Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Fenômeno Religioso na 
Contemporaneidade
e Educação
Professora Ma. Laís Azevedo Fialho
Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga
AUTORES
Professora Ma. Laís Azevedo Fialho
●	 Mestra	em	História,	Cultura	e	Narrativas	(PPH-Universidade	Estadual	de
	 Maringá).
●	 Especialista	em	História	da	África	e	Cultura	Afro-brasileira	(DCS-
	 Universidade	Estadual	de	Maringá).
●	 Licenciada	em	História	(DHI-Universidade	Estadual	de	Maringá).
●	 Tutora	Educacional	no	Centro	Universitário	Cidade	Verde	(UniFCV).
●	 Professora	Conteudista	na	UniFatecie.
●	 Experiência	como	professora	de	História	da	Rede	básica	de	Educação	em	2016.
●	 Atuou	como	Pesquisadora	Bolsista	Capes	em	2018	e	2019.
●	 Coordenou	e	organizou	diversos	Projetos	de	Extensão	abordando	as	Religiões		
	 e	Religiosidades	Afro-brasileiras,	na	Universidade	Estadual	de	Maringá,	
	 entre	2015	e	2019.
●	 É	integrante	do	Laboratório	de	Religiões	e	Religiosidades	da	Universidade	Esta	
	 dual	de	Maringá	(LERR/UEM).
Áreas	de	concentração:	História	das	Religiões	e	Religiosidades	com	ênfase
nas	Práticas	Afro-brasileira;	História	Cultural,	Epistemologias	decoloniais.
Endereço	para	acessar	este	CV:	http://lattes.cnpq.br/8724898233397030
Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga
●	 Doutorando	em	História,	Cultura	e	Narrativas	(PPH	–	Universidade	Estadual	de		
	 Maringá)
●	 Mestre	em	História,	Cultura	e	Narrativas	(PPH-Universidade	Estadual	de		Maringá).
●	 Licenciado	em	História	(DHI-Universidade	Estadual	de	Maringá).
●	 Experiência	como	professor	de	História	da	Rede	básica	de	Educação	de	2018		
	 a	2020.
●	 Pesquisador/discente	no	Laboratório	de	Estudos	em	Religiões	e	Religiosidades		
	 (UEM)	e	Laboratório	de	Estudos	em	Religiosidades	e	Cultura	(UEM).
Áreas	de	concentração:	História	das	Religiões	e	Religiosidades	com	ênfase
nas	Práticas	Afro-brasileira;	História	Cultural.
Endereço	para	acessar	este	CV:	http://lattes.cnpq.br/2869647069753158
APRESENTAÇÃO DO MATERIAL
Caros	 (as)	estudantes,	produzimos	esse	material	 com	dedicação	e	comprometi-
mento	a	fim	de	proporcionar	para	você	uma	oportunidade	de	aprendizado	sobre	fenômenos	
religiosos,	a	religião	na	contemporaneidade,	as	diversas	manifestações	religiosas	e	suas	
particularidades,	além		de	pontuar	as	relações	entre	tais	assuntos,	a	educação	e	o	Ensino	
Religioso.
A	religião	pode	ser	analisada	a	priori	como	um	conjunto	de	crenças	e	ritos.	Por	outro	
lado,	pode-se	pensar	que	o	essencial	na	religião	só	é	compreendido	como	algo	que	emana	
do	alto,	de	Deus.	O	ponto	de	vista	analítico	adotado	importa	pois	o	tema	é	complexo,	não	
podemos	perder	 isso	de	vista.	Desse	modo,	o	que	priorizamos	neste	estudo	são	modos	
de	enquadrar	 teoricamente	as	representações	das	religiões	como	experiências	vividas	e	
passíveis	de	observação,	ou	seja,	os	fenômenos	religiosos.	
Iniciaremos	nossa	discussão	com	uma	incursão	teórica	sobre	fenômenos	religio-
sos	e	sociedade.	Abordaremos	diversos	conceitos,	definições	e	disputas	analíticas	para	
compreender	nossa	temática.	Apresentaremos	estudos	inaugurais	que	influenciaram	con-
sideravelmente	a	Ciência	das	Religiões	e	alguns	debates	sobre	modos	de	se	perceber	os	
fenômenos	religiosos	a	partir	de	diferentes	áreas	do	conhecimento.	Destacaremos,	também,	
algumas	características	dos	fenômenos	religiosos	na	contemporaneidade.
Na	segunda	unidade,	nos	dedicaremos	a	pensar	sobre	como	as	pessoas	se	com-
portam	em	relação	à	religião	em	nossa	sociedade.	Abordaremos	o	contato	cultural	como	
catalisador	para	formação	e	adaptação	das	religiões	em	diferentes	sociedades	no	mundo	
e	no	tempo,	bem	como	nos	deteremos	sobre	as	imbricações	desse	processo	na	história	
das	religiões	no	Brasil	com	o	poder	e	com	o	cotidiano.	Posto	isso,	refletiremos	sobre	como	
o	indivíduo	contemporâneo	se	orienta	em	relação	a	multiplicidade	de	religiões,	crenças	e	
práticas	presentes	no	mundo.
Já	em	nossa	terceira	unidade,	apresentaremos	um	debate	teórico	sobre	fundamen-
talismos	religiosos.	Analisaremos	algumas	manifestações	desse	fenômeno	em	diferentes	
tempos	históricos	e	culturas	religiosas,	bem	como	a	própria	historicidade	do	termo.	Apresen-
taremos	algumas	características	típicas	desse	fenômeno	e	contextualizamos	o	crescimento	
de	fundamentalismos	religiosos	no	Brasil	contemporâneo.
	Por	fim,	veremos	na	última	unidade	qual	pode	ser	o	papel	do	Estado	em	relação	à	
religião.	Lançaremos	luz	sobre	o	conceito	de	Estado	laico	e	seu	desenvolvimento	histórico	
no	Brasil.	Em	diálogo	com	tais	discussões,	pensaremos	também	sobre	alguns	tabus	religio-
sos.	Esperamos	que	você	possa	se	interessar	pelas	discussões	aqui	iniciadas!
Bons Estudos!
SUMÁRIO
UNIDADE	I	...................................................................................................... 6
Fenômenos Religiosos e Sociedade
UNIDADE	II	................................................................................................... 24
As Religiões Contemporâneas
UNIDADE	III	.................................................................................................. 49
Fundamentalismo Religioso
UNIDADE	IV	.................................................................................................. 69
Religião e Políticas
Plano de Estudo:
●	 Homem	como	um	ser	religioso	e	social.
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Definir	o	fenômeno	religioso.
●	 Estabelecer	as	múltiplas	vertentes	conceituais	em	torno	dos	fenômenos	religiosos.
●	 Apresentar	algumas	características	dos	fenômenos	religiosos	na	contemporaneidade.
5
UNIDADE I
Fenômenos Religiosos e Sociedade
Professora Me. Laís Azevedo Fialho
Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga
6UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
1. HOMEM COMO UM SER RELIGIOSO E SOCIAL 
1.1 A religião e o fenômeno religioso
A	palavra	“religião”	vem	do	latim,	significa	“religare”	e	refere-se	etimológicamente	à	
uma	confluência	de	pessoas	em	torno	de	algo	que	as	conecta	com	o	sobrenatural.	Histori-
camente,	o	termo	se	relaciona	às	crenças	e	práticas	de	um	grupo.	Esse	aspecto	da	vida	é	
essencial	e	permanente	na	humanidade,	um	fenômeno	coletivo	que	gera	a	criação	de	laços	
solidários	entre	pares	e	consolida	padrões	éticos	baseados	na	crença	de	um	determinado	
grupo.
Sobre	a	tentativa	de	indicar	o	que	seria	religião	e	porque	é	relevante	enquadrá-la	
como	um	aspecto	importante	da	vida	humana,	mesmo	com	todas	as	problemáticas	envoltas	
em	conflitos	religiosos,	Beter	Berger	(2003,	p.	112)	diz	o	seguinte:
Pode-se	dizer	que	a	religião	aparece	na	história	quer	como	força	que	sus-
tenta,	quer	como	força	que	abala	o	mundo.	Nestas	duas	manifestações,	ela	
tem	sido	tanto	alienante	quanto	desalienante.	É	mais	comum	verificar-se	o	
primeiro	caso,	devido	a	características	intrínsecas	da	religião	como	tal,	mas	
há	exemplos	importantes	do	segundo.	
Trouxemos	esse	 texto,	 porque	é	 importante	 problematizar	 o	modo	 como	alguns	
discursos	 buscam	 atribuir	 à	 religião	 a	 origem	 dos	 problemas	 sociais.	 Será	mesmo	 que	
ela	não	é	só	mais	um	modo	por	onde	a	existência	humana	se	manifesta?	A	religião	está	
atrelada	aos	princípios	de	moralidade	e	ética	que	circundam	os	indivíduos.	É	essa	ética	que	
determina	o	que	é	certo	fazer	e	o	que	deve	ou	não	ser	feito.	
7UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
Figura	1	-	Tirinha	sobre	religião	e	ética.	Fonte:	https://www.satirinhas.com/wp-content/
uploads/2013/03/satirinhas-religi%C3%A3o-n%C3%A3o-define-car%C3%A1ter.jpg
O	autor	Schiavo	(s/d)	diz	que	a	religião	é	também	cultura,	pois	atribui	significados	
a	questionamentos	e	respostas	sobre	a	existência	humana	e	o	sentido	da	vida.	Para	ele,	a	
religião	não	é	patrimônio	exclusivo	das	igrejas,	mas	dos	povos	que	a	construíram	e	cons-
troem	como	aspecto	importante	de	suas	culturas.		O	autor	postula	que	a	religião	“antes	de	
ser	a	estruturação	de	certa	experiência	religiosa	é,	e	representa,	o	anseio	humano	de	se	
transcender	e	de	se	encontrar	com	aquele	Ser,	no	qual	a	humanidade	encontra	respostas	
às	suas	perguntas	profundas”	(SCHIAVO.	s/d,	p.	77).	
Desse	 modo,	 prezado(a)	 estudante,	 o	 estudodas	 religiões	 é	 importante	 para	
compreendermos	a	condição	humana	em	seus	aspectos	mais	profundos	e	misteriosos.	A	
religião	contribui	para	a	formação	de	estruturas	imaginativas	elementares	sobre	como	nos	
orientamos	ou	deveríamos	nos	orientar	no	cosmos.	
A	religião	dá	forma	e	ensaia	no	ritual	nossos	mais	importantes	laços,	uns	com	
os	outros	e	com	a	natureza,	e	provê	a	lógica	tanto	ao	porque	destes	laços	
serem	 importantes	 como	 ao	 o	 que	 significa	 estar	 comprometido	 com	 eles	
(NEVILLE;	WILDMAN,	apud	NEVILLE,	2005,		p.	37)
Compreendemos	que	a	religião	está	para	além	das	instituições,	mesmo	que	seja	
organizada	 por	 ela.	 É	 um	aspecto	 da	 cultura	 e	 que	 organiza	 pessoas	 com	as	mesmas	
crenças.	Mas	então	o	que	difere	o	fenômeno	religioso	do	fenômeno	social?	O	pesquisador	
8UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
Zilles	(2004)	nos	auxilia	a	pensar	sobre	a	questão	apontando	que	a	estrutura	especial	do	
homem	é	definida	por	sistema	de	relações	com	os	outros	homens:
No	fundo	de	toda	a	situação	verdadeiramente	religiosa	encontra-se	a	refe-
rência	aos	fundamentos	últimos	do	homem:	quanto	à	origem,	quanto	ao	fim	
e	quanto	à	profundidade.	O	problema	religioso	 toca	o	homem	em	sua	raiz	
ontológica.	Não	se	trata	de	fenômeno	superficial,	mas	implica	a	pessoa	como	
um	todo.	Pode	caracterizar-se	o	religioso	como	zona	do	sentido	da	pessoa.	
Em	outras	palavras,	a	religião	tem	a	ver	com	o	sentido	último	da	pessoa,	da	
história	e	do	mundo	(ZILLES,	2004,	p.	5-6).
Assim,	caro(a)	estudante,	a	religião	pode	ser	compreendida	como	uma	dimensão	
pela	qual	as	pessoas	se	unem	e	organizam	um	modelo	de	diversos	aspectos	sociais.	A	re-
ligiosidade	se	mantém	em	nosso	horizonte	como	um	aspecto	da	cultura	que	funciona	como	
lentes	pelas	quais	os	sujeitos	religiosos	veem	o	mundo.	Muitos	aspectos	da	vida	social	são	
diretamente	orientados	pelo	filtro	da	religião,	como	o	modo	de	vestir,	se	alimentar,	cuidar	
do	corpo,	etc.	
A	prática	do	Candomblé,	por	exemplo,	é	toda	baseada	em	comidas.	Os	alimentos	
fazem	parte	dos	rituais	ligados	às	divindades	africanas.	Nos	cultos,	come-se	para	transmitir	
o	axé	às	entidades	às	quais	se	reza	–	orixás	e	espíritos	ancestrais.	Logo,	o	alimento	passa	
a	figurar	cotidianamente	a	mesa	do	adepto	da	religiosidade	Afro-brasileira.	É	o	caso	do	aca-
rajé,	historicamente	relacionado	à	cozinha	baiana,		já	que	o	estado	figura	o	maior	estado	
negro	fora	da	África	e	possui	uma	grande	população	Afro-religiosa.
Figura	2	-	Baiana	de	Acarajé
Fonte:	https://veja.abril.com.br/gastronomia/acaraje-da-cira-e-eleito-o-
melhor-de-salvador-pelo-juri-veja-comer-beber/
9UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
Pensando	na	vestimenta,	nós	podemos	citar	uma	série	de	elementos	relacionados	
à	 indumentária	necessária	para	o	serviço	religioso	no	Judaísmo.	Quipá,	 talit,	pejot,	 teflin	
são	os	nomes	de	alguns	deles,	todos	com	algum	significado	imaterial.	As	roupas	para	esse	
adepto,	portanto,	deixam	de	ter	somente	uma	finalidade	prática	e	passam	a	ter	também	um	
aspecto	simbólico,	que	se	relaciona	intimamente	ao	rito.
Figura	3	-	Indumentária	utilizada	por	alguns	grupos	de	judeus
Fonte:	http://2.bp.blogspot.com/-4gqxH_9zJCs/ThkIzgZDm_
I/AAAAAAAAAvE/XcJzjqEUYD0/s1600/Roupas+de+Judeu.jpg
Já	sobre	a	relação	que	o	homem	religioso	possui	com	o	corpo,	podemos	citar	o	
caso	de	alguns	grupos	indígenas	em	que	tatuagens	e	marcações	na	pele	são	realizadas,	
como	modo	de	comunicar	e	identificar	um	rito	iniciático.	Sobre	o	assunto,	Vidal	(1992,	p.	
13)	diz	o	seguinte:
Apenas	 recentemente	 a	 pintura,	 a	 arte	 gráfica	 e	 os	 ornamentos	 do	 corpo	
passaram	a	ser		considerados		como		material		visual		que		exprime		a		con-
cepção		tribal		de		uma	pessoa	humana,	a	categorização	social	e	material	e	
outras	mensagens	referentes	à	ordem		cósmica.		Em		resumo,		manifestações		
simbólicas		e		estéticas		centrais		para		a	compreensão	da	vida	em	sociedade
Agora	que	nós	já	vimos	alguns	exemplos	práticos	de	como	essa	dimensão	da	vida	
social	comunica	as	práticas	e	modos	com	que	o	homem	religioso	significa	o	mundo,	passa-
10UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
remos	a	apresentar	alguns	estudos	que	organizam	de	modo	teórico	a	análise	do	fenômeno	
religioso.	Para	isso,	apresentaremos	alguns	conceitos	e	autores	que	balizam	as	análises	
sobre	o	tema.	Inicialmente,	apresentamos	um	breve	panorama	sobre	o	estudo	científico	que	
apresenta	o	espaço	delimitado	para	a	Religião	no	Ocidente	e	organiza	as	bases	utilizadas	
pela	Antropologia,	para	pensar	fenômeno	religioso	e	sociedade.	
1.2 Estudos inaugurais sobre o fenômeno religioso
Max-Muller	é	reconhecido	por	ter	criado	a	metodologia	de	religião	comparada	e	por	
ter	traduzido	os	Upanishads,	textos	sagrados	da	cultura	hindu,	em	meados	do	século	XIX	
(SILVA,	2009).
Figura	4	-	Friedrich	Max-Müller,	Junho	de	1857
Fonte:	National	Portrait	Gallery,	London.
Já	o	antropólogo	britânico	Edward	Burnett	Tylor	 influenciou	consideravelmente	a	
Ciência	das	Religiões,	por	ser	o	responsável	pela	criação	da	teoria	animista.	O	intelectual	
utilizou-se	de	princípios	próprios	do	evolucionismo	de	Darwin,	para	o	estudo	das	culturas	
e	 das	 religiões.	Tylor	 (1920)	 postulava	 que	 todos	 os	 seres	 humanos	 tinham	uma	 única	
origem,	portanto	assumia	uma	postura	“monogenista”,	em	confronto	à	teoria	de	que	o	ser	
humano	não	tem	uma	única	origem,	chamado	portanto	plurigenismo.	Outro	posicionamento	
que	o	coloca	como	importante	intelectual	do	período	é	que	ele	negou	a	perspectiva	degra-
11UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
dacionista.	Esta	corroborou	uma	sentença	bíblica	de	que	o	homem	foi	criado	perfeito,	e	ao	
longo	da	história	foi	se	encaminhando	para	a	degradação	(SILVA,	2009).	
Desse	modo,	o	 intelectual	defendia	que	o	homem,	ao	 longo	da	história,	 foi	evo-
luindo	e	se	desenvolvendo.	Ou	seja,	baseava-se	na	crença	no	progresso	e	universalidade	
do	ser	humano.	Por	outro	lado,	o	fundador	da	antropologia	britânica	classificou	todas	as	
diferenças	em	uma	escala	evolutiva.	Foi	o	primeiro	pesquisador	a	publicar	uma	definição	
formal	de	cultura:			
Cultura	 ou	 civilização,	 tomada	 em	 seu	 mais	 amplo	 sentido	 etnográfico,	 é	
aquele	 todo	complexo	que	 inclui	conhecimento,	arte,	moral,	 lei,	costume	e	
quaisquer	outras	capacidades	e	hábitos	adquiridos	pelo	homem	na	condição	
de	membro	da	sociedade”	(TYLOR,	[1871]	2005,	p.	69).
Figura	5	-	Edward	Burnett	Tylor,	Londres,	Outubro	de	1832
Fonte:	Encicolpédia	Britannica.	
Historicamente,	não	podemos	perder	de	vista	que	o	 século	XIX	no	Ocidente	 foi	
marcado	pela	 consolidação	do	 cientificismo.	Um	dos	marcos	principais	 desse	momento	
foi	a	divulgação	do	estudo	de	Charles	Darwin	(1859),	intitulado	“A	origem	das	espécies”.	
Desse	modo,	temos	um	grande	distanciamento	entre	o	sistema	de	pensamento	religioso	
(judaico-cristão)	e	o	sistema	de	explicação	científico	da	época.	Diversos	fatores	corrobora-
ram	esse	afastamento,	tais	como	a	Reforma	Protestante	e	o	Iluminismo	(BELLOTTI,	2011).
O	historiador		Michel	de	Certeau	(2002)	indica	que	a	Reforma	Protestante	enfra-
queceu	consideravelmente	o	poder	do	cristianismo	como	único	sistema	explicativo	admitido	
12UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
pela	 sociedade	 europeia.	 Ela	 instituiu	 a	 concorrência	 religiosa	 com	 a	 Igreja	 Católica,	 o	
que	culminou	nas	guerras	religiosas	do	século	XVII.	Sobre	o	assunto,	a	historiadora	das	
Religiões	Karina	Kosicki	Bellotti	(2011,	p.	16),	diz	o	seguinte:
Se	até	então	religião	e	política	formavam	uma	só	instância	de	poder,	a	partir	
desse	período	a	instância	religiosa	rivalizará	com	outras	instâncias	sociais	e	
políticas,	além	da	ciência,	que	surge	cada	vez	mais	distanciada	de	elemen-
tos	religiosos	em	suas	explicações.	Se	na	chamada	revolução	científica	do	
século	XVII	muitos	estudiosos	buscavam	aliar	observações	e	experimentos	a	
conceitos	religiosos/filosóficos,	explicando	os	mecanismos	de	funcionamento	
da	“criação”,	no	Iluminismo	houve	um	antagonismo	ferrenho	entrefilósofos	e	
cientistas	e	a	religião,	seja	a	encarnada	pelas	instituições	religiosas,	seja	a	
religião	popular.	
Novos	distanciamentos	em	relação	à	religião	organizada	também	marcam	o	fim	do	
século	XIX,	tais	como:
●	 Deísmo,	crença	em	uma	inteligência	divina	que	não	se	vincula	a	ritualismo	ou	dogma.
●	 Ateísmo,	a	negação	de	Deus.	
Todos	esses	acontecimentos	contribuíram	para	demarcar	um	lugar	limitado	para	a	
religião	no	Ocidente.	Ou	seja,	esses	acontecimentos	corroboram	a	transformação	da	reli-
gião	em	um	objeto	de	pesquisa,	enquadrável	e	analisável,	como	qualquer	outro	fenômeno	
humano.	Sobre	o	assunto	Bellotti	(2011,	p.	17)	diz	o	seguinte:	“para	que	o	estudo	científico	
da	religião	surgisse,	foi	necessário	dessacralizá-la”.
No	 entanto,	 não	 podemos	 assumir	 que	 houve	 um	 completo	 distanciamento	 en-
tre	os	princípios	religiosos	ocidentais	e	a	linguagem	científica	no	campo	da	antropologia.	
Assim,	assinalamos	que	o	período	 foi	marcado,	 também,	por	 um	enorme	 interesse	dos	
pesquisadores	para	com	as	culturas	consideradas	“exóticas”	ou	“primitivas”.	Influenciados	
por	ideias	de	Darwin	quanto	ao	mundo	natural,	cientistas	europeus,	como	o	próprio	Tylor,	
já	citado,	preocuparam-se	em	classificar	a	espécie	humana,	a	partir	dos	seus	costumes	e	
especificidades	culturais	e	raciais.	
Precisamos,	portanto,	considerar	que	o	estudo	acadêmico	das	religiões	 foi	 inau-
gurado	por	evolucionistas	que,	na	segunda	metade	do	século	XIX,	se	empenharam	em	
qualificar	o	desenvolvimento	humano	a	partir	de	uma	perspectiva	a-histórica	e	atemporal.
Da	 mesma	 forma	 que	 antropólogos	 criminais,	 frenologistas	 e	 eugenistas	
quiseram	 provar	 as	 diferenças	 “raciais”,	 hierarquizando	 diversos	 grupos	
étnicos	que	se	tornaram	conhecidos	pela	empresa	imperialista	antropólogos	
e	etnólogos	como	Müller,	Tylor	e	James	Frazer	(O	Ramo	de	Ouro,	1890),	par-
tiram	de	premissas	evolucionistas	para	hierarquizar	os	povos	e	suas	crenças	
religiosas:	 comumente	 encontram-se	 nesses	 trabalhos	 classificações	 que	
atribuem	aos	povos	“primitivos”	o	domínio	da	magia	e	aos	povos	“civilizados”	
a	presença	da	religião	institucionalizada.	Povos	que	se	atrasaram	na	escala	
evolutiva	 jamais	 poderiam	 alcançar	 o	 nível	 de	 organização	 religiosa	 dos	
povos	ocidentais	europeus,	por	estarem	desprovidos	de	uma	“verdadeira”	e	
complexa	cultura	(BELLOTTI,	2011,	p.	18).
13UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
No	século	XIX,	diversas	nações	europeias	conheceram	povos	não	europeus.	Es-
ses	foram	tidos	como	o	“Outro”,	considerando	que	o	homem	branco	olhava	para	si	mesmo	
como	a	norma.	Não	estavam	em	jogo	as	perspectivas	relacionais	ou	de	alteridade,	e	sim	de	
classificação	hierárquica	em	que	a	cultura	europeia	era	superior	às	demais.	Isso	gera	um	
grande	debate	científico	sobre	o	conceito	de	cultura.	Os	grupos	não	europeus	eram	classifi-
cados	como	primitivos	já	que,	sob	o	olhar	do	homem	branco,	eles	não	teriam	desenvolvido,	
ainda,	instrumentos	suficientes	para	dominar	a	natureza	(BELLOTTI,	2011).
De	acordo	com	Belotti	(2011),	o	pensamento	inglês	da	época	solidificou	a	noção	de		
“cultura	civilizada”	relacionada	ao	cultivo	das	faculdades	humanas	“superiores”,	manifes-
tada	por	meio	da	arte	ou	ciência.	Essa	seria	a	“alta	cultura”,	que	se	diferenciaria	da	“baixa	
cultura”,	predominante	nas	esferas	populares.	Isso	significa	que,	para	os	antropólogos	que	
balizaram	os	estudos	sobre	fenômenos	religiosos	na	época,	não	ter	ciência	significava	não	
ter	cultura,	e	ter	religião	significava	ser	inferior	culturalmente	à	quem	tem	ciência.	
Se	formos	adiante	no	debate	entenderemos	como,	além	disso,	na	escala	de	evo-
lução	cultural,	quem	tinha	religião,	mas	não	tinha	ciência,	ainda	era	considerado	superior	à	
quem	cultivava	elementos	“mágicos”.	Assim,	houve	também	uma	tentativa	de	classificação	
e	hierarquização	entre	religião	e	magia.	
Religião	compreenderia	uma	organização	social	e	hierárquica	complexa	de	
rituais	e	crenças,	espelhando-se	na	experiência	cristã	europeia	e	norte-ame-
ricana	e	na	tradição	judaico-cristã,	monoteísta	e	patriarcal.	Magia	seria	uma	
forma	infantil	e	simplória	de	se	acessar	a(s)	divindade(s),	identificadas	com	
elementos	da	natureza,	sem	grandes	hierarquizações,	dependentes	da	figura	
de	um	líder	que	dominaria	o	contato	com	as	entidades	naturais	(BELLOTTI,	
2011,	p.	18).	
A	 definição	 apontava	 para	 uma	 perspectiva	 atemporal	 da	 evolução	 religiosa,	 e	
inferiorizava	o	homem	religioso	não	europeu,	desconsiderando	as	construções	relacionais	
entre	 crenças	e	práticas	 religiosas,	e	 suas	sobreposições	para	usos	sociais.	Cabe	des-
tacar	também,	que	a	significação	histórica	da	categoria	“magia”	relaciona-se	ao	contexto	
religioso	ocidental	 cristão.	A	palavra	era	utilizada	para	designar	algo	negativo	perante	a	
Igreja	Católica	durante	a	Idade	Média	e	a	Idade	Moderna,	em	especial	durante	o	período	
da	Inquisição.	Desse	modo,	o	termo	foi	empregado	pelos	antropólogos	do	século	XIX	com	
sentidos	que	inferiorizavam	os	outros	não	ocidentais.	
Pesquisadores	do	início	do	século	XX	que	marcaram	a	relação	entre	antropologia	
e	o	estudo	do	fenômeno	religioso,	e	se	distanciaram	da	teoria	evolucionista,	foram	B.	Ma-
linowski	e	Émile	Durkheim.	Os	autores	consideravam	outros	elementos	da	sociedade	em	
que		religião	e	magia	seriam	pesquisados.	
14UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
Malinoswki	(1884-1942)	se	difere	pela	teoria	do	“funcionalismo”,	que	admitia	todos	
os	 elementos	 de	 uma	 cultura	 como	 funcionais.	Conforme	 o	 autor,	 todas	 as	 sociedades	
desenvolvem	conhecimentos	científicos	para	transformar	a	natureza.	Assim,	ciência,	magia	
e	religião	estariam	presentes	no	início	do	desenvolvimento	da	cultura.	
Já	Durkheim	(2001)	postulou	que	os	primeiros	sistemas	de	representação	do	mundo	
pertenciam	a	uma	ordem	religiosa,	pois	determinavam	noções	de	tempo,	espaço,	número,	
causalidade,	estabelecendo	o	que	ele	denomina	como	“ossatura	da	inteligência	humana”.	
O	autor	considerava	que	sociedades	primitivas	e	civilizadas	pertenciam	a	etapas	diferen-
tes	da	mesma	história.	Ele	distanciou-se	do	evolucionismo	porque	buscou	compreender	
a	religião	como	âmbito	real,	a	qual	expressa	sentimentos,	urgências,	angústias,	anseios	
e	 pensamentos	 reais.	 Partindo	 desse	 pressuposto,	 toda	 religião	 seria	 verdadeira	 à	 sua	
maneira	e	responderia	a	condições	particulares	de	sociedades	específicas.	
Agora	que	nós	já	temos	conhecimento	sobre	os	estudos	que	inauguraram	e	deli-
mitaram	a	religião	como	objeto	de	estudos	acadêmicos,	podemos	passar	para	um	debate	
mais	específico	sobre	o	campo	definido	para	o	nosso	capítulo.	Vamos	então	apresentar	
algumas	noções	sobre	o	fenômeno	religioso,	presentes	em	diferentes	linhas	teóricas.
1.3 Debates teóricos sobre o fenônemo religioso
O	historiador	Gerardus	van	der	Leeuw	 [1933]	 (2009),	nos	 traz	contribuições	 im-
portantes	para	pensar	o	 fenômeno	 religioso,	pois	admite	a	 importância	do	sentimento	e	
do	irracional	como	parte	explicativa	da	religião.	Para	ele,	essa	seria	uma	das	dimensões	
primordiais	da	experiência	religiosa.	Contudo,	tal	perspectiva	se	apresenta	como	um	grande	
desafio	para	os	estudiosos,	já	que	a	dimensão	subjetiva,	não	é	facilmente	capturável	em	
explicações	racionais.
O	 psicanalista	 Sigmund	 Freud	 (2006)	 também	 participou	 do	 debate	 acerca	 do	
fenômeno	religioso,	ao	utilizar	a	psicologia	para	examinar	as	origens	das	religiões	e	sua	
relação	com	a	consciência	humana.	“O	futuro	de	uma	ilusão”	é	a	obra	escrita	em	1927	que	
demonstra	como	o	pesquisador	classificou	a	religião	como	um	sistema	de	crenças	falsas	
e	infantilizadas.	Para	ele,	o	ser	humano,	impotente	diante	da	natureza	e	das	angústias	da	
vida,	cria	a	imagem	de	um	deus	onipotente,	do	mesmo	modo	que	uma	criança	indefesa	vê	
seu	pai	como	o	protetor.	
O	desamparo	do	homem,	porém,	permanece	e,	 junto	com	ele,	seu	anseio	
pelo	 pai	 e	 pelos	 deuses.	 Estes	 mantêm	 sua	 tríplice	 missão:	 exorcizar	 os	
terrores	 da	 natureza,reconciliar	 os	 homens	 com	 a	 crueldade	 do	 Destino,	
particularmente	a	que	é	demonstrada	na	morte,	e	compensá-los	pelos	sofri-
mentos	e	privações	que	uma	vida	civilizada	em	comum	lhes	impôs	(FREUD,	
[1927]	2006,	p.	26).
15UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
Para	o	psicanalista,	a	ideia	de	um	deus	humanizado	é	consequência	da	neurose	psí-
quica	humana	e	do	complexo	paterno	produzido	pelo		homem	religioso.	Isso	seria	negativo,	
pois	seria	fruto	de	delírios,	imaginações	e	desejos	de	acreditar	em	algo	transcendente	além	
do	que,	resultaria	na	criação	de	dogmas,	duelos	e	efeitos	psicológicos	e	sociológicos	ruins	
para	a	humanidade.	Quando	Freud	(2005)	indica	que	o	fenômeno	religioso	é	constituído	
por	uma		ilusão,	não	determina	necessariamente	que	é	falso,	mas	que	existiria	unicamente	
para	contentar	os	desejos	e	as	neuroses	dos	que	creem	.
Desse	modo,	o	pensador	busca	representar	o	homem	moderno	extinguindo	a	no-
ção	de	transcendência	e	focando	na	ideia	de	imanência.	Com	isso,	ele	torna	a	religião	um	
produto	dispensável	e	coloca	em	dúvida	a	consciência	religiosa	transcendente	e	elaborando	
uma	nova	consciência	vazia.
Mircea	Eliade	(1989),	por	sua	vez,	busca	compreender	e	explicar	o	fenômeno	reli-
gioso	a	partir	das	categorias	sagrado/profano.	Analisando	a	religião	de	diferentes	culturas	
religiosas,	o	autor	chega	a	conclusão	de	que	em	sociedades	arcaicas	e	tradicionais	existiria	
uma	 busca	 pela	 experiência	 sagrada,	 que	 acarretaria	 na	 sacralização	 de	 momentos	 e	
ocasiões	do	cotidiano.	Somente	a	partir	dessa	consagração	e	portanto,	dessa	experiência	
religiosa,	seria	possível	a	existência	do	que	ele	chama	de	“homem	total”,	um	sujeito	que	
não	é	definido	somente	pela	sua	dimensão	racional.	
[...]	a	experiência	religiosa	enquadra	o	homem	na	sua	totalidade	e,	por	conse-
guinte,	também	afecta	as	zonas	profundas	do	seu	ser.	Isto	não	quer	dizer	que	
se	 reduza	a	 religião	aos	seus	componentes	 irracionais	mais	simplesmente	
do	que	se	reconheça	a	experiência	religiosa	tal	como	ela	é:	a	experiência	da	
existência	 total,	que	revela	ao	homem	a	sua	modalidade	de	ser	no	Mundo	
(ELIADE,	1989,	p.	12).
Eliade	(2008)	buscou	demonstrar	como	nas	sociedades	modernas,	o	homem	reli-
gioso	vivencia	um	conflito	entre	resistir	e	renunciar	ao	sagrado.	Desse	modo,	o	pesquisador	
buscou	analisar	o	lugar	das	religiões	tanto	nas	sociedades	antigas,	como	nas	contemporâ-
neas,	a	partir	do	método	comparativo.		O	autor	defende	que:
[...]	um	fenômeno	religioso	somente	se	revelará	como	tal	com	a	condição	de	
ser	apreendido	dentro	da	sua	própria	modalidade,	isto	é,	de	ser	estudado	à	
escala	religiosa.	Querer	delimitar	este	fenômeno	pela	fisiologia,	pela	psico-
logia,	pela	sociologia	e	pela	ciência	econômica,	pela	linguística	e	pela	arte,	
etc...	é	traí-lo,	é	deixar	escapar	precisamente	aquilo	que	nele	existe	de	único	
e	de	irredutível,	ou	seja,	seu	caráter	sagrado	(ELIADE,	2008,	p.	1).
Não	seria	possível	nos	estender	mais	nesse	 levantamento,	nosso	esforço	 foi	de	
selecionar	alguns	estudos	e	pesquisadores	para	demonstrar	para	você,	caro(a)	estudante,	
que	o	nosso	 tema	de	debate	é	muito	complexo	e	pode	ser	visto	de	diferentes	ângulos.	
É	possível	abarcar	o	discurso	historiográfico,	sociológico,	antropológico,	geográfico,	psi-
16UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
canalítico	e	outros,	e	mesmo	dentro	de	cada	disciplina,	 teremos	diferentes	abordagens,	
que	privilegiam	uma	ou	outra	dimensão	do	fenômeno	religioso.	Todos	esses	estudos	são	
ferramentas	que	nos	possibilitam	olhar	com	maior	criticidade	para	a	complexidade	desse	
objeto.	Agora	que	temos	uma	compreensão	teórica	e	analítica	mais	ampla	sobre	o	assunto,	
passaremos	a	algumas	características	do	fenômeno	religioso	na	contemporaneidade.
1.4 Características do fenômeno religioso na contemporaneidade
Para	 refletir	 sobre	os	 fenômenos	 religiosos	na	 contemporaneidade	é	 importante	
que	a	gente	considere	a	abordagem	interdisciplinar.	Não	é	possível	admitir	a	ciência	a	partir	
de	um	método	unicamente	empírico,	 limitando	o	conhecimento	ao	nível	da	aparência.	A	
complexidade	da	realidade	social	contemporânea	exige	uma	reflexão	sistemática	e	crítica.	
Filoramo	e	Prandi	(2003,	p.25)	postulam:	
O	interesse	crescente	pelas	religiões	vivas,	por	exemplo,	obrigou	sociólogos	
e	psicólogos	da	 religião	a	 sair	 dos	 confins	de	uma	sociologia	e	psicologia	
cristianocêntrica	para	confrontar-se	com	a	globalidade	do	fenômeno	religioso.
Ou	seja,	estamos	buscando	elucidar	que	o	nosso	objeto	de	estudo	exige	um	olhar	
crítico,	científico,	interdisciplinar	ou	transdisciplinar,	que	convoque	várias	ciências	(filosofia,	
história,	sociologia,	psicologia,	lingüística,	física	etc.)	para	a	análise	do	fenômeno	religioso	
na	sua	pluralidade.	
É	importante	situar	historicamente	a	questão	do	desencantamento	ocidental	para	
compreender	a	difusão	de	um	certo	agnosticismo	e	 rejeição	da	 religião	nos	dias	atuais.	
Essa	passa	a	ser	uma	das	estruturas	básicas	do	que	conhecemos	como	a	modernidade.	
Os	movimentos	e	modificações	na	esfera	religiosa	demandaram,	a	partir	desse	marco,	um	
tipo	de	crítica,	de	distanciamento,	de	 repulsa	ou	de	 reavaliação	da	 religião	 fundante	da	
civilização	ocidental.	
As	reformulações	do	campo	religioso	ou	filosófico	exigem	uma	compreensão	das	
alterações	que	se	dá	também	no	campo	cristão.	Visto	que	a	solução	que	apresentou-se	
por	meio	da	elite	 constituída	por	 céticos	e	agnósticos	 foi	 reformular	 radicalmente	o	que	
compreendia-se	por	cristianismo,	sobretudo	enquanto	postura	filosófica.	
Surgiram	assim,	no	século	XIX,	vários	cristianismos	-	heterodoxos,	hereges,	e	
por	isso	mesmo,	modernos	-,	como	os	formulados	por	Schopenhauer,	Kierke-
gaard	e	Nietzsche.	Além	disso,	outras	tradições	religiosas	foram	-	talvez	pela	
primeira	vez	na	história	do	Ocidente	-	trazidas	à	discussão	sem	que	fossem	
a	priori	consideradas	inferiores;	não	necessariamente	para	ocupar	o	espaço	
do	cristianismo,	mas	para	qualificá-lo,	se	assim	se	pode	dizer	(CARVALHO,	
1992,	p.	138).
17UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
É	importante	também	pensar	em	outro	viés	da	religiosidade	contemporânea,	o	mo-
vimento	esotérico.	Reatualizado	no	século	XIX	em	um	contexto	marcado	pela	crise	histórica	
e	 cultural	 que	 convencionou-se	 chamar	 de	 desencantamento	 do	 mundo,	 o	 esoterismo	
esteve	fundamentalmente	ligado	à	elite	intelectual	européia.	Contudo,	paulatinamente,	por	
meio	de	diversas	mediações,	influenciou	uma	parcela	significativa	de	indivíduos	e	trouxe	à	
tona	questões	relevantes	sobre	a	religiosidade	na	era	moderna	como	um	todo.
O	 esoterismo	 moderno	 pode	 ser	 compreendido	 como	 um	 grande	 movimento,	
intelectual	 e	 espiritual,	 que	 constitui	 a	 religiosidade	 contemporânea,	 e	 que	 trava	 com	 o	
cristianismo	 uma	 posição	 conflituosa.	 O	 esoterismo	 cresceu	 com	 base	 em	 uma	 crítica	
ao	catolicismo,	indicando	que	esse	havia	perdido	o	seu	caráter	iniciático,	a	dimensão	do	
auto-conhecimento,	além	do	seu	aspecto	político,	que	se	distanciou	da	vida	comunitária	e	
legitimou	o	controle	do	Estado	sobre	o	indivíduo.	Sobre	o	assunto	José	Jorge	de	Carvalho	
(1992,	p.	143)		diz	o	seguinte:
Talvez	a	maior	consequência,	para	o	cristianismo,	dessa	presença	cada	vez	
maior	das	tradições	esotéricas	e	orientais,	reside	no	fato	de	que	começa	a	
surgir	um	deslocamento	da	figura	de	Jesus	Cristo,	na	medida	em	que	crescem	
as	propostas	de	diálogo	inter-religioso:	o	Cristo	passa	a	ser	entendido	como	
um	princípio	divino	(como	a	natureza	búdica,	o	Ishwara)	e	Jesus	como	uma	
encarnação,	um	avatar,	uma	manifestação	histórica	da	divindade,	equivalente	
ao	Budha	Shakya	Muni,	a	Krishna,	a	Zoroastro,	a	Maomé,	etc.
Cabe	salientar	que	esse	processo	de	hibridização,	sincretismos	e	deslocamento	
foi	iniciado	pelas	tradições	religiosas	africanas	no	Brasil.	Existem	diversos	pesquisadores	
que	estudam	sobre	essas	disputas	no	mercado	religioso	contemporâneo,	como	Reginaldo	
Prandi	(2004).	O	autor	indica	que	existemmanejos	distintos	de	cada	elemento	simbólico,	
por	parte	de	diferentes	organizações	religiosas,	e	por	isso	haveria	enormes	confrontos	e	
tentativas	de	deslegitimar	as	práticas	religiosas	e	crenças	umas	das	outras.	
Esse	 campo	de	disputas	 não	é	 recente.	A	partir	 do	 século	XX,	 quando	a	 Igreja	
Católica	 começa	a	 perder	 sua	posição	hegemônica,	 inaugura	 uma	abertura	 diplomática	
em	 relação	 aos	 “povos	 não-crentes”	 e	 passa	 a	 admitir	 o	 esforço	 pelo	 reconhecimento	
das	religiões	não	ocidentais	e	de	outros	ramos	do	cristianismo.	Desse	modo,	abandona	a	
prática	convencional	de	combate	direto	a	outros	cultos,	o	que	já	não	tinha	muita	eficácia,	
criando	aberturas	para	que	outros	cultos	disputassem	a	legitimidade	de	sua	presença	no	
espaço	social.	Autores	como	Almeida	e	Monteiro	(2000)	postulam	que	o	enfraquecimento	
da	hegemonia	católica	possibilitou	que	a	liberdade	religiosa	viesse	a	ser	uma	experiência	
social	de	mais	amplo	espectro.
Outro	elemento	relevante	para	o	estudo	dos	fenômenos	religiosos	na	contempora-
neidade	é	perceber	o	enfraquecimento	dos	papéis	das	instituições.	Por	mais	que	elas	ainda	
18UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
sejam	expressivas,	não	podemos	perder	do	horizonte	a	experiência	de	religiosidade	não	
comportada	em	modelos	tradicionais.	
O	homem	de	hoje,	que	não	se	destina	intimamente	a	uma	religião	[...]	encon-
tra-se	diante	deste	fato	em	uma	situação	de	indescritível	inquietude.	[...]	No	
entanto,	estas	diferenças	afetam	unicamente	os	conteúdos	da	 fé	 religiosa,	
mas	não	a	posição	da	fé	a	respeito	da	realidade	(SIMMEL,	2005,	p.13).	
Simmel,	(2005)	identifica	que	a	deterioração	dos	grandes	sistemas	religiosos	está	
diretamente	relacionada	às	instituições	tradicionais.	Nas	palavras	de	Simmel,	o	que	sub-
sistiria	“não	seria	a	forma	vazia	da	transcendência,	que	busca	novo	conteúdo	com	que	se	
encher,	mas	algo	muito	mais	profundo”	(SIMMEL,	2005,	p.	15).	Simmel	julgou	possível	pos-
tular	isso	evocando	a	mudança	de	postura	inaugurada	por	Kant	(à	qual	se	filiou),	segundo	
a	qual	a	religiosidade	seria	“uma	íntima	maneira	de	se	conduzir	a	alma”.	
Avaliando	as	modificações	recentes	no	campo	religioso,	Steil	(2003)	referencia	os	
tipos	 ideais	 construídos	 por	Troeltsch:	 igreja,	 seita	 e	mística.	O	 autor	 postula	 que	 para	
compreender	a	reconfiguração	do	fenômeno	religioso	na	contemporaneidade,	é	 imprete-
rível	olhar	para	um	movimento	histórico	mais	amplo	da	Igreja	e	da	comunidade	voltadas	à	
mística.	A	mística	indicaria	formulações	bastante	variáveis,	rápidas,	congregando	muitos,	
mas	de	 forma	 instável,	caracterizando-se	por	seus	aspectos	entusiastas	e	vibrantes	em	
torno	de	uma	figura	carismática	ou	de	um	santo	(	STEIL,	2003,	p.148).	
Dessa	forma,	a	secularização	contribui	para	uma	tendência	de	afastamento	cada	
vez	maior	entre	muitos	indivíduos	e	as	instituições	religiosas,	na	contemporaneidade.	Não	
significa	 necessariamente	 um	 esfriamento	 das	 religiões,	mas	 sim	 um	 fortalecimento	 da	
autonomia	individual	sobre	as	escolhas	religiosas.	Podemos	observar	que	no	Brasil	existe	
uma	porcentagem	crescente	de	pessoas	que	se	declaram	sem	religião,	mas	que	possuem	
crenças	religiosas.	Por	 isso,	ao	nos	debruçarmos	sobre	o	estudo	das	religiões	enquanto	
conjunto	de	crenças	e	práticas,	devemos	manter	em	perspectiva	tanto	as	crenças	coletivas	
e	individuais,	quanto	as	práticas	como	definidoras	de	identidade.	
Conforme	 discussão	 sobre	 autonomia	 religiosa,	 as	 crenças	 religiosas	 são	
mantidas	 tanto	pelas	 instituições	 religiosas,	que	assumem	papel	de	autori-
dade	e	de	guardiãs	de	dogmas,	doutrinas,	 teologias;	quanto	pelos	sujeitos	
que	se	apropriam	de	tais	crenças	em	seu	cotidiano,	podendo	tanto	reforçar	
o	sentido	recebido	por	meio	da	tradição	familiar	ou	institucional	como	retra-
balhá-lo	e	questioná-lo,	especialmente	em	momentos	de	crise	e	de	decisão	
pessoal	(BELLOTTI,	2011,	p.	300).
Para	concluir	esse	debate,	que	pretendemos	nos	aprofundar	nas	próximas	unida-
des,	indicamos	que	a	história	do	campo	religioso	brasileiro	deve	ser	analisada	como	a	do	
embate	de	dois	vetores:	a	persistência	do	tradicional	habitus	flexibilizador,	que	pode	levar	
a	 formas	 de	 sincretismo,	 e	 sua	 resistência	 às	 investidas	 das	 sucessivas	 racionalidades	
“modernas”	(SANCHIS,	2003).
19UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
SAIBA MAIS
Na	história	brasileira,	e	não	só	no	campo	religioso	do	Brasil,		pesa	a	presença	de	uma	
predisposição	estrutural	à	porosidade,	mas	não	à	confusão	das	identidades.	Já	que	se	
trata	de	um	habitus	ancorado	em	sociogênese,	o	meio	religioso,	sobretudo	o	popular,	
mas	não	exclusivamente,	vive	e	continua	vivendo	certo	clima	“espiritualista”	que	parece	
compartilhado	–	e	modulado	–	por	várias	mentalidades	segmentárias	no	Brasil.	Orixás	
para	alguns,	mortos,	santos	ou	entidades	para	outros,	Nossas	Senhoras	que	aparecem	
e	vêm	com	homens,	anjos,	espíritos,	forças	cósmicas,	demônios,	ou	tudo	isso	ao	mes-
mo	tempo,	espírito,	enfim	[...]	A	presença	desta	terceira	dimensão	do	mundo	está	em	
toda	a	parte	detectada	(SANCHIS,	2003,	p.	30).
Fonte:	SANCHIS,	Pierre.	A	religião	dos	brasileiros.	In:	PEREZ,	Léa	Freitas;	QUEIROZ,	Rubem	Caixeta	
de	&	VARGAS,	Eduardo	Viana	(Orgs.).	Teoria	e	Sociedade,	Belo	Horizonte,	número	especial:	Passagem	
de	milênio	e	pluralismo	religioso	na	sociedade	brasileira,	p.	16-5,	2003.	
REFLITA 
Caro(a)	estudante,	você	já	havia	parado	para	refletir	sobre	a	relação	da	religiosidade	
com	a	pertença	e	notoriedade	pública	proporcionada	por	ela?	Esse	também	é	um	as-
pecto	 que	 constitui	 capital	 cultural	 individual	 e	 coletivo,	 pois	 possibilita	 a	 construção		
identitária	e	pertencimento	a	um	grupo.
Fonte:	A	autora.
20UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a)	 estudante,	 concluímos	 aqui	 a	 incursão	 sobre	 Fenômenos	 religiosos	 e	
sociedade,	 proposto	 para	 a	 primeira	 Unidade.	 No	 corpo	 deste	 texto	 buscamos	 abordar	
diversos	conceitos,	definições	e	disputas	analíticas	para	compreender	nossa	temática.
Compreendemos	que	a	religião	representa	o	anseio	do	indivíduo	de	transcendência,	
no	qual	a	humanidade	encontra	respostas	às	suas	perguntas	profunda.	Postulamos	que	a	
religião	contribui	para	a	formação	de	estruturas	imaginativas	elementares	sobre	como	nos	
orientamos	ou	deveríamos	nos	orientar	no	cosmos.	Destacamos	a	importância	desse	estu-
do	porque	ele	revela	a	condição	humana	em	seus	aspectos	mais	profundos	e	misteriosos.
Indicamos	que	o	fenômeno	religioso	está	para	além	das	instituições,	mesmo	que	
por	vezes	seja	organizada	por	elas.	Abordamos	a	religiosidade	como	um	aspecto	da	cultura	
que	organiza	pessoas	com	as	mesmas	crenças.	Consideramos	que	muitos	aspectos	da	
vida	social	são	diretamente	orientados	pelo	filtro	da	 religião,	como	o	modo	de	vestir,	se	
alimentar,	cuidar	do	corpo,	etc.	
Apresentamos	estudos	inaugurais	que	influenciaram	consideravelmente	a	Ciência	
das	Religiões,	desde	Max	Müller,	passando	Tylor	até	Durkheim.	Demonstramos	também	a	
existência	de	um	debate	teórico	sobre	modos	de	se	perceber	os	fenômenos	religiosos	por	
parte	de	pesquisadores	de	diferentes	áreas	do	conhecimento,	como	o	historiador	Gerardus	
van	der	Leeuw,	o	psicanalista	Sigmund	Freud	e	o	mitólogo	Mircea	Eliade.
Por	 fim,	 destacamos	 algumas	 características	 dos	 fenômenos	 religiosos	 na	 con-
temporaneidade,	como	a	perda	de	centralidade	da	Igreja	Católica,	a	abertura	para	outras	
filosofias	 que	 influenciaram	o	 campo	 religioso,	 as	 disputas	 de	 diferentes	 religiões	 pelos	
elementos	simbólicos	e	a	diminuição	da	força	das	instituições.
Com	isso	concluímos	nossa	proposta	inicial	e	esperamos	que	o	tema	suscite	seu	
interesse	para	buscar	outras	obras	e	autores	que	possibilitem	o	seu	desenvolvimento	inte-
lectual	e	uma	formação	sólida	e	singular.		
Bons estudos!
21UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
LEITURA COMPLEMENTAR
●	 BERKENBROCK,	Volnei	J.	A	experiência	dos	Orixás.	Um	estudosobre	a	expe-
riência	religiosa	no	Candomblé.	Petrópolis:	Vozes,	1998.	
Frei	Volney	faz	aqui	um	amplo	e	profundo	estudo	sobre	o	Candomblé:	como	é	a	
cosmovisão	que	lhe	está	subjacente;	a	idéia	da	divindade;	o	que	é	orixá;	o	que	significa	o	
axé...	Em	seguida,	procura	esboçar	uma	resposta	à	pergunta:	qual	deverá	ser	a	atitude	de	
um	cristão	diante	da	experiência	religiosa	do	Candomblé?	Será	possível	um	encontro	fra-
ternal	e	um	diálogo	frutuoso	entre	os	seguidores	de	caminhos	aparentemente	tão	díspares?
●	 MOREIRA,	Alberto	da	Silva.	O	futuro	da	religião	no	mundo	globalizado:	painel	
de	um	debate.	In:	MOREIRA,	Alberto	da	Silva;	OLIVEIRA,	Irene	Dias	(Organizadores).	O	
futuro	da	Religião	na	sociedade	global.	Uma	perspectiva	multicultural.	São	Paulo	–	Goiânia:	
Paulinas	–	UCG,	2008,	pp.	17-35.
O	tema	gerador	deste	livro	é	a	necessidade	de	um	olhar	multicultural	para	o	futuro	
que	a	sociedade	global	reservada	à	religião.	O	debate	sobre	o	presente	e	as	tendências	
que	se	prospectam	para	o	fenômeno	religioso,	no	acelerado	processo	de	globalização	em	
que	vivemos,	envolve	pesquisadores	do	mundo	inteiro	que,	desde	as	especificidades	de	
cada	ciência	e	de	cada	país	ou	região,	procuram	compreender	um	fenômeno	de	alcance	
global.	
●	 Jungblut,	A.	L.	 (2014).	Globalização	e	religião:	Efeitos	do	pluralismo	global	no	
campo	 religioso	 contemporâneo.	Civitas - Revista De Ciências Sociais,	14(3),	 419-436.	
https://doi.org/10.15448/1984-7289.2014.3.16483
Neste	artigo	discute-se	alguns	dos	efeitos	da	globalização	sobre	a	 religião.	São	
abordados	as	relações	entre	globalização	e	tradição	e	o	efeito	destradicionalizante	deste	
processo	ao	favorecer	a	pluralização	religiosa	e,	consequentemente,	uma	grande	autono-
mia	identitária	dos	indivíduos	em	busca	de	bens	religiosos.	Para	tanto,	são	analisados	dois	
casos	reveladores	de	dinâmicas	distintas	frente	a	esses	processos	todos.
22UNIDADE I Fenômenos Religiosos e Sociedade
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título: Expressões	 do	 Sagrado:	 Reflexões	 sobre	 o	 Fenômeno	
religioso
Autor:	Antonio	Magalhães	e	Rodrigo	Portella
Editora:	Santuário
Sinopse:	Embarcar	no	conhecimento	das	religiões	pode	tornar-se	
uma	 aventura	 prazerosa.	 Nessa	 obra,	 os	 autores	 perpassam,	
por	meio	de	ensaios	e	reflexões,	elementos	básicos	do	universo	
religioso,	descrevendo	o	caráter	simbólico,	antropológico	e	social	
da	 religião,	 além	 de	 tecerem	 considerações	 sobre	 identidades	
religiosas	do	povo	brasileiro.
FILME/VÍDEO
Título:	Uma	Amizade	Sem	Fronteiras
Ano: 2003
Sinopse:	O	dono	de	uma	mercearia	em	Paris	fica	amigo	de	um	
garoto	de	13	anos.	O	homem	é	muçulmano.	O	menino,	judeu.	Com	
o	tempo,	desenvolvem	uma	amizade	transformadora	para	a	vida	
dos	dois.
23
UNIDADE II
As Religiões Contemporâneas
Professora Ma. Laís Azevedo Fialho
Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga
Plano de Estudo:
●	 A	disseminação	das	religiões	pelo	mundo.
●	 As	religiões	no	Brasil	–	do	Catolicismo	ao	Islamismo
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Compreender	 o	 contato	 cultural	 como	 catalisador	 para	 formação	 e	 adaptação	 das	
religiões	em	diferentes	sociedades	no	mundo	e	no	tempo.
●	 Refletir	como	tal	processo	se	deu	na	história	das	religiões	no	Brasil,	suas	 ligações	
com	o	poder	e	com	o	cotidiano.
●	 Discutir	como	o	indivíduo	contemporâneo	se	orienta	em	relação	a	multiplicidade	de	
religiões,	crenças	e	práticas	presentes	no	mundo.
Plano de Estudo:
●	 A	disseminação	das	religiões	pelo	mundo.
●	 As	religiões	no	Brasil	–	do	Catolicismo	ao	Islamismo
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Compreender	 o	 contato	 cultural	 como	 catalisador	 para	 formação	 e	 adaptação	 das	
religiões	em	diferentes	sociedades	no	mundo	e	no	tempo.
●	 Refletir	como	tal	processo	se	deu	na	história	das	religiões	no	Brasil,	suas	 ligações	
com	o	poder	e	com	o	cotidiano.
●	 Discutir	como	o	indivíduo	contemporâneo	se	orienta	em	relação	a	multiplicidade	de	
religiões,	crenças	e	práticas	presentes	no	mundo.
24UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
INTRODUÇÃO
Olá	estudante	da	disciplina	“Fenômeno	Religioso	na	contemporaneidade	e	educa-
ção”,	na	unidade	a	seguir,	iremos	conversar	como	as	pessoas	se	comportam	em	relação	à	
religião	em	nossa	sociedade.	Para	retomarmos	a	unidade	anterior,	o	debate	começa	com	
uma	reflexão	a	partir	de	uma	cena	idílica,	como	a	humanidade	a	milhares	de	anos	atrás	
sentia	 a	manifestação	 do	 sagrado	 e	 como	esse	 sentimento	 se	 tornou	 	 as	 religiões	 que	
conhecemos	hoje?
Caso	convivêssemos	com	determinada	prática	todos	os	dias,	uma	religião	comple-
tamente	estranha	aos	nossos	padrões,	por	quanto	 tempo	permaneceria	assim?	Por	que	
os	conflitos	religiosos,	em	pleno	século	XXI,	ainda	são	um	problema	sério	para	vivermos	
melhor	em	sociedade?	Como	a	história	do	Brasil	pode	nos	ensinar	a	compreender	a	im-
portância	 do	 poder,	 do	 tempo	 e	 do	 convívio	 nas	 transformações	 observadas	 em	 nossa	
sociedade?	Perguntas	difíceis	que,	de	coração,	espero	contribuir	para	o	aperfeiçoamento	
de	sua	interpretação	sobre	o	assunto.
Bons estudos!
25UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
1. A DISSEMINAÇÃO DAS RELIGIÕES PELO MUNDO 
1.1 Indivíduo, religião e poder.
Você	já	se	perguntou	como	foi	a	primeira	vez	que	uma	pessoa	sentiu	o	que	depois	
iríamos	denominar	de	sagrado,	a	manifestação	da	presença	divina	na	Terra?	
Imagine	homens	e	mulheres	na	beira	de	uma	caverna	esculpida	entre	montanhas.	
Na	 sua	 	 frente,	 uma	 planície	 é	 ocupada	 por	 árvores	 espaçadas	 no	meio	 da	 vegetação	
gramínea,	paisagem	que	se	estende	ao	horizonte,	onde	o	céu	anuncia	a	transição	do	dia	
para	a	noite	em	um	espetáculo	de	cores	quentes	e	frias	de	uma	forma	que	nós,	modernos		
e	com	a	natureza	bastante	modificada	por	essa	modernidade,	talvez	apenas	em	sonhos	
muito	bons	podemos	imaginar.
Um	ambiente	bastante	seguro	também,	a	caverna	nas	montanhas,	além	da	vista	
maravilhosa,	fornece	proteção	a	predadores,	abafa	a	conversa	e		a	luz	das	fogueiras,	dá	
visão	para	estrangeiros	que	se	aproximarem.	Depois	de	um	dia	de	atividade	intensa,	cansa-
das	e	seguras	na	caverna,	poderia	essas	pessoas	acalmar	seus	instintos	de	sobrevivência,	
e	assim	contemplassem	um	pôr-do-sol?	Sem	tantas	preocupações,	não	que	isso	aconte-
cesse	sempre,	mas	basta	uma	ocasião	pra	começar,	é	possível	que	ali	a	humanidade,	na	
forma	de	seus	indivíduos,	tenha	se	dado	o	espaço	de	se	perguntar:	quem	sou	eu?	Qual	a	
minha	função	nisso	tudo?	Quem	me	criou?		
Como	 indica	Mircea	Eliade	(1992),	em	O Sagrado e o profano,	o	firmamento	éo	
principal	símbolo	de	diferentes	culturas	para	se	referir	à	morada	dos	deuses.	Sioux,	aborí-
26UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
genes,	vikings,	tupis	ou	fulanis,	em	cada	canto	do	mundo	a	principal	relação	religiosa	com	
o	céu	é	que,	além	da	abóbada,	se	encontra	a	divindade	suprema	e	criadora	do	universo.	
Outro	ponto	em	comum	entre	esses	povos	é	que	suas	crenças	datam	de	datas	milenares	
em	distância,	sendo	improvável	estabelecer	um	ponto	de	início.	
A	 relação	com	o	sagrado	se	perde	no	 tempo	e	é	possível	que	 já	 tenha	nascido	
com	nós,	uma	genética	de	buscar	enxergar	o	invisível.	No	entanto,	quando	passamos	do	
possível	para	o	provável,	o	tempo	ainda	tem	mostrado	a	religião	intrinsecamente	ligada	ao	
poder.
Na	unidade	anterior	já	pudemos	perceber	tal	configuração.	Com	o	racionalismo	do	
século	XIX,	a	sociedade	europeia	buscou	explicar	cientificamente	a	superioridade	cultural	
de	certos	povos	sobre	os	outros.	Para	 retomarmos,	Edward	Tylor,	em	Primitive Culture,	
publicado	em	1871,	compreende	que	as	religiões	evoluem	em	hierarquia,	da	mais	simples	
e	instintiva	às	mais	complexas	e	racionais.	Em	linhas	gerais,	temos	o	animismo	na	base,	
a	crença	de	que	o	mundo	está	repleto	de	deuses	que	se	manifestam	em	todo	tempo,	até	
o	 topo	onde	se	concentra	o	protestantismo	monoteísta,	que	compreende	que	as	 formas	
da	natureza	não	são	deuses	com	vontade	própria	e	por	isso	não	deveriam	adorá-los,	pois	
o	que	 vem	adiante	é	o	pensamento	abstrato	 deum	único	deus,	 complexo,	 que	não	 se	
encontra	em	lugar	nenhum,	mas	está	em	todos	os	lugares.	
No	Brasil,	a	visão	de	Tylor		foi	compartilhada	em	escritos	de	Raimundo	Nina	Ro-
drigues	ao	final	do	século	XIX	no	Brasil.	Os	dois	cientistas	concordavam	em	praticamente	
tudo,	a	não	ser	por	uma	diferença.	Para	Nina	Rodrigues,	o	catolicismo	com	seus	santos	é	
que	representavam	a	máxima	evolução	dos	pensamentos	religiosos	na	humanidade	de	seu	
tempo.	
Curiosamente,	 ambos	os	 cientistas	adotaram	como	superior	 algo	muito	próximo	
da	religião	que	praticavam.	Outra	coincidência	importante,	é	o	fato	de	que	no	período	que	
escrevem,	elites	da	Europa	e	América	 	crescem	com	a	exploração	de	suas	colônias	ou	
ex-colônias.	Ao	mesmo	tempo,	nos	países	colonizadores	aumenta	em	adeptos	as	ideias	de	
que	todo	indivíduo	tem	o	mesmo	valor	e	portanto	os	mesmo	direitos,	como	na	Constituição	
Americana	e	no	lema	da	Revolução	Francesa.	
Como	submeter	a	condições	que	você	não	gostaria,	alguém	que	é	igual	a	você?	
Para	contornar	este	dilema,	foi	incentivado	a	crença	na	existência	de	indivíduos	biológica	
e	culturalmente	superiores	a		outros.	E	isso	poderia	se	medir	por	meio	de	avanços	tecno-
lógicos,	 nos	 costumes,	 na	 língua,	 entre	outros.	A	 religião	 foi	 um	 importante	 instrumento	
de	classificação	nessa	análise,	e	era	comum	ser	considerada	superior	a	mesma	religião	
27UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
praticada	pelo	grupo	de	cientistas	que	a	qualificou	assim.	Na	II	Guerra	Mundial,	a	ideia	de	
pureza	racial	e	cultural	culminou	no	extermínio	de	milhares	de	judeus,	antes	submetidos	a	
condições	de	subnutrição,	frio,	tortura	e	trabalhos	forçados.	Foi	mais	do	que	suficiente	para	
qualquer	ideia	como	essa	ser	veemente	combatida	e	considerada	crime	em	muitos	lugares.	
O	pensamento	de	superioridade	racial/cultural	perde	o	sentido	se	seu	grupo	está	para	ser	
qualificado	assim.
1.2 O espanto, o encanto e a distância..	
Quando	nos	deparamos	com	a	realidade	de	uma	religião	diferente,	automaticamente	
comparamos	com	a	nossa	cultura.	O	fato	do	diferente	existir,	significa	que	existem	pessoas	
indo	para	outras	direções,	o	que	coloca	em	cheque		nossas	visões	de	mundo	e	a	coesão	do	
grupo	do	qual	pertencemos.	Uma	cultura	diferente	costumava	causar	mais	estranheza	a	al-
guns	séculos	atrás,	quando	os	meios	de	comunicação	quase	não	eram	acessíveis.	Quando	
alguém	viajava	para	um	lugar	desconhecido	não	fazia	ideia	do	que	esperar. Algumas	coisas		
espantavam,	outras		encantavam,	mas	dificilmente	os	primeiros	registros	de	um	viajante	do	
período	medieval,	por	exemplo,	consideram	uma	cultura	estrangeira	superior	à	sua	cultura	
de	origem.	O	relato	a	seguir	quase	foge	a	essa	regra.
Jean	de	Léry,	missionário	calvinista	francês,	se	estabelece	no	Brasil	por	dez	meses,	
onde	escreveria	os	relatos	reunidos	em	História de uma viagem à terra do Brasil,	publicada	
pela	primeira	vez	em	1578.	Sua	narrativa	tem	as	terras	brasileiras	como	lindas	e	produti-
vas,	vastas	e	ricas	em	recursos	naturais.	Respeitoso,	considerando	os	padrões	da	época,	
descreve	os	costumes	dos	 tupinambás	com	bastante	detalhes,	constituindo-se	uma	das	
principais	para	o	estudo	das	práticas	religiosas	indígenas	no	início	da	exploração	europeia.	
No	entanto	a	nudez	dos	tupinambás	é	tida	como	estranha	e	sedutora
coisa	não	menos	estranha	e	difícil	de	crer	para	os	que	não	os	viram,	é	que	
andam	todos,	homens,	mulheres	e	crianças,	nus	como	ao	saírem	do	ventre	
materno.	Não	só	não	ocultam	nenhuma	parte	do	corpo,	mas	ainda	não	dão	
nenhum	sinal	de	pudor	ou	vergonha	(LÉRY,	1960,	p.	112).
quero	responder	aos	que	dizem	que	a	convivência	com	esses	selvagens	nus,	
principalmente	entre	as	mulheres,	incita	à	lascívia	e	à	luxúria.	(…)	Os	atavios,	
arrebiques	 postiços,	 cabelos	 encrespados,	 golas	 de	 rendas,	 anquinhas,	
sobre-saias	e	outras	bagatelas	com	que	as	mulheres	de	França	se	enfeitam	
e	de	que	jamais	se	fartam,	são	causas	de	males	incomparavelmente	maiores	
do	 que	 a	 nudez	 habitual	 das	 índias,	 as	 quais,	 entretanto,	 nada	 devem	às	
outras	quanto	à	formosura	(LÉRY,	1960,	p.	171-172).
Esta	dinâmica	de	encanto	e	repulsa	é	percebida	por	François	Hartog	(1999),	em	O 
Espelho de Heródoto.	Ao	trabalhar	com	os	relatos	de	Heródoto	em	suas	viagens	a	povos	
vizinhos	de	sua	nação,	Hartog	nota	que	o	grego	só	consegue	descrever	aquilo	que	enxerga	
28UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
por	meio	de	uma	tradução,	ou	seja	comparando	o	que	vê	com	palavras	e	objetos	de	sua	
cultura	com	o	que	conhecia	nas	 jornadas.	Por	exemplo,	na	narrativa	de	uma	viagem	ao	
Egito,	a	tradução	denominaria	um		deus		do		Olimpo	para	cada	deus	egípcio.		
Ao		escrever	para		sua		sociedade		politeísta,		o		grego		consideraria		os	povos	que	
cultuavam	um		menor	número		de		deuses,		como		menos		desenvolvidos.		O	que	nos	lembra	
o	caso	de	Tylor	e	Nina	Rodrigues,	pois	partiram	do	cristianismo	e	considerando	ignorantes	
aqueles	politeístas,		menos		complexos		conforme	a	maior		quantidade		de		divindades	de	
culto.	
Hartog	também	defende	que	a	distância	entre	observador	e	observado	é	essencial	
para	que	se	produza	ou	encanto	ou	espanto	no	processo	de	tradução	para	a	própria	rea-
lidade.	É	uma	distância	material,	geográfica,	entre	duas	cidades,	por	exemplo.	E	trata-se	
de	quão	distante	o	observador	se	coloca	diante	da	cultura	e	pessoas	que	ele	observa.	Se	
alguém	é	visto	como	inferior,	tem	ressaltada	apenas	características	ruins.	O	pensamento	
de	uma	cultura	superior,	uma	religião	superior	ou	uma	raça	impedem	um	diálogo	produtivo	
entre	as	partes.	Visto	que	 tudo	que	é	produzido	por	quem	é	 inferior,	 logo	suas	 ideias	e	
cultura,	também	é	inferior.	
Com	o	distanciamento	se	 justificam	massacres	 religiosos	como	o	 imposto	pelos	
romanos	aos	cristãos	e,	depois,	o	que	os	cristãos	impuseram	aos	hereges.	Nos	dois	casos	
aquilo	que	era	diferente	foi	considerado	inferior	e	perigoso.	Principalmente	para	as	autori-
dades	religiosas	da	época	que		lidavam	com	uma	crença	concorrente.	Admitir	a	possibili-
dade	do	outro	crer	em	algo	diferente,	e	conduzir	uma	vida	comum,	coloca	em	questão	as	
estruturas	e	práticas	de	sua	sociedade,	lentamente	podendo	modificá-las.	
Uma	mudança	 que	 põe	 em	 cheque	 não	 a	 vida	 do	 indivíduo,	mas	 a	 saúde	 das	
instituições	cujas	normas	são	contraditas	por	uma	nova	visão	de	mundo.		O	cidadão	ro-
mano	comum	teria	uma	religião	a	mais	para	escolher	com	o	cristianismo,	nada	mais,	nem	
menos.	O	mesmo	pode	se	dizer	do	camponês	na	 Idade	Média	em	relação	aos	conflitos	
entre	protestantes	e	católicos.	
Depois	de	muita	perseguição,	nos	dois	casos	foi	o	que	aconteceu,	uma	ou	várias	
religiões	foram	criadas.	Mas	como	uma	instituição	que	controla,	como	a	Igreja	ou	o	Império	
Romano	podem	ter	falhado	em	combater	crenças	formadas	nos	calabouços	e	outros	locais	
secretos,	com	cultos	realizados	quase	em	silêncio	não	por	uma	opção	de	prática	religiosa,	
mas	por	sobrevivência?
29UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
1.3 O contato e a fronteira.
A	partir	de	Hartog	(1999),	podemos	compreender	que	a	resposta	é:	o	contato.	Se	o	
distanciamento	provoca	estranheza,	medo,	preconceito,	a	aproximação	com	o	tempo	tende	
a	atenuar	as	diferenças	e	inclusive	unir	elementos	que	antes	aparentavam	irreconciliáveis.	
Para	tanto,	é	necessário	perceber	o	outro	como	um	igual.
Voltemos	ao	caso	de	Jean	de	Léry	para	ilustrar	essa	situação.	Ele	estava	entre	os	
colonos	e	dois	ministros	anglicanos	enviados	para	abrir	um	braço	da	Igreja	Reformada	de	
Genebra	na	Baía	de	Guanabara,	considerando	igreja	um	pequeno	grupo	de	fiéis	reunidos,	
sem	a	necessidade	de	um	templo	ou	local	fixo,	a	primeira	igreja	protestante	no	Brasil	fun-
cionou	por	meio	de	Léry	e	seu	grupo.	
Essas	pessoas	atendiam	a	um	pedido	de	Nicolas	Durand	de	Villegaignon,	expe-
dicionário	 francês	que	 tentava	 conquistar	 parte	 do	 território	 da	América	Portuguesa.	No	
entanto,	Villegaignon	que	se	dizia	simpático	ao	protestantismo,	não	gostou	das	ideias	dos	
missionáriose	passou	a	acusá-los	de	heresia.	
O	 grupo	 de	 Léry	 viveu	 oito	meses	 bem	desconfortáveis	 na	 colônia	 e	mais	 dois	
meses	junto	a	índios	tupinambás	porque	a	convivência	com	o	expedicionário-chefe	tornou-	
se	arriscada.	Dez	meses	depois	da	chegada	dos	reformados	franceses	ao	Brasil,	o	navio	
que	os	 levaria	de	volta	à	França	estava	pronto,	mas	por	 falta	de	espaço,	cinco	homens	
precisariam	aguardar	a	próxima	embarcação.	Dentro	de	algumas	semanas	foram	presos,	
condenados	na	inquisição	francesa	e	executados	na	fogueira	após	uma	carta	de	confissão	
onde	assinavam	negando	a	fé	católica.	
No	período	em	que	 foi	acolhido	por	 tupinambás,	os	missionários	e	os	 índios	se	
tornaram	iguais.	O	francês	descreve	que	todos	foram	o	tempo	todo	muito	bem	tratados.	
Ou	 seja,	 na	 companhia	 dos	 nativos,	 de	maneira	 geral	 considerados	 incultos,	 pagãos	 e	
transformados	em	escravos	pela	maioria	que	chegava	ao	Brasil,	os	franceses	protestantes	
receberam	mais	respeito	do	que	os		franceses	católicos.	
Não	por	acaso,	em	suas	últimas	páginas,	Léry	mostra	sinais	de	que	as	diferenças	
culturais	e	de	contato	o	fazem	refletir.	O	missionário	relativiza	a	violência	dos	ritos	canibais	
dos	tupinambás	com	os	povos	considerados	inimigos,	o	trecho	a	seguir	sucede	a	descrição	
dos	preparos	para	o	banquete	do	inimigo	capturado
Poderia	aduzir	outros	exemplos	de	crueldade	dos	selvagens	para	com	seus	
inimigos,	mas	 creio	 que	 o	 que	 disse	 já	 basta	 para	 arrepiar	 os	 cabelos	 de	
horror.	É	útil,	entretanto,	que	ao	 ler	semelhantes	barbaridades,	não	esque-
çam	os	 leitores	do	que	se	pratica	entre	nós	[...]	Não	abominemos	portanto	
demasiado	 a	 crueldade	 dos	 selvagens	 antropófagos.	 Existem	 entre	 nós	
criaturas	tão	abomináveis,	se	não	mais,	e	mais	detestáveis	do	que	aqueles	
que	só	investem	contra	nações	inimigas	de	quem	tem	vingança	a	tomar.	Não	
é	preciso	ir	à	América,	nem	mesmo	sair	de	nosso	país,	para	ver	coisas	tão	
monstruosas	(LÉRY,	1960,	p.	203-204).
30UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
Se,	 em	dez	meses,	 Jean	de	 Léry	 chegou	a	 comentar	 que	 os	 tupinambás	 eram	
melhores	 companhias	 que	 seus	 compatriotas	 franceses,	 imaginem	 como	 um	 contato	
prolongado,	de	décadas,	modificaria	sua	opinião.	No	mundo	contemporâneo,	cercado	de	
informações,	o	indivíduo	tem	contato		frequente	com	o	diferente.	Mas	o	que	diz	se	ele	vai	
olhar	para	aquela	cultura	como	um	igual	ou	sentir	medos	e	preconceitos	é	a	hierarquia,	a	
distância	com	que	enxerga	o	outro.
Em	Hibridismo Cultural,	Peter	Burke	(2003)	entende	que	é	na	fronteira	que	as	tro-
cas	culturais	acontecem.	Essa	região	de	fronteira	pode	ser	pensada	no	seu	sentido	físico,	
quando	 o	 território	 de	 uma	 nação	 se	 encontra	 com	o	 de	 outra.	Mas	 também	 zonas	 de	
intensa	movimentação	de	pessoas	e	mercadorias,	como	os	portos	e	cidades	turísticas.
É	em	locais	fronteiriços	que	os	principais	conflitos	do	mundo	contemporâneo	acon-
tecem:	a	faixa	de	Gaza	entre	Israel	e	a	Palestina,	a	divisa	entre	Norte	e	Sul	nas	Coreias,	
os	muçulmanos	que	moram	entre	a	China	e	o	Afeganistão	e	Cazaquistão,	 	os	 latinos	e	
estadunidenses	na	América	do	Norte,	a	linha	vermelha	que	separa	favela	e	cidade	no	Rio	
de	Janeiro.	
O	encontro	de	dois	governos,	dois	modos	de	vida,	duas	realidades.	Se	prolongado,	
no	contato	com	o	diferente	todos	os	dias,	a	depender	das	circunstâncias,	a	violência	dá	
lugar	ao	convívio	de	tolerância	e,	naturalmente,	conforme	relações	de	amizade,	comércio,	
trabalho	e	amor	são	construídas,	uma	identidade	nova	surge	que	não	é	exatamente	igual	a	
nenhum	dos	lados	do	conflito.	Mas	o	que	dizer	dos	embates	e	preconceitos	que	se	arrastam	
por	décadas	ou	séculos?	Nesses	casos,	é	difícil	não	existir	um	interesse	político	que	de	
alguma	forma	obtém	vantagens	dessa	polarização.	É	o	que	podemos	refletir	ao	olhar	mais	
detidamente	para	a	disseminação	das	religiões	no	Brasil.
31UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
2. AS RELIGIÕES NO BRASIL DO CATOLICISMO AO ISLAMISMO.
2.1 Poder e fragmentação religiosa em Portugal e no Brasil.
Durante	o	período	europeu	das	Grandes	Navegações,	a	 Igreja	Católica	exerceu	
papel	fundamental,	visto	que	representava	a	postura	diplomática	interna	e	externa	de	um	
continente.	Aqui	destacamos	algumas	das	funções	que	a	instituição	eclesiástica	dispunha	
aos	europeus:
●	 firmava	tratados	de	exploração	sobre	as	terras	que	recém-conheciam;	
●	 atestava	sua	presença	em	determinado	território	(com	a	construção	de	templos	
destinados	a	santos	ou	ordens	religiosas	comuns	àquela	nação);	
●	 registrava	empréstimos	e	relações	comerciais,	condições	de	juros	e	consequên-
cias	de	não	pagamento	de	dívida.
Por	funções	tão	importantes,	a	Igreja	Católica	é	personagem	das	narrativas	primor-
diais	sobre	o	Brasil.	Como	na	missa	realizada	em	1500	por	frei	Henrique	de	Coimbra,	assim	
que	os	portugueses	pisaram	no	solo	que	se	 tornaria	nosso	país.	Logo	que	uma	colônia	
apresentava	sinais	de	crescimento,	determinada	ordem	religiosa	poderia	ser	 requisitada	
para	prestar	serviços	básicos	de	saúde,	alimentação	ou	comunicação,	por	exemplo,	algo	
que	expressamente	 fazia	parte	da	missão	de	angariar	novos	fiéis.	Quando	a	escravidão	
passa	ser	adotada	como	principal	mão-de-obra,	o	discurso	católico	define	as	diferenças	
entre	a	alma	 indígena,	africana	e	europeia	e	os	motivos	de	cada	uma	ocupar	um	papel	
desigual	na	hieraquia	daquela	sociedade	(OLIVEIRA,	2007).	
32UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
O	catolicismo	era	a	religião	oficial,	a	única	permitida	de	construir	templos	e	reali-
zar	cerimônias	públicas.		Nas	vilas	e	cidades	que	se	formavam,	o	padre	ou	o	bispo	eram	
autoridades	de	grande	poder	e	 representavam	a	conexão	entre	os	 interesses	das	elites	
(membros	da	Coroa,	grandes	fazendeiros)	e	todo	restante	da	população.	Conforme,	Lísias	
Nogueira	Negrão	(2008),	no	Brasil	Colonial	ser	católico	não	era	uma	questão	de	escolha
O	catolicismo	foi,	no	passado	colonial	brasileiro,	uma	religião	obrigatória:		os		
que		aqui		nasciam		o		aceitavam		por		pressuposto		de	cidadania,		exceto		
os		indígenas,		aos		quais		se		exterminava		ou		se	convertia.		Os		que		aqui		
não		nasciam		tinham		que		adotá-lo,		mesmo	que	não	o	compreendessem:	
os	negros	escravizados	eram	batizados	no		porto		de		procedência		ou		de		
desembarque.		Já		os		judeus,		sob		a	pressão	de	serem	perseguidos	pelos	
inquisidores,	de	perderem	seus	bens	ou	mesmo	suas	vidas,	preferiram,	em	
geral,	tornar-se	“cristãos	novos’’.	(NEGRÃO,	2008,	p.	263).
Para	que	uma	coisa	seja	proibida	é	por	que	ela	é	usualmente	praticada,	certo?	Não	
tem	sentido	proibir	algo	que	ninguém	faz.	A	prática	de	outras	religiões	em	Portugal	já	era	
considerada	um	problema	muito	antes	do	descobrimento	do	Brasil.	
A	península	ibérica	entre	os	séculos	VIII	e	XI	era	território	muçulmano,	e	não	ca-
tólico.	 Sob	 regime	 islâmico,	 os	 portugueses	 experimentaram	 algo	 próximo	 da	 liberdade	
religiosa,	havendo	relatos	da	presença	das	crenças	católica,	muçulmana,	judia	e	dos	povos	
chamados	bárbaros	que	ali	viviam,	como	godos	e	visigodos.	Os	muçulmanos	fundaram	as	
primeiras	universidades	da	Europa,	como	a	Universidade	de	Salamanca,	em	1134.	Sem	
o	conhecimento	produzido	e	compartilhado	nesses	 locais,	Portugal,	Espanha	não	teriam	
sido	os	primeiros	estrangeiros	a	colonizar	a	América,	visto	que	tal	feito	apenas	foi	possível	
com	a	herança	árabe	das	habilidades	matemáticas	de	engenharia,	 tecnologia	náutica	e	
construção.
Figura	1	–	Mesquita	de	Córdoba,	Espanha,	construída
	entre	os	séculos	X	e	XI	sob	domínio	muçulmano
Fonte:	https://umpouquinhodecadalugar.com/europa/espanha/a-grande-mesquita-de-cordoba/
33UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
Figura	2	-	Catedral	Sé	de	Lisboa,	Portugal,	fundada	no	século	XII	e	construída	a	partir	da	
antiga	Mesquita	de	Lisboa.	A	arquitetura	gótica	de	influência	árabe	foi	adotada	em	templos	
católicos	de	todo	o	mundo.	
Fonte:	https://www.cidadeecultura.com/se-de-lisboa/
Os	judeus	formaram	grupos	de	habitantesna	Europa,	ao	menos	desde	o	século	
IX,	e	 foram	mais	ou	menos	perseguidos,	conforme	a	atmosfera	política	e	religiosa.	Com	
as	Cruzadas,	o	contato	entre	católicos	e	judeus	se	tornou	comum,	sobretudo	na	atividade	
financeira.	Da	Europa	Oriental,	o	povo	israelita	se	desloca	para	diferentes	regiões,	confor-
me	oportunidades	de	comércio,	 trabalho	e	ambiente	de	 tolerância	 religiosa.	A	Península	
Ibérica,	mesmo	conquistada	pelos	católicos,	foi	adotada	como	destino	de	judeus,	pois	além	
de	serem	mercados	efervescentes,	Portugal	e	Espanha	conservaram	certo	nível	de	convi-
vência	entre	religiões,	até	as	Inquisições	dos	séculos	XVI	e	XVIII.	
As	rotas	católicas	estabelecidas	com	as	Cruzadas	e	os	caminhos	islâmicos	sobre	a	
África	do	Norte	foram	também	meios	de	acesso	dos	povos	romani	e	tingi,	depois	a	ambos	se	
denominaria	ciganos.	Não	sendo	famosos	por	seu	poder	político	ou	econômico,	tais	povos	
formavam	comunidades	em	diferentes	regiões	da	Europa,	seguindo	critérios	semelhantes	
aos	dos	 judeus	sobre	onde	se	estabelecer.	Não	eram	um	grupo	 isolado	e	em	Portugal,	
após	o	Descobrimento,	muitas	famílias	ciganas	se	mesclaram	à	população	local.	Possuem	
até	hoje	práticas	 religiosas	características	onde,	além	de	divindades	próprias,	adotaram	
preceitos	e	ideias	cristãs,	hinduísmo,	zoroastrismo	e	islamismo.	
34UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
No	Brasil	do	final	do	século	XIX,	indícios	apontam	ciganos	e	africanos	realizando	
juntos	um	culto	de	dimensão	pública	para	Oxumaré,	divindade	símbolo	da	mudança	e	dos	
ciclos,	representada	pelo	arco-íris	e	pelas	serpentes.	
A	sacerdotisa	é	uma	portuguesa	reforçada,	que	se	chama	Maria	Matos	da	Sil-
va.Só	são	permitidos	pescadores	na	festa,	e	os	pescadores	vão	de	toda	parte	
ao	culto	singular.	A	casa	de	Maria	Silva	fica	mesmo	no	ponto	dos	bondes,	
e	nos	dias	de	festa	está	toda	adornada	de	folhagens	e	galhardetes.	Todos,	
lavados	e	de	roupas	claras,		a		dona		da		devoção		manda		buscar		os		negros		
feiticeiros		para		preparar		os	ebós	e	fazer	a	matança	dos	animais.	Ela	própria	
deita	as	cartas	para	saber	quem	deve	ir	levar	os	sacrifícios	e	os	desejos	sutis	
do	Arco-íris.	(RIO,	1906,	p.	70).
É	possível	que	Maria	Matos	da	Silva,	a	portuguesa	sacerdotisa	do	mar,	seja	de	
descendência	cigana.	De	bagagem	cultural	muito	diferente	do	almejado	pelos	 reinos	de	
Espanha	e	Portugal,	os	ciganos	possuíam	práticas	religiosas,	roupas	e	inclusive	um	idioma	
próprio,	tornando-os	alvo	de	tentativas	de	normatização	por	meio	de	medidas	integradoras.	
Logo,	os	ciganos	não	poderiam	se	comportar	como	tal.
Entre		as		punições		aos	desvios		estava		o		exílio		nas		colônias		portuguesas,		como		
o	Brasil	dos	séculos	XVI	ao	XVIII,	fato	que	não	impedia	migrações	voluntárias.	Dado	esse	
quadro,	não	é	difícil	imaginar	um	contexto	social	no	Brasil	Império	e	República	Velha,	no		
qual		as		duas		culturas,		afro-brasileira		e		cigana,		partilham		de		ambientes		comuns.
Voltando	a	Portugal	pré-descobrimento,	os	reinados	oficialmente	católicos	escon-
diam	uma	sociedade	de	 identidade	religiosa	 fragmentada.	Onde	hábitos	e	crenças	cató-
licas,	muçulmanas,	 judias,	 ciganas	e	pagãs	 (o	período	dos	godos	e	visigodos	deixaram	
marcas	na	cultura	religiosa,	ainda	que	o	cristianismo	tenha	sido	adotado	pelos	reis	góticos	
a	partir	de	240,	a	crença	politeísta	e	suas	práticas	se	embrenharam	no	cotidiano	popular).e	
contrastavam	com	a	pressão	do	Estado	por	uma	religião	e	oficial.
A	partir	do	século	XVI,	com	a	exploração	das	Américas	e	com	Estados	que	cami-
nham	para	o	Absolutismo,	onde	a	Reforma	Protestante	não	conseguiu	chegar	de	maneira	
a	desestruturar	a	instituição	católica	(caso	de	Portugal,	Espanha	e	França,	por	exemplo),	a	
Igreja	se	consolida	como	a	grande	representante	da	cultura.	Para	isso,	contou	com	o	apoio	
da	nobreza	e	ao	mesmo	tempo	a	fortaleceu.	
35UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
1.2 A cultura nunca para, religiões proibidas e praticadas.
Nas	 colônias,	 o	 catolicismo	 fazia	 parte	 irrestrita	 do	 dia-a-dia.	 Conforme	Negrão	
(2008),	a	obrigação	de	ser	católico	fazia	com	que	uma	pessoa	praticasse	a	mesma	religião	
com	diferenças	marcantes	conforme	o	setor	da	sociedade	em	que	estava	inserido.		
A	Igreja	trabalhava	junto	aos	senhores	de	engenho	e	altos	funcionários	da	Corte,	
o	 padre	 realizava	 cultos	 públicos	 nas	 residências	 e	muitas	 vezes	 era	 responsável	 pela	
educação	das	crianças.	Comportava-se	como	a	voz	calma	e	benevolente	do	patrão	para	
seus	 funcionários,	escravos	e	filhos,	 já	que	o	patriarca	deveria	ser	austero,	o	padre	era	
quem	negociava	com	palavras	dóceis	a	tranquilidade	do	local.	Este	era	o	catolicismo	dos	
portugueses.	
Indígenas,	africanos	e	seus	descendentes	embora	fossem	católicos,	ou	forçados	
a	assim	dizerem,	não	abandonaram	suas	 religiões	de	origem.	Ao	contrário,	sempre	que	
houve	uma	brecha	no	catolicismo,	ela	 foi	ocupada	por	uma	prática	 religiosa	africana	ou	
indígena	quando	se	relacionava	com	a	cultura	da	grande	população.
Mais	do	que	isso,	muitos	preceitos	religiosos	oriundos	de	culturas	não-monoteístas	
foram	absorvidos	no	comportamento	brasileiro,	independente	de	uma	religião.	Por	exemplo
●	 a	crença	em	espíritos;
●	 a	crença	em	mal-olhado	ou	‘olho	gordo’;	
●	 os	rituais	de	fim	de	ano,	como	vestir-se	de	branco	e	pular	sete	ondas;	
●	 o	recurso	de	práticas	divinatórias,	como	as	cartas	de	tarô	e	os	búzios;
●	 a	 presença	 das	 benzedeiras	 como	 autoridades	 religiosas	 que	 identificam	 e	
tratam	problemas	do	dia-a-dia,	doenças	e	partos.
Neste	universo	religioso	brasileiro,	que	Negrão	(2008)	identifica	como	catolicismo	
popular,	as	crenças	se	misturam	e		ganham	particularidades	conforme	o	povo	que	ali	habita.	
Em	Salvador,	os	africanos	em	sua	maioria	do	povo	iorubá,	manteve	certas	caracte-
rísticas	tradicionais	de	sua	terra	natal,	como	os	orixás,	os	ritos	de	iniciação	e	cânticos	em	
língua	iorubana,	são	os	primeiros	anos	do	que	se	chamaria	depois	de	Candomblé.	
No	Rio	de	Janeiro,	o	povo	banto	consistia	na	maior	nação	de	pessoas	escraviza-
das,	de	seu	culto	aos	ancestrais,	onde	os	mortos	estão	sempre	participando	da	vida	dos	
vivos,	se	popularizaram	os	exus,	caboclos,	pombagiras,	 	divindades	que	 representavam	
personagens	 do	 cotidiano	 daquela	 época,	 o	 homem	 violento	 ou	 o	malandro	 habilidoso,	
que	sobreviviam	no	contexto	urbano	insalubre	e	perigoso,	o	indígena	que	lutava	contra	o	
36UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
pretenso	processo	civilizatório,	a	mulher	que	por	alguma	razão	foi	posta	à	margem	e	pra	
existir	precisava	assumir	uma	postura	impositiva,	sem	medo	de	se	mostrar	como	ser	dotado	
sexualidade	ou	de	usá-la	como	bem	entendesse.	Em	um	processo	de	embranquecimento,	
como	estudado	por	Ortiz	(1978),	os	cultos	cariocas	serviriam	de	base	para	a	Umbanda.	
Apesar	 de	 observarmos	 nuances	 regionais,	 o	 contato	 entre	 diferentes	 culturas	
africanas,	indígenas	e	europeias	produziu	semelhanças.	Por	exemplo,	a	adoção	de	santos	
católicos	para	representar	também	os	orixás	é	algo	presente	em	religiões	afro-brasileiras	
de	todo	país.	A	crença	na	reencarnação	e	na	atividade	dos	espíritos	na	terra,	bem	como	
a	elaboração	de	ritos	que	visam	controlá-los	(acalmar,	ordenar,	expulsar,	proteger,	entre	
outros).	E	a	crença	em	Jesus	Cristo	e	em	um	deus	onipotente	e	onisciente	é	praticamente	
unanimidade.	Diferente	do	que	pode	ser	apontado	na	tradição	africana,	onde	não	existe	um	
culto	a	Zambi	ou	Orunmilá,	o	Criador.	Pois	parte	do	pressuposto	de	que	o	culto	é	uma	forma	
de	ajudar	a	si	mesmo	e	outras	pessoas	mas	também	de	ajudar	as	divindades,	Deus-Criador	
não	precisaria	dessa	ajuda.	
Figura	3	–	Altar	identificado	à	Tenda	Mãe	Maria	de	Camargo,	de	Umbanda	e	Candomblé
Fonte:	https://maemariadecamargo.blogspot.com.	Na	foto	podemos	identificar	entre	outras	representações,	a	de	
São	Sebastião	(à	esquerda,	dorso	nu)	que	também	é	Oxóssi,	Jesus	(acima,	em	posição	central),	que	é	Oxalá,	
São	Jorge	(lateral	inferior	direita,	montado	em	um	cavalo),	queé	Ogum,	os	gêmeos	São	Cosme	e	São	Damião	
(lado	inferior	esquerdo,	não	conseguimos	identificar	a	figura	entre	os	dois,	mas	por	ser	de	tamanho	menor,	pode	
ser	a	representação	de	uma	criança,	um	símbolo	de	Ibeji	e	da	qual	eles	são	protetores)	também	são	Ibeji.
37UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
Essa	atmosfera	multipolarizada	e	a	relação	com	a	Igreja	Católica,	pode	ser	com-
preendida	 também	por	meio	de	H.	Bhabha	(2005),	onde	constatamos	 	a	 	existência	 	de		
duas		realidades		diferentes:		a		primeira,	fundada	na	presença		de	uma	tradição	católica,	
na	memória		e		nos		escritos		do	país		com	uma	abrangência,	que	teria	como	consequência	
“produzir	autoridade	sem	a	necessidade	de	uma	ação	imperativa”	(BHABHA,	2005,	p.182).	
Ou	seja,	chega	um	momento,	depois	de	gerações	de	conversão	compulsória,	que	
um	indivíduo	nascido	nessa	sociedade	simplesmente	acredita	naquilo	que	as	instituições	
predominantes	engenharam.	
Dessa	 forma,	a	 relação	entre	 Igreja	e	elite	social,	devido	a	presença	maciça	do	
catolicismo	no	dia-a-dia	do	Brasil	Colônia	e	Império,	produziu	o	efeito	de	realidade	mencio-
nado.	Como	consequência,	o	passado	torna-se	uma	reprodução	das	intervenções		dessas		
instituições.	
O	mesmo	efeito	corrobora		para		que	outras	manifestações	religiosas	passem	des-
percebidas.	Por	exemplo,	podemos	concordar	que	há	algum	tempo	atrás	a	cultura	religiosa	
africana	ou	 indígena	não	era	nem	mesmo	mencionada	em	 livros	didáticos.	Algo	que	só	
mudaria	com	a	 lei	10.639,	que	 institui	o	ensino	da	história	e	cultura	africana	e	 indígena	
obrigatório	nas	escolas.
Não	se	trata	necessariamente	de	uma	conversão,	muito	menos	a	vitória	de	uma	
crença	sobre	outra.	Na	verdade,	é	prudente		questionar	como	diversas	religiões/culturas	
religiosas	 que	 demoraram	 milênios	 para	 se	 desenvolverem,	 praticadas	 por	 milhões	 de	
indivíduos,	desapareceram,	em	alguns	casos	por	completo,	em	menos	de	300	anos.	No	
meio	acadêmico,	as	respostas	têm	passado	pela	violência	do	Estado	e	perseguição	social.	
Mas	e	as	outras	religiões,	como	islamismo,	judaísmo	e	as	próprias	religiões	protes-
tantes,	por	exemplo,	não	adotaram	os	santos	católicos	ou	algo	do	tipo?	Esta	é	uma	questão	
de	difícil	resposta.	Ao	pensarmos	o	Brasil	Colônia	e	Império,	comparado	a	africanos	e	indí-
genas,	o	contingente	de	árabes	e	judeus	que	se	estabeleceram	aqui	é	bastante	reduzido.	
A	respeito	dos	protestantes,	o	período	da	Reforma	coincide	com	os	Descobrimen-
tos,	o	que	faria	esperar	um	número	considerável	de	fiéis	chegando	ao	Brasil.	No	entanto,	
em	Portugal,	os	questionamentos		à	Igreja	Católica	não	surtiram	as	mesmas	consequências	
como	na	Holanda,	Alemanha	e	Inglaterra.	Sendo	assim,	não	há	registros	de	portugueses	
protestantes	no	período	colonial.	Entretanto,	havia	franceses	e	holandeses	calvinistas.	
A	respeito	do	primeiro	grupo	relatamos	seus	desdobramentos	no				tópico	1,	para	
pensar	a	importância	do	contato	na	disseminação	de	religiões	pelo	mundo.	No	caso	holan-
dês,	o	anglicanismo	havia	sido	adotado	como	religião	oficial	dos	Países	Baixos.	A	Igreja	
38UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
Reformada	Potiguara,	foi	fundada	entre	1624-1625	com	o	trabalho	de	europeus	e	indígenas.	
Inclusive,	dois	brasileiros	nativos	foram	enviados	para	Holanda,	a	fim	de	que	recebessem	
instrução	teológica,	assim	que	ajudaram	a	concluir	as	obras	do	templo.	
Fixados	principalmente	na	região	de	Pernambuco,	os	holandeses	permaneceram	
no	Brasil	até	1654,	chefiados	por	Maurício	de	Nassau,	quando	o	exército	da	corte	portugue-
sa	pressionou	ao	ponto	de	rendição.	Na	colônia	holandesa,	a	liberdade	religiosa	e	política	
era	garantida	por	lei.	Assim	foi	possível	criticar	qualquer	rei	sem	o	risco	da	pena	de	traição,	
ou	construir	um	templo	para	sua	religião,	agendar	cultos	sem	a	necessidade	de	aprovação	
prévia	ou	professar	uma	fé	específica.	
Neste	ponto	a	história	do	judaísmo	se	cruza	no	Brasil		com	o	anglicanismo	em	ter-
ras	brasileiras.	No	contexto	de	tolerância	religiosa,	instituído	nas	colônias	da	Holanda,	que	
a	primeira	sinagoga	do	Brasil	foi	fundada,	a	Sinagoga	Kahal	Zur	Israel	(‘Rocha	de	Israel’).	
Formada	por	judeus	que	vieram	para	América	com	a	promessa	de	liberdade	religiosa,	logo	
que	os	portugueses	reconquistaram	Recife,	os	israelitas	migraram	de	lá,	desembarcando	
em	Nova	Amsterdã,	colônia	inglesa	que	depois	se	tornaria	a	cidade	de	Nova	Iorque.
Figura	4	–	Fachada	da	Sinagoga	Kahal	Zur	Israel,	a	primeira	do	continente	americano	
Fonte:	http://senhorahistoria.blogspot.com/2010/07/
Porém	essas	não	foram	as	únicas	e	nem	as	primeiras	pessoas	judias	a	se	esta-
belecerem	no	Brasil.	Os	chamados	cristãos	novos	são	os	judeus	portugueses	e	espanhóis	
que	tiveram	seus	rituais	e	práticas	proibidos,	e	imposta	a	obrigação	de	cultuar	a	fé	cristã.	
39UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
É	provável	que	muitos	continuaram	com	seus	ritos	em	espaço	íntimo,	fora	dos	olhos	
da	sociedade.	Aqueles	que	eram	vistos	em	práticas	consideradas	 judaicas,	como	nunca	
comer	carne	de	porco,	jejuar	em	determinados	períodos	ou	não	frequentar	as	missas,		seria	
denunciado	e	condenado	na	Inquisição.	Deste	contexto,	não	existem	relatos	de	qualquer	
organização	judia	na	América	portuguesa	antes	do	século	XIX.
	As	transformações	ocorridas	no	mundo	durante	o	século	XIX	(Rev.	Francesa/	Rev.	
Industrial/	Independência	dos	Estados	Unidos)	afetam	radicalmente	a	forma	como	a	Igreja	
Católica	tratam	os	praticantes	de	outras	religiões.	Entretanto,	a	Coroa	Portuguesa	embora	
cedesse	em	alguns	aspectos,	não	reagiu	com	grandes	mudanças.	
Somente	com	a	passagem	do	Brasil	para	República,	entre	as	décadas	de	1870	e	
1890	é	que	os	primeiros	templos	não-católicos	foram	permitidos	por	lei.	De	início,	vemos	
surgir	 as	 primeiras	 organizações	 religiosas,	 como	 os	 protestantes	 do	Rio	 de	 Janeiro,	 à	
época	capital	do	 Império.	Na	cidade	de	Belém,	a	segunda	sinagoga	do	Brasil,	e	a	mais	
antiga	ainda	em	funcionamento,	é	construída	por	judeus	marroquinos,	em	1824.
Os	muçulmanos	organizaram	em	1835	a	Revolta	dos	Malês,	um	movimento	de	re-
sistência	liderado	por	africanos	de	regiões	onde	o	Islã	constituía	uma	das	crenças	principais.	
A	devassa	finda	com	com	seus	participantes	mortos	em	batalha	ou	presos	e	deportados.	
No	período,	acompanhamos	um	desenvolvimento	econômico	mais	acentuado	no	
país,	além	de	uma	notável	expansão	das	metrópoles.	O	aumento	da	população	urbana	
e	a	concentração	de	pessoas	na	cidade	fez	com	que	a	diversidade	religiosa	se	tornasse	
impossível	de	disfarçar.	
1.4 Brasil, entre as crenças plurais e a conversão. 
Logo	no	início	do	século	XX,	em	1906,	As religiões no Rio,	do	escritor	e	jornalista	
João	do	Rio,	descreve	uma	cidade	com	a	presença	de	pelo	menos	quinze	diferentes	cultos	
bastante	organizados.	
Com	a	imigração	de	europeus,	japoneses	e	sírio-libaneses,	a	diversidade	religiosa	
se	torna	uma	característica	brasileira.	Templos	budistas	são	erguidos	no	interior	e	na	capital	
paulista.	Variadas	 religiões	cristãs,	como	a	Congregação,	surgem	e	 formam	suas	sedes	
brasileiras	nas	duas	primeiras	décadas	dos	anos	de	1900,	quando	percebem	que	a	perse-
guição	do	Estado	brasileiro	realmente	foi	amainada.	No	Sul,	o	luteranismo	alemão	surge,	
assim	como	o	catolicismo	ortoxo	dos	ucranianos,	por	exemplo.
Mesmo	em	um	Estado	 laico,	de	 tolerância	 religiosa,	aconteceram	conflitos	entre	
católicos	e	membros	de	outras	crenças,	muitas	vezes	apoiada	pela	própria	instituição	cató-
40UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
lica	e	autoridades	públicas.	Embora	legalmente,	todas	religiões	estivessem	protegidas,	leis	
específicas	para	ritos	africanos	ou	tornavam	seus	praticantes	criminosos	ou	os	obrigavam	a	
se	adaptarem	a	um	modelo	melhor	visto	pela	cultura	cristã-ocidental.	Por	exemplo,	o	artigo	
284	do	código	penal	brasileiro	delimita	o	seguinte:
Exercer	o	curandeirismo:
I	–	prescrevendo,	ministrando	ou	aplicando,	habitualmente,	qualquer	substância;
II	–	usando	gestos,	palavras	ou	qualquer	outro	meio;III	–	fazendo	diagnósticos:
Pena	–	detenção,	de	6	(seis)	meses	a	2	(dois)	anos.
Ou	seja,	pais	ou	mães-de-santo,	videntes,	benzedeiras	e	até	praticantes	de	qual-
quer	religião	afro-brasileira	podem	ser	enquadrados	como	criminosos,	mesmo	nos	dias	de	
hoje.	Basta	uma	denúncia,	o	encaminhamento	do	delegado	e	a	aceitação	do	juiz.	
No	entanto,	no	cenário	atual	esta	condenação	caiu	em	desuso.	E	podemos	dizer	
que	ela	serviria	para	quase	toda	prática	religiosa,	afinal	são	raras	as	práticas	que	não	se	
utilizam	da	imposição	das	mãos	ou	mesmo	uma	oração,	por	exemplo,	como	mecanismos	
de	cura.	No	entanto,	como	relata,	Ortiz	(1978)	e	Prandi	(1990)	são	as	lideranças	de	terreiros	
que	na	maioria	das	vezes	cairam	em	um	processo	penal	por	esse	crime.	Os	próprios	tam-
bores	característicos	dos	ritos	de	matriz	africana	foram	obrigados	ao	silêncio,	perseguidos	
por	denúncias	de	perturbação	do	sossego.	
A	 partir	 da	 década	 de	 70,	 o	 cenário	 religioso	 se	 altera	 com	uma	nova	 onda	 de	
crescimento	urbano.	O	processo	de	êxodo	rural,	sobretudo	para	as	capitais,	 intensificou	
o	fenômeno	da	diversidade	religiosa.	É	considerada	uma	época	de	ouro	para	as	religiões	
africanas	que,	mesmo	durante	a	ditadura	militar,	assistiram	a	um	processo	de	liberdade	re-
ligiosa	e	crescimento	a	partir	da	busca	de	uma	identidade	nacional.	Nas	rádios,	as	canções	
de	Clara	Nunes,	Caetano	Veloso,	Martinho	da	Vila,	entre	outros,	exaltam	divindades	do	
universo	religioso	afro-brasileiro,	de	orixás	a	entidades	espirituais.	
Na	década	de	1980	as	religiões	evangélicas	e	pentecostais	surgem	e	na	década	
de	1990	se	consolidam	como	uma	realidade	pujante.	Período	em	que	foram	fundadas	a	
Igreja	Presbiteriana	Renovada	e	a	Igreja	Universal	do	Reino	de	Deus,	por	exemplo,	além	
de	um	número	não	rastreável	de	templos	independentes,	com	cultos	que	precisavam	de	um	
pastor	e	uma	bíblia	para	acontecer,	às	vezes	sem	um	público	específico,	em	algum	espaço	
movimentado	das	cidades.	
41UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
Crenças	que	conquistaram	a	população	por	sua	simplicidade	nos	ritos	e	na	fala	dos	
pastores,	em	oposição	à	vultuosidade	da	Igreja	Católica,	seus	ritos	repetidos	missa	após	
missa.	O	pentecostalismo	ou	neo-pentecostalismo	dá	ênfase	à	experiência	individual	e	na	
manifestação	do	espírito	santo.	O	que	se	mostrou	mais	adequado	à	dinâmica	urbana	e	à	
realidade	de	cada	lugar.	Atualmente	isso	já	sofreu	algumas	modificações,	mas	no	período	
em	questão,	o	pastor	era	uma	pessoa	do	local,	entendia	melhor	as	necessidades	materiais	
e	espirituais	de	seus	fiéis.	Ao	contrário,	do	padre	que	pode	vir	de	um	mundo	completamente	
diferente	do	que	encontra	na	paróquia	a	que	foi	destinado.
Durante	o	século	XX,	apesar	da	diversidade	religiosa	destacada	até	aqui,	a	fé	cató-
lica	era	declarada	por	mais	de	90%	dos	fiéis.	Em	2007	esse	número	caiu	para	64%.	Como	
informa	Negrão	 (2008),	 ao	mesmo	 tempo,	as	 religiões	evangélicas	estão	com	22%	dos	
adeptos	declarados	no	período.	Outras	religiões	se	movimentaram	pouco,	com	alternâncias	
de	avanços	e	quedas	de	baixa	variação	nas	últimas	três	décadas.	Contudo,	o	autor	chama	
atenção	para	um	dado	que	não	é	revelado	por	pesquisas	como	essa,	o	da	mobilidade	e	
pluralidade	religiosa	em	uma	mesma	pessoa.	Nas	pesquisas	produzidas	por	Negrão	(2008),	
verificou-se	que
389	dos	1.064	moradores	que	declararam	ser	 religiosos,	 ou	 seja,	 38%	do	
total,	haviam	mudado	de	religião	ao	menos	uma	vez.	Quanto	à	não-exclusivi-
dade,	122	(11%)	declararam	participação	ou	cultivo	de	culto	de	dois	ou	mais	
grupos	religiosos	(NEGRÃO,	2008,	p.	269).
Ao	observar	o	cenário	contemporâneo	das	religiões,		Hervieu-Léger	(2008)		com-
preende	que,	sobretudo	após	o	século	XIX,	a	Igreja	Católica	deixa	de	ser	o	ponto	de	refe-
rência	ao	redor	do	qual	se	concentrava	toda	a	comunidade,	e	as	modalidades	de	crença	
passaram	a	poder		assumir		 formas		diferentes,		 inerentes		a		uma		 individualização		do		
objeto		do		crer.		
O	surgimento		deste		fenômeno		pode		ser		compreendido		sob		a		ideia		de		con-
sequência		ante		os	acontecimentos		do		período		moderno,		sobretudo		a		laicização		dos		
aspectos		políticos		e	econômicos	da	vida	social.	O	discurso	científico	toma	para	si	o	papel	
de	responder	a	todas	as		afirmações	explicativas.		O	que	poderia	ser	elucidativo,	no	sentido	
de	buscar	respostas	objetivas,	produziu	na	sociedade	o	sentimento	de	utopia	e		opacidade	
para	o	imaginário	do	crente,	permitindo	expansão	e	pluralidade	às	modalidades	do	crer.	A	
participação	religiosa	tornou-se	assunto	de	opção	pessoal.	
A	 autora	 afirma	 que	 tal	 comportamento	 pode	 ser	 observado	 já	 em	 sociedades		
tradicionais	 	ou	 	pré-modernas,	 	com	 	as	pessoas	 	 interagindo	constantemente	 	com	 	a		
rigidez		das		 leis	 	 religiosas,	 	operando		divergências	 	sob		a	 	regência	desses		códigos		
42UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
(HERVIEU-LÉGER,		2008,		p.	34).		Em		seu		estado		atual,		as		instituições	religiosas	não	
mais	possuiriam	o	direito	de	impor	determinada	crença	a	quem	quer	que	seja.
No		entanto,		o		exílio		sofrido		pela		religião		no		mundo		moderno,	devido	à	noção	
de	superioridade,		trouxe		consigo		o	paradoxo	das	sociedades	ocidentais	terem	retirado	
suas	noções	de	mundo,	representações,	princípios		de	ação	e,	em	certa	medida,		de		seu		
próprio		universo		religioso.	Assim,	não	há	como		se	desenvolver	um	pensamento	científico	
sem	encontrar	em	suas	raízes	uma	construção	filosófica		cristã.		
Por		meio		dessa		ideia,		Hervieu-Léger		estabelece		a		existência		de		algo	esca-
tológico	no	estado	de	antecipação	que	a	modernidade	colocou	aos	seus	protagonistas,	no	
sentido	de	que	se	esperaria	sempre	por	um	horizonte	mais	adiante:	uma	nova	descoberta	
capaz	de	sanar	de	uma	vez	por	todas	as	questões	surgidas,	as	descobertas	que	explicariam	
e	curariam	todos	os	problemas	da	vida.	
Consiste	esse	o	aspecto	utópico	dos	tempos	modernos:	um	imperativo	da	mudança	
(HERVIEU-LÉGER,	2008,	p.	39).	Assistimos		a	um		imaginário		caracterizado		pelo		vazio		
que	ocupa	o		espaço	entre	o	mundo	cotidiano	ordinário	e	a	promessa	moderna	de	responder	
a	tudo	que	parece	misterioso	à	razão.	Contudo,	o	resultado	científico	é,	em	pouco	tempo	
superado	por	outro	resultado	quase	sempre	não	alcançando	a	resposta	definitiva	almejada.	
Criadas	desse	vácuo	religioso	moderno,	Hervieu-Léger	destaca	duas	figuras	diferentes:	a	
do	peregrino	e	a	do	convertido
Na		busca	por		respostas		que		deem		conta		de		seus		problemas		cotidianos,		a		
figura		do	peregrino	pode	ser	o	crente	não-praticante,	cuja	fé	se	conjuga	pela	mobilidade	
religiosa,	e	surge	da	tensão	extraconfessional,	com	a	figura	do	religioso	praticante	e,	com	
a	figura		do		“sem		religião”	(HERVIU-LÉGER		2008,		p.	82).		O	peregrino	é	uma	pessoa	
que,	 independente	 de	 possuir	 uma	 religião	 ou	 não,	 frequenta	 cultos	 diferentes,	 adquire	
conhecimentos	religiosos	alternativos	por	meio	da	leitura	ou	de	vídeos	na	internet.
O	 peregrino	 emerge	 como	uma	 figura	 típica	 do	 religioso	 que	 se	movimenta	 em	
duplo	sentido.	 Inicialmente	ele	 remete,	de	maneira	metafórica,	à	fluência	dos	percursos	
espirituais		individuais,		percursos		que		podem,		em		certas		condições,		organizar-se	como	
trajetórias	de	identificação	religiosa.	Em	seguida,	corresponde	a	uma	forma	de	sociabilidade	
religiosa	em	plena	expansão	que	se	estabelece	ela	mesma,	sob	o	signo		da		mobilidade		e		
da		associação		temporária.		(HERVIEU-LÉGER,		2008,		p.	89)
Se	o	peregrino	transita	sem	se	identificar	a	uma	religião	específica,	ou	conserva	
uma	fé	principal,	o	convertido	faria	parte	do	grupo	destacado	por	Negrão	(2008)	de	pes-
soas	que	disseram	ter	trocado	efetivamente	de	religião.	Se	converter	significa	deixar	outras	
43UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
crenças	de	lado,	para	seguir	somente	uma.	Normalmente	com	mais	rigidez	na	observação	
de	seus	ritos	e	preceitos.
Cruzando	tais	perspectivas,	o	fenômeno	das	religiões	no	Brasil	pode	ser	interpre-
tadono	seguinte	cenário.	As	manifestações	que	não	são	da	Igreja	Católica	ou	evangélicas,	
como	islamismo,	judaísmo,	protestantismo	metódico,	luterano	e	o	budismo	tradicional,	por	
exemplo,	após	as	ondas	de	imigração	que	caracterizaram	seu	estabelecimento	e	expansão,	
tem	se	mantido	estatisticamente	com	estabilidade.	Assim	como	Candomblé	e	Umbanda,	
que	atingiram	seu	ápice	de	declarantes	entre	os	anos	de	1990	a	2000,	e	agora	parecem	
estacionados.
Em	outra	 perspectiva,	 vemos	 crescer	 o	 trânsito	 entre	 as	 religiões,	 a	 adesão	 de	
maneira	simultânea	a	religiões	diferentes	e	a	escolha	de	ritos,	ideias,	práticas	de	uma	série	
de	culturas	para	a	elaboração	de	uma	religião	individual.	Fenômeno	que	ocorre	devido	a	
ausência	 deixada	 pelo	 catolicismo	de	 uma	 religião	 que	 transmita	 uma	mesma	 visão	 de	
mundo	para	toda	sociedade.	A	ciência	que	poderia	preencher	esse	espaço	não		tem	o	papel	
de	garantir	à	população	verdades	absolutas,	algo	que	inclusive	seria	bastante	anti-científico.
As	religiões	neopentecostais	têm	ocupado	esta	lacuna,		em	alguns	casos	se	pro-
pondo	como	a	verdade	que	corrige	a	ciência	com	a	Bíblia.	Dentro	da	confusão	de	respostas	
que	o	mundo	contemporâneo	oferece,	pelo	menos	no	Brasil,	os	evangélicos	construíram	
comunidades	que	pensam	e	agem	a	partir	de	perspectivas	parecidas.	Homogeneidade	que	
a	Igreja	Católica	tem	perdido	em	fiéis	e	no	próprio	discurso,	sobretudo	em	relação	à	juven-
tude.	Na	perspectiva	de	Hervieu-Léger,	os	fiéis	católicos	têm	se	dividido	entre	peregrinos	e	
convertidos.	Aqueles	que	passam	do	catolicismo	a	uma	religião	evangélica,	normalmente	
adotam	uma	postura	mais	enérgica,	se	envolvem	efetivamente	com	sua	igreja,	comparti-
lhando	das	opiniões	do	pastor	e	outros	membros	influentes.	
44UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
SAIBA MAIS
Se	admitimos	que	as	instituições	religiosas	disputam	seus	fiéis,	a	figura	do	convertido	
consiste	no	público	que	novas	ideias	religiosas	procuram	atingir.	O	processo	de	esva-
ziamento	de	sentido	do	mundo	é	característico	da	globalização	e	do	acesso	à	informa-
ção,	onde	os	jovens	são	aqueles	que	apresentam	maior	dificuldade	na	busca	por	uma	
identidade	cultural	que	lhe	dê	sentido.	O	grande	dilema	parece	o	de	ter	sido	criado	com	
valores	completamente	diferentes	daqueles	que	o	mundo	manifesta	na	ciência,	na	mídia	
e	no	entretenimento.	
A	educação	conservadora	que	muitos	receberam	entre	os	anos	de	1960	e	2000	entra	
em	conflito	com	a	atmosfera	de	liberdade	de	expressão	cultural,	política	ou	sexual,	por	
exemplo,	propagados	nos	veículos	contemporâneos.	É	como	se	você	 fosse	obrigado	
a	escolher	entre	a	 tradição	que	é	seu	berço	e	o	mundo	que	 te	quer	diferente,	o	que	
muitas	vezes	leva	a	radicalizações.	Esse	processo	é	um	prato	cheio	para	organizações	
criminosas,	como	o	Estado	Islâmico,	que	em	suas	propagandas	procuram	fazer	cenas	
reais	parecerem	uma	tela	de	jogo	de	tiro,	evocando	atributos	de	difícil	acesso	na	vida	
das	grandes	metrópoles	da	Europa	e	da	América,	como	o	companheirismo	e	o	sentido	
de	comunidade:
contam	com	a	apropriação	de	produtos	(como	os	jogos	de	tiro)	para	fortale-
cer	a	rede	que	lhe	servem	de	sustentação.	A	internet	abre	um	espaço	direto	
para	postarem	sobre	missões,	divulgarem	fotografias,	áudios,	vídeos	com	
declarações	de	líderes,	além	de	registros	audiovisuais	de	suas	atividades.	
Sempre	colocando	em	voga	temas	como	respeito,	orgulho,	confiança,	dig-
nidade,	reciprocidade	e	vingança,	motivos	de	um	instinto	tribal	poderoso	e	
que	conferem	legitimidade	às	suas	ações	(COSTA,	2018,	p.	77).
Fonte: COSTA,	Ana	Carolina.	A	nova	face	do	terror:	uma	interpretação	da	propaganda	audiovisual	do	Es-
tado	Islâmico	como	fenômeno	cultural	na	era	da	midiatização.	163	f.	Dissertação	(Mestrado	em	Comuni-
cação).	Programa	de	Pós	Graduação	da	Faculdade	de	Arquitetura,	Artes	e	Comunicação	da	Universidade	
Estadual	Paulista,	2018.		
45UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
REFLITA
Quantas	pessoas	você	conhece	que	possuem	uma	religião	diferente	à	da	própria	famí-
lia?	Um	número	menor	ou	maior	que	o	das	que	seguem?	Por	que	isso	acontece?	E	o	
time	de	futebol?	E	o	posicionamento	político?	
Independente	 de	 experiências	 pessoais	 ou	 de	 ser	 um	 valor	maior	 ou	menor,	muitas	
pessoas	escolhem	ou	naturalmente	caminham	em	direção	aos	valores	e	práticas		 fa-
miliares.	Essa	herança	é	chamada	de	cultura.	Mas	nós	não	somos	uma	uma	cópia	da	
geração	que	nos	criou.	A	cultura	muda,	o	que	a	faz	mudar?
A	difusão	da	internet	e	um	maior	acesso	à	tecnologia	incentivaram	alterações	significati-
vas	no	cotidiano	e	nas		relações	humanas,	em	consequência,	altera-se	a	cultura.
Mas	não	se	trata	apenas	disso,	aqui	uma	experiência	pessoal	para	refletirmos	sobre	o	
assunto.	Meu	avô	foi	criado	numa	filosofia	de	que	depois	de	16	anos,	o	homem	tinha	
que	sair	de	casa	e	casar.	Também	foi	criado	na	ideia	de	que	um	pai	não	podia	mostrar	
muito	afeto	para	o	filho,	um	carinho,	talvez	quando	bem	criança,	mas	um	“eu	te	amo”,	
ou	fazer	qualquer	coisa	nesse	sentido	era	interpretado	como	sinal	de	fraqueza.	Meu	pai	
cresceu	mais	ou	menos	com	essa	mesma	relação	severa,	mas	ele	ficou	em	casa	até	
os	25	anos,	quando	casou.	Na	minha	criação,	ele	foi	bem	mais	dialogador,	nunca	falou	
sobre	eu	ter	de	sair	de	casa,	mas	eu	saí	aos	26,	quando	casei.	Diferente	deles	não	tive	
filhos	e	acabei	me	separando,	mas	penso	que	quando	ter	filhos	vou	conversar	ainda	
mais	com	eles	e	ser	carinhoso,	faz	bem.	Com	esse	resumo,	percebo	uma	mudança	de	
valores	de	geração	em	geração.	O	que	faz	tal	mudança	acontecer?	O	que	ela	ensina	
sobre	a	relação	que	temos	com	a	religião? 
46UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na	Unidade	II,	As religiões contemporâneas,	procuramos	discutir	a	crença	enquan-
to	 fenômeno	da	atualidade.	Para	 tanto,	 no	 tópico	1,	 “A	disseminação	das	 religiões	pelo	
mundo”	foi	apresentada	uma	forma	de	olhar	para	religião	como	formadora	de	nossa	visão	
de	mundo.	A	base	cultural	com	a	qual	 julgaremos	o	que	o	mundo	apresentar.	Por	meio	
de	Hartog	(1999),	se	demonstrou	que	o	contato	entre	pessoas	diferentes	gera	 interesse	
e	repulsa	conforme	nos	aproximamos	e	distanciamos	delas.	Essa	relação	é	material,	no	
sentido	de	que	quando	convivemos	muito	com	um	costume,	nos	adaptamos	e,	muitas	ve-
zes,	adotamos	ele.	Mas	também	é	metafórica,	no	sentido	de	que	é	preciso	se	colocar	como	
igual	em	relação	a	outra	cultura	para	compreendê-la	e	conseguir	se	comunicar	com	seus	
indivíduos.
Também	 foi	 lembrado	que	as	 religiões	 possuem	uma	 ligação	muito	 forte	 com	o	
poder	e	procuramos	relacionar	tal	fenômeno	com	a	violência	religiosa.	As	instituições	mais	
fortes	que	conhecemos,	a	família,	o	Estado,	a	democracia,	precisam	de	nossa	crença	para	
existirem.	
No	 tópico	 II,	 “As	 religiões	no	Brasil	 –	do	Catolicismo	ao	 Islamismo”	procuramos	
comprender	 o	 processo	 de	 disseminação	 das	 religiões	 no	Brasil.	Ao	 considerar	 que	 as	
mudanças	culturais	 são	ocasiões	de	contato,	procuramos	destacar	na	história	brasileira	
a	pluralidade	de	religiões	protagonistas.	Árabes,	judeus,	ciganos,	católicos,	protestantes,	
bantos,	iorubás,	nagôs	e	outros,	procuramos	discutir	brevemente	a	trajetória	e	contribuições	
dessas	culturas	com	o	Brasil.
Por	 fim,	 refletimos	 a	 contemporaneidade,	 sobretudo	 a	 partir	 das	 discussões	 de	
Herviu-Léger	(1992)		e	Negrão	(2008).	Onde	o	avanço	das	comunicações	acelera	de	forma	
abrupta	e	gera	uma	espécie	de	vácuo	existencial,	o	mundo	não	é	mais	o	mesmo.	Procura-
mos	entender	seus	desdobramentos	na	cultura	brasileira.
47UNIDADE II As Religiões Contemporâneas
MATERIAL COMPLEMENTAR
FILME/VÍDEO
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=bf9-GiJfwog&ab_channel=gru-
pofilmes
Título:	Santo	forte
Diretor:	Eduardo	Coutinho
Documentário
Sinopse:	Uma	abordagem	sobre	as	 formas	de	apropriação	das	
religiões	praticadas	no	Brasil.	Acompanhe	uma	investiga	do	coti-
diano	popular	por	meio	das	experiências	de	moradores	da	favela	
Vila	Parqueda	Cidade,	no	estado	do	Rio	de	Janeiro.
LIVRO
Disponível em:	http://fortalezas.org/midias/arquivos/1713.pdf
Título:	Viagem	à	terra	do	Brasil
Autor:	Jean	de	Léry
Sinopse:	Com	esta	obra,	Jean	de	Léry	pode	ser	colocado	ao	lado	
de	José	de	Anchieta,	Hans	Staden,	Claude	d’Anbbeville	e	tantos	
outros	viajantes,	missionários	e	aventureiros	que	aqui	residiram	e	
escreveram	sobre	o	Brasil.	Trazendo	uma	contribuição	utilíssima	
aos	estudos	dos	indígenas	e	da	natureza.	
Plano de Estudo:
●	 Guerras	santas	e	a	divisão	do	mundo.
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Apresentar	um	debate	teórico	sobre	fundamentalismos	religiosos.
●	 Contextualizar	algumas	manifestações	de	fundamentalismos	religiosos.	
●	 Refletir	sobre	o	crescimento	de	fundamentalismos	religiosos	no	Brasil	contemporâneo.
48
UNIDADE III
Fundamentalismo Religioso
Professora Ma. Laís Azevedo
Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga
49UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
INTRODUÇÃO
Olá,	estudante	da	disciplina	“Fenômeno	Religioso	na	contemporaneidade	e	educa-
ção”.	Fico	muito	feliz	em	compartilhar	com	você	esse	conteúdo	que	foi	produzido	pensando	
unicamente	no	seu	processo	de	formação.	Esse	material	é	significativo	para	a	formação	
em	Ciência	das	Religiões,	pois	visa	inserir	você	no	campo	que	toca	as	discussões	teóricas	
sobre	Fundamentalismos	religiosos.
Buscaremos	apresentar	para	você	um	debate	teórico	que	forneça	lentes	teóricas	
para	a	compreensão	de	diferentes	fundamentalismos	religiosos.	Contextualizaremos	algu-
mas	manifestações	desse	fenômeno	em	diferentes	culturas	e	refletiremos	sobre	a	presença	
de	alguns	fundamentalismos	religiosos	no	Brasil	contemporâneo.	
Para	isso,	buscaremos	em	um	primeiro	momento	abordar	a	origem	sócio	histórica	
do	 termo	 fundamentalismo	 religioso.	 	 Em	 um	 segundo	momento,	 propomos	 um	 debate	
sobre	as	 transformações	históricas	do	 fenômeno,	bem	como	suas	 feições	em	diferentes	
contextos.	Por	fim,	discutiremos	um	pouco	sobre	os	delineamentos	dos	fundamentalismos	
religiosos	 no	 Brasil	 contemporâneo.	 Proponho	 que	 esse	 seja	 um	 espaço	 de	 partilha	 e	
aprendizado	sobre	esse	tema	tão	complexo,	que	demanda	reflexões	elucidativas	e	éticas.	
Esperamos	que	o	material	para	sua	apreensão	e	atuação	na	realidade	social.	
Bons estudos!
50UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
1. GUERRAS SANTAS E A DIVISÃO DO MUNDO
Nos	dias	atuais	os	debates	sobre	o	tema	da	religião	ganham	novos	contornos	e	
cenários.	Observamos	que	existe	um	 tipo	de	 reformulação	nas	 formas	de	crer	e	de	ser	
religioso,	em	que	manifesta-se	 fenômenos	distintos,	como	convivência	entre	 instituições	
religiosas,	sincretismos	praticados	por	indivíduos	e	grupos,	além	do	seu	avesso,	o	funda-
mentalismo	religioso.	
Os	 debates	 sobre	 esse	 esse	 último	 têm	 tomado	 a	 agenda	 das	 disciplinas	 de	
humanidades,	principalmente	a	partir	do	crescimento	de	polêmicas	midiáticas,	em	razão	
dos	atentados	do	dia	11	de	setembro	de	2001	às	duas	torres	do	World	Trade	Center	e	a	
decorrente	ideologia	da	segurança	interna	e	externa	dos	Estados	Unidos.
No	âmbito	acadêmico,	os	estudos	sobre	o	tema	são	realizados	por	diversos	eixos	
temáticos	que	frequentemente	dialogam	com	identidades	modernas,	pluralismo	religioso,	
direitos	das	minorias,	movimentos	reacionários	e	temáticas	da	tolerância	e	da	relativização	
cultural.
As	origens	dos	fundamentalismos	religiosos	se	dão	no	campo	religioso,	especifi-
camente	com	as	religiões	cristãs-protestantes.	Contudo,	seus	desdobramentos	em	nosso	
tempo	histórico	ultrapassam	esse	ambiente	e	ocupam	espaços	na	política,	na	economia,	e	
diversas	questões	sociais	sensíveis.	Assim,	os	fundamentalismos	religiosos	apresentam-
-nos	um	viés	fortemente	ideológico,	desde	comportamentos	fanáticos,	negação	da	ciência,	
até	mesmo	culminando	em	práticas	de	violência	física.
51UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
O	fundamentalismo	religioso	e	o	fundamentalismo	político	estão	frequente-
mente	unidos	porque,	em	última	análise,	são	a	consequência	lógica	de	uma	
mesma	ideologia	e	nós	entendemos,	aqui,	por	ideologia,	a	doutrina	que	pos-
sui	uma	resposta	para	todas	as	questões	que	são	e	serão,	eventualmente,	
postas	 no	 decorrer	 dos	 acontecimentos	 e	 das	 dificuldades	 de	 nossa	 vida	
individual	e	social	(ROCHA,	2014,	p.	764).
Desse	modo,	reforçamos	a	necessidade	de	utilizarmos	o	vocábulo	fundamentalis-
mo	no	plural,	considerando	que	existem	diferentes	 fundamentalismos.	 Isso	demonstra	a	
importância	de	estudar,	conceituar	e	contextualizar	os	fundamentalismos	religiosos	dentro	
e	fora	do	ambiente	religioso.	
Exposto	isso,	separamos	o	nosso	debate	em	três	partes:	Nesse	primeiro	momen-
to,	discutiremos	o	fundamentalismo	em	sua	origem,	no	contexto	protestante	dos	Estados	
Unidos	em	finais	do	século	XIX	e	início	do	século	XX.	Em	um	segundo	momento,	veremos	
alguns	desdobramentos	que	revelam	como	o	fenômeno	vai	se	afastando	paulatinamente	de	
suas	origens	para	se	transformar	em	expressão	de	posições	endurecidas	e	recrudescidas,	
demonstraremos,	assim,	a	fisionomia	dos	 fundamentalismos	na	contemporaneidade,	em	
diálogo	com	referenciais	teóricos	que	nos	auxiliem	nessa	compreensão.	Por	fim,	buscare-
mos	apresentar	reflexões	sobre	a	presença	desse	fenômeno	no	Brasil	contemporâneo.
52UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
1.1 - Fundamentalismo nas suas origens 
O	papel	da	 religião	na	política	norte-americana	 influenciou	o	mundo	 todo	dentro	
de	um	contexto	globalizado.	Por	isso	é	importante	que	consideremos	que	os	Estados	Uni-
dos,	para	se	viabilizarem	como	nação,	classificaram	e	combateram	 inimigos.	Não	havia	
no	processo	de	 independência	dos	Estados	Unidos	um	sentimento	de	pertencimento.	A	
identidade	nacional	foi	construída	aos	poucos,	pós	independência	e	a	guerra,	o	combate	ao	
inimigo,	foi	fundamental	para	a	construção	desse	pertencimento.	
Cabe	destacar	também	que	foi	no	contexto	protestante	dos	Estados	Unidos,	espe-
cificamente	na	Niagara	Bible	Conference,	evento	ocorrido	em	1878,	que	o	termo	“funda-
mentalismo”	foi	utilizado	pela	primeira	vez	em	referência	aos	elementos	fundamentais	da	
fé	cristã:
O	 movimento	 fundamentalista	 remonta	 à	 Conferência	 Bíblica	 de	 Niágara,	
logo	 sendo	 elaborados	 os	 “cinco	 pontos”	 considerados	 fundamentais	 (o	
nascimento	 virginal	 de	 Jesus,	 sua	 ressurreição	 corpórea,	 a	 inerrância	 das	
Escrituras,	a	teoria	substitucionária	da	expiação,	e	a	iminente	volta	de	Cristo).	
O	rótulo	“fundamentalista”	foi	cunhado	por	Curtis	Lee	Laws,	batista,	redator	
do	Watchman	Examiner,	em	1920	(REILY,	1993,	p.	305).
A	referida	conferência	pautava	questões	relacionadas	à	luta	da	teologia	protestante	
ortodoxa	para	defender	a	 infalibilidade	da	Bíblia,	diante	do	crescimento	e	da	difusão	da	
teologia	europeia,	que	dialogava	em	alguns	aspectos	com	a	ciência	moderna.	Para	esses	
grupos	religiosos	refratários	a	essas	aproximações	entre	religião	e	ciência,	os	fundamen-
talistas	eram	adversários	dos	herdeiros	do	iluminismo	que	entendiam	a	fé	somente	a	partir	
da	esfera	racional.	
Outro	aspecto	 importante	desse	processo	histórico	é	perceber	que	o	 fundamen-
talismo	foi	a	afirmação	da	tradição	ortodoxa	contra	as	narrativas	críticas	provenientes	da	
modernidade.	
[...]	na	modernidade,	o	fundamentalismo	estreito	só	podia	virar	um	fenômeno	
protestante,	porque,	para	ser	fundamentalista,	é	preciso	acreditar	que	o	fun-
damento	da	verdade	reside	na	interpretação	da	Bíblia	(ECO,	2000,	p.	15-6).	
Em	sua	origem	histórico-social,	o	vocábulo	designa	algo	positivo,	um	tipo	especí-
fico	de	religioso	que	buscava	as	origens	da	religião,	os	fundamentos,	manter	as	tradições.	
Aqueles	 que	 se	enxergavam	como	 “fiéis”	 aos	 fundamentos	de	 sua	 religiosidade,	 isto	 é,	
ortodoxo,	eram	os	fundamentalistas	no	sentido	original	do	termo	(LIMA,	2011).	
Paine	(2010)	indica	que	nesse	contexto,	a	Igreja	Católica	se	sentia	ameaçada	com	
o	avanço	do	cientificismo	e	ateísmo	surgidos	com	a	modernidade.	Sem	modificar	sua	es-
sência	religiosa	no	que	tangeao	depósito	da	fé,	a	instituição	buscou	se	atualizar		e	expandir	
53UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
no	decorrer	dos	séculos.	Foi	considerada,	por	isso,	uma	religião	não	fundamentalista	por	
outras	instituições,	como	a	Igreja	Batista.
Essa			mudança,			não			de			crença,			mas			de			perspectiva,			na		interpreta-
ção,			na			aplicação,	juntamente	com	a	avaliação	mais	positiva	do	papel	da	
filosofia	na	obra	teológica,	isentou	o	catolicismo,		grosso		modo,		da		etiqueta		
de		fundamentalista.		É,	aliás,		significativo		que		os	próprios		fundamentalistas		
protestantes,		por		vezes,	tenham		criticado		a		Igreja		Católica		por	esta	não	
ser	fundamentalista	(PAINE,	2010,	p.	12).
Durante	o		século		XX,	o	termo	fundamentalismo	foi	usado	apenas	dentro	da	co-
munidade	protestante	para	se	referir	a	determinadas		vertentes			preocupadas	com	a	inter-
pretação	literal	da	Bíblia	e	que	frequentemente,	se	relacionavam	à	atitudes	apocalípticas	
ou	milenaristas.	Por	vezes,	o		termo	“evangélico”	foi	usado	como		sinônimo,	mas	em	geral	
haviam	distinções	significativas	entre	grupos	fundamentalistas	e	grupos	evangélicos.	
Até	1950,	a	palavra		“fundamentalism”		não		integrava		o	Oxford		English		Dictio-
nary,		aparecendo	somente	na	edição	de	1989	(REILY,	1993).	Contudo,	essa	inclusão,	não	
correspondia	aos	acontecimentos	relacionados	ao	protestantismo	ou	outras	denominações	
cristãs,	mas	sim		a	outra	grande	religião	abraâmica:	o	Islã.	
O	contexto	da	década	de	1970	foi	marcado	por	diversos	acontecimentos	que	cha-
maram	a	atenção	para	os	fundamentalismos	religiosos.	Em	1977,	1978,	1979	ocorreram	
mudanças	consideráveis	no	judaísmo,	no	cristianismo	e	no	islamismo.	
●	 No	caso	judeu,	em	1977,	os	sionistas	chegaram	ao	poder	político	e	proclamaram	
um	retorno	ao	pacto:	Israel	é	o	povo	escolhido	de	Deus,	ênfase	religiosa	contra	
o	trabalhismo	e	o	humanismo	secular	(VASCONCELLOS,	2008,	p.	93).	
●	 Em	1978,	no	catolicismo	romano,	foi	eleito	papa	o	cardeal	polonês	Karol	Wojtyla	
(João	Paulo	II),	cujo	longo	pontificado	abriu	espaço	para	os	diferentes	integris-
mos	 católicos:	 retorno	 a	 conceitos	 e	 práticas	 anteriores	 ao	 concílio	Vaticano	
II,	contra	o	racionalismo,	comunismo	e	religiões	não	católicas.	Houve	ainda	o	
caso	do	cristianismo	protestante	dos	anos	70,	que	resgatou	nos	EUA	e	poste-
riormente	na	América	Latina	elementos	morais	e	religiosos	contra	 toda	forma	
de	racionalismo,	possibilidade	de	socialismo	e	outras	religiões,	abrindo	espaço	
para	as	grandes	igrejas	de	caráter	avivalista	e	para	os	pregadores	eletrônicos	e	
seus	impérios	de	comunicação	(VASCONCELLOS,	2008,	p.	93).
●	 No	 islamismo,	 em	 1979,	 a	 rebelião	 religiosa	 liderada	 pelo	 aiatolá	 Khomeini	
derrubou	o	regime	político	laico	e	o	governo	do	xá	Reza	Pahlevi	para	estabe-
lecer	um	regime	teocrático	e	totalitário.	Dada	a	reconhecida	origem	protestante	
54UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
do	 termo	 fundamentalismo	e	 da	 prática	 fundamentalista,	 por	 que	os	 radicais	
islâmicos,	por	exemplo,	são	hoje	chamados	de	 fundamentalistas,	se	não	são	
cristãos	e	nem	estão	preocupados	em	defender	as	doutrinas	fundamentais	do	
cristianismo,	ao	contrário?	A	resposta	vem	da	história:	“A	confusão	terminoló-
gica	veio	à	tona	quando	o	aiatolá	Khomeini	derrubou	o	xá.	Foi	em	1979”.	Em	
nome	de	Alá	e	Maomé,	a	rebelião	religiosa	derrubou	o	regime	político	laico	e	
seu	governo	e	estabeleceu	um	regime	teocrático	e	 totalitário.	No	Irã,	país	da	
revolução	religiosa,	e	depois	em	outros	países	 islâmicos,	os	 textos	do	Corão	
passaram	a	ser	 interpretados	e	utilizados	para	 legitimar	o	uso	e	o	abuso	da	
força	 pelos	 governantes	 contra	 opositores,	 fossem	eles	 países,	 governos	 ou	
pessoas	(VASCONCELLOS,	2008,	p.	93).
Tais	 desdobramentos	 nos	 revelam	 como	 o	 fenômeno	 vai	 se	 afastando	 paulati-
namente	de	suas	origens	para	se	transformar	em	expressão	de	posições	endurecidas	e	
recrudescidas,	seja	no	campo	 religioso,	social,	político,	econômico	ou	na	articulação	de	
dois	ou	mais	desses	campos.	
1.2 Fundamentalismos religiosos: suas fisionomias hoje
Josep	Ramoneda	(2000)	postula	que	o	ocidente	esforçou-se	para	criar	a	noção	de	
um	inimigo	que	deveria	ser	combatido.	Esse	medo	tornaria	os	seus	cidadãos	mais	depen-
dentes	e	coniventes	com	o	governo.	Quando	o	inimigo	é	o	Outro,	o	perigo	pode	ser	real	ou	
induzido,	não	importa.	Ter	medo	de	um	outro,	exterior,	possibilita	a	união	de	uma	nação	e	
elenca	a	importância	de	um	governo	forte.	Desse	modo,	a	exigência	de	cidadania	torna-se	
mais	abrandada	com	os	que	governam,	que	são	também	os	que	hipoteticamente	protegem	
a	sociedade	desse	espectro	de	perigo.
O	 fundametalismo	 islâmico	 foi	eleito	em	um	um	determinado	momento	para	ser	
esse	 inimigo	que	o	ocidente	precisava	alimentar,	 em	busca	de	 coesão	política.	Os	pre-
núncios	não	se	mostravam	susbstanciais	e	sistematizados	o	bastante,	para	que	a	opinião	
pública	 comprasse	por	muito	 tempo	essa	 ideia	que	que	o	 islamismo	 representava	esse	
novo	inimigo.	Assim,	a	figura	desse	inimigo	foi	significada	de	modo	genérico,	pela	barbárie.	
Ou	seja,	aquele	que	rejeita	o	modelo	democrático	liberal,		que	não	se	adapta	ao	modelo	
hegemônico	fica	definitivamente	fora	da	realidade	político-social	(RAMONEDA,	2000).	
Como	 o	 bárbaro	 não	 é	 uma	 alternativa	 e	 sim	 um	 atraso,	 restam	 apenas	
duas	possibilidades:	ou	sua	paulatina	adaptação	ou	sua	definitiva	exclusão.	
Todavia,	a	coesão	social	pelo	medo	se	mantém	porque	é	necessário	defen-
der-se	da	especial	maldade	dos	bárbaros:	daí	a	necessária	(quase	sempre	
fundamentada)	satanização	daquele	ao	qual	se	atribui	a	condição	de	bárbaro	
(RAMONEDA,	2000,	p.	22-23).
55UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
Essa	ideia	se	fundamenta	com	o	atentado	às	torres	gêmeas	em	11	de	setembro	de	
2001.	Depois	do	ocorrido,	o	islamismo	foi	identificado	com	a	barbárie,	e	como	consequência	
tivemos	a	demonização	desse	universo	religioso	e	essa	imagem	negativa	universalmente	
aceita.	“Fundamentalismo	religioso,	atraso,	alteridade	e	exterioridade	cristalizaram	a	nova	
figura	da	barbárie	e,	com	ela,	o	cimento	social	e	político	trazido	pelo	medo”	(CHAUÍ,	2006,	
p.	125).
Chauí	(2006)	chama	atenção	para	outro	elemento	importante	que	permeia	o	fenô-
meno,	o	fato	de	que	as	grandes	religiões	monoteístas,	tais	como	o	judaísmo,	cristianismo	
e	 islamismo,	 não	 enfrentam	 somente	 o	 desafio	 de	 explicar	 a	 realidade	 oferecida	 pelas	
ciências,	mas	 também	enfrentam	a	pluralidade	de	perspectivas	 religiosas	competidoras,	
além	da	própria	moral	estabelecida	por	um	Estado	secular	ou	profano.	
[...]	cada	uma	dessas	religiões	só	pode	ver	a	ciência	e	as	outras	religiões	pelo	
prisma	da	rivalidade	e	da	exclusão	recíproca,	uma	oposição	não	tem	como	
exprimir-se	num	espaço	público	democrático	porque	não	pode	haver	debate,	
confronto	 e	 transformação	 recíproca	em	 religiões	 cuja	 verdade	é	 revelada	
pela	divindade	e	cujos	preceitos,	tidos	por	divinos,	são	dogmas.	Porque	se	
imaginam	em	relação	imediata	com	o	absoluto,	porque	se	imaginam	porta-
doras	da	verdade	eterna	e	universal,	essas	religiões	excluem	o	trabalho	do	
conflito	e	da	diferença	e	produzem	a	figura	do	Outro	como	demônio	e	herege,	
isto	é,	como	o	Falso	e	o	Mal	(CHAUÍ,	2006,	p.132).
	A	autora	argumenta	que	nos	dias	atuais,	via	de	regra,	a	política	é	entendida	como	
guerra	de	amigos	contra	os	inimigos.	A	decisão	do	soberano	é	incontestável,	exatamente	
como	 acontece	 nas	 manifestações	 de	 fundamentalismos	 religiosos.	 Estes	 concebem	 a	
política	como	batalha	entre	o	bem	e	o	mal	e	a	atividade	soberana	como	missão	sagrada	por	
ser	comandada	por	Deus.	
Chauí	 (2006)	 compreende	 que	 se	 as	 religiões	 fundamentalistas	 defendem	 que	
estão	em	relação	direta	com	a	vontade	de	Deus	e	se	colocam	como	as	únicas	portadoras	
da	verdade	eterna	e	universal,	nelas	não	restam	lugares	para	as	diferenças.	Por	 isso,	a	
figura	do	outro	é	olhada	como	se	fosse	a	do	demônio.	As	disputas	políticas	transformam-seem	batalhas	entre	o	bem	e	o	mal	e	a	autoridade	política	é	concebida	como	uma	missão	
sagrada	orientada	pelo	próprio	Deus.	A	política	cede	lugar	à	violência	como	purificação	do	
mal	e	os	políticos	passam	a	assumir	o	papel	de	profetas,	chefes	infalíveis,	intérpretes	da	
vontade	divina.
Os	discursos	de	Sharon,	Bin	Laden	e	Bush	são	as	expressões	mais	perfeitas	
e	mais	acabadas	da	impossibilidade	da	política	sob	o	fundamentalismo	das	
religiões	monoteístas	reveladas.	Com	elas,	a	política	cede	lugar	à	violência	
como	purificação	contra	o	Mal,	e	os	políticos	cedem	lugar	aos	profetas,	isto	
é,	aos	intérpretes	da	vontade	divina,	chefes	infalíveis	(CHAUÍ,	2006,	p.	132).	
56UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
Outra	questão	 relevante	 trazida	por	Cláudio	de	Oliveira	Ribeiro	 (2013)	é	que	os	
ideais	fundamentalistas	apresentam	uma	tendência	em	corroborar	formas	dualistas	e	ma-
niqueístas	de	ver	o	mundo.	Criam	separações	fáceis	e	artificiais	entre	sagrado	e	profano,	
não	aprofundam	as	explicações	sobre	os	dilemas	e	mistérios	da	vida,	atribuem,	por	vezes,	
explicações	religiosas	retirando-as	de	seus	contexto	e	valores	fundantes.	Hoje,	dentro	dos	
fundamentalismos	religiosos,	podemos	identificar	expressões	religiosas	judaicas,	islâmicas,	
cristãs,	(tanto	evangélicas	como	católicas),	entre	outras.
Pedro	Lima	Vasconcellos	(2008)	relaciona	os	fundamentalismos	à	defesa	da	ver-
dade	religiosa	contra	o	que	é	percebido	como	perigos	resultantes	da	Modernidade,	como	
o	caráter	histórico	e	subjetivo	da	fé,	assim	como	pela	aversão	ao	socialismo	e	a	busca	da	
recuperação	da	base	religiosa	da	sociedade.	Para	o	autor,	os	fundamentalismos	reagem	
à	incapacidade	demonstrada	pela	modernidade	de	cumprir	as	promessas	de	desenvolvi-
mento,	paz,	liberdade,	progresso	e	autonomia.	Ou	seja,	se	os	avanços	da	modernidade	se	
mostram	insuficientes,	surge	um	fenômeno	em	que	é	demonstrado	os	descontentamento	
com	esses	 ideais	que,	na	visão	dos	 fundamentalistas,	parecem	trazer	somente	guerras,	
fome,	devastação	ecológica,	e	individualismo.	
Zeferino	Rocha	(2014)	em	“A	perversão	dos	ideais	no	fundamentalismo	religioso”	
adota	perspectiva	parecida	com	a	de	Vasconcellos	(2008)	indicando	a	crise	da	modernidade	
e	seu	projeto	cultural	como	as	principais	raízes	dos	fundamentalismos.	Rocha	(2014)	argu-
menta	que	o	contexto	em	que	os	fundamentalismos	religiosos	se	intensificam	é	marcado	
pela	contingência	e	pela	efemeridade.	Esses	fatores	seriam	favoráveis	para	o	retorno	do	
fundamentalismo	religioso,	pois:
apesar	de	ter	renunciado	às	noções	de	eternidade	e	de	necessidade,	a	visão	
de	mundo	do	homem	contemporâneo	não	deixou	de	procurar	substitutos	para	
essas	noções.	E	elas	 reapareceram	no	 fundamentalismo	 religioso,	 tanto	na	
sua	 face	religiosa	quanto	política,	pois	ele	se	engajou	na	construção	de	um	
imaginário,	 no	 qual	 as	 noções	 substitutas	 de	 necessidade	 e	 de	 eternidade	
foram	fundamentadas	em	duas	formas	interligadas	de	transcendência:	a	trans-
cendência	divina	da	Palavra	de	Deus	e	a	transcendência	do	poder	político	dos	
governos	autoritários,	como	uma	manifestação,	no	tempo,	da	vontade	de	Deus.	
Compreende-se,	assim,	que	a	crise	contemporânea	provocada	pelo	fracasso	
do	Projeto	Cultural	de	Modernidade	tenha	favorecido	o	retorno	da	religião	sob	
a	 forma	do	 fundamentalismo	 religioso,	 não	 somente	 como	uma	experiência	
individual,	mas	 também	como	uma	 interpretação	da	vida	e	da	ação	política.	
Por	esta	razão,	igualmente,	o	fundamentalismo	religioso	desdobra-se,	quase	
sempre,	em	um	fundamentalismo	político	(ROCHA,	2014,	p.	763).
Os	 fundamentalismos	 religiosos	 são	 compreendidos	 pelo	 autor	 como	modos	 de	
ser,	de	pensar	e	de	agir.	Seriam	eles	frutos	de	uma	crença	e	aceitação	incondicional	à	um	
princípio	religioso,	sejam	ele	judaico,	cristão	ou	islâmico.	A	questão	é	que	nesse	modo	de	
pensar	e	agir,	os	seus	 fundamentos	 religiosos	orientadores	de	mundo	seriam	os	únicos	
57UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
bons	e	verdadeiros.	Sendo	radicais	e	irredutíveis	em	seus	posicionamentos,	os	fundamen-
talistas	religiosos	consideram	todas	as	outras	forças	(instituições,	indivíduos,	etc)	que	não	
comunguem	com	suas	crenças	e	ideais,	verdadeiros	inimigos	(ROCHA,	2014).	
Temos,	 portanto,	 algumas	 elaborações	 conceituais	 que	 nos	 demonstram	 como	
tipicamente	se	constitui	esse	fenômeno.	Vasconcellos	(2008,	p.	137)	também	nos	auxilia	
do	ponto	de	vista	didático,	ao	apontar	seis	pontos	comuns	aos	fundamentalismos:
1.	 Rejeição	 da	 hermenêutica	 (interpretação),	 pois	 o	 texto	 sagrado	 deveria	 ser	
considerado	objetivo	e	não	histórico.	
2.	 Negação	do	relativismo.
3.	 Negação	do	pluralismo.	
4.	 Rejeição	das	teorias	evolucionistas	de	matriz	darwinista.
5.	 Postura	escatológica,	à	espera	do	próximo	fim	do	mundo.	
6.	 O	pragmatismo	leva	os	movimentos	fundamentalistas	a	utilizarem	a	Modernida-
de	para	combatê-la,	como	no	caso	dos	meios	de	comunicação.
Vasconcellos	(2008),	postula	que	os	fundamentalismos	mostram-se	como	sintomas	
de	males	do	individualismo	excludente.	O	autor	demonstra	preocupação	com	a	questão	e	
indica	que	a	busca	por	seguranças	exclusivas	e	excludentes	por	parte	de	uma	parcela	da	
sociedade	impossibilita	o	diálogo,	o	respeito	à	alteridade	e	a	convivência	pacífica.	
Segundo	o	autor,	é	preciso	compreender	as	contradições	da	Modernidade,	 com	
ênfase	 no	 individualismo,	 para	 compreender	 as	 raízes	 dos	 fundamentalismos.	Ao	 fazer	
uma	balanço	sobre	o	 tema,	o	autor	postula	que	os	 fundamentalismos	 relacionam-se	às	
limitações	do	individualismo	burguês,	filho	do	Iluminismo	do	século	XVIII.		
Os	 movimentos	 elitistas	 ocidentais	 defendem	 uma	 interpretação	 literal	
da	Bíblia,	 tendo	em	vista	a	defesa	explícita	do	status	quo	e	da	exploração	
de	 pobres	 e	 daqueles	 definidos	 como	 outros:	 os	 pecadores.	 Já	 os	 funda-
mentalismos	de	massas	empobrecidas	exercem	um	papel	 de	 socialização	
excludente,	na	medida	em	que	procuram	criar	uma	comunidade	homogênea	
e	coesa,	oposta	àquela	dos	ímpios.	Dentro	de	cada	uma	delas,	há	de	comum	
o	autoritarismo	e	a	submissão,	mesmo	no	interior	do	grupo	fundamentalista	
(VASCONCELLOS,	2008,	p.	138).		
Para	Paine	(2010,	p.	14),	os	fundamentalismos	que	presenciamos	hoje	evidenciam,	
em	 alguma	medida,	 uma	 anatomia	 com	 quatro	 características	 típicas:	 uma	 psicológica,	
uma	epistemológica,	uma	hermenêutica		e	uma	pragmática.	
Psicologicamente,	quanto	à	atitude	básica	da	mente:	Subjetivismo fechado:	re-
sistente	à	correção,	não	inclinado	ao	diálogo,	à	simpatia	e	até	à	empatia	com	pessoas	de	
posições	contrárias	ou	alheias.
Epistemologicamente,	quanto	às	fontes	de	conhecimento:	Fideísmo radical,		fé		
ou	 	 submissão	 	a	 	uma	 	autoridade	 religiosa	 	 como	 	 fonte	 	exclusiva	 	ou	predominante	
58UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
de	certeza	epistemológica:	oposição	ao	enriquecimento	pela	filosofia	e	pelas	ciências,		à		
racionalidade,		ao		desenvolvimento		crítico,		e		à		possibilidade		de		uma		dialética	entre	fé	
e	razão.
Hermeneuticamente,	quanto	à	interpretação	de	seus	dados	fundamentais:	Litera-
lismo na interpretação de escrituras:			contra			exegese			mais			discernimento,	in-
terpretação,	diferenciação	de	sentidos,	complementação	de	perspectivas,	reconhecimento	
do	tamanho	do	ainda	desconhecido.
Pragmaticamente		(ou		até		politicamente),		quanto		às		consequências		das		con-
vicções		na		vida	prática:		Tendência a medidas radicais,	à	militância	e	até	ao	terrorismo	
na	 busca	 efetiva	 dos	 seus	 fins:	 contra	 compromisso,	 suspensão	 de	 juízo,	 negociação,	
acomodação	etc.
1.3 Fundamentalismos religiosos no Brasil contemporâneo
No	Brasil,	os	fundamentalismos	cristãos	têm	por	alvo	as	expressões	religiosas	afro-
-brasileiras,	assim	como	a	outras	formas	de	manifestação	que	são	associadas	ao	demônio,	
como	o	culto	aos	santos	católicos,	por	parte	de	pregadores	evangélicos	fundamentalistas.	
Grupos	humanos	também	têm	sido	vítimas	desses	fundamentalismos,	como	os	homosse-
xuais.	
Diversosautores	têm	analisado	discursos	fundamentalistas	contemporâneos	com	
enfoque	no	caráter	antidemocrático	da	 incidência	das	narrativas	 religiosas	na	política,	e	
mais	especificamente	no	que	se	relaciona	aos	retrocessos	na	agenda	de	direitos	humanos.
Figura	1:	Tirinha	de	Carlos	Latuff	critica	fundamentalistas	homofóbicos.	Entre	ou-
tras	coisas,	fundamentalistas	têm	defendido	amplamente	a	cura	gay	e	a	demonização	de	
sexualidades	não	normativas
Fonte:	https://www.geledes.org.br/conselho-de-psicologia-critica-discussao-de-cura-gay/	
59UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
No	Brasil,	 ideias	 refratárias	ao	pensamento	crítico	e	demais	pilares	da	moderni-
dade	foram	difundidas	com	os	trabalhos	de	grupos	missionários	norte-americanos.	Muitas	
denominações	evangélicas	se	posicionaram	firmemente	contra	à	teologia	liberal,	ao	ecu-
menismo,	à	aplicação	das	ciências	na	interpretação	bíblica,	e	se	tornaram	críticas	da	Igreja	
Católica.
Embora	militante,	não	se	trata	de	um	movimento	unificado	e	acaba	denomi-
nando	diferentes	 tendências	protestantes	do	século	XX.	Todavia,	podemos	
classificar	como	fundamentalismo	qualquer	corrente,	movimento,	ou	atitude,	
de	cunho	conservador	e	integrista,	que	enfatiza	a	obediência	rigorosa	e	literal	
a	um	conjunto	de	princípios	básicos,	desprovidos	de	visão	dialógica	(RIBEI-
RO,	2013,	p.	66).	
Tipicamente,	os	fundamentalistas	brasileiros	se	caracterizam:
1.	 pela	(a)	inerrância	da	Bíblia,	popularizada	na	expressão	“ler	a	Bíblia	ao	pé	da	
letra”,	que	não	favorece	uma	leitura	bíblica	articulada	com	o	contexto	do	texto	e	
o	contexto	da	vida.
2.	 por	uma	escatologia	milenarista	que,	em	certo	sentido,	nega	o	sentido	salvífico	
descoberto	e	vivido	na	dinamicidade	da	história,	e	o	dispensacionalismo,	que	
prevê	a	história	em	etapas	fixas	e	distintas	e	pré-determinadas.
3.	 por	uma	concepção	unilateral	e	absoluta	da	verdade	que	tende	ao	dogmatismo,	
o	que	inibe,	entre	outras	coisas,	o	diálogo	entre	a	fé	e	as	ciências.	
Nas	religiões	cristãs,	tanto	católico-romano	como	evangélicas,	é	visível	as	posturas	
contrárias	ao	diálogo	no	campo	da	sexualidade,	por	exemplo.	Questões	como	o	direito	das	
mulheres	ao	próprio	corpo,	debates	sobre	os	direitos	dos	homossexuais,	lésbicas	e	trans-
gênero	despertam	revolta	nos	fundamentalistas	e	demonstram	as	dificuldades	no	campo	
das	relações	humanas	e	institucionais	em	conviver	com	formas	distintas	de	pensar	e	ser.	
Andréa	Silveira	de	Souza	(2019)	utiliza	o	conceito	 “guerra	de	cultura”	de	Hunter	
(1991)	para	pensar	fundamentalismos	no	Brasil	contemporâneo.	Para	ela,	esse	conceito	
operado	para	analisar	o	contexto	norte	americano,	também	contribui	na	reflexão	sobre	o	
modo	como	esse	movimento	vem	se	delineando	no	Brasil,	posto	que	oferece	pontos	de	
análise	para	a	compreensão	da	forma	como	a	religião	se	manifesta,	no	caso,	como	ela	se	
manifesta	na	forma	de	fundamentalismo	religioso.	O	conceito	aponta	para	a	hostilidade	po-
lítica	e	social	pautada	em	sistemas	de	entendimento	moral	distintos.	Os	fundamentalismos	
seriam,	portanto,	 pautados	em	crenças	básicas	que	 fornecem	uma	 fonte	de	 identidade,	
propósito	e	união	para	as	pessoas	que	vivem	de	acordo	com	eles.	
Esse	cenário	de	conflito	cultural	é	a	expressão	da	clivagem	entre	sistemas	
morais	diferentes	e	tidos	como	inconciliáveis	por	seus	adeptos.	Constitui	uma	
luta,	uma	verdadeira	“guerra	de	trincheiras”	entre	sistemas	de	entendimento	
moral	antagônicos,	que	disputam	no	espaço	público	a	hegemonia	de	valores	
60UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
morais	e	de	suas	emulações	políticas,	cujos	adeptos	consideram	verdadeiras	
e	legítimas	para	toda	a	sociedade.	A	guerra	cultural	dá-se	em	um	novo	con-
texto,	no	qual	o	eixo	das	disputas	deixa	de	ser	prioritariamente	teológico	e	
eclesiástico	e	torna-se	ideológico	e	político	(SOUZA,	2019,	p.	19).	
No	 Brasil	 contemporâneo,	 a	 guerra	 cultural	 acontece	 em	 um	 contexto	marcado	
pelas	disputas	que	deixam	de	ser	fundamentalmente	teológicas	e	eclesiásticas	e	tornam-se	
ideológicas	e	políticas.	Conforme	Souza	(2019),	as	polarizações	e	consequentes	embates	
políticos	surgem	por	conta	das	diferentes	visões	de	mundo	que	não	pautam	somente	ques-
tões	doutrinárias	particulares,	mas	também	o	modo	de	organizar	nossas	próprias	vidas	e	
nossas	vidas	juntos	nesta	sociedade.	
Dentro	desta	perspectiva,	 podemos	 ver	 o	 fundamentalismo	 religioso	 como	
um	conflito	atualmente	constituído	por	uma	disputa	de	caráter	ético-político	
e	 moral-intelectual	 para	 se	 estabelecer	 os	 princípios	 últimos	 daquele	 que	
deveria	ser	o	verdadeiro	estar-junto	coletivo	[...]	Estes	impulsos	polarizados	
são,	por	sua	vez,	 institucionalizados	e	fazem	parte	de	uma	retórica	pública	
que	pretende	ordenar	a	esfera	pública	e	política.	É	no	âmbito	dessa	retórica	
pública	e	 institucionalizada	que	 cada	uma	dessas	polaridades	 leva	para	o	
espaço	 público	 discursos	 relacionados	 a	 sistemas	 de	 entendimento	moral	
tidos	por	seus	aguerridos	defensores	como	inegociáveis	(SOUZA,	2019,	p.	
20).	
As	autoridades	morais	estabelecidas	dentro	de	lógicas	fundamentalistas	se	unem	
umas	 às	 outras	 e	montam	 suas	 trincheiras	 defendendo,	 assim,	 suas	 próprias	 agendas.	
Entre	 elas,	 está	 a	 educação,	 e	 projetos	moralizadores	 como	o	 “Escola	 sem	Partido”.	 É	
muito	importante	que	a	gente	se	atente	para	o	modo	como	alguns	setores	da	sociedade	
estão	buscando	associar	o	pensamento	crítico	à	disputas	partidárias.	De	fato,	as	escolas	
públicas	têm	uma	grande	relevância	nessa	guerra	de	cultura.	
Conforme	Souza	 (2019),	 o	 “Escola	 sem	partido”	 objetiva	 inibir	 um	ensino	 plural	
que	busque	abarcar	a	diversidade,	defendendo	a	difusão	de	uma	única	visão	de	mundo,	
proveniente	de	um	único	sistema	de	vida	e	entendimento	moral	em	detrimento	de	outros.	
[...]	a	adesão	de	grupos	religiosos	a	discursos	políticos	com	características	
moralizantes	e	excludentes	não	é	óbvia,	e	é	 também	em	razão	dessa	não	
obviedade	 que	 discursos	 como	 o	 do	 programa	 ESP,	 que	 se	 declara	 um	
programa	não	religioso,	acaba	por	revelar	paradoxalmente	tendências	funda-
mentalistas	religiosas	(SOUZA,	2019,	p.	28).	
Os	 fundamentalismos	 podem	 se	 tornar	 fenômenos	 e	 expressões	 religiosas	 do	
passado	se	houver	diálogo,	alteridade,	intercâmbio	cognitivo	e	abertura	para	rever	e	rea-
tualizar	conceitos.	A	escola	pode	ter	um	papel	muito	importante	na	transformação	social	e	
no	combate	aos	fundamentalismos,	desde	que	haja	comunicação	dialógica,	pensamento	
crítico	 e	 alargamento	 das	 fronteiras.	O	ensino	 deve	 ser	 uma	prática	 de	 transmissão	de	
valores	democráticos,	que	admita	o	pluralismo	religioso	e	incentive	à	aceitação	do	outro.	
61UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
SAIBA MAIS
Ainda	repercute	o	massacre	que,	na	madrugada	do	dia	12	de	Junho	de	2016	vitimou	
cerca	de	50	pessoas	no	interior	da	boate	Pulse,	em	Orlando	(EUA),	frequentada	princi-
palmente	pelo	público	LGBT.	Considerado	o	maior	ataque	a	tiros	do	país	e	o	pior	desde	
o	11	de	setembro,	o	que	parte	da	imprensa	eufemisticamente	chamou	de	“tiroteio”	dei-
xou	ainda	53	feridos.	Nas	narrativas	midiáticas,	sobressai	entre	outras	coisas	a	urgên-
cia	em	fixar	a	identidade	do	assassino,	Omar	Mateen,	e	suas	estreitas	relações	com	o	
terrorismo	islâmico	como	o	principal	motivador	para	o	crime.
E	isso	apesar	de	sua	nacionalidade	americana,	que	lhe	garantiu	o	direito	de	comprar,	
legalmente,	as	duas	armas	–	um	rifle	AR	calibre	223	e	uma	pistola	9mm	semiautomática	
–	com	que	perpetrou	o	massacre.	A	estratégia	é	conhecida:	atribuir	o	gesto	extremo,	a	
extrema	violência,	ao	estrangeiro	ou	ao	monstruoso,	é	uma	forma	de	nos	desresponsa-
bilizarmos	acusando	a	excepcionalidade	do	gesto	e	o	caráter	estranho	de	seu	causador.	
Ao	confundir	a	face	do	perpetrador	com	a	do	bárbaro,	nós,	os	civilizados,	ficamos	em	
paz	com	nossa	boa	consciência.
Se	na	atualidade	os	principais	redutos	de	legislações	com	caráter	abertamente	discrimi-
natório	são	os	países	asiáticos	e	africanos	–	78	países	ainda	contamcom	leis	que	crimi-
nalizam	práticas	homossexuais,	alguns	com	a	pena	de	morte	–,	nem	por	isso	o	Ocidente	
tem	razões	para	se	orgulhar.	Em	países	de	tradição	democrática	e	liberal	como	a	Ingla-
terra,	por	exemplo,	a	homossexualidade	só	deixou	de	ser	crime	em	1967.	Em	outros,	
como	a	Alemanha,	passou-se	de	uma	sociedade	 tolerante	no	começo	do	século	XX,	
para	a	perseguição	nazista,	amparada	no	parágrafo	171	do	Código	Penal,	que	criminali-
zava	as	práticas	sexuais	entre	pessoas	do	mesmo	sexo,	e	que	só	foi	revogado	em	1969.	
Nos	Estados	Unidos,	mesmo	depois	do	levante	de	Stonewall	em	1969	e	de	um	crescen-
te	movimento	de	direitos	civis	que	incluía	parcialmente	as	reivindicações	da	comunidade	
gay,	a	ilegalidade	só	foi	banida	definitivamente	em	2003	e	o	casamento,	legalizado	no	
ano	passado,	não	sem	uma	aguerrida	resistência	conservadora.	Em	outro	espectro	nor-
mativo,	as	legislações	sobre	saúde,	foi	preciso	o	século	XXI	bater	à	porta	para	a	OMS	
retirar	a	homossexualidade	da	sua	lista	de	doenças	mentais,	em	1990.	No	ano	seguinte,	
a	Anistia	 Internacional	passa	a	considerar	a	discriminação	contra	homossexuais	uma	
violação	aos	direitos	humanos,	uma	medida	cujos	resultados	práticos,	como	sabemos,	
são	no	mínimo	relativos.
A	discriminação	contra	a	comunidade	LGBT,	portanto,	não	se	limita	aos	países	e	socie-
62UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
dades	orientais	nem,	tampouco,	tem	matriz	exclusivamente	religiosa.	Antes	pelo	contrá-
rio,	estamos	a	falar	de	práticas	que	reverberam	ao	longo	da	história,	inclusive	nos	limites	
do	que	se	convencionou	chamar	“civilização	Ocidental”,	e	mesmo	depois	de	consolida-
das	as	democracias	liberais,	a	laicidade	do	Estado	e	a	cultura	urbana	e	moderna.	Saber	
disso	é	importante	para	não	tomarmos	como	exceção	o	que,	quase	sempre,	é	parte	da	
nossa	normalidade	cotidiana.
Não	se	trata	de	negar	o	papel	que	o	fundamentalismo	religioso	desempenha	na	disse-
minação	da	homofobia.	Mas	também	nesse	caso,	estamos	a	lidar	com	pelo	menos	três	
apenas	supostas	exceções.	A	primeira,	 ao	atribuir	 apenas	ao	 Islã	uma	característica	
que	não	lhe	é	exclusiva:	apesar	de	muitas	lideranças	religiosas	pregarem	a	tolerância	
e	até	mesmo	o	respeito	pela	diversidade,	a	recusa	e	o	ódio	para	com	os	diferentes	e	a	
diferença	estão	no	cerne	das	três	grandes	religiões	monoteístas,	a	justificar	as	muitas	
apropriações	fundamentalistas	que,	em	nome	da	palavra	sagrada,	pregam	as	guerras	
santas	contra	seus	inimigos.
Sob	esse	ponto	de	vista,	o	fundamentalismo	religioso	pode	tanto	ajudar	a	entender	o	
ataque	na	boate	Pulse,	perpetrado	por	um	muçulmano	fundamentalista,	como	as	dé-
cadas	 de	 assassinato	 de	 negros	 promovidas	 pelos	membros	 da	Klu	Klux	Klan	 ou	 o	
massacre,	em	junho	de	2015,	de	nove	crianças	negras	em	uma	igreja	de	Charleston,	
na	Carolina	do	Sul,	por	Dylann	Roof,	um	fundamentalista	cristão.	O	problema	é	que	a	
explicação	religiosa	não	é	suficiente,	porque	nem	toda	leitura	fundamentalista	de	textos	
canônicos	do	passado	é,	necessariamente,	religiosa.
É	o	caso	da	segunda	emenda	à	Constituição	americana,	a	que	afirma	o	“direito	do	povo	
de	conservar	e	construir	Armas”,	necessário	para	a	“segurança	de	um	Estado	livre”,	e	
que	está	na	origem	da	facilidade	com	que	tantos	assassinos	adquirem	justamente	as	
armas	 com	 que	 executarão	 vítimas	 desarmadas,	 como	 os	 frequentadores	 da	 Pulse.	
Quando	aprovada,	em	1791,	ela	tinha	a	intenção	clara	de	garantir	ao	povo	de	uma	na-
ção	recém	proclamada,	com	instituições	ainda	frágeis	e	prestes	a	enfrentar	uma	guerra	
para	consolidar	sua	independência,	o	direito	de	empunhar	armas	para	garantir	sua	au-
tonomia.
Hoje,	para	além	dos	interesses	da	indústria	armamentista,	uma	das	mais	poderosas	do	
mundo,	nada	 justifica	a	defesa	 intransigente	que	muitos	fazem	do	direito	ao	porte	de	
armas,	e	não	apenas	nos	Estados	Unidos.
Nesse	caso	em	especial,	a	 leitura	 fundamentalista	do	passado	tem	servido	de	esteio	
para	justificar	um	indisfarçável	apego	à	violência	e	a	uma	de	suas	faces	mais	visíveis,	a	
63UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
exibição	narcísica	dos	comportamentos	e	condutas	heteronormativas.	Ameaçados	em	
seus	muitos	e	históricos	privilégios	e	em	sua	hegemonia,	resta	aos	defensores	da	“nor-
malidade”	mobilizarem	principalmente	o	ressentimento,	o	medo	e	o	ódio	como	seus	prin-
cipais	afetos.	É	essa	sensibilidade	embrutecida	que	está	na	origem	das	muitas	investi-
das	contra	os	poucos	direitos	que	a	comunidade	LGBT	vem	conquistando	a	duríssimas	
penas.	E	se	em	uma	sociedade	como	a	americana	onde,	em	tese,	a	igualdade	formal	e	
pública	é	uma	conquista	já	relativamente	consolidada,	persistem	ainda	desigualdades	
concretas;	a	situação	é	ainda	mais	grave	no	Brasil.
Em	1987,	o	irmão	de	José	Celso	Martinez	Corrêa,	o	também	diretor	teatral	Luís	Martinez	
Corrêa,	foi	brutalmente	assassinado,	seu	corpo	amarrado,	estrangulado	e	mutilado	com	
107	facadas.	Para	Zé	Celso,	a	intenção	do	assassino	era	“matar	algo	que	estava	dentro	
dele	mesmo	e	[ele]	não	conseguia”.	Zé	Celso	se	referia	ao	ódio,	que	está	na	origem	das	
práticas	e	discursos	que	justificam	a	perseguição,	o	preconceito,	a	desqualificação	e	a	
violência,	física	e	simbólica	contra	LGBTs.	Independente	da	forma	que	esse	sentimento	
toma	–	seja	religiosa	ou	parlamentar	–,	ou	onde	ele	se	manifesta	–	em	uma	boate	ou	nas	
redes	sociais	–,	estamos	a	falar	de	algo	que	se	imiscuiu	no	cotidiano.	A	suposta	excep-
cionalidade	da	tragédia	da	Pulse	disfarça	sua	insuportável	normalidade.
Fonte:	https://revistaforum.com.br/noticias/o-excepcional-normal/	
 
REFLITA 
Aqui	nossa	esfera	pública	é	atravessada	pela	vontade	religiosa	e	privada:	nas	escolas,	
estamos	proibidos	de	discutir	gênero;	psicologias	cristãs	defendem	a	 “cura	gay”;	e	o	
Estado	ameaça	com	um	Estatuto	que	não	reconhece	como	família	outra	que	não	a	for-
mada	pela	união	entre	um	homem	e	uma	mulher.
Fonte:	https://revistaforum.com.br/noticias/o-excepcional-normal/
64UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a)	estudante,	chegamos	ao	fim	desse	debate	bastante	complexo	e	 intenso	
sobre	 fundamentalismos	 religiosos.	No	corpo	deste	 texto	buscamos	apresentar	diversos	
conceitos,	definições	e	categorias	analíticas	para	abordar	a	nossa	temática.
Compreendemos	que	as	origens	sócio	históricas	do	fundamentalismo	religioso	se	
deram	no	campo	religioso,	especificamente	com	as	religiões	cristãs-protestantes	nos	Esta-
dos	Unidos,	no	fim	do	século	XIX	e	início	do	século	XX.	Indicamos	que	o	fenômeno	estava	
situado	e	 significado	de	modo	bastante	diferente	de	suas	 feições	posteriores.	Apontava	
para	um	tipo	de	religioso	que	mantinha	tradições	e	ia	à	fundo	para	observar	os	princípios	
bíblicos.	
Estudamos	como	os	desdobramentos	desse	fenômeno	em	nosso	tempo	histórico	
ultrapassam	o	ambiente	religioso	e	ocupam	espaços	na	política,	na	economia,	e	se	apre-
sentam	como	pano	de	fundo	de	diversas	questões	sociais	sensíveis.	Identificamos	algumas	
características	comuns	dos	fundamentalismos	religiosos,	como	o	fanatismo,	a	negação	da	
ciência	e	de	outros	valores	da	modernidade,	a	negação	do	relativismo	e	do	pluralismo,	a	
postura	fechada	ao	diálogo,	entre	outras.	
Por	 fim,	apresentamos	algumas	 reflexões	 sobre	 fundamentalismos	 religiosos	no	
Brasil	contemporâneo.	Assinalamos	que	é	possível	analisar	o	tema	sob	o	ponto	de	vista	da	
“guerra	cultural”,	por	se	tratar	de	um	fenômeno	marcado	pela	hostilidade	política	e	social	
pautada	em	sistemas	de	entendimento	moral	distintos.	Vimos,	também,	que	as	polarizações	
e	consequentes	embates	políticos	surgem	por	conta	das	diferentes	visões	de	mundo	que,	
não	pautam	somente	questões	doutrinárias	particulares,	mas	também	o	modo	de	organizar	
nossas	próprias	vidas	e	nossas	vidas	juntos	nesta	sociedade.	
Destacamos	alguns	elementos	que	figuram	o	fenômeno,	como	o	ataque	às	religiões	
Afro-brasileiras,	a	defesa	de	projetos	de	educação	acríticos	como	o	“Escola	sem	partido”,	
e	a	negação	dos	direitos	humanos,em	favor	de	princípios	ideológicos	particulares	de	um	
grupo	que	não	representa	toda	a	sociedade.	
Tudo	isso	nos	aponta	a	grande	responsabilidade	que	a	escola	tem	para	a	trans-
formação	social	e	o	combate	aos	fundamentalismos	religiosos.	Assim,	concluímos	nossa	
incursão	reforçando	que	o	ensino	deve	ser	uma	prática	de	transmissão	de	valores	demo-
65UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
cráticos,	que	admita	o	pluralismo	religioso	e	incentive	à	aceitação	do	outro.	Esperamos	que		
o	material	 tenha	suscitado	interesse	e	reflexões	pertinentes	para	o	seu	desenvolvimento	
intelectual.	Obrigada	por	nos	acompanhar	até	aqui.
Bons estudos!	
	
66UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
LEITURA COMPLEMENTAR
●	 TEIXEIRA,	Faustino.	O	diálogo	em	tempos	de	fundamentalismo	religioso.	Con-
vergência,	Rio	de	Janeiro,	n.	356,	p.	495-506,	out.	2002.
O	 artigo	 propõe	 um	 diálogo	 com	 as	 perspectivas	 teóricas	 do	 sociólogo	 Shmuel	
Noah	Eisenstadt	acerca	da	relação	entre	fundamentalismo	e	modernidade.	Infere-se	que	a	
partir	da	contribuição	decisiva	e	original	de	Eisenstadt	ampliou-se	o	horizonte	analítico	de	
tal	relação.
●	 VOLF,	Miroslav.	O	desafio	do	fundamentalismo	protestante.	Concilium,	Petrópo-
lis,	v.	241,	n.	3,	1992,	p.129.
Neste	artigo,	Volf	 (1992)	postula	que	o	diálogo	 inter-religioso	é	um	dos	grandes	
desafios	para	o	século	XXI.	Conforme	o	autor,	as	diversas	 tradições	religiosas	vêm	pro-
vocadas	 a	 perceber	 a	 importância	 vital	 de	 um	 relacionamento	 criativo	 e	mútuo	 entre	 si	
mesmas,	como	condição	essencial	para	um	futuro	mais	harmônico	para	a	humanidade.	
67UNIDADE III Fundamentalismo Religioso
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO 
Título:	Fundamentalismos	Religiosos	-	Três	Abordagens	Distintas	
e	Complementares
Autor:	Campos,	Breno	Martins	-	Salles,	Walter	Ferreira
Editora: Fonte	Editorial
Sinopse:	Dentre	os	temas	em	pauta	na	atualidade,	o	fundamenta-
lismo	é	sem	dúvida	um	dos	mais	instigantes.	Sob	a	coordenação	
de	Breno	Martins	Campos	e	Walter	Ferreira	Salles,	estudiosos	do	
assunto,	 este	 trabalho	deve	 ser	 recebido	 como	um	 interessante	
subsídio	para	o	aprofundamento	da	reflexão	e	um	ótimo	material	
para	o	enriquecimento	da	discussão	acadêmica.	Tenho	como	re-
ferência	o	desafio	do	 fundamentalismo	no	contexto	moderno,	os	
autores	analisam	as	possibilidades	ou	não	do	fundamentalismo	no	
judaísmo,	no	catolicismo	romano	e	no	protestantismo,	assumindo	
o	fundamentalismo	protestante	original	como	moderno	propício	de	
comparação.	O	resultado	desse	esforço,	fruto	do	trabalho	conjun-
to,	é	uma	obra	bem	estruturada,	cuidadosamente	 fundamentada	
e,	ao	mesmo	tempo,	didática	e	acessível	sobre	o	tema.	Obra	que	
atende	à	necessidade	de	trabalhar	melhor	as	respostas	aos	ques-
tionamentos	colocados	pelos	perturbados	acontecimentos	atuais.
FILME/VÍDEO
Título:	First	Reformed
Ano: 2017
Sinopse: O	ex-capelão	militar	Toller	sofre	pela	perda	do	filho	que	
ele	encorajou	a	se	alistar	nas	forças	armadas.	Um	outro	desafio	
começa	quando	 faz	amizade	com	a	 jovem	paroquiana	Mary	e	o	
marido	dela,	que	é	um	ambientalista	radical.	Toller	logo	descobre	
segredos	nebulosos	de	sua	igreja	com	relação	a	empresas	ines-
crupulosas.
68
UNIDADE IV
Religião e Políticas
Professora Me. Laís Azevedo Fialho
Professor Me. Giovane Marrafon Gonzaga
Plano de Estudo:
●	 O	estado	laico	brasileiro.
●	 Leis	x	Moral	religiosa
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Compreender	o	conceito	de	Estado	laico,	como	funciona	e	seu	desenvolvimento	
histórico	no	Brasil.
●	 Refletir	como	os	espaços	do	sagrado	são	formados	e	como	a	necessidade	de	
produzir	um	mundo	que	condiga	com	suas	próprias	visões	faz	com	que	
a	religião	se	torne	um	importante	fator	para	adoção	de	medidas	públicas.
●	 Discutir	tabus	religiosos,	como	a	legalização	do	aborto,	ensino	do	evolucionismo	
nas	escolas	e	a	presença	das	religiões	afro-brasileiras	em	uma	atmosfera	
de	conflito	no	passado	e	na	contemporaneidade.	
69
INTRODUÇÃO
UNIDADE IV Religião e Políticas
Olá	estudante	da	disciplina	“Fenômeno	Religioso	na	contemporaneidade	e	educa-
ção”,	parabéns	por	ter	chegado	até	aqui,	a	última	unidade	desta	apostila.	Já	discutimos	o	
ser	humano	como	espécie	religiosa,	simbólica.	De	que	maneiras	as	religiões	se	espalharam	
pelo	mundo	e	 sua	 ligação	 intrínseca	 com	o	poder.	 Levando-nos	 inclusive	 às	 chamadas	
guerras	santas,	um	termo	no	mínimo	contraditório.	
Este	é	o	momento	em	que	discutiremos	qual	pode	ser	o	papel	do	Estado	em	relação	
à	religião.	Um	ponto	já	foi	definido	pela	modernidade:	o	ideal	é	que	o	governo	seja	laico.	Ou	
seja,	não	dê	preferência	às	concepções	de	uma	religião	específica,	mas	procure	formular	
medidas	que	respeitem	a	liberdade	individual.	Que	problemas	a	execução	desse	plano	tem	
apresentado?	Será	que	a	ciência	afasta	as	pessoas	da	religião?	Para	saber,	basta	 ler	e	
refletir.
Bons estudos!
70UNIDADE IV Religião e Políticas
1. O ESTADO LAICO BRASILEIRO
Segundo	Carlos	Roberto	Cury	 (2018),	a	origem	do	 termo	 laico	 remonta	ao	 latim	
medieval,	para	o	qual	laós,	o	povo,	se	diferenciava	dos	sacerdos.	Onde	a	leitura	da	Bíblia	
era	praticamente	exclusiva	a	clérigos	e	nobres,	laós eram	aqueles	que	não	dominavam	a	
habilidade	de	ler	e	interpretar	as	Escrituras.	O	que	mais	tarde	se	dividiria	em	duas	palavras,	
a	primeira	leigo	hoje	tem	o	significado	de	uma	pessoa	que	desconhece	sobre	determinado	
assunto.	E	laico,	que	poderíamos	definir	mais	basicamente	como	sem-religião	ou	ausente	
de	influência	religiosa	direta.	Por	que	o	direta?	Indiretamente,	um	fator	cultural	tão	impor-
tante,	como	a	religião,	exerce	poder	sobre	a	sociedade.	Esse	poder	se	percebe	muito	maior	
conforme	nos	aprofundamos	no	passado.	Práticas,	 ideias,	dogmas	e	concepções	sobre	
o	religioso	sempre	exerceram	poder	na	organização	política	e	vida	pública	de	diferentes	
sociedades.
Figura	1	–	Sala	do	Supremo	Tribunal	Federal,	Brasília-BR.	Os	três	únicos	símbolos	presen-
tes	são,	a	bandeira	do	Brasil,	o	brasão	da	República	e	o	crucifixo	cristão.	Expressões	da	
influência	religiosa	em	um	Estado	que	se	pretende	laico.
Fonte:	https://cdn.jornaldebrasilia.com.br/wp-content/uploads/2020/04/STF-1.jpg	
71UNIDADE IV Religião e Políticas
Para	entender	a	relação	entre	espaço	e	religião,	voltemos	a	Mircea	Eliade	(1992)	
em	O sagrado e o profano.	Para	o	autor,	as	religiões	têm	como	praxe	a	definição	de	locais	
específicos	para	seus	ritos.	Templos,	grutas,	capelas,	entre	outros.	Os	estudos	do	geógrafo	
cultural,	Yi-Fu	Tuan	(1983),	em	Espaço e lugar: a perspectiva da experiência,	caminham	no	
mesmo	sentido.	Os	templos,	mais	altos	e	imponentes	comparado	às	demais	construções,	
estão	ali	para	dizer	que	os	deuses	se	erguem	sobre	os	humanos	e	a	eles	vigiam.	
Deus	mora	no	céu.	Tanto	no	Antigo	como	no	Novo	Testamento,	Deus	foi	às	
vezes	identificado		com		o		céu.		[...].		Em		arquitetura,		os		edifícios		importantes		
são	 colocados	 sobre	 plataformas,	 e,	 quando	 existe	 tecnologia	 necessária,	
tendem	a	ser	os	mais	altos.	[...]	isto	é	talvez	sempre	verdadeiro:	uma	pirâmide	
ou	uma	coluna	de	triunfo	alta	impõe	maior	estima	do	que	uma	baixa.	(TUAN,	
1983,	p.	43).
Em	consonância	aos		dois	autores	citados,	“O sagrado e o urbano: gênese e função 
das cidades”,	de	Zeny	Rosendahl	(2008)	compreende	que	a	relação	entre	espaço	e	religião	
constitui	elemento	inseparável	na	história	de	fundação	já		das		primeiras		cidades.		Segundo		
Rosendahl,		no	mundo		moderno		ocidental,		a	geografia	religiosa	brasileira	se	estrutura	sob	
uma	forma	triangular	manifestada	pelo	poder	do	povo,	da	Igreja	e	Estado.
A	autora	compreende	que	a	relação	entre	espaço	e	sagrado	é	expressa	na	forma	e	
função		de		como		determinados		lugares		e		prédios		são		construídos.		A		forma		seria		uma	
categoria	geográfica	fundamental	de	como	as	pessoas	imprimem	seus	valores	e	crenças	na	
arquitetura;		assim		como		a		função		desempenhada		por		aquele		local.		O		lugar		sagrado		
se	exprime		por		atributos		qualificativos		a		partir		da		manifestação		do		sagrado		em		um	
determinado		local,investindo		esse		espaço		de		lógicas		funcionais		e		espaciais		próprias.
No	caso	da	influência	da	religião	sobre	os	espaços	geográficos,	Rosendahl	enten-
de	que	a	exposição	da	fé	no	tempo	e	no	espaço,	modifica	consideravelmente	a	paisagem	
de	uma	cidade,	não	se	 limitando	apenas	às	características	visíveis,	mas	se	estendendo	
também	à	 	 experiência	 	 da	 	 fé	 	 fornecida	 	 por	 	meio	 	 de	 	 símbolos	 	 e	 	mensagens.	 	A		
compreensão		da	realidade		sócio		espacial		deve		ser		observada		enquanto		construção		e		
atribuição		de	significados	(ROSENDAHL,	2008).
Figura	2	–	Fachada	da	Catedral	de	Notre	Dame,	Paris-FR.	Observem	a	proporção	
entre	o	prédio		e	as	pessoas,	mesmo	as	portas	devido	sua	altura	forçam	o	olhar	para	cima.	
Exemplo	de	como	a	religião	altera	a	paisagem	urbana	e	reforça	assim	a	mensagem,	visão	
de	mundo	que	procura	transmitir
Fonte:	https://diariodenavegador.com/wp-content/uploads/2019/04/Catedral-de-notre-dame-de-paris-fachada.jpg
72UNIDADE IV Religião e Políticas
Os	 indivíduos	 também	 formulam	 espaços	 do	 sagrado	 em	 casa,	 um	 cômodo	 ou	
cantinho	 que	 reservam	 para	 suas	 orações,	 a	 partir	 do	 intuito	 de	 reproduzir	 a	 visão	 de	
mundo	estimulada	por	sua	crença.	Nas	casas,	o	 local	pode	ser	marcado	por	divindades	
e	seus	símbolos.	Para	o	Brasil,	podemos	imaginar	um	altar	com	as	imagens	de	santos	ou	
da	Sagrada	Família	para	os	católicos,	a	Bíblia	depositada	em	um	lugar	especial,	às	vezes	
aberta	em	uma	passagem,	prática	ocasional	entre	cristãos	católicos	e	evangélicos.
A	 relação	 que	as	 instituições	 e	 o	 indivíduo	 religioso	mantêm	com	o	 espaço	de-
monstram	a	necessidade	de	viver	em	um	mundo	que	se	organize	de	acordo	com	suas		
crenças.	Se	a	arquitetura	é	profundamente	modificada	pela	religião,	se	os	prédios	públicos	
são	decorados	com	símbolos	de	uma	crença	específica,	é	de	se	esperar	que	encontremos	
mecanismos	semelhantes	na	gênese	das	leis	e	costumes	sociais	mais	difundidos.	A	noção	
de	um	Estado	laico	é	recente	se	comparada	aos	milhares	de	anos	em	que	política	e	religião	
andaram	juntas.Como	reflete	Cury	(2018)
É	certo	que,	tanto	o	feudalismo	monárquico,	como	o	absolutismo	do	direito	
divino	do	poder	tinham	como	fundamento	ético-religioso	a	subordinação	aos	
desígnios	de	Deus	entre	os	quais	a	afirmação	de	que	a	lei	divina	era	superior	
à	lei	natural	e	à	lei	positiva.Nesse	sentido,	o	direito	positivado,	aquele	inscrito	
no	 ordenamento	 jurídico,	 não	 pode	 ser	 contrário	 aos	 preceitos	 do	 direito	
natural	(próprio	da	natureza	do	ser	humano)	e	este,	por	sua	vez,	deve	estar	
em	consonância	com	o	direito	divino,	exarado	pelas	Escrituras	e	interpretado	
pelo	Magistério	papal.	Dentro	desta	concepção	de	uma	ordenação	teológica	
do	mundo	é	que	se	tem	a	doutrina	do	direito	divino	do	poder	dos	governantes	
(CURY,	2018,	p.	43).
Apenas	com	a	Independência	dos	Estados	Unidos	e	a	Revolução	Francesa,	durante	
o	século	XVIII,	temos	efetivamente	uma	separação	entre	poder	político	e	religião	no	mundo	
ocidental.	No	Brasil,	isto	aconteceria	em	1889,	com	a	Proclamação	da	República.	E	pelo	
menos	até	1990,	com	90%	de	fieis	declarados,	a	Igreja	Católica	se	colocou	como	baluarte	
para	delimitar	o	que	seria	moralmente	correto	ou	não	em	relação	às	 leis	do	Estado,	por	
exemplo	a	legalização	do	aborto,	da	pílula	do	dia	seguinte,	união	civil	e	adoção	por	casais	
homoafetivos,	pesquisas	com	células-tronco.
Atualmente,	a	bancada	evangélica	reúne	principalmente	representantes	de	igrejas	
pentecostais,	e	tem	se	colocado	no	lugar	de	um	catolicismo	que	está	recuado	no	âmbito	
político,	assim	como	seu	número	de	seguidores.	Líderes	religiosos	opinam	sobre	questões	
importantes,	elegem	representantes	saídos	das	igrejas	com	a	missão	expressa	de	tornar	
o	Estado	mais	 religioso	e	o	apoio	dessas	 religiões	é	 importantíssimo	para	a	eleição	de	
um	presidente.	Essa	é	uma	realidade	brasileira	e	de	tantos	outros	países.	Acredito	que	a	
Unidade	III	tenha	explicado,	é	comum	a	religião	ser	encarada	com	uma	seriedade	mortal.		
73UNIDADE IV Religião e Políticas
As	pessoas	transformam	o	mundo	de	acordo	com	o	que	consideram	certo,	a	partir	
de	suas	visões,	ideias	e	cultura.	Reforçamos	que	a	distinção	entre	Estado	e	religião	é	muito	
recente	em	termos	históricos.	O	Brasil	ainda	é	um	caso	especial,	o	país	com	maior	número	
de	cristãos	e	dentro	disso,	o	maior	número	de	católicos	e	de	evangélicos.	Os	estudos	aqui	
apresentados	corroboram	para	a	percepção	de	que	Estado	e	religião	não	estão	separados	
efetivamente.	As	instituições	religiosas	exercem	influência	direta	na	política	e	nas	decisões	
mais	importantes	para	a	sociedade.	Como	prática	científica,	não	é	recomendado	julgar	esse	
fenômeno	como	alguma	forma	de	atraso,	ou	condenar	as	pessoas	que,	por	acreditarem	em	
uma	religião,	gostariam	que	o	território	em	que	habitam	seguisse	essa	regra.
A	proposta	de	um	Estado	laico	visa	justamente	respeitar	os	limites	pessoais	de	todo	
cidadão.	Afinal,	não	existe	apenas	uma	visão	de	mundo	mesmo	entre	religiões	cristãs.	Com	
isso,	é	importante	que	nossas	leis	amparem	o	indivíduo	independente	de	suas	crenças	e	
garantindo	a	liberdade	de	praticá-las.	De	geração	para	geração,	as	pessoas	mudam.	
É	importante	que	o	Estado	seja	um	organismo	que	serve		ao	interesse	geral.	Sem	
tentativas	de	disciplinar	seus	cidadãos	a	um	comportamento	específico.	Todos	devem	ser	
livres,	desde	que	as	escolhas	individuais	não	comprometam	a	liberdade	de	outra	pessoa.	
A	 laicidade	 se	 propõe	 como	neutra,	 ressalvando	 o	 espaço	 e	 a	 discussão	 pública	 como	
um	território	de	respeito	à	diversidade	cultural.	Ao	mesmo	tempo	que	conserva	a	escolha	
individual	e	o	direito	de	cada	pessoa	seguir	seus	próprios	costumes	e	crenças.	No	Brasil,	
é	 possível	 que	 as	mudanças	 políticas	 calcadas	 na	 ciência	 deixem	 parte	 da	 população	
pensando	que	o	Estado	está	se	afastando	demais	do	cristianismo.	Por	que	isso	acontece?	
Talvez	porque	até	agora,	a	relação	entre	as	duas	instituições	tenha	sido	mais	próxima	do	
que	pressupõe	a	neutralidade	do	Estado	laico,	como	veremos	a	seguir,	no	tópico	2.
74UNIDADE IV Religião e Políticas
2. LEIS X MORAL RELIGIOSA
Observamos	que,	por	mais	que	oficialmente	seja	laico,	a	religião	nunca	deixou	de	
ser	parte	atuante	no	Estado	brasileiro.	Quando	as	leis	parecem	se	afastar	da	moral	religio-
sa,	rapidamente	reações	enérgicas	podem	ser	percebidas.O	Brasil	inclusive	recentemente	
tem	 vivido	momentos	 de	maior	 calor	 entre	 o	 que	 prevê	 a	 legislação	 e	 o	 que	 idealizam	
as	 religiões.	 Iremos	adiante	comentar	 sobre	casos	 relacionados	à	questão	da	 liberdade	
sobre	a	decisão	do	aborto,	o	ensino	do	evolucionismo	na	História	e	a	prática	de	religiões	
afro-brasileiras.
Para	Marya	Lygia	de	Moraes,	em	“Política	dos	corpos	e	o	fundamentalismo	religio-
so”,	o	Estado	que	se	norteia	pela	religião	pode	se	tornar	perigoso	para	grupos	sociais	que	
não	são	protagonistas	das	crenças	mais	influentes.	Caso	das	mulheres,	por	exemplo,	que	
devido	a	influência	religiosa	em	nossas	políticas	públicas,	já	no	século	XX,	eram	atestadas	
por	lei	como	donas-de-casa
(O	Código	Civil	de	1916)	estabelecia	caber	ao	marido	a	chefia,	vale	dizer,	
administração	dos	bens,	a	manutenção	material	da	família,	o	direito	de	fixar	
residência,	enquanto	à	mulher	era	outorgada	a	função	de	ser	a	“companhei-
ra,	 consorte	 e	 colaboradora	 do	 chefe	 da	 família,	 cumprindo-lhe	 zelar	 pela	
direção	material	e	moral	desta	(MORAES,	2018,	p.	96).
A	mulher	não	poderia	se	divorciar	caso	desejasse,	era	proibido	pois	quebrava	um	
pacto	sagrado	para	o	cristianismo,	o	matrimônio.	Ainda	que	o	companheiro	se	comportasse	
muito	mal,	com	traição,	violência	física,	assédio	psicológico,	estupro.	No	máximo	uma	se-
75UNIDADE IV Religião e Políticas
paração	informal	poderia	acontecer	e,	caso	acontecesse,	o	homem	ficaria	com	todos	bens	
adquiridos	durante	o	casamento.	A	mulher	teria	direito	a	eles,	caso	fosse	da	benevolência	
do	ex-marido	compartilhar.	Algo	que	se	altera	apenas72	anos	depois,	com	a	constituição	
de	1988.	Moraes	(2018)	esclarece	que	uma	série	de	obstáculos	estão	impostos	às	mulhe-
res	brasileiras	ainda	nos	dias	de	hoje,	como	a	intimidação	sexual	em	espaços	públicos,	a	
diferença	salarial,	a	baixa	ocupação	de	cargos	de	chefia	e,	no	caso	da	religião,	o	aborto.	
Um	tabu	muito	sério	em	nossa	sociedade,	regulamentado	em	países	como	EUA,	
Cuba,	Uruguai,	Alemanha	e	muitos	outros.	Normalmente	o	período	máximo	para	fazê-lo	é	
até	as	12	semanas	de	gestação,	período	onde	os	métodos	de	interrupção	praticamente	não	
representam	risco	para	a	mulher	e	o	sistema	nervoso	do	feto	ainda	não	se	formou.
Em	“Bioética	laica:	zonas	de	atrito	com	as		religiões	na	prática	de	saúde’’,	escrito	
por	S.	Rego,	M.	Palácios	e	P.	Fortes	(2018)	são	abordados	três	pontos	importantes	para	
compreender	 a	 questão	 do	 aborto:	 a	 posição	 das	 religiões	 hegemônicas	 no	 Brasil;	 os	
quadros	de	saúde	pública	com	relação	a	essa	prática	e;	o	que	a	Constituição	Brasileira	
conforma	sobre	essa	questão.
No	primeiro	aspecto,	 a	posição	 cristã	é	de	que	a	 vida	aconteceria	no	momento	
em	que	a	primeira	célula	se	formasse.	Dessa	forma,	o	aborto	seria	preterível	em	qualquer	
situação.	Mesmo	em	situações	limítrofes,	como	acompanhamos	em	2020,	no	episódio	do	
aborto	 legal	de	uma	gravidez	causada	por	estupro	de	uma	menina	de	10	anos.	Grupos	
religiosos	se	organizaram	em	frente	ao	Centro	Integrado	de	Saúde	Amaury	de	Medeiros,	
em	Recife	–PE,	onde	o	médico	Olímpio	Moraes	Filho,	que	faria	o	procedimento	autorizado	
pela	justiça,	foi	alvo	de	protestos	e	insultos.	Antes	desse	episódio,	o	obstetra	já	havia	sido	
excomungado	duas	vezes	pela	Igreja	Católica,	por	realizar	a	mesma	prática	em	situações	
similares,	o	aborto	de	uma	gravidez	causada	por	estupro	de	vulnerável.	Se	casos	como	
esses	ainda	mobilizam	dezenas	de	pessoas	a	chamarem	médicos	e	vítimas	de	assasinos,	
questionamos	quão	distante	não	está	a	possibilidade	de	que	o	aborto	assistido	seja	integra-
do	ao	conjunto	de	leis	brasileiras.
Não	se	trata	de	incentivar	a	prática,	mas	fazer	isso	de	maneira	segura	e	providen-
ciar	as	orientações	necessárias	para	que	se	evite	uma	recorrência.	A	decisão	de	ter	um	filho	
ou	não,	a	visão	religiosa	por	trás	dessa	escolha,	não	pode	partir	de	cima	para	baixo,	do	
Estado	para	o	cidadão.		Rego,	Palácios	e	Fortes	(2018)	defendem	que	esta	medida	serviria	
para	diminuir	a	quantidade	de	mulheres	que,	por	abortarem	clandestinamente,	sofrem	com	
complicações	de	saúde	física	e	psicológica,	levando	em	alguns	casos	à	morte.	
76UNIDADE IV Religião e Políticas
Estima-se	que	500	mil	abortos	clandestinos	aconteceram	em	2016	no	Brasil.	Ao	
contrário	do	que	se	pode	imaginar,	a	maioria	acontece	com	mulheres	casadas,	com	pelo	
menos	um	filho	e	maiores	de	20	anos.	As	mortes	em	razão	da	prática	aconteceriam	prin-
cipalmente	entre	a	população	mais	pobre.	O	que	enfatizaria	a	necessidade	de	uma	regu-
lamentação	pública.	Afinal,	os	dados	mostram	que	não	houve	qualquer	retração	na	opção	
pelo	aborto.	Mas	as	mulheres	que	não	podem	pagar	por	assistência	médica	ou	remédios	
mais	caros,	eficazes	e	seguros,	acabam	sofrendo	mais	com	a	proibição	e	o	assédio.	Dessa	
forma,	a	prática	do	aborto	realizada	de	maneira	segura	e	assistida	por	um	profissional	é	
uma	realidade,	porém	apenas	se	possuir	dinheiro	suficiente.
Figura	 3	 –	 anúncio	 encontrado	 em	 pesquisa	 rápida	 na	 internet.	 Exemplo	 do	 merca-
do	 clandestino	 de	 abortivos	 no	 Brasil.	 A	 prática	 põe	 em	 risco	 a	 saúde	 da	 mulher	 e	 tira	 do	 Estado	
a	 possibilidade	 de	 um	 procedimento	 assistido,	 de	 acesso	 a	 psicólogos	 para	 tratar	 do	 assun-
to	 e	 inclusive	 da	 reversão	 da	 decisão.	 No	 anúncio	 era	 informado	 que	 as	 cápsulas	 custariam	
R$600,	 um	 valor	 inacessível	 para	 muitas	 brasileiras,	 a	 que	 métodos	 elas	 recorrem	 então?		
Fonte:		Banco	de	imagens	do	Google.
Em	teoria,	a	Constituição	proíbe	o	aborto	exceto	em	duas	circunstâncias,	quando	
a	gravidez	é	resultado	de	estupro	ou	coloca	a	vida	da	mãe	em	iminente	risco	de	vida.	Os	
casos	onde	o	diagnóstico	de	anencefalia	obteve	aprovação	da	prática	se	enquadram	na	
segunda	circunstância.	As	leis	não	especificam	quando	um	embrião	passa	a	ser	visto	como	
vida	humana.	Podemos	dizer	que	os	primeiros	dias	de	gestação	já	não	contam,	visto	que	
as	pílulas-do-dia-seguinte	podem	ser	compradas	em	qualquer	farmácia	e	agem	de	maneira	
abortiva.	Também	as	pesquisas	de	célula	tronco	se	utilizam	de	embriões	em	estágio	inicial.	
Do	ponto	de	vista	científico,	um	embrião	não	é	considerado	um	indivíduo,	do	ponto	de	vista	
religioso	sim.	A	partir	dessa	reflexão,	os	autores	destacam	que
O	argumento	 religioso	de	que	a	alma	está	presente	desde	a	concepção	e	
por	isso	o	aborto	deve	ser	considerado	tão	criminoso	quanto	tirar	a	vida	de	
77UNIDADE IV Religião e Políticas
qualquer	pessoa	inocente,	não	pode	ser	razão	para	o	Estado	considerar	um	
crime.	Se	é	assim	é,	há	a	 imposição	de	uma	determinada	crença	religiosa	
sobre	o	conjunto	da	população,	em	franca	colisão	com	os	princípios	consti-
tucionais	da	laicidade	e	da	pluralidade	(FORTES;	PALÁCIOS;	REGO,	2018,	
p.	121).
Ou	seja,	se	vivêssemos	em	um	Estado	plenamente	laico,	as	leis	não	seriam	avalia-
das	conforme	sua	consonância	com	as	religiões	cristãs,	mas	a	partir	de	critérios	técnicos,	
como	qual	decisão	representa	menos	riscos	à	saúde
Mas	não	vivemos	em	um	país	cristão?	Com	tamanha	adesão	a	uma	visão	religiosa,	
não	era	de	se	esperar	que	as	pessoas	discordassem	com	“coisas	desse	tipo”?	Considerar	
o	que	a	ciência	diz	ser	o	mais	adequado	não	é	ir	contra	os	princípios	de	minha	religião?
A	discussão	presente	em	“Laicidade	e	ensino	de	ciências:	 reflexões	sobre	o	es-
tudo	da	vida	no	Ensino	Médio”,	de	Eliane	Brígida	Falcão,	pode	nos	auxiliar	a	 responder	
tais	questões.	Em	seu	 trabalho,	a	autora	procura	analisar	a	recepção	de	conteúdos	das	
Ciências	Naturais	(Física,	Química	e	Biologia)	por	alunos	da	rede	pública	e	privada.	Nos	
locais	com	menor	material	de	trabalho	(precaridade	ou	ausência	de	laboratórios,	eventos	
de	discussão	científica,	acesso	a	informação	em	casa),	nota-se	um	conflito	maior	entre	as	
ideias	apresentadas	nas	matérias	destacadas	acima.
O	perfil	religioso	dos	estudantes	das	cinco	escolas	era	semelhante:	em	sua	
grande	maioria	eram	crentes	em	Deus	com	ou	sem	adesão	a	uma	religião.	
Entretanto,	crenças	religiosas	associadas	às	explicações	para	origem	e	di-
versidade	da	vida	foram	mais	evidentes	entre	estudantes	de	escolas	onde	os	
recursos	de	ciência	eram	precários	(FALCÃO,	2018,	p.	170).
É	interessante	que,	apesar	dos	estudantes	com	melhor	acesso	a	materiais	didáticos	
e	atividades	extraclasse	terem	mostrado	maior	adesão	às	teorias	científicas	de	origem	da	
vida,	 isso	não	significou	se	 tornarem	menos	religiosos.	Quando	compara	essa	recepção	
para	alunos	do	curso	de	Ciências	Biológicas	também	não	diminui	expressivamente	o	nú-
mero	de	pessoas	que	acreditam	em	uma	religião.	Mesmo	entre	os	cientistas	de	profissão,	
pesquisadores,	aqueles	crentes	em	alguma	religião	constituem	maioria	larga.	
O	 que	 se	 altera	 significativamente,	 dos	 alunos	 do	 Ensino	 Médio	 para	 aqueles	
da	 faculdade,	 e	 depois	 para	 os	 cientistas	 profissionais	 é	 a	 quantidade	 de	 pessoas	 que	
acreditam	em	uma	instituição	religiosa	específica.	O	que	nos	leva	a	compreender	que	as	
pessoas	não	deixam	de	acreditar	em	Deus	por	considerarem	as	ideias	científicas.	Mas	se	
tornam	menos	dogmáticas,	menos	apegadas	a	uma	visão	de	mundo	específica.	Conceber	
a	ciência	como	uma	análise	válida	do	mundo	natural	parece	 lançar	questionamentos	ao	
discurso	do	sacerdote.	Pode	ser	que	a	ciência	abale	um	pouco	a	condição	doutrinária	da	
religião,	mas	não	a	fé.	
78UNIDADE IV Religião e Políticas
Figura	4	–	Alunos	de	um	colégio	católico	de	classe	média-alta	em	uma	aula	de	Bio-
logia.	Segundo	Falcão	(2018),	os	professores	de	locais	como	esse	não	relatam	problemas	
em	transmitir	conteúdos	científicos	que	“contestam”a	visão	religiosa.	Quantas	vezes	ao	
ano	uma	aula	assim	aconteceria	em	escolas	públicas?	Uma	reflexão.
Fonte:	https://horaextra.slz.br/wp-content/uploads/2020/11/IMG-20201123-WA0134.jpg
Quando	questionados	sobre		a	aparente	contradição	entre	o	que	ciência	e	religião	
apresentam,	Falcão	(2018,	p.	1.	73)	recebe	afirmações	tais	qual:	“A	minha	religião	é	uma	
coisa,	as	aulas	de	biologia	são	outra”.	Basicamente	este	é	o	objetivo	do	Estado,	separar		a	
visão	religiosa	de	mundo	da	discussão	científica	no	sentido	do	que	pode	ser	melhor	para	
as	pessoas,	independente	dos	deuses	que	escolheram	render	culto	ou	não.	Que	análises	
demonstram	melhores	 resultados	e	melhoram	a	qualidade	de	vida	do	maior	número	de	
pessoas.	
A	rixa	entre	religião	e	ciência	no	Brasil	e	no	mundo	nem	sempre	foi	uma	realidade.	
Em	 certos	momentos,	 as	 duas	 confluem	para	 concordar	 com	 determinada	 estrutura	 de	
poder.	
Por	exemplo,	no	caso	da	escravidão	da	população	africana	e	seus	descendentes,	o	
discurso	científico	e	religioso	contribuíram	um	com	o	outro.	Se	do	ponto	de	vista	religioso,	a	
escravidão	era	válida	para	catequização	dos	costumes	bárbaros	do	negro,	visto	como	idó-
latra	e	concupiscente.	A	ciência	entendia	esta	pessoa	como	boçal,	inculta,	pouco	evoluída,	
79UNIDADE IV Religião e Políticas
assim	o	trabalho	braçal	e	a	vigilância	constante	daqueles	que	lhe	eram	superiores	seria	o	
melhor	caminho	para	o	desenvolvimento	dos	próprios	africanos.	
Como	destacado	nas	Unidades	1	e	2,	o	evolucionismo	aplicado	às	culturas	humanas	
foi	um	conceito	recorrente	para	exercer	poder	sobre	aqueles	considerados	não-evoluídos	e	
sobretudo	para	desvalorizar	ou	mesmo	criminalizar	suas	práticas,	crenças	e	cultos.
Na	atualidade,	a	figura	da	mãe-de-santo,	da	macumba	e	do	macumbeiro,	ou	seja	
quem	pratica	ritos	religiosos	de	matriz	africana	provoca	medo	nas	pessoas,	mas	também	é	
motivo	de	risadas.	Frases	como	“chuta	que	é	macumba”	ditas	em	tom	jocoso	são	formuladas	
a	partir	de	uma	ideia	preconceituosa	sobre	o	valor	religioso	de	culturas	não-monoteístas.	
Essa	concepção	não	 tem	suas	origens	no	humor	ou	nas	 igrejas,	mas	na	ciência.	 	Augé	
(1994)		ao		escrever		uma		breve		história		sobre		a		relação		entre		o		conceito		de	Magia	e	
a	Antropologia	européia,	do	século	XIX	aos	anos	1980,	explica	que	o	termo	foi	encarado,		
inicialmente,		como		uma		forma		degradada		e		individualizada		de		religião.		
Com	efeito,	as	práticas	mágicas	encontrariam	 respaldo	na	 ignorância	e	 ingenui-
dade	do	selvagem	africano.	 	Utiliza	 	 como	 	exemplo	 	o	 	papel	 	do	 	 feiticeiro-curandeiro		
nessas		sociedades		que	cobriria	as	funções	do	médico	para	o	mundo	moderno,	mas	sem	a	
eficácia	do	conhecimento	científico.		A		magia		seria		uma		tentativa		pré-científica		de		ação		
concreta		sobre		o		mundo,	baseada	em	princípios	infantis	de	similitude	e	contiguidade	(por	
exemplo,	imitar	um	pássaro	permite	acesso	a	seus	poderes	ou	controle;	o	cabelo	de	uma	
pessoa	pode	servir	para	atingi-la	espiritualmente).	Embora	pesquisas	posteriores	ao	século	
XIX	tenham	rebatido	suficientemente	tais	ideias,	seus	preconceitos	sobreviveram	e	estão	
enraizados	em	nossa	cultura	e	política,	sobretudo	devido	ao	reforço	religioso	que	contribuiu	
para	essa	perseguição.
Como	mencionado	na	Unidade	2,	ainda	que	pautadas	no	princípio	da	laicidade,	as	
leis	no	Brasil	colocam	as	religiões	de	matriz	africana	em	xeque.	Casos	como	o	artigo	258	
do	Código	Penal,	sobre	curandeirismo,	o	princípio-base	do	artigo	é	de	que	a	crença	na	cura	
por	métodos	não-científicos	resulta	da	 ignorância,	o	que	se	aproxima	da	 ideia	de	magia	
vigente	no	século	XIX	europeu	sobre	outras	culturas.	
Um	 caso	 trazido	 por	Yvonne	Maggie	 (2001)	 exemplifica	 o	 que	 entendemos	 por	
uma	sobrevivência	do	evolucionismo	social	oitocentista.	A	assimilação	entre	magia/feitiço	
e	malefício	reflete	um	posicionamento	dos	brasileiros.	A	autora	narra	o	caso	no	qual	um	
assassino	é	absolvido	sob	a	 ideia	de	que	agira	em	 legítima	defesa.	A	vítima,	conhecido	
pai-de-santo	daquela	região,	havia	discutido	algumas	vezes	com	o	acusado	por	questões		
de		disputa		de		terras.		Júri		e		juiz		se		convenceram		de		que		o		fazendeiro		se		sentia	
80UNIDADE IV Religião e Políticas
ameaçado	em	sua	integridade,	devido	a	possibilidade	da	vítima	lhe	colocar	um	feitiço	de	
morte.	Na		visão		de		Montero		(2009),		esse		tipo		de		atribuição		acontece,		devido		a		uma	
participação		determinante		do		pensamento		religioso		na		institucionalização		do		espaço	
público.	
É	preciso	medir	o	quanto	a	religião	pode	penetrar	no	Estado.	Não	é	possível	rejeitar	
sua	influência	ou	eliminá-la,	acreditamos	que	algo	do	tipo	não	seria	nem	necessário,	nem	
útil.	A	cultura	faz	parte	do	poder	e	a	religião	marca	profundamente	a	cultura	no	Brasil.	A	
proposta	de	laicidade	política	parece	contemplar	as	duas	coisas,	crer	e	pôr	suas	crenças	
em	prática,	ao	mesmo	tempo	que	não	se	obriga	um	sistema	religioso	específico	para	todos.
SAIBA MAIS
No	dia	28	de	Março	de	2019,	o	Supremo	Tribunal	Federal	considerava	inconstitucional	
o	projeto	de	lei	de	elaboração	da	deputada	Regina	Becker,	no	estado	do	Rio	Grande	do	
Sul.	Nos	ditames	a	respeito	da	proteção	ambiental,	se	proibia	o	sacrifício	de	animais	em	
rituais	religiosos.	Uma	proposta	que	se	opõe	nitidamente	a	práticas	religiosas	afro-bra-
sileiras.
A	desinformação	a	respeito	de	como	e	porque	tais	sacrifícios	ocorrem,	reforçam	precon-
ceitos	que	em	algumas	ocasiões	levam	à	violência	e	à	morte.	Sacrificar	um	animal	na	
maior	parte	do	tempo	significa	também	se	alimentar	dele	e	dividir	esse	alimento	com	os	
frequentadores	do	terreiro.	
O	que	é	oferecido	frequentemente	são	partes	do	animal	que	as	pessoas	muitas	vezes	
não	comem,	como	a	cabeça,	as	patas	e	o	couro.	A	carne	quando	é	ofertada,	costuma	
ser	em	pequena	quantidade.	Esta	não	é	uma	regra	entre	todas	as	práticas	religiosas	de	
matriz	africana.	Ainda	que	o	comum	fosse	não	comer	a	maior	parte	do	animal	ofertado,	
a	religião	não	pode	ser	considerada	um	motivo	mais	ou		menos	válido	do	que	práticas	
que	efetivamente	sacrificam	animais	por	razões	que	não	são	o	desenvolvimento	da	me-
dicina	ou	para	alimentação,	como	por	exemplo	a	indústria	de	cosméticos	ou	do	mercado	
de	peles.	
O	desafio	com	o	surgimento	de	um	sistema	legal,	plural	e	multiétnico	é	fazer	com	os	
operadores	lidem	com	as	temáticas	dos	povos	e	comunidades	tradicionais,	grupos	étni-
cos,	tais	como	os	de	terreiros,	isto	é,	aqueles	que	professam	religiões	de	matriz	africana.	
[...]	Denota-se	a	necessidade	de	superação	do	racismo	que	nega	o	cultivo	das	diferen-
ças,	para	valorizar	o	legado	cultural	e	histórico	do	negro	no	processo	de	reidentificação	
em	termos	étnico-culturais.	(D’ADESKY	apud	MOTA,	2018,	p.	141).
Fonte:	MOTA,	Rejane	Francisca.	O	mito	do	estado	brasileiro	laico:	racismo	institucional	e	a	proibição	da	
sacralização	de	animais	no	Candomblé.	2018.	168f.	Dissertação	(Mestrado	em	Direito	Público).	Programa	
de	Pós-Graduação	em	Direito	da	Faculdade	de	Direito	da	Universidade	Federal	da	Bahia.
81UNIDADE IV Religião e Políticas
REFLITA
Uma	explosão	acontece	onde	antes	aparentemente	não	havia	nada.	Uma	partícula,	algo	
muito,	muito	menor	do	que	o	menor	grão	de	areia	existente,		de	repente	expulsa	de	si	o	
universo	inteiro.	Nada	era	como	enxergamos	hoje,	mas	uma	nuvem	de	átomos	diferen-
ciados	em	mais	de	cem	elementos	se	dissipa	infinitamente	na	imensidão	do	nada.	Ou	
do	tudo?	Depois	de	um	tempo	que	não	faz	sentido	nenhum	para	a	perspectiva	de	uma	
vida	humana,	silenciosamente,	pois	o	som	não	se	dissipa	sem	uma	atmosfera,	surgem	
os	primeiros	corpos	celestes	e	eles	brilham	mais	do	que	qualquer	coisa	que	você	vai	en-
contrar	na	sua	vida,	surgem	em	uma	quantidade	muito	maior	do	que	as	estrelas	visíveis,	
são	gigantescos	e	a	força	de	sua	presença	parece	convidar	os	outros	elementos		a	se	
unirem	em	um	movimento	coordenado.	Das	estrelas	nascem	os	planetas,	são	esferas	
de	fogo	ardendo	em	magma	e	enxofre.	Elas	giram	em	torno	daestrela	e	depois	de	outra	
eternidade	se	passar	o	fogo	se	dissipa.	Em	uma	das	esferas,	como	resultado	de	toda	
convulsão	sofrida,	um	 líquido	parece	 ter	brotado	em	abundância.	E	ele	carrega	uma	
forma	que	não	estava	presente	no	momento	da	explosão.	É	a	vida,	que	nasceu	e	todos	
os	dias	tem	lutado	contra	a	possibilidade	de	não	mais	existir.
Dependendo	de	como	enxergamos,	a	Teoria	do	Big	Bang	se	assemelha	muito	a	uma	
narrativa	religiosa.	No	entanto,	sua	existência	vem	de	cálculos	construídos	a	partir	de	
leis	da	física	e	da	química.	Sua	formulação	não	se	propõe	enquanto	verdade,	está	mais	
próximo	de	“O	que	a	ciência	pode	pensar	até	o	momento	sobre	a	criação	do	universo”.	
Por	que	algumas	religiões	parecem	brigar	contra	essa	hipótese	científica?	Muitas	ideias	
e	histórias	presentes	na	Bíblia,	por	exemplo,	não	são	interpretadas	de	maneira	 literal	
por	nenhuma	vertente	religiosa,	por	que	o	Gênesis	deveria	ser?	Como	a	ciência	pode	
invalidar	o	pensamento	religioso	se	está	submetida	a	testes	laboratoriais	e	o	outro	a	fé?	
Tenho	a	 impressão	de	que	certas	brigas	não	são	nossas.	Como	aquelas	histórias	de	
família	que	se	odeiam	por	gerações,	mas	os	motivos	já	se	perderam	no	tempo,	de	forma	
que	os	mais	novos	estão	brigando	mais	por	tradição	que	convicção.	Religião	e	ciência.	
A	quem	interessa	esse	conflito	e	por	que?	
82UNIDADE IV Religião e Políticas
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na	Unidade	IV,	Religião e políticas	procuramos	discutir	a	respeito	do	estado	laico	
brasileiro,	como	os	espaços	são	tomados	por	nossas	visões	de	mundo.	A	arquitetura	se	
sacraliza,	assim	também	acontece	com	as	 leis,	nossas	regras	de	convívio,	práticas	coti-
dianas,	as	instituições	de	que	o	poder	público	dispõe.	Por	isso,	talvez	seja	mais	prudente	
conceber	a	laicidade	mais	como	um	processo	do	que	uma	realidade	estabelecida.	Também	
sinalizamos	que	o	papel	 da	 religião	no	Estado	não	pode	 ser	 ignorado,	mas	discutido	e	
orientado	pelo	princípio	da	liberdade	individual.
Também	sinalizamos	para	a	relação	de	leis	e	moral	religiosa	a	partir	de	situações	
onde	se	observa	o	conflito	entre	o	que	a	religião	mais	praticada	de	um	local	prega	e	aquilo	
que	autoridades	políticas	e	comunidade	científica	entendem	como	a	opção	com	melhores	
resultados.	Refletimos	sobre	as	mulheres	e	o	aborto	no	cristianismo;	a	ciência	e	seu	ensino	
nas	escolas;	 as	 religiões	afro-brasilerias	 e	 a	 criminalização	de	 seus	 rituais.	Espero	 que	
nossa	discussão	 tenha	servido	ao	propósito	de	uma	melhor	 compreensão	das	 relações	
entre	Estado	Laico	no	Brasil,	leis	e	moral	religiosa.Muito	obrigado.
83UNIDADE IV Religião e Políticas
LEITURA COMPLEMENTAR
A	obra	a	seguir	foi	a	principal	base	para	construção	da	unidade.	Ao	todo	são	oito	
artigos,	onde	se	discute	a	ideia	de	Estado	Laico	e	os	temas	de	maior	conflito	resultante	da	
relação	entre	leis,	ciência	e	moral	religiosa.
D’AVILA-LEVY,	Claudia	Masini;	CUNHA,	Luiz	Antônio	(Orgs.).	Embates	em	torno	do	
Estado	laico	[livro	eletrônico].	São	Paulo:	SBPC,	2018.	Disponível	em:	http://portal.sbpcnet.
org.br/livro/estadolaico.pdf
Bruno	Latour	é	sociólogo,	antropólogo	e	filosofo	da	ciência.	Neste	trabalho	discute	
sobre	a	produção	de	ídolos	na	sociedade	contemporânea,	qual	a	relação	psicológica	que	
estabelecemos	com	nossos	objetos	de	crença	e	como	a	modernidade	ocidental	tem	lidado	
com	isso.	
●	 LATOUR,	Bruno.	O	culto	moderno	dos	deuses	fe(i)tiches.	Bauru-SP:	EDUSC,	2002.
A	produção	a	seguir	discute	os	pressupostos	legais	que	estão	por	trás	da	crimina-
lização	de	ritos	das	religiões	de	matriz	africana,	sobretudo	o	sacrifício	de	animais.	Pontua	
detalhadamente	a	questão	em	seu	viés	jurídico	e	filosófico.	Concluindo	com	argumentos	
em	defesa	do	multiculturalismo	e	regulamentação	da	diversidade	religiosoa.
●	 MOTA,	Rejane	Francisca.	O	mito	do	estado	brasileiro	laico:	racismo	institucional	
e	a	proibição	da	sacralização	de	animais	no	Candomblé.	2018.	168f.	Dissertação	(Mestra-
do	em	Direito	Público).	Programa	de	Pós-Graduação	em	Direito	da	Faculdade	de	Direito	
da	Universidade	Federal	 da	Bahia.	Disponível	 em:	 https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/
ri/29392/1/Rejane%20Francisca%20dos%20Santos%20Mota.pdf
84UNIDADE IV Religião e Políticas
MATERIAL COMPLEMENTAR
FILME/VÍDEO
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=WI-XV9LT_aE&ab_channel=t-
vbrasil
Título:	Caminhos	da	Reportagem	–	Aborto:	uma	conversa	neces-
sária.
Produção: TV	Brasil.
Documentário
Sinopse: O	 Caminhos	 da	 Reportagem	 traz	 a	 discussão	 sobre	
aborto,	 feita	 com	mulheres,	 especialistas,	 médicos	 e	 religiosos.	
O	tema,	considerado	um	tabu,	mobiliza,	além	da	sociedade	civil,	
políticos	e	 judiciário	–	desde	março	de	2017	corre	uma	ação	no	
Supremo	Tribunal	Federal	pedindo	a	descriminalização	do	aborto	
até	a	12ª	semana	de	gestação,	em	todos	os	casos.
LIVRO
Título:	Ciência	com	consciência.
Autor:	Edgar	Morin
Editora:	Bertrand	Brasil,	1994.
Sinopse:	 Edgar	 Morin	 um	 dos	 poucos	 intelectuais	 especialista	
em	diversas	áreas.	Sua	formação	vai	de	trabalhos	na	Pedagogia,	
Sociologia,	História	até	Biologia	e	Física.	A	obra	dialoga	sobre	a	
necessidade	de	se	pensar	a	ciência	em	sua	pluralidade	de	abor-
dagens,	de	maneira	que	seu	discurso	possa	atingir	o	cotidiano	da	
sociedade,	tantas	vezes	distante	do	pensamento	científico.
85
REFERÊNCIAS
ABDALATI,	Hammudah.	O	Islam	em	foco:	fundação	das	associações	muçulmanas	do	Bra-
sil.	FAMBRAS:	São	Paulo,	2008.
ALMEIDA,	Ronaldo	R.	M.	de	&	MONTERO,	Paula.	O	campo	religioso	brasileiro	no	limiar	do	
século:	problemas	e	perspectivas.	In:	RATTNER,	Henrique	(Org.).	Brasil	no	limiar	do	século	
XXI.	São	Paulo:	EDUSP,	p.	325-339,	2000.
ARMSTRONG,	Karen.	Em	nome	de	Deus;	fundamentalismo	no	judaísmo,	no	cristianismo	e	
no	islamismo.	São	Paulo:	Companhia	das	letras,	2001.
AUGÉ,	Marc.	Magia.	 In:	Enciclopédia	Einaudi:	 religião-rito,	vol.	30.	 Imprensa	Nacional	–	
Casa	da	Moeda,	1994.
BELLOTTI,	K.	K.	História	das	Religiões:	conceitos	e	debates	na	era	contemporânea.	Histó-
ria:	Questões	&	Debates,	Curitiba,	n.	55,	p.	13-42,	jul./dez.	2011.	
BERGER,	P.	O	Dossel	Sagrado:	Elementos	para	uma	teoria	sociológica	da	religião.	4ª	ed.,	
São	Paulo:	Paulus,	2003.
BERKENBROCK,	Volnei	J.	A	experiência	dos	Orixás.	Um	estudo	sobre	a	experiência	reli-
giosa	no	Candomblé.	Petrópolis:	Vozes,	1998.	
BHABHA,	Homi.	O	local	da	cultura.	3ª	reimpressão.	Belo	Horizonte:	Editora	UFMG,	2005.
CARVALHO,	J.	J.	de.	Características	do	fenômeno	religioso	na	sociedade	contemporânea.	
In:	 BINGEMER,	M.	C.	 (Org.).	O	 impacto	 da	modernidade	 sobre	 a	 religião	 .	 São	Paulo:	
Loyola,	1992.	p.	133-195.
CERTEAU,	Michel	de.	A	escrita	da	História.	Rio	de	Janeiro:	Forense	Universitária,	2002.
CHAUÍ,	Marilena.	 Fundamentalismo	 religioso:	 a	 questão	 do	 poder	 teológico-político.	 En	
publicacion:	Filosofia	Política	Contemporânea:	Controvérsias	sobre	Civilização,	Império	e	
Cidadania.	Atilio	A.	Boron,	1a	ed.	-	Buenos	Aires:	Conselho	Latinoamericano	de	Ciencias	
Sociales	-	CLACSO;	São	Paulo:	Departamento	de	Ciência	Política.	Faculdade	de	Filosofia,	
Letras	e	Ciências	Humanas.	Universidade	de	São	Paulo.	Abri,	2006.
COSTA,	Ana	Carolina.	A	nova	face	do	terror:	uma	interpretação	da	propaganda	audiovisual	
do	Estado	Islâmico	como	fenômeno	cultural	na	era	da	midiatização.	163	f.
86
	Dissertação	(Mestrado	em	Comunicação).	Programa	de	Pós	Graduação	da	Faculdade	de	
Arquitetura,	Artes	e	Comunicação	da	Universidade	Estadual	Paulista,	2018.
CURY,	Carlos	Roberto.	Por	uma	concepção	do	Estado	Laico.	In:	D’AVILA-LEVY,	Claudia	
Masini;	CUNHA,	Luiz	Antônio	(Orgs.).	Embates	em	torno	do	Estado	laico	[livro	eletrônico].	
São	Paulo:	SBPC,	2018.
D’AVILA-LEVY,	Claudia	Masini;	CUNHA,	Luiz	Antônio	(Orgs.).	Embates	em	torno	do	Estado	
laico	[livro	eletrônico].	São	Paulo:	SBPC,	2018.	Disponível	em:	http://portal.sbpcnet.org.br/
livro/estadolaico.pdf
Decreto-Lei	2.848,	de	07	de	Dezembro	de	1940.	Código	Penal.	Diário	Oficial	da	União,	Rio	
de	Janeiro,	31	dez.	1940.
DINIZ;	MEDEIROS;	MADEIRO.	Pesquisa	Nacionalde	Aborto	2016.	Disponível	em:	https://
www.scielosp.org/article/csc/2017.v22n2/653-660/pt/
DURKHEIM,	 Émile,	 The	 elementary	 forms	 of	 religious	 life,	 New	York,	 Oxford	 University	
Press,	2001.
ECO,	Umberto.	Definições	léxicas.	In:	BARRET-DUCROCQ,	Françoise	(dir.).	A	intolerância.	
Trad.	Eloá	Jacobina.	Rio	de	Janeiro:	Bertrand	Brasil,	2000.	p.	15-19.
ELIADE,		Mircea.	O		sagrado		e		o		profano.		1ª		ed.		São		Paulo:		Livraria		Martins		Fontes	
Editora,	1992.
ELIADE,	Mircea.	Mitos,	Sonhos	e	Mistérios.	Lisboa:	Edições	70,	1989.
ELIADE,	Mircea.	Tratado	de	História	das	religiões.	São	Paulo:	Martins	Fontes,	2008.
FALCÃO,	Eliane	Brígida.	Laicidade	no	ensino	de	ciências:	 reflexões	sobre	o	estudo	dos	
fenômenos	da	vida	no	ensino	médio.	In:	D’AVILA-LEVY,	Claudia	Masini;	CUNHA,	Luiz	An-
tônio	(Orgs.).	Embates	em	torno	do	Estado	laico	[livro	eletrônico].	São	Paulo:	SBPC,	2018.
FILORAMO,	Giovanni;	P	RANDI,	Carlo.	As	ciências	das	religiões.	São	Paulo:	Paulus,	2003,	
3ª	edição.
FREUD,	Sigmund.		O	futuro	de	uma	ilusão.	Edição	standard	brasileira	das	obras	psicológi-
cas	completas	de	S.	Freud.Vol.	XXI	Rio	de	Janeiro:	Imago,	2006.
87
HARTOG,	François.	O	espelho	de	Heródoto.	Belo	Horizonte:	Editora	UFMG,	1999.
HERVIEU-LÉGER,	Danièle.	O	peregrino	e	o	convertido.	Petrópolis-RJ:	Vozes,	2008.
LÉRY,	Jean	de.	Viagem	à	terra	do	Brasil.	Trad.	de	Sérgio	Milliet.	3ª	ed.	São	Paulo:	Livraria	
Martins	Editora,	1960.
	LIMA,	J.	A.	Fundamentalismo:	um	debate	introdutório	sobre	as	conceituações	do	fenôme-
no.	Revista	Cronos,	UFRN,	v.	12,	n.	1,	2011.	p.	90-104.
	MAGGIE,	Yvonne.	Guerra	de	orixás.	Rio	de	Janeiro:	Editora	Zahar,	2001.
MARIANO,	 Ricardo.	 	 Neopentecostais:	 Sociologia	 do	 Novo	 Pentecostalismo	 do	 Brasil.	
Editora	Loyola:	São	Paulo,	1999.
MONTERO,	Paula.	Secularização	e	espaço	público:	a	reinvenção	do	pluralismo	religioso	no	
Brasil.	Revista	etnográfica.	Vol.	13,	n.1,	p.7-16.	Lisboa,	Maio	de	2009.
MORAES,	Maria	Lygia.	Políticas	do	corpo	e	os	fundamentalismos	religiosos.	In:	D’AVILA-
-LEVY,	Claudia	Masini;	CUNHA,	Luiz	Antônio	(Orgs.).	Embates	em	torno	do	Estado	laico	
[livro	eletrônico].	São	Paulo:	SBPC,	2018.
MOREIRA,	Alberto	da	Silva.	O	futuro	da	religião	no	mundo	globalizado:	painel	de	um	debate.	
In:	MOREIRA,	Alberto	da	Silva;	OLIVEIRA,	Irene	Dias	(Organizadores).	O	futuro	da	Religião	
na	sociedade	global.	Uma	perspectiva	multicultural.	São	Paulo	–	Goiânia:	Paulinas	–	UCG,	
2008,	pp.	17-35.
MOTA,	 Rejane	 Francisca.	 O	 mito	 do	 estado	 brasileiro	 laico:	 racismo	 institucional	 e	 a	
proibição	da	sacralização	de	animais	no	Candomblé.	2018.	168f.	Dissertação	(Mestrado	
em	Direito	Público).	Programa	de	Pós-Graduação	em	Direito	da	Faculdade	de	Direito	da	
Universidade	Federal	da	Bahia.
NEGRÃO,	Lísias	Nogueira.	Pluralismo	e	multiplicidades	religiosas	no	Brasil	contemporâ-
neo.	Sociedade	e	Estado,	Brasília,	v.	23,	n.	2,	p.	261-279,	maio/ago	de	2008.	Disponível	
em:	https://www.scielo.br/pdf/se/v23n2/a04v23n2.pdf
NEGRÃO,	Lísias.	Entre	a	cruz	e	a	encruzilhada.	São	Paulo:	Edusp,	1993.
88UNIDADE IV Religião e Políticas
NETO,	José	Maia.	Cerceamento	religiosos	da	atividade	intelectual:	o	que	podemos	aprender	
com	o	julgamento	de	Sócrates.	 In:	D’AVILA-LEVY,	Claudia	Masini;	CUNHA,	Luiz	Antônio	
(Orgs.).	Embates	em	torno	do	Estado	laico	[livro	eletrônico].	São	Paulo:	SBPC,	2018.
NEVILLE,	 	Robert	 	Cummings	 	 (organizador).	 	A	 	 condição	 	 humana.	 	Um	 	 tema	 	 para	
religiões	comparada	s.	São	Paulo:	Paulus,	2005.	
OLIVEIRA,	Anderson	 Machado	 de.	 Igreja	 e	 escravidão	 africana	 no	 Brasil.	 Caderno	 de	
Ciências	Humanas.	 Vol.	 10,	 vº	 18.	 Ilhéus-BA,	Outubro	 de	 2007.	 Disponível	 em:	 https://
periodicos.uesc.br/index.php/especiaria/article/view/768.
ORO,	Ari	Pedro	&	STEIL,	Carlos	Alberto	(Orgs.).	Globalização	e	religião.	Petrópolis:	Vozes,	
p.	25-42,	1997
ORO,	I.	P.	O	outro	é	o	demônio:	uma	análise	sociológica	do	fundamentalismo.	São	Paulo:	
Paulus,	1996.	
ORTIZ,	Renato.	A	morte	branca	do	feiticeiro	negro.	Petrópolis-RJ:	Vozes,1978.	
PAINE,	 S.	 R.	 Fundamentalismo	 ateu	 contra	 fundamentalismo	 religioso.	 Belo	 Horizonte:	
Revista	Horizonte,	v.	8,	n.	16,	2010,	p.	09-24.	
PARÉS,	Nicolau.	A	 formação	do	Candomblé:	História	e	ritual	da	nação	 jeje	na	Bahia.	2ª	
edição.	Campinas:	Editora	da	UNICAMP,	2007.
PRANDI,		Reginaldo.		Modernidade		com		feitiçaria:		Candomblé		e		Umbanda		no		Brasil		do	
século	XX.	Revista	Tempo	Social.	Vol.	2,	nº	1,	p.	49-74.	São	Paulo,	Janeiro/Julho	de	1990.
PRANDI,	Reginaldo.	O	Brasil	com	axé:	candomblé	e	umbanda	no	mercado	religioso.	Estud.	
av.	[online].	2004,	vol.18,	n.52.
RAMONEDA,	Josep	2000	Depois	da	paixão	política.	São	Paulo:	Editora	Senac.
REGO,	S;	PALÁCIOS,	M;	FORTES,	P.	Bioética	laica:	zonas	de	atrito	com	as	religiões	na	
prática	da	saúde.	In:	D’AVILA-LEVY,	Claudia	Masini;	CUNHA,	Luiz	Antônio	(Orgs.).	Embates	
em	torno	do	Estado	laico	[livro	eletrônico].	São	Paulo:	SBPC,	2018.
REILY,	Duncan	Alexander.	História	 documental	 do	 protestantismo	 no	Brasil.	 2	 imp.	São	
Paulo:	ASTE,	1993.
89UNIDADE IV Religião e Políticas
REIMER,	Haroldo.	Elementos	e	estrutura	do	fenômeno	religioso.	In:	LAGO,	Lorenzo;	REI-
MER,	Haroldo;	SILVA,	Volmor	da	(Organizadores).	O	Sagrado	e	as	construções	de	mundo.	
Roteiro	para	as	aulas	de	introdução	à	teologia	na	Universidade,	pp.	79-96.
RIBEIRO,	Claudio	de	Oliveira	.	Um	olhar	sobre	o	atual	cenário	religioso	brasileiro:	possibi-
lidades	e	limites	para	o	pluralismo.	Estudos	de	Religião,	v.	27,	n.	2	•	53-71	•	jul.-dez.	2013.
RIO,	João	do.	As	religiões	no	Rio.	2.ed.	Rio	de	Janeiro:	Garnier,	1906.
ROCHA,	Zeferino	A	perversão	dos	ideais	no	fundamentalismo	religioso	Revista	Latinoame-
ricana	de	Psicopatologia	Fundamental,	vol.	3,	núm.	17,	set,	2014,	pp.	761-	774.
ROSENDAHL,	Zeny.	O	sagrado	e	o	urbano:	gênese	e	função	das	cidades.	Rio	de	Janeiro:	
Espaço	e	Cultura	(UERJ),	2008.
SANCHIS,	Pierre.	A	 religião	dos	brasileiros.	 In:	PEREZ,	Léa	Freitas;	QUEIROZ,	Rubem	
Caixeta	de	&	VARGAS,	Eduardo	Viana	(Orgs.).	Teoria	e	Sociedade,	Belo	Horizonte,	número	
especial:	Passagem	de	milênio	e	pluralismo	religioso	na	sociedade	brasileira,	p.	16-5,	2003.
SANCHIS,	Pierre.	Religiões	no	mundo	contemporâneo:	convivência	e	conflitos.	Ilha	Revista	
de	Antropologia,	Florianópolis,	v.	4,	n.	2,	p.	007-023,	jan.	2002.
SCHIAVO,	Luigi.	Conceitos	e	interpretações	da	religião.	In:	LAGO,	Lorenzo;	REIMER,	Ha-
roldo;	SILVA,	Volmor	da	(Organizadores).	O	Sagrado	e	as	construções	de	mundo.	Roteiro	
para	as	aulas	de	introdução	à	teologia	na	Universidade,	pp.	63-78.
SILVA,	César	Augusto	de	Assis.	Apresentação	Ponto	Urbe	[Online],	4	|	2009,	posto	online	
no	dia	31	julho	2009.	
SIMMEL,	Georg.	A	sociabilidade	como	forma	autônoma	ou	forma	lúdica	da	sociação.	Rio	de	
Janeiro:	Zahar,	p.	63-82,	2006.
SIQUEIRA,	Deis.	A	labiríntica	busca	religiosa	na	atualidade:	crenças	e	práticas	místicoe-
sotéricas	na	capital	do	Brasil”.	 In:	SIQUEIRA,	Deis	&	LIMA,	Ricardo	Barbosa	de	(Orgs.).	
Sociologia	 das	 adesões:	 novas	 religiosidades	 e	 a	 busca	místico-esotérica	 na	 capital	 do	
Brasil.	Rio	de	Janeiro:	Garamond;	Vieira,	p.	25-64.	2003.
SORJ,	B;	GRIN,	M.	Judaismo	e	Modernidade.	Rio	de	Janeiro:	Imago,	1991.
90
SOUZA,	Andréa	Silveira	de.	Religião	e	Educação:	as	marcas	do	fundamentalismo	religioso	
no	programa	“Escola	sem	Partido”.	Religare,	v.16,	n.1,	ago	de	2019,	p.09-33
STEIL,	Carlos	Alberto.	Léa	Freitas;	QUEIROZ,	Rubem	Caixeta	de	&	VARGAS,	Eduardo	
Viana	 (Orgs.).	Teoria	e	Sociedade	 (Revista	dos	Departamentos	de	Ciência	Política	e	de	
Sociologia	e	Antropologia	–		UFMG),	 	Belo		Horizonte,	 	número		especial:	Passagem	de	
milênio	e	pluralismo	religioso	na	sociedade	brasileira,	2003,	p.	144-157.
THOMAS,	Keith.	Religião	e	o	declínio	da	magia.	São	Paulo:	Companhia	das	Letras,	1991.
TUAN,	Yi-Fu.	Espaço	e	lugar:	a	perspectiva	da	experiência.	São	Paulo:	Difel,	1983.
TYLOR,	Edward	Burnett.	 [1871].	Primitive	Culture:	Researches	 into	 the	Development	 of	
Mythology,	Philosophy,	Religion,	Language,	Art	and	Custom.	New	York:	J.P.	Putnam’s	Sons.1920.
VALLA,	Victor	Vicent	(Org.).	Religião	e	cultura.	Rio	de	Janeiro:	DP&A,	p.	09-40,	2001.
VAN	DER	LEEIW,	Gerardus.	A	Religião	em	sua	Essência	e	suas	Manifestações.	Fenome-
nologia	da	Religião.	Revista	da	Abordagem	Gestáltica	–	XV(2):	179-183,	jul-dez,	2009.
VASCONCELLOS,	Pedro	Lima:	Fundamentalismos.	Matrizes,	Presenças	e	 Inquietações.	
São	Paulo,	Paulinas,	2008.
VIDAL,	Lux.	(org.)	Grafismo	indígena	–	estudos	de	antropologia	estética.	São	Paulo:	Studio	
Nobel;	Fapesp;	Edusp,	1992.
WOLFF,	Elias.	Humanismo	e	religião.	In:	BENTO,	Fábio	Régio	(organizador).	Cristianismo,	
humanismo	e	democracia.	São	Paulo:	Paulus,	2005,	pp.	212-248.	
ZILLES,	Urbano.	Filosofia	da	Religião.	São	Paulo:	2004,	5ª	edição.
91UNIDADE IV Religião e Políticas
CONCLUSÃO GERAL
Ilustre	estudante,
Neste	material	nos	esforçamos	para	trazer	discussões	atualizadas	no	que	diz	res-
peito	ao	fenômeno	religioso	na	contemporaneidade,	a	diversidade	religiosa	no	Brasil,	os	
conflitos	religiosos	no	mundo	e	debates	modernos	a	respeito	da	laicidade	e	da	relação	entre	
leis	e	moral	religiosa.
Esperamos	ter	contribuído	para	sua	compreensão	dos	fenômenos	religiosos	sem	
um	olhar	hierarquizante,	posta	as	raízes	e	consequências	históricas	de	pensar	as	culturas	
como	mais	e	menos	evoluídas.	É	recomendável	observar	as	religiões	em	suas	práticas	e	
crenças	a	partir	da	narrativa	que	elas	constroem	sobre	o	mundo.	Compreender	a	história	
e	contexto	de	suas	existências	e	 respeitar	os	elementos	que	utilizam	para	 interpretação	
do	 sagrado.	Não	 existe	 religião	 certa	 ou	 errada,	mas	 a	 cultura	 e	 as	 relações	 humanas	
compondo	sempre	novas	formas	de	ser	e	pensar	a	vida.
Ao	debater	a	disseminação	das	 religiões	no	mundo	e	no	Brasil,	procuramos	de-
monstrar	que	religião	e	poder	são	estruturas	fundidas	na	justificativa	de	um	mesmo	projeto	
de	sociedade.	Isso	em	vários	momentos	do	passado	e	do	presente.	Compreender	tal	recor-
rência	voltando-se	para	o	passado	foi	uma	maneira	que	utilizamos	para	demonstrar	que,	em	
toda	história,	a	cultura	é	palco	de	manipulações,	distanciamentos	e	contatos.	O	que	torna	a	
diversidade	religiosa	uma	realidade	em	diferentes	momentos	e	espaços.	Se	olhamos	para	
o	Outro	como	igual,	não	há	o	que	temer	ou	eliminar	em	suas	crenças	O	estranhamento	é	
produzido	quando	nos	distanciamos,	ao	sentirmos	medo	da	cultura	alheia.
O	medo	e	o	poder	são	a	base	para	a	formação	do	fundamentalismo	religioso.	As	
chamadas	guerras	santas	são	iniciadas	com	o	discurso	de	um	mal	a	se	combater	e,	de	ma-
neira	geral,	terminam	com	culturas	perseguidas	e	povos	saqueados.	Podemos	dizer	que	a	
violência	motivada	por	e	contra	uma	crença	tem	lógica	semelhante	ao	evolucionismo	social	
que	 inflamou	o	nazismo:	o	outro	e	sua	cultura	são	 inferiores,	são	uma	ameaça	a	nosso	
modelo	de	vida	e	devemos	acabar	de	uma	vez	por	todas	com	isso	em	nosso	território.
Ponderando	sobre	questões	e	problemas	da	 religião	no	mundo	contemporâneo,	
o	Estado	laico	foi	o	último	tema	de	debate.	Como	uma	forma	de	prevenção	contra	novos	
92
conflitos	fundamentalistas.	Nosso	governo	não	pode	possuir	uma	religião,	mas	princípios	
norteados	no	que	é	comprovadamente	benéfico	para	sociedade,	independente	de	crença.	
Os	valores	culturais	e	individuais	devem	ser	respeitados,	 incluindo	a	prática	de	qualquer	
religião.	
Esperamos	que	a	apostila	tenha	contribuído	para	novas	ideias	a	respeito	das	reli-
giões	e	do	que	os	seres	humanos	podem	produzir	a	partir	delas.	Seu	impacto	na	sociedade	
e	seu	fenômeno	na	História.	Acredito	que	estudar	religião	é	mais	sobre	ter	o	máximo	de	
dúvidas	possíveis	e	responder	elas	com	informação	e,	depois	de	muitas	informações,	mais	
perguntas.	Parece	uma	postura	científica	adequada	diante	de	mistérios	tão	grandes.	Para	
conseguir	conhecimento	precisamos	assumir	que	não	o	possuímos.
Nossos agradecimentos!

Mais conteúdos dessa disciplina