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<p>SUMÁRIO</p><p>INTRODUÇÃO ........................................................................................ 3</p><p>1. PROCEDIMENTOS COMUNS E ESPECIAIS ................................ 4</p><p>2. PROCEDIMENTO COMUM ORDINÁRIO ...................................... 5</p><p>2.1 Oferecimento da denúncia ou queixa crime ................................ 7</p><p>2.2 Audiência de instrução e julgamento ........................................... 9</p><p>3. PROCEDIMENTO COMUM SUMÁRIO ........................................ 10</p><p>3.1 Audiência de instrução e julgamento ......................................... 12</p><p>4. PROCEDIMENTO COMUM SUMARÍSSIMO ............................... 15</p><p>4.1 Competência territorial .............................................................. 17</p><p>5. PROCEDIMENTOS ESPECIAIS .................................................. 20</p><p>5.1 Dos processos de competência originária ................................. 20</p><p>5.2 Dos crimes funcionais ............................................................... 25</p><p>5.3 Dos crimes contra a honra ........................................................ 26</p><p>5.4 Dos crimes contra a propriedade imaterial ................................ 35</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................... 40</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezado aluno,</p><p>O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante</p><p>ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um</p><p>aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma</p><p>pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado.</p><p>O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e</p><p>todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em</p><p>perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que</p><p>serão respondidas em tempo hábil.</p><p>Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa</p><p>disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das</p><p>avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora</p><p>que lhe convier para isso.</p><p>A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser</p><p>seguida e prazos definidos para as atividades.</p><p>Bons estudos!</p><p>4</p><p>1. PROCEDIMENTOS COMUNS E ESPECIAIS</p><p>O conjunto de atos que devem ser seguidos em um tribunal durante um</p><p>processo é chamado de ‘procedimento’ conforme Reis e Gonçalves (2022). Em razão</p><p>do princípio constitucional do ‘devido processo legal’, esses ritos precisam ser</p><p>definidos por lei, para que as partes saibam antecipadamente como as coisas irão</p><p>acontecer e não sejam pegos de surpresa. É importante entender que, como isso é</p><p>uma questão de interesse público, as partes não podem simplesmente concordar em</p><p>seguir um procedimento diferente só porque acham ser melhor ou mais rápido, pois</p><p>isso poderia invalidar o processo judicial. Além disso, o juiz não pode encurtar ou</p><p>mudar o procedimento, já que isso causaria problemas legais no processo judicial,</p><p>como o vício da ação penal (REIS; GONÇALVES, 2022).</p><p>Um detalhe importante é que o artigo 394-A do Código de Processo Penal,</p><p>conforme alterado pela Lei n.º 13.285/2016, diz que os processos que envolvem crime</p><p>hediondo têm prioridade e devem ser tratados rapidamente em todas as instâncias.</p><p>Conforme o artigo 394 do Código de Processo Penal, alterado pela Lei nº</p><p>11.719/2008, existem dois tipos de procedimentos: comuns e especiais. Os</p><p>procedimentos comuns são divididos em três, como estabelecido no §1º do art. 394:</p><p>I. ordinário, para investigar crimes que tenham uma pena máxima em</p><p>abstrato igual ou superior a 4 anos e não tenham um procedimento de</p><p>rito especial previsto. Exs.: crimes de extorsão, tortura, estelionato, furto,</p><p>roubo, estupro, corrupção, falsificação de documento público etc.;</p><p>II. sumário, para os crimes que tenham uma pena máxima superior a 2</p><p>anos e inferior a 4 anos, e que não tenham um procedimento especial</p><p>previsto. Exs.: crimes de associação criminosa em sua modalidade</p><p>simples, tentativa de furto ou de apropriação indébita, homicídio culposo,</p><p>embriaguez ao volante etc.;</p><p>III. sumaríssimo, para investigar os delitos de menor potencial ofensivo, que</p><p>são tratados nos Juizados Especiais Criminais, conforme estabelecido</p><p>no artigo 98, inciso I, da Constituição Federal. São considerados delitos</p><p>de menor gravidade ou como comumente intitulados crimes de ‘menor</p><p>5</p><p>potencial ofensivo’ todas as contravenções penais, bem como os crimes</p><p>cuja pena máxima não ultrapasse 2 anos.</p><p>Ao determinar o procedimento para os crimes, o fator considerado é a</p><p>quantidade máxima de pena, não o tipo de pena - reclusão ou detenção.</p><p>Os procedimentos especiais são os outros métodos estabelecidos no Código</p><p>de Processo Penal em leis especiais, como na Lei Maria da Penha (Lei nº</p><p>11.340/2006), no Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), na Lei de Drogas (Lei nº</p><p>11.343/2006), e na Lei de Falências (Lei nº 11.101/2005). Eles são denominados</p><p>‘especiais’ em razão de se aplicarem apenas a certos tipos de crimes. No Código de</p><p>Processo Penal, há um procedimento especial para investigar crimes dolosos contra</p><p>a vida (conhecido como procedimento do Júri), de outro modo, crimes contra a honra</p><p>e crimes cometidos por funcionários públicos durante o desempenho de suas funções</p><p>(denominados crimes funcionais) e crimes contra a propriedade intelectual (REIS,</p><p>GONÇALVES, 2022).</p><p>O objetivo do texto é discorrer sobre cada um desses procedimentos,</p><p>introduzindo pelos chamados procedimentos comuns, e, por fim, pelos procedimentos</p><p>especiais definidos no Código de Processo Penal.</p><p>2. PROCEDIMENTO COMUM ORDINÁRIO</p><p>Por muitos anos, nossa legislação seguiu a ordem de aplicar o procedimento</p><p>do rito ordinário aos crimes punidos com reclusão, não importando a pena. No entanto,</p><p>com a introdução da Lei nº 11.719/2008, que modificou o artigo 394 do Código de</p><p>Processo Penal, houve uma mudança significativa nesse aspecto. Agora, esse</p><p>procedimento é aplicado aos crimes que contenham pena máxima em abstrato igual</p><p>a 4 anos ou superior, independentemente de serem punidos com reclusão ou</p><p>detenção. Por isso, atualmente, um crime como associação criminosa simples</p><p>(previsto no artigo 288, caput, do Código Penal) não adota o rito ordinário, pois sua</p><p>pena máxima é de 3 anos, apesar de ser punido com pena de reclusão. Em</p><p>contrapartida, o crime de duplicata simulada, que possui pena máxima de 4 anos, é</p><p>punido com pena de detenção, seguindo o rito ordinário.</p><p>6</p><p>Para determinar o procedimento a ser seguido, é importante considerar as</p><p>‘qualificadoras’, assim como as causas de aumento e diminuição da pena, pois elas</p><p>afetam a quantidade máxima de pena em abstrato. Por exemplo, o crime de</p><p>associação criminosa armada segue o procedimento comum porque o parágrafo único</p><p>do artigo 288 do Código Penal estabelece que a pena (reclusão, de 1 a 3 anos)</p><p>aumente em até metade se os membros estiverem armados ou se houver</p><p>envolvimento de criança ou adolescente. Portanto, a pena máxima é de 4 anos e 6</p><p>meses, justificando a aplicação do rito ordinário. De outro modo, o crime de tentativa</p><p>de furto simples tem uma pena máxima inferior a 4 anos, exatamente devido a redução</p><p>de 1/3 a 2/3 que deverá ser aplicado em razão da ‘tentativa’ em relação à sua pena</p><p>original de 4 anos (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Quando há um concurso de crimes conexos que devam ser investigados juntos,</p><p>não é difícil concluir que o rito ordinário deve ser adotado na hipótese em que um</p><p>deles possuir pena máxima igual ou superior a 4 anos, e o outro não. Por exemplo,</p><p>imagine alguém que cometa um roubo (com pena máxima de 10 anos) e, ao ser</p><p>abordado pela polícia, agrida os policiais para evitar a prisão, cometendo assim o</p><p>crime de resistência (com pena máxima de 2 anos). É</p><p>de recebimento da queixa sem essa medida prévia é</p><p>nula.</p><p>Para solicitar a realização de busca e perícia da obra científica, literária ou</p><p>artística, o interessado deve comprovar sua legitimidade, conforme o art. 526 do CPP,</p><p>por exemplo, apresentando provas de que a obra é de autoria própria.</p><p>37</p><p>Uma vez comprovado o direito à ação, o ofendido deverá requerer ao juiz a</p><p>nomeação de 2 peritos para realizar a busca e verificar se há fundamentos para</p><p>apreensão. Como se trata de um rito especial que especificamente exigem-se 2</p><p>peritos, não se aplica a regra geral do processo penal, que se contenta com apenas 1</p><p>perito, de acordo com o art. 159, caput, do CPP.</p><p>Será feita uma busca para permitir que os peritos realizem uma vistoria com o</p><p>objetivo de examinar e descrever os bens em disputa. A efetiva apreensão dos</p><p>objetos, limitada aos exemplares estritamente necessários para a efetuação da</p><p>perícia, ficará a critério dos peritos.</p><p>O laudo pericial deve ser apresentado em até 3 dias após a diligência, excluindo</p><p>o dia em que este for realizado, consoante com o art. 798, § 1º, do Código de Processo</p><p>Penal, independentemente da apreensão de bens (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Posteriormente a homologação do laudo, os autos nos quais o pedido de</p><p>diligências foi realizado permanecerão em cartório, esperando o ajuizamento da ação</p><p>penal pelo ofendido. Visto que a ação é proposta, seguirá as disposições da Lei n.</p><p>9.099/95, pois a pena máxima prevista para o crime simples é de 1 ano.</p><p>Relativo ao prazo decadencial, o Código de Processo Penal, em seu art. 529,</p><p>caput, estabelece que não se admitirá a queixa após decorrido 30 dias da</p><p>homologação do laudo. Destarte, surgiu uma relevante discussão sobre este</p><p>dispositivo, se prevaleceria sobre as normas contidas no art. 38 do CPP e no art. 103</p><p>do Código Penal. Alguns entendem que o caput do art. 529 criou um prazo</p><p>decadencial especial para exercer o direito de queixa, modificando a regra geral que</p><p>estabelece um prazo semestral a partir do conhecimento da autoria. No entanto, há</p><p>argumentos contrários a essa interpretação, destacando que isso condicionaria o</p><p>início do prazo de decadência à iniciativa do ofendido em requerer busca e apreensão,</p><p>além de criar uma diversidade de prazos para crimes que deixam vestígios e crimes</p><p>que não deixam.</p><p>À vista disso, a doutrina consolidou o entendimento de que o prazo previsto no</p><p>artigo mencionado se refere à eficácia da medida de busca e apreensão para financiar</p><p>a propositura da ação penal, semelhante ao que transcorre no processo civil com as</p><p>medidas cautelares. Deste modo, decorridos os 30 dias da homologação do laudo, o</p><p>38</p><p>ofendido ainda pode ajuizar a ação penal, desde que dentro do prazo geral de 6</p><p>meses, contanto que repita a providência preliminar.</p><p>Quando se tratar de réu preso em flagrante, o prazo de validação da</p><p>providência de busca e apreensão será de 8 dias, em conformidade com o</p><p>estabelecido no art. 530 do CPP. O STJ consolidou entendimento no sentido de que</p><p>o prazo decadencial de 6 meses previsto no art. 38 do CPP, contados a partir da</p><p>ciência adjacente a autoria do fato, é reduzido para 30 dias caso o laudo seja</p><p>homologado nesse intervalo.</p><p>De outro modo, em relação aos crimes de ação penal de iniciativa pública, nos</p><p>casos de crimes cuja ação é de iniciativa pública, condicionada ou incondicionada</p><p>(figuras qualificadas do crime de violação de direito autoral), devem ser observadas</p><p>as disposições dos arts. 530-B a 530-H do CPP (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>No momento em que a autoridade recebe notícia da infração, deverá efetuar à</p><p>apreensão de todos os bens produzidos ou reproduzidos ilicitamente, assim como os</p><p>materiais, equipamentos e suportes que incentivam sua existência, desde que sua</p><p>destinação principal seja a prática do ilícito (art. 530-B).</p><p>Um termo será lavrado desse ato para ser anexado ao inquérito ou ao processo</p><p>posteriormente, devendo ser assinado por pelo menos 2 testemunhas e conter uma</p><p>descrição detalhada de todos os bens apreendidos, além de informações sobre sua</p><p>origem (art. 530-C).</p><p>Todos os bens apreendidos serão analisados por perito oficial, e na ausência</p><p>deste, por pessoa tecnicamente habilitada, a qual elaborará um laudo destinado a</p><p>instruir o inquérito ou o processo (art. 530-D). Considerando o mencionado no</p><p>dispositivo, que todos os bens devem ser submetidos à perícia, o Superior Tribunal</p><p>de Justiça permite a perícia por amostragem no caso de violação de direito autoral</p><p>consistente em pirataria de CDs ou DVDs.</p><p>Depois de realizada a perícia, os bens serão remetidos aos titulares do direito</p><p>autoral, que os receberão na qualidade de depositários e serão impostos a apresentá-</p><p>los ou entregá-los em juízo, nas situações em que for estabelecido (art. 530-E).</p><p>No momento em que o autor da conduta controvertida omitir a impugnação da</p><p>apreensão, deixando incontroversa a ofensa à propriedade intelectual, ou nos</p><p>39</p><p>momentos em que não houver recursos suficientes para determinar a autoria do crime,</p><p>o juiz determinará de imediato a destruição da produção ou reprodução apreendida, a</p><p>requerimento do ofendido, exceto nos casos em que houver necessidade de preservar</p><p>o corpo de delito (art. 530-F). Nas circunstâncias em que tal providência não tenha</p><p>sido tomada, após a sentença condenatória, o juiz determinará a destruição dos bens</p><p>ilicitamente produzidos ou reproduzidos e anunciará o perdimento, em prol da</p><p>Fazenda Nacional, dos equipamentos porventura apreendidos que se destinarem à</p><p>produção ou reprodução dos bens (art. 530-G). Logo após ao oferecimento da</p><p>denúncia, seguirá o rito processual ordinário (art. 524 do CPP) (REIS, GONÇALVES,</p><p>2022).</p><p>40</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>BRASIL. Código de Processo Penal. Decreto-Lei 3689, de 03 de outubro de 1941.</p><p>BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula nº 714. Sessão Plenária de 24/9/2003.</p><p>BRASIL. Código Penal. Decreto-Lei 2.848, de 07 de dezembro de 1940.</p><p>CAPEZ, F. Curso de Processo Penal. 31. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2024.</p><p>LOPES, A. Jr. Direito Processual Penal. 17. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020.</p><p>PACELLI, E. Curso De Processo Penal. 25. ed. São Paulo: Atlas, 2021.</p><p>REIS, A. C. A; GONÇALVES, V. E. R. Direito Processual Penal. Organizado por</p><p>Lenza, P. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2022.</p><p>incontestável que a necessidade</p><p>de investigação em uma única ação penal leva à adoção do rito ordinário.</p><p>A situação se torna um pouco mais complicada quando há conexão entre dois</p><p>crimes que, individualmente, seguiriam o rito sumário. Por exemplo, imagine alguém</p><p>que, embriagado, dispare acidentalmente com uma arma de fogo, da qual possui</p><p>porte, resultando na morte de outra pessoa, e em seguida fuja conduzindo um veículo</p><p>em via pública. Os crimes cometidos por esta pessoa (homicídio culposo e embriaguez</p><p>ao volante) têm uma pena máxima de 3 anos cada um. Surge a dúvida: devemos</p><p>seguir o rito sumário porque nenhum dos crimes tem uma pena que atinge o limite de</p><p>4 anos, ou devemos adotar o rito ordinário com base na soma das penas devido ao</p><p>concurso material? Como não há uma resposta clara no respectivo texto legal, é</p><p>recomendável optar pelo procedimento mais abrangente, que oferece mais</p><p>oportunidades de defesa, ou seja, o rito ordinário. Vale ressaltar que, neste caso, a</p><p>soma das penas provoca a alteração no procedimento judicial, mas não na</p><p>competência.</p><p>7</p><p>Por último, no contexto da competência, caso haja conexão entre qualquer</p><p>crime com pena máxima igual ou superior a 4 anos em conjunto com um crime doloso</p><p>contra a vida, ambos serão julgados pelo Tribunal do Júri, mesmo que a pena deste</p><p>último seja menor. Por exemplo, durante a efetuação de um aborto numa clínica, um</p><p>assaltante entra no local, mas é flagrado consumando o roubo, por policiais. Os</p><p>policiais prendem também o médico por crime de aborto consentido pela gestante</p><p>(artigo 126 do Código Penal) e efetuam a prisão da gestante pelo consentimento dado</p><p>ao ato abortivo (artigo 124, 2ª parte, do Código Penal). A pena máxima do médico é</p><p>de 4 anos, a da gestante é de 3 anos e a do assaltante é de 10 anos. No entanto,</p><p>todos serão julgados pelo Tribunal do Júri, seguindo o procedimento especial</p><p>correspondente (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>2.1 Oferecimento da denúncia ou queixa crime</p><p>Após a conclusão da fase de investigações, nos casos em que o Ministério</p><p>Público oferecer denúncia nos crimes de ação pública, ou se o ofendido ou seu</p><p>representante oferecer queixa-crime nos crimes de ação privada, ou ainda de forma</p><p>subsidiária nos crimes de ação pública devido à inércia do Ministério Público, os autos</p><p>serão expedidos ao juiz para que ele verifique se os requisitos legais para o seu</p><p>recebimento estão presentes.</p><p>O juiz possui um prazo de 5 dias para proferir sua decisão, por ela possuir</p><p>natureza interlocutória simples (conforme o artigo 800, inciso II, do Código de</p><p>Processo Penal). Se a denúncia for recebida, dá-se início a ação penal. A prescrição</p><p>consequentemente é interrompida, e um novo prazo prescricional começa a correr a</p><p>partir da decisão (conforme o artigo 117, inciso I, do Código Penal).</p><p>Não há um recurso específico contra o recebimento da denúncia, mas o</p><p>acusado pode impetrar um habeas corpus para tentar encerrar a ação penal,</p><p>argumentando, por exemplo, que o fato descrito na denúncia é claramente atípico. No</p><p>entanto, essa impetração não suspende o andamento da ação penal, a menos que o</p><p>Relator, de forma urgente, ordene a suspensão até a decisão final do habeas corpus</p><p>(REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>8</p><p>Devido ao princípio do ‘impulso oficial’, o juiz, ao receber a queixa ou denúncia,</p><p>determina que o próximo passo do procedimento seja a citação do acusado. De outro</p><p>modo, a rejeição da denúncia ou queixa pode ocorrer em algumas situações</p><p>específicas, conforme descrito no artigo 395 do Código de Processo Penal:</p><p>I — Inépcia manifesta: isso ocorre quando a peça apresentada contém uma</p><p>narrativa dos fatos incompreensível, não identifica suficientemente o réu ou não</p><p>atende aos requisitos mínimos exigidos pelo artigo 41 do Código de Processo</p><p>Penal para a denúncia ou queixa, entre outros problemas semelhantes.</p><p>II — Falta de pressuposto processual ou de condição da ação penal: a falta de</p><p>pressuposto processual refere-se à ilegitimidade da parte, podendo ser ativa</p><p>(como no caso de uma queixa-crime é oferecida por alguém que não é a vítima</p><p>do crime ou seu representante legal) ou passiva (como uma denúncia contra</p><p>um menor de 18 anos, por exemplo). Já a falta de condição da ação ocorre</p><p>quando o promotor oferece uma denúncia em um crime de ação pública</p><p>condicionada sem que haja a necessária representação do ofendido ou a</p><p>requisição do Ministro da Justiça.</p><p>Nas situações em que a queixa ou denúncia são rejeitadas conforme previsto</p><p>no inciso II, a ação pode ser proposta novamente, desde que seja feita pela</p><p>parte legítima (primeira hipótese) ou que a condição ausente anteriormente</p><p>esteja presente (segunda hipótese).</p><p>III — Falta de justa causa para o exercício da ação penal: várias circunstâncias</p><p>existem quando a falta de justa causa é observada, como a evidente falta de</p><p>tipicidade da conduta descrita na queixa ou denúncia, a ausência de indícios</p><p>suficientes de autoria ou materialidade em relação ao crime descrito, a</p><p>prescrição ou outra causa de extinção da punibilidade, entre outros motivos.</p><p>Em oposição a decisão que nega (rejeita) a denúncia ou queixa, cabe recurso</p><p>em sentido estrito (conforme o artigo 581, inciso I, do Código de Processo Penal). Se</p><p>esse recurso for interposto, o juiz deve intimar a parte contrária para que, se desejar,</p><p>ofereça contrarrazões. Segundo a Súmula nº 707 do Supremo Tribunal Federal, "a</p><p>falta de intimação do denunciado para oferecer contrarrazões ao recurso interposto</p><p>da rejeição da denúncia constitui nulidade, não sendo suprida pela nomeação de</p><p>9</p><p>defensor dativo". Se o Tribunal decidir a favor do recurso, a decisão passa a valer no</p><p>mesmo instante, com o recebimento da denúncia, o que interrompe o prazo</p><p>prescricional, conforme a Súmula nº 709 do STF (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>2.2 Audiência de instrução e julgamento</p><p>Caso o juiz não tenha absolvido sumariamente o acusado, ele deve agendar a</p><p>audiência de instrução e julgamento para uma data que não exceda 60 dias (de acordo</p><p>com o artigo 400 do Código de Processo Penal) e determinar a intimação do Ministério</p><p>Público, a intimação do acusado e de seu defensor e, se aplicável, do querelante e do</p><p>assistente de acusação (conforme o artigo 399 do CPP).</p><p>Se o querelante na ação privada não comparecer injustificadamente quando</p><p>sua presença pessoal foi ordenada, resultará em ‘perempção’ (conforme o artigo 60,</p><p>inciso III, do CPP). Caso haja uma justificativa para sua ausência, a audiência será</p><p>adiada.</p><p>Na hipótese de uma ação pública subsidiária, a ausência injustificada do</p><p>querelante impulsiona o Ministério Público a retomar a titularidade da ação e a</p><p>audiência seja realizada conforme agendado. Na falta do réu solto, do assistente de</p><p>acusação ou do advogado do querelante, contanto que estejam notificados, o</p><p>adiamento não ocorrerá, conforme o artigo 457 do CPP.</p><p>Se o representante do Ministério Público estiver ausente, o ato será adiado.</p><p>Caso a ausência não seja justificada, o juiz deverá enviar um ofício ao Procurador-</p><p>Geral de Justiça para tomar as devidas providências administrativas. A nomeação de</p><p>um promotor ‘ad hoc’ é inviável devido à restrição estabelecida pelo artigo 129, § 2º,</p><p>da Constituição Federal.</p><p>A audiência poderá ser adiada também se, por motivo justificado, o defensor</p><p>não tiver condições de comparecer, conforme o artigo 265, §1º, do CPP. É</p><p>responsabilidade do defensor provar seu impedimento até o início da audiência. Caso</p><p>não o faça, o juiz ordenará a realização do ato, sendo obrigado a nomear um defensor</p><p>substituto ‘ad hoc’, mesmo que temporariamente, ou apenas para esse propósito, de</p><p>acordo com o artigo 265, § 2º, do CPP.</p><p>10</p><p>Se o réu estiver recluso, sua apresentação será requisitada para o dia da</p><p>audiência. A não apresentação do réu ou a falta de requisição impedem que se realize</p><p>o ato. Se possuir uma testemunha que precise ser ouvida por meio de</p><p>carta precatória,</p><p>o juiz responsável dará um prazo razoável para que seja realizada e devolvida, e as</p><p>partes serão intimadas sobre sua expedição. O envio da carta precatória não impede</p><p>a instrução. Após o prazo cedido pelo juiz, o julgamento pode ocorrer, mas, a qualquer</p><p>momento, quando a carta precatória for devolvida, será composta nos autos, de</p><p>acordo com o artigo 222 do CPP (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Durante a audiência de instrução, os seguintes procedimentos serão</p><p>conduzidos:</p><p>• oitiva da vítima;</p><p>• oitiva das testemunhas de acusação;</p><p>• oitiva das testemunhas de defesa;</p><p>• interrogatório do réu;</p><p>• oportunidade para requerimentos;</p><p>• debates orais;</p><p>• julgamento.</p><p>3. PROCEDIMENTO COMUM SUMÁRIO</p><p>O rito sumário é designado para lidar com crimes que possuem sansão máxima</p><p>estabelecida inferior a 4 anos de pena privativa de liberdade, como especificado nos</p><p>artigos 531 a 538 do Código de Processo Penal, de acordo com Lopes (2020). Na</p><p>prática, à algumas diferenças do rito ordinário, sendo notável pela redução do prazo</p><p>para a realização da audiência de instrução e julgamento, que é estabelecido em até</p><p>30 dias (enquanto no rito ordinário o prazo é de 60 dias), e pelo número limitado de</p><p>testemunhas, sendo de até 5 no procedimento sumário, e consentido até 8 no</p><p>procedimento ordinário (LOPES, 2020).</p><p>O artigo 394, § 4º, do CPP, define que as disposições dos artigos 395 a 399</p><p>são aplicáveis a todos os procedimentos penais de primeiro grau. Por isso, a estrutura</p><p>11</p><p>do procedimento acaba sendo semelhante àquela encontrada no procedimento</p><p>ordinário.</p><p>O art. 531 do CPP determina que:</p><p>Art. 531. Na audiência de instrução e julgamento, a ser realizada no prazo</p><p>máximo de 30 (trinta) dias, proceder-se-á à tomada de declarações do</p><p>ofendido, se possível, à inquirição das testemunhas arroladas pela acusação</p><p>e pela defesa, nesta ordem, ressalvado o disposto no art. 222 deste Código,</p><p>bem como aos esclarecimentos dos peritos, às acareações e ao</p><p>reconhecimento de pessoas e coisas, interrogando-se, em seguida, o</p><p>acusado e procedendo-se, finalmente, ao debate (Redação dada pela Lei nº</p><p>11.719, de 2008).</p><p>Observa-se a ausência de previsão para solicitação de diligências ao término</p><p>da audiência, como acontece no procedimento ordinário (artigo 402), assim como a</p><p>ausência de substituição dos memoriais por debates orais, tudo em uma tentativa de</p><p>acelerar o processo. No entanto, não há impedimento para que esses procedimentos</p><p>sejam realizados quando, no caso concreto, a complexidade das provas e das</p><p>circunstâncias fáticas assim o exigir. A alegação de que isso resultaria em uma</p><p>‘ordinarização’ do procedimento é válido, porém fraco. Isso ocorre porque, na prática,</p><p>as diferenças entre os ritos são superficiais, reduzindo-se a uma mera reunião de</p><p>procedimentos. Portanto, qualquer alteração implica em uma ‘ordinarização’, de</p><p>maneira que a crítica é infundada. O que não se pode aceitar é um processo ainda</p><p>mais negligente.</p><p>Por último, o rito sumário será aplicado apenas quando não for possível utilizar</p><p>o rito sumaríssimo, conforme previsto na Lei nº 9.099. Destarte, nos crimes em que a</p><p>pena máxima prevista seja superior a 2 anos e inferior a 4 anos, o procedimento</p><p>sumário é adotado, pois, caso a pena máxima seja inferior a 2 anos, é utilizado o</p><p>procedimento sumaríssimo dos Juizados Especiais Criminais (LOPES, 2020).</p><p>PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE O RITO ORDINÁRIO E O SUMÁRIO</p><p>Ordinário Sumário</p><p>▪ Crimes com pena máxima igual</p><p>ou superior a 4 anos.</p><p>▪ Crimes com pena superior a 2</p><p>anos e inferior a 4 (ou crimes com</p><p>pena não superior a 2 anos em que o</p><p>12</p><p>réu tenha sido encontrado para</p><p>citação pessoal ou cometidos com</p><p>violência doméstica ou familiar contra</p><p>a mulher).</p><p>▪ Máximo de 8 testemunhas. ▪ Máximo de 5 testemunhas.</p><p>▪ Prazo de 60 dias para a audiência</p><p>de instrução.</p><p>▪ Prazo de 30 dias para a</p><p>audiência de instrução</p><p>▪ Possibilidade de requerimento de</p><p>diligências ao término da instrução.</p><p>▪ Impossibilidade de pedido de</p><p>novas diligências ao término da</p><p>instrução.</p><p>▪ Possibilidade de conversão dos</p><p>debates orais em memoriais e da</p><p>prolação posterior da sentença no prazo</p><p>de 10 dias.</p><p>▪ Impossibilidade de conversão</p><p>dos debates orais em memoriais e da</p><p>prolação posterior da sentença.</p><p>Fonte: adaptado de Reis e Gonçalves (2022).</p><p>3.1 Audiência de instrução e julgamento</p><p>Uma vez oferecida a denúncia, no rito procedimental sumário, seguirá o rito</p><p>estabelecido nos arts. 531 a 538 do Código de Processo Penal. Os atos instrutórios</p><p>são concentrados em uma única audiência, sendo o interrogatório o último ato a ser</p><p>realizado. Em casos excepcionais, é permitida a divisão do procedimento, quando não</p><p>for viável realizar todos os atos em uma única audiência, em consonância com Capez</p><p>(2024). Os atos procedimentais seguem a seguinte ordem:</p><p>I. Remessa do inquérito policial;</p><p>II. Distribuição e abertura de vista ao promotor;</p><p>III. O promotor tem 3 opções: oferece a denúncia; solicitar novas diligências;</p><p>requer o arquivamento;</p><p>IV. Com o recebimento da denúncia, cita-se o réu;</p><p>V. Interrogatório do acusado;</p><p>VI. Defesa prévia: 3 dias;</p><p>VII. Audiência para oitiva das testemunhas de acusação: até 5 testemunhas;</p><p>13</p><p>VIII. Despacho saneador (atualmente em desuso), onde o magistrado, nas</p><p>situações em que ache necessário, determina que se produzam as</p><p>diligências imprescindíveis para esclarecer a verdade, independente da</p><p>solicitação das partes, para que se corrijam eventuais irregularidades e</p><p>determine a audiência de instrução, debates e julgamento para um dos</p><p>oito dias subsequentes, notificando o Ministério Público, o réu e seu</p><p>defensor (art. 538, caput);</p><p>IX. Audiência de julgamento.</p><p>Com relação as testemunhas de defesa, na audiência, eram interrogadas e,</p><p>nas situações em que o juiz considerasse necessário alguma diligência adicional,</p><p>agendava a continuação do julgamento para um dos 5 dias subsequentes (caso não</p><p>fosse possível a resolução da diligência na mesma audiência), providenciando as</p><p>medidas necessárias (art. 538, § 4º). Se não houvesse diligências pendentes ou se</p><p>estas já tivessem sido efetuadas, prosseguia-se para os debates orais.</p><p>Já nos debates orais, cada parte possuía 20 minutos para se manifestar,</p><p>podendo o juiz, a seu critério, prorrogar por mais 10 minutos. É permitida a substituição</p><p>da manifestação oral por memoriais, não acarretando nulidade, pois representa uma</p><p>ampliação do direito de defesa. Findado os debates,</p><p>o juiz proferia a sentença, consoante com o art. 538, § 3º (final). Caso não se</p><p>considerasse apto para tomar a decisão na audiência, determinava que os autos</p><p>fossem imediatamente encerrados, e dentro de 5 dias proferia a sentença, de acordo</p><p>com o art. 538, § 3º (CAPEZ, 2024).</p><p>A legislação centraliza toda a fase de instrução em uma única audiência, com</p><p>a possibilidade de separação dos atos apenas em circunstâncias excepcionais como:</p><p>I. Remessa do inquérito policial;</p><p>II. Distribuição e vista ao promotor;</p><p>III. Oferecimento da denúncia ou queixa;</p><p>IV. Análise pelo juiz para possível rejeição liminar, considerando todos os</p><p>requisitos do artigo 395 do Código de Processo Penal, como condição</p><p>da ação e possibilidade jurídica do pedido;</p><p>14</p><p>V. Se não houver rejeição liminar, o juiz a receberá e ordenará a citação do</p><p>acusado para responder à acusação por escrito, dentro de dez dias (art.</p><p>396 do CPP);</p><p>VI. Após a resposta do acusado, o juiz examinará a possibilidade de</p><p>absolvição sumária (art. 397 do CPP). Esta é uma etapa obrigatória;</p><p>decorrido o prazo de 10 dias para o seu oferecimento, o juiz</p><p>obrigatoriamente nomeará um defensor para realizar o ato;</p><p>VII. Não sendo cabível absolvição sumária, o juiz designará dia e hora para</p><p>a audiência de instrução e julgamento, intimando o acusado, seu</p><p>defensor, o Ministério Público e, se aplicável, o querelante e o assistente</p><p>(art.</p><p>399 do CPP). A audiência será única, em conformidade com o</p><p>princípio da concentração dos atos processuais;</p><p>VIII. A realização da audiência de instrução e julgamento, será conduzida no</p><p>prazo máximo de 30 dias (art. 531 do CPP):</p><p>• Colheita do depoimento do ofendido;</p><p>• Interrogatório de até 5 testemunhas apresentadas pela acusação (CPP,</p><p>art. 532). É importante observar que, cabe à parte que convocou a</p><p>testemunha fazer as perguntas inicialmente, não ao juiz. Este sistema é</p><p>conhecido como inquirição direta, inspirado no modelo norte-americano,</p><p>intitulado ‘cross-examination’. O juiz pode complementar o interrogatório</p><p>para esclarecer pontos não elucidados (CPP, art. 212, parágrafo único)</p><p>(CAPEZ, 2024);</p><p>• Interrogatório de até 5 testemunhas indicadas pela defesa, salvo o</p><p>disposto no art. 222 deste Código. Aplicam-se as observações feitas no</p><p>item II. As testemunhas presentes serão interrogadas,</p><p>independentemente da suspensão da audiência, observando-se a</p><p>ordem estabelecida no art. 531 deste Código (CPP, art. 536);</p><p>• Esclarecimentos dos peritos;</p><p>• Realização de acareações;</p><p>• Reconhecimento de pessoas e objetos;</p><p>• Interrogatório subsequente do acusado;</p><p>15</p><p>• Serão orais as alegações finais, concedendo-se à acusação e à defesa</p><p>o prazo de 20 minutos cada, prorrogáveis por mais 10 minutos, e então</p><p>o juiz proferirá a sentença (CPP, art. 534, caput). Possuindo mais de um</p><p>acusado, o tempo concedido para a defesa de cada um será individual</p><p>(CPP, art. 534, § 1º). Ao assistente do Ministério Público serão</p><p>concedidos 10 minutos após a manifestação deste, prorrogável por igual</p><p>período ao tempo da defesa (CPP, art. 534, § 2º);</p><p>Por fim, relativo ao adiamento do ato processual, nenhum ato será adiado,</p><p>exceto nas circunstâncias em que seja imprescindível a obtenção de uma prova</p><p>essencial, evento em que o juiz determinará a condução coercitiva da pessoa que</p><p>deva comparecer (CPP, art. 535). Assim, sendo necessário realizar uma diligência</p><p>fundamental, permite-se a divisão da audiência, e, consequentemente, permite-se a</p><p>apresentação das alegações finais por meio de memorial (CAPEZ, 2024).</p><p>4. PROCEDIMENTO COMUM SUMARÍSSIMO</p><p>Indubitavelmente, a Lei nº 9.099/95 ficou marcado no processo penal brasileiro,</p><p>ao romper com a estrutura tradicional de resolução de conflitos e introduzir uma</p><p>mudança substancial na ideologia então dominante. A implementação de medidas</p><p>descaracterizadoras e despenalizadoras inaugurou um inovado paradigma para o</p><p>tratamento da violência. Mas, sobretudo, marcou a entrada do ‘espaço negocial’ no</p><p>processo penal brasileiro, uma tendência que só tende a se expandir, como</p><p>evidenciado pelas propostas analisadas no contexto da reforma do Código de</p><p>Processo Penal (LOPES, 2020).</p><p>A autorização constitucional para essa mudança é fornecida pelo artigo 98,</p><p>inciso I, da Constituição, que prevê a possível de criação dos Juizados Especiais</p><p>Criminais para lidar com as infrações penais de menor potencial ofensivo.</p><p>No entanto, a Lei nº 9.099/95 não trouxe apenas a criação dos Juizados</p><p>Especiais Criminais (JECrim). Também apresentaram outros institutos importantes</p><p>incorporados ao sistema processual penal brasileiro, como a a suspensão condicional</p><p>16</p><p>do processo, a composição dos danos civis e a transação penal. De acordo com o art.</p><p>62 da Lei nº 9.099/95:</p><p>Art. 62. O processo perante o Juizado Especial será conduzido com base nos</p><p>princípios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e</p><p>celeridade, visando, sempre que possível, à reparação dos danos sofridos</p><p>pela vítima e à aplicação de penas que não privem a liberdade (Redação</p><p>dada pela Lei nº 13;603, 2018).</p><p>São consideradas infrações penais de menor potencial ofensivo as</p><p>contravenções penais e os crimes para os quais a Lei estabelece pena máxima até 2</p><p>anos, seja com ou sem multa. No que diz respeito à competência do JECrim no âmbito</p><p>federal, é necessário observar dois critérios cumulativos:</p><p>▪ O delito praticado deve estar sob a competência da justiça federal, ou</p><p>seja, deve se enquadrar em uma das situações previstas no artigo 109</p><p>da Constituição;</p><p>▪ A pena máxima do crime não deve exceder 2 anos, ou o crime deve ser</p><p>exclusivamente punível com multa.</p><p>Quando ambos os requisitos estiverem presentes, o caso penal será</p><p>encaminhado ao JECrim federal; caso contrário, será de competência da justiça</p><p>estadual. Isso ocorre com crimes cometidos em detrimento de serviços, bens ou</p><p>interesses da entidade autárquica ou empresa pública, da União ou qualquer crime</p><p>praticado por ou contra servidor público federal no exercício de suas funções, desde</p><p>que a pena não exceda 2 anos. Exemplos incluem: prevaricação (art. 319), peculato</p><p>culposo (art. 312, § 2º), condescendência criminosa (art. 320), resistência (art. 329),</p><p>advocacia administrativa (art. 321), desobediência (artigo 330), desacato (artigo 331),</p><p>entre outros (LOPES, 2020).</p><p>No parágrafo único, a Lei estabelece que em casos de conexão ou continência,</p><p>se aplicável, entre um crime de atribuição do JECrim e outro de maior gravidade que</p><p>ultrapasse essa atribuição, ocorrerá a reunião fora do JECrim. No entanto, as opções</p><p>de transação penal e composição de danos relativos ao delito de menor potencial</p><p>ofensivo serão mantidas.</p><p>Essa abordagem foi adotada pela Lei nº 11.313/2006 posteriormente, que</p><p>alterou o parágrafo único do artigo 60 da Lei nº 9.099/95 para estabelecer que, na</p><p>17</p><p>reunião de processos diante do juízo comum ou o Tribunal do Júri, decorrente da</p><p>aplicação das regras de conexão e continência, serão observados os institutos da</p><p>transação penal e da composição dos danos civis.</p><p>Isso significa que os institutos da transação penal e da composição dos danos</p><p>civis não são exclusivos dos JECrim, sendo obrigatório a aplicação em qualquer</p><p>processo que tramite no juízo comum ou no Tribunal do Júri, desde que respeitado o</p><p>limite de pena máxima não superior a 2 anos. O mesmo tratamento é conferido, desde</p><p>sua origem, à suspensão condicional do processo, prevista no art. 89 da Lei nº 9.099,</p><p>que pode ser apresentada tanto no JECrim quanto fora dele.</p><p>Por exemplo, se houver conexão entre um crime de ameaça e outro de</p><p>homicídio, os casos serão reunidos para julgamento pelo Tribunal do Júri. No entanto,</p><p>em relação ao crime de ameaça, fixado no art. 147, da qual a pena máxima é inferior</p><p>a 2 anos, deve-se oferecer a oportunidade de transação penal, ou, caso estivesse</p><p>ocorrido outro delito aplicável, careceria da permissão para composição dos danos. O</p><p>mesmo princípio se aplica ao JECrim federal.</p><p>4.1 Competência territorial</p><p>Conforme institui o CPP em seus art. 63:</p><p>Art. 63. A competência do Juizado será determinada pelo lugar em que foi</p><p>praticada a infração penal (BRASIL, 1941).</p><p>Tal dispositivo aborda a competência territorial do juizado, que difere do artigo</p><p>98, inciso I, da Constituição, no qual trata da competência em razão da matéria</p><p>(infrações de menor potencial ofensivo). Segundo o artigo 63 da Lei nº 9.099/95, a</p><p>competência para as infrações de menor potencial ofensivo é determinada pelo local</p><p>onde a infração penal foi praticada, de acordo com o art. 6 do Código Penal:</p><p>Art. 6. Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou</p><p>omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria</p><p>produzir-se o resultado (BRASIL, 1940).</p><p>Em concordância com o disposto no artigo supracitado, na regulamentação do</p><p>‘lugar do crime’, a teoria aplicada é a da ‘ubiquidade’. Portanto, representa uma</p><p>exceção à regra comumente utilizada nos crimes, a qual a competência territorial é</p><p>18</p><p>fixada pelo local da consumação, conforme o art. 70 do CPP (REIS, GONÇALVES,</p><p>2022).</p><p>A competência territorial do juizado é relativa e sendo submetida às normas de</p><p>prorrogação de competência do CPP. Portanto, se houver conexão ou continência</p><p>entre uma infração de menor potencial ofensivo e</p><p>outra mais grave, a competência da</p><p>Justiça Comum prevalecerá, até mesmo em relação ao procedimento processual. Isso</p><p>é expressamente estipulado pelo art. 60, parágrafo único, da Lei nº 9.099/95, com a</p><p>redação dada pela Lei nº 11.313/2006:</p><p>Art. 60, Parágrafo único. Na reunião de processos, perante o juízo comum ou</p><p>o tribunal do júri, decorrentes da aplicação das regras de conexão e</p><p>continência, observar-se-ão os institutos da transação penal e da composição</p><p>dos danos civis (Redação dada pela Lei nº11.313, 2006).</p><p>É importante ressaltar que esse dispositivo pode transmitir falsa impressão de</p><p>que mesmo quando alguém comete uma infração de menor potencial ofensivo em</p><p>conjunto com um crime comum, ele teria direito à transação penal. No entanto, o</p><p>Superior Tribunal de Justiça já consolidou entendimento de que o acusado não tem</p><p>direito a tal benefício quando comete duas infrações penais de menor potencial</p><p>ofensivo, da qual a soma ou exasperação decorrente do concurso formal ou</p><p>continuidade delitiva, resulta em uma pena máxima que ultrapasse 2 anos.</p><p>Nesse sentido, é importante salientar que o art. 60, parágrafo único, da Lei n.</p><p>9.099/95 não estava originalmente presente em sua redação inicial, sendo incluído</p><p>posteriormente pela Lei n. 11.313/2006. A intenção do legislador ao fazer essa</p><p>inclusão certamente foi reconciliar a divergência que existia na jurisprudência e</p><p>doutrina. Parte delas defendia que em casos de conexão entre crime comum e de</p><p>menor potencial ofensivo, careceria da cisão de processos. Com a inserção desse</p><p>dispositivo, ficou estabelecido que ambos os delitos devam ser julgados em juízo</p><p>comum (ou no júri, se este fosse o caso).</p><p>Entretanto, se ambos os crimes fossem cometidos pelo mesmo indivíduo, é</p><p>evidente que este não terá direito à transação penal. A parte final do dispositivo que</p><p>menciona ‘a observância das regras relacionadas à transação penal e composição</p><p>civil no juízo comum’, em nossa interpretação, se aplica às situações de crimes</p><p>conexos cometidos por pessoas distintas. Por exemplo, suponha que um indivíduo</p><p>tenha cometido roubo em conexão com um delito de desacato praticado por outro</p><p>19</p><p>indivíduo. Ambos os crimes devem ser investigados no juízo comum, onde será</p><p>analisada a possibilidade de transação unicamente em relação ao acusado pelo crime</p><p>de desacato, nos casos de menor potencial ofensivo (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Fonte: Adaptado de Reis e Gonçalves (2022).</p><p>20</p><p>5. PROCEDIMENTOS ESPECIAIS</p><p>No Código de Processo Penal, são estabelecidos 4 ritos especiais para a</p><p>investigação e julgamento de crimes, sendo eles: os crimes dolosos contra a vida (arts.</p><p>406 a 497), os crimes funcionais (arts. 513 a 518), os crimes contra a honra (arts. 519</p><p>a 523) e os crimes contra a propriedade imaterial (arts. 524 a 530). Além desses, há</p><p>diversos outros procedimentos diferenciados estabelecidos em leis especiais, dos</p><p>quais destacamos os mais relevantes: para a apuração dos crimes de tráfico de</p><p>drogas (Lei n. 11.343/2006), dos crimes contra a pessoa idosa (Lei n. 10.741/2003) e</p><p>dos crimes que envolvem violência doméstica ou familiar contra a mulher (Lei n.</p><p>11.340/2006) (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>5.1 Dos processos de competência originária</p><p>Em concordância com Pacelli (2021), na atualidade, a regulamentação do</p><p>procedimento nos crimes de competência originária dos Tribunais Superiores (STF e</p><p>STJ), assim como dos Tribunais de Justiça e dos Tribunais Regionais Federais, é</p><p>estabelecida pela Lei nº 8.038, de 28 de maio de 1990, complementada pela Lei nº</p><p>8.658, de 26 de maio de 1993. Além disso, as normas dos respectivos Regimentos</p><p>Internos também devem ser observadas, desde que não entrem em conflito com a</p><p>legislação mencionada. Como competência originária, entende-se o julgamento dos</p><p>crimes nos quais os acusados possuam privilégio de foro, em razão da prerrogativa</p><p>de função resguardada constitucionalmente.</p><p>Conforme estabelecido no art. 2º da Lei nº 8.038/90, os tribunais também têm</p><p>competência para regulamentar certas questões relacionadas ao julgamento de ações</p><p>penais de sua competência originária. Portanto, é possível, por exemplo, que o</p><p>julgamento de prefeitos nos Tribunais de Justiça seja atribuído pelo próprio Regimento</p><p>Interno, a alguns de seus órgãos colegiados, não sendo necessário o processo e</p><p>julgamento pelo plenário do tribunal, conforme reconhecido pelo E. Supremo Tribunal</p><p>Federal (STF, JSTF – 233/288; RT nº 750/523).</p><p>21</p><p>No entanto, a Suprema Corte recentemente alterou seu Regimento Interno por</p><p>intermédio da Emenda Regimental 57/2020, restaurando a competência do Plenário</p><p>para julgar as ações penais originárias contrariando as autoridades com foro privativo</p><p>no STF, abrangendo Senadores e Deputados.</p><p>O recurso de embargos infringentes previsto no art. 333 do RISTF é aplicável</p><p>àquela Corte, bem como nos casos de julgamento pelo Plenário, se houver o mínimo</p><p>de 4 votos vencidos. Não repetiremos as críticas que serão feitas a dispositivo</p><p>semelhante.</p><p>A fase investigatória, especialmente o inquérito policial, deve transcorrer</p><p>perante o próprio órgão da jurisdição competente para o posterior processo e</p><p>julgamento da ação penal. Na hipótese de um inquérito policial, cuja tramitação ocorre</p><p>obrigatoriamente perante o Judiciário por força de lei, as solicitações de adiamento do</p><p>prazo de conclusão do procedimento e todas as providências cautelares necessárias</p><p>para o andamento adequado das investigações devem ser iniciados pelo tribunal</p><p>competente, especificamente pelo Relator a quem o inquérito for distribuído (conforme</p><p>o art. 2º da Lei nº 8.038/90). Isso inclui solicitações de mandados de busca e</p><p>apreensão, a imposição de medidas cautelares pessoais conforme os arts. 319 e 320</p><p>do CPP, a decretação de prisão preventiva quando cabível, o relaxamento de prisão,</p><p>a aplicação da liberdade provisória, entre outros (PACELLI, 2021).</p><p>É importante esclarecer que, nesse contexto, embora o Tribunal esteja atuando</p><p>na supervisão e no controle de legalidade da investigação, não é necessário obter</p><p>autorização judicial para a instauração do inquérito policial. A supervisão, reitera-se,</p><p>não implica na titularidade sobre a pertinência ou adequação da investigação, mas</p><p>apenas no controle de sua legalidade.</p><p>Na apreciação da questão de ordem na PET 3825 – Inq. 2963, o Supremo</p><p>Tribunal Federal determinou que, em casos de foro restrito a prerrogativa de função,</p><p>somente o Ministério Público poderia decidir pela instauração da investigação, por</p><p>meio de requisição, sendo vedada à autoridade policial a atuação de ofício.</p><p>Consequentemente, foi decidido também que não seria possível o indiciamento do</p><p>investigado nesse contexto.</p><p>22</p><p>A inafiançabilidade não implica na proibição da restituição da liberdade; o juiz</p><p>deverá concedê-la se ausentes as razões da prisão preventiva, devendo impor</p><p>algumas das medidas cautelares pessoais diversas da prisão, conforme estabelecido</p><p>no artigo 310, inciso II, em conjunto com os arts. 319 e 320 do Código de Processo</p><p>Penal. É importante observar que essa imposição de cautelares não se aplica ao</p><p>Presidente da República, em razão de não ser cabível a prisão preventiva para essa</p><p>autoridade, conforme previsto no art. 86, § 3º, da Constituição Federal.</p><p>O rito procedimental da ação penal originária tem início com o despacho dos</p><p>autos da investigação ao Ministério Público, no qual o prazo é de 15 dias para oferecer</p><p>a denúncia ou para requerer o arquivamento do inquérito, assim como das peças</p><p>informativas, de acordo com o previsto no art. 1º. Nos casos de réu preso, o prazo</p><p>será de 5 dias, seguindo o procedimento comum previsto no CPP.</p><p>O Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal conta com a possibilidade</p><p>de arquivamento de ofício do inquérito, sem a requisição do Ministério Público,</p><p>expresso no artigo 231, § 4º.</p><p>A medida, como se observa, ultrapassa os</p><p>limites da lei, de acordo com a regra</p><p>estabelecida no artigo 3º, inciso I, da Lei nº 8.038/90. Todavia, dado que qualquer</p><p>Tribunal tem a prerrogativa de conceder habeas corpus de ofício em casos de</p><p>manifesta ilegalidade, como atipicidade manifesta ou extinção da punibilidade, seria</p><p>ineficaz contestar a ilegalidade dessa providência (PACELLI, 2021).</p><p>A instrução, administrada pelo juiz relator designado conforme as disposições</p><p>do Regimento Interno, tem início com a apresentação da denúncia ou queixa ao</p><p>tribunal. Antes de receber a denúncia, o Tribunal deve notificar o acusado para que</p><p>este apresente sua resposta ou contestação dentro do prazo de 15 dias. Se houver</p><p>mais de um acusado, o Plenário do Supremo Tribunal Federal fixou que esse prazo</p><p>será em dobro (Questão de Ordem no INQ nº 3.983), seguindo uma aplicação</p><p>analógica do artigo 191 do Código de Processo Civil, a menos que o processo seja</p><p>eletrônico, caso em que não há prazo em dobro (INQ nº 3.980 QO/DF, Relator Ministro</p><p>Teori Zavascki, 7.6.2016).</p><p>É importante observar que a Lei nº 8.038/90 estabelece duas tipos de resposta.</p><p>A primeira ocorre antes do recebimento da peça acusatória, enquanto a segunda</p><p>23</p><p>acontece após a citação do acusado para apresentar a defesa prévia, quando a</p><p>denúncia ou queixa já foi recebida (artigos 7º e 8º).</p><p>É interessante notar que essa legislação ainda mantém a antiga regra do</p><p>Código de Processo Penal, que foi revogada pelos novos ritos da Lei nº 11.719/08.</p><p>Essa regra previa a citação para o interrogatório, seguida da apresentação de defesa</p><p>prévia, onde seriam arroladas as diligências probatórias que a defesa considerasse</p><p>cabíveis.</p><p>O problema principal não é apenas esse, mas também o fato de que ainda se</p><p>prevê o interrogatório como o primeiro ato de instrução, algo que já foi abolido no CPP</p><p>para os procedimentos ali previstos, comum sumário e comum ordinário.</p><p>Recentemente, o Supremo Tribunal Federal estabeleceu que o interrogatório deve</p><p>ocorrer ao final da instrução, em respeito ao contraditório e à ampla defesa, mesmo</p><p>nos ritos da Lei nº 8.038/90 e do processo penal militar, apesar de haver regras</p><p>expressas em sentido contrário em ambos os procedimentos (HC nº 127.900/AM,</p><p>Relator Ministro Dias Toffoli, 3.3.2016).</p><p>Quando se referir a rejeição da denúncia, identificamos que o juízo sobre a</p><p>matéria é simplesmente de viabilidade da ação, deixando o exame de qualquer</p><p>questão de mérito, incluindo a atipicidade, para a resolução de improcedência. Isso</p><p>alinharia a Lei nº 8.038/90 às mudanças procedimentais trazidas pela Lei nº</p><p>11.719/08, especialmente na parte que prevê a absolvição sumária para o reconhecer</p><p>imediatamente a atipicidade, de causas excludentes da ilicitude e da culpabilidade,</p><p>assim como de causas extintivas da punibilidade (art. 397, CPP) (PACELLI, 2021).</p><p>É importante observar que nosso CPP não se refere mais à improcedência da</p><p>ação. Quando era aplicado, limitava-se ao procedimento do Tribunal do Júri, por</p><p>ocasião da decisão de impronúncia, de acordo com o disposto na antiga e revogada</p><p>redação do art. 409, CPP.</p><p>Aqui, na Lei nº 8.038/90, onde a improcedência da acusação deve ser decidida</p><p>antes da realização da fase instrutória, à semelhança da absolvição sumária do art.</p><p>397 do processo comum na primeira instância, julgamos que se deva observar, por</p><p>analogia, o conteúdo da matéria abordada no mencionado art. 397, CPP, para</p><p>distinguir entre a improcedência e a absolvição final.</p><p>24</p><p>De fato, embora a Lei nº 11.719/08 faça referência apenas aos procedimentos</p><p>de primeira instância (art. 394, § 4º, CPP), não impossibilita que os Tribunais utilizem,</p><p>por analogia, alguma das modalidades de decisões ali contidas (interrogatório,</p><p>absolvição sumária etc.), corretamente aplicáveis ao modelo procedimental adotado</p><p>em segunda instância. Vale ressaltar que, tecnicamente, não se trataria de analogia,</p><p>uma vez que não há lacuna na Lei nº 8.038/90 sobre o assunto. O termo mais</p><p>apropriado seria ab-rogação (revogação parcial).</p><p>Diante da situação atual, é importante notar que, se por exemplo, a decisão de</p><p>improcedência se basear na falta de provas, e não na atipicidade ou em qualquer</p><p>causa extintiva da punibilidade, não parece viável sustentar o encerramento definitivo</p><p>da questão, como se fosse uma questão de coisa julgada material. Quando a</p><p>acusação tentar provar a autoria do fato por meio de prova testemunhal, a decisão do</p><p>tribunal que julgar improcedente a acusação não poderá ser admitida, ou, se for, não</p><p>terá a eficácia preclusiva da coisa julgada material, pois não se tratará de uma</p><p>sentença absolutória, nem mesmo por analogia.</p><p>Independentemente da decisão tomada, no entanto, exceto o recebimento da</p><p>peça acusatória, contra o qual apenas o habeas corpus pode ser impetrado, o único</p><p>recurso possível, em tese, seria o recurso especial e/ou o recurso extraordinário. Isso</p><p>ocorre porque, em uma ação penal de competência originária, não há duplo grau de</p><p>jurisdição. Portanto, o controle dos atos judiciais realizados nesse contexto não pode</p><p>ser feito pela via ordinária. Assim, apenas o manejo dos recursos extraordinários, ou</p><p>seja, o recurso especial e o recurso extraordinário, serão possíveis quando cabível.</p><p>Após o depoimento de todas as testemunhas, as partes terão a oportunidade</p><p>de solicitar diligências adicionais, se desejarem, dentro de um prazo de 5 dias.</p><p>Concluída essa etapa, as partes terão um prazo de 15 dias para apresentar suas</p><p>alegações finais por escrito. Após esse período e caso não seja determinada, de</p><p>ofício, a efetuação de novas diligências, será agendada uma data para o julgamento</p><p>do processo, conforme estipulado pelo art.11. Na data designada, e após as</p><p>manifestações orais das partes, com duração de 1 hora, o processo será julgado,</p><p>conforme previsto no art.12 (PACELLI, 2021).</p><p>25</p><p>5.2 Dos crimes funcionais</p><p>Ainda conforme Reis e Gonçalves (2021), os crimes funcionais referem-se aos</p><p>delitos descritos nos artigos 312 a 326 do Código Penal, isto é, aqueles cometidos por</p><p>funcionários públicos contra a Administração em Geral. O Código de Processo Penal,</p><p>nos artigos 513 a 518, estabelecem rito especial para a investigação desses crimes,</p><p>erroneamente denominados "crimes de responsabilidade" de funcionário público. Tal</p><p>designação é incorreta, pois refere-se a infrações de natureza político-administrativa,</p><p>que resultam em sanções como perda do cargo ou suspensão dos direitos políticos,</p><p>e não a ilícitos penais.</p><p>O procedimento em questão não se aplica a outros delitos cometidos por</p><p>funcionários públicos no exercício de suas funções, mesmo que a condição de</p><p>funcionário público atue como uma qualificadora. Por exemplo, os crimes descritos</p><p>nos artigos 322 e 351, §§ 3º e 4º, do Código Penal. Conforme afirmado pelo Supremo</p><p>Tribunal Federal, em uma decisão relatada pelo Ministro Rafael Mayer, "a resposta</p><p>escrita à denúncia, requerida pelo artigo 514 do Código de Processo Penal, é aplicável</p><p>apenas aos crimes funcionais nos quais a condição de funcionário é inerente à prática</p><p>do delito." Em outras palavras, o procedimento especial se aplica apenas aos delitos</p><p>nos quais a qualidade de funcionário público é um elemento essencial (REIS,</p><p>GONÇALVES, 2022).</p><p>Uma distinção importante desse rito especial para os crimes funcionais é a</p><p>presença de uma fase de defesa preliminar antes do recebimento da denúncia (art.</p><p>514 do CPP), que não está presente no procedimento ordinário.</p><p>É relevante observar que uma parcela significativa das denúncias por crimes</p><p>funcionais é baseada em inquéritos policiais, enquanto outra parte é derivada de</p><p>cópias de sindicâncias ou processos administrativos enviados ao Ministério Público</p><p>por órgãos administrativos, como comissões processantes, corregedorias, comissões</p><p>parlamentares entre outros. O Superior Tribunal de Justiça aprovou a Súmula n. 330,</p><p>que estabelece que "é desnecessária a resposta</p><p>preliminar prevista no art. 514 do</p><p>Código de Processo Penal na ação penal instruída por inquérito policial". Conforme o</p><p>entendimento do tribunal, durante o curso do inquérito, o funcionário público já teve</p><p>26</p><p>conhecimento da investigação sobre o crime funcional e teve a oportunidade de</p><p>apresentar sua versão dos fatos. Nos procedimentos administrativos, a investigação</p><p>está relacionada a infrações equitativamente administrativas.</p><p>Portanto, se cópias de processos administrativos são encaminhadas ao</p><p>Ministério Público porque a autoridade responsável pela investigação também</p><p>identificou um crime funcional, o acusado tem o direito de apresentar uma defesa</p><p>preliminar antes do recebimento da denúncia para expor seus argumentos. Em</p><p>resumo, atualmente, caso o crime funcional for objeto de investigação em um inquérito</p><p>policial, será adotado o procedimento comum. O rito diferenciado, com a fase de</p><p>defesa preliminar, aplica-se apenas aos crimes funcionais não investigados em</p><p>inquérito policial.</p><p>Nos crimes funcionais praticados por quem tem foro por prerrogativa de função,</p><p>o procedimento especial em questão, assim como o rito ordinário não se aplicam aos</p><p>funcionários públicos que possuem foro especial, como juízes, promotores de justiça,</p><p>prefeitos, deputados, governadores, senadores, presidente da república, entre outros.</p><p>Para esses casos, o procedimento especial será regulado pelos artigos 1 ao 12 da Lei</p><p>n. 8.038/90 (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>5.3 Dos crimes contra a honra</p><p>Em concordância com Lopes (2020), embora o Capítulo III do Título II do</p><p>Código de Processo Penal mencione "Do processo e do julgamento dos crimes de</p><p>calúnia e injúria, de competência do juiz singular", é amplamente reconhecido que o</p><p>delito de difamação segue o mesmo rito especial. Essa situação decorre de um erro</p><p>legislativo histórico que remonta à inexistência, no Código Penal de 1890, do crime de</p><p>difamação, no qual era considerado uma forma de injúria. Esse equívoco surgiu do</p><p>fato de o legislador processual ter operado com base no Código Penal de 1890, sem</p><p>considerar o projeto do Código Penal de 1940, que separava os crimes contra a honra</p><p>em calúnia, injúria e difamação.</p><p>Outra questão superada é a referência à "competência do juiz singular", pois</p><p>quando o Código de Processo Penal foi elaborado, estava em vigor o Decreto n.º</p><p>27</p><p>2.776/34, que constava o júri de imprensa para o julgamento dos crimes contra a honra</p><p>cometidos pela imprensa. Atualmente, esse órgão julgador não existe mais. Além</p><p>disso, é importante observar os seguintes aspectos:</p><p>• Caso o crime contra a honra seja cometido por meio da imprensa, é</p><p>importante ressaltar que a Lei n.º 5.250/67 foi declarada inconstitucional</p><p>pelo STF durante o julgamento da Arguição de Descumprimento de</p><p>Preceito Fundamental 130-7 DF. Consequentemente, via de regra, será</p><p>submetido ao mesmo procedimento de qualquer outro crime contra a</p><p>honra, com a competência do Juizado Especial Criminal (JECrim), a</p><p>menos que ultrapasse o limite de pena estabelecido.</p><p>• Normalmente, a competência para processar e julgar os crimes contra a</p><p>honra é atribuída ao Juizado Especial Criminal, uma vez que a pena</p><p>máxima prevista, no caso de calúnia, não ultrapassa 2 anos, seguindo o</p><p>rito lá estabelecido. Entretanto, caso haja concurso material entre</p><p>calúnia e difamação e/ou injúria, a competência do Juizado Especial</p><p>Criminal será excedida, exigindo que o processo siga o rito estabelecido</p><p>nos artigos 519 e seguintes do Código de Processo Penal.</p><p>• Quando o crime contra a honra envolver o Presidente da República ou</p><p>Chefe de Governo estrangeiro como ofendido, a ação penal somente</p><p>poderá ser instaurada mediante requisição do Ministro da Justiça,</p><p>estando isenta do prazo de 6 meses estabelecido para a representação</p><p>(LOPES, 2020).</p><p>• Se o crime for dirigido à honra de servidor público em razão do exercício</p><p>de suas funções (propter officium), aplica-se a Súmula 714 do STF, que</p><p>estabelece a legitimidade concorrente para a propositura da ação,</p><p>podendo ocorrer por meio de queixa do ofendido ou denúncia do</p><p>Ministério Público. No entanto, é importante destacar que, nesse caso,</p><p>a ação está condicionada à representação.</p><p>• O procedimento permite uma prévia fase de reconciliação, conforme</p><p>estabelecido no artigo 520 do CPP. No entanto, essa reconciliação deve</p><p>ocorrer na presença dos advogados das partes, o que requer uma</p><p>28</p><p>redefinição teórica à luz do artigo 133 da Constituição Federal. Essa</p><p>reconciliação implica a extinção da punibilidade por meio da renúncia.</p><p>Embora essa reconciliação se situe entre a renúncia e o perdão, é</p><p>importante notar que, como não está prevista no artigo 107 do Código</p><p>Penal, para que resulte na extinção da punibilidade, deve adotar uma</p><p>das duas formas mencionadas.</p><p>• Caso o querelante, devidamente intimado, não compareça sem</p><p>justificativa à audiência de reconciliação, ocorrerá a perempção,</p><p>conforme estipulado no artigo 60, III, do CPP. No entanto, essa</p><p>perempção não será aplicada se seu advogado estiver presente, munido</p><p>de procuração que contenha poderes especiais para renunciar ao direito</p><p>de queixa. Nesse caso, o querelante não poderá ser punido com a</p><p>perempção.</p><p>• Se o querelado não comparecer à audiência de reconciliação, essa</p><p>ausência será considerada irrelevante, pois apenas demonstra sua</p><p>intenção de não buscar a reconciliação, não sendo aplicável o disposto</p><p>no artigo 367 do CPP.</p><p>• Quando o crime contra a honra for de conceituado como de ação penal</p><p>iniciativa pública, não ocorrerá a fase prévia de reconciliação, pois a</p><p>ação penal é indisponível nesse caso. Além disso, a ‘retratação’ da</p><p>representação não é possível quando o crime é praticado contra a honra</p><p>de servidor público, uma vez que a denúncia já foi oferecida (conforme</p><p>o artigo 25 do CPP) (LOPES, 2020).</p><p>• O artigo 144 do Código Penal estabelece o pedido de explicações, o qual</p><p>é opcional e deve ser realizado sempre antes do início do processo</p><p>penal, visando esclarecer o teor das alusões ou declarações.</p><p>• Quando, após as explicações, a queixa for apresentada, será de</p><p>responsabilidade do juiz avaliar as justificativas apresentadas pelo então</p><p>querelado na sentença.</p><p>• A exceção da verdade pode ser alegada nos crimes de calúnia</p><p>(conforme o art. 138, § 3º, do CP) e de difamação (sendo admissível</p><p>29</p><p>exceptio veritatis, somente quando o ofendido é um servidor público e a</p><p>ofensa se relaciona ao exercício de suas funções - conforme o art. 139,</p><p>parágrafo único, do CP). Deve ser apresentada no prazo da resposta</p><p>escrita à acusação, preferencialmente em peça separada. O querelante</p><p>tem o direito de ‘contestar’ a exceção dentro de 2 dias, podendo chamar</p><p>testemunhas, até o máximo permitido por lei, ou substituir as arroladas</p><p>na queixa.</p><p>• A exceção da verdade não é tramitada em autos separados. Uma vez</p><p>oposta e admitida, é autuada no próprio processo e a prova é coletada</p><p>em conjunto. O juiz decidirá no final sobre o mérito da ação penal</p><p>descrita na queixa, bem como sobre a exceção da verdade.</p><p>• No crime de difamação, a exceção da verdade pode ser baseada na</p><p>‘notoriedade do fato imputado’, sendo responsabilidade do querelado</p><p>apresentar essa prova (LOPES, 2020).</p><p>• Quando o crime for contra a honra de pessoa que possui prerrogativa de</p><p>função e for oferecida a exceção da verdade, esta deve ser</p><p>encaminhada ao tribunal competente para o julgamento do reclamante</p><p>(vítima). No entanto, existem muitas dúvidas sobre o processamento da</p><p>exceção da verdade no tribunal, dada a lacuna legislativa. Acreditamos</p><p>que o melhor procedimento seja apresentar a exceção juntamente com</p><p>a resposta à acusação em primeiro grau.</p><p>Seguindo o disposto no art. 523 do CPP, o juiz deve abrir espaço para</p><p>manifestação do reclamante, ou seja, para a contestação, conforme a</p><p>lei, no prazo de 2 dias, com a opção de arrolar testemunhas. Após</p><p>realizados</p><p>os requisitos legais de admissibilidade, o cabimento legal da</p><p>exceção da verdade e tempestividade, o juiz de primeiro grau deve</p><p>processar a exceção em autos separados e enviá-los para o tribunal</p><p>capacitado para o julgamento (em razão da prerrogativa de função do</p><p>reclamante).</p><p>É importante ressaltar que a prova da exceção da verdade, inclusive a</p><p>testemunhal, deve ser produzida no tribunal, não no órgão de primeiro</p><p>30</p><p>grau. Cabe ao tribunal o processamento e julgamento da exceção da</p><p>verdade, incluindo a recolhimento de prova, inclusive por imposição do</p><p>princípio da identidade física do juiz, sendo este o órgão que assiste à</p><p>coleta da prova deve julgar, assim, cabe ao tribunal providenciar a coleta</p><p>da prova e posteriormente julgar a exceção.</p><p>• Caso a audiência de reconciliação não produza resultado e a queixa ou</p><p>denúncia seja recebida, o procedimento seguirá o rito ordinário (LOPES,</p><p>2020).</p><p>Analisemos agora a morfologia desse procedimento especial:</p><p>1____________2_____________3__________4___________5____________6</p><p>Denúncia Audiência Juiz recebe Resposta à Juiz pode Audiência de</p><p>Ou queixa Reconciliação ou rejeita acusação absolver Instrução e</p><p>liminarmente sumariamente Julgamento</p><p>Fonte: Adaptado de Lopes (2020).</p><p>A peculiaridade reside na audiência de reconciliação, cujo sucesso pode</p><p>encerrar o processo. Se não for bem-sucedida, o rito ordinário deve ser seguido</p><p>integralmente, incluindo as opções de rejeição liminar (art. 395), resposta escrita à</p><p>acusação (art. 396), absolvição sumária (art. 397) e a realização da audiência de</p><p>instrução e julgamento (LOPES, 2020).</p><p>Em outra perspectiva, Reis e Gonçalves (2022) argumentam que, o Código de</p><p>Processo Penal estabelece diretrizes específicas para a investigação dos delitos de</p><p>calúnia, injúria e difamação, tipificados nos artigos 138, 139 e 140 do Código Penal.</p><p>No entanto, para os crimes contra a honra previstos no Código Penal Militar e no</p><p>Código Eleitoral, são aplicadas normas próprias contidas nas legislações pertinentes.</p><p>O artigo 145 do Código Penal delineia as modalidades de ação penal para</p><p>investigar os crimes contra a honra. É essencial examinar esse dispositivo, pois o</p><p>procedimento varia de acordo com o tipo de ação penal prevista, sendo ela pública ou</p><p>privada.</p><p>Art. 145. Nos crimes previstos nesse Capítulo somente se procede mediante</p><p>queixa, salvo quando, no caso do art. 140, § 2º, da violência resulta lesão</p><p>corporal.</p><p>31</p><p>Parágrafo único. Procede-se mediante requisição do Ministro da Justiça, no</p><p>caso do n. I do art. 141, e mediante representação do ofendido, no caso do</p><p>inciso II do mesmo artigo, bem como no § 3º do art. 140 deste Código</p><p>(BRASIL, 1940).</p><p>Ao examinar o dispositivo, percebe-se uma regra seguida por inúmeras</p><p>exceções. A regra estabelece que a ação penal é privada e deve ser iniciada por meio</p><p>de queixa-crime nos casos de calúnia, injúria e difamação. A queixa deve ser</p><p>apresentada dentro do prazo decadencial de 6 meses, a partir da descoberta pelo</p><p>ofendido da autoria do delito. Além disso, a procuração concedida para a propositura</p><p>da ação penal deve explicitar claramente o nome do reclamado, bem como fazer</p><p>menção específica do fato criminoso, conforme previsto no artigo 44 do CPP.</p><p>Analisemos agora as exceções:</p><p>a) Caso a ofensa seja dirigida ao Presidente da República ou a chefe de</p><p>governo estrangeiro, a ação será pública, mas condicionada à requisição do</p><p>Ministro da Justiça, conforme previsto no parágrafo único do artigo 145 do</p><p>Código Penal.</p><p>b) Nas circunstâncias em que a ofensa for dirigida a um funcionário público no</p><p>exercício de suas funções, ou aos Presidentes do Supremo Tribunal Federal,</p><p>do Senado Federal ou da Câmara dos Deputados, a ação será pública, porém</p><p>condicionada à representação.</p><p>Analisa-se, no entanto, que o Supremo Tribunal Federal entende que, no caso</p><p>de um funcionário público ser ofendido em decorrência de suas funções, o indivíduo</p><p>agredido também terá a opção de utilizar a regra estabelecida no Código Penal para</p><p>os crimes contra a honra, e assim apresentar uma queixa-crime, em ação privada</p><p>(REIS, GONÇALVES, 2022). Em virtude disso, o STF aprovou a Súmula nº 714, que</p><p>estabelece que:</p><p>Súmula nº 714. É concorrente a legitimidade do ofendido, mediante queixa, e</p><p>do Ministério Público, condicionada à representação do ofendido, para a ação</p><p>penal por crime contra a honra de servidor público em razão do exercício de</p><p>suas funções (BRASIL, 2003).</p><p>A fundamentação dessa súmula é que o Código Penal estipulou a ação pública</p><p>condicionada somente para que o servidor não precisasse arcar com as despesas</p><p>advocatícias para promovê-la (dado que foi ofendido em razão de suas funções); no</p><p>entanto, ele tem o direito de renunciar a essa prerrogativa e optar pela ação privada.</p><p>32</p><p>Cabe ressaltar que uma escolha exclui a outra. Se o funcionário decidir</p><p>apresentar uma representação ao Ministério Público, mas o representante desta</p><p>instituição optar pelo arquivamento do inquérito, o servidor não poderá mais iniciar</p><p>uma queixa-crime. Por outro lado, se o funcionário optar pela ação penal privada,</p><p>serão aplicáveis os dispositivos como a perempção em caso de negligência, que não</p><p>se aplicam quando a ação é pública.</p><p>c) No caso de crime de injúria racial ou preconceituosa, a ação penal é pública</p><p>condicionada à representação. Antes da promulgação da Lei n.º 12.033/2009,</p><p>que alterou a redação do art. 145, parágrafo único, do Código Penal, a ação</p><p>era privada.</p><p>d) No crime de injúria real que resulta em lesão corporal como consequência</p><p>da violência empregada, a ação é pública incondicionada. A finalidade da lei é</p><p>estabelecer a mesma espécie de ação penal para os dois delitos: injúria real e</p><p>lesões corporais. Portanto, após a vigência da Lei n.º 9.099/95, exigindo</p><p>representação em caso de lesão leve, é necessário fazer a seguinte</p><p>diferenciação: caso a injúria real provoque lesão leve, os dois delitos</p><p>dependeram de representação do ofendido; caso cause lesão grave ou</p><p>gravíssima, a ação penal passará a ser incondicionada.</p><p>Conforme o disposto no art. 520 do Código de Processo Penal, o juiz, antes de</p><p>receber a queixa, concederá às partes a oportunidade de reconciliação. Para tanto,</p><p>designará uma audiência e as ouvirá separadamente, destituídos da presença de seus</p><p>advogados e sem que seja lavrado termo (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Após ouvir as partes, se o juiz considerar possível a reconciliação, promoverá</p><p>o entendimento entre elas na sua presença, conforme expresso no art. 521 do CPP.</p><p>Se a reconciliação ocorrer, o reclamante assinará um termo de desistência da ação</p><p>penal, momento em que a queixa será arquivada, de acordo com a previsão do art.</p><p>522 do CPP.</p><p>A ausência de designação da presente audiência constitui motivo de nulidade</p><p>absoluta da ação penal. No entanto, a realização da audiência não é necessária</p><p>quando o crime contra a honra em apuração é de ação pública. Isso ocorre porque as</p><p>33</p><p>disposições dos arts. 520 e 522 do CPP se referem apenas à queixa, além do fato de</p><p>que o Ministério Público não pode conciliar-se com o reclamado em nome do ofendido.</p><p>No que se refere à perempção, de acordo com o artigo 60, III, do CPP, a</p><p>ausência do reclamante nesta audiência não resulta na mencionada causa extintiva</p><p>da punibilidade, conforme a interpretação predominante, assim como nos tribunais</p><p>superiores. Isso ocorre porque o referido artigo menciona a perempção quando o</p><p>reclamante não comparece a um ato do processo no qual deveria estar presente, e a</p><p>audiência de reconciliação é efetuada antes do recebimento da queixa, ou seja,</p><p>quando ainda não há um processo penal efetivo em andamento. O não</p><p>comparecimento do reclamante, portanto, deve ser interpretado como falta de</p><p>interesse em se reconciliar com o autor</p><p>do delito (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Na falta de possibilidade de reconciliação entre as partes, o juiz procederá de</p><p>acordo com as regras processuais estabelecidas pela Lei nº 9.099/95, uma vez que</p><p>os crimes contra a honra, em sua maioria, possuem pena máxima não superior a 2</p><p>anos. Apena máxima será superior a 2 anos somente nos casos de crime de calúnia</p><p>por uma das agravantes previstas no art. 141 do Código Penal, ou quando se tratar</p><p>de injúria racial, afastando a competência do Juizado Especial Criminal. Nessas</p><p>circunstâncias, curiosamente, o art. 519 do CPP determina que o rito ordinário deve</p><p>ser seguido, apesar de a pena máxima em abstrato ser inferior a 4 anos. A calúnia</p><p>agravada, pelo motivo de ser cometida com várias pessoas presentes ou por algum</p><p>meio que facilitou a propagação desse ato, tem pena máxima de 2 anos e 8 meses,</p><p>nos termos dos arts. 138 e 141, III, do Código Penal, ao passo que na injúria racial</p><p>tem pena máxima de 3 anos, conforme o artigo 140, § 3º, do Código Penal.</p><p>A tipificação dos crimes de calúnia e difamação, especificamente contra</p><p>funcionário público em razão de suas funções, pressupõe que a imputação seja falsa.</p><p>Por isso, os arts. 138, § 3º, e 139, parágrafo único, do Código Penal, permitem que o</p><p>reclamado (a pessoa apontada como autora da ofensa) prove, na mesma relação</p><p>processual, que a imputação feita é verdadeira. Isto é, que não cometeu calúnia ou</p><p>difamação porque simplesmente disse a verdade sobre a outra pessoa. Nesse</p><p>contexto, o instrumento processual a ser utilizado é a ‘exceção da verdade’.</p><p>34</p><p>Há uma presunção relativa de que a imputação é falsa, cabendo ao reclamante</p><p>provar apenas a ocorrência concreta da imputação por parte do reclamado, em outros</p><p>termos, é o suficiente provar que ele disse ou escreveu algo sobre o reclamante. Por</p><p>sua vez, ao reclamado cabe provar que a imputação é verdadeira, por meio da</p><p>exceção da verdade. Se for bem-sucedido, será absolvido por atipicidade de sua</p><p>conduta. Caso contrário, poderá ser condenado, a menos que haja alguma outra razão</p><p>impeditiva (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Nas circunstâncias em que o juiz julgar procedente a ‘exceção da verdade’, não</p><p>poderá condenar o reclamante nos mesmos autos. Nesse caso, o juiz deverá</p><p>providenciar cópia do feito ao Ministério Público, caso se trate de delito de ação</p><p>pública e desde que não esteja prescrito.</p><p>A ‘exceção da verdade’ deve ser apresentada no prazo da defesa preliminar,</p><p>caso seja adotado o rito da Lei nº 9.099/95. Poderá também haver o da resposta</p><p>escrita, caso seja adotado o rito ordinário, podendo ser ainda arroladas testemunhas.</p><p>Consoante com o art. 523 do CPP, o reclamante tem o direito de contestar a</p><p>exceção da verdade dentro de 2 dias, havendo a possibilidade de solicitar a oitiva de</p><p>novas testemunhas ou a substituição daquelas arroladas preliminarmente, desde que</p><p>não ultrapasse o número máximo permitido.</p><p>A ‘exceção da verdade’ é tramitada no mesmo processo da ação que investiga</p><p>o crime de calúnia ou difamação contra funcionário público, ademais o julgamento é</p><p>realizado de forma conjunta.</p><p>Quando examinamos o tema "foro por prerrogativa de função", observamos que</p><p>o art. 85 do CPP estabelece que nas situações em que seja oposta ‘exceção da</p><p>verdade’ em um crime de calúnia contra alguém com foro especial, a exceção será</p><p>julgada pelo Tribunal competente para julgar o crime imputado à autoridade. Após o</p><p>julgamento da exceção, os autos voltam ao juízo de origem para o julgamento da ação</p><p>principal.</p><p>Por exemplo, se João acusa um prefeito de desvio de dinheiro público e o</p><p>prefeito entra com uma queixa-crime alegando ter sido caluniado por João, essa ação</p><p>é processada na comarca onde João fez a acusação. No entanto, se João apresentar</p><p>uma exceção da verdade, esse incidente processual será julgado pelo Tribunal de</p><p>35</p><p>Justiça, pois o prefeito possui foro especial. Após o julgamento da exceção, os autos</p><p>voltam ao juízo de origem para o julgamento de João.</p><p>É importante notar que a decisão do Tribunal tem influência sobre o juiz da</p><p>comarca. Se o Tribunal decidir que a imputação é verdadeira, o juiz terá que absolver</p><p>João da calúnia. Nesse caso, o Tribunal não condena de imediato o prefeito, mas</p><p>envia uma cópia da ação penal para o Procurador-Geral de Justiça, que é responsável</p><p>por oferecer denúncia contra prefeitos.</p><p>Ainda, cabe ressaltar sobre o art. 523 do CPP, que contempla a ‘exceção de</p><p>notoriedade do fato’, aplicável nos casos de crimes de calúnia e difamação. Nessa</p><p>exceção, o reclamado busca demonstrar que apenas relatou informações das quais</p><p>já eram de conhecimento público, fazendo com que sua fala não afetasse a honra da</p><p>vítima, uma vez que o assunto já era amplamente conhecido anteriormente. O</p><p>procedimento da ‘exceção de notoriedade do fato’ é o mesmo adotado para a ‘exceção</p><p>da verdade’ (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>5.4 Dos crimes contra a propriedade imaterial</p><p>Crimes contra a propriedade imaterial referem-se à violação de bens</p><p>resultantes da criação intelectual, dotados de valor econômico e sujeitos a alienação</p><p>por seu titular, manifestando-se em energias ou objetos materiais, de acordo com Reis</p><p>e Gonçalves (2022).</p><p>Atualmente, o Código Penal aborda apenas um crime contra a propriedade</p><p>imaterial: a violação de direito autoral, tanto na forma simples (art. 184, caput, do CP)</p><p>quanto nas formas qualificadas (art. 184, §§ 1º a 3º). Antes de oferecer denúncia ou</p><p>queixa, é necessário observar medidas prévias estabelecidas nos arts. 524 a 530, I,</p><p>do Código de Processo Penal, onde, nos casos de crime simples, em que a pena</p><p>máxima não exceda 1 ano, o rito a ser seguido será o sumaríssimo. No JECrim, em</p><p>casos de qualificadora, seguirá o rito ordinário.</p><p>O art. 185 do Código Penal, que tratava do crime de usurpação de nome ou</p><p>pseudônimo alheio, foi explicitamente revogado pelo art. 4º da Lei n. 10.695/2003.</p><p>Outros artigos do Título III do Código Penal, que definiam crimes de concorrência</p><p>36</p><p>desleal, crimes relacionados a marcas de indústria e comércio e crimes contra o</p><p>privilégio de invenção, foram igualmente revogados. Para esses casos, aplica-se a Lei</p><p>n. 9.279/96 (Código da Propriedade Industrial).</p><p>O legislador estabeleceu ainda que, no caso do crime praticado na forma</p><p>simples (art. 184, caput, do CP), a iniciativa da ação penal é atribuída ao ofendido, ou</p><p>seja, ao titular do direito autoral, conforme o art. 186, I, do CP. Por outro lado, em</p><p>relação às formas qualificadas, a ação é pública incondicionada em casos específicos,</p><p>como previsto nos §§ 1º e 2º do art. 184, que se referem a fonograma ou obra</p><p>intelectual (conforme o art. 186, II, do CP), e condicionada à representação quando o</p><p>delito consiste em oferecer ao público, através de cabo, satélite, fibra ótica ou meios</p><p>semelhantes, obra ou produção sem autorização do titular do direito, visando lucro</p><p>(conforme o art. 184, § 3º, e o art. 186, IV, do CP).</p><p>Além disso, a ação será pública incondicionada nas hipóteses em que o crime</p><p>for cometido contra autarquia, fundação instituída pelo Poder Público, empresa</p><p>pública, sociedade de economia mista ou entidades de direito público, conforme</p><p>estabelecido no art. 186, III, do CP (REIS, GONÇALVES, 2022).</p><p>Em se tratando de providências preliminares nos crimes de ação penal de</p><p>iniciativa privada, nas infrações em que a ação é de titularidade do ofendido, como na</p><p>violação de direito autoral em sua forma simples, é necessário adotar medidas</p><p>antecedentes ao oferecimento da queixa-crime, segundo estabelecido nos arts. 524 a</p><p>530 do CPP.</p><p>Na hipótese de o crime deixar vestígios, o que é comum, a queixa só será</p><p>recebida se assistida de laudo pericial dos objetos que constituem o corpo de delito.</p><p>Portanto, a elaboração prévia desse laudo pericial é uma medida indispensável para</p><p>o ajuizamento da ação penal privada baseado em crime dessa natureza, conforme o</p><p>art. 525 do CPP. Uma decisão</p>

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