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ARBOVIROSES (DENGUE, CHIKUNGUNYA E ZIKA) P R O F . S É R G I O B E D U S C H I F I L H O Estratégia MED Prof. Sérgio Beduschi Filho| Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) 2INFECTOLOGIA Neste livro será abordado um dos principais temas da Infectologia. Questões sobre arboviroses compreendem cerca de 10% das questões dessa especialidade! É um tema muito abrangente: pode ser encontrado em questões de clínica médica, pediatria, medicina preventiva ou obstetrícia. Veja na tabela abaixo a frequência de cada arbovirose em questões de provas de Residência Médica: Tema Frequência (%) Dengue 79% Chikungunya 18% Zika 18% Outras arboviroses 0,5% A engenharia reversa é uma ferramenta essencial para orientar o aluno em seus estudos. Este livro revela o conteúdo necessário para responder corretamente às questões de provas sobre arboviroses, explorando todos os aspectos cobrados em concursos de Residência Médica. APRESENTAÇÃO PROF. SÉRGIO BEDUSCHI FILHO Tabela 1 - Distribuição de questões por tema – arboviroses. @estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed @profsergioinfecto @estrategiamed https://www.instagram.com/estrategiamed/?hl=pt https://www.facebook.com/estrategiamed1/ https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed https://www.instagram.com/prof.barbaradalegria/ Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 3 SUMÁRIO 1.0 DENGUE - INTRODUÇÃO 7 2.0 DENGUE - CARACTERÍSTICAS GERAIS 8 3.0 DENGUE - FISIOPATOLOGIA 11 3.1 TRANSMISSÃO 11 3.2 PERÍODO DE INCUBAÇÃO 12 3.3 VIREMIA E RESPOSTA IMUNE 12 3.4 PATOGENIA 13 3.4.1 CHOQUE DA DENGUE 16 3.4.2 REINFECÇÃO E RISCO DE DENGUE GRAVE 16 3.4.3 DENGUE E GESTAÇÃO 18 4.0 DENGUE - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 20 4.1 FASES CLÍNICAS 20 4.1.1 FASE FEBRIL 20 4.1.2 FASE CRÍTICA 22 4.1.3 FASE DE RECUPERAÇÃO 23 4.2 CLASSIFICAÇÃO – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS) 24 4.2.1 CLASSIFICAÇÃO ATUAL 24 4.2.1.1 DENGUE (SEM SINAIS DE ALARME) 24 4.2.1.2 DENGUE COM SINAIS DE ALARME 25 4.2.1.3 DENGUE GRAVE 26 4.2.2 CLASSIFICAÇÃO ANTIGA 27 5.0 DENGUE - ALTERAÇÕES LABORATORIAIS 32 6.0 DENGUE - DIAGNÓSTICO 33 6.1 EXAME SOROLÓGICO 33 6.2 DETECÇÃO VIRAL 33 6.3 CONFIRMAÇÃO POR CRITÉRIO CLÍNICO -EPIDEMIOLÓGICO 36 7.0 DENGUE - TRATAMENTO 38 Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 4 7.1 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO E CONDUTA 38 7.1.1 GRUPO A 39 7.1.1.1PROVA DO LAÇO 39 7.1.2 GRUPO B 40 7.1.3 GRUPO C 41 7.1.4 GRUPO D 41 7.1.5 RESUMO DA CLASSIFICAÇÃO DE RISCO 42 7.2 HIDRATAÇÃO PARA PACIENTES COM DENGUE 44 7.2.1 HIDRATAÇÃO ORAL 44 7.2.2 HIDRATAÇÃO PARENTERAL 45 7.3 TRATAMENTOS CONTRAINDICADOS 46 7.4 INDICAÇÕES DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR 46 7.5 CRITÉRIOS PARA ALTA HOSPITALAR 46 7.6 TRATAMENTO DE GESTANTES COM DENGUE 47 8.0 DENGUE - MEDIDAS DE PREVENÇÃO 52 8.1 CONTROLE VETORIAL 52 8.2 VACINA PARA DENGUE 53 9.0 CHIKUNGUNYA - INTRODUÇÃO 56 10.0 CHIKUNGUNYA – CARACTERÍSTICAS GERAIS 57 10.1 HISTÓRICO DA CHIKUNGUNYA NO BRASIL 57 10.2 TRANSMISSÃO 58 11.0 CHIKUNGUNYA - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 60 11.1 FASE AGUDA (FEBRIL) 60 11.1.1 FEBRE 61 11.1.2 ACOMETIMENTO ARTICULAR 61 11.1.3. ACOMETIMENTO CUTÂNEO 62 11.2 FASE SUBAGUDA 63 11.3 FASE CRÔNICA 63 11.4 ALTERAÇÕES LABORATORIAIS 64 Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 5 12.0 CHIKUNGUNYA – DIAGNÓSTICO LABORATORIAL 66 13.0 CHIKUNGUNYA – COMPLICAÇÕES 67 14.0 CHIKUNGUNYA – TRATAMENTO 69 14.1 TRATAMENTO – FASE AGUDA 69 14.1.1 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO 69 14.1.2 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA FASE AGUDA 70 14.1.3 TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO DA FASE AGUDA 72 14.2 TRATAMENTO DAS FASES SUBAGUDA E CRÔNICA 72 14.2.1 FASE SUBAGUDA 73 14.2.2 FASE CRÔNICA 73 15.0 CHIKUNGUNYA – PREVENÇÃO 75 16.0 CHIKUNGUNYA – REVISÃO 76 17.0 ZIKA – INTRODUÇÃO 77 18.0 ZIKA – CARACTERÍSTICAS GERAIS 77 18.1 HISTÓRICO DE ZIKA NO BRASIL 77 18.2 TRANSMISSÃO 78 19.0 ZIKA - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 80 20.0 ZIKA – DIAGNÓSTICO LABORATORIAL 84 20.1 DETECÇÃO VIRAL 84 20.2 EXAME SOROLÓGICO 84 20.3 ORIENTAÇÕES PARA O DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO DE ZIKA 85 21.0 ZIKA – COMPLICAÇÕES 86 22.0 ZIKA – TRATAMENTO 88 23.0 ZIKA – PREVENÇÃO 90 23.1 PREVENÇÃO DE EXPOSIÇÃO AO AEDES AEGYPTI 90 23.2 PREVENÇÃO DA TRANSMISSÃO SEXUAL 90 24.0 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS ARBOVIROSES 92 24.1 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE DENGUE 93 24.2 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE CHIKUNGUNYA 93 Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 6 24.3 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE ZIKA 93 25.0 VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA 94 26.0 OUTRAS ARBOVIROSES 95 26.1 FEBRE DO NILO OCIDENTAL 95 26.1.1 EPIDEMIOLOGIA E TRANSMISSÃO 96 26.1.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E TRATAMENTO 96 26.1.3 DIAGNÓSTICO 96 26.2 OUTROS ARBOVÍRUS 98 26.2.1 MAYARO 98 26.2.2 OROPOUCHE 98 26.2.3 ROCIO 98 27.0 LISTA DE QUESTÕES 99 28.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 100 29.0 LISTA DE IMAGENS E TABELAS 101 30.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 102 Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 7 CAPÍTULO 1.0 DENGUE - INTRODUÇÃO Dengue é um tema muito cobrado em provas de Residência Médica, compreendendo cerca de 7% de todas as questões de infectologia. Entre as arboviroses, abrange quase 80% das questões. Sabendo que a chance de encontrar questões sobre dengue em provas de Residência Médica é elevada, devemos consultar a engenharia reversa para saber como orientar os estudos. Note que, além dos tópicos habituais, foram incluídos “sinais de alarme” e “prova do laço”, pois há muitas questões que os abordam. Tópico Frequência (%) Manifestações clínicas 55 % Sinais de alarme 34% Tratamento 21% Diagnóstico 14% Alterações laboratoriais 14% Características gerais 10 % Fisiopatologia 9% Prova do laço 6% Tabela 2 - Distribuição de questões por subtemas – dengue. As questões podem cobrar o conteúdo de forma ampla, incluindo vários dos temas acima concomitantemente (por exemplo: casos clínicos em que são questionados diagnóstico e tratamento) ou, de maneira mais pontual, tratando sobre prova do laço ou sinais de alarme. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 8 CAPÍTULO 2.0 DENGUE - CARACTERÍSTICAS GERAIS Dengue é uma doença febril aguda causada por um arbovírus (nome derivado de arthropod-borne virus). O vírus dengue (DENV) faz parte do gênero Flavivirus e família Flaviviridae, cujo genoma é composto por RNA. É a arbovirose com maior prevalência no Brasil e nas Américas. O vírus da dengue é classificado em cinco sorotipos: DENV-1, DENV-2, DENV-3, DENV-4 e DENV-5. O DENV-5 foi descoberto mais recentemente em florestas da Malásia. No entanto, algumas questões de provas ainda consideram a existência de apenas quatro sorotipos. Esse sorotipo ainda não foi detectado no Brasil. Casos de dengue são descritos em todo o território brasileiro, mas concentram-se principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. A menor incidência ocorre na região Sul. Há relatos de epidemias de dengue no Brasil desde o século XIX. A doença foi temporariamente controlada na década de 1950, através da erradicação do Aedes aegypti, mas foi reintroduzida na década de 1980. Desde então, a primeira epidemia de dengue no Brasil ocorreu em Boa Vista (Roraima) no ano de 1980, sendo causada pelos sorotipos 1 e 4. Em 1986, epidemias surgiram no Rio de Janeiro e no Nordeste do país. Posteriormente, houve a introdução no Brasil dos sorotipos 2 e 3. A transmissão endêmica (e, por vezes, epidêmica) desses quatro sorotipos tem ocorrido desde então. As epidemias costumam ocorrer em ciclos nas áreas endêmicas, a cada quatroDIRCEU ARCOVERDE - HEDA - 2020) O tratamento para dengue recomendado pelo Ministério da saúde baseia-se na hidratação adequada, levando em consideração o estadiamento em 4 grupos (A, B, C e D). Segundo a características do grupo B, assinale a sentença que apresenta uma característica deste grupo. A) Prova do laço negativo. B) Oligúria. C) Presença de petéquias. D) Insuficiência respiratória. E) Choque cardiocirculatório COMENTÁRIO: Pacientes do grupo B são aqueles que não apresentam sinais de alarme, mas que possuem alguma característica que indica risco maior de progressão para doença grave. Incorreta a alternativa A. Prova do laço positiva caracteriza o paciente como grupo B. Incorreta a alternativa B. A oligúria é um sinal de choque e o paciente seria classificado como do grupo D. Correta a alternativa C. A presença de petéquias é um sinal de sangramento espontâneo, o que é parte das características do grupo B. Incorreta a alternativa D. Insuficiência respiratória inclui o paciente no grupo D. Incorreta a alternativa E. Pacientes com choque fazem parte do grupo D. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 48 ( CE - SELEÇÃO UNIFICADA PARA RESIDÊNCIA MÉDICA DO ESTADO DO CEARÁ - SURCE - 2022) Mulher de 50 anos, moradora de Fortaleza, sem comorbidades, procura pronto-socorro referindo quadro iniciado há 5 dias de febre alta, cefaleia, mialgia e dor retrorbitária. Embora a febre tenha desaparecido após o terceiro dia de doença, desde esta manhã relata exantema difuso e pruriginoso e dor abdominal mal definida, que não cede com analgésicos comuns. Ao exame: Estado geral regular; Peso: 75 Kg. Pele: exantema máculo-papular difuso com “ilhas" de pele normal; Pressão arterial: deitada = 130 x 80 mmHg, sentada = 118 x 76 mmHg; Prova do laço: positiva; Abdome: semigloboso, flácido, moderadamente doloroso à palpação profunda em epigastro, mesogastro e hipocôndrio direito. Ruídos hidroaéreos presentes. Extremidades: boa perfusão periférica, sem edemas. Considerando a principal hipótese diagnóstica para o caso, que conduta terapêutica imediata deve ser tomada? A) Soro fisiológico a 0,9% 750 ml, endovenoso, em 1 hora. B) Soro fisiológico a 0,9% 1500 ml, endovenoso, em 20 minutos. C) Soro de reidratação oral 1500 ml + Líquidos diversos 3000 ml, por via oral, em 24 horas. D) Soro glicosado a 5% 3000 ml + Soro fisiológico a 0,9% 1500 ml, endovenoso, em 24 horas. COMENTÁRIO: Trata-se de uma mulher com quadro febril agudo, com cefaleia, mialgia e dor retrorbitária. Com esses dados, imediatamente devemos pensar em dengue, ainda mais em uma cidade com condições climáticas propícias e que vem registrando uma alta incidência da doença. No 3° dia, a febre desapareceu e surgiu uma “dor abdominal mal definida, que não cede com analgésicos comuns”. Epa, epa! Olha um sinal de alarme aparecendo aí... Com isso, a mulher deve ser classificada como grupo C. Nesse caso, o mais importante é iniciar a reposição volêmica imediata com 10 mL/kg de soro fisiológico na primeira hora e deixar a paciente em acompanhamento em leito de internação até estabilização, por um período mínimo de 48 horas. Correta a alternativa A. para os pacientes do grupo C, recomenda-se reposição volêmica com 10 mL/kg de soro fisiológico na pri- meira hora. Mulher com 75 kg = 750 mL de soro fisiológico na primeira hora. Incorreta a alternativa B. Expansão rápida parenteral, com solução salina isotônica 20 mL/kg em até 20 minutos está recomendada para pacientes do grupo D (presença de sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos). Incorreta a alternativa C. Hidratação oral está recomendada para os pacientes dos grupos A e B (até o resultado dos exames). Incorreta a alternativa D. Não se usa soro glicosado 5% para expansão volêmica. (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PROFESSOR ALBERTO ANTUNES – UFAL – AL - 2019) No caso de suspeita de dengue com dor abdominal, vômitos persistentes e hepatomegalia, qual é a melhor conduta? A) Manter sob observação até estabilização do quadro. B) Iniciar terapia de reidratação oral antes mesmo de colher exames. C) Solicitar hemograma, função hepática, isolamento viral e sorologias. D) Notificar e encaminhar, imediatamente, para Unidade de Referência. E) Iniciar hidratação venosa, assegurar bom acesso venoso, vias aéreas pérvias e monitorar. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 49 Por apresentar sinais de alarme para dengue, esse paciente se enquadra no grupo C da classificação de risco. Vamos relembrar os sinais de alarme para dengue: • Dor abdominal intensa (referida ou à palpação) e contínua. • Vômitos persistentes. • Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico). • Hipotensão postural e/ou lipotimia. • Hepatomegalia maior do que 2cm abaixo do rebordo costal. • Sangramento de mucosa. • Letargia e/ou irritabilidade. • Aumento progressivo do hematócrito. Incorreta a alternativa A: Pacientes com sinais de alarme para dengue (grupo C) devem receber reposição volêmica imediatamente e não apenas serem mantidos em observação. Incorreta a alternativa B: Pacientes com sinais de alarme para dengue (grupo C) devem receber hidratação intravenosa imediatamente e não reidratação oral. Incorreta a alternativa C: A melhor conduta imediata para pacientes com suspeita de dengue e sinais de alarme (grupo C) é a hidratação intravenosa e não a coleta de exames. Incorreta a alternativa D: Pacientes com sinais de alarme para dengue (grupo C) devem receber hidratação intravenosa imediatamente, não importando o nível de complexidade da unidade de saúde que os atenda. COMENTÁRIO Correta a alternativa E A melhor conduta para pacientes com suspeita de dengue e sinais de alarme (grupo C) é a hidratação intravenosa e manutenção da estabilidade do paciente. (UNIVERSIDADE DE RIBEIRÃO PRETO – UNAERP – SP - 2019) Escolar, 7 anos, peso de 22 Kg, sexo feminino, iniciou quadro de febre há 4 dias. Mãe refere que criança apresenta também mialgia, cefaleia, dor retro-orbitária e diminuição do apetite. Há 1 dia apareceram manchas pruriginosas por todo corpo. Hoje está muito sonolenta. Ao exame BEG-REG, prostrada, corada, eupneica, acianótica, sonolenta. Presença de exantema maculopapular difuso (inclusive mãos e pés) e prova do laço positiva. Restante do exame físico sem alterações. Qual é a conduta a ser tomada? A) Prescrever hidratação domiciliar com volume de 80/ml/Kg/dia, sendo 1/3 de soro de reidratação oral e 2/3 de líquidos caseiros, e retorno no dia da melhora da febre. B) Solicitar hemograma, manter o paciente em observação até o resultado e prescrever hidratação oral com 80 ml/kg/dia, sendo 1/3 de soro de reidratação oral e 2/3 de líquidos caseiros. C) Solicitar exames laboratoriais, de imagem, prescrever reposição volêmica com 10 ml/kg de soro fisiológico 0,9% na 1ª hora e solicitar regulação do paciente. D) Solicitar exames laboratoriais, de imagem e prescrever reposição volêmica com 30 ml/kg em até 20 minutos. Repetir até 3 vezes se necessário e solicitar regulação do paciente. E) Solicitar hemograma, prescrever hidratação domiciliar com volume de 80 ml/kg/dia, sendo 1/3 de soro de reidratação oral e 2/3 de líquidos caseiros, e retorno no dia da melhora da febre. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 50 COMENTÁRIO O caso clínico descrito é sugestivo de dengue. Para acertar essa questão, precisamos classificar corretamente o paciente segundo o grupo de risco, para podermos definir a conduta adequada. Em primeiro lugar, vamos relembrar quais são os critérios para cada grupo de risco da dengue: • Grupo A: caso suspeito de dengue, sem sinais de alarme, comorbidades, grupo de risco ou condições clínicas especiais; • Grupo B: caso suspeito de dengue,sem sinais de alarme, mas com sangramento de pele (petéquias ou prova do laço positiva) ou com comorbidades, grupo de risco ou condições clínicas especiais; • Grupo C: caso suspeito de dengue com sinal de alarme; • Grupo D: caso suspeito de dengue com sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos. O primeiro dado que devemos notar é a presença de sangramento cutâneo (prova do laço positiva), o que a classificaria como grupo B. No entanto, é necessário procurar sinais de alarme, pois, na presença de um desses, o paciente passa a fazer parte do grupo C. Vamos relembrar a seguir os sinais de alarme da dengue: • Dor abdominal intensa (referida ou à palpação) e contínua; • Vômitos persistentes; • Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico). • Hipotensão postural e/ou lipotimia; • Hepatomegalia maior do que 2cm abaixo do rebordo costal; • Sangramento de mucosa; • Letargia e/ou irritabilidade; • Aumento progressivo do hematócrito. Podemos verificar que há, sim, um sinal de alarme: letargia. Assim, sabemos que a paciente faz parte do grupo C. Podemos afirmar que é realmente desse grupo e não do grupo D, pois não há sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos. Agora só nos resta definir o local de tratamento e a via de hidratação. Pacientes dos grupos A e B podem ser tratados em domicílio; do grupo C devem ser tratados em internação hospitalar, e do grupo D, em UTI. A hidratação deve ser realizada por via oral para pacientes dos grupos A e B e por via parenteral para aqueles dos grupos C e D, seguindo estas orientações: • Grupos A e B: 60mL/kg dia, sendo 1/3 de solução salina e 2/3 de outros líquidos. • Grupo C: 10mL/kg IV de solução salina isotônica em 1 hora. • Grupo D: 20mL/kg IV de solução salina isotônica em 20 minutos. Incorreta a alternativa A: Essa paciente deve receber hidratação intravenosa em ambiente hospitalar. Incorreta a alternativa B: A conduta descrita nessa alternativa é adequada para pacientes do grupo B e não do grupo C. Correta a alternativa C Pacientes do grupo C devem ser tratados em ambiente hospitalar, recebendo 10mL/kg IV de solução salina isotônica em 1 hora. Devem ser realizados hemo- grama, dosagem de albumina sérica, transaminases e exame para diagnóstico laboratorial de dengue. Recomenda-se a radiografia de tórax (PA, perfil e incidência de Laurell) e ultrassonografia de abdome para investigação de derrames cavitários. Incorreta a alternativa D: Não existe recomendação de hidratação para dengue com 30mL/kg em vinte minutos. Mesmo para os pacientes mais graves (grupo D), a indicação da hidratação é de 20mL/kg de solução fisiológica em vinte minutos. Incorreta a alternativa E: Essa é a orientação para pacientes do grupo A de risco da dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 51 (FUNDAÇÃO JOÃO GOULART - FJG – RJ - 2012) Considerando as diretrizes da dengue grave, a base fundamental do tratamento é a reposição vigorosa de solução cristaloide. Em relação à terapia adicional à hidratação, pode-se afirmar que: A) A transfusão profilática de plaquetas está indicada na dependência dos níveis plaquetários, independentemente de haver ou não exteriorização de sangramento. B) A transfusão de concentrado de hemácias, plaquetas e plasma está indicada em quadros hemorrágicos, independentemente do volume de sangramento. C) A transfusão de plasma está indicada se houver exteriorização de sangramento, independentemente dos valores laboratoriais de hematócrito, plaquetas e do coagulograma. D) A transfusão de plaquetas só está indicada em casos de trombocitopenia grave com sangramento ativo e hemorragia cerebral. COMENTÁRIO Embora seja um pouco antiga, essa questão é interessante por abordar o uso de hemoderivados na dengue. Incorreta a alternativa A: Não há indicação de transfusão profilática de plaquetas para pacientes com dengue. Incorreta a alternativa B: A transfusão de hemácias é indicada para pacientes com choque da dengue e hematócrito em queda, em vigência de sangramento. Plasma fresco pode ser utilizado em caso de coagulopatia, enquanto transfusão de plaquetas é indicada em caso de trombocitopenia com sangramento persistente. Incorreta a alternativa C: Plasma fresco é indicado quando há coagulopatia comprovada e hemorragia. Correta a alternativa D Podemos afirmar que essa é a alternativa “mais correta”: transfusão de plaquetas é indicada quando há trombocitopenia com sangramento persistente ou grave. Até aqui discutimos assuntos muito importantes sobre dengue, como classificação e tratamento. Agora, para finalizar a teoria dessa doença importantíssima para sua prova, vamos conversar um pouco sobre as medidas de prevenção da dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 52 CAPÍTULO 8.0 DENGUE - MEDIDAS DE PREVENÇÃO Você já sabe que a transmissão da dengue ocorre por meio da picada do Aedes aegypti, mosquito que se reproduz depositando ovos em água parada. A transmissão dessa doença ocorre, principalmente, em áreas urbanas e com elevada densidade demográfica. Além disso, o raio de ação do mosquito é pequeno, não passando de algumas centenas de metros. Assim, é fácil entender que o controle do vetor é a principal medida preventiva para dengue. 8.1 CONTROLE VETORIAL O controle vetorial pode ser mecânico, biológico ou químico. Controle mecânico consiste no uso de medidas para extinguir os criadouros de Aedes aegypti. O principal exemplo desse tipo de controle é a eliminação de recipientes ou áreas que possam acumular água parada. Figura 15 – O acúmulo de água parada em objetos favorece a reprodução do Aedes aegypti. Fonte: Shutterstock. É chamado de controle biológico aquele que utiliza predadores naturais para controle da reprodução dos mosquitos, como peixes que se alimentam de larvas. O emprego de inseticidas é conhecido como controle químico. É mais indicado para uso pontual em epidemias, pois seu uso indiscriminado pode gerar resistência. Controle vetorial é a principal medida de combate à dengue! Em relação à proteção individual, são recomendadas medidas para reduzir o risco de exposição ao mosquito, como: • uso de repelente à base de DEET, IR3535 ou icaridina; • instalação de telas em portas e janelas; • uso de mosquiteiros; • utilização de roupas que reduzam a exposição da pele aos mosquitos (calças compridas e camisas de mangas longas). Obs.: o uso de repelentes não é contraindicado para gestantes. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 53 8.2 VACINA PARA DENGUE Há duas vacinas tetravalentes para dengue aprovadas para uso no Brasil. A Dengvaxia® (CYD-TDV) recebeu sua aprovação em 2015. É uma vacina quimérica, que utiliza o vírus atenuado da febre amarela modificado para produzir proteínas dos quatro vírus da dengue. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), está autorizada para indivíduos entre 6 e 45 anos de idade que já tiveram dengue (sorologia positiva). A administração segue o esquema de três doses, com intervalo de seis meses entre cada dose. Estudos realizados após o lançamento da Dengvaxia® demonstraram maior risco de hospitalização por dengue e dengue grave em crianças vacinadas que nunca haviam sido infectadas por esse vírus. Por isso, essa vacina só é indicada para pessoas com sorologia positiva para dengue. A segunda vacina aprovada chama-se Qdenga®. Aprovada pela ANVISA em 2023, é constituída por cepa atenuada do vírus DENV-2, além de três cepas recombinantes do mesmo vírus, modificadas para expressar antígenos de superfície correspondentes aos sorotipos 1, 3 e 4. É recomendada para indivíduos de 4 a 60 anos de idade, independentemente de terem sido infectadospreviamente ou não. O esquema preconizado é de duas doses, com intervalo de três meses. Essas vacinas estão disponíveis no Brasil apenas em clínicas privadas de imunização. Por serem constituídas por vírus vivos, são contraindicadas para imunossuprimidos, gestantes ou nutrizes. Veja o resumo das vacinas na tabela abaixo. Dengvaxia® Qdenga® Ano de aprovação 2015 2023 Sorotipos 1, 2, 3 e 4 1, 2, 3 e 4 Composição Vírus vivo atenuado (febre amarela recombinante) Vírus vivo atenuado (DENV-2 recombinante) Faixa etária 6 a 45 anos 4 a 60 anos Esquema vacinal 3 doses (intervalo de 6 meses) 2 doses (intervalo de 3 meses) Indicação apenas para pacientes com infecção prévia comprovada pelo vírus da dengue Sim Não Contraindicações Imunodeprimidos, gestantes e nutrizes Imunodeprimidos, gestantes e nutrizes Tabela 4 - características das vacinas para dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 54 CAI NA PROVA (SP - SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO - SCMSP - 2022) A dengue é a arbovirose mais frequente do mundo. O aumento crescente de casos nas áreas endêmicas e a possível expansão da área de risco de infecção caracterizam um grave problema de saúde pública nos países. Em relação à única vacina contra a dengue (DengvaxiaR), atualmente licenciada para uso contra a doença, assinale a alternativa correta. A) A vacina é indicada para todos os indivíduos de nove a sessenta anos de idade que vivem em áreas endêmicas da doença, com restrição apenas para gestantes. B) A vacina tetravalente de vírus atenuados é indicada para indivíduos da faixa etária entre nove e 45 anos de idade que vivam em áreas endêmicas da doença e que sejam soropositivos para dengue. C) A vacina é recomendada para indivíduos entre nove e 45 anos de idade que morem em área de alta transmissão de dengue, independentemente de histórico prévio de exposição ao vírus causador da doença. D) A vacina tetravalente de vírus inativados utiliza como estrutura básica o vírus vacinal da febre amarela (cepa 17 D). A) A imunização completa inclui três doses da vacina, com intervalos de dois meses entre as doses e com indicação de reforço a cada cinco anos para os que vivam em zonas endêmicas da doença. COMENTÁRIO: Esse é um bom exemplo de questão sobre vacina para a dengue. Atenção: até dezembro de 2022, a vacina era indicada para pessoas soropositivas ao vírus da dengue com idade entre 9 e 45 anos. Em 22/12/2022, houve atualização da bula, passando a ser indicada para a faixa etária de 6 a 45 anos. Incorreta a alternativa A. a. A vacina Dengvaxia® só deve ser realizada para pessoas com comprovação sorológica de episódio prévio de dengue. Estudos demonstraram que a vacinação de pessoas sem infecção prévia pode aumentar o risco de dengue grave. Correta a alternativa B. É necessária a comprovação de infecção prévia por dengue para a vacinação com essa vacina. Incorreta a alternativa C. A vacina é composta por vírus atenuado, e não inativado. Incorreta a alternativa D. Apesar de utilizar o vírus vacinal da febre amarela como base, esse vírus é quimérico, ou seja, modificado geneticamente, sendo assim diferente daquele da vacina da febre amarela. Incorreta a alternativa E. O esquema vacinal é composto por 3 doses com intervalo de 6 meses entre cada dose. Não há recomendação de doses de reforço. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 55 (HOSPITAL DILSON GODINHO – MG - 2019) A mais importante medida do controle epidemiológico da dengue é o(a): A) isolamento dos doentes. B) vacinação dos não imunes. C) tratamento dos casos graves. D) diminuição da densidade de vetores. E) controle dos viajantes de áreas endêmicas. COMENTÁRIO Leia com atenção os comentários dessa questão, que trata exclusivamente sobre as medidas de controle epidemiológico da dengue. Incorreta a alternativa A: Isolamento de pacientes com dengue não é necessário, já que a doença não é transmitida diretamente de pessoa a pessoa. Incorreta a alternativa B: A vacinação para dengue não é considerada a medida mais importante para o controle da doença. A eficácia para evitar a infecção varia de acordo com o sorotipo e com o histórico de infecção pelo vírus. Incorreta a alternativa C: O tratamento de casos graves pouco interfere no controle epidemiológico da dengue. Correta a alternativa D: O combate aos vetores é a forma mais eficaz de controle da dengue. Incorreta a alternativa E: Como a transmissão da dengue é dependente dos vetores, o controle desses é muito mais importante que o de viajantes. Gabarito oficial: alternativa C. Resposta correta: alternativa D. Pronto, Estrategista! Concluímos o estudo da dengue. Agora, beba uma água, levante um pouco da cadeira e volte aqui para continuarmos nosso estudo das arboviroses. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 56 CAPÍTULO 9.0 CHIKUNGUNYA - INTRODUÇÃO Dengue é o grande tema das arboviroses, mas chikungunya também é um tópico relevante. Estudar chikungunya é mais simples do que estudar dengue: o conteúdo é mais enxuto, e as bancas de provas costumam cobrar as características clínicas da doença, que são bem específicas. Veja na tabela a seguir o resultado da análise da engenharia reversa. Tópico Frequência (%) Manifestações clínicas 60 Características gerais 29 Complicações 10 Diagnóstico 8 Tratamento 8 Prevenção 2 Tabela 5 - Distribuição de questões por tema – chikungunya. Como você pode perceber, mais da metade das questões é relacionada ao quadro clínico de chikungunya. Viu como é importante a engenharia reversa? Assim fica muito mais fácil saber onde focar seus estudos! Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 57 CAPÍTULO 10.0 CHIKUNGUNYA – CARACTERÍSTICAS GERAIS Chikungunya é uma arbovirose causada por vírus RNA do mesmo nome, que faz parte do gênero Alphavirus (família Togaviridae). O termo que dá nome à doença é derivado do idioma africano makonde e significa “aqueles que se dobram”. Representa a posição antálgica adquirida por pacientes que sofrem dessa doença. Aqui já posso adiantar o sintoma mais típico de chikungunya: a artralgia. DICA PARA A PROVA Preste atenção na dica a seguir! Boa parte dos arbovírus são Flavivirus, mas não o vírus chikungunya. Para lembrar da família e gênero desse vírus, imagine a seguinte história: “O vírus chikungunya é um magistrado que mora em um bairro elegante. Usa toga e mora em Alphaville.” Fonte: Pixabay O vírus chikungunya faz parte da família Togaviridae (gênero Alphavirus). 10.1 HISTÓRICO DA CHIKUNGUNYA NO BRASIL O vírus chikungunya é conhecido desde os anos 1950, quando foi isolado no leste africano. Ganhou maior notoriedade a partir dos anos 2000, pois houve, naquela década, uma disseminação a ponto de causar epidemias na Ásia e até mesmo disseminação autóctone, na Itália e na França. No Brasil, a disseminação do vírus ocorreu a partir de 2014. Os primeiros estados afetados foram: Amapá, Roraima, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. No ano de 2015, houve concentração de casos no Nordeste do Brasil. Em 2016, já havia registro de casos autóctones em todos os estados do país. Entre 2018 e 2019, houve uma concentração de casos no estado do Rio de Janeiro. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de casos atingiu seu pico entre 2016 e 2017, com queda gradativa nos anos seguintes. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 58 Identificação na África Oriental Epidemias na Ásia e disseminação na Itália e França AP, RR, MS e DF Concentração de casos no Nordeste Casos em todo o Brasil Concentração de casos no RJ 1950 2000 20142015 2016 2018 - 2019 10.2 TRANSMISSÃO Como em toda arbovirose, a transmissão do vírus chikungunya ocorre por meio da picada do mosquito fêmea do gênero Aedes. No entanto, há uma diferença quando a comparamos à transmissão da dengue. A transmissão do vírus chikungunya pode ocorrer em ciclo urbano ou em ciclo silvestre. Ciclo silvestre: ocorre em florestas do continente africano, envolvendo diversas espécies de Aedes e primatas não humanos. Ciclo urbano: transmissão por Aedes aegypti ou Aedes albopictus em áreas urbanas, sem participação de primatas não humanos. No Brasil, essa arbovirose é transmitida por Aedes aegypti. Embora o Aedes albopictus seja encontrado no Brasil, não há comprovação de transmissão significativa por essa espécie em nosso país. O período de incubação varia entre 1 e 12 dias, sendo em média de 3 a 7 dias. O paciente infectado pode ser transmissor desde 2 dias antes do início dos sintomas até 8 dias após, pois esse é o período que dura a viremia. Sabe-se que a transmissão vertical é possível, especialmente quando a infecção materna acontece poucos dias antes do parto. Nesses casos, o recém-nascido não apresenta sintomas nos primeiros dias, podendo desenvolver síndrome febril com prostração, lesões cutâneas (exantema, descamação, vesículas ou bolhas) e/ou edema de extremidades. Recém-nascidos são mais frequentemente acometidos por manifestações graves, como complicações neurológicas, cardíacas ou hemorrágicas. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 59 Infecção pelo vírus chikungunya confere imunidade duradoura. Assim, como regra geral, uma pessoa só poderá adquirir a doença uma vez em sua vida. CAI NA PROVA (HOSPITAL NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS – PR – 2013) Febre de chikungunya é uma doença viral, com quadro clínico caracterizado por início agudo de febre, artralgia e mialgia intensa, com alta incidência na África, Índia e Sudeste Asiático, com características muito semelhantes às da dengue possuindo inclusive o mesmo vetor de transmissão que é: A) Culex quinquefasciatus B) Triatoma infestans C) Aedes aegypti D) Anopheles sp E) Culiseta melanura COMENTÁRIO Veja como o vetor de chikungunya pode ser cobrado em questões. Essa é uma questão um pouco antiga, mas que se mantém atual. Incorreta a alternativa A: Culex quinquefasciatus é o principal transmissor de filariose no Brasil, mas não é capaz de transmitir dengue ou chikungunya. Incorreta a alternativa B: pois Triatoma infestans é o vetor da doença de Chagas. Correta a alternativa C Aedes aegypti é o principal vetor de dengue e chikungunya. Os vírus são transmitidos pela picada da fêmea infectada. Incorreta a alternativa D: Anopheles spp é mosquito transmissor de malária e não de arboviroses. Incorreta a alternativa E: Culiseta melanura é o vetor da encefalite equina oriental. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 60 CAPÍTULO 11.0 CHIKUNGUNYA - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Estamos diante do tópico mais cobrado em questões sobre chikungunya! Leia o conteúdo com muita atenção! Se há algo que você jamais deve esquecer sobre chikungunya é a frase a seguir: Chikungunya é uma doença febril aguda que causa poliartralgia intensa. Essa é a grande característica clínica dessa arbovirose! Os pacientes queixam-se de febre e artralgia e é assim que as bancas descrevem o quadro clínico em questões de provas. Como você deve imaginar, há mais detalhes importantes que você deve conhecer sobre essa doença. No entanto, se entender a importância da frase acima, será muito mais fácil acertar as questões sobre esse tema. A maior parte (cerca de 70%) dos pacientes infectados pelo vírus chikungunya desenvolve sintomas. Esse percentual é muito diferente da dengue, que causa sintomas em cerca de 25% dos pacientes acometidos. A febre chikungunya pode manifestar-se em três fases: aguda, subaguda (ou pós-aguda) e crônica. 11.1 FASE AGUDA (FEBRIL) A fase aguda pode ter duração de até duas semanas. Os sintomas típicos dessa fase são febre e poliartralgia intensa, podendo estar acompanhados de exantema, cefaleia, mialgia (normalmente menos intensa que a artralgia) e fadiga. Também podem estar presentes conjuntivite não purulenta (em 30% dos casos), náuseas, vômitos e dor abdominal. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 61 Figura 16 – Quadro clínico típico de chikungunya. Fonte: Estratégia MED. 11.1.1 FEBRE A febre em casos de chikungunya é elevada (>38,5oC) e de curta duração (cerca de dois a três dias). Diferentemente da dengue, a redução da febre não se relaciona à piora clínica. 11.1.2 ACOMETIMENTO ARTICULAR A maioria dos pacientes com chikungunya demonstra sinais de acometimento articular. A artralgia típica dessa arbovirose é poliarticular, bilateral e simétrica. Incide sobre pequenas e grandes articulações, sendo mais comum em regiões distais. Edema articular pode estar presente. Queixas como rigidez matinal e dificuldade para exercer atividades diárias são comuns. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 62 ACOMETIMENTO ARTICULAR Poliarticular Bilateral Simétrico Distal 11.1.3. ACOMETIMENTO CUTÂNEO Figura 17 – Edema articular bilateral e distal. Fonte: Shutterstock. O exantema acomete cerca de metade dos pacientes com chikungunya. É macular ou maculopapular e não poupa regiões palmar e plantar. Cerca de um quarto dos pacientes com exantema apresenta prurido, que pode ser generalizado ou limitado às áreas palmoplantares. Figura 18 – Exemplo de exantema da febre chikungunya. Fonte: Shutterstock. EXANTEMA 50% dos casos Macular ou maculopapular Inclui regiões palmar e plantar Prurido: 25% Menos frequentemente, são encontradas lesões como: dermatite esfoliativa, bolhas ou vesículas, fotossensibilidade, úlceras em cavidade oral, hiperpigmentação e lesões que simulam eritema nodoso. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 63 OUTRAS MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS Dermatite esfoliativa Bolhas/vesículas Úlceras orais Eritema nodoso Fotossensibilidade Figura 19 – Dermatite. Fonte: Shutterstock. 11.2 FASE SUBAGUDA Nem todos os pacientes chegarão a essa etapa da doença, pois em muitos casos há resolução completa dos sintomas ao final da fase aguda. Pacientes que manifestam a fase subaguda (entre duas semanas e três meses de doença) já não apresentam febre, na maioria dos casos, mas sofrem com a manutenção de sintomas articulares. É bem descrita nessa fase a tenossinovite hipertrófica em articulações das mãos, levando com certa frequência à síndrome do túnel do carpo. 11.3 FASE CRÔNICA A fase crônica é uma peculiaridade muito marcante da febre chikungunya. A cronificação dos sintomas articulares pode causar grande impacto na qualidade de vida e capacidade laboral dos pacientes acometidos. Considera-se como fase crônica a persistência dos sintomas por período superior a três meses. Até metade dos pacientes com chikungunya pode desenvolver sintomas da fase crônica, mas a incidência é variável, de acordo com alguns fatores de risco. Veja ao lado quais são esses fatores: CHIKUNGUNYA: Fatores de risco para cronificação Idade > 45 anos Doença articular prévia Acometimento articular intenso na fase aguda Em relação ao quadro clínico da fase crônica, é notável que as articulações acometidas são, geralmente, as mesmas envolvidas na fase aguda da doença. São comuns a restrição de movimentos e a rigidez matinal que melhora ao longo do dia. Edema articular pode estar presente ou não. Alguns casos podem evoluir para lesões articulares degenerativas ao longo dos meses ou anos, com característicasque remetem à artrite reumatoide ou psoriática. Também são descritos bursite e tenossinovite. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 64 Além das manifestações articulares, os pacientes com chikungunya na fase crônica podem desenvolver sintomas diversos, como: fadiga, alterações neuropsiquiátricas (depressão, cefaleia, parestesias, distúrbios cerebelares, alterações de memória), manifestações cutâneas (exantema, alopecia, prurido, fenômeno de Raynaud). 11.4 ALTERAÇÕES LABORATORIAIS As alterações laboratoriais inespecíficas da chikungunya não são cobradas com frequência em provas de Residência Médica. O achado mais frequente na fase aguda é hemograma com leucopenia e linfopenia. Plaquetopenia pode estar presente, mas habitualmente é menos intensa do que em casos de dengue. Outras alterações que podem ser encontradas são: elevação discreta de aminotransferases (AST e ALT), assim como da creatinina e creatinofosfoquinase (CPK). CAI NA PROVA (PB - UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA - UFPB - 2019) Paciente de 12 anos de idade, previamente hígido, após excursão em área de mata para acampamento de escoteirismo, apresenta febre intensa, três dias de evolução, prurido cutâneo leve, poliartrite, com edema de mãos e pés, mialgia e exantema inespecífico. Com base nos dados citados, o diagnóstico mais provável e a evolução possível são: A) Zika e evolução para cronicidade. B) Dengue com evolução para dengue hemorrágica. C) Chikungunya e evolução para cronicidade. D) Zika sem risco de evolução para cronicidade. E) Chikungunya com risco de hemoconcentração. COMENTÁRIO: Preste atenção aos dados clínicos disponíveis no enunciado: o grande diferencial é a presença de poliartrite com edema de mãos e pés. Incorreta a alternativa A, porque essa doença cursa com um quadro articular importante, mas de menor magnitude que a Chikungunya, e que habitualmente se resolve em 2 a 7 dias. Um outro fator que sugere mais fortemente a hipótese de Chikungunya é a febre alta, que é um achado incomum na infecção por Zika. As complicações associadas a Zika são a microcefalia e perda fetal quando ocorre infecção em gestantes, bem como, complicações neurológicas na população geral (síndrome de Guillain-Barré, encefalite, mielite, dentre outras). Incorreta a alternativa B, porque dengue não é a principal hipótese diagnóstica diante de um quadro de poliartrite com edema articular e não foi fornecido nenhum elemento clínico-laboratorial no enunciado que remeta a possibilidade de um quadro de dengue hemorrágica. Correta a alternativa C, porque o acometimento articular, com poliartrite e edema é mais intenso e frequente na Chikungunya do que nas demais arboviroses com circulação endêmica no Brasil. Após a fase subaguda da doença (3 meses de evolução), mais da metade dos pacientes podem apresentar a persistência dos sintomas, principalmente dor articular, musculoesquelética e neuropática. A artrite pode ser persistente ou recidivante por meses a anos. Incorreta a alternativa D, porque Zika pode cursar com todos esses achados clínicos, mas não é a principal hipótese diagnóstica para o caso pelos elementos já expostos. Incorreta a alternativa E, porque a hemoconcentração é uma característica típica da dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 65 (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ – RJ – 2020) Adolescente, 12 anos, é levado à emergência por apresentar febre, exantema generalizado e dores no corpo. Mãe relata que o quadro teve início há dois dias, mas, desde a véspera, apresentava fortes dores nas mãos e pés, inclusive em repouso. Exame físico: fácies de dor, febril (38,0ºC), PA= 90 x 60 mmHg, eupneico, exantema discreto com edema dos dedos das mãos e pés, deambula com o auxílio da mãe, queixa-se de artralgia. Exames laboratoriais: SaO₂ = 98%, hemograma normal. A hipótese diagnóstica mais provável é: A) chikungunya B) febre amarela C) leptospirose D) dengue hemorrágico COMENTÁRIO Você não pode ficar com dúvidas nessa questão! Paciente com febre, dores e edema nas mãos e pés (poliartralgia distal e bilateral) e exantema é sinônimo de chikungunya. Correta a alternativa A Chikungunya é doença que se apresenta como quadro febril agudo, acompanhado de poliartralgia moderada a intensa e edema articular. Exantema pode surgir entre o segundo e quinto dias de doença. Incorreta a alternativa B: O quadro clássico da febre amarela tem evolução bifásica e não é compatível com o descrito nessa questão. No início há febre alta e pulso lento em relação à temperatura (sinal de Faget), calafrios, cefaleia intensa, mialgias, prostração, náuseas e vômitos, durando cerca de três dias, após os quais se observa remissão da febre e redução dos sintomas, o que pode durar algumas horas ou, no máximo, dois dias. Em casos graves, há, em seguida, o surgimento de icterícia, fenômenos hemorrágicos e choque. Febre amarela geralmente é cobrada em provas com dados epidemiológicos de exposição a regiões de mata nativa ou em áreas em que há transmissão desse vírus. Incorreta a alternativa C: Leptospirose é doença que, em geral, é cobrada em provas com descrição de indivíduo com história recente de exposição a roedores ou enchentes, áreas alagadas, esgotos e quadro clínico de febre de início súbito e mialgia, podendo haver também icterícia, sufusão conjuntival e disfunção renal. Nessas condições, pense em leptospirose. Incorreta a alternativa D: Dengue é doença cujo quadro clínico típico envolve febre alta de início súbito, cefaleia e mialgia moderada a intensa, sendo artralgia menos frequente e de menor intensidade. O exantema da dengue surge entre o terceiro e sexto dias de sintomas (nesse caso, surgiu após dois dias de sintomas). Além disso, não há manifestações hemorrágicas no quadro clínico desse paciente. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 66 CAPÍTULO 12.0 CHIKUNGUNYA – DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O diagnóstico laboratorial da febre chikungunya segue a mesma estratégia das outras arboviroses: encontrar o vírus no sangue (no início do quadro) ou anticorpos contra o vírus (em fase mais tardia). Como técnica para identificar a presença do vírus no sangue, podemos utilizar reação em cadeia de polimerase (RT-PCR). Esse exame pode ser empregado até o oitavo dia de sintomas (período de viremia). A detecção de anticorpos pelo método sorológico (ELISA) pode ser utilizada a partir do sexto dia de doença. Figura 20 - Métodos diagnósticos para chikungunya, indicados de acordo com o tempo de sintomas. Fonte: Estratégia MED. Questões de provas sobre o diagnóstico de chikungunya não costumam cobrar detalhes sobre o melhor momento para coleta de cada tipo de exame. Essa abordagem é muito mais comum em questões sobre dengue. No entanto, é interessante que o aluno entenda as diferenças entre os exames e suas indicações. CAI NA PROVA (SP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - USP - 2019) Mulher, 30 anos, procura atendimento após período de férias de quinze dias em Recife (PE). Refere febre (até 39,0°C) com dois episódios diários há sete dias, além de mialgia em dorso e membros e dor, edema e rigidez persistente em articulações das mãos, punhos e cotovelos. Exame físico: regular estado geral; artrite em cotovelos, punhos, metacarpofalangianas e interfalangianas proximais de ambas as mãos; máculas eritematosas numulares em tronco. Qual é o exame mais indicado para elucidação diagnóstica? A) Ultrassonografia com Doppler das mãos. B) Radiografia simples das mãos. C) Quantificação de IgM específica. D) Pesquisa de anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 67 COMENTÁRIO: A questão traz uma mulher comhistórico de viagem recente ao Nordeste apresentando quadro agudo de febre alta, exantema mialgia e poliartrite de pequenas e grandes articulações. Tendo em vista a epidemiologia e o quadro clínico característico, nossa principal hipótese diagnóstica é infecção pelo vírus Chikungunya (CHIKV) em sua fase aguda. Nesse momento, o diagnóstico laboratorial específico pode ser feito de forma direta por meio de isolamento do CHIKV e identificação do RNA pela técnica Polymerase Chain Reaction (PCR) ou de forma indireta pela pesquisa de anticorpos. A identificação de anticorpos do tipo IgM pode ser feita a partir do 2° dia após o início dos sintomas (mas com melhor indicação após o 5° dia) e do tipo IgG a partir do 6° dia. Incorreta a alternativa A porque, apesar de a ultrassonografia com Doppler ser útil nessa fase aguda para avaliar o acometimento articular e periarticular, inclusive para diagnóstico diferencial do edema, ele não auxilia na distinção entre suas possíveis causas. Incorreta a alternativa B porque nessa fase aguda da doença a radiografia apenas mostrará o aumento de partes moles decorrente da artrite e tenossinovite não sendo útil na elucidação diagnóstica. Correta a alternativa C CAPÍTULO 13.0 CHIKUNGUNYA – COMPLICAÇÕES Embora exista uma impressão geral de que essa é uma doença de evolução benigna, há sim complicações que podem impactar o curso da doença. Devemos lembrar que as manifestações crônicas (especialmente o acometimento articular) podem interferir, consideravelmente, na qualidade de vida e capacidade laboral dos pacientes acometidos. Além disso, há complicações agudas que podem resultar em doença grave. A letalidade de chikungunya é baixa, sendo geralmente relatada na literatura médica abaixo de 0,1%. Em populações vulneráveis, essa taxa pode ser um pouco mais elevada. Chikungunya é uma doença com potencial para causar grandes epidemias. Assim, quando há um grande número de casos, tornam-se mais evidentes as complicações raras e óbitos. porque após 7 dias do início dos sintomas, conforme descrito no enunciado, já esperamos encontrar anti- corpos do tipo IgM circulando no sangue periférico da paciente. Incorreta a alternativa D porque na fase aguda apenas os anticorpos específicos contra o CHIKV estarão presentes. Mas aproveitando a questão para agregar conhecimento, sabemos que a ativação imunológica aberrante causada pelo CHIKV pode com o tempo levar à produção de autoanticorpos, como fator reumatoide (FR) e anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico (anti-CCP), e funcionar como trigger para o surgimento de doenças autoimunes, como artrite reumatoide. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 68 Veja a seguir que pacientes são mais suscetíveis a complicações graves da chikungunya: Portadores de doenças crônicas Diabetes, asma, insuficiência cardíaca, etilismo, doenças reumatológicas, anemia falciforme, talassemia, hipertensão arterial sistêmica. Extremos de idade Idade 65 anos Uso de medicamentos Acído acetilsalicílico, anti-inflamatórios e paracetamol em doses elevadas. Gestantes Risco de transmissão fetal próximo ao parto. Risco (baixo) de sofrimento fetal. O vírus chikungunya pode infectar diversas células humanas, dentre as quais podemos citar as do tecido conjuntivo, do sistema nervoso central (leptomeninge e glia) e macrófagos hepáticos. A ação direta do vírus, associada à resposta imune do hospedeiro, pode resultar em uma grande variedade de complicações e manifestações atípicas (além das já conhecidas lesões articulares). O acometimento do sistema nervoso pode resultar em alterações como meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré e neuropatias. Das manifestações atípicas, essas são as mais importantes. Também podem ser afetados os olhos (neurite óptica, uveíte, retinite, episclerite); a pele (ulcerações, bolhas ou vesículas, lesão por fotossensibilidade); o coração (miocardite, pericardite, insuficiência cardíaca, arritmias) e os rins (nefrite e insuficiência renal aguda). COMPLICAÇÕES Articulares Cutâneas Neurológicas Oculares Cardiovasculares Renais Guillain-Barré, meningoencefalite, neuropatia Neurite óptica, uveíte, retinite, episclerite Miocardite, pericardite, IC, arritmias Nefrite e insuficiência renal aguda Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 69 As complicações de chikungunya mais cobradas em provas são as próprias lesões articulares, em especial na fase crônica. Entre as manifestações atípicas, aquelas relacionadas ao sistema nervoso central são as mais importantes. CAPÍTULO 14.0 CHIKUNGUNYA – TRATAMENTO O tratamento da febre chikungunya é pouco cobrado em provas; quando cobrado, as bancas não se aprofundam muito no tema. Além disso, o tratamento é muito mais focado no controle de sintomas do que em medidas que possam evitar complicações graves ou o óbito, como ocorre no tratamento da dengue. Por essas razões, esse tópico será abordado de forma breve, apenas com as principais informações necessárias para o entendimento geral das medidas terapêuticas. De forma sucinta, o tratamento consiste em controle dos sintomas, suporte clínico para as complicações (em quadros graves) na fase aguda e manejo dos sintomas na fase crônica (em especial artropatia). Veja a seguir os fundamentos do tratamento da febre chikungunya. 14.1 TRATAMENTO – FASE AGUDA 14.1.1 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO É na fase aguda da febre chikungunya que os casos graves podem ocorrer. Assim, é necessário conhecer os fatores de risco e os sinais de gravidade dessa doença. Lembre-se de que os casos graves de chikungunya são pouco comuns. Os casos sem fatores de risco ou critérios de internação podem ser acompanhados ambulatorialmente. Quando há fatores de risco (idade 65 anos, comorbidades ou gestação), mas não há critérios de gravidade ou de internação, o paciente deve ser acompanhado diariamente até o fim da febre. Pacientes com critérios de gravidade ou de internação devem ser internados para suporte clínico e observação. Quais são os critérios de gravidade ou de internação? Veja no quadro abaixo: CRITÉRIOS DE GRAVIDADE OU DE INTERNAÇÃO - Sinais de choque - Acometimento neurológico - Dispneia - Dor torácica - Vômitos persistentes - Idade (período neonatal) - Descompensação de doença preexistente - Sangramento de mucosas Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 70 Atenção: os critérios de gravidade não costumam ser cobrados em provas de Residência Médica. Você não precisa investir toda sua energia em decorá-los (guarde espaço na memória para os sinais de alarme da dengue!). O importante é que você entenda que os pacientes com fatores de risco devem ser acompanhados mais de perto e aqueles com sinais clínicos de gravidade devem ser internados. 14.1.2 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA FASE AGUDA Esse é o tópico mais importante sobre tratamento de chikungunya para sua prova! CHIKUNGUNYA Sem fatores de risco, critérios de internação ou de gravidade Com critérios de risco, mas sem critérios de internação ou de gravidade Com critérios de internação ou gravidade Acompanhamento ambulatorial Avaliação diária até resolução da febre Internação hospitalar A primeira coisa que você deve saber é que não há tratamento antiviral para chikungunya. A conduta clínica é baseada em hidratação, repouso e medicamentos para controle dos sintomas. O grande foco do tratamento sintomático da fase aguda é o controle da dor. A analgesia deve ser prescrita de acordo com a intensidade da dor, de forma escalonada. Pacientes com dor leve devem ser tratados com dipirona ou paracetamol. Quando há dor moderada, é indicada a prescrição de dipirona e paracetamol,intercalando a administração a cada três horas. Em casos de dor intensa ou persistente, que não alivia com esses analgésicos, é recomendado associar o uso de opioides (tramadol, codeína ou oxicodona). Alguns pacientes podem ter sintomas sugestivos de dor neuropática (parestesia, hipoestesia, dor tipo “choque”), o que indica tratamento direcionado com amitriptilina ou gabapentina. Como classificar a intensidade da dor? Utilizando a escala visual analógica (EVA): Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 71 ANALGESIA NA FASE AGUDA DA FEBRE CHIKUNGUNYA Dor leve Dor moderada Dor intensa Dipirona ou paracetamol Dipirona e paracetamol intercalados Dipirona e/ou paracetamol + opioide (tramadol, codeína ou oxicodona) Figura 21 – Escala visual analógica da dor. Fonte: Estratégia MED. Agora que você já sabe que medicamentos podem ser usados na fase aguda, chegou o momento de aprender que drogas são contraindicadas. Anti-inflamatórios não esteroidais são ótimos para controle da dor, mas não devem ser utilizados nessa fase devido ao risco de sangramento e lesão renal. Ácido acetilsalicílico (aspirina ou AAS) também é contraindicado, assim como em casos de dengue, pelo risco de síndrome de Reye (veja o item 7.3). Outra classe que não deve ser empregada na fase aguda é a dos corticosteroides. Anti-inflamatórios não esteróides (incluindo AAS) TRATAMENTOS CONTRAINDICADOS NA FASE AGUDA DE CHICUNGUNYA Corticosteroides Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 72 DICA PARA A PROVA Há duas coisas que você realmente precisa saber sobre o tratamento da fase aguda, para acertar as questões em provas: 1. o tratamento é feito com analgésicos; 2. anti-inflamatórios não esteroidais, ácido acetilsalicílico e corticosteroides são contraindicados. Praticamente todas as questões sobre o tratamento da fase aguda da febre chikungunya são focadas nesses dois conceitos! 14.1.3 TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO DA FASE AGUDA Além do tratamento farmacológico, há três recomendações para pacientes em fase aguda: crioterapia (compressas frias), hidratação oral e repouso. Compressas frias podem ser aplicadas sobre as articulações dolorosas de 4 em 4 horas, em sessões de 20 minutos. A hidratação oral é mais simples do que na dengue: dois litros por dia é o suficiente. TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO Repouso Hidratação oral Compressas frias 2L/dia 20 min a cada 4h 14.2 TRATAMENTO DAS FASES SUBAGUDA E CRÔNICA Você já leu, neste livro, que a febre chikungunya pode tornar-se crônica em até 50% dos casos. O curso da fase crônica é variável: alguns pacientes apresentam sintomas leves, com sinais de regressão, enquanto outros mantêm os sintomas dolorosos estáveis ou em piora. Especialmente nesses dois últimos casos, em que há persistência significativa do quadro, é essencial o diagnóstico diferencial com outras doenças. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 73 Nas fases subaguda e crônica, o uso de medicamentos visa combater a inflamação. Nessas fases, o risco de efeitos adversos graves relacionados a anti-inflamatórios e corticosteroides é reduzido. Assim, podemos prescrever anti-inflamatórios não esteroidais, corticosteroides e outros imunomoduladores nessas etapas da doença. Assim como na fase aguda, a prescrição de medicamentos deve ser escalonada, ou seja, o uso de medicamentos com maior potência anti-inflamatória deve ser indicado quando há falha no controle dos sintomas com o tratamento prescrito anteriormente. 14.2.1 FASE SUBAGUDA A fase subaguda nada mais é que a transição entre a fase aguda e fase crônica. Nesse período da doença, é recomendado o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, naproxeno entre outros) como primeira linha. Quando o tratamento com essa classe de medicamentos não é o suficiente para controle dos sintomas, é indicado o uso de corticosteroide em dose anti- inflamatória (prednisona 0,5mg/kg/dia). Caso seja atingida a remissão da dor com corticosteroide, o tratamento deve ser mantido por mais três a cinco dias, sendo iniciada a retirada lenta da droga (5mg a cada sete dias). O uso de corticosteroides e anti-inflamatórios não esteroidais passa a ser indicado a partir da fase subaguda. 14.2.2 FASE CRÔNICA Na fase crônica, há pacientes que não entram em remissão dos sintomas com o uso de corticosteroide e/ou analgésicos comuns. Nesses casos, é indicado o uso de outros imunomoduladores. O primeiro a ser utilizado deve ser a hidroxicloroquina. Caso não seja suficiente para a redução dos sintomas, pode-se associar a sulfassalazina. Se a dor persistir, apesar desse esquema terapêutico, recomenda-se a troca dos medicamentos por metotrexate. Veja a seguir a ordem de uso de medicamentos sugerida pelo Ministério da Saúde: Corticosteroide (prednisona até 0,5mg/kg) Hidroxicloroquina Hidroxicloroquina + sulfassalazina Metotrexate Tenha em mente que essa é uma recomendação geral do Ministério da Saúde. Dependendo da fonte consultada na literatura médica, pode haver alguma divergência nos detalhes, mas os princípios do tratamento são semelhantes. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 74 A Sociedade Brasileira de Reumatologia publicou recomendações mais detalhadas sobre o tratamento da fase crônica da chikungunya. Além dos medicamentos descritos acima, indica os seguintes medicamentos: • opioides para dor musculoesquelética (tramadol ou codeína); • anticonvulsivantes ou antidepressivos para dor neuropática (amitriptilina, pregabalina ou gabapentina); • biológicos (anti-TNF) para artrite ou tenossinovite refratária (infliximabe, etanercept, entre outros). DICA PARA A PROVA O que você precisa saber para acertar as questões de provas de Residência Médica sobre tratamento da fase crônica da chikungunya? 1. O foco do tratamento é o controle da inflamação crônica; 2. O uso de anti-inflamatórios não esteroidais e corticosteroides é permitido; 3. O tratamento deve ser feito de forma escalonada e inclui imunomoduladores, como hidroxicloroquina, sulfassalazina ou metotrexate. CAI NA PROVA (GO - SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE GOIÁS - SES GO - 2023) Mulher de 50 anos procura assistência médica com quadro de poliartrite simétrica das mãos, dos punhos, dos tornozelos e dos pés, de intensidade dolorosa 6/10, com início há 12 dias. Os exames laboratoriais mostram: Hemograma = normal; VHS = 80 mm (VRnão há tratamento antiviral específico para a febre de chikungunya (CHIKV). A terapia utilizada é analgesia e suporte às descompensações clínicas causadas pela doença. É necessário estimular a hidratação oral dos pacientes. NÃO podemos, apenas, concordar que: A) Os anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, naproxeno, ácido acetilsalicílico) devem ser utilizados na fase aguda da doença, devido à possibilidade do diagnóstico ser na realidade dengue, bem como à possibilidade da coexistência das duas doenças. B) Os esteroides, igualmente, estão contraindicados na fase aguda, pelo risco do efeito rebote. C) A escolha das drogas deve ser feita após avaliação do paciente com aplicação de escalas de dor apropriadas para cada faixa etária e fase da doença. D) O ácido acetilsalicílico também é contraindicado na fase aguda, pelo risco de síndrome de Reye e de sangramento. COMENTÁRIO Estamos diante de uma excelente questão para revisar o tratamento da febre chikungunya. Atenção! Nessa questão, deve ser assinalada a alternativa falsa! Incorreta a alternativa B. Corticoides são contraindicados na fase aguda da doença. Incorreta a alternativa C. Corticoides e anti-inflamatórios não hormonais são contraindicados na fase aguda da doença. Incorreta a alternativa D. Ácido acetilsalicílico é contraindicado no tratamento da fase aguda de chikungunya. Incorreta a alternativa A Anti-inflamatórios não esteroides são contraindicados em casos suspeitos de chikungunya na fase aguda devido ao risco de disfunção renal e sangramento, além da possibilidade de o diagnóstico ser, na realidade, dengue. Correta a alternativa B: Esteroides são contraindicados na fase aguda (de viremia) de chikungunya. Correta a alternativa C: Analgesia deve ser individualizada para cada paciente, de acordo com nível de dor, faixa etária e fase da doença. Correta a alternativa D: AAS é contraindicado na fase aguda pelo risco de síndrome de Reye e de sangramentos. CAPÍTULO 15.0 CHIKUNGUNYA – PREVENÇÃO Não há vacina disponível para prevenção da febre chikungunya. Assim, a prevenção dessa doença é realizada, principalmente, por meio do controle vetorial ou de medidas de redução de risco de exposição aos mosquitos transmissores (uso de repelentes, por exemplo). Para mais informações sobre a prevenção, leia o item 8 (Dengue - Medidas de Prevenção) deste mesmo livro. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 76 CAPÍTULO 16.0 CHIKUNGUNYA – REVISÃO O mapa mental a seguir resume as principais informações que você deve conhecer para ter um bom desempenho nas questões sobre esse tema. Leia-o com atenção! CHIKUNGUNYA Fase aguda Fase subaguda Fase crônica 0 a 14 dias 14 a 3 meses > 3 meses Sorologia - Febre elevada - Artralgia poliarticular, bilateral, simétrica, com ou sem edema - Exantema - Dipirona e/ou paracetamol - Associação de opioide se necessário - Anti-inflamatários não esteroidais e coirticosteroides são contraindicados - Anti-inflamatórios não esteroidais - Corticosteroides - Corticosteroides - Hidroxicloroquina +/- Sulfassalazina - Metrotrexate - Manutenção dos sintomas articulares - Tenossinovite hipertrófica (com ou sem síndrome do túnel do carpo) - Acometimento das mesmas arituculações da fase aguda - Restrição de movimento - Rigidez matinal - Sintomas neuropsiquiátricos, manifestações cutâneas, fadiga - RT-PCR: até o 8º dia - Sorologia: a partir do 6º dia TEMPO DE EVOLUÇÃO QUADRO CLÍNICO DIAGNÓSTICO TRATAMENTO Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 77 CAPÍTULO 17.0 ZIKA – INTRODUÇÃO Zika é uma infecção que chegou ao Brasil há poucos anos. Suas manifestações clínicas costumam ser mais brandas do que as das outras arboviroses. No entanto, há uma característica muito marcante dessa doença: o risco de malformação fetal. Tópico Frequência (%) Manifestações clínicas 54 Características gerais 35 Complicações 13 Diagnóstico 8 Tratamento 6 Prevenção 4 Tabela 6 - Distribuição de questões por tema – zika. As bancas responsáveis pelas provas para Residência Médica adoram cobrar dois tópicos sobre zika: o quadro clínico e seu diagnóstico diferencial com dengue e chikungunya, e os aspectos envolvidos no risco de malformação fetal. CAPÍTULO 18.0 ZIKA – CARACTERÍSTICAS GERAIS Assim como o vírus da dengue e da febre amarela, o vírus zika é um flavivírus, composto por RNA e pertencente à família Flaviviridae. 18.1 HISTÓRICO DE ZIKA NO BRASIL Esse vírus foi identificado pela primeira vez em 1947, na floresta de Zika (que originou seu nome), na República de Uganda. Por algumas décadas, pouco se ouviu falar sobre essa doença, até a ocorrência de epidemias na Micronésia e Polinésia Francesa, nos anos 2000. Em 2015, um aumento significativo de casos de microcefalia no Brasil (inicialmente no Estado de Pernambuco) chamou a atenção das autoridades de saúde, sendo configurado como estado de Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional pelo Ministério da Saúde. Posteriormente, foi identificada a relação entre os casos de microcefalia e infecção de gestantes pelo vírus zika. Já em 2016, todos os estados do Brasil haviam relatado casos autóctones da doença. Nesse mesmo ano, a Organização Mundial da Saúde decretou estado de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 78 Os estados mais acometidos pelo vírus zika, em 2016, foram Mato Grosso, Bahia e Rio de Janeiro. Após a disseminação inicial do vírus, entre 2015 e 2016, houve queda gradual da incidência de casos novos em todo o país. Uganda (Floresta de Zika) Epidemias na Micronésia e Polinésia Francesa Casos de microcefalia (Pernambuco) Casos em todo o Brasil (principalmente em MT, BA RJ) 1947 2000 2014 2016 18.2 TRANSMISSÃO O Aedes aegypti é o principal transmissor do vírus zika: assim como em dengue e chikungunya, a picada do mosquito fêmea infectado transmite a doença. O início dos sintomas ocorre após um período de incubação que varia de dois a sete dias. A viremia de zika dura em torno de cinco dias (período em que o infectado é transmissor). Além da picada de Aedes aegypti, há outras formas de transmissão muito importantes de zika: transmissão vertical (intrauterina) e sexual. A transmissão por transfusão de hemocomponentes também já foi relatada. A transmissão vertical acontece também em outras arboviroses, mas é em casos de zika que se torna mais preocupante. O risco de malformação fetal é um dos principais temores relacionados a essa doença. A transmissão sexual é uma característica muito peculiar do vírus zika. Como as bancas adoram peculiaridades, fique atento a esse fato, já que é um tema quente para provas de Residência Médica. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 79 As arboviroses, em geral, também podem ser transmitidas por meio de transfusão de hemoderivados, mas a real importância dessa via de transmissão é ainda desconhecida. TRANSMISSÃO DE ZIKA Aedes aegypti Vertical (intrauterina ou periparto) Sexual Principal forma de transmissão Risco de malformação Risco prolongado (meses após a infecção) CAI NA PROVA (SP - INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL - IAMSPE - 2018) A arbovirose sobre a qual há evidências de transmissão sexual é: A) Dengue. B) Febre de Mayaro. C) Roclo. D) Zika E) Febre Chikungunya. COMENTÁRIO: A transmissão sexual do vírus zika é um aspecto que já foi cobrado em questões de provas. Incorretas as alternativas A, B, C e E. Não há relato de transmissão sexual para os vírus citados nessas alternativas. Correta a alternativa D. O vírus zikapode ser transmitido por via sexual. Gestantes devem evitar por toda a gestação contato sex- ual desprotegido com parceiros que tenham tido infecção ou suspeita de infecção por este vírus Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 80 CAPÍTULO 19.0 ZIKA - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Tenho duas boas notícias para você. A primeira é que o conteúdo desse subtópico, que costuma ser cobrado em questões sobre zika, é pouco extenso e de fácil assimilação. A segunda boa notícia é que mais da metade das questões sobre essa doença inclui esse assunto! Diferentemente das outras arboviroses, a febre não é um sintoma tão importante em casos de zika. Nessa doença, a febre pode ser de baixa intensidade ou mesmo ausente. O principal sintoma de zika é o exantema, que geralmente surge logo no início do quadro. Mais de 90% dos casos desenvolvem exantema, tendo como características a evolução craniocaudal, o acometimento palmoplantar e a presença de prurido. Figura 22 – Manifestações típicas de zika. Fonte: Estratégia MED. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 81 O acometimento cutâneo é tão importante nessa doença que o Ministério da Saúde define caso suspeito de zika da seguinte forma: Paciente com exantema maculopapular pruriginoso que apresenta ao menos um dos sinais e sintomas a seguir: • febre; • hiperemia conjuntival ou conjuntivite (não purulenta); • artralgia; • edema periarticular. Figura 23 – Exantema maculopapular (comum em casos de zika). Fonte: Shutterstock. Figura 24 – Conjuntivite não purulenta. Fonte: Shutterstock. Estudos sugerem que cerca de 50% a 80% dos infectados pelo vírus zika permanecem assintomáticos. O quadro clínico, usualmente, é menos intenso e limitante quando comparado ao de dengue e de chikungunya. A febre de zika é usualmente baixa (inferior a 38,5oC) e com duração entre dois e sete dias. Mialgia e artralgia (leve a moderada) podem fazer parte do quadro. Discreto edema periarticular é frequente. O acometimento conjuntival não purulento ocorre em cerca de 50% a 90% dos casos. Outros sintomas como cefaleia, fadiga, náuseas e linfonodomegalia também podem fazer parte da doença. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 82 DICA PARA A PROVA Como o quadro clínico de zika é apresentado em questões de provas? Tenha em mente que as bancas precisam focar nos sinais e sintomas que realmente são capazes de diferenciar zika de outras arboviroses. Habitualmente, o quadro clínico de pacientes com zika, em questões de provas, inclui as seguintes pistas: 1. Exantema – é o achado clínico mais frequente; 2. Conjuntivite não purulenta – é mais comum em zika do que em outras arboviroses; 3. Mialgia e/ou artralgia leve a moderada - essa é uma característica muito empregada pelas bancas para sugerir que o paciente do caso clínico tem infecção por zika, já que esses sintomas são mais intensos em dengue ou chikungunya; 4. Febre baixa – dengue e chikungunya são doenças que causam febre elevada. Assim, relato de febre baixa (geralmente abaixo de 38oC) é habitual em questões sobre zika. Assim como os sintomas da doença, as alterações laboratoriais inespecíficas são geralmente leves a moderadas. Pacientes infectados podem apresentar leve leucopenia, trombocitopenia, elevação de desidrogenase láctica e proteína C-reativa. CASO SUSPEITO DE ZIKA Exantema maculopapular pruriginoso + um sintoma Artralgia Edema periarticular Hiperemia conjuntival/ conjuntivite não purulenta Febre Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 83 CAI NA PROVA (HOSPITAL OFTALMOLÓGICO DE BRASÍLIA – HOB - DF- 2020) Com relação às características clínicas das arboviroses, assinale a alternativa CORRETA: A) A febre aparece em cerca de 90% dos casos na infecção pelo Zika Vírus. B) A mialgia é mais frequente no Zika Vírus do que na dengue. C) O exantema é um sinal clínico de alta prevalência entre as arboviroses. D) A cefaleia é mais frequente na doença de chikungunya. COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A: Febre em casos de infecção pelo vírus zika costuma ser baixa ou mesmo ausente. Incorreta a alternativa B: A mialgia é habitualmente mais intensa em dengue do que em zika. Correta a alternativa C As três principais arboviroses do Brasil (dengue, chikungunya e zika) podem desenvolver exantema. Incorreta a alternativa D: A arbovirose que apresenta cefaleia intensa (retro-orbitária) mais frequentemente é a dengue. Incorreta a alternativa B: Não é esperada discrasia sanguínea em casos de infecção por zika vírus. Incorreta a alternativa C: A conjuntivite é comum em casos de infecção por zika vírus e trombocitopenia e, quando presente, é leve. Incorreta a alternativa D: Em casos de infecção por zika vírus, conjuntivite é comum, febre é baixa e não há discrasia sanguínea. (HOSPITAL UNIMED RIO - UNIMED – RJ – 2019) Assinale a alternativa que tem características do Zika Vírus. A) Conjuntivite em 50-90% dos casos; Rash cutâneo no 1° ou 2° dia; Edema de articulações frequente e de leve intensidade. B) Conjuntivite em 50-90% dos casos; Discrasia hemorrágica; Edema de articulações frequente e de leve intensidade. C) Conjuntivite rara; Trombocitopenia; Rash cutâneo no 1° ou 2° dia. D) Conjuntivite rara; Febre alta; Discrasia hemorrágica. COMENTÁRIO Os sintomas mais comuns da infecção pelo zika vírus são: febre baixa (≤ 38,5oC) ou ausente; exantema (geralmente pruriginoso e maculopapular craniocaudal) de início precoce (1º ou 2º dia); conjuntivite não purulenta; artralgia leve a moderada; edema periarticular leve; cefaleia; linfonodomegalia; astenia e mialgia. Correta a alternativa A Descreve quadro típico de infecção por zika vírus: conjuntivite em 50-90% dos casos; exantema no 1° ou 2° dia; edema de articulações frequente e de leve intensidade. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 84 CAPÍTULO 20.0 ZIKA – DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O diagnóstico de infecção por zika não foge à regra das outras arboviroses: são utilizados métodos de detecção do vírus ou de anticorpos. No entanto, há algumas particularidades que você precisa conhecer. 20.1 DETECÇÃO VIRAL O método utilizado para detecção do vírus zika é RT-PCR. Como você deve imaginar, a detecção de material genético viral é possível enquanto durar a viremia. Ou seja, podemos utilizar RT-PCR em amostra de sangue nos primeiros cinco dias de doença. Contudo, há um detalhe importante: o vírus também pode ser detectado em urina até o 15º dia de sintomas. Métodos de detecção viral recomendados: • até o 5º dia para amostras de sangue; • até o 15º dia para amostras de urina. 20.2 EXAME SOROLÓGICO Exame sorológico para a detecção de anticorpos contra o vírus zika pode ser realizado a partir do sexto dia após o início dos sintomas. O período para detecção dos anticorpos IgM é o mesmo para dengue, chikungunya e zika: sempre a partir do 6º dia de sintomas. A sorologia para zika pode apresentar reação cruzada com anticorpos de dengue, febre amarela, febre do Nilo Ocidental ou vacina para febre amarela e encefalite japonesa. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 85 20.3 ORIENTAÇÕES PARA O DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO DE ZIKA Testagem para zika é prioritária para as seguintes situações: • suspeita de casos em áreas onde não há circulação viral conhecida; • casos suspeitos com manifestações neurológicas ou óbito; • casos suspeitos em gestantes, idosos, recém- nascidos e crianças. O método preferencial é a pesquisa viral (RT-PCR). Caso esse exame seja negativo, é indicada a pesquisade anticorpos a partir do sexto dia de doença. No entanto, deve-se interpretar com cautela o resultado de sorologia para zika, sempre levando em consideração a possibilidade de reação cruzada. Para maior segurança no diagnóstico, é recomendada a testagem em paralelo para dengue. Em caso de sorologia negativa para zika e dengue, deve- se prosseguir a investigação com exame sorológico para chikungunya. Sorologia (após o 5º dia) Caso confirmado (atenção à possibilidade de reação cruzada) Investigar outras hipóteses diagnósticas Caso confirmado RT-PCR - Sangue (até o 5º dia) - Urina (até o 15º dia) Investigação de zika para casos suspeitos NEGATIVO POSITIVO NEGATIVOPOSITIVO A infecção por zika e a produção de anticorpos IgG resultam em imunidade prolongada (provavelmente permanente) para a doença. Veja na figura abaixo um resumo do momento ideal para coleta de cada tipo de exame. Figura 25 – Métodos diagnósticos para zika indicados de acordo com o tempo de sintomas. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 86 CAPÍTULO 21.0 ZIKA – COMPLICAÇÕES Zika é um vírus que apresenta neurotropismo (afinidade por células do sistema nervoso) maior do que outras arboviroses. Esse tropismo é muito maior para células precursoras neuronais. Isso explica as duas principais complicações da doença: microcefalia e síndrome de Guillain-Barré. Figura 26 – A microcefalia é uma das complicações mais temidas de zika. COMPLICAÇÕES NEUROLÓGICAS DE ZIKA Mielite Paralisia facial Meningoencefalite Síndrome de Guillain-Barré A microcefalia ocorre quando a gestante é infectada pelo vírus. Detalhes sobre essa complicação, incluindo diagnóstico e acompanhamento clínico, você encontra no livro Infecções Congênitas, escrito em conjunto pela obstetrícia e pediatria. A síndrome de Guillain-Barré manifesta-se como redução de força com início distal, que pode progredir em algumas semanas. A ausência de reflexos tendinosos é um achado característico. Trata- se de uma doença causada por autoimunidade, sendo descrita como uma polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda. Embora o verdadeiro papel do vírus zika ainda não esteja bem definido na síndrome de Guillain-Barré, o aumento de casos dessa síndrome foi expressivo em populações atingidas por epidemias de zika em países como Brasil, Venezuela, Colômbia e Polinésia Francesa. Outras complicações neurológicas também já foram descritas em pacientes com zika, como: meningoencefalite, mielite e paralisia facial. O smart-art ao lado resume as complicações neurológicas de zika (excluindo aqui os casos de infecção intrauterina): Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 87 Além das complicações neurológicas, há relatos de acometimento ocular que vai além da conjuntivite, como iridociclite e coriorretinite. DICA PARA A PROVA As complicações mais cobradas sobre zika são a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré. Por isso, não deixe de ler, com muita atenção, o livro de Infecções Congênitas. CAI NA PROVA Vamos resolver mais uma questão para ver como esses conceitos aparecem para você? (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL – RS – 2017) Considere as assertivas abaixo sobre a infecção pelo vírus Zika. I – Aedes aegypti é o único vetor conhecido; II – A vacina inativada previne 60% das infecções; III – Está associada à síndrome de Guillain-Barré. A) Apenas I. B) Apenas II. C) Apenas III. D) Apenas I e III. E) I, II e III. COMENTÁRIO Vamos analisar as afirmativas: I – Falsa. Aedes aegypti é o principal vetor de zika. No entanto, o Aedes albopictus também pode transmitir essa doença. II – Falsa. Não há vacina disponível contra o zika vírus. III – Verdadeira. Há diversos trabalhos científicos que evidenciam uma associação da infecção pelo zika com a síndrome de Guillain- Barré. Correta a alternativa C Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 88 CAPÍTULO 22.0 ZIKA – TRATAMENTO O tratamento de infecção pelo vírus zika é muito simples, pois é pautado no uso de medicamentos sintomáticos, repouso e hidratação. Não há medicamentos antivirais disponíveis para o tratamento dessa infecção. Em provas, é mais comum encontrar questões que perguntam o que não pode ser usado no tratamento. Como um dos diagnósticos diferenciais de zika é dengue, recomenda-se que o manejo de pacientes com suspeita de zika siga as orientações da classificação de risco de dengue (de acordo com os grupos A, B, C e D). Para controle de dor e febre são indicados paracetamol ou dipirona. Anti-histamínicos podem ser prescritos para controle do prurido. Não há prescrição específica de hidratação: apenas se recomenda que o paciente seja estimulado a ingerir líquidos. Todo paciente com zika deve ser orientado a procurar atendimento médico ao notar sintomas sugestivos de complicações neurológicas. Em situações assim, o tratamento deve ser direcionado à própria complicação. Além de saber o que pode ser prescrito para manejar os sintomas de zika, é essencial saber que medicamentos são contraindicados. Assim como em dengue e na fase aguda de chikungunya, não se recomenda o uso de anti-inflamatórios não esteroidais ou de ácido acetilsalicílico (AAS). A principal preocupação em relação ao uso de anti-inflamatórios é o risco de o paciente ter, na verdade, dengue, e não zika. Já o AAS pode estar relacionado ao risco de síndrome de Reye. TRATAMENTO DE ZIKA Controle de dor e febre Paracetamol/Dipirona Controle do prurido Medidas gerais Manifestações neurológicas ou visuais Contraindicações Anti-histamínico Repouso e estímulo à ingestão hídrica Avaliação por neurologista ou oftalmologista - tratamento de acordo com a complicação Anti-inflamatórios não esteroidais e ácido acetilsalicílico Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 89 CAI NA PROVA (UNICAMP – SP - 2017) Mulher, 23a, G1P0C0A0, 16ª semana de gestação, procura a Unidade Básica de Saúde referindo quadro de vermelhidão e coceira na pele há 2 dias, acompanhado de um episódio de febre de 38°C, além de dor articular. Exame físico: T = 37,8°C; FR = 18 irpm; FC = 80 bpm; olhos: hiperemia conjuntival; pele: exantema difuso discreto; prova do laço: negativa. A CONDUTA É: A) Solicitar hemograma, AST/ALT, ureia e creatinina, com monitoramento domiciliar da temperatura e retorno diário à Unidade. B) Solicitar reação em cadeia da polimerase para Zika vírus e dengue; retorno diário para hemograma e hidratação domiciliar. C) Solicitar sorologia para Zika e para dengue; retorno diário para hemograma e hidratação domiciliar. D) Solicitar sorologia para febre amarela e Chikungunya, prescrever sintomáticos e hidratação domiciliar. COMENTÁRIO O Ministério da Saúde define como casos suspeitos de infecção por vírus zika pacientes que apresentem exantema maculopapular pruriginoso acompanhado de um dos seguintes sinais e sintomas: febre, hiperemia conjuntival/conjuntivite não purulenta, artralgia/ poliartralgia e/ou edema periarticular. Com exceção de edema periarticular, a paciente descrita nessa questão apresenta todos esses sintomas. Incorreta a alternativa A: Gestante com doença exantemática deve ser investigada com exames laboratoriais diagnósticos para zika e dengue, e não apenas com exames gerais e inespecíficos como os descritos na alternativa. Correta a alternativa B Como há suspeita de infecção por vírus zika em gestante, deve-se realizar coleta de amostra de sangue para exame de reação em cadeia de polimerase (PCR) para zika e dengue. Não é indicada sorologia para dengue devido ao tempo curto de sintomas – sorologia deve ser solicitada apenas a partir do quinto deou cinco anos. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 9 CAI NA PROVA Veja a seguir como as características gerais da dengue podem ser cobradas em provas (HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE – HCPA RS - 2018) Considere as assertivas abaixo sobre dengue. I - É um vírus RNA com 4 sorotipos conhecidos: DENV 1, DENV 2, DENV 3 e DENV 4; II - A infecção pode ser assintomática; III - Infecção prévia por um sorotipo diferente é fator de risco para dengue grave. Quais são CORRETAS? A) Apenas I. B) Apenas II. C) Apenas III. D) Apenas I e II. E) I, II e III. COMENTÁRIO Afirmativa I é verdadeira, com um porém. O vírus da dengue (DENV) faz parte do gênero Flavivirus e família Flaviviridae, cujo genoma é composto por RNA. É a arbovirose com maior prevalência no Brasil e nas Américas. O vírus da dengue é classificado em quatro sorotipos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Há um quinto sorotipo de dengue (DENV-5) que foi descoberto mais recentemente em florestas da Malásia (não há registro de infecção no Brasil). No entanto, a maioria das questões de provas ainda considera a existência de apenas quatro sorotipos. Nessa questão, não há alternativa contendo apenas II e III como corretas; assim, o aluno pode supor que a banca considera correta a afirmativa I. Não seria inadequado solicitar recurso para anulação da questão. Como nem sempre a banca é sensível aos recursos, é importante sempre usar de bom senso na hora de assinalar a resposta. Afirmativa II é verdadeira, pois dengue pode apresentar um amplo espectro clínico, variando de casos assintomáticos a graves. Afirmativa III é verdadeira. Embora a imunidade adquirida após infecção por dengue seja permanente para um mesmo sorotipo (homóloga), a reinfecção por outro sorotipo é fator de risco para dengue grave. Correta a alternativa E Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 10 (ES - UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO - UFES - 2019) Paciente residente nos Estados Unidos, viajando a passeio no Espírito Santo, conheceu a região montanhosa de Pedra Azul, e posteriormente dirigiu-se para Conceição da Barra. Cerca de 5 dias após o retorno para casa, evoluiu com febre, mialgia, cefaleia holocraniana, que foram seguidas de rash cutâneo. Realizadas algumas sorologias, mas o diagnóstico assim mesmo ficou confuso. O laboratório consegue afirmar que trata-se de infecção por Flavivírus. Com base nesta informação, quais os possíveis diagnósticos etiológicos? A) Dengue, Zika, Chikungunya. B) Dengue, Chikungunya, febre amarela. C) Zika, febre amarela, febre do Oropouche. D) Dengue, Zika, febre amarela. COMENTÁRIO: Flavivirus é um gênero da família Flaviviridae,e é composto por vírus que, em sua maioria, são transmitidos por artrópodes, e causam infecções que podem ser assintomáticas ou até mesmo resultar em febres hemorrágicas ou doenças neurológicas. Os principais Flavivirus de interesse médico são: dengue, zika, vírus da febre amarela, vírus do Nilo Ocidental e vírus da encefalite japonesa. Incorretas as alternativas A e B, pois chikungunya pertence ao gênero Alphavirus, da família Togaviridae. Incorreta a alternartiva C, pois oropouche pertence ao gênero Orthobunyavirus, da família Peribunyaviridae. Correta a alternativa D. Dengue, zika e febre amarela são doenças causadas por Flavivirus. (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE VITÓRIA – EMESCAM – ES - 2019) Febre chikungunya e dengue são causadas por qual grupo de vírus? Marque a CORRETA: A) Adenovírus B) Picornavirus C) Arbovírus D) Parvovírus COMENTÁRIO Essa é uma questão bem direta. Veja que é importante conhecer o conceito de arbovírus. Incorreta a alternatva A: Adenovírus podem causar infecções de vias aéreas superiores, conjuntivite, bronquiolite, pneumonia ou gastroenterite. Incorreta a alternatva B: Os vírus da chikungunya e dengue não são picornavírus. Os representantes mais importantes desse grupo são os enterovirus e o vírus da hepatite A. Correta a alternativa C Arbovírus é um nome derivado de arthropod-borne vírus, ou seja, vírus transmitido por artrópodes. Incorreta a alternatva D: Parvovírus causa eritema infeccioso, doença que resulta em exantema muito típico: inicia-se pela face, com eritema difuso e edema (“face esbofeteada”), acometendo posteriormente tronco e face extensora dos membros, com aspecto rendilhado. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 11 CAPÍTULO 3.0 DENGUE - FISIOPATOLOGIA 3.1 TRANSMISSÃO O vírus da dengue é transmitido por meio da picada da fêmea infectada de mosquitos das espécies Aedes aegypti (figura 1) e Aedes albopictus. No Brasil, apenas a transmissão por Aedes aegypti foi comprovada. Esse é um mosquito que se prolifera mais facilmente em regiões tropicais e subtropicais, o que explica a maior prevalência nessas áreas. Sua reprodução ocorre com a deposição de ovos em água parada; por essa razão, essa doença é mais comum em áreas com ocupação urbana desordenada e com más condições sanitárias. Os ovos de Aedes aegypti são resistentes a ressecamento, podendo sobreviver por muitos meses em ambientes com baixa umidade, eclodindo após a chegada do próximo período chuvoso. Desmatamentos, mudanças climáticas e migração populacional são fatores que impulsionam a disseminação da doença. Figura 1 – Aedes aegypti fêmea alimentando-se de sangue. Fonte: Pixabay. Os aspectos morfológicos dos mosquitos não são muito cobrados em provas. Como curiosidade, veja a figura 2, que mostra um exemplar de Aedes aegypti. Figura 2 – Aedes aegypti. Note a presença de manchas brancas em suas pernas. Na região dorsal, há um desenho com quatro linhas, semelhante a uma harpa ou taça. Fonte: Shutterstock Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 12 O Aedes aegypti também pode transmitir febre amarela urbana, chikungunya e zika, o que pode levar à dificuldade de controle epidemiológico e de diagnóstico (pois são doenças semelhantes, em alguns aspectos). Paciente com dengue pode transmitir a doença enquanto houver viremia, ou seja, é necessária a presença do vírus na corrente sanguínea para que isso aconteça. O vírus é encontrado no sangue desde um dia antes do início dos sintomas até o quinto dia de doença (leia mais sobre isso no item 3.3). Já o mosquito Aedes aegypti passa a transmitir o vírus 8 a 12 dias após se alimentar de sangue infectado, tornando-se então transmissor até o fim de sua vida. É importante ressaltar que não há transmissão direta de pessoa a pessoa. O Aedes aegypti é um mosquito de hábitos diurnos, sendo maior o risco de picada pela manhã e ao entardecer. Esse comportamento é diferente do Anopheles (transmissor da malária), que tem hábitos noturnos. 3.2 PERÍODO DE INCUBAÇÃO O início dos sintomas da dengue ocorre após um período de incubação que pode durar de 4 a 10 dias, sendo sua média de 5 a 6 dias. Atenção: algumas publicações (especialmente as mais antigas) podem informar que o período de incubação dura até 14 dias. O mais importante é você saber que o período de incubação é curto, não ultrapassando duas semanas. 3.3 VIREMIA E RESPOSTA IMUNE A viremia (presença do vírus na corrente sanguínea) inicia-se cerca de um dia antes do início dos sintomas e dura até o quinto dia de doença. A resolução da viremia é resultado da ação de anticorpos neutralizantes (IgM e, posteriormente, IgG), que surgem a partir do sexto dia após o início do quadro. Preste atenção a essas informações, pois são essenciais para o entendimento dos testes diagnósticos para dengue. Na figura a seguir, preste atenção às curvas Virologia e Infecção primária para entender a relação temporal da viremia da dengue e a produção de anticorpos contradia de doença. A orientação de retorno diário para realização de hemograma segue a orientação do grupo B da classificação de risco para dengue (a paciente pertence ao grupo B, por ser gestante). Incorreta a alternativa C: Não é indicada sorologia para dengue ou zika nesse caso devido ao tempo curto de sintomas – sorologia deve ser solicitada apenas a partir do quinto de dia de doença. O exame de escolha, nessa fase da doença, é reação em cadeia de polimerase (PCR) para zika e dengue. Incorreta a alternativa D: O quadro clínico é sugestivo de infecção por vírus zika; nesse caso, é importante também investigar dengue como diagnóstico diferencial. O exame de escolha, nessa fase da doença, é reação em cadeia de polimerase (PCR) para zika e dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 90 CAPÍTULO 23.0 ZIKA – PREVENÇÃO Não é complicado entender as medidas de prevenção de zika quando se conhece as vias de transmissão. Quais são as principais vias? 1. picada de mosquito fêmea do gênero Aedes; 2. intrauterina/periparto; 3. sexual. Não há medidas preventivas eficazes para evitar a transmissão vertical (intrauterina ou periparto) de zika quando a gestante já está infectada. Por esse motivo, é importante que gestantes se protejam da infecção por zika evitando a exposição ao mosquito transmissor e a exposição sexual de risco. 23.1 PREVENÇÃO DE EXPOSIÇÃO AO AEDES AEGYPTI A redução do risco de exposição ao Aedes aegypti passa por duas estratégias: controle vetorial e medidas de proteção individual. Você pode ler mais sobre isso no item 8 (Dengue - Medidas de Prevenção). Informação importante: gestantes podem (e devem) usar repelentes! 23.2 PREVENÇÃO DA TRANSMISSÃO SEXUAL O vírus zika pode ser detectado no sêmen durante meses após a infecção. Homens infectados que residem ou estiveram em área com transmissão de zika devem usar preservativos durante qualquer relação sexual com gestante ou mulher com possibilidade de engravidar. A Organização Mundial da Saúde recomenda a manutenção desses cuidados por três meses após infecção ou exposição de risco. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 91 CAI NA PROVA (SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE GOIÁS – GO – 2017) Desde 2015, casos de infecção pelo vírus da zika têm sido notificados no Brasil. Essa questão tem preocupado profissionais e órgãos de saúde no país. Sobre esta infecção, sabe-se que: A) A doença é autolimitada, dura de quatro a sete dias, se inicia com rash cutâneo ascendente, febre alta, artralgia e conjuntivite purulenta, e apresenta 50% dos casos assintomáticos. B) O diagnóstico é confirmado por RT-PCR em sangue, urina ou saliva, entretanto é limitado por reações cruzadas com outros retrovírus. C) O diagnóstico diferencial entre a infecção pelo vírus da zika, dengue e chikungunya é essencialmente clínico, sendo os sintomas geralmente mais intensos na infecção pelo vírus da zika. D) O paciente com diagnóstico de infecção pelo vírus da zika, que for sexualmente ativo, deve ser informado sobre o risco de transmissão sexual e orientado a utilizar preservativo. COMENTÁRIO Essa é uma questão que inclui diversos aspectos de zika, desde o quadro clínico até a prevenção. Incorreta a alternativa A. Zika apresenta-se com rash de evolução craniocaudal, febre baixa ou ausente, artralgia e conjuntivite não purulenta. Incorreta a alternativa B. O exame de RT-PCR pode ser realizado em sangue ou urina. É um método com elevada especificidade e não apresenta reações cruzadas com outros vírus. Incorreta a alternativa C. O diagnóstico diferencial definitivo dessas arboviroses é feito com exames sorológicos ou pesquisa de antígenos ou RT-PCR. Além disso, os sintomas geralmente são menos intensos na infecção pelo vírus zika. Correta a alternativa D Zika vírus foi detectado no sêmen por períodos mais prolongados do que no sangue. Por conta disso, recomenda-se indicar uso de preservativo e informar ao paciente o risco de transmissão da doença. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 92 CAPÍTULO 24.0 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS ARBOVIROSES Muitas questões exigem do aluno a capacidade de identificar o diagnóstico provável de um quadro clínico exposto no enunciado. Isso é muito comum em questões sobre arboviroses. Na vida real, muitas vezes o médico depara-se com pacientes com quadros febris agudos inespecíficos, sendo de difícil diferenciação. Como exemplo, podemos citar um paciente com febre, mialgia e cefaleia. Apenas com esses dados, não há como saber se o paciente tem dengue, leptospirose ou outra doença infecciosa aguda. No entanto, em questões de provas de Residência Médica isso raramente acontece. Geralmente, as bancas utilizam características clínicas e/ou laboratoriais típicas para indicar qual é o diagnóstico correto. Se você souber reconhecer essas pistas clínicas, não será difícil acertar as questões. Nesse subtópico, vamos explorar o diagnóstico diferencial mais a fundo. Vamos relembrar quais são as principais características de cada uma das doenças abordadas neste livro? Dengue Chikungunya Zika Período de incubação Até 14 dias Até 12 dias Até 7 dias Manifestações clínicas Febre alta Febre alta Febre baixa ou ausente Cefaleia retro-orbitária, mialgia intensa Artralgia intensa, edema articular Mialgia leve, artralgia leve a moderada, edema articular leve a moderado Exantema (50%) – 3º ao 6º dia Exantema (50%) – 2º ao 5º dia Exantema (>90%) – 1º ao 2º dia Conjuntivite: incomum Conjuntivite (30%) Conjuntivite (50 a 90%) Trombocitopenia Muito frequente, podendo ser intensa Incomum (leve a moderada) Rara Discrasia hemorrágica Comum Incomum Ausente Tabela 7 – Principais características de dengue, chikungunya e zika. Com base nessas informações, você será capaz de reconhecer essas três doenças. A seguir, vamos aprofundar-nos um pouco no diagnóstico diferencial de cada doença. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 93 24.1 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE DENGUE O diagnóstico diferencial de dengue é muito amplo, pois o quadro clínico pode ser pouco específico. O Ministério da Saúde classifica o diagnóstico diferencial em síndromes clínicas. Essa é uma classificação didática, que eventualmente pode até causar alguma confusão: algumas doenças poderiam ser classificadas em mais de uma síndrome. Essa maneira de categorizar os diagnósticos diferenciais não é muito cobrada em provas, mas já foi tema de questão. Assim, é importante que você tenha alguma familiaridade com essa classificação. Veja abaixo as síndromes clínicas do diagnóstico de dengue, segundo o Ministério da Saúde: a. Síndrome febril: enteroviroses, influenza e outras viroses respiratórias, hepatites virais, malária, febre tifoide, chikungunya, zika e outras arboviroses. b. Síndrome exantemática febril: rubéola, sarampo, escarlatina, eritema infeccioso, exantema súbito, enteroviroses, mononucleose infecciosa, parvovirose, citomegalovirose, farmacodermias, doença de Kawasaki, doença de Henoch-Schönlein, chikungunya, zika e outras arboviroses. c. Síndrome hemorrágica febril: hantavirose, febre amarela, leptospirose, malária grave, riquetsiose e púrpuras. d. Síndrome dolorosa abdominal: apendicite, obstrução intestinal, abscesso hepático, abdome agudo, pneumonia, infecção urinária, colecistite aguda, etc. e. Síndrome do choque: meningococcemia, septicemia, meningite por Haemophilus influenzae tipo B, febre purpúrica brasileira, síndrome do choque tóxico e choque cardiogênico (miocardites). f. Síndrome meníngea: meningites virais, meningite bacteriana e encefalites. Não se assuste com essa lista! O importante é que você entenda as diferentes síndromes do diagnósticodiferencial. 24.2 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE CHIKUNGUNYA Assim como a dengue, a febre chikungunya pode confundir-se com outras doenças febris agudas. No entanto, há uma característica que abre um outro leque para diagnóstico diferencial: a artralgia intensa. Por isso, além de doenças como malária e leptospirose, devemos pensar em artrite séptica, febre reumática e doenças autoimunes. Devemos também pensar em duas arboviroses pouco comuns, mas que causam febre com artralgia: Mayaro e Oropouche. Leia mais sobre esses vírus no item 27.0. 24.3 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE ZIKA O diagnóstico diferencial de zika passa por dengue, chikungunya e outras doenças febris agudas, além de outras infecções que causam exantema (como sarampo e rubéola) ou manifestações neurológicas (poliomielite e meningoencefalites virais). Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 94 CAPÍTULO 25.0 VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA Arboviroses são de interesse para vigilância epidemiológica. Todas devem ser notificadas compulsoriamente. Em algumas situações, deve ser feita a notificação imediata (em até 24 horas). A notificação deve ser feita não apenas para casos confirmados, mas também para casos suspeitos. Doença ou agravo Notificação semanal Notificação imediata (em até 24 horas) Dengue Casos X Óbitos X Chikungunya Casos X Casos em áreas sem trans- missão conhecida X Óbitos X Zika Casos X Casos em gestantes X Óbitos X Febre do Nilo Ocidental e outras arboviroses de importância em saúde pública X Tabela 8 – Notificação de arboviroses. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 95 CAI NA PROVA (SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE GOIÁS – GO – 2017) Em relação à doença causada pelo vírus da zika, no Brasil, A) É considerado caso suspeito aquele que apresenta febre acompanhada de dois ou mais dos seguintes sinais e sintomas: exantema maculopapular, ou náuseas/vômitos, ou mialgia/artralgia. B) É considerada doença de notificação não compulsória. C) Há confirmação de transmissão autóctone. D) Deve-se comunicar sua suspeita às secretarias municipais e estaduais em até 15 dias para investigação. COMENTÁRIO Essa questão é um exemplo de como a notificação compulsória das arboviroses pode ser cobrada. Incorreta a alternativa A. É considerado caso suspeito o paciente que apresente exantema maculopapular pruriginoso acompanhado de um dos seguintes sinais e sintomas: febre, conjuntivite não purulenta, artralgia ou edema periarticular. Incorreta a alternativa B. A zika é uma doença de notificação compulsória. Correta a alternativa C A transmissão autóctone, ou seja, aquela que ocorreu dentro do território brasileiro, já foi registrada no Brasil. Incorreta a alternativa D. A periodicidade de notificação de casos suspeitos de zika deve ser semanal. CAPÍTULO 26.0 OUTRAS ARBOVIROSES Nesse tópico, vamos abordar outras arboviroses que raramente são cobradas em provas de Residência Médica. Não há necessidade de conhecê-las a fundo como dengue, chikungunya e zika, pois as questões realmente são infrequentes. Além disso, não costumam ser cobradas com muitos detalhes. Se você sentiu falta de febre amarela neste livro, não se preocupe: embora também seja uma arbovirose, febre amarela será contemplada no livro de síndromes febris íctero-hemorrágicas. 26.1 FEBRE DO NILO OCIDENTAL Dos arbovírus raros no Brasil, esse é o que tem maior probabilidade de ser cobrado em provas. Além disso, é um vírus que já causou epidemias nos Estados Unidos, o que chamou muito a atenção de epidemiologistas em todo o mundo. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 96 26.1.1 EPIDEMIOLOGIA E TRANSMISSÃO Assim como os vírus da dengue e zika, o vírus do Nilo Ocidental (West Nile virus) é um flavivírus. Faz parte do complexo de vírus da encefalite japonesa. Foi descrito pela primeira vez no continente africano, em 1937. Em 1999, foram descritos os primeiros casos nos Estados Unidos, resultando na infecção de mais de 36 mil pessoas e 2 mil óbitos até o ano de 2012. No Brasil, foram notificados apenas poucos casos confirmados desde 2014, identificados no Piauí. No entanto, epizootias (equivalente à epidemia em animais) têm sido descritas desde 2011, principalmente na região do Pantanal e no estado do Espírito Santo. A transmissão ocorre pela picada do mosquito do gênero Culex. O vírus pode infectar equinos, humanos, primatas e aves. Algumas aves podem manter viremia prolongada, por isso são consideradas reservatórios da doença. 26.1.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E TRATAMENTO A maioria dos pacientes com febre do Nilo Ocidental não apresenta sintomas ou evolui apenas com sintomas leves. A forma leve é inespecífica: quadro febril agudo, acompanhado de sintomas como mal-estar, cefaleia, mialgia, linfadenopatia e exantema maculopapular. O quadro grave (e o mais preocupante) resulta em manifestações neurológicas: encefalite, meningoencefalite e/ou paralisia flácida aguda. O principal fator de risco para doença grave é a idade avançada. Não há tratamento específico, para a febre do Nilo Ocidental – os pacientes com manifestações neurológicas graves devem receber tratamento de suporte em unidades de terapia intensiva. 26.1.3 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de febre do Nilo Ocidental é feito de forma semelhante ao de outras arboviroses: detecção do vírus ou de anticorpos. A detecção viral pode ser realizada por RT-PCR no sangue até o 5º dia de doença ou no líquor até o 15º dia. Além de RT-PCR, pode-se utilizar imuno-histoquímica para detecção do antígeno viral em amostras de tecido (método utilizado principalmente para diagnóstico post-mortem). A detecção de anticorpos IgM é desempenhada principalmente pelo método ELISA. Deve-se levar em consideração o risco de falso-positivo por reação cruzada com anticorpos de outros flavivírus ou da vacina da encefalite japonesa. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 97 CAI NA PROVA (CENTRO UNIVERSITÁRIO DO ESPÍRITO SANTO – UNESC – ES – 2019) Em relação à febre do Nilo Ocidental, considerando seus hospedeiros e reservatórios, é correto afirmar: A) No ciclo silvestre os primatas não humanos são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus. B) O ciclo de transmissão do vírus envolve aves e mosquitos. Nos mosquitos, a transmissão vertical do vírus favorece a sua manutenção na natureza. C) No Brasil, os principais vetores e reservatórios são os carrapatos do gênero Amblyomma, entretanto, potencialmente, qualquer espécie de carrapato pode ser reservatório. D) Centenas de espécies de mamíferos (silvestres e domésticos) presentes em todos os biomas do Brasil podem ser consideradas reservatórios. E) Os animais sinantrópicos (roedores) e domésticos (canídeos, felídeos e equídeos) fazem parte da cadeia de transmissão. Com relação a esses últimos, seu papel na manutenção do parasito no meio ambiente ainda não foi esclarecido. COMENTÁRIO Essa questão é uma raridade: aborda, exclusivamente, aspectos sobre a febre do Nilo Ocidental. Vamos analisar as afirmativas: Incorreta a alternativa A. No ciclo silvestre, algumas espécies de aves são os reservatórios e amplificadores do vírus. O homem é considerado hospedeiro acidental e terminal. Correta a alternativa B Os mosquitos transmitem o vírus para sua prole e isso favorece a manutenção da doença. As aves são os reservatórios e amplificadores. Incorreta a alternativa C. Os vetores são mosquitos do gênero Culex. Incorreta a alternativa D, pois somente as aves são consideradas reservatórios. Incorreta a alternativa E. Esses animais não fazem parte da cadeia de transmissão. Caso sejam infectados, são hospedeiros acidentais e não desenvolvemviremia intensa para infectar mosquitos. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 98 26.2 OUTROS ARBOVÍRUS É improvável que você encontre questão em prova de Residência Médica sobre as arboviroses a seguir. Contudo, é importante que você saiba que elas existem. Se alguma banca “mal-intencionada” incluir questão sobre essas doenças, você não será pego de surpresa! A real incidência dessas arboviroses é desconhecida, devido às manifestações clínicas parecidas com as de outras doenças mais comuns (dengue, zika e chikungunya). 26.2.1 MAYARO Mayaro é um vírus que pode ser relacionado ao chikungunya: também pertence ao gênero Alphavirus (família Togaviridae) e causa sintomas semelhantes (febre e artralgia). Sua transmissão lembra a da febre amarela. Ocorre pela picada do mosquito Haemagogus e primatas não humanos são os hospedeiros definitivos. Seres humanos (e outros mamíferos) são hospedeiros acidentais. A doença costuma ser autolimitada e manifesta-se por febre, mialgia, artralgia entre outros sintomas. Alguns casos podem persistir com artralgia ao longo de meses. Raramente, casos graves podem desenvolver encefalite. Surtos esporádicos são detectados na região amazônica. 26.2.2 OROPOUCHE A febre Oropouche é causada por vírus de mesmo nome, pertencente ao gênero Orthobunyiavirus (família Bunyaviridae). Causa surtos na região amazônica, podendo ser confundida com dengue. Uma característica desse vírus é a existência de ciclo silvestre e urbano. No ciclo silvestre, a transmissão acontece pela picada de mosquitos Aedes e Culex. No ciclo urbano, o mosquito envolvido é o Culicoides (popularmente conhecido como “maruim” ou “pólvora”). O quadro clínico é similar ao da dengue: febre, cefaleia, mialgia, exantema. Encefalite pelo vírus Oropouche também já foi descrita. 26.2.3 ROCIO Rocio é mais um flavivírus que circula no Brasil. Causou uma grande epidemia na década de 1970, no Vale do Ribeira (estado de São Paulo), que resultou em mais de mil casos de encefalite e cem óbitos. Desde então, sua circulação tem sido detectada esporadicamente no Brasil. Os principais transmissores são mosquitos do gênero Aedes e Culex, e pássaros são reservatórios naturais da doença. A maioria dos pacientes apresenta sintomas comuns às arboviroses (febre, cefaleia, mialgia, mal-estar) e os casos graves podem demonstrar sinais de acometimento do sistema nervoso central. Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app https://estr.at/EdQR Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 99 https://estr.at/EdQR Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 100 CAPÍTULO 28.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Guia de Vigilância em Saúde: volume único [recurso eletrônico]/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Coordenação- Geral de Desenvolvimento da Epidemiologia em Serviços. – 3ª. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Acessado em 04/04/2021 em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_3ed.pdf. 2. Dengue: diagnóstico e manejo clínico: adulto e criança [recurso eletrônico]/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. – 5. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Acessado em 04/04/2021 em: https:// portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2016/janeiro/14/dengue-manejo-adulto-crianca-5d.pdf 3. Dengue: diagnóstico e manejo clínico: adulto e criança/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Diretoria Técnica de Gestão. – 4. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. Acessado em 04/04/2021 em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/dengue_ diagnostico_manejo_clinico_adulto.pdf 4. Plano de Contingência Nacional para Epidemias de Dengue/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Acessado em 04/04/2021 em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/ publicacoes/plano_contingencia_nacional_epidemias_dengue.pdf 5. Vigilância em Saúde no Brasil 2003-2019: da criação da Secretaria de Vigilância em Saúde aos dias atuais. Bol Epidemiol [Internet]. 2019 set [data da citação]; 50(n.esp.):1-154. Acessado em 04/04/2021 em: http://www.saude.gov.br/boletins-epidemiologicos 6. Dengue: guidelines for patient care in the Region of the Americas. Washington, D.C. : 7. PAHO, 2016. 8. MOURAO, Maria Paula Gomes et al. Arboviral diseases in the Western Brazilian Amazon: a perspective and analysis from a tertiary health & research center in Manaus, State of Amazonas. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., Uberaba , v. 48, supl. 1, p. 20-26, June 2015 . 9. Chikungunya: manejo clínico/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2017: Acessado em 04/04/2021 em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/chikungunya_ manejo_clinico_1ed.pdf 10. CHRISTOPOULOS, Georges et al. Recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia para diagnóstico e tratamento da febre chikungunya. Parte 1 – Diagnóstico e situações especiais, Revista Brasileira de Reumatologia, Volume 57, Supplement 2, 2017. 11. CHRISTOPOULOS, Georges et al. Recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia para diagnóstico e tratamento da febre chikungunya. Parte 2 – Tratamento, Revista Brasileira de Reumatologia, Volume 57, Supplement 2, 2017. 12. Orientações integradas de vigilância e atenção à saúde no âmbito da Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional: procedimentos para o monitoramento das alterações no crescimento e desenvolvimento a partir da gestação até a primeira infância, relacionadas à infecção pelo vírus Zika e outras etiologias infeciosas dentro da capacidade operacional do SUS [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Acessado em 04/04/2021 em: http://bvsms. saude.gov.br/publicacoes/orientacoes_emergencia_gestacao_infancia_zika.pdf 13. LIMA-CAMARA, Tamara Nunes. Arboviroses emergentes e novos desafios para a saúde pública no Brasil. Rev. Saúde Pública, São Paulo , v. 50, 36, 2016 14. VIASUS, Diego et al. Chikungunya pathogenesis: from the clinics to the bench. J Infect Dis. 2016 Dec 15;214(suppl 5). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_3ed.pdf https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2016/janeiro/14/dengue-manejo-adulto-crianca-5d.pdf https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2016/janeiro/14/dengue-manejo-adulto-crianca-5d.pdf http://www.saude.gov.br/boletins-epidemiologicos http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/chikungunya_manejo_clinico_1ed.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/chikungunya_manejo_clinico_1ed.pdf http://bvsms.saude.gov.br/publicacoes/orientacoes_emergencia_gestacao_infancia_zika.pdf http://bvsms.saude.gov.br/publicacoes/orientacoes_emergencia_gestacao_infancia_zika.pdf Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 101 CAPÍTULO 29.0 LISTA DE IMAGENS E TABELAS • Tabela 1 – Distribuição de questões portema – arboviroses. • Tabela 2 – Distribuição de questões por tema – dengue. • Tabela 3 – Resumo das características dos grupos de risco da dengue. • Tabela 4 - características das vacinas para dengue. • Tabela 5 – Distribuição de questões por tema – chikungunya. • Tabela 6 – Distribuição de questões por tema – zika. • Tabela 7 – Principais características de dengue, chikungunya e zika. TABELAS: IMAGENS: • Tabela 8 – Notificação de arboviroses. • Figura 1 – Aedes aegypti fêmea alimentando-se de sangue. • Figura 2 – Diferenças entre os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. • Figura 3 – Relação temporal entre quadro clínico, viremia e produção de anticorpos na dengue. • Figura 4 – Permeabilidade capilar aumentada na dengue. • Figura 5 – Derrames cavitários comuns na dengue. • Figura 6 – Representação da teoria da amplificação dependente de anticorpos. • Figura 7 – Sintomas da fase febril da dengue. • Figura 8 – Exantema da dengue. • Figura 9 – Sintomas da dengue. • Figura 10 – Exemplos de manifestações hemorrágicas da dengue. • Figura 11 – Diagnóstico de dengue. • Figura 12 – Relação temporal entre quadro clínico, viremia e produção de anticorpos na dengue. • Figura 13 – Métodos diagnósticos indicados de acordo com o tempo de sintomas. • Figura 14 – Demonstração da prova do laço. • Figura 15 – O acúmulo de água parada em objetos favorece a reprodução do Aedes aegypti. • Figura 16 – Quadro clínico típico de chikungunya. • Figura 17 – Edema articular bilateral e distal. • Figura 18 – Exemplo de exantema da febre chikungunya. • Figura 19 – Dermatite. • Figura 20 – Métodos diagnósticos para chikungunya indicados de acordo com o tempo de sintomas. • Figura 21 – Escala visual analógica da dor. • Figura 22 – Manifestações típicas de zika. • Figura 23 – Exantema maculopapular (comum em casos de zika). • Figura 24 – Conjuntivite não purulenta. • Figura 25 – Métodos diagnósticos para zika indicados de acordo com o tempo de sintomas. • Figura 26 – A microcefalia é uma das complicações mais temidas de zika. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 102 CAPÍTULO 30.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao fim de um dos principais temas da infectologia! Dedique o tempo que for necessário para estudar este livro, pois há grandes chances de encontrar questões sobre arboviroses em provas de Residência Médica. Também não deixe de assistir às aulas e de praticar para a prova no sistema de questões. Bons estudos para você! Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 103 https://med.estrategia.como vírus. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 13 Figura 3 – Relação temporal entre quadro clínico, viremia e produção de anticorpos na dengue. Fonte: adaptado de Ministério da Saúde (2019). A infecção resulta em imunidade duradoura específica para o sorotipo que a causou e imunidade transitória para os demais sorotipos. Isso significa que a infecção por um sorotipo não previne infecção por outro. Resumindo, um indivíduo infectado pelo vírus DENV-1, por exemplo, está imune somente a esse sorotipo, mas ainda pode se contaminar pelos vírus 2, 3, 4 e 5. Dessa maneira, uma mesma pessoa pode ter dengue até cinco vezes. 3.4 PATOGENIA Dengue é uma doença febril aguda e os sintomas clássicos da doença (febre, cefaleia, mialgia ou artralgia) são desencadeados pela resposta inflamatória sistêmica à viremia. No entanto, há um mecanismo peculiar (e comum em questões de provas) da patogenia da dengue: o aumento da permeabilidade vascular devido à disfunção endotelial. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 14 O aumento da permeabilidade vascular resulta no extravasamento do plasma do intravascular para o espaço extravascular (figura 4). A redução do volume plasmático pode resultar em choque por hipovolemia (e não por hemorragia). O extravasamento plasmático pode ser evidenciado pela hemoconcentração (elevação do valor do hematócrito), presença de derrames cavitários (ascite, derrame pleural ou pericárdico) ou redução dos níveis séricos de albumina. Para diagnóstico de derrames cavitários, são recomendados radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome. A origem da disfunção endotelial ainda não foi completamente elucidada, mas parece ser resultado da ação direta de citocinas e do sistema complemento. Resposta inflamatória à ação viral Sintomas clássicos Cefaleia Febre Mialgia Artralgia Derrames cavitários Elevação do hematócrito Redução da albumina sérica Hipotensão Disfunção endotelial Extravasamento plasmático Figura 4 – Permeabilidade capilar aumentada na dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 15 Figura 5 – Derrames cavitários comuns na dengue: ascite (à esquerda), derrame pericárdico (à direita) e derrame pleural (abaixo). Outra manifestação possível de casos graves de dengue é a ocorrência de sangramentos, que podem surgir devido à disfunção endotelial, trombocitopenia e/ou coagulopatia de consumo. Nos casos mais graves, coagulação intravascular disseminada pode estar presente. É importante lembrar-se de que o principal mecanismo do choque na dengue não é hemorrágico, mas sim hipovolêmico (devido ao extravasamento plasmático). Causas de sangramento na dengue Disfunção endotelial Plaquetopenia Coagulopatia de consumo Além do choque e das manifestações hemorrágicas, pacientes graves podem desenvolver complicações como: hepatite, encefalite ou miocardite. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 16 3.4.1 CHOQUE DA DENGUE Choque é a principal causa de óbito por dengue. Resulta diretamente do extravasamento plasmático. É mais comum entre o quarto e o quinto dias após o início da doença, logo após a redução da febre. Tem como característica a rápida evolução, podendo levar ao óbito em poucas horas ou ser controlado rapidamente, caso a terapia adequada seja instituída. A recuperação do choque acontece nas 48 a 72 horas seguintes, com a reabsorção do plasma que havia extravasado. Choque é a principal causa de óbito por dengue. Lembre-se de que é choque hipovolêmico e não hemorrágico! Choque da Dengue Principal causa de óbito na dengue Após a redução da febre Rápida evolução Risco elevado de óbito Recuperação em 48 a 72h 3.4.2 REINFECÇÃO E RISCO DE DENGUE GRAVE O risco de dengue grave (conceito que será explorado mais adiante) é mais elevado quando ocorre reinfecção por outro sorotipo. Uma das principais teorias que explicam esse fenômeno é conhecida como “amplificação dependente de anticorpos” ou “realce imune”. Segundo essa hipótese, a infecção por um sorotipo gera anticorpos que reconhecem (mas não neutralizam) vírus dos demais sorotipos. No entanto, além de não serem capazes de neutralizar os vírus do novo episódio de infecção, esses anticorpos facilitariam a infecção das células do hospedeiro. O quadro a seguir e a figura 6 resumem o fenômeno do realce imune (teoria de Halstead): 1ª infecção por dengue Produção de anticorpos para o sorotipo Risco mais elevado de dengue grave 2ª infecção por dengue (por outro sorotipo) Anticorpos presentes não neutralizam o novo sorotipo e facilitam a entrada do novo vírus em macrófagos Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 17 Figura 6 – Representação da teoria da amplificação dependente de anticorpos. Foram utilizados como exemplo os sorotipos 1 e 2. Na figura acima, o quadro A representa a primeira infecção por dengue: o paciente não possui anticorpos e o vírus replica-se normalmente. O quadro B demonstra uma tentativa de reinfecção pelo mesmo sorotipo viral. Nesse caso, os anticorpos resultantes da infecção anterior neutralizam eficazmente o vírus, impedindo a infecção. Já no quadro C temos um vírus dengue infectando um paciente imune apenas a outro sorotipo. Assim, o anticorpo contra DENV-1 liga- se ao DENV-2, mas é incapaz de neutralizá-lo. Além disso, favorece sua replicação, podendo resultar em doença grave. Um recém-nascido de mãe que já teve dengue (antes ou durante a gestação) receberá anticorpos maternos IgG contra dengue. Ao ser infectada pelo vírus da dengue pela primeira vez, essa criança tem risco mais elevado de dengue grave, pois a presença de anticorpos maternos (de outro sorotipo viral) “simula” uma infecção prévia. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 18 3.4.3 DENGUE E GESTAÇÃO A dengue manifesta-se de forma semelhante em gestantes e em não gestantes. No entanto, as alterações fisiológicas próprias da gestação podem mascarar sinais ou sintomas da dengue, como hipotensão postural, taquicardia ou hemoconcentração. Os maiores riscos para gestantes com dengue são relacionados à hemorragia, que pode ocorrer em abortamento, parto ou pós-parto, e ao choque. Para o feto, há risco de transmissão intrauterina, com risco de abortamento (quando ocorre no primeiro trimestre) ou parto prematuro (quando é adquirida no terceiro trimestre). Baixo peso ao nascer é mais comum em crianças cujas mães foram infectadas durante a gravidez. CAI NA PROVA Muitos conceitos dessa seção sobre dengue são cobrados em provas junto com temas dos tópicos seguintes. Nos próximos tópicos, você verá exemplos de questões que trazem informações sobre fisiopatologia da dengue. (SP - SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE PIRACICABA - SMS - 2020) Em relação à Dengue assinale a alternativa correta: A) A orientação para os pacientes com febre hemorrágica da dengue é aumento da hidratação venosa e repouso em casa. B) Somente devem ser notificados os casos confirmados de Dengue. C) Em crianças menores de 1 ano pode ocorrer a forma hemorrágica se a criança tiver anticorpos anti-dengue adquiridos da mãe durante a gestação. D) O mosquito Aedes aegypti é o principal hospedeiro do vírus da dengue e seus ovos sobrevivem até mesmo por 1 ano num local seco. E) A febre é o correspondente clínico mais importante da doença, cuja viremia dura em torno de dez a quatorze dias. COMENTÁRIO: Incorreta a alternativa A. Febre hemorrágica da dengue é um termo que não é mais utilizado. Na classificação atual,este paciente seria denominado como portador de dengue com sinais de alarme ou dengue grave. Para estas classificações, o tratamento deve ser realizado com hidratação venosa em ambiente hospitalar. Incorreta a alternativa B. Devem ser notificados casos suspeitos ou confirmados de dengue. Correta a alternativa C. A presença de anticorpos para um sorotipo da dengue pode predispor à infecção grave por outro sorotipo, mesmo que os anticorpos tenham sido transmitidos pela mãe durante a gestação. Incorreta a alternativa D. O Aedes aegypti é vetor, e não hospedeiro da dengue. Além disto, seus ovos podem sobreviver por até 450 dias em ambientes secos. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 19 (HOSPITAL DA POLÍCIA MILITAR - MG – 2018) Transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a dengue é uma doença viral que se espalha rapidamente no mundo. Nos últimos 50 anos, a incidência aumentou 30 vezes, com ampliação da expansão geográfica para novos países e, na presente década, para pequenas cidades e áreas rurais. É estimado que 50 milhões de infecções por dengue ocorram anualmente e que aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas morem em países onde a dengue é endêmica. Sobre a dengue, é CORRETO afirmar: A) Febre de Lassa e febre amarela podem ter o mesmo vetor da dengue B) Os pacientes são infectantes para o mosquito até o 30º dia de doença. C) A ocorrência de formas graves não está relacionada à presença de outros sorotipos na mesma área. D) A principal medida de prevenção atual é o combate ao vetor. COMENTÁRIO Essa questão envolve vários aspectos da dengue, desde transmissão até patogenia e prevenção. Incorreta a alternativa A: Febre amarela pode ser transmitida pelo Aedes aegypti, mas a febre de Lassa não é transmitida por mosquitos (sua principal via de transmissão é por contato com roedores do gênero Mastomys). Incorreta a alternativa B: A transmissão do ser humano para o mosquito ocorre enquanto durar a viremia. Esse período começa um dia antes do aparecimento da febre e dura em média até o quinto dia da doença. Incorreta a alternativa C: Embora a imunidade adquirida após infecção por dengue seja permanente para um mesmo sorotipo (homóloga), a reinfecção por outro sorotipo é fator de risco para dengue grave. Correta a a alternativa D O controle de vetores é a principal forma de prevenção da dengue. A vacina não está amplamente disponível e é indicada para indivíduos que já foram expostos à doença. Você pode ler mais a respeito da prevenção da dengue no item 9.0. (FUNDAÇÃO JOÃO GOULART – FJG – RJ 2014) A dengue é um dos principais problemas de saúde pública no Estado e sua associação com a gestação piora o prognóstico, elevando a morbidade e a mortalidade materna e perinatal. Com relação à dengue na gravidez, pode-se afirmar que: A) na gestante, os sinais de perda volêmica podem ser mascarados até que esta atinja níveis críticos. B) no caso de gestantes com quadro de choque, o tratamento deve obrigatoriamente incluir o parto. C) a dengue no 1º trimestre da gestação está associada com maior risco de malformações congênitas. D) a realização de exames complementares deve ser individualizada, estando contraindicada as radiografias. COMENTÁRIO Embora seja um pouco antiga, essa questão é útil para reforçar alguns conceitos importantes sobre a dengue em gestantes. Correta a atlernativa A As alterações fisiológicas da gestação podem confundir a avaliação de sinais de extravasamento plasmático, como taquicardia, hipotensão postural e hemoconcentração. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 20 Incorreta a alternativa B: O tratamento do choque é baseado em reposição volêmica. A indicação de parto ocorre em caso de parada cardiorrespiratória que não responde às medidas clínicas e tem os objetivos de aliviar os efeitos de compressão da veia cava inferior e preservar a vida do feto. Incorreta a alternativa C: Dengue no primeiro trimestre é relacionada a risco de abortamento, mas não de malformação congênita. Incorreta a alternativa D: A indicação de exames complementares segue a mesma para pacientes não gestantes e radiografia de tórax não é contraindicada. CAPÍTULO 4.0 DENGUE - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O espectro clínico da dengue é amplo, variando de infecções assintomáticas a infecções graves. A maioria das infecções são assintomáticas (especialmente em crianças) ou sintomáticas leves a moderadas, sem sinais de gravidade. Estudos de prevalência por meio de sorologia demonstram que até 75% dos pacientes não apresentam sintomas. 4.1 FASES CLÍNICAS Podemos descrever o quadro clínico da dengue em três fases: febril, crítica e de recuperação. 4.1.1 FASE FEBRIL Essa fase está presente em todos os casos sintomáticos. Caracteriza-se pelo início súbito de febre elevada (atingindo frequentemente 40oC) associada à prostração, cefaleia retro-orbitária, mialgia e artralgia. Sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e diarreia, também são comuns. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 21 Figura 7 – Sintomas da fase febril da dengue. A dengue é conhecida popularmente como “febre quebra ossos”, em alusão às dores intensas que causa nos infectados. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 22 É comum, nessa fase, o surgimento de exantema maculopapular difuso, que pode acometer face, tronco e membros (incluindo regiões palmar e plantar), sendo pruriginoso ou não. É mais frequente entre o 3º e 6º dias. Alguns pacientes desenvolvem o exantema ao final do período febril. Com exceção do exantema petequial (manifestação hemorrágica), sua presença é comum e não indica gravidade. Sintomas respiratórios, como tosse e dor de garganta, são raros em casos de dengue. Figura 8 - Exantema da dengue. Fonte: Shutterstock. A fase febril dura, aproximadamente, de 2 a 7 dias e a recuperação ocorre gradualmente, na maioria dos casos. Para memorizar o quadro clínico da dengue, lembre-se do COMETA! Figura 9 - Sintomas da dengue. 4.1.2 FASE CRÍTICA Essa fase, que ocorre ao final da fase febril, é resultado do aumento da permeabilidade capilar e representa o momento da infecção, que pode evoluir para gravidade. A presença de sinais de alarme (ou alerta) identifica o risco de evolução para formas graves, pois representam extravasamento plasmático ou manifestações hemorrágicas. Quando o extravasamento plasmático ultrapassa um determinado nível, o paciente desenvolve o choque. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 23 Quais são as manifestações hemorrágicas da dengue? Pacientes com dengue podem apresentar sangramentos como: petéquias, equimoses, hiposfagma (sangramento subconjuntival), sangramento gengival, epistaxe, hematúria, hematêmese, sangramento vaginal. Figura 10 – Exemplos de manifestações hemorrágicas da dengue: sangramento de mucosa oral (à esquerda) e hiposfagma (à direita). Fonte: Shutterstock. 4.1.3 FASE DE RECUPERAÇÃO Nessa fase, que surge cerca de 24 a 48 horas após a fase crítica, ocorre a reabsorção do plasma extravasado na fase anterior. O paciente apresenta melhora gradual do quadro clínico, com redução progressiva dos sintomas. O smart-art a seguir demonstra as fases da doença, incluindo o período de incubação: PERÍODO DE INCUBAÇÃO - Ausência de sintomas - Período de incubação:- Duração: 2 a 4 dias Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 24 4.2 CLASSIFICAÇÃO – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS) A classificação da dengue foi atualizada, pela OMS, em 2009, mas essa versão só foi adotada pelo Ministério da Saúde em 2014. Serão discutidas, nesta seção, a classificação atual e a antiga, pois algumas provas ainda podem citar conceitos desatualizados. 4.2.1 CLASSIFICAÇÃO ATUAL A classificação vigente do Ministério da Saúde é baseada nos critérios da OMS de 2009 e é a mais empregada em questões de provas atuais. A doença é dividida em três categorias: dengue (sem sinais de alarme), dengue com sinais de alarme e dengue grave. 4.2.1.1 DENGUE (SEM SINAIS DE ALARME) Essa classificação contempla os pacientes que apresentam apenas sintomas da fase febril, sem sinais de alarme ou de choque da dengue. É importante conhecer as definições de caso suspeito de dengue (sem sinais de alarme) da Vigilância Epidemiológica, pois já foram tema de questão de prova. CASO SUSPEITO DE DENGUE 1. Indivíduo que resida ou tenha viajado nos últimos 14 dias para área onde há casos de dengue e que apresente febre (com duração usual entre 2 e 7 dias) e mais duas das seguintes manifestações: • náusea/vômitos; • exantema; • mialgia/artralgia; • cefaleia/dor retro-orbital; • petéquias/prova do laço positiva; • leucopenia. 2. Criança proveniente de área onde há casos de dengue que apresente quadro febril agudo (com duração usual entre 2 e 7 dias), sem sinais de outra doença. Por que o critério de caso suspeito de dengue é diferente para crianças? Dengue em crianças costuma apresentar-se de forma mais inespecífica, sem sintomas ou sinais típicos, principalmente naquelas com idade inferior a dois anos. Frequentemente, é confundida com outras doenças infecciosas, atrasando o diagnóstico em casos leves. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 25 É importante ressaltar que não é necessária a confirmação laboratorial da dengue para notificação de caso à Vigilância Epidemiológica: todos os casos suspeitos da doença devem ser notificados. 4.2.1.2 DENGUE COM SINAIS DE ALARME Compreende os casos que entram na fase crítica e apresentam sinais e sintomas que alertam para gravidade (sinais de alarme). Veja a seguir quais são os sinais de alarme, que são o tema central de muitas questões sobre dengue! SINAIS DE ALARME DA DENGUE • Dor abdominal intensa (referida ou à palpação) e contínua. • Vômitos persistentes. • Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico). • Hipotensão postural e/ou lipotimia. • Hepatomegalia maior do que 2cm abaixo do rebordo costal. • Sangramento de mucosa. • Letargia e/ou irritabilidade. • Aumento progressivo do hematócrito. É realmente muito importante que você saiba de cor os sinais de alarme da dengue. São eles que definem a necessidade de internação do paciente e hidratação parenteral imediata. Para facilitar sua vida, você deve decorar o mnemônico SILVA 3H. Veja a seguir: S Sangramento de mucosa I Irritabilidade ou letargia L Líquido acumulado (ascite, derrame pleural ou derrame pericárdico) V Vômitos persistentes A Abdome doloroso (dor contínua) H Hipotensão postural ou lipotimia H Hepatomegalia H Hematócrito elevado (hemoconcentração) Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 26 4.2.1.3 DENGUE GRAVE A dengue grave é caracterizada por choque ou desconforto respiratório devido ao extravasamento plasmático, sangramento grave e/ ou volumoso (hematêmese, melena, metrorragia ou sangramento em sistema nervoso central) ou comprometimento grave de órgãos, como hepatite grave (AST ou ALT >1000), miocardite, encefalite (evento pouco comum em dengue), entre outros. Enquanto a taxa de letalidade de dengue em geral (somando-se todos os casos, graves ou não) é inferior a 1%, mais de 10% dos pacientes com dengue grave podem evoluir para o óbito se não tratados adequadamente. Os sinais de choque da dengue são de suma importância para definir a conduta médica a ser tomada. SINAIS DE CHOQUE DA DENGUE • Taquicardia. • Extremidades distais frias. • Pulso fraco e filiforme. • Enchimento capilar lento (>2 segundos). • Pressão arterial convergente ( 1000) DENGUE GRAVE Miocardite Encefalite Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 27 Todos os sorotipos podem causar dengue grave, mas os sorotipos DENV-2 e DENV-3 parecem ser os mais virulentos. Atenção: crianças podem desenvolver dengue grave mais rapidamente do que adultos, especialmente pelo fato de que os sinais de alarme podem passar despercebidos nessa faixa etária. Dengue Dengue com sinais de alarme Dengue grave Sem sinais de alarme CLASSIFICAÇÃO ATUAL Fase crítica Sinais de gravidade 4.2.2 CLASSIFICAÇÃO ANTIGA A classificação da OMS, de 1997, deixou de ser utilizada pelo Ministério da Saúde em 2014. É pouco provável que seja utilizada em questões de provas atuais, mas, como foi tema de questões de provas recentes, é importante que você conheça seus conceitos básicos. Essa classificação dividia dengue em: dengue clássica, febre hemorrágica da dengue e dengue com complicações. Dessas, febre hemorrágica da dengue é certamente o conceito mais cobrado em provas. Febre hemorrágica da dengue é o caso suspeito ou confirmado que apresenta todos os critérios a seguir: a. febre ou história de febre recente de até sete dias; b. trombocitopenia (≤100.000/mm3); c. tendências hemorrágicas evidenciadas por um ou mais dos seguintes sinais: prova do laço positiva, petéquias, equimoses ou púrpuras, sangramentos de mucosas do trato gastrintestinal e outros; d. extravasamento de plasma devido ao aumento de permeabilidade capilar, manifestado por: Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 28 • hematócrito apresentando aumento de 20% sobre o basal na admissão; • queda do hematócrito em 20%, após o tratamento adequado; • presença de derrame pleural, ascite ou hipoproteinemia. Resumindo: febre hemorrágica da dengue é caso confirmado ou suspeito com febre, trombocitopenia, tendências hemorrágicas e sinais de extravasamento plasmático. Febre (até 7 dias) Trombocitopenia (≤ 100.000/mm³) Tendências hemorrágicas Aumento do hematócrito (20%) Queda do hematócrito após hidratação Derrame cavitário ou hipoproteinemia Extravasamento plasmático Prova do laço positiva, petéquias, sangramento de mucosas ou TGI FEBRE HEMORRÁGICA DA DENGUE A febre hemorrágica da dengue era classificada em graus (I a IV). Grau I – Prova do laço positiva é a única manifestação hemorrágica. Grau II – Há presença de sangramento espontâneo, geralmente em pele ou mucosas. Grau III – Sinais de insuficiência circulatória, como hipotensão, pulso rápido e fraco, pele pegajosa e fria. Grau IV – Choque com pressão inaudível e pulso não detectável. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 29 CAI NA PROVA Estrategista, agora vamos ver como esses conceitos podem aparecer para você nas questões? (CE - SELEÇÃO UNIFICADA PARA RESIDÊNCIA MÉDICA DO ESTADO DO CEARÁ - SURCE - 2022) A fase crítica da infecção pelo vírus da Dengue pode se seguir à fase febril, em alguns pacientes, que podem evoluir para as formas graves. O aparecimento dos sinais de alarme deve ser rotineiramente pesquisados nos casos suspeitos.Dentre os principais sinais de alarme, destacam-se: dor abdominal intensa (referida ou à palpação) e contínua; vômitos persistentes; acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico); hipotensão postural e/ou lipotimia; hepatomegalia > 2 cm abaixo do rebordo costal; sangramento de mucosa; letargia e/ou irritabilidade; aumento progressivo do hematócrito. O que traduzem esses sinais de alarme? A) Esses sinais podem traduzir o aumento da pneumonia causada pelo vírus, edema agudo de pulmão e evolução para o agravamento clínico do paciente com derrame pleural. B) Esses sinais podem traduzir a instalação de insuficiência cardíaca e hipertensão arterial, permitindo a evolução para o agravamento clínico do paciente com o potencial de choque ou derrame pericárdico. C) Esses sinais podem traduzir o aumento da permeabilidade vascular acarretando hipertensão arterial, o agravamento clínico do paciente para o choque ou derrames cavitários pelo extravasamento plasmático. D) Esses sinais podem traduzir o aumento da permeabilidade vascular e evolução para o agravamento clínico do paciente, com o potencial de evoluir para o choque ou derrames cavitários pelo extravasamento plasmático. COMENTÁRIO: Essa questão aborda manifestações da fase crítica e sua relação com a fisiopatologia da dengue. Incorretas as alternativas A e B Os sinais de alarme são resultantes de disfunção endotelial com aumento da permeabilidade vascular e extravasamento do plasma do intravascular para o espaço extravascular. Incorreta a alternativa C. O aumento da permeabilidade vascular resulta em hipotensão, não em hipertensão arterial. Correta a alternativa D. Isso mesmo! A alternativa descreve exatamente o mecanismo fisiopatológico dos sinais de alarme. (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE CAMPO GRANDE – SMSCG – MS - 2020) Assinale a alternativa correta quanto às características observadas na fase crítica da dengue clássica. A) Náusea, vômito e dor abdominal, linfadenopatias e exantema macular. B) Surgimento de prurido palmoplantar antes da remissão do exantema. C) Início súbito de febre, geralmente alta, acompanhada de cefaleia e dor retro-orbitária. D) Defervescência, entre 03 a 07 dias após o início dos sintomas. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 30 COMENTÁRIO Aproveite essa questão para revisar os aspectos da fase crítica da dengue. Incorreta a alternativa A: Náusea, vômito e dor abdominal, linfadenopatias e exantema macular são sintomas atípicos que podem estar presentes na dengue. Incorreta a alternativa B: O prurido relacionado ao exantema não representa a fase crítica dessa doença. Incorreta a alternativa C: Início súbito de febre, geralmente alta, acompanhada de cefaleia e dor retro-orbitária é a característica do início da dengue e não da fase crítica da doença. Correta a alternativa D A fase crítica da dengue ocorre ao final da fase febril e é resultado do aumento da permeabilidade capilar. Representa o momento da infecção com risco de evolução para gravidade. (SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO – SP - 2020) Adolescente de 13 anos, sexo masculino, portador de anemia falciforme, há 4 dias apresenta febre, mialgia, cefaleia, hiporexia, náuseas e vômitos persistentes. Ao exame: hipocorado (+/4+), eupneico, acianótico, desidratado. Ausculta cardíaca e pulmonar fisiológicas, abdome doloroso à palpação em epigástrio, presença de petéquias em antebraço. PA: 110 x 80mmHg, FC = 96bpm, prova do laço positiva. Diante desse quadro, considera-se sinal de alarme A) algum grau de desidratação. B) presença de petéquias. C) vômitos persistentes. D) prova do laço positiva. E) ser portador de anemia falciforme. COMENTÁRIO Essa questão foca, exclusivamente, nos sinais de alarme da dengue. Não se esqueça do nosso mnemônico: SILVA 3H! Incorreta a alternativa A: Desidratação não é sinal de alarme. Incorreta a alternativa B: Petéquias são manifestações cutâneas que classificam o paciente como grupo B da dengue, mas não são sinal de alarme. Se você não sabe o que é o grupo B, não se preocupe, pois a classificação de risco da dengue será abordada mais adiante neste livro. Correta a alternativa C Vômitos persistentes fazem parte do grupo de sinais de alarme dessa doença. Incorreta a alternativa D: Prova do laço, quando positiva, inclui o paciente no grupo B da dengue e não é sinal de alarme. Incorreta a alternativa E: Ser portador de anemia falciforme não é sinal de alarme dessa doença. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 31 (HOSPITAL DAS FORÇAS ARMADAS – HFA – DF - 2018) Nos exames laboratoriais inespecíficos da febre hemorrágica da dengue, observa-se: A) aumento importante dos testes de função hepática. B) linfopenia com atipia linfocitária como um achado comum. C) anemia devido ao choque. D) aumento da albumina no sangue. E) hemoconcentração devido a aumento do hematócrito. COMENTÁRIO Estamos diante de uma questão que utiliza a classificação antiga de dengue, pois inclui o conceito de dengue hemorrágica. Febre hemorrágica da dengue é o caso suspeito ou confirmado que apresenta todos os critérios a seguir: a. febre ou história de febre recente de sete dias; b. trombocitopenia (≤100.000/mm3); c. tendências hemorrágicas evidenciadas por um ou mais dos seguintes sinais: prova do laço positiva, petéquias, equimoses ou púrpuras, sangramentos de mucosas do trato gastrintestinal e outros; d. extravasamento de plasma devido ao aumento de permeabilidade capilar, manifestado por: • hematócrito apresentando aumento de 20% sobre o basal na admissão; • queda do hematócrito em 20%, após o tratamento adequado; • presença de derrame pleural, ascite ou hipoproteinemia. Resumindo: febre hemorrágica da dengue é caso confirmado ou suspeito com: febre, trombocitopenia, tendências hemorrágicas e sinais de extravasamento plasmático. Incorreta a alternativa A: Em casos de dengue, a elevação de transaminases, geralmente, é leve a moderada. Incorreta a alternativa B: Atipia linfocitária não é comum em casos de dengue. Esse é um achado típico de mononucleose infecciosa. Incorreta a alternativa C: Já que o achado típico da dengue grave é a elevação do hematócrito. Incorreta a alternativa D: Redução da albumina no sangue ocorre em casos de dengue grave. É secundária ao extravasamento plasmático. Correta a alternativa E A hemoconcentração é uma característica típica da dengue grave e ocorre devido ao extravasamento plasmático. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 32 CAPÍTULO 5.0 DENGUE - ALTERAÇÕES LABORATORIAIS A dengue cursa com alterações laboratoriais sugestivas, que auxiliam na suspeita diagnóstica. O hemograma de pacientes com dengue apresenta, tipicamente, leucopenia, linfopenia e plaquetopenia. Em casos mais graves, há aumento do hematócrito, devido à hemoconcentração. Atenção: dentre as arboviroses, dengue é a que mais frequentemente causa plaquetopenia. Leucopenia/ linfopenia Plaquetopenia Elevação do hematócrito Alteração mais precoce HEMOGRAMA Hemoconcentração Elevação discreta de aminotransferases (ALT ou AST até cinco vezes acima da normalidade) é alteração frequente. Em casos graves, quando há hepatite por dengue ou insuficiência hepática, as aminotransferases podem atingir valores acima de 10 vezes o limite da normalidade e pode ocorrer elevação de bilirrubina. Aminotransferases (AST / ALT) Bilirrubina Até 5x LSN* Casos graves: > 1000 ACOMETIMENTO HEPÁTICO Elevada em casos graves (hepatite/falência hepática) *LSN: limite superior da normalidade. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 33 A hipoalbuminemia é uma consequência do extravasamento plasmático, sendo mais comum empacientes graves. Casos graves e com manifestações hemorrágicas podem apresentar aumento nos tempos de protrombina, tromboplastina parcial e trombina, além de diminuição de fibrinogênio, protrombina, fator VIII, fator XII, antitrombina e α-antiplasmina. Extravasamento plasmático Distúrbios de coagulação CASOS GRAVES Coagulopatia de consumo Hipoalbuminemia CAPÍTULO 6.0 DENGUE - DIAGNÓSTICO Há duas maneiras de identificar-se, laboratorialmente, a infecção por dengue: por meio da detecção do vírus ou de anticorpos. Como você já sabe, a viremia dura até o quinto dia de sintomas e os anticorpos tornam-se detectáveis a partir do sexto dia de doença. Com base nessas informações, fica fácil entender o momento ideal para coleta de cada exame. 6.1 EXAME SOROLÓGICO O exame sorológico utiliza o método ELISA (enzyme-linked immunosorbent assay). Detecta anticorpos IgM e deve ser solicitado a partir do sexto dia após o início dos sintomas. Esse é o método mais frequentemente empregado para diagnóstico de dengue. 6.2 DETECÇÃO VIRAL Exames que detectam o vírus devem utilizar amostras coletadas até o quinto dia de sintomas. Há diversas metodologias disponíveis: pesquisa de antígeno NS1, RT-PCR, imuno-histoquímica e isolamento viral por cultura. Desses testes, os mais utilizados são: pesquisa de antígeno NS1 e RT-PCR. É importante que você saiba que o teste rápido para dengue utiliza a metodologia de pesquisa de antígeno NS1. Em caso de óbito, o diagnóstico post-mortem pode ser realizado por meio de detecção de antígenos (imuno-histoquímica) ou material genético (reação de cadeia da polimerase) em amostras de tecidos, mesmo em casos de sorologia negativa. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 34 Veja abaixo um resumo sobre o diagnóstico dessa doença. Figura 11 – Diagnóstico de dengue. A sensibilidade dos exames de detecção viral (RT-PCR e NS1) é inferior à sensibilidade dos exames sorológicos. Isso significa que sorologia negativa realizada a partir do sexto dia afasta o diagnóstico de dengue, mas RT-PCR ou pesquisa de NS1 realizados até o quinto dia não são o suficiente para descartar a hipótese dessa infecção. Você já viu a imagem abaixo no início desse livro. Analise-a novamente para entender melhor como se relacionam o quadro clínico, as alterações laboratoriais, a viremia e a resposta imune (produção de anticorpos). Mas, afinal, o que é o exame de RT-PCR? Não confunda com proteína C-reativa, que é um marcador de resposta inflamatória. PCR (do inglês polymerase chain reaction) ou reação em cadeia de polimerase é um método capaz de criar múltiplas cópias de uma região específica do DNA. Essa multiplicação (ou ampliação) de cópias do material genético pode ser utilizada para o diagnóstico de infecções, pois permite a identificação de vírus, bactérias, fungos ou protozoários. Como alguns vírus (incluindo o da dengue) têm seu material genético constituído por RNA (e não DNA), PCR isoladamente não é capaz de identificá-los. O RT-PCR (reverse transcription polymerase chain reaction) nada mais é do que o acréscimo de uma etapa inicial ao processo: utiliza-se a transcriptase reversa para a formação de DNA a partir do RNA viral. Em seguida, é possível realizar, então, a técnica padrão de PCR. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 35 Figura 12 --- Relação temporal entre quadro clínico, viremia e produção de anticorpos na dengue. Fonte: adaptado de Ministério da Saúde (2019). Note o trecho final da imagem acima, que trata sobre infecção secundária. Como, nesse caso, já há a presença de anticorpos IgG, o que ocorre é uma elevação de IgG com um novo pico (embora inferior àquele da infecção primária) de IgM. Lembre-se de que IgM representa resposta aguda à infecção, enquanto IgG traduz infecção crônica ou contato anterior com o patógeno. Você realmente precisa saber que métodos diagnósticos são indicados em cada momento da dengue. Veja a figura 13 para reforçar esse conceito. Ela traz informações semelhantes às da figura 11. Estou sendo redundante propositalmente, para que você grave bem essas informações. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 36 Figura 13 – Métodos diagnósticos indicados de acordo com o tempo de sintomas. 6.3 CONFIRMAÇÃO POR CRITÉRIO CLÍNICO -EPIDEMIOLÓGICO Quando não é possível a confirmação do diagnóstico de um caso suspeito por meio de exame laboratorial, ela pode ser realizada por meio da comprovação de vínculo epidemiológico com caso confirmado. Essa estratégia pode ser empregada, por exemplo, em casos de epidemia, quando o diagnóstico laboratorial pode não estar disponível para todos os pacientes. CAI NA PROVA (GO - UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - UFG - 2021) Quanto ao diagnóstico laboratorial de dengue, A) o teste NS1 permite a identificação do sorotipo viral. B) o isolamento viral deve ser realizado a partir do sexto dia de doença. C) a sorologia deve ser solicitada até o quinto dia da doença. D) o anticorpo IgG pode ser detectado precocemente na infecção secundária. COMENTÁRIO: Vamos nos aprofundar no diagnóstico laboratorial da dengue com essa questão. Incorreta a alternativa A, pois o teste detecta a proteína não-estrutural 1 (NS1) do vírus da dengue, não o sorotipo viral. Incorreta a alternativa B, pois o isolamento viral normalmente é positivo nos primeiros cinco dias da doença. Incorreta a alternativa B, pois o exame sorológico para a detecção de anticorpos deve ser solicitado a partir do sexto dia após o início dos sintomas. Nos primeiros dias, o diagnóstico pode ser estabelecido pela detecção de antígenos virais no soro (NS1, RT-PCR, isolamento viral). Correta a alternativa D, pois a infecção secundária por dengue é caracterizada por um rápido aumento no título de anticorpos IgG e é detectável desde o primeiro dia. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 37 (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE LIMEIRA – SCML – SP - 2019) Paciente de 48 anos com quadro de mialgia, artralgia, febre, cefaleia retro-ocular e petéquias difusas há 2 dias, dá entrada no pronto atendimento de sua cidade, onde está tendo epidemia de dengue. O médico plantonista, suspeitando de tal patologia, imediatamente inicia hidratação, antitérmico e lhe solicita sorologia de dengue. No entanto, os exames vêm com o seguinte resultado: IgM dengue negativo e IgG dengue negativo. Qual a explicação que melhor define o ocorrido? A) Os testes realizados foram de má qualidade e deverão ser repetidos ou realizados em outro laboratório. B) O paciente definitivamente não tem dengue e então deverá ser pesquisada outra patologia. C) Ainda é muito precoce a detecção dos anticorpos de dengue no sangue e então solicitar NS1. D) Certamente houve mutação viral que impediu a detecção da patologia. COMENTÁRIO Essa questão é uma bela oportunidade para entender como o diagnóstico de dengue pode ser cobrado em provas. Veja os comentários a seguir. Incorreta a alternativa A. Não é possível questionar a qualidade do método, já que o exame foi solicitado no período inadequado. Incorreta a alternativa B. Como a sorologia não foi coletada no período adequado, não pode ser utilizada para descartar o diagnóstico. Nesse momento, deve ser coletado o NS1, que, se vier positivo, confirma o caso; se o resultado for negativo, uma nova amostra de sorologia deve ser solicitada a partir do sexto dia de sintomas para confirmação ou descarte do caso. Correta a alternativa C A recomendação do Ministério da Saúde é coletar a sorologia para dengue apenas após o 5º dia de sintomas (a produção de IgM pode começar a partir do 4º dia, mas nesse período a sensibilidade do exame é baixa). Até o 5º dia de sintomasdeve ser realizado o método que faz detecção do antígeno não estrutural, chamado NS1. Incorreta a alternativa D. A hipótese mais plausível é um resultado falso-negativo por coleta da sorologia em período inadequado (antes do início da produção de IgM para dengue). Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 38 CAPÍTULO 7.0 DENGUE - TRATAMENTO Não há tratamento farmacológico antiviral para a dengue. Seu tratamento é baseado em hidratação, prescrição de paracetamol ou dipirona para alívio dos sintomas e repouso. HIDRATAÇÃO CONTROLE DOS SINTOMAS REPOUSO Casos graves devem ser tratados com hidratação intravenosa em ambiente hospitalar. Para definição do tratamento da dengue, deve ser utilizada a classificação de risco para todos os pacientes. 7.1 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO E CONDUTA É essencial que você conheça a classificação de risco da dengue, pois é o que define a conduta terapêutica. Esse é um dos assuntos mais cobrados em questões de prova sobre dengue! A classificação de risco categoriza os pacientes em quatro grupos (A, B, C e D), de acordo com a presença de sinais de sangramento cutâneo, condições de risco, sinais de alarme e sinais de choque. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 39 7.1.1 GRUPO A Esse grupo é composto por pacientes com suspeita de dengue que não tenham sinais de alarme ou de choque nem manifestações hemorrágicas cutâneas espontâneas ou induzidas (prova do laço). Eles também não têm comorbidades ou condições clínicas especiais nem fazem parte de grupo de risco. Assim, são pacientes que não necessitam de cuidados especiais: seu tratamento deve ser realizado em nível ambulatorial, com hidratação oral e medicamentos sintomáticos. Os pacientes desse grupo devem ser orientados a procurar atendimento em caso de surgimento de sinais de alarme. Mesmo na ausência de sinais de alarme, devem ser reavaliados presencialmente após a melhora da febre (ou no quinto dia de doença, em caso de persistência da febre). Grupo A: pacientes de baixo risco. 7.1.1.1PROVA DO LAÇO A prova do laço deve ser realizada em todo paciente com suspeita de dengue e que não apresente sangramento espontâneo. Sua função é detectar a presença de fragilidade capilar. Pacientes com prova do laço positiva apresentam fragilidade capilar e podem evoluir rapidamente para extravasamento capilar e choque. Devem ser classificados como grupo B, o que garante um acompanhamento médico mais rigoroso. A realização da prova do laço consiste em: 1. Verificar a pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica (PAD) e calcular o valor médio pela fórmula (PAS + PAD)/2. Atenção: note que aqui não é empregada a fórmula da pressão arterial média (PAM). A fórmula da PAM (muito utilizada em terapia intensiva) é diferente: [PAS + (PADx2)]/3. 2. Insuflar o manguito até o valor médio e manter durante cinco minutos em adultos e três minutos em crianças. 3. Desenhar um quadrado com 2,5 cm de lado no antebraço e contar o número de petéquias formadas em seu interior. Figura 14 – Demonstração da prova do laço com resultado positivo. Fonte: Estratégia MED. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 40 A prova será positiva se houver 20 ou mais petéquias em adultos e 10 ou mais em crianças. Média de PA (PAS + PAD) / 2 Insuflar manguito - 5 min (adultos) - 3 min (crianças) Petéquias em quadrado (2,5 cm²) - 20 (adultos) - 10 (crianças) 7.1.2 GRUPO B O grupo B compreende os casos de suspeita de dengue sem sinais de alarme ou de choque, mas com sangramento de pele espontâneo (petéquias) ou induzido (prova do laço), ou com comorbidades ou condições especiais. São pacientes com risco mais elevado para complicações pela dengue e exigem maior atenção que aqueles do grupo A. Comorbidades e condições especiais e/ou de risco: • idade 65 anos; • gestantes; • hipertensão arterial sistêmica ou doenças cardiovasculares graves; • diabetes mellitus; • doença pulmonar obstrutiva crônica; • doença renal crônica; • doença ácido péptica; • hepatopatias; • doenças autoimunes. Em resumo: CONDIÇÕES DE RISCO PARA DENGUE Idade 65 anos Gestação Doenças crônicas Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 41 Deve ser realizado hemograma para todos os pacientes do grupo B, que serão mantidos em observação com hidratação oral na unidade de saúde até que o resultado do exame esteja disponível (idealmente em até quatro horas). Se não houver sinais de hemoconcentração no hemograma (hematócrito elevado ou em elevação) ou outro sinal de alarme, os pacientes poderão ser liberados para tratamento em regime ambulatorial. Nesse caso, a reavaliação presencial na unidade de saúde deve ser diária, até que o paciente tenha permanecido afebril por 48 horas. O valor de referência do hematócrito pode variar de acordo com a idade ou com o gênero. Em provas, a banca geralmente disponibiliza mais de um exame para que fique claro o aumento do hematócrito ou utiliza valores acima de 50% (principalmente para adultos). O paciente que venha a apresentar sinal de alarme (incluindo elevação do hematócrito) deverá ser conduzido como sendo do grupo C. Grupo B: prova do laço positiva/grupos de risco. 7.1.3 GRUPO C Fazem parte desse grupo os pacientes com suspeita de dengue com sinais de alarme, mas sem sinais de choque. São pacientes que já estão na fase crítica da doença e devem receber hidratação intravenosa imediata. Devem ser realizados hemograma, dosagem de albumina sérica, transaminases e exame para diagnóstico laboratorial de dengue. Recomenda-se a radiografia de tórax (PA, perfil e incidência de Laurell para avaliação de derrame pleural) e ultrassonografia de abdome para investigação de derrames cavitários. Esses pacientes devem permanecer em leito hospitalar até a estabilização clínica, pelo período mínimo de 48 horas. Grupo C: sinais de alarme. 7.1.4 GRUPO D Esse é o grupo com os pacientes com dengue de maior gravidade! É constituído pelos pacientes com dengue grave (vide item 4.2.1.3), ou seja, indivíduos com suspeita de dengue com sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos. Para o grupo D, são recomendados os mesmos exames laboratoriais do grupo C (vide tabela 3). Grupo D: choque/sangramento grave/disfunção de órgãos. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 42 O tratamento desses pacientes deve ser realizado em unidade de terapia intensiva e consiste em hidratação intravenosa vigorosa, suporte ventilatório e controle de sangramentos. Os detalhes da estratégia de hidratação estão descritos na tabela 3 (item 7.1.5). Para manejo de hemorragia com queda de hematócrito e choque, são recomendadas as seguintes etapas: 1. transfusão de hemácias (10 a 15mL/kg/dia); 2. em caso de coagulopatia, avaliar necessidade de plasma fresco (10mL/kg), vitamina K intravenosa e/ou crioprecipitado (1U a cada 5 a 10kg); 3. transfusão de plaquetas deve ser considerada apenas em caso de sangramento que persiste mesmo após correção de coagulopatias, em pacientes com plaquetopenia e INR > 1,5. Só há indicação de transfusão de plaquetas em caso de plaquetopenia e sangramento persistente. Plaquetopenia isoladamente não é critério para transfusão! Assim que o paciente estiver recuperando-se do choque, é importante reduzir hidratação intravenosa para evitar sobrecarga de volume. 7.1.5 RESUMO DA CLASSIFICAÇÃO DE RISCO O esquema a seguir e a tabela 3 resumem a classificaçãode risco da dengue, além da conduta para cada grupo. Note que cada grupo também pode ser classificado como uma cor, conforme a prioridade do atendimento. Sem sinais de alarme, comorbidades, grupo de risco ou condições clínicas especiais. Acompanhamento ambulatorial. Medicamentos sintomáticos e hidratação oral. GRUPO A (AZUL) Sem sinais de alarme E com sangramento espontâneo de pele (petéquias ou prova do laço positiva) ou comorbidades, grupo de risco ou condições clínicas especiais. Hemograma, hidratação oral e sintomáticos. Reavaliação em 4 horas. GRUPO B (VERDE) Alta se hematócrito normal e sem sinais de alarme. Tratar como grupo C se hematócrito elevado ou se surgir outro sinal de alarme. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 43 Com sinal de alarme. Sem sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos. Internação hospitalar e hidratação venosa. Hemograma, albumina, AST/ALT. Radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome. Exame diagnóstico: sorologia ou PCR/NS1. GRUPO C (AMARELO) Com sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos. Hidratação venosa. Hemograma, albumina, AST/ALT. Radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome. Exame diagnóstico: sorologia ou PCR/NS1 Encaminhar para terapia intensiva GRUPO D (VERMELHO) Grupo A (azul) Grupo B (verde) Grupo C (amarelo) Grupo D (vermelho) Sangramento cutâneo (petéquias ou prova do laço) X Condições ou fatores de risco/ comorbidade X Sinais de alarme X Sinais de choque/hemorragia grave/disfunção de órgão X Hidratação Oral Oral Parenteral Parenteral Local de tratamento Domicílio Domicílio Hospital UTI Exames complementares obrigatórios Nenhum Hemograma Hemograma, albumina e transaminases Hemograma, albumina e transaminases Exames diagnósticos obrigatórios (NS1/Sorologia) X X Tabela 3 – Resumo das características dos grupos de risco da dengue. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 44 7.2 HIDRATAÇÃO PARA PACIENTES COM DENGUE A hidratação é o princípio básico do tratamento da dengue. Deve ser realizada por via oral para pacientes dos grupos A e B e por via parenteral para aqueles dos grupos C e D. Para crianças com choque e acesso venoso de difícil obtenção é indicado o acesso intraósseo. Os itens 7.2.1 e 7.2.2 informam os detalhes da hidratação. No entanto, questões de provas de Residência Médica não costumam cobrar esses esquemas terapêuticos tão minuciosamente. Veja na caixa de destaque abaixo o que você realmente precisa saber para acertar as questões. Grupos A e B: 60mL/kg/dia VO, sendo 1/3 de solução salina e 2/3 de outros líquidos. Grupo C: 10mL/kg IV em 1 hora. Grupo D: 20mL/kg IV em 20 minutos. 7.2.1 HIDRATAÇÃO ORAL Para adultos, é recomendada a reposição de volume diária de 60mL/kg/dia, sendo 1/3 com solução salina e 2/3 com outros líquidos. Para crianças (idade inferior a 13 anos), é indicada a reposição com 1/3 do volume com soro de reidratação oral e 2/3 com outros líquidos (água, suco ou chá), da seguinte maneira: • até 10kg: 130mL/kg/dia; • 10 a 20kg: 100mL/kg/dia; • acima de 20kg: 80mL/kg/dia. DICA PARA A PROVA Quer uma dica para não se esquecer da dose para hidratação oral em adultos dos grupos A e B? Preste atenção na dica a seguir! O paciente dos grupos A ou B deve ser tratado em casa com hidratação oral. Ao chegar em casa, deve permanecer em repouso. Portanto, o paciente vai até o sofá e “se senta”! Assim fica fácil, não? A dose para hidratação oral é de sessenta mililitros por quilo de peso ao dia! Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 45 7.2.2 HIDRATAÇÃO PARENTERAL Para pacientes do grupo C, deve ser realizada reposição volêmica em fase de expansão com 10mL/kg de solução salina isotônica na primeira hora, podendo ser repetida, se necessário. Se houver melhora, iniciar fase de manutenção: • Primeira fase: 25mL/kg, em 6 horas; • Segunda fase: 25mL/kg, em 8 horas, sendo 1/3 com solução salina fisiológica e 2/3 com soro glicosado. A hidratação de pacientes do grupo D deve ser realizada, inicialmente, com solução salina isotônica, administrando-se 20mL/kg em 20 minutos, que pode ser repetida até três vezes. Caso ocorra melhora clínica e laboratorial, a hidratação deve seguir as recomendações para o grupo C. A via intraóssea pode ser utilizada para crianças graves, quando não há condições de obtenção de acesso venoso. 60ml/kg/dia (1/3 salina + 2/3 outros líquidos) 10mL/kg IV em 1h 20mL/kg IV em 20 min VIA ORAL VIA PARENTERAL Grupo A Grupo B Grupo C Grupo D Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 46 7.3 TRATAMENTOS CONTRAINDICADOS Anti-inflamatórios não esteroidais e ácido acetilsalicílico (AAS) são contraindicados, pois podem desencadear ou acentuar sangramentos. Além de aumentar o risco de sangramento, o uso de AAS em pacientes com dengue está relacionado à síndrome de Reye. Essa é uma doença rara que ocorre após infecções virais como influenza, varicela e dengue. Pacientes com essa síndrome apresentam vômitos, encefalopatia progressiva e disfunção hepática. A homeopatia não é recomendada pelo Ministério da Saúde nem como terapia nem como profilaxia para dengue. Anti-inflamatórios não esteróides (incluindo AAS) TRATAMENTOS CONTRAINDICADOS NA DENGUE Homeopatia 7.4 INDICAÇÕES DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR Você agora já sabe que pacientes dos grupos C e D devem ser tratados em ambiente hospitalar. Em que situações os pacientes dos grupos A e B devem ser internados? Sempre que o paciente não for capaz de ingerir alimentos e/ou líquidos por via oral ou quando o acompanhamento ambulatorial em unidade de saúde não for possível (por dificuldade de acesso ou vulnerabilidade social). Também devem ser internados os pacientes com descompensação de comorbidades, como insuficiência cardíaca, asma ou diabetes mellitus. Grupos de risco C e D INDICAÇÕES PARA INTERNAÇÃO HOSPITALAR EM DENGUE Impossibilidade de ingestão de líquidos ou alimentos Dificuldade de acesso ao serviço de saúde para acompanhamento ambulatorial 7.5 CRITÉRIOS PARA ALTA HOSPITALAR Para receber alta hospitalar, o paciente com dengue deve apresentar todos os critérios abaixo: 1. estabilidade hemodinâmica nas últimas 48 horas; 2. ausência de febre durante 48 horas; 3. melhora clínica; 4. hematócrito estável e dentro da normalidade por 24 horas; 5. plaquetas acima de 50.000/mm3 e com tendência de elevação; 6. melhora dos derrames cavitários. Estratégia MED INFECTOLOGIA Arboviroses (Dengue, Chikungunya e Zika) Prof. Sérgio Beduschi Filho| Curso Extensivo | 2024 47 7.6 TRATAMENTO DE GESTANTES COM DENGUE O tratamento de gestantes com dengue deve seguir a orientação de acordo com a classificação de risco (lembre-se de que a gestação já classifica a paciente como grupo B). A prescrição de hidratação é semelhante àquela para pacientes não gestantes. A realização de exames complementares também não difere da indicação para pacientes não gestantes. Mesmo a radiografia de tórax não é contraindicada, podendo ser realizada com proteção ao feto, quando for necessária. A cesárea só é indicada para a gestante com dengue em caso de parada cardiorrespiratória sem resposta a quatro ou cinco minutos de reanimação cardiopulmonar (RCP). O objetivo da cesárea, nessa situação, é reduzir a pressão sobre a veia cava inferior da gestante. CAI NA PROVA Questões sobre tratamento são as mais cobradas sobre dengue! Perceba que não basta saber indicar a melhor conduta: em boa parte das questões, você também precisa conhecer os sinais de alarme e a classificação de risco da doença. (PI - HOSPITAL ESTADUAL