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HIV P R O F . C L A R I S S A C E R Q U E I R A Estratégia MED Prof. Clarissa Cerqueira | HIVINFECTOLOGIA 2 PROF. CLARISSA CERQUEIRA INTRODUÇÃO: Olá, futuro Residente, tudo bem? Vamos iniciar agora um assunto que DESPENCA nas provas de Residência: a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Vamos discutir os tópicos mais importantes e mais recorrentes nos concursos. Quando você acabar de ler este livro digital, já estará muito bem preparado para acertar todas as questões desse tema. Conte comigo para ajudá-lo durante todo o processo de aprendizagem. Estarei diariamente a sua disposição em nosso Fórum para tirar suas dúvidas de estudo e apoiá-lo para conquistar sua aprovação. Meu nome é Clarissa, sou médica infectologista e, ao contrário de muita gente, não tinha intenção de prestar vestibular para Medicina. Eu não me sentia capaz de enfrentar a concorrência. Escolhi prestar vestibular para nutrição e fiquei surpresa com minha conquista do segundo lugar entre os aprovados. Ao iniciar meus estudos na faculdade de nutrição, fui apresentada ao programa de microbiologia e fiquei encantada pelo assunto. Percebi naquele momento que queria aprender mais sobre o tema. Após um ano e meio de curso, senti-me suficientemente confiante e motivada a prestar novamente vestibular, dessa vez, para Medicina. Fui novamente surpreendida pelo resultado, aprovada na primeira tentativa (após ser aluna de nutrição). Estratégia MED Prof. Clarissa Cerqueira | HIVINFECTOLOGIA 3 Durante a faculdade, sentia-me um pouco perdida entre as especialidades. Não tenho familiares médicos, que pudessem me orientar na escolha da carreira. Entretanto, tive a sorte de ter um professor de neurocirurgia que me apresentou aos campos da cirurgia e das ciências neurológicas e que me incentivou a buscar meus interesses e paixões. Após seis anos, o sonho realizou-se e o objetivo foi conquistado: formei-me médica. No momento de prestar prova de Residência Médica, minha primeira escolha de especialidade, após a faculdade, entretanto, não foi infectologia. Escolhi cirurgia geral. Mas, como essa especialidade se relaciona com a infectologia? Foi no meu primeiro dia como residente da cirurgia que reconheci meu desejo e paixão de longos tempos, germinados nas aulas de microbiologia da faculdade de nutrição, de ser infectologista. Abandonei a cirurgia e segui minha vocação. Minha história de especialista inicia-se com a Residência Médica em infectologia no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Um período de muito aprendizado e autoconhecimento, em que tive a oportunidade de aprender com grandes especialistas de reconhecimento nacional e internacional. Durante a Residência, busquei expandir meu aprendizado com estágios em Portugal (Hospital Curry Cabral) e nos Estados Unidos (Cleveland Clinic). Minha formação continuou com um ano extra (R4) de complementação na Universidade de São Paulo em Infecção em Imunodeprimidos e curso de pós-graduação do Hospital Albert Einstein em Controle de Infecção Hospitalar. Reconheço que sou suspeita para falar, mas o universo da infectologia é apaixonante. Atualmente, além de ser sua professora no Estratégia Med, trabalho em Salvador atuando nas áreas de infecção hospitalar, interconsultas da especialidade e consultório. @draclarissacerqueira @estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed @estrategiamed https://www.instagram.com/draclarissacerqueira/ https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed https://t.me/estrategiamed https://www.tiktok.com/@estrategiamed Estratégia MED Prof. Clarissa Cerqueira | HIVINFECTOLOGIA 4 Fique tranquilo. Discutiremos tudo que cai na prova sobre o HIV/AIDS. Já passei por isso algumas vezes, como você pôde perceber, e sei como é ter muito assunto pra estudar. Lembre- se sempre: temos um objetivo em comum, sua aprovação no concurso de Residência Médica! A respeito deste tema, cada questão foi analisada por mim e subdividida de acordo com seu assunto. Confira, neste gráfico, a prevalência dos tópicos mais frequentes relacionados ao HIV: Neste outro gráfico, abaixo, fiz uma análise das infecções oportunistas que são mais cobradas. Perceba que dois tópicos, pneumocistose e neurotoxoplasmose, são responsáveis por mais da metade das questões. Tenha isso em mente para aprender tudo sobre essas doenças, certo? 19% 13% 7% Infecções oportunistas (IO) Transmissão ver�cal e HIV em crianças 30% 6% 4% 0%2% Tratamento Prevenção (PEP e Prep) Diagnós�co HIV e TB História natural da doença / Fisiopatologia Transmissão Epidemiologia 11% 6% Vacinação em PVHIV Rastreio de neoplasia 2% Figura 1. Prevalência dos assuntos mais cobrados relacionados à infecção pelo HIV. 25% 9% PCP Neurotoxoplasmose Infecções oportunistas 34% 5% 4% 1%3% Neurocriptococose Infecções oportunistas do trato gastrointes�nal Profilaxias das infecções oportunistas MAC Pneumonia bacteriana Outras doenças neurológicas Manifestações cutâneas 11% 7% Figura 2. Prevalência das infecções oportunistas (IO) nas provas de Residência. PCP: Pneumonia por Pneumocystis jirovecii (pneumocistose). Sei que pode parecer ser um tema difícil, inclusive, era o que eu achava antes de fazer Residência em infectologia. Mas, não se preocupe! Pode confiar que, aqui, você vai aprender tudo da maneira mais fácil possível e na profundidade adequada para acertar todas as questões de provas. Para escrever este livro, baseei-me no mais recente Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Manejo da Infecção pelo HIV em adultos, de 2023, do Ministério da Saúde (última edição). Preparado? Vamos lá! Já podemos perceber visualmente que infecções oportunistas (IO), transmissão vertical e HIV em crianças, tratamento, diagnóstico e prevenção da infecção pelo HIV são temas que correspondem a 80% do que é cobrado em provas sobre o HIV. À medida que você for estudando, vou destacar tudo isso que é frequente. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 5 SUMÁRIO 1.0 ASPECTOS GERAIS 8 1.1 FISIOPATOLOGIA 8 1.2 AGENTE ETIOLÓGICO 9 1.3 TRANSMISSÃO 11 2.0 EPIDEMIOLOGIA 13 3.0 HISTÓRIA NATURAL DA DOENÇA E QUADRO CLÍNICO 16 3.1 INFECÇÃO AGUDA PELO HIV 16 3.2 FASE DE LATÊNCIA CLÍNICA 17 3.3 FASE SINTOMÁTICA E FASE AIDS 19 4.0 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL 21 4.1 TESTES RÁPIDOS 22 4.2 IMUNOENSAIOS 22 4.3 WESTERN BLOT 23 4.4 TESTE MOLECULAR 24 4.5 DIAGNÓSTICO DA INFECÇÃO PELO HIV 25 5.0 TRATAMENTO 28 5.1 AGENTES ANTIVIRAIS PARA TRATAMENTO DO HIV 30 5.1.1 INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA ANÁLOGOS NUCLEOSÍDEOS E NUCLEOTÍDEOS (ITRN) 31 5.1.2 INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA NÃO-ANÁLOGOS NUCLEOSÍDEOS E NUCLEOTÍDEOS (ITRNN) 32 5.1.3 INIBIDORES DA PROTEASE (IP) 34 5.1.4 INIBIDORES DA INTEGRASE 35 5.1.5 INIBIDORES DE FUSÃO 36 5.1.6 ANTAGONISTAS DO CCR5 36 5.1.7 INIBIDORES DA LIGAÇÃO 36 5.1.8 RESUMO DOS ANTIRRETROVIRAIS 37 Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 6 5.2 ESQUEMA BÁSICO 38 5.3 TRATAMENTO EM GESTANTES 42 5.4 TRATAMENTO EM PACIENTES COINFECTADOS COM TUBERCULOSE 43 5.5 GENOTIPAGEM 43 5.6 FALHA VIROLÓGICA 44 5.7 FLUXOGRAMA DO MANEJO INICIAL DO PACIENTE COM HIV/AIDS 46 6.0 SEGUIMENTO DO PACIENTE COM HIV/AIDS 47 7.0 INFECÇÕES OPORTUNISTAS 51 7.1 INFECÇÕES PULMONARES 51 7.1.1 PNEUMOCISTOSE 51 7.1.2 PNEUMONIA BACTERIANA 57 7.1.3 TUBERCULOSE 58 7.2 INFECÇÕES DE SISTEMA NERVOSO CENTRAL 58 7.2.1 NEUROTOXOPLASMOSE 59 7.2.2 NEUROCRIPTOCOCOSE 64 7.2.3 LINFOMA PRIMÁRIO DE SNC (LPSNC) 69 7.2.4 LEUCOENCEFALOPATIA MULTIFOCAL PROGRESSIVA (LEMP) 70 7.2.5 NEUROSSÍFILIS 72 7.2.6 RESUMO DAS NEUROINFECÇÕES 73 7.3 INFECÇÕES DO TRATO GASTROINTESTINAL 74 7.3.1 CANDIDÍASE ORAL E ESOFÁGICAalta potência, poucas interações medicamentosas, poucos eventos adversos e segurança para ser usado em pacientes coinfectados com hepatites e tuberculose. Incorreta a alternativa D, porque o raltegravir não apresenta eventos adversos frequentes. 5.1.5 INIBIDORES DE FUSÃO Essa classe só tem um representante, que é a enfuvirtida (T-20). Ela liga-se à glicoproteína 41 (gp41), que fica no envelope do vírus, e evita sua fusão com a célula do hospedeiro. Essa medicação é injetável e só é usada em pacientes previamente experimentados com outros antirretrovirais. 5.1.6 ANTAGONISTAS DO CCR5 Essa classe também só tem um representante: o maraviroc. Ele liga-se ao CCR5, que é um correceptor que ajuda na entrada do HIV na célula do hospedeiro. Dessa forma, ele bloqueia a entrada do vírus nos linfócitos T CD4+. Assim como os inibidores de fusão, é também usado em casos de resistência viral. D) RAL apresenta excelente tolerabilidade, alta potência, poucas interações medicamentosas, eventos adversos muito frequentes e segurança para o uso em coinfecções como hepatites e tuberculose. 5.1.7 INIBIDORES DA LIGAÇÃO Essa é uma nova classe de antirretrovirais, que teve seu primeiro representante, o fostemsavir, incorporado ao SUS em 2024. O fostemsavir atua bloqueando a interação da glicoproteína viral gp120 com os receptores CD4, impedindo a entrada do HIV-1 nas células. É indicado darunavir e ao dolutegravir), em situações onde não é possível compor um esquema antiviral eficaz com os demais antirretrovirais disponíveis. Também é recomendado para substituir a enfuvirtida em pacientes com carga viral controlada (inflamatória da resposta imune, devendo ser iniciado apenas após a alta hospitalar, em nível ambulatorial. COMENTÁRIOS Futuro Residente, vamos juntos analisar as alternativas dessa questão que aborda o que acabei de ensinar: Incorreta a alternativa A, porque o esquema preferencial atual é o tenofovir, lamivudina e dolutegravir, esquema feito com o uso de dois comprimidos ao dia. Incorreta a alternativa B. Atenção! De acordo com as diretrizes atuais, essa alternativa está correta! No entanto, quando essa questão foi formulada, o dolutegravir só poderia ser usado em gestantes com mais de 13 semanas de idade gestacional, pois havia o receio de que seu uso no início da gestação poderia resultar em de defeitos do tubo neural. Estudos recentes demonstraram que dolutegravir é uma droga segura para qualquer idade gestacional, sendo atualmente recomendado como primeira linha de terapia antirretroviral para gestantes. Incorreta a alternativa C. Desde o final de 2019, o Ministério da Saúde liberou o uso do dolutegravir para pacientes coinfectados HIV/TB. A ressalva é que o dolutegravir deve ser feito duas vezes ao dia e não em tomada única diária. Ele é, habitualmente, feito somente uma vez ao dia, porém, pela interação com a rifampicina durante o tratamento da TB, que é um forte indutor do metabolismo do dolutegravir, sua dose deve ser dobrada. Você verá mais sobre isso na sequência. Incorreta a alternativa A. Atazanavir e ritonavir não fazem parte do esquema terapêutico preferencial. Incorreta a alternativa B. Zidovudina não é recomendada para o tratamento inicial. Correta a alternativa C. Tenofovir + lamivudina + dolutegravir é o esquema terapêutico preferencial no Brasil. Incorreta a alternativa D. Zidovudina e efavirenz não são recomendados para o esquema terapêutico preferencial. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 40 Correta a alternativa D. Como vimos, esse esquema é o preconizado para tratamento inicial dos pacientes com HIV. Ele é composto de 2 inibidores da transcriptase reversa nucleosídeos/nucleotídeos (tenofovir e lamivudina) associados a um inibidor de integrase (dolutegravir). Incorreta a alternativa E. A terapia antirretroviral deve ser iniciada o quanto antes, sendo postergada por algumas semanas, principalmente nos casos de neurotuberculose e neurocriptococose, pelo risco de síndrome da reconstituição imune. Vou falar sobre isso no tópico da síndrome inflamatória da reconstituição imune. (FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS - UFT 2020) Paciente masculino, de 36 anos de idade, que compareceu no SAE do município de residência, onde realizou os testes rápidos para Hepatite B, Hepatite C, HIV e Sífilis. O teste de triagem para HIV resultou reagente e, imediatamente, foi realizado um segundo teste confirmatório (Bio-Manguinhos) que, também, resultou reagente. Ele encontra-se assintomático. Como parte da abordagem inicial foram indicados exames laboratoriais e outros, como a Contagem de linfócitos T CD4+ e a Carga viral, segundo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para o manejo da infecção pelo HIV em adultos 2018, do Ministério da Saúde. A terapia antirretroviral lhe foi oferecida no mesmo dia do diagnóstico. Na semana seguinte, recebemos os resultados e a contagem de linfócitos T CD4+ foi de 682 células/mm³ e a carga viral foi de 2.524 cópias/mL. Assinale a alternativa CORRETA que apresenta esquema antirretroviral inicial, indicado ao paciente. A) Combinação de três antirretrovirais, sendo dois inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleotídeos/nucleosídeos, associados a um inibidor de transcriptase reversa não análogo de nucleotídeos/nucleosídeos. O esquema de primeira linha deve ser: comprimidos 2 em 1 de Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg, tomar 1 comprimido coformulado ao dia e associado a um comprimido de 200 mg de Nevirapina, de 12 em 12 horas, Via Oral B) Combinação de três antirretrovirais, sendo dois inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleotídeos/nucleosídeos, associados a um inibidor de protease. O esquema de primeira linha deve ser monoterapia de Tenofovir 1 comprimido de 300 mg/dia, Lamivudina 2 comprimidos de 150 mg/dia, Lopinavir/Ritonavir (200 mg/50 mg) 4 comprimidos por dia (2 comprimidos de 12 em 12 horas), via oral. C) Combinação de três antirretrovirais, sendo dois inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleotídeos/nucleosídeos, associados a um inibidor de protease. O esquema de primeira linha deve ser monoterapia de Zidovudina 1 comprimido de 300 mg de 12 em 12 horas, Lamivudina 2 comprimidos de 150 mg/dia, Lopinavir/Ritonavir (200 mg/50 mg), 4 comprimidos por dia (2 comprimidos de 12 em 12 horas), via oral. D) Combinação de três antirretrovirais, sendo dois inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleotídeos/nucleosídeos, associados a um inibidor de integrase. O esquema de primeira linha deve ser comprimido 2 em 1 de Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg (1 comprimido ao dia), via oral, associado a Dolutegravir 50 mg (1 comprimido ao dia), via oral. E) A combinação de três antirretrovirais, sendo dois inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleotídeos/nucleosídeos associados a um inibidor de transcriptase reversa não análogo de nucleotídeos/nucleosídeos. O esquema de primeira linha deve ser: comprimidos 2 em 1 de Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg (1 comprimido da combinação ao dia), associado a um comprimido de Efavirenz 600 mg/dia. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 41 COMENTÁRIOS O Ministério da Saúde recomenda como terapia inicial para pacientes com HIV o uso de três drogas: dois inibidores da transcriptase reversa nucleosídeo/nucleotídeo (ITRNN), o tenofovir e a lamivudina, associados a um inibidor de integrase (dolutegravir). Vamos analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A, porque a nevirapina não é droga de primeira linha para pacientes com HIV. Seu uso é recomendado nos casos de resistência viral documentada com genotipagem. Incorreta a alternativa B, porque o uso de inibidores de protease (IP) não é considerado primeira linha no tratamento de infecções pelo HIV. O lopinavir/ritonavir são medicações mais antigas e com bastante efeitos adversos, principalmente relacionados ao trato gastrointestinal. O IP mais usado atualmente é o darunavir, que reservamos para casos de resistência ou contraindicação ao esquema inicial. Incorreta a alternativa C, porque a zidovudina não é o ITRNN recomendado de primeira escolha, nem o uso de inibidores de protease. Correta a alternativa D. Esse é o esquema inicial de primeira linha para tratamento de pacientes com HIV. Incorreta a alternativa E. O efavirenz já fez parte do esquema inicial para tratamento de pacientes com HIV, mas, desde 2017, o Ministério da Saúde recomenda que o dolutegravir seja feito no seu lugar. Uma atualização recente do novo PCDT para manejo da infecção do HIV aborda a simplificação do tratamento inicial. Como é isso? Então, caso o paciente apresente todos os critérios abaixo, podemos suspender o tenofovir, e o paciente mantém o uso somente da lamivudina e do dolutegravir. Outra opção de simplificação é o uso da lamivudina com darunavir/ritonavir. Critérios para simplificação do tratamento Ausência de falha virológica prévia Adesão regular à TARV Carga viral (CV) indetectável nos últimos 12 meses, sendo a última CV realizada há pelo menos 6 meses Exclusão de coinfecção do HBV ou TB Idade maior ou igual a 18 anos Não estar gestante TFG maior do que 30 mL/min Não estar em uso de medicamentos que requeiram a dose dobrada de dolutegravir ou que reduzam seu nível sérico Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 42 Agora, que falamos sobre o esquema básico inicial, vamos conversar sobre o tratamento da infecção pelo HIV em algumas situações especiais. 5.3 TRATAMENTO EM GESTANTESO tratamento da infecção pelo HIV em gestantes simplificou bastante. Desde 2022, o Ministério da Saúde recomenda o uso de TDF + 3TC + DTG, as mesmas drogas usadas no tratamento inicial de adultos, independentemente da idade gestacional. Há alguns anos, tinha-se dúvida em relação à segurança do dolutegravir no primeiro trimestre da gestação, porém novas evidências científicas não confirmaram a associação do DTG com defeitos do tubo neural. Resumindo, o tratamento da mulher que deseja engravidar e da gestante com HIV, independentemente da idade gestacional é: Tenofovir + Lamivudina + Dolutegravir 3TC (lamivudina) DTG (dolutegravir) OU 3TC (lamivudina) DRV/r (darunavir/ ritonavir) Os benefícios dessa simplificação incluem a facilidade posológica e a redução de efeitos adversos e interações medicamentosas em razão da retirada do tenofovir. É importante citar que a simplificação não é recomendada para o início do tratamento. Veja aqui as duas opções de tratamento simplificado: Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 43 5.4 TRATAMENTO EM PACIENTES COINFECTADOS COM TUBERCULOSE Este tópico foi abordado no livro digital de tuberculose. Os pontos mais importantes para você saber são os seguintes: • O esquema básico (TDF+3TC+DTG) pode ser feito em associação com o tratamento da tuberculose, porém, como a rifampicina é um forte indutor do metabolismo do dolutegravir, sua dose deve ser dobrada. Ao invés de 50mg/dia, o paciente deve usar 50mg 12/12 horas. • A rifampicina não deve ser feita em associação com inibidores de protease. Caso o paciente já faça uso de algum, a recomendação é trocar essa classe por outra. Caso isso não seja possível e o IP não possa ser trocado, devemos trocar a rifampicina pela rifabutina. Para pacientes virgens de tratamento do HIV e com diagnóstico de tuberculose, a TARV deve ser iniciada em até 7 dias do início do RIPE, independentemente da contagem de linfócitos TCD4+. Nos casos de pacientes com tuberculose de sistema nervoso central, a TARV deve ser iniciada somente após 4 a 6 semanas do início do RIPE, independentemente da contagem de linfócitos TCD4+. Devemos ter essa cautela para evitar a síndrome inflamatória da reconstituição imune. Esses e mais detalhes estão descritos no livro de tuberculose. Confira esse tópico com calma. Não deixe de estudar, porque é cobrado com frequência em provas de Residência. 5.5 GENOTIPAGEM Como falei antes, existe um exame chamado genotipagem e é sobre ele que iremos falar agora. A genotipagem é um exame para pesquisar resistência viral às medicações. Com ele, conseguimos descobrir quais são os antirretrovirais ativos e eficazes para montarmos um novo esquema de tratamento. Em algumas situações, devemos realizar esse exame antes do início do tratamento, para investigar resistência transmitida: Indicações de genotipagem pré-tratamento Pessoas que tenham se infectado com algum parceiro (atual ou prévio) em uso de TARV Gestantes infectadas pelo HIV Crianças infectadas pelo HIV Pessoas coinfectadas com HIV e tuberculose Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 44 CAI NA PROVA (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE CUIABÁ – SCMCMT 2020) A genotipagem pré-tratamento para manejo da infecção pelo HIV em adultos está indicada nas seguintes situações listadas abaixo, indique o item com erro: A) Pessoas que tenham se infectado com parceiro (atual ou pregresso) em uso de TARV. B) Casais soroiguais. C) Gestantes infectadas pelo HIV. D) Coinfecção TB-HIV. COMENTÁRIOS A genotipagem pré-tratamento está indicada em todos os pacientes coinfectados com HIV e TB, a todas as gestantes, todas as crianças e pessoas que tenham se infectado com parceiro em uso de TARV (casais sorodiscordantes). Vamos agora às alternativas: Incorreta a alternativa A, porque a genotipagem pré-tratamento está indicada em pessoas que tenham se infectado com o parceiro (atual ou pregresso) em uso de TARV. Nesse caso, há um risco de o paciente estar infectado com vírus resistente, afinal, para ter adquirido o HIV pelo parceiro é porque não estava usando a TARV adequadamente. Correta a alternativa B. Porque não há indicação e nem benefício em realizar genotipagem em casais que sejam soroiguais. Incorreta a alternativa C, porque a genotipagem pré-tratamento está indicada em gestantes. Incorreta a alternativa D, porque a genotipagem pré-tratamento está indicada em pacientes coinfectados HIV e TB. 5.6 FALHA VIROLÓGICA Com o uso regular da TARV, a carga viral do paciente ficará indetectável em até 6 meses. Caso isso não aconteça, dizemos que estamos diante de uma falha virológica. Além disso, se o paciente estava com uma carga viral indetectável e, em seguida, ela passou a ser detectável, também podemos caracterizar essa situação como falha virológica. A falha virológica pode ser caracterizada de duas formas: - Carga viral detectável após seis meses do início ou troca da TARV; - CV detectável em pacientes que fazem uso regular da TARV e mantinham uma CV indetectável. A causa mais comum de falha virológica é a má adesão ao tratamento, logo, a primeira conduta a ser feita é orientar essa adesão. Caso o paciente permaneça com o uso irregular da TARV, os níveis séricos desses remédios ficam baixos e são insuficientes para suprimir a replicação viral. Isso leva a uma pressão seletiva sobre a população viral, com consequente aparecimento de subpopulações resistentes, inclusive com resistência cruzada a drogas não utilizadas previamente. Chamamos isso de resistência viral adquirida. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 45 Causas de falha virológica: - Má adesão ao tratamento. - Resistência viral adquirida. - Resistência viral transmitida (nesse caso, a pessoa já teria se infectado com um vírus resistente). - Esquemas inadequados (por exemplo, esquemas com potências insuficientes, como terapia tripla com três ITRN, monoterapia com IP/r, etc.) Nos pacientes em que detectamos a falha virológica, devemos solicitar a realização da genotipagem para investigar a resistência viral às medicações. Com isso, podemos montar esquemas de resgate com maior chance de supressão viral. Para a realização da genotipagem o paciente deve preencher os seguintes critérios: Critérios para realização de genotipagem para investigação de falha virológica Falha virológica confirmada em dois testes consecutivos de carga viral do HIV com intervalo de 4 semanas entre eles. Carga viral superior a 500 cópias/mL (se for menos que isso, o exame não tem como ser realizado, já que é preciso uma quantidade mínima de vírus replicante). Uso regular de TARV por pelo menos 6 meses. CAI NA PROVA (Hospital de Olhos Aparecida – HOA – 2020 GO) Recomenda-se que os testes de genotipagem do HIV sejam realizados o mais precocemente possível em relação ao diagnóstico da falha. Somente sendo incorreto que: A) nas situações de CV-HIV baixa, os testes de genotipagem podem ser menos eficazes, pois a amplificação das sequências pode ser frustrada. B) além disso, subpopulações minoritárias portadoras de mutações de resistência sempre serão detectadas. C) a CV persistente, mesmo baixa, leva a acúmulo de mutações e resistência cruzada nas classes dos medicamentos sem uso. D) cerca de 60% dos pacientes mantidos com supressão viral parcial desenvolvem novas mutações de resistência após 18 meses. COMENTÁRIOS Questão sobre o que acabamos de discutir. A falha virológica é definida como uma carga viral detectável após seis meses do início ou troca da terapia antirretroviral, ou a detecção de uma carga viral que antes se mantinha indetectável. Nesses casos, a genotipagem está indicada para avaliar a resistência aos antirretrovirais. Vamos às alternativas: Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 46 Correta a alternativa A. Quando a CV-HIV está muito baixa, pode serdifícil ampliar sequências genéticas dos vírus para avaliar mutações. Para exemplificar, um dos critérios para realizar genotipagem é ter uma CV-HIV superior a 500 cópias/mL. Incorreta a alternativa B. Porque subpopulações minoritárias podem não ser detectadas. Correta a alternativa C. Uma CV detectável por longos períodos pode levar a mutações e resistência a diversas drogas. Medicações que nunca foram usadas pelo paciente podem apresentar resistência de forma cruzada. Correta a alternativa D. Essa alternativa traz um dado real que mostra que pacientes com carga viral baixa, porém detectável (supressão viral parcial), desenvolvem resistência aos antirretrovirais. 5.7 FLUXOGRAMA DO MANEJO INICIAL DO PACIENTE COM HIV/AIDS Diagnóstico da infecção pelo HIV com pelo menos 2 testes Fazer genotipagem pré-tratamento Iniciar TDF+3TC+DTG Prescrever TARV de acordo resultado do exame Infecção através de algum parceiro em uso de TARV, ou paciente está gestante, ou é uma criança, ou está coinfectado (a) com tuberculose SimNão Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 47 CAPÍTULO 6.0 SEGUIMENTO DO PACIENTE COM HIV/AIDS Logo após o diagnóstico da infecção pelo HIV, devemos iniciar a cascata de cuidado contínuo do paciente. O que isso quer dizer? Que devemos vincular esse paciente a um serviço de saúde e fazer seu seguimento para garantir uma boa adesão ao tratamento com consequente supressão da carga viral. Essa cascata é composta dos seguintes passos: 1. Diagnóstico 2. Vinculação a um serviço de saúde. 3. Retenção no seguimento com realização de exames periódicos. 4. Grantir uma boa adesão à TARV. 5. Supressão da carga viral. De acordo com o PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em adultos, de 2018, do Ministério da Saúde, a vinculação é definida da seguinte forma: “é o processo que consiste no acolhimento, orientação, direcionamento e encaminhamento de uma pessoa recém- diagnosticada com HIV ao serviço de saúde para que ela realize as primeiras consultas e exames o mais brevemente possível e desenvolva autonomia para o cuidado contínuo. O desfecho principal para considerar uma PVHIV (pessoa vivendo com HIV/aids) vinculada é a realização da 1ª consulta no serviço de atenção para o qual foi encaminhada e, de preferência, seu início de tratamento o mais rápido possível”. A retenção ocorre após a vinculação, quando o paciente faz acompanhamento regular no serviço, realiza os exames ou retira a TARV e não falta às consultas. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 48 Na primeira consulta médica de um paciente com HIV, algumas informações específicas devem ser abordadas, como: - Revisar a data do primeiro exame anti-HIV; - Documentação do teste; - Tempo provável de soropositividade; - Situações de risco para infecção; - Presença ou história de doenças oportunistas; - Contagem de CD4+ ou carga viral anterior; - Uso anterior de TARV e eventos adversos prévios; - Compreensão sobre a doença (explicar sobre transmissão, história natural, significado da contagem CD4+, carga viral e TARV). Para o paciente ter uma resposta adequada ao tratamento, precisa ter uma boa adesão a ele. Mas, como definimos essa adesão? Ela é definida como o uso mais próximo possível da medicação da forma que foi prescrita pela equipe de saúde. A adesão é suficiente se o paciente tomar os comprimidos com uma frequência de pelo menos 80% daquela prescrita. CAI NA PROVA (Hospital de Olhos Aparecida – HOA – 2020 GO) O cuidado contínuo em HIV pode ser entendido como o processo de atenção aos usuários que vivem com HIV, que são entendidos como momentos, sendo que a dita Vinculação seria adequadamente determinada pela seguinte alternativa. A) Processo que consiste no acolhimento, orientação, direcionamento e encaminhamento de uma pessoa recém-diagnosticada com HIV ao serviço de saúde, para que ela realize as primeiras consultas e exames o mais brevemente possível, mas não desenvolva autonomia para o cuidado contínuo. O desfecho principal para considerar uma PVHIV vinculada é a realização da primeira consulta no serviço de atenção para o qual foi encaminhada e, de preferência, seu início de tratamento o mais rápido possível. B) Processo que consiste no acolhimento, orientação, direcionamento e encaminhamento de uma pessoa recém-diagnosticada com HIV ao serviço de saúde, para que ela realize as primeiras consultas e exames o mais brevemente possível e desenvolva autonomia para o cuidado contínuo. O desfecho principal para considerar uma PVHIV vinculada é a realização da primeira consulta no serviço de atenção para o qual foi encaminhada e, de preferência, seu início de tratamento o mais rápido possível. C) Processo que consiste no acolhimento, orientação, direcionamento e encaminhamento de uma pessoa recém-diagnosticada com HIV ao serviço de saúde, para que ela realize as primeiras consultas e exames o mais brevemente possível e desenvolva autonomia para o cuidado contínuo. O desfecho principal para considerar uma PVHIV vinculada é a realização da primeira consulta no serviço de atenção para o qual foi encaminhada e, de preferência, seu início de tratamento sendo desnecessário rapidez. D) Processo que consiste direcionamento apenas para encaminhamento de uma pessoa recém-diagnosticada com HIV ao serviço de saúde, para que ela realize as primeiras consultas e exames o mais brevemente possível e desenvolva autonomia para o cuidado contínuo. O desfecho principal para considerar uma PVHIV vinculada é a realização da primeira consulta no serviço de atenção para o qual foi encaminhada e, de preferência, seu início de tratamento o mais rápido possível. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 49 COMENTÁRIOS Essa questão copiou a definição de vinculação do PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em adultos do Ministério da Saúde, de 2018. Agora que você já sabe, fica mais fácil, não é mesmo? Vamos analisar as alternativas e ver qual é a correta: Incorreta a alternativa A, porque o desenvolvimento da autonomia para o cuidado contínuo faz parte da vinculação. Correta a alternativa B. Essa alternativa descreve exatamente a definição da vinculação. Incorreta a alternativa C, porque o início mais rápido possível do tratamento faz parte do desfecho principal da vinculação. Incorreta a alternativa D, porque a vinculação não é somente o processo de direcionamento de uma PVHIV. É também o acolhimento, orientação e encaminhamento desses pacientes. (HOSPITAL DE OLHOS GROTTONE - HOG - SP 2018) Adesão ao tratamento consiste na utilização ideal dos medicamentos antirretrovirais ARV, sendo NÃO compatível com o mesmo, apenas, o item abaixo indicado: A) adesão ao tratamento consiste na utilização ideal dos medicamentos antirretrovirais ARV da forma mais próxima possível àquela prescrita pela equipe de saúde, respeitando as doses, horários e outras indicações. B) a adesão também é um processo colaborativo que facilita a aceitação e a integração de determinado esquema terapêutico no cotidiano das pessoas em tratamento. C) considera-se como adesão suficiente a tomada de medicamentos com uma frequência de, pelo menos, 95 % para alcançar a supressão viral e sua manutenção. D) ressalta-se que a má adesão é uma das principais causas de falha terapêutica. COMENTÁRIOS A adesão ao tratamento é fundamental para a supressão da carga viral do HIV. Vamos analisar as alternativas e procurar a incorreta. Correta a alternativa A. A adesão é definida como o uso mais próximo possível da medicação da forma que foi prescrita pela equipe de saúde. Correta a alternativa B. A adesão é um processo que colabora para facilitar a incorporação dessa nova rotina na vida das pessoas com HIV. Incorreta a alternativa C. A adesão suficiente é aquela em que o paciente toma pelo menos 80% da medicação conforme a prescrição. Correta a alternativa D. A má adesão ao tratamentoé uma das principais causas de falha terapêutica e também leva ao risco de desenvolvimento de resistência viral. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 50 (HOSPITAL MEMORIAL ARTHUR RAMOS – HMAR – 2020 AL) As estratégias para testagem têm o objetivo de melhorar a qualidade do diagnóstico da infecção pelo HIV e, ao mesmo tempo, assegurar que o diagnóstico seja realizado o mais precocemente possível, de forma segura e com rápida conclusão. Somente se mostra errado o item: A) Fazer revisão e documentação do primeiro exame anti-HIV. B) Checar se há contagens de LT-CD4+ e exames de CV-HIV anteriores. C) Discutir uso de ARV e se houve eventos adversos prévio. D) Vedado discutir o tempo provável de soro positividade. COMENTÁRIOS A questão quer saber que afirmativa traz uma conduta que não deve ser feita na primeira consulta. Vamos analisar cada alternativa: Correta a alternativa A. A revisão e documentação do primeiro exame anti-HIV é importante para a notificação da data adequada. Correta a alternativa B. É de extrema importância checar resultados prévios de LT-CD4+ e carga viral. Isso é importante para avaliar o nível mais baixo de imunossupressão do paciente, a adesão ao tratamento ou se há suspeita de resistência viral. Correta a alternativa C. O uso de ARV deve ser discutido e oferecido ao paciente. Caso ele já tenha feito uso prévio, é importante saber sobre efeitos adversos para montar o esquema de tratamento. Incorreta a alternativa D. Como você já leu acima, é recomendado que se discuta o tempo provável de soropositividade. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 51 CAPÍTULO 7.0 INFECÇÕES OPORTUNISTAS 7.1 INFECÇÕES PULMONARES As infecções pulmonares são frequentes em pacientes com aids que não usam a TARV. Dentre elas, você precisa saber bastante sobre a pneumocistose, doença oportunista mais cobrada nas provas de Residência, tuberculose e pneumonia bacteriana. 7.1.1 PNEUMOCISTOSE A pneumocistose é uma das principais infecções oportunistas que acometem o paciente portador de aids. Geralmente, ela manifesta- se quando a contagem de linfócitos T CD4+ está abaixo de 200 células/µL. Etiologia É causada pelo Pneumocystis jirovecii, um fungo que geralmente infecta o ser humano na infância e pode permanecer latente ao longo da vida e reativar em casos de deficiência da imunidade celular. A transmissão entre indivíduos também pode ocorrer por meio do contato com secreções respiratórias de pessoas que são colonizadas/infectadas pelo fungo. Quadro clínico Clinicamente, o paciente apresenta-se com uma tosse seca, febre, dispneia e hipoxemia (anote isso, porque é frequente a descrição de dessaturação no enunciado das questões sobre esse assunto). Nos exames laboratoriais, a elevação do lactato desidrogenase (LDH) é bem característica. HIV + dispneia subaguda + hipoxemia = pneumocistose. Muitas vezes a banca associa ao quadro pulmonar a presença de candidíase oral, para sugerir a você um diagnóstico de pneumocistose. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 52 É comum a associação de candidíase oral com pneumocistose! Diagnóstico O diagnóstico da pneumocistose é geralmente presuntivo. A associação da história clínica com exames de imagem e laboratório é a maneira mais usada para isso. A radiografia de tórax pode estar normal ou com um infiltrado intersticial bilateral. Um achado bem frequente nas provas é a presença de pneumotórax espontâneo, já que a pneumocistose pode levar à formação de cistos, que podem se romper espontaneamente (daí o nome da pneumocistose). Já na tomografia de tórax, é frequente o encontro de infiltrados intersticiais em vidro fosco. Uma alteração que fala contra o diagnóstico da pneumocistose é a presença de derrame pleural. Figura 16. Na imagem da esquerda, observe uma radiografia de tórax de paciente com pneumocistose. Preste atenção ao infiltrado intersticial bilateral. Na imagem à direita, você pode observar uma tomografia de um outro paciente com pneumocistose que evidencia um infiltrado em vidro fosco bilateral. Para um diagnóstico definitivo, é necessário encontrar o fungo. Como isso é feito? Com a pesquisa direta do agente em amostras respiratórias, como o escarro ou o lavado broncoalveolar, que são as amostras com maior sensibilidade. Devem ser usadas colorações que consigam corar leveduras, como o azul de toluidina, Grocott e Giemsa. Outras técnicas podem ser usadas para detectar o fungo no lavado broncoalveolar, como a imunofluorescência e a biologia molecular, como a PCR (polymerase chain reaction). Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 53 Tratamento Seu tratamento é feito com sulfametoxazol e trimetoprima por 21 dias e, após o uso do antibiótico em dose terapêutica, devemos mantê-lo em dose profilática três vezes por semana para evitar recorrência da doença. Sobre a profilaxia secundária: após 3 meses com uma contagem de linfócitos acima de 200 células/mm3, a profilaxia pode ser descontinuada. Pacientes com pneumocistose moderada a grave, ou seja, com PaO2 35mmHg, têm indicação do uso de corticoides, já que eles reduzem a mortalidade nesses casos. Caso o paciente seja alérgico à sulfa, o tratamento deve ser feito com clindamicina e primaquina pelos mesmos 21 dias. Caso o paciente seja diagnosticado com HIV no momento do quadro da pneumocistose, a TARV deve ser iniciada dentro de duas semanas do início do tratamento, podendo, inclusive, ser durante a internação hospitalar. TRATAMENTO DA PNEUMOCISTOSE 1. Medicações: sulfametoxazol-trimetoprima ou clindamicina e primaquina (nos casos de alergia à sulfa) por 21 dias. 2. Indicações de uso de corticoide: PaO2 35 mmHg. CAI NA PROVA (SP - Universidade de São Paulo - USP 2024) Mulher, 30 anos, queixa se de tosse seca, febre diária (até 38,5C) e dispneia progressiva há 3 semanas, com piora acentuada nos últimos 2 dias. Tomou, sem orientação médica, amoxicilina+clavulanato (500/125 mg a cada 8 horas) por uma semana, sem melhora. Exame Físico: FR: 28 ipm e tiragens intercostais. Ausculta respiratória sem anormalidades. Ausência de lesões em pele e mucosa oral, sem adenomegalias. Exames complementares: PCR para SARS CoV 2 em secreção nasal: negativa; Teste rápido molecular para M. tuberculosis em escarro: negativo. Hb: 12,2 g/dL; Gb: 3000/uL (neutrófilos 65%; linfócitos: 30%); plaquetas: 233.000 /uL. Gasometria ar ambiente: pH: 7,44; PO2: 71 mmHg; PCO2: 38 mmHG; HCO3: 26 mmol/L BE. mmol/L ; Saturação O2 : 92%. LDH sérica: 5300 U/L (VN: 120-246). Teste rápido para HIV: positivo. Qual é a terapia mais adequada? Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 54 (UNIRIO 2020) Paciente feminina de 58 anos portadora de AIDS em tratamento irregular deu entrada em serviço de emergência com dor pleurítica, dispneia e febre baixa. A radiografia revelou pneumotórax à direita. A provável causa do quadro clínico é A) Pneumonia por Pneumocystis jiroveci. B) Pneumonia por Staphylococcus aureus. C) Pneumonia por Streptococcus pneumoniae. D) Pneumonia por citomegalovírus. E) Aspergilose pulmonar. COMENTÁRIOS Um paciente com AIDS e uso irregular da medicação: devemos pensar logo que ele tem linfócitos T CD4+ baixos. Nesse caso, a paciente apresenta dispneia e pneumotórax espontâneo. Qual é a doença que justifica esse quadro? A pneumocistose! A) Sulfametoxazol+trimetoprim B) Fluconazol C) Ceftriaxona D) Rifampicina+isoniazida+pirazinamida+etambutol COMENTÁRIO: Note que o quadro clínico, as alterações laboratoriais descritas e a imagem são sugestivas de pneumocistose. Esta é uma doença subaguda que causa tosse não produtiva, febre e dispneia progressiva. Dos exames laboratoriais, sãofrequentes os seguintes achados: PO2 baixa, saturação de oxigênio baixa e LDH elevada. A radiografia de tórax pode ser normal ou demonstrar infiltrado intersticial bilateral, geralmente poupando a periferia. Correta a alternativa A. O tratamento da pneumocistose deve ser realizado com sulfametoxazol+trimetoprim (15-20mg de trimetoprim/kg/dia) durantes 21 dias. Pacientes com PaO2a pneumocistose com o seguinte resumo: Figura 17. Esquema dos tópicos mais importantes sobre a pneumocistose. L TCD4A confirmação ocorre com a prova terapêutica, afinal, como falei, não devemos sair por aí biopsiando a cabeça de todo mundo, né? Se o paciente tiver uma melhora clínica e radiológica com o tratamento para neurotoxoplasmose, então era esse mesmo o diagnóstico. Diante de um quadro neurológico com manifestações como convulsões, alteração do estado mental e sinais focais, como hemiparesia, hemiplegia e disfasia, em paciente com HIV e linfócitos T CD4+ abaixo de 100 células/ mm3, VOCÊ TEM QUE SE LEMBRAR DA NEUROTOXOPLASMOSE! Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 61 Tratamento O tratamento pode ser realizado com qualquer uma das opções: • Sulfadiazina + pirimetamina + ácido folínico, • Sulfametoxazol-trimetoprim (SMX-TMP). Se o paciente for alérgico à sulfa, devemos trocar a sulfadiazina do primeiro esquema pela clindamicina, sendo este o esquema recomendado: • Clindamicina + pirimetamina. Após 10 a 14 dias, devemos repetir o exame de imagem e, caso tenha ocorrido uma melhora da lesão, juntamente com uma melhora clínica do paciente, podemos confirmar o diagnóstico de forma presuntiva. Caso o paciente não melhore, devemos pensar em outra hipótese diagnóstica, como o linfoma primário de sistema nervoso central (LPSNC). É importante saber que, apesar desse acometimento encefálico da neurotoxoplasmose, não se indica uso profilático de anticonvulsivantes. Corticoides podem ser associados ao esquema se o paciente apresentar efeito de massa importante ou edema cerebral difuso. Devemos manter esse esquema de tratamento por 42 dias (seis semanas). Em seguida, não podemos nos esquecer de iniciar a profilaxia secundária com SMX-TMP para evitar nova reativação da doença. A TARV pode ser iniciada nas 2 semanas iniciais de tratamento da neurotoxoplasmose, caso o paciente não esteja em uso prévio. CAI NA PROVA (Hospital POLICLIN 2018 – SP) Enferma, 28 anos, com diagnóstico de síndrome de imunodeficiência adquirida, apresenta diminuição do nível de consciência e hemiplegia direita. A principal hipótese diagnóstica é: A) Leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP); B) Toxoplasmose cerebral; C) Linfoma; D) Co-infecção Trypanosoma cruzi/vírus da imunodeficiência adquirida (HIV); E) Criptococose. COMENTÁRIOS Temos aqui um paciente jovem, com AIDS e com um quadro neurológico. Vamos analisar as alternativas e discutir os diagnósticos. As outras doenças neurológicas serão abordadas ao longo do livro: Incorreta a alternativa A. A LEMP é causada pelo vírus JC e acomete aqueles pacientes bem imunodeprimidos, com linfócitos T CD4+ conduta é fazer o teste terapêutico e somente se o paciente não melhorar, a gente avalia a indicação dessa biópsia. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 64 Reforce seu aprendizado com este esquema com as principais informações da neurotoxoplasmose: 7.2.2 NEUROCRIPTOCOCOSE A neurocriptococose é uma doença causada por um fungo chamado Cryptococcus neoformans. É uma doença muito grave e pode acometer aqueles pacientes com aids que não usam a TARV e acabam por apresentar uma contagem de linfócitos T CD4+ abaixo de 100 células/mm3. É a doença fúngica invasiva com risco de óbito que mais ocorre nesses pacientes. Esse fungo é encontrado em solos e nas fezes de animais, principalmente dos pombos. Essa levedura é inalada e o pulmão é o primeiro órgão infectado. A maioria dos pacientes não desenvolve sintomas pulmonares e essa levedura pode ficar latente e reativar em casos de imunossupressão. Apesar de a infecção começar pelo pulmão, em pacientes imunocomprometidos o sistema nervoso central é o local mais acometido. QUADRO CLÍNICO A neurocriptococose é uma doença que geralmente se apresenta ao longo de uma a duas semanas. É muito mais frequente um quadro subagudo do que agudo, mas ambos são possíveis. Clinicamente, o paciente apresenta sinais e sintomas de meningite e hipertensão intracraniana, como cefaleia, náuseas e vômitos, rigidez de nuca, edema de papila, paralisia do VI par craniano (por ter um trajeto longo) e confusão mental. A hipertensão intracraniana é muito comum e bem característica da neurocriptococose. Essa pressão é definida com um aparelho chamado “raquimanômetro” . Assim que a punção é realizada, encaixamos um tubo estéril na extremidade da agulha de punção e no aparelho. No visor, conseguimos ver o valor da pressão de abertura, que está elevada se estiver > 20 cmH2O (ou 200mmH2O). L TCD4para confirmar o diagnóstico são: A) Encefalite herpética - eletroencefalograma. B) Meningite bacteriana - análise de líquor. C) Meningite criptocócica - análise de líquor. D) Neurotoxoplasmose - RNM de encéfalo. COMENTÁRIOS Paciente infectado pelo HIV e em abandono de tratamento apresenta cefaleia e febre de evolução subaguda. O que pensar? Em doença oportunista! Pelo quadro clínico, devemos pensar primeiramente em neurocriptococose, afinal, a TC de crânio veio normal (já é uma dica para descartar neurotoxoplasmose). Incorreta a alternativa A. A encefalite herpética é um quadro grave de cefaleia, febre, confusão mental, crises epilépticas e eventualmente sinais focais, com evolução em menos de uma semana e que, nesse período, provavelmente, já apareceria na tomografia como uma hipodensidade assimétrica nos lobos temporais. Para o diagnóstico, seria imprescindível a coleta do líquor, que mostraria um padrão linfomonocitário e o PCR para HSV-1 positivo. Incorreta a alternativa B. Temos aqui um quadro de evolução ao longo de 1 semana em um paciente infectado pelo HIV sem tratamento. Nesses casos, devemos pensar primeiramente em infecção oportunista. As meningites bacterianas têm uma evolução muito mais aguda. Além disso, no hemograma deveria haver uma leucocitose, que não foi descrita como presente nesse caso. Correta a alternativa C. A infecção por criptococo é a causa mais comum de meningite no paciente com infecção pelo HIV e pode ter uma evolução subaguda. A punção liquórica apresentará uma pressão de abertura elevada, sugerindo hipertensão intracraniana, e, na análise do líquor, a celularidade pode estar elevada com predomínio de linfócitos e poucas alterações na glicose e nas proteínas. No entanto, poderão ser detectados os criptococos através da coloração de tinta da China. Incorreta a alternativa D. A neurotoxoplasmose ocorre em pacientes com infecção por HIV e que tenham linfócitos T CD4+ abaixo de 100/mm³. Os sintomas podem ser de hemiparesia ou crises epilépticas. Habitualmente, encontram-se lesões hipodensas ao exame de tomografia, com halo de realce pelo contraste em volta da lesão, que se associa a edema. A localização preferencial é nos núcleos da base e na região subcortical dos hemisférios cerebrais. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 68 (UFMA 2020) Paciente 32 anos, transplantado renal, em uso de terapia imunossupressora, iniciou há 15 dias com cefaleia holocraniana, pulsátil, turvação visual, náuseas e vômitos, nega febre. Ao exame clínico, apresentava confusão mental, edema de papila a fundoscopia, rigidez de nuca, paralisa de sexto nervo a esquerda. A ressonância magnética do crânio mostrou lesões pseudocísticas em núcleos da base. Análise do líquor: lâmina corada com tinta da China positiva. Quanto a neurocriptococose, assinale a alternativa INCORRETA: A) Punção lombar seriada está contraindicada devido a hipertensão intracraniana, devendo a conduta inicial ser a implantação de uma derivação ventricular externa. B) Apresenta-se mais comumente como meningoencefalite aguda ou subaguda. C) A hipertensão intracraniana ocorre em mais de 50% dos casos (raquimanometria >200 mmH₂O em decúbito lateral). D) Durante a fase de indução do tratamento está indicado uso de anfotericina B. COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A. O manejo da hipertensão intracraniana dos pacientes com neurocriptococose é feito com a punção lombar diária, até que ela se estabilize. Se houver necessidade de punções de repetição, em geral após o 7º dia, é necessária a implantação de uma derivação ventricular externa. Cada punção tem o objetivo de reduzir a pressão intracraniana em 50% ou a um valor normal (menor ou igual a 20 cmH2O). Correta a alternativa B. A neurocriptococose é uma doença que se apresenta ao longo de uma a duas semanas. É muito mais frequente um quadro subagudo do que agudo, mas ambos são possíveis. Clinicamente, o paciente apresenta sinais e sintomas de meningite e hipertensão intracraniana, como cefaleia, náuseas e vômitos, rigidez de nuca, edema de papila, paralisia do VI par craniano (por ter um trajeto longo) e confusão mental. Correta a alternativa C. A hipertensão intracraniana é muito comum e bem característica da neurocriptococose. Essa pressão é definida com um aparelho chamado raquimanômetro. Assim que a punção é realizada, encaixamos um tubo estéril na extremidade da agulha de punção e no aparelho. No visor conseguimos ver o valor da pressão de abertura, que está elevada se estiver > 20 cmH2O (ou 200mmH2O). Correta a alternativa D. O tratamento da neurocriptococose é dividido em 3 fases: 1. Indução: é a fase inicial, devemos fazer a associação de anfotericina com 5-flucitosina ou fluconazol. A duração é em torno de 2 semanas. Atualmente, não fazemos mais a monoterapia com anfotericina, pois a mortalidade desses pacientes é maior em comparação com os que são tratados com terapia dupla. 2. Consolidação: deve ser iniciada em seguida à indução, com fluconazol em doses altas por 8 semanas. 3. Manutenção: após a consolidação, reduzimos a dose do fluconazol, que deve ser mantido, pelo menos, até completar um ano do diagnóstico. RASTREIO E TRATAMENTO PREEMPTIVO Em razão de sua alta letalidade, foi implementado o rastreio da criptococose em todos os pacientes assintomáticos, com CD4 menor ou igual a 200 células/mm3 e sem histórico prévio de meningite por esse patógeno. Nesses casos, devemos solicitar o teste de fluxo lateral, que pesquisa o antígeno criptocócico (LF-CrAg). Caso o teste esteja positivo, devemos solicitar hemoculturas e realizar uma punção lombar para investigar o acometimento do SNC. Se for descartada a doença criptocócica assintomática (hemoculturas negativas e liquor normal), devemos iniciar um tratamento preemptivo da seguinte forma: Fluconazol 800 mg, via oral por dia por 2 semanas, seguido de fluconazol 400 mg, via oral por dia por 8 semanas. Caso os exames estejam alterados, devemos dar seguimento ao tratamento da doença disseminada/neurocriptococose. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 69 7.2.3 LINFOMA PRIMÁRIO DE SNC (LPSNC) O linfoma primário de sistema nervoso central é uma doença que está associada ao vírus Epstein-Barr (EBV). Não é muito frequente nos pacientes com AIDS com um quadro neurológico. Ele é um dos principais diagnósticos diferenciais da neurotoxoplasmose, já que o quadro clínico é parecido e também, na tomografia de crânio, pode apresentar uma lesão bem semelhante (lesão com realce anelar). Devemos lembrar dessa doença sempre que um paciente não melhorar nas primeiras duas semanas de tratamento para NTX. Um PCR que detecta o EBV no líquor favorece seu diagnóstico. Em quadro sugestivo de neurotoxoplasmose que não melhora após 10 a 15 dias de tratamento, devemos nos lembrar do LPSNC. O PCR para EBV no líquor favorece esse diagnóstico. CAI NA PROVA (FACULDADE DE MEDICINA DO ABC ABC 2014) Homem, HIV positivo há três anos, sem aderência à terapia antirretroviral, apresenta quadro de cefaleia, vômitos e distúrbio do comportamento há três semanas. Em uso de sulfadiazina e pirimetamina há duas semanas sem resposta. A TC de crânio apresenta lesão única em região frontal, com edema perilesional importante e com halo após injeção de contraste endovenoso. O exame de liquor é normal quanto à celularidade e bioquímica, apresentando PCR positivo para Epstein-Barr. Sorologia para EBV positiva (IgG) e negativa para toxoplasmose (IgG e IgM). O diagnóstico mais provável é: A) Neurotoxoplasmose. B) Encefalite viral. C) Linfoma primário de SNC. D) Neurocriptococose. COMENTÁRIOS A principal causa de lesão com efeito de massa em sistema nervoso central em um paciente com HIV é a neurotoxoplasmose (NTX). Seguindo esse raciocínio, o paciente foi tratado para essa doença, porém não respondeu nos primeiros 15 dias. O que isso quer dizer? Que não é neurotoxoplasmose! Um dos74 7.3.2 ÚLCERAS ESOFÁGICAS POR HERPESVÍRUS 76 7.3.3 DIARREIAS 78 7.3.4 HEPATITES VIRAIS 80 7.4 INFECÇÕES DISSEMINADAS 83 7.4.1 MAC 83 7.5 MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS 83 7.5.1 SARCOMA DE KAPOSI (SK) 83 7.5.2 ANGIOMATOSE BACILAR 84 Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 7 7.6 PROFILAXIA DAS DOENÇAS OPORTUNISTAS 85 8.0 SÍNDROME INFLAMATÓRIA DA RECONSTITUIÇÃO IMUNE (IRIS) 88 9.0 PREVENÇÃO 89 9.1 PREVENÇÃO COMBINADA 89 9.2 PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO (PEP) 91 9.3 PROFILAXIA PRÉ-EXPOSIÇÃO (PREP) 94 9.4 PROFILAXIA DE TRANSMISSÃO VERTICAL 97 9.4.1 MANEJO DO RECÉM-NASCIDO 98 9.4.2 MANEJO DA GESTANTE 101 10.0 HIV EM CRIANÇAS 104 10.1 MANEJO DE CRIANÇAS EXPOSTAS 104 10.1.1 CUIDADOS NA SALA DE PARTO 104 10.1.2 PROFILAXIA PRIMÁRIA PARA PNEUMOCISTOSE 106 10.2 QUADRO CLÍNICO 108 10.3 DIAGNÓSTICO 110 10.3.1 DIAGNÓSTICO EM MENORES DE 18 MESES 110 10.3.2 DIAGNÓSTICO EM MAIORES DE 18 MESES 111 10.3 TRATAMENTO 112 11.0 VACINAÇÃO 113 11.1 VACINAS INATIVADAS 113 11.2 VACINAS DE AGENTES VIVOS ATENUADOS 114 11.3 VACINAS EM CRIANÇAS EXPOSTAS 116 12.0 MAPA MENTAL 117 13.0 LISTA DE QUESTÕES 118 14.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 119 15.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 119 Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 8 1.0 ASPECTOS GERAIS CAPÍTULO A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) é a responsável por causar a síndrome da imunodeficiência adquirida (sida ou aids). É uma doença que leva a uma redução dos linfócitos T CD4+, também chamados de linfócitos T auxiliares ou T helper. Sei que imunologia é um assunto que não é muito fácil, mas vale muito a pena relembrar aqui alguns conceitos, já que, quando você entende um assunto, não precisa decorar. 1.1 FISIOPATOLOGIA Olhe aqui este esquema, que demonstra de maneira bem sucinta a divisão didática da nossa imunidade e a célula que o HIV infecta: Figura 3. Esquema com divisão dos tipos de imunidade e com funções dos linfócitos. APC: células apresentadoras de antígenos. Como mostrei aqui no esquema, os linfócitos T CD4+ reconhecem antígenos que ficam nas superfícies das células apresentadoras de antígenos, secretam citocinas que estimulam os próprios linfócitos T, os linfócitos B e também ativam os macrófagos. Perceba que esses linfócitos exercem um papel central na imunidade adaptativa. A infecção pelo HIV, com consequente redução dessas células, leva o paciente a uma imunossupressão com risco aumentado de diversas infecções. Imunidade Inata Adaptativa Célula que o HIV infecta Barreiras epiteliais Fagócitos ComplementoCélulas dendríticas NK Celular Humoral Linfócitos T Linfócitos B Reconhecem antígenos solúveis e transformam-se em células secretoras de anticorpos. Auxiliares (CD4+) Citotóxicos (CD8+) Reconhecem antígenos nas superfícies das APC e secretam citocinas que podem levar à ativação de macrófagos, linfócitos T e B. Matam células que produzem antígenos estranhos, como aquelas infectadas por vírus. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 9 Vou falar bastante, ao longo deste livro, sobre os dois grandes marcadores que usamos para seguimento do paciente infectado pelo HIV. Um deles é a própria contagem dos linfócitos T CD4+ e o outro é a carga viral do vírus. O valor normal da contagem de linfócitos T CD4+ pode variar de 500 a 1.400 células/µL. Com o avançar da doença, esse número vai caindo e, quando chega abaixo de 200 células/µL, o paciente já é classificado como tendo aids. Não se preocupe, porque você vai aprender isso ao longo do livro. O outro marcador, a carga viral, é usado para quantificar o quanto de vírus está circulando no sangue do paciente. Logo, esperamos que no paciente sem tratamento esse valor esteja alto, como, por exemplo, acima de 100.000 cópias/mL, e nos pacientes em tratamento regular, que ele esteja indetectável. Além das consequências descritas acima, essa infecção pelo HIV leva a uma ativação imune persistente dos linfócitos TCD4+ e TCD8+. Como consequência disso, diversos fenômenos imunes podem ocorrer, resultando em um turnover acelerado dessas células, hiperativação dos monócitos, ampliação da apoptose celular, aumento da secreção de citocinas, como IL-6, entre outros. O paciente pode sofrer um envelhecimento precoce decorrente desse processo inflamatório crônico. Diversas doenças estão associadas a esse processo, como as doenças ateroscleróticas, osteopenia, alguns tipos de câncer, diabetes, doenças renais, hepáticas e neurológicas. 1.2 AGENTE ETIOLÓGICO Vamos aprender agora um pouquinho sobre como é o HIV. Ele é um vírus que possui uma única fita de RNA e possui uma enzima chamada de transcriptase reversa. Como seu nome já diz, ela faz uma “transcrição” ao contrário, ou seja, transforma seu RNA em DNA. Por isso, ele é chamado de retrovírus, fazendo parte da família Retroviridae e da subfamília lentivírus (vírus com período de incubação lento). Essas características fazem com que seja difícil curar a infecção, sendo o controle da replicação viral o tratamento ideal e recomendado até o momento. Esse DNA do vírus entra no núcleo da célula hospedeira e integra-se ao seu DNA. É isso mesmo que você leu: esse vírus vira parte do material genético da pessoa infectada. A partir daí, ele consegue replicar-se e infectar novas células. Estruturalmente, encontramos no seu núcleo a proteína p24, ela é importante para diagnosticar a infecção pelo HIV em alguns testes, como você verá adiante. Podemos ver essa e outras proteínas do vírus nesta próxima figura: VÍRUS DO HIV Figura 4. Estrutura do HIV. Essa ilustração é importante para você entender o ciclo do HIV e que ele tem algumas proteínas que são usadas para diagnóstico, como a p24. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 10 CAI NA PROVA (HOSPITAL NAVAL MARCÍLIO DIAS – RJ 2020) Podemos afirmar que na Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA): A) são doenças oportunistas definidoras: candidíase de esôfago e hanseníase. B) o agente etiológico é o HIV, que pertence à família dos retrovírus humanos e à subfamília dos lentivírus. C) atualmente há evidências de que o HIV seja transmitido por contato casual e até que o vírus seja propagado por insetos. D) nos pacientes não tratados ou nos quais o tratamento não conseguiu controlar de forma adequada a replicação viral, a contagem de células T CD4+ aumenta depois de um período variável abaixo de um limiar crítico. E) são doenças oportunistas definidoras: hanseníase e pneumonia. COMENTÁRIOS Olhe só uma questão que aborda o que acabamos de discutir! Vamos analisar cada alternativa: Incorreta a alternativa A. Candidíase esofágica é doença definidora de AIDS, mas hanseníase não. Logo mais, você verá isso. Correta a alternativa B. A síndrome da imunodeficiência adquirida é causada por infecção pelo HIV, vírus que pertence à família Retroviridae e ao gênero lentivírus. Incorreta a alternativa C. A transmissão do HIV pode ocorrer por via sexual (relação vaginal, anal ou oral), transfusional (com derivados de sangue contaminados), via contato percutâneo ou em mucosas com sangue ou outros fluidos corporais contaminados, ou por via vertical (da mãe ao filho) durante a gravidez, o momento do parto ou a amamentação. Não há risco de transmissão por picadas de insetos. No próximo tópico, você vai aprender mais sobre isso. Incorreta a alternativa D, pois o aumento da contagem de linfócitos T CD4+ só ocorre com o controle adequado da replicação viral. Incorreta a alternativa E. Hanseníase não é doença definidora de AIDS. Pneumonia bacteriana só é considerada doença definidora de aids em caso de infecção recorrente (dois ou mais episódios ao ano). Mais adiante, você verá sobre as doenças definidoras de aids. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 11 Esse vírus segueprincipais diagnósticos diferenciais dessa doença é o linfoma primário de sistema nervoso central. Ele pode fazer uma lesão na tomografia de crânio igual à da neurotoxoplasmose. Essa doença deve ser lembrada sempre que um paciente não melhorar com duas semanas de tratamento para NTX. Ela está associada ao vírus Epstein-Barr (EBV), sendo que um PCR no líquor, positivo para esse vírus, favorece o diagnóstico dessa doença. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 70 Incorreta a alternativa A. Se o paciente não melhorou com 2 semanas de tratamento, é porque não tem neurotoxoplasmose. Incorreta a alternativa B. O paciente tem uma massa em SNC, que não é compatível com encefalite viral. Além disso, já temos outro diagnóstico muito mais provável. Correta a alternativa C. Os pacientes que não melhoram com o tratamento empírico para neurotoxoplasmose devem ser investigados para linfoma primário de SNC com exame de líquor. Foi o que aconteceu nesse caso, e o resultado foi compatível com essa hipótese diagnóstica, já que identificou o material genético do EBV. Incorreta a alternativa D. Não há indícios de alterações liquóricas que sugiram uma meningite fúngica, como uma tinta da China positiva. A tomografia de crânio também não é compatível com esse diagnóstico. 7.2.4 LEUCOENCEFALOPATIA MULTIFOCAL PROGRESSIVA (LEMP) A LEMP é uma doença oportunista causada pelo vírus JC. Ela acomete os pacientes com aids e é mais frequente naqueles com uma imunossupressão grave, com contagem de linfócitos T CD4+ 1:128 e ser do sexo masculino. O diagnóstico é feito com examedo líquor. Evidencia-se uma pleocitose discreta com predomínio de linfócitos, proteínas elevadas ou normais e a presença de VDRL ou FTA-ABS reagente no líquor. O tratamento deve ser feito com penicilina cristalina ou ceftriaxone, em casos de alergia à penicilina, por 10 a 14 dias. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 73 7.2.6 RESUMO DAS NEUROINFECÇÕES Doença Agente etiológico Principais características Tratamento Neurotoxoplasmose Toxoplasma gondii • Acomete principalmente aqueles com L TCD4+são aquelas causadas pelo citomegalovírus e pelo vírus herpes simples (HSV-1 e HSV-2). Vamos conhecer um pouco mais sobre essas doenças a seguir. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 77 O agente viral mais associado a úlceras esofágicas em pacientes com HIV é o CMV. As úlceras são confluentes e lineares ou longitudinais. No anatomopatológico, há a identificação de células epiteliais com inclusões basófilas no citoplasma e eosinofílicas dentro do núcleo, formando uma imagem de “olho de coruja”. O tratamento de escolha nesses casos é feito com ganciclovir. O CMV é um vírus que pode causar outros tipos de acometimento no paciente com HIV, como a retinite e a colite. Quando ele acomete o trato gastrointestinal, seu diagnóstico deve ser sempre feito com biópsia. Figura 26. Anatomopatológico de úlcera esofágica pelo CMV. A seta aponta para a célula que forma o “olho de coruja”. O CMV é um vírus que fica latente no corpo da pessoa infectada e pode reativar em casos de alguma imunossupressão mais grave. Além de reativar e levar a um quadro de esofagite, o paciente pode manifestar um quadro de retinite. Geralmente acomete aqueles com uma contagem de linfócitos T CD4+ abaixo de 50 células/mm3. No exame de fundo de olho, é bem característica a lesão descrita como "queijo com catchup". É uma doença grave que pode levar a um quadro de perda da visão. Seu tratamento é feito com ganciclovir por cerca de 2 a 3 semanas e, em seguida, o paciente deve fazer profilaxia com valganciclovir por no mínimo 3 a 6 meses. Além da retinite, o CMV pode reativar no cólon, ocasionando uma colite. Vou abordar esse tópico mais adiante, juntamente com outras diarreias oportunistas. Sobre as úlceras herpéticas, elas são causadas principalmente pelo HSV-1. Decorrem do rompimento de vesículas, que coalescem e formam úlceras pequenas, geralmente menores do que 2 mm. São bem circunscritas e têm a aparência de um “vulcão”. O tratamento desses casos deve ser feito com aciclovir. Figura 27. Observe na primeira ilustração da esquerda uma úlcera longitudinal com base irregular, característica do CMV. Na ilustração da direita, olhe como as úlceras são múltiplas e bem demarcadas, características que pertencem ao HSV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 78 CAI NA PROVA (SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE - SMS - SP 2014) Homem de 48 anos de idade há três semanas apresenta odinofagia, dor retroesternal e febre (38°C). Tem diagnóstico de infecção por HIV há 12 anos. Exame: temperatura axilar: 37,7°C e o restante do exame é normal. Exames recentes: endoscopia digestiva alta (múltiplas úlceras esofágicas distais). Biópsia: inflamação, necrose tecidual e presença de grandes células epiteliais com inclusões citoplasmáticas basófilas e inclusões intranucleares eosinofílicas. O tratamento deve ser: A) Anfotericina B. B) Ganciclovir. C) Omeprazol. D) Prednisona. E) Fluconazol. COMENTÁRIOS Um homem jovem, com diagnóstico de infecção por HIV há anos, sem dados sobre linfócitos T CD4+, tratamento ou controle viral, apresenta um quadro de odinofagia e múltiplas úlceras em esôfago distal, com inclusões basófilas em citoplasma e eosinofílicas dentro do núcleo. Vamos montar uma linha de raciocínio: os dois principais agentes de úlceras esofágicas em HIV são HSV e CMV, sendo que essas inclusões citoplasmáticas formando um “olho de coruja” fecham o diagnóstico histopatológico de úlcera esofágica por citomegalovírus, tornando o tratamento com Ganciclovir o único possível. Incorreta a alternativa A, porque a anfotericina é um antifúngico e não tem ação contra o CMV. Correta a alternativa B. O ganciclovir é o antiviral de escolha para tratamento de infecções pelo CMV. Incorreta a alternativa C, porque o omeprazol não tem nenhuma ação antiviral. Ele é um inibidor da bomba de prótons e tem ação no pH gástrico. Incorreta a alternativa D. A prednisona é um corticoide e não está recomendada na esofagite por CMV. Incorreta a alternativa E. O fluconazol é um antifúngico e não tem ação contra o CMV. Ele seria o tratamento em casos de candidíase oral ou esofágica. 7.3.3 DIARREIAS As infecções do trato gastrointestinal podem ser causadas por diversos patógenos oportunistas, mas também por doenças infiltrativas, como o linfoma e sarcoma de Kaposi. Quanto menor a contagem de linfócitos T CD4+, maior o risco de o paciente apresentar diarreia por algum patógeno oportunista, que geralmente não causa doença nos imunocompetentes. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 79 Pacientes com AIDS e com uma contagem de linfócitos geralmenteDE MS - ROSA PEDROSSIAN - HRMS 2012) Um paciente com AIDS em estado avançado tem diarreia, febre, suores noturnos e anemia. O exame físico mostra emagrecimento e prurigo estrófulo. O agente etiológico mais provável pertence ao gênero: A) Toxoplasma. B) Cryptococcus. C) Pneumocystis. D) Cryptosporidium. E) Mycobacterium. COMENTÁRIOS Questão bem simples sobre síndromes diarreicas no paciente com HIV/AIDS em estado avançado. Paciente com diarreia crônica febril, causando má absorção com anemia e emagrecimento, sem produtos patológicos importantes ou dor abdominal. Dentre os diagnósticos diferenciais, temos que ter Cryptosporidium spp, Microsporidium e Cystoisospora belli. Incorreta a alternativa A. Toxoplasmose causa tipicamente infecções em sistema nervoso central e, em formas disseminadas, pneumonia intersticial bilateral, simulando uma pneumocistose, que causa quadros pulmonares e não é compatível com a questão. Incorreta a alternativa B. A principal manifestação clínica da criptococose no paciente com HIV/AIDS é a meningite criptocócica, não compatível com a questão, devido à ausência de cefaleia, meningismo e outros sintomas neurológicos. Incorreta a alternativa C, porque o Pneumocystis causa doença respiratória no paciente com HIV, o que não é o caso desse paciente da questão. Correta a alternativa D. Como vimos, uma causa importante de diarreia em pacientes com HIV é o Cryptosporidium Spp. Incorreta a alternativa E. A ausência de sintomas gastrointestinais mais exuberantes, como hepatoesplenomegalia, dor abdominal intensa, sinais de perfuração e produtos patológicos fecais (como sangue), torna a hipótese de infecção pelo Mycobacterium improvável. 7.3.4 HEPATITES VIRAIS Vou falar aqui sobre a coinfecção HIV e HCV (vírus da hepatite C) e logo em seguida sobre o HIV e HBV (vírus da hepatite B). • Coinfecção HIV-HCV Pacientes infectados com HCV e também com HIV têm uma evolução muito mais rápida da doença hepática. A progressão para cirrose ou doença hepática descompensada pode ser até 3 vezes maior do que naqueles somente com hepatite C. Por esse motivo, pacientes coinfectados HIV-HCV têm prioridade dentre os demais infectados para tratamento do HCV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 81 O tratamento da hepatite C está indicado a todas as pessoas também infectadas pelo HIV, independentemente da contagem de linfócitos ou do grau de fibrose. Nos pacientes virgens de tratamento para as duas doenças, a recomendação é tratar o HIV primeiramente e, somente após atingir a supressão virológica, iniciar o tratamento da hepatite C. Para saber mais sobre as drogas e o tratamento da hepatite C, leia o livro das hepatites virais. Pacientes com HIV-HCV devem tratar primeiramente o HIV e, somente após a supressão viral, o tratamento da infecção pelo HCV deve ser iniciado. • Coinfecção HIV-HBV Assim como na coinfecção com HCV, pacientes com HIV-HBV também podem ter uma progressão mais rápida para cirrose e até mesmo CHC (carcinoma hepatocelular). Além disso, quem já tem a infecção pelo HIV e desenvolve infecção aguda pelo HBV tem uma chance muito maior de tornar-se portador crônico em relação às pessoas soronegativas para o HIV. Como vimos no tópico de tratamento do HIV, há duas drogas que também têm ação contra o HBV. Elas são o tenofovir e a lamivudina. Por esse motivo, essas medicações (principalmente o tenofovir) devem ser preferidas para compor a TARV dos pacientes coinfectados. Lembre-se de estudar o livro das hepatites virais para aprender sobre o tratamento dessas doenças. Pacientes coinfectados com HIV-HBV devem iniciar a TARV com esquema contendo tenofovir. CAI NA PROVA (Hospital de Olhos Aparecida – GO 2020) As indicações terapêuticas para as pessoas que apresentam coinfecção HCV-HIV são as mesmas preconizadas para pacientes não co-infectados HCV-HIV. Está correto apenas que: A) Para os pacientes cujo diagnóstico de ambas as infecções ocorre concomitantemente, é aconselhável iniciar, primeiramente, o tratamento para o HIV e atingir a supressão viral antes de iniciar o tratamento para o HCV – especialmente em pacientes com imunossupressão grave (contagem de LT-CD4+tumor vascular que está associado ao herpes vírus humano 8 (HHV-8). Ele acomete principalmente os homens que fazem sexo com homens infectados pelo HIV e, quanto menor a contagem de linfócitos T CD4+, maior o risco de desenvolver essa doença. Se você lembrar, ele está na tabela do tópico 3.3 das doenças definidoras de aids. Figura 29. Perceba nesta primeira ilustração a presença de nódulos arroxeados na cavidade oral. Esse tipo de lesão é bem característica de SK. Na segunda ilustração, observe uma lesão semelhante, porém na pele de um paciente. diagnóstico é feito com a detecção da micobactéria em culturas e o tratamento é feito com etambutol e claritromicina (ou azitromicina) por pelo menos 12 meses. Para evitar essa doença, todo paciente com aids e linfócitos T CD4 ≤50 células/mm3 deve receber quimioprofilaxia com azitromicina ou claritromicina. Correta a alternativa A. O tenofovir e a lamivudina são antivirais que também têm ação contra o HBV. São medicações que podem ser usadas para tratamento dessa doença, com redução do desenvolvimento da cirrose e carcinoma hepatocelular. Incorretas as alternativas B, C e D, porque o tenofovir e a lamivudina têm sim ação contra o HBV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 84 O SK pode acometer qualquer local do corpo, porém a pele é o local mais frequente. Clinicamente, o paciente apresenta pápulas ou placas não dolorosas de coloração arroxeada que não desaparecem à digitopressão. Além da pele, outros locais acometidos são os linfonodos, o trato gastrointestinal, o trato respiratório e a cavidade oral. Geralmente aparecem como nódulos de coloração arroxeada, que são facilmente identificados durante inspeção da cavidade oral ou exames como broncoscopia e endoscopia. O diagnóstico é feito geralmente com biópsia, porém, em alguns casos com um quadro clínico bem característico, o diagnóstico presuntivo pode ser feito. O tratamento é feito com quimioterápicos, como a doxorrubicina lipossomal. 7.5.2 ANGIOMATOSE BACILAR Essa doença é o principal diagnóstico diferencial do SK. A angiomatose bacilar é causada pela Bartonella henselae ou B. quintana, uma bactéria que pode infectar as pulgas de gatos. A doença pode ser transmitida após um arranhão de um gato infectado, pois as garras ficam contaminadas com as fezes dessas pulgas. A angiomatose bacilar é uma doença que tipicamente se caracteriza pela presença de uma lesão nodular única na pele de coloração arroxeada, que não desaparece à digitopressão e pode ser dolorosa. Se ela for traumatizada, tende a sangrar bastante. Consegue perceber que as características clínicas são semelhantes às do SK? Também pode aparecer com lesões múltiplas e acometer outros locais do corpo, como as mucosas, SNC e osso. Figura 30. Nessas ilustrações, você consegue observar a presença de nódulo único ou múltiplas lesões que são características da angiomatose bacilar. Perceba a coloração arroxeada e como parecerem com as lesões do SK. O diagnóstico pode ser feito com exames sorológicos, cultura de tecido ou sangue, biópsia com estudo histopatológico e PCR (polymerase chain reaction) em amostras de sangue. O tratamento com antibioticoterapia está indicado em todos os casos dessa doença e geralmente é feito com doxiciclina por 3 meses. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 85 CAI NA PROVA (ES-RJ 2016) As lesões cutâneas da angiomatose bacilar apresentam características que ajudam a diferenciá- las das lesões do sarcoma de Kaposi, tais como: A) ser dolorosas B) possuir relevo C) ter coloração vinhosa D) não empalidecer à digitopressão COMENTÁRIOS Opa, viu só como isso cai em prova? Vamos revisar! A angiomatose bacilar é a infecção causada por Bartonella quintana ou B. henselae, caracterizada por lesões vasculares que, mais frequentemente, envolvem a pele, mas podem afetar outros órgãos. Acomete pacientes com LT-CD4+ 350/mm3 se PPD ≥ 5mm Tuberculose 3HP (Isoniazida + Rifapentina durante 3 meses) Linfócitos T CD4 ≤200/mm3 Pneumocistose Sulfametoxazol-trimetoprim Linfócitos T CD4 ≤100/mm3 Toxoplasmose Sulfametoxazol-trimetoprim Linfócitos T CD4 ≤50/mm3 MAC (Mycobacterium avium complex) Azitromicina Desde 2018, o Ministério da Saúde recomenda que TODOS os pacientes HIV+ com linfócitos T CD4 ≤ 350 células/mm3 sejam tratados para tuberculose latente com isoniazida por 6 a 9 meses. CAI NA PROVA (Hospital Estadual do Acre – HEA 2017) Paciente portador de HIV, virgem de tratamento, assintomático com CD4 de 22 células/mm³ e PPDcom linfócitos T CD4+ ≤ 50 células/mm3, ou seja, é necessária nesse caso. Incorreta a alternativa B. A profilaxia para neurotoxoplasmose está indicada em pacientes que têm linfócitos T CD4+ ≤ 100 células/mm3, logo, também é necessária nesse caso. Incorreta a alternativa C, pois essa profilaxia é necessária, já que o paciente tem linfócitos T CD4+ ≤ 200 células/mm3. Correta a alternativa D. Respondendo a essa questão atualmente, essa alternativa também estaria errada, já que a isoniazida está indicada a todos os pacientes com HIV e com linfócitos T CD4+e que a carga viral não voltará a subir em algum momento. Dessa forma, como a elevação da carga viral ocorre durante um período assintomático, haveria uma janela de oportunidade para a transmissão do vírus. E, por último, a adesão à TARV não previne a ocorrência de outras ISTs, como as hepatites virais e a sífilis. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 91 A mandala representa justamente o escopo de ações que devem ser aplicadas em conjunto para a prevenção da infecção pelo HIV e outras ISTs. É por isso que chamamos de prevenção combinada. Incorreta a alternativa D. A expressão “estratégia de combinação de tratamento”, que sugere a combinação de diferentes tratamentos, não é encontrada nos manuais do Ministério da Saúde sobre a prevenção combinada. Provavelmente, a banca refere-se à combinação de antirretrovirais na TARV. Correta a alternativa C. 9.2 PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO (PEP) Agora, vamos começar abordando sobre as profilaxias em situações específicas. A PEP é um tipo de profilaxia que é feita após uma situação de risco de transmissão do HIV. A PEP está indicada quando temos uma pessoa suscetível, que entra em contato através de pele não íntegra, exposição percutânea ou mucosa, com material biológico de uma pessoa com sorologia desconhecida ou reagente para HIV. Além disso, o tempo transcorrido entre a exposição e o atendimento deve ser menor que 72 horas. Preenchendo todos esses critérios, sim, a PEP está indicada. Os materiais biológicos com risco de transmissão do HIV são: sangue, sêmen, secreções vaginais, líquidos de serosas, líquido amniótico, líquor, líquido articular e leite materno. O suor, lágrima, fezes, urina, vômitos e saliva não trazem risco de transmissão. Não adianta simplesmente entrar em contato com um desses materiais biológicos para a infecção ser de risco. Por exemplo, se cair sangue infectado no pé de alguém, a PEP não estaria indicada, porque a pele do paciente-exposto, nesse local, estava íntegra. Temos que ter em mente que o tipo de exposição é importante. Os tipos de exposições com risco de transmissão podem ser: percutânea, através de membranas mucosas e cutâneas com pele não íntegra. O acidente de trabalho com exposição a material biológico está previsto na Lista Nacional de Notificação Compulsória, com periodicidade de notificação semanal. Logo, lembre-se de notificar! Vamos agora resumir as indicações: Exposição de risco com material de risco HáA, pois o esquema de profilaxia é feito com três drogas e não somente uma. Correta a alternativa B. Pois a melhor conduta é iniciar o esquema antirretroviral com três drogas. Esse não é o esquema inicial recomendado pelo Ministério da Saúde, porém pode ser feito, já que o importante é conter três drogas ativas. Incorreta a alternativa C, pois o resultado da sorologia vai demorar muito tempo (cerca de 5 dias) e a profilaxia é indicada somente se a exposição ocorreu há no máximo 72h. Incorreta a alternativa D. Não há indicação de debridamento nesses casos e nem de aplicação de antiviral tópico (eles nem existem nessa formulação). 9.3 PROFILAXIA PRÉ-EXPOSIÇÃO (PREP) Ao contrário da PEP, que é feita após a exposição ao risco, a PrEP consiste no uso diário e profilático de tenofovir com entricitabina. Ela deve ser considerada para pessoas a partir de 15 anos, com peso ≥ 35 kg, sexualmente ativas e que tenham risco aumentado de aquisição da infecção pelo HIV, como a realização de relações sexuais desprotegidas. Os adolescentes não precisam do consentimento dos pais. Nesse caso, como a medicação é utilizada para prevenir, não fazemos terapia com três drogas, mas sim com duas, o tenofovir e a entricitabina. Elas são formuladas em apresentação combinada em um único comprimido, que deve ser tomado diariamente (no primeiro dia, a dose deve ser de dois comprimidos). Antes de seu uso, devemos garantir que o paciente não tenha infecção ativa pelo HIV, testar e tratar as outras infecções sexualmente transmissíveis (IST) e orientar o uso do preservativo, já que o paciente continua tendo risco de adquirir outras infecções. Tenofovir (TDF) Entricitabina (FTC) Medicações usadas na PrEP: No caso de casais sorodiscordantes, se o indivíduo infectado preencher os seguintes critérios, eles podem ter relação sexual sem preservativo e o parceiro não infectado não precisa de PrEP: • Uso regular da terapia antirretroviral (TARV) e boa adesão; • Carga viral indetectável há pelo menos seis meses; • Ausência de outras infecções sexualmente transmissíveis; • Sem realização de práticas sexuais com outras parcerias. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 95 Indetectável = Intransmissível CAI NA PROVA (SUS – SP 2020) Sobre as medidas específicas a serem adotadas para profilaxia pré e pós-exposição ao HIV (PrEP e PEP) é correto afirmar: A) A PrEP consiste na utilização de dose alta e mensal de antirretroviral para grupos específicos não infectados que tenham maior risco de infecção pelo HIV, como homens que fazem sexo com homens. B) O esquema antirretroviral de PEP é recomendado por categoria de exposição: acidente com material biológico, violência sexual e exposição sexual consentida. C) A PrEP se insere como uma estratégia adicional, segura e eficaz de prevenção, mas ainda indisponível no Sistema Único de Saúde. D) PEP é uma estratégia de prevenção para evitar novas infecções pelo HIV, por meio do uso temporário de medicamentos antirretrovirais após uma exposição de risco à infecção pelo HIV. E) A PrEP é a terapia antirretroviral para evitar transmissão vertical do HIV, oferecida a todas as gestantes infectadas pelo HIV e suspensa após o parto. COMENTÁRIOS Questão legal para revisarmos alguns conceitos. Incorreta a alternativa A. A PrEP consiste na utilização de dose habitual e diária de antirretrovirais (tenofovir + entricitabina) para grupos específicos não infectados que tenham maior risco de infecção pelo HIV. Não há necessidade de uso de dose elevada e sua frequência não é mensal. Incorreta a alternativa B, pois o esquema antirretroviral da PEP é sempre o mesmo, não importando a forma de exposição: tenofovir + lamivudina + dolutegravir. Lembre-se de que ele é o mesmo esquema usado para tratamento de pessoas com HIV/AIDS. Incorreta a alternativa C, pois a PrEP já está disponível no Sistema Único de Saúde. Correta a alternativa D. A PEP é uma estratégia de prevenção de transmissão do HIV para indivíduos que sofreram exposição de risco, baseada no uso de antirretrovirais por 28 dias. Ela deve ser iniciada dentro de 72 horas após a exposição, preferencialmente nas primeiras 2 horas. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 96 (UFRGS – 2020) Casal monogâmico, soro-diferente para infecção pelo HIV (ele é o positivo, realiza terapia antirretroviral com excelente adesão e sua carga viral está abaixo do limite de detecção há alguns anos), compareceu à consulta em busca de esclarecimentos sobre a possível transmissão sexual do vírus e sobre a possibilidade de não mais utilizar preservativos durante o ato sexual. Sobre esse quadro, assinale a assertiva correta. A) As relações sexuais devem continuar sendo realizadas com preservativo, por ainda haver a chance de transmissão do HIV. B) O uso de preservativo pode ser flexibilizado, para somente ser utilizado quando a mulher estiver menstruada. C) A transmissão sexual do HIV é improvável, e o casal não mais necessita manter relações sexuais com preservativo. D) A profilaxia pré-exposição com antirretrovirais contra o HIV é uma possibilidade e deve ser realizada sempre de forma contínua. E) A profilaxia após a exposição está indicada nessa situação. COMENTÁRIOS Vamos aproveitar para revisar. Os casais sorodiscordantes, com o indivíduo infectado preenchendo os seguintes critérios, podem ter relação sexual sem preservativo: • Uso regular da terapia antirretroviral (TARV) e boa adesão; • Carga viral indetectável há pelo menos seis meses; • Ausência de outras infecções sexualmente transmissíveis; • Sem realização de práticas sexuais com outras parcerias. Incorreta a alternativa E, pois a PrEP é a terapia antirretroviral para evitar a transmissão sexual do HIV em indivíduos com maior risco de infecção por esse vírus. Ela não está indicada para prevenção da transmissão vertical. Nesses casos, devemos avaliar a carga viral da gestante no terceiro trimestre e indicar o uso do AZT EV no momento do parto, a depender do valor do exame. Além disso, o recém- nascido deve usar AZT e/ou nevirapina, conduta que também depende do resultado da carga viral da gestante. Vou discutir esse tópico mais profundamente a seguir. Incorreta a alternativa A, porque paciente indetectável não transmite HIV. Como o casal é monogâmico, não há necessidade de uso de preservativo. Incorreta a alternativa B, porque não há necessidade de uso de preservativo. Correta a alternativa C. Porque o risco de transmissão do HIV em pacientes bem controlados é improvável e esse risco pode ser considerado insignificante. Por isso, o casal não precisa de preservativo. Incorreta a alternativa D. Não há indicação de profilaxia pré-exposição. Incorreta a alternativa E. Não há indicação de profilaxia pós-exposição, porque não há risco de transmissão do HIV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 97 (PR - Hospital Pequeno Príncipe - HPP - 2024) Uma das formas de prevenção à infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) é a profilaxia pré-exposição (PrEP). Considerando o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para PrEP, atualizado pelo Ministério da Saúde em 2022, assinale a alternativa correta. A) Atualmente, a PrEP deve ser considerada para pessoas a partir de 15 anos, com peso igual ou superior a 35kg, sexualmente ativas e que apresentem contextos de risco aumentado de infecção pelo HIV. B) A PrEP consiste no uso de antirretrovirais orais para reduzir o risco de infecção HIV, sendo as drogas de escolha o tenofovir e a lamivudina. C) Tanto no Sistema Único de Saúde quanto no sistema de saúde suplementar, a prescrição da PrEP é restrita aos profissionais médicos. D) Com o advento da PrEP, não é necessário estimular o uso de outras estratégias preventivas, como profilaxia pós-exposição (PEP) e uso habitual e correto de preservativos. COMENTÁRIO: Ótima questão para revisar os principais conceitosda PrEP! Correta a alternativa A. A PrEP deve ser oferecida para a população descrita na alternativa. Incorreta a alternativa B. A lamivudina não é parte do esquema da PrEP e sim a entricitabina. Incorreta a alternativa C. Médicos, enfermeiros e farmacêuticos treinados podem prescrever a PrEP, seguindo o protocolo do Ministério da Saúde. Incorreta a alternativa D. O uso dos preservativos deve ser mantido para proteção contra as outras ISTs. 9.4 PROFILAXIA DE TRANSMISSÃO VERTICAL Já falamos da prevenção da infecção pelo HIV pela via sexual. Agora, vou discutir um pouco com você sobre a prevenção da transmissão vertical. Olhe só este dado: se uma mãe estiver infectada pelo HIV e nenhuma medida de prevenção da transmissão for feita, o risco de transmissão perinatal do HIV pode variar de 15% a 45%. Um dos fatores de risco mais importantes para essa transmissão é o valor elevado da carga viral quando o parto estiver próximo. Por esse motivo, todas as mães infectadas com o HIV devem ter esse exame coletado no 3º trimestre. Mais de 90% das infecções por HIV em crianças ocorrem por transmissão perinatal, tanto por exposição a sangramentos intrauterinos, principalmente no 3º trimestre, como no momento do parto ou no pós-parto, através da amamentação. Caso todas as medidas de prevenção sejam feitas e a mãe tenha uma boa adesão à TARV, esse risco de transmissão, que era de 15% a 45%, cai para menos de 1%. Que coisa maravilhosa! Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 98 CAI NA PROVA (Hospital Memorial Arthur Ramos – AL 2018) Quanto à transmissão do HIV em crianças, pode-se afirmar que: A) Atualmente predomina a transmissão pelo sangue e seus produtos contaminados com HIV. B) A maioria é infectada pela transmissão materno-infantil, durante a gestação e o parto e por meio do aleitamento. C) O convívio social com os pais infectados tem sido causa frequente de transmissão aos filhos. D) A transmissão materno-infantil de mãe soropositiva para o HIV ocorre em mais de 90% das gestações. COMENTÁRIOS Opa, olhe só o que ensinei agora sendo cobrado em prova! Incorreta a alternativa A. Atualmente a transmissão do HIV pelo sangue é rara, já que a triagem para doenças infecciosas desses materiais biológicos é rigorosa. Correta a alternativa B. A maioria das infecções por HIV em crianças é adquirida via transmissão vertical durante a gestação, trabalho de parto ou pelo aleitamento materno. Portanto, a epidemiologia do HIV nas crianças está intimamente relacionada ao sucesso das medidas preventivas nos casos de gestantes com HIV. Incorreta a alternativa C, pois o convívio social com pessoas infectadas não transmite HIV. O paciente susceptível deve ser exposto a sangue contaminado, usar drogas injetáveis ou ter contato sexual desprotegido para risco de adquirir a infecção. Incorreta a alternativa D. Estima-se que o risco de transmissão vertical do HIV seja de 15-30%, porém, com medidas de prevenção como o diagnóstico e o tratamento precoce da gestante, profilaxia com AZT no momento do parto, contraindicação da amamentação e uso do AZT pelo neonato, esse risco reduziu, bastante variando de 1% a 2%. Para você aprender as medidas de prevenção da transmissão vertical, vou dividi-las em duas partes para facilitar seu entendimento: manejo do recém-nascido e manejo da gestante. 9.4.1 MANEJO DO RECÉM-NASCIDO Aqueles nascidos de uma mãe que tenha HIV, mesmo com uso regular de antirretrovirais, devem receber profilaxia com AZT (zidovudina), com dose ajustada para o peso, a cada 12 horas. Para RNs de alto risco de exposição ao HIV, a profilaxia deve ser feita com zidovudina, lamivudina e raltegravir. Essas medicações devem ser administradas preferencialmente na sala de parto ou em até 4 horas do nascimento e devem ser mantidas por 4 semanas. Para classificar o RN, confira aqui a tabela abaixo: Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 99 Risco Definição Profilaxia Alto risco Mães sem pré-natal, ou Mais de 37 semanas: AZT + 3TC + RAL por 28 dias 34 a 37 semanas: AZT + 3TC + NVP por 28 dias, exceto a NVP que só deve ser feita por 14 dias Menos que 34 semanas: AZT Mães sem TARV durante a gestação, ou Mães que tinham indicação de profilaxia no parto e não receberam, ou Mães com início de TARV após a 2ª metade da gestação, ou Mães com infecção aguda pelo HIV durante a gestação ou aleitamento, ou Mães com carga-viral (CV) detectável no 3º trimestre, usando ou não a TARV, ou Mães com CV desconhecida, ou Mães com teste rápido positivo no momento do parto, sem diagnóstico prévio de infecção pelo HIV. Baixo risco Uso de TARV na gestação e CV indetectável a partir da 28ª semana e sem falha na adesão à TARV. AZT por 28 dias Reforçando o que falei em capítulos anteriores, esses recém-nascidos não devem ser amamentados, já que o leite materno pode transmitir a infecção. Um assunto que já foi cobrado em prova é a dose do AZT em recém-nascidos. A preferência é sempre pela administração oral, porém, excepcionalmente, se ela não puder ser feita dessa forma, indicamos a dose por via intravenosa (IV). Veja aqui uma tabela com esses dados: Idade gestacional ao nascimento Dose Duração 35 semanas ou mais VO: 4 mg/Kg/dose 12/12h. IV: 3mg/Kg IV 12/12h. 4 semanas 30 a 35 semanas VO: 2mg/Kg/dose 12/12h por 14 dias e depois 3mg/Kg/ dose 12/12h a partir do 15º dia. IV: 1,5mg/Kg IV 12/12h por 14 dias e depois 2,3mg/Kg IV 12/12h a partir do 15º dia. 4 semanas Menos de 30 semanas VO: 2mg/Kg/dose 12/12h. IV: 1,5mg/Kg 12/12h. 4 semanas Figura 33. Dose do AZT conforme idade gestacional ao nascimento. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 100 CAI NA PROVA (SES - DF 2019) Determinada paciente de 16 anos de idade iniciou atendimento pré-natal em posto de saúde da família e foi diagnosticada com HIV nas sorologias de primeiro trimestre, iniciando terapia antirretroviral adequada e com boa adesão imediatamente. Os demais exames de rotina de pré-natal mostraram-se normais. Com base nesse caso clínico e nos conhecimentos médicos correlatos, julgue o item a seguir. Crianças com peso de nascimento inferior a 1.500 g não devem fazer uso do AZT. A) CERTO B) ERRADO COMENTÁRIOS Todo recém-nascido de mãe portadora do HIV deve receber AZT solução oral, preferencialmente ainda na sala de parto, ou nas primeiras quatro horas após o nascimento, devendo ser mantido o tratamento durante as primeiras quatro semanas de vida. Sua dose é calculada com base no peso do paciente e pode ser feita em recém-nascidos com peso inferior a 1.500g. Por esse motivo, a afirmativa dessa questão está errada. Correta a alternativa B. (UNIFESP 2022) Que esquema antirretroviral profilático deve ser recomendado para um recém-nascido de 28 semanas cuja mãe foi diagnosticada com HIV no momento do parto? A) Zidovudina + lamivudina por 28 dias + nevirapina por 14 dias. B) Zidovudina por 28 dias. C) Zidovudina + lamivudina + raltegravir por 28 dias. D) Zidovudina por 28 dias + 3 doses de nevirapina. COMENTÁRIOS Estamos diante de um RN de 28 semanas, filho de mãe que vive com HIV, diagnosticada apenas no momento do parto. Portanto, alto risco de exposição ao vírus: mãe com Teste Rápido (TR) positivo para o HIV no momento do parto (sem diagnóstico e/ou seguimento prévio). Para a medida ser eficaz, a profilaxia deve ser iniciada o mais precocemente possível após o nascimento, preferencialmente, nas primeiras 4 horas de vida. Qual é o esquema profilático recomendado atualmente? Vamos relembrar! - Baixo risco: somente AZT por 28 dias. - Alto risco: depende da idade gestacional: 37 semanas ou mais: zidovudina (AZT) + lamivudina (3TC) + raltegravir (RAL) por 28 dias; 34 a 37 semanas: zidovudina (AZT) + 3TC + nevirapina (NVP) por 28 dias; Extensivo | 2025 101 Correta a alternativa B. Estamos diante de um RN de alto risco nascido com idade gestacional de 28 semanas. Incorreta a alternativa C. Essa é a conduta profilática nos casos de RN de alto risco com idade gestacional de 37 semanas ou mais. Incorreta a alternativa D. Essa conduta não é prescrita em nenhuma situação profilática para crianças expostas ao HIV. 9.4.2 MANEJO DA GESTANTE O manejo da gestante para prevenir a transmissão vertical depende do valor da carga viral (CV) na 34ª semana de gestação (no terceiro trimestre). Leia e analise esta tabela com calma para ficar mais fácil: Incorreta a alternativa A. Essa é a conduta profilática nos casos de RN de alto risco com idade gestacional entre 34 a 37 semanas. (SP - Hospital Sírio-Libanês - HSL - 2024) Recém-nascido de parto normal; 39 semanas e 2 dias; PN: 2.980 g; PC: 34 cm; Apgar 9/9; exposto ao HIV. A mãe iniciou terapia antirretroviral (TARV) com 29 semanas de gestação, sem falha na adesão aos medicamentos e carga viral do HIV indetectável na 35ª semana. Entre as opções de profilaxia abaixo, a mais adequada para esse recém-nascido é: A) Nevirapina e ritonavir no momento do parto. B) Raltegravir, Nevirapina e ritonavir na 1ª hora de vida. C) Zidovudina e Abacavir até 2 horas de vida. D) Zidovudina durante os primeiros 28 dias. E) Zidovudina, Lamivudina e Raltegravir em até 4 horas de vida. COMENTÁRIO: Cuidado! Aqui, temos uma pegadinha! A mãe iniciou o TARV após a segunda metade da gestação! Portanto, mesmo que ela não tenha falhado na adesão e a carga viral seja indetectável, a exposição do RN é considerada de alto risco! Como temos um bebê de 39 semanas, está indicado para ele AZT+3TC+RAL. Gabarito: alternativa E. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 102 Cenários da gestante na 34ª semana Manejo da gestante e via de parto CV indetectável. • A via de parto deve ser de acordo com a indicação obstétrica. • A TARV deve ser mantida. CV detectável, porém 1.000 cópias/mL. • A via de parto indicada é a cesárea. • AZT injetável EV*. Figura 34. Manejo da gestante infectada pelo HIV e do recém-nascido exposto. *Pelo menos 3 horas antes da cirurgia até o clampeamento do cordão umbilical. Para esclarecer o manejo da gestante, olhe aqui este esquema: Figura 35. Esquema de manejo da gestante infectada pelo HIV com base na CV-HIV na 34a semana da gestação. Valor da CV na 34ª semana em cópias/mL A via de parto é conforme indicação obstétrica (a vaginal é a mais indicada). Carga viral detectável menor que 1.000 cópias/mL: • Parto cesáreo ou vaginal. • Fazer AZT EV. Carga viral desconhecida ou maior que 1.000 cópias/mL: • Parto cesáreo. • Fazer AZT EV. Indetectável 1000 Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 103 CAI NA PROVA (Hospital Universitário da UEL – PR 2019) Com a profilaxia antirretroviral, houve redução significativa das taxas de transmissão vertical do HIV. Em relação à conduta a ser tomada com o Recém-Nascido (RN), cuja mãe é infectada pelo HIV, segundo o último protocolo do Ministério da Saúde (2017), assinale a alternativa CORRETA. A) Se a gestante não tiver carga viral coletada no 3º trimestre, realizar 1ª dose de nevirapina nas primeiras 48 horas de vida e manter de 12 em 12 horas, por 30 dias. B) Se a gestante não tiver carga viral coletada, realizar 1ª dose de AZT e nevirapina nas primeiras 8 horas de vida e mantê-los de 12 em 12 horas, por 30 dias. C) Para a gestante com carga viral indetectável no 3º trimestre, não é necessário realizar nevirapina para o RN, iniciar o AZT nas primeiras 8 horas de vida e manter de 6 em 6 horas, durante 6 semanas. D) Para a gestante com carga viral detectável no 3º trimestre, iniciar o AZT nas primeiras 8 horas de vida e sulfametoxazol-trimetoprima com 15 dias de vida para profilaxia de Pneumocystis jiroveci. E) Independentemente da carga viral materna, realizar o banho imediatamente após o nascimento, iniciar o AZT nas primeiras 4 horas de vida e manter de 12 em 12 horas, por 4 semanas. COMENTÁRIOS Vamos relembrar a conduta da prevenção da transmissão vertical? Essa questão nos traz uma boa oportunidade de revisar. Temos que pensar na gestante e no RN: • Gestante: se a carga viral estiver negativa no último trimestre, “vida que segue” e não há nenhuma outra indicação de medicação além de manter o uso regular da TARV. Se sua carga viral estiver acima de 1.000 cópias/mL ou não soubermos seu valor, o parto deve ser cesáreo e está indicado o uso de AZT venoso, iniciado pelo menos 3 horas antes da cirurgia, até o clampeamento do cordão. Caso a gestante se encontre em uma situação intermediária às descritas acima, com uma carga viral detectável, porém com menos de 1.000 cópias/mL, devemos indicar o AZT venoso e o parto pode ser vaginal ou cesáreo. • RN: sempre vai receber AZT solução oral em todas as situações descritas acima. Ele deve ser iniciado em até 4 horas do nascimento e seu uso mantido a cada 12 horas por 4 semanas. Quando a gestante estiver com carga viral acima de 1.000 cópias/mL ou não soubermos seu valor, devemos associar a nevirapina ao AZT, que deve ser feita em 3 doses no total. Vamos agora analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A. Se a gestante não tiver carga viral coletada no 3º trimestre, deve-se realizar 1ª dose de nevirapina nas primeiras 48 horas e repetir mais duas doses. Além disso, há indicação de zidovudina solução oral 4mg/kg de 12/12h por 4 semanas, com início em até 4 horas após o nascimento. Incorreta a alternativa B: se a gestante não tiver carga viral coletada, prescrever zidovudina 4mg/kg de 12/12h por 4 semanas, com início em até 4 horas após o nascimento. Além disso, está indicado realizar a 1ª dose de nevirapina nas primeiras 48 horas e repetir mais duas doses. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 104 Correta a alternativa E. Todo recém-nascido de mãe portadora do HIV deverá receber banho imediatamente após o nascimento, além de iniciar zidovudina 4mg/kg de 12/12h por 4 semanas, com início em até 4 horas após o nascimento. Incorreta a alternativa C: para a gestante com carga viral indetectável no 3º trimestre, não é necessário realizar nevirapina para o RN. Devemos iniciar o AZT nas primeiras 4 horas de vida e mantê-lo de 12 em 12 horas, durante 4 semanas. Incorreta a alternativa D: para a gestante com carga viral detectável (e acima de 1.000 cópias/mL) no 3º trimestre, deve-se iniciar o AZT nas primeiras 4 horas de vida. A profilaxia de Pneumocystis jirovecii não é indicada em RNs. 10.0 HIV EM CRIANÇAS CAPÍTULO A infecção pelo HIV em crianças tem algumas particularidades que não foram abordadas até o momento e que são cobradas nas provas de Residência. Sempre que uma criança nascer de uma mãe com HIV, devemos considerá-la como exposta (mesmo se ela não se infectar com o vírus). Essas crianças expostas (infectadas ou não), tendem a apresentar mais infecções bacterianas e quadros mais graves em comparação com crianças não expostas. Essa diferença ocorre pela diminuição dos níveis de anticorpos maternos transferidos pela placenta e pela ausência do aleitamento por mães com HIV/aids. Neste tópico abordarei a conduta em crianças expostas e tudo mais que é cobrado em provas. Como referência, usei o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes do Ministério da Saúde, de 2018. 10.1 MANEJO DE CRIANÇAS EXPOSTAS 10.1.1 CUIDADOS NA SALA DE PARTO Assim que uma criança nasce de uma mãe com HIV, além da profilaxia com AZT e/ou nevirapina, alguns cuidados imediatos devem ser realizados ainda na sala de parto. Veja nesta tabela todos os cuidados: Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueiraum ciclo de replicação que está demonstrado na ilustração a seguir. Leia todos os passos dessa replicação com calma. Facilitará seu entendimento do mecanismo de ação dos antirretrovirais, que abordarei mais adiante. Figura 5.Esse é o ciclo de replicação do HIV. Os números indicam os passos da replicação viral. Agora, que já sabemos como é o HIV, vamos aprender como ele é transmitido? 1.3 TRANSMISSÃO A transmissão do HIV ocorre, principalmente, através de uma relação sexual desprotegida. Outras formas de contágio seriam através de exposição com sangue contaminado ou transmissão perinatal. Alguns fatores de risco associados a uma maior transmissão do HIV são: • Carga viral elevada. • Comportamento sexual (o tipo de exposição sexual, quantidade de parceiros e uso ou não de preservativos). Como podemos ver na tabela abaixo, o sexo anal receptivo é o que mais tem risco de transmissão: Risco estimado de transmissão do HIV por ato sexual Sexo anal receptivo 1,38% Sexo anal insertivo 0,11% Sexo vaginal receptivo 0,08% Sexo vaginal insertivo 0,04% Sexo oral 0 a 0,04% Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 12 • Presença de outras infecções sexualmente transmissíveis (por exemplo, a presença de úlcera genital aumenta cerca de 4 vezes a chance de infecção). Isso já caiu em prova! Alguns materiais biológicos não transmitem o HIV, como suor, lágrimas, fezes, urina, vômitos e saliva. CAI NA PROVA (UNB 2018) A respeito de doenças infecciosas e transmissíveis, julgue o item seguinte. O risco de contaminação pelo HIV é maior entre os portadores de outras doenças infecciosas sexualmente transmissíveis. A) CERTO B) ERRADO COMENTÁRIOS Afirmativa verdadeira. Pacientes com outras infecções sexualmente transmissíveis (IST), como úlceras genitais por herpes e sífilis, têm sabidamente um risco maior de adquirir o HIV. Outras ISTs, como as que causam corrimentos vaginais e uretrais, também podem aumentar esse risco de contaminação. Correta a alternativa A. (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE VOTUPORANGA - SCMV 2016) Todas as alternativas abaixo contêm materiais biológicos com risco de transmissão do HIV, EXCETO: A) Vômitos. B) Sangue. C) Sêmen. D) Fluidos vaginais. COMENTÁRIOS Os materiais biológicos com risco de transmissão do HIV são: sangue, sêmen, secreções vaginais, líquidos de serosas, líquido amniótico, líquor, líquido articular e leite materno. O suor, lágrima, fezes, urina, vômitos e saliva não trazem risco de transmissão. Analisando as opções, a única que contém material biológico que não transmite HIV é a alternativa A. Incorretas as alternativas B, C e D. Correta a alternativa A. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 13 Olhe aqui nessa tabela os materiais biológicos que podem e que não podem transmitir o HIV: Pode transmitir HIV Não pode transmitir Sangue Suor Sêmen Lágrima Secreções vaginais Fezes Líquidos de serosas Urina Líquido amniótico Vômitos Líquor Saliva Líquido articular Leite materno Figura 6. Tabela comparando materiais biológicos com risco de transmissão do HIV com aqueles que não têm risco. CAPÍTULO 2.0 EPIDEMIOLOGIA Vamos aprender agora como está a situação epidemiológica no Brasil? Vou trazer aqui os dados epidemiológicos mais importantes que estão no último Boletim Epidemiológico de HIV/Aids de 2020 do Ministério da Saúde. No Brasil como um todo, a taxa de detecção de aids vem diminuindo em todas as faixas etárias desde 2013. Ao analisar as regiões separadamente, o Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentaram uma tendência de crescimento dos casos e as regiões Sul e Sudeste registraram uma diminuição. Apesar disso, a maioria dos casos ainda concentra-se principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Em relação ao sexo, desde 2007 vem ocorrendo um aumento na detecção em homens e diminuição em mulheres (aumento da razão entre os sexos). Esse aumento entre os homens ocorre na faixa etária dos 20 aos 29 anos. Entre os homens, aqueles que são homo ou bissexuais são os que predominam dentre as categorias de exposição, superando os heterossexuais. Em gestantes, a taxa de detecção da infecção pelo HIV no Brasil vem aumentando nos últimos anos. Em toda a série histórica, as maiores taxas de detecção são aquelas dos estados do Sul (Rio Grande do Sul e Santa Catarina). Acredita-se que seja pela ampliação e incremento dos testes rápidos usados no período do pré-natal. Todas as outras regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste) também têm essa tendência de aumento. A respeito da mortalidade por aids no Brasil, de 2009 a 2019 houve uma queda no coeficiente de mortalidade, porém, alguns estados da região Norte (Acre, Pará e Amapá) e da região Nordeste (Maranhão, Rio Grande do Norte e Paraíba) registraram um aumento desse coeficiente. As principais causas de morte nos pacientes infectados pelo HIV são, em primeiro lugar, as doenças definidoras de aids (tuberculose liderando a lista de causas) e, em seguida, as neoplasias, como o linfoma não-Hodgkin. Pode ficar tranquilo, comentarei sobre isso mais adiante. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 14 Tendência de aumento ↑ Tendência de queda ↓ Taxa de detecção em homens. Taxa de detecção em mulheres Razão entre os sexos. Taxa de mortalidade geral Número de casos novos em HSH (homens que fazem sexo com homens), superando a proporção de casos notificados entre heterossexuais Taxa de detecção em gestantes CAI NA PROVA (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO REGIONAL DE MARINGÁ – UEM 2020) A infecção pelo vírus HIV e a AIDS constituem um problema de saúde pública e seu perfil epidemiológico sofreu mudanças ao longo do tempo. Sobre a epidemiologia da infecção pelo HIV e AIDS, assinale a alternativa correta: A) As maiores taxas de detecção de HIV em gestantes são nos estados da região nordeste. B) A razão entre os sexos expressa pela relação entre o número de casos de HIV/AIDS em homens e mulheres vem diminuindo nos últimos 10 anos. C) Embora a taxa de detecção de HIV/AIDS em mulheres na faixa etária de 20 a 25 anos tem decaído nos últimos 10 anos, entre os homens desta mesma faixa etária houve uma grande elevação. D) Com o aumento da oferta de tratamento antirretroviral precoce, houve redução da mortalidade em todas as regiões do Brasil nos últimos 10 anos, embora esta redução não tenha se dado de maneira uniforme. E) A infecção pelo HIV/AIDS tem como principal via de transmissão a sexual, embora no início da epidemia tenha predominado em homens que fazem sexo com homens, nos últimos 10 anos, o número de casos novos nesta categoria tem decrescido. COMENTÁRIOS Olhe só essa questão sobre o que acabamos de falar! Vamos analisar as alternativas e reforçar o aprendizado: Incorreta a alternativa A, porque as maiores taxas de detecção de HIV em gestantes são nos estados do Sul (Rio Grande do Sul e Santa Catarina). Incorreta a alternativa B. Já expliquei isso: nos últimos anos, o número de casos em homens vem crescendo e o de mulheres, diminuindo. Por esse motivo, a razão entre os sexos vem aumentando. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 15 (UNIFESP 2019) No Brasil, na última década (2006-2016), a taxa de detecção de aids (por 100.000 habitantes): A) teve tendência ascendente em menores de cinco anos de idade. B) aumentou em homens e diminuiu em mulheres na faixa etária de 20 a 24 anos de idade. C) diminuiu em homens e aumentou em mulheres na faixa etária de 15 a 19 anos de idade. D) manteve-se relativamente estável em ambos os sexos na faixa etária de 30 a 59 anos de idade. COMENTÁRIOS: Olhe só outra questão sobre a epidemiologia do HIV! Vamos analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A, porque a tendência nos últimos anos é de queda na taxa de detecção em TODAS as faixas etárias. Correta a alternativa| Curso Extensivo | 2025 105 Cuidados na sala de parto e pós-parto imediato 1. Sempre que possível, realizar o parto empelicado, ou seja, retirar o neonato mantendo as membranas corioamnióticas íntegras. 2. Clampear o cordão imediatamente após o nascimento, sem qualquer ordenha. 3. Realizar o banho imediatamente após o nascimento (ainda na sala de parto, com água corrente e limpar com compressas macias). 4. Se necessário, aspirar de forma delicada as vias aéreas do RN (evitar traumatismos). 5. Se necessário, aspirar delicadamente, sem traumatizar, o conteúdo gástrico de líquido amniótico com sonda enteral. Se houver sangue, fazer lavagem gástrica com soro fisiológico. 6. Colocar o RN junto à mãe o mais rápido possível. 7. Iniciar os antirretrovirais até 4 horas após o parto (de preferência ainda na sala de parto). 8. Contraindicar a amamentação e inibir a lactação com cabergolina. A substituição do leite materno deve ser feita com fórmula láctea até os 6 meses de idade. Como demonstrado na tabela, RNs expostos não devem ser amamentados, já que o leite materno pode transmitir o HIV. A amamentação está contraindicada! A cabergolina em dose única deve ser prescrita para a puérpera antes da alta hospitalar. CAI NA PROVA (SES GO – 2020 ) Em relação aos cuidados imediatos com o recém-nascido (RN) exposto ao HIV, deve-se: A) realizar o parto empelicado, fazendo a retirada do neonato, mantendo-se as membranas amnióticas íntegras. B) clampear o cordão umbilical após um minuto da extração do concepto, ou até que a pulsação no cordão cesse, sem qualquer ordenha. C) evitar a realização do banho nas primeiras 24 horas subsequentes ao parto. Só limpar o RN com compressas macias e úmidas. D) cancelar a aspiração das vias aéreas do RN, a fim de se evitar traumatismos em mucosas. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 106 COMENTÁRIOS Está vendo que esse assunto é cobrado? Se tiver alguma dúvida, é só olhar a lista dos cuidados de que falei acima. Vamos lá analisar as alternativas: Correta a alternativa A. Quando é realizada a cesárea eletiva, o parto empelicado é recomendado, pois expõe menos o recém- nascido ao sangue materno. Incorreta a alternativa B. O cordão deve ser clampeado imediatamente após o nascimento, e não deve ser realizada sua ordenha. Incorreta a alternativa C. O recém-nascido deve receber banho com água corrente imediatamente após o nascimento. Incorreta a alternativa D. A aspiração de vias aéreas pode ser feita delicadamente, se for necessário. 10.1.2 PROFILAXIA PRIMÁRIA PARA PNEUMOCISTOSE A pneumonia pelo Pneumocystis jirovecii (PCP) é a doença oportunista que mais acomete crianças infectadas pelo HIV no seu primeiro ano de vida. Como não fazemos um diagnóstico da infecção pelo HIV de forma muito precoce, recomenda-se que TODAS as crianças expostas iniciem a profilaxia para a PCP com sulfametoxazol-trimetoprim, após 4 semanas de vida. Ela deve ser mantida até que a infecção pelo HIV seja descartada, ou seja, quando elas tiverem duas cargas virais negativas (vou ensinar isso no próximo tópico). Caso a infecção se confirme, a profilaxia deve continuar até um ano de idade, independentemente do valor dos linfócitos T CD4+ . Após um ano de idade, a recomendação de fazer a profilaxia é de acordo com a contagem de linfócitos T CD4+. Se ela for menor do que 200 células/mm3 ou, em valor percentual, menor que 25%, a profilaxia está indicada. Revise nesta tabela as indicações da profilaxia para PCP: Iniciar profilaxia para PCP após 4 semanas de vida com SMX-TMP. Infecção pelo HIV confirmada Infecção pelo HIV descartada Manter profilaxia até um ano de idade Suspender profilaxia Figura 37. Manejo da profilaxia para pneumocistose. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 107 Indicações de profilaxia para PCP • Toda criança exposta a partir de 4 semanas de vida. Manter a profilaxia até 1 ano de idade se a infecção pelo HIV for confirmada. Suspender a profilaxia assim que descartada a infecção pelo HIV. • Após 12 meses de idade, se contagem de linfócitos T CD4+supurada bilateral, episódios recorrentes de candidíase oral e perianal, padrão evacuatório de fezes líquidas uma a duas vezes por dia. A criança frequenta a creche meio período do dia desde os 8 meses. Neste caso descrito, deve-se inicialmente: A) Investigar imunodeficiência primária. B) Investigar infecção pelo HIV. C) Atribuir as doenças à frequência à creche. D) Atribuir à imaturidade dos sistema imunológico próprio da idade. E) Não se faz necessária nenhuma investigação adicional. COMENTÁRIOS O enunciado traz a história de uma criança de 18 meses que vem apresentando diversas infecções recorrentes de vias aéreas superiores. O que fazer nessa situação? Investigar a infecção pelo HIV. Incorreta a alternativa A. Imunodeficiência comum variável é a mais frequente imunodeficiência primária sintomática. Devido à deficiência de imunoglobulinas (imunodeficiência humoral), os indivíduos acometidos por essa doença apresentam sinusite bacteriana e pneumonia de repetição, não sendo incomum o surgimento de bronquiectasias. Também são comuns infecções parasitárias intestinais (em especial por Giardia lamblia), esplenomegalia e doenças autoimunes associadas. O quadro clínico dessa criança não é compatível com esse padrão de imunodeficiência e pode ser explicado pela alternativa B da questão. Correta a alternativa B. Como expliquei, as infecções de vias aéreas superiores recorrentes são um sinal de infecção pelo HIV e requerem sua investigação. Incorreta a alternativa C, pois as infecções que acometem crianças que frequentam creche costumam ser leves e autolimitadas, como infecções de vias aéreas superiores. Incorreta a alternativa D. A frequência e a gravidade das infecções dessa criança não podem ser justificadas apenas por imaturidade do sistema imune. Incorreta a alternativa E. O pediatra deve desconfiar de imunodeficiência diante da quantidade de infecções graves que essa criança já vivenciou. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 110 10.3 DIAGNÓSTICO O diagnóstico da infecção pelo HIV em crianças depende da sua idade. Por isso, vou dividir este tópico em duas partes: diagnóstico em crianças com menos de 18 meses e com mais de 18 meses. Essa diferenciação ocorre porque há a passagem transplacentária de anticorpos maternos do tipo IgG para a criança, o que pode falsear o resultado da sorologia até os 18 meses de idade. Uma informação que você não pode esquecer: toda criança exposta deve ser notificada. A finalização dessa ficha deve ser feita somente após os 18 meses, com os resultados desses exames sorológicos. 10.3.1 DIAGNÓSTICO EM MENORES DE 18 MESES A minoria das crianças pode infectar-se pelo HIV durante a gestação e ter o vírus detectável no nascimento. Entretanto, como a maioria das infecções ocorre no momento do parto, devemos aguardar algumas semanas para realizar a investigação. Enquanto o diagnóstico não é feito, a criança estará em uso da profilaxia. O diagnóstico deve ser feito com testes moleculares, como a quantificação da carga viral, já que, como expliquei no início deste tópico, a sorologia não deve ser feita até os 18 meses de idade. Para ser diagnosticada com HIV, a criança precisa ter dois exames de carga viral com mais de 5.000 cópias/mL cada um. A primeira amostra deve ser feita duas semanas após o término da profilaxia. Caso o resultado esteja acima de 5.000 cópias/mL, o exame deve ser repetido imediatamente. Caso o resultado esteja abaixo de 5.000 cópias/mL, outra amostra deve ser feita após 4 semanas da primeira. Se houver algum resultado discordante, deve-se realizar uma terceira amostra. Veja este fluxograma para visualizar melhor: Realizar CV após 2 semanas do término da profilaxia 5.000 cópias/mL Realizar CV após 4 semanas da primeira coleta Repetir CV imediatamente 5.000 cópias/mL 5.000 cópias/mL Realizar uma terceira coletaCriança sem infecção Criança infectada pelo HIV 5.000 cópias/mL Caso a criança exposta não tenha recebido a profilaxia com AZT e/ou NVP, ela deve ser testada imediatamente após identificação do caso. O fluxograma é igual ao descrito acima: precisa-se de dois testes de carga viral com mais de 5.000 cópias/mL. Se o primeiro já vier com esse resultado, outra amostra deve ser solicitada imediatamente. Caso o resultado do primeiro teste seja 5.000 cópias/mL. Se as amostras forem discordantes, uma terceira coleta deve ser feita. Após completar 18 meses, uma sorologia deve ser feita para documentar a soroconversão. O esperado é encontrar um resultado não reagente. Caso seja reagente, deve-se solicitar a pesquisa do DNA proviral do HIV, se ele for positivo, a criança é considerada infectada. Se for negativo, a criança é considerada livre da infecção. É nessa época que devemos finalizar a notificação de criança exposta, afinal, é necessário o resultado da sorologia após os 18 meses. Crianças com duas cargas virais negativas e sorologia reagente aos 18 meses devem realizar o exame qualitativo para detecção do material genético do vírus, que é o DNA proviral, imediatamente. Lembre-se de que toda criança exposta deve ser notificada e sua ficha deve ser finalizada após os 18 meses, com a solicitação da sorologia. 10.3.2 DIAGNÓSTICO EM MAIORES DE 18 MESES Em crianças com mais de 18 meses, o diagnóstico do HIV deve seguir as mesmas recomendações para adultos que expliquei em capítulos anteriores. Devemos solicitar dois testes com resultados reagentes para definir o diagnóstico. Relembre os testes no capítulo 4 deste livro. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 112 10.3 TRATAMENTO Como em adultos, o tratamento em crianças deve ser iniciado assim que o paciente for diagnosticado, independentemente da carga viral ou contagem de linfócitos T CD4+. Como falei no capítulo da genotipagem, lembre-se de que TODA criança deve ter esse exame solicitado antes de iniciar o tratamento, porém não é necessário aguardar seu resultado para prescrever a TARV. Se for necessário, o esquema pode ser mudado depois. São vários esquemas utilizados, que dependem da idade da criança, mas que você não precisa saber para a prova de Residência. Resumindo o que é recomendado, o esquema preferencial deve ser composto de dois ITRN: um deles é o abacavir (ABC), ou a zidovudina (AZT), ou o tenofovir (TDF) associado à lamivudina (3TC); e o outro, um inibidor de protease (IP), como o lopinavir/ritonavir, ou inibidor da integrase (INI), como o raltegravir ou dolutegravir. ABC ou AZT ou TDF Lamivudina (3TC) IP ou INI Após o início do tratamento, espera-se que a carga viral fique indetectável depois de 6 meses e que os linfócitos T CD4+ aumentem e normalizem dentro de 12 meses. Ao contrário dos adultos, crianças com menos de 6 anos devem ter seus valores de linfócitos T CD4+ avaliados em percentual. Isso traz uma segurança na interpretação, pois a contagem absoluta pode variar bastante. Há uma classificação imunológica para as crianças que é a seguinte: Classificação imunológica Idade na data de contagem de linfócitos T CD4+ imunológica da infecção pelo HIV em menores de 13 anos. Finalizo aqui o tópico do manejo da infecção pelo HIV em crianças. Falaremos a seguir da vacinação em pacientes adultos infectados e também em crianças. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 113 CAPÍTULO 11.0 VACINAÇÃO A vacinação em pacientes com HIV tende a ser um pouco menos eficaz do que em pessoas que não possuem alguma alteração da imunidade. Sempre que possível, devemos adiar a vacinação daqueles com infecções oportunistas ou imunossupressão grave. Não vou abordar aqui sobre a composição ou eficácia das vacinas, para isso, veja o Livro de Vacinas do Estratégia MED. Vou discutir sobre as indicações das vacinas em pacientes com HIV/aids, que é o tópico mais cobrado em provas. As informações foram retiradas do Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais do Ministério da Saúde, de 2014. 11.1 VACINAS INATIVADAS As vacinas inativadas são seguras, porém podem não ser muito eficazes se administradas durante uma imunossupressão mais grave. Por exemplo, a vacina pneumocócica polissacarídica deve ser feita de preferência com uma contagem de linfócitos T CD4+ maior ou igual a 200 células/µL. Você não lembra quais são as vacinas inativadas? Veja esta tabela: Vacinas inativadas Vacinas contra o tétano, difteria e pertussis (dT, DT, dTpa, DTPa, DTPw) Vacina da febre tifoide Vacina da gripe (influenza) Vacina da hepatite A Vacina da hepatite B Vacina do HPV Vacina do Haemophilus influenzae do tipo b Vacinas meningocócicas (B, C e ACWY) Vacinas pneumocócicas (polissacarídica 23-valente e conjugadas 10-valente e 13-valente) Vacina inativada da poliomielite (VOP) Vacina da raiva Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 114 Há algumas particularidades em vacinar uma pessoa com HIV/aids com vacinas inativadas. Por exemplo, ao indicar a vacina da hepatite B, devemos fazer 4 doses, ao invés de 3, e cada dose deve ter o dobro do volume recomendado. Lembre-se também de que a vacinação contra o pneumococo deve começar com a administração da vacina conjugada, seguida da vacina polissacarídica após 6 a 12 meses. Essa última deve ser reaplicada após 5 anos. TOME NOTA 1. Vacinas inativadas podem ser feitas em pacientes com HIV, independentemente da contagem de linfócitos T CD4+. Há somente uma preferência em aguardar uma melhora imunológica daqueles com imunossupressão grave. 2. A vacina da hepatite B deve ser feita com uma dose a mais (4 doses) e com volume dobrado em todos os pacientes com HIV/aids. 11.2 VACINAS DE AGENTES VIVOS ATENUADOS As vacinas de agentes vivos atenuados, como a da febre amarela e a tríplice viral (contra o sarampo, caxumba e rubéola), podem ser recomendadas de acordo com a contagem de linfócitos do paciente. Aos imunossuprimidos graves, não devemos indicar a vacina, por causa do risco de doença pelo agente vacinal, afinal, são feitas de agentes “atenuados”. Olhe aqui esta tabela e memorize-a: Contagem de linfócitos T CD4 + em células/mm3 Recomendação para uso de vacinas com agentes vivos > 350 Indicar uso 200-350 Avaliar risco-benefício com base em parâmetros clínicos e epidemiológicos 15% (em menores de 6 anos) ou > 200 células/mm3 (naqueles com 6 a 13 anos). Importante: a vacina tetraviral (varicela, sarampo, caxumba e rubéola) não foi avaliada em crianças com HIV, logo, devemos preferir as vacinas em doses separadas. • A respeito da vacina contra a febre amarela, ela só deve ser feita em crianças com imunossupressão ausente (confira a classificação na tabela do tópico 10.3). Aquelas com imunossupressão grave não devem ser vacinadas e, para as com imunossupressão moderada, a vacinaçãodeve ser oferecida, porém avaliando-se aspectos clínicos e risco epidemiológico. Confira essas informações na tabela abaixo: Alteração imunológica Recomendação para uso da vacina da febre amarela Ausente Indicar uso Moderada Avaliar risco-benefício com base em parâmetros clínicos e epidemiológicos Grave Não vacinar Assim como nos adultos, não há nenhuma restrição para uso de vacinas inativadas. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 117 CAPÍTULO 12.0 MAPA MENTAL HIV/AIDSTratamento Profilaxias Quadro clínico Diagnóstico PEP PrEP Prevenção da TV TDF+3TC+DTG por 28 dias TDF+FTC População geral e gestantes com mais de 13 semanas TDF+3TC+DTG Gestantes com menos de 13 semanas TDF+3TC+EFV (se genotipagem prévia com sensibilidade aos ITRNN) TDF+3TC+ATV/r (sem genotipagem prévia) Dois testes rápidos ou Um ELISA e WB ou Um ELISA e CV Fase Aguda Fase de latência clínica Fase aids Síndrome retroviral aguda Fase assintomática L TCD4B. Pois houve um aumento na taxa de detecção de aids em homens e redução nos casos em mulheres, levando a um aumento da razão entre os sexos. Incorreta a alternativa C, pois os casos reduziram em mulheres dessa faixa etária. Incorreta a alternativa D, pois, entre 30 e 50 anos de idade, houve uma redução na taxa de detecção dos casos. Correta a alternativa C. Como expliquei na alternativa anterior, a taxa de detecção de HIV vem caindo nas mulheres, porém vem aumentando nos homens. No ano de 2008, a taxa de detecção de aids nas mulheres de 20 a 24 anos era de 14,9/1.000 habitantes e caiu em 2018 para 9,7/1.000. Nos homens, essa taxa era de 18,4/1.000 habitantes e subiu para 35,8/1.000 habitantes. Incorreta a alternativa D, porque não houve uma redução da mortalidade em todas as regiões do Brasil nos últimos anos. No Norte e Nordeste, por exemplo, houve aumento do coeficiente de mortalidade de 2008 a 2018. Incorreta a alternativa E, porque o número de casos novos de HIV em homens que fazem sexo com homens vem aumentando nos últimos anos, superando a proporção de casos notificados entre heterossexuais. Por exemplo, em 2007, os homossexuais correspondiam a 27,2% dos casos. Em 2019, esse número aumentou para 46,8%. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 16 3.0 HISTÓRIA NATURAL DA DOENÇA E QUADRO CLÍNICO CAPÍTULO Quando uma pessoa se infecta com o HIV, caso o tratamento não seja iniciado, a doença segue seu curso. O paciente pode encontrar-se em uma dessas três fases: 1. Infecção aguda, ou fase sintomática inicial, ou síndrome retroviral aguda (SRA). 2. Fase de latência clínica. 3. Síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Neste gráfico, você consegue visualizar a evolução da carga viral e a contagem de linfócitos T CD4+ ao longo de cada uma das fases da infecção: Figura 7. Evolução da carga viral e contagem de linfócitos T CD4+ ao longo da evolução natural do HIV. Vamos discutir essas fases mais profundamente: 3.1 INFECÇÃO AGUDA PELO HIV Essa infecção ocorre nas primeiras semanas após a contágio e alguns pacientes podem apresentar o que chamamos de síndrome retroviral aguda (SRA). Seus principais achados são febre, cefaleia, astenia, linfadenopatia, faringite, exantema e mialgia, mas também podem estar presentes perda de peso, náuseas, vômitos e diarreia. O paciente com HIV pode apresentar artralgia, mas geralmente é autolimitada. A maioria desses sinais e sintomas desaparece ao longo de 3 a 4 semanas. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 17 A SRA é uma doença mono-like, ou seja, semelhante à mononucleose, e deve ser investigada em pacientes com suspeita de mononucleose (aqueles com febre, faringite, linfadenopatia e esplenomegalia). Diagnósticos diferenciais da síndrome retroviral aguda Mononucleose por citomegalovírus ou Epstein-Barr Toxoplasmose Rubéola Sífilis Hepatite viral Figura 8. Tabela com os diagnósticos diferenciais da síndrome retroviral aguda. Nessa fase inicial, a carga viral é elevada e os níveis de linfócitos decrescem. Perceba isso na figura acima. 3.2 FASE DE LATÊNCIA CLÍNICA Após a infecção aguda, o sistema imune do paciente consegue um “controle parcial” da infecção e a carga viral cai. Nessa fase, o paciente é geralmente assintomático, exceto pela linfadenopatia, que pode persistir após a infecção aguda. Esse período pode durar meses a anos e, com o passar do tempo e uma queda progressiva dos linfócitos, o paciente pode começar a apresentar alguns episódios de infecções bacterianas com mais frequência, como sinusites e pneumonia. A candidíase oral pode aparecer nessa fase e é um marcador precoce de imunossupressão. Ela está associada ao subsequente desenvolvimento da pneumocistose. A candidíase oral é um marcador precoce de imunossupressão, mas não é uma doença definidora de aids. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 18 CAI NA PROVA (UERN 2019) O portador do vírus HIV pode transmiti-lo desde o momento de aquisição da infecção, entretanto, os indivíduos com infecção muito recente ou imunossupressão avançada têm maior concentração do HIV no sangue (carga viral) e nas secreções sexuais, transmitindo com maior facilidade o vírus. Qual alternativa relaciona corretamente a fase de infecção e os sintomas? A) A fase assintomática, pode durar de alguns meses a alguns anos, e os sintomas clínicos são mínimos ou inexistentes. Os exames sorológicos para o HIV são reagentes e a contagem de linfócitos T CD4+ estão em ascensão. B) Na fase assintomática, alguns pacientes podem apresentar uma linfadenopatia generalizada persistente, “flutuante” e indolor. C) Na fase sintomática inicial, o portador da infecção pelo HIV pode apresentar sinais e sintomas inespecíficos de intensidade variável e não são ainda encontrados além de processos oportunistas como a candidíase oral. D) Na fase sintomática há uma redução da carga viral e a contagem de linfócitos. COMENTÁRIOS Essa questão é bem legal para revisarmos alguns conceitos que expliquei anteriormente. Vamos analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A, porque, na fase assintomática ou de latência, a contagem de linfócitos T CD4+ está em queda. Correta a alternativa B. Após a infecção aguda, alguns pacientes podem persistir com linfadenopatia generalizada, persistente, flutuante e indolor. O diagnóstico diferencial desses casos inclui doenças linfoproliferativas e tuberculose ganglionar. Incorreta a alternativa C, porque infecções oportunistas não ocorrem na fase sintomática inicial. Elas começam a aparecer na fase AIDS. Incorreta a alternativa D, porque na fase sintomática há uma elevação da carga viral. (SES - DF 2015) Julgue o item a seguir, relativo às doenças de acometimento comum na população: a artralgia associada ao HIV-Aids raramente evolui para uma inflamação grave das articulações. A) CERTO. B) ERRADO. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 19 COMENTÁRIOS O paciente com HIV pode apresentar artralgia, mas que geralmente é autolimitada. Ela pode acontecer na infecção aguda pelo HIV naqueles pacientes que se apresentam com uma síndrome mono-like (semelhante à mononucleose). A artrite é infrequente, mas pode acontecer e geralmente dura menos que 6 semanas, sendo autolimitada e não destrutiva. Portanto, afirmativa certa. Correta a alternativa A. 3.3 FASE SINTOMÁTICA E FASE AIDS Com a evolução da doença em um paciente sem tratamento, chega um momento em que a carga viral volta a subir e seus linfócitos T CD4+ caem bastante. Algumas doenças oportunistas também começam a aparecer. Com isso, podemos dizer que o paciente está com aids. Definimos que o paciente está nessa fase da síndrome da imunodeficiência adquirida caso ele tenha linfócitos TCD4+ 1 mês) ou visceral em qualquer localização. Candidíase esofágica ou de traqueia, brônquios ou pulmões. Tuberculose pulmonar e extrapulmonar. Sarcoma de Kaposi. Doença por CMV (retinite ou outros órgãos, exceto fígado, baço ou linfonodos). Neurotoxoplasmose. Encefalopatia pelo HIV. Criptococose extrapulmonar. Infecção disseminada por micobactéria não Mycobacterium tuberculosis. Leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP). Criptosporidiose intestinal crônica (duração >1 mês). Isosporíase intestinal crônica (duração >1 mês). Micoses disseminadas (histoplasmose, coccidioidomicose). Septicemiarecorrente por Salmonella não typhi. Linfoma não Hodgkin de células B ou primário do sistema nervoso central. Carcinoma cervical invasivo. Reativação de doença de Chagas (meningoencefalite e/ou miocardite). Leishmaniose atípica disseminada. Nefropatia ou cardiomiopatia sintomática associada ao HIV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 20 As doenças definidoras de aids mais cobradas em provas são aquelas que grifei em negrito na tabela acima, para facilitar seu aprendizado. CAI NA PROVA (FACULDADE DE MEDICINA DE PETRÓPOLIS - FMP 2019) Qual alternativa contém três doenças definidoras de Aids? A) Pneumocistose, candidíase oral, tuberculose pulmonar. B) Pneumonia pneumocócica, tuberculose atípica, sarcoma de Kaposi. C) Febre de origem obscura, candidíase oroesofageana, herpes-zóster. D) Sarcoma de Kaposi, carcinoma invasivo de colo uterino, pneumocistose. COMENTÁRIOS Olhe só o que temos aqui! Acabei de falar que isso cai em prova, não é mesmo? Vamos analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A. A candidíase oral não define aids (decore isso!). Incorreta a alternativa B. A pneumonia bacteriana só entra na definição de aids se ela for recorrente, o que não está descrito nessa alternativa. Incorreta a alternativa C. Nem a febre de origem obscura, nem a herpes zoster definem aids. Correta a alternativa D. Essas 3 doenças fazem parte da tabela das doenças definidoras de aids que mostrei a você. Perceba uma coisa interessante: existem manifestações decorrentes da infecção pelo próprio vírus HIV, principalmente observadas na fase inicial da doença, como a SRA, e, à medida que a doença evolui, o quadro clínico da fase mais tardia da doença (fase AIDS) passa a ser característico das doenças oportunistas que o paciente apresentar. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 21 Como você percebeu, a maioria das doenças definidoras de aids é decorrente de infecções oportunistas, porém algumas podem ser decorrentes do próprio HIV, como a nefropatia, que será abordada no livro da nefrologia, e a encefalopatia associada ao HIV. A encefalopatia já foi cobrada em provas. Ela é uma doença demencial, que se caracteriza por um acometimento da memória e da psicomotricidade, sintomas depressivos e desordens motoras. No estudo do líquor, é comum o encontro de proteínas elevadas com uma carga viral do HIV também com níveis aumentados. É importante que você tenha essa noção das manifestações clínicas da infecção pelo HIV, afinal, sempre que estiver diante de um quadro de uma doença mono-like ou de uma doença oportunista, você deve iniciar a investigação. CAPÍTULO 4.0 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Agora, que já sabe a evolução natural da infecção pelo HIV e qual é a clínica que o paciente pode apresentar, vamos discutir como fazer esse diagnóstico. Já começo com uma pergunta: se a doença demora para demonstrar sinais de imunossupressão e nem todo paciente com a infecção aguda manifesta sintomas, como podemos, de forma precoce, diagnosticar a infecção pelo HIV? Simples, devemos oferecer (não podemos coagir!) a testagem para o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST) a todas as pessoas com vida sexual ativa quando comparecerem em consultas de rotina, independentemente da presença de sintomas. Além disso, todo paciente com diagnóstico de tuberculose deve ser testado para HIV, afinal ela é a principal causa de óbito em pessoas vivendo com HIV/aids e o diagnóstico precoce tem um impacto positivo na evolução das duas doenças. Oferecer testagem para HIV para todas as pessoas com vida sexual ativa, independentemente de haver sintomas, e para todos com diagnóstico de tuberculose. Uma vez indicada a investigação da infecção pelo HIV, o diagnóstico é bem simples. Como essa doença traz um impacto grande na vida do paciente, devemos minimizar erros, afinal, resultados falso-positivos podem acontecer na presença de alguma doença autoimune ou na gestação. Como fazemos para reduzir o risco desses resultados falso-reagentes? Pedindo sempre dois testes consecutivos. Existem vários tipos de testes e vou explicar um pouco de cada um deles para que você entenda. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 22 4.1 TESTES RÁPIDOS Os testes rápidos (TR) são testes simples, que de forma visual demonstram a ligação do antígeno (que fica grudado na placa) com o anticorpo (que pode estar presente na amostra). Esses exames fornecem o resultado em até 30 minutos. Podem ser realizados fora do ambiente laboratorial, com amostra de sangue obtida por punção digital ou fluido oral. Esses testes ajudaram bastante a ampliar o diagnóstico da infecção pelo HIV, por causa da facilidade de obtenção da amostra. Eles possuem uma janela imunológica que pode variar de 1 a 3 meses, portanto, não são muito sensíveis para detecção de infecção aguda. Figura 9. Na primeira figura, você pode ver uma placa do teste rápido. Onde está escrita a letra A é o local em que se coloca a amostra. A letra T refere-se ao “teste”, isto é, nossa amostra. Caso ela seja positiva, aparecerá uma linha colorida nesse local. A letra C refere-se ao “controle” do teste, que sempre deverá ser positivo. Na figura à direita, visualizamos um exemplo de teste rápido positivo. Os testes rápidos não são sensíveis para detecção da infecção aguda. 4.2 IMUNOENSAIOS Os imunoensaios são testes que também detectam a formação da ligação antígeno-anticorpo. No caso do HIV, o teste pode fazer a busca tanto de anticorpos na amostra quanto de antígenos e, se houver ligação entre eles, dizemos que o teste é reagente. Um exemplo desse teste é o ELISA (do inglês “enzyme- linked immunosorbent assay”), que usa uma enzima que muda a cor da solução do teste, caso haja a ligação antígeno-anticorpo. Esses imunoensaios foram se aperfeiçoando ao longo do tempo e através de “gerações”. Atualmente usamos os imunoensaios de 3ª e 4ª geração, pois são mais sensíveis e específicos. Os testes de 1ª e 2ª geração somente detectavam anticorpos da classe IgG. O teste de 3ª geração passou a detectar o IgM e o teste de 4ª geração, além de detectar anticorpos, detecta simultaneamente o antígeno p24 (aquele que fica no núcleo do vírus, lembra?), reduzindo a janela imunológica para, em média, 15 dias. Esses testes demoram cerca de 4h para serem realizados. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 23 Ao contrário de outras doenças virais, no caso da infecção pelo HIV, a presença do IgM não permite diferenciar uma infecção aguda de uma crônica. Isso acontece porque o IgM pode reaparecer em outros momentos, de forma intermitente, ao longo da infecção. Logo, a presença de IgM reagente em um paciente infectado não significa, necessariamente, uma infecção aguda. 4.3 WESTERN BLOT Esse teste é bastante usado para confirmar o diagnóstico da infecção pelo HIV, já que é mais específico que os testes prévios. Ele detecta a presença de anticorpos produzidos contra diferentes partes (antígenos) do vírus. Ele funciona da seguinte forma: imagine uma membrana que está impregnada de proteínas do HIV que foram separadas por eletroforese. A amostra de soro ou plasma do paciente é incubada nessa membrana e, se lá houver algum anticorpo contra alguma das proteínas do HIV, ocorrerá a ligação antígeno-anticorpo. Essa ligação é detectada por anticorpos secundários, o que resulta na formação de “bandas” nos locais em que os antígenos estão. Dessa forma, conseguimos saber exatamente contra que antígenos os pacientes apresentam anticorpos. Figura 10. Exemplo de um teste de Western Blot. Observe as fitas com os controles positivos, controle negativo, pacientes com resultado positivo e indeterminado. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 24 4.4 TESTE MOLECULAR Também chamado de carga viral,esse exame é o que detecta a infecção pelo HIV de forma mais precoce. Ele identifica o RNA do vírus, que é o primeiro marcador a aparecer. É um teste útil para ser usado quando não é possível a detecção de anticorpos, como no caso do diagnóstico da infecção pelo HIV em crianças menores de 18 meses (os anticorpos da mãe são adquiridos pelas crianças e podem falsear o resultado). Compare, nesta tabela, o tempo aproximado de positivação de cada teste discutido aqui neste capítulo: Exame Tempo aproximado de positivação após a infecção Enzyme-linked immunoassay (ELISA) Primeira geração (IgG) 35 a 45 dias Segunda geração (IgG) 25 a 35 dias Terceira geração (IgM e IgG) 20 a 30 dias Quarta geração (IgM, IgG e antígeno p24) 15 a 20 dias Western blot IgM e IgG 45 a 60 dias Carga viral (teste molecular) Cutoff de 50 cópias/mL 10 a 15 dias Figura 11. Tabela demonstrando o tempo aproximado de positivação dos testes diagnósticos da infecção pelo HIV. Como você pode ter percebido, os testes possuem tempos de positivação diferentes, porque usam marcadores que aparecem em períodos diferentes ao longo da infecção. Nesta figura você consegue visualizar isso: Figura 12. Tempo de positivação dos marcadores usados nos testes diagnósticos da infecção pelo HIV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 25 Por causa dos diferentes momentos em que esses testes são detectáveis, podemos dividir a infecção pelo HIV em alguns estágios. Logo após a infecção, o paciente entra no período de eclipse. Ele caracteriza-se pela ausência de marcadores virais em amostras de sangue e dura em média 10 dias. A detecção do RNA já marca o início do estágio I, que dura em torno de 7 dias e ele é o único marcador positivo. O estágio II ocorre quando há a detecção de RNA e antígeno p24 com anticorpos ausentes, e o estágio III é quando esses anticorpos são também detectados. Os estágios IV a VI são os que dependem do resultado de western-blot para classificar. Como nunca caíram em provas de Residência, não vale a pena diferenciá-los. 4.5 DIAGNÓSTICO DA INFECÇÃO PELO HIV Sabendo dos testes disponíveis e que devemos sempre fazer dois exames, podemos fazer as seguintes combinações para diagnosticar a infecção pelo HIV: Dois testes rápidos com amostra de sangue (de fabricantes diferentes). Um teste rápido usando fluido oral e outro teste rápido usando sangue. Um imunoensaio de 3ª ou 4ª geração e um teste molecular (carga viral). Um imunoensaio de 3ª ou 4ª geração e um western blot ou imunoblot rápido. Se ambos os testes forem positivos, temos um diagnóstico confirmado de infecção pelo HIV. Se os testes forem discordantes, temos que fazer um 3º teste diferente dos anteriores. CAI NA PROVA (ES - Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC - 2024) Em relação a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, a doença pode ou não ter expressão clínica logo após a infecção, sendo importante que o profissional saiba conduzir a investigação laboratorial após a suspeita de risco de infecção pelo HIV. Além disso, é imprescindível conhecer o conceito de janela diagnóstica que é o... A) intervalo compreendido entre o início do estagiamento laboratorial da infecção pelo HIV até o início dos sintomas conforme detecção dos marcadores, seja ele RNA viral, DNA proviral, antígeno p24 ou anticorpo. B) tempo entre o exame de carga viral, para fins diagnósticos, e o teste de detecção do dos marcadores, seja ele RNA viral, DNA proviral, antígeno p24 ou anticorpo. C) tempo entre o teste rápido com amostras obtidas por punção venosa (sangue total, soro ou plasma) e a detecção dos marcadores, seja ele RNA viral, DNA proviral, antígeno p24 ou anticorpo. D) tempo decorrido entre a infecção e o aparecimento ou detecção de um marcador da infecção, seja ele RNA viral, DNA proviral, antígeno p24 ou anticorpo. E) intervalo entre a primo infecção da mãe e o aparecimento de sintomas no concepto a partir da detecção dos marcadores seja, ele RNA viral, DNA proviral, antígeno p24 ou anticorpo. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 26 (FACULDADE DE MEDICINA DO ABC 2019) Para o diagnóstico da infecção do HIV, podemos afirmar: A) A identificação precoce da criança infectada verticalmente é essencial para o início da terapia antirretroviral e das profilaxias. Deve-se, porém, avaliar cuidadosamente, pois a toxicidade destes medicamentos é muito maior nas crianças abaixo dos 5 anos de idade. B) Os testes rápidos em sangue, plasma ou fluido oral devem ser realizados principalmente para o diagnóstico da infecção aguda pelo HIV, pois são testes altamente sensíveis nesta situação. C) A detecção da carga viral do HIV deve ser realizada em todos os pacientes HIV+. Valores muito altos, em geral acima de 100.000 cópias, estão fortemente relacionados a fases mais avançadas da infecção pelo HIV. D) Para o diagnóstico da infecção pelo HIV, devem ser realizados 2 testes consecutivos, podendo ser testes rápidos, imunoensaios ou a detecção do RNA do HIV. COMENTÁRIO: Essa questão é útil para sedimentar o aprendizado sobre o conceito de janela imunológica, que nada mais é do que o intervalo de tempo decorrido entre a infecção pelo HIV até a primeira detecção de anticorpos ou carga viral. Incorreta a alternativa A. A janela não é "até o início dos sintomas", mas sim até a detecção dos anticorpos ou presença do vírus nos exames laboratoriais. Incorretas as alternativas B e C. A janela imunológica é o intervalo de tempo decorrido entre a infecção pelo HIV até a primeira detecção de anticorpos ou outro exame definidor do diagnóstico, como a carga viral. Correta a alternativa D. A janela imunológica é o intervalo de tempo decorrido entre a infecção pelo HIV até a primeira detecção de anticorpos ou outro exame definidor do diagnóstico, como a carga viral. Incorreta a alternativa E. O conceito de janela imunológica não tem relação com a infecção vertical pelo HIV. COMENTÁRIOS Olhe só que questão legal para ilustrar o que acabamos de discutir. Vamos ver as alternativas: Incorreta a alternativa A. As medicações são seguras nas crianças, independentemente, da idade. Veremos isso mais adiante, ao longo do livro. Incorreta a alternativa B, porque os testes rápidos possuem uma janela imunológica que pode variar de 1 a 3 meses, portanto não são bons para detecção de infecção aguda. Incorreta a alternativa C, porque os valores mais altos da carga viral são encontrados nas fases iniciais da doença. Correta a alternativa D. A detecção da infecção pelo HIV é um diagnóstico que muda a vida do paciente, portanto devemos fazer o possível para minimizar erros. Por isso, devemos pedir dois testes consecutivos, que podem ser por métodos imunológicos (imunoensaios) ou por biologia molecular (detecção do RNA do HIV) Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 27 (SES-RJ – 2022) Mulher de 25 anos inicia quadro de febre, cefaleia, faringite, diarreia e úlceras orais seguidos, após alguns dias, de rash cutâneo maculopapular de tronco e face e linfadenopatia cervical de até 1,5cm. A suspeita principal é infecção aguda pelo HIV. Nesse caso, os exames laboratoriais mais prováveis para a confirmação desse diagnóstico são: A) Elisa de 4ª geração negativo, Western Blot positivo e PCR-RNA negativo B) Elisa de 4ª geração positivo, Western Blot negativo e PCR-RNA negativo C) Elisa de 4ª geração negativo, Western Blot positivo e PCR-RNA positivo D) Elisa de 4ª geração positivo, Western Blot negativo e PCR-RNA positivo COMENTÁRIOS A infecção aguda pelo HIV ocorre cerca de 2 a 4 semanas após o contágio e alguns pacientes podem apresentar o que chamamos de síndrome retroviral aguda (SRA). Seus principais achados são febre, cefaleia, astenia, linfadenopatia, faringite, exantema e mialgia, mas também podem estar presentes perda de peso, náuseas, vômitos e diarreia. Nesse período, oteste molecular (PCR-RNA) já está positivo, juntamente com o Elisa de 4ª geração, pois detecta o antígeno p24. O Western-Blot (WB) não é um exame sensível para diagnóstico de infecção aguda, geralmente, ele começa a positivar após uma média de 45 dias da infecção. Por esse motivo, na fase aguda, os marcadores positivos são o antígeno p24 e o RNA do HIV. Correta a alternativa D (UFMT – 2020) Homem, 23 anos, homossexual, refere que, após relação sexual sem preservativo, o parceiro comunicou ser portador do vírus HIV e que não estava em uso correto das medicações. Após 4 semanas, o paciente realizou um teste rápido de fluido oral em uma campanha da secretaria de saúde do município, resultando positivo. Ele foi encaminhado a um serviço de referência para esclarecimentos. Para confirmação diagnóstica de infecção pelo HIV, quais os próximos exames a serem solicitados? A) Pelo tempo de exposição, só é possível diagnóstico através de realização da carga viral do HIV ou de exames que contenham antígeno p24. B) São necessários mais dois testes rápidos, de marcas diferentes, e, se ambos positivos, a amostra é reagente para o HIV. C) No caso de um segundo teste inconclusivo, solicitar carga viral, se esta vier positiva, em qualquer valor, pode confirmar o diagnóstico. D) Apenas mais um teste rápido positivo (realizado com amostra de sangue) já pode confirmar a infecção pelo HIV. COMENTÁRIOS Temos aqui um paciente que tem fator de risco para adquirir o HIV e fez um único teste para o diagnóstico. O que fazer agora? Pedir outro teste! Não se esqueça: sempre devemos ter duas amostras reagentes para confirmar o diagnóstico da infecção pelo HIV. Incorreta a alternativa A. Os testes baseados em presença de anticorpos, assim como os testes rápidos, têm janela imunológica de cerca de 20 a 30 dias. Incorreta a alternativa B. Para diagnóstico de infecção por HIV, são suficientes dois testes rápidos positivos, de fabricantes diferentes. Incorreta a alternativa C. Havendo discordância entre os testes, deve ser coletada amostra de sangue para realização de exame de imunoensaio de quarta geração. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 28 Correta a alternativa D. Pois dois testes rápidos reagentes (de fabricantes diferentes) confirmam o diagnóstico. CAPÍTULO 5.0 TRATAMENTO Até agora, já aprendemos como o HIV é transmitido, quais são suas manifestações clínicas e como fazer o diagnóstico. O próximo passo é iniciar o tratamento! Lembra-se de que eu falei que o HIV é um vírus RNA que tem uma enzima chamada de transcriptase reversa? Com ela, o vírus consegue transformar seu RNA em DNA e inserir-se no material genético do paciente. Esse é um dos motivos da dificuldade em curar a infecção, sendo o controle da replicação viral o tratamento recomendado. Atualmente o tratamento está indicado a todo paciente com diagnóstico da infecção pelo HIV, independentemente do valor dos linfócitos TCD4+ ou da carga viral. Ou seja, diagnosticou e o paciente aceitou tratar, já inicie a medicação. Não é necessário aguardar resultado de exames. O tratamento precoce reduz a morbimortalidade nos pacientes, além de reduzir a transmissão, já que o paciente em uso fica com a carga viral indetectável e quem está indetectável não transmite. Indicação de TARV: todos os pacientes diagnosticados com HIV, independentemente da contagem de linfócitos e da carga viral. CAI NA PROVA (UNICAMP 2016) Homem, 23 anos, encaminhado ao serviço de referência de AIDS, de um serviço de hemoterapia por sorologia positiva para vírus de imunodeficiência humana, sem queixas. Exame físico: sem alterações. A Terapia Antirretroviral (TARV) deverá ser prescrita: A) Independentemente da carga viral e da contagem de linfócitos T-CD4+. B) Quando apresentar uma doença oportunista. C) Quando apresentar carga viral detectável em qualquer nível. D) Quando houver contagem de linfócitos T-CD4+ menor que 500 céls/ml. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 29 COMENTÁRIOS Agora ficou mais fácil, não é mesmo? Como expliquei, atualmente a TARV está indicada para todos os pacientes com diagnóstico da infecção pelo HIV, independentemente da carga viral e do valor dos linfócitos T CD4+. As drogas de primeira linha recomendadas pelo Ministério da Saúde são tenofovir, lamivudina e dolutegravir. Já veremos isso adiante. Correta a alternativa A. Essa alternativa responde de forma adequada ao enunciado. Lembre-se: uma vez que o diagnóstico foi feito, a TARV está indicada e não é preciso esperar o resultado dos exames de linfócitos T CD4+ e carga viral. Incorreta a alternativa B. Se o paciente apresenta alguma doença oportunista, é porque sua contagem de linfócitos já está baixa e ele já está com AIDS. O tratamento deve ser iniciado precocemente para evitar que ele chegue nessa fase da doença. O início da TARV logo após o diagnóstico traz benefícios, como uma diminuição da carga viral, com consequente redução da transmissão do HIV. Resumindo: não devemos aguardar o paciente piorar clinicamente para iniciar o tratamento. Incorreta a alternativa C. Como expliquei na alternativa anterior, o valor da carga viral não interfere na indicação do tratamento. Uma vez diagnosticada a infecção pelo HIV, o tratamento está indicado. Incorreta a alternativa D. Há alguns anos, a terapia antirretroviral era indicada somente para pacientes com linfócitos T CD4+ ≤ 350 células/mm3. Atualmente, essa recomendação mudou e a TARV agora é indicada para todos os pacientes com HIV, independentemente do seu estágio clínico ou imunológico. O uso da TARV por todos os pacientes, além de reduzir a morbimortalidade, as infecções oportunistas, hospitalizações e aumentar a sobrevida, leva a uma redução no risco de transmissão do HIV, já que o paciente com carga viral indetectável não transmite. (UNICAMP 2018) Homem, 45a, vem ao ambulatório de infectologia assintomático, trazendo duas sorologias (sendo um deles imunoenzimático de 4ª geração e o outro de imunoblot) positivas para o vírus da imunodeficiência humana (HIV). A conduta é: A) Realizar sorologias confirmatórias (teste molecular seguido de western-blot) e considerar tratamento após confirmação do diagnóstico de infecção pelo HIV. B) Iniciar imediatamente terapia antirretroviral, com associação e tenofovir, lamivudina e dolutegravir, independente da carga viral e da contagem de linfócitos-T CD4+ em sangue periférico. C) Coletar Carga Viral (CV) e contagem de linfócitos-T CD4+ em sangue periférico e indicar terapia antirretroviral caso CV > 2 log ou contagem de linfócitos-T CD4+ 3 log ou contagem de linfócitos-T CD4+o início da terapia antirretroviral para aguardar os valores de CV e linfócitos T CD4+, já que o tratamento está indicado independentemente dos seus resultados. Incorreta a alternativa D, porque, assim como explicado na alternativa C, a indicação do tratamento do HIV não depende dos valores de CD4 e CV. Antes de falarmos do esquema básico de tratamento da infecção pelo HIV, vamos aprender sobre os antirretrovirais: 5.1 AGENTES ANTIVIRAIS PARA TRATAMENTO DO HIV Analisando o ciclo de replicação do vírus, existem lugares em que algumas medicações conseguem atuar para interromper essa replicação. Vamos analisar essas classes e seus principais representantes: Classificação dos antirretrovirais Principais representantes Inibidores da transcriptase reversa análogos nucleosídeos e nucleotídeos (ITRN) - Tenofovir (TDF) - Abacavir (ABC) - Zidovudina (AZT) - Lamivudina (3TC) - Entricitabina (FTC) - Estavudina (D4T) Inibidores da transcriptase reversa não análogos nucleosídeos e nucleotídeos (ITRNN) - Efavirenz (EFV) - Etravirina (ETR) - Nevirapina (NVP) Inibidores de protease - Atazanavir (ATV) - Ritonavir (RTV) - Lopinavir (LPV) - Darunavir (DRV) Inibidores da integrase - Dolutegravir (DTG) - Raltegravir (RAL) Inibidores de fusão - Enfuvirtida (T-20) Antagonistas do CCR5 - Maraviroc (MVC) Inibidores da ligação - Fostemsavir Figura 13. Classificação dos antirretrovirais e seus principais representantes. Para adiantar, marquei em negrito as drogas preconizadas pelo Ministério da Saúde para o tratamento inicial do paciente com diagnóstico da infecção pelo HIV. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 31 Aqui nesta figura você consegue visualizar o ciclo de replicação do HIV e onde cada uma dessas classes atua: Figura 14. Esse é o ciclo de replicação do HIV. Os números indicam os passos da replicação viral. Os ITRN e ITRNN atuam impedindo o passo 4. Os inibidores da protease bloqueiam a quebra das proteínas formadas no passo 9, impedindo a produção de subunidades funcionais. Os inibidores da integrase bloqueiam o passo 6. 5.1.1 INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA ANÁLOGOS NUCLEOSÍDEOS E NUCLEOTÍDEOS (ITRN) Os inibidores da transcriptase reversa análogos nucleotídeos/nucleosídeos (ITRN) são as principais medicações usadas no tratamento do paciente infectado com o HIV. Certo, mas o que esse nome quer dizer? Pense comigo: eles são parecidos com os nucleotídeos/nucleosídeos (o tenofovir é um análogo da adenosina e a lamivudina e entricitabina da citosina) e, no momento da formação da fita do DNA do HIV, ligam- se à transcriptase reversa e bloqueiam a formação desse novo ácido nucléico. Essa classe é geralmente usada em pares. Outros exemplos de medicações dessa classe incluem a zidovudina, análogo da timidina, e o abacavir, da guanosina. O tenofovir e a lamivudina são ITRN que também têm ação contra o vírus da hepatite B, logo, essas drogas devem ser as preferidas para fazerem parte do esquema de tratamento do paciente coinfectado, já que reduzem o risco de complicações. A respeito dos efeitos colaterais dessa classe, a toxicidade mitocondrial é o mais importante. Ela pode manifestar-se através de neuropatia periférica, lipodistrofia, pancreatite e esteatose hepática. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 32 Vamos aprender agora alguns pontos específicos de algumas medicações dessa classe: • Abacavir (ABC). Essa medicação está contraindicada naqueles que testam positivo para o HLA-B 5701, já que eles têm um risco elevado de apresentar uma reação de hipersensibilidade grave. Além disso, o ABC deve ser evitado em pacientes com cardiopatias e/ou doença coronariana, afinal, ele foi associado a um aumento do risco de dislipidemia e infarto agudo do miocárdio. • Lamivudina (3TC) e entricitabina (FTC). Essas duas medicações são bem semelhantes e agem na mesma estrutura, por isso nunca devem ser usadas simultaneamente. São drogas bem toleradas, alguns efeitos colaterais (que são raros) incluem a pancreatite, que está associada à lamivudina, e alterações da cor da pele, que estão associadas à emtricitabina. A lamivudina também tem ação contra o vírus da hepatite B, logo, nos casos de coinfecção, é uma das drogas que devemos manter no esquema da TARV do paciente. • Fumarato de Tenofovir Desoproxila (TDF). Essa droga é amplamente usada no tratamento da infecção pelo HIV, fazendo parte do esquema básico inicial. Ela está associada a efeitos colaterais bem conhecidos, como disfunção renal e perda óssea (osteoporose/ osteopenia). Há uma outra formulação mais recente do tenofovir que é chamada de tenofovir alafenamida (TAF). Ela ainda não está disponível no Brasil, porém está cada vez mais sendo usada pelo mundo, já que tem um risco muito menor de toxicidade óssea e renal. Assim como a lamivudina, o TDF também tem ação contra o vírus da hepatite B. • Zidovudina (AZT). Essa medicação foi a primeira usada no tratamento dos pacientes com HIV/aids que reduziu a morbimortalidade da doença. Por ser uma droga mais antiga do que as outras de que já falei, tem mais efeitos adversos, incluindo cefaleia, anorexia, náuseas, vômitos e supressão da medula óssea, que é a toxicidade mais temida. O paciente pode apresentar anemia e/ou neutropenia. Essa anemia é o principal efeito colateral evidenciado no recém-nascido que precisou usar essa medicação como profilaxia. 5.1.2 INIBIDORES DA TRANSCRIPTASE REVERSA NÃO-ANÁLOGOS NUCLEOSÍDEOS E NUCLEOTÍDEOS (ITRNN) Os ITRNN ligam-se e inibem diretamente a enzima transcriptase reversa sem “parecerem” um nucleosídeo/ nucleotídeo, por isso seu sítio de ação é diferente dos ITRN. O efavirenz é o representante mais conhecido dessa classe e, antes da introdução do dolutegravir no Sistema Único de Saúde (SUS), ocupava seu lugar fazendo parte do esquema inicial de tratamento do Ministério da Saúde. Outras drogas dessa classe são a nevirapina (NVP), usada em alguns casos de resistência viral e na profilaxia da transmissão vertical, e a etravirina, também usada em situações de resistência viral. Como falei, o efavirenz é o grande conhecido dessa classe. É uma medicação que possui alguns efeitos colaterais bem indesejáveis, como terror noturno, confusão mental, sonhos vívidos, sensação constante de estar com “ressaca” e alterações psiquiátricas. Por isso, perdeu seu posto para o dolutegravir no esquema básico inicial. Não esqueça! O efavirenz é o antirretroviral que classicamente está relacionado a efeitos adversos, como confusão mental, sonhos vívidos, irritabilidade, ansiedade e ao terror noturno. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 33 CAI NA PROVA (RS - Associação Médica do Rio Grande do Sul - AMRIGS - 2024) Em relação à terapia antirretroviral para o tratamento do HIV, os pacientes que apresentam febre ou exantema durante exposição prévia podem desenvolver reações de hipersensibilidade intensa e potencialmente fatal caso ocorra a reexposição ao medicamento: A) Abacavir. B) Dolutegravir. C) Efavirenz. D) Rilpivirina. COMENTÁRIO: Se você encontrar alguma questão que cite reação de hipersensibilidade grave a algum antirretroviral, pense no abacavir! Lembre-se de que essa medicação está contraindicada naqueles que testam positivo para o HLA-B*5701, já que eles têm um risco elevado de apresentar uma reação de hipersensibilidade grave. Gabarito: alternativa A. (Hospital Nacional do Câncer – INCA – 2018) Affonso tem 29 anos e se queixa de tosse há 10 dias, associada à dispneia de caráter progressivo e febre não aferida. Além disso, apresenta perda ponderal de 10 kg no período de três meses com mal-estar geral e astenia constantes. Refere, ainda, a presença de múltiplas manchas na pele que surgiram há 2 meses e vêm aumentando. Desconhece qualquer doença prévia, e refere apenas etilismo social de fermentados. Ao exame - MEG, hipocorado ++/4+,anictérico, cianótico +/4+, STO2: 91%, sarcopênico e emagrecido. Apresenta múltiplas lesões cutâneas vinhosas, nodulares e bem delimitadas. PA: 80 x40 mm/Hg e peso: 62kg. AR - Taquidispneico, uso de musculatura acessória FR: 38 irpm, MVUA com raros estertores no final da expiração. ACV - RCR, BNF, taquicárdico e sopro sistólico no foco aórtico. Abdome - Escavado, fígado palpável há dois centímetros da RCD e Traube livre. Laboratório - Hb: 10,3 g/dL, Ht: 33%, VCM: 89 fL, leucócitos: 2.200/mm³ (segmentados: 86%, linfócitos: 2%), plaquetas: 75.000/mm³, creatinina: 0,6 mg/dL, ureia: 23 mg/dL, PCR: 32 mg/L, DHL: 756 U/L (Valor normal até 250), teste rápido de HIV: positivo. Gasometria arterial: pH: 7,21, PCO2: 46 mm/Hg, HCO3: 16 mEq/L, PO2: 52 mm/Hg, BE: -12,1 e STO2: 91%. O RX de tórax mostrou um infiltrado intersticial reticular fino no terço inferior, bilateralmente, sem derrame pleural. A terapia inicial para pacientes virgens de tratamento e sem contraindicação a nenhuma das drogas é uma combinação de três medicações: Efavirenz, Tenofovir e Lamivudina, medicação conhecida como o "3 em 1". Esta combinação tem impacto positivo no tratamento, principalmente no que diz respeito à aderência. Todavia, um efeito colateral conhecido como "terror noturno" pode atrapalhar a adesão e impactar na qualidade de vida do paciente. Este efeito está mais comumente associado ao (à) A) Tenofovir. B) Lamivudina. C) Interação medicamentosa entre o Tenofovir e a Lamivudina. D) Efavirenz. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 34 COMENTÁRIOS Essa questão é longa e conta um caso de um paciente com aids e pneumocistose, mas pergunta no final qual é o antirretroviral que está associado ao terror noturno. Eu sei que você já sabe a resposta. Vamos às alternativas: Incorreta a alternativa A. O tenofovir não está associado ao terror noturno. Seus efeitos adversos mais característicos são a nefropatia e a redução da densidade óssea. Incorreta a alternativa B. A lamivudina é uma droga bem tolerada e com pouca toxicidade. Incorreta a alternativa C. A interação do tenofovir com lamivudina não leva a efeitos colaterais relacionados ao sistema nervoso central. Correta a alternativa D. O efavirenz é o antirretroviral que classicamente está relacionado a efeitos adversos, como confusão mental, sonhos vívidos, irritabilidade, ansiedade e terror noturno. 5.1.3 INIBIDORES DA PROTEASE (IP) Como o nome já diz, eles inibem a protease, enzima que quebra proteínas do vírus, impedindo a produção de subunidades funcionais. Dessa forma, o vírus liberado pela célula é imaturo e não infectante. Todas as drogas dessa classe devem ser administradas juntamente com o ritonavir pelo seu efeito booster (que aumenta a meia-vida da droga). Isso leva a uma melhor potência da medicação e à possibilidade de administração das drogas em doses menores e com intervalos maiores. Os principais representantes dessa classe são o lopinavir/ritonavir, darunavir/ritonavir e atazanavir/ritonavir. Atualmente, são mais usados em casos de falha terapêutica em associação com outras drogas. São medicações potentes, mas que estão associadas a efeitos colaterais gastrointestinais e metabólicos, como resistência à insulina, hiperglicemia, diabetes, dislipidemia e hepatotoxicidade. Os inibidores de protease interagem com a rifampicina, droga que faz parte do tratamento da tuberculose. Por isso, devemos trocar uma das duas medicações caso nos encontremos em uma situação em que essas medicações possam ser prescritas em associação. Damos preferência para substituir a terapia antirretroviral do paciente, porém, em casos em que o esquema não possa ser modificado, devemos tirar a rifampicina e trocá-la pela rifabutina. Leia mais sobre o assunto no livro de Tuberculose! CAI NA PROVA (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO - SCMSP 2019) Um paciente com tuberculose pulmonar diagnosticada e Aids, em uso de tenofovir, lamivudina, atazanavir, ritonavir e dolutegravir, esquema antirretroviral que se baseia em genotipagem, não podendo ser modificado, deverá iniciar o tratamento da tuberculose. Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, a droga do esquema de tratamento de tuberculose de primeira escolha, a qual, devido à possível interação com antirretrovirais em uso, deverá ser substituída pela rifabutina, e a droga antirretroviral do esquema do paciente que causa essa interação. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 35 COMENTÁRIOS Eu avisei para você decorar, não é mesmo? Lembre-se: os inibidores de protease interagem com a rifampicina. Vamos analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A: a rifampicina é a droga do esquema básico que deve ser substituída pela rifabutina, porém não é com a lamivudina que ela interage, mas sim com os inibidores de proteases (como o atazanavir, ritonavir, lopinavir, darunavir). Incorreta a alternativa B, pois a isoniazida não tem interação com os antirretrovirais. Incorreta a alternativa C, pois, assim como explicado na alternativa anterior, a isoniazida não tem interação com os antirretrovirais. Incorreta a alternativa D, pois a pirazinamida também não interage com os antirretrovirais. A) rifampicina e lamivudina B) isoniazida e dolutegravir C) isoniazida e tenofovir D) pirazinamida e atazanavir E) rifampicina e atazanavir Correta a alternativa E. A droga do esquema de tuberculose que interage com os antirretrovirais é a rifampicina e a droga que o paciente usa que causa essa interação é o IP, nesse caso o atazanavir. 5.1.4 INIBIDORES DA INTEGRASE Os grandes representantes dessa classe são o dolutegravir e o raltegravir. São drogas que atuam na integrase. Como o nome já diz, essa enzima tem a função de integrar o novo DNA do vírus ao genoma do hospedeiro. O resultado do seu uso leva a um bloqueio desse processo, que é essencial para a replicação viral. São medicações bem toleradas, com elevada potência e poucos eventos adversos. Podem estar associadas a ganho de peso, tontura e insônia. O DTG pode bloquear a secreção tubular de creatinina, sem reduzir a filtração glomerular. Muitas vezes, isso acarreta uma elevação da creatinina sérica, mas que não tem relação com uma disfunção renal. Como já falei antes, essa classe é atualmente a de escolha, juntamente com dois ITRNs, para fazer parte do esquema básico inicial de tratamento de pacientes com HIV/aids. Logo mais, vou falar desse esquema para você. CAI NA PROVA (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE CUIABÁ – SCMCMT 2020) Raltegravir (RAL) deve ser administrado duas vezes ao dia, o que representa uma potencial desvantagem em relação a esquemas de tomada única diária. Podemos apenas concordar com o item: A) RAL apresenta péssima tolerabilidade, alta potência, poucas interações medicamentosas, eventos adversos pouco frequentes e segurança para o uso em coinfecções como hepatites e tuberculose. B) RAL apresenta excelente tolerabilidade, baixa potência, poucas interações medicamentosas, eventos adversos pouco frequentes e segurança para o uso em coinfecções como hepatites e tuberculose. C) RAL apresenta excelente tolerabilidade, alta potência, poucas interações medicamentosas, eventos adversos pouco frequentes e segurança para o uso em coinfecções como hepatites e tuberculose. Estratégia MED INFECTOLOGIA HIV Prof. Clarissa Cerqueira | Curso Extensivo | 2025 36 COMENTÁRIOS O raltegravir é um antirretroviral da classe dos inibidores da integrase, assim como o dolutegravir. É uma medicação muito boa, com poucos eventos adversos e bem tolerada. Vamos às alternativas? Incorreta a alternativa A, porque o raltegravir apresenta excelente tolerabilidade. Incorreta a alternativa B, porque o raltegravir é uma medicação com alta potência. Correta a alternativa C. O raltegravir é uma medicação muito boa e possui como vantagens a excelente tolerabilidade,