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Eloiza da Silva Gomes de Oliveira Elma Correa de Lima Márcia Souto Maior Mourão Sá Princípios e Métodos de GESTÃO ESCOLAR INTEGRADA IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Todos os direitos reservados. © 2007-2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autoriza- ção por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Júpter Images/DPI Images CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ O46p Oliveira, Eloiza da Silva Gomes de, 1950- Princípios e métodos de gestão escolar integrada / Eloiza da Silva Gomes de Oliveira, Elma Correa de Lima, Márcia Souto Maior Mourão Sá. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2009. 372 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-0418-8 1. Escolas - Organização e administração. 2. Administradores escolares - For- mação. I. Lima, Elma Correa de, II. Sá, Márcia Souto Maior Mourão, 1941-. III. Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino. IV. Título. 09-4495. CDD: 371.2 CDU: 37.091 Doutora em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Psicologia Escolar pela Universidade Gama Filho (UGF). Licen- ciada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Peda- gogia pela Sociedade Unificada Augusto Motta. Autora de material didático para a Educação a Distância dos Cursos de Licenciatu- ra do Consórcio UERJ / CEDERJ, da Fundação Getulio Vargas e do IESDE. Diretora da Faculdade de Educação da UERJ no quadriênio 2004 – 2007. Eloiza da Silva Gomes de Oliveira Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Graduada em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Currículos Específicos para Níveis e Tipos de Edu- cação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, códigos sociais, cultura escolar, currículo e cotidiano escolar. Márcia Souto Maior Mourão Sá Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialização em Teoria e Prática de Administração I e II pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestrado em Educação pela Pontifícia Universi- dade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Planejamento e Avaliação Educacional. Elma Correa de Lima Sumário Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I .................................................. 13 Introdução: gestor ou administrador? ............................................................................... 13 Teorias da Administração: evolução histórica e características ................................ 14 Teorias tradicionais de gestão .............................................................................................. 15 Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II ................................................. 33 Teorias modernas de gestão ................................................................................................. 33 Teorias emergentes de gestão.............................................................................................. 39 Aplicações das Teorias da Administração à Gestão Escolar ....................................... 40 A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação .................................... 53 Alguns indicadores do cenário educacional brasileiro ................................................ 53 Da instituição que ensina à instituição aprendente ..................................................... 57 Mudança institucional ............................................................ 73 A mudança institucional e seus níveis de ocorrência .................................................. 73 Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar ........... 89 A Teoria Neobehaviorista: Skinner ...................................................................................... 90 A Teoria de Campo: Kurt Lewin ............................................................................................ 94 O referencial psicanalítico ...................................................................................................... 99 Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar ..........111 Motivação na instituição escolar ......................................133 Autoridade e poder do gestor escolar ............................151 Gestão Escolar: consenso e conflito ................................165 Gestão e autonomia da escola ..........................................187 O Projeto Político-Pedagógico: o exercício de responsabilidade coletiva, criatividade e autonomia da escola ..................................................................................189 Gestão Escolar e políticas de educação ..........................................................................193 A complexidade da gestão da sala de aula ...................207 Habilidades de gestão instrucional ..................................................................................212 Sequenciar e integrar atividades instrucionais adicionais .......................................213 Formação do educador e formação do gestor ............229 Quem educa o educador? ....................................................................................................229 Breve histórico da formação do educador .....................................................................231 Abordagens teóricas significativas sobre a formação do professor .....................233 A importância da formação continuada .........................................................................241 Sobre a formação do gestor escolar .................................................................................243 Gestão e ação gestora na Educação Básica ..................257 Ação Gestora na Educação Infantil e Ensino Fundamental ......................................257 Ação gestora no Ensino Médio ...........................................................................................265 Currículo: a imagem de uma escola .................................................................................270 Efeitos negativos da ação gestora: estresse e burnout .................................................................279 O estresse e a vida cotidiana ...............................................................................................279 Burnout e mal-estar docente ...............................................................................................285 A gestão colegiada e seus efeitos na escola .................297 As várias modalidades de Gestão Escolar.......................................................................299 Formação e atuação da equipe técnico-pedagógica da escola .....................313 Um perfil das atribuições específicas dos componentes da equipe técnico-pedagógica da escola .................................315 As atribuições gerais da equipe técnico-pedagógica da escola ............................318 Equipe técnico-pedagógica da escola: cinco aspectos da missão institucional ...........................................................................320 Gestão Escolar e avaliação de sistemas educacionais ...............................................326 Gestão Escolar e avaliação institucional .........................................................................327 Gabarito .....................................................................................339 Referências ................................................................................359Apresentação Parece-nos quase desnecessário destacar a importância da Gestão Escolar, mas é importante dar relevo à amplitude do seu conceito e do seu âmbito de ação. Libâneo conceitua a gestão como sendo o conjunto de todas as atividades de coordenação e de acompanhamento do trabalho das pessoas, envolvendo o cumprimento das atribuições de cada membro da equipe, a realização do traba- lho em equipe, a manutenção do clima de trabalho, a avaliação de desempenho. Ainda segundo o autor, essa definição se aplica aos dirigentes escolares, mas é igualmente aplicável aos professores, seja em seu trabalho na sala de aula, seja quando são investidos de responsabilidades no âmbito da organização escolar. Não é suficiente, no entanto, falarmos de Gestão Escolar; é necessário acres- centar-lhe o adjetivo “democrática”, para que ela se torne efetiva e tenha impactos realmente positivos sobre a escola. Libâneo, ao falar da gestão democrática, atribui-lhe forte ênfase sobre as rela- ções humanas e sobre a participação das decisões com as ações efetivas da ins- tituição escolar. Segundo ele, essa gestão tem como princípios a “autonomia da escola e da comunidade educativa”, que deve participar ativamente da tomada de decisões escolares. Sendo assim, esses conceitos como descentralização, democratização e auto- nomia da escola ganham atualidade e significado. A construção deles torna-se a verdadeira base do processo decisório hoje. Tal processo de construção apresenta conflitos e contradições e necessita, por parte de todos os envolvidos, e do gestor em especial, responsabilidade, transparência e gosto pela democracia. Embora seja trabalho coletivo, o estabelecimento da gestão verdadeiramente democrática requer liderança, monitoramento e avaliação, além da valorização do diálogo, do respeito e do desenvolvimento da autonomia de todos os atores institucionais. Cabe ainda uma palavra especial sobre a formação do gestor escolar. No mo- mento em que os cursos de formação inicial (graduação em Pedagogia), por força das Diretrizes Curriculares emanadas do MEC, não mais realizam esta formação, que recai na educação continuada. Temos clareza de que a formação continuada do gestor escolar não pode ser concebida como um meio de acumulação de conhecimentos ou técnicas, mas sim através de um trabalho de reflexão crítica sobre as práticas e de (re) constru- ção permanente de uma identidade pessoal e profissional em interação mútua. (CANDAU, 1997) Neste ponto reside a importância deste livro, que busca fundir teoria e prática, contextualizar os conteúdos apresentados e trabalhar com uma proposta “aberta” e flexível, que propicie a reflexão e a crítica em consonância com a formação de gestores escolares. Além do enfoque interdisciplinar da ação do gestor escolar, envolvendo a Ad- ministração, a Psicologia, a Filosofia, a Sociologia e a própria Pedagogia, discute assuntos fundamentais para este profissional, como liderança, gestão de confli- tos, mudança institucional, motivação, formação e atuação da equipe técnico- pedagógica da escola em uma ação colegiada, entre outros. Esperamos que este livro contribua efetivamente para a formação de gestores escolares, para que sejam verdadeiras lideranças. Eloiza da Silva Gomes de Oliveira Introdução: gestor ou administrador? Esta aula abordará as principais Teorias da Administração, apresentan- do brevemente algumas teorias consideradas clássicas, seus fundadores e princípios. Posteriormente será estabelecido uma relação entre essas teo- rias e a Gestão Escolar. Iniciaremos com a conceituação dos termos gestão e administração. Ambos têm origem latina (gerere e administrare). O primeiro termo (gerere) tem o sentido de governar, conduzir, dirigir. O segundo termo (adminis- trare), tem um significado mais restrito – gerir um bem, defendendo os interesses daquele que o possui – constituindo-se em uma aplicação do gerir. Para outros autores, como Wittmann e Franco, no entanto aplicam esses termos como uma instância inerente à prática educativa, que abrange o conjunto de normas/ diretrizes e práticas/atividades que garantem, de um lado, o significado ou o sentido histórico do que se faz e, de outro lado, a unidade do conjunto na diversidade de sua concretização. A administração da educação engloba as políticas, o planejamento, a gestão e a avaliação da educação. (1998, p. 27) Assim, entendida como uma ampla coordenação de esforços para rea- lizar a implementação de políticas e planos, a gestão passa a ser uma parte da administração. Sem pretender aprofundar essa polêmica, quando falamos em Gestão Escolar trata-se, numa visão atual, do conjunto de funções desempenhadas pelos “atores institucionais” da escola (ou seja, toda a comunidade escolar), com diferentes graus de complexidade e responsabilidade, coordenadas pela equipe técnico-pedagógica, encabeçada pelo diretor da escola. Já fica claro, portanto, que desvinculamos da figura do diretor da escola todas as características de autoridade máxima, unipessoalidade, centralização, Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 14 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada linha hierárquica, ênfase e relevo único – e às vezes onipotência – que lhe eram atribuídas há alguns anos (em especial na década de 1970). Na década de 1980, com a redemocratização da sociedade brasileira, isso começa a ser questionado e a direção colegiada surge nas escolas. O termo “gestor”, amplamente utilizado na atualidade, amplia as competên- cias exigidas deste profissional, demandando uma visão ampla, dinâmica e ar- ticulada, conjugando decisão e avaliação constantes. Seja qual for a concepção utilizada, entendemos que o conhecimento histórico das Teorias da Administra- ção, aplicando-as à realidade escolar, é fundamental para a formação do gestor. Teorias da Administração: evolução histórica e características Em vez de apresentarmos uma sucessão de teorias, com seus vários autores de destaque, falaremos de grandes paradigmas que dominaram o cenário da Administração, em ordem cronológica, discutindo-os brevemente e verificando alguns dos seus impactos no cenário da escola. Antes, porém, uma pergunta: Você sabe o que é um paradigma? Kuhn (1992, p. 29) afirmou que paradigmas são “realizações reconhecidas du- rante algum tempo por uma comunidade científica específica, proporcionando os fundamentos para sua prática posterior.” Não é, portanto, um simples modelo, mas uma explicação da realidade em constante reformulação, buscando fazê-lo de forma cada vez mais clara e completa. É a evolução histórica de paradigmas que faz a ciência evoluir. Então, vamos conhecer alguns desses paradigmas, expressos nas Teorias da Administração que lhes foram contemporâneas? Optamos por apresentar três grandes blocos históricos, como o fazem Ferreira et al. (2000). Embora eles se refiram à administração de empresas, podemos adaptar esses blocos teóricos à gestão da escola: Teorias tradicionais de gestão. � Teorias modernas de gestão. � Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 15 Teorias emergentes de gestão. � A escola é uma organização e, como as demais, tem as características desta- cadas por Schein (1982): objetivos comuns, cujo atingimento é meta de todos os que transitam na � organização; divisão de trabalho, por meio da diferenciação de funções; � integração, por meio de um esquema de atribuições que define a esfera � de responsabilidade de cada um; coordenação dos esforços e meios disponíveis, no sentido da ajuda mútua � e da consecução dos objetivos comuns. Aqui incide, fundamentalmente, a gestão. Teorias tradicionais de gestão A origem deste conjunto teórico coincide com as enormes transformações trazidas pela Revolução Industrial. O aparecimento das fábricas fezsurgir um pri- meiro paradigma, que defendia a produção racionalizada, a supervisão estreita e contínua, a obediência hierarquicamente estruturada e a divisão de tarefas. Tais teorias tiveram enorme importância histórica e ganharam destaque até a década de 1960. No início do século XX, dois engenheiros desenvolveram trabalhos revolucio- nários em relação à Administração. Um deles era o americano Frederick Winslow Taylor, criador da Escola de Administração Científica; o outro era o francês Henri Fayol, criador da Escola Clássica de Administração. Taylor e a Administração Científica Nascido em 1856, na Filadélfia, Estados Unidos, a obra de Taylor é usual- mente dividida em duas partes. A primeira corresponde ao período de traba- lho na empresa Midvale Steel, com estudos sobre a racionalização do trabalho dos operários, por meio do estudo de tempos e movimentos. Ele analisava deta- lhadamente as tarefas dos operários, decompondo-as nos menores movimen- tos e processos, aperfeiçoando-as e racionalizando-as. A segunda corresponde à publicação da obra clássica Princípios de Administração Científica (1911), em 16 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada que afirmava que a racionalização do trabalho operário deveria ser acompa- nhada de uma reestruturação geral da empresa, de acordo com os princípios que ele propôs. Criticava as empresas em três pontos: a vadiagem sistemática dos trabalha- dores e o desconhecimento pela gerência, as rotinas do trabalho desenvolvido e a falta de uniformidade das técnicas e métodos de trabalho. Assim Taylor falava da Administração Científica: A administração é uma ciência que não encerra, necessariamente, invenção, nem descobertas de fatos novos ou surpreendentes. Consiste, entretanto, em certa combinação de elementos que não fora antes realizada, isto é, conhecimentos coletados, analisados, agrupados e classificados, para efeito de leis e normas que constituem uma ciência, seguida de completa mudança na atitude mental dos trabalhadores e da direção, quer reciprocamente, quer nas respectivas atribuições e responsabilidades [...] (1963, p. 126). Fica claro que, neste enfoque, a improvisação dá origem ao planejamento e o empirismo, à ciência. O objetivo desta forma de administração seria contemplar a identidade de interesses entre patrão e empregado (o máximo de prosperi- dade), conjugando o baixo custo da produção, desejado pelo empregador, aos altos salários, anseio dos empregados. Taylor separou as atividades de planejamento e supervisão (administração) das atividades de execução (operários), propondo uma “Organização Racional do Trabalho” (ORT), cujos princípios eram: Seleção científica do trabalhador: é necessário colocar o homem para de- � sempenhar a tarefa mais adequada ao seu perfil de aptidões e interesses. Estabelecimento de um tempo, um padrão para a execução de cada tarefa: � isto é obtido por meio da minuciosa análise do trabalho (desenho de car- gos e tarefas) e do estudo de tempo, movimentos e da fadiga humana. Plano de incentivos salariais: a remuneração do trabalhador deve ser com- � patível com a sua produção, estabelecendo-se prêmios por produção. Divisão do trabalho: cada tarefa deve ser dividida no maior número pos- � sível de subtarefas, pois assim o trabalhador se especializará ao máximo, aumentando a eficiência da sua produção. Supervisão funcional: também especializada – por áreas – a supervisão � significa controle rígido do trabalho dos funcionários. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 17 Padronização das tarefas, com ênfase na eficiência: existe uma única ma- � neira de executar uma tarefa (the best way) e ela deve ser descoberta e imposta aos trabalhadores. Estabelecimento de boas condições físicas de trabalho: isto influi direta- � mente na produtividade e na eficiência, em virtude do bem-estar físico e da diminuição da fadiga do trabalhador. Fica claro perceber que esta abordagem, embora revolucionária, sofreu inú- meras críticas. Procuramos sintetizá-las no quadro abaixo: Utilização da visão do � Homo economicus – visão estreita do homem como movido apenas por interesses econômicos, preguiçoso, limita- do e mesquinho, que precisa ser controlado por meio da racionaliza- ção de tarefas e do tempo-padrão, e vigiado pela supervisão. Enfoque mecanicista do homem – a organização de trabalho é vista � como uma máquina, que deve funcionar de maneira ótima; o homem constitui-se, assim, apenas em uma engrenagem desta máquina, sen- do desvirtuado da sua condição humana. Exploração dos trabalhadores – a Administração Científica contribui � para legitimar a exploração dos trabalhadores, enfatizando decisiva- mente os interesses dos patrões. Superespecialização do trabalhador – a fragmentação da tarefa reduz � a demanda de qualificação do trabalhador, tornando o trabalho monó- tono e repetitivo e alienando cada vez mais o homem ao seu trabalho. Abordagem fechada – desconhece o ambiente da empresa (tanto in- � terno quanto externo) e as influências que ele tem sobre todo o pro- cesso de produção. A Administração Científica de Taylor teve muitos seguidores, destacando-se Gilbreth, Gantt e Henry Ford, lançador do primeiro carro popular americano pro- duzido em escala industrial (o Ford T, em 1908). 18 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Fayol e a Teoria Clássica da Administração Enquanto, nos Estados Unidos, Taylor desenvolvia os estudos da Administra- ção Científica, centrada nas tarefas, o engenheiro francês Henri Fayol defendia princípios bastante semelhantes, mas com uma ênfase maior na estrutura. Segundo Chiavenato (1998, p. 87): A preocupação com a estrutura da organização como um todo constitui, sem dúvida, uma substancial ampliação do objeto de estudo da Teoria Geral da Administração [com relação à abordagem Taylorista das tarefas]. Fayol, um engenheiro francês, partiu de uma abordagem sintética, global e universal da empresa, inaugurando uma abordagem anatômica e estrutural, que rapidamente suplantou a abordagem analítica e concreta de Taylor. Fayol postulou 14 princípios gerais da Administração. Vejam como se asse- melham, em muitos aspectos, às ideias enunciadas por Taylor. Divisão do trabalho: a especialização das tarefas e das pessoas conduz a � uma maior eficiência e ao aumento da produtividade. Autoridade e responsabilidade: o direito de dar ordens e ser obedecido (auto- � ridade) pertence aos supervisores, enquanto a obrigação de obedecer com- pete aos trabalhadores de escalões hierarquicamente inferiores. Existe uma reciprocidade, pois quanto maior é a autoridade, maior a responsabilidade. Disciplina: existe a necessidade da existência de normas de conduta e de � trabalho, válidas para todos os trabalhadores, que devem ser obedecidas, para que a empresa não mergulhe no caos. Unidade de comando: é necessário que o trabalhador receba ordens de � uma autoridade única, evitando a existência de contraordens. Unidade de direção: deve haver a aplicação de um plano único para cada � grupo de atividades com os mesmos objetivos. Prevalência dos interesses gerais: deve haver a subordinação dos interes- � ses individuais aos interesses coletivos. Remuneração de pessoal: deve ser justa, para garantir a satisfação dos em- � pregados e da organização. Centralização: deve haver a concentração da autoridade nas funções mais � elevadas da organização. Cadeia escalar ou hierarquia: a linha de autoridade deve estabelecer-se do � nível mais alto ao mais baixo da estrutura hierárquica. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 19 Ordem: mantida em toda a organização, deve ser material e humana: “um � lugar para cada coisa ou pessoa e cada coisa ou pessoa em seu lugar”. Equidade: na empresa deve prevalecer a justiça, pois esta traz a lealdade� dos empregados. Estabilidade e duração do pessoal: quanto mais tempo as pessoas forem � mantidas em seus cargos, melhor, pois a rotação (turnover) possui efeito negativo. Iniciativa: deve-se estabelecer um plano e cumpri-lo, assegurando o seu � sucesso. Espírito de equipe ( � sprit de corps): a comunicação entre as equipes deve ser facilitada, garantindo um clima organizacional de harmonia e união. Coube a Fayol enunciar as funções da gerência administrativa, como ele mesmo chamou. Elas possuem bastante atualidade, embora, como já dissemos, a década de 1980 tenha trazido profundas mudanças no que concerne às funções do gestor. Essas funções são enumeradas em cinco, a saber: Planejar � ou prever – estabelecer os objetivos e as formas de consecução dos mesmos, visualizando o futuro e traçando os programas de ação. Organizar � – coordenar todos os recursos da organização, em função dos objetivos definidos. Comandar � – fazer com que as pessoas executem as tarefas que lhes são atribuídas, respeitando a hierarquia existente. Coordenar � – articulação de atitudes e esforços de toda a organização, tendo em vista os objetivos traçados. Controlar � – estabelecer padrões e medidas de desempenho que permi- tam verificar que tudo ocorra de acordo com as regras estabelecidas e com as ordens dadas. Henri Fayol teve seguidores, como Elton Mayo, Argirys e Likert. Da mesma forma que a Administração Científica, a Teoria Clássica recebeu críticas bastante pertinentes: Obsessão pelo comando – a visão da organização pela ótica gerencial le- � vou à centralização no comando, na autoridade e na responsabilidade. 20 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Empresa como sistema fechado – trata-se da mesma crítica atribuída a � Taylor, por desconhecer o contexto interno e externo à organização, o que inviabilizaria qualquer planejamento. Manipulação dos trabalhadores – é outra crítica comum à Administração � Científica e à Teoria Clássica: a tendenciosidade favorável aos patrões. Elton Mayo e a Escola de Relações Humanas Os estudos de Kurt Lewin sobre o comportamento dos grupos sociais e as experiências realizadas por Elton Mayo e sua equipe na fábrica da Western Electric Company (Hawthorne, Chicago) marcaram, na década de 1930, o início da preocupação com o fator humano na administração. Ao tentar determinar a relação existente entre a intensidade da iluminação e a eficiência dos operários (produtividade), Elton Mayo desmentiu alguns pres- supostos da Administração Científica e estudou as relações entre a organização informal dos operários e a organização formal da fábrica. As conclusões do ex- perimento definiram os princípios da chamada “Escola de Relações Humanas” da Administração. São eles: Nível de produção como resultante da integração social � – o nível de competência e eficiência do trabalhador é estabelecido pela capacidade social do trabalhador e não pela sua capacidade de executar movimentos eficientes dentro de um tempo previamente estabelecido. O homem não age individualmente, mas integrado socialmente ao grupo de trabalho, e isto amplia a sua disposição para o mesmo. A Teoria Clássica não percebeu que não são os trabalhadores que definem sua capacidade máxima de produção, mas os grupos com os quais eles estabelecem interação. Des- vios de comportamento do indivíduo provocam retaliações simbólicas, por parte do grupo do qual faz parte. Recompensas e sanções sociais � – as pessoas são avaliadas pelos grupos de que participam, de acordo com normas que o próprio grupo cria para si. São consideradas boas companheiras e colegas, se o seu comporta- mento se ajusta a essas normas e padrões de comportamento e são avalia- das como más, se o seu comportamento transgride tais normas e padrões. Embora essas recompensas sejam simbólicas e não materiais, influenciam fortemente a motivação e a felicidade do trabalhador. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 21 Grupos informais � – a empresa passou a ser concebida como uma organiza- ção social composta por grupos sociais informais, cuja estrutura nem sem- pre coincide com a organização formal da empresa. Esses grupos informais constituem a organização humana da empresa, muitas vezes em contrapo- sição à organização formal estabelecida pela direção. Os grupos informais definem as suas regras de comportamento, as formas de recompensas ou sanções sociais, seus objetivos, sua escala de valores sociais, crenças e ex- pectativas, que cada participante vai assimilando e integrando às suas atitu- des e comportamentos. Relações humanas � – para explicar e justificar o comportamento das pes- soas na organização, a Teoria das Relações Humanas estudou as interações sociais surgidas dentro da mesma, em face do grande número de grupos e de interações necessariamente resultantes; a compreensão da natureza dessas relações humanas permite ao administrador obter melhores resul- tados de seus subordinados. A importância do conteúdo do trabalho � – a maior especialização (e fragmentação) do trabalho não é a forma mais eficiente de divisão desse trabalho, pois não cria, necessariamente, a organização mais eficiente. O conteúdo e a natureza do trabalho têm enorme influência sobre o moral do trabalhador. Ênfase nos aspectos emocionais � – os teóricos das Relações Humanas atribuem grande atenção aos aspectos emocionais do comportamen- to humano. Participação nas decisões � – embora dependa da situação envolvida e da posição na estrutura hierárquica, a participação de todos os trabalhadores no processo decisório da organização estimula a produtividade e a inicia- tiva dos mesmos. Alguns teóricos importantes das Relações Humanas são Sheldon, Marrow, Tead e Follett. Sistematizando as principais críticas sofridas por este enfoque, temos: Negação do conflito entre o trabalhador e a empresa – a teoria superfi- � cializa o tratamento do problema negando a existência de conflitos que surgem da diferença das metas e objetivos da empresa e do trabalhador. 22 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Ausência de critérios inovadores de gestão – falta a esta teoria a indicação � de estratégias para o alcance de melhores resultados para a empresa e para o trabalhador. Excesso de ênfase nos grupos informais – este enfoque trata como ilimita- � da a influência dos grupos, supervalorizando-as. Concepção utópica do trabalhador – apresenta uma visão idealizada do � trabalhador (plenamente satisfeito e integrado ao ambiente de trabalho). Restrição das variáveis e da amostra – esta teoria trabalhou com poucas � variáveis e com uma pequena amostra de organizações, o que torna os seus resultados discutíveis. Estabelecimento de procedimentos de “espionagem“ – a abertura de um � espaço para a participação dos trabalhadores foi utilizada, com frequên- cia, como uma forma de saber das ideias e insatisfações dos trabalhado- res, para uso da administração. As Teorias X e Y de McGregor Na década de 1930, Douglas McGregor, insatisfeito com a inadequação do modelo de relações humanas à realidade empresarial e influenciado pela Teoria Comportamental – ou Behaviorismo – focou seus estudos na relação entre o sucesso de uma organização e a capacidade que ela tem para prever e controlar o comportamento. Ele construiu duas teorias constrastantes: a Teoria X, em que a autoridade determina a direção e o controle, e que ele considera inadequada, e a Teoria Y, em que é a integração que legitima a autoridade e busca-se a integração entre os objetivos pessoais e os organizacionais. O quadro abaixo, adaptado de Ferreira et al. (2000, p. 44), estabelece uma comparação entre os dois modelos propostos por McGregor: Teoria X Concepção tradicional de direção e controle Teoria Y Integração entre os objetivospessoais e organizacionais As pessoas são preguiçosas e indolentes, têm aversão natural ao trabalho. As pessoas são esforçadas e gostam de ter o que fazer. As pessoas evitam o trabalho. O trabalho é uma atividade tão natural quanto brincar ou descansar. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 23 Teoria X Concepção tradicional de direção e controle Teoria Y Integração entre os objetivos pessoais e organizacionais As pessoas evitam a responsabilidade a fim de se sentirem mais seguras. As pessoas procuram e aceitam responsabili- dades e desafios. As pessoas precisam ser controladas e dirigidas, coagidas, para que trabalhem. As pessoas podem ser automotivadas e auto- dirigidas em relação aos objetivos que preten- dem. As pessoas são ingênuas e sem iniciativa. As pessoas são criativas e competentes. A participação dos trabalhadores é um instru- mento de manipulação dos mesmos. A participação dos trabalhadores é uma forma de valorização das suas potencialidades. O ser humano é carente e se esforça para satis- fazer uma hierarquia de necessidades. O compromisso com um objetivo depende das recompensas associadas à sua consecu- ção. O líder assume um estilo autocrático. O líder assume um estilo participativo. A Teoria Y desenvolve um estilo de administração muito aberto e dinâmico, extremamente democrático, por meio do qual administrar é um processo de criar oportunidades, liberar potenciais, remover obstáculos, encorajar o cresci- mento individual e proporcionar orientação quanto a objetivos. Segundo McGregor, a Teoria Y é geralmente aplicada nas empresas com um estilo de direção baseado em uma série de medidas inovadoras e humanistas, dentre as quais salienta as seguintes: Descentralização das decisões e delegação de responsabilidades. � Ampliação das funções inerentes a cada cargo, para atribuir maior signi- � ficado ao trabalho. Participação nas decisões mais altas e administração consultiva. � Autoavaliação do desempenho do trabalhador. � Teoria Sistêmica A Teoria Sistêmica, que teve destaque na década de 1960, parte do estabele- cimento de um paralelo entre os organismos vivos e as organizações. Trata-se de uma teoria interdisciplinar, elaborada inicialmente pelo biólogo alemão Ludwig 24 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada von Bertalanffy, buscando transcender os problemas exclusivos de cada ciência e proporcionar princípios e modelos gerais para todas as ciências envolvidas, de modo que as descobertas efetuadas em cada ciência pudessem ser utilizadas pelas demais. Os sistemas podem ser fechados ou abertos. Sistemas fechados: são os sistemas que não apresentam intercâmbio com � o meio ambiente que os circunda, pois são herméticos a qualquer influên- cia ambiental. Sistemas abertos: são os sistemas que apresentam relações de intercâm- � bio com o ambiente, através de entradas e saídas. As organizações são sistemas do segundo tipo e compostas por cinco parâmetros: a) Entrada, insumo ou impulso (input) – é o conjunto de insumos que o sistema extrai do ambiente fornecendo o material ou energia para a ope- ração do sistema. b) Saída, produto ou resultado (output) – são os produtos, serviços ou informações que o sistema retorna ao ambiente, como resultado do processamento. c) Processamento – competências, procedimentos e tecnologia emprega- dos pela organização para a transformação do input. d) Retroação, retroalimentação ou retroinformação (feedback) – retorno das informações para alimentar o sistema. e) Ambiente – é o meio que envolve externamente o sistema. O sistema aberto recebe entradas do ambiente, processa-as e efetua saídas nova- mente ao ambiente, de tal forma que existe entre ambos – sistema e am- biente – uma constante interação. A Teoria de Sistemas baseia-se no conceito do “homem funcional”, que de- sempenha um papel dentro das organizações, relacionando-se com os demais indivíduos como um sistema aberto. A perspectiva sistêmica trouxe uma nova maneira de ver as coisas, não so- mente em termos de abrangência, mas principalmente quanto ao enfoque do Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 25 todo e das partes, de dentro e de fora, do total e da especialização, da integração interna e da adaptação externa, da eficiência e da eficácia. Essa visão gestáltica e global das coisas privilegia a totalidade e as suas partes componentes, sem desprezar o que chamamos de emergente sistêmico (as propriedades do todo que não aparecem em nenhuma de suas partes). Antes de concluirmos a aula, porém, vamos responder a uma pergunta que os alunos sempre fazem, quando tratamos de Teorias da Administração: O que é burocracia? Na linguagem corrente, burocracia é sinônimo de emperramento, de lentidão no processo administrativo. Na sua origem, no entanto, o significado era com- pletamente diferente. A burocracia constitui uma forma de associação humana que se baseia na racionalidade, ou seja, na adequação dos meios aos fins, para se alcançar com a máxima eficiência os objetivos de uma organização. Historicamente, a “ideologia da burocracia” nasceu de um novo conjunto de normas de comportamento e produção, que Max Weber denominou de “ética protestante”: trabalho duro, ascetismo, poupança e objetividade (sem vaida- de). Essas ideias surgiram junto com o capitalismo, principalmente na Holanda e na Inglaterra. Os princípios da burocracia incluem a visão do “homem funcional” (flexível ao desempenho de vários papéis simultâneos na organização); racionalização, com economia de esforços; divisão do trabalho e hierarquia; promoção e sele- ção por competência técnica; separação entre propriedade e administração; e indesejabilidade das organizações informais, porque são imprevistas e pouco racionais. O modelo burocrático de organização, quando aplicado de forma cor- reta, mostrou-se bastante adequado, pois facilita a supervisão do trabalhador, previamente informado sobre a tarefa e sobre a expectativa em relação ao seu desempenho. Segundo Ferreira et al. (2000, p. 37): Provavelmente nada revoltaria mais os defensores da verdadeira burocracia, do que prever que seus pressupostos seriam tão amplamente deturpados. Afinal, a defesa do desempenho das tarefas da forma mais poupadora possível de esforços não é muito compatível com a visão que se faz hoje de uma organização burocratizada. Afinal, os princípios da burocracia defendem o cumprimento dos objetivos organizacionais de forma não apenas eficaz, mas eficiente. 26 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Texto complementar As Teorias da Administração e suas relações com a realidade escolar hoje (GRACZYK, 2009) A principal finalidade deste texto é provocar professores e diretores de es- colas a refletirem sobre o tipo de administração existente nas escolas em que trabalham, vivem e convivem, pois consideramos que sempre há oportuni- dades de estudo e reflexões, devemos partilhar os saberes apreendidos, para podermos construir uma escola mais adequada à realidade, mais humana e de melhor qualidade. Assim, a partir de estudos e pesquisas sobre as Teorias da Administração, vamos pontuar algumas questões da tradição funcionalis- ta que, segundo nosso entendimento, são importantes e podemos dar pistas, a fim de que cheguemos a mudanças qualitativas no cotidiano escolar. Com isso, não queremos dizer que outras teorias existentes e estudadas sejam menos importantes e não estejam também presentes nas instituições. Mas nós, que vivemos no cotidiano escolar e bem perto da administração de uma escola particular, com certeza sentimos a presença das marcas indelé- veis do poder centrado no diretor e das relações de subordinação em que uns têm mais autoridade do que outros. Segundo Brandalise, (2002, p. 25), da teoriafuncionalista prevalece como preocupação central por parte dos administradores a ordem estrutural, o comportamento funcional e a integração social. Constituem o chamado “paradigma tradicional” que tem prevalecido na pesquisa e na prática da gestão da educação ocidental, cujos objetivos são alcançar a ordem e o progresso social, a integração e a coesão social, a satisfação das necessidades sociais e a reprodução estrutural e cultural da sociedade. Dos aspectos estudados, observamos que Max Weber foi o responsável pela introdução do conceito de burocracia e de suas características na litera- tura até hoje vigente, por acreditar que o progresso da organização burocrá- tica, em relação às outras formas de organização, deve-se à sua superiorida- de puramente técnica. O característico do modelo burocrático pode ser assim resumido: as ta- refas da organização se distribuem, entre as várias posições, como deve- Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 27 res pessoais. Implicitamente há uma divisão de trabalho estabelecida entre os cargos, o que propicia um alto grau de especialização e permite que se contrate funcionários tendo por base a qualificação técnica. Os cargos são organizados em uma estrutura de autoridade hierárquica, geralmente em forma piramidal, na qual cada elemento é responsável pelas decisões e ações de seus subordinados, como também pela sua perante seu superior na pirâmide. É um sistema formalmente definido com regras e regulamentos que governam as decisões e ações oficiais. Os funcionários devem assumir uma orientação impessoal no contato com os clientes e demais funcioná- rios. O emprego na organização constitui uma carreira para os funcionários, os quais são nomeados e não eleitos; depois de um período probatório, ganham estabilidade e ficam protegidos contra a demissão arbitrária. As escolas públicas e privadas seguem certas tendências burocráticas, as quais variam em alguns aspectos de uma para outra, pois na sua organização sofrem a influência da necessidade de especialização e divisão de tarefas. Nota-se isso quanto aos cargos existentes: diretor, vice-diretor, supervisor es- colar, orientador educacional. Tais cargos evidenciam que a organização es- colar desenvolveu uma hierarquia de autoridade, bem definida. Basta olhar no Projeto Político-Pedagógico e observar o organograma que é utilizado para especificar as linhas de autoridade e os canais de comunicação. Mesmo na ausência de um organograma, os funcionários da escola têm um conceito claro da natureza da hierarquia nos sistemas escolares. Além disso, na sua organização, a escola é inclinada ao uso de um regula- mento geral para o desenvolvimento de padrões que assegurem certa uni- formidade no desempenho de tarefas. Esse regulamento aparece em forma de manuais de desempenho, manuais de diretrizes, regimento ou outra qual- quer denominação. É importante realçar ainda, que a despeito das frequentes proclamações sobre integração e democracia, a organização escolar tem feito aplicação extensiva dos princípios da impessoalidade nas relações or- ganizacionais. Mesmo assim, é importante fazer parte do quadro de pessoal via concurso, pois se passa a ser profissional da carreira e a obter promoções por antiguidade e mérito. Não podemos esquecer que é a administração burocrática que visa à racio- nalização do trabalho e à eficiência dos serviços escolares. Possivelmente, é por isso que, de alguma forma, essa forma de administração está presente até hoje na organização da escola, mesmo que em suas diversas ênfases tenha sido muito criticada e, até, rechaçada. 28 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Atualmente, levando em conta todas as questões de poder e a necessária administração dos conflitos existentes no cotidiano escolar, outras concep- ções de organização e de gestão vêm sendo enfocadas, a fim de conseguir- -se uma melhor gestão, principalmente de pessoal, e as escolas procuram efetivá-las. A concepção democrática/participativa, que tem por base a relação or- gânica entre a direção e a participação do pessoal da escola, é um dos prin- cipais exemplos de gestão, e muitos estudiosos da área têm dedicado seu tempo a discussões sobre o tema. É um modelo que defende a busca de objetivos comuns, a serem assumidos por todos os elementos da organiza- ção, e ressalta uma forma de gestão em que as decisões são tomadas cole- tivamente. Concebe a participação de todos nas decisões como ingrediente imprescindível para a criação e desenvolvimento de relações democráticas e solidárias. Observamos, na literatura existente, que muitas experiências vêm sendo realizadas e que várias escolas estão em busca da efetivação desse para- digma de gestão. Nesse sentido, vêm tentando trabalhar com o Conselho Escolar, o qual possui atribuições consultivas, deliberativas e fiscais, sendo constituído com elementos da instituição e da comunidade. Têm, também, implementado os Conselhos de Classe e de Série, já com participação de pais e alunos, a Associação de Pais e Mestres entre outros segmentos participati- vos já existentes na escola. É importante ressaltar que a democracia na escola não se exaure na par- ticipação, mas consideramos que todas as suas práticas devem refletir os valores basilares da democracia: a liberdade, a não discriminação, a solida- riedade e o respeito a cada um, a partir da organização de um sistema que dê lugar à diversidade social, à liberdade do professor, ao método pelo qual é abordado qualquer conteúdo, ou à avaliação. Temos consciência de que as escolas que estão buscando a efetivação do novo paradigma ainda não conseguiram realizar todos os valores apontados, mas com certeza, se persistirem com o trabalho, conseguirão concretizá-los. É claro que muitas teorias existiram e existem, passaram por uma evolu- ção, foram criticadas e aperfeiçoadas. Cada uma, com as características que lhe são específicas, influenciou ou vem influenciando a escola, até chegar- mos ao que está posto hoje. A teoria da gestão democrático/participativa de Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 29 maneira geral, e particularmente na educação, é uma síntese integrada das teorias administrativas organizacionais. Embora as ações escolares venham sofrendo, ao longo dos anos, a influ- ência dessas teorias, a que tem se manifestado com mais força é a concepção burocrática. O que esperamos é que as escolas extrapolem os padrões da objetividade e da racionalidade técnica e que cheguem a um ponto em que a organização e a gestão considerem as pessoas que trabalham na escola, também e principalmente, na sua dimensão humana. Queremos crer que, com a implementação e a consolidação do paradigma democrático/partici- pativo, esse sonho será realizado. Dica de estudo Indicamos o filme Tempos Modernos, do genial Charles Chaplin. Um trabalhador de uma fábrica (Chaplin) tem um colapso nervoso por traba- lhar de forma quase escrava, desempenhando o trabalho repetitivo de apertar parafusos. É levado para um hospital, e quando retorna para a “vida normal”, para o barulho da cidade, encontra a fábrica já fechada. Consegue um emprego numa outra fábrica, mas se envolve em uma greve dos operários. No meio da confusão, encontra uma bandeira vermelha, que julga ter caído de um caminhão e chama pelo dono, enquanto acena com ela. Um grupo de militantes surge atrás dele e segue o vagabundo. A polícia chega, toma-o como líder comunista e o leva preso por desacato à autoridade policial. Esse filme trata-se de uma dura crítica ao modelo taylorista da Administração Científica, com forte mensagem social: a máquina tomando o lugar dos homens, as facilidades que levam à criminalidade, à escravização. Atividades 1. Você viu as Teorias X e Y das organizações, elaboradas por McGregor. Imagine duas escolas, X e Y,cada uma baseada em uma dessas teorias. Escre- va as características que cada escola contém dentro dessas teorias. Em seguida descreva as características dos gestores de cada escola. 30 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 2. A charge a seguir ilustra criticamente os aspectos negativos que o termo bu- rocracia ganhou ao longo da história. IE SD E Br as il S. A . Existe uma “escola burocrática”? Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar I 31 Eloiza da Silva Gomes de Oliveira Nesta aula vamos abordar dois paradigmas teóricos: as teorias modernas e as teorias emergentes de gestão, que datam da década de 1950, mas que estão presentes na Administração atual e na gestão das nossas escolas. Teorias modernas de gestão Este corpo teórico ganhou tal complexidade que não estamos tratan- do mais de modelos de organização – com a sua consequente forma de gestão –, mas de conhecimentos consistentes e muito abrangentes, en- volvendo aspectos técnicos, humanos e estratégicos das organizações. Muitos tomam por marco inicial desta fase a publicação da obra A Prática da Administração de Empresas, de Peter Drucker, em 1954. Ela inaugura um novo aporte teórico: a Administração por Objetivos. Administração por Objetivos (APO) A APO tem sete princípios fundamentais: Mudanças ambientais � – provocam intensa necessidade de mu- danças não só na organização, mas também no comportamento dos gestores. Definição e multiplicidade dos objetivos � – talvez o mais impor- tante princípio, determina que os objetivos da organização devem ser ampliados, claramente identificados e conhecidos por todos os envolvidos no processo. Devem ter, além do mais, definidas clara- mente as suas formas de medida e avaliação. Criação de oportunidades � – considera a gestão como uma tarefa criativa, e não apenas adaptada ao que já existe e está definido. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 34 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Desenvolvimento pessoal � – enfatiza a ampliação e o aprimoramento dos recursos humanos da empresa. Descentralização administrativa � – promove o aperfeiçoamento da or- ganização, mas deve partir de uma rigorosa avaliação diagnóstica. Autocontrole � – “um dos maiores benefícios da Administração por Objeti- vos foi o fato de ela ter permitido substituir a administração através da do- minação pela administração através do autocontrole.” (DRUCKER, 1981, p. 123-124) Autoridade e liderança � – a gerência não é o único grupo de liderança, pois ela deve ser descentralizada. Embora bastante rica, a Administração por Objetivos foi muito criticada pela falta de embasamento experimental e por desconsiderar que existe um conflito fundamental entre os objetivos do trabalhador e os da organização. Administração Contingencial Surgiu como um aprofundamento dos estudos sobre a Teoria Sistêmica. A palavra contingência significa algo incerto ou eventual, que pode suceder ou não. A abordagem contingencial enfatiza que não é possível atingir a eficácia organizacional seguindo um único e exclusivo modelo organizacional, ou seja, não existe uma forma única para alcançar os objetivos altamente variados das organizações, inseridas em um ambiente também altamente variado. Recentes estudos sobre as organizações complexas levaram a uma nova perspectiva teórica: a estrutura de uma organização e seu funcionamento são dependentes da interface com o ambiente externo. A mais notável contribuição da abordagem contingencial consiste em verifi- car as variáveis que produzem maior impacto sobre a organização, como o am- biente e a tecnologia, para então predizer as diferenças produzidas na estrutura e no funcionamento das organizações. Esta abordagem marca uma nova etapa no estudo da administração das organizações, assumindo uma abordagem eclética, comparando as demais teorias administrativas existentes à luz dessas variáveis e aplicando seus diversos princípios em cada situação específica da organização. Algumas dessas variáveis são: Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 35 a) relativas ao ambiente geral (o macroambiente, ou seja, o ambiente gené- rico e comum a todas as organizações): condições tecnológicas; � condições econômicas; � condições políticas; � condições legais; � condições demográficas; � condições ecológicas; � condições culturais. � b) relativas ao ambiente da tarefa (o ambiente mais próximo e imediato de cada organização): fornecedores de entradas; � clientes ou usuários; � concorrentes; � entidades reguladoras. � Talvez o seu maior mérito seja tratar-se de uma abordagem eclética e integra- tiva, absorvendo conceitos das diversas teorias administrativas, ampliando hori- zontes e mostrando que nada é absoluto. Alguns a criticam por não ter atingido um desenvolvimento que a diferencie verdadeiramente da Teoria Sistêmica. Administração Estratégica Quem de nós nunca ouviu falar em planejamento estratégico? Ele surgiu na década de 1960, e tomou de assalto o cenário da administração na década de 1980. É um processo de planejamento de longo alcance, formalizado, próprio para a definição e a consecução dos objetivos organizacionais. A Administração Estratégica é um processo contínuo e interativo, voltado para a manutenção da organização como um todo, integrado apropriadamente ao seu ambiente. Envolve a realização de uma análise do ambiente, o estabele- 36 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada cimento de diretrizes organizacionais, a formulação de estratégias organizacio- nais, a implementação das mesmas e a aplicação do controle estratégico. Nunca é demais lembrar que os planejamentos estratégico, administrativo e ope- racional devem ser integrados, e que o gestor deve ter papel ativo em todos eles. O planejamento estratégico de uma organização envolve nove etapas: definição dos objetivos; � identificação dos objetivos e das estratégias atuais; � análise do ambiente; � análise dos recursos disponíveis; � identificação das oportunidades e das ameaças à organização; � definição do grau de mudança necessário; � escolha da estratégia a ser utilizada; � implantação da estratégia; � mensuração e controle dos resultados obtidos. � As críticas mais frequentes a essa teoria referem-se à dificuldade de previsão de estratégias a longo prazo, em um ambiente que normalmente se apresenta turbulento e em constante mudança, e às dificuldades no processo de estabele- cimento de uma cultura organizacional e de competências para a realização do planejamento estratégico. Administração Participativa A participação dos trabalhadores nas decisões da empresa vem sendo um ponto extremamente discutido nas últimas duas décadas. Este modelo de ad- ministração consolidou-se como um catalisador da produtividade e do avanço tecnológico de alguns países orientais. Uma boa definição deste tipo de administração é dada por Maximiano (1995, p. 19-20): A Administração Participativa é uma filosofia ou política de administração de pessoas, que valoriza sua capacidade de tomar decisões e resolver problemas. A Administração Participativa Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 37 aprimora a satisfação e a motivação no trabalho [...] e contribui para o melhor desempenho e a competitividade das organizações. A Administração Participativa tem como objetivos, segundo Mendonça (1987): ampliar a responsabilidade social das empresas; � equilibrar os interesses dos vários setores envolvidos; � desenvolver uma cultura organizacional democrática; � reduzir a alienação; � utilizar totalmente o potencial humano; � diminuir os conflitos, estimulando a cooperação; � aumentar a satisfação das pessoas; � obter maior competitividadeda organização. � A participação pode ser de dois tipos: a) Participação direta – dirigida à pessoa, considerada individualmente, em um estilo de gerência participativa. b) Participação indireta – neste caso, a participação se dá por meio de re- presentantes escolhidos pelos trabalhadores dos diversos setores da em- presa. Pode assumir várias modalidades: comitês, negociações coletivas, cogestão, até a autogestão, forma plena de exercício coletivo do poder. Sobre a Administração Participativa incidem críticas relativas à acomoda- ção provocada nos trabalhadores, à possibilidade de manipulação por parte dos patrões e à dificuldade da criação de uma cultura propícia para a sua implementação. Administração Japonesa Fortemente alicerçada na participação direta dos trabalhadores, esse modelo tomou conta do cenário da administração na década de 1970. A preocupação com a qualidade fez com que os programas e iniciativas que visavam à busca da “quali- dade total” virassem moda, muitas vezes sem o cuidado da adaptação necessária, pois haviam sido gerados em um contexto cultural bastante diferente do nosso. 38 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Além da Administração Participativa e da preocupação com a qualidade total, em relação a qual é referência a obra de Ishikawa (1991), são características da Administração Japonesa: a ênfase no planejamento estratégico; � a visão sistêmica; � a supremacia do coletivo sobre os objetivos individuais; � a busca intensiva da produtividade; � a flexibilidade dos planos e estratégias; � o incentivo ao aprimoramento dos recursos humanos e ao trabalho em � grupo; a sofisticação tecnológica; � a busca da padronização no trabalho; � o uso constante de mecanismos de manutenção, limpeza e arrumação do � ambiente de trabalho; o estabelecimento de uma cultura organizacional de confiança e respon- � sabilidade. As críticas incidem, no caso da Administração Japonesa, sobre alguns pontos bem definidos: a dificuldade de adaptação às culturas ocidentais; � a dependência da cooperação quase irrestrita das pessoas, o que normal- � mente não se obtém na empresa; o risco de cair na lentidão e na burocratização dos processos decisórios; � a dificuldade do desenvolvimento de processos administrativos eficien- � tes, para apoiar a produção; o estabelecimento de uma visão “romântica” da administração; � os resultados recessivos que vêm sendo obtidos pelos países orientais que � têm utilizado essa forma de administração. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 39 Teorias emergentes de gestão Trata-se do paradigma mais recente, correspondente às duas últimas déca- das, e que, em alguns casos, ainda se encontra mais no universo das pesquisas sobre administração do que na prática cotidiana das empresas. Merece desta- que a influência, sobre ele, do enorme desenvolvimento tecnológico, vivencia- do pela humanidade neste período. Costuma-se tomar como marco referencial deste paradigma a publicação, em 1982, da obra O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra, que preconizava o holismo ou totalidade na ciência. Reengenharia A velocidade com que as tecnologias de informação se desenvolveram pro- vocou a necessidade de adaptações aceleradas da empresa ao ambiente. Para Hammer e Champy (1994, p. 21-22), Reengenharia consiste em: [...] abandonar procedimentos consagrados e reexaminar o trabalho necessário para criar os produtos e serviços de uma empresa e proporcionar valor aos clientes. [...] é o repensar fundamental e a reestruturação radical dos processos empresariais, que visam a alcançar drásticas melhorias em indicadores críticos e contemporâneos de desempenho, tais como custos, qualidade, atendimento e velocidade. O próprio termo (reengineering) significa “começar de novo”, mostrando que consiste em uma mudança radical, buscando resultados organizacionais visíveis e drásticos. Segundo Abreu (1994), a Reengenharia é implementada em quatro fases: Estratégia � : elaboração do planejamento estratégico da empresa, consi- derando as condições e os recursos existentes. Ativação � : ênfase nos ganhos obtidos com a reengenharia dos processos (em termos de melhoria da qualidade, incremento da produtividade e re- dução dos custos). Melhoria � : é o momento da agregação de valor aos processos e aos servi- ços oferecidos, pela empresa, aos clientes. Redefinição � : formação de novas unidades de negócios/serviços, em fun- ção da Reengenharia. 40 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Entre as mudanças profundas provocadas pela Reengenharia, podemos citar como exemplos: os papéis dos trabalhadores ganham maior autonomia; o en- foque de mero treinamento para as tarefas muda para educação; as estruturas da organização mudam de hierárquicas para niveladas; os gerentes mudam de supervisores para capacitadores; os critérios de promoção mudam de desempe- nho para habilidade ou competência. (FERREIRA et al., 1997, p. 213) Tudo acaba, portanto, na construção coletiva de uma “cultura empreende- dora”. É justamente sobre a dificuldade de se chegar a esta cultura que incidem críticas à Reengenharia. Outras críticas voltam-se para a radicalidade das mu- danças exigidas por ela e para as demissões realizadas. Administração Virtual Este modelo revolucionário está ligado à verdadeira “revolução da informa- ção”, ocorrida nos anos 1990. A Administração Virtual é realizada por pessoas reais, que dominam a infor- mação em tempo real e estabelecem relacionamentos confiáveis. Requer uma preparação mais aprimorada dos trabalhadores e o entendimento de que o con- trole não deixa de existir, apenas muda de configuração (realiza-se on-line). Ferreira et al. (1997, p. 205) dizem, sobre a Administração Virtual: “A virtualidade deve ser entendida sob pelo menos dois pontos de vista distintos. O cliente perce- be como um atendimento instantâneo aos seus desejos. A empresa parece existir a qualquer hora, em qualquer lugar, potencialmente pronta para atendê-lo.” Essa forma de administrar sofre três críticas principais: o aumento do estresse das pessoas pela rapidez com que as coisas acontecem, a tendência à impessoa- lidade das relações e a desvalorização do trabalho humano. Aplicações das Teorias da Administração à Gestão Escolar Considerando a escola como uma organização, portanto, devemos identificar as características que aproximam a Gestão Escolar da administração das empre- sas. Portanto, desconsideramos a necessidade de fazer uma correspondência Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 41 unívoca entre cada escola de Administração e a evolução da gestão na institui- ção escolar, mas nos propomos traçar algumas analogias entre os três grandes paradigmas – administração tradicional, moderna e emergente – e os seus im- pactos nos processos gestionários da escola. Comecemos com uma situação his- tórica dos paradigmas e das escolas: Teorias tradicionais de gestão Teorias modernas de gestão Teorias emergentes de gestão 1991 1954 1982 Publicação de Princípios de Ad- ministração Científica (Taylor) Publicação de A Prática da Administração de Empresas (Drucker) Publicação de O Ponto de Mutação (Capra) a) Adm. Científica b) Teoria Clássica da Adminis- tração c) Escola de Relações Humanas d) Teorias X e Y e) Teoria Sistêmica a) Adm. por Objetivos b) Adm. Contingencial c) Adm. Estratégica d) Adm. Participativa e) Adm. Japonesa a) Reengenharia b) Adm. Virtual Assim como temos um paradigma tradicional nas Teorias da Administração, temos um modelo pedagógico tradicional, que exige um perfil de gestão e ações correspondentes, que a ele se associam. Se observarmos com atenção a conceituação do papel do diretor de escola enunciado por Lück (1998, p. 16-17), veremos claramentea centralização hierár- quica de autoridade e de decisão, características de uma abordagem tradicional. É do diretor da escola a responsabilidade máxima quanto à consecução eficaz da política educacional do sistema e desenvolvimento pleno dos objetivos educacionais, organizando, dinamizando e coordenando todos os esforços nesse sentido, e controlando todos os recursos para tal. Devido à sua posição central na escola, o desempenho de seu papel exerce forte influência (tanto positiva como negativa) sobre todos os setores e pessoas da escola. E do seu desempenho e de sua habilidade em influenciar o ambiente que depende, em grande parte, a qualidade do ambiente e clima escolar, o desempenho do seu pessoal e a qualidade do processo ensino-aprendizagem. Tomemos como ilustração os relatos de professores sobre um fato bastante comum: a ação de controle do diretor da escola ao exigir os planos de aulas dos docentes, para examinar e avaliar. Enquanto em algumas escolas os diretores utilizavam essa prática de forma autoritária e até arbitrária, em outras o diretor tentava orientar e subsidiar os professores, para o aprimoramento das aulas. 42 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Estas e outras práticas provocaram muitas críticas como a de Antunes (2003), que indaga em um artigo: “Você trabalha em uma grande ou pequena escola?”. O autor apresenta o seguinte ponto, para diferenciar grandes e pequenas escolas: Pequena escola Grande escola (A N TU N ES , 2 00 3, p . 1 70 ) O poder decisório centraliza-se nas mãos de uma pessoa ou de um grupo restrito que o exerce de maneira autoritária. O que é bom para o “mantenedor”, para o “dono” ou para o seu primeiro executor de- verá ser bom para todos. Existe um poder decisório, mas este funda- menta-se na opnião coletiva e consensual, aceitando-se a diversidade e administran- do-a conforme o sentido de justiça que é dinamicamente construído e reconstruído. A escola foi influenciada, em um momento posterior, pela Escola de Relações Humanas de Fayol e pela Teoria Y de McGregor, surgindo uma gestão preocupa- da com a integração social, com aspectos ligados à criatividade e motivação e com os grupos informais existentes na escola, enfatizando aspectos emocionais em detrimento de outros, puramente objetivos. Neste modelo temos, por exem- plo, uma cultura de confraternizações e dinâmicas integradoras dos grupos, en- volvendo técnicas de sensibilização. O diretor busca apoio na ação do orientador educacional, valorizando o que era chamado, na época, “aulas de SOE” (Serviço de Orientação Educacional). A década de 1970 e o tecnicismo, que dominou o cenário educacional brasi- leiro, marcaram a influência da Teoria Sistêmica sobre a Gestão Escolar. Utiliza- va-se fartamente planilhas sofisticadas para a elaboração dos planejamentos, e nestas abundavam a citação dos inputs, outputs (comportamentos de saída) e do feedback obtido por meio da avaliação. Infelizmente, isso não tornou a Gestão Escolar mais dinâmica, eficaz e demo- crática. Ao contrário, o diretor tornou-se mais impessoal e friamente técnico, às vezes, perdido em uma infinidade de fluxogramas e papéis que pouco aprimo- raram a qualidade da educação no Brasil. Uma outra vertente do tecnicismo, no entanto, apontou para uma mudan- ça paradigmática na Gestão Escolar. Trata-se da ênfase nos objetivos, na sua formulação e hierarquia. Estas questões taxonômicas perpassaram a escola e a sua gestão, embora de uma maneira não tão significativa. Merece destaque, no entanto, pelos indícios de descentralização administrativa e de autoridade que permitiu prenunciar. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 43 Já em plena vivência do paradigma moderno de gestão, os meados da década de 1970 demarcaram uma forte ênfase na ação gestora sobre o planejamento. Ela está presente na Administração Estratégica, que acentuou alguns aspectos da Administração por Objetivos, agora falando de estratégias institucionais. Oliveira (2002) fala de três níveis de planejamento na organização: o opera- cional, o tático e o estratégico. Destes, é o terceiro que abrange a organização como um todo e, embora esteja apoiado nos outros dois níveis – responsáveis pela operacionalização/execução – fica afeito aos escalões mais elevados da empresa. Assim define o planejamento estratégico: [...] é o processo administrativo que proporciona sustentação metodológica para se estabelecer a melhor direção a ser seguida pela empresa, visando ao otimizado grau de interação com o ambiente e atuando de forma inovadora e diferenciada. [...] diz respeito tanto à formulação de objetivos, quanto à seleção dos cursos de ação a serem seguidos para sua consecução, levando em conta as condições externas e internas à empresa e sua evolução esperada. Também considera as premissas básicas que a empresa , como um todo, deve respeitar para que o processo estratégico tenha coerência e sustentação decisória. (OLIVEIRA, 2002, p. 47-48) Quanto à Administração Participativa, teve um forte impacto no cenário edu- cacional brasileiro e nas características da Gestão Escolar. O movimento de reto- mada democrática no país fortaleceu os processos de delegação e participação, assim como o saudável hábito de discutir e decidir democraticamente, há tantos anos impedido. Com isso, a gestão precisou adaptar-se a ações como colegiar e delegar, praticamente incompatíveis com os modelos componentes do Paradig- ma Tradicional de Gestão. Entre as características destacadas por Guiomar Namo de Mello (1993) para as “escolas que dão certo“, temos o compartilhamento de decisões entre os agen- tes internos da escola e a comunidade. Silva (2001, p. 161), após constatar que “as teorias, com o passar do tempo, vão cedendo lugar a novas teorias sempre que a realidade histórica exige...”, afirma: Dentro desta tendência de mudança nos padrões gerenciais, situa-se o esforço generalizado de adoção de técnicas oriundas do chamado “modelo japonês”, no Brasil, com ênfase nos programas de gerência da qualidade total. [...] A tentativa de implantar formas de gerenciamento mais flexíveis no Brasil e, por decorrência, a adoção de técnicas que favoreçam a participação na gestão tem sido feita pelos chamados programas de qualidade total. (SILVA, 2001, p. 162) Isso nos permite ver, portanto, um entrelaçamento entre as duas últimas mo- dalidades emergentes de gestão – a Administração Participativa e a Japonesa. 44 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Esta última trouxe os já conhecidos Programas de Controle da Qualidade, com ênfase na Qualidade Total. Esse gestor voltado para qualidade, coordenando a realização dos rituais do CQT (Controle de Qualidade Total) nascidos do sistema japonês de produ- ção da Toyota Motor Co, não é encontrado na educação. Temos, na verdade, a apropriação, muitas vezes oportunista, de alguns conceitos da Administração Japonesa e dos resultados da avaliação da qualidade (chancela ISO). Isso acon- tece principalmente por parte de instituições particulares de ensino, desejosas de atrair alunos. Finalizando, falemos dos modelos de gestão ligados ao Paradigma Emergen- te de Gestão. Já dissemos que, por serem extremamente recentes, ainda não temos impactos significativos destes modelos sobre a Gestão Escolar. Começa- mos a ouvir falar, por exemplo, em uma “reengenharia do Projeto Pedagógico”, expressão que se refere a mudanças aceleradas e profundas neste projeto, per- mitindo à escola uma adaptação ativa e rápida ao ambiente que a cerca. Outros termos como “mapeamento da instituição escolar”, “mudança da cul- tura organizacional”, “racionalização organizacional” e “reengenharia psicossocial” também vêm associar a moderna administração das empresas à Gestão Escolar. A verdadeira revolução causada pelo desenvolvimentoda Tecnologia de Infor- mação e Comunicação (TIC) é outro fator que afeta fortemente tudo que foi his- toricamente estabelecido quanto à gestão da escola, mesmo que não tenhamos, ainda, a “administração virtual”. Não falamos apenas da informatização dos proces- sos, mas ao fluxo de inovação e informação que invadiu as nossas escolas. Concluindo, podemos afirmar que a Gestão Escolar evoluiu historicamente ao longo destes últimos 100 anos assumindo variadas formas, algumas mais se- melhantes e outras totalmente opostas. Esperamos que você consiga agora detectar, na gestão das escolas que co- nhecer até hoje, traços e características dos paradigmas de que falamos, assu- mindo posicionamento crítico em relação a elas. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 45 Paradigmas de gestão empresarial da escola (SQUILASSE, 2009) Bordignon (p. 15) afirma que Não são poucos os que situam as organizações educacionais como empresas e advogam que as mesmas devem ser administradas como tal. Sob esse enfoque, a gestão assume o modelo burocrático e a centrabilidade das questões gerenciais é ocupada pela técnica, pela racionalidade burocrática. Tal modelo origina-se nas teorias organizacionais clássicas, cartesiana- mente concebidas, cujos princípios são racionalização, produtividade, espe- cialização e controle. A primeira tentativa moderna de organização da produção foi de Taylor, no começo do século. Visando à racionalização do trabalho industrial, ele começou por distinguir nas relações de produção as funções de direção das funções de execução. Depois disso, Fayol propôs que a administração man- tivesse essa divisão através das funções de planejamento, organização, coor- denação, comando e controle. A gestão acontece de forma burocrática e centralizadora; é concebida no eixo das relações autoritárias e verticalmente hierarquizadas: “[...] bem coe- rente com o paradigma iluminista da razão subjetiva que estabelece relações lineares e unívocas sujeito-objeto em que tudo é coisificado, produzido em série. O sujeito é poder, o objeto é subordinação” (BORDIGNON, p. 16). Os organogramas seguem a estrutura piramidal, centralizando o poder no topo e o dever na base. Os espaços físicos são compartimentalizados, materializando o poder, a segmentação das tarefas e a burocratização nas formas de relação. Nesse modelo, a busca de inovações é um risco não per- mitido, pois gera conflitos, o que é indesejável. Texto complementar 46 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada As rotinas não permitem os desafios, garantindo a uniformidade do produto, que é padronizado, produzido em séries. O produto é avaliado através de ins- trumentos de medição e classificação. Nesse paradigma, a avaliação tem uma grande força, estabelecida no padrão de qualidade tecnicista/funcionalista. O dirigente, o líder dessa organização, tem seu perfil definido pelos prin- cípios do poder, com autoridade e competência técnica, comprometendo-se com a eficácia da organização, considerando-se o dono da verdade e das vontades dos que dela participam. Essa estrutura administrativa burocrática, organizada nos modelos do Taylorismo, é fundamentada no paradigma da ciência positivista, na concep- ção iluminista, mecanicista, onde a relação sujeito-objeto é linear, ordenada em escalas de deveres e direitos. Paradigma de Gestão da Escola Cidadã O conceito de escola democrática, formadora de cidadãos atuantes criti- camente na sociedade, se estabelece no contexto da década de 1980, onde as políticas públicas educacionais se voltaram para a questão da universali- zação, com equidade, da escola pública. Essa “nova escola” procura constituir-se pela construção da sua autono- mia e democracia. Isso “requer a reconstrução dos paradigmas de gestão para além da cidadania positivista, fundada na concepção iluminista que es- tabelece a relação linear sujeito-objeto” (BORDIGNON, p. 17). No novo paradigma da gestão da escola cidadã, com visão holística, a concepção reducionista e mecânica não mais se enquadra na realidade. A verticalidade é incompatível com a intersubjetividade, que passa a construir uma nova concepção de gestão situada no agir comunicativo: “o poder está no todo e é feito de processos dinâmicos construídos coletivamente pelo co- nhecimento e pela afetividade, constituindo-se em espaço aberto de criação e vivência” (BORDIGNON, p. 18). A gestão democratizada sente a necessidade da presença do líder, do me- diador, articulador das relações intersubjetivas, das vontades e dos conflitos. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 47 O poder do líder fundamenta-se na vontade coletiva dos agentes que devem ser em primeiro lugar cidadãos plenos para que possam romper as amarras da servidão aos interesses de manipulação. Antes das rotinas administrativas são definidos os rumos, traçados os ob- jetivos, estabelecidas as diretrizes estratégicas numa construção coletiva, es- truturada na competência técnica e nas responsabilidades. Nessa administração não há produção em série, mas o respeito ao sujeito único, que constrói singularmente seu conhecimento. Dessa forma, não há lugar para a medição e classificação: a avaliação focaliza os processos, onde a qualidade dos resultados está na diferenciação. O processo de percepção da realidade, da construção do saber, deve constituir-se num espaço aberto, onde se fundamenta a democracia. Estes dois paradigmas de gestão representam diferentes concepções de administração. Contudo, não há uma divisão precisa que determine o térmi- no de um modelo e o início do outro. Gustavo G. Boog (1996, p. 4-6), apresen- ta um quadro comparativo com algumas características dos dois paradigmas que podem ser transpostas para o campo da gestão educacional. Dentre os itens apresentados, destacamos os seguintes: Paradigma mecanicista Paradigma holístico A empresa é uma máquina e as pessoas, as engrenagens. A empresa é um sistema dinâmico e orgânico. A competição é a mola que move a empresa. A cooperação é a mola que move a empresa. Só o topo da empresa deve conhecer as es- tratégias e as metas. Segredo. Todo pessoal-chave participa e conhece as estratégias e as metas. Transparência. Os gerentes são a cabeça e planejam. Os tra- balhadores são o corpo e apenas executam. Todos têm cabeça e corpo, que devem ser interligados. Delegar é perder poder. Delegar é ganhar poder. Estrutura impessoal, burocrática, técnica. Estrutura humana, conceitual, baseada em pessoas. Comunicação de cima para baixo. Comunicação em todos os sentidos. O paradigma mecanicista, caracterizado pela separação cartesiana entre mente e matéria, separa a teoria da prática. Embora na teoria, hoje, predo- mine o paradigma holístico; na prática escolar ainda o modelo mecanicista, taylorista, burocrático, ainda tem muito espaço. [...] 48 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Dicas de estudo O Ponto de Mutação � , de Fritjof Capra. O autor apresenta uma análise sobre a história do homem e uma síntese do que essa evolução causa no mundo atual. Capra conclui que chegamos a uma época de mudanças dramática e potencialmente perigosa, um ponto de mu- tação para o planeta como um todo. Baseando-se em argumentos da filosofia oriental propõe uma nova visão da realidade e da ciência através do paradigma holístico. Virando a Própria Mesa: uma história de sucesso empresarial made in Brazil � , de Ricardo Semler. Editora Rocco. Abordando temas polêmicos (da profissionalização da empresa familiar até o relacionamento com os sindicatos e o papel das multinacionais), o autor discute aspectos do relacionamento e das diferenças entre multinacionais e empresas brasileiras, apontando os erros que levam companhias importantes à falência e aconselhando pequenas atitudes geradorasde grandes resultados. Conclui que a empresa tradicional vai progressivamente se tornando obsoleta e que a solu- ção para o problema passa necessariamente pela busca de um modelo nacional e autêntico de administração. Atividades 1. Heloísa Lück, conhecida autora de textos sobre Gestão Escolar, fala sobre as mudanças de paradigma ocorridas neste setor. No texto “Perspectivas da Gestão Escolar e implicações quanto à formação de seus gestores1” a autora destaca cinco aspectos dessa evolução: Antes Depois Ótica fragmentada. Ótica globalizadora. Limitação de responsabilidade. Responsabilidade expandida. Ação episódica. Processo contínuo. Hierarquização e burocratização. Coordenação. Ação individual. Ação coletiva. 1 LÜCK, Heloísa. Perspectivas da Gestão Escolar e implicações quanto à formação de seus gestores. Revista Em Aberto. Brasília, v. 17, n. 72, p. 11-33, fev./ jun. 2000. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 49 Escolha três desses aspectos e redija um pequeno texto comentando cada um deles. 50 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 2. Uma das teorias que estudamos foi a da Administração Participativa. Assina- le das opções abaixo a que mais caracteriza esse modelo de gestão: a) Exclusão de qualquer forma de hierarquia, existindo uma liderança com- partilhada em que todos exercem as mesmas funções. b) Valorização maior dos elementos instituídos (estabelecidos, normatiza- dos, como leis e regras) do que dos instituintes (aqueles que vêm da co- munidade escolar ou acadêmica, voltados para a inovação), investindo na capacidade criativa da equipe de trabalho. c) Rigidez dos procedimentos organizativos e das formas de acompanha- mento, fiscalização e avaliação do trabalho pedagógico. d) Identificação do ambiente escolar com o de uma família, com ênfase em relacionamento interpessoal compreensivo e afetivo. e) Promoção da interação entre pessoas com funções e especialidades dis- tintas, que compartilham objetivos comuns e decidem os processos e os meios de conquistar objetivos. Agora redija um pequeno texto, analisando as opções de resposta e justifi- cando porque essa é a única alternativa correta. Teorias da Administração aplicadas à Gestão Escolar II 51 Eloiza da Silva Gomes de Oliveira O tema que será trabalhado corresponde à qualidade da educação que se pratica no nosso país e a constatação de que a escola é uma instituição em contínuo aperfeiçoamento. Assim iniciaremos abordando a busca da qualidade na educação, em seguida, situaremos a escola no contexto de uma instituição aprendente. Ainda que os princípios educacionais pontuados na Lei 9.394/96 em seu título II, artigos 2.o e 3.o enfatizem, dentre outros, a igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola, a gestão democrática do ensino e a garantia do padrão de qualidade, constatamos que grande maioria da população brasileira não é atendida pelas instituições escolares. Alguns indicadores do cenário educacional brasileiro Sustentando o fato da ineficiência dos aspectos relacionados à política e à organização do sistema educacional e agregando-se a ele os dados de qualidade de vida da população, a moldura do cotidiano brasileiro, então, passa a contornar o seguinte cenário: o desvio de verbas públicas, o prejuízo e a redução dos percentuais � destinados à educação, à saúde e aos bens básicos da população; atribui-se ao descaso com a educação a dificuldade de inserção do � país na economia global; a falta de investimento em pesquisa e no desenvolvimento de no- � vas tecnologias; A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 54 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada os índices apresentados pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o � Desenvolvimento) 2007/20081 colocam o Brasil na última posição (70.a) entre os países de desenvolvimento humano elevado, atrás da Argenti- na, do Chile e do Uruguai, embora com significativa evolução nos últi- mos 30 anos. o mesmo relatório mostra que o PIB � per capita do país é de 8,4 dólares, a taxa de escolarização de 87,5% e a expectativa de vida de 71,7 anos. O investimento em educação é de 4,4% do PIB. o desprezo das autoridades pelo meio ambiente e o uso inadequado dos � recursos naturais; o poder estar ainda centralizado “nas mãos” de políticos populistas e de � doutrinas oportunistas; a força do corporativismo de determinados segmentos sociais sobrepujar � “a qualquer custo” os demais, em benefício próprio; os índices de desemprego, acentuados pela crise econômica mundial, dis- � seminado pelas diversas classes sociais. A este respeito, ocorre-nos a frase do sociólogo e professor José Pastore, da Faculdade de Economia e Admi- nistração (FEA) e Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (FIPE), especialista em relações do trabalho e desenvolvimento institucional: O desemprego no Brasil está sendo menos motivado pelo avanço tecnológi- co e mais pelo atraso educacional. O desafio é também da escola, não apenas da empresa. Para competir e ter sucesso, ou educamos mais e melhor, ou convence- mos nossos concorrentes a deseducar os filhos e os profissionais deles! a instituição definitiva da economia informal; � a invasão crescente dos centros urbanos pela população de rua; � o aumento da insegurança e da violência. � No entanto, segundo o cientista político Sérgio Abranches, o país tem ainda bons motivos para encarar o novo século com otimismo. A criatividade e a capa- cidade de trabalho da população brasileira estão entre as principais razões que colocam o Brasil na trilha de uma grande potência e o deixam confortável diante dos países para os quais perdeu posição, pois fecharam o século com desempe- nho melhor que o brasileiro. O Brasil é hoje a 15.a nação mais rica do mundo. 1 Relatório completo disponível em: <www.pnud.org.br/rdh/>. A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 55 Por outro lado, há de ressalvar-se também a nova postura assumida pelo Brasil em diversos projetos internacionais sobre o papel estratégico da produ- ção das informações, culminando em 1998, quando o país passou a utilizar os indicadores educacionais. Tais indicadores, com tratamento sério e relevante, são fundamentais hoje para a avaliação da eficiência e da equidade do nosso sistema educacional. Estes são responsáveis, ainda, pela transparência das ações realizadas na divulgação dos seus resultados e na contribuição inestimável à for- mulação de políticas educacionais mais adequadas e eficazes. Podemos assim, a partir dos indicadores já instituídos, correlacionar alguns traços marcantes da educação nacional à qualidade da educação. São eles: Alfabetização e taxas de analfabetismo � – segundo o relatório do Pro- grama das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Brasil ocupa o 70.o lugar entre 177 países analisados, quanto ao IDH (Índice de Desenvolvi- mento Humano). Este índice mede a qualidade de vida dos países, a partir de indicadores de educação e teve um crescimento de 0,649 para 0,800 nos últimos trinta anos. A taxa de escolarização primária passou de 85% a 95% nos últimos 14 anos. Muitos brasileiros, porém, ainda não têm acesso às condições mínimas de educação, saúde e serviços básicos. Universalização do ensino � – após a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e da Valorização do Magistério (Fundef) e do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Bá- sica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), mesmo em regiões menos favorecidas o problema atual do Ensino Fundamental não se situa somente no acesso à escola. Os fatores extra e intraescolares tornaram- -se preponderantes na dificuldade de permanência do aluno na escola. Acentuada distorçãosérie/idade � – a repetência e a evasão escolares são os principais responsáveis pelo grande volume de matrículas. Há, ainda, um número significativo de alunos em idade cronológica supe- rior à correspondente esperada a cada série. Portanto, a alternativa mais evidente é o investimento, cada vez maior, no projeto pedagógico das escolas, na avaliação interna de sua metodologia e de seus procedimen- tos educativos, na reorganização do espaço escolar, na capacitação de seus professores, em busca da aceleração da aprendizagem. Este progra- ma tem chances de sucesso, se desenvolvido com a seriedade e o rigor que o assunto exige. 56 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Taxas de promoção e repetência � – observa-se que as duas taxas vêm melhorando, o que retrata a melhoria do fluxo escolar. Desse modo, temos como consequência a melhoria da autoestima do aluno e a diminuição dos custos escolares per capita. Carga horária de aulas reduzida � – a meta a ser alcançada pela LDB, no que diz respeito ao número de horas/aula, ainda está longe de ser atin- gida. No entanto precisamos, primeiramente, assegurar o cumprimento da jornada escolar de, pelo menos, quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula e a carga mínima anual de 800 horas. Após esta conquista, o regime de escolas de tempo integral, conforme preconiza a lei, deverá ser a próxima meta a ser alcançada. Democratização de acesso ao Ensino Médio � – a matrícula neste nível de ensino diminuiu, conforme os resultados do Censo Escolar de 2007. De 2006 para 2007 houve um decréscimo de 546 156 matrículas, correspon- dentes a – 6,13 pontos percentuais. Podemos concluir que este segmento, agora menos elitista, concentrará a sua procura na Rede Pública Estadual e que os cursos pós-médios deverão não só expandir-se para atender a evolução do processo de escolaridade destes estudantes, como também deverão repensar os seus currículos, com práticas educativas capazes de instrumentalizar e atender à demanda desses jovens, ávidos pela inserção no mercado de trabalho. Melhoria do perfil do magistério � – muitos professores deverão com- plementar a sua formação, caso queiram permanecer no magistério, con- forme exigência da LDB, incorporada ao Plano Nacional de Educação, até 2006. Diante deste quadro, torna-se indispensável a valorização e o reco- nhecimento deste profissional, com a criação de políticas públicas que contemplem a formação inicial de professores e a sua formação continu- ada em serviço. Avaliações externas � – a intenção dessas avaliações é que os seus resulta- dos apontem para a importância dos processos internos da escola quanto à construção de um projeto pedagógico singular, que atenda às expectativas da comunidade escolar. Há, por parte dos governos federal, estaduais e mu- nicipais, perspectivas diferentes no encaminhamento dessas avaliações. A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 57 Sistemas de Ensino Superior � – à medida que o Ensino Básico tem re- cebido maior atenção e tem demonstrado indicadores de melhoria em sua eficiência e qualidade, espera-se a comprovação desses dados com um maior número de concluintes no Ensino Médio. Assistimos também à implementação de políticas públicas federais que visam ao aumento de vagas nas universidades públicas. Sendo assim, em médio prazo há a pos- sibilidade de reflexos positivos no Sistema de Ensino Superior que, por sua vez, deverá organizar-se para recepcionar, com qualidade, uma quantida- de maior de novos alunos. Dessa forma, a retratação do cenário de qualidade de vida dos brasileiros, que passa pela qualidade da educação, impressa pelo conjunto de políticas educacionais e posturas educativas, desafia, mais uma vez, a sociedade – e es- pecialmente os educadores – à urgente necessidade da busca da qualidade da educação, levando-os a repensarem a escola sob a ótica de um novo modelo de referência, ou seja, à luz de um novo paradigma. Da instituição que ensina à instituição aprendente Não seria exagero afirmar que os alunos têm aprendido muito mais fora da escola do que dentro dela. A metodologia que as mesmas imprimem ao seu trabalho rotineiro, por vezes, retira dos alunos a possibilidade de apropriação dos conhecimentos científicos produzidos pela humanidade, desestimulando-os à compreensão do significado do porquê dos fatos e da contextualização dos mesmos e assim os exclui da participação e da trans- formação da realidade. Em outras circunstâncias, referendam e ratificam um conjunto de conhecimentos que, para a sociedade, sempre foram valoriza- dos e reconhecidos historicamente e sobre os quais normalmente a escola não sente necessidade de refletir. Nesses casos, dentre outras posturas, a escola valoriza respostas estereotipadas ou esperadas pelo professor, de in- divíduos diferentes, desprezando particularidades, vivências e sentimentos, trabalhando com conteúdos descontextualizados e adotando sistemas de avaliação autoritários. 58 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada São muitos os fatores que influenciam e interferem na formação acadêmica e cultural da população, assim como na construção da sua visão de mundo e no seu reconhecimento como cidadãos. Sendo assim, urge que a escola, principal formadora do espírito crítico dos indivíduos, reinvente o seu papel em plena revolução tecnológica, capacitando os professores para um novo perfil, que ul- trapasse o espaço escolar. Finalmente, deve estar atenta à formação dos alunos, conhecendo-os, orientando-os e instrumentalizando-os para o desenvolvimen- to de seus potenciais, estimulando o seu processo de independência e valori- zando a vida e a produção coletiva. Com certeza, estes princípios irão favorecê- -los na apreensão de novos conhecimentos e no reconhecimento e aceitação de novas relações, sedimentando a sua autoestima, condição indispensável para a utilização de novas tecnologias e para uma “navegação” segura e prazerosa por rotas próprias e singulares. No entanto, a trajetória é longa e sinuosa no processo de avaliação in- terna da escola, que deverá instigar sua comunidade escolar a confrontar os aspectos significativos de uma instituição que ensina aos de uma insti- tuição aprendente. Transformar a postura da escola que pretendeu ensinar e sempre soberana se manteve, enquanto um dos pilares do status quo da sociedade, para uma escola que se coloca como sujeito, e pretende aprender, é uma tarefa árdua. Requer, além de iniciativa e empreendedorismo, dispo- nibilidade interna dos diversos personagens envolvidos nessa polêmica, não se limitando à área educacional, nem tampouco à exclusividade de educado- res. Essa discussão deve estar no bojo da sociedade, alavancada pelos dife- rentes segmentos sociais e seus representantes sobre os quais ela atravessa, influencia e forma. Educadores e profissionais que vivem o cotidiano escolar, devem ser os pri- meiros a estar disponíveis para repensar as práticas continuístas, rotineiras, de descaso do dia a dia, e acomodadas à desinformação. Conforme César Coll (1996, 1998) preconiza em suas obras, em primeiro lugar a responsabilidade da avaliação de cada escola há de recair em sua direção, em seus professores e na comunidade educativa. São eles que melhor conhecem a história A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 59 da escola, suas características principais, suas tradições, seus objetivos e expectati- vas, os projetos e problemas que existiam no passado e que condicionam os dados que se reconhecem no presente. A avaliação interna da escola, assim denominada por ser realizada pelos protagonistas da ação educativa, deve ser fortalecida, caso se pretenda melhorar a qualidade de ensino. E então, após a comunidade educativa sentir-se convencida de que a escola atualsó está preparada para lidar com alunos de formato padrão e perfil ideal, aí sim, poderá ser iniciado internamente o processo de transi- ção, de mudança de paradigma, quer no ensino, quer na avaliação, quer nas relações. Para isso, também se faz premente o enriquecimento da prática profissional dos educadores, com a necessidade do retorno dos mesmos à universidade e a sua disponibilidade para a inserção em cursos de formação continuada em serviço. Torna-se indispensável, portanto, que os protagonistas desse processo, com humildade e grandeza, venham a repaginar posturas ultrapassadas, preservadas em prol de uma neutralidade utópica, e passem a exercitar periodicamente uma discussão saudável com a comunidade educativa, fundamentada na leitura de cada um dos segmentos, daquilo que é promovido no interior da escola, porque é promovido, e a quem favorece quando se realiza. Alguns aspectos são “velhos conhecidos” dos educadores e daqueles que transitam no espaço escolar, quando “mexidos” contribuem e revitalizam a escola, tornando-a viva. Dentre outros, vários aspectos devem ser analisados na busca da qualidade da educação: Gestão Escolar, projeto pedagógico, grade curricular, seleção de metodologias, prática educativa, organização do espaço escolar, sistema de avaliação, evasão, repetência, exclusão, relações no interior da escola, convívio entre professores e alunos etc. Apresentamos a seguir o quadro comparativo entre a escola que ensina e a escola como instituição aprendente, que está sedimentado nos escritos de He- loísa Lück (1990, 1995, 1998). 60 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Es co la q ue e ns in a X es co la c om o in st itu iç ão a pr en de nt e Ti po s de es co la Fu nd am en ta çã o te ór ic a e m et o- do ló gi ca Es pa ço es co la r Cu rr íc ul o es co la r Pa pe l do d ire to r Pa pe l do p ro fe ss or A çõ es de se nv ol vi da s Es co la q ue en si na N or m at iv a � (p rin cí pi o do ce rt o e do er ra do ). Li ne ar . � M ec an ic is ta . � Re gu la r. � Es tá ve l. � Ro tin ei ro . � Te ns õe s e co n- � fli to s ab af ad os , ev ita do s e re pr im id os . Pr ec ár io d e � re cu rs os . Rí gi do . � Vi sã o re du - � ci on is ta d os co nt eú do s cu rr ic ul ar es . Es tá tic o. � En ci cl op éd ic o. � Ri go r d is ci pl i- � na r. G er en te d e � op er aç õe s do s ór gã os c en tr ai s. Co nt ro la do r d as � aç õe s de se nv ol - vi da s. Tr an sm is so r d e � co nh ec im en to s. D et en to r a bs o- � lu to d a ve rd ad e. A tu aç ão � pe rm an en te e un ifo rm e. Au to rit ár io . � Fr ag m en ta da s. � Té cn ic as e o b- � je tiv os c om fi m em s i m es m o. Pa te rn al is ta s e � co nd es ce nd en - te s. A p ar tir d e de - � ci sõ es c en tr al i- za da s. Es co la ap re nd en te Pr oc es so d e � eq ui pe a ss oc ia - do a u m a am pl a de m an da s oc ia l po r p ar tic ip a- çã o. D es ce nt ra liz a- � çã o do p od er . D ec is õe s co le - � tiv as . In st itu iç ão d e � pa rc er ia s. G lo ba l e c ir- � cu ns ta nc ia do . Te ns õe s e � co nfl ito s vi st os co m o op or - tu ni da de d e cr es ci m en to . Fl ex ib ili za do , � pa ra m el ho r ut ili za çã o. Cr ia tiv o. � O rg an iz ad o po r � ár ea s d o co nh e- ci m en to e te m as ge ra do re s. Fl ex ív el . � In st ig ad or d o � de se nv ol vi m en - to d e co m pe - tê nc ia s. In te rd is ci pl in ar � e co nt ex tu al i- za do . Pr iv ile gi a a � co ns tr uç ão d e co nc ei to s. A rt ic ul ad or � da s in er gi a do s ta le nt os , co m pe tê nc ia s e en er gi as . In ce nt iv ad or d a � cu ltu ra o rg an i- za ci on al . Es tim ul ad or d e � si tu aç õe s de ap re nd iz ag em . M ed ia do r d o � co nh ec im en to . Cr íti co , c om � pr át ic a pe da gó - gi ca in te ra tiv a. Em pr ee de do - � ra s. D in âm ic as . � Co nj un ta s e � pa rt ic ip at iv as . M ob ili za do ra s � de fa to s e si tu a- çõ es in te r- -r el ac io na da s. A p ar tir d e de ci - � sõ es c ol et iv as . A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 61 Observe o quadro anterior, que compara duas visões de escola: a que apenas ensina e a que é vista como Instituição aprendente. As diferenças entre ambas são absolutamente sensíveis, em todos os aspectos escolhidos. A primeira, por considerar-se autossuficiente e “acima de tudo”, tem forte teor mecanicista, empobrece e torna rígido o espaço escolar, negando a existência de confli- tos, trabalhando em um paradigma de consensos – artificiais e obrigatórios. Trata os conteúdos escolares de forma reducionista e desenvolve um currículo rígido e “inerte”. As ações, alternadamente tecnicistas e paternalistas, são nor- malmente fragmentadas, embora centralizadas. Quando a escola se vê como uma instituição que também aprende, à medida que interage com a prática social que a envolve, consegue ensinar verdadeira- mente, de forma democrática e participativa. Cresce com o conflito, inerente a todo o processo coletivo, e desenvolve um currículo contextualizado, flexível e “vivo”. Desenvolve ações articuladas, dinâmicas e empreendedoras (no sentido do desenvolvimento e da aprendizagem de todos os que nela transitam). Gostaríamos que você tivesse uma atenção especial, porém, ao papel do pro- fessor e, principalmente, do diretor da escola. O diretor atua, no primeiro caso, como um simples “gerente”, multiplicando determinações emanadas das instân- cias superiores de poder, tornando-se apenas um “burocrata” autoritário e con- trolador. Na “escola aprendente”, no entanto, ele orienta a construção de uma verdadeira “cultura organizacional”, articulando todos os membros da instituição para um belo e sólido processo de construção do conhecimento. Sintetizando a contraposição entre os dois modelos de escola, podemos dizer que trata-se, na verdade, da distinção claraentre instrução e educação. É claro que toda a instrução faz parte da educação. No entanto, é possível instruir sem verda- deiramente educar pois, enquanto a instrução busca o intelecto, visa a transmitir conhecimentos, informar, exercitar, “cientificar” e certificar os alunos ao final de cada curso, a educação vai além, buscando, também, a formação do caráter. Enquanto a instrução desenvolve habilidades e competências técnicas, a educação empenha- -se, ainda, pelo desenvolvimento dos sentimentos de moralidade do indivíduo. Desse modo, quem educa instrui, mas a recíproca não constitui verdade. Utilizando um termo que vem sofrendo grande desgaste na educação – a ponto das pessoas o associarem às posturas neoliberais – falaremos de qualida- de, no trabalho desenvolvido pela nossa “escola aprendente”. Existem várias concepções de qualidade, assim buscamos uma “tipologia” de conceitos de qualidade, baseada em Harvey (1999). Podemos falar, então, de concepções de qualidade: 62 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Excepcional � – conceito tradicional, ligado à ideia de excelência e opera- cionalizado na forma de padrões excepcionalmente elevados de realiza- ções acadêmicas. A qualidade é atingida quando os padrões são ultrapas- sados. Exemplo disso é o estabelecimento de classificações de qualidade a partir de índices numéricos alcançados pelas escolas, como índices de reprovação e classificação dos alunos em concursos. Perfeição ou consistência � – enfoca o processo e estabelece as especifi- cações que busca satisfazer. O conceito de qualidade pode ser resumido pelas ideias de apresentar zero defeitos e acertar tudo, já na primeira vez. Trata-se da expectativa de que muitos alunos acertem todas as questões de provas e testes ou “gabaritem” as avaliações, como se costuma dizer. Adequação à finalidade � – julga a qualidade em termos da medida até a qual um produto ou serviço atende à sua finalidade declarada. Esta pode ser definida pelo aluno, para satisfazer requisitos, ou definida pela institui- ção, para refletir a missão institucional (ou objetivos do curso). Para exem- plificar essa concepção podemos utilizar a absorção dos alunos de uma instituição de ensino pelo mercado de trabalho. Valor em troca do dinheiro � – avalia a qualidade em termos de re- torno quantitativo sobre investimento ou gasto. O cerne é a noção de responsabilidade. Dessa forma, os serviços públicos (educação) devem prestar contas aos que os financiam. Aqui temos a visão do “lucro”, da relação entre custo-aluno e recursos recebidos pela escola, seja ela pú- blica ou particular. Potencial de transformação � – processo de mudança que agrega valor aos alunos, por meio de sua experiência de aprendizado. A qualidade transformativa na educação valoriza e dá poder ao cidadão crítico, por ela formado. Aqui o padrão de qualidade é aferido pela criatividade dos alu- nos, pela sua inserção em projetos sociais e comunitários. O autor estabelece, ainda, padrões diferentes para a avaliação da qualidade: Padrões acadêmicos � – capacidade demonstrada para atender um nível especificado de realização acadêmica. Para alguns, é a capacidade dos es- tudantes de fazerem as coisas designadas como apropriadas, em determi- nado nível de educação. Geralmente, assim é chamada a competência de um indivíduo, em atingir metas e objetivos especificados (ou implícitos) A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 63 do curso, verificados por meio de provas e trabalhos avaliados. Também podem ser vistos como a capacidade de empreender estudos eficazes ou produzir novos conhecimentos, que são avaliados e reconhecidos pelos seus pares. Padrões de serviço � – são medidas criadas para avaliar elementos iden- tificados e destacados no serviço proporcionado, em comparação com benchmarks especificados. Os elementos avaliados incluem atividades de prestadores de serviços e instalações nas quais são prestados os serviços. Os benchmarks (uma das principais medidas de risco, junto com o horizonte de investimento, cenários/eventos futuros, medidas de variação de preço/ retorno de um ativo, liquidez do ativo, são os padrões em relação aos quais medimos o risco) especificados em contratos, tendem a ser quantificados e limitados aos itens mensuráveis. As medições das opiniões dos clientes (satisfação) são usadas como indicadores da prestação de serviços. Padrões de competência � – demonstração de que foi alcançado um ní- vel de habilidade, em relação a uma série de competências estabelecidas. Elas podem incluir habilidades, geralmente transferíveis, exigidas pelos empregadores: habilidades acadêmicas (de nível superior) implícitas ou explícitas � no alcance de um grau de titulação ou em um aprendizado acadê- mico pós-graduado; habilidades específicas congruentes com o início da prática de uma � profissão. Padrões organizacionais � – alcance de reconhecimento formal, por parte dos sistemas que asseguram a gestão efetiva de processos organizacio- nais, e a clara disseminação de práticas organizacionais. Com o passar do tempo, qualidade é sinônimo de respeito às especificida- des, assim surgem novos outros padrões, trazendo também os seus próprios indicadores. Não podemos falar sobre a melhoria da qualidade na educação sem citar o modelo japonês de qualidade. Escolhemos o conhecido ciclo do PDCA, apresen- tado esquematicamente a seguir: 64 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada ACTION Ações corretivas PLAN Planejamento DO Execução CHECK Verificação A P C D Defina as metas Determine os métodos para alcançar as metas Eduque e treine Execute o trabalho Verifique os efeitos do trabalho executado Atue no processo em função dos resultados Considerado uma ferramenta básica para o alcance da qualidade, o ciclo do PDCA prevê os quatro momentos apresentados no esquema, em um ciclo que gira como um ponteiro de relógio, objetivando a melhoria contínua. Em qual- quer uma das ações (planejar, executar, avaliar e corrigir), a ação do gestor, co- ordenando o processo e fazendo com que esse “relógio” funcione em um ritmo ágil – mas não apressado – e bem-sucedido, é fundamental. Tomando por base o projeto pedagógico da escola, o gestor coordena o processo cooperativo e participativo de planejamento, clarificando as metas mais gerais que a escola deve buscar. Sua ação não acaba nesse momento, no entanto. É necessário que ele não seja apenas um observador, mas que participe ativamente na execução do projeto planejado. É ainda o diretor da escola o gestor do processo de avaliação do proje- to, acompanhando o processo e estimulando a equipe a participar ativamente da avaliação. Concluída a avaliação do projeto pedagógico chega o momento de veri- ficar os desvios e incorreções e corrigir aqueles que forem encontrados, buscan- do progressivamente o alcance da qualidade. A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 65 Ensino e educação de qualidade (!?) (MORAN, 2006. p. 12) Há uma preocupação com ensino de qualidade mais do que com a edu- cação de qualidade. Ensino e educação são conceitos diferentes. No ensino se organizam uma série de atividades didáticas para ajudar os alunos a compreen- derem áreas específicas do conhecimento (Ciências, História, Matemática). Na educação o foco, além de ensinar, é ajudar a integrar ensino e vida, conhecimento e ética, reflexão e ação, a ter uma visão de totalidade. Fala-se muito de ensino de qualidade. Muitas escolas e universidades são colocadas no pedestal, como modelos de qualidade. Na verdade, em geral, não temos ensino de qualidade. Temos alguns cursos, faculdades, universidades com áreas de relativa excelência. Mas o conjunto das instituições de ensino estámuito distante do conceito de qualidade. O ensino de qualidade envolve muitas variáveis: Organização inovadora, aberta, dinâmica. Projeto pedagógico parti- � cipativo. Docentes bem preparados intelectual, emocional, comunicacional � e eticamente. Bem remunerados, motivados e com boas condições profissionais. Relação efetiva entre professores e alunos que permita conhecê-los, � acompanhá-los, orientá-los. Infraestrutura adequada, atualizada, confortável. Tecnologias acessí- � veis, rápidas e renovadas. Texto complementar 66 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Alunos motivados, preparados intelectual e emocionalmente, com ca- � pacidade de gerenciamento pessoal e grupal. O ensino de qualidade é muito caro, por isso pode ser pago por poucos ou tem que ser amplamente subsidiado e patrocinado. Poderemos criar algumas instituições de excelência. Mas a grande maioria demorará décadas para evoluir até um padrão aceitável de excelência. Temos, no geral, um ensino muito mais problemático do que é divul- gado. Mesmo as melhores universidades são bastante desiguais nos seus cursos, metodologias, formas de avaliar, projetos pedagógicos, infraestrutu- ra. Quando há uma área mais avançada em alguns pontos é colocada como modelo, divulgada externamente como se fosse o padrão de excelência de toda a universidade. Vende-se o todo pela parte e o que é fruto às vezes de alguns grupos, lideranças de pesquisa, como se fosse generalizado em todos os setores da escola, o que não é verdade. As instituições vendem externa- mente os seus sucessos – muitas vezes de forma exagerada – e escondem os insucessos, os problemas, as dificuldades. Temos um ensino em que predomina a fala massiva e massificante, um número excessivo de alunos por sala, professores mal preparados, mal pagos, pouco motivados e evoluídos como pessoas. Temos bastantes alunos que ainda valorizam mais o diploma do que o aprender, que fazem o mínimo (em geral) para ser aprovados, que esperam ser conduzidos passivamente e não exploram todas as possibilidades que existem dentro e fora da instituição escolar. A infraestrutura costuma ser inadequada. Salas barulhentas, pouco mate- rial escolar avançado, tecnologias pouco acessíveis à maioria. O ensino está voltado, em boa parte, para o lucro fácil, aproveitando a grande demanda existe, com um discurso teórico (documentos) que não se confirma na prática. Há um predomínio de metodologias pouco criativas; mais marketing do que real processo de mudança. É importante procurar o ensino de qualidade, mas conscientes de que é um processo longo, caro e menos lucrativo do que as instituições estão acostumadas. Nosso desafio maior é caminhar para uma educação de qualidade, que in- tegre todas as dimensões do ser humano. Para isso precisamos de pessoas que A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 67 façam essa integração, em si mesmas, do sensorial, intelectual, emocional, ético e tecnológico, que transitem de forma fácil entre o pessoal e o social. E até agora encontramos poucas pessoas que estejam prontas para a educa- ção com qualidade. Dica de estudo Nossa dica é o livro Alunos Felizes: reflexões sobre a alegria na escola a partir de textos literários, de Georges Snyders. O autor mostra, por meio de exemplos tirados da literatura, que é possível criar uma escola alegre, pois existem – embora constituam uma minoria – alunos felizes. Assim, acreditamos que essa reflexão é um importante indicador da qua- lidade da educação que ali é construída. Atividades 1. Leia o texto a seguir, publicado em 9 de abril de 2009, e responda a questão de acordo com o texto. Brasil perde 3,6 milhões de matrículas em quatro anos (GALVÃO, 2009) “A queda no número de matrículas representa um grave indicador de in- sucesso das políticas educativas”, diz Associação dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente. (Fonte: CGC Educação, 08/04/2009) O número de matrículas no ensino brasileiro sofreu uma redução de mais de 3,6 milhões em quatro anos. Em 2004, 56 851 090 brasileiros estavam es- tudando nas escolas públicas e privadas; em 2008, este número caiu para 53 232 868, que representa uma queda de 6,4% (tabela). 68 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Etapa ou modalidade Ano Variação 2004/2008 (%)2004 2008 Creche 1 348 237 1 751 736 29,9 Pré-escola 5 555 525 4 967 525 – 10,6 Ens. Fundamental 34 012 434 32 086 700 – 5,7 Ensino Médio 9 169 357 8 366 100 – 8,8 Ed. Especial 371 383 319 924 – 13,9 Ed. Profissional 676 093 795 459 17,7 Ed. de Jovens e Adultos 5 718 061 4 945 424 – 13,5 EJA – Ens. Fundamental 4 009 008 3 295 240 – 17,8 EJA – Ens. Médio 1 709 053 1 650 184 – 3,4 Total 56 851 090 53 232 868 – 6,4 Os dados constam do II Relatório Alternativo sobre os Direitos da Criança, divulgado pela Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced) no final de março. “A queda geral no número de matrí- culas representa um grave indicador de insucesso das políticas educativas”, diz o relatório. O estudo revela uma série de indicadores educacionais oficiais que “de- monstram a persistência de graves violações de direitos educativos, bem como a existência de profundas desigualdades no interior da rede pública e entre esta e a rede privada”. O trabalho, que será encaminhado ao Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas, aborda oito eixos centrais de análise da situação da criança e do adolescente, entre eles violência, família, saúde, trabalho infantil e pro- gramas de apoio. Violação O capítulo de Violação do Direito à Educação constata que, com exceção das creches e da educação profissional, há “uma permanente tendência de queda no número de matrículas registradas nas redes de ensino.” A redução é explicada, em parte, pelas mudanças na metodologia do Censo Escolar, ado- tadas em 2007. A pesquisa destaca o fracasso do poder público na universalização do atendimento pré-escolar (queda de 10% nas matrículas), do Ensino Médio (– 8,8%) e da Educação de Jovens e Adultos (– 13,5%). As únicas etapas que A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 69 registraram aumento no número de matrículas foram a creche (29,9%) e a educação profissional (17,1%). No caso da educação pré-escolar, o principal motivo da queda nas matrí- culas é a transferência das crianças de 6 anos para o Ensino Fundamental. No entanto, a Anced diz ser “curioso” que a ampliação do Ensino Fundamental para 9 anos não tenha sido capaz de provocar uma reversão da tendência de queda nas matrículas. Uma das causas seria a diminuição das taxas de nata- lidade e a melhoria do fluxo escolar. Público X privado e municipalização O trabalho verificou também uma lenta ampliação da participação estatal em relação ao setor privado, com exceção do Ensino Fundamental, onde as matrículas da rede particular subiram de 9,8% em 2004 para 11,3% em 2008. Já nas creches e pré-escolas cresceu a participação do Estado: eram 34,7% das matrículas em 2004 e passaram para 37,39% em 2008. Na educação profissional o setor privado atendia 54,3% das matrículas em 2008, contra 58,1% em 2004. Os dados também demonstram que a municipalização do Ensino Fun- damental, cuja responsabilidade pela oferta é dividida entre estados e mu- nicípios, vem ganhando força. Os estados cobrem 34,3% das matrículas, enquanto 54,4% são vinculadas aos municípios. Esse processo de rápida mu- nicipalização, iniciado em 1996, destaca a pesquisa, “não foi acompanhado do devido suporte técnico e financeiro aos municípios, cuja infraestrutura escolar, em geral, ainda é bastante precária”. Vergonhoso O estudo classifica de “vergonhosa” a taxa de 10% de brasileiros analfabe- tos e frisa que o “ritmo de reduçãodo analfabetismo foi significativamente desacelerado”. De acordo com os dados, a taxa de analfabetismo da popula- ção com 15 anos foi reduzida em somente 7,4% da população entre 1992 e 2007. De 2004 para 2007, a redução foi de 11,4% para os atuais 10%. Para os autores da pesquisa, todos os planos de erradicação do analfabe- tismo mostraram-se pouco eficazes pela falta de determinação do Estado. “A partir de 2002, pode-se notar uma estagnação na queda, motivada, prova- velmente, pela ausência de programas de alfabetização ou pelas dificulda- 70 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada des destes programas em atingir setores remanescentes com elevadas taxas de analfabetismo”, diz a Anced. Além da “calamidade geral” do analfabetismo, a pesquisa revela as gran- des desigualdades do sistema. No Sudeste e no Sul, a taxa de analfabetismo é de 5,7% e 5,4%, respectivamente, contra 19,9% no Nordeste. O analfabe- tismo está basicamente concentrado na população de mais baixa renda, al- cançando 17,7% para quem tem renda per capita de até meio salário mínimo e 13,2% para as pessoas com rendimento de até um salário mínimo. Para quem ganha acima de dois mínimos, o analfabetismo encontra-se pratica- mente erradicado, com taxa de 1,4%. Raça e renda As desigualdades também aparecem na análise de raça/etnia: a taxa de analfabetismo entre os brancos é de 6,1%, enquanto a dos pardos e negros é respectivamente, 14,3% e 14,1%. Cruzando os dados constata-se que 68,8% das pessoas analfabetas no Brasil são negras. O tempo de escolaridade também é bastante desigual quando se compara ricos e pobres. Dados de 2006 mostram que entre os 20% mais pobres, a média de anos de estudo é 4,7 anos e entre os 20% mais ricos, alcança 10,3 anos. As diferenças regionais também são grandes: no Sudeste, a média de estudo é 7,8 anos, contra 5,8 no Nordeste. “Tal situação de exclusão edu- cacional fortalece a profunda e rígida desigualdade brasileira, retirando de amplos contingentes populacionais já marginalizados qualquer possibilida- de de mudança efetiva de sua condição, com impactos nefastos nas crianças e adolescentes a elas vinculadas”, afirma a entidade. A Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescen- te, que reúne 33 entidades espalhadas pelo Brasil, faz ainda uma série de re- comendações ao poder público para melhorar a qualidade da educação dos brasileiros. Entre elas estão enfrentar o analfabetismo; mais creches; revisão dos currículos do Ensino Médio e profissional; fortalecer a inclusão dos por- tadores de deficiência na rede regular; valorizar os professores e aumentar o investimento em educação para 7% do PIB . A escola como instituição aprendente: a busca da qualidade da educação 71 A partir do texto, destaque os indicadores mais importantes e que determi- nam a qualidade da educação em nosso país. 2. Uma das características mais importantes da escola como instituição apren- dente é: a) aquela em que os alunos aprendem mais fora da escola do que no am- biente escolar. b) a que valoriza respostas criativas e contextualiza os conteúdos escolares. c) a que coloca os conteúdos acima da formação crítica do aluno. d) a que valoriza mais as cuidadosas avaliações do rendimento dos alunos do que da própria instituição. Eloiza da Silva Gomes de Oliveira O termo mudança institucional é muito utilizado atualmente nos estudos sobre gestão. Nesta aula pretendemos conceituar mudança institucional, destacar os níveis em que ela pode ocorrer nas instituições e dar relevo à atu- ação do gestor escolar nesse processo de mudança e inovação na escola. A mudança institucional e seus níveis de ocorrência Quando se ouve falar em mudança, o que pode ser imaginado? Apenas uma troca de coisas dos seus lugares originais, como quando mudamos os móveis de lugar porque não podemos, naquele momento, trocá-los por novos? Uma alteração maior de ambiente, como quando mudamos para uma nova casa, e precisamos decidir quais as coisas que colocare- mos no caminhão, as que daremos a alguém, ou aquelas que jogaremos fora? As famosas “resoluções de ano novo”, famosas por habitualmente não serem realizadas? Ou uma alteração profunda de vida, de atitudes, de ambientes, de metodologias, que realmente transforma aquilo que existia anteriormente? Com frequência as pessoas utilizam os termos transformação e reforma como sinônimos. No entanto, são processos bastante diferentes: a refor- ma é constituída de mudanças superficiais, que não alteram a estrutura, o âmago dos processos; a transformação implica modificações profundas, que podem atingir a própria estrutura da instituição. Portanto nossa meta principal é discutir a importância da ocorrência de mudanças (transformações) na organização escolar, mostrando a im- portância da ação do gestor nesse processo. Schein (1982, p. 3-4), conhecido autor da área da Psicologia nas organi- zações, afirma que existem seis coisas que cada gestor deve saber: Mudança institucional 74 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada [...] (1) o que, em essência, está tentando realizar; (2) como organizar o trabalho para atingir os objetivos escolhidos; (3) como recrutar, treinar, distribuir o trabalho e gerir os recursos humanos (funcionários e dirigentes disponíveis para o trabalho); (4) como criar condições de trabalho e sistemas de recompensas e punições capazes de fazer com que os funcionários e os dirigentes mantenham elevada eficiência e um moral suficiente para se manterem eficientes por longos períodos de tempo; (5) como operar mudanças na organização em resposta a pressões que têm origem nas modificações tecnológicas e sociais ocorridas tanto no ambiente externo como dentro da própria organização; (6) como manejar a competição e outras forças que derivam de outras organizações, de unidades situadas dentro da organização, como os sindicatos de entidades reguladoras e, por fim, das suas próprias “dores de crescimento”. Neste momento apresentaremos cada um desses itens, portanto quando Schein apresenta o primeiro item “o que, em essência, está tentando realizar” quer dizer que o gestor delineia claramente os objetivos e as metas buscadas pela escola; o segundo item “como organizar o trabalho para atingir os objetivos escolhidos” significa que o gestor realiza uma cuidadosa seleção de estratégias, avaliando-as quanto à objetividade e à adequação aos objetivos propostos; o item terceiro “como recrutar, treinar, distribuir o trabalho e gerir os recursos hu- manos (funcionários e dirigentes disponíveis para o trabalho)”, o gestor aprovei- ta-se desses recursos de forma inteligente e proveitosa para a instituição escolar; no quarto item o gestor possibilita condições de trabalho aos funcionários grati- ficando aqueles que cumprem as metas e punindo aqueles nos quais negligen- ciam suas tarefas; o quinto item quer dizer que o gestor deve propor mudanças na organização adequando-se às exigências de mercado e evolução tecnológi- ca, assim, deve buscar meios para trazer à escola a inovação e os progressos pedagógicos e tecnológicos; o sexto item refere-se às mudanças progressivas da escola, sendo que essas mudanças devem ser planejadas, buscando não deses- tabilizar o funcionamento da mesma. Para Boog (1994) as organizações, da mesma maneira que os seres vivos, apresentam duas tendências opostas: a conservação, que as leva a manter a sua cultura e tudo que dela faz parte, e a diferenciação, que pressupõe mudança e expansão. Essas duas tendências manifestam-se ao longo de toda a vida da or- ganização e em todos os aspectos que dela fazem parte. O autor associa às mudanças o fenômeno da crise, que provoca o movimento e a desestabilização necessários à mudança. É importante compreender o termo crise, no entanto, fora do seu contexto de significado negativo.O que leva à “morte” da organização não é a crise, mas sim a crise que, não resolvida, se insta- la e torna-se crônica, minando os alicerces da instituição. Podemos falar, então, de uma crise normativa, necessária para criar uma tensão suficientemente forte para deflagrar o processo de mudança, mas im- Mudança institucional 75 pulsionadora do alcance de estratos mais elevados de desenvolvimento e de “normalidade”. Boog (1994) realiza uma abordagem bastante aprofundada do processo de mudança institucional e apresenta o esquema que reproduzimos a seguir, e que comentaremos com mais detalhes. Identidade Relações Missão Caráter Filosofia Biografia Ambientes Sentimentos Motivação Liderança Comunicação Fluxos de: Material Informação Dinheiro Documentos etc. Prédios/ Instalações Equipamentos Ferramentas Dinheiro Capital/Resultado “Crise espiritual” “Crise estratégica” “Crise de resultados” “Crise de liquidez” Processos Recursos Habilidades conceituais Habilidades sociais ou interpessoais Habilidades administrativas Habilidades técnicas Ex ce lê nc ia Efi cá ci a Efi ci ên ci a A rt e Ci ên ci a Transformação Desenvolvimento Inovação/melhoria Manutenção (B O O G , 1 99 4, p . 5 2) Vemos, nesse esquema, que existem quatro níveis de mudança institucional: 76 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Nível dos recursos � – inclui tudo que tem uma existência física, material (o prédio, as instalações, equipamentos, recursos humanos e financeiros, por exemplo). Consequentemente, tudo que pertence a este nível é pal- pável, mensurável. Nível dos processos � – trata-se dos fluxos vitais da organização, realizados por meio das metodologias escolhidas e práticas desenvolvidas na escola. Embora não tenha uma existência material, como o nível anterior, os pro- cessos são lógicos, calculáveis, previsíveis. Nível das relações � – é constituído pelo chamado “clima” ou “ambiente” da instituição. Envolve interação entre pessoas, as suas expectativas, mo- tivações, emoções, simpatias e antipatias. Neste nível estão os processos de comunicação, liderança, prestígio e poder. É, portanto, mais complexo que os dois anteriores. Nível da identidade � – não estamos falando, aqui, das identidades indivi- duais das pessoas que transitam na organização, mas de uma “identidade institucional”, composta pela cultura, valores e missão da mesma. Em cada um desses níveis, a mudança se processa de uma forma, em um ritmo e com intensidade de resistência diferentes. As mudanças quantitativas, que se situam muitas vezes como reformas, são razoavelmente mais fáceis de serem implementadas. À medida que subimos de estrato na figura apresentada, no entanto, o processo de mudança vai ficando mais complexo. Cada uma delas requer, do gestor, habilidades ou competências diferentes como estão apresen- tados no quadro abaixo: Nível Efeitos principais Competências exigidas do gestor Recursos Manutenção e/ou ampliação rotinei- ra dos já existentes, depende com frequência de orçamentos externos à escola e sofre influência intensa do ambiente externo à escola. Técnicas. Processos Melhoria constante (inovação), requer uma atualização contínua de informa- ções por parte da escola. Técnicas organizativas. Relações Desenvolvimento progressivo, o ideal é que o nível de interação entre os ato- res institucionais seja aprimorado. Pessoais (sensibilidade, ponderação, equilíbrio emocional) e sociais. Identidade Transformação, pois as mudanças neste nível sempre modificam profun- damente a instituição e os três níveis anteriores. Técnicas, organizativas, pessoais (as anteriores e mais sabedoria, intuição), sociais, conceituais, holísticas etc. Mudança institucional 77 Afirma Boog (1994): A empresa que não logra sucesso nos seus processos de qualidade total ou de reengenharia não o faz porque só tem conceitos e ferramentas no nível dos recursos e dos processos. Não é que esses instrumentos estejam errados ou que lhes falte algo. É que não consideram na sua essência as qualidades dos níveis da identidade e das relações. Os processos de mudança eficazes têm como característica a atuação com ênfase simultânea e equilibrada no limiar da ciência e da arte. A partir disso, pode-se afirmar que a forma como é feita a gestão das mudan- ças indica três modelos diferentes de escola: A escola eficiente � – dá atenção especial aos níveis dos recursos e dos proces- sos, desenvolvendo mudanças no sentido da manutenção e da melhoria. A escola eficaz � – cuida dos recursos e dos processos, mas também está voltada para as relações, desenvolvendo as pessoas e a própria instituição. A escola excelente � – chega a trabalhar com o nível da identidade institu- cional, desencadeando o verdadeiro processo de transformação. Como as Teorias da Administração, o conceito de mudança institucional também evoluiu com o tempo. Até a década de 1970, falar em mudança organizacional significava falar em projeto ou desenho organizacional. A ideia de mudança estava centrada no conceito de alteração de organogramas, na criação, modificação ou extinção de cargos e funções. Nos anos 1980, porém, essa abordagem vai ganhar uma nova forma. Isso decorreu, em grande parte, do fato de que, após operar vários tipos de mudanças em suas empresas, muitos administradores perceberam que ainda era necessário mudar os valores e as crenças dos grupos, para que os resultados surgissem. Segundo Herzog (apud WOOD, 1992), qualquer mudança no contexto orga- nizacional engloba alterações fundamentais no comportamento humano, nos padrões de trabalho e nos valores vigentes, em resposta às modificações ocorri- das – ou antecipando alterações estratégicas, de recursos ou de tecnologia. Este autor afirma, ainda, que o segredo para enfrentar com sucesso o proces- so de mudança é o gerenciamento das pessoas (nível das relações), mantendo elevado o nível de motivação e evitando frustrações e desapontamentos. Para ele, grande desafio não é a mudança tecnológica, mas mudar as pessoas e a cul- tura organizacional, renovando os valores e “oxigenando as atitudes”. 78 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada O’toole (apud WOOD, 1992) considera que há cinco fatores fundamentais para uma mudança cultural. São eles: a mudança deve ser construída sobre as forças e os valores já existentes � na organização; deve haver participação intensa de todos os escalões hierárquicos; � a mudança deve ocorrer de forma holística, relacionando-se com a estru- � tura, com as estratégias organizacionais, com os sistemas de recompensa e de controle; a alta gerência deve dar todo o apoio ao processo de mudança, e este � deve tornar-se contínuo; deve ser planejada a longo prazo e executada em etapas. � A cada nível de mudança está associada uma crise que a deflagra. Assim, a mudança no nível dos recursos é determinada por uma “crise de liquidez”, que mostra à organização que os meios físicos de que dispõe estão defasados ou insuficientes. Mudanças nos processos são antecedidas por uma “crise de resul- tados”, no nível das relações, por uma “crise estratégica” e no nível da identidade da organização, pela “crise espiritual”. Por exemplo, a “crise de resultados” constituída pela diminuição do índice de aprovação de uma escola pode conduzir a mudanças metodológicas; a “crise es- tratégica” de conflitos entre alunos dos diferentes turnos da escola pode deman- dar atividades integradoras e uma intervenção da equipe pedagógica da escola; por “crise espiritual” podemos entender, por exemplo, a situação que leva uma escola muito tradicional e conservadora a mudar a sua proposta educacionalpor ocasião do falecimento do fundador e proprietário da escola. A existência dessas crises é explicada por Derrida (1999, p. 156). Ele afirma que, em período de crise “[...] a provocação para pensar reúne no mesmo ins- tante o desejo de memória e a exposição do futuro, a fidelidade de um guardião bastante fiel para querer guardar até a sorte do futuro, em outros termos, a sin- gular responsabilidade pelo que ele não tem e que ainda não existe”. Além da busca da eficácia, da eficiência e da excelência institucional, o autor mostra que, até o nível da eficácia, relativo aos recursos e processos, a organiza- ção atua no nível da “ciência”. Já para o atingimento da excelência, que depende Mudança institucional 79 de mudanças nas relações e na própria identidade da instituição, chega-se à uti- lização do que o autor considera “arte”. Sintetizando, as mudanças institucionais mais profundas e duradouras, são aquelas que ocorrem nos níveis das relações e da identidade da organização, obrigatoriamente alteram o que nós chamamos de “cultura institucional”. O ponto de partida para a análise de toda a mudança estratégica é a noção de que a formulação do conteúdo de qualquer nova estratégia implica controle do ambiente externo. Implica antes, no entanto, alterações no contexto interno, que é a própria cultura organizacional, por meio da qual as ideias de mudanças devem fluir. Quando uma organização deseja entender o seu ambiente, deve entender-se a si mesma, à sua própria cultura, uma vez que a compreensão do ambiente é sempre uma projeção de si própria. Criar um clima interno favorável à mudança é indispensável à consecução de mudanças de forma positiva. A cultura institucional consiste em um conjunto complexo de atitudes, valo- res, crenças, pressupostos e formas de pensar e agir frente à realidade da insti- tuição, que definem os modos pelos quais uma organização desenvolve as suas atividades. Esse núcleo de crenças e pressupostos são manifestos nas estruturas, sistemas, símbolos, mitos e padrões de recompensas dentro da organização. No entanto, qualquer estratégia para modificar a cultura organizacional terá de en- volver pensamentos e ação tanto no nível das crenças básicas como no de suas manifestações. Ela pode apresentar-se favorável, desfavorável ou neutra quanto à realização de mudanças institucionais. A mudança organizacional envolve, portanto, mudanças de atitudes e va- lores, nos processos cognitivos e na formação dos atores institucionais, na es- trutura de poder, na gerência de recursos e de recompensas. Os envolvidos no processo de mudança vão se comportar de acordo com a forma como definem a nova realidade, rejeitando-a ou legitimando-a. Ela pode ser implementada de forma planejada (adaptativa), com ciclos de mudança realizados participativamente, ou de forma desordenada e precipitada (catastrófica), de forma imposta. Podemos afirmar, então, que a avaliação institucional pode constituir-se em importante instrumento para deflagrar as mudanças nas instituições. Esse ciclo pode ser visto, esquematicamente, assim: 80 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Definição das alternativas e formas de mudança a serem priorizadas para implementação. Preparação do ambiente institucional para a mudança. Avaliação: definição do comportamento estratégico atual e do que deve ser alterado. Implementação progressiva das mudanças, sempre com o acompanhamento do processo. As transformações desencadeiam, com frequência, situações de preocupa- ção e ameaça, gerando conflitos e resistências. Precisamos destacar, então, que uma das formas mais eficazes para minimizar esses efeitos é a comunicação. A resistência à mudança se intensifica quando as pessoas não recebem infor- mações suficientes sobre o que está acontecendo e sobre qual será a sua situa- ção futura. A comunicação constitui-se em um recurso estratégico para revigorar a cultu- ra institucional, possibilita discussões para a solução de conflitos, aumenta a par- ticipação do grupo – desejável em todo o processo de mudança organizacional – permite a administração democrática do conhecimento e o compartilhamento dos novos valores e atitudes construídos. Mudança institucional 81 Existem quatro quadrantes na mudança institucional. Não os chamamos de fases ou etapas, porque eles não são lineares. A organização pode evoluir em ritmos diferentes e até mesmo ter pequenas “regressões” na passagem de um quadrante ao outro. Da mesma forma, diferentes setores de uma mesma instituição podem evo- luir de maneira diferente em relação à mudança, estando cada uma delas em quadrantes diferentes, em um mesmo momento histórico. O fluxo dos quadrantes de mudança institucional deve ser lido no sentido horário, a partir do primeiro, que é a inércia. Inércia Adaptação Indecisão Inadequação Percebe-se, dessa forma, que qualquer mudança na instituição parte de um momento de inércia, que precisa ser avaliado como negativo pelos atores insti- tucionais. Essa “tensão” – positiva, porque desencadeia a motivação para a mu- dança – é representada pelo sentimento de inadequação, de que há aspectos que precisam ser alterados. Logo, a seguir, dá-se um momento de indecisão quanto às estratégias e ritmos necessários, para que as modificações já detectadas sejam realizadas. Finalmente, após a implementação do início do processo de mudança, o último quadrante do esquema mostra a etapa de adaptação institucional aos novos “cenários” gerados. Boog (1994, p. 60-61) apresenta um modelo esquemático de mudança que se estratifica em três níveis: 82 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Necessidade de conhecer – refere-se ao diagnóstico atual dos recursos quali- tativos da organização: Como somos? Como queremos ser (o que queremos mu- dar)? Há a demanda de novos conhecimentos sobre conceitos de gestão e paradig- mas, para todos os seus membros. Necessidade de aprender/vivência da instituição – ocorre o verdadeiro desenvolvimento da organização, por meio da aquisição de habilidades e capacidades. Necessidade de fazer – refere-se ao diagnóstico atual dos recursos quantitati- vos da organização: Onde nós estamos? Onde nós queremos estar? Há a deman- da de construção de projetos estratégicos, de novos conceitos e da definição de diretrizes, metas, objetivos e planos estratégicos (novos procedimentos e instrumentos participativos de planejamento e de avaliação). Em todos os estratos ficou clara a importância da participação do coletivo da instituição no processo de mudança, por meio do uso do pronome nós. Desta forma, conclui o autor, sobre a metáfora de que, para a mudança ocorrer, todos precisam “estar no mesmo barco”: A passagem da situação atual para a situação futura exige passos intermediários, e o segredo para o sucesso dessa travessia é que essa ponte seja construída em conjunto, por meio da vivência e do aprendizado individual e coletivo. (BOOG, 1994, p. 62) Quando uma escola pretende estabelecer mudanças em sua estrutura – ver- dadeiras transformações e não apenas reformas – ela precisa estabelecê-las em três níveis: A visão � – como a escola pensa a educação e a si mesma; como deseja re- lacionar-se com a comunidade externa, com a prática social; que homem pretende formar, e para que mundo; como deseja ser vista (identificada) externamente. Os valores � – em que essa escola acredita, o que pensa sobre qualidade na educação, ética, equidade, criatividade, poder, justiça social; que tipo de lideranças admite em seu interior. A missão � – de que forma a escola define o seu objetivo maior; o que ela realmente quer; que serviços pretende prestar à comunidade e ao mundo que a envolve. Mudança institucional 83 Não devemos esquecer, portanto, que a escola não pode tornar-se estática e cristalizada,perdendo o que possui de mais dinâmico e potencialmente revigo- rador: o olhar para o futuro, já que acolhe as gerações jovens de um país. Não devemos desconhecer, também, a importante atuação do gestor, em qualquer processo de mudança. Ele pode ser o catalisador ou o empecilho à admissão, na escola em que atua, da inovação – indispensável à sobrevivência. Texto complementar Avaliação institucional: avanços na melhoria da qualidade do ensino (OLIVEIRA, 2009) Num contexto geral, as contribuições da avaliação institucional para a Gestão Escolar propiciam reflexões sobre a mudança da concepção da ava- liação, exercício da gestão democrática, efetiva participação e a consolida- ção da identidade da escola. Outra contribuição que a avaliação institucional trouxe para a melhoria da escola foi provocar as instância de participação da comunidade e a per- cepção da necessidade do engajamento dos agentes escolares nos diversos setores da escola na tomada de decisão. Essa proposta da participação de todos produz a conscientização da co- munidade escolar de que todos os agentes da escola possuem o mesmo grau de importância para o bom funcionamento da instituição e que todos podem contribuir e são responsáveis para a melhoria da Educação Básica. Propor a autoavaliação institucional nas escolas de Educação Básica é um desafio, porque as próprias políticas educacionais não dão grande relevân- cia a essa prática. Assim, é preciso uma mudança de cultura para que ela se efetive nas instâncias educacionais no intuito de trazer a melhoria para a instituição de ensino. Fernandes (2002, p. 140) propõe uma análise a respeito do processo de avalia- ção, que resume a contribuição da avaliação institucional em uma instituição: 84 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada A escola que passa por um processo avaliativo sério e participativo descobre sua identidade e acompanha a sua dinâmica. Muita coisa aprende-se com esse processo. Mas o que fica de mais importante é a vivência de uma caminhada reflexiva, democrática e formativa. Todos crescem. Os dados coletados mudam, mas vivência marca a vida das pessoas e renova esperanças e compromisso com um trabalho qualitativo e satisfatório para a comunidade escolar e para a sociedade. Avaliação institucional é, portanto, um processo complexo e não há, pronto para consumo, um modelo ideal e único para as escolas. Ela precisa ser construída. É o desafio de uma longa caminhada possível e necessária. Dica de estudo Veja o filme Sociedade dos Poetas Mortos, que mostra o sistema de ensino da Welton Academy, tradicional escola preparatória. John Keating, ex-aluno da escola, torna-se o novo professor de literatura e propõe métodos de ensino que incentivam seus alunos a pensarem por si mesmos. Isso acaba criando um con- flito na instituição, entre o conservadorismo e a possibilidade de mudança e inovação. Após assistir ao filme, tente traçar paralelos entre as necessidades de mudança naquela instituição de ensino, situando-as nos vários níveis estudados na aula. Atividade O exercício começa com uma lenda egípcia, a “Lenda do peixinho vermelho”: No centro de um belíssimo jardim, havia um grande lago, adornado de ladrilhos azul-turquesa. Ali vivia toda uma comunidade de peixes que ele- gera um dos membros do grupo como rei, e levava uma existência de total serenidade e satisfação. Havia um peixinho vermelho, porém, que era menosprezado por todos. Os outros peixes arrebatavam para si toda a comida, escolhiam os melhores lugares para o descanso e deixavam para ele apenas as sobras. Sem muito tempo para o descanso e as brincadeiras, voltou-se para os estudos. Depois de mapear todo o lago encontrou o escoadouro e resolveu conhecer outros mundos e peixes de outras comunidades. Mudança institucional 85 Optou pela mudança... Alcançou um grande rio e fez muitos conhecimentos. Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatiza- ram, instruindo-o quanto às dificuldades da viagem e os melhores roteiros para prossegui-la. Chegou até o oceano e ficou fascinado com o que viu: a água era salgada e as espécies animais totalmente diferentes das que ele conhecera. Passou a viver nos corais, com muitos outros peixinhos amigos. Descobriu algo, no entanto, que o deixou preocupado: quando a grande seca chegasse, os animais marinhos tinham a sua sobrevivência garantida, pois o mar não secaria. Mas, o que seria dos seus antigos companheiros, do lago em que vivera tanto tempo na infância? Não deveria salvá-los? O mais correto não seria informá-los da proximi- dade da seca? Dessa forma, fez a longa viagem de volta pelo mar, pelo rio, até o canal que o levou novamente ao lago. Não encontrou, no entanto, as manifestações de surpresa e de alegria que esperava. Tentou comunicar a todos o risco iminente, mas ninguém lhe deu ouvi- dos. Nem o rei, imerso em sua soberba, quis ouvi-lo. Ninguém quis estudar o mapa da viagem, ou emagrecer e exercitar-se para tanto tempo de natação. E o peixinho abandonou novamente o lago, voltando para o mar... Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca. O nível das águas desceu e o lago onde viviam os peixes preguiçosos tornou-se lama, fazendo com que a comunidade dos peixes desaparecesse. (Disponível em: <http://vivificar.vilabol.uol.com.br/prefacio.html>.) Perceba que essa é uma fábula sobre mudança, resistência e sobrevivência organizacional. 86 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Procure redigir um texto, estabelecendo analogias entre os conceitos estu- dados na aula, sobre mudança nas instituições, e a história do peixinho. Não esqueça de comparar a atitude do rei, gestor daquela comunidade, e a do peixinho vermelho, possível “agente de mudança”. Mudança institucional 87 Márcia Souto Maior Mourão Sá Ao abordar as teorias da Psicologia, escolhemos três grandes represen- tantes desse universo teórico: o Behaviorismo ou Comportamentalismo, a Teoria de Campo e a Psicanálise. Durante a aula pretendemos identificar os princípios fundamentais das teorias estudadas, aplicando-os à prática educacional, e conduzindo à apropriação dos principais aspectos das teo- rias estudadas como ferramentas para a ação gestora na escola. Todos sabem que a Psicologia é um dos importantes fundamentos para o trabalho do educador. Assim, apresentaremos algumas teorias da Psicologia e suas aplicações à gestão da escola. Em qualquer cultura organizacional, no nosso caso, a instituição edu- cacional, as mudanças agem como significantes para os diferentes grupos de pessoas que trabalham ou estudam nesse espaço social. Por isso, para muitas teorias psicológicas, os sujeitos precisam estar dispostos a olhar para si e a estar disponíveis para mudar as suas convicções, muitas vezes limitan- tes, mas que lhes asseguram um certo equilíbrio nas relações interpessoais. Nesse sentido, as transformações pessoais estão fortemente “amarradas” à gestão e a uma consequente transformação organizacional. Para criar uma cultura nova no cenário escolar, o primeiro passo é ter um objetivo claro e aceitar que a escola precisa mudar. Embora seja um “lugar- comum”, vale a pena lembrar que toda a transformação é difícil e as pessoas precisam desejá-la para que ela aconteça. Isso pode ser traduzido, por exem- plo, em um olhar crítico aos dados objetivos existentes (frequência, taxa de evasão, taxa de reprovação) e aos dados subjetivos, como a representação que o aluno tem sobre o corpo docente, a direção e os demais funcionários que trabalham na instituição, e a forma como os pais veem a escola. Esses dados podem ser somados e compartilhados por todas as pessoas envolvidas com a instituição – muitos devem ser colecionados e compartilhados, para comprovar a necessidade de uma mudança significante.Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 90 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada A segunda tarefa caminha no sentido de envolver toda a escola, definindo em conjunto a nova cultura, pois um novo ideal que é formado coletivamen- te pode firmar-se na colaboração e em atitudes atenciosas e positivas. Quando microideais, que fazem parte da grande meta a ser alcançada, são trabalhados de forma transparente, começa um processo de incorporação dessa meta nas atividades diárias dos funcionários gerando uma atitude positiva. Uma vez criado um compromisso pessoal, é preciso mudar o ideal. Definir o ideal é bem diferente de construir, por meio de um compromisso pessoal que en- volve energia vital, a realidade ideal. Gestores e professores, funcionários e alunos, têm que modelar o novo ideal e não devem deixar escapar nenhuma oportunida- de para transferir estes ideais para as atividades diárias. Há uma expectativa que o gestor da escola seja o modelador preeminente desse ideal. É o papel ocupado pelo gestor, que consiste em apoiar e encorajar os comportamentos das pessoas que as conduziram para essa posição. Também é o papel representado pelo com- portamento dos demais atores institucionais, especialmente os que ocupam a liderança, o que reforça o movimento de todo o grupo para o ideal. A Teoria Neobehaviorista: Skinner Na abordagem behaviorista, os princípios provenientes do condicionamen- to operante e das propostas de Skinner e de seus seguidores são aplicados aos grupos como técnicas de modificação da conduta. Essencialmente, nos proces- sos de condicionamento operante, o organismo aprende a buscar ou a evitar determinados comportamentos, de acordo com as consequências positivas ou negativas que eles possam ter: o organismo tende a repetir comportamentos que tenham consequências positivas ou evitem consequências negativas. Po- demos dizer que o organismo tende a abandonar comportamentos que não geram consequências positivas ou tenham consequências negativas. As respos- tas aprendidas permitem ao organismo operar de modo mais efetivo sobre o seu contexto em um sentido instrumental; daí surge o qualificativo operante na denominação desse tipo de processo. O conceito teórico central que explica os processos de condicionamento operante é a noção de reforço. O reforço é o processo de fortalecimento de uma determinada resposta1, de acordo com suas consequências; em um processo de reforço, portanto, uma determinada classe de respostas aumenta a probabilidade 1 Resposta também tem o sentido de comportamento, pois o Behaviorismo de Skinner entende que o comportamento é uma resposta do orga- nismo aos estímulos do meio. Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 91 de ocorrência no futuro. As consequências específicas que aumentam essa pro- babilidade são denominadas reforçadores. Os exemplos mais clássicos ilustram processos de reforço positivo – casos em que a apresentação de determinados reforços aumenta a probabilidade da conduta. Isto ocorre, por exemplo, quando os pais elogiam o filho por um comportamento considerado correto, quando a professora permite que os melhores alunos realizem tarefas na sala de aula. Ou quando o diretor oferece alguma vantagem aos professores mais assíduos e pon- tuais. Também podemos identificar processos de reforço negativo, casos em que, ao retirarmos um determinado reforçador, aumentará a probabilidade de uma resposta (por exemplo, beliscar sistematicamente uma criança quando ela chora). Nesse caso, o reforçador é um estímulo aversivo, que provoca consequências de- sagradáveis ou indesejáveis para o organismo. A extinção é o processo comple- mentar e contrário em relação ao reforço, que se produz sempre que se deixa de reforçar sistematicamente uma resposta previamente aprendida por reforçamen- to; nesse caso, a resposta vai diminuindo a sua frequência de maneira gradual. O condicionamento operante propicia a aprendizagem de novos comporta- mentos, mediante dois tipos de processos complementares: a discriminação e a generalização. Por meio da discriminação aprendemos a dar uma resposta na presença de um certo estímulo ou classe de estímulos, e somente na presença desses, de modo que tais estímulos acabam por se tornar signos ou sinais es- pecíficos que regulam o comportamento tratado (aprender a sorrir diante de alguém que nos dá um sorriso, por exemplo). Essa conexão funcional – entre os estímulos discriminativos e as respostas – é obtida quando se reforça sistema- ticamente a resposta diante desses estímulos e não se reforça diante de outros. Por meio do processo de generalização transferimos a aprendizagem efetuada por um estímulo contextual concreto para outros estímulos similares, como identificar diferentes sinais e níveis de aceitação e não aceitação de outras pes- soas em relação à nossa presença ou ao nosso comportamento. A ação combinada dos processos de discriminação e generalização permite estabelecer novas relações entre a atividade do sujeito, o seu meio e as suas atividades prévias. Além disso, pode ser aplicada na aprendizagem escolar para a formação de conceitos, na transferência de comportamentos aprendidos de uma situação a outra, como no caso dos grupos. Retomemos agora a Gestão Escolar pensada no modelo skinneriano. Imagi- nemos o que Skinner teria a nos dizer sobre essa temática. Penso que a primeira abordagem do autor seria no sentido de nos lembrar que o verdadeiro propósito do grupo não é fazer com que as pessoas trabalhem, mas de modificar o grupo e 92 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada seus membros ou, no caso de um grupo de coordenadores pedagógicos, decidir e executar programas específicos. Na designação do objetivo (ideal a ser alcan- çado) devem-se indicar as modificações que terão lugar, ou o tipo de ação que se espera do grupo e de seus membros. Em seguida, o autor nos falaria da eficiência, lembrando que a fórmula para que os grupos se tornem mais eficientes está assentada na escolha cuidadosa dos complexos objetivos imediatos de meios e fins, harmonizando-os e orien- tando-os firmemente para os intermediários e longínquos (como faz a instrução programada). Seguindo o modelo da instrução programada, Skinner ressaltaria a importância de especificar os objetivos do grupo, uma vez que um objetivo bem designado indica as modificações desejadas para o grupo e seus membros, ou a ação procurada. Pode-se modificar o comportamento dos membros do grupo alterando-se o seu grau de conhecimento, a sua capacidade, interesses, aprecia- ções e atitudes. Os objetivos do grupo gestor de uma escola devem identificar a espécie de ação esperada e o fim específico a ser alcançado. A melhor forma para indicar os objetivos é designá-los em termos que os identifiquem claramente: as pessoas, o grupo ou grupos interessados; a espécie de comportamento ou ação a ser realizada; e o conteúdo ou área dos problemas em que esse comportamento ou ação deve dar resultado. Quando os objeti- vos são formulados nessa base tridimensional, tornam-se um conjunto coeso de especificações que orientam o desenvolvimento posterior de programas e planos. Assim, Skinner enfatiza o conceito de que os objetivos são orientadores e precisamos defini-los e analisá-los, palavra por palavra, para designá-los clara e precisamente. As generalidades podem até despertar, inicialmente, algum in- teresse, mas só as exposições específicas estimulam o raciocínio e facilitam o planejamento e a ação do grupo e de seus membros. Vários padrões podem ser usados para julgar a utilidade dos objetivos. Uma organização escolar pode for- mular as seguintes questões: São os objetivos designados em termos que identificam as pessoas ou � grupos interessados, a espécie ou a modificação do comportamento es- perado e o conteúdo ou área da vida escolar na qualesse comportamento vai ser empregado? São dinâmicos os objetivos (em condições de provocar a ação do grupo)? � São eles compatíveis com os fins gerais do grupo ou da escola? � São realizáveis os objetivos, considerando o nível de maturidade do grupo � ou da escola e os recursos à disposição? Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 93 Conduzem os objetivos ao desenvolvimento, levando o grupo continua- � damente a níveis mais altos de realização? São eles suficientemente variados, para fazer face às necessidades indivi- � duais dentro do grupo? São em número suficientemente limitado, para evitar a indevida disper- � são de esforços, dentro da escola? Podem os objetivos ser avaliados, de modo a ficar evidente o verdadeiro � grau de progresso do grupo? Foram os objetivos determinados em colaboração – o grupo esteve, como � um todo, envolvido na sua determinação e aceitação? Skinner nos adverte que, em geral, os grupos não reservam nenhum tempo para definir seus fins e objetivos. Apresentam um comportamento de resistência à mudança, expresso em frases, como por exemplo: “Não precisamos perder tempo com objetivos, vamos trabalhar...” ou “bem, todos sabem o que queremos fazer...”. Às vezes, no início de um novo projeto e antes de pensar claramente nos seus objetivos, o grupo é levado pelo entusiasmo. Por essa razão, o autor nos forneceria mais algumas estratégias que garantissem a determinação dos fins e objetivos: dar tempo ao grupo para estudá-los; � explorar e discutir as ideias, interesses e necessidades dos membros do � grupo; garantir o consenso nas ideias, áreas de interesse e necessidades sobre as � quais serão formulados os fins e objetivos do grupo; formular exposições que sigam explicitamente as três condições � 2 necessá- rias para montar uma boa designação desses fins e objetivos; assegurar o conhecimento e a aceitação comum dos membros do grupo. � O grau em que os motivos e fins dos membros do grupo estão incorporados aos fins e objetivos grupais, influencia diretamente a fidelidade e a participação dos membros no programa e atividade da organização. Enfim, todo o programa de Gestão Escolar está estrategicamente formulado para garantir o máximo de eficiência de todos os membros do grupo escolar, divididos em suas áreas de ação. Como se fôssemos máquinas, Skinner sugere 2 Clareza de formulação, adequação e viabilidade de consecução. 94 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada uma configuração ótima para os nossos comportamentos, não levando em consideração sentimentos, emoções, desejos e conflitos que inevitavelmente surgem nas relações interpessoais. Os objetivos institucionais ganham estatuto de entidades poderosas, que pairam sobre nossas cabeças, e tal qual os deuses do Olimpo grego determinam nossas ações e comportamentos. Como os deuses são, às vezes, generosos, nos premiam (reforços positivos) ao longo da trajetó- ria de execução do projeto. O risco que se corre com esse modelo de gestão é a centralização de objetivos e fins do projeto escolar nas mãos do gestor que, “com a faca e o queijo nas mãos”, pode liderar autoritariamente todo o projeto institucional, distribuindo tarefas para os diferentes subgrupos que compõem o universo de cada escola. Na Teoria de Campo, proposta por Kurt Lewin, o grupo e as pessoas são pensados de outra forma. A Teoria de Campo: Kurt Lewin Em seus 30 anos de atividade profissional, Lewin dedicou-se à área amplamente definida da motivação humana. Suas pesquisas enfatizaram o estudo do comporta- mento humano em seu contexto físico e social total (LEWIN, 1970, 1975). A característica notável da psicologia social de Lewin é a dinâmica de grupo, a aplicação de conceitos relativos ao comportamento individual e grupal. Assim como o indivíduo e o seu ambiente formam um campo psicológico, também o grupo e seu ambiente compõem um campo social. Os comportamentos sociais ocorrem no interior de entidades sociais simultaneamente existentes, como sub- grupos, membros de grupos, barreiras e canais de comunicação, e delas resul- tam. Assim, o comportamento do grupo é uma função do campo total existente em qualquer momento dado. Lewin foi também fundamental na promoção do treinamento da sensibi- lidade, que tem sido aplicado em muitas situações no campo da educação e no mundo dos negócios para reduzir os conflitos intergrupais e desenvolver o potencial individual. Seus grupos de treinamento da sensibilidade (grupos T) formam o começo do movimento mais tarde popularizado pelos grupos de en- contro. Vejamos agora como Lewin caracteriza a estrutura, organização e o fun- cionamento dos grupos: Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 95 Estrutura Define-se pelo padrão de relacionamento interno do grupo e seu arranjo ou desenho e representa a maneira pela qual as pessoas – e seus papéis – podem estabelecer esse relacionamento no plano formal e informal. Sabe-se que tanto o tamanho dos grupos organizacionais, bem como sua ri- gidez hierárquica podem dificultar o relacionamento interno. Da mesma forma, a ausência de uma estrutura interna, ou mesmo a total informalidade num grupo podem atrapalhar a administração dos próprios limites pessoais. Características pessoais dos membros As pessoas levam o seu universo pessoal ao grupo, composto pelas caracte- rísticas de personalidade, vivências pessoais e experiência profissional. Por isso, Lewin afirmava que o resultado de um grupo representava um todo completa- mente diferente do que a soma de suas partes. Ao se encontrarem numa situa- ção grupal, os indivíduos reagirão diferentemente em função desse conjunto de fatores emanados do grupo e dos seus componentes, e é sobre essas caracte- rísticas, focadas num processo de interação, que as ações e reações individuais influirão e serão influenciadas pelo grupo. Em função disso, constatamos que in- divíduos com uma estrutura de personalidade comprometida apresentam sérias dificuldades de se inserirem num grupo. Da mesma maneira, só que não com a mesma intensidade, pessoas que compõem grupos minoritários socialmente discriminados, também apresentam dificuldades de inserção. Ao trabalhar com um grupo, um coordenador deve levar em consideração essas características pessoais dos membros de grupo, sejam elas características de personalidade, características físicas, econômico-sociais ou profissionais. Composição do grupo Uma vez observadas as características pessoais dos membros de um grupo, outra variável decorrente desta é a de como se comporá esse grupo. A composição está diretamente relacionada com as variáveis homogeneidade 96 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada e heterogeneidade. A experiência mostra que grupos homogêneos apresen- tam maior dificuldade de troca na inter-relação, enquanto os grupos mais he- terogêneos, pela própria diversidade, apresentam maior dificuldade em seu funcionamento, porém o processo de crescimento torna-se mais eficaz em função das trocas interpessoais. Objetivos A existência de um grupo ou de uma equipe deve ser fundamentada numa razão de ser que justifique a sua própria existência. Essa razão de ser é denomina- da objetivos. A definição clara dos objetivos de um grupo, por si só, não garante o seu sucesso. Ao trabalhar com o desenvolvimento de grupos, deve-se ter o enten- dimento aprofundado de como os objetivos grupais estão em interação com os motivos e objetivos individuais dos membros de grupo. Quando os motivos que levam os indivíduos a fazerem parte de um grupo são muito discrepantes entre si, o campo de força grupal tende a assumir um vetor negativo, gerando insatis- fações, angústias, possibilidades de estresse e, até mesmo, estimulando o baixo comprometimento dos participantes. Por outro lado, os objetivos individuais e grupais podem sofreralterações ao longo do processo do grupo. Dessa maneira, é necessária a revisão constante desses objetivos, por meio de acompanhamento sistemático, no sentido de redirecionar os interesses coletivos, de maneira a aten- der não só os motivos individuais, como também a proposta coletiva. Estilo de liderança A liderança exerce papel fundamental no processo de produção do grupo podendo ser de natureza formal ou informal. As equipes de trabalho apresen- tam, inevitavelmente, lideranças formais, geralmente delegadas em função da estrutura organizacional. O que se pretende, ao desenvolver grupos, é verificar em que grau a efetividade da liderança impacta a tarefa do grupo e, quanto o grupo absorve e aceita a liderança formal. Por outro lado, sabe-se que, durante o seu processo, o grupo abre espaço para emergirem lideranças que terão um papel de canalizador das tensões grupais. Essas lideranças podem estar voltadas para o plano da tarefa ou da emoção. Ou seja, ao encontrar-se com dificuldades de soluções de problemas ou de realizações de ações concretas, poderão emer- gir, do grupo, pessoas com maior facilidade de lidar com essa área e que auxi- liarão o grupo na transposição dessa dificuldade. Da mesma forma, no plano da Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 97 emoção, o grupo apresenta o mesmo procedimento, autorizando, em um plano pré-consciente, alguns membros a assumirem uma liderança momentânea, no sentido de facilitar o processo de trocas emocionais dentro do grupo. Rede de comunicações O processo de comunicação reflete como o grupo está estruturado e como os papéis, assumidos pelos participantes, atuam a serviço da manutenção ou da mudança desses padrões. A meta final no desenvolvimento de grupos é propi- ciar condições para que se atinja um nível de comunicação autêntica entre os participantes e isso inclui lidar com diferenças e conflitos, até que se atinja um nível de comunicação que atenda as expectativas do grupo. Usualmente, o padrão de comunicação existente é o verbal e, por meio dele, o coordenador de grupo encontra uma porta de entrada para trabalhar com outros níveis de comunicação, como o corporal e a comunicação verbal infor- mal. Para isso, o ponto fundamental no trabalho de grupo é atentar para o que se chama de metacomunicação, ou seja: estar atento à comunicação que não é falada, mas é sentida e está presente no clima do grupo. Um grupo que não apresenta espaço interno para que seus participantes possam ser autênticos e se comunicarem em todos os níveis, tem alta incidência de redes informais e para- lelas externas ao grupo, esvaziando com isso sua força interna e a predisposição dos participantes de interagirem. Papéis funcionais Quintana Cabañas (1988) expande a abordagem proposta por Lewin, contri- buindo com a teoria dos papéis, acrescentando que “o homem é um ser social e por isso atua em forma de conduta, na coletividade, desempenhando papéis impostos e outros escolhidos que se acham limitados pelas normas de funciona- mento de um grupo” (CABAÑAS, 1988, p. 37). Portanto, segundo Quintana (1988, p. 38), “um papel é uma exigência social de conduta organizada”. Desta forma, ao trabalhar com grupos, deve-se considerar fundamentalmente quais papéis os participantes estão assumindo e como o grupo lida com os papéis formais e informais na relação interpessoal. O que se observa, no entanto, é que a saúde mental de um grupo reside no fato dele ser capaz de intercambiar papéis entre os membros, tornando possível o fluxo de experiências e trocas no interior do grupo. Portanto, um grupo em que as pessoas assumem papéis rígidos, sejam 98 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada eles formais ou informais, tende a ser um grupo com alto nível de conflito e pouca troca. O trabalho com grupos auxilia os participantes a exercitarem novos papéis e/ou reverem papéis atuais, no sentido de avaliar o quanto esses papéis facilitam ou dificultam o desenvolvimento do próprio grupo. Códigos, normas e valores Os participantes do grupo tendem a se associar ou escolher companheiros que compartilhem seus valores. Sempre que um grupo se forma, as pessoas logo aprendem que devem enquadrar-se em padrões de funcionamento estabeleci- dos para atender às finalidades do grupo. As normas são obedecidas por meio de processos de identificação, incorporação, aprendizado, sanções e controles. Se uma pessoa deseja continuar a pertencer ao grupo enquadra-se, ou, pelo menos, comporta-se como se estivesse dentro das normas, a menos que seja aceita como divergente ou inovadora. As normas e códigos têm a função de pro- teger o grupo quanto às variáveis externas e internas que possam vir a ameaçar o seu funcionamento, seja esse funcionamento saudável ou não. Cultura Segundo Schein (1986, p. 12), cultura é “um padrão de pressupostos básicos, inventados, descobertos, ou desenvolvidos por um determinado grupo à medida que ele aprende a lidar com seus problemas de adaptação externa e integração interna”. Portanto, todo grupo formará, a partir dos códigos implícitos e explícitos, padrões de comportamento que formarão e sustentarão sua cultura. Desta forma, uma organização conterá as diversas culturas dos grupos por ela formada. Clima Refere-se à atmosfera do espírito do grupo, resultante da cultura, e que denota a maneira de sentir e de agir das pessoas. Mailhiot (1985) aponta que o fator preponderante no processo de mudança grupal e organizacional está rela- cionado ao clima do grupo dominante. Considera, ainda, que os grupos podem ser caracterizados, em função do seu clima, como grupos conformistas e grupos não conformistas. Por conformistas, entende-se aqueles grupos que não acei- tam qualquer tipo de mudança e que assumem atitudes contrárias às mesmas. Isso pode ocorrer de maneira consciente ou inconsciente. Esses grupos ofere- Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 99 cem grande foco de resistência, que pode inviabilizar um processo de mudança, caso haja um predomínio desses grupos nas organizações, ou ainda que não tenha o predomínio, se for o grupo que concentre poder decisório. Já os grupos não conformistas, segundo Mailhiot, se caracterizam pelo desejo de mudança e a consciência de que tal processo deva ocorrer pelo grupo, com vistas a modificações que tragam gratificação e desenvolvimento para as pesso- as, para os grupos e para a organização em que estão inseridos. O referencial psicanalítico Os grupos ou equipes, ao interagirem, inserem em si uma ou várias razões que justificam sua existência. Portanto, sempre haverá, no plano da ação dos mesmos, atitudes relacionadas diretamente com o plano da tarefa para a qual o grupo se volta no momento e o plano da emoção, referindo-se a todos os senti- mentos que norteiam a execução dos objetivos e/ou tarefas. Bion (1975), ao formular a teoria dos supostos básicos, apresentou também a modalidade trabalho-tarefa. Essa modalidade remete à maneira racional e cons- ciente do grupo buscar soluções para suas dificuldades. É no plano da emoção, porém, que os grupos se defrontam com as suas maiores dificuldades, e os refle- xos disso recaem sobre o plano da tarefa, impedindo, muitas vezes, sua evolução. É nesse plano que se inserem as necessidades interpessoais as quais são satisfeitas pela afiliação e a vinculação a grupos, bem como o plano da emoção que baliza os movimentos do grupo quanto à sua fase de desenvolvimento. Na prática, esse fenômeno se refere àquelas instituições que possuem os téc- nicos e executivos mais brilhantes em suas equipes, e ainda assim, o resultado não flui. A competência interpessoal e a habilidade de trabalhar em grupo estão diretamente relacionadas com o aspecto de como os indivíduos e os grupos lidam com sua área da emoção e de como a mesma impacta o plano da execu- ção das tarefas.Objetivos do grupo e motivação individual Por trás do que o sujeito diz e considera importante estão o seu sistema de valores e suas atitudes. Esses valores e motivações variam de pessoa para pessoa. Quando estas trabalham em conjunto, como um grupo, precisa haver certa uni- dade de interesses, objetivos e propósitos, necessariamente definidos, para que 100 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada consigam explorar seus interesses e problemas individuais – base comum sobre a qual repousa o trabalho coletivo. Pessoas com expectativas, capacidades e for- mações diferentes encontram dificuldade para se transformar em um grupo de funcionamento suave. As características básicas das finalidades dos grupos e dos indivíduos não são fundamentalmente diferentes. As atividades são motivadas pelas necessida- des e orientadas para os objetivos. Os objetivos dirigem o comportamento dos membros, impulsionando-os para certas tarefas particularizadas. Assim é impor- tante reconhecer que os objetivos do grupo podem ser fontes de real influência sobre os membros. Depois que o objetivo particular do grupo tenha sido fixado, espera-se que os membros “bons”3 trabalhem para a sua consecução, mesmo quando não tenham sido aceitos aqueles que tinham preferido. Esses membros são influenciados de diversas maneiras pelos objetivos do grupo. A intensidade dessa influência varia de membro para membro e de objetivo para objetivo. Quando todos, ou a maio- ria, possuem os mesmos objetivos, é quase certo que estes se tornarão os do grupo e que será feito um esforço conjunto para realizá-los. É evidente que os objetivos grupais devem estar intimamente relacionados com os interesses e necessidades dos membros. A mútua manifestação e a identificação dos interes- ses e necessidades dos membros estabelece a base verdadeira para a formação do grupo e a formulação de seus fins e objetivos. Os membros que mais aceitam os objetivos do grupo são os que demonstram maiores impulsos e motivações; os que meramente os aceitam estão menos mo- tivados; aqueles que os rejeitam preocupam-se apenas com interesses e obje- tivos particulares. Há casos em que poucos conhecem e compreendem os ob- jetivos do grupo. Se estes não forem totalmente aceitos pelos membros, não concorrem para impulsionar as atividades que levam à sua realização criando, ao contrário, baixo nível de motivação, fraca coordenação de esforços e incidência relativamente alta de comportamento egoístico. Objetivos de longo e curto prazos A maioria dos grupos precisa de fins e objetivos de longo prazo para orientar as suas atividades. Esses fins são expressos de maneira mais geral que os de curto prazo. Dentro da estrutura dos objetivos finais deve haver, entretanto, objetivos 3 Os membros chamados de “bons” são aqueles indivíduos que operam para que as finalidades grupais sejam alcançadas e a coesão do grupo mantida. Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 101 intermediários e imediatos. Para a eficiente planificação de um programa é importante que sejam estabelecidos os objetivos de uma reunião específica ou, até mesmo, de parte dela. Os objetivos de curto e médio prazos precisam harmonizar-se com os de longo prazo e estar logicamente relacionados e in- tegrados entre si, para permitir paulatino progresso na direção dos objetivos longínquos. Todos os grupos precisam de objetivos imediatos específicos e exequíveis. A consecução de qualquer objetivo resulta numa sensação de bem-estar e satisfação, ajuda os grupos a prosseguirem de maneira organizada nos seus propósitos, assegu- rando as realizações e identificando os dados que permitirão a respectiva avaliação. Tipos de objetivos É útil conhecer a classificação dos objetivos em vários tipos. No ensino, esses objetivos têm sido agrupados em relação aos diferentes anos letivos e focaliza- dos na conclusão do curso ou na formatura. Ao considerarmos os objetivos dos grupos e seus membros, é sempre bom classificá-los pela forma agora estudada. Papéis e lideranças Qualquer grupo cria, desde o seu inconsciente grupal, um sistema de papéis. Quando, por um exercício de memória, por exemplo, nos lembramos de qual- quer de nossas diversas turmas de colegas de escola, sempre houve alunos que assumiram e se destacaram ora no papel de “puxa-saco”, ora no de alvo de “goza- ção”, ou no de “geniozinho”, ou de “burro”, ou de “líder”, e assim por diante, sendo que a imagem que guardamos do grupo de professores também está pautada nesse mesmo nível. Assim, há sempre, em qualquer grupo, um permanente jogo de adjudica- ção e de assunção de papéis. Um indicador de que está havendo uma boa evolução grupal é quando percebemos que os papéis deixaram de ser fixos e estereotipados e adquiriram uma plasticidade intercambiável. À medida que os papéis forem sendo reconhecidos, assumidos e modificados, as pessoas foram adquirindo um senso de sua própria identidade, assim como uma dife- renciação com os outros. A experiência com grupos comprova que os papéis que mais comumente costumam ser adjudicados e assumidos pelos seus membros são os seguintes: 102 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Bode expiatório � : toda a “maldade” do grupo fica depositada em uma pes- soa que, se tiver uma tendência prévia, servirá como depositário, até vir a ser expulsa, o que, aliás, é comum. Nesses casos, o grupo sairá em busca de um novo “bode”. Decorre daí a enorme importância de que o gestor reconheça e saiba manejar tais situações. Também é comum que o grupo crie um bode expiatório sob a forma de um “bobo da corte” que diverte a todos e que, por isso, o grupo faz questão de conservá-lo. Porta-voz � : cabe ao portador deste papel mostrar mais manifestamente aquilo que o restante do grupo pode estar, latentemente, pensando ou sentindo. A comunicação do porta-voz não é feita somente por meio da oralidade (reivindicações, protestos, verbalização de emoções etc.), mas também por meio da linguagem extraverbal das dramatizações, silêncios, actings etc. Contestador � : nesses casos, é imprescindível que o gestor (da mesma for- ma que os pais, numa família e os professores numa sala de aula) saiba dis- criminar quando a contestação é sistematicamente obstrutiva, ou quando mostra-se necessária, corajosa e construtiva. Radar � : geralmente esse papel cabe ao indivíduo mais regressivo do gru- po. Ele capta os primeiros sinais das ansiedades que estão emergindo. Esse papel também é conhecido como caixa de ressonância: por não ter condições de poder processar simbolicamente o que captou, esse mem- bro do grupo expressa essas ansiedades em sua própria pessoa por meio de somatizações, abandono do grupo, ou de crises explosivas etc. Instigador � : apesar de não se encontrar na literatura uma referência explí- cita a esse papel, ele é muito comum e importante nos grupos. Sua função consiste em provocar uma perturbação no campo grupal, por exemplo, por meio de um jogo de intrigas, mobilizando os outros. Atuador pelos demais � : consiste no fato de a totalidade do grupo dele- gar a um determinado indivíduo a função de executar aquilo que lhes é proibido como, por exemplo, infidelidade conjugal, aventuras teme- rárias, hábitos extravagantes, sedução ao gestor etc. Em tais casos, o restante do grupo costuma emitir dupla mensagem: subjacente à bar- ragem de críticas que eles dirigem às “loucuras” desse membro, pode-se perceber um disfarçado estímulo e uma admiração pelo executor dos desejos proibidos. Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 103 Sabotador � : por meio de inúmeras estratégias de resistência, procura obs- taculizar o andamento da tarefa grupal. Em geral, o papel é assumido pelo sujeito que é portador de uma excessiva inveja e defesas narcisísticas. Vestal � : da mesma forma como é regra nas instituições,também nos pe- quenos grupos é muito comum que alguém assuma o papel de zelar pela manutenção da moral e dos bons costumes. A tão conhecida figura do “pa- trulheiro ideológico” que obstrui qualquer movimento no sentido de uma criatividade inovadora, é um bom exemplo desse papel. Há um sério risco, bastante frequente, de que o papel seja assumido pelo próprio gestor. Líder � : o papel de líder surge em dois planos: um é o que, naturalmente, foi concedido ao gestor. Outro é o que surge, espontaneamente, entre os membros do grupo. Nesse caso, a liderança adquire matizes muito dife- renciados, desde os líderes construtivos, que exercem o importante papel de integradores e de construtores do espírito de corpo, até os líderes ne- gativos, nos quais prevalece um excessivo narcisismo destrutivo. Texto complementar Psicologia escolar e educacional: história, compromissos e perspectivas Compromissos e perspectivas para a psicologia escolar e educacional (ANTUNES, 2009) É condição para a discussão de compromissos, assim como das perspec- tivas que se colocam a partir deles, a explicitação do lugar a partir do qual se fala. Compromisso implica três instâncias: aquele que se compromete (neste caso, referimo-nos à psicologia escolar e educacional), aquele com quem se compromete (as classes populares) e aquilo com que se compromete (a construção de uma educação democrática). Trata-se, portanto, de discutir o compromisso da psicologia escolar e educacional com a educação das clas- ses populares, o que torna necessário expor a concepção de educação que dá base à posição aqui defendida. 104 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada A educação que aqui se afirma é uma educação rigorosa e amplamente democrática, que deve ser acessível a todos e que não transige na defesa desse princípio. É concebida como instância social responsável pela tarefa de socialização dos conhecimentos produzidos pela humanidade ao longo de sua história, criando condições para que todos possam ascender do senso- -comum aos saberes fundamentados, articulados e sintéticos sobre o mundo. Educação democrática significa, portanto, democratização de saberes; sabe- res estes que foram historicamente privilégios – na produção e no acesso – das classes dominantes. Para que ela se realize em cada sujeito, é necessário garantir o domínio de recursos necessários para a apreensão do conheci- mento, como o domínio da leitura e da escrita, da matemática e de outros re- cursos próprios da contemporaneidade, como informática e línguas estran- geiras. Isso, entretanto, constitui-se tão somente o ponto de partida, pois são apenas os meios necessários para a aquisição de outros conhecimentos, que devem ser considerados em todas as suas expressões, da filosofia à ciência e às artes, em permanente diálogo com a cultura própria da criança, que deve ser respeitada e considerada no processo de ensino-aprendizagem. Disso decorre uma concepção de prática pedagógica centrada nos processos de ensino e aprendizagem, cuja finalidade é propiciar o desenvolvimento pleno do educando, em todos os aspectos que o constitui como sujeito singular e, ao mesmo tempo, pertencente ao gênero humano. Essa concepção de educação remete ao compromisso com a concretiza- ção de políticas públicas de educação radicalmente comprometidas com os interesses das classes populares. Isso significa garantir pleno acesso e condi- ções de permanência de todos os educandos na escola, independentemen- te de suas condições, cabendo à escola transformar-se para possibilitar-lhes condições efetivas de escolarização; essa questão traduz o princípio de edu- cação inclusiva, que incorpora não só a educação de alunos com deficiên- cia, mas todos aqueles que, por diversos motivos, são alijados da escola e de seus bens. Para isso, faz-se necessário que se construam currículos arti- culados às finalidades acima expostas, superando os conhecidos “currículos mínimos”, geralmente entendidos como paliativos ou educação de segunda categoria para pessoas socialmente consideradas também como tal, com especial atenção aos processos avaliativos, um dos meios mais efetivos para a materialização da exclusão de crianças das classes populares ao direito de uma educação de boa qualidade. Esse processo depende também da Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 105 gestão democrática da escola e, sobretudo, do investimento maciço na for- mação dos educadores. Cabe, portanto, discutir as possibilidades e limites da psicologia es- colar e educacional na construção de políticas públicas de educação comprometidas socialmente com as classes populares; eis aqui a ques- tão relativa às perspectivas colocadas para essa área de conhecimento e campo de atuação. Disso resulta a afirmação de alguns princípios que podem ser expressos a partir das assertivas que seguem. A educação é constituída por múltiplos determinantes, dentre os quais os fatores de ordem psicológica; portanto, a Psicologia tem contribuição para a educação. Que seja uma psicologia capaz de compreender o processo ensino- -aprendizagem e sua articulação com o desenvolvimento, fundamentada na concreticidade humana (determinações sócio-históricas), compreendida a partir das categorias totalidade, contradição, mediação e superação. Deve fornecer categorias teóricas e conceitos que permitam a compreensão dos processos psicológicos que constituem o sujeito do processo educativo e são necessários para a efetivação da ação pedagógica. A Psicologia deve assumir seu lugar como um dos fundamentos da edu- cação e da prática pedagógica, contribuindo para a compreensão dos fato- res presentes no processo educativo a partir de mediações teóricas “fortes”, com garantia de estabelecimento de relação indissolúvel entre teoria e prá- tica pedagógica cotidiana. Esta psicologia deve propiciar a compreensão do educando a partir da perspectiva de classe e em suas condições concretas de vida, condição ne- cessária para se construir uma prática pedagógica realmente inclusiva e transformadora. A Psicologia como um dos fundamentos do processo for- mativo do educador deve propiciar o reconhecimento do educador/profes- sor como sujeito do processo educativo, traduzindo-se na necessidade de mudanças profundas das políticas de formação inicial e continuada desse protagonista fundamental da educação. 106 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Por sua vez, a ação do psicólogo escolar deve pautar-se no domínio do referencial teórico da Psicologia necessário à educação, mediatizado neces- sariamente por conhecimentos que são próprios do campo educativo e das áreas de conhecimento correlatas. O próprio referencial teórico que aqui defendemos implica o trânsito por outros saberes (totalidade). Daí, a neces- sidade de superação das práticas tradicionais do psicólogo escolar, muitas vezes pautadas ainda numa perspectiva, nem sempre consciente ou assumi- da, de ação clínico-terapêutica. Em outras palavras, afirmamos uma psicologia escolar comprometida radicalmente com a educação das classes populares, que supere o modelo clínico-terapêutico disfarçado e dissimulado ainda presente na representa- ção que o psicólogo tem de sua própria ação, entendendo que a represen- tação e, consequentemente, as expectativas que os demais profissionais da educação têm da Psicologia só serão superadas pela própria prática do psicólogo escolar. Mudanças efetivas só ocorrerão a partir do envolvimento do psicólogo com as questões concretas da educação e da prática pedagógica; é necessá- rio superar o preconceito de não querer tornar-se “pedagogo”. O psicólogo não é pedagogo, mas se quiser trabalhar com educação terá que mergulhar nessa realidade como alguém que faz parte dela, reconhecendo-se como por- tador de um conhecimento que pode e deve ser socializado comos demais educadores, tanto no trabalho interdisciplinar, como na formação de educa- dores, sobretudo professores; que detém um saber que pode contribuir com os processos socioinstitucionais da escola; tem um conhecimento específico que pode e deve reconhecer o que é próprio de sua formação profissional, e, ouso afirmar, algumas vezes inclusive de caráter clínico-terapêutico, voltado para casos individuais; possui ou pode desenvolver conhecimentos impor- tantes para a gestão de sistemas e redes de ensino, sobretudo no âmbito de diagnósticos educacionais (avaliação institucional, docente, discente etc.) e na intervenção sobre tais resultados. [...] Dica de estudo A nossa dica é um filme bastante conhecido, e que mostra bem os aspec- tos psicológicos da gestão, Um Diretor Contra Todos, com James Belushi e Louis Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 107 Gossett Jr. O filme narra a história de Rick Latimer, transferido para ser o diretor de Brandel High, a pior escola do município e de péssima reputação. Ele decide acabar de vez com o tráfico de drogas e a violência que imperam no local. O filme aborda aspectos psicológicos individuais e grupais envolvidos nessa difícil tarefa de Gestão Escolar. Atividade A seguir você encontrará citações dos teóricos da Psicologia, estudados nes- ta aula, em relação à educação. Leia com atenção cada uma delas. Citação 1 O sistema educacional atual é o grande escândalo de nossa civilização, totalmente ultrapassado. Através da ciência do comportamento, desenvol- vemos a educação programada, por exemplo, em que os estudantes usam materiais projetados especialmente para recompensar o avanço de cada um na aprendizagem – e torná-la mais rápida e interessante. Alguns setores pioneiros a adotam, mas, quase 30 anos depois, a maioria das escolas ainda resiste à ideia de educação programada, alegando que ela é massificante, ou que não respeita a individualidade e originalidade de cada indivíduo. Não vejo como educação programada seria mais massificante do que a televisão, por exemplo, mas isto ilustra bem como estamos presos a conceitos às vezes ultrapassados. (SKINNER, 1983)14 Citação 2 O estudante que trabalha principalmente para escapar da estimulação aversiva descobre outros meios de escapar. Chega atrasado, de má von- tade [...]. Permanece totalmente ausente da escola [...]. O estudante não presta atenção. [...] Sua mente vagueia. [...] Uma das formas mais fáceis de fuga é simplesmente esquecer tudo o que se aprendeu, e ninguém foi capaz de descobrir uma forma de controle que evitasse essa fuga final para a liberdade. [...] Um efeito igualmente sério, embora menos óbvio, é a simples inatividade. O estudante torna-se taciturno e inabordável. [...] A inação é algumas vezes uma forma de fuga (em vez de realizar uma tarefa, 1 Entrevista publicada na revista Veja de 15 de junho de 1983. Disponível em: <www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item. php?itemid=252>. Acesso em: 12 mar. 2009. 108 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada o estudante simplesmente aceita o castigo como mal menor). É algumas vezes uma forma de ataque, cujo objetivo é enfurecer o professor, mas é também de per si um efeito previsível do controle aversivo (SKINNER, 1972, p. 93-94). Citação 3 Em toda situação, não podemos deixar de agir de acordo com o campo que percebemos; e nossa percepção se estende a dois aspectos diferentes desse campo. Um tem a ver com fatos, outro com valores. Quando agarramos um objeto, o movimento de nossa mão é dirigido pela posição em que o percebemos em nossa vizinhança igualmente perce- bida. Da mesma forma, nossas ações sociais são orientadas pela posição em que percebemos a nós e aos outros. A tarefa básica da reeducação, portanto, pode ser considerada a de alterar a percepção social do indivíduo. Unica- mente por meio dessa mudança da percepção social é que é possível realizar mudanças na ação social do indivíduo (LEWIN, 1973, p. 77). Citação 4 Qualquer tipo de vida de grupo ocorre numa situação com certos limites; limites daquilo que é possível e que não é possível e que pode ou não acon- tecer. Os fatos não psicológicos de clima, de comunicação, as leis do país ou da organização são partes frequentes dessas limitações externas. A primeira análise do campo é feita do ponto de vista da ecologia psicológica, o psicó- logo estuda os dados não psicológicos para descobrir o sentido dos dados em determinar as condições da vida do indivíduo ou grupo. Somente depois que esses dados são conhecidos é que o estudo psicológico pode começar a investigar os fatores que determinam a ação [...] naquelas situações demons- tradas como significativas (LEWIN, 1952, p. 170). Citação 5 A criança capaz de tolerar frustração se permite ter um sentido de reali- dade que se rege pelo princípio da realidade. Se sua intolerância à frustração vai além de certo grau, os mecanismos onipotentes entram em ação, espe- cialmente a identificação projetiva (BION, 1977, p. 52-53). [...] Se quem apren- de não tolera a frustração essencial do aprender mergulha nas fantasias de onisciência e na convicção de um estado em que tudo se sabe. (BION, p. 83) Teorias psicológicas aplicadas à Gestão Escolar 109 Citação 6 Pode-se usar qualquer experiência como “modelo” de experiência futura. Esse aspecto do aprender com a experiência se relaciona e se identifica como a função que Freud atribui à atenção, ao afirmar que ela precisava “observar periodicamente o mundo exterior de modo que seus dados já lhe fossem conhecidos, caso surgisse uma necessidade interna urgente”. O valor do modelo está em que seus dados conhecidos são preciosos para a satisfação da necessidade interna ou externa urgente. (BION, 1984, p. 92) Agora escolha duas citações para comentar, aquela com a qual você mais concorda e aquela de que mais discorda. Elabore um pequeno texto, levan- do em consideração o que aprendeu na aula de hoje. Eloiza da Silva Gomes de Oliveira [...] Do mesmo modo que um pintor que desenha uma paisagem, de baixo observa o contorno das montanhas e de tudo o que está no alto, enquanto do alto observa tudo o que está embaixo; da mesma forma, para conhecer bem a natureza do povo, é necessário ser príncipe, para conhecer a natureza do príncipe, é necessário pertencer ao povo. Maquiavel O tema desta aula é muito significativo para a formação de gestores escolares. Trata-se da liderança, termo muito comum no cotidiano do tra- balho desse profissional. Vamos, portanto, conceituar liderança e poder social, destacando a importância destes para a Gestão Escolar, e conhecer algumas teorias que definem e estudam a liderança. Essa citação, considerada clássica para os estudos sobre liderança, foi retirada da obra O Príncipe. Escrito em 1513, compõe-se de uma série de escritos para um jovem príncipe – Lourenço de Médicis – ensinando-o a manter o poder e o controle sobre o seu estado. O autor conjuga conse- lhos sobre como agir com sutileza, dureza, astúcia e até crueldade, defi- nindo variadas nuances da liderança. Se afirmarmos que o gestor escolar exerce uma liderança, certamente estaremos sendo repetitivos. Quando nos debruçamos sobre o assunto, no entanto, ele se apresenta mais complexo e atraente para o nosso estudo. O termo liderança é utilizado, normalmente, com três significados diferentes: a) Atributo de uma posição – trata-se da liderança hierárquica em que, dependendo da posição que o indivíduo ocupa na escala hie- rárquica, tem maior ou menor “dose” ou quantidade de liderança. Assim, o fato de ser “diretor” dá ao educador o direito de exercer uma determinada forma de poder ou liderança sobre o grupo que transita na escola. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 112 Princípios e Métodos de Gestão EscolarIntegrada b) Conjunto de características de uma pessoa – refere-se às características de personalidade que tornam uma pessoa mais apta a exercer a liderança. Algumas delas, comumente detectadas, são fluência, simpatia, assertivi- dade, senso de justiça, equilíbrio emocional, entre outras. c) Categoria de conduta – consiste em um conjunto de fatores, específicos para a situação em que a liderança é exercida. Esse conjunto de caracte- rísticas pode ser desenvolvido por meio de treinamentos (é comum ouvir- mos falar em “treinamentos para a formação de líderes”). Nunca foram tão importantes os chamados “atributos de liderança” como no momento em que vivemos, em um ambiente em acelerada mudança. Esse con- junto é muitas vezes chamado de “poder de influência”. Segundo Katz e Kahn (1976, p. 343), a definição de liderança é geralmente relacionada ao exercício de influência ou poder social. Os autores afirmam: “con- sideramos a essência da liderança organizacional como o incremento influencial além e acima do cumprimento mecânico das diretivas rotineiras da organização. Tal incremento influencial decorre do fato de que os seres humanos, ao invés de computadores, é que se acham em posições de autoridade e poder”. A influência é uma força psicológica, uma decorrência da interação entre pes- soas, em que uma age de maneira a modificar o comportamento das outras, de maneira intencional. Ela envolve três conceitos correlatos: Controle � – se uma pessoa possui controle sobre outra, a influência é sufi- cientemente forte para que o ciclo de mudança de comportamento seja completado, vencendo resistências ou influências em sentido diferente. Poder � – é a capacidade potencial para o exercício da influência, em sentido mais geral, não dizendo respeito a atos pontuais, como no caso do controle. Autoridade � – trata-se de poder legítimo, poder que uma pessoa tem em virtude do seu papel, da sua posição hierárquica; é o poder legal e social- mente aceito. Voltando à questão da influência, podemos afirmar que existem quatro tipos de poderes sociais que um líder pode exercer sobre o grupo e vamos exemplifi- cá-los em relação à atuação do gestor escolar. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 113 Tipo de poder social Caracterização Exemplo De recompensa e coação É a capacidade de reforçar po- sitivamente ou punir os mem- bro do grupo, de acordo com a desabilidade ou não do com- portamento que apresentem. Este poder social é muito co- mum em instituições em que predomina a liderança autori- tária, e em que o gestor é tido como alguém acima dos de- mais membros do grupo. Legítimo É aquele que emana de valo- res internalizados pelo grupo (aceitação da hierarquia e da liderança por ela determinada, por exemplo). Bastante validado em grupos mais conservadores, ou onde a eleição do diretor da escola é realizada e bem aceita. De referência Vem da identificação de mem- bros do grupo com o líder, da interação entre pessoas. Acontece quando a liderança está vinculada a um comple- xo de relações interpessoais (grupo informal da organiza- ção). É a situação do diretor “gostado” pela comunidade escolar, que se identifica po- sitivamente com ele. De especialista ou de compe- tência Fundamentado na percepção que o grupo tem, em relação ao conhecimento, à compe- tência e à perícia do líder. Marcante nas situações em que o gestor é reconhecido, pelo grupo, como um educa- dor experiente e competente, uma referência nessa área de conhecimento. Essas modalidades de poder social não ocorrem isoladamente, de forma al- ternativa, mas podem coexistir em um mesmo gestor escolar. Ele pode acumu- lar – o que é bastante desejável – o poder que lhe é outorgado pela hierarquia, com o que é referendado pelo afeto e com o da sua reconhecida competência profissional, por exemplo. Já podemos conceituar líder, portanto, como aquele que dirige, influencia, coordena, desperta a motivação de um grupo, contando com a participação es- pontânea do mesmo. Também já sabemos que o chefe – muitas vezes nomeado e imposto – não é obrigatoriamente um líder. Segundo Williams (1972, p. 93): Evidentemente, a liderança é baseada na autoridade, porém não são necessariamente a autoridade de status e aquela do cargo que possibilitam a um homem realmente liderar. É possível respeitar um título e, ao mesmo tempo, desprezar seu titular, ainda que faça tudo o que ele nos ordenar. Vejamos, agora, quatro formulações importantes sobre liderança e autorida- de, feita por psicanalistas. 114 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada O primeiro deles é Erich Fromm, que considera a existência de duas mo- dalidades de autoridade: a racional ou estimulante e a irracional ou inibidora. O que as distingue claramente são os métodos e objetivos. Na autoridade racional os interesses entre as pessoas que se relacionam são os mesmos, enquanto nas relações de autoridade inibidora os interesses são contrários, antagônicos. Na autoridade racional, a superioridade serve como auxílio à pessoa sujeita a essa autoridade. Na autoridade inibidora, a superioridade de um é condicionada à inferioridade do outro, não existindo objetivos iguais, nem direções convergentes. Na relação interpessoal também há diversidade: na autoridade racio- nal ela está baseada no aprendizado superior, em busca de uma igualdade futura, na inexistência de parâmetros diferenciados. Na autoridade inibidora, a distância entre quem comanda e quem é comandado vai aumentando ao longo da sua duração. Na autoridade racional, o que se tem de primordial é a identificação com o outro, a essência da relação se baseia no amor, gratidão e admiração. O ser humano busca o outro como seu referencial, seja ele em algum perfil ou no seu todo. Na autoridade inibidora a essência dos sentimentos desencadeados é a de hostilidade e ressentimento. O liderado percebe os seus interesses como anta- gônicos aos do líder. A análise psicológica de Erich Fromm supera a dimensão individual, cons- truindo uma “teia” histórica e social, contextualizada e crítica. Articulando a teoria de Fromm com a gestão, pode-se dizer que o conheci- mento e o exercício da autoridade racional ou estimulante exercidas pelo gestor escolar produzirá um ambiente institucional mais harmonioso e democrático, com pessoas trabalhando mais satisfeitas e envolvidas com a tarefa. Ao contrá- rio, se o gestor exercer uma autoridade inibidora sobre professores, funcionários, alunos e a comunidade externa à escola, sua atitude fará com que a instituição funcione de maneira rígida, hierarquizada e pouco criativa, com os limites fun- dados sobre o medo e o poder da retaliação. Fromm não foi o único psicanalista preocupado com liderança. Freud, Bion e Pichon-Rivière também desenvolveram estudos sobre o assunto. Freud, em seu importante trabalho de 1921, Psicologia das Massas e Análise do Ego, descreveu o processamento de três tipos de formação de lideranças: em turbas primitivas, na igreja e no exército. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 115 Se pensarmos nessa classificação projetada na escola, veremos que a lideran- ça formada nas turbas primitivas a ela não se aplica [à escola], por tratar-se de uma instituição formal e organizada por regras. A liderança religiosa é eminentemente carismática e vinculada a princípios de crença e adesão, excluindo a racionalidade e a crítica. A aplicação de uma liderança “militar” à escola produz forte autoritarismo e centralização, levando a instituição ao enquadramento de padrões extrema- mente conservadores. Freud evidenciou a possibilidade de um sujeito vir a perder a sua identidade individual, sempre que estiver absorvido por uma massa, perdendo os referen- ciais de seus princípios e valores habituais para seguir aqueles ditadospela lide- rança, de características carismáticas. Na igreja temos uma liderança que se processa por meio do fenômeno in- trojetivo, ou seja, todos os fiéis incorporam a figura de um mesmo líder abstra- to, formando-se uma identificação generalizada. Isso mantém a unificação de todos os fiéis. Quanto ao exército, Freud mostrou que a liderança se processa por meio da projeção, na pessoa do comandante, das aspirações e ideais dos comandados. Outro psicanalista é o inglês Bion, que afirma que todo o grupo tem necessi- dade implícita de uma liderança, que emerge do grupo. Ele descreve três tipos de inconsciente grupal: de dependência � , em que o grupo se reúne à espera de ser sustentado por um líder, de quem depende para a sua alimentação material, espiritual e proteção (neste caso, o líder tem natureza carismática); de luta e fuga � , em que o grupo está reunido para lutar contra algo ou dele fugir (líder terá características caudilhescas); de acasalamento � (pairing), em que existe no grupo uma espécie de “es- perança”, de que acontecimentos futuros (casamento, nascimento de fi- lhos, chegada de novos membros) salvarão a todos das suas dificuldades e incapacidades. A aplicação dos princípios da liderança formulados por Bion à Gestão Escolar pode ser exemplificada por três situações, cada uma correspondente a um tipo de inconsciente grupal: 116 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada de dependência – a comunidade interna da escola percebe o diretor eleito � como possuidor de grande carisma e dele espera mudanças positivas e quase instantâneas das situações negativas que a escola enfrenta; de luta e fuga – a escola, imersa em uma comunidade conflagrada e confli- � tuosa deseja que o líder, quase como um “salvador”, pacifique os conflitos e traga paz ao entorno da escola; de acasalamento – diante da perspectiva de uma eleição para diretor, a co- � munidade escolar atribui a esse fato e à direção eleita a responsabilidade por sanar todas as dificuldades e fatores negativos enfrentados. O quarto autor da psicanálise é o argentino Pichon-Rivière, criador do con- ceito de “grupos operativos”. Ele fala de quatro tipos de liderança: autocrática, democrática, laissez-faire, demagógica. Autocrática � , habitualmente exercida por pessoas de características ob- sessivo-narcisistas e própria de grupos compostos por pessoas inseguras, que não sabem usar de modo pleno a sua liberdade. Democrática � , que implica uma hierarquia, com a definição de papéis e funções, em reconhecimento dos limites e das limitações de cada um. Laissez-faire � , que nos remete a um estado de negligência, sendo o seu maior risco a falta de um limite para as angústias, dúvidas e inseguranças, acarretando o risco de desagregação do próprio grupo. Demagógica � , em que o líder tem uma caracterização do tipo “falso self”, e a sua ideologia é construída mais sobre frases retóricas e promessas de impacto do que de ações reais. Isso provoca decepções e desânimo por parte dos liderados. Podemos aplicar os tipos de liderança descritos por Pichon-Rivière a situações de liderança do gestor escolar, como vemos nas situações descritas abaixo. Liderança autocrática – aplicada de forma rígida e conservadora, o líder � centraliza as ações e decisões, aplicando sanções e distribuindo prêmios de acordo com a própria vontade. Liderança democrática – aplicada de forma flexível, o líder escuta as co- � munidades interna e externa à escola, delegando responsabilidades e to- mando decisões de forma colegiada. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 117 Liderança � laissez-faire – aplicada de forma pouco consistente, o líder é pouco percebido e participa pouco dos momentos importantes da escola, delegando a outros as decisões mais complexas. Liderança demagógica – aplicada de forma a tentar satisfazer a todos, de- � senvolvendo ações que buscam sempre angariar simpatia, principalmen- te dos grupos mais fortes da escola. É necessário relembrar que a liderança não é patrimônio de uma única pessoa, ou está situada em um único escalão institucional. É interessante apresentar uma adaptação do quadro mostrado por Katz e Kahn (1976, p. 354). Nele os autores mostram os tipos de liderança, de acordo com o escalão hierárquico em que se situam, e as capacidades ou competências necessárias ao exercício da mesma. Tipos e processos de liderança Nível organizacio- nal apropriado Capacidades e perícias Cognitivas Afetivas Originação: mudança, criação e eliminação de estruturas, formula- ção de políticas. Escalões da cúpula da instituição. Perspectivas de sistema. Carisma. Interpolação: suple- mentação e prolonga- mento da estrutura. Níveis intermediários da hierarquia. Perspectivas de sub- sistema (orientação de duas vias, entre o nível superior da hierar- quia). Perícia de relações humanas. Administração: uso da estrutura existente. Níveis mais baixos. Conhecimento técnico e compreensão de sistema de regras. Interesse pela igualdade no uso de recompensas e sanções. Isso nos leva a aprofundar as funções do líder, e vamos buscar a mais completa abordagem desse ponto, feita por Krech e Crutchfield (1961). Esses autores falam de 13 funções da liderança, que achamos importante destacar: Coordenar as atividades � do grupo, atuando de forma centralizadora. Planejar � buscando, individual e coletivamente, as melhores formas de al- cance dos objetivos do grupo. Definir políticas � , sempre que possível de forma participativa com o grupo. Atuar como especialista � , utilizando conhecimentos específicos da sua função. 118 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Representar externamente o grupo � , tornando-o “visível” e comunican- do-se com outros grupos. Controlar as relações internas � , com a finalidade de promover um clima grupal propiciador à consecução dos objetivos do grupo. Distribuir recompensas e sanções � , considerando-se que elas são de di- versas naturezas, materiais e não materiais. Servir como exemplo do grupo � , já que ele é tomado como modelo pelos seus membros. Simbolizar o grupo � , representando-o e conservando-lhe a unidade. Substituir certas responsabilidades individuais � , que lhe são investidas pelo grupo. Definir a ideologia grupal � , constituindo-se em fonte de valores, crenças e normas. Substituir a figura paterna � , centrando em si identificações, transferên- cias dos membros do grupo. Constituir-se em “bode expiatório” ( � scapegoat), pois o grupo canaliza para ele, além dos sentimentos positivos, desilusões e frustrações. Embora seja muito complicado afirmar que há “tipos de liderança”, existe um estudo clássico, realizado por White e Lippitt (1960), sobre o que chamaram de “atmosferas sociais”. O quadro a seguir, adaptado por Aguiar (1989, p. 202), ilustra bem essas três atmosferas ou climas de liderança. Autoritária Democrática Laissez-Faire A fixação das diretrizes cabe unicamente ao líder. Todas as diretrizes são objeto de debate e decisão do grupo, estimulado e assistido pelo líder. Liberdade completa para as decisões grupais ou individu- ais com participação mínima do líder. As técnicas e as providências para o serviço são determina- das pela autoridade, uma por vez, de maneira que em gran- de parte as medidas por vir são sempre imprevisíveis. A atividade ganha novas perspectivas durante o perí- odo de debates. Esboçam-se providências gerais para atin- gir o alvo do grupo e, quando há necessidade de aconselha- mento técnico, o líder sugere duas ou mais alternativas para o grupo escolher. A única participação do líder do debate sobre o trabalho é apresentar ao grupo mate- riais variados e deixar claro que poderá fornecer informa- ções, quandosolicitadas. (W H IT E, R al ph ; L IP PI TT , R on al d. A ut oc ra cy a nd D em o- cr ac y. H ar pe r & R ow , P ub lis he rs , I nc or po ra te d, 1 96 0, p. 2 6- 27 . A da pt ad o. ) Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 119 Autoritária Democrática Laissez-Faire Habitualmente, o líder deter- mina qual é a tarefa a ser exe- cutada por cada membro, e o companheiro que lhe cabe. Os membros têm a liberdade de trabalhar com quem quiser e a divisão das tarefas é deixa- da ao grupo. Absoluta falta de participação do líder. O líder inclina-se a ser “pes- soal” nos elogios e críticas ao trabalho de cada membro; ele só não fica fora da participa- ção ativa do grupo quando faz demonstrações. O líder é “objetivo” e limita-se aos “fatos” em suas críticas e elogios; procura ser um mem- bro normal do grupo, em es- pírito, sem encarregar-se de muito serviço. Comentários espontâneos e irregulares do líder sobre as atividades dos membros, a não ser quando perguntado, e nenhuma tentativa de avaliar ou regular o curso dos aconte- cimentos. Ainda no bojo da discussão sobre a não existência de tipos puros de liderança, vamos apresentar um quadro, elaborado por Tannenbaum, Weschler e Massarik (1970, p. 94), que mostra a existência de um continuum do comportamento do líder, e que ele pode situar-se em diversos pontos da escala, inclusive de acordo com a situação defrontada. Uso de autoridade pelo líder Área de liberdade dos subordinados 1 2 3 4 5 6 7 1. O líder toma as decisões e apenas as anuncia ao grupo. 2. O líder “vende” a decisão, convencendo o grupo a aceitá-la. 3. O líder apresenta as suas ideias e solicita que o grupo apresente perguntas. 4. O líder apresenta ao grupo um ensaio de deliberação, sujeito a modifica- ções. 5. O líder apresenta o problema a ser resolvido ao grupo, obtendo suges- tões, e então decide. 6. O líder define os limites de cada problema e pede ao grupo que tome a decisão. 7. O líder permite e solicita ao grupo que trabalhem, todas as etapas da solu- ção dos problemas, atuando como mais um membro do mesmo. 120 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Sabe-se que não existem os tão conhecidos “líderes naturais”, aqueles que “nasceram com um dom especial”, e têm absoluto domínio sobre os grupos de que fazem parte. Isso combina melhor com os “heróis”, ou com líderes eminen- temente carismáticos. Atualmente trabalhamos com o conceito de liderança situacional, que pode ser ocupada por variados membros do grupo, dependendo da situação a ser en- frentada. Trata-se, então, de um conjunto de líderes, com uma visão de alcance dos objetivos, de realização do que é melhor para o seu grupo. Eles exercem, de forma rotativa, o papel de coach, mentor, treinador e quaisquer outros que o líder possa assumir. É também uma falácia a afirmação de que pessoas bastante aprimoradas em sua competência dispensam lideranças. Isso é falso, todos nós necessitamos, em situações diversas, de diferentes tipos de lideranças. Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional, em 1996, afirma, em obra mais recente que: “Na situação de coaching executivo, líderes podem falar sobre assuntos apaixonantes ou penosos – e realmente aprofundar-se em questões críticas para si mesmos, para suas equipes e para a organização”. (GO- LEMAN, 2002, p. 36) E prossegue, mais adiante, falando do perfil do líder que desenvolveu a sua inteligência emocional: Líderes precisam equilibrar aprendizagem – que por definição significa tornar-se vulnerável – com o gerenciamento da própria imagem enquanto líder. Uma boa forma de fazer isso é trabalhar com um coach executivo, um relacionamento onde é seguro debater, explorar, buscar novas soluções e onde líderes têm a oportunidade de falar mais livremente do que jamais fizeram com qualquer pessoa, sobre seus sonhos, seus desafios, seus negócios (GOLEMAN et al., 2002, p. 50). Finalizando, vale a pena ler o que dizem Micklethwait e Wooldridge (1998, p. 140), sobre a gestão das organizações de aprendizagem: No entanto, os problemas dos chefes com as organizações voltadas para o aprendizado não são apenas problemas do ego. Trazer à tona o que os outros têm de melhor (principalmente quando se trata de milhares de pessoas) é mais difícil do que apenas absorver informações e dar comandos. É extremamente difícil definir uma estrutura que estimule a geração de ideias entre as pessoas e ao mesmo tempo dê à organização um propósito comum. Toda a conversa atual sobre a importância de atuar como instrutor, e não como um general, tende a fazer vista grossa para as dificuldades de atuar como instrutor. “Gerenciar é como segurar um pombo nas mãos” argumentou Tommy Lasorda, dos Los Angeles Dogers. “Se o apertamos com muita força, o matamos. Se abrirmos demais a mão, ele foge.” Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 121 Texto complementar Motivação: confiança e domínio. Menos autoajuda, mais conhecimento (MORENO , 2009) Uma das principais dúvidas dos gestores é em relação à motivação do corpo docente. O objetivo deste artigo é esclarecer como se dá o proces- so de motivação e como acontece a automotivação. Depois de lê-lo, você poderá trabalhar as ideias com sua equipe (sem esquecer que servem para você também). Motivo + ação A partir dos anos 1940, pelo menos as mentes mais perceptivas, tanto no mundo acadêmico como no organizacional, abandonam a concepção in- gênua da vida e do trabalho (incentivos econômicos ou extraeconômicos). Para elas, torna-se evidente que, do ponto de vista prático, é preciso apro- fundar os motivos que levam o homem a trabalhar, isto é, as necessidades que busca satisfazer por meio do trabalho. Conhecendo a motivação, você compreende melhor as relações entre as pessoas. Mas o que é motivação, de que estamos falando? Motivo é aquilo que move a pessoa para alcançar seus objetivos. Esse impulso à ação é pro- vocado por um estímulo externo que vem do ambiente ou por um estímulo que vem de dentro da pessoa. A motivação é um processo. Como ocorre? Vamos entender melhor como acontece o processo motivacional. 1. A pessoa percebe uma carência ou tem uma necessidade. 2. Essa necessidade gera uma tensão ou motivo. 3. Em seguida, esse motivo leva a pessoa à ação e à busca da satisfação de sua necessidade. 122 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 4. Satisfação da necessidade. 5. Equilíbrio interno. O primeiro passo para a motivação é o autoconhecimento. Para isso, você precisa encontrar as respostas das perguntas que seguem: O que mais lhe motiva? � O que mais o desmotiva interna e externamente? � O que você tem feito para mudar? � Quando foi a última vez que você fez exatamente aquilo que gostaria � de fazer e no momento que desejava? Quantas vezes na última semana você dedicou um momento para � pensar em você mesmo? Que fatores da sua vida você gostaria de ampliar ou mesmo incorporar? � Você já analisou se o que está fazendo atualmente é realmente o que � gostaria de fazer? Você já pensou quais os fatores da sua vida que gostaria de reduzir ou � extinguir? Então, baseado nas suas respostas, a que conclusão chegou? Você en- � controu o seu motivo para a ação entusiástica? As três dimensões do conhecimento O conhecimento é único, mas pode-se falar com toda propriedade que apresenta três aspectos ou dimensões. Em suas aplicações, recebem os nomes de especulativo, operativo e afetivo, e determina a capacidade de ação e reação da pessoa frente aos estímulos de todo tipo que lhe chegam. Essas três dimensões do conhecimento têm sua correspondente aplica- ção no impulso que se manifestaem nossa vida psíquica e que muitos deno- minam simplesmente “motivação”. É ela que move o ser humano a agir para satisfazer suas necessidades de todo o tipo. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 123 1. O especulativo é o que permite à pessoa conhecer os resultados que uma ação provoca (saber que um remédio produzirá certos efeitos no organismo). 2. O operativo determina a capacidade de um sujeito para realizar uma ação determinada (saber o que fazer para conseguir e tomar o remédio). 3. O afetivo determina a capacidade da pessoa para avaliar os resultados da ação, isto é, para saber como vai ser afetada pelos resultados (saber como se sentirá com o efeito do remédio). Motivação sentida – é o impulso que sentimos e que depende do co- nhecimento; este determina os resultados esperados e o atrativo desses re- sultados para a pessoa. Motivação potencial – corresponde ao impulso que sentiríamos se o nosso conhecimento fosse perfeito, isto é, se conhecessem antecipadamen- te todos os resultados que a ação terá. Motivação atual – é a força que nos faz escolher uma ação concreta com base no valor de seus resultados – um valor que o conhecimento especu- lativo capta – embora esse valor não seja atraente devido às limitações do conhecimento afetivo. Tipos de necessidades do ser humano Uma pessoa deve prestar atenção aos três tipos de necessidades inerentes a todo ser humano, no momento de decidir o tipo de trabalho que vai desen- volver em sua carreira profissional. Não há dúvida de que não pode esque- cer a parte econômica, a remuneração, mas em sua decisão final deve contar, também, com a satisfação pessoal que lhe causará o trabalho a desempenhar e, ainda mais, suas repercussões em outras pessoas próximas ou distantes. Somente por meio de um perfeito equilíbrio entre essas três realidades é que podem ser alcançados resultados ótimos quanto à satisfação e, por conse- guinte, quanto ao rendimento do trabalho e à produtividade social positiva. Mas nem sempre a pessoa pode satisfazer todas as suas necessidades. E sabe o que pode acontecer? Essa necessidade pode ser frustrada ou até compensada, quer dizer, pode não causar satisfação e ser transferida para outro objeto, pessoa ou situação. 124 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada E por que ocorre essa frustração? Ocorre por causa da impossibilidade, mesmo que momentânea, de satisfazer a necessidade. Essa frustração se manifesta de duas formas: a primeira é mental, através da agressividade, descontentamento, tensão emocional, indiferença. A se- gunda é fisiológica, afetando o organismo como, por exemplo, insônia, pro- blemas digestivos, cardíacos e outros. Em outras situações, a necessidade não é satisfeita, nem frustrada. Então o que acontece? A substituição pela satisfação de outra necessidade diminui a frustração de uma necessidade que não pode ser satisfeita. É importante saber que a motivação é cíclica. Sabe o que significa? Quando uma necessidade é atendida e satisfeita, um processo de motivação termina. Mas será que acaba? De maneira alguma. O indivíduo identifica uma nova necessidade e imediatamente um novo processo de motivação se inicia. Numa organização, o que motiva as pessoas no trabalho? condições de trabalho adequadas; � desafios; � novas oportunidades; � orgulho do próprio trabalho; � reconhecimento; � ser ouvido; � ser tratado como pessoa/respeitado como profissional; � ser tratado de modo justo; � sensação de ser útil; � ser aceito como é. � Automotivação Mihaly Csikszentmihalyi é um psicólogo americano, autor de uma im- portante teoria sobre motivação, mais especificamente automotivação. Sua obra vem servindo de referência aos mais importantes pesquisadores nas Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 125 áreas de educação e lazer. Sua teoria foi publicada em 1975 e é chamada por ele próprio de Flow. Flow significa fluir. Essa teoria procura desvendar os aspectos essenciais da automotivação. Segundo o autor, jogadores – como os jogadores de xadrez – costumam viver experiências notáveis de automotivação, quando dedicam boa parcela de suas vidas ao jogo, muito embora saibam que ra- ríssimas vezes alguém consegue viver disso ou mesmo ser reconhecido por essa capacidade. A mesma experiência é também vivida por esportistas e artistas. Os primeiros chegam a saltar de paraquedas, praticar enduros na selva, ralis no deserto e escalar montanhas sem equipamento pelo simples prazer que essas ações lhes dão. Os outros devotam largas parcelas de seus dias sobre uma tela, contem- plando-a, pincelando-a, desenvolvendo técnicas ou então se debruçam sobre uma pedra, buscando uma forma escondida, talhando e talhando... Todas essas pessoas vivem uma experiência de automotivação intensa, tão intensa que algumas chegam a comprometer a própria subsistência e até mesmo a existência, quando se arriscam em extremo em suas atividades. Segundo Csikszentmihalyi, “quando uma pessoa age porque seu comporta- mento é motivado pelo prazer que ela encontra nesse comportamento em si, ela aumenta sua autoconfiança, contentamento, e sentimento de solida- riedade com os outros; se o comportamento é motivado por pressões ou recompensas externas, ela pode experimentar insegurança, frustração, e um certo senso de alienação.” Numa época em que a Psicologia está desenvolvendo meios para contro- lar o comportamento mediante implantes eletrônicos, drogas, programas de modificação comportamental, e todo um armamento composto de técnicas invasivas, é vital que se preserve o entendimento da dimensão ativa e cria- tiva desse comportamento automotivado. Foi identificado, através de pes- quisas, um padrão de características vividas e relatadas por todas as pessoas absorvidas em suas atividades. Dessa forma, fluir significa: Oportunidade para a ação. � Atenção centrada em um campo limitado de estímulos. � Sentimento de competência e de controle. � 126 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Objetivo e � feedback claro e imediato. Fusão de ação e consciência: transcendência das fronteiras do ego. � Esclarecidos alguns aspectos da motivação, pensamos em algumas al- ternativas para o profissional da educação desenvolver a autoconfiança e o autodomínio, assim como manter-se motivado, apesar dos reveses da vida e das cobranças institucionais. Tenha consciência da importância da profissão que você escolheu. � Adquira, aperfeiçoe ou desenvolva suas competências, praticando-as � diariamente. Tenha fé em sua competência no trabalho, agindo de forma a eviden- � ciá-la e desenvolvê-la. Conheça, pesquise bem o que vai ensinar, o tema que vai trabalhar. � Fale com firmeza e convicção sobre o assunto. � Encare com serenidade, mas com profissionalismo também, os ques- � tionamentos dos alunos, por mais complexos ou ingênuos que pos- sam parecer. Todos nós temos impaciências e desconfortos. Tenha e manifeste um espírito compreensivo e seja tolerante com as � fraquezas, incertezas e dúvidas dos alunos. Mantenha sempre o domínio emocional para poder manter o domínio � da situação. O professor que se irrita fácil e frequentemente com os alunos perde em conceito. Pode perder alunos e o emprego. Seja realista com uma dose de otimismo e veja sempre o lado bom � do aprendizado das coisas, situações e pessoas. O otimista acredita. O pessimista reclama. O realista age. Organize sua vida particular de modo a evitar conflitos afetivos. Se casa- � do, faça com que o cônjuge compreenda o valor de sua profissão e car- reira e colabore para sua disposição mental e energia. Se solteiro, consi- ga a mesma compreensão das pessoas com quem convive e interage. De qualquer forma, tenha uma vida metódica e não pratique excessos � que debilitem o físico e o mental,drenando energia. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 127 Aprendizagens possíveis Motivação é um processo interno de cada indivíduo. Apesar de não termos o poder de motivar outras pessoas, visto que motivação é interna e pessoal, temos o poder de estimular as pessoas com quem convivemos e de ajudá-las a descobrir as próprias necessidades. Conseguimos isso com um elogio, uma conversa, uma palavra, uma aula bem planejada e realizada. Dica de estudo Indicamos a leitura de um ótimo livro: Liderança em Gestão Escolar. A autora é Heloísa Lück e a obra faz parte da série Cadernos de Gestão, publicada pela Editora Vozes. A autora propõe aos gestores escolares que deem sua atenção ao exercício da liderança efetiva em sua própria atuação profissional e na dos membros da comunidade escolar e que promovam em suas escolas a criação de uma cultura escolar orientada para o compartilhamento da mesma (dentro da visão de liderança situacional). O livro propõe que a liderança do gestor escolar seja marcada pelo comprometimento conjunto com os objetivos educacionais, pelo espírito de equipe e pela proatividade. Atividades 1. Observe estes três perfis de líderes, tomando como exemplo o treinador de fute- bol, em um momento em que o jogo se apresenta muito difícil para o seu time. Transfira essa situação para a situação da gestão da escola, comente cada atua- ção e aponte qual dos três será mais bem-sucedido, justificando a resposta. 1.o treinador – chama os jogadores, eles largam a bola e vão até a lateral do campo, para falar com o treinador. Enquanto isso, o time adversário marca o gol. 2.o treinador – já ouviu falar que é importante focar a atenção no cliente. As- sim, quando chama os jogadores para informar a mudança de tática, permite que eles primeiro acabem a jogada e, então, larguem o jogo e se dirijam até a beirada do campo, para falar com o treinador. 128 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 3.o treinador – entendeu que, para focalizar o cliente, é importante ir mais fundo, ver o jogador e suas jogadas como mais importantes que ele próprio. Assim, quando o treinador chama os jogadores, estes esperam uma parada de bola para, só então, ir até a beirada do campo para falar com ele. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 129 2. Apresentamos abaixo o esquema da chamada Janela de Johari. A Janela de Johari foi desenvolvida por Joseph Luft e Harry Ingham em 1961 com o objetivo de ilustrar o processo de dar e receber feedback. Os autores criaram um modelo com quatro retângulos, que auxiliam a conceituar o pro- cesso da percepção de um indivíduo em relação a si mesmo e aos outros. As regiões evidenciadas no modelo representam as áreas da personalidade humana e ilustram as relações interpessoais e os processos de aprendiza- gem em grupo. Para Hersey e Blanchard (1982) a Janela de Johari é utilizada para representar a personalidade de liderança (autopercepção e a percepção dos outros) e não a personalidade global. Fritzen (1978) afirma que o exercício da Janela de Johari é um bom auxílio para se formar uma ideia clara de muitos dos comportamentos humanos e oferecer alguma solução para poder enfrentar as dificuldades nas relações in- terpessoais, principalmente as que se estabelecem no exercício da liderança. 1. Área aberta 2. Área cega 3. Área oculta 4. Área desconhecida Conhecida por mim Desconhecida por mim Conhecida pelos outros Desconhecida pelos outros 130 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Agora associe, através da numeração, as quatro áreas apresentadas na figura aos quatro exemplos de comportamento de gestores escolares descritos a seguir, que configuram estilos de relação interpessoal bastante diferentes entre si. 1. Área aberta. 2. Área cega. 3. Área oculta. 4. Área desconhecida. Na escola X o diretor se relaciona aparentemente bem com a equipe. Às )( vezes acham até que o seu envolvimento com os problemas pessoais das pessoas é excessivo. No entanto, alguns professores percebem que isso funciona como uma espécie de “artifício” para conseguir a aprovação do grupo. Esses professores acham que ele é superficial e pouco se mostra no relacionamento interpessoal com a equipe da escola. O diretor desta escola é bastante egocêntrico e valoriza demais as )( próprias opiniões, sem considerar as da equipe. Os outros percebem claramente essas características e tendem a se sentir explorados e a achar que as suas possíveis contribuições e seus sentimentos não interessam, ou que são pessoas dispensáveis à instituição. Há sentimentos de hostilidade, insegurança e ressentimento por parte dos outros, que não as manifestam abertamente ao líder. O diretor, no entanto, não tem a menor percepção de que isso ocorre em sua escola. Este diretor utiliza os processos de )( feedback e de abertura com equilíbrio. A franqueza e a abertura pessoal, associadas à preocupação com a necessidade dos outros em participar, são suas características principais. Isto cria um clima de honestidade e confiança, permitindo a franqueza no relacionamento e a expressão do potencial criativo de todos. O diretor desta escola é rígido, distante e pouco comunicativo. A )( equipe diz que não o conhece e que ele não é transparente, evitando o relacionamento interpessoal. Essa impessoalidade é buscada por ele como uma defesa, pois não tem consciência plena do próprio potencial, criatividade e psicodinâmica pessoal. Por essas razões teme o risco e ansiedade provocada pelas relações sociais desenvolvidas na escola. Liderança, recursos humanos e Gestão Escolar 131 Eloiza da Silva Gomes de Oliveira Iremos conceituar motivação sob o enfoque de algumas teorias, além de destacar a importância que ela assume na vida pessoal dos indivíduos e nas instituições, como força que leva ao atingimento das metas e objeti- vos. Por fim, enfatizaremos a importância da motivação institucional para a Gestão Escolar. Sem motivação nada se faz na vida . É uma espécie de “tensão” interna que inicia, dirige e mantém o comportamento orientado para um deter- minado fim, impedindo-nos de desistir. Quando se trata de associar a ela sentimentos e estados de espírito, logo aparece uma longa lista: disposi- ção, envolvimento, persistência, combatividade, disponibilidade, alegria, paixão entre outros. Em relação a este último sentimento, afirma Gaudêncio (1995, p. 148): Não conheço sentimento mais rico. A paixão mobiliza todas as pulsões. Nem o ódio – equiparável a ela em intensidade e carga emocional – é tão poderoso, porque ele só mobiliza a agressividade. Esta tempestade de pulsões tem sua função. Como ponto de partida, garante a pole position. É inegável que, quando falamos da realização de qualquer tarefa, a motivação com que o indivíduo a ela se dedica determina a qualidade do produto da mesma e a eficiência com que é realizada. Na área da edu- cação muitas vezes só nos preocupamos com a motivação do aluno para a aprendizagem. Preferimos, no entanto, abordar nesta aula o termo de forma mais ampla. Freitas (1998, p. 112) afirma que a motivação é a predisposição (fator interno) com que o indivíduo trabalha (atua). E continua: “Refere-se ao estado de espírito, às condições psicoemocionais com que enfrenta o tra- balho no dia a dia.” O termo motivação tem, portanto, diversos significados. Podemos falar em motivação para estudar, trabalhar, viajar e sair de férias. Vamos Motivação na instituição escolar 134 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada focar as organizações, entre as quais incluímos a escola, pois nenhuma organi- zação funciona adequadamente se as pessoas que por ela transitam não esti- verem motivadas. Outras indagações surgem: o que leva realmente aspessoas a estarem moti- vadas e a serem mais produtivas? Qual a atuação do gestor, em relação à motiva- ção do seu grupo? Motivação, o que é isso? O que faz com que uma pessoa saia de casa animada com o dia que tem pela frente e outra se arraste para fora da cama só pensando em como vai ser duro chegar ao trabalho e em como o tempo custa a passar quando está lá? Para ilustrar o sofrimento causado pela baixa motivação, exemplificamos com a vivência de um professor. Ele dizia que, ao acordar pela manhã e pensar que iria para a escola trabalhar, lembrava daqueles filmes de guerra em que os soldados são levados, por um helicóptero, para a frente de batalha, de onde não sabiam se retornariam com vida. O que faz com que um local de trabalho seja um lugar estimulante onde se aprende coisas novas, trabalha-se e o resultado aparece, enquanto o outro é o purgatório por onde se tem que passar até chegar o bendito fim de semana? Atualmente, muitas pessoas questionam o fato de que o dinheiro seja o principal fator de motivação. As pessoas têm sentimentos, desejos e ambições. Ninguém pode negar que luta pela estabilidade econômica e financeira, mas as pessoas também se esforçam para alcançar a realização profissional. Talvez isso seja tão ou mais importante que o pagamento no final do mês, a satisfação do seu desempenho reconhecido. Prêmios, aumento de salário, viagens e até distribuição de sorvete, vale para deixar o funcionário motivado. Ou seria estimulado? Ou seria incentivado a tra- balhar? São várias as teorias de endomarketing; no entanto, o gestor deve ficar atento para não confundir incentivo ou estímulo com motivação que, ao contrá- rio do primeiro, este perdura a médio e longo prazos. Segundo o dicionário Aurélio, estimular é sinônimo de encorajar, animar. Já motivar é equivalente a despertar o interesse, o entusiasmo. A motivação é intrínseca ao indivíduo. Quando o empresário distribui brindes e gratificações não está motivando seus profissionais, mas estimulando-os, in- centivando-os. Recebido o incentivo, todos são tomados pela euforia, mas esse efeito logo passa, se a motivação não se estabelecer. Motivação na instituição escolar 135 Quando um professor utiliza recursos para despertar o interesse dos alunos, deve cuidar para que a proposta das atividades seja estruturada de forma a sus- citar e manter a motivação para a aprendizagem, além daquele primeiro mo- mento. As recompensas intrínsecas ao seu trabalho consistem nas avaliações subjetivas feitas com relação ao engajamento no trabalho e somente são visíveis à própria pessoa. Alguns exemplos desse tipo de recompensa são: a chance de se relacionar com os alunos, a aprendizagem dos mesmos e o crescimento pes- soal e profissional por meio do ensino. As recompensas extrínsecas são normalmente associadas com os benefícios percebidos: salário, status e poder. São definidas pela organização e existem in- dependentemente do indivíduo que ocupa a função. Existem recompensas suplementares, que têm uma dimensão objetiva e sub- jetiva. Embora estejam disponíveis para todos, podem ser percebidas como re- compensas apenas por alguns indivíduos. Essas recompensas estão associadas com a segurança no emprego, férias prolongadas, estabilidade no salário etc. Vamos observar agora algumas das principais abordagens teóricas sobre mo- tivação, dando um suporte teórico à nossa discussão. Bergamini (1982) destaca quatro grandes abordagens da motivação humana: Teorias cognitivas � – concebendo o homem como um ser racional, privi- legiam o conceito e as manifestações da “vontade”. Isso torna os motivos humanos diferentes do pensamento e dos outros processos cognitivos. São as representações do ambiente, internalizadas pelo homem, que o impelem à ação. Teorias hedonistas � – afirmam que o comportamento humano é basi- camente orientado para o prazer, buscando sempre evitar o sofrimento e a dor. A motivação seria constituída por um conjunto de expectativas aprendidas ao longo da vida, e que teria por finalidade antecipar reações emocionais positivas ou negativas. Teorias do instinto � – influenciadas pelos trabalhos de Darwin, acreditam que comportamentos mais simples – como os reflexos incondicionados – são herdados, mas que outros mais complexos – os instintos – objetivam a preservação da espécie. Freud está neste grupo de teóricos, propondo a existência de forças internas poderosas (instintos ou pulsões) que deter- minam o comportamento do homem, mesmo que ele não tenha consci- ência de que elas existam. 136 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Teoria do impulso � – vê a personalidade humana como um reduto de for- ças básicas, com energia própria, que determina e orienta o comporta- mento humano em uma ou em outra direção. Alguns teóricos ligados a esta corrente dizem que esses impulsos são sempre orientados para que o homem recupere o estado de equilíbrio, quebrado pelo surgimento das necessidades. A estas acrescentaríamos uma quinta, a abordagem behaviorista, que enfatiza a aprendizagem e afirma que o comportamento humano é motivado pelas con- sequências ou efeitos por ele produzidos. Passemos a apresentar algumas teorias importantes sobre a motivação humana, para refletirmos depois sobre a ação referente a alguns desses fatores. Dentre as muitas teorias da motivação que existem, escolhemos duas: a) Classificação dos principais motivos humanos, organizados sob os obje- tivos gerais de sobrevivência e segurança, satisfação e estimulação, feita por Krech. Motivos Sobrevivência e segurança (motivos de deficiência) Satisfação e estimulação (motivos de excesso) Referentes às relações com as outras pessoas Evitar conflitos e hostilidade interpes- soal; manter participação, prestígio e status nos grupos; obter cuidado dos outros; conformar-se aos valores e padrões do grupo; conseguir poder e domínio sobre os outros etc. Conseguir amor, identificação po- sitiva com as pessoas e grupos; ter prazer na companhia de outras pessoas; auxiliar a compreender os outros; ser independente. Referentes ao eu Evitar sentimentos de inferioridade e fracasso na comparação com ou- tros ou com o eu ideal; evitar perda de sentimentos de vergonha, gula, medo, angústia, tristeza etc. Obter sentimentos de autorrespei- to e autoconfiança; exprimir-se; ter sentido de realização, sentir-se de- safiado, estabelecer valores morais e outros; descobrir lugar significati- vo do eu universo. Referentes ao corpo Evitar fome, sede, falta de oxigê- nio, excesso de calor e frio, fadiga, músculos supertensos, doenças e outros estados desagradáveis ao corpo. Obter experiências sensoriais agra- dáveis de gosto, cheiros, sons etc.; prazer sexual; conforto físico: exer- cício dos músculos, movimentos rítmicos do corpo etc. Referentes às relações com o ambiente Evitar objetos perigosos, feios, cho- cantes e desagradáveis; buscar ob- jetos necessários para a segurança e sobrevivência futuras; manter um ambiente estável, claro e seguro etc. Obter posses agradáveis; construir e inventar objetos; compreender o ambiente; resolver problemas; jo- gar, buscar novidades e mudanças ambientais etc. Motivação na instituição escolar 137 b) Hierarquia motivacional, elaborada por Maslow. Abraham Maslow, psicólogo americano e grande pesquisador de compor- tamento, propôs – em 1948 – uma classificação de motivos ou hierarquia das necessidades mais conhecida como a Pirâmide de Maslow, na qual ele explica os cinco níveis de necessidades do ser humano. Segundo o próprio Maslow (1970, p. 53): A progressão motivacional gera individuação, em que as necessidades básicas são completamente satisfeitas, uma por uma, antes de surgir na consciência a necessidade seguinte e mais elevada. Assim o crescimento évisto não só como a satisfação progressiva de necessidades básicas, até o ponto em que elas desaparecerem, mas também na forma de motivações específicas do crescimento, além de acima dessas necessidades básicas, por exemplo, talentos, capacidades, tendências criadoras, potencialidades constitucionais. Dessa maneira, somos também ajudados a compreender que as necessidades básicas e a individuação não se contradizem entre si mais do que a infância e a maturidade. Uma pessoa transita de uma para a outra e a primeira é condição prévia e necessária para a segunda. Vejamos, então, as necessidades apresentadas por Maslow, em sua pirâmide: autorrealização estima social (afiliação) segurança fisiológicos Segundo a teoria de Maslow, portanto, motivação é interna e não externa; as necessidades são hierárquicas (seguem uma ordem de prioridade); uma neces- sidade, uma vez satisfeita, não é mais uma força motivadora; e cada um de nós ascende nessa hierarquia motivacional, de acordo com o seu ritmo e a sua histó- ria de vida (pode-se observar que cada pessoa tem um grau de interesse, desejo, habilidade, aptidão para realizar suas atividades pessoais e profissionais). Vejamos agora as escalas hierárquicas ou segmentos dessa “pirâmide”, como apresentamos no desenho acima: 138 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Necessidades fisiológicas: aparecem na base da pirâmide e são básicas � para a sobrevivência (alimento, repouso, reprodução). As organizações procuram satisfazer essa necessidade oferecendo: refeições, horários ade- quados, intervalos de descanso, transporte etc. Necessidades de segurança: constituem o segundo nível da pirâmide. Tra- � ta-se da autopreservação, proteção, ausência de medos, ameaças e ansie- dade, ou seja, de evitar o perigo físico, evitar a privação das necessidades fisiológicas, buscar a estabilidade. Algumas organizações oferecem seguro de vida e de acidentes, planos de saúde, cursos de preparação para a apo- sentadoria etc., visando a minimizar a insegurança de seus empregados. Necessidades sociais: as pessoas sentem necessidades de serem aceitas e � de pertencerem a grupos estabelecendo relações de amizade, intimidade, afeto e amor. Quando não satisfeitas, tornam-se hostis, solitárias e depri- midas, sofrendo uma dor “quase física”. O papel da instituição é de desper- tar no colaborador a importância do trabalho em equipe e aprimorar as relações humanas. Necessidades de estima: nesta modalidade, as pessoas passam a sentir ne- � cessidade de estima, ou seja, tanto de autoestima quanto de reconheci- mento por parte dos outros. Querem prestígio, status e consideração; ade- quação, capacidade e competência; liberdade e identidade. À organização cabe reconhecer os esforços do trabalhador por meio de elogios, promo- ções, premiação (não necessariamente com dinheiro) etc. Necessidades de autorrealização: trata-se do predomínio da necessida- � de de realizar aquilo de que se é capaz e que realmente se gosta de fa- zer, além de construir um sistema de valores. São as necessidades mais elevadas, estão no alto da Pirâmide de Maslow. As instituições podem atender a satisfação desta necessidade, possibilitando ao trabalhador o uso de sua criatividade, da liberdade de expressão, de trabalhar naquilo que gosta etc. Mais tarde, Maslow acresceu mais um estrato à pirâmide, o mais elevado: as necessidades estéticas. Trata-se da busca do belo, do estético, do que oferece plenitude à vida humana. Katz e Kahn (1976, p. 437) apresentam três comportamentos que consideram fundamentais para a consecução da efetividade organizacional: Motivação na instituição escolar 139 ingressar e permanecer na organização; � desempenhar satisfatoriamente os papéis que são atribuídos a cada indi- � víduo; desenvolver comportamento inovador e cooperativo. � Falam de quatro padrões de motivos específicos: cumprimento legal, evocado pelo uso de símbolos claros quanto à au- � toridade; satisfação instrumental, evocada pelo uso de recompensas imediatas, � constantes e adequadas; autoexpressão, que varia de acordo com as características da atividade � desenvolvida; internalização das metas organizacionais, provocando baixo absenteísmo e � alta produtividade, além de espontaneidade e propensão para a inovação. Falta-nos, agora, destacar a importância da ação gestora, para intensificar a motivação do grupo. Segundo Aguiar (1989, p. 183) “a forma de organizar o setor ou área, de modo a possibilitar o desenvolvimento do potencial humano, deveria ser uma preocu- pação constante dos que detêm a responsabilidade de chefia”. Shein (1982) destaca a importância da visão que o gestor tem, sobre a natu- reza e as motivações do homem. Assim, fala de quatro formas de visão gestora da motivação: Hipóteses gestoras sobre a motivação Visão do gestor Características da motivação Homem econômico O homem, egoísta e interesseiro, não gosta de trabalhar. O salário e o medo de perder o emprego são os melhores incentivos para aumen- tar a motivação. Homem social A motivação no trabalho não é apenas econômica, mas social. Existe uma forte motivação para obter afiliação e pertecimento aos grupos informais. Homem autorrealizador Além da econômica, existe uma forte motivação para o alcance da autorrealização no trabalho, da expressão plena das capacidades e aptidões. Homem complexo As motivações variam de acordo com a pessoa, com a situação, com a organização de trabalho. 140 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Principalmente nas duas últimas visões, que contemplam a autorrealização e a complexidade das motivações, algumas ações gestoras têm impacto junto à motivação dos membros do grupo: Credibilidade � : comunique que você, líder, acredita que a equipe pode alcançar as metas da organização e aprimorar a performance. Encorajamento � : informe a toda a organização o resultado das avaliações realizadas, solicitando apoio para as equipes que vêm encontrando difi- culdades. Reconhecimento � : não economize elogios, valorizando a equipe. Premiação � : utilize a premiação de forma coerente e democrática, minimi- zando os conflitos que normalmente surgem. Envolvimento de todos � : crie programas que permitam a participação de todos. As questões específicas da motivação do professor para o exercício do magis- tério são de enorme importância. Como afirmam Telfer e Swan (1986, p. 42): O problema da motivação do professor situa-se no preenchimento de necessidades de alta ordem em uma profissão onde os padrões de carreira podem ser limitados. O estabelecimento de metas em termos de resultados quantificáveis é difícil e o grau de manutenção dos procedimentos nas atividades rotineiras da escola podem ser uma verdadeira fonte de frustração. O resultado, portanto, é que a natureza do trabalho do professor em si próprio pode emergir como a principal fonte de satisfação no trabalho. As pesquisas existentes na área da motivação do professor têm sido conduzi- das a partir de duas abordagens: a abordagem psicológica que emprega vários conceitos como a satisfação � no trabalho, a satisfação ocupacional e a satisfação com a vida; a abordagem sociológica que se concentra na socialização e na carreira � do professor. Ambas têm revelado que a motivação dos professores está sendo severa- mente ameaçada nos últimos anos. Vejamos de que forma: a maioria das insa- tisfações intrínsecas dos professores relacionam-se à indisciplina dos alunos e ao fato deles não apresentarem motivação para a aprendizagem. Os fatores de natureza extrínseca são: os baixos salários, o aumento do trabalho administrati- vo, a queda do status da profissão etc. Motivação na instituição escolar 141 Para concluir essas reflexões sobre a motivação do homem, nada melhor que uma imagem que expressade forma clara a perplexidade e o desinteresse viven- ciado, quando as nossas motivações não são, minimamente, atendidas. Observe este menino, em uma sala de aula: (T O N U CC I, 19 93 ) Texto complementar Motivação na aprendizagem: um olhar considerando seus vários contextos (PEREIRA, 2009) [...] Nas duas últimas décadas, segundo Guimarães et al. (2002), observa-se um aumento acentuado de estudos centrados na motivação no contexto es- colar, objetivando, em sua maioria, encontrar formas de influenciar os alunos a incrementar seu envolvimento em tarefas de aprendizagem. Para eles, a questão motivacional talvez explique porque alguns estudantes gostam e aproveitam a vida escolar, apresentando comportamentos “adequados”, adquirindo novas capacidades e desenvolvendo todo o seu potencial, en- quanto que outros parecem pouco interessados, muitas vezes fazendo as 142 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada atividades por obrigação, ou de forma relaxada e, em alguns casos, odiando boa parte da vida escolar. O termo motivação é derivado do verbo latino movere e que significa mo- vimento. Esta ideia de movimento aparece em muitas definições de moti- vação, o que está relacionado com o fato da motivação levar uma pessoa a fazer algo, mantendo-a na ação e ajudando-a a completar tarefas (op. cit.). Ainda de acordo com o mesmo autor, uma definição de motivação de- veria englobar alguns elementos dentre os quais ele destaca: a noção de “processo”, ou seja, a motivação é um processo e não um produto. Dessa forma, não pode ser observada diretamente, mas ser inferida a partir de alguns comportamentos que podem ser condicionados por determinadas metas, que são elementos com a função de oferecer ímpetos para a direção da ação do sujeito. Entende-se também, baseados em estudos de diversos autores, que é importante considerar a identificação e a compreensão das metas e orien- tações motivacionais dos alunos com o objetivo de ampliá-las e dirigi-las para o aprender, estimulando assim a aceitação de desafios, a proposição de ideias próprias e criando um clima no qual não se salientem preocupações com notas e avaliações. Os estudos realizados sobre motivação para a aprendizagem permiti- ram apontar também uma série de fatores que podem afetar a motivação do estudante: o ambiente da sala de aula, as expectativas e estilos dos pro- fessores, os desejos e aspirações dos pais e familiares, os colegas de sala, a estruturação das aulas, o currículo escolar, a organização do sistema educa- cional, as políticas educacionais, e principalmente as próprias características individuais dos alunos que são evidenciadas quando, por exemplo, o aluno manifesta preferência por determinadas matérias durante a vida escolar e que contribuem significativamente para impulsionar a sua aprendizagem, pois, ele gostando de determinada matéria, fica mais fácil haver a motivação. (SIQUEIRA; WECHSLER , 2006) Dessa forma, estudar a motivação para a aprendizagem envolve a com- preensão de um complexo sistema de fatores que se inter-relacionam, ope- rando em conjunto na motivação do aluno. Destes fatores, os que eu consi- dero os mais relevantes, serão detalhados na continuidade. Motivação na instituição escolar 143 Assim, quando se pensa em motivação para a aprendizagem é preciso considerar, em primeiro lugar, as características do ambiente escolar, pois, de forma geral, a natureza das tarefas e atividades realizadas no ambiente escolar dependem dos processos cognitivos, e que, de acordo com Guima- rães et al. (2002) e com Bzuneck (2002), são a capacidade de atenção, de con- centração, de processamento de informações, de raciocínios e de resolução de problemas. Devido a essas características, esses autores acreditam que aplicar con- ceitos gerais sobre motivação humana no ambiente escolar não seria muito apropriado sem a consideração das singularidades do ambiente e das carac- terísticas cognitivas individuais, com o que concordo plenamente. Um outro fator contribuinte para a motivação ou desmotivação, é o pro- fessor, com a forma de sua atuação em sala de aula (CARRIJO, 1995). Concor- dando com Carrijo, Santos (1997) coloca que as posturas dos professores são definidoras das atitudes dos estudantes. O professor, através de sua ação, pode favorecer simpatias ou antipatias em relação a determinados conteú- dos e isso depende, em grande medida, da sua própria relação com o conte- údo que ele ensina, ou seja, o comportamento do professor parece ser deter- minante da postura que os estudantes terão para com o conteúdo. Carrijo (1995) nos coloca que “o bom professor de Ciências” demonstra satisfação com o conteúdo e com a aula, faz pesquisa e conhece outras ciên- cias. Com isso, muito da motivação do aluno vai depender da própria motiva- ção do professor em conhecer e ensinar Ciências. Um professor que aparente desinteresse pela descoberta da ciência e pela tarefa de fazer os estudantes descobrirem-na, dificilmente obterá sucesso ao tentar motivar seus alunos. Um conceito utilizado no estudo da motivação para a aprendizagem es- colar é o de motivação intrínseca e extrínseca. Um aluno extrinsecamente motivado é aquele que desempenha uma atividade ou tarefa, interessado em recompensas externas ou sociais. Assim, um aluno com esse tipo de mo- tivação está mais interessado na opinião do outro, e suas tarefas (estudar para provas) são realizadas com o objetivo principal de agradar pais e/ou professores, para ter reconhecimento externo, receber elogios ou apenas para evitar uma punição (SIQUEIRA; WECHSLER , 2006). Um aluno motivado intrinsecamente, ao contrário, é aquele cujo envol- vimento e manutenção na atividade acontece pela tarefa em si, porque é 144 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada interessante e geradora de satisfação. Alunos com esse tipo de motivação trabalham nas atividades, pois as consideram agradáveis. Neste sentido, o progresso alcançado pelo aluno intrinsecamente motivado promove um senso de eficácia em relação à aprendizagem, gerando expectativas posi- tivas de desempenho e realimentando a motivação para aquela tarefa ou atividade (GUIMARÃES et al., 2002). E esses aspectos motivacionais nada têm a ver com a capacidade mental de cada estudante, não sendo esse um fator determinante para a dificuldade por parte dos alunos, em determinados conteúdos da química, portanto esse argu- mento não nos serve de desculpa para a falta de motivação (CÁRDENAS, 2006). Falamos dos fatores que afetam a motivação dos alunos, porém cabe nos questionar para que tipo de aprendizagem queremos motivar os alunos, a aprendizagem para o desempenho? Nesse caso, bastará apenas o aluno de Química repetir todas as regras de nomenclatura dos hidrocarbonetos, por exemplo, ou até mesmo quem sabe resolver alguns cálculos químicos, preparar uma solução? Ou estamos falando do aprender a SER, que muitos pensam não ser tarefa do professor? Não será necessário aprender a gostar de aprender, por muito bem que se aprenda? (SANTOS, 1997) São questões muito importantes, e que podem determinar o quanto de motivação é necessária na vida escolar e diária. Ao aprendermos, adquirimos a capacidade de interpretar a realidade e desta forma não nos limitamos apenas a refleti-la ou a reproduzi-la, como também a categorizá-la e ordená-la. Atividades que refinem a capacidade de observação e de formular per- guntas, que orientem o trabalho com os dados, a interpretação precedida da análise da informação, a leitura crítica das mensagens do mundo, são al- gumas de tantas alternativas disponíveis. A análise e organização da infor- mação, entre tantos outros fatores, contribuem de forma significativa para a modificação da visão pessoal do mundo. No entanto, também sabemos que aprender não é tarefa fácil. Em váriosmomentos da nossa vida já tivemos dificuldades em aprender algo, em ad- quirir competências que gostaríamos de ter. Temos consciência de que não aprendemos como gostaríamos de aprender, mas não temos consciência dos processos que nos permitiriam otimizar a nossa aprendizagem. Motivação na instituição escolar 145 Pensamos então, como já falamos, que motivação e aprendizagem são faces da mesma moeda, e não podem, como afirma Santos (1997), ser separadas. A nível social, as transformações são constantes e atualmente motivadas pela crescente influência da cultura anglo-saxônica, principalmente america- na, que valoriza o individualismo, o espírito de competição que transforma o indivíduo num ser que busca o máximo lucro com o mínimo de investimento e tempo. Isso acontece sem a componente social e o sentido de solidarieda- de, o que se reflete na escola, pois hoje temos alunos digitais que passam horas na frente de computadores, televisões e videogames que para eles são muito mais interessantes do que a escola como está hoje. Essa complexa rede que envolve a motivação e aprendizagem, com vários envolvidos, a sua análise se faz muito necessária em nossas salas de aula. Guimarães et al. (2002) apontaram que a motivação para a aprendizagem pode ser parcialmente avaliada por meio de observações diretas de compor- tamentos, pelo julgamento de outros e por relatos e autoavaliações, sem é claro desconsiderar o contexto que já foi citado anteriormente. As observa- ções diretas estão relacionadas à análise dos comportamentos de um estu- dante que poderiam ser indicativos de aspectos motivacionais. [...] Dica de estudo Sugerimos a leitura do livro Motivação nas Organizações de Cecília W. Berga- mini, publicado pela Editora Atlas. A autora afirma que trabalhar com pessoas motivadas exige estratégias especiais e comprova porque promessas de prê- mios ou ameaças de punições podem comprometer perigosamente o bom de- sempenho das pessoas no trabalho, bem como gerar problemas à continuidade e à eficácia das atividades desenvolvidas, assim é necessário cultivar o potencial produtivo de cada pessoa. Portanto, é preciso guiar-se por novos parâmetros e reformular velhos paradigmas na busca da satisfação motivacional. Compete ao professor, ao diretor da escola, ou a quem lidera o grupo naquele momento, propor atividades enriquecedoras, visando a introduzir maior dose de motiva- ção para as tarefas propostas. 146 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Atividade Leia com atenção a crônica de Rubem Alves, publicada no jornal A Folha de S. Paulo e faça a seguinte atividade: 1. Escreva uma síntese sobre os aspectos da motivação na escola, relacionando com o texto de Rubem Alves quando o mesmo faz a analogia da parábola com a escola. Não esqueça as perguntas fundamentais Rubem Alves Vou contar para vocês uma estória. Não importa se verdadeira ou imagi- nada. Por vezes, para ver a verdade, é preciso sair do mundo da realidade e entrar no mundo da fantasia... Um grupo de psicólogos se dispôs a fazer uma experiência com macacos. Colocaram cinco macacos dentro de uma jaula. No meio da jaula, uma mesa. Acima da mesa, pendendo do teto, um cacho de bananas. Os macacos gostam de bananas. Viram a mesa. Perceberam que, subindo na mesa, alcançariam as bananas. Um dos macacos subiu na mesa para apa- nhar uma banana. Mas os psicólogos estavam preparados para tal eventuali- dade: com uma mangueira deram um banho de água fria nele. O macaco que estava sobre a mesa, ensopado, desistiu provisoriamente do seu projeto. Passados alguns minutos, voltou o desejo de comer bananas. Outro macaco resolveu comer bananas. Mas, ao subir na mesa, outro banho de água fria. Depois de o banho se repetir por quatro vezes, os macacos concluíram que havia uma relação causal entre subir na mesa e o banho de água fria. Como o medo da água fria era maior que o desejo de comer bananas, resolveram que o macaco que tentasse subir na mesa levaria uma surra. Quando um macaco subia na mesa, antes do banho de água fria, os outros lhe aplicavam a surra merecida. Aí os psicólogos retiraram da jaula um macaco e colocaram no seu lugar um outro macaco que nada sabia dos banhos de água fria. Ele se comportou como qualquer macaco. Foi subir na mesa para comer as bananas. Mas, antes que o fizesse, os outros quatro lhe aplicaram a surra prescrita. Sem nada en- Motivação na instituição escolar 147 tender e passada a dor da surra, voltou a querer comer a banana e subiu na mesa. Nova surra. Depois da quarta surra, ele concluiu: nessa jaula, macaco que sobe na mesa apanha. Adotou, então, a sabedoria cristalizada pelos po- líticos humanos que diz: se você não pode derrotá-los, junte-se a eles. Os psicólogos retiraram então um outro macaco e o substituíram por outro. A mesma coisa aconteceu. Os três macacos originais mais o último macaco, que nada sabia da origem e função da surra, lhe aplicaram a sova de praxe. Este último macaco também aprendeu que, naquela jaula, quem subia na mesa apanhava. E assim continuaram os psicólogos a substituir os macacos originais por macacos novos, até que na jaula só ficaram macacos que nada sabiam sobre o banho de água fria. Mas, a despeito disso, eles continuavam a surrar os macacos que subiam na mesa. Se perguntássemos aos macacos a razão das surras, eles responderiam: é assim porque é assim. Nessa jaula, macaco que sobe na mesa apanha... Haviam se esquecido completamente das bananas e nada sabiam sobre os banhos. Só pensavam na mesa proibida. Vamos brincar de “fazer de conta”. Imaginemos que as escolas sejam as jaulas e que nós estejamos dentro delas... Por favor, não se ofenda, é só faz de conta, fantasia, para ajudar o pensamento. Nosso desejo original é comer ba- nanas. Mas já nos esquecemos delas. Há, nas escolas, uma infinidade de coisas e procedimentos cristalizados pela rotina, pela burocracia, pelas repetições, pelos melhoramentos. À semelhança dos macacos, aprendemos que é assim que são as escolas. E nem fazemos perguntas sobre o sentido daquelas coisas e procedimentos para a educação das crianças. Vou dar alguns exemplos. Primeiro, a arquitetura das escolas. Todas as escolas têm corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crianças em grupos, segre- gando-as umas das outras. Por que é assim? Tem de ser assim? Haverá uma outra forma de organizar o espaço, que permita interação e cooperação entre crianças de idades diferentes, tal como acontece na vida? A escola não deveria imitar a vida? Programas. Um programa é uma organização de saberes numa determina- da sequência. Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita? Que uso fazem as crianças desses saberes 148 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada na sua vida de cada dia? As crianças escolheriam esses saberes? Os progra- mas servem igualmente para crianças que vivem nas praias de Alagoas, nas favelas das cidades, nas montanhas de Minas, nas florestas da Amazônia, nas cidadezinhas do interior? Os programas são dados em unidades de tempo chamadas “aulas”. As aulas têm horários definidos. Ao final, toca-se uma campainha. A criança tem de parar de pensar o que estava pensando e passar a pensar o que o pro- grama diz que deve ser pensado naquele tempo. O pensamento obedece às ordens das campainhas? Por que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo? As crianças são todas iguais? O objetivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais? A questão é fazer as perguntas fundamentais: por que é assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma? Temo que, como os macacos, concen- trados no cuidado com a mesa, acabemos por nos esquecer das bananas... (Disponível em: <www.rubemalves.com.br>.)Motivação na instituição escolar 149 Eloiza da Silva Gomes de Oliveira Destacaremos aspectos sobre autoridade e poder nas práticas gestoras e como estas interferem na formação do gestor escolar, promovendo ati- tudes mais sólidas e democráticas. Pretendemos diferenciar os conceitos de autoridade e de poder; gover- no e governamento; poder e resistência, conhecer os tipos de poder social associados à Gestão Escolar e valorizar o processo democrático na gestão da escola, que inclui o convívio com a diferença de opinião, a crítica e a oposição, expressa de diferentes maneiras. Vamos diferenciar, de início, poder e autoridade: Poder � é a capacidade potencial para o exercício da influência, em sentido mais geral, não dizendo respeito a atos pontuais, como no caso do controle. Autoridade � consiste em poder legítimo, poder que uma pessoa tem em virtude do seu papel, da sua posição hierárquica; é o poder legal e socialmente aceito. Esses dois termos convergem com a capacidade de influir no compor- tamento dos membros do grupo de que se faz parte. Um gestor escolar dispõe e pode exercer quatro tipos de poder social, que apresentamos no quadro a seguir contextualizados com exemplos concretos. Tipo de poder social Exemplo De recompensa e coação O gestor da instituição escolar, mesmo quando ela é pública e não pode manipular recompensas financeiras, sempre detém um poder social quanto à distribuição das recompensas (melho- res horários, acesso a oportunidades de capacitação, por exem- plo) e à aplicação de determinada sanções. Autoridade e poder do gestor escolar 152 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Tipo de poder social Exemplo Legítimo O gestor está situado no topo da estrutura hierárquica da es- cola. Fica isolado nesta posição, se não é praticada uma gestão colegiada ou participativa. Quando existe uma eleição para di- retor da escola, esse poder legítimo é referendado pelo voto dos membros do grupo. De referência É comum – e desejável – que o diretor estabeleça boas relações interpessoais com os demais “atores institucionais” e com a co- munidade externa à escola, exercendo uma liderança realmente referenciada pelo grupo. De especialistas ou de competência Também bastante positivo, este poder social do gestor emana do seu reconhecimento, pelo grupo, como detentor de conheci- mento sólido, como um educador com experiência ampla e bem sucedida em sala de aula (vindo do “chão da escola”, e não como alguém que desenvolveu apenas experiências administrativas). A crítica mais forte ao poder social legítimo ou hierárquico, quando exercido de forma tradicional e autoritária – como acontece nas escolas muito tradicio- nais – é expressa pelo chamado “organograma dos corvos”: uma árvore de vários galhos, em que os corvos estão pousados em ramos de elevação diferente. Cada um representa um escalão hierárquico, mas eles não “conversam” entre si, deno- tando o exercício arbitrário do poder, verticalmente estabelecido. Apresentaremos duas abordagens teóricas de poder e autoridade. A primeira é de Hannah Arendt. A autora destaca que, entre as instituições sociais, a escola tem uma função fundamental: de articular as gerações em seus conceitos, valo- res e culturas, preparando-as para um mundo que possa melhor acolhê-las, pois são as novas gerações que têm o poder de mudança ou de manutenção do que vivemos em nossa sociedade. A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as, em vez disso, com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. (ARENDT, 1997, p. 274) As instituições escolares são constituídas por pessoas que se relacionam de forma hierárquica, ao menos entre os que detêm o conhecimento universal, sistematizado, e os que recebem este mesmo saber. Essa hierarquia pressupõe posições, funções e tarefas desiguais, diferenciadas, e a existência e a prática da autoridade. As relações de autoridade atravessam os diversos níveis da escola: Secretaria de Educação e direção da escola, direção da escola e professores, pro- fessores e alunos, entre outros. Autoridade e poder do gestor escolar 153 Modelo dessas relações, estabelecidas de forma democrática, é a polis grega. Sobre ela, afirma Arendt (1997, p. 23): De fato, os gregos procuraram estabelecer um fundamento para a vida pública que não fosse apenas a argumentação ou a forca, mas tanto Platão quanto Aristóteles se utilizaram de conceitos pré-políticos para análise do problema ao transferirem, por analogia, para o campo da política as relações de pais e filhos, senhor e escravo, pastor e rebanho etc. que não eram relações entre iguais como as que devem nortear a vida política. Após analisar a evolução da autoridade, através da história, a autora conside- ra que ela está “desaparecendo” no mundo moderno. A crise da autoridade que desembocou em nosso século, perdendo os referenciais que denunciavam o seu conceito e a sua prática específica. Essa crise, manifesta desde o começo do século e política em sua origem e natureza. O ascenso de movimentos políticos com o intento de substituir o sistema partidário, e o desenvolvimento de uma nova forma totalitária de governo, tiveram lugar contra o pano de fundo de uma quebra mais ou menos geral e mais ou menos dramática de todas as autoridades tradicionais. (ARENDT, 1997, p. 128) Um sintoma característico dessa crise de autoridade é ela ter se espalhado para as áreas denominadas de pré-políticas, como a criação dos filhos nas famí- lias e na educação em geral. Arendt associa a perda da autoridade na sociedade moderna com o declí- nio da hegemonia da tradição e da religião. A perda da tradição acarretou um profundo corte com o passado, que nos guiou com segurança e permitiu que construíssemos, no presente, referenciais, valores e normas que regem o com- portamento do homem e da sociedade. Vista por outro prisma, no entanto, essa crise de autoridade libertou as futu- ras gerações de um destino preestabelecido por parâmetros rígidos e autoritá- rios. Segundo a análise de Hannah Arendt sobre a autoridade, as mais recentes e principais revoluções como a Francesa, a Independência Americana ou a Revo- lução Soviética não concederam rupturas radicais com a tradição. Em todas elas, os homens se inspiraram na origem da tradição, terminando os seus processos revolucionários em restauração ou tirania. A autoridade tal como a conhecemos outrora, e que se desenvolveu a partir da experiência romana e foi entendida à luz da filosofia política grega, não se restabeleceu em lugar nenhum, quer por meio de revoluções ou pelos meios ainda menos promissores da restauração, e muito menos através do clima e tendências conservadoras que vez por outra se apossam da opinião pública. (ARENDT, 1997, p. 187) A segunda abordagem é a teoria de Michel Foucault, conhecido filósofo francês. O tema poder é constante na obra do autor, e vamos abordá-lo sob três enfoques: 154 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada A diferença entre governo e governamento � Alguns autores sugerem que o termo governo seja substituído, quando fa- lamos de Foucault, pela palavra governamento, quando estivermos falando da ação ou ato de governar. Justificam isso, por exemplo, pelo uso dos conceitos que Foucault faz, ao falar da arte de governar: [...] os governantes, as pessoas que governam, a prática de governo são, por umlado, práticas múltiplas, na medida em que muita gente pode governar: o pai de família, o superior do convento, o pedagogo e o professor em relação à criança e ao discípulo. Existem, portanto, muitos governos, em relação aos quais o do príncipe governando seu estado é apenas uma modalidade. Por outro lado, todos esses governos estão dentro do Estado ou da sociedade. (FOUCAULT, 1992, p. 280) Discutindo O Príncipe, obra de Maquiavel, e os saberes que o autor propõe para que o soberano exerça a sua autoridade, diz Foucault (1999, p. 151): “Trata- -se do conjunto de conhecimentos sobre o estado, o governo, o país, necessário a quem vai ser chamado, dentro de alguns anos, quando Luís XIV tiver morrido, a dirigir esse estado, esse governo e esse país.” Temos, dessa forma, a ação de governar – governamento, como propõem esses autores – expressa na primeira citação, e a instância administrativa, res- ponsável pelo governo, na segunda. Utilizando esta ótica, o gestor escolar realiza o “governamento” da escola, utilizando saberes para isso necessários e recebendo uma “dose” de autoridade necessária, o que vai constituir o “governo” da instituição escolar. Poder e resistência � Foucault vê o poder não apenas como uma força negativa, mas também pro- dutiva, e afirma que, quando há o exercício do poder, há resistência. Isso extrapola a situação das prisões, embora Foucault tenha se debruçado muitas vezes sobre o tema dos presos e dos loucos internados. Afirma que, mesmo nessas situações extremas, sempre somos “livres”, em virtude do exercício da resistência, que trans- cende o ato de dizer não – forma primeira de resistência – mas constitui a manu- tenção e o exercício do direito de dizê-lo. É a resistência que define a relação de poder, rompendo com o continuum da obediência e mudando essa relação. A importância da crítica � O pensamento recebe posição de destaque na abordagem de Foucault. É algo que nem sempre está claramente presente, mas se desvela nos comporta- mentos cotidianos. Autoridade e poder do gestor escolar 155 Em entrevista concedida na ocasião da eleição de François Mitterrand para a presidência da república da França, Foucault (1994, p. 180) afirmou: A crítica consiste em caçar esse pensamento e ensaiar a mudança: mostrar que as coisas não são tão evidentes quanto se crê, fazer de forma que isso que se aceita como vigente em si, não o seja mais em si. Fazer a crítica é tornar difíceis os gestos fáceis demais. A crítica radical é absolutamente indispensável para toda transformação. Pois uma transformação que permaneça no mesmo modo de pensamento, uma transformação que seria apenas uma certa maneira de melhor ajustar o pensamento mesmo à realidade das coisas, seria apenas uma transformação superficial. Instado a falar sobre reformas e transformações, em virtude da ascensão de um presidente de esquerda ao poder, Foucault afirma que “Uma reforma não é nunca mais do que o resultado de um processo no qual há conflito, afrontamen- to, luta, resistência...” (1994, p. 181). E sobre a ação do intelectual (neste caso o gestor) nesse processo de transformação: Trata-se de tornar os conflitos mais visíveis, de torná-los mais essenciais que os simples afrontamentos de interesses ou simples bloqueios institucionais. Desses conflitos, des- ses afrontamentos devem sair uma nova relação de forças do qual o contorno provisório será uma reforma. Se não houve na base o trabalho do pensamento sobre ele mesmo e se efetivamente os modos de pensamento, isto é, dos modos de ação não foram modificados, qualquer que seja o projeto de reforma, sabe-se que será fagocitado, digerido pelos modos de comportamentos e de instituição que serão sempre os mesmos. (FOUCAULT, 1994, p. 181-182) Para concluir este mosaico teórico, vamos discutir um pouco o conceito de autoridade na abordagem do grande educador brasileiro Paulo Freire. Tomamos como referência o texto de Gomercindo Ghiggi publicado na revista virtual Cur- rículo sem Fronteiras (2001). Afirma o autor: A autoridade em Freire é conceito que provoca demarcação epistemológica, política e ética. O autor é exigente com o modelo responsável pela produção social da educação, com os sistemas de ensino e com o corpo docente atuando num mundo desigual, o que o torna conceito provocador de novos conceitos e comportamentos: políticos, éticos, epistemológicos e pedagógicos. Freire, em diálogos formativos [...] transgride códigos culturais do capitalismo, quando o que ensina objetiva produzir solidariedades, com novas orientações simbólico- -culturais, pela crítica radical à ordem social exaurida, crítica esta não pouco descartada pela pós-modernidade. Os critérios de prestígio, boa aparência e domínio cultural amplo, estão, em Freire, desautorizados à legitimação da autoridade, novamente em franca posição transgressiva em relação a códigos capitalistas. Freire trabalha para que a gramática da vida faça parte da cultura escolar. Trabalha pela superação do individualismo solitário e do critério do mercado quando autorizam-se à organização da vida, mas que fragilizam, pela globalização, individualidades, responsabilizando-as por fracassos, descontextualizando-as de suas histórias e conjunturas. Trabalha pela lógica emancipatória onde a reinvenção da vida é condição. (GHIGGI, 2001, p. 167) O autor destaca a utilização do conceito de autonomia por Freire, relacionan- do-o à questão da liberdade e afirma: 156 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada A relação entre liberdade e autoridade, portanto, considera a condição histórica atual, negadora da liberdade de ser sujeito a muitas pessoas [...]. Mulheres e homens, seres histórico-sociais, nos tornamos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper, por tudo isso, nos fizemos seres éticos negando-se a aceitar as teses da inevitabilidade, da inexorabilidade ou da fatalidade históricas, posturas derivadas, também, da descrença no Estado, na família, na imprensa e na escola. E como agir para que a liberdade criativa dos excluídos da vida seja respeitada? Como admitir a presença da autoridade no campo da construção de alternativas para a vida digna a todos? [...] A reinvenção das diferentes formas de poder deve gerar discussões que conduzam à produção de alternativas para mudanças. [...] Portanto, a liberdade é dimensão essencial e exclusivamente humana porque envolve campo de decisão. (GHIGGI, 2001, p. 161-162) Paulo Freire desenvolveu, portanto, um conceito de autoridade pedagógi- ca que demanda a retomada de conceito correlatos, de autoridade epistêmica, moral, pedagógica e política: autoridade epistêmica � – efetivada a partir da dimensão básica da ativi- dade pedagógica. A relação dá-se sempre entre pessoas que trazem um capital cultural de origem. Dá-se, a partir daí, a sistematização desse capi- tal, a investigação e o confronto permanente com outros saberes. autoridade moral � – considera fundamentalmente a inserção do homem no mundo e a sua vocação para a vida em sociedade, destacando-se a produção de “condições pelos sujeitos à disponibilização para o diálogo, à crítica, para trocas, para olhar o mundo para além do que há, em determi- nado momento histórico, imediato e previsto, guiando axiologicamente movimentos humanos.” (GHIGGI, 2001, p. 166) autoridade pedagógica � – deve garantir a todos moral efetiva sobre um universo de valores e princípios, tomando como meta o projeto de so- ciedade para todos, condições a todos para a oportunidade de expor e aplicar o que sabem, exigindo o máximo de cada um. autoridade política � – organiza as relações estabelecidas entre educação e comunidade, tornando visível e disponível, em sala de aula, elementos con- textuais que originam referências com as quais a sociedade organiza-se. Em síntese, para Paulo Freire, aposição dialética e democrática implica [...] a intervenção do intelectual como condição indispensável à sua tarefa. E não vai nisto nenhuma traição à democracia, que é tão contraditória pelas atitudes autoritárias quanto pelas atitudes e práticas espontaneístas, irresponsavelmente licenciosas. (FREIRE, 1994, p. 107) Podemos concluir que realmente o gestor escolar possui uma autoridade, alicerçada em mais de uma forma de poder social. É importante, no entanto, que ela não seja aplicada de forma arbitrária, como muitos indícios apontam Autoridade e poder do gestor escolar 157 nas escolas. O que sobressai deles são vícios (autoritarismo, burocracia, pri- vatização do cargo, cargo como fardo etc.) mais do que virtudes (paciência, tato no exercício da autoridade, diálogo, distribuição de atribuições, partilha de autoridade etc.). Não é esse o gestor escolar que pretendemos formar, mas aquele que Paulo Freire falou ao delinear um perfil voltado para o incremento da autonomia e da liberdade nas escolas em que atua. Texto complementar Gestão democrática X autoritarismo (ASSIS, 2009) A escola, pelo que observamos, nem sempre, ou diria, raramente, é pau- tada pelo princípio de que deva ser governada por interesses dos que estão envolvidos. Será que existe, na verdade, interesse em uma gestão democrá- tica? Qual seria então o papel da democracia na escola? Dentro de um contexto da rede pública observa-se, pelo que tenho notado, que o gestor ou diretor escolar assume uma nova centralidade organizacio- nal, sendo o que deve prestar contas pelos resultados educacionais consegui- dos, transformando-se no principal responsável pela efetiva concretização de metas e objetivos, quase sempre centrais e hierarquicamente definidos. Neste sentido, essa concepção de gestão introduz uma nova nuance na confi- guração das relações de poder e autoridade nos sistemas educativos. Trata-se de uma autoridade cuja legitimidade advém agora da revalorização neolibe- ral do “direito a gerir” – direito este, por sua vez, apresentado como altamente convergente com a ideia neoconservadora que vê a gestão ao serviço de uma nova ordem social, política e econômica, com formas de avaliação que facili- tam a comparação e o controle de resultados, embora no primeiro modelo se exija sempre a sua divulgação pública e no outro essa prestação de contas se faça diretamente às hierarquias de topo da administração. Sutil poder desmobilizador Democracia refere-se à “forma de governo” ou a “governo da maioria”; então, torna-se claro que as relações cotidianas no âmbito escolar deveriam 158 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada explicitar essa linha de ação, porém, sabendo-se que toda gestão pressupõe uma AÇÃO e a palavra ação é justamente o oposto da inércia, do comodis- mo, espera-se do gestor educacional atitudes compromissadas de construir, de fazer e o que observa-se são atitudes autoritárias, seguindo diria, uma linha horizontal, onde os princípios democráticos não se inserem; visto que a escola deve ser vista como um lugar privilegiado para a construção do co- nhecimento e como eixo base das relações humanas, viabilizando não só a produção de conhecimentos como também de atitudes necessárias à inser- ção neste novo mundo com exigências cada vez maiores de cidadãos parti- cipativos e criativos. Seria, para muitos, um exagero em considerar a Gestão Escolar, na esfera pública, autoritária. Porém, partindo-se que o autoritarismo está ligado a prá- ticas antidemocráticas e antissociais, e estas permeiam sutilmente a gestão das escolas públicas, creio sim, que esse termo não estaria sendo utilizado aqui, neste artigo, de forma errada, a afrontar a administração pública. A questão do controle, do poder aprisionado nas mãos de diretores e su- periores ainda é prática constante. Administrar escolas é tarefa árdua, porém, dentro dos moldes do autoritarismo, legitima-se então traumas antigos em que a sociedade se mostra ainda fragilizada, com medo, sem liberdade de se expressar e covardemente cedendo lugar às ideologias. Percebe-se na gestão educacional uma administração voltada com ações, na verdade, reprodutoras de uma sociedade infelizmente alienada e passiva, ditando regras e não estabelecendo uma relação dialógica ideal com os en- volvidos, estabelecendo meramente uma transmissão de ordens, alegando, na maioria das vezes, cumprirem determinações que lhes vêm de cima, não proporcionando, assim, momentos para discussão. [...] Todas as iniciativas de política educacional, apesar de sua aparente autonomia, têm um ponto em comum: o empenho em reduzir custos, encargos e investimentos públicos, buscando senão transferi-los e/ou dividi-los com a iniciativa privada e organizações não governamentais” (ROSSI, 2001). A participação é muitas vezes limitada, controlada e puramente formal. A estrutura técnica se sobrepõe aos indivíduos envolvidos e o poder e a au- toridade (leia-se: autoridade: como não prática social – sem visão crítica) se instalam de forma sutil, com obediência, dentro de uma perspectiva clássica de administração que repudia a participação, o compartilhar ideias, a liber- dade para expressar-se, a deliberação de decisões e o respeito às iniciativas. Autoridade e poder do gestor escolar 159 A questão do controle ainda é muito forte, e mesmo sabendo que o poder e a autoridade são necessários em muitos momentos dentro de várias organi- zações, intermediando e viabilizando ações criativas para melhora, observa- se ainda um controle rígido, um descompromisso e muito pouca participa- ção da comunidade escolar como um todo (professores, pais, funcionários, lideranças de bairro) no processo da Gestão Escolar, causando assim auto- maticamente uma acomodação, em que as pessoas não se mobilizam para nada e ficam alheias, esperando sempre ser orientadas ou então aceitando passivamente tudo que venha das “autoridades competentes”, sem quer que seja feito nenhum questionamento crítico construtivo. As atuais discussões sobre Gestão Escolar têm como dimensão e enfoque de atuação: a mobilização, a organização e a articulação das condições ma- teriais e humanas, para garantir o avanço dos processos socioeducacionais, priorizando o conhecimento e as relações internas e externas da escola. Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas. (Darcy Ribeiro). Escola ou empresa? Nota-se com frequência que esta suposta “gestão”, se mascara como sendo democrática e acaba que atendendo de forma a não priorizar prin- cípios básicos democráticos, ocasionando o aumento da produtividade, a massificação do indivíduo, afastando não só o caráter da coletividade, como também o diálogo e o processo decisório. Essa tendência gerencialista, que adquire certas especificidades quando adotada em instituições e serviços do Estado, tem sido designada de nova gestão pública. Gestão esta com requintes de modelo empresarial, onde a escola se coloca a serviço da empresa, com metas a cumprir, atendendo “clientela”, sendo o aluno, na verdade, um mero número. O uso da autoridade dentro de uma gestão educacional deve ter o cuida- do de não se estender a um modelo vertical, devendo essencialmente privi- legiar as relações horizontais entre seus integrantes, mediando as discussões, as trocas de ideias, legitimando, assim, verdadeiras ações democráticas. 160 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Sabe-se o quanto somos facilmente manipulados, por vivermos em uma sociedade deconsumo; porém não devemos esquecer que as organizações educacionais são melhores situadas que outras para iniciar mudanças, co- meçando no âmbito de suas relações internas, no trabalho educativo e, logi- camente, na qualidade da gestão que viabiliza esse trabalho. Eliminar as desconfianças, incentivar a criatividade, a ousadia, a solidarie- dade e a boa convivência são elementos básicos fundamentais, que, com cer- teza, estruturam uma gestão democrática. É claro que esses princípios não se desvinculam da análise de um contexto político, social, ideológico e cultural num sentido amplo, mas, mesmo assim, os principais atores desse espetáculo são os educadores, peças chave na construção de uma gestão educacional digna e humanitária, com potencial de ação, motivadora e inovadora. Conclusão É necessário que o gestor garanta a participação das comunidades in- terna e externa, a fim de que assumam o papel de corresponsáveis na cons- trução de um projeto pedagógico que vise ao ensino de qualidade para a atual clientela da escola pública. Para que isso aconteça, é preciso preparar um novo diretor, libertando-o de suas marcas de autoritarismo, redefinindo seu perfil, desenvolvendo características de coordenador, colaborador e de educador, para que consigamos implementar um processo de planejamento participativo de representantes dos segmentos da comunidade interna (di- retor, vice-diretor, especialistas, professores, alunos e funcionários) e externa (pais, órgãos/instituições, sociedade civil organizada etc.), com um conselho não só consultivo, como também deliberativo (que não se vê há tempos). A esses que sempre se beneficiaram do autoritarismo que gerou a exclusão, do centralismo que gerou a alienação, da falta de transparência que gerou a corrupção e da irresponsabilidade que produziu a ignorância; temos que dar um recado: [...] Não abriremos mão de construirmos o que já conquistamos e não nos acomodaremos ante o sonho de sermos os próprios obreiros e gestores do nosso mundo. (José Iran Barbosa Filho, professor da Rede Pública Estadual e Municipal de Aracaju e presidente do SINTESE) Dica de estudo A nossa dica de estudo é um belo texto chamado “Quando o diretor é a alma da equipe”, disponível em: <www.gestaoeducacional.net/web/htm/artigo6.doc>. Autoridade e poder do gestor escolar 161 Neste artigo, especialistas “revelam o caminho das pedras para o diretor deixar de ser chefe – e se tornar um líder capaz de inspirar os professores e mudar a escola.” São focalizados aspectos como a ênfase nas pessoas e a importância do seu “contágio” pelo projeto pedagógico, o significado da inovação e da mudança institucional e a necessidade imperiosa da comunicação e das ações cooperati- vas entre os atores institucionais da escola. Atividade O texto abaixo focaliza claramente a importância e o contorno da autoridade do gestor escolar. Observe: Um diretor capaz de exercer liderança educacional pode determinar a diferença entre uma escola estagnada e uma escola em movimento. O pro- blema é encontrar essa figurinha difícil. Não só no Brasil, mas no mundo in- teiro, são raros os diretores que atuam como professores de professores e agentes dinâmicos de mudança. A boa notícia é que liderança educacional não é um dom que ou você tem, graças a Deus, ou não tem e acabou-se. Ao contrário, é uma habilidade que pode ser desenvolvida e exercitada a cada dia. (GESTÃO Escolar. Quando o diretor é a alma da equipe. Disponível em: <www.gestaoeducacional.net/web/htm/artigo6.doc>.) O texto apresenta algumas características desse “diretor-líder”, aquele que tem plena consciência do seu poder e exerce a autoridade de forma esclare- cida e democrática. Elabore uma listagem apresentando algumas caracte- rísticas que o diretor-líder deve possuir. Se preferir crie uma situação (ima- ginária ou real, da sua experiência) em que o diretor-líder aplica a Gestão Escolar Integrada. 162 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Autoridade e poder do gestor escolar 163 Márcia Souto Maior Mourão Sá O tema desta aula contempla uma das grandes preocupações do gestor escolar: a complexidade dos processos grupais, ou seja, os consen- sos e conflitos na escola. Vamos conceituar e diferenciar consenso e con- flito, conhecer algumas abordagens teóricas que conflitam esses termos nos processos grupais e reconhecer a importância da gestão de conflitos e da negociação para a Gestão Escolar. Começaremos esta aula com uma poesia extraída do livro de Moacir Carneiro (2002), intitulada “O outro eu da escola”. Gestão Escolar: consenso e conflito Quando entro, A escola, pronta As aulas, prontas As atividades, prontas Os programas, prontos A avaliação, pronta Percebo, então Que um outro está ali Não eu! Ao ingressar nessa escola Ao entrar nessa sala Ao aterrissar nesse currículo Descubro-me apenas isto: Um estranho, um hóspede Em qualquer hotel. Nessa escola, a matrícula Não é a minha radiografia É a ficha de hóspede Do hotel em que ingressei Como se fosse uma escola. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 166 Por isso, quem está ali Não sou eu Não sou eu inteiro, integral. Quem está ali É o outro, o que entrou Nas estatísticas da escola Mas não em suas aulas. A escola não me recebeu Deixou entrar um outro Estranho, desconhecido Parecido comigo Mas bem distante de mim. Eu o entrevejo Nos registros da escola Nas atividades da escola Mas não o vejo em meus registros Nem o encontro em minha vida. Que bom seria se a escola Não me impusesse uma segunda natureza Me assistisse para eu mesmo me recriar. Que bom seria se a escola Deixasse o outro lado E me abraçasse, eu mesmo Em minha identidade inelidível. Muitos dos conflitos que acontecem na escola originam-se da imposição de novas identidades para os protagonistas da cena educativa, sejam eles profes- sores, alunos, supervisores etc. Não importa a função ou o papel que cada um exerce dentro da escola, o que precisamos atentar é para a questão do reconhe- cimento e respeito às diferenças entre as pessoas. Acontece que atualmente, de maneira análoga ao movimento ocorrido nas décadas de 1960 e 1970 na Europa, um movimento que visava a encontrar o método pedagógico que provocaria a aprendizagem desejada – assistimos a uma busca por eficiência na instituição escolar, uma eficiência que vem engolin- do as singularidades e promovendo o agravamento das crises institucionais. Gestão Escolar: consenso e conflito 167 Parece necessário superar a tendência empresarial que reduz os fatores or- ganizativos da instituição a mecanismos mágicos de eficiência dos resultados, porque, em primeiro lugar, como nos aponta Pérez Gomes (2001, p. 155): [...] quanto mais interessantes e ricos do ponto de vista educativo mais imprevisíveis são, e, em segundo lugar, porque sua influência real está condicionada pela peculiar cultura institucional que se forma num espaço e tempo concretos de interação, que, em certa medida, é sempre específica de cada contexto escolar e, portanto, não transferível automaticamente para outros cenários. Tais fatores organizativos devem ser considerados, mas como hipótese de tra- balho que ajudam os professores em seu processo cooperativo de deliberação, avaliação e tomada de decisões para cada contexto e cada situação particular. Portanto, quando nos propomos a favorecer o enriquecimento da instituição escolar, a ênfase não pode se situar exclusivamente na presença desses fatores, mas na facilitação do processo aberto de deliberação reflexiva entre docentes e no acesso que consideraremos necessário em cada caso. Os fenômenos educativos pautam-se na qualidade dos processos de inte- ração entre indivíduos, ideias, experiências e artefatos num contexto social eculturalmente facilitador e estimulante. Por isso, sua natureza comporta, entre outras características, uma dimensão aberta e criadora, significativa e relevante. Resultados pontuais, como é o caso do denominado rendimento acadêmico, precisam ser considerados como elementos parciais e provisórios desse mesmo complexo e longo processo, e é por meio da interpretação desse processo que podemos dimensionar o seu valor e a sua significação. Assim, sem identificar e compreender as características, a natureza e a qualidade dos processos de ensino e de aprendizagem, não poderemos, de forma alguma, interpretar ade- quadamente o valor do produto pontual. Em síntese, na prática educativa a decisão e a ação pedagógica supõem e emergem de um exercício de prudente escolha entre alternativas morais (ELLIOT, 1996; CARR, 1990; HAMILTON, 1994). Em outras palavras, na prática educativa a opção ética é inevitável. Como consequência, nos defrontamos sempre com a necessidade de escolher entre várias alternativas em um cenário moralmente complexo e carregado de dilemas e conflitos. A decisão pedagógica supõe “um processo em que a reflexão sobre a ação correta (os meios) é inseparável da re- flexão sobre suas finalidades morais” (ELLIOT, 1996, p. 218). A qualidade da prá- tica educativa depende, então, basicamente da qualidade do julgamento e da deliberação reflexiva dos docentes nas aulas quando tomam decisões, intervêm e avaliam. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 168 Por último, precisamos comparar a eficácia das escolas com as finalidades e funções que a sociedade, em geral, e o projeto pedagógico, em particular, atri- buem a essas instituições. Assim, constamos, de imediato, a grave contradição que está sendo produzida entre as finalidades políticas que se atribuem à escola nas sociedades democráticas (equidade, igualdade, solidariedade e desenvolvi- mento humano) e as exigências do mercado de trabalho (excelência, formação vocacional, competitividade individual). Em vez de ficarmos só teorizando sobre o tema, vamos entrar no cenário de uma escola real e lermos sua história, pois nada é comparável a um estudo de caso para nos fornecer as dimensões reais da teoria. Em meados de 1988, Ghani foi convidado a assumir, com urgência, o cargo de diretor da escola técnica de sua cidade. A escola havia vivido sua época de glória e excelência e, com o passar do tempo, transformou-se em descaso total. Professores desmotivados, baixo desempenho acadêmico dos alunos, proble- mas de disciplina etc., faziam parte do seu quadro de colapso, que tendia a se agravar com a publicidade da mídia. Foi exatamente no auge da publicidade ne- gativa sobre a escola que Ghani foi convidado a assumir a direção. O que fazer? Convocou uma primeira reunião com os funcionários e se deparou com uma as- sembleia fria, silenciosa e hostil. Soube que o diretor anterior havia dirigido au- toritariamente a escola, decidia tudo sozinho e não consultava ninguém. Cada sala de aula refletia as mãos de ferro da direção: alunos enfadados e intimidados por seus professores. “A criatividade e o prazer em aprender estavam completa- mente ausentes da sala de aula. Em outras palavras, o clima na escola não era adequado nem para o ensino, nem para a aprendizagem”. (LÜCK, 2002, p. 33) Ghani foi tomando pé da situação e percebendo que o primeiro passo era conquistar a confiança dos professores. Para tanto, precisava construir no- vamente o compromisso da comunidade escolar com a aprendizagem. Era imperativo conhecer e entender a escola. Marcou mais encontros com profes- sores, funcionários e alunos para escutar, como se fosse um jogo amigável, as suas reclamações. Nas reuniões com professores, solicitava a revisão e o exame do plano da escola. Em todos os momentos mostrava-se disponível para todos. Demonstrava a sua preocupação, entrando frequentemente nas salas de aula. Além disso, co- meçou a agendar reuniões sobre disciplinas específicas, nas quais os professores tinham a oportunidade de discutir o currículo escolar, diagnosticar problemas comuns ao ensino e compartilhar as soluções encontradas. De forma sistemáti- Gestão Escolar: consenso e conflito 169 ca, Ghani solicitava a opinião dos professores sobre as atividades pedagógicas realizadas em outras escolas e, a partir de suas sugestões, agia. Pouco a pouco o espírito da escola foi revivendo. A autoconfiança dos profes- sores foi aumentando, assim como o desempenho dos alunos. No final do ano seguinte a escola conquistou, em um importante exame externo, um índice de 100% de aprovação e, por isso, recebeu uma doação significativa do governo, destinada ao seu desenvolvimento. Ao nos situarmos no terceiro milênio e vivendo a “terceira onda”1 em admi- nistração, os dirigentes de escolas no mundo vêm descobrindo que os mode- los convencionais de liderança estão obsoletos. As escolas do mundo de hoje necessitam de líderes capazes de facilitar a resolução de problemas em grupo, capazes de trabalhar junto com os professores e colegas, ajudando-os a identi- ficar suas necessidades de capacitação e a adquirir as competências e habilida- des necessárias ao aprimoramento do ensino e da aprendizagem, e ainda mais, “serem capazes de ouvir o que os outros têm a dizer, delegar autoridade e dividir o poder”. (LÜCK, 2002, p. 34) Os líderes são os responsáveis pela sobrevivência e pelo sucesso de suas or- ganizações. Chamamos de liderança a dedicação, a visão, os valores e a integri- dade que inspira os outros a trabalharem conjuntamente para atingirem metas coletivas. A liderança eficaz é identificada como a capacidade de influenciar po- sitivamente os grupos e de inspirá-los a se unirem em ações comuns coordena- das. Os líderes reduzem as nossas incertezas e nos ajudam a cooperar e trabalhar em conjunto para tomarmos decisões acertadas. (CHIAVENATO, 1994) Vamos, agora, analisar o estudo de caso relatado por meio da Psicologia Social criada por Pichon-Rivière. Comecemos por dois conceitos que tratam da questão da filiação e da pertença dos indivíduos aos grupos. Para Pichon-Rivière, os grupos, as organizações e as distintas formas da sociedade humana originam-se de uma necessidade universal que leva os homens a se associarem. A importância para os seres humanos de se autossustentarem por seus próprios meios, durante um longo tempo de sua existência, condiciona essa pauta que marcará todas as suas atitudes de criança e de adulto. O modelo de relação positiva com o mundo é fornecido pelo primeiro vínculo, estabelecido com a mãe, já que é por meio dela que as necessidades vitais são satisfeitas. 1 Nos referimos às ideias de Alvin Toffler, expressas na obra A Terceira Onda (The Third Wave), escrita em 1980. Segundo ele, a primeira onda é a da Revolução Agrícola. A segunda onda refere-se às modificações ocorridas na sociedade com base na Revolução Industrial. A terceira onda é baseada no industrialismo e no incremento da tecnologia, que construirá uma nova civilização. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 170 Toda e qualquer trajetória posterior do homem se pautará na busca de outros vínculos positivos que reiterem esse modelo inicial. O processo de socialização só começa quando a aliança com a mãe se parte, o que permite a busca de outros seres semelhantes, que lhe permitirão, ao integrá-lo ao seu grupo, recuperar a se- gurança. O impulso para a filiação tem, como pano de fundo, dois medos básicos que motivam a conduta humana: o temor da perda e do ataque, que só podem ser resolvidos em sociedade com outros semelhantes. Assim, “surge o comporta- mento social, essa inter-relação de encontros, reencontros e desencontros, essa infinita trama de relações interpessoais na qual todos nós estamos comprome- tidos” (PICHON-RIVIÈRE, 1988b, p. 79). Dessa forma começa a se esclarecer essa necessidadede “estar em companhia“, esse sentimento que já experimentamos tantas vezes em nossas vidas. Nessa complexa rede de filiações a grupos, que nós realizamos, é possível dis- tinguir algumas que têm por meta um objeto determinado – uma associação “di- recional” – como é o caso, por exemplo, da filiação a um sindicato para conseguir trabalho, entrar como sócio de um clube, porque isso confere prestígio, brilho social e permite fazer bons contatos. Os grupos proporcionam a seus membros prestígio e segurança, o que permite ao sujeito adquirir um sentimento de autoestima, que é retransmitido como “boa imagem” para aqueles que entram em contato com ele. Em consequência desse tipo de filiação direcional, aparecem nele novas pautas de conduta, como o afã do poder, a avidez de conhecimentos, os impulsos solidários dirigidos ao próximo. (PICHON-RIVIÈRE, 1988a, p. 80) A articulação de uma pessoa a um grupo acontece por meio de um meca- nismo complexo que se sustenta fundamentalmente na comunicação. Todo um verdadeiro sistema de sinais, um código, do qual a linguagem verbal seria apenas um dos elementos, vai permitir ao sujeito expressar seu desejo de se incorporar a uma determinada sociedade, ser avaliado pelos demais membros e receber o veredito de aceitação ou rejeição. Em cada ato de filiação social repete-se, de forma tácita, o complicado ritual de iniciação, próprio das sociedades secretas. Contudo, a filiação é apenas o primeiro passo para a integração em um grupo. Logo, o impulso inicial é substituído pelo sentimento de pertença que surge da adoção de atitudes e normas que regem a vida dessa comunidade: “como um bilhete de ingresso, garante a incorporação definitiva” (PICHON-RIVIÈRE, 1988b, p. 80). Cada entrada em um novo grupo, seja este uma família, uma empresa, uma escola ou um clube, sempre tem o sentido de uma mudança, uma modifica- ção de comportamento e, por isso, constitui-se como uma experiência, das mais ricas, que o homem pode viver. Gestão Escolar: consenso e conflito 171 A pertença não se apresenta com características idênticas em todos os mem- bros de um grupo. Existem diferenças quanto à intensidade, dependendo do grau de aceitação real, por parte do novo filiado, das normas do grupo. A inter-relação entre grupo e sujeito está configurada em três pautas: o status do indivíduo dentro da sociedade em que se integra; a valorização que faz de sua pertença e o grau de autenticidade na filiação, percebido pelos demais integrantes do grupo. A força desse sentimento de pertença mantém uma relação direta com o montante de dificuldades que teve que tecer para conseguir sua incorporação. O grupo não satisfaz somente a necessidade de pertença da maioria de seus membros, colocando-os a salvo da insegurança, mas desperta, em alguns deles, um impulso orientado para a liderança (grifo nosso). O fato de pertencer a um grupo determina uma mudança de desejos e aspirações, proporciona novas experiências. A sobrevivência do grupo converte-se no objetivo primordial de seus membros, e esta necessidade é depositada nos chefes ou cabeças do núcleo. (PICHON-RIVIÈRE, 1988b, p. 81) Por vivermos em uma cultura complexa, cada um de nós pertence a vários grupos diferentes, nos quais aprendemos comportamentos adequados aos papéis que desempenhamos. No decorrer de um dia, uma mulher pode ter o papel de esposa, mãe, filha, amiga, professora e membro de uma academia de ginástica. Apesar da multiplicidade de papéis ou de funções, são raros os casos de conflitos entre os diversos papéis assumidos. Isso é devido ao caráter sucessivo e não simultâneo dos membros, já que o sujeito dispõe de chaves situacionais que lhe ajudam a diferenciar um do outro. “Quando as funções são simultâneas e incompatíveis, aparecem o conflito e a neurose”. (PICHON-RIVIÈRE, 1988b, p. 81) Pichon contribuiu com uma proposta de Psicologia Social que nos permite compreender o processo de elaboração do conhecimento no intercâmbio dia- lético entre o sujeito e seus contextos. A dialética pichoniana é uma estratégia destinada não só a transmitir conhecimento, mas a desenvolver e modificar ati- tudes. A Psicologia Social investiga o sujeito e seu comportamento, a interação entre o intrassubjetivo e o intersubjetivo; torna-se significativa, operativa, ao orientar-se para uma prática. O grupo operativo é um instrumento de intervenção nesta prática. É uma técnica para ajudar os membros do grupo a enfrentar os conflitos e a resistência à mudança. A prática é uma experiência crítica que se assemelha a uma espiral contínua, que permite realizar a mudança e que consiste no desenvolvimento pleno da existência humana, através da modificação mútua dos homens entre si e com a natureza. (GAYOTTO, 1991, p. 13) O ponto de partida para a libertação do homem e a transformação da re- alidade (dialética constante entre os homens) é a elaboração de um conheci- mento crítico que origina-se, segundo Pichon, no conhecimento de si mesmo, mais pontualmente de como é sua configuração psíquica, como se comunica e aprende, como interpreta a realidade e intervém nela. Tanto os grupos operati- vos como os círculos de cultura (FREIRE, 1977) mostram-se como instrumentos Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 172 eficazes para os desafios da transformação. Portanto, a técnica do Grupo Opera- tivo é mais uma valiosa ferramenta de trabalho social para ser utilizada na Gestão Escolar, pois consiste na busca e criação de condições para que as mudanças ocorram no interior das pessoas, nas relações e nos grupos onde essas pessoas estão engajadas. O Grupo Operativo centra sua dinâmica no fazer dos sujeitos, nas tarefas que os indivíduos realizam para atingir os objetivos comuns a que se propõem e que cons- tituem o projeto (político-pedagógico) pelo qual estão interligados. Ao centrar-se na tarefa do grupo, tal qual fez o diretor do estudo do caso apresentado anterior- mente, o Grupo Operativo leva as pessoas a pensarem a ação que desenvolvem juntas e, com isso, a compreenderem os obstáculos que emergem à luz do que cada um é e de como as pessoas se comprometem com a ação coletiva – como elas se relacionam no grupo para satisfazer as necessidades das pessoas, como as necessidades das pessoas se articulam e se constituem em necessidades coletivas. Ao conviverem no grupo, os sujeitos vão internalizando formas de pensar e de sentir dos companheiros de trabalho, e também como essas dimensões estão articuladas à sua própria maneira de ser. As relações do grupo vão sendo inter- nalizadas e vão permitindo que as pessoas repensem várias questões: Como agem em grupo e como os outros vão descobrindo novas formas � de ação. Como sentem e o quanto isso facilita ou não o relacionamento com os � membros do grupo em relação às tarefas. Como as tarefas vão sendo ou não realizadas, e como envolvem ou não o desenvolvimento da ação coletiva. Como e quando expressam os seus pensamentos e ouvem os pensamen- � tos dos outros. As pessoas vão descobrindo novas formas de ver o mundo, assim, abrem-se novas perspectivas das coisas, das pessoas e da realidade, o que propicia aos sujeitos repensarem sua maneira de ser, suas concep- ções e a maneira como administram suas vidas. As pessoas que desenvolvem trabalhos coletivos procuram, com seus cole- gas, entender a realidade e suas ações no real. Essa compreensão é imprescindí- vel para que possam perceber com mais clareza e profundidade os problemas e descobrirem como intervir para facilitar o processo de transformação social – o que foi feito pelo novo diretor ao assumir a escola técnica. A transformação social dos grupos envolve mudanças ligadas ao objetivo a ser atingido, no caso que vimos, era necessário retomar a vida da escola. E isto Gestão Escolar: consenso e conflito 173 implica alterar a estrutura e a dinâmica de algunsgrupos, a postura ideológica (maneira de pensar e sentir) das pessoas que se unem e se comprometem em um trabalho coletivo, assim como com a superação das dificuldades que são inerentes à ação que está sendo desenvolvida. Envolve, também, um novo tipo de relacionamento entre as pessoas e com o trabalho coletivo. Sem a atuação de um líder de mudança a transformação social corre o risco de perder o rumo, objetivos e metas, e tudo voltar à estaca zero. É o líder de mudança que se tor- nará, em certos momentos, o porta-voz da tarefa do grupo. Quando isso ocorre e o grupo consegue trabalhar a tarefa proposta, temos o seguinte significado: as dificuldades2 foram superadas. Quando as dificuldades se cristalizam, – foi esse o cenário escolar de deso- lação que Ghani encontrou na escola técnica – impedem que outras formas de agir e pensar sejam construídas pelos grupos. Forma-se um círculo vicioso que somente o líder de mudança consegue romper. No entanto, os elementos para romper o círculo vicioso já preexistiam no grupo, o líder de mudança foi capaz de percebê-los. Na medida em que o grupo, que é operativo, passa a oferecer espaço para que todos os seus membros aprendam a pensar diferente e a agir de maneira mais consciente, são criadas as condições para um envolvimento mais criativo das pessoas. Isso provoca a construção de novas competências, tomada de decisões e um novo leque de opções se abre para as pessoas. Os papéis que os participantes do grupo começam a desempenhar têm ligações com a tarefa coletiva do grupo e lhes permite descobrir seus modos de ação nessa tarefa. O líder de mudança não pode ignorar que trabalho de transformação sempre se depara com situações difíceis de serem superadas e que, frequentemente, geram grandes contradições3. No início da tarefa coletiva é muito difícil esta- belecer um relacionamento que permita aos sujeitos internalizarem modelos diferentes de sentir e pensar, de agir e de desejar. Os sujeitos, por não possu- írem ainda a clareza necessária para agir diante da nova situação, geralmente se perdem. Assim, um tempo de confusão se instala e é bastante comum que surjam mal-entendidos, acusações, exigências individuais e defesas de identida- de. Quando o clima dos relacionamentos piora é também comum o afastamento ou a expulsão de pessoas que melhor representam a perspectiva de transforma- ção e, como esta é muito ameaçadora à situação conhecida e segura (embora 2 As dificuldades se constituem como verdadeiras barreiras para o relacionamento do grupo e para a realização das tarefas, ou seja barreiras para a tranformação. 3 Dentre o conjunto de contradições, a mais corriqueira é contar que, de um lado, a comunidade escolar deve compreender quais são as necessidades comuns do grupo, e como elas devem ser trabalhadas de forma a levar o grupo a efetuar as mudanças necessárias para atingi-las; de outro lado, a força de uma educação pautada em modelos autoritários e inibidores de uma participação efetiva e criativa engessa o processo de tomada de decisões. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 174 contenha aspectos negativos), os sujeitos encontram motivos para expulsar os membros que desejam a mudança, que passam a ser considerados perigosos. O líder de mudança não está imune a esse risco. Essas situações relatadas podem comprometer, e muito, o trabalho do líder de mudança, pois a força de resistência de alguns participantes pode encaminhar o grupo para a paralisação. Dessa forma, o que é feito hoje, amanhã é desfeito; qualquer sinal de dificuldade é motivo suficiente para paralisações maiores. Pela falta, nas pessoas do grupo, de um modelo internalizado de um líder não autoritário, um líder democrático como Ghani, ficam esperando um tipo “chefão” que lhes dê ordens, o que é garantia de que não haverá confusão, ou seja, fogem da saudável discussão que encaminha os conflitos de opiniões a um consenso de ideias similares. Em termos psicológicos, a confusão gera dois sentimentos opostos: querer e não querer ser comandado. Não querem o comando, porque já começaram a perceber que são capazes de trabalhar e de se envolver na ação coletiva, mas querem o comando para se livrarem da ansiedade gerada pela au- tonomia que ainda está em processo de construção interna e, portanto, ainda não se sentem suficientemente instrumentados para ela. Começa a fazer sentido para os sujeitos a maneira nova de conhecer a re- alidade, de pensar e sentir de forma integrada e criativa, de um agir crítico. Contudo todas essas novas dimensões ainda exigem um enorme esforço de realização. Nessa situação, a ação coletiva tem tudo para se constituir (e insti- tuir, também) como algo que ajudará os sujeitos a superarem suas dificulda- des pessoais. E é em nome da superação das dificuldades que as pessoas se arriscarão a experimentar algo novo em seus cotidianos. Ou seja, a superação representa o princípio e o fim de uma participação consciente e a motivação do processo árduo e difícil que precisa ser vivido para que os objetivos coleti- vos sejam atingidos. A ação coletiva está umbilicalmente ligada à transformação em amplo sentido, pois tudo muda: as tarefas do grupo, as pessoas e os objetivos. A própria ação co- letiva é um processo em transformação em que cada ponto de chegada já contém a semente de um novo ponto de partida, ou como nos mostra Guimarães Rosa: “Digo: o real não está nem na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” (ROSA, 1986, p. 26) Gestão Escolar: consenso e conflito 175 Gestão de conflitos e gestão de stress (HENRIQUES; SANTOS, 2009) Desde pequenos que somos confrontados com situações quer de confli- to, quer de stress. Inicialmente essas situações são pouco significantes mas, assim como as pessoas crescem, também crescem os seus problemas. Com certeza pela sua vida afora você vai ter muitas situações onde vai necessitar de alguma forma saber reagir a um desses problemas. Por que não começar a aprendê-lo já antes que seja tarde demais? Gestão de conflitos O que é o conflito? Basicamente todos sabemos o que é um conflito. A dificuldade surge quando temos de defini-lo. Efetuando como que uma tradução ao pé da letra da definição encontra- da no livro Management, podemos definir o conflito como sendo “A oposição que surge quando existe um desacordo dentro ou entre indivíduos, equipes, departamentos ou organizações”. E, independentemente dos tipos de divergências de onde pode resultar, podemos dividir o conflito em três tipos: conflitos de objetivos; � conflitos cognitivos; � conflitos afetivos. � Tipos de atuação face aos conflitos Independentemente do tipo de conflito que se esteja a enfrentar, existem três formas de atuar perante um conflito: Negativas: O indivíduo tenta evitar a todo o custo qualquer tipo de conflito. � Texto complementar Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 176 O indivíduo tenta utilizar o conflito de uma forma que leva a uma com- � petição intensiva. Positivas: O indivíduo tenta manter sempre um conflito. � O indivíduo quer que esse conflito seja um conflito construtivo. � O indivíduo graças a esse conflito vai tentar descobrir as diferenças de � opinião entres os diversos participantes. Equilibradas: Distingue-se da atitude denominada positiva, pelo fato de se tentar � encontrar um ponto de equilíbrio entre os dois tipos anteriores quan- do se verifica que qualquer conflito pode ter resultados negativos quer para a empresa/organização ou para as próprias pessoas envolvidas. Esta medida permite reduzir a ambiguidade e o conflito no trabalho. � Conflito e ambiguidade do trabalho Definição de trabalho Trabalho é o conjunto de tarefas e atividades que um indivíduo é suposto desempenhar. O conflito no trabalho ocorre quandouma pessoa está sujeita a pressões ou expectativas muito elevadas e/ou inconsistentes. A ambiguidade do trabalho ocorre quando: Não existe informação adequada; � A informação que chega ao indivíduo não é propriamente a que � essa pessoa necessitava para desempenhar a sua tarefa o que, ob- viamente, conduz a uma ambiguidade do trabalho a desempenhar. A informação é confusa ou incompleta; � A informação transmitida ao indivíduo não revela os pormenores � mais importantes para que a tarefa seja realizada sem existirem Gestão Escolar: consenso e conflito 177 dúvidas de que de fato o trabalho que estamos a desempenhar é aquele que nos foi mencionado. Não se sabe as suas consequências; � Quando não se conseguem saber os resultados quer para a própria � pessoa, quer para a empresa, de se realizar certa tarefa, a ambigui- dade aparece novamente. Quando surge um conflito no trabalho, possivelmente, ele enquadra-se em uma das seguintes categorias: Conflitos intrapessoais. � Quando o conflito que temos diz respeito a apenas uma pessoa (o nos- so chefe, um colega ou outro membro da nossa organização). Conflitos interpessoais. � Quando o conflito existe para com várias pessoas dentro da organização. Como exemplo apresenta-se a seguinte situação: o diretor de vendas comunica ao indivíduo que pretende que se tenha pronta mais quan- tidade do produto, mas o diretor de marketing necessita que o produ- to seja muito mais testado de forma a não ter falhas. Conflitos com outros trabalhos. � Quando existem outros trabalhos/tarefas dentro ou fora da organiza- ção, que não possibilitam que o trabalho seja efetuado devidamente. Conflitos entre necessidades e valores. � Quando o que necessitamos para cumprir o objetivo do nosso tra- balho entra em conflito com a nossa personalidade e os valores que prezamos, estamos sem dúvida face a um conflito entre necessidades e valores. Como exemplo suponha que com um objetivo de aumentar a produção vamos lançar no mercado uma quantidade elevada de produtos em estado deficiente. Essa situação pode levar à existência de um conflito desse tipo. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 178 Estilos de gestão e de conflitos Quando se trata de resolver um conflito, existem diversas maneiras de abordá-lo. Analisando essas abordagens podemos dizer que, na sua essência existem cinco estilos de gestão de conflitos: Estilo “evitar” Consiste em tentar evitar a existência de conflitos. Chega-se a dar-se razão à outra parte, mesmo que esta não a tenha, só para que esse conflito não apareça. Esse estilo, apesar de parecer pouco interessante revela-se positivo quando: os assuntos são pouco significantes; � existe falta de informação, pelo que não convém tomar certas atitudes � que podem revelar-se erradas; a falta de poder que temos não possibilita que a nossa posição seja � levada em consideração; existe outro indivíduo que consegue resolver melhor esse problema. � Estilo “calmo” Permite a existência de conflitos mas sem haver grandes discussões sobre o assunto. Quando o conflito torna-se um pouco mais elevado, facilmente desiste da sua posição. São condições para que esse estilo seja utilizado com sucesso: existir uma carga emocional elevada entre as partes envolvidas; � manter a harmonia, fundamentalmente; � o conflito existente basear-se na personalidade de cada um e não nos � objetivos ou meios utilizados. Estilo “ditador” Como o próprio nome indica, o funcionamento desse estilo é à base da ditadura. Gestão Escolar: consenso e conflito 179 Independentemente da opinião dos outros envolvidos, o “ditador” tem de “vencer” sempre. Parecendo um estilo totalmente a reprovar, existem algumas situações em que a sua utilização se revela benéfica: A emergência da situação em que nos encontramos implica uma ação � imediata. É necessário tomar medidas pouco populares que vão contra a posição � dos outros elementos. As consequências de uma “derrota” são muito elevadas especialmente � para nós. Estilo “compromisso” Difere do estilo “ditador” pelo fato de permitir que exista um compromisso entre o que pretendemos e o que os outros pretendem. Exemplos de situações onde esse tipo de ação torna-se eficaz são: A existência de um acordo é preferível a este não existir. � Não será possível levar adiante a nossa posição, pois sabemos que não � nos é possível ganhar. Os pontos de vista existentes são muito diferentes. � Estilo “colaborativo” O estilo colaborativo consiste, como o próprio nome indica, em colaborar. Basicamente, tentamos chegar a um acordo comum entre todos, que mi- nimize as perdas para todas as partes envolvidas. Esse tipo de atitude é muito útil quando: o objetivo é o mesmo, apenas existe uma divergência na forma como � obtê-lo; existe necessidade de se obter um consenso; � a solução a que devemos chegar necessita de ter muita qualidade. � Mas, apesar de parecer muito nobre, existem algumas situações que não se devem resolver com base nesse método. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 180 O tempo que dispomos é muito curto não permitindo amplos debates. � Existe a possibilidade de aparecerem aspectos negativos de elementos � do grupo. A tomada de uma ação desse tipo seria mal vista caso se tratasse de � uma empresa cuja gestão se baseia em métodos antiquados. Negociação e gestão de conflitos Definição Negociar é o processo necessário que os indivíduos com objetivos comuns, ou divergentes, usam para apresentar e discutir propostas para atingir um acordo. Características Implica envolvimento de duas ou mais entidades . � Não são apenas os gestores que têm que negociar, são todas as pesso- as. Os filhos com os pais, a mulher com o marido etc. Divergências em pelo menos um aspecto. � Se não houvesse diferenças entre as entidades envolvidas, não haveria necessidade de negociar. Essas diferenças costumam surgir quando há diferentes objetivos ou diferentes formas de atingi-los. Partilha de aspectos comuns. � É extremamente necessário que as entidades envolvidas tenham al- guns interesses em comum, que partilhem alguns objetivos. Porque se não for assim, dificilmente chegarão a um acordo, ou quando con- seguirem chegar a algum acordo, já não haverá resultados positivos a tirar desse acordo. Por exemplo, entre 1994 e 1995 houve uma greve de jogadores de ba- sebol nos EUA, que durou meses, simplesmente porque nenhuma das partes se preocupou com os interesses mútuos, mas sim, apenas com os seus próprios interesses. É um processo sequencial. � As partes envolvidas apresentam à outra parte propostas e contrapropos- tas, no sentido de chegarem a um acordo. Durante todo o processo de Gestão Escolar: consenso e conflito 181 negociação haverá troca de informação, e deverá haver flexibilidade, con- fiança e responsabilidade, para que se chegue a um verdadeiro acordo. Implica uma solução partilhada. � A solução que resulta de negociação pode envolver a partilha de recur- sos relativos às duas partes, como é o caso de um acordo laboral, onde há por um lado o recurso horas de trabalho e a produtividade que inte- ressa à organização, e do outro estão os pagamentos e benefícios para os trabalhadores. Diagnosticar a situação: seis questões a ter em conta Antes de tudo, devem ser diagnosticadas as questões que criaram a necessi- dade de negociação. Isso é muito importante porque a falha no diagnóstico da situação pode causar hostilidade durante o processo e consequente fracasso. Para diagnosticar a situação devem ser respondidas algumas questões, tendo em conta as causas, mais do que as personalidades envolvidas. No mínimo, de- verão ser encontradas respostas para asseis questões seguintes: O que se quer? É isso mesmo? � O que se acha que a outra entidade quer ou precisa? Com certeza? � Há divergências relativamente a fatos, objetivos, métodos ou funções? � O que se perde se o conflito reinar? � Que objetivos são partilhados por ambas as partes? � Se decidir-se a colaborar durante a negociação, quais os primeiros pas- � sos a dar? Negociação e estilos de conflitos A relação existente entre negociar e os estilos de conflito é bastante in- teressante e não deve ser desprezada, pois há estilos que ajudam ou pioram a negociação. Se não, vejamos o caso tradicional, onde cada parte envolvi- da fazia sempre uso do estilo “ditador”, cedendo apenas em última instância, com algum compromisso. É, portanto, evidente que o estilo colaborativo é o que produz melho- res resultados na maioria das negociações. A seguinte frase de Leornard Greenhalgh (professor de negociação no Dartmounth’s Tuck School of Busi- Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 182 ness Administration) ilustra bem o contrário da filosofia tradicionalista: “Os gestores precisam fazer negócios, baseados nas relações com os outros.” Ou seja, não é estranho o uso dos vários estilos de gestão de conflitos du- rante as negociações. Principalmente se os estilos colaborativo e compromis- so dominarem o processo, e nesse caso normalmente chega-se a soluções positivas para ambas as partes. É ainda aconselhável o uso do estilo calmo, para ceder em alguma situação que seja muito importante para a outra parte, e pouco penosa para nós. Em contrapartida ao estilo “ditador”, pode ser usado o estilo compromisso quando nenhuma das partes consegue fazer valer a sua solução. Nesse caso pode ainda recorrer-se ao estilo “evitar”, deixando para futuras negociações os pontos de discórdia. Usando novamente o exemplo da greve dos jogadores de basebol, a ne- gociação durou meses, porque as duas partes (jogadores e clubes) usavam o estilo “ditador”, querendo apenas impor a sua própria solução, causando hostilidade. Mecanismos para resolver impasses Durante as negociações poderão ser usados cinco mecanismos para ajudar a evitar, reduzir ou resolver impasses no processo. Esses mecanismos são apenas uma ajuda à resolução, mas não substituem a negociação. Arbitragem voluntária: as entidades envolvidas aceitarem que certos � pontos de discórdia sejam resolvidos por uma entidade neutra (indivi- dual ou coletiva). Mediador: um elemento neutro que ouça ambas as entidades, de modo � a aconselhá-las com novas alternativas, no sentido de chegarem a um entendimento e colaboração. Provedor: alguém que ajuda os empregados a apresentarem as suas � preocupações e que lhes fornece informações de como prosseguir a negociação. Facilitador: é uma entidade neutra que dá formação e consultoria a � cada entidade envolvida, de forma independente e isenta, com o ob- jetivo de ajudar a definir os problemas e a criar alternativas. É normal- mente usado antes da negociação. Gestão Escolar: consenso e conflito 183 Tribunal: quando uma ou ambas as entidades apresentam um proces- � so em tribunal, indicando o que a outra entidade fez de errado e o que quer como recompensa. Esse mecanismo é desvantajoso, pois cria uma situação de vitória-derrota, provoca uma decisão imposta pelo tribunal, para além dos custos tempo e dinheiro envolvidos. Dilemas éticos Estão presentes em qualquer conflito ou negociação e a sua resolução está claramente dependente do estado de espírito das partes envolvidas no conflito. Um dos dilemas mais comuns é a partilha de informação, por parte duma entidade. Partilhar informação até que nível? Ou seja, se não são revelados todos os fatos envolventes, não é ético, mas se são revelados, pode prejudicar a solução que mais interessa a essa parte. É de fato um compromisso. Dica de estudo Leia o texto “Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos mo- delos de mediação”, de Alvaro Chrispino, disponível em: <www.scielo.br/pdf/ ensaio/v15n54/a02v1554.pdf>. O artigo apresenta os resultados de uma pes- quisa, destacando claramente a importância que o jovem atribui à educação, à escola e ao professor. Ao mesmo tempo apresenta a preocupação com a vio- lência. Sendo assim, discute os conceitos de conflito e de conflito escolar, apre- senta inúmeras maneiras de classificar os conflitos e os conflitos escolares, a fim de contribuir com o entendimento do problema, indica a mediação de conflito como alternativa potente e viável para a diminuição da violência escolar. Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada 184 Atividade A história de Ghani, narrada nesta aula, ilustra muito claramente como são complexos os processo grupais, e o quanto o gestor precisa estar apto a ma- nejar os conflitos que surgem no cotidiano da escola. Conte novamente a história, enriquecendo-a com a sua experiência, fazendo com que o narrador seja: a) o próprio Ghani: b) um professor da escola: Gestão Escolar: consenso e conflito 185 c) um funcionário: d) um dos alunos da escola em que Ghani era diretor: Elma Correa de Lima Vamos trabalhar com a temática gestão, considerada por Cury (2002) como um processo de aprendizado e de luta política com “um ou mais interlocutores, com os quais se dialoga pela arte de interrogar e pela paci- ência em buscar respostas que possam auxiliar à educação” (CURY, 2002, p. 165), na sua relação com a autonomia. Depois de conceituar autonomia no âmbito da escola, vamos identi- ficar o Projeto Político-Pedagógico e as políticas educacionais como ins- trumento da sua realização e enfatizar a ação do gestor no processo de construção da autonomia da instituição escolar. Autonomia, como entendê-la? � A autonomia está sempre associada à ideia de liberdade, que é um princípio constitucional. A autonomia e a liberdade fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. Além de associarmos a autono- mia à liberdade, podemos ligá-la à temática da democracia, da inde- pendência e da participação. E qual seria o papel da autonomia referente à escola/família? � O papel da autonomia, nessa perspectiva, seria o de aproximar es- cola e família, permitindo uma participação mais efetiva da comu- nidade e colocando na escola a responsabilidade de prestar contas do que faz ou deixa de fazer. Está intimamente ligada à identidade da escola: sua missão, seus princípios e valores, seus clientes e os resultados a que deseja chegar. É preciso deixar claro que conquis- tar a autonomia não acontece de um dia para o outro. As mudanças ocorrem gradativamente. E como seriam essas mudanças? � O primeiro passo seria de uma gestão mais democrática em todos os níveis: diretores eleitos, abertura à participação através dos con- selhos e colegiados, além de um fluxo de comunicação constante Gestão e autonomia da escola 188 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada entre as diferentes esferas dos setores. Em seguida, seria dotar as unidades escolares de boa infraestrutura, recursos pedagógicos e inovações tecno- lógicas. Nesse sentido, as escolas precisam estar adequadas ao quantita- tivo de alunos que recebem, tendo como referência mobiliário, espaço físico, profissionais etc. É preciso saber que autonomia e recursos financeiros também estão interliga- dos. Assim, aplicar os recursos com qualidade é um aprendizado que deve contar com a participação coletiva. Concluindo e sonhando, eu diria que a autonomia da escola está inserida numa luta maior, pela autonomia da própria sociedade. Em seguida apresentamos o novo modelo de autonomia das escolas, corres- pondente à passagem de uma condição tutelada para a de autorregulação. Modelo antigo Modelo novo Controle externo Autonomia O governo é o responsáveldireto pela ofer- ta de educação básica: controla orçamento, pessoal, merenda, materiais etc. O governo descentraliza para a diretoria das esco- las o controle direto da oferta de educação: orça- mento, pessoal, merenda, materiais etc. Fiscalização/controles burocráticos Avaliação O papel da escola é cumprir normas, pres- tar informações, executar procedimentos, e ações planejadas fora dela. O governo avalia resultados, por exemplo o de- sempenho pedagógico das escolas através do SAEB, taxas de evasão e retenção pelo Censo es- colar etc. Centralização Participação/gestão colegiada A escola é um elo de longa hierarquia de cargos e funções comandada pela autorida- de municipal, estadual e federal. A diretoria da escola é eleita e a gestão é colegia- da, com participação da equipe escolar, pais de alunos, alunos e a comunidade. Sistemas de informação para controle externo Sistemas de informação para a gestão Remessa de informações, processos, me- morandos etc., para o uso indeterminado de autoridades externas à escola. Produção de informações para serem usadas pela comunidade escolar para acompanhar resultados e processos de mudança, para identificar problemas, para apoiar a tomada de decisões, para atender alu- nos e suas famílias etc. E quais seriam os resultados desse modelo? Esse modelo sinaliza que: A educação é de interesse de toda a sociedade de um país. Ela é responsa- � bilidade do Estado e dos profissionais do ensino, mas também é dos pais em relação aos seus filhos. (C EA E/ U FR J – C ap ac ita çã o em P ro je to s Pe da gó gi co s. Ri o de Ja ne iro – A po io C A PE S/ Fu nd aç ão F O RD / FU JB – 1 99 9) Gestão e autonomia da escola 189 As escolas tuteladas não desenvolvem responsabilidades sobre os seus � resultados e nem capacidade para se administrar com agilidade e efi- ciência. A qualidade das escolas não constitui uma definição única para todas as � escolas. Há o aumento da responsabilidade de todos os integrantes da equipe, de � cada escola, pelos resultados alcançados. Há o desenvolvimento da capacidade administrativa, de forma que a escola � busque a sua identidade. Essa identidade deve refletir, sobretudo, o perfil de sua clientela e as funções sociais que cumpre junto à comunidade. Assim, a busca da autonomia exige que a unidade escolar seja dinâmica, e que o diálogo esteja permanentemente presente. Falamos, na primeira parte de nossa aula, sobre a gestão e autonomia da edu- cação. Falamos de gestão, de autonomia, do papel da autonomia referente à escola/família, de mudanças que ocorrem , e apresentamos um modelo de au- tonomia das escolas. Agora vamos conversar sobre o Projeto Político-Pedagógico, uma forma de organização do trabalho pedagógico da escola. O Projeto Político-Pedagógico: o exercício de responsabilidade coletiva, criatividade e autonomia da escola Com o desenvolvimento crescente das sociedades, a educação vem sendo repensada a cada movimento da história, tendo em vista a sua relação com os objetivos da sociedade vigente. Temas como a pluralismo político, a emergência do poder local e a diversidade cultural passam a ser dominantes, o que exige maior autonomia e novas formas de participação social. Como tudo isso se traduz na escola? � A escola em nosso país vem de uma tradição de saber enciclopédico e aca- dêmico, sendo que a educação propicia mais um símbolo de status do que um 190 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada mecanismo de redução de desigualdades sociais. Ela vem também acompanha- da de uma tradição autoritária e de centralização administrativa. Mesmo não tendo ainda concretizado a universalização do acesso, já está sendo instigada a implementar a autonomia e a gestão colegiada. Hoje questões como autonomia, cidadania e participação no espaço escolar tornaram-se temas marcantes no debate educacional brasileiro. Vamos colocar algumas perguntas significativas, que nos remetem ao tema, e que são feitas com frequência, quando discutimos esse assunto. Como essa preocupação vem se traduzindo na prática? � Ela vem se traduzindo pela reivindicação de um Projeto Político-Pedagógico próprio de cada escola. Qual o papel que exerce na escola o Projeto Político-Pedagógico? � Compreendemos que o Projeto Político-Pedagógico é um instrumento de significativo valor para a escola. Ele é compreendido como o plano global da instituição ou o projeto educativo, um instrumento teórico-metodológico, cuja finalidade é contribuir para a organização do conhecimento escolar. Sua cons- trução deve articular todos os partícipes da realidade escolar (corpo docente, discente, comunidade), de forma que estes pensem, com base na própria reali- dade, sobre a singularidade que a caracteriza, sua autonomia, os objetivos das ações desenvolvidas e a maneira de operacionalizá-las de forma mais política, crítica e criativa. Em relação a esse projeto, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96) no seu artigo 12, inciso I, propõe, como um dos objetivos dos estabele- cimentos de ensino, a elaboração e a execução de sua proposta pedagógica. Em relação aos docentes, encontramos no artigo 13, incisos II e V, outras referências normativas, que sugerem a sua participação na elaboração e no cumprimento dos planos de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento, o que inclui a sua participação integral nos períodos dedicados ao planejamento. Essa tarefa exigirá também, de todos os professores, o exercício do trabalho in- terdisciplinar, um maior envolvimento com a realidade do aluno e com a realida- de institucional, maior tempo para pensar os objetivos, o currículo, os métodos e a avaliação da escola. Enfim, maior envolvimento na discussão sobre os fins e os métodos educativos da instituição em que exercem suas atividades docentes. Gestão e autonomia da escola 191 Por que esse projeto se chama político-pedagógico? � Porque infere-se que todo projeto pedagógico é por excelência político. Isso porque não se deve construir um projeto sem um rumo político. Daí, todo proje- to pedagógico da escola é também político. Implementar e desenvolver o Projeto Político-Pedagógico exige a qualificação dos profissionais da escola, tanto em relação aos técnico-pedagógicos quanto aos técnico-administrativos. Nesse sentido qual é a importância da construção do Projeto Político- � -Pedagógico? Ele organiza o trabalho pedagógico da escola, sempre observando a sua inte- ração com o trabalho administrativo. Assim, o Projeto Político-Pedagógico, é um instrumento de conquista de es- paços, que serve para: a) evitar a fragmentação do trabalho pedagógico; b) minimizar a rotina de tarefas improdutivas; c) contrapor-se à dependência e aos efeitos negativos da burocracia e do poder autoritário/centralizador dos setores da administração superior. O Projeto Político-Pedagógico visa à qualidade de todo o processo vivido pela escola. Por meio dele busca-se alcançar: democratização do processo de planejamento; � melhoria da qualidade de ensino; � incentivo às atividades culturais; � desenvolvimento da avaliação institucional da escola; � qualificação e desenvolvimento funcional do pessoal técnico-adminis- � trativo e técnico-pedagógico; agilização da prática administrativo-pedagógica; � provimento de condições facilitadoras para o efetivo cumprimento dos � fins da escola. 192 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Para Gadotti e Romão (2002, p. 37) o êxito do projeto implica sobretudo uma noção de tempo: Tempo político – o da oportunidade política de um determinado pro- � jeto. Tempo institucional – cada escola encontra-se num determinadotem- � po de sua história. Um projeto que é inovador e contagiante para uma escola, pode não ser para outra. Tempo escolar – o período do calendário da escola no qual o projeto é � elaborado pode ser também decisivo para o seu sucesso. Tempo para amadurecer as ideias – só os projetos burocráticos che- � gam prontos e, por isso, revelam-se ineficientes a médio prazo. Ideias novas precisam de tempo para serem sedimentadas e amadurecidas, para serem discutidas e para persuadirem. Nesse sentido, que elementos facilitadores poderíamos destacar para � se ter êxito em um projeto? Concordando com Gadotti e Romão (2002), eu diria que as sete temáticas abaixo elencadas são fundamentais para a elaboração e implantação de um Pro- jeto Político-Pedagógico. Vejamos quais são elas: Comunicação eficiente. O projeto deve ser factível e seu enunciado fa- � cilmente compreensível. Adesão voluntária e consciente ao projeto. A corresponsabilidade é � um fator decisivo no êxito de um projeto. Todos, ou pelo menos uma grande maioria das pessoas que transitam na escola, precisam estar envolvidas. Suporte institucional e financeiro, que significa vontade política. Todos � – principalmente os dirigentes – devem ter pleno conhecimento e os recursos financeiros devem estar claramente definidos. Controle, acompanhamento e avaliação. Um projeto que não envolva � constante avaliação, não permite que se saiba se os seus objetivos es- tão sendo atingidos. Atmosfera ou ambiente favorável. Não se deve desprezar o componen- � te mágico-simbólico, que contagia e cimenta a confiança de todos os que se envolvem no design e concretização de um projeto. Gestão e autonomia da escola 193 Credibilidade. As ideias podem ser boas, mas se os que as defendem � não têm prestígio, comprovada competência e legitimidade, pode ocorrer do projeto não deslanchar. Referencial teórico que respalde os principais conceitos e a estrutura � do projeto. É bom saber que a falta desses sete elementos dificulta a elaboração e im- plantação de um Projeto Político-Pedagógico novo para a escola. Na sua construção, o Projeto Político-Pedagógico deve levar em conta: finalidade da escola; � estrutura organizacional; � currículo; � tempo: calendário escolar; � processo decisório; � relações de trabalho; � avaliação. � Portanto, o Projeto Político Pedagógico da escola deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na educação. Acompanhá-lo e avaliá-lo é, por excelência, avaliar os resultados da própria or- ganização do trabalho pedagógico. Gestão Escolar e políticas de educação Não podemos esquecer, no entanto, que a busca da gestão pela autonomia escolar acontece em um cenário desenhado pelas políticas de educação. Atualmente esse cenário tem sido afetado pelas profundas e aceleradas mudanças pelas quais o mundo moderno passa. E que transformações seriam essas? São transformações políticas e sociais, que têm, entre outras causas, a glo- balização da economia e da sociedade. 194 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Globalização supõe interação funcional de atividades econômicas e cul- turais dispersas, bens de serviços gerados por um sistema com muitos cen- tros, no qual é mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais está agindo. (CANCLINI, 1999) Nessa perspectiva, a educação torna-se uma necessidade para a existência efetiva do cidadão e para enfrentar as transformações que o mundo atravessa. Podemos dizer então que: A globalização nos leva a refletir sobre as relações interpessoais, já que a necessidade de viver e negociar com pessoas de diversas culturas requer tole- rância, ética, cooperação, solidariedade e, sobretudo, respeito às diferenças. Assim, é preciso lembrar que o homem moderno vive num tempo em que deve saber lidar, também, com as contradições, nas quais suas ideias são condi- cionadas por necessidades de variações e avanços da sociedade. Nesse panorama, as discussões sobre gestão e políticas de educação assu- mem crescente interesse, seja nas discussões acadêmicas, seja no que tange às políticas públicas implementadas no país, nos estados e municípios. E o que é gestão? Gestão é administração, tomada de decisão, organização e direção. Ela está relacionada à atividade de impulsionar uma organização a atin- gir seus objetivos, cumprir sua função e desempenhar seu papel. Para Sacristán (1999, p. 15), A Gestão Escolar constitui uma dimensão da instituição cuja prática põe em evidência o engajamento de intenções reguladoras e o exercício do controle por parte da administração educacional, as necessidades sentidas pelos professores de enfrentar seu próprio desenvolvimento profissional no âmbito mais imediato do seu desempenho e as legítimas demandas do cidadão de terem interlocutor próximo, que lhes dê razão e garantia de qualidade na prestação coletiva deste serviço educativo. Neste sentido, concordo com Ferreira (2001) quando diz que gestão demo- crática da educação constrói coletivamente, por meio da participação, a cidada- nia da escola, de seus integrantes e de todos que dela, de alguma forma, parti- cipam, possibilitando o desenvolvimento de uma consciência de participação mais ampla do mundo. Gestão e autonomia da escola 195 Por trás de um discurso que tem como objetivo a qualidade do ensino, os neoliberais puderam formular propostas curriculares que vêm sendo utilizadas para associar a educação aos interesses do capital, onde a melhor propaganda é a consolidação de um currículo comum para ser divulgado em âmbito nacional. Observe este quadro em que a LDB 9.394/96 explicita, nos artigos 9.o, 26 e 27, padrões curriculares, que devem ser seguidos em todo o território nacional. No que se refere às Diretrizes Curriculares Nacionais, o Conselho Nacional de Educação (CNE), tem caráter deliberativo para a questão. No art. 9.o, a União terá a incumbência de: IV - estabelecer, em colaboração com os estados, o Distrito Federal e os municípios, competências e diretrizes para a Educação Infantil, o Ensino Fun- damental e o Ensino Médio que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum. Já no art. 26, Os currículos do Ensino Fundamental e Médio devem ter uma base na- cional comum, a ser complementada em cada sistema de ensino e estabe- lecimento escolar, por uma parte diversificada da cultura, da economia e da clientela. Analisando o contido no art. 27, percebe-se que Os conteúdos curriculares da Educação Básica observarão, ainda, as se- guintes diretrizes: I - A difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem demo- crática; II - Consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada es- tabelecimento; III - Orientação para o trabalho; IV - Promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não formais. 196 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada A partir de agora vamos visualizar currículo como estratégia nas mudanças do cenário educacional e como instrumento de autonomia da escola. Atualmente, na maioria dos países ocidentais, as políticas educativas têm tomado como objeto eixos diferenciados, como parte de uma estratégia comum nas tentativas de mudança radicais na educação (CONTRERAS, 1999, p. 74). Essas mudanças referem-se, por exemplo, à política sobre currículo, à política sobre escolas, à política sobre avaliação e à política sobre o magistério, todas conside- radas significativas no cenário educacional. A reforma de ensino implementada pela Lei 9.394/96 refere-se à questão curricular, por meio do estabelecimento de Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), adotados inicialmente para asséries iniciais do Ensino Fundamental. Segundo Moreira e Macedo (2000, p. 107), ainda que as políticas curriculares adotadas no Brasil apresentem características próprias, que as distinguam das que se realizam noutros países, não se pode deixar de inscrevê-las num marco global de reformas que atribuem ao currículo um papel de relevo na transfor- mação dos sistemas educacionais. Conforme os autores, a comparação de re- centes reformas realizadas nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Brasil e Argentina evidencia aspectos comuns, que podem ser vistos, portanto, como tendências internacionais em cujo âmbito elas se situam. São elas: adoção de um modelo centralizado de currículo coexistente com processos de desregula- � ção de outros aspectos da educação; recurso às equipes de notáveis para a definição do conhecimento oficial; � elaboração de propostas detalhadas, extensas e complexas; � associação do currículo com um sistema nacional de avaliação. � (TERIGI, 1997, apud MOREIRA; MACEDO, 2000, p. 12-13) Percebe-se, diante de tal quadro, que o currículo tem como principal parcei- ro um sistema de avaliação que objetiva a eficiência na busca da hegemonia ideológica. No final da década de 1940, o Brasil implementou um projeto curricular edu- cacional com projeção nacional, como aponta o educador Ralph Tyler (1974), ao explicitar suas ideias no texto “Princípios básicos de currículo e ensino”. O autor propõe quatro grandes questionamentos que, segundo ele, permitem elaborar qualquer currículo ou plano de ensino se forem respondidos adequadamente. Esses questionamentos são: Que objetivos educacionais a escola deve procurar atingir? � Gestão e autonomia da escola 197 Que experiências educacionais podem ser oferecidas, para que tenham � probabilidade de alcançar esses propósitos? Como organizar efetivamente essas experiências educacionais? � Como podemos ter certeza de que esses objetivos estão sendo alcança- � dos? Nesse sentido, percebe-se que a estrutura básica de Tyler está centrada em objetivos, conteúdos, orientações básicas e critérios de avaliação, passos consi- derados pelo autor muito importantes na elaboração de projetos curriculares. Refletindo um pouco mais, é interessante notar que, ainda hoje, os questiona- mentos propostos por Tyler vêm servindo aos administradores e supervisores na elaboração de projetos curriculares em seus respectivos sistemas educacionais. Nesse sentido, ainda que estejamos em um novo milênio e, consequentemente, sob um novo paradigma, pode-se observar a atualidade desse grande educador. Será que as ideias de Tyler estão presentes na proposta curricular de César Coll? A resposta é afirmativa, levando-se em conta que a estrutura curricular dos PCN está baseada nas propostas do psicólogo espanhol César Coll. É preciso deixar claro que Coll, mesmo sendo defensor do construtivismo, fundamentou sua proposta em bases muito semelhantes às ideias de Ralph Tyler. No modelo de Coll (1996) pode-se observar uma estrutura com componen- tes curriculares do ensino obrigatório, que apresentamos a seguir: Âmbito legal básico Fontes do currículo: análise socioantropológica, psicológica, pedagógica e epistemológica. Componentes curriculares do ensino obrigatório Finalidades do sistema educacional Objetivos gerais do ensino obrigatório Objetivos gerais da pré-escola Objetivos gerais do ciclo inicial Objetivos gerais do ciclo-médio Objetivos gerais do ciclo-superior Objetivos gerais do 1.º ciclo secundário Áreas curriculares e O. G. de área Áreas curriculares e O. G. de área Áreas curriculares e O. G. de área Áreas curriculares e O. G. de área Áreas curriculares e O. G. de área Componentes organizativos do ensino obrigatório 198 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada É preciso lembrar que a visão de conjunto dos componentes curriculares do ensino obrigatório parte do âmbito legal englobando, também, as finalidades do sistema educacional, definidas na LDB 9.394/96, objetivando definir as unida- des de tempo do currículo e as áreas em que esse currículo está organizado. Um segundo aspecto que se sobressai no modelo apresentado anteriormen- te diz respeito às fontes do currículo. Para Coll, a elaboração curricular deve ter em conta a análise da realidade operada com referenciais específicos. Observe os aspectos referentes à análise da realidade. Socioantropológico � : que considera os diferentes aspectos da realida- de social em que o currículo será aplicado. Psicológica � : que se volta para o desenvolvimento cognitivo do aluno. Epistemológica � : que se fixa nas características próprias das diversas áreas do saber tratadas pelo currículo. Pedagógica � : que se apropria do conhecimento gerado na sala de aula em experiências prévias. (Capacitação em Projeto Pedagógico Modelo – 2 CEAE/ UFRJ – 1999) Dentro do modelo apresentado por Coll, o que se pode perceber? Percebe- mos que esse modelo apresenta três níveis de concretização ou níveis decisórios sobre questões curriculares: O � primeiro nível compete à autoridade central na qual são definidas as finalidades da educação; os objetivos gerais do ensino obrigatório, do ciclo e da área; os conteúdos e as orientações didáticas para as ativi- dades de ensino e avaliação. O � segundo nível de concretização é referente à temporalização e se- quenciação dos aprendizados, também ao cargo de grupos responsá- veis pela administração da educação. O � terceiro nível refere-se aos “diferentes programas de ação didática em função das características concretas das diversas situações educa- tivas” (COLL, 1996, p. 177). Para Coll, esse nível de concretização é de responsabilidade de centros escolares (que para nós refere-se a escolas ou grupos de escolas). Assim, esse 3.o nível, apesar de não estar inse- rido concretamente no Projeto Curricular Básico, funciona como uma ilustração da maneira de utilização do projeto dentro da realidade de cada escola. Gestão e autonomia da escola 199 Falando de Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), quais seriam as � contribuições do modelo de César Coll? Com base nesse modelo, os PCN são norteados pelos objetivos gerais do Ensino Fundamental, em consonância com as diretrizes gerais estabelecidas pela LDB: Compreender a cidadania com participação social e política, assim � como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando no dia a dia atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injusti- ças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito. Posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferen- � tes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar con- flitos e de tornar decisões coletivas. Conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, � materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao país. Conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasi- � leiro, bem como os aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferen- ças culturais, de classe social, de crença, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais. Perceber-se integrante, dependente e agente transformador do am- � biente, identificando seus elementos e as interações entre eles, contri- buindo ativamente para a melhoria do meio ambiente. Desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de � confiança em suas capacidades afetivas, físicas, cognitivas, éticas, esté- ticas, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perse- verança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania. Utilizar as diferenteslinguagens – verbal, matemática, gráfica, plásti- � ca e corporal – como meio para produzir, expressar e comunicar suas ideias, interpretar e usufruir das produções culturais, em contextos públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação. Saber utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológi- � cos para adquirir e construir conhecimentos. (MACEDO; LIMA, 2001, p. 106) 200 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Texto complementar Autonomia da escola e democratização de sua gestão: novas demandas para o gestor Fundantes sócio-históricos da autonomia da escola e da democratização de sua gestão (WITTMANN, 2009) A ampliação da autonomia da escola e a democratização de sua gestão constituem, hoje, exigências histórico-sociais. A autonomia e a democrati- zação da gestão da escola são demandadas pela própria evolução da socie- dade. Vivemos em tempos de novas rupturas e de novas configurações. A evolução lenta e gradual parece que vem de encontro a seus próprios limi- tes. Novas demandas surgem para a Gestão Escolar, em decorrência da ne- cessária autonomia e democratização de sua gestão. As novas bases na produção material e na relação social constituem os fundantes econômico-sociais da autonomia da escola e da democratização de sua gestão. As novas bases econômico-sociais e a educação A educação, como prática social ou intervenção no processo de forma- ção histórica das pessoas, vem passando por uma metamorfose significativa ou revolucionária. Vivemos um momento crítico e privilegiado de mudanças radicais. Não se trata de melhorar ou reformar o que existe. Trata-se de um processo de transformação que exige recriar, reinventar nossas práticas. O fundante decisivo dessa situação é a mudança das regras das relações que vêm se engendrando na sociedade e no ato pedagógico. As relações peda- gógicas são da mesma tessitura das relações sociais. A escola constitui parte do amplo processo social de transformação da so- ciedade. A evolução da humanidade indica uma progressiva eliminação da selvageria nas regras das relações sociais. Da posse do escravo, passamos ao confinamento do servo e, depois, à mercadoria da força de trabalho operário. Da educação como privilégio, passamos à educação como ócio e, depois, à educação universal como exigência do capital para sua própria acumulação. Gestão e autonomia da escola 201 Hoje, novamente, a evolução da base material da produção vem exigindo novas relações sociais, porque aquelas fundadas na exploração, dominação e opressão estão sendo questionadas. As modernas tecnologias não com- portam subserviências e imposições. Aptidões para relações de parceria e aptidões cognitivas avançadas estão se tornando exigência para todos os participantes do processo, devido às inovações e ao necessário trabalho em equipe, nos setores de ponta da produção. A base material da produção, especialmente a evolução industrial, adqui- riu nova configuração. Novas tecnologias transformaram a maneira como as pessoas trabalham e o que elas produzem. A vida social e cultural assumiu uma diversificação maior. Áreas tradicionais de produção industrial estão em declínio e novos caminhos estão em expansão. A sociedade está em mudança para uma nova fase de desenvolvimento depois da estagnação das décadas de 1970 e 1980. Essa situação parece in- dicar que neste final de século uma reestruturação tomará corpo. Essa radical reestruturação econômica e social exige uma reestruturação radical das perspectivas de análise e das políticas educacionais. O liberalis- mo já tomou consciência dessas mudanças e procura se beneficiar delas. En- quanto isso, o pensamento educacional brasileiro, considerado progressista, parece ainda muito distante desse “novo” e continua atado à “velha ordem”, que se está expurgando diante de seus olhos. A nova base material das relações sociais O fundante da relação entre os povos, os grupos e as pessoas, evoluiu ao longo da história da humanidade. A base da relação, que era a força, o músculo, passou a ser a riqueza, o dinheiro (TOFFLER, 1990). Recentemente, vem se constituindo como nova base material das relações sociais, o conhe- cimento, o cérebro. O elemento fundante, o alicerce definidor e determinan- te da forma da relação entre as pessoas, evoluiu da força para a riqueza e da riqueza para o conhecimento. Por muito tempo, a base dominante das relações entre as pessoas foi a força física. As relações fundadas na força física fazem com que as pessoas imponham sua vontade a outros com base na ameaça, respaldadas no poder de castigar, porque detêm a força. 202 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada O determinante da forma de relação fundada na força é o medo. � Embora a força ainda seja a base das relações, em muitos casos ela não é mais a base dominante. A riqueza foi se impondo como base mais avançada para fundar as relações sociais. Primeiro, porque a riqueza pode potencializar a força, pode comprá-la e pô-la a seu serviço. Segundo, porque a riqueza é uma base qualitativamente superior. Enquanto a força somente pode ame- açar e castigar, a riqueza pode também premiar e recompensar. Os compor- tamentos são forjados pelo poder de castigar, retirando ou diminuindo os bens de quem não age segundo as pessoas que detêm o poder da riqueza. Além de castigar, as pessoas podem ser recompensadas com a cessão de riqueza pela sua fidelidade ou obediência. O determinante da forma de relação fundada na riqueza é a vantagem. � A riqueza, mais do que a força, continua determinando as relações, em muitos casos. Entretanto, progressivamente vem se instituindo uma nova base material, que é o conhecimento. Como a força pode ser potencializa- da pela riqueza, a riqueza e a força podem ser potencializadas pelo conhe- cimento. Em outras palavras, uma base material qualitativamente superior pode recrudescer os vícios e perversidades decorrentes de bases qualitati- vamente inferiores. O conhecimento é uma base radicalmente superior para fundar as relações. Ele não é soma zero. O conhecimento não se (des)gasta quando usado. Enquanto a força e a riqueza se esvaem no seu uso, o conhe- cimento cresce e aumenta, quando usado; multiplica-se quando dividido. Além disto, o conhecimento não é privatizável. Os mecanismos que procu- ram privatizá-lo apenas retardam sua socialização. O conhecimento pode humanizar e emancipar. O determinante da forma de relação fundada no conhecimento é a � compreensão, o sentido. O conhecimento, como base material das relações, permite o estatu- to da parceria. Ora, o conhecimento, que está se instituindo como base material das relações humanas, entre os povos, grupos e pessoas, é o pró- prio objeto específico do trabalho educativo. O conhecimento como pro- cesso e (re)construção é emancipador e exige ampliação da autonomia- -cidadania das pessoas. Para contribuir nessa ampliação, a escola deve ser autônoma-cidadã e corresponsavelmente assumida, isto é, democra- ticamente gerida. Gestão e autonomia da escola 203 Dica de estudo Um dos instrumentos da construção da autonomia da escola é a realização de reuniões ampliadas, envolvendo todos os segmentos e a comunidade exter- na, que são chamadas em muitos lugares de assembleias. Sugerimos como dica um vídeo sobre o assunto, disponibilizado na internet em duas partes. 1.a parte – <www.youtube.com/watch?v=_zmOP2cvpN0>. 2.a parte – <www.youtube.com/watch?v=SxOD_pClM0c&feature=related>. Assista e reflita. Atividades 1. Na sequência são apresentados três trechos do artigo de Moacir Gadotti in- titulando-se como: “O Projeto Político-Pedagógico da escola na perspectiva de uma educação para a cidadania”. Esses textos focalizam os aspectos im- portantes discutidos durante a nossa aula. Escolha doistrechos e comente- -os, redigindo um pequeno texto. a) “Não se constrói um projeto sem uma direção política, um norte, um rumo. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é também político. O projeto pedagógico da escola é, por isso mesmo, sempre um proces- so inconcluso, uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola. – De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. Ao contrário, numa gestão democrática, a direção é escolhida a partir do re- conhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de execu- tar um projeto coletivo. A escola, nesse caso, escolhe primeiro um projeto e depois essa pessoa que pode executá-lo. Assim realizada, a eleição de um diretor, de uma diretora, possibilita a escolha de um Projeto Político- -Pedagógico para a escola. Ao se eleger um diretor de escola o que se está elegendo é um projeto para a escola. Na escolha do diretor ou da diretora, percebe-se já o quanto o seu projeto é político.” (GADOTTI, 2009, p. 2) 204 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada b) “A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. A gestão democrática da escola é, portanto, uma exigência de seu Projeto Político-Pedagógico. Ela exige, em primei- ro lugar, uma mudança de mentalidade de todos os membros da comu- nidade escolar. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado e não uma conquista da comunidade. A gestão democrática da escola im- plica que a comunidade, os usuários da escola, sejam os seus dirigentes e gestores e não apenas os seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. Na gestão democrática, pais, alunos, professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola.” (GADOTTI, 2009, p. 2) c) “Existem, certamente, algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do Projeto Político-Pedagógico da escola. Entre eles, podemos citar: a) a nossa pouca experiência democrática; b) a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de governar e que o povo é incapaz de exercer o governo; c) a própria estrutura de nosso sistema educacional que é vertical; d) o autoritarismo que impregnou nosso ethos educacional; e) o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade po- lítica no campo educacional. Enfim, um Projeto Político-Pedagógico da escola apoia-se: a) no desenvolvimento de uma consciência crítica; b) no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola; c) na participação e na cooperação das várias esferas de governo; d) na autonomia, responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto.” (GADOTTI, 2009, p. 3) Gestão e autonomia da escola 205 2. Para Veiga (2003, p. 277) “Construir o Projeto Político-Pedagógico para a insti- tuição educativa significa enfrentar o desafio da inovação emancipatória ou edificante, tanto na forma de organizar o processo de trabalho pedagógico como na gestão que é exercida pelos interessados, o que implica o repensar da estrutura de poder.” Assinale, dentre as alternativas abaixo, a afirmação correta quanto ao Projeto Político-Pedagógico (PPP). a) Os projetos incluídos no PPP devem constituir a parte mais importante, ou seja, o “como” ou “o que” a escola pretende fazer. b) A definição da linha teórico-metodológica que a escola pretende adotar não é muito importante. c) A definição clara e operacionalizada dos planejamentos de ensino é a parte mais importante do PPP. d) Os fundamentos teóricos e metodológicos, incluindo propostas de ino- vação, devem expressar-se coerentemente no PPP. e) Os fundamentos devem constituir apenas uma parte conceitual do pro- jeto, não merecendo grande relevo. Márcia Souto Maior Mourão Sá Ao apresentar o conceito de gestão da sala de aula destacaremos os processos e atividades mais importantes dessa gestão e caracterizaremos o conjunto de ações desenvolvidas pelos professores para criar as condi- ções adequadas ao ensino e à aprendizagem, caracterizando assim a com- plexidade da ação gestora do professor no cotidiano escolar. Faz parte do ofício do professor administrar as relações que estão em- butidas no complexo microcosmo da escola e da sala de aula. Vamos então empreender essa viagem teórica para dentro da escola e analisar as várias dimensões presentes nesse cenário educacional. A consideração de que os comportamentos humanos não podem ser interpretados à margem do âmbito em que se manifestam, teve uma enorme repercussão na Psicologia e, por isso, vem influenciando, de ma- neira considerável, tanto a conceituação quanto o estudo do psiquismo humano. Frente às perspectivas dominantes durante longo tempo, que fizeram da Psicologia uma ciência fundamentalmente “acontextual”, o en- foque ecológico da Psicologia vem exigindo a análise dos contextos e das relações que se estabelecem entre esses contextos como uma condição imprescindível para a compreensão e a interpretação do funcionamento e desenvolvimento das pessoas. Segundo Bronfenbrenner (1987, p. 19), o representante mais conhe- cido e atuante da psicologia ecológica, “as capacidades humanas e sua realização dependem em grande parte do contexto mais amplo, social e institucional, da atividade individual”. Nesta perspectiva, e nos colocando no âmbito da educação formal, a aprendizagem dos alunos, o comporta- mento docente e as decisões de ensino que os professores assumem não podem ser entendidos em toda a sua complexidade sem considerar os contextos em que ocorrem. Portanto, o conceito de contexto, peça-chave nesta reflexão teórica, merece algumas considerações. A complexidade da gestão da sala de aula 208 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada Em primeiro lugar, destaco que esse conceito nos remete à ideia de multi- plicidade. Como as Matrioskas, aquelas bonecas russas que vão se encaixando umas nas outras, o âmbito da atividade individual que o aluno realiza em um tempo determinado é formado por um conjunto de estruturas seriadas. A primeira estrutura é o contexto imediato no qual a atividade é realizada – a aula. O contexto aula está encaixado no contexto escola e esse no contexto sis- tema educacional. Entre esses dois últimos podemos distinguir, também, alguns outros contextos intermediários: o contexto social e comunitário em que a escola está inserida, o contexto administrativo imediato, o contexto da política educa- cional em geral etc. A atividade do aluno, que é objeto de nossa atenção, faz parte simultaneamente de outros contextos: o contexto familiar, o contexto do grupo de amigos etc. Em segundo lugar, por apresentar um caráter múltiplo e inter-relacionado, o conceito de contexto desdobra-se em várias implicações. Parece óbvio que, por um lado, compreender as capacidades humanas e a sua realização nos exige a adoção de uma abordagem contextual. Isso significa que para compreendermos a aprendizagem escolar tal como é produzida e os seus resultados, precisamos analisar o contexto imediato em que a atividade de aprendizagem se desenvolve; ou seja, o contexto da aula, assim como os contextos de nível superior nos quais o contexto-aula se encaixa, o que necessariamente nos remete ao contexto da instituição escolar e ao contexto do sistema educacional. Por outro lado, para compreendermos de forma adequada a aprendizagem escolar, precisamos levar em conta os diferentes contextos em que habitual- mente o aluno está imerso. As relações entre família e escola adquirem também valor e potencial educativo. Por fim, quando nos atemos ao caráter múltiplo e inter-relacionaldos contextos em que se produz a atividade, podemos concluir que as capacidades humanas e sua realização mantêm intensas relações com os contextos imediatos em que se encontra o homem. No nosso caso, a aprendizagem do aluno, em se tratando da educação formal. Assim, seria um equívoco considerar o contexto em que se realiza a atividade individual como uma realidade predefinida e imutável. Na perspectiva da psico- logia ecológica, o conceito de contexto transcende uma descrição objetiva. O que interessa é a forma como é percebido, a maneira como o sujeito que realiza a atividade efetivamente percebe e interpreta o contexto. As tarefas concretas em que o aluno participa com as outras pessoas (professores, colegas e demais atores institucionais) e as atividades que essas pessoas realizam na A complexidade da gestão da sala de aula 209 presença do aluno, constituem os elementos ou aspectos do contexto imediato que mais incidem nas capacidades humanas e na sua realização. Portanto, para analisar, compreender e explicar os processos de aprendiza- gem nesse microssistema que é a escola, é preciso estudar também os padrões de atividade que podem ser traduzidos pelas condutas verbais e não verbais dos participantes (professores e alunos). Para isso é necessário focar nossa atenção nas “atividades, nos papéis e nas relações em que a pessoa intervém” (BRONFENBRENNER, 1987, p. 30). Agora, vamos ver em que consistem esses três elementos. As atividades escolares de ensino e de aprendizagem que professores e alunos praticam na escola possuem uma série de características comuns: são planejadas e intencionais; desenvolvem-se em intervalos de tempo amplos, ou relativamente amplos, visando provocar mudanças duradouras e profundas no comportamento dos alunos; e são orientadas para a obtenção de resultados. Entretanto, sabemos que tais atividades podem apresentar importantes dife- renças entre elas e que, portanto, repercutem de formas diversas sobre a aqui- sição de novas capacidades entre os alunos. Essas variações afetam um extenso conjunto de dimensões – objetivos que perseguem, complexidade estrutural, maior ou menor adequação às suas reais possibilidades de aprendizagem e de desenvolvimento, maior ou menor sentido que tais atividades têm para os alunos etc. –, que configuram as atividades concretas das quais os alunos participam. O enfoque ecológico explica a repercussão potencialmente diferente das ativi- dades sobre o desenvolvimento humano por meio de uma hipótese que, aplicada ao microssistema escola, pode ser enunciada assim: a aquisição de novas capacida- des por parte dos alunos dependerá, em grande parte, do significado ou intenção que as atividades de ensino e aprendizagem tenham para esses alunos e, também, da variedade substantiva e a complexidade estrutural dessas atividades. O segundo elemento ou fator que precisamos considerar, para estudar os padrões de atividades que caracterizam qualquer microssistema, é constituído pelos papéis dos participantes. Distinguimos com facilidade, em uma situação educacional formal, os papéis de gestor escolar, de professor ou professora, de aluno ou aluna; como também no microssistema familiar, no qual os papéis de pai e mãe mostram-se associados aos papéis de filho e filha. Hargreaves (1977) usa o conceito de papel para referir-se às expectativas de comportamento associadas com a posição que uma pessoa ocupa em um 210 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada âmbito determinado – o que implica a existência de algumas adequadas previ- sões sobre o comportamento que são, também, adequadas para a pessoa que ocupa uma posição específica. Exemplificando o que foi exposto, nas situações escolares de ensino e de aprendizagem, um dos protagonistas, o ensinante, dedica grande parte de seu tempo para formular aos outros, os alunos, perguntas cujas respostas já conhece previamente. Trata-se de um comportamento esperado nessa situação e para esse microssistema escola, porém, seria considerado bizarro em uma situação diferente da escolar. Um outro exemplo é o desconforto que os alunos podem sentir, e sentem, quando um professor decide não se sujeitar ao que se espera dele quando reduz ou muda, de forma drástica, as medidas disciplinares, ou seja, quando propõe deixar de explicar e sugere aos alunos que preparem, por sua conta e risco, a apresentação dos contúdos. Também em relação ao gestor es- colar estabelecem-se “expectativas de papel”, que incluem desde as ações mais diretas até aspectos ligados a valores, ética, equidade. Voltando ao conceito de posição, é preciso destacar que algumas posições já estão previamente determinadas, como raça, idade e sexo; outras são adquiridas, como as que são produtos do trabalho ou da função que as pessoas exercem. Os papéis e as expectativas do comportamento humano e no espaço escolar – mi- crossistema escola, em termos da abordagem ecológica – são objetos de estudo, em profundidade, da Psicologia Social. A importância do papel reside nas associações com as expectativas sobre o comportamento da pessoa que o assume: como essa pessoa se relacionará com os outros e como espera que se relacionem com ela. No microssistema escola, é costume esperar de um professor que ele exerça um determinado tipo de con- trole sobre a gestão da aula, que desenvolva com competência as suas funções de instrutor e que promova a aprendizagem dos alunos. Ao mesmo tempo, tem-se a expectativa de que os alunos aceitem a autoridade do professor, que se adaptem às regras e normas da escola e das práticas pedagógicas, que mostrem interesse, dedicação, atenção e envolvimento nas tarefas escolares etc. Cabe esclarecer ainda que o papel é, ao mesmo tempo, um elemento do mi- crossistema e um exemplo claro da influência ou incidência do macrossistema. As expectativas associadas ao papel de gestor, professor, aluno ou funcionário estão, em grande parte, condicionadas e parcialmente determinadas por fato- res ideológicos e institucionais. Por um lado, isso explica a pressão e o controle A complexidade da gestão da sala de aula 211 social e ideológico que sempre é exercido junto com as expectativas do papel. Por outro lado, compreendemos a dificuldade de comportar-se quando se exerce um papel em oposição aberta às expectativas associadas que esse papel carrega. Por fim, podemos entender que as expectativas de papel submetam- -se a uma mudança constante, de acordo com a evolução das ideias sociais e as mudanças ideológicas. Os papéis não são um modelo rígido e inflexível, como um roteiro totalmente predeterminado que as pessoas que o exercem devem seguir ao pé da letra. O conceito de exercício de papel nos fornece a ideia precisa de que, mesmo que haja certas expectativas de comportamento e de relacionamento associadas com o papel, cada pessoa tem uma maneira singular e idiossincrática de exercê- -lo. Por isso, o exercício do papel sempre representa, com menor ou maior in- tensidade, uma certa tensão entre as expectativas que estão associadas a ele e a sua interpretação por uma pessoa em particular. Assim, por exemplo, enquanto para um professor exercer o papel de gestor da aula pode representar assumir um controle bem grande sobre as tarefas que essa gestão comporta (transcrever diariamente as atividades, proporcionar o material necessário, supervisionar a tarefa de cada aluno etc.), um outro professor pode garantir os mesmos procedi- mentos ao encarregar os alunos de assumir essas tarefas, elegendo um secretá- rio encarregado de distribuir o material, utilizando instrumentos que permitam que os próprios alunos controlem as atividades realizadas etc. Em relação ao conceito de papel, vale a pena apontar, também, que é bas- tante comum que as pessoas exerçam papéis diferentes nos diversos microssis- temas em que participam. Assim, o professorfaz o papel de professor na aula; o de colega entre os demais professores; o de pai de família; o de cidadão na atividade política; o de amigo no seu grupo social etc. Experimente refletir sobre alguns papéis que são acrescidos a esses, quando o professor assume a condição de gestor escolar. O mesmo ocorre com o aluno: papel de aluno na aula, o de filho em casa, o de colega com seus companheiros etc. Porque as pessoas não funcionam como compartimentos estanques, o exercício do papel em cada um dos microssiste- mas é influenciado por outros microssistemas e pelos papéis que elas ocupam, influenciando, por sua vez, todo o conjunto. Além de influenciar o conjunto de microssistemas, de acordo com as contribuições da psicologia ecológica e seus estudos sobre desenvolvimento humano, este é favorecido pela participação 212 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada em um amplo repertório de papéis e também pela interação entre as pessoas que ocupam papéis diferenciados. Do ponto de vista do microssistema escola, de que nos ocupamos agora, isso significa que devemos levar em conta que professores e alunos exercem outros papéis em diferentes microssistemas, os quais incidem sobre o exercício dos mesmos. Por tudo o que foi exposto, é importante considerar o mesossistema1 e as relações estabelecidas entre os diferentes sistemas em que o aluno participa e em que está se formando para poder analisar, compreender e explicar a apren- dizagem escolar, suas capacidades e realizações. Para Bronfenbrenner, o terceiro e último fator ou elemento que precisa ser considerado para estudar os padrões de atividades que caracterizam um micros- sistema são as relações que os participantes estabelecem no decorrer das ativi- dades que realizam. Por entender que a gestão da sala de aula é um padrão de atividade que requer uma outra maneira do professor se relacionar com os alunos, é preciso introduzir o enfoque teórico da psicologia ecológica para que possamos nos situar melhor no microssistema escola. Comecemos pela possibi- lidade de gestão do conteúdo. A gestão do conteúdo ocorre quando os professores gerenciam espaços, ma- teriais, equipamentos, o movimento de pessoas, e aulas que são parte de um currículo ou programa de estudos (FROYEN; IVERSON, 1999, p. 128). Os autores sugerem um conjunto de habilidades que os professores precisam desenvolver ou aperfeiçoar para gerenciar cada uma das várias dimensões presentes no mi- crossistema sala de aula. Assim, temos: Habilidades de gestão instrucional 1. Administrar o ritmo e movimento da aula e dos conteúdos apresentados: Evitar os movimentos bruscos: empurrões, penduras, saltos, trunca- � mentos. 1 A ecologia do desenvolvimento humano entende o meio ou contexto em que as pessoas se desenvolvem como uma série de sistemas funcionais ou estruturas concêntricas e encaixadas, denominadas micro, meso e macrossistemas. Tais estruturas definem-se formalmente: um microssistema é um padrão de atividades, papéis e relações interpessoais que a pessoa em desenvolvimento experimenta em um determinado meio, com caracte- rísticas físicas e materiais particulares. Um mesossistema compreende as inter-relações de dois ou mais meios em que a pessoa em desenvolvimento participa ativamente (por exemplo, para um menino, as relações entre o lar, a escola e o grupo do bairro; para um adulto, entre a família, o trabalho e a vida social). Um sistema refere-se a um ou mais contextos que não incluem a pessoa em desenvolvimento como participante ativo, mas nos quais são produzidos fatos que afetam o que ocorre no contexto em que ela se encontra, ou que se veem afetados pelo que ocorre nesse meio. Um macros- sistema refere-se às correspondências, em forma e conteúdo, dos sistemas de menor ordem (micro, meso e exo) que existem ou poderiam existir, ao nível da subcultura ou da cultura em sua totalidade, junto com qualquer sistema de crenças ou ideologias que sustenta essas correspondências. (BRONFENBRENNER, 1987, p. 41- 45). A complexidade da gestão da sala de aula 213 Evitar a lentidão: discursos excessivos, excesso de tarefas, excesso de � ações, uso excessivo de recursos físicos e fragmentação dos conteúdos. 2. Focar o grupo: Gerenciar o formato do grupo. � Gerenciar o grau de responsabilidade. � Gerenciar a atenção. � 3. Evitar a saturação: Progresso. � Variedade. � Estimulação. � Sequenciar e integrar atividades instrucionais adicionais 1. Gerenciar sessões de revisão diárias. 2. Gerenciar sessões de preleção/apresentação. 3. Gerenciar o estudo individual: apresentar as tarefas/exercícios; � monitorar o desempenho; � selecionar as tarefas/exercícios; � avaliar as tarefas/exercícios. � 4. Gerenciar o dever de casa. 5. Gerenciar sessões de debate. 6. Gerenciar projetos e sessões de solução de problemas. 7. Lidar com problemas disciplinares relacionados à instrução: 214 Princípios e Métodos de Gestão Escolar Integrada O aluno ocupa-se de atividades não relacionadas à tarefa/atividade: con- � versando sem permissão (durante aulas expositivas ou palestras de pro- fessores convidados) o aluno esquece sempre de levantar a mão; � escuta desatenta e desobediência às instruções verbais; � tarefas incompletas ou atrasadas; � atraso ou absenteísmo; � pouca motivação/não estar fazendo nada; � colando; � ansiedade na hora da prova. � Para enriquecer a aula, vamos “mergulhar” no cotidiano da gestão da sala de aula, apresentando alguns exemplos concretos que irão contextualizar o que fa- lamos, quanto às habilidades de gestão instrucional: 1. A gestão do movimento refere-se à capacidade do professor de organizar e dirigir o fluir de atividades instrucionais na sala de aula, como: evitar movimentos bruscos: � a) empurrões (quando o professor subitamente interrompe, sem avi- sar, uma atividade que já está acontecendo e dá instruções para uma outra atividade); b) penduras (quando o professor deixa uma atividade “pendurada” e solta no ar, vai a outra, e depois volta à primeira, prejudicando a continuidade da aula); c) saltos (uma variação das penduras, quando o professor aparente- mente termina uma atividade, começa outra e então, surpreenden- temente, retorna à primeira); d) truncamentos (quando o professor deixa uma atividade, vai a outra e nunca retorna à primeira). evitar lentidão: � a) discursos excessivos (quando o professor é ponderado em demasia); A complexidade da gestão da sala de aula 215 b) excesso de explicações (quando o professor gasta tempo demais dando instruções e explicando); c) detalhamento demasiado (quando o professor é dominado por de- talhes ao invés da ideia principal); d) uso excessivo de recursos físicos (quando o professor concentra-se em demasiado nos recursos físicos); e) fragmentação (ocorre quando uma atividade é dividida em partes menores, mesmo quando isso não é necessário). 2. Focar o grupo – refere-se à habilidade do professor de manter a concen- tração do grupo durante uma atividade educacional em sala de aula: gerenciar o formato do grupo: � a) os professores podem usar uma variedade de estratégias para con- seguir a concentração do grupo durante a instrução em sala de aula. Algumas técnicas do professor e reações dos alunos incluem a distri- buição igualitária de oportunidades de resposta aos alunos (“Eu vou ser escolhido pelo professor para fazer algo durante essa aula.”); b) ajuda individual (“O meu professor se preocupa comigo e quer que eu tenha sucesso.”); c) latência ou moratória (“Eu tenho tempo para pensar.”); d) buscar (“O meu professor está fazendo um esforço especial para ajudar-me a responder.”); e) perguntas de alto nível intelectual (“O meu professor realmente es- pera que eu pense.”); f ) afirmação ou correção do trabalho do aluno (“O professor