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Fabiana Demetrio Micaela Alves Rocha da Costa Rafaela Vieira Veronica Ferreira Pinto FUNDAMENTOS DO SERVIÇO SOCIAL: MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO NA AMÉRICA LATINA E BRASIL © Universidade Positivo 2019 Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300 – Campo Comprido Curitiba-PR – CEP 81280-330 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa: © Thinkstock / © Shutterstock. Presidente da Divisão de Ensino Reitor Direção Acadêmica Gerente de Educação à Distância Coordenação de Metodologia e Tecnologia Autoria Parecer Técnico Supervisão Editorial Projeto Gráfi co e Capa Prof. Paulo Arns da Cunha Prof. José Pio Martins Prof. Roberto Di Benedetto Rodrigo Poletto Profa. Roberta Galon Silva Profa. Fabiana Demetrio Profa. Micaela Alves Rocha da Costa Profa. Rafaela Vieira Profa. Veronica Ferreira Pinto Cristiane Gonçalves de Souza Felipe Guedes Antunes Regiane Rosa Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca da Universidade Positivo – Curitiba – PR DTCOM – DIRECT TO COMPANY S/A Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. Sumário CAPÍTULO 1 - BASE TEÓRICA DO PROCESSO DE RECONCEITUAÇÃO: TEORIA SOCIAL DE MARX 9 Objetivos do capítulo 16 Tópicos de estudo 16 Contextualizando o cenário 17 1.1 Categorias da teoria marxista 17 1.1.1 Produção de mercadoria 18 1.1.2 Mais-valia 20 1.1.3 Ideologia 22 1.1.4 Alienação 24 1.2 A luta de classes e a economia política 25 1.2.1 Luta de classes como força motriz da história 27 1.2.2 A economia capitalista e o processo de produção 29 1.3 Valor, trabalho e sociedade 31 1.3.1 Valor-trabalho: transformação da natureza e constituição do ser social 32 1.3.2 Práxis, ser social e subjetividade 33 Proposta de atividade 34 Recapitulando 34 Referências 35 CAPÍTULO 2 - O SERVIÇO SOCIAL E A TEORIA SOCIAL MARXISTA 36 Objetivos do capítulo 37 Tópicos de estudo 37 Contextualizando o cenário 37 2.1. Influência marxista 37 2.1.1. O militantismo no Serviço Social 38 2.1.2. O messianismo no Serviço Social 40 2.1.3. O fatalismo e o Serviço Social 41 2.2. Interpretações da teoria marxista 42 2.2.1. Louis Althusser e os Aparelhos Ideológicos de Estado 43 2.2.2. Os marxismos de Lenin e Trotsky 46 2.2.3. A incorporação de interpretações marxistas no Serviço Social 49 2.3. Retorno aos textos de Marx 50 2.3.1. A obra de Iamamotto & Carvalho 51 2.3.2. Aplicação da teoria de Marx no Serviço Social 52 Proposta de atividade 53 Recapitulando 53 Referências 53 CAPÍTULO 3 - SERVIÇO SOCIAL E A INFLUÊNCIA GRAMSCIANA 56 Objetivos do capítulo 57 Tópicos de estudo 57 Contextualizando o cenário 57 3.1. Proposta teórico-metodológica 58 3.1.1 Concepção dialética da história 60 3.1.2 O intelectual orgânico 61 3.1.3 A filosofia da práxis 62 3.2 Principais conceitos em Gramsci 63 3.2.1 Conceito de cultura 63 3.2.2 Construção da contra-hegemonia 65 3.2.3 Sociedade civil 67 3.2.4 Estado ampliado 68 3.3 Contribuição da teoria de Gramsci para o Serviço Social 70 3.3.1 Superação do determinismo marxista 70 3.3.2 Economicismo perde força 71 3.3.3 Valorização da cultura 72 3.4 A direção histórica indicada por Gramsci 73 3.4.1 Protagonismo dos sujeitos 73 3.4.2 Nova ordem societária 74 Proposta de atividade 74 Recapitulando 74 Referências 75 CAPÍTULO 4 - MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO NA AMÉRICA LATINA 77 Objetivos do capítulo 78 Tópicos de estudo 78 Contextualizando o cenário 78 4.1. Serviço Social latino-americano 78 4.1.1. Asociación Latinoamericana de Escuelas de Trabajo Social (ALAETS) 80 4.1.2. Centro Latinoamericano de Trabajo Social (CELATS) 81 4.1.3. Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS) 83 4.2. Principais escolas de Serviço Social na América Latina 85 4.2.1. Colômbia 86 4.2.2. Uruguai 87 4.2.3. Chile 89 4.2.4. Argentina 91 4.3. Militarismo na América Latina 93 4.3.1. Golpes militares 93 4.3.2 A Reconceituação inconclusa 96 Proposta de atividade 96 Recapitulando 96 Referências 97 CAPÍTULO 5 - EXPRESSÕES DO MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO NO BRASIL 98 Objetivos do capítulo 99 Tópicos de estudo 99 Contextualizando o cenário 99 5.1 Movimento de Reconceituação 99 5.1.1 Reconceituação brasileira 100 5.1.2 Bases sócio-políticas 102 5.2 Intenção de ruptura 105 5.2.2 Influência da teoria marxista na construção da metodologia 106 5.2.3 Método Belo Horizonte: uma proposta alternativa 108 5.2.4 Crítica ao método de Belo Horizonte (BH) 111 Proposta de atividade 113 Recapitulando 113 Referências 114 CAPÍTULO 6 - SERVIÇO SOCIAL NO CONTEXTO DA RECONCEITUAÇÃO 115 Objetivos do capítulo 116 Tópicos de estudo 116 Contextualizando o cenário 116 6.1. Especificidades do Serviço Social 116 6.1.1 Processo para a construção do objeto profissional 117 6.1.2 A diversidade de objetos 118 6.2. Perspectiva libertadora 120 6.2.1 A realidade social como objeto 121 6.2.2 A formação de consciência 122 6.2.3 A ação libertadora 124 6.3. A busca de um conhecimento 125 6.3.1 A dialética do conhecimento 126 6.3.2 A relação sujeito-objeto-objetivos 127 Proposta de atividade 129 Recapitulando 129 Referências 130 CAPÍTULO 7 - A PRÁTICA INSTITUCIONALIZADA DO SERVIÇO SOCIAL NO CONTEXTO DA RECONCEITUAÇÃO 131 Objetivos do capítulo 132 Tópicos de estudo 132 Contextualizando o cenário 132 7.1 Instituições como espaços de prática 132 7.1.1 Instituições como aparelhos funcionais 133 7.1.2 Instituições como reprodução da força de trabalho 134 7.1.3 Instituições como espaço de contradições 136 7.2 Prática do Serviço Social nas instituições 137 7.2.1 O Estado como espaço de prática 138 7.2.2 Articulação com a sociedade 139 7.2.3 Articulação com os movimentos sociais 140 7.3 Instituições como espaços de transformação 143 7.3.1 Objeto profissional e objeto institucional 143 7.3.2 Possibilidades de transformações institucionais 145 Proposta de atividade 147 Recapitulando 147 Referências 148 CAPÍTULO 8 - O SERVIÇO SOCIAL RECONCEITUADO 149 Objetivos do capítulo 150 Tópicos de estudo 150 Contextualizando o cenário 150 8.1 A metodologia e a Reconceituação 151 8.1.1 Ação política e a teoria dialética 151 8.1.2 O paradigma das correlações de forças 153 8.1.3 Polarização 154 8.2 As ideologias do Serviço Social reconceituado 155 8.2.1 Liberal 156 8.2.2 Desenvolvimentista 157 8.2.3 Revolucionária 158 8.3 Sistematização do trabalho social 159 8.3.1 A construção de uma proposta metodológica de atuação 160 8.3.2 Ciência e técnica social 160 8.3.3 A ação profissional, atores e a estrutura 160 8.4 Aplicação da teoria reconceituada 162 8.4.1 O assistente social como intelectual orgânico 162 8.4.2 O profissional como sujeito da história 163 Proposta de atividade 164 Recapitulando 164 Referências 164 FUNDAMENTOS DO SERVIÇO SOCIAL: MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO NA AMÉRICA LATINA E BRASIL CAPÍTULO 1 - BASE TEÓRICA DO PROCESSO DE RECONCEITUAÇÃO: TEORIA SOCIAL DE MARX Veronica F. Pinto 9 Compreenda seu livro: Metodologia Caro aluno, A metodologia da Universidade Positivo apresenta materiais e tecnologias apropriadas que permitem o desenvolvimento e a interação entre alunos, docentes e recursos didáticos e tem por objetivo a comunicação bidirecional entre os atores educacionais. O seu livro, que faz parte dessa metodologia, está inserido em um percurso de aprendizagem que busca direcionar a construção de seu conhecimento por meio da leitura, da contextualização teórica-prática e das atividades individuais e colaborativas; e fundamentado nos seguintes propósitos: • valorizar suas experiências; • incentivara construção e a reconstrução do conhecimento; • estimular a pesquisa; • oportunizar a reflexão teórica e aplicação consciente dos temas abordados. Compreenda seu livro: Percurso Com base nessa metodologia, o livro apresenta os itens descritos abaixo. Navegue no recurso para conhecê-los. 1. Objetivos do capítulo Indicam o que se espera que você aprenda ao final do estudo do capítulo, baseados nas necessidades de aprendizagem do seu curso. 2. Tópicos que serão estudados Descrição dos conteúdos que serão estudados no capítulo. 3. Contextualizando o cenário Contextualização do tema que será estudado no capítulo, como um cenário que o oriente a respeito do assunto, relacionando teoria e prática. 4. Pergunta norteadora Ao final do Contextualizando o cenário, consta uma pergunta que estimulará sua reflexão sobre o cenário apresentado, com foco no desenvolvimento da sua capacidade de análise crítica. 5. Pausa para refletir São perguntas que o instigam a refletir sobre algum ponto estudado no capítulo. 6. Boxes São caixas em destaque que podem apresentar uma citação, indicações de leitura, de filme, apresentação de um contexto, dicas, curiosidades etc. 7. Proposta de atividade Sugestão de atividade para que você desenvolva sua autonomia e sistematize o que aprendeu no capítulo. • • • • 10 8. Recapitulando É o fechamento do capítulo. Visa sintetizar o que foi abordado, retomando os objetivos do capítulo, a pergunta norteadora e fornecendo um direcionamento sobre os questionamentos feitos no decorrer do conteúdo. 9. Referências bibliográficas São todas as fontes utilizadas no capítulo, incluindo as fontes mencionadas nos boxes, adequadas ao Projeto Pedagógico do curso. Boxes Navegue no recurso abaixo para conhecer os boxes de conteúdo utilizados. Afirmação Citações e afirmativas pronunciadas por teóricos de relevância na área de estudo. Assista Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações complementares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. Biografia Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. Contexto Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstram a situação histórica, social e cultural do assunto. Curiosidade 11 Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. Dica Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. Esclarecimento Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. Exemplo Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto abordando a relação teoria-prática. Apresentação da disciplina Ao escolher uma profissão, queremos fazer o que há de melhor no mundo por meio dela. Mas cabe indagar: melhor para quem? No Serviço Social, por exemplo, como fazer o melhor sem conhecer os motivos que nos levam a viver relações excludentes? Essas relações poderiam ser transformadas, por exemplo? Tal questionamento nos leva a, pelo menos, duas respostas possíveis e opostas. A primeira envolve o fato de que a realidade e sempre assim. Trata-se, portanto de uma visão a-histórica. Outra, contrária, diz que a realidade é foi assim. Ou seja: abre uma perspectiva de que ela já foi e pode ser diferente do que se encontra.está A disciplina de Fundamentos do Serviço Social, ao abordar as mudanças que ocorrem na formação do assistente social durante o Movimento de Reconceituação (1965-1975), nos permite conhecer a transformação que se processa no âmbito do Serviço Social a partir do momento em que ele passa a receber a influência das ciências sociais A Reconceituação acontece num período histórico mundial efervescente, que deixava explícita a existência do embate entre classes, cuja desigualdade começava a ser questionada. Essas mudanças acabam refletindo também na profissão, que já vinha buscando “sua gênese, seu desenvolvimento, seus limites e possibilidades” (IAMAMOTO, 2015, p. 203). Nessa busca, o Serviço Social se depara com produções teóricas como a de Karl Marx, teoria fundamental para conhecer a sociedade capitalista. Por isso, trataremos de aspectos abordados por Marx e apontaremos a necessidade desse saber para a profissão que passa a assumir um compromisso com a classe trabalhadora. Caríssimo aluno, não se deixe abater por uma possível dificuldade inicial. Persista na leitura. Amplie os horizontes de compreensão sobre o real. Aceite o desafio e enriqueça-se. 12 Bom estudo! A autoria Fabiana Demétrio A Professora Fabiana Demétrio é mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2010). Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005) e tem experiência profissional como Assistente Social, em instituições privadas, de terceiro setor e pública, além de experiência como docente, supervisora pedagógica de estágio supervisionado, Assessoria para Conselhos de Direitos e entidades do terceiro setor e orientação profissional para profissionais do Serviço Social. Currículo Lattes: .http://lattes.cnpq.br/3393355367980617 Poderia dedicar este trabalho há várias pessoas especiais na minha vida, mas desta vez quero dedicar exclusivamente ao homem mais especial e importante da minha vida, in memória meu paizinho, “Pedro Fernandes Demétrio”. Micaela Alves Rocha da Costa Micaela Alves Rocha da Costa é assistente social e mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra o Grupo de Estudos e Pesquisa em Trabalho, Ética e Direitos (GEPTED) e Questão Urbana, Rural, Ambiental, Movimentos sociais e Serviço Social (QTEMOSS) da mesma universidade. 13 http://lattes.cnpq.br/3393355367980617 Tem experiência na área da formação profissional, movimentos sociais, assistência social e regularização fundiária. Currículo Lattes: . Para todas as mulheres da classe trabalhadora, que cotidianamente questionam e enfrentam as barreiras do patriarcado, do machismo, do racismo na ordem do capital e sonham com uma vida sem medo. Rafaela Vieira Rafaela Vieira é mestre em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Bacharel em Serviço Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem experiência como assistente social nas áreas de assistência social e saúde. Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4274511D8 14 http://lattes.cnpq.br/2156820038707892 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4274511D8 Dedico a vocês, alunos e alunas. Que a busca pelo conhecimento seja eterna. Veronica Ferreira Pinto Veronica Ferreira Pinto é mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal de Alagoas (2009). É especialista em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas (1995). Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas (1991) e em Agronomia pela Universidade Federal de Alagoas (1986). Ensinou as disciplinas Fundamentos do Serviço Social IV, V e VI e Formação sócio-histórica. Currículo Lattes: .http://lattes.cnpq.br/5981483102442298 15 http://lattes.cnpq.br/5981483102442298 Há pessoas que marcam nossa existência em largo e profundo. Todo carinho para Marieta, Vera, Bel e Leu, pela luta constante que travam todos os dias numa sociedade que continua a diminuir o valor da mulher. Em vocês encontro a força para existir e resistir. Objetivos do capítulo Ao final deste capítulo, você será capaz de: • Identificar a influência da teoria social de Marx sobre o Serviço Social. • Conhecer os principais conceitos que fundamentam a teoria marxista. • Compreender o senso comum presente nas interpretações simplificadas da teoria social de Marx. Tópicos de estudo • Categorias da teoria marxista. • Produção de mercadoria. • Mais-valia. • Ideologia. • Alienação. • A Luta de Classes e a Economia Política.• Luta de classes como força motriz da história. • A economia capitalista e o processo de produção. • Valor, Trabalho e Sociedade. • Valor-trabalho: transformação da natureza e constituição do ser social. • Práxis, ser social e subjetividade. • • • • • • • • • • • • • • 16 Contextualizando o cenário Para entender a influência marxiana no curso de Serviço Social é necessário atentarmos para o contexto histórico. Para Karl Marx, não é a consciência que determina a vida. É o processo histórico da existência humana que marca a forma como pensamos (MARX, 2009). Essa constatação que ele faz a partir dos estudos e da compreensão do processo de produção da existência humana não é algo que se limita ao campo econômico. As mudanças que foram impressas no mundo do trabalho terminam rebatendo nos diversos complexos sociais (como a educação, a política e a ideologia, entre outros). Portanto, as mudanças ocorridas no real vão, de maneira mediada, marcando e sendo expressa na nossa forma de ser, nos mais diversos campos. Nesse sentido, é importante compreender a inserção do pensamento marxiano na formação do assistente social, respaldada pelo contexto histórico em que esse evento acontece. Diante desse cenário, questiona-se: Qual a relação entre a teoria marxiana e o Serviço Social? 1.1 Categorias da teoria marxista O estudo da teoria elaborada pelo filósofo Karl Marx possui algumas categorias fundamentais que ajudam a se aproximar da ideia central defendida por ele: a produção de mercadorias, a mais-valia, a ideologia e a alienação. Todos eles se apropriam do funcionamento das relações humanas, sobre as quais Marx se debruçou para tecer sua crítica à sociedade regida pelo capital. É importante entender que essa teoria deve ser um elemento orientador das ações dos indivíduos no que diz respeito à necessidade de transformar as relações que sobrevivem da exploração do homem pelo próprio homem. 17 Fonte: © Elena Blokhina / / Shutterstock. Nesse sentido, não se aplica teoria. Observa-se a coerência entre ela e o real. A veracidade dessa teoria é constatada não pelo julgamento que se faz dela, mas do que reproduz, no campo das ideias, sobre as condições reais da existência natural ou social. 1.1.1 Produção de mercadoria Algumas pessoas podem se perguntar: por que a sociedade capitalista é chamada de sociedade mercantil? Significa que antes não existia mercado? Essa constatação está errada. Mesmo na antiguidade ou no período feudal é encontrada a presença do mercado. No entanto, nesses momentos históricos, a vida não era eminentemente marcada pela venda e compra de mercadorias, aspecto que passa a acontecer apenas na sociedade regida pelo capital. Dizia Marx que “a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’, e a mercadoria individual como sua forma elementar (MARX, 1988, I, 1:45).” Ou seja, tudo é transformado em mercadoria, inclusive o ser humano. Afinal, ele possui apenas a sua força de trabalho, vendendo-a para garantir sua existência e a de sua família. 18 Sociedade capitalista: imensa coleção de mercadorias Dentro dessa sociedade, a produção mercantil tem sua especificidade marcada pela presença de duas classes antagônicas: o capitalista (também chamado burguês), dono do dinheiro e dos meios de produção; e o proletário (operário) que, estando livre para vender sua força de trabalho, é o produtor da riqueza. Nas sociedades onde impera o modo de produção capitalista quanto mais este se desenvolve, mais a lógica mercantil invade, penetra e satura o conjunto das relações sociais: as operações de compra e venda não se restringem a objetos e coisas – é objeto de compra e venda, de artefatos materiais atudo cuidados humanos (NETTO; BRAZ, 2007, p.85). Nem sempre é fácil entender que os indivíduos constroem relações que os desumanizam, ou que os trata como coisa. A apropriação desse conhecimento mais elaborado é algo determinante para que todos realizem escolhas mais conscientes sobre a realidade onde estão inseridos. Vejamos, então, mais um aspecto do processo de produção dentro do sistema capitalista. PAUSA PARA REFLETIR Você já havia pensado nessa condição do homem como mercadoria? 19 1.1.2 Mais-valia Para produzir mercadorias, o capitalista precisa dos (terra, ferramentas e instalações, pormeios de produção exemplo, e das matérias naturais brutas ou já modificadas) e da (NETTO; BRAZ, 2007).força de trabalho Se os meios de produção e a força de trabalho são mercadorias, então é necessário destacar um dado importante: a força de trabalho, ao ser utilizada no processo de produção de mercadorias, gera um valor excedente, maior do que o capitalista pagou para ter direito em explorá-la. Este valor a mais produzido pelo trabalhador e que será apropriado pelo capitalista é chamado de .mais-valia Fonte: © nuvolanevicata / / Shutterstock. Além disso, este valor a mais é o que proporciona a riqueza da classe burguesa. E o problema não está no fato do enriquecimento burguês. Está na miséria socializada entre os que não são proprietários. Eis o ponto. A existência da propriedade privada dentro da sociedade regida pelo capital é desencadeadora da pobreza com a qual muitos humanos vivem e que cabe ao assistente social, entre outros, tentar arrefecer. Contudo, a partir do Movimento de Reconceituação, o contato desses profissionais com a teoria social de Marx, durante o processo de sua formação, promoverá embates calorosos a respeito das diferenças de classes e da questão social, fazendo surgir um posicionamento crítico. O Movimento de Reconceituação foi motivado pelo questionamento dos profissionais do Serviço Social a respeito da sua própria formação e prática social. No entanto, ele não foi homogêneo, nem esteve ligado ao pensamento marxiano em seu início. Segundo Netto (2009), o movimento é constituído por três tendências: a perspectiva modernizadora; a reatualização do conservadorismo e a intenção de ruptura. É somente nesta última tendência, com o trabalho de Iamamoto e Carvalho (1995), que o Serviço Social passará a ter um vínculo claro com o pensamento marxiano. 20 Fonte: © tuk69tuk / / iStock. Assim, como é possível visualizar, não existe uma relação harmoniosa entre burgueses e proletários. Dentro da sociedade capitalista, os primeiros exploram os segundos para obter o lucro desejado. Entre eles há uma diferença antagônica de classes que faz surgir a luta entre burgueses e proletários. Enquanto os exploradores lutam para manter o poder conquistado e que privilegia um número cada vez menor de pessoas, os explorados lutam para eliminar o capital e construir uma sociedade onde não haja exploração do homem pelo homem. E essa luta de classes não se limita à esfera econômica, à fábrica ou ao campo. Ela também se expressa no mundo das ideias. E isso se dá em situações sutis do dia a dia. Na bandeira brasileira, por exemplo, existe a expressão “ordem e progresso”, uma ideia positivista que leva todos os brasileiros a acreditar que, para se obter o progresso, é necessário manter a ordem. Aceita-se essa ideia sem maiores reflexões. Por isso, condenam-se os trabalhadores, professores e estudantes que promovem movimentos contra a exploração existente e contra as desigualdades diárias, pois isso quebra a ordem. Tentam convencer as pessoas (por meio da mídia e das redes sociais) de que não há necessidade dessa baderna. E, assim, transformam a luta dos explorados em simples atitudes de baderneiros, sem explicitar que ali está presente a luta de classes. Afinal, é mais fácil defender o próprio privilégio daqueles que não querem modificar a realidade que lhe é cômoda. O próprio Movimento de Reconceituação, do Serviço Social, também revela essa luta de classes no campo das ideias. Isso porque a profissão sai de uma postura de acomodação, em que os assistentes sociais atuavam com caridade aos pobres, e passa para uma postura crítica diante da realidade. Assim, a assistência passa a ser trabalhada como um direito dousuário e faz com que os profissionais assumam um compromisso com a classe trabalhadora no sentido de promover a transformação da realidade. ESCLARECIMENTO Positivismo é a filosofia que se contrapõe às especulações metafísicas ou teológicas defendidas por Augusto Comte, filósofo que considera as ciências experimentais como modelo para o conhecimento humano. 21 1.1.3 Ideologia No confronto com as ciências (que diz a verdade), a ideologia foi - e ainda é - entendida como um falseamento da verdade. Para Marx, ideologia são as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas sob as quais os homens adquirem consciência do conflito existente entre as forças produtivas materiais da sociedade e as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então (MARX, 2008). Segundo Lessa (2007, p. 72-73, grifos do autor): Com o desenvolvimento da sociabilidade e a complexificação da práxis social, explicita-se com força crescente a necessidade de um conjunto de ideias, valores, etc., mais gerais acerca do mundo e da vida, que organize e confira uma lógica, uma direção aos atos dos indivíduos no interior de cada sociedade. As ideias que, a cada momento histórico, cumprem essa função recebem de Lukács a denominação de ideologia. Com o surgimento das classes sociais, a ideologia passa a exercer, também – sem prejuízo da função anterior -, uma função mais restrita, de instrumento na luta pelo poder entre os diferentes grupos sociais. A ideologia, tanto na sua concepção mais ampla quanto na mais restrita, portanto, é uma função social específica, e não um conjunto de ideações que se caracterizam por ser mais ou menos verdadeiras. Assim, de maneira sintética, pode-se afirmar que os atos sociais que têm como finalidade influenciar no agir dos outros indivíduos são chamados de ideologia. E a ideologia serve, nas sociedades de classes, como instrumento na luta pelo poder, o que é ratificado por Vaisman (2014). A autora diz que a ideologia se manifesta como um instrumento ideal através do qual os homens e as classes se envolvem nas lutas sociais, em diversos planos e níveis. É importante perceber, então, que não é a falsidade das ideias que a torna uma ideologia, mas a função que essas ideias exercem de tornarem conscientes os indivíduos e, assim, agirem sobre essas relações desiguais nas quais estão mergulhados. Como a sociedade é constituída de classes antagônicas, as ideias também refletem esse antagonismo. Apesar dos meios de comunicação e das escolas, por exemplo, difundirem as ideias da classe dominante, isso não impede que as ideias da classe dominada surjam e sejam debatidas nesses espaços. Não existem apenas os intelectuais ligado à classe burguesa; existem os que defendem a classe trabalhadora. E eles revelam o antagonismo de classes: contrapõem-se à naturalização de condições que não são naturais (a existência de ricos e pobres) e, por meio das pesquisas, subsidiam as críticas ao processo desnecessário de destruição desmedida da natureza, comprometendo a existência no planeta apenas para garantir a reprodução do capital. Assim, ao dizer o que a realidade é, as ideias vinculadas à classe trabalhadora cumprem a função social de tornar conscientes os indivíduos explorados e mostrar a necessidade da luta contra o capital. CURIOSIDADE Marxista e marxiano são expressões distintas. Marxista é o conjunto de autores que seguem Marx. Marxiano refere-se à própria obra de Marx. Um texto é marxista quando produzido por um seguidor de Marx e marxiano quando elaborado pelo próprio Marx. 22 Por sua vez, a burguesia faz o mesmo. Contudo, neste caso, ela não pode revelar tudo sobre a realidade porque legitimaria a necessidade de sua destruição enquanto classe, para não destruir a vida na Terra. Aqui a ideologia adquire o aspecto de falseadora porque precisa garantir a reprodução da sociedade capitalista. Mas o faz cumprindo sua função: organizar e dar uma direção aos atos dos indivíduos egoístas burgueses e seus aliados, mesmo que isso implique na defesa de um grupo minoritário em prejuízo da maior parte da humanidade. Basta olhar no entorno que constatamos a vida desarrazoada que vivemos (guerra, fome, desemprego, etc.). Mas os burgueses continuam defendendo seus interesses, fazendo crer que a história foi sempre assim e continuará sendo; enquanto os trabalhadores e seus ideólogos se contrapõem e dizem que não é assim. Que as condições de existência de todos podem (e aqui estamos falando de possibilidade) ser bem distintas. Isso depende da escolha que faremos: vida ao capital ou vida para todos. Cenário sub-humano Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2018. O mapa acima mostra as diferenças históricas entre as regiões brasileiras. As cidades do Norte e Nordeste, por exemplo, continuam apresentando os maiores índices de pobreza: entre 30 a 45% das pessoas vivem com R$ 13 por dia. E essa população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aumentou de 13,5 milhões em 2016 para 15,2 milhões de pessoas em 2017. 23 Os dados referentes ao Brasil não se diferem muito de outros países. Para ampliar seu lucro, o capital tem assumido uma postura cada vez mais agressiva. Essa agressividade se revela não só na violência que vem crescendo assustadoramente, mas na falta de emprego para a maioria das pessoas – inclusive os jovens que têm enfrentado muito essa dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Se não for possível vender essa força de trabalho, como atender as necessidades básicas de comida, casa, saúde e lazer? Condições desfavoráveis como essas fazem com que a população busque alternativas para sobreviver. E assim surgem as condições de subemprego e o aumento da criminalidade oriunda da venda de drogas, roubos, assassinatos e sequestros. Sem perspectivas e sem entender o funcionamento das relações, as pessoas tendem a achar normal atribuir aos pobres toda essa situação caótica que é reproduzida sem questionar. A perspectiva teórica crítica elaborada por Marx - e da qual o Serviço Social acaba se apropriando - possibilita entender que o caos pode ser superado se for superada também a relação do capital e que a riqueza que já foi socialmente produzida pode atender as necessidades de todos de forma efetiva. Além disso, mostra também que, ao invés das pessoas trabalharem tantas horas, essa quantidade de horas de trabalho pode ser distribuída entre mais pessoas, sem o prejuízo de cada trabalhador receber o que lhe é necessário. Essas condições existem de fato e não é dita para que o capital continue explorando quem está inserido no mercado. E a situação é tão cruel que mesmo você alcançando patamares elevados de formação, não há garantia de trabalho. A formação lhe torna empregável, mas não empregado. Se a situação é essa para quem consegue investir na sua formação, imagine para os trabalhadores do campo ou da cidade que não têm a mesma chance. Observando essas condições reais com as quais nos deparamos, dá para entender a crítica ferrenha que se faz ao capital e a necessidade de desvelamento e combate ao mesmo. 1.1.4 Alienação Para entender a alienação é preciso primeiro conhecer alguns aspectos relacionados à forma de ação humana. Todo ato humano é composto de duas etapas. Clique nos ícones e confira. A prévia-ideação - (momento imediatamente anterior à execução do ato). E o ato propriamente dito. Na prática, é o próprio pensar e agir. Contudo, esse movimento, quando executado, ocorre em uma malha de relações que já não corresponde aos limites da cabeça do sujeito que a idealizou. Isso porque deixam de ser controlados pelo seu criador: os objetos criados ou as ideias expostas tornam-se sociais. Um avião, um computador, uma mesa, por exemplo, independem do seu criador e das intenções que ele teve. Depois de criados, os objetos vão ter os mais diversos usos. Para o bem ou para o mal. Ou seja: o ato singular de um sujeito é previamente pensado, mas, após criados, os objetos caem na malha de relações sociaiscom um destino que pode não ter sido pensado por seu criador. Com isso estamos mostrando que o ato realizado pelo sujeito tem uma finalidade, mas a história (composta pelas ações e pelas relações humanas, por exemplo) não apresenta essa finalidade. 24 É assim que, apesar dos indivíduos construírem o seu mundo e desenvolverem suas forças e capacidades criativas, também alimentam, concomitantemente, relações que inviabilizam a continuação dessa evolução. A relação do capital é um exemplo claro disso. Apesar de ter sido criado pelas pessoas, elas não conseguem controlá-lo. É essa relação que dita as regras sob as quais se vive: se os indivíduos não comprarem, não terão acesso à comida, casa, estudo, saúde e outras necessidades, pois, na sociedade regida por ele, o que importa é a sua reprodução e não as carências humanas. As relações capitalistas, que, de forma revolucionária, quebraram as barreiras impostas pelo feudalismo para o desenvolvimento de todos, hoje impedem o processo do devir humano. Aquilo que foi uma relação promovedora de liberdade tornou-se elemento impeditivo do desenvolvimento humano, um promovedor de alienação. O capital, que é uma relação construída pelos humanos, torna-se o dirigente da vida de todos. Assim, o criador (ser humano) está submetido à criatura (capital). Nesse aspecto, os humanos, para se considerarem bem-sucedidos, devem acumular riqueza. As pessoas valem pelo que têm, não pelo que são. Se alguém empresta o seu carro e acontece um acidente, qual é a primeira preocupação? Em geral, é como ficou o carro. Percebe? A coisa é mais importante do que o ser humano! As pessoas despendem todas as suas energias para dar vida a algo que as subjuga. Isso impede o desenvolvimento delas enquanto humanos. Fonte: © SaulHerrera / / iStock. Apesar de produzir a própria riqueza social (a mesa, o computador, o avião, o feijão, o arroz, etc.), o trabalhador não se percebe e não se identifica nela e em tudo o que produz. Ou seja: todo objeto resulta de um tempo de vida que os trabalhadores (subjetividades) despendem para que esse objeto exista. Contudo, na sociedade capitalista existe um estranhamento entre o trabalhador e as coisas que ele cria. Eis a alienação. 1.2 A luta de classes e a economia política Produzir conhecimento não é tarefa fácil. Requer práticas de como proceder a pesquisa e qual método empregar, só para citar alguns exemplos. A forma como a produção do saber é encaminhada gera polêmicas, principalmente no campo das ciências sociais. Um desses aspectos polemizadores é a defesa da neutralidade dessa produção. Há quem defenda, há quem rebata. 25 Vale então uma pergunta: se a sociedade é constituída por classes com interesses distintos, como as ideias que refletem essa realidade podem não ser perpassadas por tal antagonismo? Segundo a perspectiva de Karl Marx, isso não é algo possível. As teorias elaboradas, de maneira explícita ou não, representam interesses das classes existentes. Os interesses antagônicos entre burguesia e proletariado atravessa a esfera da economia e atinge a todas as esferas da existência humana, inclusive o mundo das ideias. Portanto, afirmar uma neutralidade da ciência é cometer um equívoco. Sob a perspectiva marxiana ou mesmo de alguns intelectuais burgueses mais cuidadosos com as condições de existência, pensar uma ciência social neutra é um disparate. Para Marx, a não neutralidade na produção não revela falta de rigor, nem o vínculo do intelectual com determinada classe invalida o seu conhecimento. A questão requer um cuidado maior. Quando a burguesia viveu seu momento revolucionário, defendendo o saber baseado na experimentação, por exemplo, o fez para produzir as mercadorias que necessitava para negociar. Clique nos ícones e acompanhe o que a burguesia necessitava. Precisava dominar a natureza. Conhecê-la para transformá-la. O saber científico veio, então, substituir o saber defendido pela Igreja. A ações da burguesia revolucionária promoviam relações que possibilitavam a humanidade conquistar novos patamares de existência. Contudo, ao conquistar o poder, o perfil transformador de classe é substituído por um viés conservador. A partir de então, a verdade defendida pelos burgueses é parcial: interessa conhecer desde que não colocasse em xeque seu domínio de classe. O papel revolucionário ou conservador de classe não é fruto moral de alguns sujeitos. Essa condição é dada por um conjunto de relações que possibilitam a forma de ser da classe em questão. Hoje, o papel revolucionário não é mais da burguesia. Ela conquistou o poder e o manterá, mesmo que, para isso, destrua a humanidade em defesa de fazer permanecer uma relação altamente destrutiva da natureza e do homem, que é o capital. Nesse contexto histórico, a classe trabalhadora assume esse papel revolucionário. A ela não interessa esconder o que a realidade é. Nem dizer parcialmente a verdade. Um grande defensor dessa classe foi Karl Marx. Para ele, a classe que pode promover a superação da sociedade capitalista é o proletariado porque a ela só interessa a verdade e a objetividade do conhecimento teórico. Para conhecer a sociedade capitalista, Marx estuda a mercadoria, já que ela se apresenta como forma elementar da riqueza constituidora da sociedade onde ele vivia e onde se vive até hoje. Em meio a seus estudos, portanto, estava a economia. Marx toma a produção da economia política clássica e faz a crítica necessária à ela, desvelando a estrutura e a dinâmica econômicas da sociedade capitalista. Entre Marx e a economia clássica havia elementos comuns. Os economistas não queriam simplesmente constituir uma disciplina, mas compreender como funcionava a sociedade onde viviam. Outro aspecto é que eles objetivavam intervir política e socialmente. Esse é o momento em que a burguesia era revolucionária e os economistas clássicos auxiliaram no processo de superação das relações feudais. 26 É importante voltar a assertiva de que à classe trabalhadora só interessa a verdade. Essa postura nada tem a ver com a bondade dos trabalhadores. Veja: ao ser a classe explorada na relação, a ela não interessa manter essa condição, seja no campo material do trabalho, seja no campo das ideias. Desvelar a realidade é algo fundamental para a construção de uma sociedade diferente da capitalista. Por isso da afirmação que para a classe trabalhadora só interessa a verdade: ela é a única classe antagônica ao capital, portanto, sob a perspectiva marxiana, a única classe que pode promover a transformação da realidade. E isso pode ser feito por meio da destruição do capital pelo processo revolucionário encabeçado pela classe trabalhadora com o apoio dos grupos que não se conformam com o processo de exploração sob o qual vive a maior parte das pessoas. 1.2.1 Luta de classes como força motriz da história Na obra , Marx (2008) diz que a história das sociedades é a história das lutas deManifesto do Partido Comunista classes, que acompanhou, impulsionou e desenvolveu toda a história humana. O antagonismo de interesses entre classes se torna ainda mais explícito com o surgimento, na modernidade, das classes burguesa e proletária, o que ajuda a identificar essas classes nos momentos históricos, Marx assim detalha: Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, membro das corporações e aprendiz, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em contraposição uns aos outros e envolvidos em uma luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre com a transformação revolucionária da sociedade inteira ou com o declínio conjunto das classes em conflito (MARX, 2008, p. 8). DICA Leia a introdução do livro , de José Paulo Netto eEconomia Política: uma introdução crítica Marcelo Braz, e procure distinguir o que é , e economia política clássica economia economia . A obra permite superar a visão limitada da economia, assumida quando apolítica para Marx burguesia se põe efetivamente no poder. O livro está disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/525331/mod_resource/content/0/NETTO%2C%20Jos%C3%A9%20Paulo%20%20BRAZ%2C%20Marcelo.pdf 27 https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/525331/mod_resource/content/0/NETTO%2C%20Jos%C3%A9%20Paulo%20%20BRAZ%2C%20Marcelo.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/525331/mod_resource/content/0/NETTO%2C%20Jos%C3%A9%20Paulo%20%20BRAZ%2C%20Marcelo.pdf Fonte: © jcgwakefield / / iStock. Depois da sociedade primitiva, as relações que vieram foram embasadas no processo de exploração das classes dominantes sobre a dominada. Para manter essa exploração, a classe dominante passa a fazer uso de complexos como a política, o Estado e a Administração Pública, por exemplo, como forma de garantir o processo de reprodução das relações sociais e levar os trabalhadores a produzirem o que é determinado por ela e não aquilo de que precisa. Um exemplo disso são as decisões políticas que promovem a venda de empresas públicas para o grande capital, como a Vale. Ou, então, quando o Estado torna-se mínimo no atendimento às carências sociais, estabelecendo uma hierarquização da pobreza para atender o mais carente entre os carentes. Assim, condições concretas de existência, como os limites enfrentados pelos comerciantes para ampliar a produção de suas mercadorias, por exemplo, levaram à derrocada da sociedade feudal. E embora a sociedade atual ainda não tenha superado a relação do capital, é importante observar que tal superação é uma possibilidade que poderá ou não ocorrer. É relevante pensar sobre isso para mostrar que as relações capitalistas não são intransponíveis. Isso só poderia ser admitido se a sociedade capitalista não fosse produto histórico da ação humana. Mas ela é. Portanto, se foi criada por pessoas pode também ser modificada por elas. E a realidade permanece mostrando que a luta de classes continua existindo. O nível de violência, de desemprego e de tantos outros problemas sociais só revelam que a fase impulsionadora do capital já não existe mais. E que, portanto, é preciso refletir e agir com urgência, decidindo sobre os rumos que a história humana precisa tomar. Se as pessoas ainda vivem sob o antagonismo de classes, então precisam conduzir a força desse motor para levar a sociedade a outro patamar de existência. 28 1.2.2 A economia capitalista e o processo de produção A sociedade capitalista certamente sofreu modificações desde o período em que se consolidou (séculos XVIII ao XIX) até hoje. No século XX conviveu com o que alguns autores chamam de socialismo real, que sofre um desmonte no final desse mesmo período. O socialismo real são as tentativas de superação da sociedade comandada pelo capital e que foram implantadas em alguns lugares do mundo, como a antiga União Soviética, Cuba ou China, por exemplo, países ditos comunistas. Fonte: © daseugen / / Shutterstock. Hoje, o capitalismo é o que Netto e Braz (2007) definem como um sistema planetário, devido à sua expansão para o resto do mundo. Não que as experiências pós-capitalistas (as tentativas de superação da sociedade regida pelo capital chamadas de socialismo real) tenham desaparecido de todo, mas a presença do capital em países comunistas é algo inegável na atualidade. Embora considerados comunistas, tais países têm aberto espaço para a presença do capital. Nesse sentido, duas questões devem surgir: a ideia marxiana de comunismo de fato existiu? E, se existiu, esse avanço do capital sobre ele significa que não há alternativa para o capital? Além disso, como já mencionado, a produção capitalista é fundada na exploração do trabalho e é na exploração desse trabalho que advém o lucro burguês. No entanto, o processo de produção sofreu algumas modificações. Inicialmente, ele era mais simples, tinha o dinheiro como um meio de troca (Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria) e objetivava adquirir mercadorias de que precisava. Esse processo é alterado pelo sistema capitalista, que não incentiva a compra mercadorias para atender as necessidades de uso dos indivíduos. Na verdade, ele passa a comprar para vender e obter mais dinheiro. É assim que o dinheiro deixa de ser um meio e passa a ser um fim. 29 Outro aspecto a ser considerado nesse processo de produção é a exploração desenfreada dos recursos naturais para satisfazer a obtenção por mais e mais dinheiro. Embora haja preocupação dos ambientalistas e de pessoas apreensivas com o destino do planeta, a persistência do capital irá sempre levar a dados como os do gráfico a seguir: Quanto tempo vai levar para o plástico desaparecer Fonte: Woods Hole Oceanographic Institution, 2019. PAUSA PARA REFLETIR Realmente há necessidade das pessoas terem dois carros, duas casas, dez sapatos, etc.? Isto é necessidade ou consumismo? 30 Quanto tempo vai levar para o plástico desaparecer Fonte: Woods Hole Oceanographic Institution, 2019. Como o gráfico aponta, a produção abundante de mercadorias e o consumismo exacerbado provocam problemas ambientais a partir de materiais que sujam, contaminam e apresentam dificuldade para se decompor. Assim, para atender a necessidade da reprodução sempre ampliada do capital, o sistema capitalista vai deixando seu rastro de destruição e comprometendo a vida no planeta. E o plástico é só um dos elementos causadores desses problemas graves de poluição ambiental que são noticiados todos os dias. 1.3 Valor, trabalho e sociedade Segundo Lukács (2018), na esteira de Marx, os indivíduos se fazem humanos por meio do trabalho. Ou seja: o que eles são não resulta da genética. Embora tenham um corpo orgânico que os liga à natureza, esse ser natural torna- se social à medida em que, na relação com a natureza, transforma-a para atender suas necessidades. Essa atividade transformadora é o trabalho. O trabalho é que gera o ser gregário que as pessoas são e que criaram as diversas sociedades ao longo da história. Ou seja: o ato do trabalho (seja construindo a mesa mais simples ou a máquina mais complexa) conecta, agrega os indivíduos. Pelo trabalho as pessoas estabelecem relação com a natureza, mas também com ou outros da sua espécie. E é a quantidade de trabalho impresso no que produzimos que determina o valor do produto. Essas informações, inquietante para alguns, nos aproxima da necessidade de estudar essa categoria trabalho. Fonte: © SpicyTruffel / / iStock. Afinal, as pessoas pensam que ele é importante porque as faz ganhar dinheiro. Mas isso só é importante nesta forma de sociedade que existe hoje (a capitalista), pois sem o dinheiro não há acesso às mercadorias. No entanto, sua importância vai além disso. Nas sociedades de classes (antiga, feudal e capitalista), devido ao processo de CURIOSIDADE Você sabia que, hoje, as pessoas só precisam trabalhar 17 minutos por dia produzindo toda a riqueza que é fabricada atualmente? Isso seria possível se os humanos entre os 22 e 50todos anos de idade trabalhassem, o que também solucionaria o grave problema do desemprego. Esse levantamento foi feito pela ONU no fim do século 20 (LESSA, 2017). 31 exploração sob o qual acontece, perde-se de vista o aspecto fundamental do trabalho: o de atender as necessidades humanas (com as coisas criadas) e de criar o próprio homem. Pelo trabalho fomos o homem antigo, medieval, moderno e somos o homem de agora. A humanidade se põe por meio da atividade chamada trabalho. É isso o que o faz importante. 1.3.1 Valor-trabalho: transformação da natureza e constituição do ser social Marx (1988, p.142), ao falar do processo de trabalho, afirma que Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele também modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. O que ele ensina é que, para atenderas próprias necessidades, os indivíduos transformam a natureza. Ao fazer isso, modificam a si mesmos. Imagine, por exemplo, o que acontece quando se faz algo pela primeira vez. Em geral, as pessoas arquitetam diversas possibilidades e maneiras para realizar a tarefa necessária. Mas fazem a sua escolha e efetivam a sua ação. Assim, durante o processo e com o resultado obtido, é possível perceber duas coisas: a realidade foi mudada pelo ato feito e a própria pessoa, como ser humano, também. Afinal, ela adquiriu conhecimento e desenvolveu habilidades. Percebe a mudança? Processo de transformação do homem e da natureza Agora imagine uma linha do tempo que mostra o caminhar do desenvolvimento do ser primata que todos foram um dia e o que se tornaram hoje. A forma como ele atuou sobre a natureza, por meio do trabalho, provocou essa mudança. E isso foi feito em grupo. 32 A primeira experiência de educação, por exemplo, foi feita pelo trabalho. Alguém construiu um objeto (um machado, por exemplo) e ensinou aos outros do bando a construírem também. Importante observar que as construções humanas vêm como respostas às suas necessidades. E que se algo é idealizado por um sujeito, é nas relações com os outros que a produção é feita. O primeiro machado, então, foi construído e continua compondo o quadro de ferramentas desenvolvidas pelos humanos até os dias de hoje. Os indivíduos são predominantemente sociais, sem precisar negar o vínculo com a natureza (há um corpo orgânico). Mas o que caracteriza cada um é essa construção da nossa própria forma de ser social. Assim, sob a perspectiva marxiana, os indivíduos foram forjando a sua própria humanidade durante o processo de atendimento às suas necessidades, ao transformar a natureza em machado, em mesa, em casa. E, ao mesmo tempo em que conhecia a natureza e as suas propriedades que poderiam ser usadas em seu benefício, foram conhecendo a si mesmos. Ou seja: foram percebendo suas capacidades, desenvolvendo habilidades, deixando de ser apenas uma espécie animal e se transformando em ser social. O problema da relação do capital é que ele barra esse desenvolvimento ao concentrar o poder nas mãos de uma classe cada vez mais minoritária e impede o acesso da riqueza socialmente produzida a maior parte dos humanos. Sob a regência do capital, as pessoas estão destruindo a natureza (sem a qual não dá para viver), tanto quanto a si mesmas. Por isso, toda a crítica feita por Marx e seus seguidores, sobre essa relação que já não promove o desenvolvimento dos humanos, faz tanto sentido até hoje. 1.3.2 Práxis, ser social e subjetividade As pessoas se fazem por meio do trabalho, mas o ser social não se reduz a trabalho. Com o desenvolvimento das relações sociais, o trabalho origina complexos que ultrapassam esse mero conceito, como a linguagem, a religião, a educação, a arte, etc. São atividades, portanto, que não transformam a natureza. Para marcar a diferença entre essas atividades e o trabalho, Netto e Braz (2007) apontam a categoria práxis. Segundo esses autores, há a práxis que trata do controle e exploração da natureza (trabalho) e a práxis destinadas a influenciar o comportamento e ação do ser social. Aqui, a atividade não implica em transformar a natureza, mas em influenciar no comportamento humano. A práxis educativa é um exemplo desse último tipo de práxis. A forma de ser humano (ser social) muda ao longo da história. “Em cada estágio do seu desenvolvimento, o ser social é o conjunto de atributos e das possibilidades da sociedade, e esta é a totalidade das relações nas quais os homens estão inseridos” (NETTO e BRAZ, 2007, p.45). Ou seja, o ser social concentra o máximo de humanização construída pela ação e relação dos homens e essa humanização revela-se nos objetos, nos valores, nos projetos sociais existentes. CURIOSIDADE Ser humano e ser social são expressões sinônimas. Quando Raul Seixas diz que “eu nasci há dez mil anos atrás”, não faz referência a ele próprio, ser individual. O humano não começa, nem termina na própria singularidade. 33 Assim, quanto mais as pessoas se apropriam (no sentido de ter acesso e não de propriedade privada) dessas riquezas produzidas, mais humanas elas se tornam. A subjetividade de cada um é produzida com base nas criações existentes, assim como no conjunto de relações nas quais esse ser singular esteja inserido. Por isso, só numa sociedade onde todos os humanos disponham das mesmas condições para socializar-se, a diversidade de sua forma de ser poderá desenvolver-se. Proposta de atividade Agora é a hora de recapitular tudo o que você aprendeu nesse capítulo! Elabore uma apresentação em powerpoint destacando as principais ideias abordadas ao longo do capítulo. Ao produzir sua apresentação considere as leituras básicas e complementares realizadas. Dica: na apresentação em Powerpoint tenha o cuidado de colocar o tema, apresentar os conceitos abordados no capítulo de forma coerente e concatenada. Exemplificar, se possível. Recapitulando Para compreender um processo importante ocorrido no Serviço Social da América Latina – o movimento de reconceituação, autores como Iamamoto (1995) e Netto (2007) nos possibilitaram conhecer alguns elementos da teoria social de Marx. Categorias como trabalho, práxis, valor, mais-valia, etc. foram estudadas para entender a sociedade regida pelo capital. Iamamoto (1995) vai tratar, em seus estudos, dessas categorias no momento em que as relações monopolistas do capital estão se pondo de maneira clara aqui no Brasil, imprimindo modificações consideráveis no cenário brasileiro. E as mudanças sócio históricas rebatem no Serviço Social. A profissão até então influenciada pela igreja católica, passa por um momento de análise crítica onde os profissionais buscam compreender os processos sociais que fazem surgir a necessidade de sua existência na divisão social do trabalho; o sentido das ações do assistente social na esfera das relações entre as classes burguesa e proletária. E não dá para realizar essa tarefa sem contextualizar essa ação. Sem ver a relação entre a profissão e a sociedade na qual realiza suas ações. Nesse sentido, a teoria social de Marx, ao afirmar que o homem se faz por meio do trabalho, possibilitou uma noção de um fazer histórico desnaturalizador da existência humana. Mostrou que a relação mercantil, marca predominante da sociedade regida pelo capital, é construto humano, portanto, passível de ser superada. Que burgueses possuem interesses distintos dos trabalhadores. Que aos primeiros interessa obter o lucro advindo da mais-valia, mesmo que essa riqueza gere, em contrapartida, uma miséria para a maioria dos humanos. Mesmo que a apropriação privada da riqueza submeta o homem a condição de mercadoria. Normalmente, os indivíduos não se percebem enquanto mercadoria. Não notam que estão dentro de uma engrenagem onde são tratados como uma peça como outra qualquer. Se apresentam algum tipo de “defeito” (mão-de-obra não qualificada; problemas de saúde, etc.) são imediatamente substituídos. Vale a pena observar um detalhe: quantos estudantes conseguem seus diplomas todos os anos? Quantos sujeitos conseguem terminar cursos técnicos? O problema é, de fato, falta de qualificação? Vive-se, hoje, sob a regência do capital e não se procura entender seu funcionamento. Naturaliza-se o que é construto humano. Quando se fala em “naturalizar” é porque o que é natural não pode ser mudado. A lei da gravidade vale no Brasil ou no Japão. Se soltarmos um objeto, ele cai. Contudo, as leis que os humanos constroem podem e são modificadas ao longo da história. As relações humanas não são as mesmas nas sociedades antiga, medieval e moderna. Elas mudam. Por isso não dá para aceitar o conformismo de dizer que “sempre foi assim, sempre será assim”. Isso não é verdade. 34 Aceita-se como natural uma relação que nos leva a ter muitas roupas, muitos calçados, muitos perfumes, sem questionar a razão disso. Quanto esse consumo desenfreado vem comprometendo seriamente a existência do planeta? A mídia pedeque os sujeitos economizem água e que saibam onde colocar o lixo, enquanto a grande indústria utiliza uma quantidade de água absurda e despeja seus dejetos nas águas dos rios, provocando verdadeiros desastres ecológicos. Isso não quer dizer que não é importante cuidar do planeta. Mas não basta que o João e a Maria façam isso, enquanto outras nações se recusam a tomar medidas para evitar os problemas de desgaste e poluição ambiental. E isso, para continuar obtendo lucro. Ou seja, que viva o capital, mesmo que morramos todos nós. Frente a todas essas condições problemáticas, a profissão do Serviço Social é uma das mais comprometidas em elucidar as relações sociais sob as quais vivemos. Postura iniciada com o Movimento de Reconceituação. Desde então, encontram-se, dentro do processo de formação e atuação, profissionais comprometidos com a classe trabalhadora, que estudam e produzem textos voltados para a compreensão da sociedade capitalista, no sentido de orientar suas ações junto à população que dela precisa. Fazendo desse trabalho não mais um atendimento enquanto benesse, mas enquanto um direito da pessoa. Estão dadas aqui as linhas para a resposta da questão inicial deste capítulo (a relação entre o Serviço Social e a teoria marxiana). Referências IAMAMOTO, M. V. : trabalho e formação profissional. 26.ed. São Paulo:O serviço social na contemporaneidade Cortez, 2015. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. : esboço de uma interpretaçãoRelações sociais e Serviço Social no Brasil histórico-metodológica. 10.ed. São Paulo: Cortez, 1995. LESSA, S. ! Viva a comuna! Maceió: Coletivo Veredas, 2017.Abaixo a democracia _____. . 3.ed.rev. e ampl. Ijuí: Ed. Unijuí, 2007.Para compreender a ontologia de Lukács _____. Trabalho e luta de classes na “sociedade do conhecimento”. In: JIMENEZ, S.; OLIVEIRA, J. L.; SANTOS, D. (Org.). : teses e conferências do II Encontro Regional de Trabalho, EducaçãoMarxismo, educação e luta de classes e Formação Humana. Fortaleza: EdUECE/IMO/SINTSEF, 2008, p. 25-43. LESSA, S.; TONET, I. . 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008.Introdução à filosofia de Marx LOWY, M. . 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.Método dialético e teoria política LUKÁCS, G. . Maceió: Coletivo Veredas, 2018.Para uma ontologia do ser social MARX, K. . 2.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008.Contribuição a crítica da economia política _____. : crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1988.O capital MARX, K.; ENGELS, F. . 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.A ideologia alemã NETTO, J. P. : uma análise do serviço social no Brasil pós-64. 14.ed. São Paulo: Cortez,Ditadura e serviço social 2009. NETTO, J. P.; BRAZ, M. : uma introdução crítica. 3.ed. São Paulo: Cortez, 2007.Economia política NOVAES, C. E. : a história dos privilégios econômicos. 1.ed. São Paulo: Ática, 2008.Capitalismo para principiantes VAISMAN, E. A ideologia e sua determinação ontológica. In: COSTA, G.; ALCÂNTARA, N. (Org.). . SãoAnuário Lukács Paulo: Instituto Lukács, 2014, p. 73-127. 35 FSSMRALB_C01-C06 FSSMRALB_C01-C04 FSSMRALB_C01-C02 FSSMRALB_C0 FSSMRALB_C01 Compreenda seu livro: Metodologia Compreenda seu livro: Percurso Boxes Apresentação da disciplina A autoria Fabiana Demétrio Micaela Alves Rocha da Costa Rafaela Vieira Veronica Ferreira Pinto Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 1.1 Categorias da teoria marxista 1.1.1 Produção de mercadoria 1.1.2 Mais-valia 1.1.3 Ideologia 1.1.4 Alienação 1.2 A luta de classes e a economia política 1.2.1 Luta de classes como força motriz da história 1.2.2 A economia capitalista e o processo de produção 1.3 Valor, trabalho e sociedade 1.3.1 Valor-trabalho: transformação da natureza e constituição do ser social 1.3.2 Práxis, ser social e subjetividade Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C02 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 2.1. Influência marxista 2.1.1. O militantismo no Serviço Social 2.1.2. O messianismo no Serviço Social 2.1.3. O fatalismo e o Serviço Social 2.2. Interpretações da teoria marxista 2.2.1. Louis Althusser e os Aparelhos Ideológicos de Estado 2.2.2. Os marxismos de Lenin e Trotsky 2.2.3. A incorporação de interpretações marxistas no Serviço Social 2.3. Retorno aos textos de Marx 2.3.1. A obra de Iamamotto & Carvalho 2.3.2. Aplicação da teoria de Marx no Serviço Social Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C03 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 3.1. Proposta teórico-metodológica 3.1.1 Concepção dialética da história 3.1.2 O intelectual orgânico 3.1.3 A filosofia da práxis 3.2 Principais conceitos em Gramsci 3.2.1 Conceito de cultura 3.2.2 Construção da contra-hegemonia Reivindicações da classe trabalhadora e o conceito de hegemonia Domínio e consenso Poder coercitivo 3.2.3 Sociedade civil 3.2.4 Estado ampliado 3.3 Contribuição da teoria de Gramsci para o Serviço Social 3.3.1 Superação do determinismo marxista 3.3.2 Economicismo perde força 3.3.3 Valorização da cultura 3.4 A direção histórica indicada por Gramsci 3.4.1 Protagonismo dos sujeitos 3.4.2 Nova ordem societária Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C04 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 4.1. Serviço Social latino-americano 4.1.1. Asociación Latinoamericana de Escuelas de Trabajo Social (ALAETS) 4.1.2. Centro Latinoamericano de Trabajo Social (CELATS) 4.1.3. Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS) Divulgação no Brasil Renovação no Serviço Social brasileiro Direções da profissão 4.2. Principais escolas de Serviço Social na América Latina 4.2.1. Colômbia 4.2.2. Uruguai 4.2.3. Chile 4.2.4. Argentina 4.3. Militarismo na América Latina 4.3.1. Golpes militares Movimento e ditadura Leitura marxista Seminários e ações da CBCISS Ampliação dos cursos de Serviço Social 4.3.2 A Reconceituação inconclusa Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C05 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 5.1 Movimento de Reconceituação 5.1.1 Reconceituação brasileira 5.1.2 Bases sócio-políticas 5.2 Intenção de ruptura 5.2.1 Proposta metodológica da intenção de ruptura 5.2.2 Influência da teoria marxista na construção da metodologia 5.2.3 Método Belo Horizonte: uma proposta alternativa 5.2.4 Crítica ao método de Belo Horizonte (BH) Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C06 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 6.1. Especificidades do Serviço Social 6.1.1 Processo para a construção do objeto profissional 6.1.2 A diversidade de objetos 6.2. Perspectiva libertadora 6.2.1 A realidade social como objeto 6.2.2 A formação de consciência 6.2.3 A ação libertadora 6.3. A busca de um conhecimento 6.3.1 A dialética do conhecimento Sujeito e objeto do conhecimento em relação dialética A totalidade dos fenômenos Conhecimento concreto 6.3.2 A relação sujeito-objeto-objetivos Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C07 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 7.1 Instituições como espaços de prática 7.1.1 Instituições como aparelhos funcionais 7.1.2 Instituições como reprodução da força de trabalho 7.1.3 Instituições como espaço de contradições 7.2 Prática do Serviço Social nas instituições 7.2.1 O Estado como espaço de prática Estado como espaço de exercício profissional Conceito de Estado Confusão conceitual 7.2.2 Articulação com a sociedade 7.2.3 Articulação com os movimentos sociais 7.3 Instituições como espaços de transformação 7.3.1 Objeto profissional e objeto institucional 7.3.2 Possibilidades de transformações institucionais Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSMRALB_C08 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 8.1 A metodologia e a Reconceituação8.1.1 Ação política e a teoria dialética 8.1.2 O paradigma das correlações de forças 8.1.3 Polarização 8.2 As ideologias do Serviço Social reconceituado 8.2.1 Liberal 8.2.2 Desenvolvimentista 8.2.3 Revolucionária 8.3 Sistematização do trabalho social 8.3.1 A construção de uma proposta metodológica de atuação 8.3.2 Ciência e técnica social 8.3.3 A ação profissional, atores e a estrutura 8.4 Aplicação da teoria reconceituada 8.4.1 O assistente social como intelectual orgânico 8.4.2 O profissional como sujeito da história Proposta de atividade Recapitulando Referências Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Página em branco