticas que efetivamente sacrificam animais por razões que não são o desenvolvimento da me- dicina ou para alimentação, como por exemplo a indústria de cosméticos ou do mercado de peles. O desafio com o surgimento de um sistema legal, plural e multiétnico é fazer com os operadores lidem com as temáticas dos povos e comunidades tradicionais, grupos étni- cos, tais como os de terreiros, isto é, aqueles que professam religiões de matriz africana. [...] Denota-se a necessidade de superação do racismo que nega o cultivo das diferen- ças, para valorizar o legado cultural e histórico do negro no processo de reidentificação em termos étnico-culturais. (D’ADESKY apud MOTA, 2018, p. 141). Fonte: MOTA, Rejane Francisca. O mito do estado brasileiro laico: racismo institucional e a proibição da sacralização de animais no Candomblé. 2018. 168f. Dissertação (Mestrado em Direito Público). Programa de Pós-Graduação em Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. 81UNIDADE IV Religião e Políticas REFLITA Uma explosão acontece onde antes aparentemente não havia nada. Uma partícula, algo muito, muito menor do que o menor grão de areia existente, de repente expulsa de si o universo inteiro. Nada era como enxergamos hoje, mas uma nuvem de átomos diferen- ciados em mais de cem elementos se dissipa infinitamente na imensidão do nada. Ou do tudo? Depois de um tempo que não faz sentido nenhum para a perspectiva de uma vida humana, silenciosamente, pois o som não se dissipa sem uma atmosfera, surgem os primeiros corpos celestes e eles brilham mais do que qualquer coisa que você vai en- contrar na sua vida, surgem em uma quantidade muito maior do que as estrelas visíveis, são gigantescos e a força de sua presença parece convidar os outros elementos a se unirem em um movimento coordenado. Das estrelas nascem os planetas, são esferas de fogo ardendo em magma e enxofre. Elas giram em torno daestrela e depois de outra eternidade se passar o fogo se dissipa. Em uma das esferas, como resultado de toda convulsão sofrida, um líquido parece ter brotado em abundância. E ele carrega uma forma que não estava presente no momento da explosão. É a vida, que nasceu e todos os dias tem lutado contra a possibilidade de não mais existir. Dependendo de como enxergamos, a Teoria do Big Bang se assemelha muito a uma narrativa religiosa. No entanto, sua existência vem de cálculos construídos a partir de leis da física e da química. Sua formulação não se propõe enquanto verdade, está mais próximo de “O que a ciência pode pensar até o momento sobre a criação do universo”. Por que algumas religiões parecem brigar contra essa hipótese científica? Muitas ideias e histórias presentes na Bíblia, por exemplo, não são interpretadas de maneira literal por nenhuma vertente religiosa, por que o Gênesis deveria ser? Como a ciência pode invalidar o pensamento religioso se está submetida a testes laboratoriais e o outro a fé? Tenho a impressão de que certas brigas não são nossas. Como aquelas histórias de família que se odeiam por gerações, mas os motivos já se perderam no tempo, de forma que os mais novos estão brigando mais por tradição que convicção. Religião e ciência. A quem interessa esse conflito e por que? 82UNIDADE IV Religião e Políticas CONSIDERAÇÕES FINAIS Na Unidade IV, Religião e políticas procuramos discutir a respeito do estado laico brasileiro, como os espaços são tomados por nossas visões de mundo. A arquitetura se sacraliza, assim também acontece com as leis, nossas regras de convívio, práticas coti- dianas, as instituições de que o poder público dispõe. Por isso, talvez seja mais prudente conceber a laicidade mais como um processo do que uma realidade estabelecida. Também sinalizamos que o papel da religião no Estado não pode ser ignorado, mas discutido e orientado pelo princípio da liberdade individual. Também sinalizamos para a relação de leis e moral religiosa a partir de situações onde se observa o conflito entre o que a religião mais praticada de um local prega e aquilo que autoridades políticas e comunidade científica entendem como a opção com melhores resultados. Refletimos sobre as mulheres e o aborto no cristianismo; a ciência e seu ensino nas escolas; as religiões afro-brasilerias e a criminalização de seus rituais. Espero que nossa discussão tenha servido ao propósito de uma melhor compreensão das relações entre Estado Laico no Brasil, leis e moral religiosa.Muito obrigado. 83UNIDADE IV Religião e Políticas LEITURA COMPLEMENTAR A obra a seguir foi a principal base para construção da unidade. Ao todo são oito artigos, onde se discute a ideia de Estado Laico e os temas de maior conflito resultante da relação entre leis, ciência e moral religiosa. D’AVILA-LEVY, Claudia Masini; CUNHA, Luiz Antônio (Orgs.). Embates em torno do Estado laico [livro eletrônico]. São Paulo: SBPC, 2018. Disponível em: http://portal.sbpcnet. org.br/livro/estadolaico.pdf Bruno Latour é sociólogo, antropólogo e filosofo da ciência. Neste trabalho discute sobre a produção de ídolos na sociedade contemporânea, qual a relação psicológica que estabelecemos com nossos objetos de crença e como a modernidade ocidental tem lidado com isso. ● LATOUR, Bruno. O culto moderno dos deuses fe(i)tiches. Bauru-SP: EDUSC, 2002. A produção a seguir discute os pressupostos legais que estão por trás da crimina- lização de ritos das religiões de matriz africana, sobretudo o sacrifício de animais. Pontua detalhadamente a questão em seu viés jurídico e filosófico. Concluindo com argumentos em defesa do multiculturalismo e regulamentação da diversidade religiosoa. ● MOTA, Rejane Francisca. O mito do estado brasileiro laico: racismo institucional e a proibição da sacralização de animais no Candomblé. 2018. 168f. Dissertação (Mestra- do em Direito Público). Programa de Pós-Graduação em Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ ri/29392/1/Rejane%20Francisca%20dos%20Santos%20Mota.pdf 84UNIDADE IV Religião e Políticas MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WI-XV9LT_aE&ab_channel=t- vbrasil Título: Caminhos da Reportagem – Aborto: uma conversa neces- sária. Produção: TV Brasil. Documentário Sinopse: O Caminhos da Reportagem traz a discussão sobre aborto, feita com mulheres, especialistas, médicos e religiosos. O tema, considerado um tabu, mobiliza, além da sociedade civil, políticos e judiciário – desde março de 2017 corre uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação, em todos os casos. LIVRO Título: Ciência com consciência. Autor: Edgar Morin Editora: Bertrand Brasil, 1994. Sinopse: Edgar Morin um dos poucos intelectuais especialista em diversas áreas. Sua formação vai de trabalhos na Pedagogia, Sociologia, História até Biologia e Física. A obra dialoga sobre a necessidade de se pensar a ciência em sua pluralidade de abor- dagens, de maneira que seu discurso possa atingir o cotidiano da sociedade, tantas vezes distante do pensamento científico. 85 REFERÊNCIAS ABDALATI, Hammudah. O Islam em foco: fundação das associações muçulmanas do Bra- sil. FAMBRAS: São Paulo, 2008. ALMEIDA, Ronaldo R. M. de & MONTERO, Paula. O campo religioso brasileiro no limiar do século: problemas e perspectivas. In: RATTNER, Henrique (Org.). Brasil no limiar do século XXI. São Paulo: EDUSP, p. 325-339, 2000. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus; fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia das letras, 2001. AUGÉ, Marc. Magia. In: Enciclopédia Einaudi: religião-rito, vol. 30. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994. BELLOTTI, K. K. História das Religiões: conceitos e debates na era contemporânea. Histó- ria: Questões & Debates, Curitiba, n. 55, p. 13-42, jul./dez. 2011. BERGER, P. 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Ao debater a disseminação das religiões no mundo e no Brasil, procuramos de- monstrar que religião e poder são estruturas fundidas na justificativa de um mesmo projeto de sociedade. Isso em vários momentos do passado e do presente. Compreender tal recor- rência voltando-se para o passado foi uma maneira que utilizamos para demonstrar que, em toda história, a cultura é palco de manipulações, distanciamentos e contatos. O que torna a diversidade religiosa uma realidade em diferentes momentos e espaços. Se olhamos para o Outro como igual, não há o que temer ou eliminar em suas crenças O estranhamento é produzido quando nos distanciamos, ao sentirmos medo da cultura alheia. O medo e o poder são a base para a formação do fundamentalismo religioso. As chamadas guerras santas são iniciadas com o discurso de um mal a se combater e, de ma- neira geral, terminam com culturas perseguidas e povos saqueados. Podemos dizer que a violência motivada por e contra uma crença tem lógica semelhante ao evolucionismo social que inflamou o nazismo: o outro e sua cultura são inferiores, são uma ameaça a nosso modelo de vida e devemos acabar de uma vez por todas com isso em nosso território. Ponderando sobre questões e problemas da religião no mundo contemporâneo, o Estado laico foi o último tema de debate. Como uma forma de prevenção contra novos 92 conflitos fundamentalistas. Nosso governo não pode possuir uma religião, mas princípios norteados no que é comprovadamente benéfico para sociedade, independente de crença. Os valores culturais e individuais devem ser respeitados, incluindo a prática de qualquer religião. Esperamos que a apostila tenha contribuído para novas ideias a respeito das reli- giões e do que os seres humanos podem produzir a partir delas. Seu impacto na sociedade e seu fenômeno na História. Acredito que estudar religião é mais sobre ter o máximo de dúvidas possíveis e responder elas com informação e, depois de muitas informações, mais perguntas. Parece uma postura científica adequada diante de mistérios tão grandes. Para conseguir conhecimento precisamos assumir que não o possuímos. Nossos agradecimentos!