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0 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA Dhalila Lage Ferreira INCLUSÃO DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: UMA ANÁLISE BIBLIOGRÁFICA DAS PRÁTICAS E DESAFIOS Viçosa - Minas Gerais 2023 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA Dhalila Lage Ferreira INCLUSÃO DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: UMA ANÁLISE BIBLIOGRÁFICA DAS PRÁTICAS E DESAFIOS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do título de licenciada em Pedagogia, pelo Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa, sob a orientação do professor Tiago Paz e Albuquerque. Viçosa - Minas Gerais 2023 2 RESUMO O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo central analisar os estudos na área de inclusão na educação infantil, especificamente de crianças com Transtorno do Espectro Autista. Este estudo baseia-se em uma revisão bibliográfica realizada por meio de um levantamento das principais pesquisas na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), abrangendo o período de 2020 a 2023, com o intuito de identificar “quais os desafios e estratégias que alguns pesquisadores têm identificado e sugerido para a inclusão de crianças com TEA em escolas regulares”. Os resultados destacam a carência na formação inicial e continuada dos educadores, a falta de infraestrutura adequada e de recursos nas instituições educacionais, bem como a presença de obstáculos de natureza atitudinal no processo de inclusão de crianças com TEA. Esses resultados têm implicações diretas na prática da educação inclusiva e, consequentemente, no progresso das crianças com o Transtorno do Espectro Autista. Palavras Chave: Transtorno do Espectro Autista. Educação infantil. Inclusão. 3 ABSTRACT The central objective of this Final Paper is to analyze studies in the area of inclusion in early childhood education, specifically of children with Autism Spectrum Disorder. This study is based on a bibliographic review carried out through a survey of the main dissertations in the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations (BDTD), covering the period from 2020 to 2023, in order to identify "what challenges and strategies some researchers have identified and suggested for the inclusion of children with ASD in regular schools". The results highlight the lack of initial and continuing training for educators, the lack of adequate infrastructure and resources in educational institutions, as well as the presence of attitudinal obstacles in the process of including children with ASD. These results have direct implications for the practice of inclusive education and, consequently, for the progress of children with Autism Spectrum Disorder. Key words: Autistic Spectrum Disorder. Early childhood education. Inclusion. 4 1. INTRODUÇÃO O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido pela Sociedade Brasileira de Pediatria, em linhas gerais como "um transtorno do desenvolvimento neurológico, caracterizado por dificuldades de comunicação e interação social e pela presença de comportamentos e/ou interesses repetitivos ou restritos" (SBP, 2019, p. 1). As crianças com esse transtorno podem enfrentar muitos desafios durante seu desenvolvimento, principalmente quando entram na fase escolar, na educação infantil, quando ocorrem os primeiros diagnósticos. A educação infantil desempenha um papel crucial no desenvolvimento integral das crianças de 0 a 5 anos, proporcionando um ambiente propício, estímulos adequados, interações sociais, apoio emocional e oportunidades de aprendizado. A abordagem educacional inclusiva, aliada a intervenções precoces e adaptadas, desempenha um papel determinante no auxílio ao desenvolvimento global das crianças com TEA (MINETTO et al., 2015). Giaretta (2021) aponta que a comunicação é um dos principais desafios para as crianças com TEA, pois elas podem apresentar dificuldades em compreender e expressar a linguagem falada; podem apresentar comportamentos motores ou verbais repetitivos e estereotipados, como agitar as mãos ou repetir palavras. Além disso, a interação social pode ser um desafio devido às dificuldades em estabelecer conexões com outras crianças e em entender e seguir as regras sociais. Bandeira (2023) aborda em seus estudos que podem ser identificadas a presença de hipersensibilidade ou hiposensibilidade a estímulos sensoriais (como luzes, sons, texturas). Outro aspecto relevante é a importância da rotina para as crianças com o transtorno, que geralmente preferem uma rotina previsível e podem ter dificuldade em lidar com mudanças repentinas. De acordo com Oliveira (2020) é importante ressaltar que o diagnóstico do TEA deve ser feito por profissionais de saúde qualificados, como psiquiatras, psicólogos ou médicos especialistas em desenvolvimento infantil, que levem em conta a história de desenvolvimento do paciente e realizam uma avaliação abrangente para um diagnóstico preciso e adequado, podendo variar significativamente de uma pessoa para outra. 5 Dados apresentados por Bertaglia (2023), em uma pesquisa realizada pelo CDC (Centro de Controle de Doenças e Prevenção do Governo dos EUA) em 2020, aponta que 1 em cada 36 crianças foi identificada com Transtorno do Espectro Autista. Além disso, os resultados indicaram que a proporção de meninos para meninas com TEA é de 4 para 1. Dada sua relevância, como assunto de interesse público e de política educacional, buscarei analisar, por meio de uma pesquisa bibliográfica em estudos recentes (de 2020 a 2023), quais os desafios e estratégias que alguns pesquisadores têm identificado e sugerido para a inclusão de crianças com TEA em escolas regulares. O presente artigo foi motivado por experiências adquiridas durante meu trabalho como auxiliar de sala na educação infantil, em uma escola particular na cidade de Viçosa-MG, nos anos de 2021 e 2022, o que me fez refletir sobre o processo de inclusão e a postura de algumas professoras e auxiliares frente a crianças com diagnóstico definitivo ou não de TEA. Inicialmente, serão abordados os fundamentos do transtorno do espectro autista, destacando suas características e considerações pedagógicas relevantes. Em seguida, serão apresentadas as legislações que respaldam os direitos das crianças com o transtorno, garantindo sua integração no âmbito educacional, e finalizando essa primeira etapa será discutido como ocorre, ou deveria ocorrer, a relação entre professores e crianças no ambiente escolar. Em uma etapa subsequente será descrita a metodologia empregada nesta pesquisa, fornecendo uma análise abrangente das principais descobertas de alguns estudiosos acerca dos desafios relacionados à inclusão de crianças com TEA na educação infantil. Além disso, serão compartilhadas as sugestões propostas por esses pesquisadores para promover uma inclusão realmente efetiva. Transtorno do Espectro Autista (TEA): aspectos conceituais, clínicos e pedagógicos O TEA é um distúrbio do neurodesenvolvimento que vem sendo estudado há anos. O termo foi utilizado pela primeira vez como autós, que significa auto admiração mórbida, em 1908 por Eugen Bleuler para descrever comportamentos de pacientes esquizofrênicos que apresentavam isolamento social. Somente em 1943 que o Autismo 6 Infantil foi definido pelo psiquiatra austríaco Léo Kanner, compatível com o quadro clínico do diagnóstico do TEA atualmente (GIARETTA, 2021). Pela definição de Gaiato e Teixeira (2018), o TEA é considerado uma condição comportamental em que a criança apresenta prejuízos ou alterações básicas de comportamento e interação social, dificuldades na comunicação, na linguagem verbal e não verbal, apresentando comportamento repetitivos e ou estereotipados, com aversão a quebra de rotina. Os autores definem essas características, ou sintomas, a uma: Condição neurobiológica, de origem genética, o que significa que alterações no códigogenético do feto em desenvolvimento no útero da mãe fazem com que ocorra uma cadeia de reações químicas que modificam à qualidade, a produção, a forma, a organização e o número de células e alteram a expressão química desses neurônios. A maneira como essas células nervosas vão migrar no cérebro para formar conexões e redes neurais também é influenciada. A criança nasce com alterações na estrutura cerebral, na maneira como as células nervosas (neurônios) se organizam no cérebro em formação durante o desenvolvimento fetal …(GAIATO; TEIXEIRA, 2018, p. 21). A fase da primeira infância, principalmente dos 0 aos 3 anos, é a fase crítica em que se desdobra inicialmente o desenvolvimento físico, moral, emocional, cognitivo, da comunicação, entre outras. A Sociedade Brasileira de Pediatria (2019), traz um aspecto importante em relação ao diagnóstico do TEA, onde: Quanto mais precoce a detecção das alterações no DNPM1, maior a capacidade de organização neural através da neuroplasticidade e potencial de mielinização cerebral, uma vez que nos primeiros anos de vida que a formação sináptica apresenta maior velocidade e resultados satisfatórios. Além disso, a estimulação precoce aproveita o período sensitivo determinado pelas janelas de oportunidades no cérebro da criança (SBP, 2019, pág.19). As principais causas do TEA, como apontam Gaiato e Teixeira (2018), são: ● Fatores genéticos: principal responsável pelo transtorno. Estudos científicos mostram que pais que já têm um filho com TEA têm 18% de chance de ter outro filho com o mesmo transtorno. A chance de gêmeos idênticos apresentarem, ambos, o transtorno é de 36 a 95%. Filhos de pais mais velhos (que geram após os 40), apresentam maior probabilidade de desenvolver o TEA; 1DNPM: desenvolvimento neuropsicomotor consiste na aquisição progressiva de habilidades (p ex. andar, falar, reconhecer pessoas) por parte da criança à medida que ela vai crescendo (UFMG, 2019). 7 ● Fatores ambientais: "doenças congênitas, como rubéola, encefalites, meningites, uso de drogas ou medicamentos com alto potencial tóxico, prematuridade do parto, baixo peso ao nascimento, entre outros fatores" (ibid., p. 22), podem produzir alterações cerebrais, alterar fatores imunológicos e bioquímicos, desencadeando o comportamento do autismo; ● A Epigenética: "a epigenética pode influenciar respostas imunológicas maternas relacionadas à maior suscetibilidade para o transtorno do espectro autista" (ibid., p.23) estando ligadas a rotina da mãe como o tabagismo, uso de substâncias químicas, excesso de álcool, obesidade, desnutrição, provocando alterações intra uterinas. O diagnóstico do TEA é realizado de forma clínica, através da observação e dos instrumentos de rastreio, para que se identifique os déficits e atrasos no desenvolvimento, apontando possíveis sinais (GIARETTA, 2021). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) é uma classificação desenvolvida pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, 2014), apresentando sua 5ª edição, que descreve critérios diagnósticos e informações sobre diferentes transtornos mentais, incluindo o TEA. Reconhece a variação na gravidade dos sintomas do TEA, desde quadros mais leves até formas mais graves do transtorno. Além disso, o DSM-5 inclui especificadores adicionais para identificar características específicas, como o nível de desenvolvimento da linguagem e a presença de comprometimento intelectual (GIARETTA, 2021). A Sociedade Brasileira de Pediatria (2019) relata que, além dos déficits comumentes relacionados ao transtorno, como isolamento social, dificuldades de comunicação e aversão a quebra de rotina, existem comorbidades que são frequentementes associadas ao transtorno do espectro autista como: transtorno de ansiedade; transtorno do déficit de atenção; hiperatividade; deficiência intelectual distúrbios neurológicos, epilepsia; entre outras. Poersch (2020) expõe que, ao longo do tempo, a sociedade tem desenvolvido e reforçado comportamentos que acabam por criar barreiras atitudinais relacionadas às pessoas com TEA. Isso ocorre por meio de ações, omissões e linguagem produzidas pela sociedade, que isolam pessoas que não se enquadram nos padrões preestabelecidos. 8 Isso resulta na restrição do exercício de direitos e responsabilidades relacionadas à vida, moradia, mobilidade, acessibilidade, cultura, comunicação, sexualidade, parentalidade, educação, esportes, lazer e trabalho para esses indivíduos na sociedade. Políticas Educacionais e os Direitos das Crianças com TEA na Educação Infantil A fase da primeira infância é considerada crucial para o desenvolvimento humano e conforme disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente, Artigo 4º Parágrafo único (ECA, 1990), "é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação…", protegendo de forma integral a criança e o adolescente. Assim como o ECA, que aponta o direito das crianças à educação, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) em seu Artigo 208, inciso IV da Lei nº 9.394 garante em comitância com o Estado a "Educação Infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 53 de 2006)” (BRASIL, 1996). Para garantir o acesso dos estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) à educação básica regular, foram implementadas políticas públicas e leis ao longo dos anos até chegar a se concretizar uma verdadeira inclusão para essas crianças. A história do percurso da educação inclusiva tem seu destaque em 1994, na Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais realizada em Salamanca, Espanha, conhecida como a Declaração de Salamanca, provocando um impacto significativo nas políticas educacionais em todo o mundo, promovendo a inclusão de pessoas com deficiência em ambientes educacionais regulares e respeitando o princípio de que a diversidade é uma riqueza a ser celebrada na educação (MENEZES, 2001). Em 2 de abril de 2007, a ONU estabeleceu o Dia Mundial da Conscientização do Autismo para destacar a importância de conhecer e abordar adequadamente esse transtorno. No Brasil, em 2012, foi sancionada a Lei Berenice Piana (12.764/12), que estabelece a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Esse marco legal foi crucial para garantir direitos às pessoas com 9 TEA, garantindo o acesso a diagnósticos precoces, tratamentos, terapias e medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, a legislação abrange a educação, a proteção social, o emprego e serviços que buscam promover a igualdade de oportunidades para esses indivíduos. O TEA foi oficialmente integrado à perspectiva da Educação Inclusiva somente em 2012, enquadrado entre os transtornos do neurodesenvolvimento. Essa inclusão foi realizada como uma categoria unificada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) em 2013, unindo todas as subcategorias2 apontadas no autismo sob um único diagnóstico: Transtorno do Espectro Autista (FERNANDES, 2020). A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (13.145/15), promulgada em 6 de julho de 2015, cria o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que aumenta a proteção aos portadores de TEA ao definir a pessoa com deficiência como “aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial” ( FERNANDES, 2020). Tem como objetivo garantir e promover a igualdade de oportunidades, a participação plena e efetiva e a inclusão social das pessoas com deficiência. Ela estabelece uma série de direitos e garantias para pessoas com deficiência no Brasil, sendo os principais pontos: acessibilidade a espaços públicos e privados; acesso à educação inclusiva em escolas regulares; cotas para a contratação e inclusão no mercado de trabalho; acesso adequado a serviços de saúde; programasde assistência social; serviços de mobilidade; reforço dos princípios fundamentais, como o respeito à dignidade, a não discriminação, a igualdade de oportunidades e a participação ativa da pessoa com deficiência na sociedade (BRASIL, 2015) Como deferida na Lei apresentada anteriormente, a educação inclusiva é um direito humano fundamental, que permite a todas as crianças, independentemente de suas habilidades ou características, aprenderem juntas e se desenvolverem plenamente (ARANHA, 2003). No entanto, a efetivação desse acesso vai além da simples inserção do estudante nas redes de ensino. É imprescindível assegurar a sua permanência no ambiente escolar, conforme estabelecido no artigo 59 da Lei nº 9.394, a LDB, os sistemas de ensino devem garantir aos alunos com TEA: currículos, métodos, técnicas, e recursos educativos específicos para atender às suas necessidades; oportunidades de 2 “A Síndrome de Asperger não é mais considerada uma condição separada e o diagnóstico para autismo passa a ser definido por dois critérios: as deficiências sociais e de comunicação e a presença de comportamentos repetitivos e estereotipados” ( FERNANDES, 2020). 10 educação especial para o trabalho; docentes capacitados e com especialização adequada; bem como serviços de apoio especializados, sempre que necessário, desde a educação infantil até a vida adulta (BRASIL, 1996). Dentre os diversos profissionais que atuam em prol ao desenvolvimento das crianças com TEA, identificando e compreendendo os comportamentos típicos e atípicos - pediatras, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos, nutricionistas… - o papel do professor é de suma importância, necessitando a intervenção nos diversos campos da inclusão, proporcionando o desenvolvimento integral de seus alunos (GIARETTA, 2021). O papel do professor e a relação com a criança com TEA Considerando todo o percurso de batalha pelos direitos educacionais das crianças, especialmente aquelas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), é essencial ressaltar a dinâmica das interações adversas dentro das instituições escolares, mais especificamente nas salas de aula, e como se configura a relação entre os professores e as crianças. O biólogo e psicólogo Jean Piaget (1958), enfatizou que as crianças passam por estágios de desenvolvimento sequenciais e que cada estágio tem suas características e limitações. Os educadores devem levar em consideração o estágio atual de desenvolvimento das crianças ao planejar suas atividades e abordagens pedagógicas, oferecendo desafios adequados às suas capacidades. Poker (2013) acrescenta que o papel do professor em uma escola inclusiva é de facilitador do conhecimento, estimulando a participação ativa do aluno. Para que isso ocorra, a ação do professor deve ser delineada pelo Plano de Desenvolvimento Individual (PDI), elaborado pelo professor de Atendimento Educacional Especializado3 com apoio do coordenador da unidade escolar. "O PDI serve para registrar os dados da avaliação do aluno e o plano de intervenção pedagógico especializado que será 3 O AEE ( Atendimento Educacional Especializado) ocorre em horário contrário ao da classe regular, com uma proposta de trabalho complementar específico, auxiliando na compensação ou superação das limitações de cada aluno (POKER, 2013). 11 desenvolvido pelo professor na Sala de Recursos Multifuncional" (POKER, 2013, p. 21). GIARETTA (2021) complementa que o uso PEI4 é dividido em quatro etapas de elaboração, que são, 1ªetapa: É necessário que se identifique, por meio da observação, o perfil do aluno, sempre deixando em evidência suas habilidades, mas também priorizando suas necessidades características, Quanto mais o professor for capaz de conhecer seu aluno, ou seja, seus interesses e suas particularidades, melhor serão os apontamentos e, consequentemente, melhor será o direcionamento dos conhecimentos a serem adquiridos. 2ªetapa: Após identificadas as habilidades, bem como as necessidades específicas para que o processo de aprendizagem seja efetivo e com qualidade, o próximo passo é definir as metas e os prazos para cada conteúdo. Devem ser separados e elencados por curto, médio ou longo prazo. É de suma importância que o tempo de cada conteúdo/atividade seja previamente definido no planejamento para que o processo possa ser avaliado e reavaliado, partindo sempre das observações iniciais (1ª etapa). 3ªetapa: Após a definição das metas, deve-se mensurar e estipular os prazos por meio de um cronograma de execução, deixando expressamente definida a ordem das tarefas e seus respectivos prazos. O cumprimento e a execução dos prazos são parte fundamental para que o PEI tenha a efetividade esperada. 4ªetapa: A última etapa destina-se a avaliar todo o processo. Ressaltamos que para avaliar devemos utilizar ferramentas variadas e condizentes com as especificidades identificadas e conduzir adequadamente as etapas anteriores. Todos os processos precisam ser registrados e o planejamento deve ser realizado com antecedência e definido com foco e objetividade (MASCARO, 2018, apud GIARETTA, 2021, p. 76-77). O professor necessita intervir nos diversos campos da inclusão, valorizando ações pedagógicas que enaltecem a equidade de oportunidades de acordo com cada turma/tema. É importante ressaltar a importância do trabalho conjunto entre os professores e todos que acompanham a criança, desde as auxiliares até a equipe de 4 O PEI (Plano Educacional Individualizado) é outro termo utilizado para o PDI ( Plano de desenvolvimento Individual), sendo “um instrumento que favorece o planejamento de maneira específica, direcionada e única. É um documento que avalia o aluno de acordo com suas especificidades acadêmicas, auxiliando o professor…” (GIARETTA, 2021, p. 76). 12 profissionais (saúde e educação), e principalmente a família, considerada como “fio condutor” de todo processo, intensificando o trabalho de todos a fim que seja coeso e efetivo (GIARETTA, 2021). Em uma pesquisa analisada por Minetto et al. (2015), os resultados demonstram que a formação do professor não está de acordo com as necessidades atribuídas à sua prática, mesmo aqueles que possuem alguma formação superior na área de educação especial se sentem inseguros ao enfrentar o processo de inclusão. Dialogando nesse aspecto, Giaretta (2021) afirma que é de grande importância o conhecimento dos professores sobre as diferentes fases de desenvolvimento das crianças com TEA, para que possam ser realizados métodos, atividades e ferramentas que estimulem as áreas em cada período, proporcionando avanços e agindo sobre os déficits. Minetto et al. (2015) acrescentam que a escola como um todo também precisa estar preparada para receber as crianças, fazendo as devidas adaptações, mudanças de postura, procedimento de ensino, etc. A implementação da inclusão na educação infantil traz consigo desafios e barreiras, que podem ser de natureza estrutural, pedagógica e atitudinal. Superar esses desafios exige uma reorganização do sistema educacional que permita a implementação bem-sucedida da inclusão com alta qualidade. Nesse contexto, é importante analisar como diversos estudiosos e pesquisadores abordam os desafios pedagógicos associados à inclusão de crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e quais sugestões eles apresentam para efetivar uma verdadeira inclusão escolar. METODOLOGIA Este estudo adota uma abordagem qualitativa e utiliza a pesquisa bibliográfica. De acordo com Sousa, Oliveira e Alves (2021, p. 66) uma pesquisa bibliográfica consiste no “levantamento ou revisão de obras publicadas sobre a teoria que irá direcionar o trabalho científico, dedicação, estudo e análise por parte do pesquisador, com o objetivo de reunir e analisar textos publicados”. Na primeira etapa da elaboração desta revisão, foram coletados dados no site da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), utilizando os seguintes 13 termos parabusca: “autismo” + (“educação infantil” ou “creche” ou “primeira infância”) onde foram encontrados 107 trabalhos publicados em toda a base de dados. Para a segunda etapa foram considerados alguns critérios de inclusão e exclusão com as seguintes opções: 1. Critérios de inclusão: trabalhos publicados nos últimos 4 anos (2020 a 2023, considerando o período de pandemia e pós-pandemia); trabalhos voltados para a área de ciências humanas, especificamente da educação, com temas centrados especificamente em inclusão, educação infantil, autismo e práticas pedagógicas; e que foram escritos em português. 2. Critérios de exclusão: trabalhos que estejam fora dos critérios de inclusão; publicadas anteriormente ao ano de 2020; que não discutem diretamente, e prioritariamente a relação de inclusão e educação infantil; voltados para áreas específicas, apresentando em seus títulos e resumos temas sobre música, ciências, educação física, artes, etc. Dos 107 trabalhos inicialmente encontrados, foram excluídos 73 Dissertações publicadas anteriormente ao ano de 2020. Com isso a amostragem passou para a análise de 34 trabalhos publicados. Após a leitura dos resumos, e verificação dos demais critérios de inclusão e exclusão, foram selecionadas 7 dissertações e listadas no Quadro 1. A coleta de dados foi realizada até o dia 01 de julho de 2023. Quadro 1 - Pesquisas acadêmicas sobre Autismo e Educação Infantil, 2020-2023. N TÍTULO AUTOR (A) PROGRAMA ANO 1 Alunos com autismo no ensino regular: caracterização e análise de repertórios profissionais da docência. PINTO, Anderleuza Viana. Dissertação – Psicologia do Desenvolvimento e aprendizagem – FC. 2020 2 “O essencial é invisível aos olhos e cativa o coração “: Superação de barreiras atitudinais no processo de ensino de estudantes com TEA na Educação Infantil. POERSCH, Lauren Azevedo. Dissertação - Mestrado Acadêmico em Ensino da Universidade Federal do Pampa. 2020 14 3 A criança com transtorno do espectro autista na sala regular da educação infantil: das políticas educacionais às práticas pedagógicas em João Pessoa-PB SANTOS, Isabelle Sercundes Dissertação - Programa de Pós-Graduação em Educação. 2020 4 Plano educacional individualizado e sua importância para a inclusão de crianças autistas. OLIVEIRA, Marines Andreazza de. Dissertação - Programa de pós-graduação em ensino. 2020 5 Formação de professores da educação infantil acerca dos mitos e concepções sobre o ensino da criança com autismo. CRUZ, Daniele Rita. Dissertação - Pós-graduação em Educação Especial-PPGEES. 2022 6 Auto eficácia e a percepção de professores de educação infantil sobre sua formação e atuação com crianças com Transtorno do Espectro Autista. SORIANO, Fernanda Dias Ferraz. Dissertação - Pós-graduação Educação – FFC. 2022 7 A inclusão de alunos com transtorno do espectro autista (TEA) na educação infantil: formação de professores, políticas públicas e práticas pedagógicas. SOARES, Rosângela Teles Carminati. Dissertação - Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Cultura e Fronteiras. 2022 Fonte: Elaboração própria Em seguida foram realizadas a leitura na íntegra dos 7 dissertações publicados, destacando suas principais informações, como o tipo de pesquisa realizada, os objetivos e resultados para a análise. RESULTADOS E DISCUSSÃO Na era da diversidade educacional, a inclusão de crianças com o Transtorno do Espectro Autista na educação infantil surge como um tema de relevância incontestável. Este tópico visa apresentar as descobertas e análises provenientes da pesquisa sobre a efetividade das práticas inclusivas na educação infantil, e seus desafios no contexto de crianças com TEA. Foram examinados o tipo de pesquisa, os principais participantes, o local aplicado, os objetivos e principais resultados das pesquisas apresentadas pelos autores, como apresentado no Quadro 1. 15 Quadro 2 - Caracterização geral do tipo de pesquisa, participantes, objetivos e resultados dos trabalhos acadêmicos analisados. N TIPO DE PESQUISA PARTICIPANTES/ LOCAL DA PESQUISA OBJETIVOS DA PESQUISA RESULTADOS 1 Estudo de caso de cunho explicativo, de caráter qualitativo. Contou com a participação de uma professora, em uma escola pública de ensino regular da educação infantil, na região periférica de uma cidade do Estado do Amazonas. Tem por objetivo investigar, a partir da análise comportamental, as condições e mediações do trabalho docente na educação infantil considerando a sala de aula com inclusão de alunos com TEA, analisando o planejamento e execução das sequências didáticas no contexto da atuação docente. O estudo identificou que a professora regente não incluía e pouco interagia com a criança com TEA durante as aulas, sem apresentar atividades específica para o mesmo, cabendo a Coordenação Pedagógica da escola elaborar as atividades. Esta mesma professora relata que o conhecimento em relação à educação inclusiva, e os métodos e atividades específicas a serem aplicadas são muito pequenos, afirmando que “as leis existem, mas não garantem, necessariamente, a inclusão.” (PINTO, 2020, p.77). 2 Pesquisa qualitativa, com método de pesquisa-ação. Participaram da pesquisa 12 professoras e 10 atendentes de berçário com e sem estudantes com TEA em suas turmas, em uma escola pública de educação infantil localizada na área urbana, zona periférica, de Bagé (RS). Traz como objetivo apontar quais são as barreiras atitudinais enfrentadas por professoras da educação infantil em relação ao ensino de crianças com TEA, e quais estratégias utilizadas por elas a fim de superá-las. O resultado da pesquisa apontou a falta de preparo e o medo por parte das professoras em lidar com as crianças com TEA e suas famílias, evidenciando as barreiras atitudinais em seus discursos e ações. A pesquisa realizada trouxe momentos de reflexões para as próprias professoras que passaram a valorizar sua profissão, pensar em suas atitudes em sala de aula, atribuindo a presença de barreiras atitudinais não somente por culpa de terceiros, mas de si próprias, propondo novos caminhos para superá-las. 3 Pesquisa qualitativa, exploratória, abrangendo a pesquisa empírica e documental, com contribuição da teoria Histórico-cultural A pesquisa contou com 21 sujeitos incluindo crianças com TEA, professoras, diretora, supervisora e mães, em um centro de referência em educação infantil (CREI), de João Pessoa-PB. O objetivo é problematizar os desafios e atribuições da inclusão de crianças com o transtorno do espectro autista na educação infantil, como as políticas educacionais auxiliam Concluiu-se que as políticas educacionais de inclusão avançaram significativamente ao longo dos últimos anos, mas ainda tem muito a ser feito para se garantir a permanência com participação e aprendizagens das crianças com TEA. A falta de proximidade das professoras em 16 . nesse processo. relação às crianças com TEA, jogando a responsabilidade sobre as cuidadoras, na qual, muitas vezes não tem a formação adequada para a função. Se observou uma maior preocupação em elaborar atividades direcionadas a alfabetização se esquecendo da importância do brincar e das interações com os outros colegas, com e sem deficiências. 4 Estudo descritivo, com abordagem qualitativa com entrevistas semi estruturadas. Participaram da pesquisa 27 professoras que atuavam com alunos com TEA na pré-escola (4-5 anos) em Centros Municipais de Educação Infantil em município do Oeste do Paraná. O objetivo é conhecer a percepção das professoras da educação infantil sobre o Plano Educacional Individual (PDI) como estratégia curricular para a inclusão de crianças com TEA. O resultado da pesquisa mostrou a dificuldade das professoras em relação à definição e aplicação do PDI, destacando a importância do laudo para a prática docente. Apesar das dificuldades, as professoras buscam formas de melhorar o processo de inclusão de crianças com TEA na educação infantil. 5 Pesquisa de intervenção de cunho explicativo. Participação de25 professoras da educação infantil e um agente escolar de duas unidades escolares da educação infantil em um município de médio porte no interior de São Paulo. O objetivo do estudo foi a elaboração e implementação de um programa online, devido a pandemia do COVID-19, de formação de professores sobre o ensino de crianças com TEA na educação infantil, verificando os impactos sobre os mitos presentes no discurso destes profissionais. Os mitos acerca de crianças com TEA acabam interferindo na qualidade de ensino e na prática docente. O estudo reconhece a importância da formação continuada de professores e da ação conjunta entre família, educação infantil e os serviços de saúde para um diagnóstico precoce, reconhecendo as capacidades e limites destas crianças. 6 Estudo transversal, descritivo e correlacional-cau sal. Participaram do estudo 128 professores da educação infantil de uma Rede Municipal em uma cidade do interior de São Paulo. O objetivo central é identificar a autoeficácia e a percepção dos professores da educação infantil sobre sua atuação e formação relacionadas a crianças com TEA. Por meio das respostas apresentadas pelos participantes foi possível analisar os maiores desafios, e a necessidade da formação continuada de professores para atuar com crianças com TEA, destacando o trabalho colaborativo, a acessibilidade curricular, domínio teórico e o envolvimento com a 17 família, entre outros. Verificou-se a necessidade de romper barreiras atitudinais e a necessidade de investimento na formação dos professores da educação infantil. 7 Pesquisa de natureza qualitativa, descritiva e exploratória, por meio de análise de conteúdo. Participaram do estudo 20 professores que atuaram com alunos com TEA. Realizado em cinco instituições de ensino da rede municipal de Educação Infantil, e responsáveis pela diretoria de educação especial, vinculados à Secretaria Municipal de Educação, em Foz do Iguaçu. O objetivo apresentado neste estudo é apresentar, através da visão de professores (as), qual a percepção dos profissionais da educação infantil sobre sua formação inicial e continuada para trabalhar a inclusão de crianças com TEA. Os resultados apontam que as professoras recebem alunos com TEA sem terem uma formação específica na área, o que dificultou a prática docente. O que se explica são as lacunas que foram deixadas durante a formação docente, seja no magistério (ensino médio, seja no curso de pedagogia (ensino superior) , fazendo-se necessária a reformulação das grades de formação docente para que seja feita, de fato, a educação inclusiva em sua plenitude. Destaca-se a importância das famílias para reforçar o que foi trabalhado com seus filhos nas escolas. Fonte: Elaboração própria Analisando o Quadro 1, apresentado no tópico anterior, observamos que o maior número de publicações se encontram em 2020 com 4 trabalhos apresentados, seguidos de 3 trabalhos em 2022. Os anos de 2021 e de 2023 até a data limite apresentada de 1º de julho de 2023, não apresentaram nenhum tipo de pesquisa de acordo com os critérios estabelecidos. A quantidade limitada de publicações não implica automaticamente em falta de importância ou relevância no contexto da inclusão. Ao contrário, pode ser vista como uma chance para os pesquisadores se aprofundarem e contribuírem para essa área em expansão, explorando de maneira mais abrangente as lacunas identificadas durante a pesquisa. Os resultados das pesquisas analisadas estão intrinsecamente ligados à questão da formação das professoras, seja referente à sua formação inicial (magistério, ensino superior em Pedagogia ou Educação Infantil) quanto à sua formação continuada, ou à carência dessa. Essa problemática tem implicações diretas na prática da educação 18 inclusiva e, consequentemente, no progresso das crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Uma análise desses elementos será realizada, com base nas obras anteriormente mencionadas nos Quadros 1 e 2, destacando os principais desafios identificados por PINTO (2020), POERSCH (2020), SANTOS (2020), OLIVEIRA (2020), CRUZ (2022), SORIANO (2022) e SOARES (2022) no contexto da inclusão de crianças com TEA. Posteriormente, será explorada algumas das possibilidades e estratégias que podem ser impostas por essas autoras para superar tais desafios, movimentos de promoção de ambientes educacionais verdadeiramente inclusivos, destacando caminhos inovadores e práticos para quebrar barreiras e construir um espaço onde todas as crianças possam prosperar, independentemente de suas características individuais. Os desafios enfrentados durante a inclusão de crianças com Transtorno do Espectro Autista na rede regular de ensino Para promover uma educação verdadeiramente inclusiva, é contundente ir além da simples inserção da criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ambiente escolar. É imprescindível superar as barreiras atitudinais que frequentemente prejudicam esse processo. Como afirma Mantoan (2003), citado por Cruz (2020), Uma escola inclusiva é aquela que considera os marcos da compreensão e que aprender significa ser capaz de expressar o que sabemos dos mais variados modos, ou seja, ela indica que a escola inclusiva é aquela que considera todas as maneiras de aprender e de expressar-se, respeitando as origens, os valores e os sentimentos individuais de seus alunos. Portanto, a escola deve deixar essa visão hegemônica que ainda têm e reconhecer e considerar as outras formas de entendimento (MANTOAN, 2003, apud. CRUZ, 2020, p.23). Santos (2020) e Poersch (2020) em seus estudos identificaram que as barreiras e desafios durante o processo de inclusão estão interligados de diversas maneiras: 1. Obstáculos no âmbito familiar, que podem surgir devido à demora ou resistência em aceitar o diagnóstico da criança com TEA, resultando em atrasos no seu desenvolvimento; 19 2. Carência de acompanhamento e assistência especializada para os estudantes com TEA, o que compromete seu progresso e adaptação; 3. Rotatividade de professores e cuidadores, prejudicando a construção de vínculos estáveis entre a criança e os profissionais da escola; 4. Falta de regras e rotinas na turma, o que impacta a estabilidade do ambiente e a previsibilidade necessária para muitos alunos com TEA; 5. Escassez de materiais adaptados e infraestrutura inadequada, dificultando a acessibilidade e a aprendizagem; 6. Insuficiente formação e preparo por parte das professoras e cuidadoras, incluindo a ausência de formação continuada e reuniões regulares para compartilhar conhecimentos e experiências no ambiente escolar. No contexto do processo de ensino-aprendizagem, Poersch (2020) aponta que é crucial reconhecer que barreiras atitudinais, mesmo sem a intenção de excluir, podem ter impactos negativos. Discursos como do tipo "balançar de um lado para outro", "ser uma criança agressiva", "permanecer em seu próprio mundo", acaba fortalecendo a presença de estigmas associados às crianças com TEA. A autora acrescenta que através das barreiras atitudinais aferidas, é possível identificar um processo de invisibilização dos estudantes com TEA, presente na prática de profissionais, apesar da existência de políticas públicas que garantem o direito ao acesso e permanência dessas crianças em escolas regulares, "este só será efetivo se as práticas estabelecidas em sala de aula forem inclusivas, valorizando as diversidades inerentes ao desenvolvimento humano" (POERSCH, 2020, p. 212). De acordo com os resultados apresentados na pesquisa de Pinto (2020) no que diz respeito à inclusão de crianças com TEA em sala de aula regular e a atuação docente, a professora participante do estudo faz um questionamento em relação à formação pedagógica sobre o trabalho com crianças com o transtorno em que ela define que o “conhecimento em relação a isso é muito pequeno. Eu vejo até na graduação, a disciplina em relação a isso é muito curta e aí hoje eles estão entre nós, é um desafio" (p.86). A autora afirmaque esse "posicionamento revela a necessidade de mais estudos que possam contribuir para a formação continuada dos docentes, de maneira que se caminhe para uma inclusão educacional de sucesso" (PINTO, 2020, p.86). Assim como os autores citados anteriormente, Cruz (2022) aponta o despreparo dos docentes em atuar com alunos com TEA, o que neste caso, leva a uma preocupação 20 desses profissionais da educação em relação às atividades propostas que acabam realizando práticas pedagógicas diferenciadas pensando na inclusão. Através da pesquisa realizada, a autora evidenciou a falta de conhecimento e a presença de mitos no discurso de algumas professoras em relação às características do transtorno. Assim, se faz necessária a busca de informações e conhecimentos de seu aluno com TEA, conhecendo suas dificuldades e habilidades para promover seu pleno desenvolvimento. A autora ainda destaca a limitação da formação das professoras, baseada em leituras e reflexões de textos com poucas horas de prática (CRUZ, 2022). Em seus estudos, Oliveira (2020) destaca a importância do Plano Educacional Individual-PEI para o processo de inclusão e escolarização da criança com TEA. O grande problema observado durante a pesquisa, é a indefinição conceitual e o entendimento sobre a aplicabilidade e elaboração do PEI pelas professoras. A autora aponta a importância da participação atuante da família unida aos docentes no processo de inclusão. Ainda se vê a necessidade de atendimentos multidisciplinares para essas crianças, a ausência de salas de Recursos Multifuncionais de Atendimento Educacional Especializado, e a carência de apoio às professoras que acabam recorrendo à coordenação. Soares (2020) aponta as lacunas deixadas na formação inicial de professoras atuantes na educação infantil, que apesar de já ofertada formações a respeito da inclusão de crianças com o Transtorno do Espectro Autista na Educação Infantil ainda são necessários avanços, ampliando a formação dos professores e seu aperfeiçoamento, levando em consideração também a formação do profissional de apoio. A pesquisa de Santos (2022) ressalta a relação crucial entre o ato de cuidar e educar, enfatizando a importância de uma interação positiva entre cuidadoras e professoras. Nos ambientes educacionais atuais, nota-se uma separação de responsabilidades entre esses dois grupos, onde as cuidadoras são encarregadas dos cuidados físicos, enquanto as professoras são limitadas ao papel de alfabetizar e educar. No entanto, é essencial compreender que todos esses aspectos estão profundamente interligados. A dissociação dessas funções resulta na falta de estreitamento dos vínculos entre professoras e crianças, sobrecarregando as cuidadoras com responsabilidades adicionais. Soriano (2022) constatou em sua pesquisa que 79% dos participantes identificaram desafios para realizar trabalhos de qualidade com crianças com TEA 21 apresentando baixa Autoeficácia e grande insegurança por parte dos docentes afirmando a necessidade da utilização de "estratégias e recursos que oportunizem o acesso da criança ao currículo, espaços, saberes, por meio de oportunidades e práticas que viabilizem sua aprendizagem, considerando suas potencialidades e eliminando, assim, as barreiras que impedem o desenvolvimento integral da criança" (SORIANO, 2022, p.82). Algumas das principais propostas apresentadas pelos autores para o fortalecimento da Educação Inclusiva Para promover a inclusão de forma efetiva, não se limita apenas ao apoio da Educação Especial, mas requer uma análise abrangente das condições dos espaços coletivos em que as crianças convivem na educação. Esses espaços devem ser desenvolvidos de maneira a promover diversas interações entre as crianças, bem como entre adultos e crianças, contribuindo assim para seu desenvolvimento (SANTOS, 2020). No que concerne às principais abordagens para superar os desafios da inclusão e promover o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Anderleuza Pinto (2020) destaca em sua pesquisa a necessidade das professoras demonstrarem sensibilidade incluindo as crianças com TEA em atividades grupais, porque é no processo de socialização que se fundamenta o crescimento e a aprendizagem das crianças. Além disso, a autora enfatiza a importância do planejamento das aulas, ressaltando a necessidade de estabelecer objetivos claros para o ensino dos conteúdos. Esses objetivos não apenas auxiliam os professores na organização de suas práticas, mas também permitem a avaliação do que foi ou não alcançado pelos alunos (PINTO, 2020). Nesse contexto, Poersch (2020) acrescenta que é viável criar um planejamento que atenda a todas as necessidades dos estudantes, incluindo aqueles com TEA, e que estimule o desenvolvimento de suas habilidades, superando suas dificuldades, permitindo uma efetiva inclusão na turma. Além disso, a autora destaca a importância de adaptar os recursos pedagógicos de acordo com a heterogeneidade do grupo, levando 22 em consideração os interesses e ritmos de aprendizagem. Isso pode envolver a utilização de recursos lúdicos ou brinquedos que possam desempenhar um papel educativo. Oliveira (2020) destaca a relevância de incorporar quadros de rotina, bem como o uso de figuras e imagens como recursos em salas de aula com alunos que têm TEA. Isso se deve às dificuldades que essas crianças enfrentam na compreensão de situações coletivas e na comunicação verbal. Poersch (2020) ressalta a importância de manter um diálogo contínuo e promover estudos no ambiente acadêmico e escolar sobre a diversidade e inclusão. Isso é fundamental para superar as barreiras atitudinais, que, por sua vez, são essenciais para lidar com as demais barreiras, como as pedagógicas, comunicativas e arquitetônicas, por elas geradas. Dentre essas barreiras, O ambiente para o aluno com TEA precisa ser pensado em todos os sentidos, desde a entrada, os fatores espaciais, a acessibilidade, o silêncio, padrões de espaço, alguns fatores sensoriais como a acústica, sol e brilho, cheiro, acabamentos e acessórios. Todo o ambiente precisa ser preparado para receber esse aluno e analisar o comportamento desse no ambiente escolar pode auxiliar para a sua socialização e realização das atividades (SOARES, 2022, p.118). Complementando, a autora aponta que para atender a educação inclusiva nas salas regulares é preciso investir não somente em formações continuadas das professoras, mas também das auxiliares e cuidadoras. Além desses investimentos, Santos (2020) ressalta que é preciso investir na oferta do atendimento educacional especializado e na implantação de salas de recursos, sendo uma forma de contribuir para o acesso e a permanência das crianças com TEA nas escolas regulares. No entanto, Cruz (2022) aponta que nenhuma formação continuada será suficiente para a atuação docente, mas ela pode oferecer autoconfiança ao longo do tempo, evitando maiores desafios. As famílias também demandam atenção e cuidados específicos. De acordo com Cruz (2022), é crucial que os professores acompanhem, acolham e avaliem a relação entre família e escola. Um diálogo eficaz estabelece um ambiente em que os professores se sentem mais seguros, reconhecendo o aluno à sua frente com base na confiança depositada em seu trabalho pela família. 23 Da mesma forma que Cruz (2022) enfatizou a importância da relação entre família e escola no processo de desenvolvimento e inclusão de crianças com TEA, Soriano (2022) reforça essa perspectiva e destaca os principais elementos essenciais para uma prática pedagógica eficaz com crianças que possuem TEA. Ressalta a necessidade de “domínio teórico, acessibilidade curricular, compreensão da aprendizagem e comportamento no contexto do TEA, desenvolvimento infantil, recursos disponíveis e uma abordagem de intervenção específica para crianças com TEA” (SORIANO, 2022, p. 94). CONSIDERAÇÕES FINAIS A Educação infantil inclusiva desempenha um papel fundamentalno desenvolvimento de crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela oferece uma série de benefícios cruciais, como a promoção da integração social, o estímulo à amizade, a redução do estigma e da discriminação, o desenvolvimento da empatia e a garantia de inclusão acadêmica, proporcionando acesso ao mesmo currículo e às mesmas oportunidades que seus colegas típicos. Além disso, a educação inclusiva valoriza a diversidade no meio escolar, fortalece o envolvimento das famílias e estabelece parcerias mais sólidas com a escola. Ao frequentar uma escola regular inclusiva, as crianças com TEA se preparam para a vida real, em que terão que interagir com pessoas diversas. Inicialmente, esta pesquisa tinha como foco as limitações da inclusão de crianças com TEA na educação infantil. Os resultados encontrados direcionam a atenção para a prática docente e a falta de aprofundamento em relação à educação especial na formação inicial e continuada dos professores, o que gera insegurança e despreparo para lidar com o processo de inclusão. Mesmo que algumas pesquisas tenham sido realizadas durante a pandemia do COVID-19, a participação limitada de algumas professoras não impactou diretamente nos resultados, fazendo-se o uso das tecnologias digitais e questionários online. Diante destes resultados apresentados, fica evidente que, apesar dos avanços das políticas públicas educacionais e das práticas pedagógicas em relação às crianças com TEA, ainda existem lacunas no processo de inclusão. A formação continuada de 24 professores é essencial para acompanhar as mudanças na educação e na sociedade, promovendo o desenvolvimento profissional dos educadores e, principalmente, oferecendo uma educação de qualidade e inclusiva para os alunos. Professores bem preparados exercem um impacto significativo no sucesso dos estudantes, e a formação continuada é uma maneira de garantir que eles estejam preparados para enfrentar os desafios em constante evolução da sala de aula. A formação continuada não será a solução de todos os problemas, mas irá fornecer maior segurança para os docentes em lidar com determinadas situações ao longo do dia-a-dia, através de um processo contínuo. Toda a equipe escolar deve participar desse processo, como uma forma de proporcionar uma compreensão abrangente do TEA. Deve-se considerar diferentes métodos para o desenvolvimento dessas crianças através de recursos visuais e concretos, a partir dos interesses inerentes da criança,e um olhar mais sensível para a socialização de toda turma. Além disso, a verdadeira inclusão vai além da criança, estendendo-se à colaboração efetiva entre a família e a escola. Considerar maneiras de não apenas integrar a criança no ambiente escolar, mas também aproximar laços entre família e escola, contribui significativamente para o sucesso da abordagem inclusiva, criando um ambiente de aprendizado que valoriza e atende às necessidades de cada aluno com TEA. É fundamental destacar não apenas a relevância da formação contínua dos professores e da preparação do ambiente escolar para a inclusão, mas também é crucial uma boa interação entre professores e auxiliares. Essa interligação não deve dissociar o cuidar e o educar na fase da educação infantil, uma vez que o desenvolvimento das crianças depende da harmonia entre esses conceitos e de uma relação sólida entre todo o corpo docente. A inclusão é um processo fundamental não apenas para crianças consideradas atípicas, mas para toda a sociedade. Ao promover a conscientização e a acessibilidade à diversidade nas escolas, estamos contribuindo para a formação de cidadãos mais empáticos e conscientes, preparados para viver em um mundo diversificado. Essa abordagem também estimula uma cultura de respeito, aceitação e igualdade. Este estudo ressalta a necessidade de melhorias na educação, fortalecendo o suporte e os recursos para a inclusão na educação infantil, promovendo a conscientização e a acessibilidade da diversidade nas escolas, incentivando a criação de ambientes inclusivos. Além disso, destaca a importância da continuidade das pesquisas 25 nessa área devido às lacunas identificadas, o que fortalecerá a relevância e o impacto na melhoria da inclusão de crianças com TEA na educação infantil. Não se trata apenas de garantir a presença de todos na sala de aula, mas de criar uma cultura de respeito, aceitação e valorização das diferenças, para que cada criança possa florescer e alcançar seu potencial máximo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. ARANHA, Maria Salete Fábio. Saberes e Práticas da Inclusão. 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