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' 10.37885/240215702 03 DESAFIOS E PERSPECTIVAS NA INCLUSÃO DO TEA NA EDUCAÇÃO Stella Maris Mesquita de Assis Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE) Kerley Oliveira Aquino Rabelo Assis Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE) Jadson Rabelo Assis Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) https://dx.doi.org/10.37885/240215702 44 Considerações sobre o fazer docente RESUMO O transtorno do espectro do autismo (TEA), é um transtorno do neurodesenvol- vimento com etiologia multifatorial que afeta o desenvolvimento social, compor- tamental e comunicativo das pessoas, ocasionando déficit na comunicação e interação social e padrão de comportamentos restritos e repetitivos bem como dificuldades de adaptação escolares diversas. Os educadores enfrentam desafios significativos ao lidar com alunos que apresentam diversas deficiências, sendo o autismo uma realidade nas escolas. O presente estudo teve como objetivo descrever as perspectivas e os principais desafios enfrentados no processo de inclusão do TEA na área educacional. A metodologia utilizada para este estudo foi uma revisão de literatura de alguns autores referências no assunto na tentativa de elucidar tal discussão. Tais como: Araújo, Silva e Zannon (2023); Dias et al. (2022); Lopes e Cabral Neto (2020); Oliveira e Machado (2009) entre outros. Apesar dos extensos estudos realizados na área, o transtorno do espectro autista ainda é pouco compreendido pelos professores, que muitas vezes se sentem inseguros para instruir os alunos. É importante ressaltar que para uma inclusão de sucesso precisamos avançar muito e principalmente seria indispensável a adaptação da formação e prática desses profissionais que desempenham papel crucial nas salas de aula. Palavras-chave: Desafios, Perspectivas, Profissionais, Inclusão, TEA. 45 ISBN 978-65-5360-548-0 - Vol.1 Ano 2024 - www.editoracientifica.com.br INTRODUÇÃO O transtorno do espectro do autismo (TEA), referido como autismo, é um transtorno do neurodesenvolvimento com etiologia multifatorial que afeta o desenvolvimento social, comportamental e comunicativo das pessoas, ocasio- nando déficit na comunicação e interação social e padrão de comportamentos restritos e repetitivos. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o autismo é caracterizado por uma grande variabilidade de sintomas e graus, o que levou à descrição do transtorno como um “espectro” (ELISSON; BUNDY, 2019). Assim, possui uma classificação com níveis de suporte que visa avaliar o grau de necessidade, de assistência e apoio que uma pessoa com autismo pode necessitar em diferentes áreas da vida. O espectro autista não se manifesta de maneira uniforme, em algumas situações, os sinais tornam-se evidentes nos primeiros meses de vida e inten- sificam-se por volta dos 12 a 24 meses. Esse aumento na percepção dos traços autísticos pelos cuidadores está relacionado ao crescente desafio social enfren- tado pela criança. À medida que as demandas sociais aumentam, tornam-se mais notáveis os atrasos no desenvolvimento que precisam ser superados. Atualmente, não existe cura para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas os avanços mais significativos na área concentram-se em pesquisas sobre intervenções precoces e educacionais. Com o diagnóstico precoce, é viável iniciar intervenções terapêuticas multidisciplinares apropriadas desde a infân- cia, visando modificar aspectos cruciais do transtorno. Isso se deve ao fato de que nos primeiros anos de vida da criança ocorre a máxima plasticidade das estruturas cerebrais, representando um período altamente sensível às interven- ções. Com um tratamento adequado, é possível reduzir significativamente os sintomas, aumentando as oportunidades de independência e integração social. Os educadores enfrentam desafios significativos ao lidar com alunos que apresentam diversas deficiências, sendo o autismo uma realidade nas escolas. Apesar dos extensos estudos realizados na área, o transtorno do espectro autista ainda é pouco compreendido pelos professores, que muitas vezes se sentem inseguros para instruir os alunos. Diante desse cenário, torna-se indispensável 46 Considerações sobre o fazer docente a adaptação da formação e prática desses profissionais que desempenham papel crucial nas salas de aula. Lidar com crianças que possuem laudos sempre representou um desafio considerável para os professores, pois muitas vezes não têm clareza sobre como abordar o ensino desses alunos. No contexto escolar, é frequente ouvir relatos de professores que enfrentam dificuldades ao equilibrar as necessidades dos demais estudantes da turma com as demandas específicas relacionadas ao atendimento de crianças diagnosticadas com algum transtorno. Muitas vezes, o desfecho desse cenário é a formação de uma barreira entre professor e aluno, o que acaba prejudicando o progresso do estudante dentro da sala de aula. Neste sentido, o presente estudo teve como objetivo descrever as pers- pectivas e os principais desafios enfrentados no processo de inclusão do TEA na área educacional. DESENVOLVIMENTO A metodologia utilizada para este estudo foi uma revisão de literatura de alguns autores referências no assunto na tentativa de elucidar tal discussão. tais como: Araújo, Silva e Zannon (2023); Dias et al. (2022); Lopes e Cabral Neto (2020); Oliveira e Machado (2009) entre outros. Do ponto de vista histórico, observa-se a batalha das pessoas com defi- ciências e seus familiares pelos seus direitos em escala global, evidenciada por meio de várias convenções e declarações. No contexto específico do autismo, é possível notar as transformações alcançadas graças a estudos cada vez mais avançados e à implementação de leis que asseguram a inclusão desse público. Um exemplo dessa segurança legal é a Lei nº 12.764, de 27 de dezem- bro de 2012 (BRASIL, 2012) que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. No art. 1º, § 2º mostra que “a pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais”, dessa forma, se for comprovado a deficiência do aluno, de acordo com a legislação, ele tem o direito de ter um acompanhante especializado, desempenhando o papel de mediador pedagógico e social para a criança. 47 ISBN 978-65-5360-548-0 - Vol.1 Ano 2024 - www.editoracientifica.com.br No dia 6 de julho de 2015, foi instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei Nacional n° 13.146 (BRASIL, 2015), onde garante o direito das pessoas com deficiência. No art. 1° diz que essa lei é “destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania” (BRASIL, 2015, s. p.). E no capítulo IV, o art. 28, Inciso VII, diz sobre o poder público assegurar e incentivar o “planejamento de estudo de caso, de elaboração de plano de atendimento educacional especializado, de organização de recursos e serviços de acessibilidade”. O acesso à educação é um direito universal que deve ser garantido a todos. Nesse sentido, é crucial que as escolas adotem uma abordagem inclu- siva, abrindo suas portas para todos os alunos. A Lei n° 12.764 (BRASIL, 2012) atualmente assegura que os estudantes com autismo tenham os mesmos direitos que os demais. Assim, além de promover a inclusão desses alunos nas salas de aula regulares, os profissionais da educação devem reconhecer a importância não apenas de abordar os conteúdos acadêmicos, mas também de fomentar a independência do aluno. Incluir um estudante vai além de colo- cá-lo em um ambiente convencional, é fundamental proporcionar experiências de aprendizado significativas, investindo em suas habilidades e contribuindo para o desenvolvimento integral de um indivíduo capaz de aprender, pensar e sentir (CHIOTE, 2019). Assim, a partir do estabelecimentodessas políticas públicas Garcia, Bacarin e Leonardo (2018), destacam que a escola possui o compromisso do atendimento à diversidade humana. Assim, é fundamental ajustar-se às neces- sidades específicas dos alunos, evitando a exclusão daqueles considerados “diferentes”. Isso tem impacto tanto no processo de ensino-aprendizagem quanto nas relações interpessoais dentro do ambiente escolar. Essa mudança de paradigma, por sua vez, influencia a construção e desconstrução de crenças relacionadas às deficiências e às suas potencialidades. Um docente que está envolvido no ensino de um aluno com transtorno do espectro autista, deve inicialmente dedicar tempo à observação e compreensão do aluno antes de adaptar os conteúdos e atividades. É crucial identificar as habilidades já desenvolvidas e aquelas que necessitam de atenção, permitindo que as práticas pedagógicas sejam cuidadosamente planejadas de acordo com 48 Considerações sobre o fazer docente as necessidades educacionais específicas. Cada aluno com TEA apresenta singularidades, ou seja, características individuais distintas, e é necessário que essas particularidades sejam plenamente compreendidas. Uma das características do autismo é o desafio na interação social com os outros, o que significa que pode demandar tempo para estabelecer confiança. Dessa forma, é de suma importância que a escola e o professor se empenhem em compreender o aluno, considerando suas características individuais. O pro- fessor, como mediador central do aprendizado, deve, portanto, cultivar uma relação sólida com o aluno para garantir o sucesso do processo educacional. É crucial que tanto o professor quanto a comunidade escolar compreen- dam as particularidades do aluno autista. A partir dessa compreensão, torna-se possível desenvolver um planejamento inclusivo que facilite a integração tanto no aspecto pedagógico quanto social. Da mesma forma, para a real integração do aluno é necessário acom- panhamento de apoio, fornecendo assistência ao professor, especialmente em situações em que pode ser desafiador para o docente atender a toda a turma devido ao número de alunos. Esse acompanhante de apoio deve pos- suir especialização na área em que atua, sendo sua principal responsabilidade acompanhar o aluno em diversas experiências dentro da escola. Ele participa e vivencia momentos de progresso não apenas relacionados ao desenvolvimento cognitivo, mas também aos aspectos motores e socioemocionais do aluno (ALVES; LEITE, 2022). Também é essencial desenvolver um Plano de Ensino Individualizado - PEI, um documento elaborado em equipe, permitindo ao professor adaptar a avaliação dos alunos considerando suas habilidades e peculiaridades. Isso facilita a aprendizagem do aluno (LOPES; CABRAL NETO, 2020). Esse documento inicia-se com uma avaliação diagnóstica, seguida por um planejamento e elaboração de ações direcionadas às necessidades do aluno. Ao final, busca-se concretizar as ações e atingir os objetivos estabelecidos para transformar a realidade, aplicando estratégias apropriadas para possibilitar o aprendizado do aluno de maneira alinhada ao ambiente regular de ensino. Para Tannús-Valadão e Mendes (2018), a diferença entre os conceitos de PEI centrado no indivíduo e de Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) indica a necessidade de se modificar a política de como é elaborado 49 ISBN 978-65-5360-548-0 - Vol.1 Ano 2024 - www.editoracientifica.com.br o planejamento educacional para alunos do PAEE no país. Levando-se em consideração o que acontece em outros países, sugere-se a adoção do modelo de PEI centrado no indivíduo, visto que tem maior probabilidade de otimizar o processo de escolarização do PAEE em classes comuns de escolas regulares. Embora seja uma responsabilidade dos professores, a colaboração com gestores, profissionais da escola, familiares e outras partes interessadas é uma estratégia adotada para uma compreensão mais abrangente das características, necessidades, interesses e potencialidades do estudante. Com esse intuito, as adaptações curriculares desempenham um papel crucial, viabilizando e tornando acessível a conformidade com as diretrizes do currículo regular. Elas estabelecem um currículo dinâmico, flexível e sujeito a expansões, assegurando que atenda efetivamente a todos os educandos (OLI- VEIRA; PEREIRA JUNIOR, 2020). Algumas adaptações curriculares se fazem necessárias para a efetiva inclusão de alunos com Transtorno do Espectro do Autismo. Isso decorre do fato de que esses indivíduos apresentam déficits em duas áreas fundamentais de desenvolvimento: comportamento e comunicação/interação social. Além disso, manifestam características como aderência a rotinas e dificuldades diante de alterações inesperadas, evitação de contato visual, desafios na linguagem, como ausência, atraso e ecolalia, interesses restritos, movimentos repetitivos e estereotipados do corpo, dificuldade na interação social recíproca ou espon- tânea, sensibilidade ao som e obstáculos no pensamento abstrato (APA, 2014). De acordo com Millan e Postalli (2019), as características singulares observadas em indivíduos com TEA resultam em desafios no processo de apren- dizagem dos conteúdos ministrados em sala de aula, especialmente quando segue-se a abordagem tradicional de ensino. Portanto, a implementação de adaptações curriculares emerge como uma estratégia viável para concretizar a inclusão escolar de alunos com deficiências. Ao implementar uma adaptação ou estratégia de ensino para o aluno, é determinante que o docente tenha uma definição clara dos objetivos educa- cionais almejados com a atividade. Isso inclui compreender de que maneira a atividade contribuirá para o desenvolvimento das habilidades e competências 50 Considerações sobre o fazer docente do aluno, assim como determinar os critérios de avaliação aplicáveis. As adap- tações curriculares podem ser categorizadas em dois tipos: não-significativas e significativas. As adaptações não-significativas abrangem ajustes menores e de execução mais simples, tais como modificações no ambiente, adaptação de materiais e a utilização de diferentes abordagens no ensino do conteúdo (como jogos, música, pintura, material concreto, massinha de modelar, entre outros). Por outro lado, as adaptações significativas são mais abrangentes, demandando a participação e planejamento de toda a instituição escolar. Essas adaptações nem sempre podem ser implementadas em um curto prazo, pois envolvem diversas questões relacionadas à acessibilidade, incluindo a remoção de barreiras arquitetônicas, organização didática e avaliação. Essas adaptações visam proporcionar maior autonomia aos educandos na escola (OLIVEIRA; MACHADO, 2009). A integração da criança com TEA não deve limitar-se à mera presença na sala de aula, pelo contrário, deve objetivar a efetiva aprendizagem e o desenvolvimento das habilidades e potencialidades, ultrapassando os desafios existentes. A responsabilidade pela inclusão não recai exclusivamente sobre o professor, mas deve envolver toda a escola. A colaboração de toda a equipe escolar é essencial para o êxito da inclu- são. É necessário superar a noção de divisão entre o ensino regular e o espe- cial, uma vez que essa colaboração deve ocorrer de maneira integrada. Nesse sentido, os professores da classe comum e os especializados podem cooperar mutuamente, compartilhando conhecimentos para aprimorar o processo de ensino e aprendizagem dos alunos com autismo. Nesse contexto, é crucial que a escola proporcione condições adequadas para a inclusão, incluindo turmas com um número de alunos apropriado, profes- sores com conhecimento sobre a condição da criança, infraestrutura adaptada de acordo com as mudanças cognitivas e sensoriais do aluno, currículos escolares cuidadosamente ajustados e uma equipe educacional treinada para lidar com possíveis desafios comportamentais. Essas medidas são indispensáveis para garantir a eficáciado processo de aprendizagem (GOMES; MENDES, 2010). Conforme Oliveira (2020) destaca, não existem fórmulas prontas para a inclusão de alunos autistas. O conhecimento específico sobre cada estudante é fundamental, sendo a partir desse entendimento que professores e escola 51 ISBN 978-65-5360-548-0 - Vol.1 Ano 2024 - www.editoracientifica.com.br encontram as abordagens mais adequadas para suas práticas educativas. O autor enfatiza que, por meio de um processo contínuo de observação, avaliação e mediação, os docentes podem planejar intervenções e adaptações mais eficazes. O quadro a seguir são exemplos de algumas adaptações e estratégias com diferentes objetivos que podem ser utilizadas dentro da escola para auxílio ao aluno com TEA: Quadro 1: Adaptações de estratégias para o contexto escolar Adaptações para o contexto escolar Usar determinados recursos comunicativos para facilitar o processamento da informação e consequen- temente a resposta e aprendizagem, como por exemplo, usar frases objetivas e curtas, evitar uso de metáforas ou expressões de duplo sentido. Auxiliar na compreensão de brincadeiras, antecipando o que vai acontecer. Permitir que o aluno pense (mesmo que leve um tempo maior para processar a informação) antes de responder. Incentivar o aluno a chamar outras pessoas pelo nome (optar por pessoas mais próximas). Identificar e compreender a intenção comunicativa relacionada à ecolalia (repetição de fala de outras pessoas, falas de desenhos, propagandas ou outros), para conseguir contextualizar a fala do aluno. Oferecer previsibilidade nas atividades escolares e mudança de rotina (festividades, comemorações, lanche, passeios escolares, final de turno acadêmico e entre outros). Usar recursos visuais, como desenhos, figuras, fotografias, vídeos ou objetos concretos associado ao aspecto que se pretende desenvolver ou na atividade planejada. Usar histórias sociais para situações sociais do cotidiano, como cumprimentar pessoas, esperar sua vez, despedir-se etc Buscar oportunidades para elogiar quando o aluno atender às solicitações. Usar interesses específicos e preferências do aluno para incentivar habilidades e talentos. Usar recursos de tecnologia (computadores, tablets, aplicativos) para despertar o interesse e promover habilidades comunicativas. Buscar analisar antecedentes de comportamentos inadequados e buscar formas de modificar a situação, por exemplo, excesso de sons misturados, excesso de informação visual, etc… Utilizar estratégias que envolvam atividades psicomotoras e sensoriais, por exemplo, água, areia, mas- sinha, molas, tapetes etc. Promover situações que incentivem a convivência com outras pessoas da mesma faixa etária, como por exemplo, sentar-se ao lado de alunos mais comunicativos que auxiliem na interação social. Propiciar situações de trabalho em grupo, observando como o aluno se comporta e auxiliar na interação com o outro. Fonte: Brito (2007). Nesse sentido, o ambiente escolar recebe o aluno autista de braços abertos, permitindo-lhe ser autêntico, superar desafios à sua maneira e no seu ritmo. Isso proporciona uma inclusão clara e acolhedora, resultando em bene- fícios evidentes e gratificantes tanto para a instituição quanto para a família, que pode testemunhar o progresso do aluno. 52 Considerações sobre o fazer docente Contudo, mesmo diante das diversas oportunidades de inclusão, a Educação Inclusiva permanece um desafio significativo para a educação e a sociedade. Isso se deve ao fato de que a implementação dessa prática vai além de simples adaptações físicas no ambiente escolar. Enquanto as condições da escola representam um desafio potencial para as políticas de inclusão, não se pode desconsiderar a dificuldade inerente à formação docente diante das particularidades do trabalho com a educação inclusiva. Lidar com a diversidade ainda é um desafio para alguns profissionais, especialmente aqueles com muitos anos de experiência, cuja formação difere das atuais práticas educacionais. Portanto, é crucial promover uma transformação no contexto formativo, abrangendo desde a formação inicial do professor até os programas de formação continuada (SILVA, 2020). Quando discutimos a preparação dos professores, é fundamental consi- derar não apenas a formação intelectual, mas também a dimensão afetiva, pois a empatia e a sensibilidade de um professor ao lidar com uma criança autista contribuem para tornar a experiência de aprendizado mais positiva. Para que um educador seja capaz de interagir de maneira eficaz com uma criança no espectro autista, é essencial compreender plenamente esse aluno em sua totalidade. Brande e Zanfelice (2012) destacaram que o insucesso de muitos alunos com Transtorno do Espectro do Autismo está diretamente relacionado à carência de instituições educacionais que assegurem as adaptações necessárias para esses casos. A falta de intervenção pode acarretar pelo menos duas conse- quências prejudiciais: o sofrimento tanto das crianças quanto de seus pais, de um lado, e, de outro, o aumento dos encargos públicos com os custos do tratamento de possíveis transtornos mentais na população adulta. Isso ocorre porque as crianças não atendidas inevitavelmente ampliarão a demanda por cuidados na fase adulta. No Brasil, crianças e adultos com TEA, juntamente com suas famílias, percorrem diversos serviços em busca de atendimento para suas necessida- des. No entanto, uma minoria encontra serviços bem estruturados, enquanto outra parcela consegue atendimento em algumas áreas específicas. Infelizmente, a grande maioria ainda permanece desassistida (OLIVEIRA, 2020). 53 ISBN 978-65-5360-548-0 - Vol.1 Ano 2024 - www.editoracientifica.com.br CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar dos desafios, a inclusão em geral tem avançado ao longo do tempo, proporcionando aos autistas mais oportunidades de desenvolvimento e ampliando suas potencialidades. Torna-se um ambiente onde eles podem sentir-se à vontade e acolhidos para participar plenamente na sociedade, bem como em seus círculos sociais e familiares. Dessa forma, é contundente assegurar uma educação igualitária para a criança autista, garantindo seu acesso à educação e aprendizado de maneira regular, assim como para todos os outros alunos na mesma sala de aula. A uti- lização de recursos e práticas pedagógicas adequadas é capaz de promover o ensino sem prejudicar nenhum aluno. Isso propicia uma educação inclusiva, na qual não apenas a criança autista se beneficia, mas também proporciona às outras crianças a vivência, compreensão e convívio com as diferenças, contri- buindo para a construção de um futuro mais inclusivo e adaptado. Precisamos nos empenhar, estudar, buscar práticas baseadas em evidên- cias que realmente contribuam significativamente para realização da educação inclusiva de fato. Temos um longo caminho a ser percorrido, porém alcançável, é apenas necessário acreditar e empenhar-se para que se concretize, construindo caminhos e processos para um futuro verdadeiramente inclusivo. REFERÊNCIAS ALVES, M. S. J.; LEITE, S. D. A inclusão de crianças com autismo na educação infantil. RECIMA21 - Revista Científica Multidisciplinar, v. 3, n. 10, p. e3102003, 2022. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV-TR. 4. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002. ARAÚJO, A. G. R.; SILVA, M. A.; ZANNON, R. B. 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